29.4.12

Será a coerência um valor de direita?

Vai aí pela esquerda da net uma indignação muito indignada. Parece que Kadhafi financiou uma parte da campanha presidencial 2007 de Sarkozi. Não sei se é verdade se não, mas é, pelo menos, plausível. Sarkozi é detestável (só marginalmente menos que Hollande); Kadhafi era abominável. A mistura dos dois parece-me repugnante; a indignação é justificada eu partilho-a inteiramente.

O facto de as pessoas que agora tanto se indignam não terem tugido nem mugido quando essoutro abominável ser, Sócrates, se misturou com o ditador líbio intriga-me pouco. A filiação partidária é uma espécie de filtro que só deixa passar aquilo que se quer ver.

Mas esta nova onda de boa consciência suscita-me uma questão: será que a malta da esquerda é menos coerente que a de direita, como todos os dias me parece? Alguém quantificou os episódios de dois pesos e duas medidas num lado e noutro da linha?

28.4.12

Uma gande definição, correcta e justa

Imbecilidade, ainda

É muito difícil não ser simpático e concordar, quando alguém nos grita "sou um imbecil".

Neve, saltos altos

Lidar com a imbecilidade é como querer andar na neve de saltos altos.

Refúgio

O sono ou o caos: qualquer dos dois é um bom refúgio.

27.4.12

Insónia, iliteracia

Se não houvesse insónia alguém saberia ler e escrever?

Morte, estupidez, vida

Ninguém devia morrer sem ter aprendido a lidar com a estupidez. E muito menos viver.

Extraterrestres, tristezas

A grande questão não é saber se há vida extraterrestre, ou se ela é compatível com a nossa. É saber se as respectivas tristezas o são. 

Tristeza

Ela por ela, prefiro ir para a cama com a alegria do que com a tristeza. Quanto mais não seja porque gosto de novidade.

Fuck you



Alguns dias esta música é a única que me faz ter pena de não saber cantar.

Ou esta:

Fim do mundo

Não percebo de onde vem o medo (ou o desejo) do fim do mundo. Acontece todos os dias, praticamente.

Noites

Muitas noites são piores do que o dia; muitas outras melhores. São raras aquelas que nos fazem desejar que o dia não venha, ou não tenha ido.

Loucos

Só há uma espécie de loucos de que gosto verdadeiramente: os que não param de murmurar frases ininteligíveis, inaudíveis. O que é estranho, porque não gosto particularmente de mim.

Desejo

Não tenho nada contra o desejo, "esse cão", como lhe chamava Eugénio de Andrade (ou chamou, não sei). Antes pelo contrário. Não deve haver palavra no mundo mais equilibrada, mais justa: o bem que provoca é tanto como o mal que faz.

Miasmas

Regularmente a minha palavra favorita volta a ser miasmas. Acolho-a como a uma velha amiga com quem já se fez todo o amor que havia para fazer, e por isso podemos, agora, conversar tranquilamente enquanto bebemos um café, o desejo arrumado e resolvido.

Biografia breve

Gritou quando nasceu e gritou enquanto viveu. No dia em que deixou de gritar morreu.

Tosse

Gostava de parar de tossir. O ar está suficientemente sujo.

Désarroi

As palavras cujo significado é difícil de descrever são, o mais das vezes, aquelas cujo significado é horrível de se viver.

Get a life!

Gosto muito da injunção, mas sofre de um equívoco de base: mais do que uma obrigação, é um direito.

Maçadas

Estava muito cansada de si própria, mas não sabia como resolver o problema. Matar-se fazia-lhe pena, por todos os que ficavam; beber não, porque engordava (e além disso fazia-a portar-se mal, coisa de que no dia seguinte se arrependia, invariavelmente); não gostava de correr, e não tinha dinheiro para ir às compras; era demasiado tímida para chatear os outros e desistira há muito de o fazer ao marido, pouco paciente.

Uma horrível maçada.


