31.10.13
30.10.13
Reedição
Marinheiros
Os marinheiros, dizem os franceses, “sabem fazer tudo, vírgula, mal”. Nesse sentido sou um marinheiro nato: sei fazer muitas coisas, e faço-as todas mal. Gosto de escrever – e alguns de entre vós pedem-me para escrever mais vezes; hélas, estou longe, muito longe, da perfeição. Gosto de beber – e não sou o pior nessa arte; mas cada vez suporto menos o álcool, e me suporto quando bebo. Também gosto de fotografar, mas as minhas melhores fotografias estão perdidas algures no Jura Neuchâtelois. E gosto de fazer amor – quem não gosta? É a única coisa que mais vale fazer mal do que não fazer de todo...
Gosto de fotografar como de amar: os gestos param, os olhares interrogam-se, o outro corpo deixa-se acariciar pelo tempo e pela luz, como a vida. Hoje falta-me a vontade de convencer as pequenas, e de andar com a máquina às costas, todos os dias. Mas enfim, divirto-me: faço fotografias demagógicas de leões e de girafas, sempre fáceis e impressionantes. O que já não faço são fotografias de corpos, fáceis ou não: para uns falta-me segurança e aos outros falta sentido.
Falta-me a paciência para amar porque me falta o amor tout court: para amar um corpo feminino há que amar-se, e eu não me amo, detesto-me. Claro que continuo a sonhar com aqueles dois pássaros tantas vezes na gaiola e tão bonitos fora dela, com aqueles ventres lisos como praias soalheiras e salgadas – mas são sonhos, falta-me a energia para os concretizar.
Penso muitas vezes em todas as mulheres em quem encalhei, por quem me perdi e que perdi. Cada corpo é, ou deve ser, um abismo, um recife, um porto após a tempestade, um farol no nevoeiro – nunca tive uma mulher em cada porto, mas cada mulher foi um porto para mim.
Cheguei pela primeira vez a Dunkerque num botezito pequeno, um Rush. Vínhamos de Guernesey e os proprietários deixaram-me ficar a bordo depois do transporte. Foram meses divinos: encontrei trabalho no bar do clube local, encontrei amigos, e vivia como um deus, apaziguado. Nessa altura tinha muita paciência e muita vontade de encontrar namoradas, e de dançar, de me bater nos bares (na verdade, só me bati uma vez). Encontrávamo-nos na “Pilotine”. O barman chamava-se Jean-Paul, mas eu chamava-lhe Johannus Paulus, porque ele era pedante, e eu também, um pouco.
Cada vez que abria a porta do café um braço levantava-se e alguém gritava “Jean-Paul, a primeira cerveja do Luis é para mim”, logo seguido de outro e outro e outro. Quando chegava ao balcão ainda não tinha começado a beber e já estava grosso, naquela atmosfera calorosa, excitante, selvagem. Gosto de Dunkerque como se lá tivesse nascido.
O meu amor por essas regiões começou em Guernesey: entrámos no porto com força 6 no c..., spi em cima, porque estava quase na hora de fecho dos pubs. Fizémos uma manobra magnífica: spi em baixo e nós amarradinhos no lugar. Como em todos os portos ingleses, o fiscal estava à nossa espera, e insultou-nos durante cinco intermináveis minutos: que aquilo não era maneira de se entrar num porto, que a velocidade estava limitada a três nós, que para a próxima vez nos multava, que era coisa de piratas – e terminou a lenga-lenga dizendo, muito britanicamente: “mas tenho que vos felicitar pela vossa manobra de atracação, que foi perfeita. A melhor Guinness é no não-sei-quantos-pub, corram para lá que ainda o apanham aberto”. Corremos, e eu apaixonei-me por aquelas ilhas para sempre; ao contrário da Guinness, de resto, da qual não gosto do xaroposo.
