27.3.12

Reedição - sans titre

"Petit à petit Arthur tomba amoureux de Marie-José. C’était un amour insidieux, “un amour moustique”, l’appelait-il: “on l’entend bien avant d’être piqué”. Arthur savait qu’il lui serait facile de s’en débarrasser, mais ne le voulait pas. Il avait envie de Marie-José, il avait envie de la calmer, de la conquérir, de lui démontrer combien, oh combien, elle était désirable non pas quand elle se croyait désirable, mais quand elle baissait la garde et devenait elle-même. Il aimait son intelligence ; et quand elle faisait comme si elle en n’était pas pourvue il avait envie de la noyer. Mais il savait qu’il la retiendrait au dernier moment, car il était amoureux d’elle et pour être amoureux de quelqu’un il suffit d’être amoureux des ses défauts.

Il avait envie de lui faire l’amour : il aurait certainement beaucoup de choses à lui apprendre, car Marie-José était très amoureuse d’elle-même et il faudrait lui apprendre l’autre. « Mais ça sera drôle », se disait-il, « car elle apprend vite ». Et l’amour est une question d’intelligence. Le corps n’en est que le véhicule. Une femme bête ne saura jamais faire l’amour : elle saura être lascive, tout au plus. Arthur soupçonnait une quantité inépuisable de sensualité chez Marie-José. Il l’aimait et il avait envie d’elle.

(Daqui)

Reedição - O dia e tu

Um dia que começa sem ti não começa, e não acaba, sem ti.

Reedição - o dia em que aprendi a dizer hepatologista

Tenho uma recordação muito vaga dele: não me lembro se era um português que encontrei num país tropical, se um estrangeiro em Portugal. Inclino-me mais para a primeira hipótese: lembro-me que o cenário não correspondia ao seu olhar, nem ao "my hobby is drinking", com que, praticamente, iniciou a nossa conversa.

Mas recordo-me perfeitamente do que me disse quando nos despedimos: "em português, só conheço duas palavras: "dor" e "tristeza", por ordem alfabética". Estávamos num bar todo branco, rodeado de palmeiras e de mar, ao fundo. "É um vocabulário limitado, eu sei", continuou. "Mas era a isso que a minha vida se resumia".

Depois, sem pré-aviso, mudou de tema e começou a falar de trivialidades - as pernas da empregada do bar, a incurável preguiça dos locais, o mar, que ou era "demasiado quente" ou "demasiado frio", não me lembro.

Pensei nele hoje, muitos anos depois, na Madeira, num bar que dá para uma curva na estrada, com uma escada em caracol perigosíssima e um fantástico polvo de escabeche. Na mesa ao lado uma senhora diz, referindo-se ao filho, "amanhã tem escola". São duas da manhã, e o garoto não tem mais de cinco anos.

Eu bebia cafés e whiskies uns atrás dos outros; e foi nesse momento que me lembrei daquele longínquo encontro, num bar branco cheio de palmeiras e de mar, e de um tipo com olhos tristes a falar-me da dor e da tristeza, por ordem alfabética. A minha vida era uma desordem total, alfabética ou não, a música do bar era abominável - não era má sequer, era deprimente, de tão vulgar - e eu só queria que beber se transformasse, para mim também, num hobby e deixasse de ser a única forma de me manter vivo.

Todas as pessoas que conhecia me deixavam (dos amigos ao senhorio, da namorada aos irmãos) , por razões que percebia perfeitamente mas não conseguia controlar - eu próprio tinha vontade de me deixar, todos os dias, todo o dia. O inverno tinha sido horrível, de frio e de chuva; e o trabalho não passava de uma longa espera pelo despedimento, que finalmente chegou com os primeiros dias de calor da primavera.

A senhora que falava do filho parecia uma caricatura da vulgaridade: gorda, com umas calças que lhe deixavam metade das nádegas a descoberto, um ventre que me fazia pensar num bocado de gelatina que se esquecera de cair, duas mamas quase imperceptíveis e uma t-shirt às riscas encarnadas e cinzentas que ficava a um palmo da cintura das calças.

Não é de admirar que aquele longíquo encontro, num bar (lembro-me agora claramente) em Manila, me venha ao espírito. Escrever tem essa vantagem: ordena o passado e perspectiva o presente. Quanto ao futuro, mais vale deixá-lo para um astrólogo, ou um hepatologista.

