30.9.13

Jantar improvisado - Arroz de frango à dia de anos

Aqui onde estou só faço anos amanhã: no nome desta receita há uma ligeira assincronia. Aceitável: recebi os primeiros parabéns quando estava a começá-la.

Estamos a viver - finalmente - no HELENA S. Tudo é novo, excepto alguns perecíveis que trouxemos do Artie. E alguns desses perecíveis estavam quase mesmo perecidos, pelo que urgia cozinhá-los  (detesto deitar comida fora, é mais forte do que eu).

Em Bocas comprara dois bocados de frango que pus inteiros na panela a fritar em azeite. Depois juntei os perecíveis quase perecidos: pimentos, cenouras,  louro, alho e por fim muito no fim tomate.

Juntei as especiarias: cominhos e coentros moídos, garam masala, orégãos, paprika, muita pimenta, sumo de lima. Pouco depois foi a vez da água e do sal. Um bom bocado depois dei-lhe o arroz, deixei cozer metade em lume metade em auto-cozedura (sou pela auto-gestão) e por incrível que pareça estava óptimo.

Um dia farei um prato ao qual chamarei "... à Helena S.", mas terá de ser uma coisa mais sofisticada, mais bonita, mais elegante, como a Helena S. ela mesma.

Retrato improvável

Muito mais do que engatatão ele era engatatado. Mas nunca se apercebeu disso, coitado.

29.9.13

Remuneração dos políticos

A eleição do protegido de Isaltino demonstra que ao contrário do que se pensa os portugueses acham que os bons políticos devem ser bem remunerados.

Diário de Bordos - Bocas del Toro, Panamá, 29-09-2013.

Um dos piores anos da minha vida está quase a chegar ao fim. Fim não é amanhã, dia do meu quinquagésimo sexto aniversário; o calendário tem para mim o valor das outras regras todas: é importante que exista, mas só deve ser respeitado quando absolutamente necessário e outras pessoas dependem disso. Fim é um dia destes, quase, em breve; não sei bem quando mas sei que está ali ao virar da esquina.

Foi um ano mau numa vida que conta muitos e muito maus; contudo e como tudo teve os seus lados bons. Uns no plano pessoal - quando, finalmente, terminar serei uma pessoa melhor do que era quando começou -; outros no plano profissional - fiz uma viagem com a qual há muito sonhava, descobri coisas sobre mim que desconhecia ou esquecera, e - no fim porque na verdade é um mixed blessing, un cadeau empoisonné - sou armador de uma embarcação de vela na qual posso esperar passar muitas boas horas no mar (e por causa da qual antes passarei muitas más,  mas isso é farinha para outro pão).

Um ano é pouco, é muito, é nada. Um vírgula pouco por cento de uma vida, sendo que o pouco varia consoante onde situemos os limites daquilo a que chamamos vida.  É decididamente pouco. Foi - terá sido, quando acabar - muito. Foi muito mais do que um vírgula pouco por cento do sofrimento todo pelo qual passei (e espero que seja infinitamente mais, em termos absolutos, claro, do que aquele pelo qual passarei). E - seria desonesto não o reconhecer - o conjunto das coisas boas, incluindo a esperança, quase certeza, de que sou hoje uma pessoa melhor do que era há quase um ano representa também muito mais do que uma tão pequena percentagem faria supor.

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Escrevo na esplanada do hotel Buena Vista, em Bocas del Toro, um arquipélago cum golfos no oeste da costa atlântica do Panamá. O sítio é bonito e as perspectivas de negócio bastante boas. O HELENA S. vai ficar aqui, entregue  às mãos honestas e competentes do M. Eu vou fazer aquilo que planeara: passar o inverno nas Caraíbas. Na Primavera reunir-nos-emos os três e vamos para o Mediterrâneo.  É preciso um plano se queremos poder não o respeitar, e este parece-me o mais fácil de cumprir e o mais agradável, se tal não for possível.