Foi o meu primeiro contacto com a cerveja e com as suas civilizações. Os monjes alemães chamavam à cerveja o “pão líquido” e Deus sabe quanto, oh quanto, eles têm razão. Era a base da minha alimentação, nesses tempos, e ainda hoje olho para a minha barriga irreductível e penso nos dias em que as cervejas que bebia eram mijadas, ejaculadas, batidas a murro, transpiradas ao som de músicas hawaianas e convertidas em intermináveis, mas geralmente recompensados, diálogos nas praias do mar do Norte.
Em Dunkerque eu tinha o barco a poucos minutos da Pilotine e era feliz, todo-poderoso, invencível. Um dia apaixonei-me: uma rapariga bela e doce, com quem vendia livros pró-independência da Flandres e fazia amor nas margens dos canais cobertos de nevoeiro. Às vezes parávamos para beber uma cerveja naqueles moínhos transformados em cafés e eu olhava para os cabelos dela, que tinham a cor da cerveja, e para os olhos, que eram azuis escuros como o mar num dia de muito vento e ainda a amava mais; e pedia-lhe silenciosamente que me perdoasse todo o mal que um dia lhe viria a fazer, e que eu mesmo ainda não sabia qual seria. Quase morri por causa dela, numa praia perto de Sintra, e ela não percebia porquê, eu nadava contra uma corrente insensata, contra uma quantidade incalculável de bagaceiras e vinho, e contra o meu medo.
Nem quando estou bem estou bem. E agora escrevo estas coisas a ouvir o Willie Nelson, que tem letras lindas sobre a solidão, e ninguém imagina a solidão e o horror em que vivo. E o medo... digo sempre ao meu filho que só os idiotas não têm medo, que ser corajoso não é não ter medo, mas sim vencer o seu medo. E tenho medo. No mar os medos são diacrónicos, vêm sempre antes ou depois do pior acontecer; não estou no mar, mas sei que o pior ainda está para vir.
Maputo, 1999.
Gosto de fotografar como de amar: os gestos param, os olhares interrogam-se, o outro corpo deixa-se acariciar pelo tempo e pela luz, como a vida. Hoje falta-me a vontade de convencer as pequenas, e de andar com a máquina às costas, todos os dias. Mas enfim, divirto-me: faço fotografias demagógicas de leões e de girafas, sempre fáceis e impressionantes. O que já não faço são fotografias de corpos, fáceis ou não: para uns falta-me segurança e aos outros falta sentido.
Falta-me a paciência para amar porque me falta o amor tout court: para amar um corpo feminino há que amar-se, e eu não me amo, detesto-me. Claro que continuo a sonhar com aqueles dois pássaros tantas vezes na gaiola e tão bonitos fora dela, com aqueles ventres lisos como praias soalheiras e salgadas – mas são sonhos, falta-me a energia para os concretizar.
Penso muitas vezes em todas as mulheres em quem encalhei, por quem me perdi e que perdi. Cada corpo é, ou deve ser, um abismo, um recife, um porto após a tempestade, um farol no nevoeiro – nunca tive uma mulher em cada porto, mas cada mulher foi um porto para mim.
Cheguei pela primeira vez a Dunkerque num botezito pequeno, um Rush. Vínhamos de Guernesey e os proprietários deixaram-me ficar a bordo depois do transporte. Foram meses divinos: encontrei trabalho no bar do clube local, encontrei amigos, e vivia como um deus, apaziguado. Nessa altura tinha muita paciência e muita vontade de encontrar namoradas, e de dançar, de me bater nos bares (na verdade, só me bati uma vez). Encontrávamo-nos na “Pilotine”. O barman chamava-se Jean-Paul, mas eu chamava-lhe Johannus Paulus, porque ele era pedante, e eu também, um pouco.
