31.10.12

Alucinações

Às vezes um gajo lê coisas e parece que está a sonhar, ou alucinado. E que tal aumentarem o custo do estacionamento, para dissuadir as pessoas de utilizar o automóvel? E usar o estacionamento para gerir o tráfego e não como fonte de receita? As "famílias" poupariam bastante.

30.10.12

Vergonha na cara

Os temas do dia em Espanha são dois, estes dias: os separatismos basco e catalão e o resgate financeiro. Os espanhóis deviam lembrar-se disto, da próxima vez que se lembrarem de dizer que Gibraltar é deles.

"O desporto na Constituição"

O post está muito bom, como de resto é marca da casa; mas há duas ou três coisas que podem ser respondidas.

"Marinas às moscas"? Há. É um prodígio da vontade - quando se sabe a falta de lugares de amarração que vai por essa Europa fora é preciso querer muito para ter lugares disponíveis nas marinas portuguesas. Mas estão longe de ser todas. Aliás assim de repente só me ocorrem duas. As outras têm taxas de ocupação mais do que decentes, graças a Deus e a quem as gere.

"Construída nos Estaleiros de Viana do Castelo"? Não, ponto final. Infelizmente. para se chegar ali não chega o dinheiro; é preciso tempo também, muito tempo.

PS - "Feíssimo"? Por acaso não acho, mas prontes, isso são opiniães. E sou pouco fan do homem e nada das iCoisas.

29.10.12

Intuição é uma palavra que engana muito, às vezes. Outras não

Não é preciso ser grande espingarda em economia para perceber que este artigo não diz a verdade, ou a conta mal contada. Basta abrir os olhos e olhar em volta. Mas isto da intuição é coisa que engana muito, e mais vale combater a mentira com factos e com saber, como faz Bruno Faria Lopes aqui.

É pena que não haja em Portugal jornalismo sério - ou há, mas é pouco - e não se faça um programa igualmente com Bruno Faria Lopes - não desfazendo, claro; que o Presidente de Câmara de Montalegre lá deu uma lição de vida a quem pensa que as dívidas são para gerir, e que o desenvolvimento só se consegue à custa delas.

É que isto de dar voz sistematicamente ao mesmo lado do disco provoca cansaço no público.

28.10.12

História

Alguém me consegue explicar em que é que o PEC IV era diferente dos PEC I, II e III?

27.10.12

Pontuações

Ficou portanto estabelecido, após um longo e solitário passeio, duas noites e três sopas que, dois pontos:

Grande espaço em branco.

Depois voltei à habitual vida. É por isso que gosto de decisões, mesmo assim repentinas. Reticências.

Talvez depois de amanhã tome outra, ou confirme esta; talvez.  Parágrafo.

Por agora vou aceitando passiva e tranquilamente as decisões que os outros travessão ou as coisas travessão tomam por mim. Dois pontos: um Ricard numa esplanada; sopa de grão com espinafres; batatas salteadas em sobrasada; outro longo passeio. Ponto. Nenhuma destas foi uma decisão minha, vírgula, embora alguém exterior abre parênteses um marciano, por exemplo fecha parênteses o pudesse pensar legitimamente que sim foram.

O tempo, por exemplo. Pausa.

Tão pouco é uma decisão minha. Dez doze nós de vento, temperatura amena a tender para o fresco, nebulosidade fraca - cumulus e (poucos) stratocumulus. Nada disto é decisão minha, embora aprecie e beneficie deste tempo outonal, agradável, sentado numa esplanada a beber Ricard afagado pelo vento, pelo fraterno vento.

De onde estou não consigo ver se é norte sul leste ou oeste. Vejo pelas nuvens: sudoeste. O vento segue as ruas; tão pouco é decisão dele a direcção.

Sudoeste. Reticências. Ainda bem que não estou a caminho de Gibraltar. Ponto final.

Devia haver pontos iniciais,  pontos intermédios e pontos suspensos nas páginas, entre as palavras. Devia haver pontos em três dimensões, como a vida; vírgulas repentinas, como algumas decisões; e pontos de exclamação como cada olhar de alegria; pontos de espanto, como a sorte; travessões como o tempo entre um passo e outro; parênteses largos como a vida para arrumar as sopas, os Ricard, as batatas salteadas, o amor, a felicidade.

E o mar, que agora está entre parênteses, vírgula, reticências, ponto de interrogação.

