28.11.12

América, América

Porque é que nos Estados Unidos a venda de armas - cujo objectivo é fazer mal a terceiros - é livre e a venda de drogas - que só fazem mal a quem as compra - não?

27.11.12

Em louvor da idade

A partir de certa idade um gajo sabe o que espera de uma relação. Não é muito: o amor já foi reinventado milhões de vezes e nenhuma delas serviu para grande coisa se não para vender livros, filmes, peças de teatro e fazer crer a alguns jovens mais ou menos desprevenidos que são únicos.

Tão pouco espera grande coisa do mundo: já foi refeito milhões de vezes e continua sendo o que lhe dá na real (ou republicana, ou caótica, ou ditatorial) gana. Mudá-lo proporcionou, é certo, algumas noites de magníficas conversas, muitos copos, alguns manifestos, muita esperança; mas bombas, também, violências, milhões de mortos.

Mais vale deixar o mundo como está e tentar, se for absolutamente imprescindível, mudar algumas coisas que nos estão próximas. O mesmo com o amor: ir fazendo de conta que ele existe; e aproveitar o que fica para lá dele, que é muito mais, e muito mais importante.

26.11.12

Jantar improvisado - Peixe no forno com presunto e pimento verde

Não sei se comece por dizer que o pimento verde a que o título se refere é o pimento de Maiorca, mais suave e infinitamente melhor do que o pimento verde habitual. Ou se por falar no peixe: dois lombos de tamboril congelado e rasca, que poor causa disso, e só por causa disso foram salpicados de sal, cobertos de rodelas de limão e aspergidos com um bocadinho de sumo dos ditos e assim ficaram de um dia para o outro.

Fosse o tamboril tamboril e fresco e dispensava o limão, ou pelo menos durante tanto tempo.

Depois foi muito fácil: o nosso supermercado vende uns presuntos das patas dianteiras do porco a preços ligeiramente inferiores aos da uva mijona, sendo o sabor praticamente o mesmo (do presunto normal, não da uva mijona). Já vem cortado em rodelas (muito largas) e tudo.

No tabuleiro de ir ao forno pus azeite, o peixe, as rodelas de limão e uma cebola idem, o pimento verde de Mallorca; ao lado, o presunto, com a pele e gordura. Ficou no forno "até o peixe estar cozido" (com aspas porque cito a minha Mãe, para quem os tempos de cozedura fosse do que fosse era "até estar cozido").

De um mau peixe não se consegue fazer um bom, é como sei lá com as bananas, os sapatos ou as gravatas; mas consegue-se pelo menos disfarçar. E a verdade é que este prato merece ser recordado para um dia que tenha presunto e peixe bons; já que pimentos de Mallorca não terei pelo menos por alguns meses.

24.11.12

Qualidade

Escrever é isto.

Apartheid 3

"Uma África do Sul democraticamente pobre" traz-me à mente uma pergunta: será que todos são pobres, nessa África do Sul que aí vem? O apartheid era odioso; o sistema que aí vem não será muito melhor. O círculo do optimismo é muito reduzido.

Apartheid 2

Obviamente, é preferível uma África do Sul democraticamente pobre a outra rica devido ao apartheid. Sobretudo para quem não vive lá.

O que nos levaria a pensar o que a maioria dos sul-africanos teria feito se soubesse no que a ANC se iria tornar. Mas isso é irrelevante: na História não há condicional.

Apartheid

O apartheid foi um regime odioso. Mas manteve-se durante tanto tempo por razões políticas, nada tinha a ver com as raças. Daqui a vinte anos, quando a África do Sul for um país africano como os outros, as pessoas aperceber-se-ão, finalmente, disso.

Razões

De todas as razões que fazem um casal manter-se unido há duas particular e igualmente poderosas: o dinheiro e o trabalho que daria manterem-se separados.

23.11.12

Viajar - 2

Para viajar com olhos de ver o ideal seria não saber ler, não ter memória, ser surdo. Ter sido cego antes de cada viagem, quase.

Paradoxo

Amar alguém é amar-lhe os defeitos. Quanto maiores ou mais detestáveis estes forem maior o amor.

Viajar

Tenho viajado muito, é verdade. Mas raramente sozinho: a maioria das vezes vou comigo.

Ideias ladradas

A falta de cultura do debate em Portugal é aflitiva; a divergência de opiniões é vista quase como um insulto. É provavelmente por isso que o debate político tem o nível que tem: cães a latir uns aos outros exprimem mais ideias do que dois bloggers portugueses com opiniões diferentes sobre qualquer coisa. 

