20.8.14

Se te queres matar...

"Se te queres matar porque não te queres matar? " pergunta Álvaro de Campos, lúcido, cínico e brutal como sempre.

Há várias razões. Matar-se é complicado,  a menos que se disponha de uma arma de fogo (cerca de dois terços das tentativas de suicídio falham, e não é por serem fingidas).

Deixar-se morrer é mais fácil.  Ou matar-se com prazer, como fazem os toxicómanos.

E depois há uma pergunta importante: que farei da morte, se nada fiz da vida?

O cancro e a lotaria

Descubro agora - porque mo disseram clara, explícita e frontalmente - que corro sérios riscos de desenvolver um cancro da pele. Assim para começar eu queria que o cancro fosse apanhar onde apanham as galinhas e não me chateasse nem me obrigasse a usar creme anti-UV e o raio que o parta.

Mas a verdadeira questão não é essa. É: há alguma parte do corpo que não esteja sujeita a cancro? De que me serve proteger-me a pele do cancro se ele amanhã aparece nos joelhos, por exemplo? Ou no baço? Ou no céu da boca,  particularmente chato para quem gosta tanto de falar?

Isto do cancro é como sermos amados pela mulher que amamos; ou a lotaria: perdemos cada vez que amamos, ou jogamos.

Homofonias

Cozinha todos os dias como se amasses pela primeira vez; ou pela milésima a mulher que amas realmente. Cozinha devagar, muito devagar; excepto quando é urgente que seja rápido. Toca em todos os ingredientes e mistura-os se for preciso. Mas só se for preciso. Se não for mantêm-os separados até que o momento chegue de uni-los.

Aquece-os todos - uns primeiro e outros depois - junta-lhes um bocadinho de amargo, muito pouco; ou de picante, se tu e a comida preferirem.

Não sigas receitas: inventa-as todos os dias, porque nada mata uma cozinha mais do que a repetição. Olha para o que estás a fazer, mexe e remexe, cheira e prova. E ouve: é importante ouvir o que a panela te diz. Pensa; como o amor, a cozinha é uma actividade intelectual.

Acompanha sempre que puderes com um copo de bom vinho, uma boa música (Miles Davis, Keith Jarrett, Sonny Rollins, Ben Webster, Hildegarde von Bingen às vezes, Coltrane, sempre, Glenn Gould, ou God Bless the Child na versão do Eric Dolphy, o melhor solo do mundo e arredores).

E ama. Como paradizia o outro, Põe amor em tudo quanto fazes; nada de teu desama ou ama em demasia.

Não sirvas quando estiver pronto, mas quando tu estiveres pronto.

19.8.14

Cicatrizes


São precisos e preciosos os labirintos, como as cicatrizes.

Mais coisas, continuação e fim

Não podemos contudo esquecer-nos de que as coisas passam, ainda que as contemos até ao infinito. O infinito é um labirinto no qual as coisas se perdem, se não formos nós a perdê-las. São precisos mais infinitos, mais labirintos.

Mais coisas. Mais palavras. Mais emoções.

Telefoto - Raposa, MA, Brasil


Mais coisas

Imaginemos uma nuvem que ora parece uma cafeteira ora um cavalo pronto a saltar ora uma praia cheia de conchas; pensemos num rio que corta em dois uma planície. Digamos um louva-a-deus, para dizer qualquer coisa.

Ou dois. Assim dizemos mais coisas.

Telefoto - Em geral


Telefotos





Naïvetés

É injusto - mais uma injustiça, oh horror - que se aceite com condescedência e ou deleite a pintura naïve mas não a poesia.

Diálogos impossíveis

Há pessoas com quem falar é como pôr um cego a conversar com um mudo.

17.8.14

Descobertas tardias

Nada a fazer. O verbo foder vem com um pronome reflexo amarrado por um hífen.

O fundo das palavras

Brinco com as palavras como com os teus seios. Não. Brinco com as palavras como com as tuas mamas.  Não. Brinco com as palavras como contigo. Enchem-me seios e palavras e tu, uma pele como a página na qual te escrevo e escrevendo me escrevo, escravo de corpos e livre de alma, fundeado no futuro e atracado ao passado.

És uma baía e nela fundeei um dia, uma vida. O ferro são as palavras todas que juntos encontramos, e o que delas fazemos cada dia.

Diário de Bordos - S. Luís, Maranhão, Brasil, 17-08-2014

Ontem foi dia de a poesia ocupar a cidade, de novo. São os meus momentos favoritos em S. Luís. Pensava como replicar isto noutros sítios? É replicável? Como seria, ler poesia no Rossio às seis da tarde de um sábado? Ou no Castelo? ou no Cais das Colunas?

E noutros países? Em Panamá seria impossível; ditto em St. John (Antigua), ou qualquer outra cidade das Caraíbas. Hummm... Não, em Fort-de-France (Martinique) funcionaria. Em St. George's Town (Grenada) também. Em Bequia não haveria ninguém, mas seria lindo.

Poesia,  Celso, vamos ocupar o Mundo?

Enfim, não é só poesia. Li o começo da Peregrinação, houve quem tocasse música, cantasse rap. E saio de cada sessão com livros oferecidos.

E com uma maravilhosa sensação de pertença. Qualquer dia sou ludovicense (já gosto tanto da palavra que gostar da coisa é um passo).

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Ao contrário do que muita gente pensa sempre tratei bem de mim. Comi bem (enfim, nem sempre, mas isso é outra história); bebi bem (no sentido de muito; no outro, aplica-se o proviso anterior). Não tomei demasiadas drogas (e quando tomava parei cedo). Não fumei durante muito tempo. Numa palavra, uma vida regrada, sem excessos se a tomarmos no seu conjunto.

Mas o raio da cavalariça agora quer outro tipo de cuidados. Em vez de ouvir os meus amigos donos de bares (não consigo lembrar-me de um dono de bar que não seja meu amigo. E de restaurantes também, de passagem se diga) ouve os médicos nos quais gasto o dinheiro que devia ser gasto em coisas melhores, como as cachaças do Xico ou da tia Dica, as cervejas da tia Rosa ou os maravilhosos nacos de carne do Oak.

A última com que me veio é que preciso de começar a usar creme solar, daqueles com que as pessoas se besuntam quando vão à praia ou mal entram num barco. Nunca usei até agora e confesso que me foi mais fácil deixar de ir tomar as minhas cervejas ao mercado da Praia Grande do que é imaginar-me coberto daquela coisa branca, pegajosa, mal-cheirosa e em geral desagradável.

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A minha integração linguísta também faz alguns progressos. Continuo a falar português com o meu sotaque. Não há razão para mudar. Faço apenas - mas raramente - algumas concessões lexicais. Tirei rapariga do meu vocabulário. Pelo menos daquela parte dele que exprimo oralmente. Há pessoas a quem sei que se disser casa de banho acabarei a dizer banheiro; ou café da manhã em vez de pequeno almoço. A essas vou directamente à forma local.

No fundo estou contente: quando por exemplo penso em rapariga tenho muito mais com que me entreter. Mesmo que não o diga. E tenho bastantes palavras novas com as quais brincar.

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Em Outubro há eleições. Uma das formas favoritas de publicidade eleitoral é o "som automotivo": automóveis (e bicicletas e motas e camiões. A única coisa que ainda não vi foi carroças) equipadas com altifalantes capazes de acordar quem dorme em coma alcoólico nos antípodas.

É mais uma fonte de ruído a juntar-se às já existentes, tantas. Tenho pena de não poder votar: votaria no único candidato - deve haver um, pelo menos, no meio destes milhares de candidatos (todas as eleições são simultâneas, desde as autárquicas às presidenciais) - que não tenha dinheiro para fazer barulho. Um só.

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De entre as boas decisões do últimos decénios está a de me mudar das Portas da Amazónia para a casa do Frank. Para além de poder cozinhar - não imaginava que me fizesse tanta falta e tanto bem - passo horas a falar com Frank de barcos. Teve uma quantidade impressionante deles, cada um mais bonito do que o outro.

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Mar, cozinha e livros. Podia ser pior.

Receita improvisada - Frango com beringelas

Comecei por começar: marinar o frango em limão, sal, alho e louro. Ficou uma hora ou duas. (Infelizmente o barulho é de mais e demasiado mau e não me permite grandes rasgos). E continuei pelo começo: cortar a beringela às fatias e pô-las num passador com sal grosso para perderem a água. Meia hora.

Refoguei uma cebola, dois pimentos pequenos daqueles deliciosos (mas não tão bons como os do Panamá) e alho com casca, juntei-lhe a beringela passada por água abundante e cortada aos bocados.

Depois foi o frango com um bocadinho de vinho tinto, não muito que era bom.

Quando aquilo estava tudo mais ou menos misturado e a cheirar bem pus um frasco grande de azeitonas cortadas às rodelas e o sumo da marinada (era muito, os limões são sumarentos. E deliciosos).

Depois foi cobrir de água, pôr a paprika, os cominhos, um bocadinho de cravo, orégãos e pimenta.

Isto tudo ontem. Da panela foi para o frigorífico e de lá só hoje saiu.

Estava delicioso, modéstia às malvas. A refazer até ao fim das beringelas, dos tempos ou de outra coisa qualquer.

14.8.14

The opposite of depression is not happiness, but vitality



13.8.14

Peça no deserto

As cortinas fecharam-se, as luzes apagaram-se, o palco ficou vazio. A ponte ruíu. Sem palavras, um esqueleto avança no deserto. Ninguém o vê,  ninguém o ouve.

Gosto do deserto. O calor,  a areia escaldante,  a solidão. Todas as mortes deviam ser no deserto,  para lá das pontes caídas, das vidas vazias, ao sol e ao vento.

A areia cobre as cadeiras de onde assistimos às últimas cenas, as mais cómicas. Ou ridículas. Ou patéticas. As linhas que as separam são ténues,  quase invisíveis de tão finas.

O esqueleto ri-se e cai. Nunca mais se levantará. Na plateia ouvem-se solitárias palmas. Alguém ficara para trás.

O vento, a areia, o sol e um riso meio triste meio trocista. A peça acaba como começou. Um esqueleto que ninguém vê, um incêndio,  pontes de palavras a cair aos bocados.

Ninguém fala. Nas ruínas o sol ilumina as frinchas pelas quais sai a mentira e entra o silêncio.

O vento, de novo.

Um murmúrio.  A morte. A distância amplia o que não se vê: o invisível aparece mais nítido.

No deserto há calor e frio. Há luz mas não há sombras. Há fogo mas não há água. Há solidão e silêncio e dor e verdade. Mas não há mentira.

Miscelânea de temas

Por uma razão qualquer que desconheço mas acho injusta, é-me mais fácil falar com um comunista ou nazi (passe a redundância) inteligentes do que com um, sei lá, liberal idiota. É uma pena - tem-me custado toneladas de maravilhosos amigos - mas é sobretudo injusto.

É injusto porque - como quem me conhece bem sabe - eu não sou um gajo particularmente inteligente (no que respeita à inteligência imagino-me na faixa baixa da mediania) nem muito culto (idem, mutatis mutandi).

Talvez seja por isso, na verdade: se fosse inteligente conseguiria decerto marimbar-me mais facilmente na patetice, na tolice et al. de outrém. Ser-me-ia tão fácil suportar um idiota útil como um inútil (prefiro estes últimos, naturalmente. É pior a energia aliada à estupidez do que o abulismo).

Isto dito, há uma coisa que suporto ainda menos do que a estupidez, que em grande parte partilho (a cacofonia é voluntária. Esta e as seguintes. São apenas para que quem não concorda comigo possa dizer que nem escrever sei): é a falta de respeito pelas palavras.

As palavras têm uma conotação e uma denotação. Que evoluem, naturalmente - quando eu digo maricas em vez de gay ou homossexual estou simplesmente de má-fé, direito que me assiste como a qualquer outro desde que dele esteja consciente -.