Evolução

A ideologia matava aos milhões; a ganância rouba aos milhões. Ela por ela, prefiro a ganância.

(Via Delito.)

26.10.12

Simples

Tudo começou por causa do vinho tinto, um vinho bom, muito bom e simples. Cada garrafa custa dois euros e sessenta e cinco cêntimos, na loja do mercado onde compro as sobreasadas (e hoje comprei também um chouriço, excelente). É o senhor, ou ele e outros quem faz os enchidos, bons, simples; hoje vi que tinha vinho e resolvi comprar (dois euros e sessenta e cinco cêntimos é o triplo do preço do vinho mais barato do supermercado, mas a verdade é que para beber nunca comprei nada, excepto Cava, claro, a menos de três euros, portanto pensei na minha cabeça em voz baixa "estás a poupar 35 cêntimos e se o vinho for uma merda sempre servirá para a cozinha, não pode ser pior do que o que compras a um euro e meio no supermercado).

Mas o vinho não era uma merda, muito antes bem pelo contrário, é um vinho porreiro, bom, leve, fresco, simples. O ataque é melhor do que a saída, vigoroso, o que é frequente nestes vinhos; e o vinho é vinho, vinho só, simples, bom, o que é menos frequente.

De maneira passei o dia a pensar (acontece raramente, pensar; já as cacofonias são mais frequentes) na simplicidade. Fui cortar o cabelo ainda a pensar na simplicidade, à Peluqeria Bualde, a qual fica mesmo atrás de nossa casa e é uma barbearia simples, clássica, barata. Não sou muito bom a apreciar cortes de cabelo, ainda menos os meus, mas à primeira vista parece-me uma merda, contrariamente ao vinho.

Só me lembro de uma vez - não é uma imagem, é matemática - uma em que me levantei da cadeira do barbeiro e gostei de me ver ao espelho. É essa vez que agora me serve de padrão para avaliar os cortes de cabelo. Foi em Lisboa e a senhora chamava-se Zélia, se não me engano. Era alta, loira, muito bonita, linda; mas não é por isso que o corte ficou bem. É porque ela sabe cortar cabelos, ou então naquele dia estava inspirada.

A última vez antes desta foi em São Luís. O corte de cabelo mais rápido da minha vida: demorou menos de três minutos; cinco, vá. Deve ter ficado bom, porque só o cortei outra vez hoje, seis meses depois. Mas nada que se compare com o da Zélia. Não me lembro é se o corte dela foi simples. Ficou bem e foi barato, como o vinho de hoje.

O corte de hoje não; mas interessa-me pouco, para dizer a verdade. De qualquer forma não se encontra uma Zélia em cada esquina; estou habituado a ter cortes de cabelo medíocres (além de que é praticamente impossível transformar um velho troglodita como eu numa coisa visualmente apelativa, mas isso é outra história).

No Lizarrán a comida também é simples, boa e barata. E o ambiente é óptimo, festivo. No outro dia fui comer pintxos a um restaurante que não conhecia, chamado Origenes, em Santa Catalina. Eram uma maravilha, sobretudo o primeiro, de magret de cannard, e o último, de bacalhau confitado com tomate seco. Mas não eram simples, eram sofisticados, pensados, procurados.

Na verdade não há qualquer relação entre a simplicidade e a qualidade. São variáveis independentes. Nunca amei nenhuma mulher simples, por exemplo. Mas todas as que amei tinham qualidade, muita; e qualidades, claro.

A vida é uma coisa simples que nós passamos o tempo a tentar complicar. É por isso que a simplicidade é tão atraente (pelo menos a mim atrai, e muito - desde que não seja nas pessoas, é certo; e na música. Não gosto de música simples).

Mas gostei daquele vinho, tão simples, tão bom; gosto de algumas amizades - enfim, de todas: a amizade ou é simples ou não é amizade. Nunca tive amores simples; não sei como são. Já tentei várias vezes e nunca consegui. (Ainda bem.)

25.10.12

Romantismos III

Nem todos os romantismos são piegas.

Romantismos II

Para a série O romantismo de uns não é o romantismo de outros (acreditem se quiserem, mas este video está no tubo há pouco tempo).

Romantismos

O romantismo de uns não é o romantisnmo de outros.



(Um dia ouvi isto com uma letra em inglês e juro que é uma grande canção.)

