29.11.06

"Comme des soleils crachés"




Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui chantent
Les rêves qui les hantent
Au large d'Amsterdam
Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui dorment
Comme des oriflammes
Le long des berges mornes
Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui meurent
Pleins de bière et de drames
Aux premières lueurs
Mais dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui naissent
Dans la chaleur épaisse
Des langueurs océanes

Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui mangent
Sur des nappes trop blanches
Des poissons ruisselants
Ils vous montrent des dents
A croquer la fortune
A décroisser la lune
A bouffer des haubans
Et ça sent la morue
Jusque dans le cœur des frites
Que leurs grosses mains invitent
A revenir en plus
Puis se lèvent en riant
Dans un bruit de tempête
Referment leur braguette
Et sortent en rotant

Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui dansent
En se frottant la panse
Sur la panse des femmes
Et ils tournent et ils dansent
Comme des soleils crachés
Dans le son déchiré
D'un accordéon rance
Ils se tordent le cou
Pour mieux s'entendre rire
Jusqu'à ce que tout à coup
L'accordéon expire
Alors le geste grave
Alors le regard fier
Ils ramènent leur batave
Jusqu'en pleine lumière

Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui boivent
Et qui boivent et reboivent
Et qui reboivent encore
Ils boivent à la santé
Des putains d'Amsterdam
De Hambourg ou d'ailleurs
Enfin ils boivent aux dames
Qui leur donnent leur joli corps
Qui leur donnent leur vertu
Pour une pièce en or
Et quand ils ont bien bu
Se plantent le nez au ciel
Se mouchent dans les étoiles
Et ils pissent comme je pleure
Sur les femmes infidèles
Dans le port d'Amsterdam
Dans le port d'Amsterdam.


Pela primeira vez, creio, no Don Vivo.

28.11.06

Estéril

É o pior que há, uma pessoa sentir-se estéril.

22.11.06

Tristeza

"Silencioso e calmo". Isto é sinónimo de tristeza, não é?

Reid's

(O paraíso tem várias formas. Para alguns de nós ele é composto por meia-dúzia de dezenas de virgens. Não tendo muita experiência na matéria, abstenho-me de comentar. Se bem, à primeira vista, não me pareça muito atraente, a ideia de um tipo desfeito ir desfazer um monte de miúdas inteiras).

O paraíso tem várias formas, muitas. Hoje, por exemplo, ele é o bar do Hotel Reid's, no Funchal; ou melhor, uma mistura de Alexanders, Montecristo, Irish Coffee, excelente música - tudo isto no bar do Reid's. À primeira vista, penso que o bar do Hotel Reid's é, sempre, o paraíso. Mas hoje é a primeira vez que cá venho, o que equivale provavelmente a desfazer algumas dezenas de pessoas para ter acesso a algumas dezenas de virgens. Sejamos justos, objectivos e comedidos: estou no Funchal há cinco dias, mas só hoje cheguei ao Funchal.

Não há sítio nenhum da cidade de onde ela seja vista de uma forma tão sublime como do bar do Reid's. E isto é, reconheçamos, um sintoma: de nenhum outro lugar o mundo é visto como do Paraíso. E não há sítio nenhum da cidade onde seja tão bom estar: não serão estas as definições de Paraíso?

20.11.06

Até que enfim!

Aux armes, citoyens!. E não se fiquem só pelos arredondamentos: a banca portuguesa (e outras também, é verdade, mas pouco me interessam, as outras) trata os seus clientes com a delicadeza, a sensibilidade, o respeito e a honestidade de um ladrão de estrada da Idade Média.

Felizmente começam a aparecer os primeiros sinais de que as coisas vão mudar. Já era tempo. Agora só falta esta constestação ir "subindo", por capilaridade.

19.11.06

Madeira

Hoje foi dia de passeio por uma levada. O passeio é lindo (Levada dos Tornos, entre o Monte e Camacha) e permite-nos ver muito do que está errado com o modelo de desenvolvimento do presidente da RAM: a levada não tem qualquer espécie de sinalização; quando passa perto de casas transforma-se numa lixeira; não tem qualquer espécie de manutenção. Valeria decerto a pena investir um pouco na valorização deste tipo de actividades, em vez de estender a mão e vociferar quando ela vem vazia (tanto mais que, se o desenvolvimento é incontestável e salta literalmente aos olhos, há por aí muito, mas mesmo muito, dinheiro mal gasto e bolsos bem cheios).

