31.5.14

La cuisine du jour - 3

Tapenade

Azeitonas (pretas, neste caso),
Anchovas,
Sumo de um limão,
Muita pimenta,
Salsa,
Alcaparras (em langue d'oc tapena, que deu origem ao nome do prato),
Azeite.

Desta vez não levou alho porque a rouille tem alho que chega. E não levou piripiri porque a minha amável e generosa e hospitaleira anfitriã & filhos não gostam.

Também fiz uma canja de galinha, mas enfim. Não é preciso receita.


La cuisine du jour - 2

Um pimento e bastante gengibre raspado encontraram-se no fundo de uma panela a refogar quem sabe penas passadas. Em óleo de palma, porque em breve vou para o Brasil e preciso de me aclimatar. Numa frigideira ao lado um frango dourava em azeite.

A certa altura encontraram-se todos juntos na panela. Juntou-se-lhe um bom bocado de salsa, bastante paprika e cominhos, um pouco de pimenta.

Continuou o refogo, bastante tempo.

Quando me pareceu que chegava de poucas vergonhas cobri aquilo tudo com leite de coco.

Está a cozer devagarinho. Vamos ver o que dali sai. Muito provavelmente frango guisado em leite de coco.

La cuisine du jour (Reedição)

Do livro "La Cuisine d'Amour", de Odile Godard, Ed. Actes Sud, 1985:

1 kg de lulas;
8 batatas;
1 cebola;
3 tomates;
3 colheres de sopa de azeite;
3 dl de vinho branco,
2 malaguetas,
Tomilho, louro.

Para o aïloli:

2 gemas de ovo;
2 dentes de alho;
1/3 litro de azeite.

Cortar as lulas aos bocadinhos, alourá-las ligeiramente em azeite; juntar a cebola picada, e o tomate cortado aos bocados. Quando tudo está bem refogado, juntar o vinho branco e igual quantidade de água a ferver. Temperar com sal, pimenta, malaguetas, louro e tomilho.

Deixar cozer 30 a 40' em lume brando. As batatas começam por se cozer à parte e juntam-se a este preparado para acabar de cozer.

Fazer o aïloli (é uma mayonnaise à qual se junta alho picado - se bem que também se possa fazer com batata cozida em vez das gemas de ovos); juntar 2 colheres de sopa por pessoa, depois de se certificar que as lulas não têm líquido a mais. Não voltar a levar ao lume. Deve ficar onctuoso.


Não gosto muito de navegar no Mediterrâneo: ou não há vento ou há vento a mais, as transições são bruscas, violentas e sem pré-aviso; no verão os portos são caros e estão cheios, e no inverno estão vazios, mortalmente vazios. Mas, do Sul de Espanha ao Norte de África, passando pelo Midi, pela Itália, pela Turquia, pelo Líbano, sobretudo o Líbano, a cozinha das margens do Mediterrâneo é a melhor do planeta. Desta receita, prefiro a versão simples da Odile Godard à versão mais tradicional, com legumes, de que dou um exemplo.

Em Sète, de onde é originária. Com um Brassens nos ouvidos, a pele no sol, e um pastis na mão.

........
Não tenho nem pastis nem Brassens. Mas tenho tudo o resto: chega.

(E sim, agora faço sistematicamente o aïoli com batata cozida).

As imagens da verdade

São inúmeras as coisas em que não acredito.

Não acredito em deus, chame-se-lhe como se quiser; não acredito nas alterações climáticas antropogénicas, que os pretos são piores e os maricas melhores do que os outros, que cortar um nabo às rodelas finas e depois fritá-las em azeite bem quente seja a pior maneira de comer nabo.

Não acredito nos homens, sejam eles super ou infra ou simplesmente medianos - um homem é um conjunto falível e imperfeito de células governadas por genes que só pensam neles. Não acredito em heróis, não admiro um gajo por nada que não dependa da sua vontade ou, o que é a mesma coisa, da sua coragem; não acredito que haja muitos pianistas melhores do que Cecil Taylor, não acredito que o vinho tinto, o whisky ou o rum (consoante onde se esteja) não sejam o melhor remédio para a maioria das coisas más e boas que nos afligem ou acontecem (admitindo que há coisas boas que nos acontecem, claro). Não acredito no passado e muito menos no futuro.

Não acredito na vida depois da morte - haverá uma antes? - nem no poder ilimitado do amor - o amor é como a liberdade, só existe no plural.

Mas são mais ainda as coisas em que acredito; não porque sejam mais mas porque são maiores: acredito no mar, por exemplo; em alguns amores que tive e noutros que terei; em algumas amizades.

Acredito que passar uma tarde de sábado a cozinhar é uma das melhores maneiras de passar uma tarde de sábado, se a música e o vinho forem bons; acredito em mim: "sou o que sou e é tudo o que sou"; acredito que um dos melhores lugares do planeta é uma embarcação de vela a mil milhas do porto mais próximo.

Acredito nos croquetes e nos pregos da Versailles (para dizer a verdade, em tudo o que de lá sai), no poder regenerativo do sol e terapêtico do vento, que o melhor sítio para ter as mãos é uma pele, e os olhos outros olhos; que há poucas coisas melhores de se ouvir do que as Vésperas de Rachmaninov, sobretudo se forem ouvidas numa catedral, cantadas por um bom coro. Acredito que poucos poetas são melhores do que Jorge Luis Borges, William Blake ou Fernando Pessoa, que alguns poemas de Nuno Júdice e muitos de Pedro Tamen roçam a perfeição pelo interior, na fotografia de Man Ray, Richard Avedon ou Diane Arbus, nas canções de Leonard Cohen, que são a vida em música e palavras.

........

Nada disto é verdade.

Acredito em tudo: "Tudo aquilo em que se pode acreditar é uma imagem da verdade".

Quatro Estações

Ouvir as Quatro Estações é uma boa terapia para quem só tem uma (a triste).

Serendipity, Lisboa

Não há um equivalente português para serendipity.

Talvez haja: Lisboa.

(Isto precisa de um desenvolvimento.

Talvez haja: ir almoçar ao restaurante Águas Livres umas sublimes pataniscas de bacalhau com arroz de feijão não menos sublime; descobrir o Quinta do Grifo Reserva 2008, um vinho pelo qual regressarei a Portugal esteja onde estiver, Lua incluída; acabar o almoço com um Marc de Champagne que ajuda a perceber que os franceses fazem certas e determinadas coisas melhores do que nós, e entre essas coisas estão a manteiga, a aguardente e duas ou três outras que eu conheço); sair do restaurante e dar de caras com o atelier do Tiago Taron, um dos meus pintores favoritos toutes catégories confondues. Só lhe conhecia as obras de uma exposição na Ler Devagar há muitos anos e vê-las no atelier dá-lhes outra vida, outro contexto e outra dimensão).

Restaurante Águas Livres
Calçada Bento Rocha Cabral, 18
Lisboa (ao Largo do Rato)
Tel.:  213 878 365
rest.aguaslivres@gmail.com

Reédition partielle - paraphrase

Un seul être nous manque et nous sommes le monde.

Desafios

Um gajo deve resistir a tudo menos a um desafio irresistível.

29.5.14

Lisboa, últimos dias, I

Não te amaria mais se de carne fosses feita, digo a Lisboa; não te amaria mais se de calçada fosses feita, digo a uma ou duas pequenas. Nenhumas sabem das outras. Antes assim: os grandes amores são para manter secretos.

28.5.14

Quasi-proverbes

Misanthropie bien ordonnée commence par soi-même.

Carcaça

A carcaça lá se vai aguentando. Enquanto a cavalariça não ceder o cavalo está bem.

Lisboa

Velha amante do mundo:  o tempo passa por ti como um rio por um seixo. Redonda eras, redonda ficas.

A beleza das baratas

É preciso ter presente a enorme resistência das baratas para se apreciar devidamente a beleza da expressão avoir le caffard.

Lettres de Lisbonne

Oui. Il ne faut guère se taper la tête conter le mur, s'arracher les cheveux, se donner des coups de poings. J'ai pris un peu de poids. Personne ne vient à Lisbonne pour maigrir. Et oui, le machin dans le sang doit être à des niveaux himalayéens; on s'en fout, il descendra de lui même. Ou bien on le fera descendre, on lui tirera dans les pattes. Lisbonne va bien et se recommende. Te salue bien. Tu lui manques, qu'elle me dit.

Je m'y noie: ginginhas - tiens, Sr. Manuel est mort, étouffé -, piratas, vin au Vertigo, mon nouvel antre. Elle s'offre comme une vieille poufiasse, Lisbonne: en cachant beaucoup plus que ce qu'elle donne à voir.

Il fait beau et frais: temps de printemps. Dommage que tu ne sois pas là, n'est-ce pas?

27.5.14

Como se me quisesses, Lisboa

Olha-te Lisboa, mulher, para as gajas cada vez melhores; e para os gajos mais na mesma. És fêmea e como fêmea te dás e escondes. Pouqu'importa: achoqu'ela queria me'mo er'ó gajo, ma não tenhacerteza.

Eu tenho: quero-te como se me quisesses.

De novo Lisboa

De novo te percorro, Lisboa, te ando e te fodo. E de novo tu ris e foges e te dás, mas nunca toda. Nunca toda te dás, mas sempre toda és.

Escondes-te e fodes e gozas por partes: o que hoje és amanhã não foste, o que ontem foste só amanhã serás. És uma porra, Lisboa; perto do fim.  Não me importo. Reencontrar-te-ei deitada e viva, alerta e trocista, gozona e cona aberta para quem sabe, fechada e fechada para quem não.