24.10.12

Carta aberta a Palma de Maiorca

Minha querida Palma de Maiorca,

Sabes que te amo, e muito. Gostaria de ter nascido aqui, de ter conhecido as tuas ruas desde miúdo, de me ter banhado nas tuas águas e percorrido os teus montes a pé, de bicicleta, sozinho ou com o maior amor da minha vida.

Chega porém um momento em todos os amores, por mais amantes que os amantes sejam, no qual a separação é inevitável. Não por tua causa, ou minha, por causa de nada ou de ninguém. Simplesmente a ordem natural das coisas. Uma vida não é feita de alegrias só; contém também algumas separações (como se as separações fossem a única fonte da dor; não são, tu sabe-lo melhor do que ninguém).

Não és a única a dizer-me que o amor não chega. É preciso algo mais. Tens razão. O amor sem um bocadinho de dor, sem um bocadinho de distância, de separação, de - numa palavra - passado não existe, não faz sentido. O amor precisa de tempo (um sinónimo de passado, como sabes) para se reencontrar, encher ou perceber.

Uma vida, minha querida Palma, é feita de passados; e quem to diz é um amoroso de futuros, um gajo que pensa no futuro como alguns coxos na perna que perderam, o mar na praia na qual vai repousar, finalmente, a luz no dia que aí vem.

Mas eu tenho um passado em Antigua (tenho muitos em todo o lado, mas isso é outra história, agora não interessa); e Antigua chama-me como tu me chamaste há uns meses. Antigua chama-me; dói-me.

Não sei quanto tempo vai durar esta dor, ou este chamamento. Mas isso não é importante, pois não? O tempo é um falso curandeiro, dizia Malcolm Lowry, que percebia de curas e curandeiros como ninguém.

Eu acrescento: e uma falsa medida. O tempo não mede nada.  A única medida válida, Palma, é a intensidade. A verdade, se preferires.

E tu foste a minha verdade todos estes dias, estas semanas, estes meses. Antigua é a próxima verdade (que sorte saber o que aí vem, para onde vou. É raro).

II
Claro que podes dizer-me "gostas de Antigua porque entre mim e ela há o mar. É  mar que procuras, não Antigua; eu tenho mar também".

É verdade que preciso do mar. Tanto quanto pecisei de ti quando aqui cheguei. Sem a terra o mar é nada, sem o mar a terra não acaba nunca, é uma chatice sem fim. Sem o dia de que vale a noite, sem a noite para que serve o dia? Felicidade que não conheceu a dor é mulher que morre virgem, santo sem milagre, vinho sem copo.

III
Preciso de mar. Preciso de Antigua. Precisei de ti, Palma. Espero que compreendas e me desculpes. 

"Mudar a alma"

23.10.12

Vida, um dia

Um dia passarei os dias deitado numa cadeira de repouso a beber whisky e a ouvir a 9ª de Bruckner, as Vésperas de Rachmaninov, o Bolero de Ravel (perdão pela banalidade), tudo pelo Gould, tudo da Hildegarde, Le Voyage Imaginaire de (ou melhor, por) Maria João Pires e mais meia dúzia de coisas que agora não me ocorrem e chamarei vida a isso. E será uma vida boa, seja Deus louvado.

Civilização

Porque é que os processos de independência da Escócia, da Catalunha e do País Basco são tão diferentes?

Lição

Começar por ensinar-te que ter feitio, carácter, personalidade ou o que quer que seja que uses como sinónimo de ser tem um preço; e que esse preço é elevado. Impossível saber quanto, mas é melhor sabê-lo de antemão. E estar preparado.

Continuar por dizer-te que há cumes e abismos; o que lhes está entre é desinteressante, quase inútil.

Terminar dizendo-te que tudo isto parece simples; mas foram necessários muitos anos, muitas vidas para o aprender. E todos os dias precisarás de rever a matéria dada.

(Dada é mentira.)

22.10.12

Lasciate ogni speranza, voi che entrate

"Queremos a nossa vida de volta"

Não sei exactamente a que vida se referem as pessoas que recentemente se uniram para manifestar publicamente "queremos a nossa vida de volta". Suponho que seja a vida antes da entrada de Portugal na União Europeia, porque se por desgraça o governo decidisse ouvi-las seria a essa que regressaríamos em menos de um fósforo.

Eu lembro-me dessa vida: de ter que trocar dinheiro a cada fronteira, de ter ido para França por Andorra porque era mais "fácil" (em Hendaia corria-se o sério risco de não se poder entrar e ser recambiado), de ter que comprar bilhetes de ida e volta para ir à casa de banho, de ter que explicar que não, não tinha papéis cada vez que queria trabalhar num lado qualquer e aceitar salários em consequência.

