21.7.14

Ao princípio era o verbo

Seria preciso voltarmos ao que éramos. Ao princípio. Ao verbo.

O que éramos morreu. Nunca mais será: ressuscitar é para loucos, sonhadores e messias.

20.7.14

Toda a gente, pouca gente

Pode enganar-se toda a gente pouco tempo, ou pouca gente todo o tempo. Mas não se pode enganar toda a gente todo o tempo.

O aforismo é conhecido. Apesar disso há quem duvide da sua veracidade, porque por vezes vemos pessoas enganar toda a gente por tanto tempo que pensamos Este conseguiu. Como fez?

Uma das maneiras é enganar-se a si mesmo. Mas se isso é necessário não é suficiente. Chegará sempre, inexorável,  o momento em que "toda a gente" perde uma pessoa.

E outro em que de "toda a gente" só fica a pessoa que se engana a si própria.

Almoço improvisado - Salada

Hoje fui navegar. O dia foi bom de mais para ser descrito num tablet à pressa.

Fica a receita da salada, a que C., um cabo-verdiano adorável deu o nome de Salada Boqueirão - estávamos no Boqueirão quando a comecei-.

Os ingredientes são:
- Pepino
- Cebola
- Tomate
- Bacon frito com alho
- Maracujá.

Fiz uma maionese e misturei-lhe umas gemas cozidas esmagadas com um dos maracujás.


19.7.14

As coisas e a vida

As coisas são como são e não como pensamos que deviam ser.

Viver consiste em encontrar o frágil e instável equilíbrio entre este facto e o seu contrário.

Assimetrias, fontes

As assimetrias são irritantes para as pessoas de bem e fonte de prazer para as outras.

Arrogâncias, medo

Há muitas arrogâncias e todas elas têm ingredientes diferentes.

Só há um comum, sempre, a todas: medo.

17.7.14

Auto-retrato parcial

"Há coisas das quais me posso orgulhar: a liberdade, a independência, a incapacidade total, absoluta de emprenhar pelos ouvidos. Mais do que imune, sou alérgico ao zeitgeist. Sempre fui. A opinião dos outros nunca me interessou se não para aprender e ser capaz de fazer as minhas próprias opiniões.

Duvido a priori de tudo o que é consensual - não porque seja contra os consensos, mas porque acho que devem ser investigados e avaliados -.

Nunca me submeti à pressão de um grupo, fosse essa pressão de que natureza fosse. Não alinho em grupos, modas, clubes, partidos, facções ou seja o que for.

Respeito quem sabe mais do que eu quando me demonstra que sabe mais do que eu (ainda por cima nem é muito difícil, portanto não me parece que seja pedir de mais).

Não aceito argumentos ab auctoritate, não reconheço valor aos nomes das pessoas, às suas origens sociais, ao dinheiro que têm ou não têm; - reconheço sim e só ao que fazem."

(De um comentário no FB, ligeiramente editado).

On Liberty

Há tempos havia uma corrente já não sei onde perguntando-nos quais os dez livros que tinham mudado a nossa vida. Não é frequente integrar correntes, mas àquela respondi, já não sei porquê.

Esqueci-me de mencionar meia dúzia de livros, e mais um: chama-se On Liberty. É de um Senhor chamado John Stuart Mill e foi publicado em 1863.

A posteriori apercebo-me de que não foi bem um esquecimento. On Liberty não mudou a minha vida: formou-a.

16.7.14

Querer, tintas

Alguns posts do Don Vivo são bons. É natural: em quase onze anos um ou dois hão-de escapar. Em contrapartida nunca é de mais frisar que os poemas são execráveis. Eu sei. Infelizmente estou-me nas tintas. Ponho-os aqui porque quero, da mesma forma que digo maricas em vez de gay e faço o que faço como faço: porque quero e porque me estou nas tintas.

Talvez não seja uma boa definição de liberdade; mas é a que quero.

Auto-retratos alheios: S. Tomé

Indubitavelmente consequência de ser um bocadinho surdo (não tanto quanto gostaria,  mas lá chegarei) só acredito no que vejo. O que oiço só não me entra por um lado e sai por outro porque não chega sequer a entrar.

Grupo Insomníaco Dorme Tu

O Grupo Insomníaco Dorme Tu reúne-se na nossa cidade todas as noites a partir das vinte e três horas (alguns membros do grupo insistem em chegar mais cedo. A Direcção aceita, mas não muda a hora do início das sessões). Fica situado na rua bastante inclinada. Para se entrar é obrigatório ter chegado no sentido ascendente - o Grupo aceita insomnes amadores, mas a insónia tem de ser séria. Insónias descansadas não entram -.

A direcção é eleita todos os anos ou desde que pelo menos um membro tenha encontrado o sono. O que acontecer primeiro.

Estamos a pensar mudar as regras: ninguém quer fazer parte da direcção porque para além de zelar pelas insónias dos outros deve zelar-se pela sua.

O café e o chá estão terminantemente proibidos, claro.

Fui um dos membros fundadores e tenho frequentemente feito parte da direcção.   Mas volta e meia lá encontro o sono (é preciso dormir-se bem uma semana seguida para se deixar de ser director; com dois meses de sono regular é-se expulso do Grupo).

Expulso não é o termo adequado,  claro. Mas isso fica para depois. Agora vou dormir. Há muitos meses que faço parte da direcção e gostaria de  passar o lugar a outro.

15.7.14

Recôndito

Dóis-me quando te leio e não te leio,
Quando te escrevo e não escrevo,
Quando te lembro e esqueço.

Dóis-me quando estás
E quando não estás.

Só não dói saber-te reconciliada.

E mesmo assim dóis-me.

14.7.14

Diversões

Tenho à minha frente meia dúzia de escorregas, daqueles que se vêem nos parques de diversões. Grandes, encaracolados - nenhum é linear - de várias cores.

Tento perceber de onde vêm. Para onde vão eu sei: um poço negro na paisagem,  longe mas bem visível.

Cada um deles leva coisas diferentes: este palavras, aquele desejos (e sonhos.  Quem quer que os tenha feito misturou sonhos e desejos) outro raivas e ódios, aqueloutro amores e fantasias.

Vejo-me sentado de pernas cruzadas a separar estas coisas como quem separa roupa. Não é tão fácil como parece. Esta foi amor ou foram só palavras? E esta, vai para os ódios ou para as indiferenças?  Aquela, um sonho?

E a vida? Para qual dos tubos vai?

Ar

Penso: preciso de te ler
Como de ar para respirar.
Digo: preciso de te ler
Como de veneno para morrer.

Penso: preciso de te ver.
Digo: preciso de viver.

Entre o que penso e
O que digo
Há uma vida e
A morte.
Uma ferida e
A lua cheia como
Se houvesse ar
Em mim para respirar
Sem te ler.

Como se houvesse ar
Sem ti.

13.7.14

O tubarão vai ao barbeiro

O tubarão perdera a barbatana havia muito tempo, mas mesmo assim ainda lhe custava nadar a direito. Foi uma galinha que me debicou a puta da  barbatana. Tornara-se carnívora e eu não dei por nada, explicava a quem o queria ouvir.

Ninguém o queria ouvir.

Estava na rua das Chagas (abertas). Ao fundo da rua há um barbeiro desses que imitam os barbeiros de antigamente.

Estou farto do antigamente. Quando é que estes gajos começarão a imitar o futuro?

Mas entrou. Barba, cabelo e poucas palavras, pediu.

Na parede havia um cartaz. Corte o cabelo cinco vezes e deixamo-lo sair para a rua das Chagas (fechadas).

Não seria má ideia. Estou farto de andar às voltas na porra da Chagas (abertas). Mas sem a barbatana não faço senão andar às rodas. Puta da galinha carnívora.

O barbeiro estava com medo de lhe fazer o bigode.

O senhor promete que não me come o braço?

O tubarão acenou. Agora sou herbívoro, sua besta. E quando acabar recomece tantas vezes quantas as necessárias para eu poder sair pela ruas das Chagas (fechadas).

Se o senhor tubarão me deixasse falar talvez eu pudesse dar um jeitinho...

Estes cabrões mai-los jeitinhos. Irritado comeu o braço ao barbeiro.

A porta da rua das Chagas (fechadas) abriu-se.

Micro-dialogos

- Mudas de corações como eu mudo de camisa.
- Azar o teu. Ao menos os meus corações vêm com pilas. As tuas camisas só têm botões.

- Sinto-me um looser.
- Os teus sentimentos raramente se enganam.

- És a mulher da minha vida.
- Para isso seria preciso teres uma vida.

- Olho-te e vejo o futuro como podia ter sido.
- E eu o passado como foi.

- Tens uns olhos lindos.
- Ainda o seriam mais se não tivessem de te ver.

12.7.14

Simetrias, ausências

A verdadeira pergunta é sou eu que deixo o mar ou é ele que me deixa?

Da resposta a esta pergunta dependem uma data de coisas. A cor das ameixas que estão por nascer e ser comidas, por exemplo.  A dimensão do carreiro de formigas num determinado quintal. A frequência de levantes e ponientes no estreito de Gibraltar este verão.

Um dia conheci um tipo cujo trabalho consistia em avaliar as probabilidades de um amor evoluir em amizade ou não. Quem lhe pagava eram os actuais cônjuges dos antigos casais.

- Têm medo, percebes?
- Não.
- Pá. A amizade é um sentimento mais forte do que qualquer outro. Já pensaste que todos nós somos capazes de substituir um amor, mas ninguém pode substituir uma amizade? Um amigo que se perde perde-se para sempre.
- Se quisesse mencionar-te-ia um milhão de amores que se perderam para sempre.
- Ainda bem que não queres. Obrigar-me-ias a declamar-te os amores todos que os substituíram.

