29.3.13

Modos

Não sei se estou em modo partida se em modo partido, mas estou em modo.

21.3.13

O muro

É um tipo dos seus sessenta anos; vejo-o muitas vezes nos bares e cafés da nossa "cidade" (com aspas, porque não passa de uma aldeola a que só a indigência mental dos nossos autarcas e governantes permite chamar cidade). Anda quase sempre sozinho. Pede uma garrafa de vinho tinto (a mesma marca) e bebe-a, metódica, regularmente, copo a copo. Cumprimentamo-nos, mas não nos conhecemos. Hoje o café estava cheio e perguntei-lhe se se importava que me sentasse à sua mesa.

- Claro, sente-se. Com muito prazer. O meu nome é ...

Era estranhamente afável, para uma pessoa que raramente vejo acompanhada.

A nossa conversa começou, depois das cordialidades habituais, quando eu lhe disse que lhe admirava o método com que o via beber o vinho, sempre muito calmo, nunca um excesso, com a regularidade de um autocarro suíço.

- Sabe, sou um tipo metódico em tudo o que faço. Passei muitos anos a erigir um muro à minha volta (ou melhor, dentro de mim). Não o estou a aborrecer, pois não? As pessoas solitárias abrem-se muito facilmente com estranhos, não é? Nós não somos bem estranhos, cruzamo-nos muitas vezes. Enfim, continuando: construí esse muro porque em jovem era muito emotivo, muito sentimental, presa constante de vastas e tumultuosas emoções. Passei anos a pôr-lhe defesa em cima de defesa, a acarinhá-lo, a aprender a usá-lo.

É um muro que exige uma atenção constante, precisa de muito carinho. Há uns anos apaixonei-me por uma senhora, uma rapariga (era quase da minha idade, mas não tinha idade) excepcional, bondosa, inteligente, complexa como já não se fazem. Gosto de pessoas complexas, sabe? São o complemento ideal para a minha platitude. Sou um tipo chato, sensaborão, banal. Vejo-o sorrir. Não estou à pesca de cumprimentos.

A verdade é que essa rapariga (ou senhora, ou mulher, como preferir) me seduziu, me encantou, me transportou para um mundo que eu desconhecia totalmente: o da alegria.

Mas eu levei comigo o meu muro. Já andava com ele há tanto tempo que não sabia dar um passo sem ele, fora dele. Acontecia-me mesmo esquecer-me dele. E um dia ela fartou-se, claro. Sabe como são as mulheres: quando dizem que não é não. Nós somos mais dados ao compromisso, ao nem sim mas também. Elas não: quando cortam cortam de vez, como cortam o cordão umbilical.

E o meu muro voou em estilhaços. Era um monte de cacos espalhados por aí, inúteis, irrecuperáveis.

Foi há três anos. Ainda estou a pensar se devo voltar a construir um muro, ou se devo aprender a viver nu no meio das emoções e sentimentos. Verdade seja dita que neste momento não tenho emoções nem sentimentos nem nada disso, graças a Deus. Mas nunca se sabe, não acha?

20.3.13

Relativismo

Alguém devia explicar às jovens (e menos jovens, verdade seja dita) senhoras de hoje que o soutien é uma peça de roupa interior, não uma peça de roupa exterior.

E alguém devia explicar aos velhos que o soutien hoje é uma peça de roupa exterior, e já não uma peça de roupa interior.

Música de Roma Antiga

Palavras

Era preciso escrever, mas escorregam-me das mãos as palavras e é impossível apanhá-las. Como viver num mundo sem palavras? Felicidade é uma palavra. Amanhã. Futuro. Palavras, nada mais do que palavras - mas nada há para além das palavras.

Corpo é uma palavra? Amor? Seios, olhos, ventre? 

19.3.13

Leituras

Texaco, de Patrick Chamoiseau - uma magnífica, maravilhosa, mágica saga sobre a Martinique, contada com uma notável maestria da narrativa. A ler absolutamente (infelizmente é intraduzível - ou então tiro o meu chapéu a quem conseguir traduzir).

The Five Languages of Love, de Gary Chapman - não sou grande fã de livros de auto-ajuda e similares. Regra geral são uma mistura de banalidades, meias verdades e mentiras completas envoltas numa prosa com mais imagens do que rigor. A este acresce o adicional defeito de o senhor ser católico, ou cristão (se bem a presença de Deus não seja muito pesada, felizmente).

