6.3.14

Reedição - Agosto

Uma pessoa senta-se num restaurante. Comer um hamburger, beber uma cerveja. O restaurante é pequeno, familiar, conhecido da pessoa, que lá vai muitas vezes. Na rua, uma procissão ininterrupta de gente lembra-lhe que é verão: turistas, t-shirts, gelados em bocas que se arredondam para os receber, gulosas. Os gelados vêm do Santini: a história passa-se em Cascais. A pessoa está sozinha: “Agosto”, leu recentemente algures, “é o mês das piores solidões”. “Não é verdade”, pensa. "Não há solidões piores que outras. Há solidões que se aguentam sozinhas, e solidões que precisam de outras solidões para se manterem".
Solidões: a repetição da palavra faz-lhe vertigens. A pessoa está sentada. Afinal comeu um spaghetti bolonhesa. O autor (40 anos, magro, cabelo ralo, míope) não sabe o que fazer dela, nem com ela. Homem ou mulher? Que idade? Porque acabou a comer uma coisa diferente da que tinha planeado? Porque olha para o passante como se os conhecesse todos, ou quisesse conhecer? O autor interroga-se.
Na verdade não tem 40 anos, não é míope, não é magro. A pessoa, decide, é uma mulher. Ela sim, tem 40 anos e é magra, mas não muito. Fala com o dono do restaurante, e parece conhecê-lo bem. Combinam um almoço para o dia seguinte? Serão amantes? Conhecidos? Porque estão sozinhos, ambos? Ele chegou de bicicleta quando ela terminava o prato. A senhora tem os olhos vermelhos – o autor só agora se apercebe disso. Esteve a chorar. Tem uns olhos bonitos, azuis-claros, que contrastam com os cabelos negros. O autor pensa que o encarnado do choro fica bem com o azul das pupilas. Tem uma cara redonda, bonita, e tenta disfarçar as lágrimas, a voz que treme, a tristeza: mas a alegria é fingida demais. O dono do restaurante apercebe-se e esboça uma pergunta. Ela não quer, visivelmente, falar. Diz “boa noite!” e vai-se embora, bruscamente. O homem encolhe os ombros e vai para dentro.
Para onde vai ela? Noutro restaurante, numa rua ao lado, uma pessoa, sentada sozinha a uma mesa, olha para ela como ela, há pouco, olhava para os outros. É um homem, está sozinho. Não tem 40 anos. O autor não sabe que fazer de mais uma personagem. Decide deixá-las entregues a si próprias, todas, cada uma para seu lado. A mulher na rua, acompanhada por centenas doutras mulheres, algumas com gelados; o homem no outro restaurante, a comer um prato qualquer, provavelmente indiano; o dono do restaurante onde a história começou está na cozinha, a fornicar a cozinheira, uma ucraniana que, todas as noites, sofre em silêncio, e de pé, os apetites do patrão. "Agosto", ele vai pensando, "não é um mês diferente: é só mais quente, e esta gaja cheira mais a suor e a cebolas e a coentros. Tenho que parar com isto. Tenho que parar com isto". Esforça-se por acabar o mais depressa possível, mas os cheiros, a imobilidade total da mulher, a memória dos olhos encarnados da outra não o ajudam.
Pouco a pouco, o mundo do autor vai-se povoando. É uma maneira como outra qualquer de se sentir menos só, neste mês de Agosto solitário, quente e abafado. Há muitos anos começou uma longa relação neste mesmo dia de Agosto, mas não sabe como escrever sobre ela. “É sem dúvida mais fácil escrever sobre a ausência de relações”, pensou.
Contudo, a mulher decide aceitar o convite mudo do homem que olha para ela sentado na esplanada. Dirige-se a ele, olhando-o com medo, com coragem, com ironia?
- Tem lume? - Pergunta.
- Não.
- Não faz mal. A verdade é que não fumo. Posso sentar-me? – Senta-se sem esperar pela resposta.
-...
- Não diga nada. Não me diga o seu nome, nem a sua idade, nem porque me olhava. Ofereça-me um café, ou um whisky, o que preferir.
Ele não sabe o que há-de dizer. Não a quer ali: “as solidões de Agosto”, lembra-se, “são impenetráveis; ela não tem o direito de irromper assim na minha vida, na minha noite, na minha mesa”. Que faz?
Encomenda um café? Um whisky? Diz-lhe para se ir embora? Na cozinha do outro restaurante, o dono lava o membro no lava-loiça. A mulher sobe as cuecas – limpou o sexo muito rapidamente com um bocado de papel de cozinha – sem olhar para ele, sem uma palavra. “Diz-me qualquer coisa. Insulta-me, bate-me – tudo menos esses olhos que não vejo, essa boca silenciosa, essas pernas que se abrem como se tivessem uma vontade própria e não dependessem de ti”. Mas ela não diz nada.
O dono faz um café, e vai-se embora. A cozinheira prepara-se para fechar a cozinha – já só lhe falta apagar as luzes, o patrão vem sempre no fim, quando tudo está pronto e já só falta ir-se embora. No café ao lado, a mulher bebe um whisky. O homem acha-a bonita, mas decide ir-se embora. Quer ficar sozinho, luta contra o desejo. Ela apercebe-se e diz-lhe que se pode ir embora, se quiser, ou ficar – “desde que não me peça para o amar, ou não diga que me ama”. Vai-se embora.
O autor está sentado num bar na praia. Não sabe se a história que acabou de contar aconteceu há uma hora, um dia ou uma semana - não sabe mesmo se ela aconteceu de todo. Apetece-lhe beber whisky, muito. Um dos seus favoritos é o Dewar's 12 anos, que antigamente se chamava Ne Plus Ultra. Um amigo diz-lhe que não devia mencionar as marcas das bebidas, nem os nomes dos restaurantes onde as suas histórias acontecem. Pessoalmente, não estou de acordo: é como dizer o nome do local, ou a marca do carro, ou mesmo - porque não? - o nome da personagem. Um nome é um destino, e não é por acaso que as personagens desta história ainda não têm nome. Mas o autor hesita. Está sentado num bar, face ao mar, e ouve blues - Howlin' Wolf, supõe.
As personagens desapareceram, todas - umas para casa, outras para outros bares e lugares. "Uma casa", pensa, "não é um lugar: é uma etapa, uma escala, um poiso, um degrau numa escada sem fim, uma tenda no deserto". Como uma mulher: um ventre não é um futuro, é uma sucessão de presentes. Um dia acabam, esses presentes.
Ana foi para casa. O indiano encomendou-lhe um café e levantou-se, com um pedido de desculpas que lhe pareceu insuportável, de tão sincero. Ela queria fazer amor com ele, mas não conseguiu retê-lo. Queria dizer-lhe: "venha para minha casa. Faça-me amor, bem ou mal, deite-me numa cama ou encha-me de água a banheira, leve-me um whisky à cama, entorne-me a garrafa de champanhe no sexo e beba-o, passeie-me as mãos pelos dedos dos pés e a língua pelos sovacos, esfregue-me a cabeça na nuca, passeie-me a ponta do seu membro teso pela pele toda". Mas disse-lhe uma coisa desajeitada, pareceu-lhe, e ele levantou-se e foi-se embora, com um pedido de desculpa límpido, claro, frontal, doloroso.
O dono do restaurante, do outro restaurante, também se foi embora, mas para um bar de putas, pensa o autor. Não tem a certeza: que iria lá fazer, depois de uma foda na mesa da cozinha, por muito limpa que a cozinha esteja? A verdade é que a mulher não se mexe, não mexe um músculo, uma pálpebra, nem o tímpano se mexe, parece-lhe. Ele chega à cozinha, faz-lhe um sinal com os olhos, ela vira-se, baixa as cuecas, ele penetra-a, ele vem-se, ele retira-se, ela limpa-se com um bocado de papel. "Uma puta, pelo menos, finge". O autor concorda e leva-o para um bar de putas.
Falta o indiano. Quem é? Que foi ele fazer, depois de ter deixado Ana na mesa com um whisky e um pedido de desculpas?
Ou seja: neste momento, o autor tem Ana em casa, o dono de um restaurante (cujo nome ainda não inventou) num bar de putas, um indiano à deriva e uma cozinheira ucraniana fodida, literalmente fodida. Senta-se, frente ao mar, e ouve blues, Howlin' Wolf. Pensa no que deve fazer das suas personagens. No que deve fazer da sua vida, talvez; no que deve encomendar a seguir, mais prosaicamente; como dizer à empregada que quer ir para a cama com ela, de tal maneira que lhe dê a ela vontade de dizer que sim; que nome dar ao indiano, e ao dono do primeiro restaurante; pergunta-se se Ana é o nome correcto para aquela personagem; e se a história tem um fim, ou um princípio.
A história tem princípio e fim, claro. Uma história acaba, ao contrário de um corpo, uma casa ou um período de felicidade. Uma vida acaba, também, mas deixa sempre um traço, uma consequência, um epitáfio, quanto mais não seja. A memória.
Ana está em casa. Recomeça a chorar. Não suporta a solidão, não suporta ter enganado Luis, o dono do restaurante, que agora se recusa a ouvi-la, não suporta ter-se oferecido daquela maneira ao indiano e ainda menos suporta ele tê-la recusado. Luis era marinheiro, passava muito tempo fora de casa. Ana costumava mandar-lhe fotografias dela nua, em poses mais ou menos sugestivas. “Para que”, dizia-lhe, “possas comparar as putas que andas a foder com o que tens em casa”. Auto-retratos, explicava-lhe Ana, feitos com a máquina em pose. Mas um dia, no canto de um espelho não era um tripé que segurava a máquina: era Ricardo, um dos amigos de Luis.
Ana era bonita, grande – tudo nela era grande: os olhos, a estatura, a personalidade, o sorriso. Tinha um corpo bem feito, equilibrado, o que é raro em mulheres grandes. Ao ver a fotografia, Luis ficou devastado: como qualquer marinheiro, ele sabia que a mulher o podia enganar; mas nenhum pensa que ela o faz verdadeiramente. Imaginar aquele corpo, no qual se sentia como no mar, nas mãos de um amigo, a oferecer-se-lhe... “Será que ela faz com ele o que faz comigo?” – a pergunta não lhe saía do espírito. A ideia que ele também a enganava – se bem que não fosse verdadeiramente um engano, pois ela “sabia” – ainda contribuía mais para a sua raiva, para o ódio que sentia por ele, pela marinha, pelo ex-amigo. O pior era não conseguir sentir fosse o que fosse contra Ana. Ele queria odiá-la realmente, chegar a casa e bater-lhe, fazer uma cena, barulho, móveis a voar pela casa toda, portas a bater – mas a sua imaginação saltava directamente para a reconciliação, na qual ela lhe pedia perdão, para a carta que Ricardo lhe escreveria a dizer que tinha sido um engano, um erro, uma vez só.
Nada disso aconteceu. Quando chegou dois meses depois a casa estava vazia; Ana tinha-o deixado de vez e estava a viver sozinha; Ricardo encontrara um emprego em Angola, no mato. E ele continuava “o impotente emocional que sempre fui”. Não sentia ódio por ninguém excepto por ele próprio. Não sei bem se os cornos crescem e ficam ad eternum na testa que os viu nascer, ou se, como todas as outras coisas, crescem e se vão embora, um dia, deixando a dita testa pronta para outros. Não sei. A verdade é que Luis deixou o mar, e abriu um restaurante ao qual deu o nome de Blue Marlin, onde come a empregada ucraniana e se detesta por isso. O ódio de Luis por si mesmo é o pilar central da sua personalidade, e ele faz tudo o que pode para o alimentar quotidianamente.