Que se foda a amizade.

Por exemplo: o mar é meu amigo? Sofre quando não me vê como eu sofro quando passo demasiado tempo em terra? Sofre se não sabe de mim?

A amizade é a forma perfeita da simetria. Ao contrário do amor, que é a sua forma imperfeita.

Nutro pela simetria uma admiração infinita: é a mais elusiva de todas as aspirações humanas. Como terá sobrevivido a tanta ausência?

A ausência é a morte da simetria: não há ausências simétricas.


11.7.14

Diário de Bordos - S. Luís, Maranhão, Brasil, 11-07-2014

O trabalho começou, finalmente. O ritmo não é alucinante - estamos no Maranhão - mas avança. Cada vez que chego ao estaleiro há gente a bordo, a mexer-se, medir, cortar, pensar. A trabalhar, em suma.

A vida muda, claro. Gostaria muito que o meu bem-estar psíquico dependesse um bocadinho menos do trabalho mas não consigo, infelizmente.

........
Ontem havia música na rua, como todos os fins de semana. Pela primeira vez desde que cheguei era boa. Isto é, não era simplesmente barulho.

Gostei particularmente da rapariga das congas. Terá vinte anos? Talvez. Mas toca com a calma, distância, precisão de quem o faz desde que nasceu.

Tem a regularidade de um metrónomo. Não falha um tempo. Está concentrada, mas por vezes deixa-se ir e sorri, troca um olhar com o rapaz das percussões à sua direita ou com a cantora.

Não sei como definir isto: por detrás de uma aparente falta de criatividade escondem-se talento e horas de  trabalho. A criatividade é isso, pela ordem inversa. Trabalho e talento. Ou talvez seja o talento que é composto por trabalho e criatividade. Não sei.

Não sei o que é o talento. Aliás: sei. Mas ignoro de que é feito. Só conheço os seus efeitos sobre mim. Esta beatitude, espanto, rendição.

Oiço a miúda tocar - são tambores, não congas - e pergunto-me se um dia escreverei tão bem como ela toca. Provavelmente não.

Mas espero um dia escrever com a mesma calma, a mesma certeza. A de um rio que sabe onde está a foz.

........
O Brasil é um campo de estudo ideal para quem se interesse pela teoria do caos. Tudo é caótico. E todos os tipos de caos coabitam tão bem como as diferentes classes sociais: o caos visual, auditivo, olfactivo, o trânsito... tudo isto com uma hiper- "sensibilidade crítica às condições iniciais"; que existem com certeza. Basta encontrá-las. Quais serão - a pobreza? A indisciplina e concomitante irresistível atracção pela desordem? Uma coisa é certa: o conceito de entropia não se aplica à vida quotidiana na S. Luís do século XXI.

........
A vida, esse conjunto de altos e baixos a que um marinheiro chama cristas e cavas soma e segue. Nós desatam-se, encruzilhadas clarificam-se, vontades definem-se. Olho para o ano e meio que acabo de passar e pergunto-me se a carga que trazia era assim tão pesada, para exigir tanto tempo antes de conseguir alijá-la.

Era. Um erro, um só, chega para definir uma quantidade de coisas. Não é só S. Luís que é híper-sensível às condições iniciais. A vida é um sistema aberto, dinâmico não linear, alimentado por equações indeterminísticas. Circuitos fechados (é assim que se traduz loops?), retroalimentação (ditto feedbacks), efeito borboleta...

Tantas palavras, tantas maneiras de definir o que no fundo é indefínivel, o que não tem palavras, o que se recusa a desaparecer, a dar-se, a fechar-se.

A vida é o que é mai-lo que dela fazemos. E as borboletas.

Sol, lua nova

Onde estás?

Os Espíritos Santos e os espíritos santinhos

Portugal parece um bordel no qual as putas se escandalizam cada vez que são fodidas.

Brasil, música

Ainda na série Ao contrário do que muitas vezes se pensa: os brasileiros não gostam de música.  Odeiam-na. Detestam-na. Desprezam-na.

Os brasileiros gostam de barulho, e a música é apenas um veículo para ele.

10.7.14

Net, pertença

Ao contrário do que muitas vezes se pensa a net exacerba o sentimento de pertença, é o seu melhor aliado.

Anti-semitismo "laico"

Há qualquer coisa estranha na resistência do anti-semitismo,  mesmo em sociedades que se pretendem laicas, como as sociedades ocidentais actuais.

Ou então é o conceito de laico que é preciso reavaliar e estudar e uma forma mais abrangente.

9.7.14

Copenhaga

Antes de mais nada é preciso reconhecer duas coisas: a) eu não percebo nada de nada e b) acho que Israel devia parar já, e se não puder ser já que seja imediatamente com os colonatos.

Isto dito:

1 - Três putos israelitas são assassinados. Não há inquéritos, nem autópsias e os assassinos passeiam-se como heróis pelas ruas;

2 - Um puto palestiniano é assassinado. Há um inquérito e uma autópsia e os assassinos vão para a prisão enquanto aguardam julgamento;

3 - Os palestinianos, com a sensibilidade e o espírito de contenção que lhes são internacionalmente reconhecidos provocam desacatos, atacam Israel com rockets e ameaçam o caos;

4 - Israel intervém para repor a ordem.

5 - Os palestinianos são bons e vítimas, os israelitas maus e carrascos.

Eu sei que estou enganado. Se alguém pudesse ajudar-me e explicar-me em quê e porquê eu ficaria inimaginavelmente grato.

Isto dito há, claro, outros consideranda que devem, passe a redundância ser considerados.

Os palestinianos são reconhecidos pelo seu estado de direito e pelo quadro jurídico liberal, reconhecedor dos direitos das minorias, das mulheres e dos maricas. É um estado isento de corrupção, aberto à inovação, atento às necessidades do seu povo, de tal maneira democrático que tem dois governos  (um dos quais é uma organização terrorista, um modelo de humanismo).      

Contrariamente aos países ocidentais, claro. É por isso que os activistas de género e os defensores dos direitos dos homossexuais e da liberdade de imprensa (mai-los amigos das árvores, dos animaizinhos et al.) lutam no ocidente por essas coisas todas e não lutam em mais lado nenhum. As lutas só fazem sentido onde são realmente necessárias.

Os palestinianos são mestres em manipulação da imprensa. Manipulam-na como se fosse feita em e de plasticina.

É por isso que a (perdoem-me a metonímia) intelligentsia europeia é toda anti-semita. Perdão, anti-Israel.

Confesso que se visse vacas e porcos a defender os proprietários de matadouros não ficaria mais surpreendido.

8.7.14

Diário de Bordos - São Luís, Maranhão, Brasil, 08-07-2014

Os transportes em comum de S. Luís são péssimos (isto porque estou em dia de ser generoso e bem educado. Em dias normais diria que são uma merda infecta). Há várias razões para isso: o mau estado dos veículos - são poucos para o movimento que têm e não deve haver muito tempo para manutenção - e das ruas - têm buracos que fariam António Costa passar por um autarca modelo - a má formação dos condutores, todos descendentes falhados (ou loucos) de Fangio, a ausência de faixas bus, a falta de autocarros (como na piada de Woody Allen: a comida é má e as porções pequenas).

É por isso raro apanhar um autocarro aqui. Faço-o aos domingos quando quero ir à praia ou quando, muito raramente, preciso de ir a um centro comercial e tenho tempo.

Geralmente ando a pé (pouco, a cidade está mais perigosa agora do que há dois anos) de táxi ou moto táxi. Amanhã vou comprar uma bicicleta, com a qual espero poder combinar a mobilidade e o bem estar físico. A mim S. Luís.

.......
Wellington aprendeu finalmente a calar-se; mas hoje cometeu um erro para mim imperdoável e vou ter de mudar de condutor de táxi. As pessoas são pobres e a pobreza fá-las cometer erros que as mantém na pobreza.

Enfim, não seria por minha causa que ele enriqueceria. Mas tinha ali um rendimento garantido e agora vai ter de o procurar. E não vai conseguir substítui-lo a cem por cento. Isto para ganhar vinte reais.

Já Regiane fez uma coisa mais ou menos semelhante com a lavagem da roupa (com a diferença fundamental de não me ter enganado).

Compreendo-os e empatizo, mas não sou paternalista. Cada um é responsável pelos erros que faz.

........
Por falar em paternalismo: ontem deu dinheiro à senhora angolana que vende porta-chaves. É muito raro dar dinheiro; em Lisboa, pouco antes de vir dei o meu casaco de bombazine azul a um sem-abrigo. Dinheiro não me lembro de ter dado, antes desta noite, em muito tempo.

A senhora estava visivelmente aflita mas apesar disso não me pediu dinheiro e - prova de que é pessoa séria - dei-lhe dez reais para ela ir trocar e ela veio com o troco. Não fugiu com o dinheiro como pensei que faria. Dei-lhe sete reais e ela foi a correr ver se ainda apanhava o Sousa dos cachorros aberto.

Recentemente uma pedinte dessas miseráveis que pululam no Reviver pediu-me dinheiro. Estávamos ambos ao balcão do Senzala, a taberna do meu amigo Raimundo. Disse-lhe que não e ela perguntou-me Você está dizendo que não porque pensa que eu vou comprar droga, não é? Não, não é. Estou-me nas tintas para o que tu fazes com o dinheiro a partir do momento em que to dou. De qualquer forma, se usares o meu para comer usas o de outra pessoa qualquer para o crack.

