Tapenade
Azeitonas (pretas, neste caso),
Anchovas,
Sumo de um limão,
Muita pimenta,
Salsa,
Alcaparras (em langue d'oc tapena, que deu origem ao nome do prato),
Azeite.
Desta vez não levou alho porque a rouille tem alho que chega. E não levou piripiri porque a minha amável e generosa e hospitaleira anfitriã & filhos não gostam.
Também fiz uma canja de galinha, mas enfim. Não é preciso receita.
31.5.14
La cuisine du jour - 2
Um pimento e bastante gengibre raspado encontraram-se no fundo de uma panela a refogar quem sabe penas passadas. Em óleo de palma, porque em breve vou para o Brasil e preciso de me aclimatar. Numa frigideira ao lado um frango dourava em azeite.
A certa altura encontraram-se todos juntos na panela. Juntou-se-lhe um bom bocado de salsa, bastante paprika e cominhos, um pouco de pimenta.
Continuou o refogo, bastante tempo.
Quando me pareceu que chegava de poucas vergonhas cobri aquilo tudo com leite de coco.
Está a cozer devagarinho. Vamos ver o que dali sai. Muito provavelmente frango guisado em leite de coco.
A certa altura encontraram-se todos juntos na panela. Juntou-se-lhe um bom bocado de salsa, bastante paprika e cominhos, um pouco de pimenta.
Continuou o refogo, bastante tempo.
Quando me pareceu que chegava de poucas vergonhas cobri aquilo tudo com leite de coco.
Está a cozer devagarinho. Vamos ver o que dali sai. Muito provavelmente frango guisado em leite de coco.
La cuisine du jour (Reedição)
Do livro "La Cuisine d'Amour", de Odile Godard, Ed. Actes Sud, 1985:
1 kg de lulas;
8 batatas;
1 cebola;
3 tomates;
3 colheres de sopa de azeite;
3 dl de vinho branco,
2 malaguetas,
Tomilho, louro.
Para o aïloli:
2 gemas de ovo;
2 dentes de alho;
1/3 litro de azeite.
Cortar as lulas aos bocadinhos, alourá-las ligeiramente em azeite; juntar a cebola picada, e o tomate cortado aos bocados. Quando tudo está bem refogado, juntar o vinho branco e igual quantidade de água a ferver. Temperar com sal, pimenta, malaguetas, louro e tomilho.
Deixar cozer 30 a 40' em lume brando. As batatas começam por se cozer à parte e juntam-se a este preparado para acabar de cozer.
Fazer o aïloli (é uma mayonnaise à qual se junta alho picado - se bem que também se possa fazer com batata cozida em vez das gemas de ovos); juntar 2 colheres de sopa por pessoa, depois de se certificar que as lulas não têm líquido a mais. Não voltar a levar ao lume. Deve ficar onctuoso.
Não gosto muito de navegar no Mediterrâneo: ou não há vento ou há vento a mais, as transições são bruscas, violentas e sem pré-aviso; no verão os portos são caros e estão cheios, e no inverno estão vazios, mortalmente vazios. Mas, do Sul de Espanha ao Norte de África, passando pelo Midi, pela Itália, pela Turquia, pelo Líbano, sobretudo o Líbano, a cozinha das margens do Mediterrâneo é a melhor do planeta. Desta receita, prefiro a versão simples da Odile Godard à versão mais tradicional, com legumes, de que dou um exemplo.
Em Sète, de onde é originária. Com um Brassens nos ouvidos, a pele no sol, e um pastis na mão.
........
Não tenho nem pastis nem Brassens. Mas tenho tudo o resto: chega.
(E sim, agora faço sistematicamente o aïoli com batata cozida).
1 kg de lulas;
8 batatas;
1 cebola;
3 tomates;
3 colheres de sopa de azeite;
3 dl de vinho branco,
2 malaguetas,
Tomilho, louro.
Para o aïloli:
2 gemas de ovo;
2 dentes de alho;
1/3 litro de azeite.
Cortar as lulas aos bocadinhos, alourá-las ligeiramente em azeite; juntar a cebola picada, e o tomate cortado aos bocados. Quando tudo está bem refogado, juntar o vinho branco e igual quantidade de água a ferver. Temperar com sal, pimenta, malaguetas, louro e tomilho.
Deixar cozer 30 a 40' em lume brando. As batatas começam por se cozer à parte e juntam-se a este preparado para acabar de cozer.