Diário de Bordos - Red Frog Marina, Bocas del Toro, Panamá, 06-03-2014

O Electra-san, um sistema elétrico de tratamento de resíduos (do qual de resto gosto bastante, é muito melhor do que tanques de águas negras) estava a cheirar mal há muito tempo. Comecei por lhe fazer um by-pass e mandar os dejectos directamente para o mar; não é o ideal, mas enfim, é pelo menos o habitual. E limpei-o bem, já quase não tem cheiro (o quase deve-se a uma inegável falta de vontade de o abrir). Depois a bomba da retrete parou. Estava bloqueada. Desmontei-a, limpei-a e voltei a montá-la. Hoje a bomba da retrete - a mesma, claro - parou de bombar. Desmontei-a outra vez mas não a montei - preciso de peças. Ou seja, três dias em trabalhos de merda. E agora, por causa de uma merda de um impeller de merda (literalmente) corro o risco de não conseguir largar nem sábado.

A vela faz-me sempre pensar naquela velha piada dos horários de comboios espanhóis: Sale a las diez, llega quando llega. Na vela é Sai quando sair e chega quando chegar.

Enfim, não é só na vela. Com os barcos a motor é a mesma coisa. É o mar, ou antes esta vontade que temos de lá andar e os materiais não são feitos para isto: movimento, água salgada, humidade permanentes. É um ambiente difícil, o mar.

Mas aos homens faz bem. Só aos bichos e aos materiais é que não.

Ontem sonhei que estava em São Luis a comer na tasca da tia Bica. Acordei contente, mas foi sol de pouca dura pois rapidamente me apercebi de que ainda estava no Panamá.

Porra! E nem uma cerveja tenho a bordo.  Pelo menos não tem chovido muito, já é qualquer coisa. E a minha tripulação é adorável.

Estão impacientes, claro; quem não está. Mas seguem à risca o preceito francês: contre mauvaise fortune bon coeur.

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O barbecue ontem correu bem; mas acabou por vir pouca gente e sobrou bastante peixe. Hoje comemo-lo ao almoço, cozido. A barracuda é um peixe delicioso; tem um cheiro um bocadinho forte, é certo. Mas a carne é saborosa, rija. É um predador voraz. Mais vale comer predadores do que presas? Talvez, e não se aplica apenas aos peixes.

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O meu vizinho de vante é um casal turco, relativamente jovem. Bastante simpáticos e bonitos (ela não é só bonita, mas isso é outra história). Conhecem bem Portugal: o barco foi-lhes entregue em Lagos e comissionado (isto cheira-me a anglicismo à milha; se alguém tiver uma sugestão agradeço) pela Sopromar.

O estaleiro é muito bom, ainda não encontrei ninguém que dissesse o contrário (B., o senhor turco, diz que são melhores do que qualquer estaleiro que conhece nos EUA; e eu acredito). Mas também ainda ninguém me disse que os preços são aceitáveis. Ir para a Sopromar parece-me quase um símbolo de distinção, como comprar um Ferrari ou um duplex num arranha-céus de Nova Iorque.

Eu só lá fui duas vezes: a primeira e a última. Mas fiquei com nostalgia de Lagos, do Algarve, de Portugal. B. e a mulher estiveram mês e meio em Portugal; não precisava de tanto. uma semanita em Mértola e outra em Lisboa já me encheriam de felicidade.

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A dor de dentes continua num nível bastante suportável. aposto que só vai piorar quando estiver no mar. A continuar assim qualquer dia sonho que estou em São Luis numa cadeira de dentista.

5.3.14

Diário de bordos - Red Frog Marina, Bocas del Toro, Panamá, 04-03-2014

Comprei uma barracuda de alguns seis ou sete quilos. Vou fazê-la amanhã, grelhada (excepto a cabeça, claro, que essa está reservada para mim, my self and eye. Cozida). Convidei metade da marina, ou lá perto, e disse ao Orlando, o índio a quem comprei o bicho que se amanhã tivesse mais peixe mo trouxesse.

Vai ser uma festa gira: uma despedida que simultaneamente lamento e me alegra.

Gostaria de perceber um pouco melhor esta gente, que tanto detesto; gostaria, no fundo, de perceber melhor porque detesto esta gente; talvez deixasse de a detestar. Só não gostamos do que não compreendemos.

Por isso é tão frequente a confusão entre justificar e explicar, na qual os portugueses (mas não só) são exímios.

Não há largada sem nostalgia.

Selva, cidades

Quem fala em selva urbana nunca esteve na selva.

4.3.14

Diário de Bordos - Red Frog Marina, Bocas del Toro, Panamá, 04-03-2014

Em finais de 1976 ou princípios de 1977 cheguei a um porto na Rússia chamado Nakhodka. Fica no Extremo Oriente russo, a cerca de cinquenta quilómetros de Vladivostok. A temperatura era de menos vinte, ou coisa que o valha; o mar estava gelado.

O navio, um graneleiro de trinta mil toneladas, avançava devagar na esteira de um rebocador / quebra-gelos. Por cima do gelo havia uma nuvem de condensação com um metro ou metro e meio de altura. Parecia que navegávamos num palco, ou num mar de algodão. O barulho das máquinas era abafado pelo gelo, pelo frio e pelas camadas de roupa com que me cobria.

A paisagem era branca, toda branca com algumas nódoas castanhas pelo meio - árvores desfolhadas, uma ou outra casa -. Pouco me lembro da cidade - nem da chegada, absorvido com o trabalho e com a vista daquelas colinas quase nuas, brancas, como se alguém estivesse a fazer um rascunho e o tivesse interrompido a meio, esquecido do que ia desenhar - nem da estadia, muito mais longa do que todos esperávamos por causa de um avaria.

Em Nakhodka bebi como nunca tinha bebido antes - ainda bem, era então um jovem de dezanove anos - e nunca mais voltei a beber. Ainda bem, igualmente. Os russos bebem de uma forma delirante, coisa que só me incomodava - enfim, devo reconhecer que não muito - quando voltávamos para bordo por um atalho que atravessava um pequeno bosque e eles saíam de detrás das árvores com garrafas de vodka e nos obrigavam a partilhá-las com eles, aparentemente porque quem não encontra amigos nem para beber é o último dos homens. Tínhamos de beber a mata-cavalos porque à meia-noite a tripulação toda, com a notável excepção do comandante devia estar a bordo sob pena de proibição de desembarque durante o resto da escala e escolhíamos aquele caminho porque já estávamos atrasados. (Tão pouco gostava do execrável costume que nos obrigava a beber de um só trago o que tínhamos no copo quando à mesa alguém dizia Nazdarovia. O truque consistia em ter sempre o copo o mais vazio possível, mas havia sempre um gajo que nos apanhava com ele cheio.)

Deve haver poucos climas mais diferentes do de Nakhodka do que o de onde estou agora, uma cidadezinha turística no oeste do Panamá, onde a cor dominante é o verde e a temperatura raramente passa dos vinte e tais positivos para baixo. E bebo, claro; sempre bebi. Mas bebo moderadamente: uns copos de vinho, outros tantos de rum. Nada das monumentais bebedeiras com que todos os dias, ou quase, me deitava na Rússia.

O que me traz Nakhodka à memória não é o clima, nem o álcool, nem a devastadora paixão que tive por uma jovem e linda senhora que mais tarde me veio ver a Antigua. Trinta e seis anos depois, creio. Há portas que são difíceis de fechar. Felizmente quando se fecham fecham-se para sempre.

Lembro-me de Nahodka porque estou com uma dor de dentes terrível e quase tão devastadora como a paixão. Quando lá cheguei vinha com uma cárie de tal forma dolorosa que fui o único tripulante a desembarcar - com o comandante, claro - para ir ao dentista. Íamos ficar três semanas fundeados (acabaram por ser só dez dias, se bem me lembro) e o dente estava de tal forma que não conseguia sequer respirar. Cada vez que abria a boca no exterior sentia-me como se tivesse um exército de dentistas sádicos a furar-me o molar.

A ida ao dentista foi uma daqueles acontecimentos que nos marcam, mudam a nossa maneira de ver o mundo - isto é, nós -. Fomos para terra numa pequena lancha quebra-gelos; o agente, cuja alcunha era Boca d'Ouro devido aos inúmeros dentes de ouro que mostrava cada vez que se ria - e eram muitas, essas vezes -, o comandante e eu.

O comandante ficou já não sei onde; eu fui com o agente para o hospital, um edifício enorme, do século XIX, sujo e cheio de gente. Talvez fosse uma das nódoas castanhas que tinha visto à chegada na paisagem. Não sei.

Passámos à frente de uma enorme fila, o agente bateu a uma porta, berrou qualquer coisa lá para dentro, fechou a porta e disse-me num inglês muito mau que tínhamos de esperar "um momento". Efectivamente muito pouco depois saiu da sala uma pessoa e eu entrei no consultório do dentista.

Da dentista. Era uma senhora cujos traços físicos esqueci por completo. Estava em estado de choque: o consultório era uma sala enorme, com manchas de sangue em tudo quanto era sítio: no chão, nas paredes, na cadeira - uma cadeira de barbeiro que lá estava muito provavelmente desde a inauguração do edifício - nas batas da médica e da enfermeira. Por vezes penso que até no tecto havia sangue, mas é pouco provável porque o pé-direito era altíssimo.

A broca devia ser contemporânea da cadeira e da casa: parecia um candeeiro articulado, muito fina, activada por uma correia de couro. Quando a médica a pôs em movimento tudo aquilo vibrava, tremia e ameaçava desintegrar-se dentro da cavidade do meu dente e lá ficar para sempre.

A médica pôs-me um rim - creio que é assim que se chamam aquelas travessas pequenas que nos põem no queixo para cuspir a baba e o sangue - também ele cheio de sangue seco à frente e começou a furar o dente. Enquanto o fazia conversava animadamente com a enfermeira e nem olhava para mim. De vez em quando interrompia a conversa e perguntava-me Dói? - foi a primeira palavra que aprendi em russo: ballit, creio -.

Ao fim de um momento, inevitavelmente, aquilo ballit um monte e eu resolvi que não ficava ali nem mais um minuto. Puxei a mão da senhora, fechei a boca e niet (palavra que só aprendi mais tarde, mas enfim, passe a diacronia); nada. Zero. Nesta boca aquela broca não entrava mais.

A senhora zangou-se, barafustou, gritou e acabou por mandar a enfermeira chamar o Boca d'Oiro. a quem expliquei, no inglês mais simples que consegui arranjar, que gostava, se ele não se importava, de ir a outro dentista. Quis saber porquê, mas eu não lhe contei. Limitei-me a dizer que queria outro dentista. A senhora pôs um penso no dente, disse qualquer coisa ao homem e viemos embora.

Três dias depois o Bocas chega a bordo, chama-me, diz-me que vamos a outro dentista e levou-me exactamente ao mesmo. Não me deu foi a possibilidade de recusar: empurrou-me lá para dentro e sentou-me (não me lembro, mas deve ter sido assim) na cadeira.

Nunca na vida fui tão bem tratado por um dentista. A mulher foi de uma atenção e um desvelo que quase roçava o embaraçoso. Um ano depois estava na África do Sul, tive de ir a um dentista e pedi´lhe para fazer uma radiografia ao dente que tina tratado em Nakhodka. "Excelente trabalho", foi o veredicto.

