27.5.07

Ota

"Portugal está", assevera Mário Lino, "atrasado para a Ota". Duas coisas: primeiro, se Portugal está atrasado a culpa não é, por uma vez, do país: é da meia-dúzia ou, vá lá, duas dúzias de palermas que há 40 anos andam a discutir a melhor localização do NAL; segundo, não é por o país estar atrasado que se devem agora tomar decisões que o vão atrasar ainda mais para as próximas três gerações.

(Isto admitindo que há de facto um atraso: transformar um dos aeroportos militares da margem sul num terminal de low cost não é díficil, não é longo e não custa milhares de milhões - ooops ... ?)

Lisboa

"Life is passing us by", lamentava uma canção dos anos 60 ou 70, não me lembro bem, se calhar era da Joan Baez, pouco importa. Hoje pareceu-me que é Lisboa que está a passar-me a lado.

A Ginginha Manuel Lima estava fechada; a "Espinheira" (à qual só recorro em casos verdadeiramente graves) serviu-me as ginginhas em copos de plástico; a Pastelaria Suíça, onde já não entrava há duas ou três vidas, está transformada em snack bar de província, com pré-pagamento e criados mal-criados e iluminação de néon. Tudo isto rodeado de pedintes, chuva e futebol (um campeonato qualquer em que, assegurou-me, enternecido, o chauffeur de táxi, "até os clubes da 2ª e 3ª divisão podem entrar").

Chego ao Cais do Sodré e o British Bar está fechado também - é só um mau domingo, não tem nada a ver com a vida.

24.5.07

Fragmento

"... escreve-me. É uma das formas mais bonitas, e ternas, dos teus beijos".

22.5.07

Vida

A vida é uma longa insónia; um dia olhamos para trás, e perguntamo-nos «que fiz eu desta noite?»

Música moderna

Conheço mal a música moderna. Mas Swayzak (ou aqui) não é só moderno: é sobretudo muito bom.







Em louvor e glória da Casa do Largo (R. I. P.)

Hoje, dia nefasto entre tantos, lamentei uma vez mais o desaparecimento da Casa do Largo. Apetece-me dizer aqui aquilo que acabo de dizer a uma amiga querida (meço as palavras, todas e cada uma delas.):

"A Casa do Largo não era "um sítio muito simpático". Era o melhor, o mais bonito, o mais acolhedor bar do mundo. Era a única coisa que substituía - ainda que vagamente - um ventre. Era uma fonte de paz e bem estar, o sítio onde a felicidade se escondia quando queria jogar ao hard to catch; comparar a Casa do Largo a outro bar ou discoteca qualquer é como comparar cerveja a gasosa, vinho a sumo de pêra, whisky a licor de caramelo, Lauren Bacall a Nicole Kidman, Meryl Streep a Angelina Jolie (Angelina quê?), Humphrey Bogart a Brad Pitt, ou o mar.

Minha querida, muito querida amiga: o desaparecimento da Casa do Largo, o seu, como dizer? assassínio às mãos de um imperdoável bimbo, é o princípio do fim de uma civilização - ou, pelo menos, de uma época
".


21.5.07

Simplex obscurex

Há tempos consegui que Portugal fosse o país convidado de um importante salão náutico francês. A organização do dito salão disponibiliza gratuitamente um stand de 800 metros quadrados e organiza toda uma agenda mediática à volta da participação do país.

Vai para mais de quatro semanas - quatro semanas, um mês - enviei o projecto para uma assessora do Secretário de Estado que me pareceu indicado para tomar conta do assunto, juntamente com um pedido de reunião. Ainda não houve resposta, nenhuma. É-me dolorosamente obscura a razão porque são necessárias mais de quatro semanas para marcar uma reunião, ou dizer frontalmente que o assunto é uma maçada e não interessa muito.

Marcadores: Simplex, os oceanos e a sua importância na economia nacional, turismo náutico, PENT, palhaços.

Florbela Espanca

De Florbela Espanca lembro-me pouco: nunca gostei muito dos poemas e nunca me dei realmente ao trabalho de lhe conhecer a obra. Hoje lembrei-me da sua paixão, não sei se concretizada, assumida ou suposta, pelo irmão; e pensei que se a ideia de incesto me é abjecta, a de incesto fraternal é, também, totalmente ininteligível.