Fazer o aïloli (é uma mayonnaise à qual se junta alho picado - se bem que também se possa fazer com batata cozida em vez das gemas de ovos); juntar 2 colheres de sopa por pessoa, depois de se certificar que as lulas não têm líquido a mais. Não voltar a levar ao lume. Deve ficar onctuoso.
Não gosto muito de navegar no Mediterrâneo: ou não há vento ou há vento a mais, as transições são bruscas, violentas e sem pré-aviso; no verão os portos são caros e estão cheios, e no inverno estão vazios, mortalmente vazios. Mas, do Sul de Espanha ao Norte de África, passando pelo Midi, pela Itália, pela Turquia, pelo Líbano, sobretudo o Líbano, a cozinha das margens do Mediterrâneo é a melhor do planeta. Desta receita, prefiro a versão simples da Odile Godard à versão mais tradicional, com legumes, de que dou um exemplo.
Em Sète, de onde é originária. Com um Brassens nos ouvidos, a pele no sol, e um pastis na mão.
........
Não tenho nem pastis nem Brassens. Mas tenho tudo o resto: chega.
(E sim, agora faço sistematicamente o aïoli com batata cozida).
As imagens da verdade
São inúmeras as coisas em que não acredito.
Não acredito em deus, chame-se-lhe como se quiser; não acredito nas alterações climáticas antropogénicas, que os pretos são piores e os maricas melhores do que os outros, que cortar um nabo às rodelas finas e depois fritá-las em azeite bem quente seja a pior maneira de comer nabo.
Não acredito nos homens, sejam eles super ou infra ou simplesmente medianos - um homem é um conjunto falível e imperfeito de células governadas por genes que só pensam neles. Não acredito em heróis, não admiro um gajo por nada que não dependa da sua vontade ou, o que é a mesma coisa, da sua coragem; não acredito que haja muitos pianistas melhores do que Cecil Taylor, não acredito que o vinho tinto, o whisky ou o rum (consoante onde se esteja) não sejam o melhor remédio para a maioria das coisas más e boas que nos afligem ou acontecem (admitindo que há coisas boas que nos acontecem, claro). Não acredito no passado e muito menos no futuro.
Não acredito na vida depois da morte - haverá uma antes? - nem no poder ilimitado do amor - o amor é como a liberdade, só existe no plural.
Mas são mais ainda as coisas em que acredito; não porque sejam mais mas porque são maiores: acredito no mar, por exemplo; em alguns amores que tive e noutros que terei; em algumas amizades.
Acredito que passar uma tarde de sábado a cozinhar é uma das melhores maneiras de passar uma tarde de sábado, se a música e o vinho forem bons; acredito em mim: "sou o que sou e é tudo o que sou"; acredito que um dos melhores lugares do planeta é uma embarcação de vela a mil milhas do porto mais próximo.
Acredito nos croquetes e nos pregos da Versailles (para dizer a verdade, em tudo o que de lá sai), no poder regenerativo do sol e terapêtico do vento, que o melhor sítio para ter as mãos é uma pele, e os olhos outros olhos; que há poucas coisas melhores de se ouvir do que as Vésperas de Rachmaninov, sobretudo se forem ouvidas numa catedral, cantadas por um bom coro. Acredito que poucos poetas são melhores do que Jorge Luis Borges, William Blake ou Fernando Pessoa, que alguns poemas de Nuno Júdice e muitos de Pedro Tamen roçam a perfeição pelo interior, na fotografia de Man Ray, Richard Avedon ou Diane Arbus, nas canções de Leonard Cohen, que são a vida em música e palavras.
........
Nada disto é verdade.
Acredito em tudo: "Tudo aquilo em que se pode acreditar é uma imagem da verdade".
Não acredito em deus, chame-se-lhe como se quiser; não acredito nas alterações climáticas antropogénicas, que os pretos são piores e os maricas melhores do que os outros, que cortar um nabo às rodelas finas e depois fritá-las em azeite bem quente seja a pior maneira de comer nabo.
Não acredito nos homens, sejam eles super ou infra ou simplesmente medianos - um homem é um conjunto falível e imperfeito de células governadas por genes que só pensam neles. Não acredito em heróis, não admiro um gajo por nada que não dependa da sua vontade ou, o que é a mesma coisa, da sua coragem; não acredito que haja muitos pianistas melhores do que Cecil Taylor, não acredito que o vinho tinto, o whisky ou o rum (consoante onde se esteja) não sejam o melhor remédio para a maioria das coisas más e boas que nos afligem ou acontecem (admitindo que há coisas boas que nos acontecem, claro). Não acredito no passado e muito menos no futuro.