(Daqui)

Reedições actuais

Aqui.

Pesadelos - reedição

"Os pesadelos são o método que a natureza inventou para nos impedir de nos esquecermos de nós, mesmo quando dormimos."

Andar a pé - reedição

"Em Bujumbura (Buja, daqui em diante), as regras de segurança eram severas. Não podíamos, por exemplo, atravessar uma rua da largura da Marginal a pé: tinha que ser de carro. As regras não eram estúpidas, antes pelo contrário, faziam sentido; mas por vezes não as respeitava.

A que mais infrigi era a da manhã: acontecia-me frequentemente ir passear para as margens do lago, quando havia dois riscos - os hipopótamos, e aquilo a que localmente se chamava "assaillants". Sempre me levantei cedo, e as margens do lago eram, a essa hora, de uma beleza irresistível.

Se quanto aos assaltantes as estatísticas eram escassas - provavelmente por falta de assaltados - já os relatórios de ataques por hipopótamos, ou incidentes com eles, abundavam.

A temperatura era fresca, quase fria, e a luz vertiginosa, de tão límpida, clara, cristalina. As montanhas do outro lado libertavam-se, pouco a pouco, dos farrapos de nuvens que a condensação, de uma forma anárquica e incompreensível (mas com um resultado invariavelmente belo) deixava nos inúmeros desfiladeiros que as entrecortavam. Pareciam bocados de algodão numa árvore de Natal, o que não deixava de me surpreender, num país do qual o Pai Natal estava tão visivelmente ausente.

Eu ia passear, lamentando não poder ter uma máquina fotográfica, com os sentidos alerta, todos: os hipopótamos correm a velocidades alucinantes mal se sentem separados da água, os assaillants não deixavam de ser um risco, e os próprios colegas tão-pouco - um dia um deles viu o meu carro ali parado, vazio, e quase lançava um alarme antes de falar comigo pela rádio.

Era um dos meus momentos favoritos do dia: não havia vivalma, o cenário era belo de morrer, com as abruptas montanhas do lado zairense, as espraiadas costas do lado burundês, a "clandestinidade", o prazer simples, claro, evidente, que andar é.

Hoje não havia animais selvagens, as praias estavam cheias de gente, a adrenalina estava ausente, coitada, mas o prazer de passear no Paredão num fim de uma tarde de verão era o mesmo.

(Daqui)

26.3.12

Quelimane - Reedição

"Por causa de um blog chamado Ana de Amsterdam encontrei Quelimane. E neste último encontrei uma fotografia do Refeba, com umas coberturas em betão que não existiam na altura.

Já aqui devo ter contado a história, mas quatro anos permitem repetições: eu teria 9 ou 10 anos, e fui beber uma Coca-Cola ao Refeba (Reis, Fernandes e Baptista, para os íntimos). A Coca veio acompanhada de um pratinho de camarões cozidos, coisa que me encheu de satisfação, claro. Acabado o pratinho, chamei o empregado e pedi outro.

De dentro do café sai não sei se o Reis, se o Fernandes, se o Baptista e diz-me "olha lá, pá, tu pensas que o pratinho de camarões veio para a mesa por causa da tua Coca-Cola?" Eu disse-lhe que "sim", intimidado. "Pois fica sabendo que não foi. Foi por causa dos whiskies que o teu pai aqui bebe à noite. E um pratinho de camarões chega! Se quiseres, dou-te amendoins".

Em Zalala um dos colegas do meu pai nos whiskies do Refeba tinha uma casa. Como gostava de copos e de bares, o rés-do-chão era um bar, com mesas, balcão e tudo - e a casa chamava-se "O Bar do Zé".

Um dia entrou uma família chegada direitinha da Metrópole, e sentou-se a uma mesa. Por acaso o Zé estava atrás do balcão, e perguntou-lhes o que queriam beber.

"Uma Coca-Cola para o menino, uma cerveja para o papá e um sumo de laranja para a mamã [provavelmente, pouco importa]". O Zé levou as coisas todas para a mesa, a família deliciou-se com tudo, o bar era tão bonito, quem diria, num sítio destes - até que pediu a conta.