Paraíso

Sozinho num barco a mil milhas da costa mais próxima. Deve ter sido isso o mais perto que estive do paraíso. (Sim, no mar ando de VHF desligado, infelizmente. E nunca tive SSB num barco meu.)

Palavras, obras

"Palavras sem obras são tiro sem bala; atroam, mas não ferem".
Padre António Vieira, Sermão da Sexagésima

Tenho andado a ler o Padre António Vieira a correr, porque espero ir-me embora em breve e o livro é pesado. Mas é impossível não parar para registar pérolas como esta.

26.4.12

Parcas alegrias

É claro que só apetece atirar com isto à cara dos "banqueiros" que não emprestavam dinheiro às PME porque eram "demasiado arriscadas", e apostaram tudo no crédito às grandes empresas e à habitação.

O problema é que nem sequer nos podemos regozijar, porque quem paga as dificuldades dos bancos somos nós.

Pemanências

"Dizem todos os italianos que temos muito valor, mas que não temos juízo nem governo".

A citação é de uma carta do Padre António Vieira. Talvez no séc. XVII. Hoje parece-me que continuamos sem juízo e sem governo; mas valor temos pouco. Um país de "merdosos", como tão bem definiu José Miguel Júdice; de cobardolas, acrescento eu. Subservientes, respeituososinhos, delicadinhos, educadinhos, palavrosos quando não há nada para dizer e mudos quando há.

22.4.12

Amo-te, ou coisas verdadeiramente importantes

Fui googlar a expressão Amo-te, porque não queria falar dos dois whiskies que bebi assim que o whisky bar abriu, há mais de seis meses que não bebia um whisky - enfim, não é verdade, mas é quase - e souberam-me melhor do que me saberá a ginginha Sem Rival quando chegar a Lisboa, se um dia chegar.

Os resultados não foram grande coisa: um blog cuja epígrafe fala de nuvens e de problemas de identidade, um glossário (este tem uma certa utilidade, reconheço; mas não para mim, que sei dizer amo-te em todas as línguas de que necessito, por acaso agora uma só e - Deus é grande - a minha), outro blog; abandonei a pesquisa ao terceiro resultado, talvez quarto - havia um blog religioso que deu a versão latina, sem o hífen.

Acresce que preciso realmente de cortar o cabelo, o corte da Zélia, ou Hélia, não me lembro, vai para sete meses, não há penteado que resista.

Daqui a pouco vou jantar. Hoje à tarde pensei que ando a brincar aos barquinhos no recreio de uma creche; reconheço que é injusto. Quero dizer: ando, mas não há tanto tempo como pensei hoje à tarde. É só desde há uma semana ou duas, quando um dos armadores fez uma birra e fiquei sem dinheiro e hoje estou de novo sem dinheiro porque o mesmo armador se esqueceu de me pagar. Segunda-feira o filme continua, o recreio e os barquinhos são poucos dias.

Como havia Amo Te lembrei-me de Teresa de Ávila:

"La vida es una mala noche en una mala posada."
"Vivir la vida de tal suerte que viva quede en la muerte."
"No son buenos los extremos aunque sea en la virtud."
"It is foolish to think that we will enter heaven without entering into ourselves."

A minha favorita é a última, claro.

A dos extremos fez-me pensar em Blake:

"You never know what is enough unless you know what is more than enough."
"Exuberance is beauty."
"Always be ready to speak your mind, and a base man will avoid you."
"The tigers of wrath are wiser than the horses of instruction."
"He who desires, but acts not, breeds pestilence."

Antigamente não tinha muita paciência para místicos, mas agora não só tenho como até gosto. Porque não corro o risco de me tornar num, suponho.

21.4.12

25 de Novembro

Vem aí o 25 de Abril, uma data a celebrar, evidentemente. Só gostaria é que quem tanto a celebra pusesse o mesmo ardor numa outra que também nos livrou da ditadura. 

Complexidade, cores

O nível de complexidade que uma análisa esquerdista da realidade permite é bastante baixo. É como se reconhecesse só as cores primárias: amarelo, azul e vermelho (cores-pigmento, não vale a pena complicar muito). 