20.5.07

Correspondência

Num blog chamado Associação das Tágides Caducas e Adamastores Zarolhos há uma troca de correspondência absolutamente hilariante (I, II e III).

Cioran, domingo de manhã

"La seule fonction de l'amour est de nous aider à endurer les après-midis dominicales, cruelles et incommensurables, qui nous blessent pour le reste de la semaine - et de l'éternité".

(Précis de Décomposition).

"Qui n'a pas la bonne fortune d'être un monstre, dans n'importe quel domaine, y compris la sainteté, inspire mépris et envie".

"Dans mes accès d'optimisme, je me dis que ma vie a été un enfer, mon enfer, un enfer à mon goût".

(Écartèlement).

19.5.07

Coberto de razão?

"...não impede o Daniel Oliveira de estar coberto de razão".

Coberto de razão, Daniel Oliveira? Duvido. É muito mais frequente vê-lo a cobrir a razão do que a ser coberto por ela.

Pets e companhia

Talvez por não ter cão, e não ser grande adepto de animais em geral, nunca tive grande sucesso no uso dos cães (ou gatos) para fins de "encontros".

Nunca sei de que raça é o cão da senhora (enquanto que o que eu passeio é - o mais das vezes - uma espécie de tubo de ensaio da genética canina), ou porque não acho muita piada ao facto de ser propriedade de um gato, ou seja lá pelo que fôr, a verdade é, que me lembre, nunca fiz nenhum (insisto nas aspas) "encontro" por intermédio dos animais. E admiro quem os faz.

O Zimbabwe, África e as solidariedades

A famigerada solidariedade africana funcionou, uma vez mais, e o Zimbabwe foi eleito Presidente da Comissão das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável.

Para além do que isso diz sobre a relevância da ONU e respectivas comissões, há uma pergunta que me ocorre: porque raio de carga de água continuam os países africanos a recorrer à nossa solidariedade? Não podiam prescindir dela e ser solidários entre eles? Já agora: porque continuamos nós a manifestar solidariedade a quem a, visivelmente, dispensa?

Vida

Uma das grandes vantagens da vida é que nada é definitivo, nenhuma desgraça. A única coisa realmente definitiva é a morte - e essa dificilmente pode ser considerada uma desgraça.

Vin sur Vin

Hoje teve lugar, na Mesa Francesa (Mesa Francesa
Rua do Almirante Pessanha, nº 6. Tel: 213 466 189
Loja gourmet com vinhos e iguarias trazidos directamente de França
) uma confrontação de gigantes.

O meu gigante - bem, fica aqui explicado porquê:

Ce qui fait la personnalité de Haut-Marbuzet se situe sans doute en grande partie au niveau de la vinification. Les raisins sont vendangés très mûrs (parfois presque à surmaturité) puis égrappés. Les macérations sont longues. Henri Duboscq reste attaché au matériel traditionnel, par exemple aux cuves en béton qui, quel que soit le soin apporté à son nettoyage, conserve les levures naturelles : Henri Duboscq dit qu'il aime à penser que chaque année les nouvelles levures viennent réveiller les anciennes qui leur montrent comment travailler.

Henri Duboscq se définit volontiers comme « un gascon volubile, exubérant et caressant » et il tenait à faire un vin qui lui ressemble... et un vin qui plaît. Château Haut-Marbuzet est un vin assez boisé, avec une texture assez soyeuse et douce, et une matière souvent riche et bien mûre. Le boisé a été assez prononcé par le passé, il l’est beaucoup moins actuellement. Henri Duboscq travaille beaucoup la diversification des bois et des chauffes pour rechercher une vraie richesse des arômes.

Quand il est jeune et encore marqué par son élevage, Haut-Marbuzet est un bordeaux souvent assez original avec des arômes d’épices orientales. Il faut attendre 4-5 ans pour que le terroir de Saint-Estèphe reprenne le dessus.

Au final, Haut-Marbuzet peut parfois diviser... mais c’est surtout un vin à la personnalité affirmée.


