29.10.14
Vida, presente
Espremer o passado como se fosse um limão e dele viesse um sumo doce: a vida, o presente.
28.10.14
Notas, destinos
Uma nota suspensa no vazio que às vezes deixa de ser vazio e à qual outras por vezes se juntam.
Que destino dar a isto tudo?
Que destino dar a isto tudo?
Vida, silêncio
Uma vez tudo dito descobrimos com espanto que tudo ficou por dizer. Deve ser essa uma das imagens da vida: quantas mais poderíamos viver?
Vida, puzzle
A vida é um puzzle que nem na morte fica completo. Viver não é mais do que procurar as peças que faltam, encaixá-las e fazer o que se pode para que faltem poucas quando morrermos.
Felicidade?
Não sei descrever a felicidade. É como para um céptico descrever um encontro com extra-terrestres, ou com a virgem de Fátima. Mas sei senti-la. Sei vivê-la.
Talvez tenha a ver com o tempo: olhar-se para o futuro e ver um caminho, para o passado e ver um sentido. Com uma descoberta: as coisas são o que são mas não o que serão, nem o que foram.
Ou com a memória: a felicidade é uma casa varrida e limpa.
Talvez tenha a ver com o tempo: olhar-se para o futuro e ver um caminho, para o passado e ver um sentido. Com uma descoberta: as coisas são o que são mas não o que serão, nem o que foram.
Ou com a memória: a felicidade é uma casa varrida e limpa.
27.10.14
O mar e os pedantes
O mar não gosta de pedantes; dá-se mal com eles. E tem uma maneira simples, milenar, de os tratar: um sopro e um bocadinho de cuspo.
22.10.14
Diário de Bordos - Lisboa, 21-10-2014 (cont.)
Vim à Pensão Amor ouvir um grupo chamado Moi Moi (duas pequenas de vinte anos giras e talentosas). Em algumas das músicas tocava o meu amigo António Vasconcelos Dias. O António é um sublime baterista, simultaneamente discreto e presente. As miúdas cantam muito bem e são giras.
Quando eu tinha vinte anos Lisboa era muito pior do que é hoje.
Eu também. Milagre é que sejamos os mesmos, tantos anos passados.
Quando eu tinha vinte anos Lisboa era muito pior do que é hoje.
Eu também. Milagre é que sejamos os mesmos, tantos anos passados.
21.10.14
Almoço improvisado - Lulas no forno
Para o fundo de uma travessa de barro foi azeite e um bocadinho de óleo de sésamo, cebola cortada às rodelas finas, três dentes de alho en chemise, outras tantas folhas de louro, seis lulas cortadas às rodelas e respectivas patinhas, tão bonitas e tão boas, um bocadinho de vinho branco e um bom molho de coentros picados fino.
Tudo isto foi polvilhado com sal, pimenta, paprika, cominhos secos e misturado, muito bem.
Depois foi tudo para o forno a cento e cinquenta graus e por lá ficou "até estar cozido", como dizia a minha Mãe quando me dava uma receita.
Tudo isto foi polvilhado com sal, pimenta, paprika, cominhos secos e misturado, muito bem.
Depois foi tudo para o forno a cento e cinquenta graus e por lá ficou "até estar cozido", como dizia a minha Mãe quando me dava uma receita.
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Receitas
Diário de Bordos - Lisboa, 21-10-2014
Poesia e vinho na sexta, jazz no domingo, poesia e moda na segunda. Lisboa não está para quem gosta simultaneamente de arte e de descanso. Está para quem gosta de arte e de viver; e de civilização. E para quem gosta de percorrer ruas que o conhecem.
Eu gosto e acorro, apesar de também gostar de descanso e de me deitar cedo.
........
Poesia e moda: a poesia é séria, a moda frívola e nunca os dois se encontrarão, como o Este e o Oeste de Rudyard Kipling?
Não sei. A frivolidade é tão séria como a seriedade, tão importante e necessária. Poucos foram os poemas bem escolhidos. Fernanda Câncio mostrou o lado seco e eficaz da inteligência; Manuel João Vieira o alegre, humorístico, leve. O bom, em suma. E mais produtivo; ou proveitoso. Mas isso é outra história. A verdade é que uma das coisas que me levou hoje ao Povo foi a dificuldade do tema. Ou seja: a sua irresistibilidade.
Dos outros pouco se salva: uma actriz não sabe que a poesia se escreve de uma forma e lê de outra, diferente; uma poeta - por sinal muito bonita, o que para o caso é irrelevante mas não desagradável - acha que a poesia deve ser profunda. O vazio é palavroso sempre e às vezes denso. De certa forma compreende-se: vazio é um dos antónimos de silêncio e este dispensa bem o excesso de palavras, a profundidade; e outros efeitos.
Declamar poesia é uma das formas de a desprezar - caso o declamador a compreenda, claro -; se não é simplesmente uma forma de incompreensão.
A poesia naïve esteve notoriamente ausente, graças a Deus.
Depois dos convidados houve um "microfone aberto": globalmente melhor do que o microfone fechado. Ao fim e ao cabo penso na noite, oiço Manuel João Vieira e penso "Que grande noite de talento". E foi. Na próxima estarei lá caído, coisa que me inquieta: já andava à espera dos domingos. Agora das segundas. E amanhã?
