29.1.14

Dor na doxa

Um gajo qualquer diz na televisão que os direitos humanos podem ser referendados e a turba levanta-e em uníssono - a turba só ladra em uníssono, perdoem-me o pleonasmo - a insultar o homem. Argumentos até agora vi zero.

Dói-me a doxa. Sempre doeu, é verdade. Mas agora dói mais, porque agora sei o que não sabia quando era mais novo: não é a imbecilidade que manda, mas é por sorte, por habilidade de quem manda, por acaso, por milímetros.  Estamos sempre a um passo dela.

"On n'avance pas vers la verité, on change de dogme. C'est tout." Não sei quem disse isto. Merecia os prémios Nobel todos.

Diário de Bordos - Red Frog Marina, Bocas del Toro, Panamá, 28-01-2014

Deixou de chover. É cedo para cantar vitória, mas não para ver que Bocas sem chuva é lindo, parece outro planeta. Pouco a pouco os nós desatam-se; não é de estranhar, sou tão bom a desatá-los como a fechar portas, ou a abri-las. A verdadeira questão, pensava hoje quando vinha do Palmar sem luz e a luz não era precisa, hoje, pela primeira vez é saber porque tem a minha vida tantos nós.

Há várias respostas. A primeira, óbvia, é que não sei se as outras não têm montes de nós também, e eu penso que só a minha os tem. A segunda, menos óbvia mas se calhar mais verdadeira, é que eu não escolhi a minha vida. Foi ela que me escolheu e por isso eu apaixonei-me por ela ainda muito novo.

É de todas as paixões a única que não morreu, a única que ainda hoje amo e pela qual sofro tudo o que ela quiser fazer-me sofrer.

Preciso de um bocadinho mais de mar, é tudo. Há quem pense que eu preciso também de um bocadinho mais de dinheiro. É verdade: até eu penso isso, muitas vezes. Mas depois olho para a minha vida bem nos olhos e digo-lhe que o dinheiro a teria estragado toda.

Agora ela responde-me que tem muita vontade de ser estragada; na verdade anda há anos a dizer-me isso. Eu concordo com ela, acaricio-a um bocadinho e vivo-a. E ela cala-se.

Pergunto-me quanto tempo mais a conseguirei manter calada. Pouco, de certeza.

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Dias mágicos no Palmar Tent Lodge, o meu lugar, a minha casa fora de casa, a minha praia quando preciso de praia e o meu bar quando preciso de um bar.

"O mundo é sempre mais pequeno do que o viajante que nele viaja", escreveu um dia James Baldwin. Não conheço maior verdade, nem outra que seja tão boa de viver.

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Amanhã faço um jantar a bordo para celebrar os anos de K., uma jovem alemã que conheci hoje no Palmar. Há muito tempo que não dou jantares a bordo. Há muito tempo que não tinha tempo. Aos poucos redescubro-o. Ou ele redescobre-me. Não sei. O tempo também é infinitamente menor do que o viajante que nele vive.


25.1.14

Diário de Bordos - Red Frog Marina, Bocas del Toro, Panamá, 24-01-2014

Visão do dia: a floresta de chuvas (é assim que a Wikipédia traduz rain forest. Sugestões?) a aparar a luz côr-de-laranja de fim de dia como um guarda redes a defender um penalty em câmara lenta [quem disse que não percebo de futebol?]

O vento caiu, a Toumani Diabaté sucede Boubacar Traouré, o vinho é mau mais on s'en fout, o cansaço do dia - passado a limpar o HELENA S. - escorre-me pela pele e dilui-se na noite.

Amanhã temos uma saída "fotografia + video". Espero que o fotógrafo e a sua amiga videasta sejam mestres de post-produção, o desgraçado do barco precisa de uma pintura como eu de mar, de paz, de esquecimento e de tempo.