Mas a verdade é que a ilha é encantadora, exala prosperidade, as pessoas são afáveis e, como se pode ver pelo post abaixo, come-se bem - o que não era o caso nos Açores. Aliás, a comparação com o vizinho do noroeste é permanente - mas sou obrigado a reconhecer que já lá não vou há muito tempo, e a comparação é assíncrona.

Via Dolorosa

O Café do Teatro, que ontem completou quatro anos, é o sítio no Funchal onde vão os que são, os que querem ser e (pareceu-me) os que serão. O café é muito bonito, com os seus arcos, os degraus, o chão empedrado. Merecia melhor música, mas isto é ressabio de quem não tem jazz. E melhores cocktails: o Alexander que lá bebi anteontem era péssimo.

Para jantar, o Restaurante O Arco, na Rua da Carreira nº 63-A (291 220 134). O restaurante O Arco serve, passo a citar "cozinha nacional e internacional", tem um "esmerado serviço à lista", está "aberto diariamente para almoços e jantares" e tem "ar condicionado". Por mim, acrescento que tudo isto é verdade, que o serviço não só é esmerado mas também simpático, que o local é aprazível e a cozinha boa (só lá fui uma vez, é certo).

Outro restaurante de que gostei muito, ainda no Funchal, foi o Combatentes, rua Ivens 1 e 2, Rua de S. Francisco 1, tel. 291 221 388. Cito: "Service à la carte - Pratos regionais - Internacionais". A citação é muito parcial: o cartão pormenoriza os horários de abertura consoante os meses, e especifica que está junto ao Jardim Municipal (e ao Café Teatro, acrescento eu). Não sei de onde vem o nome, mas é inegável que combatem por uma boa cozinha, a preços acessíveis mesmo a um empreendor na área dos desportos náuticos e a servem de uma forma eficiente e sorridente.

Tive ainda ocasião de ir almoçar a Câmara de Lobos, ao Peixe na Praia (Praia do Vigário, 291 099 910). A praia pode ser do Vigário, mas o restaurane não o é com certeza. Tem uma localização invejável, uma vista de chorar sobre o Cabo Girão, sabem cozer peixe ao segundo (pelo menos, reitero, da vez que lá fui). Não vi os preços porque fui convidado.

Termino com o restaurante do Clube Naval do Funchal, onde já almocei, jantei e vou jantar de novo e almoçar. É bom, muito bom, mas não tenho muitos mais pormenores. Talvez amanhã...

Futebol

Para além de tods os defeitos que lhe aponto (um jogo jogado por bárbaros incultos, dirigido por dirigentes corruptos, sem qualquer espécie de interesse - esta é subjectiva, eu sei, mas as outras não - despoletador de comportamentos inaceitáveis e invasor omnipresente e indelével da vida quotidiana), o futebol sofre de um drama suplementar: é que é um desporto onde não há golos. Andam 22 gajos a correr noventa minutos atrás de uma bola, feitos tolos, e chegam ao fim com um golo ou dois marcados; três nos dias de festa.

Li recentemente que não há bons comentadores de futebol. Pois como houvera de haver? É uma das profissões mais patéticas que conheço, tentar injectar interesse e suspensee numa sequência de momentos que não dão em nada.

Auto-citação: mais sobre futebol aqui.

Jardim Tropical

Passeio-me nestes soberbos jardins e penso em ti. És uma planta; e eu que tanto preciso de uma fitoterapia...

12.11.06

Serviço Público - Delicatessen

Há em Lisboa, mais precisamente no Chiado, uma loja chamada Mesa Francesa.

Na Mesa Francesa encontram-se (não é uma coincidência) produtos franceses: vinhos, queijos, pâtés, rilletes, foie-gras (o melhor de Portugal e um dos melhores de França, provavelmente). A Mesa Francesa também tem vinhos Portugueses - chamo a vossa atenção especialmente para os vinhos de mesa e do Porto da Casa de Sta. Eufémia, um produtor independente que produz um Porto branco de 30 e alguns anos que é de longe o melhor Porto branco que jamais me foi dado beber.