Dizer por exemplo que os israelitas fizeram um genocídio em Gaza - e dizê-lo no primeiro grau - não é simplesmente uma idiotice já de si difícil de suportar. Em Gaza vivem um milhão e oitocentas mil pessoas. Mil e duzentos mortos, dos quais metade pelo menos são combatentes é um horror, é o que se quiser. Mas não é um genocídio (isto ficando pelos números; não vale a pena entrar em pormenores sobre as causas e os métodos de luta de cada uma das partes. Se bem se devesse. Genocídio tem uma definição jurídica, que deve igualmente ser respeitada).

Porque se se pensar - ou, o mais da vezes, disser sem pensar - que em Gaza houve um genocídio, como chamar, por exemplo, ao que se passou no Rwanda em 1994 (oitocentas mil pessoas, incluindo crianças e mulheres, mortas à machetada em três meses. Três meses)? Como chamar ao que se passou na Arménia entre 1915 e 1917 (um milhão e meio de mortos)? Como chamar ao que se passou na Ucrânia em 1932 (quatro milhões de mortos à fome)? O Cambodja (dois milhões)?

É uma imperdoável, intolerável, insuportável falta de respeito. Pelas palavras e pelos mortos. E pela inteligênca, mas isso é outro debate. Do qual, infelizmente, não posso ser parte por falta da dita.

Adenda: além de que seria forçoso reconhecer a absoluta incompetência dos israelitas, se eles quisessem realmente praticar um genocídio. Bolas, os Hutus mataram quase trinta mil Tutsis por dia e com machetes. Nem armas de fogo tinham. Por que raio de carga de água os israelitas mataram tão poucos palestinianos apesar da desproporção de forças? Só pode ser incompetência. Ou então falta de genica, coitados.

12.8.14

TED Talks - Helen Fisher

Este é um daqueles TED Talks de que não me canso.




Amar, tempo

Ainda te amo. Não. Espera. Já te amo. Como posso ainda amar-te se não te conheço? Posso amar-te porque já te conheço. Sei que não precisas de mim para viver, foder, passear, ler, ir ao cinema. Não precisas, mas preferes, não é? Sei duas ou três coisas de ti. Sempe soube. E vou aprender outras, porque todos nós somos o que somos e o que seremos (e o que fomos, mas isso interessa pouco).

Não te conheço mas sei como és e por isso já te amo. Ainda te amo. Já não te amo. Já te amo. Não sei. O verbo amar não tem tempos. Só tem tempo.

Por que portos (quinquagésima milésima trigésima quarta versão)

Por que portos navegaste,
por que corpos?
Por que praias encalhaste,
por que ventres?

Em quantas línguas mentiste,
contra quantos ventos bolinaste,
a quantas tempestade aproaste,
de quantas fugiste?

Quantas mãos te acariciaram,
quantas vagas?
Quanto olhos te guiaram,
quantos faróis?

Quantos sóis observaste,
quantos seios?
Quantas rectas te situaram,
quantas pernas, braços...

Em quantas cartas traçaste rumos,
quantas peles?

Que nortes te esperam,
mortes, solidões?

11.8.14

Reedição - Pedro Tamen

"O mar é longe, mas somos nós o vento;
e a lembrança que tira, até ser ele,
é doutro e mesmo, é ar da tua boca
onde o silêncio pasce e a noite aceita.
Donde estás, que névoa me perturba
mais que não ver os olhos da manhã
com que tu mesma a vês e te convém?
Cabelos, dedos, sal e a longa pele,
onde se escondem a tua vida os dá;
e é com mãos solenes, fugitivas,
que te recolho viva e me concedo
a hora em que as ondas se confundem
e nada é necessário ao pé do mar."

"Não durmas, que há uma escada
Para uma noite maior.
Não morras, que há uma espada
Que mata com mais amor.

Pássaro de todos os ramos,
Ó minha esquina tão esquiva,
A verdade é que afirmamos
Pela dupla negativa.

Querer-te: não querer e não querer.
Não fugir: ouvir o vento.
Amar-te é nao me esquecer
Da minha casa e assento."

"Um filho como um verso: neste branco
do mundo, o universo. Nos cinco dedos
da mão todos os ventos, e a rosa
que os respira e dá, vertiginosos."

E, a terminar esta série de poemas, dedicados ao raio, um raio benigno, note-se, que também os há:

"Hoje trago-te o vento; eu sei
que mais não pode ser o que te der.
E calo-me; o resto já to dei,
ao teu sereno pasmo de mulher.

Hoje trago-te o vento, vento,
o que ele tem mudado para nós.
(O nosso passo antigo que era lento
juntou-nos de repente numa voz.)

Hoje trago-te o vento renovado,
o vento que de longe chegou cá:
em cada monte e esquina foi lavado

para chegar ao fundo do que há
nesta pobreza de hoje, e, cá chegado,
entrar na mão da carne que to dá."

"Nada a fazer, amor: tu és nascida
e eu também, por graça ou majestade;
de lados longe e de que portos parte
esta morte insolente e assumida
que se nos dá nos dando a maior parte
do pão que se mastiga e bruxo há-de,
além de miga, ser de vida a vida?"

"Só dos monstros devemos ter ciúmes ..."

Nuno Júdice - Para escrever o poema

O poeta quer escrever sobre um pássaro:
e o pássaro foge-lhe do verso.

O poeta quer escrever sobre a maçã:
e a maçã cai-lhe do ramo onde a pousou.

O poeta quer escrever sobre uma flor:
e a flor murcha no jarro da estrofe.

Então, o poeta faz uma gaiola de palavras
para o pássaro não fugir.

Então, o poeta chama pela serpente
para que ela convença Eva a morder a maçã.

Então, o poeta põe água na estrofe
para que a flor não murche.

Mas um pássaro não canta
quando o fecham na gaiola.

A serpente não sai da terra
porque Eva tem medo de serpentes.

E a água que devia manter viva a flor
escorre por entre os versos.

E quando o poeta pousou a caneta,
o pássaro começou a voar,
Eva correu por entre as macieiras
e todas as flores nasceram da terra.

O poeta voltou a pegar na caneta,
escreveu o que tinha visto,
e o poema ficou feito.

Nuno Júdice

Nuno Júdice - Braile

Leio o amor no livro
da tua pele; demoro-me em cada
sílaba, no sulco macio
das vogais, num breve obstáculo
de consoantes, em que os meus dedos
penetram, até chegarem
ao fundo dos sentidos. Desfolho
as páginas que o teu desejo me abre,
ouvindo o murmúrio de um roçar
de palavras que se
juntam, como corpos, no abraço
de cada frase. E chego ao fim
para voltar ao princípio, decorando
o que já sei, e é sempre novo
quando o leio na tua pele.

Nuno Júdice

Nuno Júdice - A tua ausência dói-me

Quero dizer-te uma coisa simples: a tua
ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não
magoa, que se limita à alma, mas que não deixa,
por isso, de deixar alguns sinais - um peso
nos olhos, no lugar da tua imagem, e
um vazio nas mãos, como se tuas mãos lhes
tivessem roubado o tacto. São estas as formas
do amor, podia dizer-te; e acrescentar que
as coisas simples também podem ser complicadas,
quando nos damos conta da diferença entre o sonho e a realidade.
Porém, é o sonho que me traz à tua memória; e a
realidade aproxima-te de ti, agora que
os dias correm mais depressa, e as palavras
ficam presas numa refração de instantes,
quando a tua voz me chama de dentro de
mim - e me faz responder-te uma coisa simples,
como dizer que a tua ausência me dói.

Nuno Júdice


Desabafo

O nível ao qual estes gajos ouvem música releva da doença mental, da idiotice patológica mais do que da falta de respeito, educação ou bom senso.

Maude - II

Já alguma se apaixonaram por alguém que à partida não tem nada em comum convosco? Nada em comum com vocês ou aquilo que procuram no outro? Foi isso que me aconteceu com ele.

Eu sempre gostei de artistas, de uma vida desorganizada, sem outras expectativas que não fossem criar, gozar, aprender, conhecer "pessoas interessantes" (as aspas são consequência destes dezasseis anos com ele, claro. O seu cepticismo contaminou-me. Pessoas interessantes só existem nas cabeças de pessoas que as têm vazias). Queria um homem ao meu lado sempre; pensava que as minhas ideias se transformariam milagrosamente em livros, contos, letras de canções, pinturas, fotografias.

Conheci-o num jantar. Era um jovem piloto com um sentido de humor demolidor, que defendia sozinho as suas ideias contra todos os presentes, educadamente, com um sorriso e uma resposta lapidar àquilo que visivelmente lhe parecia uma antologia de tonterias.

Não me lembro qual o tema de discussão desse primeiro jantar. A cena repetiu-se várias vezes, até ele se cansar e não falar se não do tempo e de aviões - duas coisas que, dizia, o apaixonavam. "Principalmente o tempo, a sua constante mudança, a sua imprevisibilidade" -.

Foi contra vontade que me apaixonei por ele. Era um homem decente, provavelmente o mais decente que jamais conheci. "Decente? Pior do que isso só ser cornudo", disse-me um dia. "Pensava que não te importavas com isso de ser cornudo". "Verdade. Nesse caso não há nada pior do que ser decente".

Mas sim, era um homem decente. Oferecia-me flores, trazia-me constantemente prendas - joalharia, roupa - das suas viagens, amava-me maravilhosamente e, sobretudo, nunca me fazia perguntas. Um dia fiz-lho notar, e respondeu "O que quiseres que eu saiba dizes; o que não queres, inventas".

Demorei muito tempo a habituar-me a essa liberdade. Nos primeiros anos da nossa vida comum - vivemos três anos juntos, antes de nos casarmos - só pensava em deixá-lo. E casei-me cheia de dúvidas. Nunca o tinha enganado - se bem enganar não seja o termo adequado -.

Um dia falámos no tema. Oh, muito por alto e indirectamente, de raspão, como se não fosse nada com ele, ou comigo. Nessa altura estávamos casados havia dois anos, se tanto. Mas tínhamos passado por muitas coisas juntos: uma separação curta e dolorosa para os dois, uma gravidez falhada para mim - que de resto me fez saber que nunca poderia vir a ter filhos e podia deixar a pílula - a morte da minha mãe, um acidente em que ele esteve envolvido e no qual poderia ter morrido.

É demasiado, para cinco anos de vida comum. Não precisava de um marido a dizer-me que podia fazer o que quisesse, desde que ele não soubesse. Um marido que naquele dia eu amava um pouco mais do que alguns anos antes; um marido ao qual pouco a pouco, devagar, me tinha habituado; que eu nunca tinha enganado. Porque viria ele agora com essa conversa, a propósito de um filme, ou de um livro, ou de uma coscuvilhice, não me lembro?

Mas aquilo não foi bem uma conversa. Foi mais uma informação, como se estivéssemos numa estação de comboios, ou de metro e um altifalante dissesse que o próximo comboio ia chegar atrasado, ou havia perturbações na linha.

Não me lembro do que lhe respondi.

A primeira vez que tive um caso foi uns largos meses depois. O meu marido - já conseguia usar esta expressão sem sentir um arrepio - estava fora, num voo para o Brasil. Encontrei António numa festa. Escrevia, tinha muita graça, não tinha um chavo, e era péssimo na cama.

Repararam que disse "tive um caso". Com António descobri duas coisas: a) não estava a enganar o homem que b) amava. Informações só superficialmente contraditórias. E com as quais vivo desde então.

Aprendera, finalmente, aquilo que o meu marido me dizia havia anos: não se deve misturar o amor com mais nada. Nem com o sexo, o casamento, a amizade, a vida quotidiana, o desejo, o que for. Amor é amor, e o resto é conversa, formalidades, prazer ou cumplicidade. Como a água, que se pode misturar com tudo mas só é boa quando é pura.

António é brusco na cama, vem-se depressa, parece que está a fazer amor sozinho. Pouco me importa: não é por falta de bom sexo que estou com ele.