Vai ser bom navegar nestes canais de mangal, nestas águas que passam do mais transparente ao mais obscuro em segundos. Os canais são inesperadamente profundos, há muitos monocascos por aqui, mas estou contente por fazer isto num cata. Um metro e dez de calado. Um metro e dez de possibilidades.

24.1.14

Céu, para sempre

Há estrelas de novo no céu. São estrelas de pouca dura, diz A. É verdade. Tal como o céu, de resto. "Nothing lasts forever / except forever" canta Willie Nelson.

23.1.14

Um gajo

Um gajo procura, perde, ganha, empata, bate com a cabeça nas paredes, parte paredes e parte a cabeça,  encontra saídas e mete-se em becos sem elas, encontra quem o ama e perde quem ama, bebe de mais ou de menos e come idem, tem dias lindos de morrer e morre por dias feios, é feliz, infeliz, triste, alegre, melancólico, empatiza, antipatiza e simpatiza, descobre saídas dos becos e portas onde antes só via paredes.

Um gajo é um homem, não é um gato.

Um gajo sofre, des-sofre, maravilha-se com uma paisagem, um seio, um sorriso, um livro ou um poema, sabe que vai  morrer e sabe que tanta tristeza e tanta felicidade não morrem, que um dia de sol  vale dez de chuva e um de chuva dez vidas, duvida de si, dos outros, do sol e dos planetas e sabe que um bom picante num guisado trata todas as dúvidas,  tal como um dia de vento trata azias, reumatismo, dores nos ouvidos,  problemas de articulações,  unhas encravadas, vinho estragado ou intoxicações alimentares.

Um gajo não é um gato. É um homem.

Um gajo sabe que não há melhor mistura de cores do que o azul marinho e o azul celeste, mas por vezes cede e aceita um bocadinho de verde entre os dois. Um gajo gosta de mulheres, de uma mulher e de tudo o que fica entre elas.

Um gajo é frágil, porque nada é mais resistente do que a fragilidade de um gajo.

Um gajo acerta, falha, falha bem e acerta mal, é deus, diabo, anjo, anjinho e tudo o que há no meio, é bom, mau, mediano, tem sorte, azar e azar e sorte ao mesmo tempo, aprecia o silêncio e gosta do barulho, sabe que hoje ontem e amanhã são tão diferentes entre si como ele é do que era ontem e será amanhã, sabe que hoje o mar está calmo e amanhã não, que o sorriso daquela mulher vale as horas todas do mundo ou não vale um segundo, que tudo é, não é e é outra vez como num carrossel. Um gajo sabe que o bem e o mal são as duas faces da moeda desequilibrada que lhe saíu na rifa e que querer mudar essa moeda ou mudar-lhe a face é como querer escolher o tempo que vai fazer amanhã.

Um gajo é um homem. E é tudo o que um gajo é.

Sitges, Dezembro 2013



Socialismo, jardins

Há qualquer coisa de socialista nesta coisa das pessoas que "marcham pela vida". Por que raio de carga de água o aborto de A. prejudica B.? Estão preocupados com a sociedade? Preocupem-se antes com o jardim. Tem pelo menos a vantagem - não despicienda - de lhes dizer respeito.

Sono

Sono, finalmente. Se um dia tivesse um filho outra vez dar-lhe-ia um nome brasileiro: Sono Graças a Deus.

Dolce Barcelona, Gabanna


Retratos, vidas


Trogloditas e disfarces

Sou um troglodita mascarado de gajo civilizado; disfarce que prefiro à inversa.

Rum, silêncio e outras histórias

O rum Abuelo Anejo não é, de modo algum, um bom rum; mas ainda é menos um mau rum. É assim assim. Cumpre fielmente a sua missão: ser bebido e não provocar grandes êxtases.

Uma vez conheci um senhor (Senhor seria mais apropriado) que me disse Vous devriez vous méfier du rhum: c'est une boisson qui rend fou [foi na Martinique, daí o francês]. Percebi, claro, o que ele me queria dizer: irmão, não bebas mais, olha para mim. Não gosto de não-ditos, mas gosto de coisas que são ditas sem palavras.