"Não há conta nenhuma", retorquiu o Zé, "isto não é um bar, é a minha casa e tenho muito prazer em oferecer-lhes as bebidas".



Não há lugar no mundo, nem tempo, em que tenha sido mais triste, mais infeliz, que tenha odiado mais do que o Colégio Paulo VI. Nele estive do 1º ao 4º ano do Liceu - e só guardo uma coisa boa, uma: o amor pelo Português que o director do Colégio, o Padre Tiago, me transmitiu, apesar das reguadas (com uma palmatória de pau-preto) e das bambuzadas (uma pequena vara de bambu cuja alcunha esqueci, com a qual nos batia nos braços e nas coxas até ficarem roxos e cavados). A certa altura comecei a pôr lenços nos antebraços para amortecer as pancadas - até ao dia em que, inevitavelmente, ele os descobriu. Odiava aquele colégio, e acho que nunca recuperei desse ódio.

Uma vez averbei uma vitória, só uma: fui para o estrado ler uma redacção que devia ter feito em casa - e no papel não havia uma palavra escrita, uma que fosse. A certa altura reparei que o Padre Tiago percebera - mas continuei, e ele não me pediu para ver as folhas de onde eu estava a "ler".

(Daqui)

24.3.12

Quecas e penicos, perdoem-me o vulgarismo

Pergunto-me assim de repente quantos casamentos não terão sido salvos por uma queca fora do penico. Se fosse a apostas apostaria em "quase todos".

17.3.12

Pois

Parques e coios

Tenho um amigo arquitecto que trabalhou para a Parque Escolar. Quando leio posts como estes só me ocorre pensar que:

- Ou ele é um refinado mentiroso;
- Ou a Parque Escolar aqui descrita só existe na imaginação de alguns;
- Ou a Parque Escolar era um coio.

Por razões várias prefiro as duas últimas hipóteses, mesmo sabendo de duas inevitabilidades: a de preferir a versão do meu amigo e a de saber que qualquer organismo estatal se transforma, cedo ou tarde, num coio. A única especifidade da PE foi essa transformação ter ocorrido muito cedo, ajudada sem dúvida pelo ar do tempo.

"Da arrogância bonapartista"
""Artimanha orçamental"?"

16.3.12

Quadrúpedes

A quantidade de quadrúpedes que consegue andar em duas pernas não deixará nunca de me surpreender.

15.3.12

Obsessivo-coiso

A Teresa diz que eu sou um obsessivo-compulsivo, ou coisa que o valha. Não me lembro bem. Ela é psiquiatra (ou melhor, era. Pu-la a trabalhar no talho comigo. Também pode usar palavras esquisitas e pelo menos se as usar refere-se a coisas concretas: músculos, ossos, etc.. Agora essas coisas nebulosas da psiquiatria não).

A conversa começou porque tenho o hábito de arrumar as notas na carteira. Quando digo arrumar não é só por valores; é também por números de série. Gasto as mais antigas primeiro (vi uma vez um artigo sobre old money e achei interessantíssimo). Teresa acha isto uma idiotice absurda.

Eu não. A ordem é importante. Sem ordem não há felicidade. Por exemplo, é preciso começar por ser infeliz antes de pensar sequer em ser feliz. Era o que o meu  pai me dizia, quando eu tinha quize anos e não queria trabalhar no talho. O meu sonho era ser caixeiro num banco, poder arrumar as notas à minha maneira e ser reconhecido e recompensado por isso.

Aqui não sou. As pessoas brincam comigo por ser tão meticuloso em tudo: na maneira como arrumo as costeletas, os bifes, as peças de carne, sempre por ordem decrescente de peso - as mais pesadas em baixo; faz sentido, não faz?

Eu acho que sim; mas por vezes tenho a impressão que Teresa me despreza um pouco. Às vezes diz-me "vem cá, meu obscoiso, dá-me um beijo". Ela diz que aquilo é ternura. Vá lá saber-se. Para mim é gozo, não é ternura.