O facto de o Boca d'Oiro ser o chefe local da KGB deve ter influenciado a senhora, mas isso só o descobri quase à largada.

Tenho ido muito menos frequentemente ao dentista; na verdade não vou a um há doze anos. Agora metade dos meus dentes revoltou-se e já sei que vou ter de ir para o mar com pelo menos dois deles cariados e a doer e mais um a ameaçar. Não me queixo: a culpa é minha. Já por várias vezes tive simultaneamente tempo e dinheiro para ir tratar do campo minado em que a minha boca se transformou nos últimos anos. Agora não tenho nem um nem outro.

Quero ir-me embora quinta-feira. Os dentes podem esperar. Tal como tudo, de resto.

........
Hoje é dia de trabalhar no barco, finalmente. Até agora tenho andado a tratar dos periféricos - computador (é onde tenho as cartas e o programa de navegação), venda de coisas desnecessárias, etc. Hoje e amanhã vão ser dias de preparação do bote; amanhã M. vem limpar o fundo, que claro está sujíssimo: com isto aqui parado há tanto tempo não há antifouling que resista.

É bom: já estou em modo largada. É tempo de o A. o ficar também.

Mamas, olhos

Um par de mamas à procura de um par de mãos. A rapariga pouco mais é do que isso. Passou por mim hoje na rua. Procurei-lhe o olhar, mas estava vazio, não tinha nada. "Que linda seria" pensei, "se na cabeça tivesse metade do que lhe caiu para as mamas".

2.3.14

Jantar improvisado - Arroz de Frango

O jantar de ontem foi uma daquelas improvisações que merecem ser registadas, mesmo sabendo que provavelmente nunca a repetirei.

Comecei por marinar os bocados de frango em vinho tinto, sal, alho, um bocadinho de manga e muito gengibre.

Depois fritei-os; quando ficaram bem dourados pu-los na panela com a marinada, que já estava a aquecer e a preparar-se para os receber. Na gordura do frango refoguei uma cebola, que depois foi para a panela.

Cobri com água, pus um bocadinho de vinagre e muita pimenta, duas latas de ervilhas com cenouras e uma de cogumelos. Vinte minutos antes de comer juntei o arroz e ecco, um arroz de frango à Arctic Front.

Para a próxima vez: rum e não vinho, mais manga e paprika (que não tenho a bordo e por isso, só por isso, não usei).

1.3.14

Diário de Bordos - Bocas Town, Bocas del Toro, Panamá, 01-03-2014

Não há, para outrém, ninguém mais perigoso do que um idiota motivado. Já os tesos motivados como eu são uma ameaça apenas para si próprios; e para os mais próximos, vá. Felizmente não tenho próximos dependentes de mim.

Deve haver armadores - o deve é retórico - tão tesos como eu; mais não há com certeza. Mas enfim, é melhor perder do que não tentar; e ter lido Sun Tzu tem pelo menos a vantagem de me fazer compreender porque perco - e dar-me mais satisfação quando ganho (e mais ainda se por milagre ganhar esta) -.

Não que goste particularmente ou acredite em milagres, claro. Simples e inegavelmente porque uma vitória diícil é melhor do que uma fácil (e esta melhor do que uma derrota, mas isso é outra história).

Tenho de lutar em todas as frentes ao mesmo tempo. Graças a deus a metade feminina do meu cérebro é quase tão grande como a outra e não sou estranho às multitarefas. Coisa que de resto não é grande lança em África: quem numa embarcação de vela for pouco flexível e demasiado mono-tarefa depressa enjoa.

Uma parte de mim já aqui esteve; a outra, mais importante sabe-o e sabe que o eu de hoje não é o mesmo do de ontem nem do de há vinte anos. O que mudou? Hoje conheço-me e conheço o inimigo. Para Sun Tzu é uma das condições para se ganhar a batalha. Não é a única; mas é uma das mais importantes.

28.2.14

Calle 54

Acabo de ver este filme. Seria injusto não o partilhar já, e uma asneira não o pôr aqui para o poder rever quando precisar.

Inquietante

Cada vez gosto mais destas noites sem vento, nas quais os barcos parecem estar suspensos do calor pelos mastros e mal pousam na água.

Invento um jantar - vai sair uma espécie de puré de batata com pimentos e salsa, ou seja: uma espécie de jantar - bebo rum, oiço música portuguesa e penso nesta calma irreal, surda e nua, uma calma sem vergonha, sem luz, sem ruído, sem nada para além do cheiro do jantar que coze lentamente como se fosse o pequeno almoço de amanhã, o pequeno almoço de daqui a uma semana, o pequeno almoço de sempre e de nunca.

A marina é um lago de jardim, a noite uma parede na qual me sinto livre e solto e leve, o tempo uma superfície na qual me derramo como em ti.

Não sei se és o tempo ou foste um tempo. Mas é em ti que penso como se pensar me ajudasse a entrar neste muro que me rodeia, nesta escuridão em que nem o vento entra, nem a luz, nem o som.

Há noites assim, e tus. Mas tu és uma e uma só. As noites são muitas e cada vez mais.

Refit

Ando sempre a pensar no refit dos botes e esqueço-me de que quem precisa de um bom refit sou eu.

27.2.14

Diário de Bordos - Red Frog Marina, Bocas del Toro, Panamá, 27-02-2014

Hoje começa o trabalho para a viagem no A. Há pouco que fazer: limpar, inventariar, verificar e aprovisionar. Se tudo correr bem daqui a uma semana estamos no mar, para uma viagem que há muito tempo quero fazer: entrar em Havana num veleiro. Conhecer a Marina Hemingway, andar pelas ruas que o Ernest tão bem conheceu.

O Ernest e o meu Pai, que se não ia frequentemente a Havana foi incontáveis vezes a Cuba, carregar açúcar para Inglaterra, onde acabaria por conhecer a minha Mãe.

.........
Bocas ontem estava linda, como é sempre que não chove e há sol. Já estou em modo partida; tenho as habituais saudades antecipadas de meia dúzia de sítios: Wine Bar, Palmar, o trajecto em panga entre Red Frog e Bocas, os percursos entre os mangais quando saíamos para um passeio.

Não é lugar ao qual pense voltar em breve, mas fico contente por conhecê-lo. A beleza não é tudo, mas sem ela nada é.

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M. e S., os meus passageiros para Havana são adoráveis. Ele argentino e ela espanhola de Barcelona. Continuam a longa série de tripulantes / passageiros fantásticos com que tenho sido abençoado desde San Francisco.

26.2.14

Diário de Bordos - Cidade de Panamá, Panamá, 25-02-2014

Estranho o prazer que sinto em rever Panamá. Percorro as capelinhas todas - Rana Dorada, Lovaina, a senhora que vende Marlboro verdadeiros a metade do preço dos outros, falsos, Finca del Mar; revejo Alexis, o melhor chauffeur de táxi do mundo e arredores; sou recebido com evidente e real prazer pelas empregadas do clube náutico onde "vivi" quase quatro meses (e com evidente, igualmente real e recíproco desprazer por outras pessoas, mas isso indifere-me a tal ponto que quase me magoa).

Tento perceber o porquê desta súbita reconversão. Há muitas razões para não se gostar de Panamá: a rudeza e má educação das pessoas, o trânsito permanentemente engarrafado e agressivo, a sujidade e o barulho das ruas, a falta de ética e má qualidade do trabalho, a chuva, a falta de passeios.

Mas a verdade é que é importante, é preciso ter pontos fixos, repères numa vida em constante movimento. Onde quer que vá estou em trânsito, de passagem. É um sentimento de que gosto; mas ir a um sítio que conheço e onde sou conhecido é bom, agradável. E se calhar é preciso, vá saber-se.

E há outras razões: estou entre duas viagens e preciso de uma pausa; e a sensação de que fui injusto com esta cidade: detestei-a porque me detestava quando aqui estive. A verdade é que tem coisas agradáveis - hoje passeei pela Cinta Costera com o mesmo prazer com que o fazia todos os dias, por exemplo -.

Além de que tem súbitos e inegáveis acessos de civilização, coisa de que ando necessitado.

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Desembarquei do HELENA S. como sabia que ia desembarcar, e como não queria fazê-lo: a correr. Custa-me deixar um barco assim; ainda mais custa deixar aquele. Um barco é um ser humano: tem os seus humores, os seus defeitos e qualidades, um futuro e um passado. O HELENA S.  é uma mulher bonita que se descuidou; não merece que a deixemos a correr - não merece que a deixemos, sequer -.

Um barco tem curvas, formas, reacções, uma cabeça - que alguns pensam ser eles, erradamente - e uma vida. Ama-se um barco como se ama uma mulher: começa-se por se gostar dos seus defeitos; e se as suas qualidades estiverem à altura dos seus defeitos o barco - como qualquer pessoa - é amável.

Eu amo o HELENA S. Ponto.

E ele ama-me, coisa que me enche de prazer e orgulho.

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De maneira aqui estou no BYC a ver passar os navios que entram e saem do Canal, a ver a luz derramar-se sobre eles como o mel de que fala Leonard Cohen, e a pensar que uma vez mais estou de passagem, que o meu olá vem seguido de adeus, que estou num sítio ao qual não sei se e quando regressarei.

E inquieto. Mas isso é outra história, e fica para depois.

21.2.14

Diário de Bordos - Cartagena de Índias, Colômbia, 21-02-2014

Pouco a pouco o HELENA S. vai dando a volta, vai-se enchendo de pessoas - jovens, menos jovens, mas todos invariavelmente contentes -. Afinal não largámos ontem, por coisas relativas a coisas que agoram não interessam; largamos amanhã. É tarde, pois temos cinco pessoas, talvez oito no Panamá e tenho absolutamente de chegar a Turtle Cay Marina domingo. Felizmente há vento, mas a vontade de rasgar a grande outra vez é muito pouca, nula, zero.

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Estes problemas com a imigração podem parecer ridículos, mas têm um fundo bom: demonstram que a corrupção na Colômbia não é aberta e desenvergonhadamente aceite como, por exemplo, no Panamá. Enfim, não sei se é bom - neste caso é, porque não teria dinheiro para pagar, se fosse no Panamá -. Aqui pelo menos essa tarefa é-me poupada. Quem se encarrega dela são os agentes de navegação, que a lei nos obriga a utilizar. Eles é que têm os seus avençados na Imigração, e um bom agente é aquele que tem muitos.

O Cartagena run não vai durar para sempre.

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Os passageiros são jovens, gente boa e alegre. Um deles, Matias é um designer gráfico e especialista de Photoshop. Ontem esteve a mostrar-me os seus trabalhos. Fiquei sem ar. Uma vez mais confirmei que Photoshopista é uma maneira de ser artista a tempo inteiro, como ser fotógrafo, escritor, pintor ou músico.

Vai desenhar-me o site que depois o Lopo porá em linha. Tenho sorte, no fundo. Ter amigos com talento e paciência e generosidade é uma bênção.

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Últimas horas em Cartagena; daqui sigo para os EUA, depois - espero - Brasil. É preciso um plano se queremos poder não o respeitar, aforismo já aqui muito vezes citado. E é preciso paciência e perseverança, se queremos respeitá-los. Ou então fazer planos mais fáceis, mas essa é uma hipótese que por qualquer razão me escapou.