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Gosto de muitas coisas; de quase tudo, para dizer a verdade. Não gosto da chuva; das pessoas que são como um dia sem vento; e menos ainda das pessoas que são como a chuva: desagrádavel mesmo quando não nos toca.

De resto é preciso procurar muito para encontrar algo ou alguém que me desagrade.

Infelizmente não pára de chover, mas isso é outra história.

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Há chuvas silenciosas? Há silêncios barulhentos, ruidosos, incomodativos, invasivos?

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Como se chama um cocktail composto de rum e silêncio, com uma rodela de lima e uma gota - talvez - de bitter Angostura?

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Uma garrafa de rum Abuelo de um litro custa oito euros. Experimentem comprar um litro de silêncio, para ver. Quinhentas vezes mais, no mínimo.

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Mais vale um silêncio na mão do que dois a voar.
Mais vale um rum na mão do que dois na garrafa.

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A rapariga era simpática, mas precisava de muitas palavras. E não bebia rum.

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Se chovesse rum eu detestaria a chuva?

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Prova da superioridade do rum sobre o whisky: este pode misturar-se com água da chuva.

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Os maus silêncios são como o mau rum: nada é pior do que uma coisa boa mal feita, barata, ordinária.

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A noite está escura como um barril de alcatrão; a chuva alegra-a? Não: dá-lhe sentido.

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Suzanne cantada sobre o Boléro de Ravel. Há coisas piores do que a pior chuva ou o pior silêncio.

22.1.14

Diário de Bordos - Red Frog Marina, Bocas del Toro, Panamá, 21-01-2014

A vida em Bocas del Toro - em Red Frog Marina, para ser mais preciso - recomeçou como se não tivesse nunca de cá saído. Chego a ficar espantado quando me dizem Good to see you back. Regresso de um jantar no Palmar, hamburgers bons e baratos num quadro simpático; e penso que se neste país não chovesse tanto quase se poderia viver. Quase, claro: se não chovesse tanto não seria tão  bonito.

Enfim, ao que parece a estação das chuvas acaba em breve; acredito pouco, mas acredito um bocadinho: preciso de dormir.

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Têm sido dias de trabalho intenso. Ainda mal refeito da travessia com um doente tenho de tratar de três barcos (devia; de momento só me ocupo do H.S.). Hoje foi dia de discussão de planos com A., o actual e excelente skipper do bote. À tarde fomos distribuir brochuras pelos resorts da região. Não foi um sucesso: dos que visitámos só um estava aberto. Mas aproveitámos o passeio pelo meio das ilhotas de mangal, paisagem que vi no outro dia pela primeira vez do ar.

Vistas do mar as ilhas são irregulares, claro; o mangal parece caótico. Mas de cima a vista é completamente diferente: as ilhas parecem cortadas com uma máquina, de tal forma são regulares, como aquelas peças decorativas que se põem nos bolos de aniversário com formas de coração ou de outra coisa qualquer.

Basta esperar que páre de chover...

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Desta vez os sapatos Foreva decepcionaram-me. Sinto-me traído: finalmente tinho razões concretas, palpáveis para suportar o meu incerto e hesitante patriotismo; mas ao fim de dois meses (admitidamente de bastante uso) tive de os colar. E agora estão a descolar-se de novo. Se fosse rapaz de má-fé garantiria a quantidade de cola e a qualidade da colagem. Não sou, não garanto. Mas que é frustrante é. Onde comprar sapatos em Bocas del Toro? De que marca? Haverá sapatos Foreva (não sou pessoa de desistir à primeira)? Não acredito. Haver sapatos já é uma sorte; e nenhum deve ter sido feito a mais de poucos quilómetros do centro da província mais recuada e recôndita da China.

Socorro! Será que os responsáveis do marketing da marca Foreva lêem blogs? Terão brio profissional e recomeçarão a fazer colar e coser convenientemente os seus sapatos? Voltarei um dia, quando tiver de novo oportunidade de comprar uns sapatos dessa até agora excelente marca, a cantar-lhe laudas?