Afogas-me Lisboa em ginja e ideias, em mulheres e ruas, em projectos e piratas; eu afogo-me em ti como se não houvesse amanhã, como se não houvesse ontem, como se não houvesse eu, como se não houvesse nada mais se não tu e o mundo. Porque não há nada mais se não tu e o mundo, Lisboa: tu és o mundo e o mundo se pudesse seria tu.

Afogas-me, Lisboa; e fazes-me viver. Na morte a vida se faz, da morte se refaz. E tu de sempre renasces, para sempre.

Filme

Entre a pátria e a fratria, Le genou de ma mère et moi.

Palavras, para que vos quero

Há uma incapacidade generalizada de lidar com as palavras. A única real, importante diferença entre comunistas e fascistas, nazis e outras direitas extremas é aquilo que dizem. Não é o que fazem nem muito menos o que pensam. Detestam-se uns e aceitam-se outros por causa dos respectivos discursos.

Quem disse Human beings can not bear too much reality podia ter dito Human beings can not bear too much words.


Adenda: Foi o Eliot e não é Human beings. É Human kind.

Marinho Pinto

Num país de não-ditos um arroto é rei.

Velocidade, tristeza

Na autoestrada da tristeza deve circular-se em excesso de velocidade.

Resumindo duas semanas

Amo demasiado este país para poder cá viver.

As corporações e a esquerda

O fascínio de ver malta de esquerda a defender corporações nunca acaba. Quando lhes lembramos o nome da República Portuguesa durante o Estado Novo zangam-se.

Televisão, democracia

Sou profundamente democrata mas não voto. Lembro-me de uma discussão com um amigo que criticava a televisão. Eu defendia-a. A discussão acabou quando ele me disse, à falta de argumentos: "Merda, Luis, tu defendes a televisão porque não a vês!"

Felizmente o argumento não pode ser utilizado numa discussão sobre a democracia e o voto (no caso da televisão tão-pouco era válido, mas isso é outra história).

26.5.14

Robins dos bolsos

Mais uma em favor das empresas públicas, esses antros de bondade cuja função é redistribuir riqueza (sacam-na dos nossos bolsos para a pôr nos bolsos de quem nelas trabalha): faço uma reserva na TAP. Da estrutura de preços constam uma Sobretaxa de Combustível (165 euros) e uma Taxa de Emissão de Bilhete (15 euros). Alguém seria capaz de me esclarecer de que emissão se trata? Eu nem a reserva imprimo, e se imprimisse os custos seriam meus. E combustível? O preço do bilhete não cobre o combustível? Será que cobre a amortização do avião, ou corro o risco de ficar retido  no aeroporto? Já agora, porque não sobretaxas Salário da Tripulação? E Seguros (salvo seja, claro)? E Publicidade, Custos Adminsitrativos, Fornecimentos e Serviços Terceiros?

E depois há gente que é contra a privatização da TAP. Eu seria mais pelo desaparecimento da TAP, tout court (e nem sequer sou eu quem paga o bilhete).

O trigo do joio

Um médico do SNS tenta desencaminhar a minha Mãe do serviço público para o seu consultório privado. Fez isto durante uma consulta do SNS, em instalações do SNS, durante o seu tempo de trabalho para o SNS. O argumento que usou foi que no SNS demoraria muito tempo. Se fosse ele a fazer-lhe a operação, durante o seu período de trabalho no sector privado, seria mais rápido.

Ou seja: o SNS está a financiar o marketing do doutor (que, de resto devia ser autorizado a fazer-se publicidade. Não vejo inconveniente nenhum nisso, desde que seja ele a pagá-la). Ou seja, todos nós estamos a financiar a publicidade do senhor.

Deve ser por isso que cada vez me recuso mais a separar os funcionários públicos uns dos outros. Separo pessoas. Conheço médicos de uma seriedade irrepreensível, como conheço professores, polícias e (é pouco provável mas não impossível)  funcionários daqueles de balcão cuja única função na vida é foder a vida a quem trabalha.

Mas cada vez que oiço alguém defender o Estado Social apetece-me mandá-lo, muito precisa e lentamentamente, para a puta que o pariu.

Como a minha Mãe não tem dinheiro para fazer a operação no sector privado, está em lista de espera. Na lista de espera do médico que a aconselhou a ir para o sector privado. Há momentos em que gostava de ser um  gajo violento.

Etimologias ao acaso; paronomias

Não deixa de ser curioso que melancolia e melomania tenham raízes tão diferentes e tão parecidas. Considerariam os gregos que as mélos são forçosamente mélas?

Estradas afectivas

Curvas e contracurvas, altos e baixos, lombas na estrada, silêncios e cacofonias, tempestades e calmarias, proibido estacionar, velocidade limitada ou obrigação de transitar à velocidade mínima de.

Pare, escute e olhe. Proibido parar.

Amores genéricos

Não acredito muito nessa história do amor indefinido, universal, sem objecto. Mas há dias em que o compreendo.

Basta não lhe chamar amor.

Évora, mundo

Passeio por Évora de saco às costas, à espera do transporte para Lisboa. Podia substituir Évora por mundo, e Lisboa por outro sítio qualquer. Nada mudaria: um homem, um saco, um caminho, uma solidão.

A mesma onde e como quer que esteja.

Magoar

Magoar quem gosta de nós porque gosta de nós deve ser uma das situações mais desagradáveis pelas quais passamos.

24.5.14

Diário de Bordos - Lisboa, Portugal, 24-05-2014

Lisboa está cheia de mulheres bonitas e espanhóis feios, vestidos de palhaço e cerveja na mão. Três gajos de bicicleta parecem-se com carteiristas disfarçados de polícias à paisana, ou polícias disfarçados de carteiristas; em qualquer dos casos os disfarces estão bastante bons. Está tudo cheio de gente: as ruas, as praças, as esplanadas, o metro, o comboio. Normalmente detesto multidões; mas hoje não há multidões: há electricidade.

No caminho para casa tive um início de intoxicação melancólica. Felizmente ainda estava a tempo de a tratar: um pequeno corona (não gosto de charutos grandes, graças a deus) - aconselho o Romeo y Julieta, mas um Vega de Robaina ou um Partagas também servem - umas flores na florista Pequeno Jardim (a senhora não entende muito bem o meu sentido de humor; provavelmente porque não tenho um), uma ginginha Sem Rival - o sr. Coelho parecia uma daquelas personagens de banda desenhada a quem de tanto se mexer não se vêem os braços, ficam transparentes - e compras de especiarias no centro comercial da Mouraria.

Não curei definitivamente a intoxicação mas pelo menos parei-lhe a progressão galopante.

........
Na primeira página do Público (de ontem) vejo um título que diz "A maioria dos [professores? Não me lembro] estão [qualquer coisa - desmotivados, ou qualquer coisa do género. Não importa -]. Porra, Numa primeira página. Eu percebo que não tenham revisores, mas não aceito que não tenham vergonha.

........
Começo a habituar-me a Lisboa. Já não bebo dezenas de café por dia e a quantidade de torradas com manteiga está num nível quase normal.

Amanhã vou para Évora. O meu porto sem mar.

Reflexões tristes de uma manhã de sábado. Manhã no sentido lato, claro

Hoje parti dois copos. Dois copos, dos mais bonitos que a minha anfitriã tem. Não sei se por causa de um jogador de futebol que não consegue mijar, se por outra razão qualquer. Não sei o que fazer (para além de comprar copos iguais, claro; ou pelo menos parecidos).

É indecente. Já em Shelter Bay parti dois copos à Nike, dois dos mais bonitos que ela tinha. Os copos partidos andam aos pares. Estou desfeito, de rastos. É que um copo compreende-se e aceita-se; mas dois!

Claro que não é isso que me impedirá de continuar a lavar a loiça (e gostar de o fazer). Mas bolas, dois copos é muito copo. Felizmente estavam vazios, se não haveria cerveja a lamentar também.

Enfim, hoje vou fazer um frango com leite de coco; ou com farinheira, não sei ainda. Ou com chouriço, alheira, pimentos. O meu estado de confusão é muito grande. Dois copos partidos - um por cada cerveja. Ao menos o ratio com os copos da Nike foi melhor - um copo por cada garrafa de vinho mais meia dúzia de runs, ou assim. Um copo por mini é inaceitável.

Ainda por cima mini. É um formato de maricas e mães de família que foi incompreensivelmente adaptado por toda a gente, incluindo homens. Eu não gosto muito, mas isso deve-se ao facto de não ser mãe de família, suponho.

Se tivesse bebido dois litros de cerveja e tivesse partido dois copos ainda vá que não fosse. Ou bebido dois copos e partido dois litros.  Não sei.

Vou passear, para desmoer a tensão. Dois copos! E logo dos mais bonitos que ela tem.

Estou a repetir-me. É altura de parar. Vou sair. É sábado. Nunca mais é domingo! Domingo vai ser um dia bom, eu sei. Enfim, se conseguir não partir copos, claro. Arruina-nos um dia. Mas sábado é um dia chato, longo, interminável. Especialmente este, que começou mal. Pode ser que acabe bem, que o frango fique bom, que o metro não esteja cheio de espanhóis adeptos de futebol (hoje jogam duas equipas espanholas).

No outro dia em Bocas del Toro, no Panamá, estava a falar com um espanhol. Disse-me que havia um jogo de futebol que queria ver e eu perguntei-lhe quem ia jogar. ele respondeu que era o Real Madrid. Como não percebo nada de futebol mas queria ser simpático perguntei-lhe de onde era o Real. O senhor ficou um bocadinho surpreendido, mas também era educado e não disse nada. Enfim, disse: disse que o Real Madrid é um clube e que ia jogar contra outro clube qualquer.