19.2.14

Diário de Bordos - Cartagena de Índias, Colômbia, 19-02-2014

A roda gira; e é gira, de tanto girar e tão depressa. Ontem tínhamos clientes. Depois não tínhamos; depois tivemos um contacto. Hoje temos quatro clientes já confirmados - no sentido clássico do termo - dos quais dois são para Cuba. Tenho, Allah uAqbar, uma razão fortíssima para ir a Havana. Finalmente.

Enfim, fortíssima é uma maneira de dizer: o que eles podem pagar não é muito. Mas ganhei um site em troca. E contas feitas é honorável, não tenho de me envergonhar: entre o que pagam em dinheiro e em trabalho fico em casa.

De maneira amanhã largamos, bote cheio e vento de popa, para San Blas, onde desembarcam estes e embarcam outros passageiros. Eu sigo para Bocas por vias terrestres, com o M. e a C.

E o HELENA S. fica nas mãos jovens mas competentes do Luka e da Danielle. Fica bem entregue.

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E eu lá vou fechar a porta do Artie, que me trouxe e eu trouxe de San Francisco, uma viagem pela costa do Pacífico e, sobretudo, pelas costas dos meus limites, pelos fundos da tristeza e da depressão, uma viagem que acaba - como todas - por ser importante, significativa, maravilhosa e inesquecível.

O importante numa viagem é a que fazemos em nós próprios. Claro que ver golfinhos e tartarugas e baleias e mantas todos os dias, ver a Isla de Guadeloupe - um pedaço de lua habitado por milhares de focas e meia dúzia de soldados - e beber Margueritas em Puerto Vallarta e navegar no Golfito e conhecer o Parque Nacional Manuel António ajuda. Mas não é de maneira nenhuma o essencial.

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Afinal o restaurante Plaza de Trinidade não aceitou o meu passaporte como pagamento. Z., a adorável proprietária disse-me que não precisava dele para nada. Hoje fui lá almoçar, claro. Não é por acaso que ela começou há vinte e três anos com um carrinho na rua a vender empanadas e hoje tem pelo menos um restaurante; do qual a tripulação do HELENA S. é cliente feliz e assídua.

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Cartagena é uma cidade encantadora, mas. Preciso de voltar para o mar. E não digo mar até San Blas. Digo mar até Havana. Mar até Palma. Mar.

Retratos imaginários

Um provérbio judeu diz que as boas ferramentas fazem o bom operário. Para A. quem não lhe pode ser útil - seja financeira, pessoal, afectiva ou psicologicamente - não conta como ferramenta. Não interessa. Desaparece.

Tem razão, claro: se não formos nós a fazer o nosso futuro quem o fará?

Diário de Bordos - Cartagena de Índias, Colômbia, 18-02-2014

O dia foi difícil. Nenhum dos cinco passageiros que tinham confirmado (é preciso rever o sentido da palavra confirmar) apareceu: os chilenos porque não queriam pagar o depósito, os dois do Alfredo porque, muito provavelmente, o Alfredo estava a mentir.

De maneira estamos outra vez à sec de toile. Felizmente conheço um restaurante que aceita o meu passaporte como meio de pagamento provisório e podemos comer e, apesar de tudo, divertirmo-nos. A esperança não é a última a morrer; é o humor o último a morrer.

E fazemos planos para debaixo do passenger rainbow.

A verdade é que isto roda depressa: hoje já apareceram mais três pessoas, duas das quais para Cuba. Onde, por uma inacreditável coincidência, passarei em breve com o A.F.

Amanhã confirmam - mas no sentido clássico do termo: massa na mão -. O resto é conversa, e conversa não paga rum, se me é permitida uma pequena paráfrase.

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Hoje chegou a vela grande; o piloto está reparado; já só falta tratar das escotilhas e da ignição do motor de estibordo. Questão de chuva.

Quer venha, muita e depressa.

Estamos a montar uma estrutura de vendas e de logística em Cartagena que tarde ou cedo dará frutos. É a vantagem de não partir do zero: a esxperiência serve para alguma coisa. Todos os potenciais passageiros de amanhã resultaram desse trabalho. Tal como a de Bocas está a funcionar. O charter tem três factores de sucesso: as vendas, as vendas e as vendas. Às quais se seguem a tripulação primeiro; depois o barco.

Estamos no bom caminho; está cheio de altos e baixos, mas contra isso não se pode fazer nada se não trabalhar, pensar e rir.

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Cartagena tem pouco mais de um milhão de habitantes, creio; mas é uma cidade silenciosa. Não há barulho: as pessoas não gritam, os carros não têm música aos berros, não há rádios com colunas da altura da torre Eiffel. Deve ser isto o que me leva a gostar tanto desta terra.

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Cinco clientes confirmados em San Blas. A roda gira depressa. Basta aguentar firme.

17.2.14

Diário de Bordos - Cartagena de Índias, Colômbia, 17-02-2014

Os dias começam todos iguais, mas continuam de forma diferente. Hoje, por exemplo, houve cinco grandes diferenças: cinco passageiros que, se confirmarem nos enchem o bote. E a barriga num restaurante decente: o gás acabou-se-nos há três ou quatro dias e andamos desde aí a comer ou sandes ou comida manhosa e baratucha.

Esta história do gás tem que se lhe diga; mas antes há que acabar a história deste meio-dia: J., o amigo e passageiro e salvador in extremis está a reparar o dinghy, que tem mais buracos do que muitas camisas de alguns sem-abrigo.

O HELENA S. vinha com uma (creio) ou duas garrafas de gás pequenas, da Camping Gaz. Em Bocas enchê-las leva quatro dias no mínimo, porque as garrafas têm de ir não sei para onde. Quando apareceu este grupo para Cartagena uma delas estava vazia e a outra a uso havia um bom bocado.

Comprei uma garrafa suplente, não fosse o diabo tecê-las. Mas o diabo tece-as quando quer e lhe apetece. Felizmente o gás só acabou depois de alguns dias em Cartagena, já todos os passageiros tinham desembarcado. A garrafa que comprámos em Bocas tem propano em vez de butano e estamos sem poder cozinhar desde aí. Em Cartagena ninguém enche garrafas de butano, e nenhum dos trezentos e cinquenta (aproximadamente, claro) reguladores que temos a bordo serve nestas garrafas.

Três dos passageiros devem confirmar hoje, e assim que pagarem vamos comer como deve ser. Abaixo as sandes e as pastas manhosas; viva a boa e honesta comida colombiana.

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Temos seis passageiros, a preços um bocadinho abaixo do normal. Uns porque desembarcam em San Blas, outros porque vão de ida e volta, outro porque nos está a reparar o dinghy.

S. dizia-me que os preços vão subir; não será decerto por causa do HELENA S.

Bom bom seria que os nossos fornecedores também estivessem em fase de lançamento no mercado; felizmente não estão: é tudo gente experiente e recomendada.

Cartagena de Índias, 2014





Plazuela del Pozo, Cartagena de Índias, 2014



Plaza Trinidade, Cartagena de Índias, 2014




16.2.14

Diário de Bordos - Cartagena de Índias, Colômbia, 16-02-2014

O piloto automático, já aqui o disse uma vez, não é propriamente um problema; é um custo. Hoje fiquei a saber que esse custo vai ser maior do que o esperado. Não é uma surpresa, claro. Surpresa teria sido que tudo continuasse como estava previsto.

Felizmente não gosto de surpresas e tudo muda constantemente. Queríamos arranjar clientes para Bocas. Encontrámos um, e penso que amnhã há mais (há sempre mais amanhã, sempre mais, sempre amanhã). Via M., da BNN encontrámos um grupo em San Blas. Devem confirmar hoje. Felizmente o cliente que temos para Bocas é um amigo do Luka e da Danielle e compreenderá se lhe dissermos que só vamos até San Blas - provavelmente virá noutra viagem.

Hoje à noite saberei se vamos para San Blas se para Bocas; e amanhã se teremos dinheiro para pagar o acréscimo de custos do piloto (e muito provavelmente da vela grande).

Entretanto hoje vou lutando contra a terrível tentação de comer uma arepa, uma enchilada ou uma papa rellena en cada esquina. A comida de rua de Cartagena é aterradoramente boa - uso o advérbio de modo voluntária e conscientemente: a simples ideia de ter que resistir todos os dias a estas tentações aterroriza-me -.

Terça-feira largamos. Estou a precisar de mar e de HELENA S. Tem sido tratado, acarinhado pelos jovens tripulantes. Cada vez gosto mais dele e deles. Só gostava que a tentativa de B. tivesse sucesso e houvesse dinheiro para um refit à séria.

Não acredito muito, mas tão pouco deixo de acreditar. O passado explica o presente mas não condiciona o futuro. E o HELENA S. merece, pelo menos, que se acredite. Visto de terra, fundeado no meio de não sei quantas embarcações é a única que se vê, a única que tem uma alma, um feitio e uma vontade.

15.2.14

Diário de Bordos - Cartagena de Índias, Colômbia, 15-02-2014

Estávamos à sec de toile quando chegou o primeiro cliente e pagou uma parte da passagem. Fomos celebrar para a Plaza Trinidade.

Enfim, não é bem verdade: não fomos celebrar. Fomos à Plaza Trinidade porque é ali que se encontram os mochileiros nas noites de sexta-feira e queríamos ver se encontrávamos mais alguém. Razões estrictamente profissionais, portanto. Às quais acresciam o facto de J., o passageiro e amigo de Luka e Danielle, também lá estar com L., a sua alta, grande e inglesa namorada.

L. também faz o Cartagena run, noutro barco. Há muitos, talvez oito ou nove; para obtermos clientes os contactos pessoais são importantes, tanto como os flyers que deixamos por esses albergues e para os quais os recepcionistas olham, salvo raras excepções, com um desinteresse notório. Nem a promessa de uma boa comissão os faz reagir – sinal seguro de que não tencionam tirar clientes de barcos que já conhecem.

Mas enfim, Luka e Danielle conhecem toda a gente e – mais importante – são apreciados por todos. L. é a melhor amiga da mulher do dono (e trabalhadora) da principal agência para estes transportes. Quando lá fomos a senhora mulher do dono disse-nos que só trabalhavam com barcos legalizados na Colômbia – se houver um já é muito, se houver dois abro a boca de espanto e nunca mais a fecho. Aposto que na segunda-feira vamos ter uma recepção diferente.

Por acaso na Plaza Trinidade não encontrámos ninguém para além de J. e L., que estavam cansados e foram deitar-se pouco depois de termos chegado, mas a viagem valeu a pena.

A praça é pequena e fica à frente da igreja creio que do mesmo nome. Às sextas enche-se de gente – locais, turistas de todos os tipos, vendedores ambulantes, um ou outro bêbedo ou crackómano (ambos muito, infinitamente menos do que no Brasil) -.

A atmosfera é amigável, segura, convivial. Alguns jovens comem patacones con todo, uns pratos enormes cujo conteúdo é impossível de definir; as jovens mostram-se, como é seu dever; as músicas do bares não estão demasiado altas e não incomodam.

Que diferença do Panamá e do Brasil. Neste, tudo aquilo cheiraria a mijo, a praca estaria cheia de bêbedos, crackómanos e polícias, a música aos berros. No Panamá o ambiente seria tenso, as pessoas estariam reunidas em pequenos grupos mais ou menos fechados, turistas de um lado e panamianos do outro.