Não foge muito à regra, mas além das banalidades tem algumas verdades interessantes. Chapman é conselheiro matrimonial há trinta anos, e desenvolveu um conceito de "línguas" do amor - formas de amar que são tão diferentes umas das outras como o inglês e o chinês, por exemplo.

Essas línguas são:
- Palavras de afirmação (as traduções são minhas  e são fracas);
- Tempo de qualidade;
- Presentes;
- Actos de serviço;
- Tocar.

Duas pessoas podem amar-se muito, mas se uma "falar" digamos Tempo de qualidade e outra Actos de serviço mais tarde ou mais cedo terão problemas.

Esse mais tarde ou mais cedo - e esta é a parte que mais me interessou, porque era uma teoria minha e nunca a vira tão bem explicada - aparece normalmente à volta dos dois anos de uma relação. O amor-sentimento (o termo é meu) dura em média dois anos (como de costume, os pormenores sobre as pesquisas que o demonstram são muito vagos); depois disso é preciso querer amar o outro - falar a sua língua. O amor - vontade (ditto) é o mais importante, porque é o que cimenta a relação para o resto da vida (obviamente querer amar é um sentimento, também).

The Command of the Oceans, A naval History of Britain, 1649 - 1815 de N. A. M. Rodger - uma obra magistral, com um nível de pormenor e uma qualidade literária que fazem dela leitura obrigatória tanto para leigos como para especialistas. Alguém devia empreender uma coisa semelhante sobre Portugal.

Lágrimas, crocodilos

Como farão os velhos crocodilos quando precisam de chorar lágrimas a sério?

18.3.13

(Quase)

A minha estadia em Antígua está muito perto do fim. Acabo passar os piores dois meses da minha vida. Juste retour des choses, diriam os nossos amigos francófonos: foi aqui que passei alguns dos melhores e mais felizes meses de sempre (se fosse preciso fazer uma contabilidade: os dias felizes batem os infelizes).

Com esta partida acaba não só um período como acaba uma vida, e começa outra. Por acaso na Costa Rica, mas se tivesse ficado aqui seria a mesma coisa: as vidas não dependem dos locais onde as vivemos.

Abordo esta nova etapa motivado, confiante, de novo ao leme. Não acredito em recomeços do zero, em tabulæ rasa, em metamorfoses; mas acredito que cada etapa pode fazer de nós uma pessoa melhor ou pior, que algumas coisas em nós podem mudar, para melhor como para pior.

Tenho pedido bastantes informações sobre a Costa Rica, e todas concordam: um país pouco corrupto, lindo de morrer, com um elevadíssimo potencial para charter. E apercebo-me de que no fundo não conheço Antigua. Normalmente interesso-me pela política, pela economia, pela sociedade dos países onde vivo. Deste - na primeira época por estar a trabalhar todos os dias naquilo a que a minha filha chamava um "planeta paralelo", nesta por ter outras coisas em que pensar (e ter trabalhado, também) - não sei nada. Sei que gosto dele, da simpatia das pessoas, da beleza dos sítios onde vivo; pouco mais. É muito, e simultanamente pouco.

É possível que volte cá: nunca é uma palavra que engana muito, como quase, de resto. Não sei. Do passado só me interessa o pouco que transita para o futuro; o que vai para o baú não me seduz; e cada vez menos, talvez por o baú começar a estar muito cheio.

Conto os dias que faltam com impaciência; em breve contarei as horas; em breve, de Antígua não ficarão mais do que os dias de felicidade que aqui vivi. Os outros já estão (quase) no baú.

Amor, tempo

O amor é uma coisa de nada sabemos, apesar de nele vivermos há muito tempo. Talvez devêssemos começar por aprender algo sobre o tempo, antes de aprendermos sobre o amor.

St. Patrick

Porque se celebram os santos com alegria, bebidas e festas? A vida deles foi uma seca.

17.3.13

Dias

Os dias têm demasiado espaço; é impossível arrumar neles o que quer que seja. Praia, Internet, dormir, rum punch no Mad Mongoose, ler (leio muito; é a única coisa que faço muito, estes dias)... Faço tudo isto e ainda sobra dia, sobra montes de dia, como se não tivessem princípio nem fim, como se todos fossem um só, como um saco demasiado grande para a parca roupa do homem.

16.3.13

Time

"There will be time to murder and create,
And time for all the works and days of hands
That lift and drop a question on your plate;
Time for you and time for me,
And time yet for a hundred indecisions,
And for a hundred visions and revisions,
Before the taking of a toast and tea."

