30.9.14
29.9.14
Apego e desapego
Quem como eu não tem onde cair morto - em todos os sentidos da expressão, desde não ter terra nem casa a não ter dinheiro - apega-se por vezes a coisas ou outras pessoas de uma forma estúpida para alguns.
Por várias razões, dizem: as pessoas têm pernas e cabeça e podem abandonar-nos; as coisas podem partir-se, ser roubadas ou nós decidirmos dá-las a alguém que delas precise ou as mereça.
Uma vez estava apaixonado por uma senhora. Só agora o sei, retrospectivamente. De muitos amores e apegos só nos apercebemos depois. Veio ao restaurante onde eu jantava em Alcântara para me dizer que não queria mais nada comigo. Eu sabia, esperava, e fingi que não fiquei muito magoado. Mas fiquei. Tinha acabado de jantar. Deixei a bicicleta no sítio onde sempre a deixava quando ia àquele restaurante e fui com ela de carro. Foi no jardim à frente do MNAA que me deu a notícia. Fê-lo com sensibilidade e ternura e graça, porque era uma senhora. Ainda é, suponho. Nunca mais a vi.
Mas quando me levou de volta ao restaurante a minha bicicleta tinha desaparecido. Era uma Peugeot encarnada, linda e veloz.
A senhora levou-me a casa - eu vivia então num tugúrio de dezanove metros quadrados no Príncipe Real - ; deixou-me na esquina do quiosque do senhor Oliveira. Era Novembro, creio. Chovia e a noite estava fria e escura. Eu tinha a minha gabardine e um chapéu verde, em pelo de coelho, do qual gostava muito e que anos mais tarde esqueci num táxi em Alfama.
Por várias razões, dizem: as pessoas têm pernas e cabeça e podem abandonar-nos; as coisas podem partir-se, ser roubadas ou nós decidirmos dá-las a alguém que delas precise ou as mereça.
Uma vez estava apaixonado por uma senhora. Só agora o sei, retrospectivamente. De muitos amores e apegos só nos apercebemos depois. Veio ao restaurante onde eu jantava em Alcântara para me dizer que não queria mais nada comigo. Eu sabia, esperava, e fingi que não fiquei muito magoado. Mas fiquei. Tinha acabado de jantar. Deixei a bicicleta no sítio onde sempre a deixava quando ia àquele restaurante e fui com ela de carro. Foi no jardim à frente do MNAA que me deu a notícia. Fê-lo com sensibilidade e ternura e graça, porque era uma senhora. Ainda é, suponho. Nunca mais a vi.
Mas quando me levou de volta ao restaurante a minha bicicleta tinha desaparecido. Era uma Peugeot encarnada, linda e veloz.
A senhora levou-me a casa - eu vivia então num tugúrio de dezanove metros quadrados no Príncipe Real - ; deixou-me na esquina do quiosque do senhor Oliveira. Era Novembro, creio. Chovia e a noite estava fria e escura. Eu tinha a minha gabardine e um chapéu verde, em pelo de coelho, do qual gostava muito e que anos mais tarde esqueci num táxi em Alfama.
Consigo ver-me naquela noite triste: a chuva, a cabeça baixa, as mãos nos bolsos, perdido e sem a minha Peugeot encarnada.
De meu tenho pouco, quase nada: um móvel, meia dúzia de caixotes de livros e outros tantos caixotes com objectos que fui acumulando e trazendo de alguns dos sítios por onde passei. Tenho algumas pessoas a quem quero muito e, até ontem, uma bicicleta.
Ontem roubaram-me a Rolex Voadora.
Não é por acaso que gosto de quem ou do que gosto. Por isso os meus afectos tendem a durar e alguns não acabam nunca. O desapego aprende-se, claro. De Buddha a Jesus não há lider religioso que não lhe gabe as virtudes, a necessidade ou a sageza.
Apesar disso prefiro o apego. Doloroso e efémero que seja, longos e
solitários que sejam os caminhos pelos quais nos leva - prefiro o apego.
Não somos o que temos, mas somos o que perdemos.
Já não tenho a Rolex Voadora como já não tenho muita gente e muitas coisas na minha vida. Mas a minha vida é essas coisas, essas pessoas. Quer me tenham sido roubadas ou tenham partido de vontade própria; quer se tenham despedido de mim com graça e ternura ou sem uma palavra; quer me magoem ainda ou não sejam já mais do que a memória de uma noite triste.
