26.2.13

Essência

Ir para o mar e não se ter prazer é como fazer amor com uma mulher que já não se quer: está lá tudo menos o essencial.

25.2.13

Incêndio

Uma palavra um incêndio um fósforo uma praia um beijo que nada consegue apagar. Nada, todas as palavras todos os silêncios todos os mares todas as vidas.

A primeira coisa que uma gaivota come a um homem que está no mar são os olhos. Melhor usar óculos, se por acaso caíres ao mar.

A praia arde, é um deserto, à noite as praias disfarçam-se com grandes fogueiras deitadas lado a lado.

O desesperante peso do vazio.

Get the fuck out of here disse-lhes mas elas ficaram, as putas das gaivotas, a chuva não pára o incêndio continua, as gaivotas rondam.

Duas pedras para atirar às cabras quando me vierem para os olhos.

Disparate. Uma pedra.

Disparate. Outra pedra.

Ninguém consegue fugir das gaivotas mesmo encharcadas em Mount Gay aprenderam a voar bêbedas, aprenderam as manhas do silêncio.

Stay put, don't run away, steady as she goes protege os olhos cheira a queimado se não vires as chamas está tudo bem. O vento arde em grandes labaredas. As moscas queimam-se quando brincam com o fogo. Não brinques com o fogo. Não brinques. Não te queimes.

Não brinques no deserto.


Comia injustiças ao pequeno almoço e infortúnios ao chá das cinco com scones e marmelada.

Esquece as gaivotas, é a alma que deves visar com essas pedras.

Do it. Do it. Do it. Não és homem não és nada não és homem não és nada não és homem não és nada. Um homem é um homem e um gato um bicho. Do it.

Fá-lo. A fala do falo fá-lo falar. É falaz e falha. A fala do falo ficou sem voz. O galo calou-se. Comia galinhas ao pequeno-almoço sem sequer precisar de as ou se embebedar. Agora vêm os pintos debicar nele, na fatigante vastidão do deserto em chamas. Estou farto de chamas de deserto e de gaivotas.

Constrói uma barragem e guarda as palavras todas lá dentro. Não deixes escapar nem uma.

Murmurei-lhe, mas ele não respondeu. Já não tinha olhos. Do it do it do it. Fá-lo, velho galo. Eu calo-me.


Esta é a minha gente. Tenho uma gente. Pertenço. These are my people. I belong. Esta és mi gente. Ce sont  mes gars. J'appartiens. Um navio à deriva pertence. Um navio fundeado pertence.

Em terra um sorriso preenche uma cidade mas o mar precisa de muito mais do que um sorriso. Um cabrão, o mar. Fuck it, põe-no de costas para ti, mãos nas mamas e entra por ele adentro, entra entra entra. Entra.

Gosto do infortúnio, quando era miúdo batia-lhe punhetas todos os dias. Uma por dia. Mas depois conheci a injustiça e troquei-o por ela. É pena. Um bom infortúnio atrai multidões, enche estádios de futebol, popula cidades inteiras, enche campos de refugiados, faz movimentar milhares de IDP. A injustiça é mais maneirinha, mais modesta, mais discreta.

Por isso fugi para ela, ateei fogos nas praias, comi olhos às gaivotas, fodi o mar fiz minetes às estrelas encharquei-me em rum whisky cerveja you name it enchi barragens de palavras em chamas, deambulei nocturnamente por ruas vazias.

Tudo por uma boa injustiça, quentinha acabada de sair do forno, fremente como um seio que há muito não é tocado.

Do it. Do it. Do it.


- Não devemos atribuir às coisas mais importância do que elas naturalmente têm.

- Define naturalmente.

- Neste contexto, naturalmente seria um pelicano a entrar no mar.

- Neste contexto seria começar o dia a dizer amo-te.

- Neste contexto seria mergulhar numa piscina de gelo e badar os 400m livres.