A verdade é que ganhamos dinheiro com o talho. Já funcionava bem com o meu pai, mas eu introduzi-lhe novas funcionalidades, como por exemplo a venda ao miligrama (comprei uma balança Mettler-Toledo, ninguém imagina o prazer que é trabalhar com aquilo. Uma pessoa respira e peso da carne muda). Também levo encomendas a casa, sem qualquer limitação de peso, mínimo ou máximo. Se uma senhora velhinha me pede metade de uma salsicha eu levo-lhe a metade de salsicha - e com um sorriso. Nenhum dos meus colegas pode dizer isso.

Claro que trabalhamos muito, Teresa e eu. Sinto que ela está cansada; às vezes pergunto-me se não estará farta do talho, e com vontade de voltar às suas conversas que não querem dizer nada.

É tudo esquizos e paras - paranóico, esquizofásico, esquizo isto, para aquilo.  E obsesssivo compulsivo, claro. Isso está sempre na boca dela. Como se gostar de ordem fosse uma doença.

Foi por essas e por outras que a proíbi de trabalhar fora de casa (moramos por cima do talho). Talvez ela não goste; mas antes de ser feliz há que ser infeliz, não acham? Pelo menos o meu pai dizia-me isso todos os dias. E estava cheio de razão, coitado.

Morreu cedo, num acidente de automóvel, mas isso fica para outro dia.

Dias, ampulheta

De um lado o tempo que falta, do outro o que passámos juntos: és a ampulheta pela qual afiro os meus dias.

14.3.12

Defeitos, características

Ser estúpido não é um defeito; é uma característica (ou uma histeria, como dizia Lacan: "basta uma pessoa saber-se estúpida para deixar de o ser"). Devíamos ser capazes de não criticar alguém por ser estúpido.

Verdadeiramente criticável só há um defeito: ser pequeno.

(Tendo claro presente que mais vale estúpido e pequeno do que estúpido e grande: estes tendem a provocar catástrofes; aqueles são meramente irritantes, como um mosquito que nos escapa à noite na cama.)

Porque é que a democracia Suíça é a melhor do mundo?


(Via  A Douta Ignorância)

Resposta: porque os políticos não têm poder nenhum.

11.3.12

Porque hoje é domingo,

ler, aqui.

Deuses, jovens e outros

A diferença entre um jovem deus e um velho não é a idade; ou não só. É sobretudo que um velho deus já se resignou à imperfeição da obra e à sua incapacidade  para a melhorar. Duas coisas que o jovem deus tem de aprender, se quer chegar a velho.

Mágica humanidade

Gosto de palavras mágicas, de encantações: ultra-liberal, neo-liberal, Cavaco não sabe fechar a boca quando come, o fim do Estado Social, igualdade.

Nunca cessarei de me espantar com a capacidade do ser humano de não ser humano, de se esquecer que o mágico é mágico, e pensar é pensar.

Ou talvez no fundo seja isso, ser humano.

O que é

Isto antes de mais nada. É preciso começar por dizer que. Ou as coisas se contam como foram ou não se contam. Foram vale por podiam ter sido: ou as coisas se contam como podiam ter sido ou não se contam.

E isto, minha querida, sabes como sou: aplica-se a tudo. Não me venhas cá com histórias de jantares com amigas, de massagistas com regras, de bar tenders com netos a nascer. Ficção, nada mais do que ficção. A mim interessa-me o que é, em todas as suas formas: incluindo as que poderiam ter sido.

Escrever é diminuir palavras; apagá-las. E tu não fazes mais do que acrescentar palavras. Não se deve acrescentar ruído ao ruído (mas pode acrescentar-se silêncio ao silêncio. É outra história).

Esta coisa de quereres um Bailey's, por exemplo, num café em que nem água sabem o que é. Barulho, nada mais do que barulho.

A pequena é gira? E depois, que queres que faça? O guitarrista toca bem. É bom, o puto. Ouviu Gismonti mas esqueceu-se; é puto, infelizmente. Bebe água e merdas no género. Isto é.

O café tem uma visão cancerígena das esplanadas: a deles espraia-se por tudo quanto é lado. Invade o parque de estacionamente fronteiriço, o que é bom. Infelizmente com cadeiras de plástico encarnadas. Isto é.

Vês? Podemos construir uma noite com o que é. Tu és. A noite está calma, serena. Amanhã não me apetece nada trabalhar. Há uma miúda gira mesmo por baixo da ponte. Isto é.