........
Um dos poemas da noite. Descobri-o hoje, pela voz de Fernanda Câncio. Escolheu o desejo como eixo de abordagem da moda e escolheu poemas bons. Leu-os bem, se bem sem alma, sem verve, sem humor.
To Helena
Acabo de inventar um novo advérbio: helenamente
A maneira mais triste de se estar contente
a de estar mais sozinho em meio de mais gente
de mais tarde saber alguma coisa antecipadamente
Emotiva atitude de quem age friamente
inalterável forma de se ser sempre diferente
maneira mais complexa de viver mais simplesmente
de ser-se o mesmo sempre e ser surpreendente
de estar num sítio tanto mais se mais ausente
e mais ausente estar se mais presente
de mais perto se estar se mais distante
de sentir mais o frio em tempo quente
O modo mais saudável de se estar doente
de se ser verdadeiro e revelar-se que se mente
de mentir muito verdadeiramente
de dizer a verdade falsamente
de se mostrar profundo superficialmente
de ser-se o mais real sendo aparente
de menos agredir mais agressivamente
de ser-se singular se mais corrente
e mais contraditório quanto mais coerente
A via enviesada para ir-se em frente
a treda actuação de quem actua lealmente
e é tão impassível como comovente
O modo mais precário de ser mais permanente
de tentar tanto mais quanto menos se tente
de ser pacífico e ao mesmo tempo combatente
de estar mais no passado se mais no presente
de não se ter ninguém e ter em cada homem um parente
de ser tão insensível como quem mais sente
de melhor se curvar se altivamente
de perder a cabeça mas serenamente
de tudo perdoar e todos justiçar dente por dente
de tanto desistir e de ser tão constante
de articular melhor sendo menos fluente
e fazer maior mal quando se está mais inocente
É sob aspecto frágil revelar-se resistente
é para interessar-se ser indiferente
Quando helena recusa é que consente
se tão pouco perdoa é por ser indulgente
baixa os olhos se quer ser insolente
Ninguém é tão inconscientemente consciente
tão inconsequentemente consequente
Se em tantos dons abunda é por ser indigente
e só convence assim por não ser muito convincente
e melhor fundamenta o mais insubsistente
Acabo de inventar um novo advérbio: helenamente
O mar a terra o fumo a pedra simultaneamente
Ruy Belo
........
E que tal Lisboamente? Lisboa na mente? Lis mente, como em felizmente?
........
Falar de moda é falar de incompreensão, de incapacidade, de solidão; de estar ao lado, estar de fora, estar na margem.
Sem ela que seria de nós?
Eu gosto e acorro, apesar de também gostar de descanso e de me deitar cedo.
........
Poesia e moda: a poesia é séria, a moda frívola e nunca os dois se encontrarão, como o Este e o Oeste de Rudyard Kipling?
Não sei. A frivolidade é tão séria como a seriedade, tão importante e necessária. Poucos foram os poemas bem escolhidos. Fernanda Câncio mostrou o lado seco e eficaz da inteligência; Manuel João Vieira o alegre, humorístico, leve. O bom, em suma. E mais produtivo; ou proveitoso. Mas isso é outra história. A verdade é que uma das coisas que me levou hoje ao Povo foi a dificuldade do tema. Ou seja: a sua irresistibilidade.
Dos outros pouco se salva: uma actriz não sabe que a poesia se escreve de uma forma e lê de outra, diferente; uma poeta - por sinal muito bonita, o que para o caso é irrelevante mas não desagradável - acha que a poesia deve ser profunda. O vazio é palavroso sempre e às vezes denso. De certa forma compreende-se: vazio é um dos antónimos de silêncio e este dispensa bem o excesso de palavras, a profundidade; e outros efeitos.
Declamar poesia é uma das formas de a desprezar - caso o declamador a compreenda, claro -; se não é simplesmente uma forma de incompreensão.
A poesia naïve esteve notoriamente ausente, graças a Deus.
Depois dos convidados houve um "microfone aberto": globalmente melhor do que o microfone fechado. Ao fim e ao cabo penso na noite, oiço Manuel João Vieira e penso "Que grande noite de talento". E foi. Na próxima estarei lá caído, coisa que me inquieta: já andava à espera dos domingos. Agora das segundas. E amanhã?
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Um dos poemas da noite. Descobri-o hoje, pela voz de Fernanda Câncio. Escolheu o desejo como eixo de abordagem da moda e escolheu poemas bons. Leu-os bem, se bem sem alma, sem verve, sem humor.