T. S. Eliot, in The love Song of J. Alfred Prufrock

Algumas considerações avulsas sobre abutres

Um abutre é uma ave que tem uma concepção muito limitada da vida.

Há muitos anos um senhor chamado Griffith teve uma intuição genial: " se eu cortar um abutre às rodelas fico sem abutre, mas ganho uma história".

Le français étant une langue sophistiquée il faut que je commence à l'inclure dans ces textes-couillonnades (couillonades est un mot composé: couilles = tomates, nades = riens. Ou seja, textos sem tomates).

Foi de resto ainsi que les sandes de chouriço nasceram: o abutre ouviu falar da genial intuição do outro e pôs-se na alheta; sem pássaro, Griffith s'est débrouillé avec un chouriço (en français chorizo).

Um abutre, em francês vautour (vau = vou, tour = volta. Ou seja, um abutre é uma ave que vai dar uma volta) c'est un grand oiseau noir qui parfois nous chauffe les rêves, parfois nous les mange. Totalement chauve, on le reconnaît facilement: il sent la mort, essence de vie.

Um abutre embalsamado numa sala de estar é um objecto que alegra o ambiente, torna-o mais leve, cristalino.

A bebida favorita dos abutres vivos é o café; quando mortos preferem o rum punch, uma mistura de rum, sumo de ananás, sumo de laranja e bitter Angostura, polvilhada com noz moscada.

Je vais faire un tour sur le dos  de mon pote le vautour, on va passer à travers les nuages de suie, on va nager ensemble sous la pluie. Au retour l'on sera noirs, noirs.

A pessoa que iniciou os abutres à revolução sexual chama-se Wilhelm Reich. Foi preso por isso. Morreu quando um abutre o foi buscar à prisão e bateu com ele repetida, voluntária e violentamente contra a torre do relógio da nossa cidade. Raoul Vaneigem escreveu o epitáfio. "La symphonie des cris et des paroles offre au décor des rues une dimension mouvante", começava. "Là où il n'est pas accepté, le désespoir tend le plus souvent à n'être plus perceptible". (Os abutres são o melhor inimigo do desespero).

Amer quer dizer há mar perto (a ausência de abutres nesta frase revela a genial vastidão da litote, da ausência e dos abutres eux-mêmes).

Noite, camélias

A piscina congelou. Tu estavas a saltar na minha direcção, água pela cintura, braços levantados, sorriso de um lado ao outra da cara, os seios espetados e foi nessa posição que ficaste.

O teu corpo imóvel brilha, estátua de gelo à alegria.

Ando de um lado para o outro à volta da piscina, testo a espessura do gelo, tento tocar-te. Mas o braço pára a meio caminho. Não me ouves, não me vês. Imóvel, braços levantados,  a tua alegria reflecte-se no gelo límpido que é agora o conteúdo da piscina.

Vou-me embora.

No bar o barman espera-me com um Alexander. Está encarnado e pergunto-lhe "de certeza não fizeste um Bloody Mary?" e ele respondeu "Não, é um Alexander, mas fi-lo com sangue em vez de natas".

- Não gosto de sangue.
- Experimenta este, é bom. E ficou-me muito barato, comprei-o no bordel da senhora das Camélias.
- Uma puta tuberculosa!!!
- Sim, é por isso que ficou tão barato. Prova-o.

No céu dois corvos fazem um concurso de advérbios de modo. Cada um podia escolhe rum eixo paradigmático. Rocco, o corvo ruivo que tinha muitos irmãos, escolheu  o horror como eixo. Luchino, o outro, escolheu morte. (São antónimos, ao contrário do que certas mentes perversas pretendem). Não acabará tão cedo, o concurso.

- Talvez nunca acabe - grasna Rocco num intervalo.
- Não sei como fizeste para saber o que estava a pensar.
- Leio em ti como numa parangona. Ou como na água congelada de uma piscina, onde uma estátua à alegria se desfaz, lentamente.

- Fala - digo-te, de regresso à piscina. - Diz qualquer coisa.

A fuligem de uma fábrica dos arredores começa a cobrir-nos. "O pôr-do-sol chegou mais cedo, hoje". Não consigo fazer-te rir. O gelo está cada vez mais escuro.

A noite, a fuligem, o silêncio, o sangue do Alexander e os dois corvos a grasnar no céu ganham: amanhã as camélias serão livres.

15.3.13

País, podres

Portugal é um país de novos ricos e velhos podres.

(Não, Mértola não é em Portugal.)