É por não me faltar nada que estou com ele.

10.8.14

Diário de Bordos - S. Luís, Maranhão, Brasil, 10-08-2014

S. Luís ocupa-me, ocupa e é ocupada. Ontem, como todos os sábados foi dia de Cidade Ocupada: leituras públicas de poesia em locais relevantes da cidade. Relevantes de um ponto de vista da história, ou da literatura, ou do que seja. A minha primeira participação foi na praça onde viveu o Padre António Vieira. A melhor sessão inaugural possível.

Confesso que fiquei surpreendido tanto pela quantidade como pela qualidade das participações. A começar na jovem Clarisse, a filha de Celso, nove anos de idade e a acabar em qualquer dos outros, tive direito a quase duas horas de prazer puro.

Eu disse dois ou três poemas (humm... quatro!): um do Reinaldo Ferreira, dois de Fernando Pessoa e um haiku de Issa (e não Bashô, como erradamente indiquei). Dois "cordelistas" - um tipo de poesia narrativa, popular, rimada, com temas como a promessa não cumprida de um emprego, a compra de um computador ou conselhos para os políticos ganharem eleições (são em Outubro) - debitaram de memória uma quantidade prodigiosa de versos.

Lúcia Santos disse poemas deliciosos, sensuais e curtos, como "Por falar em futebol / venha jogar / sob meu lençol" ou "Tua língua em meu ouvido / Babel / onde tudo faz sentido"; ou menos sensuais, mas divertidos na mesma: "Cabeça de um homem / numa bandeja / toda mulher deseja". O Celso leu poemas dele e um excerto de um sermão de Vieira.

Para a próxima preparo-me melhor. Não é sequer uma promessa. É um privilégio.

........
Ontem fui fazer compras ao mercado primeiro; e depois ao supermercado. Algumas pessoas poderiam pensar que fui excessivo nas compras. Mas como não sei o que excessivo quer dizer não ligo muito.

O prazer de beber leite, por exemplo - é excessivo? E beber um bom café (enfim, sejamos honestos: menos mau)? Allah uAqbar. Excessivas são as mentes que sabem o que excesso é.

9.8.14

Diário de Bordos - S. Luís, Maranhão, Brasil, 09-08-2014

Tenho andado a tratar muito da cavalariça e pouco do cavalo. Ontem achei que era altura de mudança. Mandei o açúcar às urtigas e com ele a barriga, o peso, o cinto e tudo e fui jantar a um restaurante chamado Oak, do qual me tinham gabado a qualidade e os vinhos. Também me tinham prevenido que é caro, mas essa preocupação foi junto com as outras dar um passeio pelos campos.

Foi caro, foi bom, foi delicioso, foi excessivo, foi uma viagem de duas horas à Europa.

Tão bom foi que até a cavalariça agradeceu e hoje brindou-me com uma taxa de coiso baixíssima.

Infelizmente parece que o fígado se habituou ao novo regime com uma velocidade estonteante e a ressaca, coisa que em geral desconheço está severa.

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Outra mudança: deixei a Pousada Portas da Amazónia e vim para a Frank's House.

Frank é um marinheiro dinamarquês - marinheiro de vela, não da marinha mercante - que abriu esta pousada há meia dúzia de anos. Tem algumas desvantagens em relação à Portas da Amazónia e uma vantagem: posso cozinhar.

Hoje já fui ao mercado fazer as primeiras compras. Que bom é poder escolher a fruta que se vai comer, cheirá-la, antecipar quando estará madura. O mesmo com os legumes.

O mercado de S. Luís é grande e bonito. Vai ser bom lá ir regularmente.

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O primeiro jantar com leitura de excertos da Peregrinação vai ser em S. Luís. Não podia haver melhor teste.


8.8.14

Diário de Bordos - S. Luís, Maranhão, Brasil, 07-08-2014

À minha frente a lua, não muito alta, dois ou três dias depois do quarto crescente;  atrás,  o trompete de Davis. As ruas do Centro vazias, e uma cidade que com cenas destas se vai apoderando de mim.

Regressava do Chicodiscos, designação improvável do melhor bar onde até hoje estive em S. Luís. Não é bem um bar. É mais um clube só para amigos do Chico e - felizmente - amigos dos amigos. Fui lá pela mão amiga e generosa do Celso e da Andréa, abençoados sejam.

É o primeiro andar de um prédio do Centro: a primeira coisa que impressiona é o pé direito, altíssimo. A segunda,  imediatamente a seguir,  é que acabamos de entrar no quarto que gostaríamos de ter tido há uns anos: fotografias de filmes, actores,  músicos. Todas a preto e branco,  todas de filmes,  actores ou músicos que não só conhecemos como apreciamos. La Strada; Kubrik; Woody Allen; Morrison. Candeeiros daqueles de corda, esféricos. Música alta mas não aos berros, pode falar-se. E boa. Uma vasta escolha de cachaças. Pouca gente e toda conhecida - o bar é para amigos não é uma fórmula -.

Eu sabia que havia sítios assim em S. Luís.  Não há cidade no mundo que os não tenha. É preciso é encontrá-los.

Aqui há uns tempos contabilizei todas as cidades onde já vivi - viver sendo passar mais de três meses. Estão quase todas na Europa, em África, nas Américas Central e do Sul (e Nakhodka, claro, no Extremo-Oriente Russo, mas essa não conta inteiramente, apesar de lá ter passado quatro meses, porque vivia a bordo).

Vivi em muitos sítios em circunstâncias bastante diferentes, mas os mecanismos de apropriação são sempre os mesmos: não somos nós que nos apoderamos de uma cidade, é ela que se apodera de nós.

Sábado vou a uma leitura de poesia, organizada pelo Celso e pelo Bruno. Todos os sábados há uma, num local público e diferente. A próxima vai ser no local onde vivia António Vieira quando viveu em S. Luís. As cidades entram por nós assim: ínvias, sorrateiras.

E nós rendemo-nos a elas porque as cidades não existem. O que existe são as amizades que nelas fazemos. E os bares que os amigos nos fazem descobrir. E os amigos que os bares nos permitem conhecer.

6.8.14

Reedição - Sono

Fazes-me perder o sono, mulher; procuro-o na tua pele, no teu olhar, no interior das tuas coxas, no lado de trás dos teus joelhos, nas raízes dos teus cabelos, nas circunvalações das tuas orelhas, na regular sucessão de pequenas colinas do teu dorso, naquela planície sem fim que é o teu ventre. Procuro-o nos dedos dos teus pés, na coivara dos teus dedos, na superfície - tão leve, tão alegre - dos teus lábios.

Procuro-o na leveza, que é o teu verdadeiro nome. E quando o sono chega é leve, finalmente.

PS - a expressão "coivara dos dedos" é de um poema brasileiro cujo autor não recordo e que li há muitos anos na revista Nova, da qual só saiu um exemplar, infelizmente. "Coivara" quer dizer incêndio. É uma palavra bonita. Como um incêndio, ou alguns dedos. Nem todos os dicionários a registam.

Diário de Bordos - S. Luís, Maranhão, Brasil, 06-08-2014

Um gajo sabe que algo está errado quando um centro comercial lhe aparece como o sítio ideal para passear e descontrair. Verdade que à hora que lá vou tem pouquíssima gente; mas isso não explica tudo.

E muito menos quando penso que comprei duas ou três coisas das quais tinha mediana necessidade. Bem sei que mediana necessidade para mim é uma urgência para muitos. Mas costumo dirigir-me mais pelo que eu penso do que pelo que os outros fazem. E hoje apanhei-me em plena retail therapy no Shopping São Luís, com a frágil e instável desculpa de que queria comprar uma peça de fruta e não me apetecia voltar para a Praia Grande (designação que um amigo querido me diz preferível a Reviver. A política local interessa-me medianamente - sou de onde estou, com a notória excepção de Antigua, país por cuja política nunca me consegui interessar, nem pouco nem muito - mas a amizade é um valor, e faço como me dizem).

São Luís não é muito agradável para passar tanto tempo. Mas aos poucos vou-me habituando, e fazendo amigos e apreendendo a cidade.

Ontem fui ao teatro. Uma peça sobre Jean Genet. Fiquei admirado com duas coisas: a qualidade técnica da dramaturgia (não foi uma surpresa, mas é sempre agradável) e o quão datado Genet me apareceu. a sua qualidade poética mantém-se; as militâncias - tanto a homossexual como a da abjecção - perderam o sentido.

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Mudei drasticamente o meu regime alimentar, e hoje descobri que já quase posso apertar o cinto mais um buraco. Não fico muito surpreendido por conseguir apertar o cinto, mas sim pela facilidade com que mudei de dieta - basicamente comer metade do que comia, cortar completamente os hidratos de carbono e beber exponencialmente menos -. E já lá vão duas semanas.

O pior é que depois vou precisar de comprar roupa.

Maude - I

Ontem fui almoçar com Maude e o seu namorado. Maude é a minha mulher. Somos casados há dezasseis anos. O rapaz é bastante mais novo do que nós. Ela tem quarenta e três e eu mais dois. Ele deve ter vinte e poucos. É pintor e expõe as obras no metro. Aparentemente foi assim que se conheceram. Maude sempre gostou de arte e de artistas. Ignoro o que a levou a casar-se com um piloto de aviões.

Gostei do rapaz. Tem o olhar mortiço e profundo dos criadores que criam e fala igualmente devagar, como se cada frase fosse um marco na sabedoria da humanidade e devesse ficar registada. Chama-se Jules, ou Julien, não me lembro bem. Tenho uma péssima memória para nomes. Talvez seja desinteresse, no fundo. Não sei.

Fomos almoçar a uma daquelas esplanadas do Campo Pequeno. Maude levava os seus óculos escuros redondos, que lhe cobrem metade da face e a tornam parecida com Janis Joplin. O rapaz ia com o uniforme de artista. Falou pouco. Eu estava com a farda de voo - tinha acabado de chegar e  achei pena trocar de roupa. Assim sempre dei ao moço mais uma razão para se rir de mim. Os artistas não gostam de fardas. Excepto as deles, claro, mas este ainda é demasiado jovem para saber que está fardado. Pensa que está vestido -.

Ele não sabe que eu sei. Maude sabe, mas apenas porque Maude sabe tudo o que eu sei. Nunca falamos nos seus amantes. Nem nas minhas, mas são muito menos do que os dela. Enfim, imagino. Não os conheço todos. Desta vez aceitei ir almoçar porque Maude comprou uma ou duas telas ao rapaz e queria que eu o conhecesse. Também conheci o músico e o actor. Imagino que tenha havido mais, mas não os encontrei. O músico era simpático. Tocava bem - no metro, claro -. Talvez tivesse sido melhor comprar um carro à Maude antes de me aparecer com a fauna completa em casa.

Há muito tempo que o amor entre Maude e mim foi substituído por uma amizade profunda, sexuada, cheia de prazer e vazia de paixão. A única condição é eu não saber. É-me indiferente que toda a gente saiba desde que eu seja mantido na ignorância.

O almoço foi agradável. O rapaz é frugal, Maude estava radiante e eu aproveitei para falar de aviões, um tema que me aborrece mais do que as horas de sono da minha primeira empregada. Jules - ou Julien? - é culto, tem conversa (se bem um pouco lenta para o meu gosto) e não estava nem demasiado à vontade nem encavacado. Enquanto falávamos, pensava que o rapaz me devia estar grato: dava-lhe uma mulher soberba e montes de razões para pensar que fazia bem em enganar-me com ela.

Sabe estar, não achas? resumiu Maude depois do almoço, já a caminho de casa.

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Maude está sentada na borda da cama, pernas encolhidas, mamas esmagadas contra os joelhos. Pinta as unhas dos pés.

