31.1.13

O amor e o mundo

Não somos amados pela esmagadora maioria do mundo; mas não ser amado por uma pessoa é ser esmagado pelo mundo.

As palavras e o cu

Gosto muito das palavras, mas não tenho paciência para conversas de ir ao cu.

30.1.13

Casa

A única maneira de um gajo se manter sóbrio em Antigua é não saindo de casa. O que é difícil quando não se tem uma casa.

Educação assentimental

Aprender a ir para a cama com quem não se ama, e a não se amar quem acabou de nos proporcionar um orgasmo.

Tentações

De todas as tentações, aquela à qual é mais difícil resistir é a pedagógica.

Ainda bem, de certa forma.

29.1.13

Criminologia

Aquilo que passa pela cabeça de um homem quando se prepara para encontrar o tipo por quem foi substituído no coração (e outros orgãos) da mulher que acaba de o deixar faz um manual de tortura passar por um livro para escuteirinhos.

Indiferenças

Se é verdade que numa relação há sempre um que ama e outro que se deixa amar - do que não estou, de resto, convencido - será que quando as relações acabam há um que indifere e outro que se deixa "indiferir"?

Adstringência

Gosto da adstringência nos vinhos e nas pessoas. Não gosto de pessoas redondas, sem ponta por onde se lhes pegue, como os vinhos alentejanos. Gosto de pessoas com feitio, que em Portugal qualificamos, invariável e erradamente, de mau; a adstringência está para os homens, e para os vinhos, como o mamilo para o seio.

Pragmatismo

Uma amiga querida, bonita e generosa diz-me que quando teve que optar entre dois homens escolheu o que lhe dava mais prazer na cama. "Tudo o resto se compõe", explicou-me: "o dinheiro ou a falta dele, o trabalho, a beleza. Mas chegar a casa e não ter uma boa f... à espera, isso não tem conserto".

Retratos

Uma pessoa boa que faz coisas más é preferível a uma má que faz coisas boas.

O amor e os tempos verbais

Os tempos verbais do amor confundem-se um bocadinho: às vezes não há passado nem futuro; outras não há presente.

Pergunta

O verbo amar tem pretérito perfeito? 

Felicidade e algumas dúvidas

A felicidade está sobreavaliada? Sem dúvida. Mas alguém duvida de que é melhor ser feliz?

Liberdade, liberdade

É muito difícil ser livre. É preciso ser livre.

Amo-te, liberdade

Digo amo-te e vejo à minha frente o sol poente, a lua cheia, o teu sorriso inteiro como o vento que não vejo, mas sinto. Digo amo-te e amo-te como amo a vida, a liberdade, o vento que não vejo.

Digo amo-te e a liberdade responde-me "e eu a ti".

Família, amigos e países

Não escolhemos a família; os amigos sim. E se pudéssemos escolher o país de onde somos? Eu sou Antiguano.

Antigua, Don Vivo

É bom estar vivo. Mesmo quando se está morto.

28.1.13

Dores, eternidade

Uma dor deve ser limpa, cristalina, lapidar. E eterna; se não durar para sempre não merece ser chamada dor.

Remédios

Há três e só três remédios para a dor: as palavras, a clareza e o silêncio. Por esta ordem.

Dor, sentido

De certa forma, a dor legitima uma relação, dá-lhe sentido. É como se precisássemos de uma confirmação a posteriori de que estávamos a fazer a coisa certa.

Talvez não estivéssemos é a fazê-la bem, mas isso é outra história.

Sobriedade, doenças

Há momentos em que mais vale ser doente do que estar sóbrio.

Casa da comédia

Só há um sítio onde se pode ser infeliz: em casa. Alhures a infelicidade não passa de uma comédia.

Diabo e Cohen

Entre escrever e beber venha o diabo e escolha. Eu, que não sou o diabo, já escolhi. Para o resto, só o L Cohen. Que ainda menos sou.

Deserto

O maior deserto do mundo é uma cama vazia.

(Não é. É uma vida vazia. Mas isso é raro, felizmente. Ou pelo menos temporário, vá).

Abandonos

Antes ser abandonado por alguém que se ama. Ser rejeitado por de quem não se gosta é incomparavelmente pior.

Rectroactividade (citação)

"O amor é retroactivo: estamos sempre a tentar salvar a última relação."

27.1.13

As previsões do anão

Há uma espécie de prazer perverso em vermos confirmadas as nossas previsões; é isso que transforma qualquer anão em super-homem.

Descobertas

Durante muito tempo pensei que amamos quem nos ama: amar pouco mais seria do que um exercício narcísico. Não é. Uma descoberta tardia mas de certa forma reconfortante.

Dor: paráfrases e variações

Só os profissionais da dor deviam ter-lhe acesso. Quando os dilentantes se apoderam dela, a doce melancolia da vida transforma-se em farsa.