Cada vez que abria a porta do café um braço levantava-se e alguém gritava “Jean-Paul, a primeira cerveja do Luis é para mim”, logo seguido de outro e outro e outro. Quando chegava ao balcão ainda não tinha começado a beber e já estava grosso, naquela atmosfera calorosa, excitante, selvagem. Gosto de Dunkerque como se lá tivesse nascido.
O meu amor por essas regiões começou em Guernesey: entrámos no porto com força 6 no c..., spi em cima, porque estava quase na hora de fecho dos pubs. Fizémos uma manobra magnífica: spi em baixo e nós amarradinhos no lugar. Como em todos os portos ingleses, o fiscal estava à nossa espera, e insultou-nos durante cinco intermináveis minutos: que aquilo não era maneira de se entrar num porto, que a velocidade estava limitada a três nós, que para a próxima vez nos multava, que era coisa de piratas – e terminou a lenga-lenga dizendo, muito britanicamente: “mas tenho que vos felicitar pela vossa manobra de atracação, que foi perfeita. A melhor Guinness é no não-sei-quantos-pub, corram para lá que ainda o apanham aberto”. Corremos, e eu apaixonei-me por aquelas ilhas para sempre; ao contrário da Guinness, de resto, da qual não gosto do xaroposo.
Foi o meu primeiro contacto com a cerveja e com as suas civilizações. Os monjes alemães chamavam à cerveja o “pão líquido” e Deus sabe quanto, oh quanto, eles têm razão. Era a base da minha alimentação, nesses tempos, e ainda hoje olho para a minha barriga irreductível e penso nos dias em que as cervejas que bebia eram mijadas, ejaculadas, batidas a murro, transpiradas ao som de músicas hawaianas e convertidas em intermináveis, mas geralmente recompensados, diálogos nas praias do mar do Norte.
Em Dunkerque eu tinha o barco a poucos minutos da Pilotine e era feliz, todo-poderoso, invencível. Um dia apaixonei-me: uma rapariga bela e doce, com quem vendia livros pró-independência da Flandres e fazia amor nas margens dos canais cobertos de nevoeiro. Às vezes parávamos para beber uma cerveja naqueles moínhos transformados em cafés e eu olhava para os cabelos dela, que tinham a cor da cerveja, e para os olhos, que eram azuis escuros como o mar num dia de muito vento e ainda a amava mais; e pedia-lhe silenciosamente que me perdoasse todo o mal que um dia lhe viria a fazer, e que eu mesmo ainda não sabia qual seria. Quase morri por causa dela, numa praia perto de Sintra, e ela não percebia porquê, eu nadava contra uma corrente insensata, contra uma quantidade incalculável de bagaceiras e vinho, e contra o meu medo.
Nem quando estou bem estou bem. E agora escrevo estas coisas a ouvir o Willie Nelson, que tem letras lindas sobre a solidão, e ninguém imagina a solidão e o horror em que vivo. E o medo... digo sempre ao meu filho que só os idiotas não têm medo, que ser corajoso não é não ter medo, mas sim vencer o seu medo. E tenho medo. No mar os medos são diacrónicos, vêm sempre antes ou depois do pior acontecer; não estou no mar, mas sei que o pior ainda está para vir.
Maputo, 1999.
Diário de Bordos - Palma de Maiorca, Baleares, Espanha, 30-10-2013
Hoje o jantar ficou péssimo.
Isto traz imediatamente à memória a hisória do comandante que era um bêbedo, engrossava-se todos os dias, e do imediato que não tocava numa gota de álcool.
Um dia o imediato chateou-se e escreveu no Livro de Bordo "hoje o Comandante estava embriagado". Este enfureceu-se, claro, quando viu aquilo no dia seguinte. E respondeu: "hoje o Imediato não estava embriagado".
O jantar estava de facto mau; saber se isso é frequente ou não fica à discrição.
A ideia era improvisar um frango à base de gengibre, curcuma (a que em Portugal chamamos açafrão doce, ou coisa que o valha) e alecrim. Mas enganei-me no limão, pu-lo em muita demasia, e a coisa ficou sem outro gosto que o acre.