Quando acabar, vai deitar-se de costas, pernas entreabertas, pés em leque perfeito, simétricos, a arejar. Com a mão direita vai começar a masturbar-se. A mão esquerda ficará pousada no lençol, entre nós. Pouco a pouco começará a suspirar; os suspiros aumentarão de intensidade; eu deixarei o livro que estou a ler e voltar-me-ei. Ela pegar-me-á na mão direita, pô-la-á no seu ventre e dir-me-á Põe a foice em seara alheia... Ou coisa que o valha. Maude consegue erotizar a mais anódina das expressões.

Em breve as nossas mãos estarão juntas; a sua mão esquerda estará algures no meu ventre. Eu continuarei deitado de costas; Maude esmagará a minha mão contra o seu monte-de-vénus, redondo e proeminente, de pentelheira farta. Começarei a entesar-me.

... Ele está deitado de costas, pau feito a apontar para o tecto, quase vertical. Sento-me em cima dele, puxo-lhe a pila para a frente e enterro-a em mim. Aponto para o meu umbigo e digo-lhe Até aqui. Até aqui. Até aqui. Ponho as pernas por cima do peito dele. Gosto quando ele me mordisca os dedos dos pés enquanto o sinto no meu ventre. Até aqui. Já me vim uma vez. Vir-me-ei uma segunda e outra e outra.

Ele pega-me nos tornozelos,  afasta-me ligeiramente as pernas, puxa-me para a frente e para trás. Sinto-lhe os tomates nas nádegas. Sei que isso o magoa um pouco e que ele conta com essa dor para atrasar o orgasmo.

Gosto de saber que ele me olha para a pentelheira, que vê o membro enterrado em mim até aos copos, que me vê feliz como se fosse a primeira vez. Não é.  É melhor.

Diz-me "Ajuda o senhor Bispo" e eu obedeço. Com a mão direita masturbo-me de novo. Com a esquerda acaricio-me os seios. Viramo-nos de lado.

Ele gosta de acabar assim, os meus tornozelos nas mãos fechadas, para trás e para a frente e para trás e para a frente não cada vez mais depressa mas cada vez mais fundo, cada vez mais fundo, cada vez mais até aqui.

Sai depressa de mim. Não é como Jules, que gosta de se deixar ficar e de o tirar quando já está mole.

Amo-o, mas ele não sabe. Pensa que sinto por ele o que ele sente por mim: amizade.

Não é verdade. Amo-o.

(Cont.)

4.8.14

Espantalho

Tenso como uma linha recta que o vento faz vibrar tremes. Conseguirás unir os dois pontos da linha? A metafísica do amor tudo transforma. Da pulhice faz lustres e de lustres sol e de sol vidas do passado futuro e do futuro presente. Do presente pedras. Seixos em revoadas sobre as águas paradas de um lago negro, denso como alcatrão. Vibras. Temes. Tremes. Vives. Denso e tenso vives como uma pedra à superfície de um lago. Revoadas de pedras lançadas por um deus bêbedo fazem-te ver o que vê o espantalho. Tu és o espantalho.

Espantalho nauseado. Sentado à beira do passeio vomitas. Temes. Tremes. Vibras. Vertigens. És um espantalho que a vida habita por engano.

Jornalismo

Um soberbo artigo sobre James Brown, aqui.

3.8.14

Vozes

São vozes que vêm de debaixo da mesa e se misturam com os copos de whisky, caipirinhas, rum punch, vinho de toda uma vida cheia de mesas e copos e perguntas. Vozes que não trazem respostas, só perguntas, mais perguntas como se não chegassem as que arrastamos connosco desde a merda do berço. Vozes que nos dizem estás errado - como se não o soubéssemos há séculos -; vozes que nos gritam ou nos sussuram mas nunca nos falam num tom normal, como se fôssemos selectivamente surdos - só ouvimos o que nos vem de debaixo da mesa - como se não soubéssemos há tempos sem fim que o tempo não tem fim, que nada nunca acaba, nada recomeça, tudo não faz mais do que continuar - da vulgar ingratidão mais rasteira às estrelas há uma estrada que não se interrompe não se parte não se dobra não volta atrás nem salta torrentes -. Da vulgaridade às estrelas não vire à esquerda nem à direita, vá em frente, sempre em frente. É sempre a descer se subir está enganado.

Vozes que saem do tempo da noite da luz de um navio que sai do porto um avião que aterra um automóvel na estrada um copo vazio numa mesa cheia de copos vazios, mais um. Vozes. Da noite da névoa das nuvens da mesa cheia de copos vazios. Vozes roucas de gritar o fim do tempo. Vozes roucas de gritar ao vento. Vozes que do abismo sabem mais do que qualquer espeleólogo, sentadas que estão no abismo desde que o abismo foi inventado.

Vozes de beber e chorar por mais, vozes de ouvir e calar por menos, vozes que não se cheiram, vozes. E um surdo.

Diário de Bordos - S. Luís, Maranhão, Brasil, 02-08-2014

O Bar do Porto faz-me lembrar o Bar du Nord em Carouge: ambos de longe os melhores nos respectivos bairros, ambos afastados da confusão. Infelizmente são as únicas coisas que têm em comum: é comparar um par de patins com um Ferrari.

Quando lá cheguei, depois de jantar, passava Chick Corea, um pianista de quem aprecio as melodias e um disco antigo chamado My Spanish Heart. 

É o único sítio em todo o Reviver onde se pode beber um copo em paz. Espero que se aguente.

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Dois dias inteiros sem febre. Acho que posso dizer que estou bom e não preciso de mais nenhum especialista. Falta-me acabar com o que aí vem - é já terça-feira - e pôr um fim a este capítulo penoso das relações da cavalariça com o cavalo. Estas merdas vêm e vão-se sem que um gajo perceba muito bem porquê. Talvez seja por isso que detesto a doença. Prefiro um acidente: ao menos sei de onde vem.

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Passei o dia a descobrir Lucinda Williams. Cada vez que tentava ouvir outra coisa falhava. A mulher tem letras fabulosas, uma voz de se morrer por ela e canções encantadoras. Não é Leonard Cohen nem Nick Cave nem Bonnie Prince Billy. É Lucinda Williams, e acho injusto só a ter descoberto hoje.

2.8.14

É BEStial

Ainda é muito cedo para se falar nesta história do BES, claro. A procissão vai no adro. Mas uma coisa ela confirma: a péssima qualidade do jornalismo português, a sua deferência, o respeitinho, a dependência de quem tem poder.

A imprensa em Portugal não é o quarto poder, é o quarto do poder.

Reedição recente - Princípio, meio e fim

Que o princípio se enrede no fim, o meio comece onde tudo acaba, tudo acabe onde nada começou, que por baixo seja por cima e pelo lado seja à frente e que à frente seja ontem e hoje seja amanhã e que de tarde seja como de manhã e de noite como de dia e no mar como em terra e na missa como no café e na biblioteca como no cinema e no jardim como à mesa ou na cozinha ou nas estrelas ou ali, subitamente, agora, já.

Que tudo acabe onde começou; antes do fim que tudo comece onde acabou antes do princípio, que tudo no meio seja como o todo é.

Que o todo sejas tu.

Analogia. Pergunta

Como escrever sobre o mar quando se está a nadar?

Feito no inferno

Perda / déchirure.

1.8.14

Religiões

Os pacifistas partilham a superioridade moral com os religiosos e com a esquerda. Alguma coisa hão-de todos eles ter em comum.

31.7.14

Feito no inferno

Perda / espasmos / dissipação / dilacerar.

Diário de Bordos - S. Luís, Maranhão, Brasil, 30-07-2014

As minhas aventuras pelo sistema de saúde brasileiro continuam. Depois do atendimento de urgência no Socorrinho trata-se agora de ir a um especialista (ou dois, mais provavelmente. Veremos).

A primeira tentativa, segunda-feira, falhou porque era feriado. Um feriado selectivo - estava tudo aberto menos os serviços públicos - mas feriado. Terça-feira falhou porque a unidade de saúde que me tinham indicado não tem a especialidade que procuro; e porque o hospital público faz qualquer dos nossos passar por um hospital alemão.

De modo hoje fui a uma clínica privada. Há-as para todas as bolsas. A primeira que contactei custava duzentos reais. Maciel disse-me que nem pensar. Sugeriu-me outra, procurou-me o número de telefone e ecco, por metade fui atendido hoje mesmo.

A consulta foi cara: o médico mal me ouviu. Passou-me uma série de análises e disse-me para voltar lá quando as tivesse. Ciao, à la revoyure.

Quero um médico, não um psicólogo. Vamos ver o seguimento.

Infelizmente tudo indica que vou precisar doutro especialista, porque o antibiótico que o de sábado me receitou não parece estar a fazer muito efeito. Volta e meia ainda tenho acessos de febre que são uma porra.

A carcaça quer atenção. Vai tê-la.

Febre, febres

O corpo como se fosse feito de vidro moído. E os sentimentos também.

28.7.14

Diário de Bordos - S. Luis, Maranhão, Brasil, 27-07-2014

E hoje foram mais sessenta. Quilómetros, quero dizer. De bicicleta. A cavalariça pecisa de movimento, o cavalo dá um jeito.

São José de Ribamar é melhor do que Raposa, de muito muito longe. E um bocadinho mais perto. Mas a diferença não se nota, porque a estrada tem mais subidas e descidas. De resto é igual: completamente desinteressante. Feia, mal-cheirosa, com bastante trânsito - devo dizer que aqui pelo menos só há falta de educação, falta de respeito, ignorância e indiferença para com os ciclistas. Não há animosidade, como em Panamá. Ou desleixo assassino como em Lisboa. Sinto-me mais à vontade em S. Luís do que em certos troços da Marginal, por exemplo. Aqui os carros passam a rasar só quando não têm outra hipótese; e nestes dois dias e centro e trinta quilómetros só ouvi uma observação desagradável -.

De qualquer forma deve ser o último destes grandes passeios. Para a semana inscrevo-me num curso de kitesurf. A cavalariça precisa de água. Depois a burra fica reservada para os percursos urbanos.

Pelo menos encontrei o que procurava: um sítio bonito, lindo, bem arranjado, com boa comida e um melhor serviço. Chama-se Mediterrânea (e pertence a um italiano, claro).

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Como a muitas pessoas, esta última crise em Gaza fez-me ver uma série de coisas. E confirmar outras. Uma delas é de o homem é um animal racional até abraçar uma causa. Seja ela qual for: as crianças de Gaza, os Palestinos de Gaza, os direitos dos animais, o ódio às touradas ou - vá lá saber-se, qualquer dia - o direito de as farmácias venderem fraldas usadas (depois de devidamente desinfectadas, claro) para poupar o ambiente.

O que é espantoso é que as pessoas mantém a capacidade de raciocinar e pensar em todas as outras áreas. Só a perdem quando se chega à causa; é aí que deixam de poder raciocinar (algumas são poli-causais. É um bocadinho mais complicado. Outras são de esquerda e aí fica praticamente impossível falar do que quer que seja excepto de livros, música e cinema. E comida. E mais meia dúzia de coisas. Enfim, é muito, reconheça-se).

Que teria sido da Europa se os pacifistas dos anos trinta tivessem ganho? Porque é que a Segunda Guerra Mundial foi necessária? Será que todas as pessoas que defendem Israel gostam de ver crianças mortas? Os pacifistas pensam que a guerra desaparecerá por artes encantatórias, tal como muitos deles acreditam que basta controlar os preços para que a inflacção desapareça?

Será falta de bom senso fazer estas perguntas?  Serei um facínora desumano porque acho que o Hamas está a provocar estas mortes precisamente porque sabe que pode contar com a opinião pública ocidental (incluindo neste ocidental a "esquerda pacifista israelita", felizmente longe do poder em Israel)?