(Matilhas... O caso de Isabel Jonet faz-me pensar em matilhas de cães a ladrar.)

Escutar a RTP

Num país em que toda a gente escuta toda a gente a RTP não pode dar os brutos de selvagens a apedrejar a polícia e a destruir propriedade privada?

Não estão longe

Um gajo vê europeus defender os palestinianos - esses faróis dos direitos humanos, dos direitos dos gays, mulheres e das crianças, da lei e da ordem, da tolerância e da liberdade de expressão, garantes da paz doméstica, defensores do estado social e de tudo aquilo por que a Europa tem lutado - e não pode impedir de lembrar-se que o comunismo e o nazismo nasceram aqui, nesta Europa. E, sobretudo, que não estão longe.

22.11.12

Ele há gates e gates.

Devia haver um certo sentido da medida. Recentemente vi "Jonetgate" escrito já não sei onde. A coisa pareceu-me tão absurda que nem os ombros encolhi. Hoje, no Conciso, vejo "RTPgate". Bolas, já há muito deixámos de pedir a quem escreve nos jornais que saiba escrever; depois deixámos de lhes pedir um mínimo de cultura; vamos ter que abandonar o bom senso também?

21.11.12

"É tempo de pagar o que se recebeu"

Este video é impagável. É caso para citar a Ana Vidal: "O mundo é de quem o reinventa"!



(Via Domadora de Camaleões)

"As mentes brilhantes do crescimento económico"

Mais um desafio para a Jugular School of Arts: explicar que toda a gente, incluindo claro o presidente da Ryanair está enganada; e porquê.

Arrogância

A arrogância é uma arma de dois bicos: inquina a inteligência, exacerba a estupidez.

20.11.12

Calvinologia

- Look, Hobbes, I got a paint-by-numbers kit. It's really fun.
- But you're not painting in the lines and you're not using the colors that correspond to the numbers.

- If I did that I'd get the picture they show on the box!
- Ah!

18.11.12

Diálogos exemplares

- Dói-me a cabeça da pila.
- Não sabia que agora fazias redundâncias.

17.11.12

M.

Prologue
L'autre jour j'eus une violente, soudaine et irréparable envie de M., comme un coup de foudre dans un paratonerre.

Espiègle et coquette, M. a des grands cheveux noirs, deux grands yeux amandés, deux grands seins qu'elle porte avec une nonchalance apparente et en fait avec beaucoup de soin. Elle les enveloppe dans les soutiens-gorge d'un magasin de la specialité de notre ville, où elle se fait servir par les deux propriétaires de l'établissement, les employées n'en étant pas, à son avis, suffisamment fournies.

M. dormait les yeux ouverts, sa grande chevelure étalée sur le coussin, son regard étalé dans le vide, ses seins pendus, l'un de chaque côté du corps, satisfaits et rassaciés. Je la laissais s'endormir et partais - je n'aime pas partager mon réveil, le moment le plus intime de la journée.

En realité je n'aime pas partager mes journées, ni ma vie. De temps en temps je partage mes envies prennantes avec M., qui les accepte apparemment avec plaisir - je ne crois jamais sérieusement aux soupirs de femmes, vu l'extrême facilité qu'elles ont à les feindre; ni à leurs spasmes, pour la même raison.

Après je m'en vais. J'ai ma vie, de laquelle je ne me plains point; de temps en temps elle croise celle de M., ses soutiens-gorge, ses sourires, ses phrases dites en riant comme si chaque mot avait un deuxième sens et moi l'obligation de le comprendre.

Ele ne me pose jamais de questions, ne me demande pas où vais-je quand je la quitte, d'où viens-je quand je la retrouve;  moi non plus, je ne lui pose pas de questions: je sais qu'elle écrit dans un journal de mode, qu'elle aime le théatre et pas le cinéma, qu'elle apprécie les fleurs que je lui améne si par hasard le magasin de fleurs près de mon hôtel est ouvert.

I
Je ne sais pas si vous connaissez Lisbonne. “C’est une ville de contrastes”, disent les autorités touristiques. Elles ont raison, pour une fois. Lisbonne est un ville de contrastes: entre les magnifiques monuments et les maisons à l’abandon (il y a environ 4200 bâtiments nécessitant une réhabilitation, dit la mairie); entre les rues, belles, pavées, et l’impossibilité quasi totale de les parcourir en marchant, car les trottoirs sont pleins de voitures (et si l’on a une poussette l’impossibilité devient totale); entre la lumière, superbe comme dans toutes les villes baignées par la mer (ou un fleuve, dans ce cas) et les odeurs de pisse, d’ordures et de merde de chien. Les contrastes pourraient continuer ad infinitum. On s’en fout.