En attendant
, aconselho uma visita à Mesa Francesa: tem o melhor foie-gras, a melhor escolha de vinhos, o melhor serviço, o melhor ambiente e - last but not least - os melhores preços de todas as lojas gourmet desta cidade, coitada. E meço as palavras.

O que é pior?

Um presidente da Câmara, na pior das hipóteses, medíocre - e, mais provavelmente, irrelevante (a escolha é vasta) - ou um eficaz que vai defender a OTA?

Por mim, se votasse, escolheria um dos irrelevantes. É difícil deixar Lisboa pior do que o que está - mas pôr o aeroporto na OTA é receita garantida para tal.

Injustiças

O Nuno, do Tradução Simultânea, encontra no You Tube a melhor música de todos os blogs, e eu nunca encontro nada do que procuro. Nem em áudio consegui "I Cover the Waterfront", tocado por John Lee Hooker, que é o slow dos slows, o melhor slow de todos os tempos - e a quinta faixa de um CD, de qualquer forma, todo ele imprescindível.

I cover the waterfront, watchin' the ship go by
I could see, everybody's baby, but I couldn't see mine
I could see, the ships pullin' in, to the harbor
I could see the people, meetin' their loved one
Shakin' hand, I sat there,
so all alone, coverin' the waterfront
And after a while, all the people,
left the harbor, and headed for their destination
All the ships, left the harbor,
and headed for their next destination
I sat there, coverin' the waterfront
And after a while, I looked down the ocean,
as far as I could see, in the fog, I saw a ship
It headed, this way, comin' out the foam
It must be my baby, comin' down
And after a while, the ship pulled into the harbor,
rollin' slow, so cripple
And my baby, stepped off board
I was still, coverin' the waterfront
Said "Johnny, our ship had trouble, with the fog
And that's why we're so late, so late
Comin' home, comin' down'


PS - Hoje, a minha dívida para com o Tradução aumentou para níveis estratosféricos por causa da Nelly McKay, de quem não sonhava sequer a existência, e sem quem não sonho, doravante, a existência.

Reciprocidade

Ele tinha uma relação sã, equilibrada, equitável com a vida: nunca sabia se era ela que o f... a ele, se ele a ela.

18.5.07

Analogias

Há pessoas que pensam que se pode comparar o vinho a qualquer outra coisa, como a vida, o mar ou uma salada de frutas. Eu acho que não: a única coisa que realmente se pode comparar ao vinho são as mulheres. Todas as mulheres, sejam elas grandes ou pequenas, morenas ou loiras, sensuais ou frias, inteligentes ou burras, brancas ou pretas ou amarelas ou vermelhas: para todas, para cada uma, há um vinho.

O mar não é comparável a nada, porque o mar é tudo, é a vida. O vinho, ou as mulheres, não: são só parte dela, e de nós - a melhor parte, admitidamente. Mas uma parte.

O estranho caso del gourmet homeless

Não é por acaso que o título deste post está em várias línguas. Encontrei-o em Paris, em cima de uma boca do metro, numa simpática noite de verão. À frente tinha duas garrafas de vinho: uma Château Haut-Marbuzet, e uma de Brane-Cantenac, ambas de 2003. Interpelou-me, não me lembro como, e parei para falar com ele. Falava inglês, espanhol e, percebi depois, português - para além, claro, do francês.

- O Brane-Cantenac é muito bom, não é? - disse-lhe.

- Prefiro o Haut Marbuzet: é menos redondo, menos delicado, mais taninado, mais encorpado: deixa traços, como algumas tempestades e algumas mulheres - respondeu.

- É verdade - reconheci. - Mas na situação em que estamos mais vale preferir aquele de que gostamos menos: ajuda-nos a não ter ilusões.

Daí a pouco estávamos a falar de liberalismo, esquerda e política social. Era liberal, "como o banqueiro do outro era anarquista": uma escolha racional, independente das circunstâncias.

- Não se pode ser independente das circunstâncias - eu bebia pelo gargalo, e pensava que num copo o vinho, qualquer deles, seria melhor.

- Estás enganado. Amanhã ou depois estarás aqui, e vais ver se se pode, ou não, ser independente das circunstâncias.

Post 2002

Meta post 2002. Leider, keine TII.