Surpresa

"Número de mulheres que repetem abortos tem aumentado".

Passará

A histeria passará, um dia. O pêndulo voltará inexoravelmente para o outro lado. O problema é saber quando.
"Esperemos que esta doideira do politicamente correcto passe ou em África os elefantes perderão terreno."

Vontades

Esperemos que a população de Oeiras não partilhe essa vontade.

"Moita Flores com “vontade” de presidir à Câmara de Oeiras"

Vida

A vida começou com um enorme confusão das mais variadas coisas. O amor, os sentimentos, as emoções, expectativas, dúvidas e angústias não faziam parte dessas coisas. A vida é confusa porque é vida, só.

20.4.12

O modelo nórdico

A ler.

Via O Insurgente. (Perdão pela redundância)

Ar

Ainda alguém liga ao que este homem diz?

E a vida?

"Seuls les esprits superficiels abordent une idée avec délicatesse", diz Cioran no seminal Syllogismes de l'Amertume. (Seminal porque foi o primeiro livro dele que li.)

O mesmo se poderia dizer da vida.

Um bocadinho de ar

"Autumn came. The clouded sky descended low upon the black contours of the hills; and the dead leaves danced in spiral whirls under naked trees, till the wind, sighing profoundly, laid them to rest in the hollows of bare valleys."

Joseph Conrad, in "The Idiots", ("The Nigger of the 'Narcissus' and Other Stories),  Penguin Classics 

18.4.12

Dumbo & dumbers

Uma verdade simples, a ler aqui.

17.4.12

A ler absolutamente

Aqui.

Mousse de banana e lima

Perdi a receita de Mousse de Banana e Lima. Esta é a que mais se aproxima.

Pois

"Subsídios: Pagamento em 12 meses pode subir salários"

E agora, que vão os doom sayers dizer?

15.4.12

Pequenos e inefáveis prazeres

Tal como adoro descobrir que algum dos meus muitos preconceitos está errado, gosto de ver o PS dizer coisas sensatas. 

«O deputado socialista Paulo Pisco questionou hoje o Governo sobre a cobrança da taxa de 7,5% de Imposto Municipal sobre Imóveis (IMI) aos portugueses residentes em Andorra, classificando a medida de "acto administrativo cego".» Esperemos que o deputado Paulo Pisco se lembre disto, quando o PS voltar ao governo (espero que não seja em breve, para não lhe cansar a memória).

Já agora...

...uma pergunta inocente: quantas das almas sensíveis (nada contra, atenção) que acham que o rei é um assassino e mais o diabo a quatro porque vai caçar elefantes são a favor do aborto?

Até que enfim!

Haja alguém que o diga. 

Porque hoje é domingo

"Com certa razão".

14.4.12

Vamos ao essencial, está bem?

Pobreza, demónios e o diabo a sete

Sou pobre (enfim, sou um teso) porque em mim coabitam uma série de qualidades e outra, diferente, de defeitos que juntas fazem uma série de demónios conhecida - justamente - por demónios da pobreza.

Pouca importa, na verdade. Já é tarde para mudar. Acresce que, alterando muito ligeiramente o mix se obtem o demónio (ou melhor, os demónios) da liberdade.

Não há melhores demónios, nem deus.

De que falamos quando falamos de função pública

Disto.

13.4.12

Para que serve a blogocoisa?

Para coisas como estas (no plural, os links para os posts externos são de seguir também).

Um polícia em cada carro, já!


Algumas verdades simples

Ser, serei

Às vezes tento não ser quem sou; outras, menos frequentes, ser quem não sou. Nunca funciona.

Não que seja muito melhor quando sou quem sou. Mas ao menos posso dizer "fui eu, sou eu, e serei sempre".

11.4.12

"Consegui fazer com que o meu experimentador me dê de comer quando eu quero"

O director de um jornal diz meia dúzia de idiotices, e meia dúzia de coisas que não são assim tão idiotas; são só discutíveis, quando muito. Não é a primeira vez, e não será decerto a última. Metade de blogocoisa inflama-se. É fácil fazê-la inflamar-se, é como carregar num botão.