La civilisation est simplement un synonyme de police efficace. Mettez un policier entre chaque groupe de x centaines, ou x milliers de personnes; donnez-lui les moyens d’effectuer son travail correctement – et vous aurez une ville civilisée. En revanche, si votre policier est plutôt un boy-scout, “ami” de la population, dans le meilleur des cas; ou un corrompu, dans le plus commun, vous n’aurez point de civilisation.

Lisbonne n’est pas une ville civilisée; mais c’est une ville adorable – en part car elle n’est pas civilisée, en part malgré cela. J’y ai un appartement, cadeau de mon père le jour où j’ai reçu mon diplôme à l’Uni. Il est dans le quartier de la ville que je préfère, celui de Príncipe Real. J’ai une vue sur le Tage, je suis à proximité de tout et loin du bruit; j’ai de bons restaurants, un marché de produits “biologiques” (je ne sais pas ce que sont des produits alimentaires non biologiques; jamais vu une tomate en béton dans ma casserole, par exemple; ou du riz en fer forgé. Mais la désignation a pris, hommage à l’irrationalité collective d’une espèce qui se croit rationnelle et parfois parvient à faire croire qu’elle l’est).

Je ne suis pas souvent à Lisbonne et je loue l’appartement à des étrangers de passage. Si je viens pour une fin-de-semaine je descends à l’hôtel; si je reste plus longtemps j’attends que mes locataires partent et je prends mon espace comme si c’était une maison de vacances, une maison dont les objets me sont familiers mais qui n’est pas la mienne.

C’est le cas maintenant: je suis ici pour trois mois.

Lisbonne fût jadis la capitale d’un empire; je me demande aujourd’hui si elle n’est plutôt une capitale de province: on y vit comme dans un village. Les gens sont les mêmes depuis des dizaines d’années; grâce à la loi des loyers, qui provoque une hécatombe dans les bâtiments, les magasins les plus modestes se maintiennent et n’ont guère besoin de se renouveler. Les relations avec le voisinage – les petites épiceries, les cafés, la pâtisserie – s’établissent rapidement. Il suffit d’y aller régulièrement pendant une semaine ou deux et nous sommes considérés “de la maison”.

II
M. habite loin, au Parque des Nations, une partie nouvelle et relativement laide de la ville. Je vais rarement chez elle: normalement je lui téléphone quand j’arrive à l’aéroport, on se donne rendez-vous pour un peu plus tard si elle est libre ou pour le lendemain et l’on se retrouve à l’hôtel (plutôt une pension, non loin de chez moi, qui me rappelle l’appartement de ma grand-mère et non pas une auberge de luxe).

Cette fois les choses ne se passent pas ainsi: elle a, elle me l’annonce heureuse, “un home dans sa vie”.

“Ce n’est pas une raison pour que l’on ne se retrouve pas, M.” “Ok, mais cette fois je ne pourrai pas te faire l’amour”.

“Je survivrai”.

Nous nous retrouvâmes donc, les deux mois suivants, sans qu’elle me “fasse l’amour”. Nous allions à la petite pâtisserie de M. Leal, qui fait des madeleines intégrales et des pastéis de nata “meilleurs que ceux de Belém”. Nous mangions au Pão de Canela, qui me faisait croire être à New York ou à Paris, lieu favori de la bourgeoisie locale et des intellectuels (à Lisbonne sont les mêmes, quelle que soit l’appartenance politique); où au Trivial, qui fait une Perdiz à Convento de Alcântara qui parfois, en le mangeant, me donnait envie de devenir moine au dit couvent d'Alcântara; nous marchions au jardin du Príncipe Real, récemment détruit par la mairie avec des travaux de “récupération”; nous buvions des Alexanders au Procópio, ou un barman appelé Luis fait les meilleurs de Lisbonne – et avec ça les meilleurs cocktails, tout court. C’est un bar classique, avec une décoration classique, un service classique et une beauté unique.

