31.12.14

Diario de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 31-12-2014

Não me preocupa muito acabar 2014 sozinho e sem dinheiro: não há razão nenhuma para que o fim do ano seja diferente do resto dele. E se comparar este com o anterior vejo que estes doze meses foram aquilo que prometeram. Recuperação.

Há um ano estava no Mindelo, sem um chavo no bolso e com uma tripulação de merda (um armador doente mental, um cobardolas nojento, uma gaja que não comia senão coisas cruas e não se lavava com sabão havia mais de três anos. Só se safava um jovem catalão educado, articulado e culto).

Este ano não tenho dinheiro mas sei que o vou ter assim que resolver os problemas burocráticos que a legislação francesa impõe; tenho um trabalho pelo menos por mais uns dias – e provavelmente resolverei a burocracia a tempo de continuar a trabalhar para aquela empresa –; e se estou sozinho é porque não faço esforços especiais para não estar.

Enganei-me a avaliar um gajo que em troca me enganou em alguns milhares de dólares; e não voltei para Portugal, como queria, também por uma questão de dinheiro. Tive alguns problemas de saúde, mas estão resolvidos. Parece-me pouco para estragar um ano que na verdade foi bom nas coisas importantes: o trabalho, as amizades, o futuro.

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São seis da tarde. Acabo de comer o “especial fim-de-ano” do Pollo Loco, que em breve fechará. O Lagoonies também fechou. Ambos até sexta-feira. Pouco me resta para além de ir para a cama e começar uma tradução que já devia estar pronta. Mas antes disso compro uma garrafa de vinho no chinês, aberto como habitualmente até às nove (segundo me disseram não liga às festas ocidentais: só respeita os feriados chineses).

Parece-me bem: a vida de cada um não está necessariamente no fuso horário onde vive.

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Amanhã vai ser o primeiro dia sem trabalho desde terça-feira passada. Enfim, trabalho físico: vou tentar fazer pelo menos um terço da tradução. As condições são ideais: Lagoonies fechado, pouquíssimo dinheiro no bolso e ninguém para me distrair. Ou atrair, talvez.

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J. quer vender um dinghy velho e pediu-me para o pintar. Apliquei-me – é a primeira vez que pinto um RIB e queria que o resultado ficasse bom -. Ficou e ele já não o quer vender. A próxima tarefa vai ser instalar uma bomba de fundo no C.. Segunda-feira vai para a água e fico com um sítio para viver, pelo menos enquanto J. não decidir ir fazer uma viagem pelas ilhas. Já não navega há muito tempo e tem vontade de ir passear um bocado.

Está com setenta e oito anos. Não vai fazer muitas mais, penso. Quando o comparo (ele e, verdade seja dita, mais dois ou três) aos armadores com quem naveguei ou para quem trabalhei estes últimos anos fico optimista. A roda gira, a maré muda, o vento ronda.

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E depois há pequenos prazeres que não deixam de o ser por serem pequenos: o Ernesto foi para Miami e estou sozinho no quarto. Parece - isto está nos pequenos prazeres porque ainda não confirmei - que ter tido malária imuniza contra a chikungunya. O Fernão Mendes Pinto avança - mais um que a confirmar-se muda imediatamente de categoria -.

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Boa noite e bom ano, Don Vivo.

Presentes estratégicos

Esta história da linha de aviação Bragança - Portimão, com paragem em Vila Real, Viseu e Cascais subvencionada pelo Estado é mais uma prova, infelizmente redundante, da impossibilidade de mudar os países.

As nações - todas, sem excepção - estão organizadas para que as pessoas que detêm o poder, qualquer tipo de poder: económico, político, social o mantenham e perpetuem num estado de calma e tranquilidade.

Nalgumas, para atingir esse objectivo é necessário partilhar o poder com o povo: é o caso das democracias do Norte da Europa, dos Estados Unidos, Canadá. Noutras, basta dar-lhe frigoríficos ou, uns anos mais tarde, uma linha aérea.

Claro que no caso dos aviões não é bem o povo quem vai beneficiar; isto é mais um favor de uma parte da "elite" a outra parte de si própria.

Um presente embrulhado, claro, em "visão estratégica".

A qual será paga quando os palermas dos "visionários" já cá não estarão por pessoas que nunca dela beneficiarão.