Prefiro os apegos, o amor, o afecto, a ternura.
São prisões, eu sei. Mas que seria a liberdade se não pudesse escolher prisões?
São prisões, eu sei. Mas que seria a liberdade se não pudesse escolher prisões?
28.9.14
Casas, corpos
Conheço uma casa como conheço um corpo: quando por eles posso navegar sem luz e sem medo de bater nas paredes.
26.9.14
Diário de Bordos - Porto, 26-09-2014
Não. Não. Não. Não. Não. Não.
Sinto-me numa escola de freiras a pedir namoro às alunas, ou em S. Luís a tentar trocar uma nota de vinte reais (se fosse de cinquenta nem responderiam. Pensariam simplesmente que era um marciano).
Estou em Santa Apolónia a tentar levar a bicicleta para o Porto num comboio Intercidades, escolhido porque pensei que teria mais probabilidades do que num Alfa.
Não tenho.
Pelo menos em teoria. Portugal sendo Portugal a cada pequeno hitler (ou, vá lá, funcionário cumpridor) corresponde uma pessoa compreensiva, sensata, moderada na aplicação das regras - numa palavra: portuguesa -. (Aproveito para aqui agradecer aos dois revisores da CP que me permitiram pôr a bicicleta nos comboios - de resto em locais já equipados para elas -. Ninguém me explicou porque não se pode levar bicicletas, mas eu suponho que a CP queira ter todos os comboios equipados com aqueles ganchos. Suponho, não sei).
De maneira a Rolex Voadora foi ao Porto, de comboio. E voltou. Com a mania de que agora se chama Rolex Trepadora, mas isso passa-lhe.
"Sobe? Não faz mal. Depois desce" é o que costumo responder quando me falam numa potencialmente terrível subida. É verdade, Tudo na vida se equilibra, ou quase. Se sobe desce e se agora desce em breve subirá. Se hoje vais a um largo em breve estarás à bolina. A glória fugaz de uma descida, por mais longa que seja, será sempre compensada pela miséria de uma subida. Ou quase.
Em Lisboa há subidas longas e subidas íngremes; mas poucas o são simultaneamente. No Porto é o contrário: raras são apenas curtas ou apenas íngremes. Mas a Rolex portou-se bem, mostrou o que vale e ao que veio e galgou aquelas calçadas como se tivesse ao guiador um Eddie Merckx (um bocadinho mais lento, verdade seja dita).
Depois furou um pneu, mas enfim. De epifenómenos não reza a história.
........
Pela primeira de muitas vezes uma estadia no Porto foi demasiada curta. O tempo ajudou, claro. E as companhias. E a tradicional simpatia das pessoas ou a qualidade da comida, que são as mesmas de sempre. Mas não foi só isso. A cidade mudou, parece mais leve e aberta e menos complexada em relação a Lisboa do que era.
E não me refiro aos bares e restaurantes, que são muito iguais aos de todo o lado. Refiro-me às pessoas, à dinâmica da cidade, aos discursos que fui ouvindo aqui e ali.
........
Passeio pela margem do Douro. Uma embarcação da Douro Azul largava. Fizemos um pedaço do caminho juntos. Lembrei-me do meu Pai, que fez literalmente à força de braços a navegabilidade do Douro.
Foi a grande viagem da vida dele. A próxima vez que for ao Porto refarei esse trajecto, refastalado numa cadeira a beber um copo de vinho. E ver-te-ei, Pai, nas margens a passar cabos porque a barragem abriu antes da hora, ou porque vinha mais água do que o previsto; ver-te-ei a subir o rio com não sei quantos batelões e um rebocador insuficiente para o trabalho; ver-te-ei a falar com os tripulantes, tu que tanto jeito tinhas para as pessoas e tão respeitado eras.
Sinto-me numa escola de freiras a pedir namoro às alunas, ou em S. Luís a tentar trocar uma nota de vinte reais (se fosse de cinquenta nem responderiam. Pensariam simplesmente que era um marciano).