Des fois nous allions nous promener au bord du Tage; nous nous asseyions aux Cais das Colunas, qui est un concentré de l’histoire du Portugal – en face Almada, ses horreurs, son ex-chantier naval, en arrêt depuis de décennies; derrière la Praça do Comércio, Terreiro do Paço, jadis lieu du pouvoir et aujourd’hui de mauvais restaurants pour touristes. Et nous parlions. Nous parlions beaucoup: d’elle et de son homme; d’elle et de pourquoi elle se maquillait moins, elle se soignait moins, elle s’habillait moins; d’elle et de ses doutes sur la maternité, sur la vie de famille, sur la vie de couple. D’elle et des pressions de sa famille pour qu’elle se marie avec “son homme” – il s’appelait Matias, mais elle ne le nommait que très rarement.

“Tu comprends, João, je n’ai plus besoin d’un masque, maintenant. Je puis être moi. Il m’aime, il n’aime pas mes habits, ou mes bâtons à lèvres”. “Il est ingénieur, il s’en fout de ces choses. Il n’est pas sensible aux apparences”. “Il est tellement drôle. Figure-toi qu’il ne sait pas que Pierre Cardin est une marque d’habits, où que Yves Rocher sont des cosmétiques”.

Mais au bout de deux mois elle commença à changer. M. était trop intelligente – et trop intéressée par elle-même - pour ne pas s’en apercevoir. “Est-ce que tu aimes cette petite robe? “”Que penses-tu de cette couleur?” - elle me tendait les ongles, peints comme je ne les avais jamais vus.

III
Un jour elle m’a dit “j’ai envie de te faire l’amour”. Nous sommes allés dans mon appartement du Príncipe Real, vue sur le Tage, cadeau de mon père qui, sans doute, rêvait justement de scènes comme ça quand il me l’a offert et nous nous fîmes l’amour. Nous nous fîmes quatre ou cinq mois d’amour, pour être plus précis.

Je dis nous nous fîmes l’amour car l’on ne peut, malheureusement, pas dire nous nous fîmes l’amitié. Nous nous connaissions parfaitement maintenant, après ses mois de palabres; trop bien pour tomber amoureux l’un de l’autre. S’énamourer est découvrir; dès que l’on découvre l’autre l’amour cesse et se transforme soit en amitié soit en ennui, haine ou, simplement, indifférence et distance.

Entre M. et moi il n’y a jamais eu d’amour: nous sommes passés par différents stages d’amitié, comme une rivière qui a traversé des montagnes, des plaines, des lacs et arrive à la mer la même rivière qu’au départ, mais différente – plus calme, plus large, plus profonde.

IV
“Tu sais, João? Il n’y a pas d’intérieur et d’extérieur. Nous sommes un. Nous pensons que nous avons besoin d’un masque pour séduire et qu’une fois l’objectif atteint il n’est plus nécessaire; mais ce n’est pas vrai. Nous sommes ce masque, et ce masque est nous. Il est inutile de penser que l’on peut les séparer. C’est comme croire qu’il y a une différence entre la chair et l’esprit: les deux sont faits de la même matière, naissent des mêmes cellules, croissent et se développent ensemble“.

“Je crois à l’amitié entre un home et une femme. Pas toi? “

“Oui, si la femme n’est pas la femme de mon meilleur ami, ou est très laide”.

“Je ne suis ni l’une ni l’autre“.

“Non”.

“Tu crois que je dois dire à Matias que je ne l’aime plus?“

V
“Je le lui ai dit. Il m’a remercié. Il voulait se séparer de moi et ne savait pas comme me le dire lui-même. Quel fils de pute!”

Épilogue
L'autre jour j'eus une violente, soudaine et irréparable envie de M., comme un coup de foudre dans un paratonerre. 

13.11.12

Amor, amores

A humanidade anda há provavelmente milhões de anos a tentar definir o amor e - pelo menos tanto quanto sei - ainda ninguém encontrou uma resposta satisfatória.

A qual, na minha humilde e pouco experiente opinião é impossível porque inexistente. Não há o amor. Há amores, tantos quantos seres amados, e seres que amam.

Pois, diz-me, se tu és - e és - única, como poderia o que sinto por ti ser igual ao que senti por A., ou sentiria por B.?

Amor é uma conveniência, uma simplificação, uma preguiça. Ou, quando muito, uma falta: o que me falta quando tu não estás.

(Para a T., com carinho, amor e as mariquices do costume.)