E se não é poderia ter sido.

O puto é bom. Não percebo nada da burguesia local. Não quero perceber, e pela primeira vez tenho pena, muita. Isto é.


Duches inomináveis

Um dia comecei a numerar os duches: nº 1, nº 2, nº 3, nº 4 e assim por diante. O primeiro era o primeiro da manhã, sempre; mas a partir do segundo a ordem deixava de ser cronológica e começava a ser qualitativa: o segundo melhor, etc.

Parei rapidamente: não sabia distinguir um duche muito muito bom de outro meramente muito bom. Dificuldade que de resto acontece a muitas outras coisas, algumas até inclusivamente inomináveis. Ora toda a gente sabe que não se pode contar o que não se pode nomear (e não se pode gerir o que não se pode contar, mas para isso chamo um gestor de duches).

Decidi deixar de os numerar e passei a dar-lhes nomes: duche da manhã, duche de depois de, duche de antes de, duche do almoço, duche da sesta; e assim sem fim.

Talvez o ideal seja misturar as duas ordens. Hoje por exemplo poderia ter tomado o duche nº 1, depois o duche do camião I, o do camião II, o pré-jantar, e finalmente o 4, o do sono.

Mas não sei se dar nomes ou números aos duches serve verdadeiramente para os identificar. Daqui a pouco menos de uma semana os duches todos serão uma amálgama de duches, sem nome ou número. Não sei mesmo se serviria para o que quer que fosse. Duches há muitos, mas só os inomináveis merecem menção (são imencionáveis) e memória (são inesquecíveis).

10.3.12

Sonhos tropicais

I
Um golfinho saltava à corda com a ponte. Esta imagem é improvável: a ponte era sobre um rio, num sítio onde já não chegava a maré.

Mas o golfinho era um trânsfuga. Vira um dia um filme chamado Stalker e tomara-se de ideias.

Usava a ponte como se fosse uma corda.

Pessoalmente quero que as pontes vão para os raios que as partam; e os golfinhos também, mas menos. Gosto mais destes do que daquelas. As pontes são uma seca. Fazem-me pensar na Madre Teresa de Calcutá, ou naqueles "missionários" que vão para África fazer pontes. Missionários entre aspas porque os verdadeiros missionários não constróiem pontes. Tratam, educam, fornicam um bocadinho, alguns, e são mortos, muitas vezes.

São mortos por causa da cobardia, da prepotência e do complexo de pequeno ditador de alguns grandes idiotas. Estou-me nas tintas para os verdadeiros missionários, excepto quando morrem.

O golfinho continua a saltar à corda com a ponte.

Ainda vai espetar-se contra um dos pilares. É bem feito.

Os missionários também é bem feito. Ninguém os manda ir para África educar e tratar e fornicar (um bocadinho).

Também havia missionárias, no grupo. Espero que não tenham sido fornicadas antes de morrer. Ou então que tivessem recebido a morte como um curto mas intenso orgasmo com o Senhor (a maiúscula é delas, mas peço-a emprestada).

O golfinho cansou-se e está agora a masturbar-se na praia do rio, com aquele ar estúpido e sorridente que os golfinhos têm, como se fossem enigmáticos, profundos ou estivessem simplesmente contentes. Os clientes do café fingem não ver e assobiam para o lado.

A., B., C., D. e E. ajoelham-se à minha frente, abrem-me a braguilha e começam a fazer-me uma felação. "My lord", oiço. Deve ser A., sempre teve a mania de que era inglesa. "Vamos chupar-te esses missionários todos cá para fora, um a um", diz outra. "Calem-se e chupem", respondo.

Nunca fui o objecto passivo de uma felação colectiva. "Todas as relações são colectivas, diacronicamente colectivas", penso. "Há alguma relação entre relação e felação?"

Já por aqui disse como se devem fazer felações; não volto a dizê-lo. Também já disse que não se deve deixar morrer missionários na selva africana. Não voltarei a dizê-lo, se Deus quiser (a maiúscula é Dele, não minha).

A ponte caiu em cima do golfinho. Provavelmente morreu, com aquele ar estúpido e satisfeito dos golfinhos.