Não percebo nada de futebol; a verdade é que pouco me interessa. Se me pedissem para escrever sobre futebol teria um belo conjunto de anedotas para contar.

Como daquela vez em que o taxista me disse "aqui é a casa do Simão Sabrosa" e eu lhe perguntei quem é o Simão Sabrosa? O homem ia tendo uma apoplexia ao volante, olhava para trás incrédulo e eu aflito dizia-lhe ponha as mãos no voilante, olhe para a frente, cuidado, não não sei.

Hoje sei: era um jogador do Benfica. O futebol interessa-me pouco, e não percebo a idolatria de que os seus jogadores são alvo.

Não percebo idolatria nenhuma, de resto. Nem a admiração por coisas e pessoas nem nada disso que faz de um fã um fã, seja de futebol, de uma igreja ou de um partido. Sou independente. Enfim sou dependente, mas da minha independência. Não é a mesma coisa do que ser dependente de um idiota qualquer que não pode mijar, ou de outro que nos diz que tem o corpo numa hóstia ou que o vinho tinto é o sangue dele (porra, deus nos livre) ou que a solução dos nossos problemas é aumentar os impostos ou matar os burgueses ou expulsar os estrangeiros ou que resolve tudo se votarmos nele.

Não voto. Quero que eles se fodam. Votei uma vez na vida e chega.

Também não tenho dinheiro, mas isso não tem nada a ver com a independência ou com o voto.  Nem sequer com os copos partidos. Claro que se tivesse mais dinheiro ficaria menos preocupado com os copos. Não sei. Talvez. E talvez percebesse mais de  futebol, soubesse quem é o Scolari ou o Jesus ou o Sabrosa sem que as pessoas tenham de me ensinar de permeio com exclamações mais ou menos incrédulas.

A verdade é que sei fazer as coisas que me interessam: navegar, ler, amar (enfim, isto presta-se a discussões. Mas acredito que sim, que um dia saberei amar-te como mereces, e assim por diante).

É um sábado chato e longo. Vou passear. Pode ser que veja copos giros numa montra, ou cervejas grandes noutra.

Hamlet porto-eleitoral

To v or not to v.

23.5.14

Reedição

Dedicatória

A perfeição, querida, é muito difícil de encontrar; e dar-lhe as mãos é ainda mais difícil. Satisfaçamo-nos com o bom, que é a sua forma humana.

Bica matinal

A senhora do café onde vou é um bocadinho surda. Todas as manhãs peço-lhe uma bica e ela faz uma cara zangada. E repito: uma bica, por favor; separando bem as sílabas.

Podia contar a história assim, mas não seria verdade. Ela tem razão.

Amanhã

Sabemos onde estaremos amanhã, mas não onde estávamos ontem. Isto é, de onde viemos para estarmos ali amanhã. Ou seja: não sabemos o que nos reuniu; não sabemos nada, excepto onde estaremos amanhã.

Talvez seja pouco, mas é tudo.

Tu, primavera

Dás-me vontade de ter a primavera amanhã, mulher.

Mais l'air du printemps est une chose souple et tendre.
Les pores s'ouvrent, tout l'espace entre
en nous, et nous nous répandons délicieusement en lui.



Charles Baudoin, in Livre d'Images, ed. Armand Hénneuse, éditeur, col. Les Écrivains Réunis.

Post très important sur une partie de l'anatomie féminine

Venons-en donc aux nibards (ayant déjà passé en revue les gambettes, les mirettes et toutes ces choses qui font d'une gonzesse une nana et d'un gars un godelureau).

Point n'importe qu'ils soient grands, petits, moyens, tombés, droits, en forme de pomme, poire, pastèque ou raisin, bruns, roses ou jaunes. Les grands ont, certes, quelques avantages; les petits en ont deux: le défi qu'ils nous posent et le plaisir de les voir éclore. Deux petits rochers qui naissent du désert, quoique désert n'est pas le mot. Bien au contraire.

Un sein doit remplir la main d'un honnête homme. Le reste est superflu (ou super, selon certains; et flou, selon d'autres). Je suis pour les choses claires et nettes. Ni super ni floues. A la bonne mesure.

Pratique

L'auto-citation est à l'écriture ce que la masturbation est à la vie sexuelle: pratique, irremplaçable.

Peur, début

Par où commencer? La vieille arnaque de l'eau dont on ne connaît pas la profondeur, etc. Histoires. L'eau a tout autant peur que toi. Peut-être plus. On s'en fout de la peur.

Une table de ping-pong dont on ne connaît pas la longueur. Plus juste, comme analogie. Moins dramatique. Et l'autre est comme toi: en l'air. Qu'il aille se faire foûtre, le ping-pong. Et les analogies, en chemin; et les longueurs.

On est un peu paumé, c'est tout. Pas très longtemps. On ne va pas faire toute une histoire à cause de l'eau. "Je ne suis qu'une partie de toi / partie chercher l'eau". Je suis une balle de ping-pong dont le joueur est aussi moi. Je suis une table de ping-pong dont je ne connais pas les dimensions. C'est moche, comme analogie.

L'exactitude n'a rien à faire ici. Je t'aime. C'est exact: je t'aime. Mais incomplet. Faudrait détailler: j'aime tes yeux; tes jambes; tes seins. Ton sourire et ton humour. Ton regard; ton intelligence. Est-ce toi? Que manque-t-il? Toi.

"On ne commence jamais. On recommence, c'est tout".

Par où recommencer?

22.5.14

Cenas da vida conjugal

- És um dos pilares da minha existência.
- E tu uma das pilas da minha.

Fractal, verdade

A verdade é um fractal.

Por exemplo: amo-te. Amo-te toda, inteira, tu; e cada milímetro quadrado da tua pele, cada milissegundo do teu olhar, cada fracção de cada gesto que tu fazes.

Cada ti em toda tu, de cada segundo a vida. 

Micro-dialogues

- J'ai fait le premier pas.
- Oui. En arrière.

.........
- Tu crois que...?
- Je ne crois plus. Ça ne paie pas. Je me limite à constater.
- Tu vis dans le passé.
- Le doute n'a pas de passé.
- Ni d'avenir.
- L'avenir ne paie pas.

........
- Sans symétrie point d'amour.
- Sans amour point de symétrie.
- Te laisses-tu déformer par l'amour?
- Non. Je déforme l'amour.

Reedição

Se isto tivesse acontecido teria sido mais ou menos assim. É um grande se.

Um pequeno bar de jazz; estou sentado na mesa do patrão, à esquerda quando se entra. Cortesia do dito. Passo duas etapas. A miúda era linda.

Há dois tipos de miúdas lindas, não sei se já viram: umas dizem "eu sou linda". Outras "eu estou a dizer-te que sou linda". São estas as mais interessantes. "Eu estou a dizer-te que". Um dia fui remar no lago Léman com uma dessas. Isto é: ela remava; eu ia ao leme e olhava para ela. Território proibido. Ela sabia: território proibido; e "eu sou linda e quero que tu saibas que o sei". Foi uma manhã dolorosa. Bonita, mas dolorosa. Ela ganhou: não transgredi. Excepto mais tarde; ela disse-me: "gosto de homens que me sabem ler". E eu respondi "gosto de mulheres que se sabem escrever".

Hoje não. Eu estava no canto do bar e ela entrou. Nem me viu, claro. Era linda. A mensagem que transmitia a quem via era: "eu sou linda e estou a dizer-vos que sei que sou linda".

Entretanto a banda começou a tocar. Foi a coisa mais fascinante que ouvi nos últimos tempos. Imaginem duas guitarras (uma solo, ou ritmo ou o que quer que seja, a outra baixo), e uma bateria. O baixo tocava como se fosse ritmo; o ritmo como se fosse Frank Zappa; e o baterista tinha a suprema qualidade de um baterista: não se ouvia, e quando se ouvia era excelente, sublime. A verdade é que entrei para beber um whisky na brasa e não foi bem assim. E depois ela entrou (só a vi enquanto ela passou: tinha o olhar vago, coisa para a qual não sei olhar). Vinte anos. Alta, magra, cabelos morenos longos, olhos verdes; metade da barriga à mostra. Normalmente isto não chegaria para a qualificar. Linda.

Ora bem: de um lado temos uma banda na qual o baixista toca como se fosse um ritmo; o baterista só se ouve quando tem que se ouvir, o que é raro; e o solo toca como se fosse Zappa (isto é um exagero grosseiro, mas pouco importa). Do outro um bar cheio, uma miúda linda e uma gaja feia que não pára de olhar para mim, mesmo quando beija o senhor que está com ela (o que acontece com uma certa frequência, de passagem seja dito).

É desagradável. A senhora é feia, mas não deve ser burra; tem um olhar inteligente, vivo.

II
Não era de nada disto que queria falar quando comecei.

III
Recomecemos. Meta-beleza: era disto. Beleza é a que se dá a ver, ou a que se deixa ver?

IV
Não. A miúda é linda. De Frank Zappa não conhece nem a letra "F". Não sabe o que é um meta-discurso. Abençoada seja.

V
Prefiro a beleza que se sabe à beleza que se oferece.

VI
A beleza deve saber-se. Se não, não sabe a beleza.

VII
Hú um dever na beleza. Um dever de reserva? Não: de auto-consciência.

Cepti-semântica

- Qual de nós dois mergulhou primeiro?
- Define mergulhar.

Cenas da vida conjugal

- Queres fazer amor?
- Não. Quero foder.

21.5.14

Ouvido no táxi

O meu problema não é arranjar gajos. Disso tenho os que quiser. O problema é arranjar um gajo.