Não acredito na vida depois da morte - haverá uma antes? - nem no poder ilimitado do amor - o amor é como a liberdade, só existe no plural.
Mas são mais ainda as coisas em que acredito; não porque sejam mais mas porque são maiores: acredito no mar, por exemplo; em alguns amores que tive e noutros que terei; em algumas amizades.
Acredito que passar uma tarde de sábado a cozinhar é uma das melhores maneiras de passar uma tarde de sábado, se a música e o vinho forem bons; acredito em mim: "sou o que sou e é tudo o que sou"; acredito que um dos melhores lugares do planeta é uma embarcação de vela a mil milhas do porto mais próximo.
Acredito nos croquetes e nos pregos da Versailles (para dizer a verdade, em tudo o que de lá sai), no poder regenerativo do sol e terapêtico do vento, que o melhor sítio para ter as mãos é uma pele, e os olhos outros olhos; que há poucas coisas melhores de se ouvir do que as Vésperas de Rachmaninov, sobretudo se forem ouvidas numa catedral, cantadas por um bom coro. Acredito que poucos poetas são melhores do que Jorge Luis Borges, William Blake ou Fernando Pessoa, que alguns poemas de Nuno Júdice e muitos de Pedro Tamen roçam a perfeição pelo interior, na fotografia de Man Ray, Richard Avedon ou Diane Arbus, nas canções de Leonard Cohen, que são a vida em música e palavras.
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Nada disto é verdade.
Acredito em tudo: "Tudo aquilo em que se pode acreditar é uma imagem da verdade".
Serendipity, Lisboa
Não há um equivalente português para serendipity.
Talvez haja: Lisboa.
(Isto precisa de um desenvolvimento.
Talvez haja: ir almoçar ao restaurante Águas Livres umas sublimes pataniscas de bacalhau com arroz de feijão não menos sublime; descobrir o Quinta do Grifo Reserva 2008, um vinho pelo qual regressarei a Portugal esteja onde estiver, Lua incluída; acabar o almoço com um Marc de Champagne que ajuda a perceber que os franceses fazem certas e determinadas coisas melhores do que nós, e entre essas coisas estão a manteiga, a aguardente e duas ou três outras que eu conheço); sair do restaurante e dar de caras com o atelier do Tiago Taron, um dos meus pintores favoritos toutes catégories confondues. Só lhe conhecia as obras de uma exposição na Ler Devagar há muitos anos e vê-las no atelier dá-lhes outra vida, outro contexto e outra dimensão).
Restaurante Águas Livres
Calçada Bento Rocha Cabral, 18
Lisboa (ao Largo do Rato)
Tel.: 213 878 365
rest.aguaslivres@gmail.com
Talvez haja: Lisboa.
(Isto precisa de um desenvolvimento.
Talvez haja: ir almoçar ao restaurante Águas Livres umas sublimes pataniscas de bacalhau com arroz de feijão não menos sublime; descobrir o Quinta do Grifo Reserva 2008, um vinho pelo qual regressarei a Portugal esteja onde estiver, Lua incluída; acabar o almoço com um Marc de Champagne que ajuda a perceber que os franceses fazem certas e determinadas coisas melhores do que nós, e entre essas coisas estão a manteiga, a aguardente e duas ou três outras que eu conheço); sair do restaurante e dar de caras com o atelier do Tiago Taron, um dos meus pintores favoritos toutes catégories confondues. Só lhe conhecia as obras de uma exposição na Ler Devagar há muitos anos e vê-las no atelier dá-lhes outra vida, outro contexto e outra dimensão).
Restaurante Águas Livres
Calçada Bento Rocha Cabral, 18
Lisboa (ao Largo do Rato)
Tel.: 213 878 365
rest.aguaslivres@gmail.com
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Restaurantes Lisboa
29.5.14
Lisboa, últimos dias, I
Não te amaria mais se de carne fosses feita, digo a Lisboa; não te amaria mais se de calçada fosses feita, digo a uma ou duas pequenas. Nenhumas sabem das outras. Antes assim: os grandes amores são para manter secretos.
28.5.14
Lisboa
Velha amante do mundo: o tempo passa por ti como um rio por um seixo. Redonda eras, redonda ficas.