A Mesa Francesa é na Rua do Almirante Pessanha, faz entregas a domicílio, e pertence a um francês ou dois que escolheram Portugal para viver, porque não gostam de França. Só isto não seria uma condição suficiente (nem necessária) para se fazer compras na Mesa Francesa: a verdadeira razão para se frequentar A Loja, como é conhecida num círculo muito restricto de pessoas, é que os produtos são bons, muito bons, e são vendidos a preços perfeitamente razoáveis.

Um dia perfeito

Lisboa tem dias destes: a luz, o sol, o calor - tudo se conjuga para fazer de um dia um dia perfeito. Até no restaurante acertei, uma esplanadazinha pequena no Chiado. Ao meu lado um casal tenta encontrar pretextos para discutir. Todos são bons: desde as multas de estacionamento ate à mulher a dias, passando pela arrumação, a exposição que iam ver logo à tarde, tudo serve. O que não deixa de ser irónico, porque o restaurante chama-se "Amo.te Chiado", nome um bocadinho a cair para o foleiro, é verdade, mas enfim, isso não passa de um pormenor menor. Entre cada discussão olhavam-se intensamente, e depois recomeçavam. Às vezes, entre os olhares e as disputas lá consegiam trocar duas ou três frases num tom normal.

Um bocado cansado dela, ele começa uma discussão completamente idiota, agressiva, mal-educada, com o empregado. Por mim, delicio-me com a luz, com o calor, com um bacalhau com tapenade, bastante aceitável. Na mesa à frente, duas jovens. Uma dela fala com o provavelmente namorado. Está aborrecida com ele porque estão as duas à espera e ele não aparece, e ele é irresponsável, e ela está muito contente por não ser mãe dele porque se fosse estaria muito triste e por aí fora.

Na mesa ao lado o tema de discussão agora é a maneira completamente inaceitável (opinião dela, e incidentalmente minha) como ele tratou o empregado. Ela é muito bonita, mas ele tem uma cara na qual só apetece dar bofetadas, umas a seguir às outras, sem parar nem para descansar.

Na mesa à frente a rapariga recebe um telefonema do namorado: já não vem. "Estava a brincar", defende-se ela. Mas não o demove: ele não vem, apesar das insistências dela.

Acabo de comer e falo com o empregado. Felicito-o pela calma com que lidou com aquele parvalhão (entretanto já se foram embora). O dia continua perfeito, feliz.

8.11.06

Um amor verdadeiro

Ao contrário do que ambos pensámos (e se calhar desejámos), minha querida, o nosso amor foi um verdadeiro amor. Como explicar, senão, esta doce ausência de marcas?

Que resta dele? Uns mails, algumas cartas, meia dúzia de posts; e memórias, boas, amenas, doces, ligeiras como o toque de pincel de um calígrafo chinês, daquelas que nos vêm ao espírito nos dias de sol, nos dias de mar, nos dias de azul, de vento, de felicidade e com eles se desvanecem.


"True love leaves no traces"


As the mist leaves no scar
On the dark green hill
So my body leaves no scar
On you and never will
Through windows in the dark
The children come, the children go
Like arrows with no targets
Like shackles made of snow

True love leaves no traces
If you and I are one
It's lost in our embraces
Like stars against the sun

As a falling leaf may rest
A moment on the air
So your head upon my breast
So my hand upon your hair

And many nights endure
Without a moon or star
So we will endure
When one is gone and far

True love leaves no traces
If you and I are one
It's lost in our embraces
Like stars against the sun

7.11.06

Paris, nuit blanche


Fotografia de Hélène Rouault, 2006

Paris, la nuit presque


Fotografia de Hélène Rouault, 2006

5.11.06

Werther ou Don Juan?

No útimo capítulo de De l'Amour Stendhal faz uma pergunta capital: é melhor amar uma mulher como Don Juan, ou como Werther?

Stendhal é por Werther (opinão que de resto partilho, mas por razões diferentes da do autor - e sem deixar de considerar, como ele, que Werther é um mau exemplo. Suicidar-se devido a amor insatisfeito não me parece um modelo irrepreensível), mas os argumentos pró-D. Juan não deixam de ser interessantes.