14.3.13

Pele

"Desconfia de todas as iniciativas que te obrigam a mudar de roupa", diz Thoreau já não sei onde [Walden].

Segui - ou pelo menos ouvi - sempre os teus conselhos, como sabes. Mas eu não estou a mudar de roupa, meu caro Henrique David. Estou a mudar de pele.

12.3.13

Conclaves

Um gajo qualquer retirou-se do cargo que ocupava e agora há conclaves e fumo para saber quem o vai substituir. Não percebo a comoção toda que isso provoca. Gajos que vivem sem mulheres (ou, pior ainda, dizem que), acreditam nas coisas mais bizarras e comunicam por sinais de fumo merecem-me pouca credibilidade.

Ditto

Acompanhamento musical...

...do post infra.

Vidas

Uma vida é uma espécie de placa tectónica dentro da qual nos movemos sem que, muitas vezes, nos apercebamos de que ela também se move, ou da direcção desse movimento.

Já vivi muitas vidas: oficial da marinha mercante, emigrante ilegal e depois legal na Suíça, tripulante e skipper de embarcações de recreio, empresário de insucesso (a taxa de insucesso é de 100%, feito pouco comum; pelo menos no país de sucesso que Portugal é), trabalhador humanitário em África, de novo empresário, de novo skipper (isto se definirmos as vidas pela ocupação profissional, o que até agora tem sido o meu caso. Mas há outras formas de as definir).

Ao contrário das verdadeiras placas tectónicas, as da vida voltam para trás, derrapam, procuram-se; tal como elas, encavalitam-se umas nas outras e por vezes produzem tremores de terra (ou de alma, nas pessoas que a têm).

É muito difícil definir exactamente como ou quando acaba uma vida e começa outra. Não se muda de vida como ou com a lua. São processos lentos, por vezes dolorosos por vezes felizes, pesados ou leves, rápidos ou lentos, claros ou obscuros.

Estou precisamente num momento de mudança de vida. É-me difícil dizer quando começou esta; sob tortura apontaria para Dezembro de 1997, quando voltei para Moçambique (foi uma asneira monumental, a maior de todas as vidas e todas as asneiras que jamais fiz). E se tivesse de lhe apontar o fim, mencionaria muito provavelmente um determinado dia do mês de Abril de 2011, no Jardim da Estrela. Talvez tenha sido esse o primeiro dia do fim desta vida - ou, se quisermos ser optimistas, e eu sou - o primeiro dia da vida que agora está, finalmente, a despontar. Uma vida que começou com um erro e acabou com outro tem, pelo menos a vantagem da simetria (apresso-me  a esclarecer, não vá o diabo tecê-las, que o erro não foi esse dia de Abril; foi muito mais tarde).

O local onde as vidas se vivem é mais ou menos irrelevante; talvez seja por isso que gosto de me definir como viajante, tanto como marinheiro. Sou um viajante que viaja de barco (o meio de transporte e de vida favorito) e de autocarro, de avião e a pé, de bicicleta ou de placa tectónica. Esta que agora começa - talvez tenha sido hoje o primeiro dia, porque deixei o barco onde estava a dormir e voltei para o Reef Gardens, onde vou viver os nove dias que me separam do avião para San Francisco - vai iniciar-se, muito provavelmente (só acredito quando lá estiver, com a autorização de trabalho na mão) na Costa Rica.

Para lá, mais precisamente para Quepos, serão (provavelmente, nunca é de mais repeti-lo) enviados os caixotes que em Outubro de 2010 deixei em S. João do Estoril com livros, discos, bibelots, roupa e fotografias: e uma bicicleta, em Oeiras. Ou seja: tudo o que tenho das vidas todas que vivi.  Não é muito, antes pelo contrário. Mas eu acredito que a quantidade de coisas que acumulamos ao longo das nossas vidas é inversamente proporcional à intensidade com que as vivemos. As minhas foram tudo menos mornas.

Um especialista em dependências disse-me um dia que não há ex-alcoólicos, ou ex-heroinómanos. Há dependentes (hoje diz-se adictos, porque a língua por vezes gosta de se encanalhar, tal como a vida) que não bebem ou não se injectam. Provavelmente o mesmo aplica-se ao desenraizamento. Não há ex-desenraizados; só viajantes que decidiram parar.

Eu vou parar. Não sei por quanto tempo nem onde, mas sei que vou. Depois logo se vê. Se não estiver demasiado escuro, claro.