Deve haver poucas pessoas (das que lêem este blog. Alexandra Lucas Coelho não o lê, claro) que tenham visto mais crianças vítimas de barbaridades do que eu - o que de passagem me faz pensar que os disléxicos, ou ignorantes que chamam a isto um genocídio deviam ter passado uns meses no Rwanda e no Burundi em 1994, para verem o que é um genocídio e ganharem tento na língua e vergonha, duas coisas das quais se anda muito escasso por estes dias -. Ninguém tem mais horror à vista de uma criança morta ou sofredora do que eu. Mas porra, isso não me impede de ver que se estão a morrer crianças é porque o Hamas quer que elas morram. E não me força a embarcar em manipulações.

Isto é óbvio ululantemente, mas de nada serve repeti-lo. A causa está lá. E quem não está com a causa não é uma pessoa. É uma besta.

E entretanto as crianças e as vítimas civis vão morrendo, e vão continuar a morrer precisamente por causa do apoio daqueles que Lenine, que sabia do que falava, apodava de idiotas úteis. A idiotice não mudou; só mudou a utilidade: agora, perpetuar a mortandade de inocentes.

27.7.14

Diário de Bordos - S. Luís, Maranhão, Brasil, 26-07-2014

Acabei por me render à evidência e fui ao médico. Ontem I. sugeriu-me um centro de saúde não muito longe da pousada e foi lá que passei a manhã de hoje. O centro (Socorrinho, os brasileiros têm as nomenclaturas imagéticas) é simples mas foi rápido, eficaz, cordato e gratuito.

Protela-se a ida ao médico porque não se quer admitir que a carcaça sozinha não sabe tratar-se. E perde-se tempo para nada. Desta vez quase uma semana de dores e febre.

Enfim, esta passou. Que a próxima venha longe.

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Agradabilíssimo serão em casa de Celso Borges, excelente poeta, músico e pessoa. Estava também Bruno Azevêdo, autor dessa obra-prima da literatura gore que é O Monstro Souza, "romance festifud", "história de um cachorro quente de 1,80m que trabalha como loverbói e serial killer em São Luís do Maranhão", etc.

Mistura de quadradinhos, recortes de jornal, prosa e mais meia dúzia de formas de expressão, o Monstro Souza é uma deambulação quase situacionista por S. Luís.

Não esperava encontrar tanto conhecimento da poesia portuguesa, aliado a uma ainda maior vontade de a conhecer mais e melhor. A ideia de organizar uma viagem de poetas e autores de S. Luis a Lisboa em Fevereiro começa a tomar forma e corpo.

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Quinta~feira fui ao dentista. Não me chegava a febre. No regresso hesitei em apanhar um táxi, mas acabei por vir de autocarro. Uma das grandes decisões dos últimos tempos.

O condutor era formado em condução desportiva de autocarros, especialidade guerrilha condução urbana. Conduzia aquele veículo como se estivesse numa pista de corridas. A certa altura chegámos a um engarrafamento monstro, provocado por trabalhos na rua e o homem quase explodia. "Este prefeito", explicava-me (estava ao lado dele, de pé ) "não é só ladrão. Ele é também pilantra. Safado. Fazer obras nesta rua a esta hora".

Eu estava indeciso: S. Luís precisa de obras em praticamente todas as ruas (menos as que servem os bons quarteirões e mesmo assim só as principais) e se um prefeito que seja só ladrão - coisa aceitável pela inevitabilidade - quiser fazê-las vai precisar das vinte e quatro horas de todos os dias de largos anos: por outro lado era difícil não estar do lado do meu condutor de corridas.

Que a certa altura não tem meias medidas e mete o autocarro por uma ruazinha paralela à rua engarrafada e por ali vai dois ou três quarteirões.

Quando regressamos ao percurso estamos muito perto da causa do engarrafamento. Faz sinais a um colega (mas de outra companhia, os transportes urbanos são privados e estão distribuídos por várias empresas) que simpaticamente o deixa entar; uma senhora num ligeiro não faz o mesmo e quase temos um acidente. Enfim, ganhámos bastante tempo.

O condutor está contente. Guia concentrado, mas de vez em quando relaxa e dialoga comigo. "De onde você vem?" por exemplo. Ou monologa: "A amizade é a coisa mais importante do mundo. Não é o dinheiro nem o amor. É a amizade. Viu aquele colega? Ele deixou-me passar por amizade. Não nos conhecemos, mas ele está para sempe no meu coração". Depois concentra-se de novo na condução e puxa por aquele motor, esqueira-se pelo trânsito, acelera e trava como se quisesse demonstrar aos passageiros e ao mundo que pouco interessa o veículo, o que importa é o que com ele fazemos e somos.

Já perto do sítio onde ia descer entrou uma jovem a comer uma maçaroca. O condutor pede-lhe um bocadinho, ela estende-lhe a maçaroca ele diz "Não, parte um bocadinho", ela parte, ele come, a rapariga segue para trás e ele diz-me "Eu não lhe dizia? A amizade é o mais importante". Ao princípio pensei que se conheciam, mas não. O homem não só conduz como um ás, mas faz amigos também.

25.7.14

Os inimigos da liberdade

Dos seis filósofos que Isaiah Berlin analisa nesse livro básico, fundamental, incompreensivelmente pouco conhecido que é Freedom and its Betrayal: Six Ennemies of Human Liberty o pior, o mais pernicioso, o que mais danos provocou foi Rousseau.

Insinuou-se no ar do tempo e não sai de lá.

24.7.14

Da liberdade e dos costumes

"This all but universal illusion is one of the examples of the magical influence of custom, which is not only, as the proverb says, a second nature, but is continually mistaken for the first."

Da Liberdade, do tempo

"Protection, therefore, against the tyranny of the magistrate is not enough: there needs protection also against the tyranny of the prevailing opinion and feeling; against the tendency of society to impose, by other means than civil penalties, its own ideas and practices as rules of conduct on those who dissent from them; to fetter the development, and, if possible, prevent the formation, of any individuality not in harmony with its ways, and compel all characters to fashion themselves upon the model of its own. There is a limit to the legitimate interference of collective opinion with individual independence: and to find that limit, and maintain it against encroachment, is as indispensable to a good condition of human affairs, as protection against political despotism."

Redescubro On Liberty com o mesmo prazer, o mesmo gozo com que há pouco menos de quarenta anos o descobri.

Nunca mais o reli do princípio ao fim, como faço agora. Umas citações aqui e ali,  umas páginas se por acaso o livro me aparecia à frente.

Há verdades muito feias; também as há lindas. Mas todas são perenes.

Emprenhar pelos ouvidos

"Se queres conhecer alguém não escutes o que ele diz; vê o que ele faz", diz o Dalai Lama num meme que circula pelo Facebook.

A ideia não é nova, nem limitada a uma dada área geográfica ou do conhecimento. É eterna e universal. Não deve haver uma cultura que não tenha um aforismo, provérbio ou dito semelhante.

É por isso que fico espantado com a quantidade de pessoas que emprenham pelos ouvidos.

Emprenham,  claro, nos dois sentidos do termo: o passivo e o activo.

23.7.14

Diário de Bordos - S. Luís, Maranhão, Brasil, 23-07-2014

Já lá vão muitos dias sem Diário de Bordos. Não que não se tenha passado nada; antes pelo contrário. Infelizmente nada avançou em proporção dos passos que foram dados - Os Passos em Volta podia ter sido um título feito para o trabalho em S. Luís do Maranhão -.

De tudo, paradoxal e felizmente, o que mais progride é o B.: mastro comprado e no estaleiro, pronto para se começar a trabalhar nele; lemes quase prontos - enfim, melhor dizendo: primeira etapa dos lemes quase terminada. Amanhã começamos a laminação. Daí a instalação, a conexão dos hidráulicos, instalar a roda do leme. Digamos três semanas, para dizer qualquer coisa.

O mesmo para o mastro. Como uma parte destes trabalhos se pode sobrepôr e outra não, vamos dizer um mês e meio, para estarmos seguros (ainda falta a impermeabilização: dois meses, vá). Até finais de Setembro estou fora daqui.

Já no resto tudo parece um filme cómico. Não há nada que seja fluido, que se faça à primeira, que fique resolvido imediatamente.

Eis uma pequena súmula:
- Bicicleta: comprei-a, finalmente. Uma pessoa que em tempos conheci dizia que sem bicicleta sou como um barco a motor. É verdade. Comprei-a num sábado. Na segunda-feira estava de volta à loja porque as mudanças não funcionavam. Na terça fui buscá-la. As velocidades estão marginalmente melhores, mas longe de funcionar. Não volto lá, não vale a pena: isso não me impediu de fazer setenta quilómetros nela no domingo seguinte. Basta não querer utilizar todas as mudanças.

- Tablet: levei-o a reparar numa sexta-feira. Ficaria pronto no sábado; preço: oitenta reais. Ficou pronto na quarta-feira. Preço: sessenta reais. Está exactamente na mesma. Sem tirar nem pôr. Igual.

- Telefone portátil: há quinze dias fiquei sem a possibilidade de enviar SMS. Recebe-os, mas não envia. (Também não liga para um, e só um número. Infelizmente é aquele de que mais preciso aqui. Parece que é frequente).

Telefonei para o serviço técnico. Isto é uma sinédoque grosseira, uma elipse: telefonar para o serviço técnico e conseguir falar com ele levou-me aproximadamente três dias.

Nada.

Fui à loja onde comprei o chip. Não têm serviço técnico mas o rapaz é adorável (isto no Brasil é uma redundância). Deram-me um prazo de cinco dias para o problema ficar resolvido. Não ficou.

Ontem voltei à loja. O rapaz disse-me desolado que não podia fazer mais nada. Para ir a outra loja, num centro comercial que fica atrás do sol posto. Lá têm atendimento técnico e poderão ajudá-lo.

Não têm, Cleyton. Esperei duas horas (preciso mesmo dos SMS). Ao fim das quais a rapariga falou com o serviço técnico. O qual não pode fazer nada porque está sem sistema.

- Computador portátil: comprei-o na segunda-feira. O rapaz é adorável (ditto). Disse-lhe que queria o Windows e o Office em inglês. Não tem problema. O Office faço agora; o Windows só na quarta-feira. Ok, Josué, volto cá na quarta-feira.

O Windows está em Português. Para o reinstalar e instalar o Office tive de deixar lá o computador. Vou buscá-lo amanhã.

- Pousada: senhor Luís, importa-se de mudar de quarto... Domingo: almoço em Raposa (uma hora e vinte minutos de espera...)

¡Qué vaya!

Dito assim, de forma sintética, parece só uma piada. Quando se incluem as horas de táxi e de trânsito, o calor, as horas de espera a piada desaparece como por milagre.

Mais vale pensar no que correu bem:

- Um magnífico passeio de barco no sábado. O STERNA P. é rápido, o vento forte e constante, a tripulação e convidados simpatiquíssimos. Um sábado grandioso que me fez temer por como será quando deixar o mar. Não o posso deixar. Tenho de encontrar uma solução intermédia.

- O meu círculo social aumenta, graças principalmente a R. o dono da livraria Poeme-se, onde tenho o meu "escritório". Jornalistas, escritores, cantores: estranhamente é muito mais a minha tribo do que os "marinheiros" (entre aspas porque a maioria não é marinheira; são pessoas que estão em barcos. Com os marinheiros sem aspas entendo-me às mil maravilhas).

Pouco a pouco integro-me em S. Luís e integro a cidade. Como diz R., o Brasil começa sempre por apresentar o seu pior lado.

- Maciel: à terceira encontrei um motorista digno desse nome. Maciel pára nas passadeiras, trava quando os semáforos estão cor-de-laranja, não fala excepto quando eu lhe falo, sabe onde são as lojas e fornecedores e - seja Deus louvado - tem milhares de CD de música brasileira. Amanhã vai começar mais uma sessão de gravações. Encontrei-o à terceira tentativa.

- Adaílson: excelente carpinteiro, pontual, calado. À segunda. Não me posso queixar.