- Neste contexto seria comer uma gaja na mesa da cozinha, tendo cuidado para não lhe sujar o avental.

- Neste contexto seria olhar para uma jovem mãe com um bebé ao colo e perguntar-lhe como fez isso? Como teria ela feito aquilo?

- Neste contexto naturalmente não existe, é uma invenção de um marinheiro apeado num bordel das Filipinas.

- Conheço um marinheiro que tem uma mulher em cada porto.

- Só uma? Deve ser maricas.

- Não estás a perceber. Conheço um marinheiro que um dia fodeu o mar.

- Todos o fodem; depois são fodidos, à vez, como os cavalinhos a subir e a descer no carrocel.

- Não estás a perceber. Conheço um marinheiro que cita Blake às putas. Mas exige que elas sejam surdas, porque tem vergonha de ir para os bordéis citar poemas em vez de foder.

- Como é que ele sabe que elas são surdas?

- Não ligam nenhum ao que ele diz. Sentam-se na borda da cama e dizem móni móni móni. Se não fossem surdas ficariam emocionadas e foderiam de borla.


Entretanto um abutre entra em cena, envolto num pavilhão inglês que roubou de um navio fundeado na baía.

Há abutres em todo o lado. Até no mar.

Conheço um país onde não há abutres. Chama-se Amor, tem fadas madrinhas vestidas de cor-de-rosa, anjos com flechinhas e broches logo de manhã.

Também o conheço. Já vivi nele.

É preciso comer. É preciso comer. É preciso comer.

Vai comer as gaivotas, não tens estaleca para comer abutres. E não te esqueças dos óculos.



Falmouth Harbour, 24/02/2013

24.2.13

Os zés e o género

Aprendi a não confundir Zé Germano com o género humano há muito muito tempo. Mas há igualmente muito tempo sei que ambos partilham uma qualidade: não são bons, nenhum deles.

(É por iso que quando encontramos uma Zé Germana decente nos custa perdê-la, mas isso é outra história).

23.2.13

Somas

Uma relação é um jogo de soma negativa: cada um deve nela pôr mais do que retira. Querer transformá-la num jogo de soma nula ou - pior ainda - positiva é condená-la ao fracasso.

Como se ainda houvesse dúvidas

Um gajo acorda todos os dias, qualquer dia, olha à sua volta e confirma que são os optimistas, os visionários, os sonhadores quem tem razão. Não são os pessimistas, nem os realistas.

Solidão, silêncio

As solidões são como os silêncios: por fora parecem todas iguais, mas na realidade diferem muito umas das outras. Não nos devemos enganar de solidão, tal como devemos escolher criteriosamente o silêncio que vamos habitar: um silêncio é uma casa que partilhamos com muita gente.

Equilíbrio

Uma relação só se equilibra depois de cada um deixar o outro um número igual de vezes; até lá está na corda bamba, à beira do abismo, da vertigem.

21.2.13

Morrer

Um dia farei a conta das vezes que morri: quero saber se valeu a pena ter vivido.

Rum, insónia

A batalha entre o rum e a insónia é ganha sistematicamente pelo rum. Pergunto-me quem ganharia, se os intervenientes fossem outros.

Coisas, oportunidades

As coisas têm o hábito triste de ser o que são, e o curiosamente por vezes mais alegre de ser o que poderiam ter sido.

Mount Gay

Amanhã o nobre rum Mount Gay faz 310 anos. É uma data que merece ser assinalada. 310 anos passam depressa; 31 dias demoram muito mais.

Coisas importantes

Tenho coisas importantes a dizer ao mundo. O meu pequeno almoço, por exemplo. O estado dos duches esta manhã. Ou, sei lá, o facto de não ter tuberculose, lepra, sífilis; nem mesmo uma simples constipação, transmissível por contacto visual. Nada disso. 

O pequeno almoço foi normal, os duches estavam vazios como de costume; e as doenças transmissíveis controladas.