Definição

A banalidade é uma câmara-de-ar que é preciso furar todos os dias, infelizmente.

Coincidência, tempo

Um tempo que se define como ausência de frio é o mesmo que se define como ausência de horas. Não sei se é coincidência.

Perguntas, mitologias

Cada vez que vejo a imagem de um unicórnio pergunto-me se é mitológico porque só foi enganado uma vez.

Números

2014 acaba. Foi melhor do que 2013, o que em si está longe de ser uma proeza. Satisfaz-me é saber que vai ser muito pior do que 2015.

Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 30-12-2014

À primeira vista dir-se-ia que o ecossistema está montado: dormir na Little Crew House, comer na colombiana (Pollo Loco, se por acaso algum leitor passar por estes lados), ouvir música, escrever e beber no Lagoonies, trabalhar. Hoje tive uma ajuda. William apareceu de manhã no estaleiro e perguntou-me se tinha trabalho para ele. Disse-lhe que não: trabalho para ele significa menos trabalho para mim.

Mas o homem estava visivelmente aflito. Ficou ali a ver-me pintar as obras vivas do C., com este "olhar infinito" de que J. me falou. É um olhar que não tem foco, como se estivessem a olhar para o tempo, e não para um ponto qualquer físico. Senti-me a comer um banquete ao lado de um faminto e não resisti, obviamente. Trabalhou bem, mereceu o meio-dia que ganhou. De qualquer forma, fazer pintura de fundos não é nem de longe o meu trabalho favorito.

Achei piada porque torceu o nariz quando lhe paguei. Era pouco. "É o que eu ganho, William". Imagino a confusão naquela cabeça: brancos a ganhar o que muitos locais recusam? No fim lá percebeu, agradeceu-me e perguntou-me se tinha mais trabalho para ele.

Não tenho, mas aposto que amanhã vai estar no estaleiro. É teimoso, e não há melhor qualidade do que a que se mistura com um defeito tão intimamente como a teimosia.

Talvez seja um bom critério para avaliar qualidades: as que estão a um fio de ser defeitos são as boas.

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Começo também a conhecer melhor o meu colega de quarto, um equatoriano a quem o patrão acaba de propor um trabalho aqui na ilha. Vive em Miami, é especialista em frio, veio para cá só para dar apoio ao princípio da época e há tanto trabalho que a empresa quer que fique.

É jovem, acha Miami "um stress" e quer vir para St. Maarten. Amanhã fico sozinho no quarto: vai a Miami vender o carro e rescindir o contrato com o senhorio. Volta na primeira semana de Janeiro.

Com sorte estarei a viver no C., que vai para a água dia cinco. Com mais sorte ainda estarei a navegar.

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Ausência de frio, ausência de calor. O clima desta ilha é a forma agradável da ausência. Há outras, suponho. Infelizmente interessam-me pouco.

Na verdade poucas são as coisas que me interessam muito.

30.12.14

Ano Novo

Um corpo na cama e uma cabeça na vida. Se possível na mesma pessoa.

Horários, vida

Uma das coisas que gosto nas Caraíbas é que os horários são feitos para gajos como eu: ainda não são dez horas da noite e o Lagoonies já está a fechar. É tarde, mas a qualidade da música explica e justifica. A festa continua, claro, alhures. Mas só para quem quer. Quem não quer paga e vai para a cama.

Exausto, como se tivesse vivido.

Por conseguinte

Tenho as mãos, o esqueleto e a pele num estado lamentável. Espero que a próxima namorada perceba que não é por ter andado a brincar.

Enfim, não é verdade: espero que a próxima namorada perceba, simplesmente. Já seria muito.

Cósmico, cómico

Deve haver uma razão, mas eu não sei qual é, pela qual o meu trabalho é reconhecido fora de Portugal e não o é no país onde eu gostaria de viver.

Hesito entre erro cósmico e erro cómico, sabendo que tendo mais para este último.

Pensar, agradecer

Pensa talvez na noite que te espera, na cama vazia, na lua quase cheia, nas estrelas, aos milhares. Ou não penses. Pensar é um erro: não faz amigos e os inimigos que traz não o merecem. Pensar é como os bons barcos: raramente merecem os donos. Dança, bebe, boxeia a vida ou fode-a, bebe-a, come-a, vive-a.