- Dentista: das quatro cáries, a pior já está tratada; as outras estão a caminho, e o resto dos serviços. Vou ficar com uma boca nova pelo mesmo preço do que me teria custado o tratamento desta cárie em Bocas del Toro. Na Policlínica da Igreja de Nossa Senhora da Conceição. Sou ateu e anticlerical, mas não sou primário e reconheço que a igreja tem coisas muito boas. Esta policlínica é uma delas. Há muitas outras.

Talvez se devesse mesmo criar uma devoção à água oxigenada. Nossa Senhora da Água Oxigenada que me salvaste das dores e me permitiste manter a sanidade todos estes meses...
Não se poderá injectá-la nos rins?

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Apercebo-me a cada dia que passa da profunda tontice do Acordo Ortográfico: daqui a cem anos o brasileiro será uma língua diferente, com ou sem acordo. Estamos a dar cabo da nossa para nada.

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Uma coisa que descubro: o fascínio dos brasileiros pelos sotaques, pela língua. Falam dela com o desvelo de franceses a falar do francês e da origem das pessoas.

(Não resisto):


De caminho, aprendo que os brasileirismos de que tanto me queixo em Portugal (o desparecimento do verbo pôr, por exemplo) são na verdade Globismos: a TV Globo está a uniformizar os sotaques (nisto não acredito muito) e o vocabulário do Brasil, e a substituí-los por uma espécie de pâtois de S. Paulo e Rio.

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Mais uma noite de cálculos renais. Preciso realmente de perceber de onde vêm. A cavalariça não pode deixar o cavalo desabrigado.

22.7.14

Calculista

Muito calculistas andam os meus rins. Se conseguisse descobrir porquê seria um homem bastante feliz.

Vida, duche

Deve começar-se por limpar a sujidade que está em cima, como se a vida fosse um duche.

Dizer, tocar

Nada me digas que não tenhas na pele e nas mãos; nada que eu tenha de ouvir e não possa tocar.

21.7.14

Ao princípio era o verbo

Seria preciso voltarmos ao que éramos. Ao princípio. Ao verbo.

O que éramos morreu. Nunca mais será: ressuscitar é para loucos, sonhadores e messias.

20.7.14

Toda a gente, pouca gente

Pode enganar-se toda a gente pouco tempo, ou pouca gente todo o tempo. Mas não se pode enganar toda a gente todo o tempo.

O aforismo é conhecido. Apesar disso há quem duvide da sua veracidade, porque por vezes vemos pessoas enganar toda a gente por tanto tempo que pensamos Este conseguiu. Como fez?

Uma das maneiras é enganar-se a si mesmo. Mas se isso é necessário não é suficiente. Chegará sempre, inexorável,  o momento em que "toda a gente" perde uma pessoa.

E outro em que de "toda a gente" só fica a pessoa que se engana a si própria.

Almoço improvisado - Salada

Hoje fui navegar. O dia foi bom de mais para ser descrito num tablet à pressa.

Fica a receita da salada, a que C., um cabo-verdiano adorável deu o nome de Salada Boqueirão - estávamos no Boqueirão quando a comecei-.

Os ingredientes são:
- Pepino
- Cebola
- Tomate
- Bacon frito com alho
- Maracujá.

Fiz uma maionese e misturei-lhe umas gemas cozidas esmagadas com um dos maracujás.


19.7.14

As coisas e a vida

As coisas são como são e não como pensamos que deviam ser.

Viver consiste em encontrar o frágil e instável equilíbrio entre este facto e o seu contrário.

Assimetrias, fontes

As assimetrias são irritantes para as pessoas de bem e fonte de prazer para as outras.

Arrogâncias, medo

Há muitas arrogâncias e todas elas têm ingredientes diferentes.

Só há um comum, sempre, a todas: medo.

17.7.14

Auto-retrato parcial

"Há coisas das quais me posso orgulhar: a liberdade, a independência, a incapacidade total, absoluta de emprenhar pelos ouvidos. Mais do que imune, sou alérgico ao zeitgeist. Sempre fui. A opinião dos outros nunca me interessou se não para aprender e ser capaz de fazer as minhas próprias opiniões.

Duvido a priori de tudo o que é consensual - não porque seja contra os consensos, mas porque acho que devem ser investigados e avaliados -.

Nunca me submeti à pressão de um grupo, fosse essa pressão de que natureza fosse. Não alinho em grupos, modas, clubes, partidos, facções ou seja o que for.

Respeito quem sabe mais do que eu quando me demonstra que sabe mais do que eu (ainda por cima nem é muito difícil, portanto não me parece que seja pedir de mais).

Não aceito argumentos ab auctoritate, não reconheço valor aos nomes das pessoas, às suas origens sociais, ao dinheiro que têm ou não têm; - reconheço sim e só ao que fazem."

(De um comentário no FB, ligeiramente editado).

On Liberty

Há tempos havia uma corrente já não sei onde perguntando-nos quais os dez livros que tinham mudado a nossa vida. Não é frequente integrar correntes, mas àquela respondi, já não sei porquê.

Esqueci-me de mencionar meia dúzia de livros, e mais um: chama-se On Liberty. É de um Senhor chamado John Stuart Mill e foi publicado em 1863.

A posteriori apercebo-me de que não foi bem um esquecimento. On Liberty não mudou a minha vida: formou-a.

16.7.14

Querer, tintas

Alguns posts do Don Vivo são bons. É natural: em quase onze anos um ou dois hão-de escapar. Em contrapartida nunca é de mais frisar que os poemas são execráveis. Eu sei. Infelizmente estou-me nas tintas. Ponho-os aqui porque quero, da mesma forma que digo maricas em vez de gay e faço o que faço como faço: porque quero e porque me estou nas tintas.

Talvez não seja uma boa definição de liberdade; mas é a que quero.

Auto-retratos alheios: S. Tomé

Indubitavelmente consequência de ser um bocadinho surdo (não tanto quanto gostaria,  mas lá chegarei) só acredito no que vejo. O que oiço só não me entra por um lado e sai por outro porque não chega sequer a entrar.

Grupo Insomníaco Dorme Tu

O Grupo Insomníaco Dorme Tu reúne-se na nossa cidade todas as noites a partir das vinte e três horas (alguns membros do grupo insistem em chegar mais cedo. A Direcção aceita, mas não muda a hora do início das sessões). Fica situado na rua bastante inclinada. Para se entrar é obrigatório ter chegado no sentido ascendente - o Grupo aceita insomnes amadores, mas a insónia tem de ser séria. Insónias descansadas não entram -.

A direcção é eleita todos os anos ou desde que pelo menos um membro tenha encontrado o sono. O que acontecer primeiro.

Estamos a pensar mudar as regras: ninguém quer fazer parte da direcção porque para além de zelar pelas insónias dos outros deve zelar-se pela sua.

O café e o chá estão terminantemente proibidos, claro.

Fui um dos membros fundadores e tenho frequentemente feito parte da direcção.   Mas volta e meia lá encontro o sono (é preciso dormir-se bem uma semana seguida para se deixar de ser director; com dois meses de sono regular é-se expulso do Grupo).

Expulso não é o termo adequado,  claro. Mas isso fica para depois. Agora vou dormir. Há muitos meses que faço parte da direcção e gostaria de  passar o lugar a outro.

15.7.14

Recôndito

Dóis-me quando te leio e não te leio,
Quando te escrevo e não escrevo,
Quando te lembro e esqueço.

Dóis-me quando estás
E quando não estás.

Só não dói saber-te reconciliada.

E mesmo assim dóis-me.

14.7.14

Diversões

Tenho à minha frente meia dúzia de escorregas, daqueles que se vêem nos parques de diversões. Grandes, encaracolados - nenhum é linear - de várias cores.

Tento perceber de onde vêm. Para onde vão eu sei: um poço negro na paisagem,  longe mas bem visível.

Cada um deles leva coisas diferentes: este palavras, aquele desejos (e sonhos.  Quem quer que os tenha feito misturou sonhos e desejos) outro raivas e ódios, aqueloutro amores e fantasias.

Vejo-me sentado de pernas cruzadas a separar estas coisas como quem separa roupa. Não é tão fácil como parece. Esta foi amor ou foram só palavras? E esta, vai para os ódios ou para as indiferenças?  Aquela, um sonho?

E a vida? Para qual dos tubos vai?

Ar

Penso: preciso de te ler
Como de ar para respirar.
Digo: preciso de te ler
Como de veneno para morrer.

Penso: preciso de te ver.
Digo: preciso de viver.

Entre o que penso e
O que digo
Há uma vida e
A morte.
Uma ferida e
A lua cheia como
Se houvesse ar
Em mim para respirar
Sem te ler.

Como se houvesse ar
Sem ti.

13.7.14

O tubarão vai ao barbeiro

O tubarão perdera a barbatana havia muito tempo, mas mesmo assim ainda lhe custava nadar a direito. Foi uma galinha que me debicou a puta da  barbatana. Tornara-se carnívora e eu não dei por nada, explicava a quem o queria ouvir.

Ninguém o queria ouvir.

Estava na rua das Chagas (abertas). Ao fundo da rua há um barbeiro desses que imitam os barbeiros de antigamente.

Estou farto do antigamente. Quando é que estes gajos começarão a imitar o futuro?

Mas entrou. Barba, cabelo e poucas palavras, pediu.

Na parede havia um cartaz. Corte o cabelo cinco vezes e deixamo-lo sair para a rua das Chagas (fechadas).

Não seria má ideia. Estou farto de andar às voltas na porra da Chagas (abertas). Mas sem a barbatana não faço senão andar às rodas. Puta da galinha carnívora.

O barbeiro estava com medo de lhe fazer o bigode.

O senhor promete que não me come o braço?

O tubarão acenou. Agora sou herbívoro, sua besta. E quando acabar recomece tantas vezes quantas as necessárias para eu poder sair pela ruas das Chagas (fechadas).

Se o senhor tubarão me deixasse falar talvez eu pudesse dar um jeitinho...

Estes cabrões mai-los jeitinhos. Irritado comeu o braço ao barbeiro.

A porta da rua das Chagas (fechadas) abriu-se.

Micro-dialogos

- Mudas de corações como eu mudo de camisa.
- Azar o teu. Ao menos os meus corações vêm com pilas. As tuas camisas só têm botões.

- Sinto-me um looser.
- Os teus sentimentos raramente se enganam.

- És a mulher da minha vida.
- Para isso seria preciso teres uma vida.

- Olho-te e vejo o futuro como podia ter sido.
- E eu o passado como foi.

- Tens uns olhos lindos.
- Ainda o seriam mais se não tivessem de te ver.

12.7.14

Simetrias, ausências

A verdadeira pergunta é sou eu que deixo o mar ou é ele que me deixa?

Da resposta a esta pergunta dependem uma data de coisas. A cor das ameixas que estão por nascer e ser comidas, por exemplo.  A dimensão do carreiro de formigas num determinado quintal. A frequência de levantes e ponientes no estreito de Gibraltar este verão.

Um dia conheci um tipo cujo trabalho consistia em avaliar as probabilidades de um amor evoluir em amizade ou não. Quem lhe pagava eram os actuais cônjuges dos antigos casais.

- Têm medo, percebes?
- Não.
- Pá. A amizade é um sentimento mais forte do que qualquer outro. Já pensaste que todos nós somos capazes de substituir um amor, mas ninguém pode substituir uma amizade? Um amigo que se perde perde-se para sempre.
- Se quisesse mencionar-te-ia um milhão de amores que se perderam para sempre.
- Ainda bem que não queres. Obrigar-me-ias a declamar-te os amores todos que os substituíram.

Que se foda a amizade.

Por exemplo: o mar é meu amigo? Sofre quando não me vê como eu sofro quando passo demasiado tempo em terra? Sofre se não sabe de mim?

A amizade é a forma perfeita da simetria. Ao contrário do amor, que é a sua forma imperfeita.

Nutro pela simetria uma admiração infinita: é a mais elusiva de todas as aspirações humanas. Como terá sobrevivido a tanta ausência?