Verdade seja dita que o jantar merecia ser contado; tal como os runs e os maços de cigarros e essas coisas todas que fazemos para queimar calorias, memórias e os raros momentos de sobriedade que nos são permitidos. 

Tenho coisas importantes a contar ao mundo, e não sei como fazê-lo; faltam-me o ar e o vento, a vontade; sem as quais as palavras não passam de doenças transmissíveis e as memórias de infecções a tratar urgentemente.

19.2.13

Maldição

A boa educação é uma maldição.

Felicidade, cemitério

Na há maior nem melhor concentração de pessoas felizes por metro quadrado do que num cemitério.

Infelicidade, cobardia

A infelicidade é uma das formas da cobardia.

Deselegâncias

Suicidar-se é uma deselegância; sobreviver ainda mais. Mas o ponto mais baixo é deixar uma carta de despedida. Não há acto que exija mais discrição do que um suicídio.

16.2.13

O que há, o que será

Há o vento, o sol, o calor e o sal do mar que o vento traz; há isto tudo e mais muito. Não chega para substituir o que não há, nada chega, é como querer apagar um vulcão com uma chaleira pequena, mas assim mesmo é muito o que há. Há barcos e vela e gente na qual por vezes me reconheço, há um vocabulário que é o meu, gestos que tantas vezes tantas vezes tantas vezes.

Há o abençoado rum, a Mount Gay celebra em breve 310 anos de vida, 310 anos a distribuir remédios d'alma, é muito, muito, não conheço farmacêutica mais eficaz, remédio cujos efeitos secundários sejam tão bons como os primários.

Há o futuro, claro, que não é de certeza a esfera suja, amachucada e oca que hoje parece ser. Há corpos, sorrisos, há luz, há um cão que desistiu de ladrar ao carro que se afasta, há um oxímoro - pena de morte - e um suave eufemismo - pena de vida - ; há tudo isso e isso tudo, que não chega para substituir o que não há, mas é tudo o que há, e é com isso que vais ter de construir o que será e destruir o que foi. 

Dor

Até que um dia a dor se separa de nós como um iceberg, um navio que larga do cais, um sol que nasce nas altas latitudes, um vento que cai antes de mudar, um cão que desiste de ladrar atrás do carro que passa.

15.2.13

Desescrever

Mais do que escrever é preciso aprender a desescrever. Ou, para os como eu amantes de Baricco, não-escrever.

Aprender a não-viver.

8.2.13

Diário de Bordos - Falmouth Harbour, 08-02-2013 / II

A RORC 600, uma das regatas importantes das Caraíbas, vem aí. Falmouth Harbour enche-se de barcos, os bares e cafés de gente. O ano passado não a fiz pois estava no Brasil; este ano não a farei por causa do RYA.

Gosto de regatear: tirar o máximo de um barco dando-lhe, em troca, o máximo de nós. Nem sempre foi assim. Quando comecei a velejar o que me interessava e fazia sonhar eram as viagens, longas e para países exóticos. Nunca fui muito longe na competição - quando chegou a altura de me profissionalizar na vela optei pelo charter por várias razões - e talvez por isso olhe para estes barcos, lindos todos eles, famosos quase todos com uma certa melancolia.

Mas não lamento a escolha. Aprendi há muitos anos a diferença entre marinheiros e velejadores. Faço parte dos dois grupos, qualquer que seja a forma como essa pertença se manifesta. É o mais importante.

Hit Parade

A minha canção favorita é de Leonard Cohen, chama-se Avalanche e tem um verso que diz your pain is no credential here. A outra, logo a seguir, chama-se Anthem. There is a crack in everything. That's how the light gets in. Há milhares de razões para se gostar de Leonard Cohen. Estás duas chegam, por um milhar de anos.

Reencontro

Reencontro com prazer a solidão, velha amiga, parceira e cúmplice. Cúmplice, sobretudo:  uma boa cumplicidade vale mais do muitas amizades.