There's no pride without love.

Não deites fora a dor suja de ontem sem teres a limpa de hoje.

Há dois dias bons no clube dos corações solitários: aquele em que se é admitido e aquele em que se é expulso.

Devemos abordar a dor com as precauções de um Navajo e instalarmo-nos nela com a determinação de um colono.

A melhor forma de avaliar uma relação que termina é ver se as noites são tão difíceis, ou mais, do que os dias.

Dar tesão à dor: não há desafio mais interessante, apaixonante, estimulante.

A compreensão não atenua a dor. Quando muito torna-a mais suportável; como visitar as avós: antes a que faz bons pastéis de bacalhau.

O único lugar decente para a dor é a memória: é de onde desaparece mais depressa.

A dor é composta por cabeça, seios e pele. Curiosamente, o prazer também.

A dor não é incompatível com os trópicos; basta é a biblioteca que o demonstra. Mas é indubitavelmente melhor sofrer com calor do que com frio.

Mais vale bem magoado do que mal acompanhado.

Uma dor por dia, não sabe o mal que lhe fazia.

O mundo é pequeno: falta uma pessoa e nós somos o mundo.

25.1.13

Adeus, silabas

Adeus é uma palavra bissilábica. Ou seja: tem duas sílabas. Não tem cinquenta.

PS - Curiosamente, passa-se o mesmo com olá (e com amor, mas isso é outra historia).

As vidas da pessoa, as pessoas da vida

A ideia que existe alguém a quem poderíamos chamar "a pessoa (homem ou mulher, tanto faz) da minha vida" é uma falácia: ninguém tem uma vida só. Pior: é um erro. Ninguem deve querer ter uma só vida.

24.1.13

Infelicidades

A vantagem desta ideia das infelicidades como se fossem bonecas russas, enfiadas umas nas outras, é que uma vez correctamente ordenadas podemos desfazer-nos delas todas com um só gesto.

Difícil é ordená-las, claro.

22.1.13

Pseudo-hipérbole; ou: Retrato

A senhora parece uma versão feia da Patti Smith. Não é uma hipérbole. A poesia faz as pessoas mais bonitas, simplesmente. 

Infelicidades, grandes e pequenas

Que as pequenas infelicidades se dissolvem nas grandes (e no rum, mas isso agora não interessa) é sabido e conhecido; banal. Mas que as grandes se dissolvem nas pequenas - isso sim, é uma novidade entusiasmante.

19.1.13

Tempo, parênteses

Uma má notícia esperada durante muito tempo deixa de ser notícia; mas não deixa de ser má.

O tempo parece uma concertina tocada por um gajo que tomou LSD: às vezes estica-se até  parecer que vai rebentar, outras encolhe-se até desaparecer.

Eu trato disso com parênteses: abro-os e espero que eles se fechem. Com pouca dor e pouco barulho, se possível.

Beleza, idade

Passada uma certa idade as mulheres deixam de se preocupar com a beleza. Pelo menos algumas, com alguma.

18.1.13

Velhice, paz

A senhora da mesa em frente terá aquela cara quando morrer; a mesma expressão pacífica, o mesmo sorriso generoso.

A paz é tão bonita como a felicidade; e muito mais contagiante.

Rir é a minha profissão

Há uns anos li um romance cuja personagem principal tinha por profissão emprenhar senhoras - amas de leite que precisavam de estar grávidas, claro. Exercia esta nobre função seis dias por semana (ainda não havia semana inglesa, no tempo da história). Aos domingos consagrava-se à esposa.

Cada vez que vejo na televisão aquelas pessoas cuja profissão é rir, estar permanentemente de bom humor, contagiar as audiências e os outros participantes penso no senhor e pergunto-me como farão em casa. Terão um dia reservado para rir?

Mundo, vida

Meia duzia de dias sem acesso ah net. Agora tenho, mas sem acentos (jah agora, alguem me pode dizer como os ter num tablet Toshiba?).  Dizer que regresso ah vida eh um exagero. Mas sinto-me de regreso ao mundo, isso sinto.

Ainda não é isto, mas já está mais perto.


8.1.13

Zona de conforto

Há poucas expressões mais estúpidas do que zona de conforto: os problemas que encontramos fora dela são tão melhores do que os que tínhamos quando lá estávamos.

5.1.13

Aniversário

O Don Vivo fez nove anos vai para cinco dias. Não me lembrei da data (não é a primeira vez e não será decerto a última), mas não a quero deixar passar sem menção.

Nestes nove anos aconteceram muitas coisas, boas e más; e das boas a grande maioria foi provocada pelo DV. Dizer-lhe obrigado não seria tão espúrio, ou arrogante, como à primeira vista pareceria.