Estou em Santa Apolónia a tentar levar a bicicleta para o Porto num comboio Intercidades, escolhido porque pensei que teria mais probabilidades do que num Alfa.
Não tenho.
Pelo menos em teoria. Portugal sendo Portugal a cada pequeno hitler (ou, vá lá, funcionário cumpridor) corresponde uma pessoa compreensiva, sensata, moderada na aplicação das regras - numa palavra: portuguesa -. (Aproveito para aqui agradecer aos dois revisores da CP que me permitiram pôr a bicicleta nos comboios - de resto em locais já equipados para elas -. Ninguém me explicou porque não se pode levar bicicletas, mas eu suponho que a CP queira ter todos os comboios equipados com aqueles ganchos. Suponho, não sei).
De maneira a Rolex Voadora foi ao Porto, de comboio. E voltou. Com a mania de que agora se chama Rolex Trepadora, mas isso passa-lhe.
"Sobe? Não faz mal. Depois desce" é o que costumo responder quando me falam numa potencialmente terrível subida. É verdade, Tudo na vida se equilibra, ou quase. Se sobe desce e se agora desce em breve subirá. Se hoje vais a um largo em breve estarás à bolina. A glória fugaz de uma descida, por mais longa que seja, será sempre compensada pela miséria de uma subida. Ou quase.
Em Lisboa há subidas longas e subidas íngremes; mas poucas o são simultaneamente. No Porto é o contrário: raras são apenas curtas ou apenas íngremes. Mas a Rolex portou-se bem, mostrou o que vale e ao que veio e galgou aquelas calçadas como se tivesse ao guiador um Eddie Merckx (um bocadinho mais lento, verdade seja dita).
Depois furou um pneu, mas enfim. De epifenómenos não reza a história.
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Pela primeira de muitas vezes uma estadia no Porto foi demasiada curta. O tempo ajudou, claro. E as companhias. E a tradicional simpatia das pessoas ou a qualidade da comida, que são as mesmas de sempre. Mas não foi só isso. A cidade mudou, parece mais leve e aberta e menos complexada em relação a Lisboa do que era.
E não me refiro aos bares e restaurantes, que são muito iguais aos de todo o lado. Refiro-me às pessoas, à dinâmica da cidade, aos discursos que fui ouvindo aqui e ali.
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Passeio pela margem do Douro. Uma embarcação da Douro Azul largava. Fizemos um pedaço do caminho juntos. Lembrei-me do meu Pai, que fez literalmente à força de braços a navegabilidade do Douro.
Foi a grande viagem da vida dele. A próxima vez que for ao Porto refarei esse trajecto, refastalado numa cadeira a beber um copo de vinho. E ver-te-ei, Pai, nas margens a passar cabos porque a barragem abriu antes da hora, ou porque vinha mais água do que o previsto; ver-te-ei a subir o rio com não sei quantos batelões e um rebocador insuficiente para o trabalho; ver-te-ei a falar com os tripulantes, tu que tanto jeito tinhas para as pessoas e tão respeitado eras.
25.9.14
Imagina a música
Imagina por exemplo agora - agora mesmo - a música.
Estás deitada ao meu lado, percorro-te a pele com o indicador direito. Imagina a música: percorres-me o olhar com os seios, os dois. Música: um dedo e dois seios.
Dois desejos que lentamente se fundem num só. Duas peles em uma. Mãos que se afundam no outro como se o outro fosse um som numa noite de nevoeiro, vindo ou indo não se sabe de onde nem para onde.
Imagina a música: dois corpos que se amam e se perdem, duas peles que se procuram e se afastam, dois desejos.
Imagina a música: dois silêncios.
Estás deitada ao meu lado, percorro-te a pele com o indicador direito. Imagina a música: percorres-me o olhar com os seios, os dois. Música: um dedo e dois seios.
Dois desejos que lentamente se fundem num só. Duas peles em uma. Mãos que se afundam no outro como se o outro fosse um som numa noite de nevoeiro, vindo ou indo não se sabe de onde nem para onde.
Imagina a música: dois corpos que se amam e se perdem, duas peles que se procuram e se afastam, dois desejos.
Imagina a música: dois silêncios.
Abismo(s)
Quero perder-me. Suplico: encontrem-me um abismo. Penso nas flechas de Ulisses, tão certeiras. Penso na tempestade do Narcissus. Nos fósforos do London. Nos milhares de abismos que até hoje li, vivi, sonhei.