To Helena
Acabo de inventar um novo advérbio: helenamente
A maneira mais triste de se estar contente
a de estar mais sozinho em meio de mais gente
de mais tarde saber alguma coisa antecipadamente
Emotiva atitude de quem age friamente
inalterável forma de se ser sempre diferente
maneira mais complexa de viver mais simplesmente
de ser-se o mesmo sempre e ser surpreendente
de estar num sítio tanto mais se mais ausente
e mais ausente estar se mais presente
de mais perto se estar se mais distante
de sentir mais o frio em tempo quente
O modo mais saudável de se estar doente
de se ser verdadeiro e revelar-se que se mente
de mentir muito verdadeiramente
de dizer a verdade falsamente
de se mostrar profundo superficialmente
de ser-se o mais real sendo aparente
de menos agredir mais agressivamente
de ser-se singular se mais corrente
e mais contraditório quanto mais coerente
A via enviesada para ir-se em frente
a treda actuação de quem actua lealmente
e é tão impassível como comovente
O modo mais precário de ser mais permanente
de tentar tanto mais quanto menos se tente
de ser pacífico e ao mesmo tempo combatente
de estar mais no passado se mais no presente
de não se ter ninguém e ter em cada homem um parente
de ser tão insensível como quem mais sente
de melhor se curvar se altivamente
de perder a cabeça mas serenamente
de tudo perdoar e todos justiçar dente por dente
de tanto desistir e de ser tão constante
de articular melhor sendo menos fluente
e fazer maior mal quando se está mais inocente
É sob aspecto frágil revelar-se resistente
é para interessar-se ser indiferente
Quando helena recusa é que consente
se tão pouco perdoa é por ser indulgente
baixa os olhos se quer ser insolente
Ninguém é tão inconscientemente consciente
tão inconsequentemente consequente
Se em tantos dons abunda é por ser indigente
e só convence assim por não ser muito convincente
e melhor fundamenta o mais insubsistente
Acabo de inventar um novo advérbio: helenamente
O mar a terra o fumo a pedra simultaneamente
Ruy Belo
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E que tal Lisboamente? Lisboa na mente? Lis mente, como em felizmente?
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Falar de moda é falar de incompreensão, de incapacidade, de solidão; de estar ao lado, estar de fora, estar na margem.
Sem ela que seria de nós?
20.10.14
Diário de Bordos - Lisboa, 20-10-2014
Ontem fui ao Café Tati ouvir jazz, beber vinho tinto e, se Deus tivesse querido, engrossar-me. Infelizmente não consegui. Cheguei a uma idade em que só me engrosso quando quero, mas nem sempre consigo apesar de querer.
Talvez no fundo não o desejasse suficientemente; talvez não precisasse.
O almoço foi bom, leve, fácil, num restaurante da margem sul à beira rio. Daqueles de onde Lisboa parece uma aldeia de brincar e o Tejo uma catedral gótica da qual as torres escorrem para o céu em vez de subirem.
O jazz veio depois.
As jam são lideradas por Gonçalo Marques, um líder seguro, conhecedor, atento. Do grupo habitual faz parte um contrabaixo, uma guitarra, uma bateria e um sax (não me lembro dos nomes de cada um deles). São todos bons, mas tenho uma atracção especial pelo baixo e pelo sax.
Em Genebra havia um gajo que tocava sax assim. Ouvia-se-lhe a primeira linha e pensava-se "Este gajo toca como um deus".
O de hoje é quase a mesma coisa, com uma diferença ou duas: tem frases mais curtas, mais secas (se bem nunca abruptas); e está muito cheio de si próprio. Precisa de aprender a esquecer-se um bocadinho.
A última vez que ouvi o saxofonista de Genebra foi numa festa no jardim da Universidade. Era um ambiente triste, glauco; a festa estava praticamente vazia. Ainda tenho fotografias dessa noite, indizivelmente tristes. Perguntei-lhe (isto passou-se largos anos depois de o ter ouvido pela primeira vez. Ele continuava tão conhecido apenas de um círculo restrito de pessoas como sempre fora) porque continuava no anonimato tão completo. "Bof. Je m'en fous d´être connu. C'est pas mon truc" respondeu e encolheu os ombros. Não me lembro do nome, mas ainda me lembro do seu jogo longo, arrastado (mas não meloso), como se dialogasse com aquele deus que claramente o habitava - pelo menos quando tocava saxofone - e lhe dissesse "Je m'en fous. Ils ne sont pas mon truc".
O saxofonista que ontem ouvi no café Tati toca como um deus, mas ainda não fala com ele. Está demasiado ocupado a ouvir-se.
........
Ouvi o Gonçalo falar com alguns dos músicos, antes da sessão começar. Fá maior, dó, fá maior, etc. (estou a inventar, não vão pensar que transcrevi uma composição qualquer). A minha perplexidade é a mesma do que a dele, provavelmente, se ouvisse um grupo de marinheiros comentar uma manobra. Com duas diferenças: nós temos mais notas, e somos menos generosos: as emoções que elas suscitam não são partilháveis.
........
Quem vive em Lisboa e não gosta de domingos devia considerar seriamente vir ao Tati às cinco da tarde desses dias fatais. Aposto que muda rapidamente de opinião e começa, como eu, a pedir que o próximo venha depressa.
O que teria sido preciso fazer em Lisboa há trinta anos para ouvir jazz assim? Apanhar um avião para Nova Iorque.
........
Ontem fui comprar flores ao mercado da Ribeira, para oferecer a uma senhora que vi chorar. Não gosto de ver senhoras chorar, apesar de ter uma certa inveja: se eu tivesse chorado cada vez que uma delas o quis teria os olhos mais bonitos do universo.
Enfim.