Acontece aos piores... Os limões de Palma têm gosto, estamos todos avisados.
........
Passo os dias a bicicletar por Palma, e a pensar na sorte que tenho: ser amado por uma cidade assim é como ser amado pela mulher que amamos.
E percorrê-la de bicicleta é como levá-la a jantar a um restaurante do qual gostamos muito: temos de a conhecer antes de saber que ela nos ama.
........
Uma senhora que eu conheci em tempos perdeu a sua embarcação porque tentou entrar num porto num dia de tempestade.
Qualquer bom marinheiro sabe que durante as tempestades não se tenta aportar. Ponto. As tempestades aguentam-se ao largo e sozinho.
........
Mas enfim, fui ao Mercadona, desci a Costa de la Pols com os sacos na bicicleta, cheguei a casa sem partir nada: falhar um jantar é um acto menor no meio disto tudo.
Isto traz imediatamente à memória a hisória do comandante que era um bêbedo, engrossava-se todos os dias, e do imediato que não tocava numa gota de álcool.
Um dia o imediato chateou-se e escreveu no Livro de Bordo "hoje o Comandante estava embriagado". Este enfureceu-se, claro, quando viu aquilo no dia seguinte. E respondeu: "hoje o Imediato não estava embriagado".
O jantar estava de facto mau; saber se isso é frequente ou não fica à discrição.
A ideia era improvisar um frango à base de gengibre, curcuma (a que em Portugal chamamos açafrão doce, ou coisa que o valha) e alecrim. Mas enganei-me no limão, pu-lo em muita demasia, e a coisa ficou sem outro gosto que o acre.
Acontece aos piores... Os limões de Palma têm gosto, estamos todos avisados.
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Passo os dias a bicicletar por Palma, e a pensar na sorte que tenho: ser amado por uma cidade assim é como ser amado pela mulher que amamos.
E percorrê-la de bicicleta é como levá-la a jantar a um restaurante do qual gostamos muito: temos de a conhecer antes de saber que ela nos ama.
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Uma senhora que eu conheci em tempos perdeu a sua embarcação porque tentou entrar num porto num dia de tempestade.
Qualquer bom marinheiro sabe que durante as tempestades não se tenta aportar. Ponto. As tempestades aguentam-se ao largo e sozinho.
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Mas enfim, fui ao Mercadona, desci a Costa de la Pols com os sacos na bicicleta, cheguei a casa sem partir nada: falhar um jantar é um acto menor no meio disto tudo.
Diálogos sem palavras
- O meu único objectivo na vida é ser um homem bom.
- ...
- ...
- Conheces alguém que queira ser mau?
- ...
- O que é um homem bom?
- ...
- ...
- Conheces alguém que queira ser mau?
- ...
- O que é um homem bom?
Silvia Plath, de novo
Descobertas tardias, mas descobertas.
Lorelei
"It is no night to drown in:
A full moon, river lapsing
Black beneath bland mirror-sheen,
The blue water-mists dropping
Scrim after scrim like fishnets
Though fishermen are sleeping,
The massive castle turrets
Doubling themselves in a glass
All stillness. Yet these shapes float
Up toward me, troubling the face
Of quiet. From the nadir
They rise, their limbs ponderous
With richness, hair heavier
Than sculptured marble.They sing
Of a world more full and clear
Than can be...."
Lorelei
"It is no night to drown in:
A full moon, river lapsing
Black beneath bland mirror-sheen,
The blue water-mists dropping
Scrim after scrim like fishnets
Though fishermen are sleeping,
The massive castle turrets
Doubling themselves in a glass
All stillness. Yet these shapes float
Up toward me, troubling the face
Of quiet. From the nadir
They rise, their limbs ponderous
With richness, hair heavier
Than sculptured marble.They sing
Of a world more full and clear
Than can be...."