O cenário é adequado: ilhas, barcos, botes, rum, uma mesa por cima da água,  calor e duas ou três sombras no quadro. Não se pode pedir mais para elaborar planos, nem para nos lembrarmos de quão falíveis eles são.

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Morri em Antígua e vou muito provavelmente ressuscitar em Palma. Não sou dado a símbolos, sobretudo aos que me são enviados pelo acaso. Mas se isto não tem um sentido nada tem.

27.9.13

Uma história bonita...

...que dedico aos meus amigos amigos dos animais (esta coisa de tentar evitar o inglês dá nisto :-); valha-me saber que sou um animal, e do piorio). A história vem de El Hablador, o livro de Vargas Llosa que estou agora a ler.

Uma tribo faz um prisioneiro; mas este anda livre e à vontade pela aldeia. Quem está preso e é vigiado cuidadosamente é o seu cão.

Santos e demónios

"...
Ó Mestre, fazei que eu procure mais:
consolar, que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;
amar, que ser amado.
Pois é dando que se recebe.
É perdoando que se é perdoado.
..."
(Excerto da oração de S. Francisco de Assis)

O franciscano que vive comigo há dezenas de anos apanhou um pontapé nos tomates do qual só agora, coitado, recupera. Gostaria imenso que ele se matasse ou fosse desta para melhor, mas não há maneira. Os santos nunca morrem. Como os demónios, de resto.

26.9.13

Catcher in the Rye

O que eu sempre quis dizer sobre o Catcher in the Rye e nunca consegui está aqui.

Diário de Bordos - Red Frog Marina, Bocas del Toro, Panamá, 25-09-2013

Esta noite choveu. Isto é um understatement. Imagino que o episódio do dilúvio na Bíblia foi inventado por um tipo que assistiu a uma chuvada destas. E logo vai chover outra vez. Espero que toda a gente encha os tanques e páre de pedir chuva.

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Há países em que perder um telefone é uma maçada; noutros é uma saga. Ou parte de outros - em Panamá as coisas terim sido diferentes, decerto. Caricatas - as lojas de atendimento da Digicel foram feitas para quando os Monthy Piton tiverem uma falha de ideias - mas enfim, eu já teria o meu telefone, o velho número e agora tratar-se-ia apenas de reencontrar os números perdidos.

Em Bocas del Toro não é tal. Tive de voltar a Changuinola - o telefone que lá comprei anteontem não funcionava -; e acabei na polícia de defesa do consumidor para conseguir reaver o dinheiro que paguei por ele. O qual me foi devolvido - finalmente e após uma certa por assim dizer insistência dos agentes da ACODECO (muito obrigado, de novo) - em cheque. Como o banco já estava fechado continuo sem o dinheiro do telefone, sem o telefone e sem o número que toda a gente tem.

Vou continuar a usar o bom velho Nokia que me foi dado há muitos anos por uma senhora que escrevia histórias de detectives. Não é smart mas é fiel.

25.9.13

Tosse e corpos

Uma dor de cabeça não passa de uma dor de cabeça; uma tosse de uma tosse. O corpo é - ou devia ser - como as crianças: visto, mas não ouvido, ou sentido. Em caso algum se lhe deve dar demasiada atenção.

24.9.13

Diário de Bordos - Red Frog Marina, Bocas del Toro, Panamá, 23-09-2013

O Panamá é o país dos projectos inacabados. Tudo aqui fica a meio, tudo demora uma eternidade a acabar. Hoje fui a Changuinola, a "cidade" de Bocas del Toro, para comprar um telefone novo e, sobretudo, pôr no novo chip o número do que perdi. Primeiro apanha-se um water taxi - enfim, neste caso mais water bus - até Almirante; depois um táxi. Ao todo, vinte dólares e uma hora.

A loja da Digicel em Changuinola não tinha nada: nem telefones, nem chips, nem sistema; tinha - e tive sorte em apanhá-los lá - dois empregados que estão a preparar a abertura, daqui a uma semana, da dita loja, até agora uma agência franquiada, a partir de dia um de Outubro uma agência plena da companhia.