Também me lembro de quando em Portugal não havia supermercados (havia o Pão de Açúcar: pelos standards de hoje, e da época "lá fora" seriam pouco mais do que lojas de bairro); era preciso licença militar para sair do país; as casas de banho dos restaurantes eram infectas; levantar um cheque num banco demorava uma ou duas horas; as taxas de juro chegaram aos 36%; era proibido "exportar" divisas - o que significa que se passava a vida a comprá-las no mercado negro -; levava-se seis horas para ir de Lisboa ao Porto; havia um canal na televisão (e tínhamos que levar com o Vasco Gonçalves, mas isso é outra história).

Este Portugal, que conheci em Setembro de 1974 pouco mudou (excepto politicamente, claro) até 1986, data da entrada na então Comunidade Europeia. Já havíamos passado por duas falências (1977 e 1983); muita gente, entre a qual me incluía, pensou que com a "Europa" o desvaria acabaria.

Não acabou, infelizmente; e a experiência diz-me que provavelmente não acabará nunca. Mas mesmo assim eu não quero a minha vida de volta. Quero poder continuar a andar por onde muito bem me dá na telha, entrar em França, Reino Unido, Espanha, Suíça, Holanda qualquer que seja a quantidade de dinheiro que levo no bolso (é sempre muito pouco), trabalhar onde houver trabalho e não quero pagar comissões estúpidas a tipos cujo trabalho consiste em receber as minhas notas e dar-me outras.

Não quero voltar a ouvir o Mário Soares nem ganhar contos de réis. Quem quiser a sua antiga vida de volta pode ir para África ou deliciar-se com as patetices do velho (é quase a mesma coisa).

Adenda - dispensaria duas ou três coisas da "Europa"? Sim, sem dúvida; duas ou três.

20.10.12

Vacas sagradas

Gosto muito de vacas iconoclastas.  As sagradas chateiam-me.

19.10.12

Cretinices, abismos

O poster que anda por aí a circular com um apelo a uma recepção a Angela Merkel é de uma cretinice tão grande, tão abissal, tão perfeita que se um dia houver um museu da cretinice ele figuraria de certeza logo na entrada, em lugar de destaque.

Diz o seguinte, sobre um fundo de Angela Merkel sorridente, em uniforme nazi e a fazer a saudação:

a) "Portugal, 12 de Novembro" - em fonte gótica, para que todos nos apercebamos bem do que se está a falar, não fosse escapar-nos;

b) "Vamos todos mandá-la à Merkel" - o jogo de palavras é fino, subtil, engraçadíssimo;

c) "Organiza-te" - dia 12 é uma segunda-feira e vai ser preciso faltar ao trabalho.

O melhor, claro, é a fotografia. A diferença entre Angela Merkel e um nazi é tão abissal como a cretinice do poster, pelo que até os cretinos que o fizeram e divulgam se devem aperceber dela. Posso estar enganado, mas algo me diz que essas pessoas saltariam indignadas - indignadíssimas - se alguém chamar escarumba a um preto, gordo a um obeso, maricas a um gay e puta a meia dúzia de senhoras que, coitadas. Mas chamar nazi a alguém que manifestamente não o é é permitido. Tal como ser palerma, de resto.

17.10.12

Un nom, pas plus qu'un nom

Não é todos os dias que cito o Jugular para dizer concordo inteiramente. Enfim, inteiramente não: seria preciso substituir um pequeníssimo pormenor no último parágrafo (um nome, só um nome). Mas tudo o resto está correcto, très correct (descontando o título do post, revela uma certa e habitual confusão, mas isso é irrelevante).

16.10.12

O país imaginário - 2

Este é o partido que convidou Judas para se candidatar à Câmara de Cascais?

O país imaginário

Ao mesmo tempo que isto acontece um idiota queixa-se de ver a sua dignidade diminuida por não andar num automóvel de luxo.

Esperemos que seja inútil, tanto vozear

"Ninguém faz nada"? Puxa, que falta de auto-consideração, tão rara. O homem ainda não parou de ladrar, a ele já se juntou a habitual matilha, e ninguém faz nada? O que é que ele quer mais? Cocktails molotov?

15.10.12

Cais das Colunas, 2008





Outro fim


(Fim)









(Cont.)