Foi no Burundi que me confrontei pela primeira vez com este problema. Muitas ONG (principalmente as católicas) escandalizavam-se porque os refugiados vendiam as coisas que lhes dávamos. Eu dizia-lhes que isso me era indiferente. O meu trabalho era ajudar os refugiados. Se eles tansformavam as lonas em dinheiro estávamos a ajudá-los, não? Eram suficientemente grandes para saber se preferiam os objectos ou o dinheiro dos objectos.

(Além disso davam-me um óptimo instrumento de previsão de necessidades: quando os preços subiam no Mercado eu sabia que tinha de começar  a preparar novos envios. Monitorizava os preços de tudo os que lhes dávamos e os das armas, para ter uma ideia da segurança).

........
Ontem apeteceu-me sair do Reviver, do seu ambiente sórdido e cheiro a mijo e fui jantar para os lados da praia. Convidei uma jovem francesa que conheci na Pousada. É directora da Alliance Française, professora de francês e mais não sei o quê. A conversa é penosa. A rapariga não se tem em muito baixa conta, antes pelo contrário. Mas debita banalidades como as Kalash cujo preço eu monitorizava em Bujumbura debitam balas.

A certa altura cito-lhe uma frase do pai de Marguerite Yourcenar de que gosto muito. Yourcenar, pergunta-me. Não queres dizer Duras? Não, M., não quero. E infelizmente tão pouco quererei voltar a jantar contigo, o que é pena.

........
Fomos jantar a um restaurante chamado Cabana do Sol. É bastante bom, mas acho as porções absurdas. Um terço da carne e mais de metade dos acompanhamentos voltaram para trás. É inaceitável deitar comida fora seja onde for; e muito menos num país onde há tanta miséria.

........
Deixo o melhor para o fim: o trabalho no B. começou, finalmente.

Assimetrias

- Como amar uma jovem senhora que só diz banalidades e nunca ouviu falar de Marguerite Yourcenar?

- Como amar um velho gordo que passa a noite a dizer coisas que não querem dizer nada e a falar de pessoas de quem nunca ouvi falar?

7.7.14

AVURNAV 002/060714

Todos nós temos uma quota de maus poemas a preencher. Só depois chegam os bons. A minha quota é um bocadinho maior do que a média. Preciso de a esgotar depressa.

Tempo, verdade

É verdade: o Michael Jackson é genial.
Já mo tinhas dito, mas eu
Gosto que o tempo me ajude a decidir.

Por isso também só acredito no amor
Anos depois de ele ter acabado.

É quando sei se foi verdade.

6.7.14

Música, seduções

Dá-me música, não me dês canções.

Seduz-me, não me encantes.


5.7.14

AVURNAV (Aviso urgente à navegação)

Se um dia houver, como espero, um concurso de má poesia eu ganharei sem dúvida o primeiro, o segundo e o terceiro prémios (só espero que haja chorudos prémios em dinheiro, claro).

Como ultimamente o DV tem andado infestado de poesia eu devo avisar  a navegação: não são apenas os poemas que sofrem de falta aguda de qualidade. A prosa também.

Ideia

À partida a ideia era simples, conhecida, pouco original:
tu amavas-me e eu amava-te,
Desde sempre, para sempre.
Seríamos felizes, nunca nos separaríamos,
Aos domingos iríamos ao cinema e antes de adormecer
Conversaríamos sobre nós.

Nada disto aconteceu, claro. Entre as pessoas e os planos
há a vida - ou metade, como dizia o outro.
Os próprios planos são uma farsa
porque são feitos por farsantes que acreditam
no amor, em para sempre desde sempre
em coisas que só são verdade na cabeça de quem as sonha quando as sonha.

Uma ideia com milhares de anos de existência e de prática não devia falhar, pois não?

Talvez não seja uma boa ideia.
Ou não seja velha.

Talvez seja uma ideia sempre nova.
Cada vez que alguém ama
É a primeira vez que ama e
Pela primeira vez pensa
Que vai amar alguém para sempre,
Desde sempre.

Telefotos - S. Luís - 05-07-14





Fan

Não sou fan de ninguém. Nem de mim, quanto mais de gajos que nunca vi mais gordos.

4.7.14

O meu corpo e eu - II

Tudo o que eu queria era que fosse breve. Talvez tenha sido. O pico da crise foi das cinco às sete da manhã. Duas horas não é nada.

Como passei esse par de horas? Lembro-me de meia dúzia de coisas: a almofada a tapar-me a cara, como por vezes faço a uma senhora que grita muito quando não posso incomodar os vizinhos; o ar condicionado a ser apagado e ligado quase de minuto a minuto; o frio e o calor simultâneos; os duches - pela primeira vez chateei-me por não ter água quente e por a água fria não ser fria - ; o suor; a experiência permanente de posições na cama; andar no quarto para trás e para a frente como se cada percurso fosse o Paredão; as idas estroboscópicas à casa de banho para ver se as pedras saíam; a incapacidade total de escrever (isto, aparentemente, consequência do Tramadol e não directamente do sofrimento); as náuseas, elas também consequência de um remédio que ao fim e ao cabo não me trouxe alívio nenhum - o que não foi o caso durante as dores de dentes em Red Frog, é preciso dizê-lo -.

E sobretudo a noção constante da desproporção entre a dimensão daquilo que me provocava a dor e a dor. Não há relação nenhuma, quem já passou por isto sabe-o. Um cálculo renal é minúsculo.

Retrospectivamente duas horas não é nada. Infelizmente o tempo é uma espécie de pastilha elástica que se deforma e reforma e se cospe quando já não serve para nada. E aquelas duas horas não serão cuspidas tão cedo.

Não foram duas horas. Foi uma viagem de ida e volta ao centro de mim. Todas as grandes dores, os grandes sofrimentos o são, não é?

3.7.14

Talvez

Faço testes à memória esperando que ela falhe.
Que daquela praia tenha, por exemplo, apagado
os traços irrequietos, ansiosos que nela deixámos.

Mas a memória mostra-me a areia a remexer-se
por baixo de nós. Era inverno. Tínhamos casacos, sobretudos,
cachecóis e por baixo disto tudo mãos e
peles, que lentamente se embaciavam.

Peço à memória que apague essa praia;
à praia que se imobilize;
ao mar que leve da areia o amor que nela nasceu,
às algas que preencham os buracos que na areia
fizemos e às rochas que desabem
na praia, na areia, na memória.

Havia muitas rochas na praia, mas só víamos a areia.

Vêm-me à mente os versos de Borges:
Solo una cosa no hay: es el olvido.
Dios, que salva el metal salva la escoria
Y cifra, en Su profetica memória
Las lunas que serán y las que han sido.

Recitei-to muitas vezes, mas nunca naquela praia.

Talvez o mar seja uma das formas do esquecimento.
[Não é].

Talvez o mar que tudo e sempre muda
apague da praia não os traços mas a memória.
[Não apaga].

Talvez a areia aceda, se lhe pedir,
a deixar desvanecer-se no mar
aquele fim de tarde que lhe deu sentido,
que fez dela a única praia, a única areia
o único fogo, o único sempre.

Talvez as outras praias se revoltem,
talvez unidas digam ao mar para nos apagar.

Talvez haja outras praias, quando o mar quiser e se a memória deixar.

Mas é pouco provável: solo una cosa no hay.

Junta à nossa a tua Sophia

"Ele porém dobrou o cabo e não achou a Índia

E o mar o devorou com o instinto de destino que há no mar."

O meu corpo e eu

De forma geral suporto bem a solidão, seja ela imposta ou escolhida. Dou-me bem comigo e com o mundo. Os únicos momentos em que o prazer de estar sozinho é posto à prova é quando estou doente, ou a sofrer fisicamente.

Não é frequente, mas acontece. A primeira vez que tive uma pedra nos rins (não estava nos rins, mas isso não interessa) as dores foram tão avassaladoras que resolvi ir ao hospital. Era domingo. O único hospital que conhecia em Lisboa, para além claro do Sta. Maria, que desde miúdo me aterroriza era o Curry Cabral e foi portanto para este que fui.

As urgências não tinham urologia, ou coisa que o valha, e sugeriram-me S. José, um hospital grande, antigo, vetusto, imponente. Sentia-me como numa das prisões de Piranesi, esmagado pela dor e pela espera.

Doutra vez parti (eu penso que não, mas isso agora é irrelevante) uma costela. Não estava sozinho, mas é como se estivesse: dois homens num quarenta e três pés à bolina com sete, oito e nove Beaufort durante quatro dias não têm muito tempo nem disponibilidade para tratar um do outro.

Metia Ibuprofenos à mão-cheia e ia fazer os meus quartos. Governava à mão quando via que era preciso ou melhor, rizava, verificava as peias das coisas que tínhamos no convés e passava torturas para me despir ou vestir. Metia os comprimidos antes de dormir e quando, duas horas depois, acordava. Íamos para as Canárias e mal chegámos desembarquei (como estava previsto) e voltei para Lisboa. Poucos dias depois as dores passaram.

Em Maputo tive a mais longa e a pior de todas as crises de Meunière. Três dias de cama, incapaz de abrir sequer os olhos. Não há grande coisa a fazer durante uma crise de Meunière se não esperar que ela passe, mas normalmente duravam três horas, não três dias (tive outra, a última até agora em Palma, mas não estava sozinho e por isso não conta).

Já passei por muitas crises sozinho. A cada uma faço o mesmo: sinto-me miserável, aguento e espero que passe.

Agora vem aí uma, de pedra. Há muito tempo que não tinha pedras, tanto que levei umas horas a identificar os sintomas e a fazer o diagnóstico.