A verdade é que vi-a chorar e fui ao Mercado fazer qualquer coisa e passei à frente da loja de flores e comprei um ramo de já não sei o quê. Por detrás de seja qual for a razão que faz uma senhora chorar está sempre, inescapável, inelutavelmente uma injustiça.
As flores não servem apenas para combater injustiças, claro. Também servem para as prevenir ou, mais prosaicamente, para dar cor e natureza a uma casa; ou para mostrarmos a uma senhora que ela nos marcou, e que temos bom gosto.
Servem para tudo, as flores. Até para as oferecermos a nós próprios, nos dias em não há injustiças perto, ou senhoras que mereçam ser lembradas.
Talvez no fundo não o desejasse suficientemente; talvez não precisasse.
O almoço foi bom, leve, fácil, num restaurante da margem sul à beira rio. Daqueles de onde Lisboa parece uma aldeia de brincar e o Tejo uma catedral gótica da qual as torres escorrem para o céu em vez de subirem.
O jazz veio depois.
As jam são lideradas por Gonçalo Marques, um líder seguro, conhecedor, atento. Do grupo habitual faz parte um contrabaixo, uma guitarra, uma bateria e um sax (não me lembro dos nomes de cada um deles). São todos bons, mas tenho uma atracção especial pelo baixo e pelo sax.
Em Genebra havia um gajo que tocava sax assim. Ouvia-se-lhe a primeira linha e pensava-se "Este gajo toca como um deus".
O de hoje é quase a mesma coisa, com uma diferença ou duas: tem frases mais curtas, mais secas (se bem nunca abruptas); e está muito cheio de si próprio. Precisa de aprender a esquecer-se um bocadinho.
A última vez que ouvi o saxofonista de Genebra foi numa festa no jardim da Universidade. Era um ambiente triste, glauco; a festa estava praticamente vazia. Ainda tenho fotografias dessa noite, indizivelmente tristes. Perguntei-lhe (isto passou-se largos anos depois de o ter ouvido pela primeira vez. Ele continuava tão conhecido apenas de um círculo restrito de pessoas como sempre fora) porque continuava no anonimato tão completo. "Bof. Je m'en fous d´être connu. C'est pas mon truc" respondeu e encolheu os ombros. Não me lembro do nome, mas ainda me lembro do seu jogo longo, arrastado (mas não meloso), como se dialogasse com aquele deus que claramente o habitava - pelo menos quando tocava saxofone - e lhe dissesse "Je m'en fous. Ils ne sont pas mon truc".
O saxofonista que ontem ouvi no café Tati toca como um deus, mas ainda não fala com ele. Está demasiado ocupado a ouvir-se.
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Ouvi o Gonçalo falar com alguns dos músicos, antes da sessão começar. Fá maior, dó, fá maior, etc. (estou a inventar, não vão pensar que transcrevi uma composição qualquer). A minha perplexidade é a mesma do que a dele, provavelmente, se ouvisse um grupo de marinheiros comentar uma manobra. Com duas diferenças: nós temos mais notas, e somos menos generosos: as emoções que elas suscitam não são partilháveis.
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Quem vive em Lisboa e não gosta de domingos devia considerar seriamente vir ao Tati às cinco da tarde desses dias fatais. Aposto que muda rapidamente de opinião e começa, como eu, a pedir que o próximo venha depressa.
O que teria sido preciso fazer em Lisboa há trinta anos para ouvir jazz assim? Apanhar um avião para Nova Iorque.
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Ontem fui comprar flores ao mercado da Ribeira, para oferecer a uma senhora que vi chorar. Não gosto de ver senhoras chorar, apesar de ter uma certa inveja: se eu tivesse chorado cada vez que uma delas o quis teria os olhos mais bonitos do universo.
Enfim.
A verdade é que vi-a chorar e fui ao Mercado fazer qualquer coisa e passei à frente da loja de flores e comprei um ramo de já não sei o quê. Por detrás de seja qual for a razão que faz uma senhora chorar está sempre, inescapável, inelutavelmente uma injustiça.
As flores não servem apenas para combater injustiças, claro. Também servem para as prevenir ou, mais prosaicamente, para dar cor e natureza a uma casa; ou para mostrarmos a uma senhora que ela nos marcou, e que temos bom gosto.
Servem para tudo, as flores. Até para as oferecermos a nós próprios, nos dias em não há injustiças perto, ou senhoras que mereçam ser lembradas.
19.10.14
Imperfeições
A vida é feita de imperfeições. O que nos define - e distingue - é a forma como lidamos com elas.
As nossas ou as dos outros.
As nossas ou as dos outros.
16.10.14
14.10.14
Diacronias
Nunca te dás, nunca te deste, diz-me S., que me conhece como se me tivesse feito.
Não é verdade. Dou-me diacronicamente, é tudo. Tal como vivo, de resto.
Não é verdade. Dou-me diacronicamente, é tudo. Tal como vivo, de resto.
Venenos, espelhos
De espelhos percebo pouco. Mal olho para eles. De venenos gosto e sei. Agrada-me a ideia de morrer devagar. Adiar a morte. Morrer de viver. Não há veneno como a vida. É o melhor deles todos, o mais eficaz.