Cenas da vida conjugal (cont.)

- Attends un peu avant de te déshabiller. On pourrait parler un peu avant de...
- Parler? Parler de quoi? Tais-toi et baise.

Cenas da vida conjugal

- Minha querida, bacalhau é como pila: quem não gosta não come.
- Bolas, estás a fazer-me lembrar que tenho de ir ao médico tratar do maxilar.

Meta-post

(Estou no recreio do francês.)

Reedição

La sémantique des pommes

L'objectif de l'exercice - établir, oui ou non, d'une façon irréfutable l'existence d'une sémantique de la pomme - s'éloigne au fur et à mesure que la nuit avance - c'est-à-dire, recule - et le jour approche. Nous étions trois - ma pomme, sa pomme et une pomme, mouillés à l'entrée du fleuve, directement dans le chenal.

Il était évident qu'il nous faudrait sortir de là, sous peine de violent coup de cargo, coup de brouillard, coup de courant, coup de foudre, coup de sifflet ou n'importe quel autre coup. Sa pomme à la barre, pomme à la bouche; ma pomme au guindeau. Le brouillard nous enveloppa. La pomme m'indiqua la direction de la marche, travers au courant; nos approchâmes la rive, avant laquelle nous savions - les cartes nautiques existant précisamment pour donnner ce genre d'information - qu'un banc de sable nous attendait.

La sémantique de la pomme étant alors établie sans marge d'erreur. Trois pommes paumées dans le brouillard se retrouvent grace à l'une d'entre elles, une carte nautique actualisée et beaucoup de chance. Mais sur le banc de sable quelqu'un avait - nous le vîmes maintenant, puisque le brouillard se lêve impromptu - construit une cabane et planté un arbre. Est-ce vraiment le banc de sable ou la rive du fleuve?

L'arbre est-il un pommier? La nuit recule, le brouillard se lève, la maisonnette est de plus en plus visible, l'arbre aussi. Toutefois, sans savoir si c'est un pommier, que faire?

Ma pomme décide de sauter à terre et passer un bout' autour de l'hypothétique pommier. Avant faut-il mouiller, c'est évident; et culer le plus possible pour que je me mouille le moins possible. Il n'y a personne à terre; à quoi ou à qui sert donc la barraque? La nuit avance, le jour approche.

Nous sommes perdus sous un épais manteau de verbiage. Les mots nous couvrent comme des corbeaux dans les péllicules de terreur. Ma pomme, ta pomme, ta pomme. Sans l'intervention d'une autre pomme - d'un autre mot - le bateau sera perdu. Quel mot choisir? Vite, il y a urgence.

J'aime sémantique; c'est de la famille de semiologie, mais plus accessible, moins m'as-tu-vu. Tu choisis pomme, car tu en as une à la bouche - les deux mains occupées à barrer. Nous pouvons choisir la lune qui mieux nous convient. Pleine lune: on voit mieux, mais la marnage sera plus grand; alors, quadrature? Que sera-t-il du bateau dès que la marée baissera? Sommes-nous entre le banc de sable et la rive?

Sommes nous entourés de corbeaux, de corps beaux? De mots? Si oui, y a-t-il une règle qui relie les corps entre eux, telle celle qui relie les mots et leurs sens, les corps et leurs sens, la beauté et le sens?

Quel mot, quel corps, quel sens choisir? Quel arbre, au fond?

Reedição

Écoute-moi

Écoute-moi. Je veux - je vais - tout te dire. Tout. Ne rien taire. Ni la rage ni l'impuissance, sa mère; ni les seins caressés au troisième étage de la Tour Eiffel, Paris à nos pieds, ni le désir, "ce chien". Je raconterai tout. Je penserai aux mots, je te donnerai des paroles comme des fleurs ou des coups de poing. Attention: je penserai aux mots mais ne les penserai point: ils sont faits pour être dits; et vécus, les mots. Pas pensés.

Je te parlerai d'un ventre et des merdes qui te restent dans la tête comme un poil dans la langue. Je te dirai "une pair de seins sans une pair de mains: cuisinière sans feu, chaise sans pieds, pied sans orteils". Regard sans regards. Mots sans sons.

Une paire de voix haletantes vaut une vie: je te le dirai aussi.

Je te caresserai les mots sur la peau jusqu'à ce qu'ils te pénètrent comme tu m'as penetré avec ta douceur, ton humour, ton regard, tes doutes, hésitations, tes souffles. Je te dirai tout. Écoute-moi; fais attention. Écoute attentivement les mots avec lesquels je vais te frotter, car tu ne pourras guère les entendre. Je te les passerai comme des baumes: lentement, doucement, suavement. Des mots comme des huiles de fragrances. Il faut taire ce que l'on ne peut pas dire et dire ce que l'on ne peut taire.

Post naif

Digo amo-te num mundo; respondes-me amo-te e o mundo é outro.

Récré (cont.)

Les mots jouent dans la cour de récréation. Ils se regroupent  par âge, genre et langue. Les français dans un coin, les anglais dans l'autre, les portugais là-bas, les espagnols à côté. Les plus âgés se moquent des plus jeunes; les féminins essaient d'attirer les masculins et ceux-ci essaient de se faire attirer. De temps en temps ils se mélangent, se bagarrent ("beau comme un langage sans adjectifs" dit le nom à l'adjectif. "Sans moi tu es un corps sans bras, une bouche sans langue, une peau sans main", répond celui-ci. Un verbe entend et se gausse: "sans moi vous n'irez nulle part"), se tapent dessus, se font des croche-pieds. Ils sont rebelles, les mots. Ne viennent jamais quand on les appelle. Ils aiment être ensemble.

Ils nous aiment.

Zangas, futuro; apostasia

Quando estava zangado comigo o meu filho dizia-me Tu es un nomade. Um dia dir-me-á Tu es un sédentaire.

Domesticidade

Tarefas domésticas: lavar a loiça, passar a ferro, aspirar a sala, varrer as palavras inúteis, polir as que ficam.

Escrever, amar

Escrever é simples; como amar-te: basta refazer o mundo.

Récré

Imparfait de l'indicatif est un pléonasme. Tous les indicatifs sont imparfaits.

(Cont.)

Amo-te porque te conheço: de fora pelos dedos a pele; de dentro pelo corpo os olhos.

Exercícios

Amar-te é querer amar-te; querer amar-te é querer conhecer-te. Exercício 1 - sintagma: amo-te porque não te conheço; amo-te mas não te conheço; amo-te e não te conheço; amo-te apesar de não te conhecer. Exercício 2 - paradigma: amar, conhecer, querer, desejar, temer. Exercício 3: amar.

Fragmento

Il ne faut pas être tendre avec les mots. Il faut les torturer, comme ils nous torturent.

Je suis contre la peine de mort, sauf en cas de faute grammaticale grave. Liaison loupée: mort par pendaison. Accord imparfait: mort par lapidation précedée de cinquante coups de fouêt.

19.5.14

Fim-de-semana no campo

Tem sido um fim-de-semana violentíssimo.

Ontem, por exemplo, tive de me levantar do sofá a cada hora ou hora e meia para beber um bocadinho de vinho, ler uma página do Vian, ir ao frigorífico petiscar e deitar-me outra vez. Isto a tarde toda, um exercício inenarrável, esgotante tanto física como psiquicamente. Tão exausto fiquei que hoje não consegui levantar-me antes das onze da manhã (se bem não conseguir talvez não seja a expressão adequada, porque na verddade não tentei).

Tenho de ficar mais um dia, para ver se recupero.

Erros platónicos

Platão enganou-se na política e no amor. Não deve haver muitas coisas mais onde um homem se possa enganar.

Televisão

Hoje um clube de futebol ganhou uma taça qualquer e a televisão mostrou, durante aquilo que em televisão parece um século, imagens da camioneta da equipa a andar na autoestrada. Não se via mais nada: a autoestrada, um ou dois automóveis a seguirem o veículo que - presumo - transportava os jogadores do clube e as traseiras dele. Eu não percebo nada de televisão - há mais de vinte anos que não a vejo regularmente, em lado nenhum - e pouco conheço do país. Não me custa aceitar que qualquer pessoa, desde o porteiro e as senhoras da limpeza da SIC ou da TVI ou da RTP sabe mais de Portugal e de televisão do que eu. Mas porra, filmar a traseira de uma camioneta numa autoestrada ajuda a vender espaço aos anunciantes?

Algo me parece errado nisto tudo - será o país ou a televisão?

Ou eu?

18.5.14

Manhã de domingo, esquiva alegria

O Facebook pergunta-me o que tenho na cabeça.

Uma mistura de Borges (as Obras Completas da emecé, um dos meus livros de sempre e para sempre),

"...amor y víspera de amor y recuerdos intolerables,
El sueño como un tesoro enterrado, el dadivoso azar,
Y la memoria, que el hombre no mira sin vértigo,
Todo eso te fue dado y tambiénEl antiguo alimento de los héroes:La falsia, la derrota, la humillacion.
En vano te hemos prodigado el oceano,
En vano el sol, que vieron los maravillados ojos de Whitman;
Has gastado los anõs y te han gastado,
Y todavia no has escrito el poema
".

Albert Mangelsdorff, John Surman, Eddy Louis, Nils Henning etc., Daniel Humair, »Room 1220«

O gosto de um soberbo camembert já castanho, que tirei do frigorífico e espero se ponha à temperatura correcta,

"¿Donde está le memória de los días
que fueran tuyus en la tierra, y tijieron
dicha y dolor y fueraon para ti el universo?

El rio numerable de los años 
los ha perdido; eres una palabra en un indice

..."