Só não sei, nesta história, quem é mais idiota: se o manipulador se as marionettes.

Sem ti

Não sou escritor, ainda bem; seria uma chatice sem fim ter que escrever para viver, inventar palavras, emoções, fingir que se sente isso tudo e mais aquilo, aparecer nos jornais, preocupar-se com as críticas, ir aos cafés literários e aos desfiles de moda, falar com e para a "cena cultural", ter ideias, imaginar coisas, escrever. Nada disso. Escrevo porque me apetece, porque os teus seios são bonitos e estão longe, ou estão perto, porque te amo e te quero amar ainda mais, porque me esqueço disso tudo, porque sim. 

Escrevo porque gosto de onde estou ou porque não gosto, para não gostar de onde estou, escrevo porque onde estou me indifere completamente, porque quero estar no mar e não estou; escrevo para te dizer que te amo, porque beber faz mal ao fígado, porque tenho mau feitio e gosto dele, do feitio; escrevo porque quero, me apetece, me gusta, me gustas, tu e tu e tu, só tu.

Preciso de cortar o cabelo, de emagrecer, de me ir embora, de ti, de ir ao cinema, de ir ao teatro, de ir navegar, de fazer um viagem grande, dois meses no mar, três sem parar, vamos para as ilhas do Pacífico? Para o Mediterrâneo, essa merda de caldeirão? Para o Índico (hoje li que Sri Lanka vai fazer a primeira marina do oceano Índico, vê lá tu, qualquer dia até na Antártica há marinas e parques de estacionamento para pinguins). Podemos ir para onde quisermos, o mundo é nosso, basta que tenha mar e vento, o resto levamos nós - tu o sol eu as vagas, tu as palavras eu as vírgulas, tu o futuro eu o nada.

Em São Luís a água do mar é castanha, há muitos rios, a profundidade é pequena e o mar está cheio de areia e da lama que os rios trazem. Preciso de mar azul, transparente, turquesa, preciso de ti, marquesa, preciso de rimar mar com vida, o mar convida; e nós vamos para onde ele quiser. Que se foda o futuro, mulher, que se foda o destino, deixa-os a foder um com o outro, olha que par, o destino e o futuro. Je suis contre le destin, tout contre; et contre le temps. Je m'en fous du passé, du présent, de l'avenir. Fuck them all, SINE QUA NON ahoy, sine niente, ya ni parruski govario, talvez um dia possamos ir a Nakhodka para eu te ensinar a beber vodka como quem bebe aguinha; ou a diferença entre vodka e fodka, tão pequena.

Os meus cabelos caem como se achassem a minha cabeça indigna deles; já era tempo. Ainda se todas as barbeiras fossem como a Helga, ou Elsa, ou coisa que o valha, tão bonita que até eu de lá saí bonito; mas não são. Os meus cabelos são tão fracos que nem os piolhos lá querem estar.

Pouco me importam os piolhos. Prefiro a tua mão, as duas, as mamas que por vezes me esfregavas assim como se fosse por acaso enquanto eu apertava os sapatos e a cabeça ficava mesmo ao nível delas, lembras-te? Tu ainda nua, eu já vestido, sentado na cadeira do hall e tu ao meu lado, mamas na tola e eu a dizer-te "tenho de me ir embora" "pois tens" "então deixa-me ir" "vai" e eu mandava os sapatos para o raio que os partissem e voltava para a cama às vezes nem lá chegávamos era só desapertar a gravata e tirar o cinto e lá desaguavam os oceanos todos no tapete ou no sofá da sala ou onde calhasse. "Devíamos misturar os livros", dizias depois como se nada fosse contigo.

Nada nunca foi contigo até conheceres o mar, não é? Só agora percebes que o mar se está a marimbar no futuro e ainda mais no passado, o mar pega no tempo e dissolve-o, dá-lhe a volta, enrola-o como eu enrolava a mão nas tuas coxas e te olhava nos olhos para ver o resultado, não olhava para as coxas. O mar é assim pega em nós todos e olha para outro lado qualquer.