II
Hoje o médico perguntou-me se bebo muito. "Não. É raríssimo chegar a uma aspirina. Uma vez por ano, talvez". "E a duas?" "Você é médico ou é voyeur?", perguntei. "Quando muito entendeur".

"Tenho pena", acrescentei depois de uma pausa à la Raymond Chandler.

"Não tenha".

"E os missionários, acha que tiveram aspirinas antes de morrer?"

"Mande os missionários para o diabo e beba cerveja. É melhor do qe vinho, ou whisky".

"Não gosto de cerveja".

"Óptimo, ainda melhor. Ah, e lembre-se das missionárias. Uma masturbação por semana in memoriam".

"Você e a porra do latim".

"Então só a sarapitola".

É por estas e por outras que gosto do meu médico.

III
Um hotel asqueroso no centro de África. Não sei onde dormir: a cama, o chão e a banheira estão igualmente sujos, imundos. Opto pela cama, porque tinha um saco cama. E. encosta-se a mim e faz movimentos frenéticos com a zona pélvica. Parece um cão face a uma cadela no cio. Digo-lhe que se enganou de história. "Não sou pelas diacronias."

"O amor  é diacrónico".

Entretanto olho para a cama imunda e vejo os missionários todos, eles e elas, numa gigantesca orgia. Mas eu estou na cama, não sei de onde olho.

"Tout est bien qui fini bien", diz E.

Lua, amor

As coisas são o que são, meu amor. Algumas mudam, outras não. A lua em quarto minguante, o meu amor por ti em quarto crescente. Daqui a duas semanas a lua estará em quarto crescente, e o meu amor por ti também. 

Algumas coisas mudam,  outras não.

9.3.12

Vidas

Resolvidas, revolvidas, vidas e voltas, vidas à solta. Vives e voltas, ouviste?

Caça, anomia

[Preferiria anemia, mas é anomia que lá está].

É sempre um prazer citar Filipe Nunes Vicente.

Ironia

Há uma coisa neste país que me acolhe no seu seio de que gosto, gosto sem parar: as pessoas percebem  a ironia. Qualquer que seja o nível social, a ironia é moeda corrente, aceite, compreendida e correspondida.

Poetas, país

As pessoas passam a vida a dizer que Portugal é um país de poetas, mas a verdade é que um tipo procura poesia portuguesa no Youtu e só sai porcaria. Não haverá quem saiba dizer poesia, nesse país, sem parecer que está a ser comido enquanto fala?

Optimismo

É por estas e por outras que os governantes deste desgraçado país podem continuar a roubá-lo e a fazer a merda que fazem.

"Brasil é o país mais otimista do mundo"

Por falar nisso

Alguém sabe por onde anda o Paulinho das Feiras? Não há melhor maneira de o calar do que dar-lhe um poleiro.

8.3.12

Cercos

Já não apanho bebedeiras fulminantes, como antigamente. Agora uma bebedeira planeia-se como um velho gaiteiro um cerco a uma jovem e esbelta senhora. Ambas acabam por escapar, de qualquer forma.

Grupo, eu (Cont.)

Acontece que, por muito boas que sejam as intenções - e nem sempre o são -, a ditadura de, ou por um grupo é uma ditadura. Peer pressure é pressure, por muito peer que sejam os peers.

Nada vale a minha liberdade; nada vale eu - todas as liberdades, todos os eu.

Nunca suportei um grupo, nunca cedi à pressão de um grupo, nunca atribuí ao outro - fossem eles quantos fossem - mais peso do que a eu. E, seja Deus louvado, agora é tarde para mudar.

PS - o que não significa que não continue a pensar que liberdade é podermos escolher as nossas prisões.

Marais




Krüger Park


Genève


Verdades verdadeiras e eternas

Estou perdidamente apaixonado por ti, e por ti vou reencontrar-me.

Grécia


Grécia



Fui dar uma volta sozinho. Cheguei aqui - duas mesas num enorme jardim - e só percebi que era um restaurante porque vi três polvos a secar numa corda de roupa.

O jardim estava vazio. Sentei-me e pouco depois o senhor saiu de uma cabana a apertar a braguilha. Sem transição apertou-me a mão e pegou num dos polvos. Disse-lhe que queria os três, porque em breve viriam os outros.