11.3.13

Chuva, casa

É da chuva que quero falar. Dos vários tipos de chuva. Lâminas finas, afiadas, brilhantes como sangue recém-saído de uma artéria; bocados de vidro moído, finos de entrarem pelos poros; casas. É das casas que quero falar. Agarro uma e digo-lhe "agora és minha para sempre" e assim foi. Levo-a comigo para onde quer que vá. Isto aconteceu há muitos anos. Viveu no mar, na terras quentes do ventre do mundo, nas terras gélidas do centro.

Hoje a minha casa disse-me "preciso de raízes. Se não encontrares uma terra para eu penetrar, uma terra para eu fecundar seco e caio como os seios de uma velha infértil". "Terás a terra toda e o tempo, quando eu morrer". "Não posso esperar até lá. Morrerei antes, seca e vazia".

A chuva continua.

Encontrei uma terra, entre o mar e o vulcão. "Não posso ir mais longe". "Aqui estamos bem, se conseguires resistir ao apelo do vulcão e ao do mar azul".

"A minha cratera está aberta para ti", diz-me o vulcão. "Olha para este azul infinito", diz o mar. A minha casa não lhe dá ouvidos.

Eu sou a minha casa. As suas raízes são as minhas, as suas paredes a minha pele, as janelas os olhos. Juntos fecundámos a terra. A minha casa. A minha chuva.

Retratos implausíveis

Farto de ser filho, resolveu tornar-se pai.

Corpo avulso

O ar está pesado; impossível respirar. Puxo os pulmões para fora e encho-os à mão. Acontece muitas vezes. Uma sorte ter um corpo desmontável, fácil de reparar. Aproveito para tratar da orelha interna: um escopro e um martelo resolvem o assunto. Para os pulmões foi necessário ir a bordo buscar uma bomba de encher dinghies. Passada a primeira urgência ponho a bomba no pé, o seu lugar, e continuo, ritmicamente. Os alvéolos parecem em bom estado, como sempre; pelo menos aos meus olhos leigos.

A pele foi-me arrancada há muito tempo. Passeio-me em carne viva, a mais pequena coisa provoca-me indescrítiveis acessos de febre. Felizmente resisto melhor à dor física do que à psíquica (nada me atinge mentalmente, daí a falta de defesas naturais).

A cada passo que dou arrisco uma infecção, a morte. Mas lá vou resistindo, sem ajuda médica - aprendi a viver sozinho, a convivência com outros seres humanos era-me doentia. Ou seria eu o doente? A minha carne é pegajosa, mas é limpa regularmente: os pulmões vêm para o exterior pelo menos uma vez por semana. Apanham ar. O problema da orelha interna é novo. Penso tê-lo resolvido agora, de uma vez por todas. Talvez possa deixar de ouvir algumas coisas. Talvez; seria uma sorte, ouvir como dantes amava: porque e quando quero. Quando frequentava as pessoas - sobretudo as mulheres - tinha muitas discussões com elas por causa disto. Ama-se porque se quer amar; não se é vítima do amor, é-se mestre. Senhor, se preferirem.

O mesmo se passa com o ambiente sonoro. Nada como eliminá-lo quando queremos. E ligá-lo apenas para o que vale a pena: a Ressurreição de Mahler, por exemplo. Certos madrigais de Gesualdo, cânticos de von Bingen, a Viagem Magnífica por (ou de?) Maria João Pires, Glenn Gould, uma peça de Cecil Taylor. Lembro-me também com prazer de alguns gemidos, alguns suspiros, do ligeiro marulhar da água num casco que avança contra o vento, o fremir longínquo das folhas das palmeiras numa praia tropical, acariciadas pelos ventos alísios. Sons que poderei, com sorte, continuar a ouvir, eliminando a horrorosa cacofonia das vozes e desejos humanos.

Posso virar-me do avesso quando quero, e pôr-me do direito outra vez em menos de um fósforo (enfim, se o fósforo for grande, às vezes; nem sempre). Tenho um corpo desmontável, sou feito de peças avulsas.

Para além desta não tenho outras qualidades (no sentido de características; um corpo desmontável não é uma qualidade). Nunca tive. Sou o que sou e é tudo o que sou, como dizia a personagem de uma banda desenhada infantil há muitos anos. Muitos, tantos que eu ainda tinha pele, ainda acreditava nas virtudes redentoras da música (e da arte em geral), ainda cria que um dia o mundo seria um lugar no qual poderia viver inteiro. Hoje sei que não: só um corpo desmontável me permite sobreviver. Posso alugá-lo às peças: um dia o fígado, por exemplo. Outro a pila; os olhos, os dedos. Comedidamente: fiquei sem pele porque a cedi vezes de mais. Agora não alugo orgão nenhum mais de uma vez por semana.