La sémantique des pommes

L'objectif de l'exercice - établir, oui ou on, d'une façon irréfutable l'existence d'une sémantique de la pomme - s'éloigne au fur et à mesure que la nuit avance - c'est-à-dire, recule - et le jour approche. Nous étions trois - ma pomme, sa pomme et une pomme, mouillés à l'entrée du fleuve, directement dans le chenal.

Il était évident qu'il nous faudrait sortir de là, sous peine de violent coup de cargo, coup de brouillard, coup de courant, coup de foudre, coup de sifflet ou n'importe quel autre coup. Sa pomme à la barre, pomme à la bouche; ma pomme au guindeau. Le brouillard nous enveloppa. La pomme m'indiqua la direction de la marche, travers au courant; nos approchâmes la rive, avant laquelle nous savions - les cartes nautiques existant précisamment pour donnner ce genre d'information - qu'un banc de sable nous attendait.

La sémantique de la pomme étant alors établie sans marge d'erreur. Trois pommes paumées dans le brouillard se retrouvent grace à l'une d'entre elles, une carte nautique actualisée et beaucoup de chance. Mais sur le banc de sable quelqu'un avait - nous le vîmes maintenant, puisque le brouillard se lêve impromptu - construit une cabane et planté un arbre. Est-ce vraiment le banc de sable ou la rive du fleuve?

L'arbre est-il un pommier? La nuit recule, le brouillard se lève, la maisonnette est de plus en plus visible, l'arbre aussi. Toutefois, sans savoir si c'est un pommier, que faire?

Ma pomme décide de sauter à terre et passer un bout' autour de l'hypothétique pommier. Avant faut-il mouiller, c'est évident; et culer le plus possible pour que je me mouille le moins possible. Il n'y a personne à terre; à quoi ou à qui sert donc la barraque? La nuit avance, le jour approche.

Nous sommes perdus sous un épais manteau de verbiage. Les mots nous couvrent comme des corbeaux dans les péllicules de terreur. Ma pomme, ta pomme, ta pomme. Sans l'intervention d'une autre pomme - d'un autre mot - le bateau sera perdu. Quel mot choisir? Vite, il y a urgence.

J'aime sémantique; c'est de la famille de semiologie, mais plus accessible, moins m'as-tu-vu. Tu choisis pomme, car tu en as une à la bouche - les deux mains occupées à barrer. Nous pouvons choisir la lune qui mieux nous convient. Pleine lune: on voit mieux, mais la marnage sera plus grand; alors, quadrature? Que sera-t-il du bateau dès que la marée baissera? Sommes-nous entre le banc de sable et la rive?

Sommes nous entourés de corbeaux, de corps beaux? De mots? Si oui, y a-t-il une règle qui relie les corps entre eux, telle celle qui relie les mots et leurs sens, les corps et leurs sens, la beauté et la vie?

Quel mot, quel corps, quel sens choisir? Quel arbre, au fond?

12.11.12

Jantar improvisado - frango com sobrasada

Há duas ou três coisas que se podem fazer quando se está demasiado tempo em terra. Uma delas é cozinhar. (É óbvio que no mar também se pode cozinhar. Mas não é a mesma coisa; isto é, não é tão necessário.) Em terra por vezes é preciso cozinhar, para não se ter a impressão de estar em terra.

Hoje para o jantar fiz um frango com sobrasada.

Comecei por marinar o bicho em limão, sal, cebola às rodelas, alho, pimento encarnado cortado (por "sugestão" da jovem senhora - entre aspas porque sugestão é um understatement -) em bocadinhos pequenos, cava (uma garrafa dele), sal e pimenta.

Depois foi ao forno; voltei-o a meio e molhei-o de vez em quando. A metade pensante de mim fez um arroz de espinafres para acompanhar.

Deve haver receitas mais simples; mas para frango, poucas são melhores. Pelo menos até hoje.

Sanidade dominical

Uma ilha de sanidade, infelizmente só dominical.

11.11.12

Possibilidades v. capacidades

"Acima das suas possibilidades" e, talvez, muito abaixo das suas capacidades. A verdade é que o jornal estava uma porcaria. Comprei-o durante uma semana e mudei para o ABC, infinitamente melhor.

Mas enfim, nada como ver socialistas tomarem um banho de real.

8.11.12

Dissonâncias indignadas

A malta que clama contra Isabel Jonet é a mesma cuja palavra chave é solidariedade, que há alguns anos cantava "somos todos iguais, braços dados ou não", acha Zeca "traz outro amigo também" Afonso o maior cantor nacional, se emociona com o voluntariado para a ONU, vai aos concertos Aids, We are the world, e acha que a OXFAM merecia o prémio Nobel da paz, não é?