Nenhum deles chega aos calcanhares do que procuro: o teu olhar, saciada e grata.
Nenhum deles chega aos calcanhares do que procuro: o teu olhar, saciada e grata.
Noite, abismo
É muito noite. Isto é: é muito noite sem ti. Contigo não há noite. Há luz. Há - como dizer o contrário de noite, quando todos sabemos que a noite não tem antónimos? - uma coisa que prolonga a noite.
Como se de repente a noite se vestisse de pele e de arrepios e de um fremir quase mudo, quase nocturno, como se de repente a noite se vestisse de orvalho e nós nela navegássemos como se de cada gota fizéssemos um mar, o mar: o Atlântico. O Pacífico. O Índico.
Cada pele é um mar e cada mar uma noite e cada noite uma vaga.
E eu? E tu? Onde estamos nessas noites que nos perderam, nas quais nos perdemos, que se perderam, que perdemos?
Noite? Que é a noite sem ti? Que é o abismo?
Como se de repente a noite se vestisse de pele e de arrepios e de um fremir quase mudo, quase nocturno, como se de repente a noite se vestisse de orvalho e nós nela navegássemos como se de cada gota fizéssemos um mar, o mar: o Atlântico. O Pacífico. O Índico.
Cada pele é um mar e cada mar uma noite e cada noite uma vaga.
E eu? E tu? Onde estamos nessas noites que nos perderam, nas quais nos perdemos, que se perderam, que perdemos?
Noite? Que é a noite sem ti? Que é o abismo?
Imagina
É preciso imaginares um labirinto cheio de luz. Nele um cego tacteia. Não sabe quando anda para trás, para a frente, para os lados. Anda e tacteia. Um cego num labirinto cheio de luz, imagina.
Por vezes encontra um corpo. Outras uma mente. Imagina: um cego tacteia e encontra uma mente.
Que há numa mente? Nada: ar. Ideias. Desejos. Sonhos. Memórias. Passados. Nada.
Compara por exemplo uma mente com um corpo. Que há num corpo? Pele. Mamas. Um ventre. Mãos. Coxas que te encerram e encerram o cego num labirinto cheio de luz do qual ele nada vê. Imagina: um cego num labirinto feito por duas coxas que o apertam tanto que ele vê. Finalmente ele vê.
Que vê o cego? Duas mamas. Se estiver suficientemente longe. Se não apenas uma. Duas mãos. Idem. Duas vidas. Idem. Ad infinitum: só vês a dobrar quando estás longe. De perto, tudo é um. Imagina um corpo. Imagina uma vida ávida de ti. Imagina um olhar.
Uma vida ávida de ti. Qual a diferença entre essa vida e outra a quem tu indiferes? Um olhar. Qual a diferença entre esse olhar que te olha e te come e te percorre a pele e pede e diz sim e outro que não te vê sequer? Nenhuma.
Cego. Imagina.
Por vezes encontra um corpo. Outras uma mente. Imagina: um cego tacteia e encontra uma mente.
Que há numa mente? Nada: ar. Ideias. Desejos. Sonhos. Memórias. Passados. Nada.
Compara por exemplo uma mente com um corpo. Que há num corpo? Pele. Mamas. Um ventre. Mãos. Coxas que te encerram e encerram o cego num labirinto cheio de luz do qual ele nada vê. Imagina: um cego num labirinto feito por duas coxas que o apertam tanto que ele vê. Finalmente ele vê.
Que vê o cego? Duas mamas. Se estiver suficientemente longe. Se não apenas uma. Duas mãos. Idem. Duas vidas. Idem. Ad infinitum: só vês a dobrar quando estás longe. De perto, tudo é um. Imagina um corpo. Imagina uma vida ávida de ti. Imagina um olhar.
Uma vida ávida de ti. Qual a diferença entre essa vida e outra a quem tu indiferes? Um olhar. Qual a diferença entre esse olhar que te olha e te come e te percorre a pele e pede e diz sim e outro que não te vê sequer? Nenhuma.
Cego. Imagina.