Eu sei que não tenho tido muito cuidado com o meu corpo, e que me aproveito de ele não ser muito vingativo. Não me pede muita atenção e eu não lha dou, digamos (excepto com esta novidade do açúcar, mas como não sou muito dado a novidades desligo e acabou-se o açúcar).

O que aí vem não é uma vingança. É mais uma lembrançazita, um pequeno toque para que eu não me esqueça dele. Estou pronto para a receber. Não me importo sequer que seja violenta, como parece que vai ser. Só espero que seja breve.

2.7.14

Telefotos




Diário de Bordos - S. Luis, Maranhão, Brasil, 01-07-2014

As festas juaninas acabaram e o Reviver volta à calma habitual durante a semana.

É quase meia-noite. Está tudo fechado ou a fechar. Nas ruas sobra a miséria. Há pouco vi um tipo tirar um balde de água de um esgoto. Não sei se o tinha lá escondido ou se se preparava para se lavar naquilo.

A rua cheira a mijo, mas isto é uma redundância. A rua cheira.

Não é bem boémia. É miséria e voyeurismo. Acabo uma caipirinha no Raimundo. Fez-ma grande. Por uma razão quaisquer gosta de mim. Comprei-a para lhe agradecer a password do wifi.

Eu retribuo o gosto. É um homem com quem me entendo. Não sei porquê.  Há pessoas assim: não é por causa do dinheiro ou de outra coisa qualquer fácil de explicar. Deve ser uma questão de vidas, indefinível tal como, para muita gente, o amor é uma questão de pele.

Bebo a caipirinha enquanto fumo um cigarro - o segundo - e escrevo isto sentado numa cadeira à porta da tasca. Penso primeiro que é uma boa imagem. Um estrangeiro gordo e feio sentado à porta - fechada - de uma tasca imunda a fumar um cigarro e a beber um copo enquanto vai dizendo que não ao desfile de náufragos que lhe pedem "uma moedinha para comer". Mas não sei de que é a imagem: da minha vida? Do Brasil? Do Reviver? Marimbo nas imagens.

Uma dose de crack custa dois reais, menos de metade de uma cerveja.

Digo que não. Sei que daqui a duas semanas já ninguém me virá pedir seja o que for, para comer ou para comprar pulseiras ou porta-chaves (esta diz que é angolana. Talvez. Deve ter sido linda) ou nada, simplesmente "uma moedinha".

........
O trabalho no barco não começou ontem, como eu tinha pensado. Nem hoje. Esperado é mais adequado do que pensado. Se eu tivesse pensado não teria posto uma data no principio dos trabalhos. Não teria posto datas em nada.

........
É isto que me espera pelos próximos dois meses. Preparo-me como para uma travessia: ao dia.

Trinta dias no mar não são um mês. São trinta dias. Dois meses em S. Luís não são dois meses. São sessenta vezes um dia.

Tal como uma vida é todas as vidas que nela vivemos, sucessivamente e por ordem.

Sim, simetria

Sim é a palavra mais bonita de qualquer língua. Sim, oui, yes, si, da, ya. Sempre curta, generosa e simétrica: tão boa de ouvir como de dizer.

É a simetria que lhe dá a beleza.


Autoridade, moral

Os assuntos que envolvem autoridade moral - ou a falta dela - são por vezes bastante fáceis de resolver. Mas regra geral é o contrário: são difíceis, complexos e complicados.

Uma pessoa que não tem autoridade moral para julgar um determinado acto deve calar-se, ponto (e quando tem também deve abster-se de julgar, mas isso é outra história).

Contudo a potencial imoralidade do acto não desaparece, tal como o mundo quando fechamos os olhos.

1.7.14

Zeitgeist

Nunca consegui respirar o ar do tempo. Sempre respirei o meu, por muito fétido e poluído que fosse. Que seja.

Uma merda, é o que é.

Multidões

Seria preciso pôr o coração de lado? Cortá-lo em bocados pequenos e dar cada um dos pedaços a cada mulher que amaste?

Talvez. Nisto do coração a simultaneidade é essencial. O coração é por excelência o órgão da sincronia, da reciprocidade - o nome que o coração dá à sincronia.




Na verdade pouco me interessam a sincronia, a reciprocidade, os bocados de coração, essas merdas todas que ele inventa para nos enganar.

Os corações ou vêm inteiros ou não vêm. A sincronia não existe. Estamos sempre uma vida atrasada, ou adiantada. Quando andamos ao lado de alguém somos três, dizia não me recordo quem.

Eu diria que somos uma multidão. Ou que nunca andamos ao lado de alguém.

Viver

Há quem coma a vida de garfo e faca e depois limpe, delicadamente, a boca com o guardanapo das convenções, ou o do saber viver. São muito parecidos, é compreensível.

Eu não. Como a vida à tripa-forra, com as mãos, os pés e a pila. Mordo-a, fodo-a e bebo-a porque cada vida é um dia, um dia e uma noite. Acordas morto e ressuscitas e vives e morres de novo tudo de seguida, todos os dias, cada dia.

Depois, claro, vomito-a nas esquinas da dor. Que isto de viver não é só comer e beber e foder e morrer. Há que sofrer e vomitar.

E viver.

É giro

Um gajo bate punhetas ao papel e saem palavras.

30.6.14

Telefotos





Telefotos





Telefotos




Palavras, flechas, pássaros

Palavras sem alvo voam ao acaso; como flechas tontas ou pássaros de asas cortadas.

Diário de Bordos - S. Luis, Maranhão, Brasil, 28 a 30-06-2014

As festas juaninas, que estão para S. Luís como as de Sto. António para Lisboa acabaram, finalmente.

Finalmente. As roupas dos Bois (o nome das bandas que tocam no Bumba-meu-boi, ou aqui) são lindas; mas a música é um horror. É só percussões e voz, mas a quem tenha ouvido as steel band das Caraíbas as músicas aparecem primárias, primitivas, básicas.

Que saudades da steel band  que ouvi em Bequia uma das vezes que lá passei, subtil, fina, encantadora.

........
No Brasil aprendo a relativizar os meus problemas com Portugal. Na verdade, bastar-me-ia gostar um bocadinho menos do país e estaria lá no paraíso.

Bastar-me-á e estarei.

........
O Reviver está vazio. Tudo fechado. No Mercado as poucas tascas abertas têm poucos clientes ou funcionários e todso estão agarrados aos televisores como náufragos a um salva-vidas. O jogo está empatado. Se o Brasil estiver como o Reviver o Brasil está imobilizado. A tensão nas ruas desertas é tal que parece ser necessário ums catana na mão para avançar.

Agora devem estar nos pénaltis, a julgar pelo ritmo das exclamações de alegria.

Não percebo como se pode depositar o orgulho nacional num jogo de futebol, mas respeito; por conseguinte morro de fome. Não tenho coragem para pedir seja a quem for que me dê de comer (apesar de a tia Rosa insistir. Recuso). Seria uma falta de respeito, de empatia, educação, tacto, jeito, sensibilidade. Seria torturar a empregada da senhora só porque estou com fome.

...........
As pessoas são pobres e nem sempre é culpa dos outros; pode discutir-se a dimensão do nem sempre, mas isso fica para depois. Agora interessa-me uma história que se passou ontem e ajuda a perceber porque são muitos brasileiros pobres e porque estou tão farto de países do terceiro mundo.

Uma rapariga que não ganha mil reais por mês pede-me cinquenta para lavar meia dúzia de peças de roupa. Aborreço-me, claro. Normalmente pago entre quatorze (Panamá) e vinte e cinco (Antigua); porquê cinquenta aqui?

A culpa é minha: como estava de saída não sei para onde e não havia ninguém na pousada que me pudesse dizer quanto ia custar e porque porque porque (resumindo: não planeei com antecedência) não combinei o preço antes.

Tento explicar-lhe que cinquenta reais é de mais, coisa em que ela não acredita: Para si não é nada, diz-me. É, Regiane, é. E pergunto-lhe: que prefere você? Ganhar cinquenta reais agora e nunca mais ganhar um centavo meu, ou fazer-me um preço correcto e ganhar cem reais por mês? Regiane prefere os cinquenta agora.

Do ponto de vista dela faz sentido. Mais vale cinquenta na mão agora do que cem depois. E o seu objectivo não é visivelmente lavar roupa ou trabalhar numa Pousada o resto da sua vida.

Eu enfureço-me, mas comigo. Regiane não é burra. Burro fui eu, que não planeei as coisas a tempo. E aqui no Brasil - como em todo o lado - a falta de planeamento paga-se.

Teste de memória

"Time is a fake healer, anyway".

Malcolm Lowry, Under the volcano.

Resultado:


"Time is a fake healer,  anyhow".

Tristeza, tristezas

Há tristezas mais tristes do que outras. Há mesmo tristezas alegres, agradáveis, leves como a luz do sol coada por nuvens altas. Não se sabe bem se está sol ou se ele se foi, se volta ou se as nuvens vão ficar mais espessas e tapá-lo por completo.

Não é desagradável porque de repente fica menos calor e a luz fica um bocadinho menos contrastante, mais cinzenta e triste. Mas pouco.

É uma tristeza que nos ajuda a ver melhor as coisas que nos rodeiam.

E há a outra, feia e negra, pesada, como as noites de lua nova. Avançamos e parece que estamos parados; estamos parados e parece que alguém nos enterrou por engano. Não se vê nada, nem para fora nem para dentro.

É muito chata e cansativa, esta. Gosto mais da outra, tão frequente.