A ausência é a morte da simetria: não há ausências simétricas.


11.7.14

Diário de Bordos - S. Luís, Maranhão, Brasil, 11-07-2014

O trabalho começou, finalmente. O ritmo não é alucinante - estamos no Maranhão - mas avança. Cada vez que chego ao estaleiro há gente a bordo, a mexer-se, medir, cortar, pensar. A trabalhar, em suma.

A vida muda, claro. Gostaria muito que o meu bem-estar psíquico dependesse um bocadinho menos do trabalho mas não consigo, infelizmente.

........
Ontem havia música na rua, como todos os fins de semana. Pela primeira vez desde que cheguei era boa. Isto é, não era simplesmente barulho.

Gostei particularmente da rapariga das congas. Terá vinte anos? Talvez. Mas toca com a calma, distância, precisão de quem o faz desde que nasceu.

Tem a regularidade de um metrónomo. Não falha um tempo. Está concentrada, mas por vezes deixa-se ir e sorri, troca um olhar com o rapaz das percussões à sua direita ou com a cantora.

Não sei como definir isto: por detrás de uma aparente falta de criatividade escondem-se talento e horas de  trabalho. A criatividade é isso, pela ordem inversa. Trabalho e talento. Ou talvez seja o talento que é composto por trabalho e criatividade. Não sei.

Não sei o que é o talento. Aliás: sei. Mas ignoro de que é feito. Só conheço os seus efeitos sobre mim. Esta beatitude, espanto, rendição.

Oiço a miúda tocar - são tambores, não congas - e pergunto-me se um dia escreverei tão bem como ela toca. Provavelmente não.

Mas espero um dia escrever com a mesma calma, a mesma certeza. A de um rio que sabe onde está a foz.

........
O Brasil é um campo de estudo ideal para quem se interesse pela teoria do caos. Tudo é caótico. E todos os tipos de caos coabitam tão bem como as diferentes classes sociais: o caos visual, auditivo, olfactivo, o trânsito... tudo isto com uma hiper- "sensibilidade crítica às condições iniciais"; que existem com certeza. Basta encontrá-las. Quais serão - a pobreza? A indisciplina e concomitante irresistível atracção pela desordem? Uma coisa é certa: o conceito de entropia não se aplica à vida quotidiana na S. Luís do século XXI.

........
A vida, esse conjunto de altos e baixos a que um marinheiro chama cristas e cavas soma e segue. Nós desatam-se, encruzilhadas clarificam-se, vontades definem-se. Olho para o ano e meio que acabo de passar e pergunto-me se a carga que trazia era assim tão pesada, para exigir tanto tempo antes de conseguir alijá-la.

Era. Um erro, um só, chega para definir uma quantidade de coisas. Não é só S. Luís que é híper-sensível às condições iniciais. A vida é um sistema aberto, dinâmico não linear, alimentado por equações indeterminísticas. Circuitos fechados (é assim que se traduz loops?), retroalimentação (ditto feedbacks), efeito borboleta...

Tantas palavras, tantas maneiras de definir o que no fundo é indefínivel, o que não tem palavras, o que se recusa a desaparecer, a dar-se, a fechar-se.

A vida é o que é mai-lo que dela fazemos. E as borboletas.

Sol, lua nova

Onde estás?

Os Espíritos Santos e os espíritos santinhos

Portugal parece um bordel no qual as putas se escandalizam cada vez que são fodidas.

Brasil, música

Ainda na série Ao contrário do que muitas vezes se pensa: os brasileiros não gostam de música.  Odeiam-na. Detestam-na. Desprezam-na.

Os brasileiros gostam de barulho, e a música é apenas um veículo para ele.

10.7.14

Net, pertença

Ao contrário do que muitas vezes se pensa a net exacerba o sentimento de pertença, é o seu melhor aliado.

Anti-semitismo "laico"

Há qualquer coisa estranha na resistência do anti-semitismo,  mesmo em sociedades que se pretendem laicas, como as sociedades ocidentais actuais.

Ou então é o conceito de laico que é preciso reavaliar e estudar e uma forma mais abrangente.

9.7.14

Copenhaga

Antes de mais nada é preciso reconhecer duas coisas: a) eu não percebo nada de nada e b) acho que Israel devia parar já, e se não puder ser já que seja imediatamente com os colonatos.

Isto dito:

1 - Três putos israelitas são assassinados. Não há inquéritos, nem autópsias e os assassinos passeiam-se como heróis pelas ruas;

2 - Um puto palestiniano é assassinado. Há um inquérito e uma autópsia e os assassinos vão para a prisão enquanto aguardam julgamento;

3 - Os palestinianos, com a sensibilidade e o espírito de contenção que lhes são internacionalmente reconhecidos provocam desacatos, atacam Israel com rockets e ameaçam o caos;

4 - Israel intervém para repor a ordem.

5 - Os palestinianos são bons e vítimas, os israelitas maus e carrascos.

Eu sei que estou enganado. Se alguém pudesse ajudar-me e explicar-me em quê e porquê eu ficaria inimaginavelmente grato.

Isto dito há, claro, outros consideranda que devem, passe a redundância ser considerados.

Os palestinianos são reconhecidos pelo seu estado de direito e pelo quadro jurídico liberal, reconhecedor dos direitos das minorias, das mulheres e dos maricas. É um estado isento de corrupção, aberto à inovação, atento às necessidades do seu povo, de tal maneira democrático que tem dois governos  (um dos quais é uma organização terrorista, um modelo de humanismo).      

Contrariamente aos países ocidentais, claro. É por isso que os activistas de género e os defensores dos direitos dos homossexuais e da liberdade de imprensa (mai-los amigos das árvores, dos animaizinhos et al.) lutam no ocidente por essas coisas todas e não lutam em mais lado nenhum. As lutas só fazem sentido onde são realmente necessárias.

Os palestinianos são mestres em manipulação da imprensa. Manipulam-na como se fosse feita em e de plasticina.

É por isso que a (perdoem-me a metonímia) intelligentsia europeia é toda anti-semita. Perdão, anti-Israel.

Confesso que se visse vacas e porcos a defender os proprietários de matadouros não ficaria mais surpreendido.

8.7.14

Diário de Bordos - São Luís, Maranhão, Brasil, 08-07-2014

Os transportes em comum de S. Luís são péssimos (isto porque estou em dia de ser generoso e bem educado. Em dias normais diria que são uma merda infecta). Há várias razões para isso: o mau estado dos veículos - são poucos para o movimento que têm e não deve haver muito tempo para manutenção - e das ruas - têm buracos que fariam António Costa passar por um autarca modelo - a má formação dos condutores, todos descendentes falhados (ou loucos) de Fangio, a ausência de faixas bus, a falta de autocarros (como na piada de Woody Allen: a comida é má e as porções pequenas).

É por isso raro apanhar um autocarro aqui. Faço-o aos domingos quando quero ir à praia ou quando, muito raramente, preciso de ir a um centro comercial e tenho tempo.

Geralmente ando a pé (pouco, a cidade está mais perigosa agora do que há dois anos) de táxi ou moto táxi. Amanhã vou comprar uma bicicleta, com a qual espero poder combinar a mobilidade e o bem estar físico. A mim S. Luís.

.......
Wellington aprendeu finalmente a calar-se; mas hoje cometeu um erro para mim imperdoável e vou ter de mudar de condutor de táxi. As pessoas são pobres e a pobreza fá-las cometer erros que as mantém na pobreza.

Enfim, não seria por minha causa que ele enriqueceria. Mas tinha ali um rendimento garantido e agora vai ter de o procurar. E não vai conseguir substítui-lo a cem por cento. Isto para ganhar vinte reais.

Já Regiane fez uma coisa mais ou menos semelhante com a lavagem da roupa (com a diferença fundamental de não me ter enganado).

Compreendo-os e empatizo, mas não sou paternalista. Cada um é responsável pelos erros que faz.

........
Por falar em paternalismo: ontem deu dinheiro à senhora angolana que vende porta-chaves. É muito raro dar dinheiro; em Lisboa, pouco antes de vir dei o meu casaco de bombazine azul a um sem-abrigo. Dinheiro não me lembro de ter dado, antes desta noite, em muito tempo.

A senhora estava visivelmente aflita mas apesar disso não me pediu dinheiro e - prova de que é pessoa séria - dei-lhe dez reais para ela ir trocar e ela veio com o troco. Não fugiu com o dinheiro como pensei que faria. Dei-lhe sete reais e ela foi a correr ver se ainda apanhava o Sousa dos cachorros aberto.

Recentemente uma pedinte dessas miseráveis que pululam no Reviver pediu-me dinheiro. Estávamos ambos ao balcão do Senzala, a taberna do meu amigo Raimundo. Disse-lhe que não e ela perguntou-me Você está dizendo que não porque pensa que eu vou comprar droga, não é? Não, não é. Estou-me nas tintas para o que tu fazes com o dinheiro a partir do momento em que to dou. De qualquer forma, se usares o meu para comer usas o de outra pessoa qualquer para o crack.

Foi no Burundi que me confrontei pela primeira vez com este problema. Muitas ONG (principalmente as católicas) escandalizavam-se porque os refugiados vendiam as coisas que lhes dávamos. Eu dizia-lhes que isso me era indiferente. O meu trabalho era ajudar os refugiados. Se eles tansformavam as lonas em dinheiro estávamos a ajudá-los, não? Eram suficientemente grandes para saber se preferiam os objectos ou o dinheiro dos objectos.

(Além disso davam-me um óptimo instrumento de previsão de necessidades: quando os preços subiam no Mercado eu sabia que tinha de começar  a preparar novos envios. Monitorizava os preços de tudo os que lhes dávamos e os das armas, para ter uma ideia da segurança).

........
Ontem apeteceu-me sair do Reviver, do seu ambiente sórdido e cheiro a mijo e fui jantar para os lados da praia. Convidei uma jovem francesa que conheci na Pousada. É directora da Alliance Française, professora de francês e mais não sei o quê. A conversa é penosa. A rapariga não se tem em muito baixa conta, antes pelo contrário. Mas debita banalidades como as Kalash cujo preço eu monitorizava em Bujumbura debitam balas.

A certa altura cito-lhe uma frase do pai de Marguerite Yourcenar de que gosto muito. Yourcenar, pergunta-me. Não queres dizer Duras? Não, M., não quero. E infelizmente tão pouco quererei voltar a jantar contigo, o que é pena.

........
Fomos jantar a um restaurante chamado Cabana do Sol. É bastante bom, mas acho as porções absurdas. Um terço da carne e mais de metade dos acompanhamentos voltaram para trás. É inaceitável deitar comida fora seja onde for; e muito menos num país onde há tanta miséria.

........
Deixo o melhor para o fim: o trabalho no B. começou, finalmente.

Assimetrias

- Como amar uma jovem senhora que só diz banalidades e nunca ouviu falar de Marguerite Yourcenar?

- Como amar um velho gordo que passa a noite a dizer coisas que não querem dizer nada e a falar de pessoas de quem nunca ouvi falar?

7.7.14

AVURNAV 002/060714

Todos nós temos uma quota de maus poemas a preencher. Só depois chegam os bons. A minha quota é um bocadinho maior do que a média. Preciso de a esgotar depressa.

Tempo, verdade

É verdade: o Michael Jackson é genial.
Já mo tinhas dito, mas eu
Gosto que o tempo me ajude a decidir.

Por isso também só acredito no amor
Anos depois de ele ter acabado.

É quando sei se foi verdade.

6.7.14

Música, seduções

Dá-me música, não me dês canções.

Seduz-me, não me encantes.


5.7.14

AVURNAV (Aviso urgente à navegação)

Se um dia houver, como espero, um concurso de má poesia eu ganharei sem dúvida o primeiro, o segundo e o terceiro prémios (só espero que haja chorudos prémios em dinheiro, claro).