17.5.07

Tácticas de substituição

Escrever é a melhor maneira de adormecer, quando não se bebeu o suficiente ou se deixaram os somníferos em casa.

Parecenças e dissemelhanças

Gostei muito da empregada do restaurante: conseguia, simultaneamente, parecer-se com uma figura egipcía e ser aterradoramente sexy.

Concentração

Já não compro livros há muito tempo: nem do título consigo chegar ao fim, se tiver mais do que três palavras.

Tudo é relativo

Encontrei-a há meia dúzia de anos em Cape Town. Era uma alemã bonita, morena de olhos verdes; chamava-se Monika. Estava de férias, sozinha.

Passámos uma semana fechados no quarto - ora o meu, ora o dela - a comer, comer-nos e, entre uma e outra coisa, a conversar. Uma vez perguntei-lhe porque me tinha olhado tão insistentemente, no dia em que nos encontrámos. "Porque és mais magro do que o meu marido", respondeu.

Evolução

Olhamos à nossa volta e pensamos que a humanidade que vemos é o que de melhor a humanidade produziu em milhões de anos; e depois perguntamo-nos "como seriam, as anteriores?"

Vocabulário - II

A língua alemã, ao contrário do que muita gente pensa, tem vocábulos lindos. Um dos meus favorios é ersatz. Estava na moda, há uns anos. Ainda hoje nos permite dizer, por exemplo, "ich eine ersatz leben habe", ou coisa que o valha.

15.5.07

Mau gosto

Tanto o casaco como o marido da senhora eram horríveis.

14.5.07

Vocabulário

Tenho uma recordação muito vaga dele: não me lembro se era um português que encontrei num país tropical, se um estrangeiro em Portugal. Inclino-me mais para a primeira hipótese: lembro-me que o cenário não correspondia ao seu olhar, nem ao "my hobby is drinking", com que, praticamente, iniciou a nossa conversa.

Mas recordo-me perfeitamente do que me disse quando nos despedimos: "em português, só conheço duas palavras: "dor" e "tristeza", por ordem alfabética". Estávamos num bar todo branco, rodeado de palmeiras e de mar, ao fundo. "É um vocabulário limitado, eu sei", continuou. "Mas era a isso que a minha vida se resumia".

Depois, sem pré-aviso, mudou de tema e começou a falar de trivialidades - as pernas da empregada do bar, a incurável preguiça dos locais, o mar, que ou era "demasiado quente" ou "demasiado frio", não me lembro.

Pensei nele hoje, muitos anos depois, na Madeira, num bar que dá para uma curva na estrada, com uma escada em caracol perigosíssima e um fantástico polvo de escabeche. Na mesa ao lado uma senhora diz, referindo-se ao filho, "amanhã tem escola". São duas da manhã, e o garoto não tem mais de cinco anos.

Eu bebia cafés e whiskies uns atrás dos outros; e foi nesse momento que me lembrei daquele longínquo encontro, num bar branco cheio de palmeiras e de mar, e de um tipo com olhos tristes a falar-me da dor e da tristeza, por ordem alfabética. A minha vida era uma desordem total, alfabética ou não, a música do bar era abominável - não era má sequer, era deprimente, de tão vulgar - e eu só queria que beber se transformasse, para mim também, num hobby e deixasse de ser a única forma de me manter vivo.

Todas as pessoas que conhecia me deixavam (dos amigos ao senhorio, da namorada aos irmãos) , por razões que percebia perfeitamente mas não conseguia controlar - eu próprio tinha vontade de me deixar, todos os dias, todo o dia. O inverno tinha sido horrível, de frio e de chuva; e o trabalho não passava de uma longa espera pelo despedimento, que finalmente chegou com os primeiros dias de calor da primavera.

A senhora que falava do filho parecia uma caricatura da vulgaridade: gorda, com umas calças que lhe deixavam metade das nádegas a descoberto, um ventre que me fazia pensar num bocado de gelatina que se esquecera de cair, duas mamas quase imperceptíveis e uma t-shirt às riscas encarnadas e cinzentas que ficava a um palmo da cintura das calças.