29.10.13
Viajar no tempo
As maneiras mais fáceis de viajar no tempo são ouvir música e ler. Lembrar-se e imaginar são muito cansativas.
A imperativa imanência do silêncio
Seria preciso falar agora da imanência da mudança. Isto é: da mudança como um rigor mortis, a mudança cadavérica: muda-se de um estado de morte para outro estado de morte, de um estado de decomposição para outro.
Mudar é morrer muito, tal como partir é morrer um pouco; chegar é passar directamente ao estado da putrefacção completa, a que os especialistas dão o nome sem dúvida harmonioso de decadência seco ou palco esquelético.
Isto se nos limitarmos às mudanças geográficas, de longe as mais fáceis.
Porém a verdadeira questão continua por responder: é realmente importante falar da mudança? Não será a mudança auto-explicativa, e qualquer som sobre ela emitido, seja ele uma palavra, grunhido ou flatulência uma redundância?
Eu creio que não. De resto a redundância é tão necessária à verdadeira vida como o oxigénio, o vinho ou a morte, isto é: a mudança.
Ou a tristeza. Falo aqui da tristeza da cegonha que sedentarizou e não gosta do poste que lhe saiu na rifa, por exemplo; ou da da poeira que nenhum vento veio levantar e solidificou, se transformou numa rocha amarela e triste no deserto; ou, pior ainda: um grão de lama que assentou - os especialistas dizem sedimentou - no fundo de um rio, castanho e mole.
A liberdade é uma mistura de redundância e oxímoro: não existe e só existe quando se repete, quando se manifesta de todas as formas, em todos os níveis da decomposição cadavérica a que, nos momentos de optimismo ou equívoco chamamos vida (ou mudança, andam sempre juntas).
Não. Isto é, não é preciso falar da imanência da mudança. Não é preciso falar de nada. Não é preciso falar, sequer.
Mudar é morrer muito, tal como partir é morrer um pouco; chegar é passar directamente ao estado da putrefacção completa, a que os especialistas dão o nome sem dúvida harmonioso de decadência seco ou palco esquelético.
Isto se nos limitarmos às mudanças geográficas, de longe as mais fáceis.
Porém a verdadeira questão continua por responder: é realmente importante falar da mudança? Não será a mudança auto-explicativa, e qualquer som sobre ela emitido, seja ele uma palavra, grunhido ou flatulência uma redundância?
Eu creio que não. De resto a redundância é tão necessária à verdadeira vida como o oxigénio, o vinho ou a morte, isto é: a mudança.
Ou a tristeza. Falo aqui da tristeza da cegonha que sedentarizou e não gosta do poste que lhe saiu na rifa, por exemplo; ou da da poeira que nenhum vento veio levantar e solidificou, se transformou numa rocha amarela e triste no deserto; ou, pior ainda: um grão de lama que assentou - os especialistas dizem sedimentou - no fundo de um rio, castanho e mole.
A liberdade é uma mistura de redundância e oxímoro: não existe e só existe quando se repete, quando se manifesta de todas as formas, em todos os níveis da decomposição cadavérica a que, nos momentos de optimismo ou equívoco chamamos vida (ou mudança, andam sempre juntas).
Não. Isto é, não é preciso falar da imanência da mudança. Não é preciso falar de nada. Não é preciso falar, sequer.
Ruas, etc.
Vamos ver.
Não falar das ruas. De qualquer forma quem aponta a direcção são as palavras. Elas sabem como uma agulha* onde está o Norte. O Norte és tu.
É preciso veres: as palavras desenham corredores, caminhos, carreiros, atalhos estradas e autoestradas. Alguém está no meio deles todos. E de repente descobre que apontam todos na mesma direcção.
Que fazer?
........
Chove e apesar de serem quatro da tarde está noite, está frio. As palavras desenham caminhos no mapa do afecto.