Letting go

Não acredito em jovens deuses. Nunca acreditei; menos agora: sou demasiado velho e demasiado falível para ser jovem, muito menos deus.

Por vezes deixo-me ir, coisa que um jovem deus não faz, em circunstância alguma. Deixar-se ir é um privilégio, e um jovem deus não sabe o que é um privilégio: tudo lhe é dado.

Deixar-se ir tem vantagens e desvantagens. Aquelas são permanentes; estas, graças aos deuses velhos, passageiras.

Os jovens deuses têm, contudo, uma indiscutível utilidade: lembrar-nos que não nos devemos deixar ir por muito tempo.

7.2.13

Equívocos

Afinal não era paciência; era amor.

Paisagem

Uma paisagem emocional alpina, e eu que tanto gosto do Jura...

5.2.13

Paredes, portas

Bater com os cornos nas paredes do passado não abre as portas do futuro.

Reedição


"Take any bird and put it in a cage
And do al thyn entente and thy corage
To frostre it tenderly with mete and drinke
Of alle deyntees that thou canst bithinke
And keep it al-so clenly as thou may
And be his cage of gold never so gay
Yet has this bird by twenty thousand fold
Lever in a forest that is rude and cold
Gon ete wormes and swich wrecchedness."

Geoffrey Chaucer, "Maunciples Tale"

(Pega em qualquer ave e mete-a numa gaiola
E usa todo o teu empenho e todo o teu coração
Para ternamente a nutrires com alimento e bebida
De todas as requintadas iguarias que consigas imaginar
E mantém-na também tão limpa quanto possas
E não possa a sua gaiola de ouro ser mais alegre
Mesmo assim vinte mil vezes preferirá essa ave
Voar numa floresta inclemente e fria
Comer vermes e tais porcarias)

in Ultramarina, Malcolm Lowry, col. Dois Mundos, ed. Livros do Brasil. Trad. de Fernanda Pinto Rodrigues, com esta nota:

"Sem ter a pretensão de traduzir poesia, nem tão-pouco de ser entendida em inglês medieval, atrevo-me no entanto, para esclarecer o leitor na medida do possível, a dar uma tradução aproximada dos versos de Chaucer, penitenciando-me, desde já, de possíveis inexactidões."

4.2.13

Vocabulário da tristeza


O vocabulário reduz-se ao imperativo de um só verbo.

Sono, rum

Esta história de não beber de mais tem alguns inconvenientes. Um gajo vai para a cama sóbrio e tudo o que ganha é uma insónia monumental.

Yachties

A mistura de juventude e dinheiro nem sempre dá bons resultados. (Se calhar foi por isso que me afastei dela rapidamente).

3.2.13

Diálogos possíveis

- Pensei que não precisavas de uma mulher para ser feliz.
- Tens razão. A mulher não seria para mim, seria para ti.

Pratos, amor

Os amores não se substituem; empilham-se como pratos num restaurante grego.

Diálogos possíveis

- Pensava que não precisavas de uma mulher para seres feliz.
- Habituaste-me mal.

Palavras, vida

Aquilo que uma palavra trouxe o mar levou.

2.2.13

Mecanismos

A dor de corno é um mecanismo complicado, com muitas componentes. Uma vez desmontada, separada nos seus diferentes elementos é relativamente fácil lidar com ela.

Corações destroçados

Um coração partido não é muito grave, desde que os destroços não cheguem ao cérebro, ou fiquem lá muito tempo.

1.2.13

Poços, realidade

Quando um gajo pensa que o túnel tem um fim e o poço fundo, a realidade encarrega-se de lhe mostrar que é mentira.

Deus, o diabo e as mulheres

O que mulher quer Deus quer, dizem os franceses. Eu acho que é o diabo quem quer; tem muito mais poder do que Deus.

Ou então alternam. Por vezes é um, por vezes outro.