Mais do mesmo






Mais roupa, e mais velha






Genève e Versoix
(Não me tinha apercebido de que as digitalizações estavam tão mal feitas.)

Roupa velha (cont.)








Genève, 2001 (Fête du 1er Août)

Roupa velha





Lisboa, Dezembro de 2008

Haverão, não haverão?

Ou eu muito me engano ou alguém vai explodir com este título.

Coerência republicana

Mário Soares, que tanta repugnância tem pelo governo e acha que ele está a conduzir o país à desgraça devia ser coerente e recusar estes fundos.

Coluna Infame

Subscrevo palavra por palavra.

(Via Lourenço Cordeiro)

Lições e lições

Os partidos em Portugal não são organizações que servem para aglutinar pessoas que propõem soluções mais ou menos semelhantes, ou próximas, para o governo do país. São máquinas cujo único objectivo é ganhar eleições, sendo que esse fim justifica que não se governe - se governar exigir medidas impopulares - nem se deixe governar (idem).

Claro que se poderia perguntar porque é assim. Mas seria uma pergunta inútil, retórica. Todos sabemos porquê.

Adenda - mais um.

14.10.12

Noite, vidas

Um gajo passeia à noite sozinho por ruas das quais não é; ou seja, as ruas, a cidade não são as dele. Pergunta-se se a sua vida é como essa cidade, se os passos que dá na vida lhe são tão estranhos como os que dá nas ruas quase vazias à noite, e o fazem pensar que em breve estará noutra cidade, noutras ruas, noutra vida. 

Uma vida fractal, uma vida de vidas, a quem o gajo que à noite passeia nas ruas é indiferente. As cidades não se preocupam muito com quem as percorre, tal como a vida com quem a vive. Já não está calor, mas ainda não está frio; a vida está entre duas vidas, duas estações, duas noites, dois passos nas ruas quase desertas.

Um fractal, uma vida entre vidas, um tempo entre tempos, uma noite entre noites: um homem faz-se passo a passo e só está feito quando dá o último.

II
A esperança não é para aqui chamada, nem a felicidade, nem o passado, a memória, o esquecimento, o medo. A vida está-se nas tintas para isso tudo, nada disso lhe interessa, são sombras, ersatz, irrelevâncias. Nada se não o homem e os passos que dá, as ruas que percorre, as cidades que deixa e aquelas para onde vai.

A noite, a vida e um passo.  

Desditos portugueses

Coração quer alho.

Telhados de vidro

Talvez no fundo a razão da "incapacidade" de reformar esteja aqui: ninguém vai para o governo sem telhados de vidro.

Impressão

É impressão minha ou José Pacheco Pereira está cada vez mais ansioso? Não deixa de ser curioso ver que aquela parte do PSD que contribuiu em muito para a situação actual (Cavaco incluído) não pára de atirar a quem, mal ou bem, vai pelo menos tentando endireitar o que nasceu torto.

O homem está a fazer erros? Está. Mas bolas, pelo menos que o seu próprio partido o deixe governar até ao fim. É realmente durante as crises que se vê o que são as pessoas, e esta está a destapar a careca a muitas delas.

13.10.12

Genève estuda uma baixa de impostos para empresas

"Avec son projet d’un taux unique d’imposition des personnes morales de 13%, contre 15% à Neuchâtel, Genève se lance-t-il dans la sous-enchère fiscale tant redoutée par certains?"

O link é só para assinantes, infelizmente. Mas a notícia é interessante. Inclusivamente pelo "tão receada por alguns".

(Para quem não sabe Genéve é um cantão socialista, com taxas fiscais elevadíssimas).

Tempo

Uma boa forma de passar o tempo é passar com ele.

Utilidades

Este dicionário de especiarias é muito útil. Muito, mesmo.

"O nosso problema não é de milhares de euros"?

Claro que não. É de atitude. E enquanto a nossa classe política não mudar de atitude ninguém vai sequer começar a querer ouvir falar de "cenários macro". É por isso que se devia ter começado por cortar a fundo nas mordomias - automóveis, subsídios de renda, refeições quase gratuitas, fundações (o que se fez veio tarde e pouco) -. A poupança não teria sido significativa? Não. Mas a cama estaria feita.

As pessoas que beneficiam dessas regalias encaram-nas como naturais; não se apercebem de que são um luxo, uma sorte, um privilégio; e sobretudo, pagos por outrém. É essa atitude que é preciso mudar. 