28.6.14

Teste de memória

"Mas não me peças a mim, que só conheço os caminhos da sede, que te indique a direcção das nascentes"

Eugénio de Andrade

Resposta:

"Também eu já me sentei algumas vezes às portas do crepúsculo, mas quero dizer-te que o meu comércio não é o da alma, há igrejas de sobra e ninguém te impede de entrar. Morre se quiseres por um deus ou pela pátria, isso é contigo; pode até acontecer que morras por qualquer coisa que te pertença, pois sempre pátrias e deuses foram propriedade apenas de alguns, mas não me peças a mim, que só conheço os caminhos da sede, que te mostre a direcção das nascentes."

Eugénio de Andrade, Do Outro Lado, in 'Poesia e Prosa [1940-1980]'

Incêndios, água

- Não ateies incêndios que não possas apagar - disse-lhe ele.
- Apaga-o sozinho; eu fiquei sem água - respondeu-lhe ela, anos mais tarde.

Vontade, medo

Há algum tempo que sinto necessidade de parar um bocadinho. Hoje tive a prova da sinceridade desse sentimento: a ideia aterrorizou-me.

Só onde há vontade há medo.

27.6.14

Diário de Bordos - S. Luís, Maranhão, Brasil, 27-06-2014

São quatro irmãos. Três têm Carlos no nome e três são chauffeurs de táxi. Não são os mesmo três. António Carlos é polícia. Sei isto tudo - e mais uma quantidade inimaginável de coisas, cada um mais desinteressante do que a precedente - por Wellington, que não só não tem Carlos no nome mas também fala sem parar, e é o único dos irmão que o faz. São os três evangelistas - ou serão os quatro? Não me lembro.

Carlos primeiro, como comecei a designá-lo hoje enquanto Wellington falava, é o mais calado deles. Foi por isso que lhe pedi o número de telefone. Um chauffeur de táxi que não fala, é competente e sério, tem um carro em bom estado e está pronto a negociar as tarifas (mas não demasiado; desconfio das pessoas que como eu fazem grandes descontos. Ou são tolos, ou não se valorizam ou são desonestos) é uma dádiva.

Infelizmente não devo ser o único a pensar assim e da vez seguinte quem veio foi Luis Carlos. É menos calado e o carro está em piores condições, mas ainda bastante aceitável. Hoje calhou-me Wellington (eu telefono para Carlos primeiro e ele distribui o trabalho pelos irmãos).

É um inferno. Chama-me  a atenção para qualquer coisa com um toque no braço ou na perna; e qualquer coisa é realmente qualquer coisa: desde a casa que pertencia a um senhor cujo barco se afundou - seguem-se pormenores mendespintianos sobre o número de pessoas e de búfalos que morreram - ao senhor que é polícia velado (polícia à paisana) e quanto é que ele cobra para não prender um traficante (entre trinta e cinquenta mil reais). Isto depois de me precisar que o homem é um matador - mata quem não tem dinheiro e cobra aos outros, deduzo.

Enfim, não deve ser assim tão linear, mas tão pouco deve estar muito longe.

Fiquei com o número de telefone de Wellington, mas vou continuar a telefonar ao primeiro Carlos. Um chauffeur de táxi que não fala prova que não devemos perder toda a esperança, nós que entramos em táxis.

Diário de Bordos - S. Luis, Maranhão, Brasil, 26-06-2014

Mais do que um viajante sou um desenraizado.

Sinto-me bem com isso, confortável. É o que sou e é tudo o que sou. É bom. Significa que me dou bem comigo próprio. Fico aliviado porque sou um gajo difícil e chato,  e saber que há alguém com quem me dou bem - apesar de me conhecer - é reconfortante.

As pessoas que não me conhecem gostam de mim (há excepções,  claro, graças a deus) . Hoje foi a vez da cozinheira da pousada: ouviu falar em ovos estrelados e pensou logo que era eu.

Não estou a brincar. Ou sou o único cliente em dois anos que pede ovos estrelados ou peço-os - pedia-os, até agora tenho-me aguentado com os ovos mexidos que são a norma da casa - de uma forma especial.

A verdade é que a senhora saiu da cozinha mal a empregada com quem falei lá entrou e veio saudar-me, sorriso de uma parede da sala à outra, mão estendida.

Que era bom saber-me de volta, e que infelizmente o senhor Alessandro cortou o bacon mas que quando eu quiser ovos estrelados (ela diz fritos) é só pedir.

Amanhã vou comer ovos estrelados ao pequeno-almoço. Infelizmente sem bacon, mas enfim.  Já vi pior.

........
Trabalhar em S. Luis é como andar numa escada rolante no mau sentido. Ou melhor: é como tentar subir uma escada rolante descendente. Só que não serve de nada tentar andar mais depressa do que os degraus. A escada adapta a velocidade à nossa, e quando nós aceleramos ela acelera também. E ou não saímos do mesmo sítio ou saímos a uma velocidade estonteante de tão lenta. Nauseante.  Enfim, amanhã talvez consiga dar um passo em frente. Talvez. Se há uma coisa que aprendi aqui é a não esperar nada que não dependa directa e unicamente de mim.

26.6.14

Diário de Bordos - S. Luis, Maranhão, Brasil, 25-06-2014 (post a posteriori)

Hoje consegui pela primeira vez não passar por ET.  Li não sei onde que Portugal tem de ganhar por cinco golos ao Gana; quando a primeira pessoa com quem falei logo de manhã exprimiu a sua pena por a nossa selecção estar prestes a regressar a casa fiz um ar entendido e repliquei Ora, só precisamos de ganhar por cinco a zero.

Uma das coisas que aprecio no Brasil é que a ironia é entendida e apreciada. A piada teve sucesso e usei-a mais duas ou três vezes durante o dia. Não posso ainda dizer Sou um deles. Mas pelo menos evitei esgares atónitos, sorrisos mais ou menos trocistas e explicações desconchavadas, que me fazem sentir como se estivesse a falar chinês a um gajo que só fala espanhol.

........
Ontem conversava com o Sérgio sobre o assoreamento da baía. Faz dó, este lamaçal enorme, absurdo, prejudicial. Explicou-me que o marido da Governadora - uma Sarney, ou seja uma versão pior e ainda mais corrupta dos Soares - tem uma lancha a motor e já falou diversas vezes nas vantagens de dragar aquilo.

A baía começou a assorear há cinquenta anos, quando alguém mandou construir uma barragem no rio Bakanga. As consequências foram catastróficas: ash pessoas que viviam da pesca tiveram de mudar de ofício, a baía começou a assorear a um ritmo alucinante e o Bakanga transformou-se numa espécie de cano de esgoto sem saída.

Um dos organismos que se opõem à dragagem da baía é o IBAMA, o instituto brasileiro cuja função oficial é proteger o meio ambiente. A verdadeira missão, claro, é diferente: consiste em servir de coito a milhares de pequenos déspotas e dar-lhes oportunidade de exercer a sua autoridade sem qualquer espécie de controle e em total impunidade. O IBAMA é um organismo fascistóide, ditatorial, tirânico, cheio de Hitlers em potência.

Mas como sempre a história é complicada: quando começou a falar disso o marido da governadora - que por mera coincidência é filha do homem que mandou construir a barragem - começou a ser acusado de querer encher os bolsos e ao fim de um bocado abandonou a ideia. Ou seja; o homem queria fazer - ou que se fizesse, ele não tem nenhum cargo oficial - uma coisa boa; mas a sua paciência é menor do que a desconfiança dos brasileiros de tudo o que cheire a político, e do que os tiques fascistas de um organismo público, cujo lema é (cá como em todo o lado) não fazer nem deixar fazer.

Um dia li um artigo segundo o qual as pessoas desconfiadas são mais enganadas do que as que confiam nos outros. Esta história é uma maneira estranha de confirmar a validade dessa tese, ou a sua aplicabilidade a outras áreas.

Se bem, no Brasil, a desconfiança de tudo o que cheire a político seja mais do que justificada. Como me dizia ontem um condutor de táxi, S. Luís tem azar com os prefeitos. Sai um ruim para entrar outro pior.

........
Hoje fui à ponta da Areia, um dos bairros chiques de S. Luís. Ia a uma reunião do clube de vela do qual Sérgio faz parte. Qundo cheguei não estava ninguém e resolvi ir dar uma volta pelo bairro. Parece outra cidade. Assim percebe-se porque tanta gente gosta do Brasil. A música não está aos berros, as pessoas não estão ou cheias de crack ou a tentar encher-se dele, os bares e restaurantes são bonitos e bem tratados, o ar não cheira a mijo. Podia estar em qualquer cidade americana ou europeia. Limpeza, silêncio, mesas e cadeiras de qualidade.

A gentrificação dos centros das cidades é uma constante em todo o lado. Pergunto-me quanto tempo vai levar em S. Luís. Uma vida ou duas, no mínimo.

O Brasil é um país que constrói aviões e vende armas à França. Na Ponta da Areia e na Lagoa da Jansen é fácil ter isso presente. No Reviver é impossível.

25.6.14

Diário de Bordos - S. Luís, Maranhão, Brasil, 24-06-2014

(É preciso ter muita vontade para escrever estas merdas num tablet manhoso, caracterial e instável de sete polegadas na cama. Ou não ter mais nada que fazer. Infelizmente tenho: devia estar a ler coisas boas em vez de escrever más.

Enfim, foram escritas ao jantar. À mão. Com uma caneta de tinta permanente num bloco notas da Paperblanks, o qual não chega aos calcanhares da Clairefontaine mas tem muito mais pinta. E de qualquer forma ninguém é obrigado a ler.)