Um corpo feminino é um veneno para o qual há antídotos. Para uma mente feminina não. Por mente feminina entendo célere, agreste, cáustica, independente, aguda, irónica, autónoma.
Um corpo feminino é bonito quando é amado ou ignorado pela mente que o governa. Um corpo feminino que se pensa e vê é um veneno. E o antídoto não é uma mente, é a distância.
É difícil mas necessário aprender a distinguir venenos.
Um corpo feminino é um veneno para o qual há antídotos. Para uma mente feminina não. Por mente feminina entendo célere, agreste, cáustica, independente, aguda, irónica, autónoma.
Um corpo feminino é bonito quando é amado ou ignorado pela mente que o governa. Um corpo feminino que se pensa e vê é um veneno. E o antídoto não é uma mente, é a distância.
É difícil mas necessário aprender a distinguir venenos.
13.10.14
Lisboa, Costa e a excitação
A Rua das Pretas parece um rio. Lisboa é uma cidade excitante. Quem quer tirar António Costa da câmara?
Lisboa, Sociedade de Geografia
Se Deus existisse viveria em Lisboa; está mais ou menos estabelecido. E almoçaria todos os dias na Sociedade de Geografia. Isso não está, felizmente.
Morte, vidas
Já morri muitas vezes e não me importo nada de morrer mais algumas - desde que sobreviva, claro -.
A primeira foi na Rússia, num navio graneleiro que se estava a afundar numa água na qual não sobreviveríamos mais de dois minutos. Não tínhamos baleeiras, o frio era tanto que os turcos e respectivas talhas estavam congelados.
A última foi no Brasil, há quatro anos, para safar um barco que trazia a reboque meio afundado e cujo cabo de reboque partiu na entrada de um porto.
Aborrece-me falar da morte. É muito chata, nunca mais acaba. Prefiro falar das vidas: mudam, acabam, recomeçam, têm altos e baixos e fins e princípios.
Das vezes em que não morri: quando apanhei um ciclone a trezentas ou quatrocentas milhas da Martinique, por exemplo. Foram três dias, mas nunca tive a sensação de que ia morrer. O bote estava a aguentar-se, a tripulação unida e confiante.
Ou a segunda evacuação de Kindu, uma cidade no Leste do Congo que foi tomada pelas forças de Kabyla pai. Já por aqui contei a história, creio. Também desta vez não me pareceu que podia morrer. O exército zairense estava mais interessado em pilhar do que em matar fosse quem fosse.
A primeira foi na Rússia, num navio graneleiro que se estava a afundar numa água na qual não sobreviveríamos mais de dois minutos. Não tínhamos baleeiras, o frio era tanto que os turcos e respectivas talhas estavam congelados.
A última foi no Brasil, há quatro anos, para safar um barco que trazia a reboque meio afundado e cujo cabo de reboque partiu na entrada de um porto.
Aborrece-me falar da morte. É muito chata, nunca mais acaba. Prefiro falar das vidas: mudam, acabam, recomeçam, têm altos e baixos e fins e princípios.
Das vezes em que não morri: quando apanhei um ciclone a trezentas ou quatrocentas milhas da Martinique, por exemplo. Foram três dias, mas nunca tive a sensação de que ia morrer. O bote estava a aguentar-se, a tripulação unida e confiante.
Ou a segunda evacuação de Kindu, uma cidade no Leste do Congo que foi tomada pelas forças de Kabyla pai. Já por aqui contei a história, creio. Também desta vez não me pareceu que podia morrer. O exército zairense estava mais interessado em pilhar do que em matar fosse quem fosse.
Ressentimento
Não há ódios a posteriori. O ressentimento é o ódio do ressentido por si próprio que se enganou de alvo.
12.10.14
Carta aberta ao Meritíssimo Juiz
Meritíssimo Senhor Doutor Juiz,
Preciso de começar pelo essencial: não lhe escrevo esta carta para lhe pedir leniência. Quero ser julgado com rigor e objectividade. Porém não poderá julgar-me se não tiver todos os elementos em mão.
Nunca os terá completos, eu sei. Somos um puzzle (uns com mais outros com menos peças) do qual nunca se conhecerá o fim; que nunca - nem na morte - se verá feito e inteiro. Mas quanto menos peças faltarem mais fácil será a sua tarefa e justa a decisão.
O Meritíssimo Juiz não me perceberá talvez se eu lhe disser que mais do que conhecer cada rua desta cidade são elas, as ruas que me conhecem. Algumas mais do que outras, claro. Mas elas conhecem-me. Pelo nome - chamo-me António, como sabe - e pelo feitio, que não é fácil, reconheço.
Algumas ruas desta cidade conhecem-me como se me tivessem feito. E não é pelo andar: não ando sempre da mesma maneira. Por vezes tenho o andar um bocadinho bamboleante do marinheiro; outras, o andar muito bamboleante do homem bêbedo; outras ainda ando sóbrio, mas apressado, como os homens que têm um objectivo na vida e não o querem fazer esperar.
A minha maneira de andar varia muito, Meritíssimo Juiz. Não é por isso que as ruas me conhecem.
É porque já as calcorreei milhares de vezes, quase sempre sozinho e às vezes - raramente- acompanhado. Algumas, claro, Nem todas.