Não é de admirar que aquele longíquo encontro, num bar (lembro-me agora claramente) em Manila, me venha ao espírito. Escrever tem essa vantagem: ordena o passado e perspectiva o presente. Quanto ao futuro, mais vale deixá-lo para um astrólogo, ou um hepatologista.

Swing

Vinha no avião, e vi no jornal um artigo qualquer sobre o swing, essa prática que consiste em trocar a nossa mulher pela de outro tipo qualquer. Nenhuma das mulheres que tive ate hoje serviria: todas foram ou demasiado boas, ou demasiado más.

12.5.07

O sexo, o amor e as lições da vida

As relações entre o sexo e o amor são complexas e, pior, instáveis. Mas podemos, à medida que os anos vão passando, definir algumas fases mais ou menos marcadas. Inicialmente não há relação nenhuma; o sexo é o sexo, e o amor um bónus (ou um ónus). Depois, começa a ser preciso amar, para que o sexo tenha algum sentido. É surpreendente, mas enfim, uma pessoa habitua-se. O próximo degrau dessa longa escada descendente é quando amar já não chega - torna-se necessário ser amado, o que é, naturalmente, ainda mais difícil e complicado e extenuante.

Aqui chegados, pensamos que tocámos no fundo, no ponto mais baixo do percurso. Não é verdade: um dia aprendemos que essa escada não desce - sobe.

A cinegética e a vida

Não se caça para matar: mata-se porque se caça. Quanto mais cedo aprendermos este princípio e - sobretudo - que ele se aplica a todos os outros aspectos da vida (especialmente aos mais complicados, como o sexo, o amor, a felicidade), melhor.

Amar o mar?

Desconfio sempre das pessoas que me dizem que "amam o mar". Amar o mar? Isso é como amar a heroína, o absinto ou os gatos.

Aliás, que outro sector de actividade tem um grego a dizer coisas como "há três espécies de seres: os vivos, os mortos e os marinheiros"? Ou práticas como a xangaiagem (não sei como é que isto se escreve: nenhum dos dicionários que consultei referencia o termo, que contudo já vi escrito em português. Vem do inglês "to shanghai". Era uma prática que consistia em embebedar pessoas nas tavernas dos portos para as levar para bordo de navios que estavam com falta de tripulantes. Quando os xangaiados acordavam, já o navio estava no alto mar). So much para o amor do mar, não?

10.5.07

Até que enfim!

"DGCI quer penhorar contribuintes com dívidas no prazo máximo de dois meses ". É agora que o Estado vai começar a pagar a horas aquilo que deve!

9.5.07

Gray anatomy

A permanent pain in the chest becomes a permanent pain in the ass.

"The Good German"

É melhor do que algumas críticas deixariam supôr, mas muito pior do que poderia, ou deveria, ter sido.

Um óptimo argumento, uma excelente homenagem ao film noir, e uma total falta de consistência nas personagens e na direcção de actores - provavelmente estão relacionados.

8.5.07

Solidão II

Estava sozinha há tanto tempo que um dia perguntaram-lhe o nome e ela deu como apelido "solidão".

Solidão

Era muito mais difícil à solidão suportá-lo a ele, do que ele a ela.

Feitios

Ele era de uma ingenuidade que roçava o simplório. Cada vez que o futuro lhe piscava um olho, ele corria como um cavalo no último galope da última corrida.

(Como se cada futuro fosse a Lauren Bacall, ou a Meryl Streep...)

Vidas

Não se pode definir uma vida enquanto ela não acaba; mas pode acabar-se uma vida porque ela não se define.

La passion

"Vivre de sa passion n'est pas facile", dizia recentemente uma pessoa que conheço. "Normalement on en meurt".

Será que isto é sempre (ou muitas vezes) verdade, e nesse caso o problema reside na paixão enquanto processo, ou método, ou lógica de vida, ou depende do objecto da paixão? Apaixonado por apaixonado, antes pela informática do que pela vela?

5.5.07

Serviço Público - Chocolates

De um ponto de vista económico, comer napolitanos (não sei se essa é a tradução correcta de Napolitains. Espero que sim) de marca Café Tasse é totalmente irracional, a menos que se seja político (porque é a dividir por muitos), funcionário europeu, futebolista ou traficante de drogas.