Não gosto do Panamá, e chegando à Colômbia vejo imediatamente porquê – melhor, vejo imediatamente que tenho razão -: as pessoas aqui são afáveis, simpáticas, sorridentes, dizem bom dia e boa tarde e obrigado, riem-se com uma piada. No Panamá parecem os blocos de granito com os quais temos vontade de os atirar ao Canal meia dúzia de dias depois de lá chegarmos – vontade essa que vai crescendo com a permanência no país.

Pergunto a L. qual pensa ser a razão de tanta disparidade entre povos que não são apenas vizinhos, mas já foram a mesma nação, até há relativamente pouco tempo. A culpa é dos americanos, diz sem hesitar. Claro. Como não pensei nisso antes?

Enfim, deixo de lado os porquês e concentro-me no casamento que começa a sair da igreja. Parece-me extraordinário que pessoas escolham casar-se sexta-feira à noite numa igreja que dá para uma praça cheia de gente. É frequente, diz-me J., um colombiano adorável, reparador de dinghies, carpinteiro naval e (dizem-me Luka e Danielle aprovadoramente) sonhador. J. quer fazer uma escola de vela em Cartagena, uma escola como deve ser, com Optimists e Lasers e tudo. Intuitivamente aprovo o sonho, claro; e dou por mim a discutir pormenores com os meus dois jovens, adoráveis e competentes tripulantes.

A verdade é que a economia colombiana está bastante forte e a classe média nascente não tem muito oferta; ou pelo menos suficiente. Meia dúzia de Optimists seria com certeza rentável.

Mas eu tenho o meu Helena, e sou europeu; por muito que goste da ideia e da cidade não é aqui que vou parar. Se bem não me importasse nada de cá voltar...

….....
S. sabe tudo sobre o Cartagena run, como chamo a estas viagens. Proprietário ou gerente de um dos maiores albergues de Cartagena explica-me, suffisant e cheio de si, que foi ele o primeiro a vender o trajecto. Começou há dez anos.

Diz-me que os preços vão subir (isto porque acha os meus demasiado baratos) e fala muito. Não fala para mim: gosta de se ouvir falar. Respondo-lhe com duas ou três frases curtas e pouco depois no tom muda. Os miúdos dizem-me que dali não virá ninguém; eu penso que sim, mas com tempo, com algum tempo. Na verdade pouco me importa: não sei se o teremos. Em Maio o Helena vai para o Mediterrâneo trabalhar naquilo para que parece ter sido feito: day charter. O resto é conversa de enfatuados.

….....
Não se pode ir por terra da Colômbia para o Panamá e os bilhetes de avião são caros: daí o mercado para estes tansportes de mochileiros. Basta aparecer um ferry com capacidade para baixar os preços e S. vai ver onde vão eles parar.

Amanhã vamos almoçar com o armador de um desses ferries, que só não começou ainda a operar por causa de dificuldades burocráticas. É um amigo, mais um, de Luka e Danielle. Estão contentes por vir para a Europa; e eu contente por eles virem.

........
E assim passo os dias: na livraria Ábaco, que elegi como escritório; na Oficentro, onde Jhon (sic) faz as alterações aos flyers, os imprime e depois manda plastificar no rés-do-chão; a calcorrear as adoráveis e floridas ruas da cidade velha para os distribuir; e a pensar no que fazer do pobre B., que avança a passo de caracol e mesmo assim só empurrado, empurrado, empurrado.

E por vezes...

Acabo de receber isto. Não é lindo?

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos. E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos.

Não. É sublime.

E é de David Mourão-Ferreira, claro, um autor que tenho definitivamente de conhecer melhor, muito melhor.

14.2.14

"Oiça um bom conselho / eu lhe dou de graça..."

Um conselho para o dia dos Namorados: não deixem a vossa namorada (ou o vosso namorado, claro) tomar SSRI :-)

Diário de Bordos - Cartagena de Indias, Colômbia, 14-02-2014

O dia ontem foi fatigante; é uma das coisas de que gosto nisto de não ser um turista, de chegar seja onde for para trabalhar (as outras sendo que isso me faz sentir imediatamente em casa, por um lado; e o facto de se ficar a conhecer muito melhor uma cidade se se tiver de trabalhar do que passeando-se nela).

De manhã fiz os prospectos, com a ajuda do Jhon (sic) da Oficentro; à tarde distribuímo-los, a Danielle, o Luka e eu pela cidade. Enfim, pela parte da cidade onde estão concentrados os albergues e restaurantes que o nosso público-alvo frequenta.

Seria bom termos amanhã as primeiras respostas. Mais do que bom: essencial.

(Viajar à beira do abismo, numa corda bamba permanente também ajuda a conhecer uma cidade. É, suponho, o equivalente daquelas personagens que nos contos de O'Henry limam as unhas para melhor sentir as combinações dos cofres que estão a assaltar).

Foi portanto com toda a atenção aos pormenores que hoje percorri os bairros de Getsemani, Centro e La Matuna, todos eles parte da cidade velha, rodeada de muralhas e de mar.

Por vezes sentia-me na Grécia, por causa das plantas e flores que jorram das paredes das casas; outras em Itália, ou em Espanha. Cartagena é uma cidade mediterrânica habitada por mulheres com traços de índio e por turistas de mochila às costas (são os únicos segmentos da população que vejo).

Como todas as belas tem senãos. O preço absurdo de coisas básicas como o rum, o vinho e o pão é assustador, e ajuda a relativar o desgosto que sinto pelo Panamá cada vez que alguém me diz bom dia numa loja – isto é, cada vez que entro numa, mesmo que seja para simplesmente pedir uma informação – cada vez que alguém é simpático e amável e prestável – ou seja, quando falo com alguém seja por que motivo for.

Felizmente temos a bordo farinha que chegue para fazer pão uma boa semana; é assunto resolvido – quando chegar o gás, claro -. Já o vinho e o rum terão de encontrar outro caminho se querem vir para a mesa do HELENA S.

O qual HELENA S. parece outro barco; a Danielle é inparável e tem limpo este barco ao milímetro. E o Luka é um bom bricoleur, experiente e dinâmico e tem, ele também, trabalhado muito para que o bote esteja um pouco mais apresentável.

Por vezes acordo à noite e tenho a impressão de que oiço o Helena agradecer-me.

O maior problema que temos de resolver – a vela grande, o piloto automático e a chave da ignição do motor de estibordo não são problemas, são simplesmente custos – é o das escotilhas. O Luka foi procurar juntas, mas não havia. Vamos ter de improvisar e muito.

E esperar que alguém se inscreva para a viagem de regresso. Duas pessoas pagarão todas as despesas que temos em curso; as outras pagarão despesas antigas, e algumas das que estão para vir.

13.2.14

Estranhas relações

Por uma razão que eu não conheço os condutores de todo o mundo vêem uma relação entre a buzina do automóvel e os travões: cada vez que atravesso uma rua buzinam antes de travar.

Cartagena de Indias, 2014


(Esta fotografia é uma colaboração entre o Luka e eu.)

Amizades

O mais difícil na amizade entre homens e mulheres é ser preciso que estas se transformem em homens de vez em quando, e nós em mulheres. Não é fácil.

(Para a MJPC, a mais feminina de todos os meus amigos).

12.2.14

Wittgenstein e eu

Os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo.

O que se pode dizer pode ser dito claramente; e aquilo de que não se pode falar deve ser silenciado.

Os limites do meu amor são os limites da linguagem.

Talvez seja altura de voltar a ler o Tratado, história de saber se o mundo, as palavras e o amor são intercambiáveis.

11.2.14

Diário de Bordos - Cartagena de Indias, Colômbia, 11-02-2014

Por onde começar - pelo princípio, pelo meio, pelo fim?  Nada tem fim; e o princípio há que que procurá-lo muito bem, não é fácil de encontrar. Nada começa; e nada acaba verdadeiramente: um amor que se transforma em amizade, em desprezo ou em esquecimento; uma viagem da qual recordamos cada momento; uma esperança que se confirma ou, ao contrário, que não se realiza: como dizer que acabaram? Quando?

Cheguei hoje a Cartagena das Indias; estou numa livraria / café a ouvir excelente música, beber excelente rum e a pensar que essa é a melhor combinação do mundo - boa música numa boa livraria numa cidade encantadora com uma boa bebida. Podia ser Lisboa, a Ler Devagar e um bom vinho, não é?

Sim. Mas a versão local da Ler Devagar chama-se Ábaco, é aproximadamante cinquenta vezes mais pequena e quase tão bonita.

Quase.

........
Em Cartagena as pessoas sabem combinar dignidade com simpatia. Na Isla San Andrés, o outro lugar da Colômbia onde estive, também. É pouco para generalizar, mas talvez seja uma característica colombiana. Tão diferente do Panamá, habitado por um bando de palhaços façanhudos e antipáticos.

O meu amor por Cartagena não começou hoje; começou ainda eu não conhecia a cidade, ainda nada sabia dela. Nada começa, apenas continua.

.........
O objectivo da viagem era conhecer o HELENA S., saber como se porta no mar e ver o que se partiria.

Seria dramático dizer que algumas coisas não se partiram. Foram poucas. Mas mesmo assim mais do que o que se avariou: vela grande rasgada no punho da escota, correia do piloto automático partida, painel do motor de estibordo estralhaçado, layy jack de estibordo rebentado; e água. Água. Os albóis fechados metem água como se estivessem abertos, como um campo seco acolhe a chuva, como se algum deus maldoso quisesse transformar a velha piada "o apartamento é pequeno, mas a piscina grande" em "o apartamento é pequeno, mas tem uma piscina enorme lá dentro".

Mas o barco é sublime. Sublime. É rápido (até a grande rebentar fizemos uma média de oito nós - ceci n'expliquant que partiellement cela-), sensível ao leme, passa maravilhosamente na vaga - se bem lhe falte um pouco de volume nas proas -; uma espécie de puro sangue disfarçado de mendigo, à espera de um sapo que o transforme.

........
Não há sítio melhor para um gajo se engrossar do que uma livraria: o frenesim dos bares transforma uma grossura séria e compenetrada numa vulgar bebedeira.

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"A noite antes da largada foi horrível. Estava apreensivo, não sabia como iria o HELENA S. portar-se nno mar, e a tripulação e os passageiros nele.

Tinha razões para estar apreensivo, claro: dizer que o barco precisa de um refit é um doce eufemismo; custa-me receber dinheiro para transportar pessoas em barcos que não estão em condições; e, finalmente, tenho uma tripulação nova.

Algumas dessas razões confirmaram-se: apanhámos algum vento logo à largada e em menos de nada tinha quatro polegadas de água nos fundos dos camarotes de vante (as escotilhas das casa de banho precisam de juntas novas, já); o quadro eléctrico fez das suas (é preciso refazer todo o sistema eléctrico deste barco, já); e, por fim mas não por último, tinha muito pouco dinheiro, pois deixei a maior parte do que fiz com a viagem a A.

Comecemos pelo fim: os meus cálculos dolorosos, esticados pelos cabelos, jogados pela cintura revelaram-se correctos e houve dinheiro para as formalidades e para as compras (fica aqui um agradecimento e os parabéns à Danielle, a jovem stew, que fez milagres com o orçamento que lhe dei).

O quadro eléctrico deve ter-se assustado com as pragas que silenciosamente lhe roguei e deixou de ageniar (batro três vezes na madeira).

Quanto à tripulação: creio que finalmente encontrei aquilo de que o HELENA S. precisa: um jovem casal mas com uma experiência notável, absolutamente desproporcional à idade (dele, ela é mais velha), bem educados, vivos, sorridentes, “leves”. E, cereja no topo do bolo, Luka sabe o que é um Kelsall: os pais têm um. E partilha o meu amor – quem não? - por estes barcos simples, bonitos, rápidos. Em Isla Grande, onde fundeámos, estava o primeiro Kelsall construído – é de 1964 e é lindo, elegante, sem idade –.