Espero ansioso o dia em que possa fazer a mesma coisa à mente. Ou melhor, aos seus produtos. Alugar emoções, sentimentos, memórias. Faria uma fortuna, com as memórias e as emoções. Emociono-me muito, e muito facilmente. Só preciso de criar defesas mais fortes do que as que tenho hoje, mas isso não deve ser difícil.

Enfim, para que quero uma fortuna? O dinheiro nunca me fez correr, excepto para o gastar quando o tinha. Agora uso-o sobretudo na manutenção do corpo. Como bem, saudavelmente. Durmo as oitos horas por noite que o médico recomendou. Não abuso do rum. A pila deixou de ser utilizada para fins pessoais ainda antes de ter ficado sem pele. Em breve, se tudo correr bem, terei um ouvido interno desligável à vontade. Aposto que há um mercado para isso. Quem não está farto da penosa babugem dos nossos colegas humanos?

Matemática

Conto os dias que faltam para me ir embora; cada um vale um milhão deles. A matemática do tédio só muito ligeiramente é menos má do que a do desespero.

10.3.13

Metacentros, lua cheia

Há dias assim, em que de repente o repente se vai e fica apenas o que apenas tem de ficar. Nada mais. Dias nus, limpos de dor, de incertezas, de núvens; dias em que as mamas voltam a brincar com as mãos, as mãos com as peles, as peles com os olhos, os olhos com o mundo e por aí abaixo até à origem do mundo. Dias em que os Velvet Underground parecem uma banda de meninos de coro, em que o mundo parece fugir para o esgoto e nada fica se não o que deve ficar: nada. Nada. A ausência de dor vale a dor da ausência; tudo se equilibra. A altura metacêntrica do mundo volta a ser positiva. Uma esfera não tem metacentros longitudinais ou transversais. Tu és o metacentro do mundo, tu és positiva. 

Tudo é positivo, hoje: desde a areia na praia até à ausência de riso no mundo. É funesto, o riso em dias de chuva. Corre-se o risco de molhar a língua, insuficientemente protegida por estes lábios vorazes.

Sorvo a vida. A qual se deixa sorver com uma facilidade desconcertante.

Faz como a tartaruga. Refugia-te na concha, rebola com o mundo. A altura metacêntrica acabará positiva. Acaba sempre. Tudo acaba por se desvanecer no som de um mar desafinado, rouco de tanto gritar por ti. Mas tu não ouves. É impossível ouvir o mar, quando estamos na piscina. É impossível ver o dia, quando estamos na cama ocupados a calcular alturas metacêntricas de corpos esféricos. As mamas, por exemplo. os teus olhos. As nádegas, semi-esferas perfeitas.

Hoje a lua cheia bateu-me à porta. Entrou antes mesmo que eu lha abrisse. Queria, disse-me, libertar-me da dor de ser eu. Dor antiga, conhecida, com a qual convivo há aproximadamente duzentos e cinquenta anos. Recusei, polida e gratamente. Que restará de mim, se me tirarem esta dor? Que serei, quando tu não fores? Prefiro o positivismo, a certeza, o conhecido. O desconhecido inquieta-me. Não sei o que será de mim quando essa porta se fechar. Em que abismo me deixará?

Mandei a lua cheia passear e ela voltou vazia; tudo se foi, explicou-me. Só fica o que tem de ficar: tu e a minha sombra, vazia de luz.

Retratos implausíveis

Sempre acreditou ser uma personagem de romance, até que aos 30 anos percebeu que era ela quem o estava a escrever.

Mais, ao acaso




Do baú, outra vez





Do baú





"Para que servem os elevadores"

Do António Cabrita.

Patrick Chamoiseau

"Solitude c'est famille liberté. Isolement, c'est manger pour serpents."

"En d'autres jours, il dut creuser de manmans-trous et partir en récolte d'os qu'il mesurait sur lui-même avant de les jeter. Il crut souvent reconnaître un tibia de Ninon. La argeur de son bras. La courbe d'une de ses côtes. Alors, ils le posait à part, pensant reconstituer sa douce."

In Texaco.

Tabula rasa

A tabula rasa não existe. Somos e seremos sempre o que fomos, menos o que queremos ser, ou seríamos, se pudéssemos. Mas é uma tentação permanente, constante. Curiosa, não é, esta necessidade de acreditar em algo que há milhares de anos se sabe não existe?