Enfim, tentar mudar.  

12.10.12

Planos, e um conselho

É tarde. Estou cheio de planos: ir deitar-me; encontrar um embarque; emagrecer; aprender a escrever coisas de jeito; aprender a tirar fotografias de jeito; correr os cem metros barreiras em menos de uma hora; e assim por diante. Tudo praticamente irrealizável, excepto talvez o primeiro e o segundo.

É preciso ter planos na vida - you have to have a plan, if you want to be able not to follow it -; mas não devem ser tão complicados.

Acabo por pedir mais um Túnel, no Antiquari. É preciso saber não respeitar os planos. Uma vez neste blog descrevi a minha vida (ou terá sido outra?) como uma casa da qual o arquitecto tivesse feito os planos depois de construída.

(Aconselho a versão Secas, no máximo Mezcladas. Dulces fica muito aquém da verdade.)

11.10.12

Uma (grande) receita improvisada - galinha com pera-abacate

[Começo por pedir desculpa pela imodéstia. O qualificativo, apesar de entre parênteses, é resultado da exultação, do entusiasmo, da surpresa - todas reais - e não da soberba, de que felizmente não sofro.

Os quais entusiasmo, exultação e surpresa nasceram de dois dramas tão existenciais como quotidianos: a) que vou fazer para o almoço?, e b) que vou fazer para o almoço quando o banco começa a dar pré-avisos de greve?

Ia a caminho do supermercado quando bati de frente na ideia: galinha com pera-abacate, das quais tinha duas em casa; e o frango é barato, bem aproveitadinhos quatro euros dão para o dobro de refeições, se sefor criativo e tiver um congelador em casa.

Galinha com pera abacate! Sinto-me um Arquimedes a sair da banheira.

Infelizmente entre a galinha e a pera-abacate da ideia original meteram-se cebolas a mais, e cenoura; e a pera abacate que tinha em casa estava menos madura do que eu pensava. Mas vai voltar à berlinda, a dita ideia.

Contudo, porém, manda a verdade que se diga que não estava mau, o resultado derivado. Amanhã estará decerto melhor.] 

Comecei por saisir o frango a fogo vivo; na mesma gordura uma cebola grande mal cortada em rodelas; depois - estou pelas frigideiras separadas, estes dias - cenouras às rodelas.

Quando estava tudo douradinho misturei numa panela, juntei uma lata de tomate (e meio pacote de gazpacho) deixei ferver um bocadinho e temperei: rosmaninho, pimenta preta - muita -, cominhos - idem -, piripiri, orégãos. Mais um bocadinho de calor e foi a vez do cava.

[Isto de cozinhar sistematicamente com cava tem que se lhe diga. Para começar, é bom de mais, e pôr quase uma garrafa numa panela em vez de num copo às vezes dói; por outro é baratíssimo e pergunto-me como farei, quando deixar estas paragens.]

Enfim, a coisa lá foi cozendo, devagarinho, delicadamente. Quase no fim (isto é, meia hora antes) juntei-lhe duas boas mãos cheias de espinafres. Comi com arroz integral e estava bom. Amanhã estará melhor. E quando fizer a ideia original estará melhor ainda, aposto.

A esquerda e os factos

A esquerda tem um problema intelectual fácil de perceber mas difícil de tratar (se fosse fácil não haveria esquerda, qed): a relação com os factos.

Para uma pessoa de direita uma asserção é discutida, comentada, aprovada ou não pelo que diz:  Salazar era um governante honesto. Uma pessoa de direita ouve isto e pensa: é verdade? É falso? Sim ou não?

Perante tal afirmação uma pessoa de esquerda começa por pensar que se está a defender o salazarismo.  Depois a máquina embala-se e em menos de nada somos fassistas. Não somos, claro. Um governante pode ser honesto (como Salazar), ser uma desgraça para o país (idem) e não ser fassista (ibidem).

Outro dos problemas da esquerda com a realidade é que a toma em bloco: o mundo esquerdista é digital. Zero ou um. Nada entra zero e um. Salazar foi uma desgraça para o país? Sim. Mas. Três mas:

- Foi uma consequência mais ou menos inevitável do que vinha de trás (poucas nações se suicidam e quando estão em situações difíceis tendem a encontrar soluções drásticas. Salazar em Portugal, Franco em Espanha, um genocídio no Rwanda são coisas que me vêm ao espírito assim de repente, salvas claro as devidas proporções);

- A maioria da população portuguesa apoiava-o. É uma sorte ele não ter organizado eleições, porque tê-las-ia ganho todas;

- Durante muitos anos as alterativas a Salazar não eram muito melhores do que ele.