Por exemplo a rua onde esta desgraça aconteceu é das que mais vezes percorri - a correr para apanhar o último comboio, a subir depressa para fazer exercício, a andar devagar para ver cada uma das casas, a andar depressa porque é tarde e tenho de ir para casa -.
Desgraça é o termo adequado.
Imagine, Meritíssimo Juiz, que mal pus um pé na Rua do Alecrim ouvi uma pedra da calçada dizer para outra "Olha, vem aí o palerma do António". "Quem?" "Pá, o António das fisgas".
Ouvi este diálogo, Meritíssimo - juro-lhe - logo no princípio da rua. E fui-o ouvindo o caminho todo.
- Está sóbrio?
- Parece que sim.
- É aquele palerma que passa por aqui todos os dias?
- É. O gajo que a mulher deixou faz em Outubro um ano.
- Só me pergunto como é que ela o aguentou tanto tempo. A senhora tinha um aspecto impecável, lembras-te?
- Pouco. Nunca o gramei muito.
- Claro. Era um imbecil. Ainda é, ao que vejo.
Chamo-me António, como tão bem sabe, Meritíssimo Juiz.
Acredite: não ligo nenhuima aos insultos frequentes, variados, absurdos que me fazem. Estou-me nas tintas. As fisgas não dão muito dinheiro e esse gasto-o em livros, discos e vinho. O que os outros pensam interessa-me pouco - excepto, claro, se daí puder aprender alguma coisa -; o que pensam de mim é-me total, quase dolorosamente indiferente. Aliás nem me apercebi logo de que era de mim que estavam a falar. Acontece frequentemente eu não ouvir o que dizem à minha volta. A Ana, minha ex-mulher, chamava-me arrogante, desinteressado, ausente - dependia um bocadinho do seu humor.
Mas pedras da calçada, Meritíssimo? Pedras da calçada a falarem de mim e a dizerem coisas com as quais no fundo concordo? Pedras da calçada que me conhecem desde que vim viver para Lisboa, vai para quarenta anos?
Há quarenta anos que faço fisgas, Senhor Doutor Juiz. E ainda não apanhei um pássaro que se veja. Ou se é zarolho ou se é palerma, não acha? Como não sou zarolho... Q.E.D.
Enfim, regressemos à história: ouvi o primeiro comentário e não liguei. Foi logo mal pus o pé na rua do Alecrim. Vinha do Cais do Sodré e ia para o Rato. Esse e o trajecto entre o Cais do Sodré e o Rossio são os que mais fiz na vida. É por isso que as pedras da calçada me conhecem tão bem.
- Olha o palerma do gajo das fisgas.
- Bolas, já não lhe posso ver as solas.
- Pelo menos hoje não são as que têm buracos.
- Lembras-te daquela vez em que ele descobriu que tinha um buraco na sola porque começou a chover e molhou as meias?
- Se lembro. Ficou especado aqui mesmo ao meu lado, apoiado naquele portão...
Diálogos como este em plena rua do Alecrim, Senhor Doutor Juiz. Falavam das solas do sapatos - lembro-me perfeitamente desse dia: a sola tinha um buraco enorme, e eu não sabia, não tinha dado por ele. Começou a chover e claro, fiquei com a meia toda molhada e em pânico. Ia para uma reunião importante - um clube de caçadores com fisgas queria fazer uma encomenda grande - e eu ali especado, com um buraco na sola, a meia molhada... Enfim, lá acabei por acalmar. No caminho comprei um par de meias e mesmo antes de entrar para a reunião tirei umas e pus as outras e ninguém deu por nada -. Falavam de um dia em que vomitei na rua. E não foi por ter bebido, mas isso claro que nem vale a pena dizer, ninguém acredita. E verdade seja dita: quantas vezes não vomitei eu na rua por estar bêbedo?
Não sou nem estou maluco, Senhor Doutor Meritíssimo. Ouvia perfeitamente os comentários que as pedras faziam. Era o único, pelo que me apercebi. E se ouvissem? Ser-me-ia indiferente. Quem, naquela rua, sabe que sou o António das fisgas?
Mas não é fácil. Eu sei que não tenho um feitio muito bom. Aliás é por isso que as mulheres me deixam todas, umas a seguir às outras. Sou chato, teimoso, casmurro, às vezes mau com elas. Mas nunca, nunca, toquei numa mulher para lhe bater, Senhor Doutor. Sou contra a violência.
Por isso não percebo como consegui fazer o que fiz. É verdade que a vida não me tem corrido bem, ultimamente: desde que a Ana se foi embora tudo tem vindo por aí abaixo, tudo. Uma derrocada. Mas daí a matar um homem vai um passo que eu nunca pensei seria capaz de dar.
Vinha de baixo, da Praça Duque da Tereceira, como lhe disse. Ainda não ia a meio da rua do Alecrim já me parecia que a cabeça ia explodir. Reparei que as pessoas olhavam para mim desconfiadas: estava a tentar silenciar as pedras da calçada pisando-as com o talão dos sapatos. Como lhe disse sou relativamente indiferente ao que os outros pensam de mim. Mas a verdade é que aqueles olhares foram mais uma acha na fogueira.