E se não, alguém me pode indicar uma marca com preços semelhantes e da mesma qualidade (dos primeiros, claro. Não destes)? - Se possível com representação em Bocas del Toro, província homónima, Panamá, América Central.

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Cada vez me engano menos sobre as pessoas; e cada vez me engano mais quando me engano.

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Amanhã espera-me outro dia ocupado. Fui escolhido por uma profissão que tem todas as vantagens - é bela, apaixonante, interessante, divertida - e mais uma: desconhece totalmente a monotonia. Ao contrário do que muita gente pensa.

Se bem esteja morto de vontade de voltar para o mar.

20.1.14

Como na Suíça

A panga das cinco e meia ou sai atrasada (quase sempre) ou sai adiantada.

É como com os autocarros na Suíça: podemos acertar o relógio por ela. Se bem de uma forma um bocadinho mais imprecisa: quando sai sabemos que não são cinco e meia.

Próxima etapa

(E sozinho, Allah uAqbar!)








Que pena não ser já amanhã...

Diário de Bordos - Bocas del Toro, Panamá, 20-01-20104

Um chulo enamorado não deixa de ser um chulo; ou quando muito pode passar por armador de embarcações de recreio. É o que sou: armador enamorado e furioso.

Ou o HS trabalha ou. Ou o quê?

Não ouso sequer pensar nisso. Hoje fiz uma ofensiva na frente do marketing e da pintura (o barco precisa de uma séria intervenção cosmética). A ver. Trinta anos de experiência devem servir para qualquer coisa, até para dar a volta a um clima que não é, digamos, adequado para o day charter.

Clima e não só. Uma das coisas que terei de negociar em breve é uma avença mensal para uma autoridade me permitir trabalhar. Que caminho, desde que um senhor há muitos anos em Portugal me pediu um BMW e eu disse que não...

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Bocas é lindo, mas confirma violentamente a minha convicção de que a beleza não é tudo.

19.1.14

Leituras (Memorandum)

Ando em maré de boas leituras.

Ali Smith - There But For The: provavelmente a melhor coisa que li nos últimos anos. Imaginação delirante aliada a técnica da narrativa de virtuoso. Há poucas alianças mais ou tão fecundas.

Tracy Chevalier - Girl with a Pearl Earring: a narrativa como gosto dos vinhos e dos cocktails: secos.

Michel Houellebeck - La Carte et le Territoire  (em curso).


Diário de Bordos - Panamá City, Panamá, 19-01-2014

Acabei por embarcar, depois da intervenção da senhora cheia de bom senso (e de fome, provavelmente ajudou).

Os planos são como enguias, debatem-se e escorregam-nos das mãos; temos de os agarrar com força e não os deixar cair.

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Domingo em Panamá City. É estranho ver estas ruas vazias. Em menos de meia hora estou no meu velho Rana Dorada a beber um Mojito "sem açúcar".

Fui recebido com um sorriso colombiano e muitas perguntas sobre os meus paradeiros, o que me parece uma boa maneira de continuar esta corrida de táxi nas ruas hoje desertas, mas normalmente cobertas de carros e de gente e de barulho.

Panamá aparece-me mais simpática, hoje: sabe de certeza que vai ser uma das últimas vezes que estarei por aqui.

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Hoje durmo no HELENA S. Deve ser a coisa mais próxima que tenho de dormir em casa.

E não, não vou ao Balboa Yacht Club. Algumas peregrinações são necessárias, imperativas, por muito dolorosas que sejam; outras são dispensáveis.

Diário de Bordos - Miami, Florida, EUA, 19-010-2014

Inicialmente a ideia parecia boa: um jantar rápido e uns copos em South Beach, um hostel ou hotel barato, aeroporto de manhã cedo e ecco, Panamá.