Era bom acariciar-te as coxas, repara, as virilhas, o polegar um bocadinho esticado para o meio, os olhos nos teus para ver se estava a ir bem.

É para te dizer estas coisas que escrevo, não para escrever. Escrever é uma seca, como um país sem mar, ou o mar sem vento. Já escrever-te é o contrário, é bom, posso falar-te da queda dos meus cabelos, parece que tenho uma catarata do Niagara seca na cabeça, dos piolhos que não tenho, das tuas coxas, do mundo todo onde elas vão passar e abrir-se para mim como o mar se abre para as proas dos navios.

"Il n'y a jamais assez de mer pour les visages aigus des bateaux" dizia le Clézio. "Il n'y a jamais assez de toi pour moi"; é menos bonito mas mais verdadeiro, não é? É. És. Um dia amar-nos-emos na primeira marina do Índico como nos amávamos no sofá da sala, porque o mar é nosso sofá, ou a nossa sala, como preferires, é-me igual, não percebo nada de metáforas nem de analogias, eufemismos, literatura, não percebo nada de nada se não de ti e do amor por ti.

São Luís cheira a mijo e seria uma cidade apaixonante, aposto que seria, se tivesse tempo e paciência para me apaixonar; não tenho. Nem quero ter, é isso o pior, não quero ter tempo para nada de que tu não faças parte. Porque sem ti não há tempo, não há nada, nem o vento parece vento nem o mar.

Escrever é ligeiramente menos egoísta do que amar e só tem uma vantagem sobre o amor: pode ser feito sem ti.

10.4.12

Simples / simplex

Como devemos partir da ideia que as pessoas não são idiotas (é um ponto ao qual se chega, infelizmente, muitas vezes; mas não do qual se deve partir) resta-nos confirmar aquilo que já sabíamos: o "choque tecnológico" tinha - como todos os choques de socratismo, de resto - uma forte componente amical.

9.4.12

E assim por diante

"O Governo não respeita quem trabalha", diz a senhora; dada a longa tradição de absoluta falta de respeito de função pública por aqueles para quem é suposto trabalhar, imagino que a senhora saiba do que está a falar.

Ou talvez não: função pública e trabalhar são duas coisas que não devem figurar juntas na mesma oração, a menos que haja uma negativa qualquer lá pelo meio.

(Com a habitual ressalva, claro: nem toda a FP é FP.)

Para que servem os blogues?

Para nos dar a conhecer coisas como esta, por exemplo.

 

(Directo daqui.)

4.4.12

A ler, como sempre

"Das convicções". Tanto o post de Priscila Rêgo como o de Pedro Magalhães que ela linka.

3.4.12

E que a força não lhe falte

Os FP e nós

Há três argumentos em favor dos funcionários públicos que raramente vejo utilizados e são, quanto a mim, os únicos que merecem um pouco de reflexão. 

(Antes, começo por dizer que funcionários públicos, aqui e daqui para a frente, são aqueles funcionários que nos infernizavam a vida porque faltava uma vírgula, porque a margem do requerimento não tinha 25 milímetros ou coisa que o valha (sim), etc. Não me refiro a professores, polícias, médicos que de uma forma geral fazem o seu trabalho correctamente.)

Primeiro: não são os FP que fazem as leis; eles limitam-se a aplicá-la, a maior parte das vezes mal e porcamente, sempre com a interpretação que mais prejudicava o público, é verdade. Mas o substracto legal não é culpa deles. Segundo: era preciso ser super-homem para resistir à tentação de ser um pequeno Hitler no ambiente de impunidade total que vigorava (creio que está a mudar; mas não sei se é wishful thinking). Terceiro: há crimes (o termo não é por acaso) em que a conivência da vítima também merece ser punida. Quando eu gritava, insultava, ameaça, observava, reclamava era muitas vezes criticado pelas outras pessoas que esperavam na "repartição", essa figura mítica da nossa vida. Quantas vezes não ouvi "você tem razão, mas não se pode dizer as coisas dessa maneira"?