Porque lá na rapidez tenho provas: dez onze nós regularmente e por longos períodos, média final do primeiro dia oito (enfim, de parte do primeiro dia). Claro que o barco molha um bocado – as proas não perdiam nada em ser um bocadinho elevadas – e faz um barulho digno dos barcos de regata de que descende. Mas que prazer é navegar isto, que lindo, que sorte, que bênção.

Claro que num squall um bocadinho mais forte não rizei a tempo e a grande rasgou-se no punho da escota. Agora vamos de primeiro rizo, para ver se aprendo a ter juízo.

Mas vamos a fazer seis nós, e mesmo descontando a corrente é honorável.

(Apetece-me encher-me de bofetadas, arrancar-me os cabelos e dar-me muros nos tomates.)"

........
Não há princípios nem fins: estamos sempre no meio de qualquer coisa, num continuum sem partidas nem chegadas; ou melhor, do qual as partidas são chegadas e estas o início de uma nova viagem, de um novo ciclo. O que hoje parece começar começou na realidade há muito tempo; e o que parece acabar acabou com certeza muito antes de começar. Por isso o desespero não dura, e esperança não acaba.

........
Cheguei hoje pela primeira vez a Cartagena, mas na verdade vivo aqui. Tal como nunca deixo Lisboa, Bequia ou o mar: geografias e tempos que se misturam como bolas nas mãos de um malabarista amáavel e todo-poderoso, como o vento se mistura com a luz, como o passado se mistura com o presente e o futuro.

4.2.14

Espanto in your mind

"What's in your mind", pergunta-me - provocatória e indiscretamente - o Facebook.

Que responder?

- Muito vinho tinto e muito rum;
- Um excelente jantar;
- Um bocadinho de raiva;
- Muita nicotina:
- Uma dose grande de serotonina, outra - não sei discriminar as percentagens - de dopamina;
- Uma porção irracional de esperança (também conhecida por certeza, em alguns meios);
- Espanto, muito espanto.
- E mais espanto: como é possível tanta beleza, tanta certeza, tanto silêncio?

Línguas, horas

Ninguém devia estar afastado mais do que um fuso horário de quem quer que seja. A bíblia enganou-se: a torre de Babel devia ser horária, não linguística.

Verdades, mundo

Ter um problema com as verdades indiscutíveis é ter um problema com o mundo. Ou consigo próprio.

As coisas e eu

Aos cinquenta e seis anos um gajo devia saber lidar com certas coisas. Das duas uma: ou não tenho cinquenta e seis anos (hipótese facilmente verificável falsa) ou nunca aprenderei a lidar comigo (hipótese facilmente demonstrável verdadeira, empírica e teoricamente).

Enfim, não sei o que é melhor: não saber lidar com as coisas, ou não saber lidar comigo?

3.2.14

Super Bowl

Hoje foi noite de Super Bowl. Ou melhor, parte de noite. Não estava tão animado como o que há dois anos vi em Antigua, e faltava-me o B. para me explicar o jogo. Fiquei pouco tempo.

Mas uma coisa manteve-se: se os jogadores de futebol fossem para ali passariam o jogo inteiro deitados no terreno a contorcer-se de dores, tadinhos.

2.2.14

Diário de Bordos, Red Frog Marina, Bocas del Toro, Panamá, 02-02-2014

Alguns pontapés no cu têm a faculdade de nos fazer avançar. Hoje recebi dois desses. Não me posso queixar. Se com um vou para a frente, com dois voo.

(Claro que também há pontapés no cu que nos paralisam, mas a esses tento não ligar. Se bem nem sempre consiga, verdade seja dita).

.........
O mês de Fevereiro vai ser um mês excitante, motivante, eléctrico, magnético, nuclear. Já tive muitos assim; são bons: a não lutar prefiro perder. E nada me dá tanto gozo como uma boa luta, um desafio franco e aberto e limpo.

É verdade que o encaro assim porque sei que a volta está dada, o comboio está a apontar para outra direcção, os nós que prendiam o HELENA S. ao cais desatados. Resta saber se tudo isso se confirma. A minha resposta é "Sim! Daqui a um mês falamos".

Daqui a um mês falamos. Melhor do que um diálogo fechado só um adiado. Sun Tzu, que percebia do assunto, dizia "nunca se deve lutar a subir". Eu nunca lutei de outra maneira. Talvez seja isso que me permite encarar as vitórias e as derrotas com a mesma distância: a de quem sabe que mais vale perder do que não tentar, e tão bom como ganhar é lutar.

........
A chuva voltou.

........
O HELENA S. parece uma senhora ferida que nenhum hospital quer aceitar por não ter seguro de saúde. É linda, e quando estiver boa vai dar-me muitas alegrias. Vale as dores de cabeça e os pontapés no cu todos do mundo.

1.2.14

Isla Bastimentos, Panamá, 2014





Isla Bastimentos, Panamá, 2014





Vida, pessoas

A vida das pessoas é-me de maneira geral (e triste) indiferente; mas as pessoas fascinam-me. É uma contradição com a qual aprendi há muito tempo a viver.

Boa noite

De todas as bênçãos - o vento, o mar, um par de seios, um corpo que nos acolhe, uma alma que nos recebe - o sono não é talvez a melhor; mas é sem dúvida a maior, a mais frequente.

Cântico Negro / (O resto não interessa) - Maria Bethânia

Quedas, ascensões

Esta impressão de estar na margem, no abismo, à beira de qualquer coisa nova.

Tantas vezes vivida, tantas vezes ganha, tantas vezes perdida. Sempre a primeira vez.

Correntes, livros

Nunca fui de correntes, nem mesmo quando eram frequentes na então blogosfera. Mea culpa, digo desde já.

Agora pedem-me dez livros que marcaram a minha vida. O exercício é interessante. Passá-lo a dez pessoas é mais difícil. Deixo a tarefa ao Facebook.

Sem qualquer ordem:

1 - As receitas da tia Mamé (aqui sim, há uma ordem. Se houve livro - que de resto nem era bem um livro - que mudou a minha vida foi este);
2 -  Sozinho à Volta do Mundo, Joshua Slocum (este não mudou bem a minha vida; só a confirmou. Parece pouco, mas não é);
3 - Zen and the Art of Motorcycle Maintenance, Robert Pirsig (gosto de viagens, de loucura, da paternidade e da qualidade. Defini-las e dar-lhes um lugar no universo é obra de génio);
4 - Por quem os Sinos Tocam, Ernest Hemingway (eles tocam por ti...);
5 - O velho e o Mar, Ernest Hemingway (somos o que perdemos, não o que ganhamos);
6 - Tortilla Flat, John Steinbeck (o humor é a mais eficaz das armas);
7 - Memórias de Adriano, Margueritte Yourcenar (todos somos inventáveis, se formos. Ou: ser é ser recriável);
8 - Waiting for Godot, Samuel Beckett ("quem sabe não espera"; mas que sabemos, se não soubermos que esperamos o que não sabemos?);
9 - Ficções, Jorge Luis Borges (Realidades seria um título igualmente apropriado);
10 - Heart of Darkness, Conrad. (Se um dia tivesse de escolher um livro, um só, seria provavelmente este. Não sei. Sei. Está lá tudo).

Adenda - falta o Mystères, de Knut Hamsun. (Pelas mesmíssimas razões do anterior...)

Cavanna, humor et al

Morreu Cavanna, singelamente por idade. É daquelas pessoas que nos habituamos a ter ao nosso lado, sempre. Como Wolinski, Gauthier, Bretécher, Gotlib, Wolinski ou aqueloutro que já morreu mas continua ao nosso lado, Reiser.

Não concordo com uma única das suas opiniões políticas, mas concordo com cada uma das suas piadas; o que é muito mais importante.

(A lista de nomes vai aumentando...)

Diário de Bordos, Bocas del Toro, Panamá, 31-01-2014

Bocas del Toro é um sítio magnífico, e o meu trabalho é um trabalho magnífico. Que duas magnificências por vezes se encontrem e se acordem mutuamente é uma sorte, uma dádiva, uma bênção.

Hoje foi mais um dia daqueles que me fazem pensar que percebo quem pensa que o meu trabalho não é trabalho (e a minha vida não é vida, mas quem pensa isso são sobretudo senhoras e a opinião das senhoras sobre mim está muitas vezes, forçoso é reconhecê-lo, equivocada).

........
A ideia original era ir a Dolphin Bay. Tínhamos duas clientes e uma convidada, e nunca fui a Bahia Porras (o nome panamiano do lugar, provavelmente muito exacto). Mas estava a chover para aquelas bandas e resolvi cambar e ir a paragens mais conhecidas e soalheiras, em Cayo Solarte.

Paragens conhecidas em Bocas é uma falsa expectativa. As ilhas assemelham-se todas, as passagens entre elas não estão em carta nenhuma (hoje fiz dois tracks que passam sobre terra, bem no meio) e lá foi mais um sessão de exploração, Apocalipse Now agora, já.

Foi uma boa aposta: só choveu um bocadinho a meio da tarde.

E o HELENA S. portou-se à altura (ou à falta dela); este barco deve ter rodas nas quilhas. Ainda não sei exactamente onde está o zero da sonda, mas sei que com 0,1 pé (não é erro, a sonda está em pés) passo. Também sei, mas não por experiência própria, que com zero pés passo.

A próxima etapa é determinar o zero da sonda :-)

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Não é altruísmo. Gosto de ver passageiros desembarcar felizes. É a única coisa que me faz pensar que aquilo que faço é trabalho. (Se pensasse que o trabalho se deve traduzir em dinheiro perderia a minha fé na semântica. Ou no trabalho, o que seria muito pior).

Os benefícios da idade

"Nada é pior do que um idiota motivado", dizia não sei quem. Já fui muito mais idiota do que sou hoje; Allahu Aqbar. E já fui mais motivado; mas pouco.

Mais novo era um dinâmico e optimista visionário (ou seja, o equivalente educadamente expresso de um idiota motivado). A idade atenuou-me o optimismo, temperou-me o dinamismo e aguçou-me a visão.

E ainda há quem não goste da idade que tem. Eu gosto. Acho é que são poucos.

Os anos, quero dizer.

29.1.14

Dor na doxa

Um gajo qualquer diz na televisão que os direitos humanos podem ser referendados e a turba levanta-e em uníssono - a turba só ladra em uníssono, perdoem-me o pleonasmo - a insultar o homem. Argumentos até agora vi zero.

Dói-me a doxa. Sempre doeu, é verdade. Mas agora dói mais, porque agora sei o que não sabia quando era mais novo: não é a imbecilidade que manda, mas é por sorte, por habilidade de quem manda, por acaso, por milímetros.  Estamos sempre a um passo dela.

"On n'avance pas vers la verité, on change de dogme. C'est tout." Não sei quem disse isto. Merecia os prémios Nobel todos.

Diário de Bordos - Red Frog Marina, Bocas del Toro, Panamá, 28-01-2014

Deixou de chover. É cedo para cantar vitória, mas não para ver que Bocas sem chuva é lindo, parece outro planeta. Pouco a pouco os nós desatam-se; não é de estranhar, sou tão bom a desatá-los como a fechar portas, ou a abri-las. A verdadeira questão, pensava hoje quando vinha do Palmar sem luz e a luz não era precisa, hoje, pela primeira vez é saber porque tem a minha vida tantos nós.