Como ultimamente o DV tem andado infestado de poesia eu devo avisar  a navegação: não são apenas os poemas que sofrem de falta aguda de qualidade. A prosa também.

Ideia

À partida a ideia era simples, conhecida, pouco original:
tu amavas-me e eu amava-te,
Desde sempre, para sempre.
Seríamos felizes, nunca nos separaríamos,
Aos domingos iríamos ao cinema e antes de adormecer
Conversaríamos sobre nós.

Nada disto aconteceu, claro. Entre as pessoas e os planos
há a vida - ou metade, como dizia o outro.
Os próprios planos são uma farsa
porque são feitos por farsantes que acreditam
no amor, em para sempre desde sempre
em coisas que só são verdade na cabeça de quem as sonha quando as sonha.

Uma ideia com milhares de anos de existência e de prática não devia falhar, pois não?

Talvez não seja uma boa ideia.
Ou não seja velha.

Talvez seja uma ideia sempre nova.
Cada vez que alguém ama
É a primeira vez que ama e
Pela primeira vez pensa
Que vai amar alguém para sempre,
Desde sempre.

Telefotos - S. Luís - 05-07-14





Fan

Não sou fan de ninguém. Nem de mim, quanto mais de gajos que nunca vi mais gordos.

4.7.14

O meu corpo e eu - II

Tudo o que eu queria era que fosse breve. Talvez tenha sido. O pico da crise foi das cinco às sete da manhã. Duas horas não é nada.

Como passei esse par de horas? Lembro-me de meia dúzia de coisas: a almofada a tapar-me a cara, como por vezes faço a uma senhora que grita muito quando não posso incomodar os vizinhos; o ar condicionado a ser apagado e ligado quase de minuto a minuto; o frio e o calor simultâneos; os duches - pela primeira vez chateei-me por não ter água quente e por a água fria não ser fria - ; o suor; a experiência permanente de posições na cama; andar no quarto para trás e para a frente como se cada percurso fosse o Paredão; as idas estroboscópicas à casa de banho para ver se as pedras saíam; a incapacidade total de escrever (isto, aparentemente, consequência do Tramadol e não directamente do sofrimento); as náuseas, elas também consequência de um remédio que ao fim e ao cabo não me trouxe alívio nenhum - o que não foi o caso durante as dores de dentes em Red Frog, é preciso dizê-lo -.

E sobretudo a noção constante da desproporção entre a dimensão daquilo que me provocava a dor e a dor. Não há relação nenhuma, quem já passou por isto sabe-o. Um cálculo renal é minúsculo.

Retrospectivamente duas horas não é nada. Infelizmente o tempo é uma espécie de pastilha elástica que se deforma e reforma e se cospe quando já não serve para nada. E aquelas duas horas não serão cuspidas tão cedo.

Não foram duas horas. Foi uma viagem de ida e volta ao centro de mim. Todas as grandes dores, os grandes sofrimentos o são, não é?

3.7.14

Talvez

Faço testes à memória esperando que ela falhe.
Que daquela praia tenha, por exemplo, apagado
os traços irrequietos, ansiosos que nela deixámos.

Mas a memória mostra-me a areia a remexer-se
por baixo de nós. Era inverno. Tínhamos casacos, sobretudos,
cachecóis e por baixo disto tudo mãos e
peles, que lentamente se embaciavam.

Peço à memória que apague essa praia;
à praia que se imobilize;
ao mar que leve da areia o amor que nela nasceu,
às algas que preencham os buracos que na areia
fizemos e às rochas que desabem
na praia, na areia, na memória.

Havia muitas rochas na praia, mas só víamos a areia.

Vêm-me à mente os versos de Borges:
Solo una cosa no hay: es el olvido.
Dios, que salva el metal salva la escoria
Y cifra, en Su profetica memória
Las lunas que serán y las que han sido.

Recitei-to muitas vezes, mas nunca naquela praia.

Talvez o mar seja uma das formas do esquecimento.
[Não é].

Talvez o mar que tudo e sempre muda
apague da praia não os traços mas a memória.
[Não apaga].

Talvez a areia aceda, se lhe pedir,
a deixar desvanecer-se no mar
aquele fim de tarde que lhe deu sentido,
que fez dela a única praia, a única areia
o único fogo, o único sempre.

Talvez as outras praias se revoltem,
talvez unidas digam ao mar para nos apagar.

Talvez haja outras praias, quando o mar quiser e se a memória deixar.

Mas é pouco provável: solo una cosa no hay.

Junta à nossa a tua Sophia

"Ele porém dobrou o cabo e não achou a Índia

E o mar o devorou com o instinto de destino que há no mar."

O meu corpo e eu

De forma geral suporto bem a solidão, seja ela imposta ou escolhida. Dou-me bem comigo e com o mundo. Os únicos momentos em que o prazer de estar sozinho é posto à prova é quando estou doente, ou a sofrer fisicamente.

Não é frequente, mas acontece. A primeira vez que tive uma pedra nos rins (não estava nos rins, mas isso não interessa) as dores foram tão avassaladoras que resolvi ir ao hospital. Era domingo. O único hospital que conhecia em Lisboa, para além claro do Sta. Maria, que desde miúdo me aterroriza era o Curry Cabral e foi portanto para este que fui.

As urgências não tinham urologia, ou coisa que o valha, e sugeriram-me S. José, um hospital grande, antigo, vetusto, imponente. Sentia-me como numa das prisões de Piranesi, esmagado pela dor e pela espera.

Doutra vez parti (eu penso que não, mas isso agora é irrelevante) uma costela. Não estava sozinho, mas é como se estivesse: dois homens num quarenta e três pés à bolina com sete, oito e nove Beaufort durante quatro dias não têm muito tempo nem disponibilidade para tratar um do outro.

Metia Ibuprofenos à mão-cheia e ia fazer os meus quartos. Governava à mão quando via que era preciso ou melhor, rizava, verificava as peias das coisas que tínhamos no convés e passava torturas para me despir ou vestir. Metia os comprimidos antes de dormir e quando, duas horas depois, acordava. Íamos para as Canárias e mal chegámos desembarquei (como estava previsto) e voltei para Lisboa. Poucos dias depois as dores passaram.

Em Maputo tive a mais longa e a pior de todas as crises de Meunière. Três dias de cama, incapaz de abrir sequer os olhos. Não há grande coisa a fazer durante uma crise de Meunière se não esperar que ela passe, mas normalmente duravam três horas, não três dias (tive outra, a última até agora em Palma, mas não estava sozinho e por isso não conta).

Já passei por muitas crises sozinho. A cada uma faço o mesmo: sinto-me miserável, aguento e espero que passe.

Agora vem aí uma, de pedra. Há muito tempo que não tinha pedras, tanto que levei umas horas a identificar os sintomas e a fazer o diagnóstico.

Eu sei que não tenho tido muito cuidado com o meu corpo, e que me aproveito de ele não ser muito vingativo. Não me pede muita atenção e eu não lha dou, digamos (excepto com esta novidade do açúcar, mas como não sou muito dado a novidades desligo e acabou-se o açúcar).

O que aí vem não é uma vingança. É mais uma lembrançazita, um pequeno toque para que eu não me esqueça dele. Estou pronto para a receber. Não me importo sequer que seja violenta, como parece que vai ser. Só espero que seja breve.

2.7.14

Telefotos




Diário de Bordos - S. Luis, Maranhão, Brasil, 01-07-2014

As festas juaninas acabaram e o Reviver volta à calma habitual durante a semana.

É quase meia-noite. Está tudo fechado ou a fechar. Nas ruas sobra a miséria. Há pouco vi um tipo tirar um balde de água de um esgoto. Não sei se o tinha lá escondido ou se se preparava para se lavar naquilo.

A rua cheira a mijo, mas isto é uma redundância. A rua cheira.

Não é bem boémia. É miséria e voyeurismo. Acabo uma caipirinha no Raimundo. Fez-ma grande. Por uma razão quaisquer gosta de mim. Comprei-a para lhe agradecer a password do wifi.

Eu retribuo o gosto. É um homem com quem me entendo. Não sei porquê.  Há pessoas assim: não é por causa do dinheiro ou de outra coisa qualquer fácil de explicar. Deve ser uma questão de vidas, indefinível tal como, para muita gente, o amor é uma questão de pele.

Bebo a caipirinha enquanto fumo um cigarro - o segundo - e escrevo isto sentado numa cadeira à porta da tasca. Penso primeiro que é uma boa imagem. Um estrangeiro gordo e feio sentado à porta - fechada - de uma tasca imunda a fumar um cigarro e a beber um copo enquanto vai dizendo que não ao desfile de náufragos que lhe pedem "uma moedinha para comer". Mas não sei de que é a imagem: da minha vida? Do Brasil? Do Reviver? Marimbo nas imagens.

Uma dose de crack custa dois reais, menos de metade de uma cerveja.

Digo que não. Sei que daqui a duas semanas já ninguém me virá pedir seja o que for, para comer ou para comprar pulseiras ou porta-chaves (esta diz que é angolana. Talvez. Deve ter sido linda) ou nada, simplesmente "uma moedinha".

........
O trabalho no barco não começou ontem, como eu tinha pensado. Nem hoje. Esperado é mais adequado do que pensado. Se eu tivesse pensado não teria posto uma data no principio dos trabalhos. Não teria posto datas em nada.

........
É isto que me espera pelos próximos dois meses. Preparo-me como para uma travessia: ao dia.

Trinta dias no mar não são um mês. São trinta dias. Dois meses em S. Luís não são dois meses. São sessenta vezes um dia.

Tal como uma vida é todas as vidas que nela vivemos, sucessivamente e por ordem.

Sim, simetria

Sim é a palavra mais bonita de qualquer língua. Sim, oui, yes, si, da, ya. Sempre curta, generosa e simétrica: tão boa de ouvir como de dizer.

É a simetria que lhe dá a beleza.


Autoridade, moral

Os assuntos que envolvem autoridade moral - ou a falta dela - são por vezes bastante fáceis de resolver. Mas regra geral é o contrário: são difíceis, complexos e complicados.

Uma pessoa que não tem autoridade moral para julgar um determinado acto deve calar-se, ponto (e quando tem também deve abster-se de julgar, mas isso é outra história).

Contudo a potencial imoralidade do acto não desaparece, tal como o mundo quando fechamos os olhos.

1.7.14

Zeitgeist

Nunca consegui respirar o ar do tempo. Sempre respirei o meu, por muito fétido e poluído que fosse. Que seja.

Uma merda, é o que é.

Multidões

Seria preciso pôr o coração de lado? Cortá-lo em bocados pequenos e dar cada um dos pedaços a cada mulher que amaste?

Talvez. Nisto do coração a simultaneidade é essencial. O coração é por excelência o órgão da sincronia, da reciprocidade - o nome que o coração dá à sincronia.




Na verdade pouco me interessam a sincronia, a reciprocidade, os bocados de coração, essas merdas todas que ele inventa para nos enganar.

Os corações ou vêm inteiros ou não vêm. A sincronia não existe. Estamos sempre uma vida atrasada, ou adiantada. Quando andamos ao lado de alguém somos três, dizia não me recordo quem.

Eu diria que somos uma multidão. Ou que nunca andamos ao lado de alguém.

Viver

Há quem coma a vida de garfo e faca e depois limpe, delicadamente, a boca com o guardanapo das convenções, ou o do saber viver. São muito parecidos, é compreensível.

Eu não. Como a vida à tripa-forra, com as mãos, os pés e a pila. Mordo-a, fodo-a e bebo-a porque cada vida é um dia, um dia e uma noite. Acordas morto e ressuscitas e vives e morres de novo tudo de seguida, todos os dias, cada dia.

Depois, claro, vomito-a nas esquinas da dor. Que isto de viver não é só comer e beber e foder e morrer. Há que sofrer e vomitar.

E viver.

É giro

Um gajo bate punhetas ao papel e saem palavras.