Claro que estes argumentos são verdadeiros e justos; mas não justificam, de forma alguma, que se mantivesse intacta um monte de sanguessugas, piccoli dictatori, não raras vezes corruptos.

Só é pena que para isso sofram agora pessoas competentes e dedicadas. 

Senilidade

A senilidade é uma coisa triste.

Aquecimentos

"Os oceanos estão a ficar mais quentes há pelo menos um século". Ou seja, pouco depois de terem aparecido os hélices. Aposto que ainda se vai descobrir que o aquecimento foi provocado pela fricção deles (hélices) nela (água).

Ódio, limites

Ela odiava-o, não tanto por ele como pelas torpezas a que se rebaixara por causa do seu amor por ele. 

Detestamos alguém quando vemos nele aquilo de que em nós não gostamos; mas para verdadeiramente odiar é preciso fazermos o que não imaginamos possível, é preciso passar os nossos próprios limites.

Venham mais cinco?

O ex-Zaire, agora Congo, é o único país do mundo que consegue fazer de uma manifesto político (e inteligente, qui plus est) uma música excelente, dançável, linda.

Venham mais cinco? Sim, mas destes.

2.4.12

Reedição - a navel with a view

Por vezes sento-me na cidade e vejo-a passar por mim: a rua das Portas de Sto. Antão, com os vendedores de relógios e almanaques Borda d'Água, o Cais do Sodré e o relógio "invertido" do British Bar, as senhoras chiques da av. de Roma onde tão raramente vou, a vista sempre diferente do Miradouro de S. Pedro de Alcântara, o Princípe Real, provavelmente o bairro mais eclético de Lisboa. Passam por mim de fugida, como se eu não os reconhecesse ao primeiro esgar, como se pensassem que je ne suis pas d'ici, comme si j'étais d'ailleurs, comme si j'étais ailleurs.

Si un jour j'écrivais un livre sur Lisbonne je le ferais d'un point de vue caché, comme une caméra invisible, un nombril en mal d'amour, a wandering loner. Ca serait un livre avec de la musique, un livre sonore: les Vêpres de Rachmaninov en ouverture, les Carmina Burana en dessert et entre les deux un silence de merde, je crois, ou alors le bruit des pas de tous ces gens qui me rentrent par le nombril et se répandent en moi comme nous dans l'air du printemps de Baudoin.

Et dans ce livre je parlerais de la sensualité de la ville et je le dirai en plusieurs langues et plusieurs regards, universels comme les Vêpres, ou comme les Madrigaux de Gesualdo ou Marenzio, car Lisbonne est une ville qui se dissout dans l'humain*. Ou ao contrário, não sei: uma cidade na qual tudo o que é humano se dissolve, uma cidade que é tudo para todos, como uma puta da alta sociedade, que é simultaneamente puta e selecta, ou uma marquesa sem dinheiro, marquesa e tesa. Lisboa desfila à minha frente e se eu abrisse os olhos vê-la-ia, vivê-la-ia.

"Il y a dans certaines rues de cette ancienne capitale impériale des moments quasi magiques, des îlots d'un silence soudain, des lieux qui me transportent hors du temps, dans un monde vaguement en dehors des axes. Je ne connais pas d'autre ville où, sur si peu de mètres carrés, le réel et l'irréel, le vulgaire et le picaresque, le délirant et le ridicule, le beau et le monstrueux dans toute sa splendeur, ou le banal dans toute son horreur, se mélangent ainsi à chaque pas donné. Rien d'humain n'est étranger à Lisbonne, et elle n'a pas honte de le montrer."

(Almeida Faria, in "Les Européens", ed. Autrement)

1.4.12

E todos somos poucos

Em Portugal a relação do Estado com o povo nunca primou pelo respeito daquele por este; agora a coisa está a passar dos limites