Noite de terça-feira. Cheguei na madrugada de sexta. Cinco dias. Tenho finalmente a impressão de que as coisas estão a avançar. "As coisas" é um conjunto díspare de coisas: o barco, a logística, os canais de financiamento, o Fernão Mendes Pinto e outras de que não falo porque não me apetece.

Cada uma destas "coisas" tem sub-coisas. E algumas delas sub-sub-coisas. Todas elas estão a andar. Devagar, claro. É uma máquina silenciosa e lenta e desde Kepler sabemos que nada há de mais bonito do que um mecanismo coordenado, síncrono, oleado. Um universo.

Uma sensação ausente no Panamá ("as a man is so he sees").

........
Quando era miúdo gostava - como todos os garotos - de andar nas poças de água. Saltava de uma para a outra; ou escolhia as maiores para maximizar (peço perdão por este barbarismo) a minha permanência, ou a dos meus sapatos, dentro de água.

A intermitente sensação de bem estar - o mais perto que consigo estar da felicidade - que actualmente vivo traz-me à memória as poças de água da minha infância, na pluviosa Quelimane.

Não me queixo. Uma sucessão de poças de água é melhor do que um deserto (e pior do que o mar, claro). Basta ser realista e aproveitar o que há. As coisas são o que são, sejam elas oceanos, charcos nas ruas, desertos ou projectos de construção naval.

........
S. Luís está mais perigoso agora do que há dois anos. Hoje falei com um jovem francês que foi assaltado logo a seguir à ponte que da outra vez eu atravessava quase todos os dias.

E a Pizzeria foi assaltada mais duas vezes.

Não há nada a fazer. Não gosto do país, nem da cidade e muito menos do bairro. É uma antipatia fractal: começa no barulho e daí vai para o cheiro, para esta permanente necessidade de festa.

Gosto da simpatia das pessoas - depois do Panamá sinto-me na Lua - da comida de rua (ditto) - e dos rabos das senhoras, que são redondos e cultivados como os arbustos podados dos jardins à francesa. E detesto tantas outras...

........
Por mais que faça não consigo não gostar da vida.

........
Por uma razão qualquer os ludovicenses gostam de pensar que S. Luis foi fundada por franceses; e não por portugueses. É uma patetice, claro. E patético, se calhar. Não sei. Talvez. Nem sempre a patetice é patética. Oiço a música do S. João - um horror de tambores, mau som e letras que oscilam entre o incompreensível e o indigente e penso que se os franceses soubessem que esta gente se reclama de sua descendência se matariam em massa.

........
Às vezes penso nas mulheres que amei; outras, naquelas por quem fui amado.

Muito raramente penso nas que não me quiseram.

Fui feliz com a maioria das mulheres que amei ou me amaram. Mas ainda mais o fui com aquelas que não me quiseram.

"Não posso ser sócio de um clube que me aceita como sócio"; e agradeço àqueles que começam logo por não me aceitarem.

........
Nas horas pares detesto o Reviver. Nas ímpares adoro-o.

Talvez não tenha que ver com o bairro.

.......
Este país respira sexo como eu bebo cachaça aromatizada: todas as alternativas são piores.

24.6.14

Diário de Bordos - S. Luís, Maranhão, Brasil, 23-06-2014

O jogo e o silêncio acabaram mais ou menos ao mesmo tempo. A vitória era esperada, portanto não houve a explosão para a qual me preparara. Ainda bem. O nível habitual de ruído chega largamente.

Os jogos de futebol - pelo menos os importantes - deviam durar dezoito horas, ou qualquer coisa lá perto. Alguém imagina o que este país seria melhor se percebesse o que é o silêncio? Se imaginasse que o silêncio existe?

Fazem-se apostas em todos os bares, da Pizzeria à tasca da Rosinha, no Tamancão. O bar guarda vinte por cento e o resto divide-se por quem ganhou. Mas não sei quais são os critérios para determinar o que é ganhar, ou como se partilha.

Sei que é levado a sério. Os apostadores falam, cogitam, concentram-se, comentam-se. Infelizmente nunca assisti a uma distribuição do prémio.

........
As caipirinhas sem açúcar da Pizzeria são quase tão boas como os mojitos da Rana Dourada. Quase porque prefiro o rum à cachaça.

........
"Nós somos penta campeões", diz-me a rapariga ou jovem senhora. Devia andar pelos trinta e quase muitos, gordos e pesados (não é uma redundância). "Se ganharmos seremos hexa, é isso?" A pergunta não é completamente inocente, ela ouviu-me falar com o empregado e sabe que sou português. "Sim. Hexacampeões. É isso" respondo. "E entretanto as pessoas vão continuar a viver na miséria" (ando a reler Dale Carnegie).

A miséria é alucinante, o crack devasta o país, os políticos fazem os nossos passar por ícones de competência e seriedade, a cidade está em ruínas e desabaria não fossem o mijo, a merda e os respectivos cheiros - e o que interessa àquela gaja (e a milhões doutras e outros) é saber se vão ser campeões do mundo outra vez. Vai foder, mulher. E tenta manter a boca fechada, que às vezes até os suspiros são irritantes.

Isto dito, admiro no ser humano esta capacidade de se desviar do que realmente importa. Um cão quando tem fome concentra-se em comer; não inventa campeonatos de hóquei em patins nem sonha com cadelas promíscuas e meio despidas a dançar no meio da rua.

E não inventa deuses, santos, anjos, rezas, missas e vidas depois da morte. Preocupa-se com a vida antes dela, é tudo.

É tudo e é pouco, claro.

........
Dúvida existencial.

Em França, e depois na Suíça aprendi francês o melhor possível. Num país de língua inglesa tento falar e escrever correctamente inglês. A mesma coisa num país hispanófono.

Por que raio de carga de água me recuso a falar "brasileiro"? Não haverá por aqui traços de uma arrogância colonialista, ou paternalista ou outra?

........
Porque será que poucas pessoas gostam de pedantes? Preferem os demagogos, populistas e incultos? Simples e modestos? Ignorantes e chorosos?

........
O Reviver (o bairro no qual se encontra a Pousada na qual me encontro) é uma versão rasca do Bairro Alto. O qual é a versão rasca de um bairro lisboeta.

Possivelmente gostarei muito mais de S. Luís se um dia for viver para outro lado.

Estou farto do povo. Parafraseando a minha filha: ele fede, o vosso povo.

........
Em breve estes posts passarão de novo para o Diário de Bordos. Está quase. Ou dito de outro modo: já faltou mais.

22.6.14

Paradoxais paradoxos

Escolhi a solidão que me impuseste, recusei a liberdade que me deste.

Diário de Bordos - São Luís, Maranhão, Brasil, 21-06-2014

Eu sei que sou de direita, liberal sem prefixos ou sufixos e não tenho portanto o direito de me indignar com isto. Mas hoje vi uma senhora, velhota, de cócoras na saída do esgoto. Parecia uma versão triste do Happy Days. Só que ali ela não tinha audiência, ninguém ao lado, nem uma sombrinha. Estava meio nua, de cócoras, quase imóvel, à saída de um dos principais esgotos da cidade.

Era horrível de ver, aterrador. Até onde pode chegar a miséria?

Estava agachada, água pela cintura.  Não percebi se se lavava ou se fazia cocó.  Não percebi nada, na verdade. Há coisas que não se percebem. Uma senhora de cócoras à saída de um esgoto infecto é a uma delas.

(Só espero que os esquerdistas que lêem isto me perdoem a incursão pelas terras deles. Foi sem querer).

O Brasil é um país de contrastes. Todos o sabemos.

Quero que os contrastes se fodam.

20.6.14

Diário de Bordos - São Luís, Maranhão, Brasil, 20-06-2014

Finalmente em S. Luís. Foi até ao último minuto: em Brasília quase falhava a ligação para aqui por causa de uma multa que tinha de pagar (estive noventa e três dias no Brasil em vez dos noventa a que tinha direito, da última vez que aqui estive). Quase quatro horas no escritório da polícia federal por causa de vinte e cinco reais. Havia um problema com o código de barras e não se conseguia fazer o pagamento nos ATM. Finalmente alguém se lembrou de o fazer via net. Estou grato a uma senhora chamada Carolina, de onde saiu a massa. E à funcionária de TAM que já tinha anulado a minha reserva e conseguiu repô-la. E ao senhor que ao fim de três horas me foi buscar comida, estava a morrer de fome.

Enfim, é sempre bom vermos países onde a burocracia é mais estúpida do que em Portugal - ajuda-nos a relativizar as coisas.

Tal como as ruas, por exemplo. Cheguei às três da manhã. Chovia que metia nojo. As ruas estavam inundadas - coisa que se compreende facilmente, em S. Luís só chove oito meses por ano, não estão habituados. Estava tudo inundado.

O percurso para o Tamancão, onde fica o estaleiro, é pior. Parece um troço de treino para o Paris - Dakar. Como não gosto muito de ar condicionado ando sempre com as janelas abertas, e volta e meia um cheiro horrível, uma mistura de esgoto e de carne putrefacta entra pelo carro dentro e faz-me pensar que tenho sorte. Não enjoo.

Enfim, cheguei à Pousada e fiquei  dormir no edifício principal porque não me apetecia molhar-me mais do que já estava. Hoje de manhã acordei, fui ao estaleiro e depois ao centro comercial, duas vezes. Correu tudo bem. Tenho um número local.

Fui bem recebido pelas pessoas que se lembravam de mim. É muito infantil, eu sei, mas é verdade que gosto. O senhor que me vende a castanha de caju lamentou a minha ausência, apesar de lhe comprar uma quantidade ridícula, para aquilo que ele vende. Fez-me uma grande festa, uma cara triste quando me falou de Portugal. respondi-lhe que já estamos a sair da crise, mas não era a isso que ele se referia. era ao futebol.