A esquiva alegria de um domingo de manhã: a semana que foi já não é, a que aí vem ainda não é.


"...de miedo, que es un modo de la esperanza..."

"What can I hold you with?
I offer you lean streets, desperate sunsets, the moon of the ragged suburbs."

Rabindranath Tagore: "The traveler has to knock at every alien door to come to his own."

"Où les routes sont tracées, je perds mon chemin.
Sur la vaste mer, dans le bleu du ciel, il n'y a point de lignes marquées. "


Monte do Enforcado 2011

Sonny meets Hawk!

Um sofá e o Outono em Pequim.

Esquiva? Porquê esquiva?

Fúrias, regresso

Reencontro fúrias no meu vocabulário. Bem vindas de volta.

Diário de Bordos - Évora, Alentejo, Portugal, 18-05-2014

A minha avó F. - uma senhora que me ensinou a não misturar sexo, casamento e amor porque são três coisas diferentes (ensinamento esse do qual eu só tarde mas não tardiamente descobri a verdade e o alcance) - dizia que as decisões importantes devem ser tomadas pela almofada. Ou que em todo o caso se deve sempre perguntar-lhe (à almofada) a opinião.

Eu pergunto sempre. À almofada, ao vinho, à cerveja, ao whisky ou ao rum, consoante; ao pequeno-almoço dos dias de de ressaca (muitos, graças a deus) e de não-ressaca (os restantes); a um par de seios ou a um olhar mais interrogativo do que os outros; pergunto a longos passeios no campo, no mar ou no Paredão, à minha memória e às minhas experiências.

(Depois acabo por tomar as decisões erradas, mas isso é outra história - a qual não tenho de resto sequer a certeza de que é verdadeira -).

Agora estou numa fase dessas. Se me custa recusar um trabalho bom - o tempo que passei à procura de trabalhos bons, meu Deus - como é recusar vários? Não sei. A verdade é que pouco me interessa: decida o que decidir o que me espera é bom. Não pelo que me espera, mas por mim. "O mundo é sempre mais pequeno do que o viajante que nele viaja". Ou, para continuar com Baldwin, "O impossível é o mínimo que se pode pedir".

Venha o que vier, é impossível. É bom.

........
Auto-citação fora do contexto: "As fúrias dividem-se em más, malvadas e boas (exactamente como as mulheres, aliás; e das mulheres que não são fúrias não vale a pena falar)."

16.5.14

Reedição - O tempo e a vida, sobrevida

O tempo é reacças e resolveu ir passear para o campo porque estava farto de ver senhoras de meia-idade com cuecas de adolescente; mas tropeçou numa linha de caminho-de-ferro que por ali estava meio enterrada e ficou tem-te não caias com os braços às voltas como se tivesse a remar ao contrário, pelo que toda a gente parou a olhá-lo, sentada no café. Um cantor inventou uma canção cujo tema era Ó tempo volta para trás, um poeta declamou, numa voz esganiçada, histérica, Il faut être absolument moderne, e o tempo não sabia para que lado cair, se caísse.

Finalmente conseguiu sentar-se para descansar e se recompor. Parecia um manga-de-alpaca: não se mexia. Quando o tempo se disfarça de burocrata tudo pára, mesmo a vida, que é o único sinal visível do tempo. O mundo estava imóvel. Os peixes, que precisam de movimento para respirar asfixiavam; o vento andava às voltas, sem alento; as cuecas de adolescente das senhoras de meia-idade deixaram de se ver. Uma vida sem tempo parece um quadro naïf: nada se mexe, nada respira, nada vibra.

No fundo o grande problema do tempo é que só sabe andar para a frente, contrariamente ao que lhe pedia o cantor. Toda a gente pensa que ele é corajoso por isso; não é. É inevitável, o que é diferente. Corajoso é o exacto oposto de inevitável. O tempo é uma mentira; a coragem não.

Aos poucos o tempo recompõe-se; a vida volta; as saias das senhoras saltitam e os seios também; o tempo distrai-se e arrota. A vida recomeça. O tempo arrota outra vez. Toda a gente olha para ele. “É a vida”, explica. Esta riposta e diz que não.

O tempo e a vida pegam-se; são um casal muito antigo. Tudo volta ao normal. Pelo sim pelo não o tempo manda retirar as linhas de caminho de ferro que estavam, descobre-se agora, enterradas nele próprio. A vida continua. O tempo decide, uma vez mais, que não vale a pena matar-se. “Sempre vivi com duas linhas de caminho-de-ferro enfiadas no peito e sobrevivi”, explica-se. A sequência "vida / sobrevida" diverte-o. A vida vê-o sorrir e diz-lhe “anda, vamos para a cama”.

“Sobre a vida”, pensa, saciado. Ela adormece, satisfeita, a cabeça no peito do tempo. Antes de adormecer pensa “este sacana fode-me como nunca ninguém fodeu”.

Le début, heureusement

L'on ne commence jamais. On recommence, c'est tout. Si tu préfères: tout recommence. Nous ne sommes et ne serons que ce que nous fûmes; tout recommence.

Heureusement.

Fin, début

Terrace de café dans une place arborisée, soleil, musique de rue, beaucoup de vin. Un couple se déchire dans la table d'à côté. Elle pleure. Il rit. Rire est la façon eduquée de prendre la défaite. D'en prendre plein la gueule. L'on ne doit pleurer quand on est gagnant. C'est lâche, moche, lourdaud.

Elle pleure. Il lui dit Vas-t'en. Elle s'en va.  Au coin un autre mec l'attendait. Elle rit. Ils s'embrassent. Oui, tout s'est bien passé. Merci d'être venu.

Quase fragmento

J'ai besoin de mer et de nouveauté, ce qui est contradictoire. Peut-être n'ai-je besoin que d'un peu de contradiction, si absente ces dernières années.

Princípio

É preciso começar pelo princípio. Onde, quando, como é o princípio? Porquê? 

Estávamos numa esplanada de Lisboa; tinha acabado de chover. Um desses aguaceiros de primavera, curtos e densos. A luz ainda estava húmida. Escondias-te atrás de uns grandes óculos redondos, espelhados. A minha irmã tinha uns assim, quando era hippie. Acreditava no poder das flores, no amor livre e na paz. Não queres que eu te veja as lágrimas. Digo-te: não percebo porque choras. Respondes-me Não é fácil. Se para ti não é fácil o que será para mim?

Isto não é o princípio, minha besta. É o fim.

É preciso começar pelo princípio: uma esplanada de Lisboa, uns óculos redondos, grandes, muito escuros, uma mulher que chora, chuva recente. Eu. Uma quantidade excessiva de vinho. Digo excessiva para que as pessoas pensem que sou comedido, que sei o que é demasiado vinho. Não sou, não sei. Quero chorar, mas rio-me. Faço troça de ti. Digo: tens razão. Mais vale chorar. O choro é o melhor remédio. Tu ama-lo; ele ama-te. Não percebo porque choras. É uma história que começa bem. Imagina que ele não te amava. Imagina que me deixavas e amanhã descobrias que ele não te ama; ou que tem outra e não te disse; ou que não gosta de kefir. Isso sim, seria um princípio.

Não há princípios; só fins. Nada começa; as coisas continuam e acabam. A chuva, por exemplo. Os teus óculos, as lágrimas que neles escondes, o amor que durante anos nos iludiu. A luz nesta praça cheia de árvores, imóveis porque o vento parou.

Peço mais vinho. Digo-te Vai-te embora, por favor. Desculpa, respondes. Desculpa é fácil; é teu o cobertor de todos os dias. Desculpa e ooops, tudo se explica. Desculpa e lá vai a merda toda para debaixo do tapete. Desculpa e ooops, sou tão boa rapariga. Desculpa e não sou eu que quero, são as coisas que me acontecem.

Não sei. Isto é só o princípio.

15.5.14

Amo-te

Quantas vezes dizemos amo-te! e em vez do ponto de exclamação devia estar um ponto de interrogação? E quantas vezes dizemos amo-te! e não sabemos realmente quem está a seguir ao hífen?

Fragmento

Je t'embrasse et en revanche tu me manques. C'est juste.

14.5.14

Portugal (cont.)

Portugal tem coisas óptimas das quais quem aqui vive não se apercebe. Duas das menos conhecidas: o Multibanco, um sistema bastante útil para quem tem conta no banco - isto é, a maioiria da população -. E o sistema da Via Verde, muito útil para quem tem carro - se não a maioria da população pelo menos a das pessoas - com o qual se pode pagar as autoestradas (caríssimas, aliás - o que de certa forma se justifica porque estão vazias e andar numa autoestrada vazia paga-se) o estacionamento e em breve um café e um queque integral no senhor Leal.

São coisas que também existem no resto do mundo mas em menos eficaz (com excepção dos queques integrais, que só há na Pastelaria Doce Real e em algumas áreas de Cascais e Estoril).

É claro que há coisas que se vão perdendo, levadas pelo tempo e por esta mania de querermos ser iguais aos outros: polícias amáveis que nos aconselham a conduzir com cuidado quando estamos tão bêbedos que mal nos podemos sentar ao volante (era Dean Martin que dizia "se você conseguir estar deitado no chão sem se agarrar não está bêbedo"?), por exemplo. Ou políticos sérios, com sentido de Estado - sempre tivemos pelo menos um ou dois nos milhares de governos que nos governaram desde o Viriato; agora não há nenhum, como em todo o lado. Até as malas aparecem no aeroporto em menos de duas horas - um problema que só durou trinta anos a resolver (isto assumindo que já está resolvido; não sei. Ontem o meu saco apareceu num instante, mas isso talvez tenha sido devido à sua vontade de ver Lisboa tanto como aos senhores que o manusearam). Há até quem fale em acabar com as touradas (esperemos que limitem esse extravagante desejo à tourada literal; porque se o estendem à metafórica vai-se o país pelo cano).