Mais tarde juntaram-se a nós. Ele é grego, ela albanesa.

Grécia, 2003 (?)



Há uma versão bem enquadrada, mas deve estar perdida na pasta das fotografias bem enquadradas.

Grécia, 2003 (?)


Algures na Grécia


Reims, Metz (?)



Vínhamos da Eurodisney e resolvemos tomar o caminho mais longo para voltarmos para Genève. Não sei se é Reims se Metz - apesar de identificar as fotografias com um lugar e uma data ambos me interessam pouco.

7.3.12

Retrato potencial

Devia ser o homem de insucesso que mais sucessos averbava. Infelizmente não podia dizer "sou o homem de sucesso que mais derrotas tem no currículo": não era um homem de sucesso.

Don Vivo, rádio

O Don Vivo na rádio. Aqui fica o meu obrigado sincero a Pedro Rolo Duarte.

Televisão

Não vejo, nem de longe, televisão suficiente para que isto tenha o mais pequeno valor estatístico. Mas a verdade é que cada vez que passo à frente de uma (normalmente duas ou três vezes por dia, muito brevemente) tenho a impressão de que na televisão brasileira os brancos falam e os pretos ou dançam ou jogam futebol.

5.3.12

Diário de bordos

Mais um post da Tatiana (sem adjectivos, propositada mas injustamente).

"Esbulho"

Mais um

Mais um poema notável no Early Morning Blogs.


"I am as I am and so will I be 
 But how that I am none knoweth truly, 
Be it evil be it well, be I bond be I free 
I am as I am and so will I be.


..."


(Ao qual se seguem duas ou três coisas no mínimo contestáveis, mas enfim, es ist nicht so schlimm.)

4.3.12

Diário de bordos - 040312

Aqui.

Chuva

Choveu a noite toda. Cada vez que penso nesses agricultores de cidade que se regozijam com chuva tenho vontade de gritar. (E nos agricultores de campo também, mas isso é outra história).

Adenda - Pacheco Pereira tem andado a disparatar, ultimamente. Disparata muito bem, claro; sorte ou talento. Onde não disparata nunca é na escolha de poemas para os seus Early Morning Blogs.

Este, por exemplo, que vi pela primeira vez afixado na parede de um banco em Union Island, em 2004. e de que tanto preciso, hoje.

When things go wrong as they sometimes will;
When the road you're trudging seems all uphill;
When the funds are low, and the debts are high
And you want to smile, but have to sigh;
When care is pressing you down a bit
Rest if you must, but do not quit.
Success is failure turned inside out;
The silver tint of the clouds of doubt;
And you can never tell how close you are
It may be near when it seems so far;
So stick to the fight when you're hardest hit-
It's when things go wrong that you must not quit.

(Anónimo)

BRIC

Cada vez que penso no "desígnio" do Brasil de se afirmar como uma grande potência vem-me à memória o Rubrique à brac, de Gotlib. O abençoado Gotlib devia fazer uma coisa chamada ru-BRIC-à-brac, especial B.

3.3.12

Diário de bordos, o blogue

Ainda está no princípio. Levou agora o segundo post. O template é provisório, o tom ainda está para ser definido. Mas começou bem. Eu acho. Espero que vocês também.

Finalmente

O blogue Diário de Bordos tem o seu primeiro post, finalmente. A partir de hoje os Diários de Bordos serão publicados lá (não sei se também, se só).

O primeiro post, naturalmente, foi o da jovem senhora. Como quem o ler verá, escreve muito melhor do que eu (coisa que não é difícil, de passagem se note).

Estão todos convidados. Boas viagens!

Serviço Público - Restaurantes Parnaíba, S. Luis e Fortaleza

Nenhum deles merece a deslocação; nada merece a deslocação, neste país (enfim, exagero, mas a hipérbole é uma cena que me assiste, às vezes).

Em Parnaíba o meu favorito, de muito longe, é o Aventur. É mesmo no fim da Av. Getúlio Vargas, se por acaso. É aqui que passos os dias, quando não estou no estaleiro.

Em S. Luis:
- Cafofinho da Tia Dica, Travessa Marcelino de Almeida (Beco da Faustina), Reviver. Cozinha tradicional correcta, preços aceitáveis, ambiente "típico". Tem wifi, era o meu escritório e sala de estar em S. Luis (coisa que reputo de muito interesse para um futuro biógrafo, claro).