O único problema que Portugal tem neste momento são os quatro a zero que levou já não sei de quem. abençoado país. (E isto não vem só do senhor do caju, que é português, ou ex-português, ou quase, ou assim).

A Lenny da tasca (perdão, restaurante bar) Tia Amélia, no mercado também fez um grande sorriso quando me viu. Continua a usar soutiens dois números abaixo do que devia. Cada vez que me traz uma cerveja penso no que se passaria se as mamas fizessem aquilo que querem fazer e explodissem. Aposto que o mercado todo ficaria coberto de bocadinhos de mama. A Rosa (filha da Tia Amélia e patroa da Lenny) também me fez um bonito sorriso, deu-me as boas vindas, disse-me é bom vê-lo, mas olhe , não tenho molho picante, você ficou tanto tempo sem cá vir.

O mais efusivo de todos foi o Valmir, da pizzeria da pousada. Eu retribuo. Há dois anos tive de passar uma semana a comer aqui (é na pizzeria que escrevo este acrescento) e fiquei fan. Se não fosse o écran à escala um por um e o altifalante mesmo ao lado da minha mesa estaria feliz (lá fora festejam o S. João. A cacofonia continua igual).

Até o moto-táxi me reconheceu, e não era dos que apanhava mais vezes.

........
Hoje vi o barco. tirei um monte de fotografias com o tablet. O desafio é ainda maior do que eu pensava.

É bom estar de volta.

(Cont.)

19.6.14

Mulheres, mundo

O mundo cheio de mulheres bonitas, e eu fora do mundo.

Take Another Plane, ou As alegrias das empresas públicas

Terça-feira o aviao voltou para trás porque a TAP nao qui correr o risco de ter o aparelho imobilizado em Brasília até ao fim do campeonato de futebol. Parece-me bem.

Terça-feira uma funcionária de TAP telefonou-me às onze da noite para me dizer a nova hora do voo, mas tinha-se esquecido do voo de ligaçao. Acontece.

Quarta-feira a senhora da TAP disse-me simpaticamente que afinal o voo era amanha (nao dissse porque, mas obviamente foi devido ao facto incontestavel de os voos internos no Brasil estarem cheios) e fez-me logo um cartao de embarque para o dia seguinte. Foi chato ter ido para o aeroporto às seis da manha, mas pelo menos a senhora foi eficaz e competente. A colega da véspera podia evidentemente ter-me enviado um SMS a avisar-me, mas enfim. Acontece.

Quinta-feira chego ao aeroporto e vou ao check in para mudar o lugar que a senhora me tinha dado na véspera. A mudança foi rápida e eficaz. Passei a segurança e vou para a área de embarque.

O voo deixou de ser às 09;35 e passou para as 15;30.

Três perguntas:
a) A TAP tinha o meu número de telefone desde terça-feira. Nao teria sido possível avisar-me da mudança de hora?

Vamos aceitar que nao sabiam. Ok.

b) A senhora do check in de hoje de manha nao podia ter-me avisado de que o voo estava atrasado e que eu devia voltar às duas e meia, em vez de me deixar entrar para a zona de segurança? Nao sei. Talvez a TAP tenha esperança ou informaçao de que o voo pode partir ais cedo. Duvido, mas nao é impossível.

c) Nao estará na altura de privatizar a TAP e a transformar numa low cost? Sim. Já. Nem a Ryanair teria mostrado tanto desprezo e falta de competência.

18.6.14

Empréstimos, oxímoros

Há dias mais bonitos do que outros. Hoje foi um deles. Consegui comprar uma caneta de tinta permanente e ir buscar a minha mochila verde.

Estou de empréstimo em Lisboa; na verdade, estou sempre de empréstimo em todo o lado.

Por isso é que paisagens familiares me soa sempre como se fosse um oxímoro. E não é; ou pelo menos não devia ser.

Como se

Sempre admirei as feministas e os masculinistas e toda a gente que pensa que a mente é uma coisa diferente, independente do corpo.

Como se o cérebro fosse feito de matéria diferente, tivesse uma origem divina, distinta da do resto do corpo, tão suja.

Retratos implausíveis

A senhora tem as pernas curtas e gordas de mais. Está de óculos escuros no metro. Bem vestida, pelo menos para quem como eu percebe pouco de vestimentas. Fala bem - disso percebo. Sei distinguir o vocabulário de uma peixeira do de uma secretária de administração, que é o que esta deve ser.

Fala muito bem; e no meio da conversa diz Qua ganda tanga. E depois continua a falar muito bem.

Mães, idades

Nunca liguei muito à idade, seja minha, seja dos outros seja das mulheres. O único problema que vejo nas mulheres da minha idade é que podiam todas ser minhas mães. E mãe há só uma.

Diário de Bordos - Lisboa, Portugal, 18-06-2014

Há coisas que nascem tortas, e por mais que se faça ficam inquinadas até ao fim. Esta viagem para São Luís é uma dessas coisas. Ontem, ao fim de quatro horas de voo o avião voltou para trás, por razões técnicas. Eu estava sentado à altura das asas e ouvi realmente um barulho no motor, uma espécie de pancada. Pouco depois fazíamos meia-volta, rumo a Lisboa. Quase oito horas no ar para nada. (Ou seja, já nem estar "sentado no avião, portas fechadas e cabo de energia desligado" chega).

Às onze da noite uma funcionária da TAP ligou-me a avisar que o voo era às oito da manhã, e que eu devia estar no aeroporto às seis.

- E a ligação Brasília - São Luís?
- Ah, desculpe, isso ainda não fiz. Vou fazê-la agora e depois telefono a dizer-lhe.
- Minha senhora, não me telefone, por favor. Faça a reserva e amanhã eu saberei.

Hoje chego ao aeroporto e afinal o voo é para amanhã, dois dias depois da data prevista. Provavelmente por causa da ligação interna. Os voos no Brasil estão cheios, claro, por causa de um campeonato de futebol. Mas a senhora podia ter enviado um SMS a prevenir, não? Não sei. Provavelmente não.

A verdade é que hoje lá passei mais uma hora e meia na loja da TAP a ver se havia alternativas e não há; vou amanhã. O desinteresse e a falta de empatia da senhora que me atendeu ao balcão da loja da TAP no aeroporto mereciam uma medalha, um filme, um monumento. Dois dias de atraso - os dois dias que eu queria ter em Lisboa acabaram por chegar, por portas e vias travessas. Ou um, pelo menos, que o de ontem foi passado no ar.

Reconheçamos: ter de acordar duas vezes às seis da manhã para nada é um preço ligeiro para mais um dia em Lisboa. Mas a verdade é que não consigo deixar de me chatear. Não vou para São Luís de férias, e quanto mais depressa aquele barco estiver pronto melhor.

Já estou em São Luís, na verdade. E Lisboa assim não é Lisboa, é só metade. Lis.

Quase provérbios

Quem vê mamas não vê cabeças.

16.6.14

Diário de Bordos - Lisboa, Portugal, 15-06-2014

Estou de saída outra vez, de novo para São Luís. Só acredito quando estiver sentado no avião, portas fechadas e cabo de energia desligado. Até lá não se sabe.

Algumas coisas mudaram: o meu peso, por exemplo. O coiso no sangue. Outras estão na mesma: os dentes - abençoada água oxigenada -, a vontade de voltar para Lisboa (ou pelo menos Portugal). Bebi rios de vinho e tanto café que não sei como consigo dormir todas as noites, comi toneladas de torradas com manteiga, vi amigas e amigos, família e pessoas que conheço, gente que aprecio e gente que me é indiferente. Comi sardinhas, bacalhau, alheiras, chouriço e todos os tipos de enchidos, lancei um projecto que me é querido e penso noutros para quando regressar. Talvez a pertença seja isso. Espero que sim. Mais de um mês em Lisboa chega para me fazer ver que nunca serei verdadeiramente daqui. Nem de lado nenhum. Começo finalmente a estar em paz com isso. É como viver com um amor não correspondido, ou com uma doença crónica: só nos chateiam quando nos lembramos (desde que a doença crónica não seja um tinnitus, claro).

Portugal permite-me misturar as três coisas de que gosto: o mar, a cultura e a gastronomia. É isso a pertença: poder ser o que somos. Finalmente, ia acrescentar. Mas não seria justo: vem no tempo certo.

Ou virá, ainda não cheguei. Mas pela primeira vez em muito tempo saio de Portugal  a pensar no dia em que regressarei.

14.6.14

Frango para ti

A noite é de sardinhada, mas como há alguns não-apreciadores fiz um frango também. Ainda não está pronto, mas tudo indica que vai ficar comestível.

Comecei refogar em azeite e óleo de palma cebola, chouriço mouro e meia-dúzia de alhos pequenos en chemise. Na frigideira do lado fritei o frango numa mistura semelhante de azeite e óleo de palma, isto é um frango tou aqui tou ali.

Quando o frango estava quase frito flambeei-o em brandy e pu-lo na panela, por sinal de barro, onde o chouriço, a cebola já transparente e alho quase nu o esperavam.

Um pouco de vinho tinto e água para cobrir; um splash de vinagre balsâmico; deixei cozer. Depois juntei grelos, um bom meio molho; e batatas cortadas em metades.

Tudo aquilo coze na paz do senhor, ou da senhora, ou na tua, se é que a encontraste.


Especiarias: paprika, rosmaninho, orégãos, noz moscada (por ordem decrescente de quantidade).