Analogia

Tal como não preciso de perceber de anatomia para saber se uma senhora tem um corpo bonito ou feio, não preciso de saber de economia para perceber que Sócrates foi uma catástrofe. 

Poço da morte

O sabor do dia, para os indignados do costume são as declarações de Isabel Jonet. Uma das coisas que me fascina é Portugal é a profundidade do buraco. Do poço, se preferirem.

Eu ouvia-as parcialmente, e o que pensei está dito aqui: "meia dúzia de banalidades moralistas, inócuas"; outras que são simples bom senso; enfim, nada de especial vindo de alguém que prefere distinguir-se pelo que faz, em vez de pelo que diz.

Mas o poço da imbecilidade portuguesa não tem fim. Não tem limites. É incontrolável. Caiu o Carmo e a Trindade em cima da senhora. Por um lado por causa da forma, como diz o Lourenço; por outro porque a esquerda (eu confesso que hesito em usar a palavra esquerda como sinónimo de estupidez, mas cada vez me parece mais inevitável) acha que a caridade é má. É melhor fazer pobres, através de políticas económicas de resultados comprovados do que ajudá-los.

Não é uma surpresa, num país que preferiu Sócrates a Manuela Ferreira Leite porque esta era feia e falava mal; Sócrates era bonito, falava bem e vestia melhor - tudo qualidades, como se viu, de incalculável valor num primeiro-ministro.

Não é surpresa; surpreendente é a dimensão do vazio que vai por essas cabeças dentro.

4.11.12

"Parede de casa de banho"

O nome do blog é no mínimo infeliz; mas tem a PR, e só por isso merece visita e vai já para o reader.

História sem palavras

É tarde, na rua ouvem-se passos; mas são poucos, hesitantes. Como se a pessoa - em breve saberemos que é uma mulher - nem sempre pusesse os pés no chão. Mal se ouvem, afastam-se devagar, agora um sim agora um não agora outro não. Tu estás deitado. Sabes que os passos vêm da mulher que há pouco deixou o teu leito, com quem há pouco fizeste amor também hesitantemente. Ela agarra-se a ti, aperta-te com força, chora e deixa-te ir. 

Pouco depois agarra-te de novo. Tu compreendes que a amas, mas não sabes como dizer-lho, nem mesmo fazendo-lhe amor. Ou então é ela que não compreende, não quer compreender.

A mulher avançava pelo amor como agora pela rua escura, deserta; sabe dar mais do que receber: recebe-te com medo, hesita, abraça-te, suspira, diz "não me ames como eu te amo, cala-te, cala-te".

Tu ouve-la, baixinho e sabes - não é a primeira vez - que dali a pouco ela percorrerá a rua com os seus passos inseguros, como se a cada um quisesse largar a correr e estivesse a lutar contra a tentação. "Ou como se não quisesse ir-se embora", pensas.

"Qures ficar cá esta noite?" "Não, obrigada". Sabes que se chama Teresa e ela sabe que tu te chamas António. Trabalha numa loja das redondezas. É muito tímida, parece que saiu de um filme do Rohmer. Tu gostas desta ideia de um amor secreto, hesitante, silencioso.

Não compreendes bem como começou, nem porquê - não sabes sequer com antecedência  quando é que ela vem  a tua casa. Ouves a campainha da porta, sempre tarde, depois de jantar, vais abrir, ela diz "Olá" tu respondes "Entra" ela vai directamente para o teu quarto.

A primeira vez era inverno, tu recordas-lhe o sobretudo pesado, antigo, mas bonito. Agora é verão. Ela veste-se "recatadamente", pensaste um dia: blusa ligeira mas opaca e com mangas, um decote pouco profundo, saias pelos joelhos.  É muito bonita, com os seus grandes olhos verdes que te olham de frente, sem vacilar.

Quando sai não te olham, sequer. "Não te levantes. Não é preciso. Obrigada."

E ouves o seu passo na calçada, hesitante. "Com que palavras acabará esta história?", perguntas-te.

Sem palavras.

Como de costume,

aos domingos está tudo aqui

1.11.12

O primeiro dia do resto da vida

Hoje o Abrupto saiu do meu reader. O Jugular consegue ser melhor, apesar de tudo.

No dia em que deixar de carregar à hussarda e comece a apresentar soluções talvez o leia de novo.