Mas de todos os outros pontos de vista, quiçá igualmente importantes, uma caixa de 18 Napolitains Café Tasse faz, prometo, todo o sentido.

Portugal e o Mar

Os oceanos estão na moda, em Portugal, e por uma vez regozijo-me com a moda - ando há vinte anos a lutar por este momento. Pedro Norton, no Geração de 60, tem dois posts interessantes sobre o papel do mar na definição da identidade do país, e na sua diferenciação e especialização.

Não posso estar mais de acordo, tanto mais que, estranhamente, no exterior Portugal ainda é visto como uma nação marítima. O mar deve ser das raras áreas de actividade em que partimos com um handicap favorável.

Há, contudo, um longo e difícil caminho a percorrer: como sempre, a dificuldade reside em passar da teoria à prática. Infelizmente, cada vez me parece mais que só uma abordagem top down será eficaz: o poder das camadas intermédias da administração pública em Portugal é simplesmente espantoso. E como qualquer mudança é vista - aliás, em muitos casos, justamente - como uma ameaça, os inúmeros organismos, institutos, administrações, aquela nebulosa de funcionários inúteis que lá no fundo, no fundo, sabem que o lugar deles é o quadro de excedentários, vai fazer tudo o que pode para atrasar, dificultar, complicar tudo o que se tente fazer nessa área (e noutras também, de resto).

Além disso, a atitude face à ignorância de quem manda, em Portugal, é também um obstáculo. Repare-se que não tenho nada contra a ignorância: todos nós somos ignorantes sobre muitos mais assuntos do que aqueles que conhecemos, e não se pode esperar que uma área como o mar, que foi olimpicamente desprezada durante anos, passe de um dia para o outro a fornecer técnicos com experiência e conhecimento e sensibilidade.

Mas esses técnicos, e os decisores que lhes estão por cima, não só não sabem como não tentam saber: e isso é menos desculpável. Há excepções, claro, apresso-me a deixar bem claro. Mas são excepções, não são a norma.

Nada, claro, que uma grande dose de teimosia, paciência e trabalho não resolva.

Fragmentos

...a verdade é que cada vez ligo mais aos pormenores: um Alexander ligeiramente, muito ligeiramente, mais seco; a diferença de côr entre o fumo que sai do charuto e o que exalamos; a música enlatada e a boa música - a vida, minha querida, é uma sucessão de pormenores, e não, vamos aprendendo à medida que o tempo felizmente passa, uma sequência de zeros e uns avassaladores.

4.5.07

Um cocktail improvisado

Que fazer, quando o dia, a semana, a vida, exigem um cocktail, e a dieta esvazia um bar como um governante deveria resolver o problema da função pública (zero admissões por cada saída, e bastantes saídas à força)?

Vai-se ao fundo do baú, ao fundo do frigorífico e ao fundo do resto, e encontra-se isto:

- Drambuie;
- Gin;
- Sumo de lima natural, fresco, puro como o desejo, um amor novo ou a esperança;
- Xarope de cana;
- Açúcar mascavado (se se for mais para o sweet do que para o bitter, o que não é o meu caso).

Põe-se isto tudo num copo de cocktail, com uma pedra ou duas de gelo - que se retiram logo, após duas delicadas voltas de colher.

O nome é Tê Elle, que é nome de letra, e de vida.

"A magia da palavra"

Faz-se muitas vezes confusão entre "patético" e "patetice". É verdade que, por vezes, são dois termos muito difíceis de desintrincar um do outro. As ocasiões em que devem ser utilizados em conjunto são, infelizmente, muitas.

Hoje, ao ler o 31 da Armada, vi mais uma: "- Em França, o debate das presidenciais parece não ter tido grande efeito. Duas sondagens publicadas hoje dão a vitória a Sarkozy por apenas 8 pontos". (Ouvido na TSF).

Face a uma coisa destas, há várias atitudes a tomar. A primeira, para as almas caridosas, atenciosas e que, como eu, suportam mal o sofrimento de outrém, é enviá-la já para a sede da candidatura de Ségolène Royal. Pelo menos, ensiná-la-á a relativizar: "há sempre mais incompetente do que nós".

Depois, talvez se devesse pedir a intervenção da entidade - como se chama, a entidade para a comunicação social? Sim, essa mesma. Porque se isto é comunicação social, eu sou o próximo Papa.