Pálpebras, olhos

Há pessoas que não conseguem dormir com luz. Têm de fechar os estores, correr as cortinas, fechar as portas para adormecer. Pergunto-me se terão pálpebras? Ou têm e são transparentes, as pálpebras dessas pessoas? Não sei. Acho curioso. Os olhos vêm equipados com mecanismos para a luz não entrar, mecanismos bons, testados por centenas de milhares de anos. E trazem pestanas, tão bonitas quando são grandes como as tuas.

As pálpebras são muito boas, muito eficazes. Mas eu detesto-as: não me deixam ver os teus olhos.

A rua, de mãos dadas

Vamos de mão dada pela rua fora. Mas a rua muda. Nós não. A rua. Alarga-se, estreita-se convoluta-se, volta para a frente e para trás como se nós, tu e eu, fôssemos nada.

Talvez sejamos nada, quem sabe? E a rua saiba mais do que nós.

12.6.14

Devagar

Faz devagar tudo o que podes, e depressa o que se deve fazer depressa. São poucas, as coisas que se devem fazer depressa: bater, por exemplo. Amar. Um bife. Tudo o mais se faz devagar. Cozinhar. Foder. Ler. Escrever. Fotografar. Viver. Dormir.

Deixa a carne marinar devagar. A inquietude, o desassossego, a dúvida. Que o tempo passe por ti sem se atardar e sem se apressar.

Vive muito, mas devagar. Como se a vida fosse um vinho bom, que insiste em permanecer no palato o tempo que lhe apraz. Como o corpo que amas no silêncio. Ama devagar. Espera devagar. Espera.

Devagar.

[Mas não deixes a carne queimar, porra.]

11.6.14

Deserto

O sol deixa marcas no deserto.
Indeléveis.
O sol queima a areia do deserto.

O sol é a vida e a morte no deserto.


O deserto atravessa-se a pé, lentamente.
É preciso sair queimado do deserto.
Lentamente, desfeito, em ossos.

Só os ossos resistem ao sol do deserto.

10.6.14

Dogmas, doxas e climas

Os mais velhos de entre nós (ou seja, provavelmente quem tem mais de cinquenta anos) ainda se lembram dos tempos em que o clima era estável e o comunismo ia salvar o mundo. Como os coitados dos comunistas se ficaram pela fome, miséria e assassinatos em massa foi preciso arranjar outra coisa.

Essoutra coisa são as mudanças climáticas. Os bons, agora, podem tentar lixar toda a gente e mostrar que são bons, que estão do lado bom da barricada, são sensíveis, atentos às desgraças do mundo e não querem beneficiar do que este mundo lhes dá sem um pouco de má-consciência, essa irritante e ineficaz forma de retribuição; só têm de invocar duas palavras mágicas: mudanças climáticas.

Convenhamos que é mais simples do que luta de classes, que tinha três palavras. Ou proletários de todo o mundo, uni-vos (oito palavras, das quais uma é um pentassílabo - enfim para os que não acreditam em ditongos crescentes, mas isto é mais um divertimento post-prandial de boa sociedade, não é? - Para quem acha esses ditongos ditongos como os outros é um tetrassílabo, o que de qualquer forma continuava a ser complicado para os bons que esperavam por coisas simples como o homem novo ou criam nas virtudes regeneradoras do Gulag).

Vivam portanto as mudanças climáticas. Chateiam toda a gente, mas - pelo menos até ver - ainda não mataram ninguém.

(Se bem eu preferisse de longe que à morte do comunismo não tivesse sucedido outro dogma. Mas isso seria pedir de mais. On n'avance pas vers la vérité, on change de dogme, c'est tout).

Lombo de porco com tapenade

Começa-se por se fazer uma meia tapenade - sem anchovas e sem alcaparras (por decisão das ditas, que não compareceram à chamada) - e com ela barra-se um lombo de porco numa travessa de ir ao forno; a qual se enche, uma vez nela a carne, de vinho branco (Dão, neste caso). Por cima da tapenade - carreguei um bocadinho no brandy para compensar a falta de anchovas - pus alecrim, cortado em bocados pequeninos.

Deixa-se marinar o que se puder - hoje meia hora, amanhã uma noite, quem sabe? - e leva-se ao forno. Hoje quarenta minutos com o forno a 200º, amanhã uma tarde inteira com ele a 60º. Quem sabe? Quem sabe?

Eu por mim pessoalmente gostei bastante. Mas muito mais importante: os dois pequenos super-críticos gastronómicos que gentilmente me acolhem na sua (deles) casa também.

(O cânone aconselha quem o lê a misturar um ovo na tapenade quando ela vai servir para isto. Eu sempre fui mais de nikons).

Húbris

Dos pecados capitais, o pior é a soberba: é aquele ao qual se sucumbe mais facilmente, e o único que nos traz o inferno em vida.

7.6.14

Under the volcano

"Adiós," she added in Spanish, "I have no house, only a shadow. But whenever you are in need of a shadow, my shadow is yours."

Teias, poços

A teia de amores que foram e serão e poderiam e deveriam ter sido; a de afectos idem; a teia de ternuras, de gestos, carícias. Idem.

O poço sem fim dos olhares que se perderam, das mãos que se falharam, das peles que se desencontraram. Dos olhos que não viram, não te viram.

Razões para amar a vida

Nunca diz não, não tens dores de cabeça, não está com o período, não tem dúvidas sobre nós ou o nosso futuro ou o futuro da nossa relação, não quer ter filhos, não quer não ter filhos, não está cansada, exausta ou de regresso de uma viagem, não se acha velha ou nova ou feia ou bonita, não nos acha insistentes ou longínquos ou indiferentes ou pesados, não acha que estamos a ir demasiado depressa ou demasiado devagar, não tem ciúmes, não quer ler, e - sobretudo - sabe sempre qual a música que devemos ouvir.

(Para a Nike, com um beijo).

6.6.14

Devoto

A minha devoção à água oxigenada cresce a cada dia (seguinte ao que me esqueço dela).

Em aberto

Uma poderosa ferramenta nas relações humanas - todas, sejam elas quais forem - é uma frase simples, composta como todas as frases simples por sujeito, predicado e complemento directo. A sua eficácia não tem comparação com a sua simplicidade. Consegue mesmo ser mais eficaz do que amo-te, por exemplo  (não é difícil, eu sei. Quase todas são).

É um utensílio mágico mas muito pouco utilizado (em todo o lado, não é só em Portugal). Alguém me pode dizer qual é essa frase? Oiço-a tão pouco que se me escapou da memória.


Écoute l'eunuque

Faut faire come l'aveugle qui dit à sa femme voyons voir: parler remplace aisément l'acte. Écoute l'eunuque, si t'en doutes.

Le poids du vide

Vide oui, mais lourd; salaud de vide. Y en a point comme lui, ce vide qui me remplit. Et me noie, m'asfixie, m'arrache les couilles, me les vide.

Parenthèses, guillemets

Plein de parenthèses, partout. Le corps, je veux dire. La tête. Partout. Faudrait bien qu'ils sortent, un jour. Oui, je sais bien, je t'ai dit que tu étais une parenthèse dans ma vie. Je ne l'oublierai jamais, moi non plus. Certains jours je ne suis pas con; mais il sont rares, ces jours-là. Maintenant j'ai la tête remplie de parenthèses, le corps, tu es loin et ces putains de parenthèses ne me lâchent pas.

Rien ne me lâche, d'ailleurs. Les virgules, les points de suspension, les interrogations. Et les guillemets, putains de guillemets. Une vie entre guillemets. Très peu de points d'exclamation, au moins. Enfin, peut-être faudrait-il en avoir davantage, non?

Sais pas. M'en fous, d'ailleurs. Point de je. Je ne suis pas. Parenthèses, guillemets. Et le vide au milieu.

5.6.14

Lisboa

Ganhei peso. Imagino como anda o coiso no sangue.  Lisboa é óptima para o cavalo e péssima para a cavalariça.

Paradoxos, bagagem, tracinhos-te.

Cada conjunto hífen - pronome reflexo anula e invalida o anterior mas não o apaga, nem o elimina.

Diálogos imaginários

- Agora vê lá, não me deixes pendurado no amor como um macaco num ramo.
- Se não fizeres de macaco eu não faço de árvore.

4.6.14

A Lancheira

Fui ver A Lancheira, um esplêndido filme indiano. É um filme epistolar: duas pessoas que não se conhecem apaixonam-se devido aos bilhetes que trocam numa lancheira enviada a uma delas por engano.

Lembrei-me da Casa e do Mundo, um romance epistolar do qual Satyajit Ray fez um filme "normal" (isto é, não epistolar) e cuja história tem alguns pontos de contacto.

A Lancheira é um filme bonito, um encontro de duas solidões numa Bombaim sobrepopulada. O tema preocupa-me há muito tempo: o que amamos em quem amamos? Uma história de amor pode começar com um almoço melhor do que o habitual e acabar com uma fuga para o Butão, mesmo antes de as pessoas se encontarem fisicamente?

A minha resposta é sim, pode. Mas aconselho o filme, para verem se está correcta.

2.6.14

Coisas da vida

Ritmos, simetria e luz.

Lisboa - últimos dias, 2

No céu cirrus, nas ruas jacarandás e no ar calor.

1.6.14

Onde estou

Pertenço a um grupo de pessoas a quem não é indiscrição perguntar "onde estás?"

Vidas, dias

A vida de família é muito boa, se não for todos os dias. A vida no mar também, se tão-pouco (mas menos) for todos os dias; a vida contigo é boa, se não for todos os dias.

Todos as vidas são boas, se não forem todos os dias.