Há várias respostas. A primeira, óbvia, é que não sei se as outras não têm montes de nós também, e eu penso que só a minha os tem. A segunda, menos óbvia mas se calhar mais verdadeira, é que eu não escolhi a minha vida. Foi ela que me escolheu e por isso eu apaixonei-me por ela ainda muito novo.

É de todas as paixões a única que não morreu, a única que ainda hoje amo e pela qual sofro tudo o que ela quiser fazer-me sofrer.

Preciso de um bocadinho mais de mar, é tudo. Há quem pense que eu preciso também de um bocadinho mais de dinheiro. É verdade: até eu penso isso, muitas vezes. Mas depois olho para a minha vida bem nos olhos e digo-lhe que o dinheiro a teria estragado toda.

Agora ela responde-me que tem muita vontade de ser estragada; na verdade anda há anos a dizer-me isso. Eu concordo com ela, acaricio-a um bocadinho e vivo-a. E ela cala-se.

Pergunto-me quanto tempo mais a conseguirei manter calada. Pouco, de certeza.

........
Dias mágicos no Palmar Tent Lodge, o meu lugar, a minha casa fora de casa, a minha praia quando preciso de praia e o meu bar quando preciso de um bar.

"O mundo é sempre mais pequeno do que o viajante que nele viaja", escreveu um dia James Baldwin. Não conheço maior verdade, nem outra que seja tão boa de viver.

........
Amanhã faço um jantar a bordo para celebrar os anos de K., uma jovem alemã que conheci hoje no Palmar. Há muito tempo que não dou jantares a bordo. Há muito tempo que não tinha tempo. Aos poucos redescubro-o. Ou ele redescobre-me. Não sei. O tempo também é infinitamente menor do que o viajante que nele vive.


27.1.14

Diário de Bordos - Red Frog Marina, Bocas del Toro, Panamá, 26-01-2014

Um bom dia de vela vale dez maus, qualquer navegador sabe. E aceita. Mas o de ontem vale cem dias maus, contando por baixo. Saímos da Marina e fomos para a passagem entre Solarte e Bastimentos. Fui pela passagem maois estreita e mais baixa (há duas, mas sei que o HELENA s. passa pela pequena, muito mais parecida com o Apocalipse Now do que a outra.

Isto discute-se. Se só conhecesse a outra achá-la-ia muito parecida com o Apocalipse. Que se lixe. Não cheirava a napalm, e não havia horrores. Só beleza.

Dias como o de ontem fazem-me aceitar que as pessoas pensem que aquilo não é trabalho.

É, Allahu Aqbar.

25.1.14

Diário de Bordos - Red Frog Marina, Bocas del Toro, Panamá, 24-01-2014

Visão do dia: a floresta de chuvas (é assim que a Wikipédia traduz rain forest. Sugestões?) a aparar a luz côr-de-laranja de fim de dia como um guarda redes a defender um penalty em câmara lenta [quem disse que não percebo de futebol?]

O vento caiu, a Toumani Diabaté sucede Boubacar Traouré, o vinho é mau mais on s'en fout, o cansaço do dia - passado a limpar o HELENA S. - escorre-me pela pele e dilui-se na noite.

Amanhã temos uma saída "fotografia + video". Espero que o fotógrafo e a sua amiga videasta sejam mestres de post-produção, o desgraçado do barco precisa de uma pintura como eu de mar, de paz, de esquecimento e de tempo.

Vai ser bom navegar nestes canais de mangal, nestas águas que passam do mais transparente ao mais obscuro em segundos. Os canais são inesperadamente profundos, há muitos monocascos por aqui, mas estou contente por fazer isto num cata. Um metro e dez de calado. Um metro e dez de possibilidades.

24.1.14

Céu, para sempre

Há estrelas de novo no céu. São estrelas de pouca dura, diz A. É verdade. Tal como o céu, de resto. "Nothing lasts forever / except forever" canta Willie Nelson.

23.1.14

Um gajo

Um gajo procura, perde, ganha, empata, bate com a cabeça nas paredes, parte paredes e parte a cabeça,  encontra saídas e mete-se em becos sem elas, encontra quem o ama e perde quem ama, bebe de mais ou de menos e come idem, tem dias lindos de morrer e morre por dias feios, é feliz, infeliz, triste, alegre, melancólico, empatiza, antipatiza e simpatiza, descobre saídas dos becos e portas onde antes só via paredes.

Um gajo é um homem, não é um gato.

Um gajo sofre, des-sofre, maravilha-se com uma paisagem, um seio, um sorriso, um livro ou um poema, sabe que vai  morrer e sabe que tanta tristeza e tanta felicidade não morrem, que um dia de sol  vale dez de chuva e um de chuva dez vidas, duvida de si, dos outros, do sol e dos planetas e sabe que um bom picante num guisado trata todas as dúvidas,  tal como um dia de vento trata azias, reumatismo, dores nos ouvidos,  problemas de articulações,  unhas encravadas, vinho estragado ou intoxicações alimentares.

Um gajo não é um gato. É um homem.

Um gajo sabe que não há melhor mistura de cores do que o azul marinho e o azul celeste, mas por vezes cede e aceita um bocadinho de verde entre os dois. Um gajo gosta de mulheres, de uma mulher e de tudo o que fica entre elas.

Um gajo é frágil, porque nada é mais resistente do que a fragilidade de um gajo.

Um gajo acerta, falha, falha bem e acerta mal, é deus, diabo, anjo, anjinho e tudo o que há no meio, é bom, mau, mediano, tem sorte, azar e azar e sorte ao mesmo tempo, aprecia o silêncio e gosta do barulho, sabe que hoje ontem e amanhã são tão diferentes entre si como ele é do que era ontem e será amanhã, sabe que hoje o mar está calmo e amanhã não, que o sorriso daquela mulher vale as horas todas do mundo ou não vale um segundo, que tudo é, não é e é outra vez como num carrossel. Um gajo sabe que o bem e o mal são as duas faces da moeda desequilibrada que lhe saíu na rifa e que querer mudar essa moeda ou mudar-lhe a face é como querer escolher o tempo que vai fazer amanhã.

Um gajo é um homem. E é tudo o que um gajo é.

Sitges, Dezembro 2013



Socialismo, jardins

Há qualquer coisa de socialista nesta coisa das pessoas que "marcham pela vida". Por que raio de carga de água o aborto de A. prejudica B.? Estão preocupados com a sociedade? Preocupem-se antes com o jardim. Tem pelo menos a vantagem - não despicienda - de lhes dizer respeito.

Sono

Sono, finalmente. Se um dia tivesse um filho outra vez dar-lhe-ia um nome brasileiro: Sono Graças a Deus.

Dolce Barcelona, Gabanna


Retratos, vidas


Trogloditas e disfarces

Sou um troglodita mascarado de gajo civilizado; disfarce que prefiro à inversa.

Rum, silêncio e outras histórias

O rum Abuelo Anejo não é, de modo algum, um bom rum; mas ainda é menos um mau rum. É assim assim. Cumpre fielmente a sua missão: ser bebido e não provocar grandes êxtases.

Uma vez conheci um senhor (Senhor seria mais apropriado) que me disse Vous devriez vous méfier du rhum: c'est une boisson qui rend fou [foi na Martinique, daí o francês]. Percebi, claro, o que ele me queria dizer: irmão, não bebas mais, olha para mim. Não gosto de não-ditos, mas gosto de coisas que são ditas sem palavras.

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Gosto de muitas coisas; de quase tudo, para dizer a verdade. Não gosto da chuva; das pessoas que são como um dia sem vento; e menos ainda das pessoas que são como a chuva: desagrádavel mesmo quando não nos toca.

De resto é preciso procurar muito para encontrar algo ou alguém que me desagrade.

Infelizmente não pára de chover, mas isso é outra história.

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Há chuvas silenciosas? Há silêncios barulhentos, ruidosos, incomodativos, invasivos?

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Como se chama um cocktail composto de rum e silêncio, com uma rodela de lima e uma gota - talvez - de bitter Angostura?

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Uma garrafa de rum Abuelo de um litro custa oito euros. Experimentem comprar um litro de silêncio, para ver. Quinhentas vezes mais, no mínimo.

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Mais vale um silêncio na mão do que dois a voar.
Mais vale um rum na mão do que dois na garrafa.

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A rapariga era simpática, mas precisava de muitas palavras. E não bebia rum.

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Se chovesse rum eu detestaria a chuva?

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Prova da superioridade do rum sobre o whisky: este pode misturar-se com água da chuva.

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Os maus silêncios são como o mau rum: nada é pior do que uma coisa boa mal feita, barata, ordinária.

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A noite está escura como um barril de alcatrão; a chuva alegra-a? Não: dá-lhe sentido.

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Suzanne cantada sobre o Boléro de Ravel. Há coisas piores do que a pior chuva ou o pior silêncio.

22.1.14

Diário de Bordos - Red Frog Marina, Bocas del Toro, Panamá, 21-01-2014

A vida em Bocas del Toro - em Red Frog Marina, para ser mais preciso - recomeçou como se não tivesse nunca de cá saído. Chego a ficar espantado quando me dizem Good to see you back. Regresso de um jantar no Palmar, hamburgers bons e baratos num quadro simpático; e penso que se neste país não chovesse tanto quase se poderia viver. Quase, claro: se não chovesse tanto não seria tão  bonito.

Enfim, ao que parece a estação das chuvas acaba em breve; acredito pouco, mas acredito um bocadinho: preciso de dormir.

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Têm sido dias de trabalho intenso. Ainda mal refeito da travessia com um doente tenho de tratar de três barcos (devia; de momento só me ocupo do H.S.). Hoje foi dia de discussão de planos com A., o actual e excelente skipper do bote. À tarde fomos distribuir brochuras pelos resorts da região. Não foi um sucesso: dos que visitámos só um estava aberto. Mas aproveitámos o passeio pelo meio das ilhotas de mangal, paisagem que vi no outro dia pela primeira vez do ar.

Vistas do mar as ilhas são irregulares, claro; o mangal parece caótico. Mas de cima a vista é completamente diferente: as ilhas parecem cortadas com uma máquina, de tal forma são regulares, como aquelas peças decorativas que se põem nos bolos de aniversário com formas de coração ou de outra coisa qualquer.

Basta esperar que páre de chover...

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Desta vez os sapatos Foreva decepcionaram-me. Sinto-me traído: finalmente tinho razões concretas, palpáveis para suportar o meu incerto e hesitante patriotismo; mas ao fim de dois meses (admitidamente de bastante uso) tive de os colar. E agora estão a descolar-se de novo. Se fosse rapaz de má-fé garantiria a quantidade de cola e a qualidade da colagem. Não sou, não garanto. Mas que é frustrante é. Onde comprar sapatos em Bocas del Toro? De que marca? Haverá sapatos Foreva (não sou pessoa de desistir à primeira)? Não acredito. Haver sapatos já é uma sorte; e nenhum deve ter sido feito a mais de poucos quilómetros do centro da província mais recuada e recôndita da China.

Socorro! Será que os responsáveis do marketing da marca Foreva lêem blogs? Terão brio profissional e recomeçarão a fazer colar e coser convenientemente os seus sapatos? Voltarei um dia, quando tiver de novo oportunidade de comprar uns sapatos dessa até agora excelente marca, a cantar-lhe laudas?