De nada; futuros
De nada. Ponto. Foi assim. Dois pontos. Lembro-me do teu ventre e dos teus olhos e das tuas mamas e da tua ausência. Eu em ti e tu tão longe. Ponto. Talvez por isso tenha tanta vontade de ti. Ponto. Nada me atrai mais do que a distância. Dois pontos. Dois olhos. Os teus. Duas mãos. As tuas. Duas mamas e duas coxas. Dois suspiros e dois olhares. Os nossos. Ponto. Desencontrados.
De resto nada. Mar. Vento. Ruas. Ruas que se cruzam e desencontram. Pernas: braços: mãos: tudo.
Um corpo dois corpos três futuros. Nadas. Olhares. Mãos. Corpos desencontrados. Futuros.
Sem abrigo.
De resto nada. Mar. Vento. Ruas. Ruas que se cruzam e desencontram. Pernas: braços: mãos: tudo.
Um corpo dois corpos três futuros. Nadas. Olhares. Mãos. Corpos desencontrados. Futuros.
Sem abrigo.
Lisboa, reatar
Reatamos, Lisboa, como dois velhos amantes que um do outro conhecem os truques todos.
23.9.14
Os monstros
A mesa és tu e sem cerimónia eles chegam e sentam-se e repastam. Deixam-te exausta, seca e vazia como uma fonte abandonada, aterrorizada, insone; como se se alimentassem de ti e não simplesmente em ti.
Conhecem-te. Amam-te. Foste tu que os fizeste.
Conhecem-te. Amam-te. Foste tu que os fizeste.
22.9.14
Dar-te Lisboa a ver
Dar-te Lisboa a ver, dar-te de Lisboa os braços aconchegantes, as ruas tranquilas, o sorriso. Dar-te de Lisboa a ternura, o tempo suspenso em cada parede, o rio mergulhado em luz, de cada esquina a memória, de cada esquina a vida que te espera a cada esquina, a beleza palpável do vento.
Dar-te de Lisboa o amor, como se te me desse.
Dar-te de Lisboa o amor, como se te me desse.
Diário de Bordos - Lisboa, 22-09-2014
Devo ter chegado à Pastelaria Nortenha, um estabelecimento digno, clássico, respeitável em Algés com o olhar ligeiramente esgazeado do ciclista, que lhe vem da felicidade; ou pelo menos do bem estar. A descida de Carnaxide para Algés, ao ar fresco e picante das oito da manhã é gloriosa.
Nunca a minha Rolex voadora tanto mereceu o epíteto.
E nunca eu tanto fiz de Lisboa como estes dois dias. Lx Factory, pizzeria Casanova, café Tati, o sublime passeio da beira-Tejo ao fim do dia e de manhã, a pastelaria Versailles, o Museu Nacional de Arte Antiga, cujo jardim há tanto tempo não visitava.
E tudo indica que tive muita sorte, porque a manter-se esta chuva não sei se poderei voltar a sobrevoar as ruas de Lisboa na minha Rolex.
Nunca a minha Rolex voadora tanto mereceu o epíteto.
E nunca eu tanto fiz de Lisboa como estes dois dias. Lx Factory, pizzeria Casanova, café Tati, o sublime passeio da beira-Tejo ao fim do dia e de manhã, a pastelaria Versailles, o Museu Nacional de Arte Antiga, cujo jardim há tanto tempo não visitava.
E tudo indica que tive muita sorte, porque a manter-se esta chuva não sei se poderei voltar a sobrevoar as ruas de Lisboa na minha Rolex.
21.9.14
Boas Almas
Uma grande cabeleira ruiva encaracolada à volta de um rosto comprido, ligeiramente cavalar, de grandes dentes brancos à vista num sorriso permanente. É decerto inglesa ou irlandesa e trabalha num daqueles organismos sociais cuja função principal é ajudar senhoras de sorriso beato a encontrar um marido, ou enganar o que já têm. Ao mesmo tempo ajudam-se os pobres, as crianças que têm sede ou, sei lá, gatos que perderam os bigodes ou nunca os tiveram.
Boas almas, claro. E intenções.
Boas almas, claro. E intenções.
Pina Bausch
De dança sei zero. Da gravidade pouco: nove vírgula oito metros por segundo ao quadrado. Da leveza apenas que não é ausência de gravidade. É muito mais.