A beleza das baratas
É preciso ter presente a enorme resistência das baratas para se apreciar devidamente a beleza da expressão avoir le caffard.
Lettres de Lisbonne
Oui. Il ne faut guère se taper la tête conter le mur, s'arracher les cheveux, se donner des coups de poings. J'ai pris un peu de poids. Personne ne vient à Lisbonne pour maigrir. Et oui, le machin dans le sang doit être à des niveaux himalayéens; on s'en fout, il descendra de lui même. Ou bien on le fera descendre, on lui tirera dans les pattes. Lisbonne va bien et se recommende. Te salue bien. Tu lui manques, qu'elle me dit.
Je m'y noie: ginginhas - tiens, Sr. Manuel est mort, étouffé -, piratas, vin au Vertigo, mon nouvel antre. Elle s'offre comme une vieille poufiasse, Lisbonne: en cachant beaucoup plus que ce qu'elle donne à voir.
Il fait beau et frais: temps de printemps. Dommage que tu ne sois pas là, n'est-ce pas?
Je m'y noie: ginginhas - tiens, Sr. Manuel est mort, étouffé -, piratas, vin au Vertigo, mon nouvel antre. Elle s'offre comme une vieille poufiasse, Lisbonne: en cachant beaucoup plus que ce qu'elle donne à voir.
Il fait beau et frais: temps de printemps. Dommage que tu ne sois pas là, n'est-ce pas?
27.5.14
Como se me quisesses, Lisboa
Olha-te Lisboa, mulher, para as gajas cada vez melhores; e para os gajos mais na mesma. És fêmea e como fêmea te dás e escondes. Pouqu'importa: achoqu'ela queria me'mo er'ó gajo, ma não tenhacerteza.
Eu tenho: quero-te como se me quisesses.
Eu tenho: quero-te como se me quisesses.
De novo Lisboa
De novo te percorro, Lisboa, te ando e te fodo. E de novo tu ris e foges e te dás, mas nunca toda. Nunca toda te dás, mas sempre toda és.
Escondes-te e fodes e gozas por partes: o que hoje és amanhã não foste, o que ontem foste só amanhã serás. És uma porra, Lisboa; perto do fim. Não me importo. Reencontrar-te-ei deitada e viva, alerta e trocista, gozona e cona aberta para quem sabe, fechada e fechada para quem não.
Afogas-me Lisboa em ginja e ideias, em mulheres e ruas, em projectos e piratas; eu afogo-me em ti como se não houvesse amanhã, como se não houvesse ontem, como se não houvesse eu, como se não houvesse nada mais se não tu e o mundo. Porque não há nada mais se não tu e o mundo, Lisboa: tu és o mundo e o mundo se pudesse seria tu.
Afogas-me, Lisboa; e fazes-me viver. Na morte a vida se faz, da morte se refaz. E tu de sempre renasces, para sempre.
Escondes-te e fodes e gozas por partes: o que hoje és amanhã não foste, o que ontem foste só amanhã serás. És uma porra, Lisboa; perto do fim. Não me importo. Reencontrar-te-ei deitada e viva, alerta e trocista, gozona e cona aberta para quem sabe, fechada e fechada para quem não.
Afogas-me Lisboa em ginja e ideias, em mulheres e ruas, em projectos e piratas; eu afogo-me em ti como se não houvesse amanhã, como se não houvesse ontem, como se não houvesse eu, como se não houvesse nada mais se não tu e o mundo. Porque não há nada mais se não tu e o mundo, Lisboa: tu és o mundo e o mundo se pudesse seria tu.
Afogas-me, Lisboa; e fazes-me viver. Na morte a vida se faz, da morte se refaz. E tu de sempre renasces, para sempre.
Palavras, para que vos quero
Há uma incapacidade generalizada de lidar com as palavras. A única real, importante diferença entre comunistas e fascistas, nazis e outras direitas extremas é aquilo que dizem. Não é o que fazem nem muito menos o que pensam. Detestam-se uns e aceitam-se outros por causa dos respectivos discursos.
Quem disse Human beings can not bear too much reality podia ter dito Human beings can not bear too much words.
Adenda: Foi o Eliot e não é Human beings. É Human kind.
Quem disse Human beings can not bear too much reality podia ter dito Human beings can not bear too much words.
Adenda: Foi o Eliot e não é Human beings. É Human kind.
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