- Dom Francisco, creio que já por aqui falei dele. Excelente self-service a peso ao almoço, igualmente excelente à la carte ao jantar. Aqui comi uma camaroada notável, por pouco mais de dez euros; teria chegado para dois, se um estivesse com muita fome. É na rua do Giz, a menos de meia dúzia de minutos da Tia Dica.

Fortaleza: Rei dos Mares, rua Visconde de Mauá 200, Meireles. Se é rei dos mares também o deve ser da carne, que estava magnífica. Bebemos um Carménère de 2005 ou 6 bom, intenso, com um fim de boca que ainda hoje o sinto. A primeira vez que bebi essa casta foi num aeroporto a caminho de S. Francisco e estou fan.

Diário de bordos - 030312

Hoje começamos as preparações para fibrar os fundos. É a razão de ser de tudo isto: tapar uns buracos que por lá ficaram. Ainda estamos muito longe do fim, mas já se vê bem o que está para trás. Como se diz no futebol, "só conta quando está lá dentro". E lá dentro é, pelo menos chegar a Grenada.

As marés estão no ponto ideal e a chuva tem ajudado. A viagem a São Luis correu bem: de um prazo "começamos daqui a entre sessenta e noventa dias" passámos para "acabamos daqui a 60 dias"; não é bom, mas é o melhor possível.

"Não é bom mas é o melhor possível" é o pão quotidiano de qualquer marinheiro, de qualquer pessoa que lide com uma quantidade de factores absolutamente incontroláveis. O desafio consiste em transformar o melhor possível em bom.

Terça ou quarta-feira que vêm podemos ir para a água. Será então o fim do primeiro passo, e o princípio do segundo: rebocar B. até São Luis. Antes vai ser preciso ter a certeza de que o trabalho ficou em ordem, encontrar um reboque até Luís Correia, encontrar  uma transportadora fiável, embalar tudo (o barco de pesca que nos vai rebocar vai com os porões cheios de gelo e não tem espaço).

Se o mestre aceitar vou no barco de pesca. Tento pensar o mais possível no cheiro e nas baratas do que nos trouxe da Pedra do Sal até Luis Correia: assim quando embarcar não estranharei. São dois dias, não é uma vida.

Relógios

"Um relógio parado está certo duas vezes por dia"; um que funciona pode nunca estar certo, andar atrasado ou adiantado. Porém é preferível: mais vale andar sempre ao lado da verdade, mas perto, do que estar absolutamente certo duas vezes por dia e o resto do tempo longe.

1.3.12

Agora assim sim tempo grande

Não é que patognomónico não seja bonito; mas esquizofásico é perfeito. Até está explicado e tudo. Corresponde a este blog como se tivesse sido criada para ele.

Será que amanhã vamos ter a definição de patogalâmbico?

PS - Talvez se pudesse começar por aqui: «Detesto dizê-lo, mas não faria as coisas de forma muito diferente daquilo que está a ser feito agora [pelo Governo português].» (Paul Krugman, em entrevista ao Público.)

(Via Delito)

Tempo

Diluir o tempo. É uma missão nobre.

Noite caótica; dias. Favas

E isto depois de qualquer forma on s'en fout, on n'est pas d'ici, demain on s'en va, que se lixe a música alta de mais, o ar condicionado sem o qual a Tia Dica parece não conseguir viver, a ideia de ir dormir numa espelunca, a ideia de ser um idiota.

Tudo isso faz parte da vida, desta coisa estranha à qual chamamos "os dias". Idiota por idiota mais vale fazer qualquer coisa de que se goste; dias por dias mais vale passá-los numa espelunca em São Luis do Maranhão do que numa vivenda em Caxias, vista para o Tejo incluída; e música por música...

Não, aqui páro. Uma noite num Hot Club, um qualquer; uma noite num Catacumbas [não há link directo; mas é excelente], um qualquer; uma noite num Café Tati, um qualquer. Uma noite sem barulho, só com música.

E favas, claro (o logo está uma merda, eu sei. Mas o que se come é bom).

"Engenheiros" e leizinhas