É preciso começar por dizer que os jovens foram simpatiquíssimos, coisa rara neste país; e fizeram o que puderam para paliar o problema, minimizar-lhe as consequências e evitar a necessidde de uma nova deslocação minha.

Almirante e Changuinola são duas "cidades" das quais a parte mais interessante é a estrada que as liga.

Como a loja da Digicel não tinha telefones parei no centro comercial do terminal de autocarros - uma coisa que faz lembrar o "centro comercial" da Praça de Espanha em versão selvagem - e comprei um magnífico Samsung Duo, dois chips, dois números, pequeno, desbloqueado pelo dobro do que queria gastar (mas pelo menos tenho quase a certeza absoluta de que é um Samsung legítimo).

Quando cheguei a Bocas - mais de uma hora e um dólar menos do que vinte dólares depois (resolvi que sou residente e paguei a respectiva tarifa) - o telefone estava sem bateria. Pu-lo a carregar no Lilly's, o meu quartel-general aqui, e fui às compras.

Quando voltei para recolher o aparelho o restaurante estava fechado.

Ou seja, gastei um dia, quarenta dólares em transportes e outro tanto para o recarregar com minutos e com acesso à net e ainda não tenho telefone. E amanhã terei de ir a Bocas única e exclusivamente para o ir buscar - mais uma hora, pelo menos.

Transponha-se isto para a escala de um refit e ter-se-á uma ideia aproximada do que foram os quase quatro meses que aqui passei. Com a agravante de em Panamá não haver pessoas simpáticas que fazem tudo o que lhes é possível para minimizar os problemas de outrém - não fazem nada; mas se fizerem alguma coisa é tentar agravá-los.

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Retomo com prazer os nossos jantares com a N. e o D., que vieram de tripulantes no Artie e agora ficaram a ajudar.

Só mais um bocadinho, só mais um bocadinho

Morreu António Ramos Rosa, um dos melhores poetas portugueses e eu vou atrás de meia dúzia de links para ver se encontro um poema bem dito. Não encontro um.

Os portugueses não sabem dizer poesia; pensam que é preciso declamá-la (se possível no tom de quem está aflito para ir à casa de banho e não pode falar com força, não vá a caganeira borrar a dicção). É pena porque a sabem escrever muito bem.

O coitado do António Ramos Rosa não merecia isto.

23.9.13

Lua, luas

A lua cheia existe para que os selenitas como eu possam ter saudades de casa, de vez em quando. E as outras luas também.

Reedição

Reedição

Reedição

Reedição - Saut à skis, Le Locle, 1979

Liberdade et al.

Tenta conciliar liberdade, educação e correcção. Nem sempre é fácil,  possível ou sequer desejável.

22.9.13

Diário de Bordos - Red Frog Marina, Bocas del Toro, Panamá, 22-09-2013

É domingo e chove, finalmente, em Bocas del Toro. Finalmente não sou eu que o digo, claro. Por mim podem passar dois anos sem chover, ou vinte. Mas quem depende da chuva para encher os tanques de água está preocupado, naturalmente.

Enfim, foi chuva de pouca dura. Está sol outra vez, e eu como contente o meu brownie enquanto espero o café ("está a fazer" disse-me a senhora que me atendeu. Se fosse em Panamá ter-me-ia rosnado silenciosamente "é quase meio-dia, de que planeta és? Não sabes que a esta hora [agora audivelmente] não há café!"

A esplanada do hotel é bonita mas não merece o nome. Ou pelo menos não é a única a merecê-lo. Tem a mesma vista de todas estas esplanadas, construídas em palafitas em cima da água; e está um bocadinho recuada, de maneira o que vejo é a esplanada ao lado, também ela muito bonita, e do outro lado uma espécie de barco casa que deve fazer passeios com turistas,  não sei.