Que fique claro, Senhor Doutor Juiz: tal com não sou nem estou maluco não sou estrangeiro ou revoltado. S!ou um cidadão calmo, pacato, que vive um pouco à margem da sociedade, mas não à margem da lei. Acredito na lei e nos efeitos benévolos da civilização.
Não acredito em Rousseau nem em bons selvagens. Os meus pais educaram-me correctamente. Estou longe de ser o melhor fabricante de fisgas do mundo mas estou igualmente longe de ser o pior.
Não sei o que me passou pela cabeça quando o preto me olhou de lado e esboçou um sorriso. Não sou racista, repare. Digo o preto como podia dizer o homem, ou o gordo, ou baixinho ou seja o que for. Enfim: não sei o que me passou pela cabeça quando o homem me olhou de lado e esboçou um sorriso.
Foi por isto, Senhor Doutor Juiz, que dei cabo dele. Não queria matá-lo, juro. Não queria sequer bater-lhe! Mas algo saltou nesta cabeça e enchi-o de murros e pontapés e acabei a dar-lhe com a cabeça nas pedras da calçada, a ver se as calava a elas, ou a ele. Não sei.
Não era eu que estava a bater no homem, Senhor Doutor Juiz. Eram quarenta anos de fisgas que não levam a lado nenhum, eram dez mulheres que me deixaram sem qualquer explicação - a última foi a Ana, Senhor Doutor, uma rapariga doce, tímida, bem educada que um dia pega nas suas coisas e me diz: Vou-me embora e foi, sem um adeus, um beijo, uma explicação. Vou-me embora.
As desgraças são para levar até ao fim: metade de uma desgraça é uma graça. "Um homem", dizem no Brasil, "ou se trata ou se mata". Mas nada disto me fez matar o senhor, coitado. Nada.
Não fui eu, Senhor Doutor Juiz quem matou o preto. Foram as minhas mãos e os meus pés, mas não a minha cabeça nem a minha vontade. Nem o sol. Foram as pedras da calçada, Senhor Doutor Juiz.
Preciso de começar pelo essencial: não lhe escrevo esta carta para lhe pedir leniência. Quero ser julgado com rigor e objectividade. Porém não poderá julgar-me se não tiver todos os elementos em mão.
Nunca os terá completos, eu sei. Somos um puzzle (uns com mais outros com menos peças) do qual nunca se conhecerá o fim; que nunca - nem na morte - se verá feito e inteiro. Mas quanto menos peças faltarem mais fácil será a sua tarefa e justa a decisão.
O Meritíssimo Juiz não me perceberá talvez se eu lhe disser que mais do que conhecer cada rua desta cidade são elas, as ruas que me conhecem. Algumas mais do que outras, claro. Mas elas conhecem-me. Pelo nome - chamo-me António, como sabe - e pelo feitio, que não é fácil, reconheço.
Algumas ruas desta cidade conhecem-me como se me tivessem feito. E não é pelo andar: não ando sempre da mesma maneira. Por vezes tenho o andar um bocadinho bamboleante do marinheiro; outras, o andar muito bamboleante do homem bêbedo; outras ainda ando sóbrio, mas apressado, como os homens que têm um objectivo na vida e não o querem fazer esperar.
A minha maneira de andar varia muito, Meritíssimo Juiz. Não é por isso que as ruas me conhecem.
É porque já as calcorreei milhares de vezes, quase sempre sozinho e às vezes - raramente- acompanhado. Algumas, claro, Nem todas.
Por exemplo a rua onde esta desgraça aconteceu é das que mais vezes percorri - a correr para apanhar o último comboio, a subir depressa para fazer exercício, a andar devagar para ver cada uma das casas, a andar depressa porque é tarde e tenho de ir para casa -.
Desgraça é o termo adequado.
Imagine, Meritíssimo Juiz, que mal pus um pé na Rua do Alecrim ouvi uma pedra da calçada dizer para outra "Olha, vem aí o palerma do António". "Quem?" "Pá, o António das fisgas".
Ouvi este diálogo, Meritíssimo - juro-lhe - logo no princípio da rua. E fui-o ouvindo o caminho todo.
- Está sóbrio?
- Parece que sim.
- É aquele palerma que passa por aqui todos os dias?
- É. O gajo que a mulher deixou faz em Outubro um ano.
- Só me pergunto como é que ela o aguentou tanto tempo. A senhora tinha um aspecto impecável, lembras-te?
- Pouco. Nunca o gramei muito.
- Claro. Era um imbecil. Ainda é, ao que vejo.
Chamo-me António, como tão bem sabe, Meritíssimo Juiz.
Acredite: não ligo nenhuima aos insultos frequentes, variados, absurdos que me fazem. Estou-me nas tintas. As fisgas não dão muito dinheiro e esse gasto-o em livros, discos e vinho. O que os outros pensam interessa-me pouco - excepto, claro, se daí puder aprender alguma coisa -; o que pensam de mim é-me total, quase dolorosamente indiferente. Aliás nem me apercebi logo de que era de mim que estavam a falar. Acontece frequentemente eu não ouvir o que dizem à minha volta. A Ana, minha ex-mulher, chamava-me arrogante, desinteressado, ausente - dependia um bocadinho do seu humor.