Como de costume não foi bem assim que aconteceu: com excepção do jantar, numa tasca judia onde comi o melhor shawarma da minha vida (teria sido igualmente o maior, se tivesse conseguido acabá-lo) nada correu como planeado. Os hotéis e hostels estão cheios, é um fim-de-semana de não sei quê. Tive de vir dormir ao aeroporto. O qual estava também a abarrotar de gente a dormir... E agora a saga continua: não consigo embarcar para o Panamá por causa de uma estúpida história de papéis.

Espero o veredicto num Burger King e penso que ainda estou cansado da travessia, que preciso de uns dias em Bocas a pensar noutras coisas para sacudir esta água deste capote.

2013 estica-se até ao último minuto, até ao último segundo.

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Isto dito, esta noite ajudou-me a perceber de onde caíam os miúdos que levei a passear no S. B. o ano passado. Chegaram às Ilhas Virgens para cinco dias de vela com bagagem para dois meses; e com roupa como se fossem para Monte Carlo. Coitados. Traziam Miami com eles. Discotecas, Clubes, Cafés, música, barulho e toda a gente vestida. A cidade é muito bonita, sem dúvida; mas é uma mistura que me seduz pouco. Os EUA inteiros seduzem-me pouco, na verdade.

Não gostaria de viver num país onde as chávenas de café têm um aviso a dizer que contêm líquido quente. É sempre triste, ver um país a escorregar para o socialismo. É melhor vêr-los a sair dele.

O pior

O pior de uma depressão não sâo a dor, a tristeza permanente ou esta incapacidade de respirar, como se os pulmões a cada inspiração perguntassem Para quê?

O pior de juma depressão é simplesmente a impossibilidade de passar uma ideia do cérebro à mão. Isto admitindo que há uma ideia no cérebro, claro.

18.1.14

Mudança, imanência

Mudar é bom, claro; tem boa imprensa, pelo menos. Mas muito mais importante é aquilo em nós que não muda. É isso que nos define.

17.1.14

Diário de Bordos - Le Marin, Martinique, Antilhas Francesas, 17-01-2014 - II

É preciso imaginar uma luz densa como a de Lisboa, já no fim do dia, oblíqua e quente; uma praia pequena, dourada e uma grande extensão de água. No fim desse plano de água há muitos barcos, um nevoeiro de mastros. Por trás dos mastros montanhas, verdes.

É preciso imaginar um homem sentado face a isto tudo. Os barcos, a luz, a água e as palavras são a sua vida, sempre foram.

É preciso imaginar uma vida: uma vida feita de mar, palavras e luz.

Um fim de tarde é uma vida. Basta imaginá-la, imaginá-lo.

O homem pensa no passado, muito pouco. Pensa no futuro. Pensa no presente. Pensa demasiado: a luz e o mar e o vento e as palavras não precisam que se pense neles.

Pensa: O ti'punch está para mim como a luz para esta paisagem.

Pensa: Tu estás para mim como vento para esta água.

Pensa: Como será andar aqui sem ti?

Pensa:

Não sei. Não há respostas. Não há certezas. Não há nada para além desta luz que o vento arrasta como o desejo arrasta um olhar numa pele.

Mar, barcos, luz e palavras: uma vida.

Mango Bay, le Marin

"Nada do que é humano lhe é estranho".

Diário de Bordos - Le Marin, Martinique, Antilhas Francesas, 17-01-2014

Os estais e os mastros cortam a luz como espadas. O fundo é verde e montanhoso. O vento traz calor e refresca. O rum dilui-se em mim e dilui-me no mundo. Aos meus pés, por entre as frinchas do soalho a água brilha e recorda-me que há uma vida onde menos se espera.

Tenho de me levantar e ir aos correios: dez minutos e uma vida.

Sem ti, a noite

Eu sei que é tarde, meu amor. Mas tenho este copo de vinho por acabar, mais teimoso do que os outros; e a máquina da roupa: esperar que termine, estender, pôr a dos brancos (pois, esqueci-me de comprar lexívia).