Já alguma vez viste uma agulha procurar o Norte? Não hesita; oscila mas não hesita. Pode demorar algum tempo a encontrá-lo, mas quando o encontra sabe que o encontrou.
........
Às vezes penso em ti, muitas. Também penso frequentemente em tartarugas e em como é bom ter uma direcção, saber para onde vamos, onde estamos (isso as agulhas não dizem. Sabem para onde ir, não de onde vimos nem onde estamos). As tartarugas levam muito tempo, são muito lentas, têm uma carapaça espessa.
As palavras deviam ser como as tartarugas. Mas não são. Excepto quando têm uma direcção.
* - Uma agulha é uma bússola, se por acaso.
Não falar das ruas. De qualquer forma quem aponta a direcção são as palavras. Elas sabem como uma agulha* onde está o Norte. O Norte és tu.
É preciso veres: as palavras desenham corredores, caminhos, carreiros, atalhos estradas e autoestradas. Alguém está no meio deles todos. E de repente descobre que apontam todos na mesma direcção.
Que fazer?
........
Chove e apesar de serem quatro da tarde está noite, está frio. As palavras desenham caminhos no mapa do afecto.
Já alguma vez viste uma agulha procurar o Norte? Não hesita; oscila mas não hesita. Pode demorar algum tempo a encontrá-lo, mas quando o encontra sabe que o encontrou.
........
Às vezes penso em ti, muitas. Também penso frequentemente em tartarugas e em como é bom ter uma direcção, saber para onde vamos, onde estamos (isso as agulhas não dizem. Sabem para onde ir, não de onde vimos nem onde estamos). As tartarugas levam muito tempo, são muito lentas, têm uma carapaça espessa.
As palavras deviam ser como as tartarugas. Mas não são. Excepto quando têm uma direcção.
* - Uma agulha é uma bússola, se por acaso.
Silvia Plath
"... I shall never get you put together entirely,
Pieced, glued, and properly jointed.
..."
"... You lodge
On the pitched reefs of nightmare,
..."
"... I do not expect miracle
Or an accident
To set the sight on fire
..."
In Pela água, Ed, Assírio & Alvim, ed. bilingue.
Pieced, glued, and properly jointed.
..."
"... You lodge
On the pitched reefs of nightmare,
..."
"... I do not expect miracle
Or an accident
To set the sight on fire
..."
In Pela água, Ed, Assírio & Alvim, ed. bilingue.
Diário de Bordos - Palma de Maiorca, Baleares, Espanha, 29-10-2013
Chego a Palma cerca de onze meses depois de aqui ter estado. Parece-me que a deixei na semana passada: identifico as ruas e os trajectos, antecipo o que vou ver, noto as diferenças, encontro - por acaso - N., em cuja casa vivi três meses. Isto é mais do que conhecer uma cidade, é amá-la e ser amado por ela.
........
As ruas estão carregadas de memória e destituídas de fantasmas.
........
Palma não é uma cidade para madrugadores. Mas é tão bonita que lhe perdôo. Às sete e meia da manhã a padaria ainda não abriu. Vou para um café esperar e leio o ABC (os cafés têm o hábito civilizado de ter jornais à disposição dos clientes). A sensação de ter sído daqui há pouco mais de uma semana reaparece. Os temas de sempre (à cabeça dos quais os autonomistas catalães), a qualidade dos textos, o prazer de pegar num jornal e ter a sensação de que não tenho tempo para o ler todo. Em Lisboa comprei o Público; li dois artigos.
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As ruas estão carregadas de memória e destituídas de fantasmas.
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Palma não é uma cidade para madrugadores. Mas é tão bonita que lhe perdôo. Às sete e meia da manhã a padaria ainda não abriu. Vou para um café esperar e leio o ABC (os cafés têm o hábito civilizado de ter jornais à disposição dos clientes). A sensação de ter sído daqui há pouco mais de uma semana reaparece. Os temas de sempre (à cabeça dos quais os autonomistas catalães), a qualidade dos textos, o prazer de pegar num jornal e ter a sensação de que não tenho tempo para o ler todo. Em Lisboa comprei o Público; li dois artigos.