Pior - em algo que inúmeras experiências passadas nos dizem não existe?

Ditaduras

Por alguma - às vezes compreensível - razão as pessoas tendem a desculpar algumas ditaduras, a aceitá-las como inevitáveis, ou até boas. A "ditadura do amor", por exemplo; ou a do bem; ou outra qualquer do mesmo género. 

Não é verdade. Não há ditaduras boas, sejam elas do que forem - políticas, de amor, do bem ou do mal, da estupidez ou da inteligência, do vício ou da virtude. Todas as ditaduras, sem excepção são intrinsecamente más. Só a liberdade vale.

Blogocoisas

Um dos problemas da blogocoisa é que está carregada de coisas que lhe são exteriores, estranhas, externas. Um gajo escreve a e é lido b, c, d, e, f e tudo por aí abaixo até z.

Telefotos


Le Marin, Martinique


Le Marin, Martinique


Le Marin, Martinique




Fort-de-France, Martinique


Parnaíba, Brasil

9.3.13

Opções, coisas

À medida que o tempo vai passando, um gajo pode optar por uma de duas vias: ou pensar que as coisas são o que são e é tudo o que são: ou, ao contrário, pensar que elas são o que são mais o que foram e serão, menos o que poderiam ter sido vezes uma constante chamada "inconstante da vida" a dividir pela quantidade de vidas que espera viver. Falta por aí algures uma raiz quadrada e uma potência qualquer, estão decerto escondidas nalgum recanto das coisas.

Verdades, mentiras

Há muitas verdades; não só uma. Há verdades verdadeiras, verdades construídas, ficcionais, assim assim, temporárias, verdades de empréstimo, de aluguer, concretas e abstractas. 

Tal como mentiras, de resto.

Cumes, abismos

Esquecemo-nos muitas vezes, mas ao lado de cada cume há um abismo. Ou vários.

8.3.13

Palavras, tracinhos

As palavras deviam morrer, se as queremos conter? Sim, sem dúvida. Há porém uma que jamais morrerá, jamais será contida. É um substantivo, e quando se conjuga o respectivo verbo leva um pronome pessoal reflexo no fim. Ou, dito de outra maneira, um tracinho te.

Dia das mulheres

Hoje é o dia do Mundo. Parabéns a todas as mulheres, todas.

Assimetria

Amo-te porque quero amar-te é incompreensívelmente mais poderoso do que Não te amo porque não quero amar-te.

7.3.13

Dor

Num conto de O'Henry - um autor americano que passou alguns anos na prisão, injustamente esquecido, na minha opinião - um ladrão de cofres lima as unhas - a parte superior delas - até à carne para sentir melhor a combinação de números. 

A dor tem esse efeito - torna-nos mais sensíveis, faz-nos ver coisas que de outra forma não veríamos. É uma bênção.

Adenda - conheço uma escritora portuguesa cujos contos, por vezes, me fazem lembrar O'Henry. Chama-se Ana Vidal. Mas nunca esteve na prisão, felizmente, de modo as suas personagens vêm de outro meio social. 

Barragem

Uma barragem contra as palavras só é eficaz se elas, as palavras se afogarem, desaparecerem todas. Sonho com cadáveres de palavras a flutuar numa água parada, podre, escura. 

Tentar contê-las mantendo-as vivas é uma perda de tempo.

Tocar no fundo?

O fundo de hoje é o tecto de amanhã.

6.3.13

Religião, bondade

De certa forma percebo a necessidade de religião. Um homem bom (o que está longe de querer dizer que todos os teístas são bons) não ganha muito com a bondade, neste mundo. Melhor acreditar no outro.

Resiliência, pecado

Uma amiga de há muito e muito querida dizia-me hoje que o que mais admira em mim é a capacidade de me reconstruir, de me refazer a cada cataclismo - ela assistiu a algumas das piores catástrofes pelas quais passei, e ajudou-me muito em algumas delas.

Qualquer marinheiro está habituado a lutar contra - ou melhor, a lidar com - forças que não controla (por isso de vez em quando os versos de Leornard Cohen no Sisters of Mercy - "You who must leave everything that you can not control / it starts with your family, but soon it comes around to your soul" me fazem sorrir um pouco, docemente). Lidar com o vento, o mar, o tempo, as correntes - não controlamos nada disso, mas lidamos com todas essas forças e não abandonamos.