3.5.07

Inquietação

Será que a lei sobre o tabaco se vai aplicar também aos charutos?

Especialmente: Romeo y Julieta, Montecristo, Vega Robaina, Hoyo de Monterey, Saint Luis Rey, Partagas (na desordem total e confusa, desapoiada como um cavalo a quem falhou a rédea).

Esperemos que não.

"Taxa plana, taxa óptima"

Ontem, no Diário Económico (link ao lado), um bom artigo de Tiago Mendes sobre a flat rate.

A certa altura, Tiago Mendes escreve "Se é consensual que são os ricos quem mais facilmente foge aos impostos, talvez conviesse lembrar a alguma esquerda que tantos anos de taxas de IRS progressivas não pareceram ter grande efeito sobre a elevada variância na nossa distribuição de rendimentos". Este é um argumento ao qual a esquerda não é de todo, mas de todo, sensível: protegida do real pela espessa gabardine da ideologia (a que por vezes chama "princípios", como se a direita não os tivesse), a esquerda não deixa nunca que este interfira, por pouco que seja, numa lei, numa ideia - e muito menos se fôr para mudar o que existe.

"And you won't read that book again / because the ending's just too hard to take"




If you could read my mind, love,
What a tale my thoughts could tell.
Just like an old time movie,
'Bout a ghost from a wishing well.
In a castle dark or a fortress strong,
With chains upon my feet.
You know that ghost is me.
And I will never be set free
As long as I'm a ghost that you can't see.

If I could read your mind, love,
What a tale your thoughts could tell.
Just like a paperback novel,
The kind the drugstores sell.
When you reached the part where the heartaches come,
The hero would be me.
But heroes often fail,
And you won't read that book again
Because the ending's just too hard to take!

I'd walk away like a movie star
Who gets burned in a three way script.
Enter number two:
A movie queen to play the scene
Of bringing all the good things out in me.
But for now, love, let's be real;
I never thought I could act this way
And I've got to say that I just don't get it.
I don't know where we went wrong,
But the feeling's gone
And I just can't get it back.

If you could read my mind, love,
What a tale my thoughts could tell.
Just like an old time movie,
'Bout a ghost from a wishing well.
In a castle dark or a fortress strong.
With chains upon my feet.
But stories always end,
And if you read between the lines,
You'll know that I'm just tryin' to understand
The feelin's that you lack.
I never thought I could feel this way
And I've got to say that I just don't get it.
I don't know where we went wrong,
But the feelin's gone
And I just can't get it back!


Com um obrigado à Teresa, do Gota de Rantanplan, que me deu a conhecer Gordon Lightfoot e me fez voltar a cantos da minha memória que eu pensava já estarem fechados, definitivamente.

2.5.07

"She is addicted to thee"



O rock não foi feito, nada há a fazer, para ser tocado unplugged.

Debate

Ségolène propôs muito diálogo. Ela devia saber que entre o diálogo e o pântano há um passo, um pequeno passo apenas.

"Dentiers"

Experimentei tudo: Hale Berry (o filme é uma m...); um Dry Martini (o bar "não é um cocktail bar", e o barman não me deixou prepará-lo; resultado: quase uma m...); chego a casa, e oiço Sarkozi falar dos dentes postiços - seria deprimente, se ainda houvesse coisas que me pudessem deprimir hoje.

Mas depois ouve-se isto, e o dia fica ligeiramente melhor:

"- Donnez-moi des chiffres. Vous n'avez pas de chiffres?
- Non, je n'ai pas de chiffres.
- Vous êtes d'une précision bouleversante.


Ou então:
- C'est déjà prévu.
- Non, non, je souhaite que cela soit fait
".

Depois, começa a tornar-se confrangedor, e tudo volta ao mesmo.