28.10.13
Antropologia de base
Refiro-me apenas às torradas comidas num café ou numa pastelaria.
Uma torrada é constituída por duas fatias de pão de forma, cada uma delas com cerca de uma polegada de espessura e cortadas em três partes no sentido longitudinal.
A torrada pode ser pedida desbastada - pode, mas não deve, na minha opinião: abaixo se perceberá porque defendo esta tese -, com muita ou pouca manteiga, muito tostada ou pouco tostada. Tão pouco se deve: uma torrada não suporta qualificativos nem constrangimentos. Uma torrada se faz favor é a forma correcta de pedi-la.
Nos cafés e pastelarias dignas desse nome a torrada vem com a quantidade certa de manteiga - boa, muita, e barrada de ambos os lados de cada fatia de pão - e tostada no ponto exacto em que o pão deixa de estar duro e já não está mole.
Uma torrada desbastada - isto é, sem côdea - tira ao acto de a comer a sua componente psicanalítica (a qual só interessa, naturalmente, a quem se interessa por psicanálise de café): torna indiferente qual das três partes da cada fatia se come em primeiro lugar. Eu sugiro que se deixe as duas partes do meio, as que só têm côdea nos lados superior e inferior para o fim. Devidamente ensopadas de café, ou de café com leite, vergam-se, dobram-se, quase se partem antes de chegar à boca. Os lábios agarram-nas (uma de cada vez, claro) e encaminham-nas para as papilas gustativas do consumidor avisado.
Deve sempre tentar tomar-se o pequeno-almoço em casa, ou pelo menos numa casa; se impossível, então deve escolher-se Lisboa; e em Lisboa um café ou pastelaria dignos desse nome. Pedir uma torrada se faz favor e pensar que uma vida que nos permite iniciar o dia dessa forma pode ser tudo; mas madrasta não é com certeza.
Uma torrada é constituída por duas fatias de pão de forma, cada uma delas com cerca de uma polegada de espessura e cortadas em três partes no sentido longitudinal.
A torrada pode ser pedida desbastada - pode, mas não deve, na minha opinião: abaixo se perceberá porque defendo esta tese -, com muita ou pouca manteiga, muito tostada ou pouco tostada. Tão pouco se deve: uma torrada não suporta qualificativos nem constrangimentos. Uma torrada se faz favor é a forma correcta de pedi-la.
Nos cafés e pastelarias dignas desse nome a torrada vem com a quantidade certa de manteiga - boa, muita, e barrada de ambos os lados de cada fatia de pão - e tostada no ponto exacto em que o pão deixa de estar duro e já não está mole.
Uma torrada desbastada - isto é, sem côdea - tira ao acto de a comer a sua componente psicanalítica (a qual só interessa, naturalmente, a quem se interessa por psicanálise de café): torna indiferente qual das três partes da cada fatia se come em primeiro lugar. Eu sugiro que se deixe as duas partes do meio, as que só têm côdea nos lados superior e inferior para o fim. Devidamente ensopadas de café, ou de café com leite, vergam-se, dobram-se, quase se partem antes de chegar à boca. Os lábios agarram-nas (uma de cada vez, claro) e encaminham-nas para as papilas gustativas do consumidor avisado.
Deve sempre tentar tomar-se o pequeno-almoço em casa, ou pelo menos numa casa; se impossível, então deve escolher-se Lisboa; e em Lisboa um café ou pastelaria dignos desse nome. Pedir uma torrada se faz favor e pensar que uma vida que nos permite iniciar o dia dessa forma pode ser tudo; mas madrasta não é com certeza.