Acontece que não abandonamos porque temos uma técnica, um saber, instintos que nos permitem sobreviver e, pior ainda, gostar do que fazemos (se bem gostar não seja o verbo adequado; mas isso agora é um pormenor).

Não sei, contudo, lidar com outras forças igualmente incontroláveis: o acaso, o infortúnio, o azar. Apesar de, verdade seja dita, serem minhas companheiras de jornada há muitos, incontáveis anos. Aos cinquenta e cinco anos ainda não aprendi a lidar com essas forças - não sei se alguém jamais aprendeu, de resto. Eu não.

Mas só conheço uma forma de reagir a tudo o que é mais forte do que eu: lutar, resistir, não me conformar, não deixar ir, não abandonar. Perder é não ir à luta, não é sair derrotado.

Só perde quem não quer voltar a ser feliz. Mesmo se, como continuam os versos acima citados, "your loneliness says that you've sinned".

Cacos

A vantagem dos seres humanos sobre as jarras é que quando se partem podem ser colados sem que se note. Pelo menos do exterior.

5.3.13

Maré vazante

A maré baixa, e quando baixa pouco há a fazer se não esperar a baixa-mar; depois começa subir - e tudo o que há a fazer é não ter ilusões: não vai durar sempre.

Tomar nota


3.3.13

Serotonina, telefone

Não sabia que se podia tomar serotonina por telefone, mas fiquei a saber.

Blake

He who wishes but acts not breeds pestilence.

You never know what is enough unless you know what is more than enough.

Calor

Como se o ar fosse uma piscina de água quente.

Cérebros, rum

A verdade é que um cérebro grande tem uma irrefutável vantagem sobre um pequeno: consegue absorver mais rum.

Maldição

Não há pior maldição do que amar uma mulher inteligente.

(Talvez haja: não ser amado por uma mulher inteligente. Não interessa).

Céu

Ontem portei-me tão mal, tão mal que fui parar ao céu.

Música para ouvir amanhã (sempre)

Mais

Ou tocado

Jazz como devia ser cantado

Provérbios portugueses

Cresce e desaparece.

Humanidade

A qualidade de um ser humano mede-se melhor pela quantidade de dor que encaixa do que pela maneira como reage ao sofrimento (não acredito em super-homens, e não gosto de infra-homens). 

1.3.13

Não-eu

Anda por aí um palerma em Falmouth Harbour que é igualzinho a mim, mas não sou eu. Faz tudo o que eu faço, mas nada como eu faria. Tira o curso da RYA, vai beber copos ao Mad Mongoose, bebe cafés de manhã no Skullduggery, e cada vez que o vejo tenho a impressão de que sou eu, mas do avesso. Porém não sou eu, é ele.

Tem os meus defeitos todos bem à vista de toda a gente; já as qualidades esconde-as bem escondidas (como naquele poema de Pessoa, quase: "nada de teu exagera ou exclui". Ele exagera umas coisas e exclui outras).

Anda sempre carrancudo; ninguém lhe vê um sorriso (excepto uma vez por outra, por razões completamente opacas, misteriosas: aparece-lhe um breve sorriso nos lábios, e desaparece logo a seguir, vá lá saber-se porquê).

É um palerma, sem dúvida. Caiu do céu, ninguém o conhece e toda a gente pensa que sou eu. Mas não sou.

Embebeda-se como eu, muitas vezes; mas não da mesma forma, que tenho o álcool leve e alegre. Ele tem-no calado, seco, como se em vez de tirar água do poço para lá a estivesse a pôr. Não passa pela cabeça de ninguém, encher um poço em vez de o esvaziar. (Se não pela daquele idiota, claro.)

Acaba de receber uma notícia pela qual esperou quase dois anos. E que faz o palerma? Em vez de se regozijar fica ainda mais triste. Eu não: comprei uma garrafa de cava e vou festejar, logo, no barco onde ele e eu tiramos o curso da RYA.

Se por acaso alguém o cruzar, peço encarecidamente não pense que sou eu. Não é. É um palhaço e não sabe que está a imitar um farsante - mas mal.

Visibilidade

Que visibilidade! Nevis, Redonda, Monserrate e o seu penacho de fumo vulcânico... Até a Guadeloupe se vê, perfeitamente, tão longe.
 
Pudesse eu ver dentro de mim tão bem como vejo fora.

A depressão e o mundo

Uma pessoa verdadeiramente deprimida não se sente excluída do mundo: isso forçá-la-ia a reconhecer a existência de um mundo fora dela, primeiro passo para o fim da depressão.