Mas de vida e dor sei; de emoções e sentimentos - já por cá todos passaram e voltarão -. Da solidão e da graça, da beleza e das interrogações sem respostas, da magia e do génio, do medo e do abismo. Daquilo que transforma o tempo em eternidade.
Pina Bausch de Wenders no Intendente. Por vezes sentia-me numa estação de caminhos de ferro: as baias iluminadas em contra-luz pelos faróis dos automóveis na Almirante Reis, vultos atentos na escuridão, um grande painel de avisos a falar de infinito e de movimentos e da beleza das paisagens da alma. Todas, mesmo as mais obscuras.
Mas de vida e dor sei; de emoções e sentimentos - já por cá todos passaram e voltarão -. Da solidão e da graça, da beleza e das interrogações sem respostas, da magia e do génio, do medo e do abismo. Daquilo que transforma o tempo em eternidade.
Pina Bausch de Wenders no Intendente. Por vezes sentia-me numa estação de caminhos de ferro: as baias iluminadas em contra-luz pelos faróis dos automóveis na Almirante Reis, vultos atentos na escuridão, um grande painel de avisos a falar de infinito e de movimentos e da beleza das paisagens da alma. Todas, mesmo as mais obscuras.
19.9.14
Diário de Bordos - Belém, Pará, Brasil, 19-09-2014
Chego a Belém depois de uma viagem de treze horas de autocarro. Brasil sendo Brasil o veículo que fez a viagem é diferente do que estava no plano onde o jovem senhor do guichet me instou a escolher o lugar.
Que importa? Tudo passa quando se chega ao A-Ver-o-Peso, um dos meus mercados favoritos, à beira do Amazonas, ponto de partida e ponto de chegada para tudo o que a humanidade produz, seja onde for. Peço ao taxista que me deixe ali, e acabo o trajecto a pé.
Sinto-me numa colmeia da qual a rainha se embebedou e as abelhas tentam organizar-se sem ela.
O mercado é grande, ocupa vários edifícios e está arrumado por sectores: peixe, comida, produtos manufacturados, tascas. As ervas, frutas, comidas cheiram maravilhosamente. Não há melhor maneira de avaliar a qualidade do peixe do que pelo cheiro, e um mercado de peixe que não cheire mal é sempre um prazer.
Há muitos que não conheço: peixes do rio, alguns enormes, com nomes como filhote (imagino o tamanho dos pais). Envolvo-me num diálogo à desgarrada com um dos vendedores, como um quibe, procuro em vão um café sem açúcar.
Amanhã.
Espera-me mais uma noite de viagem, uma só. Agora espera-me Belém do Pará, e é nela que me vou perder.
Que importa? Tudo passa quando se chega ao A-Ver-o-Peso, um dos meus mercados favoritos, à beira do Amazonas, ponto de partida e ponto de chegada para tudo o que a humanidade produz, seja onde for. Peço ao taxista que me deixe ali, e acabo o trajecto a pé.
Sinto-me numa colmeia da qual a rainha se embebedou e as abelhas tentam organizar-se sem ela.
O mercado é grande, ocupa vários edifícios e está arrumado por sectores: peixe, comida, produtos manufacturados, tascas. As ervas, frutas, comidas cheiram maravilhosamente. Não há melhor maneira de avaliar a qualidade do peixe do que pelo cheiro, e um mercado de peixe que não cheire mal é sempre um prazer.
Há muitos que não conheço: peixes do rio, alguns enormes, com nomes como filhote (imagino o tamanho dos pais). Envolvo-me num diálogo à desgarrada com um dos vendedores, como um quibe, procuro em vão um café sem açúcar.
Amanhã.
Espera-me mais uma noite de viagem, uma só. Agora espera-me Belém do Pará, e é nela que me vou perder.
18.9.14
O que é a vida - II?
Daqui a quatorze horas estarei a reconhecer Belém. Daqui trinta e seis delas estarei a reconhecer Lisboa.
Não é reconhecer. É reatar com.
Não é reconhecer. É reatar com.
Je ne comprends pas (premier d'une série infinite)
Je ne comprends pas pourquoi se ruent les gens sur les derniers disques parus, quando on sait que s'ils sont bons d'ici dix ans ou pourra encore les écouter.
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