Mas pedras da calçada, Meritíssimo? Pedras da calçada a falarem de mim e a dizerem coisas com as quais no fundo concordo? Pedras da calçada que me conhecem desde que vim viver para Lisboa, vai para quarenta anos?
Há quarenta anos que faço fisgas, Senhor Doutor Juiz. E ainda não apanhei um pássaro que se veja. Ou se é zarolho ou se é palerma, não acha? Como não sou zarolho... Q.E.D.
Enfim, regressemos à história: ouvi o primeiro comentário e não liguei. Foi logo mal pus o pé na rua do Alecrim. Vinha do Cais do Sodré e ia para o Rato. Esse e o trajecto entre o Cais do Sodré e o Rossio são os que mais fiz na vida. É por isso que as pedras da calçada me conhecem tão bem.
- Olha o palerma do gajo das fisgas.
- Bolas, já não lhe posso ver as solas.
- Pelo menos hoje não são as que têm buracos.
- Lembras-te daquela vez em que ele descobriu que tinha um buraco na sola porque começou a chover e molhou as meias?
- Se lembro. Ficou especado aqui mesmo ao meu lado, apoiado naquele portão...
Diálogos como este em plena rua do Alecrim, Senhor Doutor Juiz. Falavam das solas do sapatos - lembro-me perfeitamente desse dia: a sola tinha um buraco enorme, e eu não sabia, não tinha dado por ele. Começou a chover e claro, fiquei com a meia toda molhada e em pânico. Ia para uma reunião importante - um clube de caçadores com fisgas queria fazer uma encomenda grande - e eu ali especado, com um buraco na sola, a meia molhada... Enfim, lá acabei por acalmar. No caminho comprei um par de meias e mesmo antes de entrar para a reunião tirei umas e pus as outras e ninguém deu por nada -. Falavam de um dia em que vomitei na rua. E não foi por ter bebido, mas isso claro que nem vale a pena dizer, ninguém acredita. E verdade seja dita: quantas vezes não vomitei eu na rua por estar bêbedo?
Não sou nem estou maluco, Senhor Doutor Meritíssimo. Ouvia perfeitamente os comentários que as pedras faziam. Era o único, pelo que me apercebi. E se ouvissem? Ser-me-ia indiferente. Quem, naquela rua, sabe que sou o António das fisgas?
Mas não é fácil. Eu sei que não tenho um feitio muito bom. Aliás é por isso que as mulheres me deixam todas, umas a seguir às outras. Sou chato, teimoso, casmurro, às vezes mau com elas. Mas nunca, nunca, toquei numa mulher para lhe bater, Senhor Doutor. Sou contra a violência.
Por isso não percebo como consegui fazer o que fiz. É verdade que a vida não me tem corrido bem, ultimamente: desde que a Ana se foi embora tudo tem vindo por aí abaixo, tudo. Uma derrocada. Mas daí a matar um homem vai um passo que eu nunca pensei seria capaz de dar.
Vinha de baixo, da Praça Duque da Tereceira, como lhe disse. Ainda não ia a meio da rua do Alecrim já me parecia que a cabeça ia explodir. Reparei que as pessoas olhavam para mim desconfiadas: estava a tentar silenciar as pedras da calçada pisando-as com o talão dos sapatos. Como lhe disse sou relativamente indiferente ao que os outros pensam de mim. Mas a verdade é que aqueles olhares foram mais uma acha na fogueira.
Que fique claro, Senhor Doutor Juiz: tal com não sou nem estou maluco não sou estrangeiro ou revoltado. S!ou um cidadão calmo, pacato, que vive um pouco à margem da sociedade, mas não à margem da lei. Acredito na lei e nos efeitos benévolos da civilização.
Não acredito em Rousseau nem em bons selvagens. Os meus pais educaram-me correctamente. Estou longe de ser o melhor fabricante de fisgas do mundo mas estou igualmente longe de ser o pior.
Não sei o que me passou pela cabeça quando o preto me olhou de lado e esboçou um sorriso. Não sou racista, repare. Digo o preto como podia dizer o homem, ou o gordo, ou baixinho ou seja o que for. Enfim: não sei o que me passou pela cabeça quando o homem me olhou de lado e esboçou um sorriso.
Foi por isto, Senhor Doutor Juiz, que dei cabo dele. Não queria matá-lo, juro. Não queria sequer bater-lhe! Mas algo saltou nesta cabeça e enchi-o de murros e pontapés e acabei a dar-lhe com a cabeça nas pedras da calçada, a ver se as calava a elas, ou a ele. Não sei.
Não era eu que estava a bater no homem, Senhor Doutor Juiz. Eram quarenta anos de fisgas que não levam a lado nenhum, eram dez mulheres que me deixaram sem qualquer explicação - a última foi a Ana, Senhor Doutor, uma rapariga doce, tímida, bem educada que um dia pega nas suas coisas e me diz: Vou-me embora e foi, sem um adeus, um beijo, uma explicação. Vou-me embora.
As desgraças são para levar até ao fim: metade de uma desgraça é uma graça. "Um homem", dizem no Brasil, "ou se trata ou se mata". Mas nada disto me fez matar o senhor, coitado. Nada.
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