Eu sei.

Mas nada me espera senão uma noite sem ti; e prefiro um copo de vinho e uma máquina de roupa à tua ausência: sem ti espera-me para sempre.

Sem ti um copo de vinho e uma máquina não acabam e a noite não começa.

Oiçam

"Oiça um bom conselho..."



Jesus fucking Christ!

16.1.14

Paisagens

Borderline, maníaco-obsessivo, sádico, agressivo, egocêntrico... Algumas paisagens mentais chegariam para alimentar uma clínica de psicólogos durante anos.

Diário de Bordos - Le Marin, Martinica, Antilhas Francesas, 16-01-2014

Tal como os séculos não acabam quando diz o calendário, também o meu ano de 2013 não acabou no dia 31 de Dezembro. Acabou ontem, quando cheguei à Martinique; ou hoje, talvez.

A travessia foi um calvário. O ano termina como começou: miserável. Tenho pelo menos uma certeza: 2014 não pode ser pior.

A isto chama-se saltar da frigideira para o fogo. A ver se desta aprendo a controlar a impulsividade.

Não sei pactuar, não sei dizer que não quando penso sim ou sim quando o não é óbvio; não sei lidar com a estupidez e ela não sabe lidar comigo; e, descubro agora, não sei lidar com psicóticos - provavelmente só os profissionais da área sabem -. Acrescente-se a isto a minha habitual falta de sorte: é a receita infalível para se fazer um homem pobre. Livre, mas pobre.

Penso no Tevye, do Fiddler on the Roof:

"Lord who made the lion and the lamb,
You decreed I should be what I am.
Would it spoil some vast eternal plan
If I were a wealthy man ?"

........
Isto dito, tudo é nada comparado com o que me rodeia: o barulho do casco na água, a sete nós apesar de estarmos no primeiro rizo; a lua em quarto crescente, promessa de lua cheia para a chegada; as estrelas tão claramente visíveis que o céu parece estar em três dimensões; as núvens que as tapam e destapam como lençóis voam numa cama de amantes; a auto-estrada prateada à minha frente a indicar o caminho e a dizer-me que tudo não é mau, que nada é tudo, nunca.

........
Um autor que li há alguns anos pensa este tipo de comportamentos esquizóides um factor importante na hominização. Talvez tenha razão: sinto-me de regresso ao tempo em que os homens não falavam. E àquela cena dos macacos do início do 2001 Odisseia no Espaço.

........
Onde acaba a cobardia e começa a inteligência? Ou será a cobardia a solução inteligente?

........
Resta-me a luz, o cor-de-laranja do nascer do sol no azul do mar. Devem ser estas as cores da felicidade.

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Estou quase a chegar àquele ponto mágico de que fala Conrad: no meio do oceano, a mil milhas do porto mais próximo.

........
Há muitos anos que não navegava num tupperware. Espero que venham muitos mais antes do próximo.

Muito, mal

Amámo-nos muito e amámo-nos mal. Infelizmente prevaleceu o mal; a qualidade sobre a quantidade.

Como teria sido, se nos tivéssemos amado pouco e bem?

A realidade existe

Quem acha que a realidade é uma ilusão, ou que todas as visões da realidade se equivalem nunca esteve três semanas fechado com um psicótico.

Noite, vida

Vamos começar por definir noite? O que é a noite?
(Aquele espaço de tempo no qual tu devias estar perto de mim).

E vida, o que é vida?
(Aquele espaço de tempo no qual tu devias estar perto de mim).

Deux

Voyons donc voir ce que voir veux dire,
ou être vu veux dire
ou être entre deux regards veux dire, entre
deux yeux, deux seins, deux jambes.
Deux vies, deux lunes, deux chemins.

Deux est un nombre magique.

Sea, rhum

This man can sleep, given enough sea and rhum.

15.1.14

Le Marin, Martinique

Marin princípio e fim, Marin queda, Marin abismo, Marin ressurreição, Marin amado, Marin.