Estou com sono, com vontade de pensar no trabalho que aí vem e de meia dúzia de coisas, mas sei que tudo se vai resumir a voltar para bordo e tentar dormir uma sesta naquele forno.

Forno esse que dia três de Outubro tem de estar pronto para trabalhar, porque tem trabalho.

Mais rápido do que isto só quando cheguei aos Açores,  sem cheta ou pouca. Gastei quase tudo o que tinha a fazer seis cartazes que distribuí pela cidade.  No dia seguinte tinha os primeiros clientes. Aqui tenho um bocadinho mais de chetas, mas os custos são incomensuravelmente maiores. Ou o HELENA S. começa a trabalhar ou vamos eu e ele passar um mau bocado.

Dia três de Outubro é logo à tarde... A lista de coisas que há para fazer é relativamente curta porque cada uma delas demora muito tempo. Vai estar pronto. Este barco tem uma boa vibração,  bom feitio, boa onda

Paráfrase

Começo a desconhecer-me. Reexisto.

21.9.13

Diário de Bordos - Red Frog Marina, Bocas del Toro, Panamá, 20-09-2013

Como se não chegassem as maleitas dos botes agora sou eu que ando avariado. Enfim, agora é uma maneira de dizer: há duas ou três semanas, pelo menos. Hoje, finalmente, alguém se prontificou a ajudar-me. Foi a M., a empregada simpática do Kaiukos. M. é namorada de R., o empregado do Point Lava Beach Club, o outro restaurante do Red Frog Resort, do qual a Marina é parte.

R. (que me levou de carrinho de golfe do restaurante de praia para o restaurante do albergue) disse-me para dizer a M. que vinha da parte dele, e para me preparar uma mistura de limão, alho e mel. M. obedeceu, eu também, e bebi aquela mistela de um trago só. Mas depois pedi um rum, deu-me um ataque de tosse, cuspi-o todo e ela foi buscar um blister com quatro comprimidos. Disse-me com voz de quem não estava a brincar "duas agora e duas amanhã de manhã", não me cobrou o rum e eu fiquei ali um bom bocado deitado (com os sapatos a fazer de travesseiro*) até B. acabar de falar com a namorada que é japonesa e vive no Japão.

Eu acho que nós os homens temos tendência para ficar doentes de vez em quando porque é a única maneira de atrair a atenção de uma senhora e ela perceber que comê-la é a última coisa que queremos naquele momento. Ou a antepenúltima, talvez.

A verdade é que não queria atrair a atenção de ninguém. B. entretanto estava a falar com duas miúdas do hostel, por sinal bastante giras, mas eu só pensava 'já estive morto cinco dias e senti-me muito melhor do que me sinto agora". O que é indubitavelmente verdade mas não inclui todas as variáveis, etc.

De maneira vim-me embora apesar do sorriso giro de uma das miúdas e agora estou a preparar-me para acordar amanhã e tomar os comprimidos da M., não vá um sacana qualquer dum micróbio dizer-lhe que desobedeci e castigar-me.

Não gosto nada de estar doente, é uma coisa que me chateia ao mais alto ponto, quase tanto como perder o raio do telefone, como perdi hoje. Acho que ninguém gosta, na verdade, excepto claro os gajos que lhes querem fazer crer que não estão a fazer aquelas cenas todas para as comer e na verdade estão.

Eu acho uma injustiça horrível estar doente: um gajo como eu leva uma vida sã, ao ar livre e natural; não devia adoecer, e muito menos ficar assim duas ou três semanas até encontrar um empregado de mesa cuja namorada tem comprimidos encarnados e uma voz de comando à qual é impossível sonhar sequer com fugir.

E tudo isto me leva a pensar que o M., o meu, ainda não chegou e que amanhã vou ter de falar da Red Frog Marina, da qual, seja Deus louvado, gosto muito. Mas isso fica para amanhã, quando a paciência tiver regressado e a ausência da necessidade de tossir também.