Mas o importante vai resistindo, e é a isso que devemos prestar atenção: as nossas mulheres, capazes de fazer um homem produzir mais hormonas em dez segundos (o tempo que leva a olhá-las de alto a baixo) do que as estrangeiras em dez minutos (não me refiro a casos individuais, claro); o café, as alheiras, o bacalhau, o rio Tejo, o jardim do Príncipe Real que muito lusa e estoicamente resistiu às mudanças que lhe fizeram há uns anos e já outra vez parece uma ruína, os duzentos e cinquenta mil empregados de café que nos sorriem e nos dizem bom dia e nos servem num instante, o vinho tinto (e não só - outro produto luso. Alguém imagina um americano dizer and not only? Ou um francês et pas seulement? Sim, claro; mas não é a mesma coisa).

13.5.14

Diário de Bordos - Lisboa, Portugal, 13-05-2014

De novo te cheiro as ruas, Lisboa; de novo as percorro como se nunca as tivesse visto, como se nunca delas tivesse saído. Estás em mim como eu em ti: longe me tocas, de longe te toco.

........
Lisboa acolheu-me de braços abertos: pouco mais de uma hora desde a aterragem até chegar a "casa" (entre aspas porque não quero que a minha bonita e adorável anfitriã pense que me estou a fazer ao piso); cafés deliciosos a sessenta e cinco cêntimos, croquetes, imperiais, um passeio do Rato até ao cais do Sodré com uma doce e amical interrupção, uma imperial no British Bar, sorrisos, olá como está que bom é vê-lo, a H. está no Luxemburgo mas a S. pode cortar-lhe o cabelo, também a conhece, não conhece? Vinho tinto, beer shandy (Desculpe, hoje não há, só amanhã). Conheço.

No metro estas caras talhadas a foice, como se ainda ontem tivessem deixado o campo; montadas em chassis baixo, não vá a cidade desequilibrá-las. Caras fechadas até encontrarem um olhar conhecido. Caras bonitas, caras minhas, caras que reconheço sem nunca ter conhecido.

........
O Nuno e o Silva do British Bar reformaram-se; o sr. Manuel da Ginginha Sem Rival morreu. O Sr. Oliveira continua com o seu quiosque no Príncipe Real, a Ana na Pastelaria Doce Real.

Há caras sem nomes, mas todas têm um sorriso.

Lisboa recebe-me como recebe todos os que a visitam: de braços e sorrisos abertos. De vento aberto: cidade navegável como se fosse um mar, cidade navegada com vida, como vida.

De ventre aberto; de boca aberta; de pele aberta; em ti mergulho Lisboa como em tudo mergulhei: do pelo aos pés, da pele aos ossos, agora e sempre.

Amanhã há mais.

Desejo, estilo

Bom beijo e uma noite em vez de boa noite e um beijo. Procurei afanosamente as figuras de estilo, mas não encontrei; deveria talvez ter procurado nas figuras de desejo.

12.5.14

Portugal

Viver no estrangeiro ajuda, obviamente - mas não é de todo imprescindível - a perceber não só que Portugal é um país fantástico mas porquê: um clima excelente, um povo afável e hospitaleiro, comida que não sendo tão boa como a maioria dos portugueses pensa é mesmo assim boa e barata e servida com um sorriso, correcção e simpatia, montes de lugares bonitos e criativos, com história, magia, alegria.

Tem alguns defeitos menores (a mania de não dizer as coisas, por exemplo); e dois maiores: a mesquinhez e a cobardia.

Não tem nada a ver com a saloiice: os portugueses são muito menos saloios do que gostam de se ver (de resto outro dos defeitos menores: a obsessão umbiguista e auto-supliciadora. Basta conhecer um redneck americano ou um digno representante da France profonde para perceber que somos um povo digno, receptivo ao exterior e aos outros).

Ando há anos pelo estrangeiro, por todo o mundo com excepção da Ásia. As únicas pessoas a quem oiço dizer mal dos portugueses são os portugueses. Os estrangeiros descrevem-nos como nós somos: afáveis, hospitaleiros, com prazer em servir.

Claro está que os estrangeiros não ouvem os nossos telejornais, não lêem a nossa imprensa e não têm a mais pequena ideia da nossa "elite" minúscula, incestuosa e ridícula. Mas quem pensa que essas coisas são exclusivas de Portugal engana-se. Não há político no mundo democrático que não minta (os outros também mentem, claro; mas por razões diferentes) - coisa que de resto me impede totalmente de compreender as pessoas que acham que os governos são coisas boas e quanto maiores melhores - e poucas são as elites dignas desse nome.

Talvez os portugueses devessem viver em Portugal como se fossem estrangeiros; ou como vivem no estrangeiro. Começariam decerto a amar-se um pouco mais.

E de caminho a ser um pouco menos cobardes e mesquinhos.

11.5.14

Obrigado

Puseste à vista o que de pior há em mim. Resta-me esperar que tenha ficado de fora, extirpado para sempre.

Diário de Bordos - Cidade de Panamá, Panamá, 11-05-2014 (cont.)

Vazio como a manhã de domingo numa cidade estrangeira, escrevi há muitos anos num poema que perdi ou teve o bom gosto de se perder.Agora tenho menos cidades estrangeiras, mas o vazio é o mesmo.

Passeio pelo Casco Antiguo, que hoje só tem turistas e dedicados vendedores. Está mais bonito do que quando aqui cheguei, mas continua uma mistura quasi-lisboeta de hiper-chic com hiper-sórdido, de prédios lindos e renovados com ruínas.

Gosto dessa mistura em Lisboa porque a vivo (ou melhor, quando a vivo). Mas não é bonita, vista de fora. Sobretudo porque aqui os extremos são muito mais extremos do que em Portugal.

Como encher um domingo uma cidade estrangeira? Indo almoçar ao restaurante Coca-Cola, talvez. E depois dormir a sesta. Ou sonhar com as fotografias que farei quando tiver uma máquina outra vez. Ou voltar a ler Atonement. É sempre a primeira vez.

"Viajar. Perder países", diz uma amiga de quem muito gosto. Ou perdermo-nos nos países? Reencontrarmo-nos? Ou tudo isso misturado, num esforço para deixarmos de ser estrangeiros - ou tornarmo-nos estrangeiros em todas as cidades, o que vem a ser o mesmo - e as manhãs de domingo se tornem todas iguais, vazias em todo o lado, cheias de turistas, tempo, ruas vazias, silêncio e um avião que nos espera quando tudo isto acabar?

Diário de Bordos - Cidade de Panamá, Panamá, 11-05-2014

Pela primeira vez em muitas dezenas de anos dormi num dormitório. Não havia alternativa: por menos do que o preço de uma noite no hotel Camino Real durmo duas, e com pequeno almoço incluído. Não é experiência que tenha muita vontade de repetir; mas na verdade tão pouco foi o horror que antevia. Pelo menos não cheirava mal e não havia ressonadores; a qualidade do pequeno-almoço não me surpreendeu: quem paga amendoins tem amendoins (neste caso sob a forma de manteiga); e pão de forma branco e bananas. E café decente, isso sim estranho.

Fiz duas viagens com mochileiros; agora chegou o momento de ficar a conhecê-los por dentro; salvo seja, claro.

........
Volto mais leve a Lisboa. Em todos os sentidos: dei quase toda a minha roupa à Nike para fazer trapos. ("Não é cedo de mais", oiço daqui alguém murmurar). Salvaram-se a t-shirt verde da esperança e duas ou três outras.

A mudança de pele progride.

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O elástico de Shelter Bay atacou de novo, desta vez de uma forma inesperada: uma proposta de trabalho. A perspectiva de trabalhar no Panamá não me excita por aí além, mas o trabalho em si é apaixonante: gestor de projecto para o refit de três embarcações - um Bavaria 50 e duas lanchas a motor. "Orçamentos confortáveis", diz-me E., o adorável responsável técnico da marina.

A ver. Vamos discutir os pormenores. De qualquer forma tenho um bilhete de volta, cortesia das estratégias de preços das companhias aéreas que fazem um bilhete de ida e volta mais barato do que um só de ida (um dia alguém terá com certeza meio dia livre para me explicar isto, mas fica para depois).

Até lá Palma mantém-se o próximo destino.

E Lisboa a próxima escala.

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No albergue onde estou vejo o anúncio de um Flot 18 para venda. Chama-se Nazaré e foi construído em Portugal.

Se fosse dado a místicas comprava-o; se tivesse dinheiro também.

10.5.14

Diário de Bordos - Shelter Bay Marina, Panamá, 10-05-204

Já aqui estou há dois dias e ainda não choveu uma única vez. O lago Gatun está em baixo (pouco, e muito menos do que os catastrofistas profissionais, mudancistas de clima e afins dizem). Claro que no Panamá o nível do lago, do qual depende o Canal é mais vigiado do que a temperatura das senhoras nos casais católicos apostólicos e romanos; mas tal como o método das temperaturas as previsões de catástrofe falham. A baixa é pequena, pouco mais de meio metro. E a "época seca" (entre aspas porque as chuvas no Panamá vão de Janeiro a Dezembro. Época seca é quando chove menos, não quando não chove) está quase a terminar.

Penso todos os dias no título do jornal que vi nos Açores quando lá cheguei a primeira vez: "Pior seca desde mil novecentos e troca o passo. Não chove há três semanas". As novas eclusas vão recuperar sessenta por cento da água que utilizam. Daqui a meia dúzia de anos vai haver problemas com o nível demasiado alto do lago.