E se não, alguém me pode indicar uma marca com preços semelhantes e da mesma qualidade (dos primeiros, claro. Não destes)? - Se possível com representação em Bocas del Toro, província homónima, Panamá, América Central.

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Cada vez me engano menos sobre as pessoas; e cada vez me engano mais quando me engano.

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Amanhã espera-me outro dia ocupado. Fui escolhido por uma profissão que tem todas as vantagens - é bela, apaixonante, interessante, divertida - e mais uma: desconhece totalmente a monotonia. Ao contrário do que muita gente pensa.

Se bem esteja morto de vontade de voltar para o mar.

20.1.14

Como na Suíça

A panga das cinco e meia ou sai atrasada (quase sempre) ou sai adiantada.

É como com os autocarros na Suíça: podemos acertar o relógio por ela. Se bem de uma forma um bocadinho mais imprecisa: quando sai sabemos que não são cinco e meia.

Próxima etapa

(E sozinho, Allah uAqbar!)








Que pena não ser já amanhã...

Diário de Bordos - Bocas del Toro, Panamá, 20-01-20104

Um chulo enamorado não deixa de ser um chulo; ou quando muito pode passar por armador de embarcações de recreio. É o que sou: armador enamorado e furioso.

Ou o HS trabalha ou. Ou o quê?

Não ouso sequer pensar nisso. Hoje fiz uma ofensiva na frente do marketing e da pintura (o barco precisa de uma séria intervenção cosmética). A ver. Trinta anos de experiência devem servir para qualquer coisa, até para dar a volta a um clima que não é, digamos, adequado para o day charter.

Clima e não só. Uma das coisas que terei de negociar em breve é uma avença mensal para uma autoridade me permitir trabalhar. Que caminho, desde que um senhor há muitos anos em Portugal me pediu um BMW e eu disse que não...

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Bocas é lindo, mas confirma violentamente a minha convicção de que a beleza não é tudo.

19.1.14

Leituras (Memorandum)

Ando em maré de boas leituras.

Ali Smith - There But For The: provavelmente a melhor coisa que li nos últimos anos. Imaginação delirante aliada a técnica da narrativa de virtuoso. Há poucas alianças mais ou tão fecundas.

Tracy Chevalier - Girl with a Pearl Earring: a narrativa como gosto dos vinhos e dos cocktails: secos.

Michel Houellebeck - La Carte et le Territoire  (em curso).


Diário de Bordos - Panamá City, Panamá, 19-01-2014

Acabei por embarcar, depois da intervenção da senhora cheia de bom senso (e de fome, provavelmente ajudou).

Os planos são como enguias, debatem-se e escorregam-nos das mãos; temos de os agarrar com força e não os deixar cair.

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Domingo em Panamá City. É estranho ver estas ruas vazias. Em menos de meia hora estou no meu velho Rana Dorada a beber um Mojito "sem açúcar".

Fui recebido com um sorriso colombiano e muitas perguntas sobre os meus paradeiros, o que me parece uma boa maneira de continuar esta corrida de táxi nas ruas hoje desertas, mas normalmente cobertas de carros e de gente e de barulho.

Panamá aparece-me mais simpática, hoje: sabe de certeza que vai ser uma das últimas vezes que estarei por aqui.

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Hoje durmo no HELENA S. Deve ser a coisa mais próxima que tenho de dormir em casa.

E não, não vou ao Balboa Yacht Club. Algumas peregrinações são necessárias, imperativas, por muito dolorosas que sejam; outras são dispensáveis.

Diário de Bordos - Miami, Florida, EUA, 19-010-2014

Inicialmente a ideia parecia boa: um jantar rápido e uns copos em South Beach, um hostel ou hotel barato, aeroporto de manhã cedo e ecco, Panamá.

Como de costume não foi bem assim que aconteceu: com excepção do jantar, numa tasca judia onde comi o melhor shawarma da minha vida (teria sido igualmente o maior, se tivesse conseguido acabá-lo) nada correu como planeado. Os hotéis e hostels estão cheios, é um fim-de-semana de não sei quê. Tive de vir dormir ao aeroporto. O qual estava também a abarrotar de gente a dormir... E agora a saga continua: não consigo embarcar para o Panamá por causa de uma estúpida história de papéis.

Espero o veredicto num Burger King e penso que ainda estou cansado da travessia, que preciso de uns dias em Bocas a pensar noutras coisas para sacudir esta água deste capote.

2013 estica-se até ao último minuto, até ao último segundo.

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Isto dito, esta noite ajudou-me a perceber de onde caíam os miúdos que levei a passear no S. B. o ano passado. Chegaram às Ilhas Virgens para cinco dias de vela com bagagem para dois meses; e com roupa como se fossem para Monte Carlo. Coitados. Traziam Miami com eles. Discotecas, Clubes, Cafés, música, barulho e toda a gente vestida. A cidade é muito bonita, sem dúvida; mas é uma mistura que me seduz pouco. Os EUA inteiros seduzem-me pouco, na verdade.

Não gostaria de viver num país onde as chávenas de café têm um aviso a dizer que contêm líquido quente. É sempre triste, ver um país a escorregar para o socialismo. É melhor vêr-los a sair dele.

O pior

O pior de uma depressão não sâo a dor, a tristeza permanente ou esta incapacidade de respirar, como se os pulmões a cada inspiração perguntassem Para quê?

O pior de juma depressão é simplesmente a impossibilidade de passar uma ideia do cérebro à mão. Isto admitindo que há uma ideia no cérebro, claro.

18.1.14

Mudança, imanência

Mudar é bom, claro; tem boa imprensa, pelo menos. Mas muito mais importante é aquilo em nós que não muda. É isso que nos define.

17.1.14

Diário de Bordos - Le Marin, Martinique, Antilhas Francesas, 17-01-2014 - II

É preciso imaginar uma luz densa como a de Lisboa, já no fim do dia, oblíqua e quente; uma praia pequena, dourada e uma grande extensão de água. No fim desse plano de água há muitos barcos, um nevoeiro de mastros. Por trás dos mastros montanhas, verdes.

É preciso imaginar um homem sentado face a isto tudo. Os barcos, a luz, a água e as palavras são a sua vida, sempre foram.

É preciso imaginar uma vida: uma vida feita de mar, palavras e luz.

Um fim de tarde é uma vida. Basta imaginá-la, imaginá-lo.

O homem pensa no passado, muito pouco. Pensa no futuro. Pensa no presente. Pensa demasiado: a luz e o mar e o vento e as palavras não precisam que se pense neles.

Pensa: O ti'punch está para mim como a luz para esta paisagem.

Pensa: Tu estás para mim como vento para esta água.

Pensa: Como será andar aqui sem ti?

Pensa:

Não sei. Não há respostas. Não há certezas. Não há nada para além desta luz que o vento arrasta como o desejo arrasta um olhar numa pele.

Mar, barcos, luz e palavras: uma vida.

Mango Bay, le Marin

"Nada do que é humano lhe é estranho".

Diário de Bordos - Le Marin, Martinique, Antilhas Francesas, 17-01-2014

Os estais e os mastros cortam a luz como espadas. O fundo é verde e montanhoso. O vento traz calor e refresca. O rum dilui-se em mim e dilui-me no mundo. Aos meus pés, por entre as frinchas do soalho a água brilha e recorda-me que há uma vida onde menos se espera.

Tenho de me levantar e ir aos correios: dez minutos e uma vida.

Sem ti, a noite

Eu sei que é tarde, meu amor. Mas tenho este copo de vinho por acabar, mais teimoso do que os outros; e a máquina da roupa: esperar que termine, estender, pôr a dos brancos (pois, esqueci-me de comprar lexívia).

Eu sei.

Mas nada me espera senão uma noite sem ti; e prefiro um copo de vinho e uma máquina de roupa à tua ausência: sem ti espera-me para sempre.

Sem ti um copo de vinho e uma máquina não acabam e a noite não começa.

Oiçam

"Oiça um bom conselho..."



Jesus fucking Christ!

16.1.14

Paisagens

Borderline, maníaco-obsessivo, sádico, agressivo, egocêntrico... Algumas paisagens mentais chegariam para alimentar uma clínica de psicólogos durante anos.

Diário de Bordos - Le Marin, Martinica, Antilhas Francesas, 16-01-2014

Tal como os séculos não acabam quando diz o calendário, também o meu ano de 2013 não acabou no dia 31 de Dezembro. Acabou ontem, quando cheguei à Martinique; ou hoje, talvez.

A travessia foi um calvário. O ano termina como começou: miserável. Tenho pelo menos uma certeza: 2014 não pode ser pior.

A isto chama-se saltar da frigideira para o fogo. A ver se desta aprendo a controlar a impulsividade.

Não sei pactuar, não sei dizer que não quando penso sim ou sim quando o não é óbvio; não sei lidar com a estupidez e ela não sabe lidar comigo; e, descubro agora, não sei lidar com psicóticos - provavelmente só os profissionais da área sabem -. Acrescente-se a isto a minha habitual falta de sorte: é a receita infalível para se fazer um homem pobre. Livre, mas pobre.

Penso no Tevye, do Fiddler on the Roof:

"Lord who made the lion and the lamb,
You decreed I should be what I am.
Would it spoil some vast eternal plan
If I were a wealthy man ?"

........
Isto dito, tudo é nada comparado com o que me rodeia: o barulho do casco na água, a sete nós apesar de estarmos no primeiro rizo; a lua em quarto crescente, promessa de lua cheia para a chegada; as estrelas tão claramente visíveis que o céu parece estar em três dimensões; as núvens que as tapam e destapam como lençóis voam numa cama de amantes; a auto-estrada prateada à minha frente a indicar o caminho e a dizer-me que tudo não é mau, que nada é tudo, nunca.

........
Um autor que li há alguns anos pensa este tipo de comportamentos esquizóides um factor importante na hominização. Talvez tenha razão: sinto-me de regresso ao tempo em que os homens não falavam. E àquela cena dos macacos do início do 2001 Odisseia no Espaço.

........
Onde acaba a cobardia e começa a inteligência? Ou será a cobardia a solução inteligente?

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Resta-me a luz, o cor-de-laranja do nascer do sol no azul do mar. Devem ser estas as cores da felicidade.

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Estou quase a chegar àquele ponto mágico de que fala Conrad: no meio do oceano, a mil milhas do porto mais próximo.

........
Há muitos anos que não navegava num tupperware. Espero que venham muitos mais antes do próximo.

Muito, mal

Amámo-nos muito e amámo-nos mal. Infelizmente prevaleceu o mal; a qualidade sobre a quantidade.

Como teria sido, se nos tivéssemos amado pouco e bem?

A realidade existe

Quem acha que a realidade é uma ilusão, ou que todas as visões da realidade se equivalem nunca esteve três semanas fechado com um psicótico.

Noite, vida

Vamos começar por definir noite? O que é a noite?
(Aquele espaço de tempo no qual tu devias estar perto de mim).

E vida, o que é vida?
(Aquele espaço de tempo no qual tu devias estar perto de mim).

Deux

Voyons donc voir ce que voir veux dire,
ou être vu veux dire
ou être entre deux regards veux dire, entre
deux yeux, deux seins, deux jambes.
Deux vies, deux lunes, deux chemins.

Deux est un nombre magique.

Sea, rhum

This man can sleep, given enough sea and rhum.

Le Marin, Martinique

Marin princípio e fim, Marin queda, Marin abismo, Marin ressurreição, Marin amado, Marin.