Súbito, tout revient:
"- Calmez-vous, calmez-vous!
- Non, je ne me calmerai pas.
- Pour être Président de la République il faut être calme.
"

Pacheco Pereira, o ultra-liberalismo, o peixe grelhado e, em média, a alimentação de um muçulmano

"Na prática, o ultraliberalismo, a mão invisível, a ideologia e o modo de vida que Pacheco Pereira defende para a Europa e que leva à alienação alimentar da maior parte dos americanos (os mais pobres) é muito mais proibitiva, sem proibir, do que os preconceitos alimentares religiosos comuns às religiões do livro (os católicos também os têm), particularmente mais proibitiva do que o Islão a quem Pacheco Pereira dedica a entrada "Daqui a uns anos, na Europa, será assim?". Na verdade, e apesar da diferença de níveis de vida, em média, a alimentação de um muçulmano é muito mais variada do que a alimentação de um americano."

Já vi o liberalismo (em todas as suas vertentes, neo, ultra, e sem vertente, liberalismo tout court, o velho e bom liberalismo) ser acusado de muitas coisas. Mas de ser a razão pela qual os americanos não comem peixe grelhado, isso não, e quero aqui deixar o meu agradecimento a Rui Curado Silva, do Klepsýdra, por esta novidade.

Pessoalmente, gosto de malabarismos, sejam eles físicos, intelectuais, ou psíquicos, e este é do melhor que tenho visto na matéria. Este post é brilhante, é uma inesgotável fonte de espanto - no bom sentido, entenda-se, alegre, leve como uma bolha numa flûte de champagne.

Há um pequeno erro de concordância: "o ultraliberalismo... é muito mais proibitiva" (será o ultraliberalismo proibitivo?) - ou será "...e que leva à alienação alimentar da maior parte dos americanos (os mais pobres) SER muito mais proibitiva" (a alienação é proibitiva?) Fica a dúvida, mas perante tal limpidez de raciocínio, tal clareza dedutiva, tal profundidade de visão, de que valem uma ou duas minúsculas dúvidas gramaticais?

1.5.07

Corrupção

Um post interessante no Geração de 60 sobre a corrupção, e sobre a cultura de desculpabilização e irresponsabilização prevalente em Portugal.

Se bem esteja, obviamente, de acordo com ele, a verdade é que querer agir sobre a corrupção só pelo lado da repressão não é suficiente - veja-se o caso da China, que nem com a pena de morte consegue controlar a taxa de crescimento da prática.

Enquanto houver um corpo legislativo e uma burocracia propícias, lutar contra a corrupção não passará de um voeu pieux.

Post-feminismo

Ser feminista, hoje, é ser feminina, não?

Talvez não, ou não só. Mas, cara Mariana, ninguém como as mulheres responderá tão bem à tua pergunta: ...e interrogar-se porque é que na faculdade integrava uma estatística 85% e no escritório (na base da cadeia alimentar) integra uma de 60%; porque é que, se chegar ao topo, a estatística que a englobará será de 20%".


PS - Acabo de encontrar isto aqui no DV:

"Glass ceiling

Só se percebe o que deve ser o tecto de vidro quando se tenta fazer negócios em Portugal e não se tem "contactos" ou "padrinhos". Ich bin eine frau."

I am dreamer, and you are a dream




Hurricane

Amor - II

"Do you love me", pergunta Nick Cave, "Like I love you?" - a resposta é Não, provavelmente. Não há simetria no amor, nunca, ou quase nunca. Não há igualdade - há sempre "um que ama e outro que se deixa amar", e todos nós sabemos isso.

Mas insistimos nos mitos, no "amor de iguais", no amor mágico, que nem nos romances sobrevive, quanto mais na vida.

Amor

Conheci-a numa época em que andava cheio de dúvidas metafísicas sobre o amor - o que era, o que devia ser, e como, e assim de seguida, sem fim.

A primeira noite com ela tirou-me as dúvidas todas.

O problema

Tu não podes, minha querida - enfim, podes, mas não deves - acreditar em tudo o que eu te digo, ou direi. Acredita só em partes. O problema é que eu não te sei dizer quais as partes em que deves acreditar, e quais as que são mentiras.

Whom does the night belong to?

O jantar acabou. Toda a gente se foi embora; a máquina de lavar loiça gira furiosamente, à espera da próxima. A sala voltou ao seu aspecto habitual.

A questão, agora, é: a quem pertence a noite? A ti, a nós, à solidão, ao sol, à lua ou às estrelas? À maldita memória, às horas que passei a dançar isto?