Ironizo, claro Podem sempre descarregar o excesso, sem pré-avisos, para que fundear no Chagres continue a ser uma lotaria (enfim, quase niguém lá vai, verdade seja dita).

.......
Isto dito o Panamá é um país lindo e merece ser conhecido. Tenho pena de não ter navegado mais por estas costas e ilhas quase desertas, com uma flora estonteante até para quem, como eu, é pouco sensível à verdura.

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Varela, o novo presidente tem como prioridade o controle dos preços de "vinte e dois artigos básicos". Pensei que as coisas iam piorar gentilmente; parece que me enganei.

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Falhei um trânsito. Estou furioso. Enfim, estava, ontem, quando o descobri. Depois passou. Devia ter feito mais dockwalk e ido mais vezes à piscina e ao bar. Não sei viver em marinas. E estou muito mais furioso com outras coisas, como por exemplo ir de avião e não a navegar. Ou ir sem as minhas coisas que ficaram no catamaran. Enfim, tudo tem remédio: bastam tempo, dinheiro e paciência.

9.5.14

Diário de Bordos - Shelter Bay Marina, Panamá, 09-05-2014

Voltei para Shelter Bay: à chegada a Panamá vi que me faltavam cem dólares na carteira e deixei de ter dúvidas sobre onde passar os dias que faltam até ir para Lisboa. Ainda fiquei uma noite para falar com P., o agente que nos salvou de uma prolongada estadia no canal quando passámos com o Artie, e de quem fiquei amigo, para ver se ele tinha outros trânsitos. Não. De maneira no dia seguinte estava de regresso ao meu trimaran, aos meus jantares com a Nike e o P.  O elástico que Shelter Bay prende às costas de quem por aqui passa e o faz regressar cada vez que pensa em partir funcionou de novo. Pelo menos até domingo, se não houver outro trânsito antes.

........
Ser roubado - como penso que fui - é uma violência, uma violação, uma náusea. Não interessa a quantidade nem a situação; sinto-me furioso comigo próprio, sinto asco e incredibilidade.

Esta estadia em Shelter Bay foi a mais fértil em roubos (com a excepção do refit em Panamá, claro; mas isso é outra história). Em Red Frog a única coisa que me desapareceu foi um champô. Claramente alguém se esqueceu do seu e de deixar o meu depois de o usar na casa de banho, onde tinha as minhas coisas de duche. Consequência sem dúvida de não haver nas imediações onde comprar outro.

Aqui já me roubaram a toalha (coisa que de resto me aborreceria muito pouco, era pesadíssima, não fora a chatice de ter de me limpar depois de cada duche ao papel dos lavatórios. Preciso de quase cinco metros de papel de cada vez) e outro champô - devo escolhê-los bem -. Agora os cem dólares. Colon sempre teve a reputação de ser um coio de ladrões e certas coisas não mudam.

........
A minha filha costumava dizer-me "vocês vivem num planeta paralelo" (vocês sendo os navegadores). Gosto de pensar que ela tem razão; e mais ainda do o confirmar.

P. - que, oh surpresa, está sem dinheiro - ofereceu-me uma hora de trabalho. "Não é muito, mas é o que posso agora". Hoje vou tirar-lhe os cabos de rizo e levá-los à lavandaria.

Só lamento que esta solidariedade, entreajuda e empatia sejam parte de um planeta paralelo, e não do principal .

........
Ontem a Nike e eu passámos a noite a fazer uma canção (e a beber rum; mas isso é uma consequência, não uma causa). Escrevíamos a letra os dois e ela ia acompanhando à guitarra. Tem uma voz bonita, muito clara e articulada. Ainda toca mal, mas treina todos os dias e aprende depressa.

Anda a aprender Avalanche e Hallelujah.

A letra não está grande coisa, mas é a primeira que escrevo.

........
Até amanhã posso encontrar um trânsito (é o termo dos técnicos para travessia do Canal). Espero que sim. Gostei de atravessar sem o stress de ser skipper; de tomar banho no lago Gatun às sete da manhã, de falar com os pilotos sobre tudo e mais alguma coisa.

A parte mais bonita para mim é o lago. As primeiras e segundas eclusas fascinam; depois a atenção dispersa-se e precisa-se de um navio à popa para criar alguma excitação a bordo.

À saída em Miraflores um dos barcos que ia connosco começou a meter água e quase afundava. Fizemos uma parte do trajecto com eles, até terem a situação controlada. Depois fomos para o Balboa Yacht Club.

Não havia bóias livres. Desembarquei e F. foi directamente para as Marquesas.

Perfect fears

I'm not perfect but 
I beg you to accept
Perfection is a prison 
That makes you go wrong

It's you whom I long for
Uncovering shades of day
No illusions
Cause I know we won't stay

Uncomplete halves
Of an imperfect way
Ignoring time
And fading away

Wind changes all day
Still is the same
Perfection is prison
That makes you go wrong

Freedom is a bond 
No answers to our fears
Repeating themselves
Endlessly

Don’t even try
To possess and to hope
Cause perfection is a prison
That makes you go wrong.


Nike Steiger and Luis Serpa

Shelter Bay

09/05/2014

Concentricidade, excentricidade

O desejo não é o centro nem a periferia de uma relação. Tal como o amor, de resto; ou o interesse. O desejo é uma relação, tal como o amor, ou o interesse.

Uma relação é conjunto de círculos que sonhamos concêntricos e quase nunca o são.

8.5.14

Instruções

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5.5.14

Diário de Bordos - Shelter Bay Marina, Panamá, 04-05-2014

Hoje comprei o bilhete para Lisboa e vendi o dinghy que o S. me deu. Por esta ordem. Vender é um bocado exagerado, mas só fiquei cinquenta dólares abaixo do meu absoluto mínimo; e consegui um posto de patrocinador da Nike. É importante. Nunca fui um bom vendedor, não é agora que vou aprender. Mas tenho jeito para patrocinador. Mais vale fazer aquilo que se faz bem.

Ou seja, com estes dias de trabalho consegui pagar o bilhete, comprar um tablet chinês barato, viver, passar um agradabilíssimo fim-de-semana em Panamá, comer no restaurante da marina várias vezes (um sacrifício; fi-lo para deixar algum espaço à Nike e ao T.) e beber demasiada cerveja.

Sobretudo demasiada ceveja. Podia ter a nacionalidade alemã por via honorífica. A cerveja é uma bebida utilitária. Bebe-se porque e quando se tem sede, não por prazer. Porém em Shelter Bay bebi mais cerveja em três semanas do que no ano que passou desde que cheguei ao Panamá.

Vinho. Quero vinho. Tinto, branco, rosé, espumante, de vinhas velhas, novas ou adolescentes, de colheitas precoces ou tardias - seja o que for, mas vinho -.

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Dia doze embarco num avião, treze estou em Lisboa. Faltam oito dias. Chego novo, leve, limpo, lavado de um ano abominável.

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Eleições presidenciais no Panamá. Ganhou Varela, vice-presidente há anos às turras com o presidente. Cheira-me que vai tudo continuar a mesma. Isto é: numa ligeiríssima curva descendente, apesar dos números dizerem o contrário.

É pena. Não gosto do país, mas gosto do ligeiro cheiro a anarquia que aqui se respira. Martinelli, o anterior presidente, era um populista demagogo que encheu o país de obras e para as pagar teve de esquecer a promessa eleitoral de instituir uma fiscalidade flat rate de dez por cento. Ao contrário, aumentou os impostos (onde é que eu já vi isto?)

É megalómano, pôs a mulher como vice-presidente do candidato que escolheu - o ministro da Habitação, para ficar tudo em casa -. Perdeu. Os panamianos podem ser calados, mal-educados e calões; estúpidos aparentemente não são.

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Terça-feira atravesso o Canal como line handler. Vou finalmente ter tempo para o ver como deve ser. Depois talvez fique em Panamá, talvez vá para outro sítio. Não sei. Um pequeno compasso de espera vai ser bom, fique onde ficar.

2.5.14

Tudo está bem quando acaba bem?

Um dia chato, longo, vazio e imperfeito que acaba bem deixa de ser tudo isso e passa a ser um dia bom?

Reedição. Está quase.

Um gajo apanha o táxi para ir jantar e suspeita que tudo está excessivamente mal, ou excessivamente bem, quando à entrada do bairro onde o restaurante fica o chauffeur diz "não gosto deste bairro por razões técnico-estratégicas"; um gajo pensa, claro, que não sabe o que são razões "técnico-estratégicas" mas o chauffeur liga o GPS e leva-o à porta do restaurante sem um ai.

É aí que um gajo pede ao chauffeur de táxi o cartão, porque ele foi porreiro e tudo e etc. e tal e o senhor responde "hoje é o meu último dia de trabalho"; e aí um gajo começa a pensar "será o restaurante bom? Foi-me indicado pelo namorado super-simpático de uma gaja super-bonita (o que só demonstra que Deus não joga aos dados com tudo no Universo) mas será que um gajo vai comer bem aqui"?