Dizer isto não faz de quem o diz um salazarista. Excepto, claro, se estiver a falar com uma pessoa de esquerda. Infelizmente não sou cientista político nem psicólogo e não consigo explicar porquê.

10.10.12

Fealdade, palavras

Cada vez suporto menos a fealdade. Porque será? (Abro uma excepção para o poema aí de baixo, que é fraquinho, eu sei. Mas como não sou poeta profissional e também feio feio não é, é só fraquinho, que se lixe).

Não deve ser da idade, que nos habitua a ver tanta coisa e tanta gente feia; nem da felicidade, que hoje está um bocadinho melancólica; nem da melancolia, porque não é só hoje. Gente feia, a cuspir fealdade, a ver fealdade, a criar fealdade...

Porra, mandai as palavras para o lupanar de onde nunca deviam ter saído (elas, as palavras).

8.10.12

Terra

Tu és a terra; eu sou o fruto e bebo
da fonte directamente,
até que o incêndio se ateie e o
grito afaste a morte.

Gosto desta imagem: a planície,
uma fonte, um incêndio que alastra
célere, urgente;
abutres assustados.

Da convivência diária com a sede
aprendi o calor, o fogo, a luz,
a simples, irrefutável urgência.

Tu és a terra.

(Para a T. com amor, carinho, ternura e essas mariquices todas)

Roupagens

A negaçao permanente está para a sabedoria como a roupa larga para um corpo gordo: ambas servem para esconder defeitos.

5.10.12

Almoço improvisado (e jantar)

Para quem vive em Portugal - ou melhor, para quem nao vive em Palma - encontrar sobreasada nao sera provavelmente fácil. Talvez o Corte Inglés tenha, nao sei.

A ideia inicial era fazer um almoço simples em torno de dois sabores fortes: o gengibre (no salmao) e o rosmaninho (nas batatas). Mas o forno nao estava a funcionar e em vez de assar os tubérculos do senhor Parmentier numa travessa de barro com azeite, muito rosmaninho e três ou quatro dentes de alho (en chemise, que isto agora anda prude) fritei-os na frigideira, acrescentando meia sobreasada a tudo o que estava na travessa.

A qual sobreasada é um enchido feito com carne de porco, pimentao e muitas mais coisas que podem ver aqui, especialidade das Baleares e que por si só justifica uma viagem ao arquipélago, e uma longa estadia.

O resultado foi uma explosao de sabores, passe o cliché. Uma explosao boa, sensual, rica, gulosa, mulata; e páro aqui para nao descambar, que isto agora anda prude.

É cedo de mais para falar no jantar: ainda está ao lume. Comecei por saltear um bocado de toucinho cru, pimento verde (dos de Maiorca, nao os habituais), cebola picada, meio pimento encarnado, um pouco de aipo, um tomate, uma beringela - tudo isto separadamente e em lume forte - e por fim um belo naco de carne de guisar.

Depois pus tudo no lume muito fraco, em vinho tinto e com pimentao doce, rosmaninho, orégaos e pimenta preta como especiarias. Ficou a burburinhar, fui beber um Hierbas Tunel (ou aqui) e vim escrever disparates no locutorio onde tenho de vir escrevê-los enquanto o meu computador estiver na sua forçada greve de fome.

Verdade seja dita que nao venho só escrevê-los: também os leio, e muitos.

Fortunas, estupidez

Há várias maneiras de dilapidar fortunas. Por estupidez é a única forma inaceitável de o fazer.

3.10.12

Pai

Este senhor gosta de se apresentar como o pai da pátria. Depois há quem se admire...

"O dinheiro fabrica-se quando é preciso".

(Para não mencionar a ironia de o ver a defender políticas financeiras dos EUA, país que não é, portanto, neoliberal - Ámen. Cruzes canhoto. Vade retro. Santinho).

2.10.12

Amor, amizade

Gosto de amizades femininas. Poupam-nos o amor, uma bênção.

Pergunta

Aquele velho e honorável princípio "antes fazer mal do que deitar fora" também se aplica ao gin tónico quando (ou seja sempre) sobra água tónica e falta gin?

Amar, Holanda

Amar-te eu como o mar a terra, na Holanda.