Ausência, imperfeição
Foi num dia assim que me apaixonei por mim: sol, calor, o Tejo imóvel visto de um terceiro andar de Alfama, saber que me esperas, um dia. Não é frequente gostar de mim; acontece raramente, quase sempre devido a coisas exteriores: o sol, o vinho, o Tejo, a luz de Lisboa nos telhados, os teus seios tão presentes debaixo da camisa, tão invisíveis, a vontade que a mão tinha de neles escorregar como o sol escorregava nos telhados de Lisboa.
Nada disto é verdade.
O que é verdade? Lembro-me de tudo: do sol, dos telhados, do Tejo no qual os barcos, imóveis, me faziam pensar nos teus seios a primeira vez que os vi. (Não houve segunda, eu sei. Não haverá segunda: vamos saltar directamente para a terceira ou quarta).
Nada disto é verdade.
A verdade está alhures. A verdade é um pelicano que mergulha na água como se fosse um raio de sol que se distraiu e solidificou antes de tocar na água.
A verdade é a minha mão no teu ventre como um pelicano na água, enviado por um deus distraído.
Não há verdade. Há aspectos da verdade, tal como um pelicano que mergulha é um pequeno fragmento do mundo. Tu és um pequeno fragmento do mundo. Mas serias um mundo se o mundo fosse, sei lá, um metro quadrado de água e um pelicano que nela mergulha como se o mundo tivesse acabado e ele se quisesse refugiar da ausência de mundo.
Da ausência de ti? Não há ausência de ti.
A verdade é um raio de sol no Tejo imóvel, uma proa que larga de um cais, uma vela grande que apanha a última térmica do dia, o teu olhar dubitativo. Os pelicanos não duvidam: mergulham. Será que olham antes de mergulhar?
Não tenho a certeza.
Nada disto é certo. Certa é a tua ausência. Certa é a tua presença.
Sou imperfeito. Amo-te. Se conhecesses as minhas imperfeições amar-me-ias?
Nada disto é verdade.
O que é verdade? Lembro-me de tudo: do sol, dos telhados, do Tejo no qual os barcos, imóveis, me faziam pensar nos teus seios a primeira vez que os vi. (Não houve segunda, eu sei. Não haverá segunda: vamos saltar directamente para a terceira ou quarta).
Nada disto é verdade.
A verdade está alhures. A verdade é um pelicano que mergulha na água como se fosse um raio de sol que se distraiu e solidificou antes de tocar na água.
A verdade é a minha mão no teu ventre como um pelicano na água, enviado por um deus distraído.
Não há verdade. Há aspectos da verdade, tal como um pelicano que mergulha é um pequeno fragmento do mundo. Tu és um pequeno fragmento do mundo. Mas serias um mundo se o mundo fosse, sei lá, um metro quadrado de água e um pelicano que nela mergulha como se o mundo tivesse acabado e ele se quisesse refugiar da ausência de mundo.
Da ausência de ti? Não há ausência de ti.
A verdade é um raio de sol no Tejo imóvel, uma proa que larga de um cais, uma vela grande que apanha a última térmica do dia, o teu olhar dubitativo. Os pelicanos não duvidam: mergulham. Será que olham antes de mergulhar?
Não tenho a certeza.
Nada disto é certo. Certa é a tua ausência. Certa é a tua presença.
Sou imperfeito. Amo-te. Se conhecesses as minhas imperfeições amar-me-ias?
27.10.13
Teste
O poema é fraquinho (ou gosto de muito de understements ou por vezes dá-me para não usar asneiras). Mas é um teste, e preferi fazê-lo com uma merda do que com qualquer coisa de jeito - assim dá-se menos pelo massacre.
Com um obrigado grande à L. e a promessa de que no futuro os poemas serão mais bem seleccionados.
Amores precoces
Um amor precoce é pior do que uma ejaculação precoce (não há nenhuma que o não seja, e quase todos o são, mas isso é outra história)
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