A resposta é sim, um gajo vai comer mais do que bem ali; e vai ficar surpreendido no caminho para casa porque passa por uma série de prédios devolutos e a cair de podres e por muito poucas gajas boas e pensa "em Paris seria ao contrário (um monte de gajas boas e poucos prédios devolutos) mas apesar de tudo Lisboa é melhor sob certos aspectos que Paris". O aspecto Tágico, por exemplo: o Tejo em Lisboa é de longe mais bonito e navegável do que o Sena em Paris; ou o aspecto Síntrico: Lisboa está muito mais perto de Sintra do que Paris de qualquer lugar que se veja, incluindo Versailles. Há, claro, este pequeno problema, pensa um gajo, dos prédios devolutos e dos cús bonitos, proporções inversas em Lisboa e Paris, mas que se f..., um gajo pensa que cús (e Sintras) bem podem ficar para depois, enquanto os prédios caírem e Lisboa for tão insuportavelmente bonita, e os cús das lisboetas tão insuportavelmente redondos, altos e firmes e tudo, ao contrário dos prédios devolutos de Lisboa (a diferença entre "vagabundas" e "bundas vagas" sendo, pensa um gajo, a melhor plataforma para discussões sobre semântica, sintaxe e Lisboa).

Um gajo vem a pé para casa porque em Lisboa se pode vir a pé para casa (em Paris também, mas anda-se duas vidas, ou três) e pensa "o simples facto de poder pensar que penso e ando e estou em segurança é uma sorte, e uma falácia; há muito não penso, e muito menos penso que penso e a segurança é ilusória" e aí pensa um gajo que todas as miúdas do restaurante (e mesmo as senhoras) eram giras, o que até nem é frequente num restaurante e todas (até as senhoras) podiam ser namoradas, ou mulheres, que não ficariam nada mal na moldura para fotografias que um gajo comprou há tantos anos e continua vazia.

Um dia um gajo "ouviu" uma senhora dizer "a minha tasca favorita em Lisboa é o Pap'Açorda" (ouviu entre aspas porque não ouviu, na realidade, leu), e pensou "se o Pap'Açorda é uma tasca eu sou a mulher do Papa" e hoje lembrou-se desta história porque esta tasca pode realmente ser a favorita de quem quer que seja desde que quem quer que seja não seja muito pedante, muito;

Porque o Stop do Bairro é quase uma tasca, quase, e come-se duas vezes melhor do que se esperava e paga-se duas vezes menos do que se pensava (o que demonstra que se pensava mal, e que os preços do Stop do Bairro são correctos) e demonstra também que as tascas sabem evoluir (não é sequer objecto de debate, que se f... as tascas e a respectiva evolução). E aí um gajo pensa que se pensasse seria, diz outro gajo, mais fácil, mais fácil, mais rico, ou pelo menos menos pobre.

"Nunca serei rico", pensa um gajo, "enquanto prestar atenção ao cú das senhoras; os cús não enriquecem quem por eles tanto trabalha".

Restaurante Stop do Bairro, rua Tenente Ferreira Durão, 55-A (Campo de Ourique). Fecha às segundas. Não fazem reservas.

Porque te quero, Lisboa

(Reedição e actualização)

Há doses maciças de serotonina nos seguintes locais, ou acções:
  • Bar O Pirata, nos Restauradores;
  • Bar Procópio, nas Amoreiras;
  • Beber um Gambrinus no Gambrinus (e comer uma empada de perdiz);
  • Biblioteca da Academia das Ciências, na rua homónima;
  • British Bar, no Cais do Sodré;
  • Claustro da Sé;
  • Claustro do Mosteiro dos Jerónimos;
  • Comprar flores na O Nome da Rosa, no Princípe Real;
  • Descer a rua do Alecrim, de manhã, ou subi-la, à noite;
  • Descer a Rua do Jasmim de manhã cedo, quando a Ponte parece estar a ligar os dois lados da rua e os automóveis são pontos de luz cor-de-laranja, brinquedos de um jovem e enérgico deus;
  • Discoteca Trem Azul, na Rua do Alecrim;
  • Eléctrico 28;
  • Elevador da Bica;
  • Escadinhas do Duque;
  • Esplanadas à beira-rio entre Santos e o Cais do Sodré;
  • Ginginha Sem Rival, na rua das Portas de Santo Antão;
  • Hot Club, na Praça da Alegria;
  • Instituto do Vinho do Porto, na rua S. Pedro de Alcântara;
  • Jardins da Fundação Gulbenkian;
  • Largo do Carmo;
  • Lisboa vista de Cacilhas;
  • Livraria Galileu (é em Cascais, mas é como se fosse em Lisboa);
  • Margens do Tejo entre Alcântara e Belém (na enchente);
  • Miradouro de Santa Catarina;
  • Miradouro de Santa Luzia;
  • Museu Nacional de Arte Antiga e respectivo jardim, na rua das Janelas Verdes;
  • Padaria Doce Real, no Príncipe Real;
  • Passear no Paredão, entre S. João do Estoril e Cascais;
  • Pastelaria Bénard, Chiado;
  • Pastelaria Ribeiro, em Cascais, ao almoço (é como se fosse em Lisboa);
  • Pavilhão Chinês (atenção, é preciso pedir noz moscada no Alexander, se não fazem com canela);
  • Praça das Flores, a mais bonita praça de Lisboa, a mais internacional, civilizada e lisboeta de todas as praças da cidade, sobretudo ao domingo;
  • Restaurante Armazém da Cachaça, em Santos;
  • Restaurante Bar Chapitô, na Costa do Castelo;
  • Restaurante da Sociedade de Geografia de Lisboa;
  • Restaurante do Clube de Jornalistas, na Rua das Trinas;
  • Restaurante Painel de Alcântara, na rua do Arco a Alcântara;
  • Restaurante Sabores de Goa, na rua do Zaire;
  • Restaurante Soajeiro, em Santos (para quem gosta de espetadas à Madeirense);
  • Rocha do Conde de Óbidos, sempre;
  • Subir ou descer a Avenida da Liberdade;
  • Todas as ruas de alguns bairros de Lisboa, ou algumas ruas de todos os bairros de Lisboa;
  •  Livraria Ler Devagar, Lx Factory;
    Café Tati para comer, beber, ouvi jazz, conversar;
    Restaurante Tascardoso, Princípe Real;
    Fado Vadio na Adega do Ribatejo, Bairro Alto;
    Lulas à Dona Maria no Beira Rio, Santos;
    Restaurante O Trivial, Princípe Real;

Reedição (está quase)

Já experimentei viver no campo várias vezes, mas nunca funcionou. Penso que tenho alergia à clorofila e apanho, muito rapidamente, intoxicações de verde. O meu oxigénio é a cidade. Se bem goste de me passear pelos jardins - são bonitos, verdes e muitos (e dos melhores) estão perto de minha casa.

Não é portanto de estranhar que prefira ver os dois largos ao pé de minha casa sem árvores. Num deles caíram, por causa do vento. No outro foram abatidas, sem dúvida pela mesma razão. Os largos ficam muito melhor assim, nus. Mais claros, luminosos, amplos, espaçosos. A vista melhorou substancialmente, e a luz também. O lugar das árvores é no campo, ou nos jardins das cidades.

As cidades têm coisas que não mudam com o vento: os Alexanders do Procópio, por exemplo, ou os do Pavilhão Chinês; o bacalhau da Floresta do Salitre (o nome é uma doce ironia) onde fui pela primeira vez muito recentemente e descobri que sou cliente desde e para sempre; a promoção da Ribadouro, ao fim da tarde. É possível comer Leitão à Bairrada em Lisboa, mas não comer um bife à Marrare na Mealhada; nas cidades há avenidas como a da Liberdade (que por sinal tem montes de árvores) e vistas como a do jardim de S. Pedro de Alcântara, ou do Miradouro de Santa Catarina; e bairros como o Bairro Azul, que acho muito mais bonito do que Campo de Ourique, ou como o Campo de Ourique, que apesar disso é muito bonito (o meu oxigénio são as cidades, mas o oxigénio das cidades é Lisboa).

As cidades têm pessoas que são excêntricas e não são malucas; ou originais e não são excêntricas; ou malucas e originais, como se tivessem cinco filhos, gostassem de chocolate e aos domingos fossem passear para os jardins. As cidades têm de tudo, porque as cidades são tudo (também gosto do mar, mas isso é porque no mar não há nada, rigorosamente nada do que há nas cidades). As cidades têm tudo aquilo de que um homem - ou mesmo uma pessoa - pode precisar: árvores, o rio Tejo, avenidas e pessoas adoráveis, excêntricas, originais (com filhos ou sem eles), Alexanders sublimes e restaurantes onde os rojões à Minhota não são rojões nem são à Minhota mas apesar disso são bons; têm bairros onde é impossível estacionar mas têm táxis; têm três apresentações de livros no mesmo dia e metro para ir de umas para as outras; senhoras com quem se pode ir jantar, outras que não gostam de nós e outras ainda por quem nos apaixonamos mal as vemos, lemos ou tocamos. Não é por acaso que ser "urbano" é diferente de ser "campónio".

Lisboa é uma cidade como as outras, em melhor, penso eu; apesar de ter coisas que as outras cidades do seu grupo não têm: prédios em ruínas, devolutos, lixo nas ruas, carros estacionados em todo o lado, até em cima das árvores, se pudessem. Lisboa tem isso tudo, e apesar disso tudo resiste. É uma puta linda, Lisboa, linda mas desmazelada porque os chulos que há tanto tempo a chulam não lhe ligam nenhuma - e apesar disso continua a ser a puta mais linda do quarteirão, porque se adivinha, por detrás do desmazelo e dos automóveis e do lixo nos passeios e dos sinais para peões que são mais fugazes do que o cometa Haley e estão verdes ao mesmo ritmo do que ele um corpo lindo, uma resistência férrea, estóica, indomável, subcutânea, intravenosa, arraigada. Lisboa vale mais do que os chulos todos; puta velha, esburacada, suja, escanzelada - mas linda. Bastar-lhe-iam um duche e meia dúzia de vestidos novos, e Lisboa seria a mais linda do bairro dela. Já é.