"Le caractère de D. Juan requiert un plus grand nombre de ses vertus utiles et estimées dans le monde: l'admirable intrépidité, l'esprit de ressource, la vivacité, le sang-froid, l'esprit amusant, etc."; ou

"Le malheur de l'inconstance c'est l'ennui; le malheur de l'amour-passion, c'est le désespoir et la mort". (Se fôr obrigado a escolher, prefiro o aborrecimento ao desespero e à morte, mas por agora isso não interessa).

O que ressalta da leitura do capítulo é a incomensurável complementaridade de Werther e de D. Juan. É preciso imaginar D. Juan apaixonado, e amar assim.

Nunca é demais repetir

"Não avançamos para a verdade: mudamos de dogma, simplesmente".

Via A Arte da Fuga, algumas coisas importantes:

"Conclusion
In sum, the Stern Review is very selective in the studies it quotes on the impacts of climate change. The selection bias is not random, but emphasizes the most pessimistic studies. The discount rate used is lower than the official recommendations by HM Treasury. Results are occasionally misinterpreted. The report claims that a cost-benefit analysis was done, but none was carried out. The Stern Review can therefore be dismissed as alarmist and incompetent.
This is not to say that climate change is not a problem, nor that greenhouse gas emissions should not be reduced. There are sound arguments for emission reduction. However, unsound analyses like the Stern Review only provide fodder for those skeptical of climate change and climate policy."



E
"Why does all this matter? It matters because, with clever marketing and sensationalist headlines, the Stern review is about to edge its way into our collective consciousness. The suggestion that flooding will overwhelm us has already been picked up by commentators, yet going back to the background reports properly shows declining costs from flooding and fewer people at risk. The media is now quoting Mr. Stern's suggestion that climate change will wreak financial devastation that will wipe 20% off GDP, explicitly evoking memories of past financial catastrophes such as the Great Depression or World War II; yet the review clearly tells us that costs will be 0% now and just 3% in 2100."

Seria interessante saber-se quanto custará, ou terá custado, à humanidade o mau jornalismo. Dos dogmas, sabemos o custo, em mortos e em dinheiro. Mas do mau jornalismo?

4.11.06

Futuros

Tantas águas por navegar, tantas vidas por viver...

Uma situação interessante


A fotografia vem do site do Tour de France à la Voile do ano passado, mas não encontrei o autor.

1.11.06

L. Cohen, encore et toujours

"...Yes, and thanks, for the trouble you took from her eyes
I thought it was there for good so I never tried."


L. Cohen, Famous Blue Raincoat

Devastação

"Antigamente, eu tinha quatro membros flexíveis e um rijo. Hoje tenho um flexível, e quatro rijos". Li isto há pouco tempo, já não sei onde, e achei piada, sem mais.

Hoje apercebo-me que não há melhor definição des ravages du temps.

Private post

Deus do céu! Obrigado.

Diálogos possíveis, ou "As mulheres"

- As mulheres são pessoas esquisitas.
- Pois são. Mas imaginas-te a gostar de uma que o não seja?
- Que não seja mulher, ou que não seja esquisita?
- É a mesma coisa.
- Não.

"Tonight will be fine"

"Sometimes I find I get to thinking of the past.
We swore to each other then that our love would surely last.
You kept right on loving, I went on a fast,
now I am too thin and your love is too vast.

But I know from your eyes
and I know from your smile
that tonight will be fine,
will be fine, will be fine, will be fine
for a while.

I choose the rooms that I live in with care,
the windows are small and the walls almost bare,
there's only one bed and there's only one prayer;
I listen all night for your step on the stair.

But I know from your eyes
and I know from your smile
that tonight will be fine,
will be fine, will be fine, will be fine
for a while.

Oh sometimes I see her undressing for me,
she's the soft naked lady love meant her to be
and she's moving her body so brave and so free.
If I've got to remember that's a fine memory.

And I know from her eyes
and I know from her smile
that tonight will be fine,
will be fine, will be fine, will be fine
for a while."


"Tonight will be fine", L. Cohen

Vida

A vida às vezes parece-se com uma discoteca da qual não gostas da música, nem do ambiente, nem das pessoas.
- Porque estás aqui, nesse caso?
- Porra, porque não há mais nada aberto, a esta hora.

Música

A música deve ser boa ou má, e não eficaz ou ineficaz. Esta é eficaz - mas não é a minha música, não é a minha noite.