Mas não penses. Agradece. É a melhor maneira de pensar.

Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 29-12-2014 - II

São nove da noite, a música no Lagoonies acaba. É curioso encontrar-me aqui: foi o primeiro sítio que me fez gostar de St. Maarten e me fez pensar que isto também é Caraíbas e não apenas uma versão tropicalizada do Algarve.

Mudou de dono, de gerência, de barmaid - a brasileira que aqui trabalhava é das poucas pessoas que acho insubstituíveis - mas o espírito mantém-se.

É verdade que o espírito tem custos e regra geral vou comer à colombiana do outro lado da rua. Mas depois é aqui que bebo rum punch até ter sono. A Little Crew House (juro que nunca mais lhe chamarei outra coisa) fica no primeiro andar.

O resto não sei, e pouco me interessa.

Idade, música

- Tu não tens idade.
- Tenho. A da música que oiço.

Dançar, quase-retrato

Dança como se estivesse a boxear a vida. É a única coisa na qual ele pensa que se deve bater.

Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 29-12-2014

A maré sobe, a maré baixa.

Felizmente não me posso queixar: pelo menos tenho trabalho.

Não me apetece contar histórias tristes, conto uma bonita. Mesmo não sendo a primeira vez. Mas enfim, o Don Vivo, coitado, faz hoje onze anos. Pode permitir-se algumas repetições.

Ou em 2004 ou em 2006 saí de Cascais para as Canárias num Centurion 43, um barco magnífico. O armador perguntou-me quanto queria ganhar, eu disse-lhe. Ele respondeu "Isso é um salário de skipper, e eu preciso de um tripulante. O skipper sou eu. Pago-te xis". Eu aceitei, claro. Os meus problemas com dinheiro não datam de hoje, e há muito que tenho os de ego resolvidos.

Ainda não tínhamos chegado a Sagres e caíu-nos um Sudoeste em cima. A depressão era cavada, empatou por ali e o resultado foi um arraial de porrada que durou quatro ou cinco dias. Por arraial de porrada quero dizer arraial de porrada: trinta trinta e cinco nós pela proa, um barco demasiado carregado, dois gajos a bordo.

J., o armador nunca tinha apanhado uma coisa daquelas. Eu já, algumas. Discutimos algumas vezes sobre o que fazer. Ao fim de dois dias ele disse-me "contratei-te como marinheiro, mas tu sabes muito mais disto do que eu. A partir de hoje tu és o skipper e eu pago-te como tal desde Cascais".


Alguns anos mais tarde aterrei em St. Martin sem um chavo. Telefonei-lhe (ele vive aqui) e perguntei-lhe se me podia ajudar a arranjar um trabalho. Convidou-me para almoçar, expliquei-lhe que estava sem um tostão, e ele disse-me"Tenho um trabalho para ti no C., em Antigua".

Comprou um bilhete de avião e nessa tarde eu estava em Antigua, com três mil e quinhentos dólares no bolso. "Fazes as reparações e ficas com o que sobrar". Ando há anos a explicar-lhe que me sobrou dinheiro demais para o trabalho que fiz e que quero reembolsá-lo. Não responde, sequer.


Hoje fui trabalhar para o C. de novo. Foi "cicloné" (um neologismo, mesmo em francês que me atrai, vá lá saber-se porquê). A coisa foi muito mais complicada do que ambos pensávamos inicialmente.

Expliquei-lhe que faria o trabalho por metade do preço, para compensar. Nem me respondeu, como de costume. E pagou-me, como é hábito nos americanos, ao fim do dia de trabalho.

Não gosto nem desgosto de americanos. Gosto de pessoas. J. é uma das pessoas, poucas, que respeito neste meio.

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Onze anos de Don Vivo. Onze anos de vida.

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De maneira é isto: regressei à Little Crew House, estou no Lagoonies a ouvir rock e blues do melhor, fui jantar à colombiana porque é mais barato e paguei três dólares por um duche, porque saí do C. imundo e não me apetecia ir aos duches da Crew House. Amanhã às oito da manhã estarei no C. O meu cinto apertou mais um furo. Daqui por duas ou três semanas poderei trabalhar de novo na Dream Yachts. Questão de papéis e contas bancárias: merdas que os burocratas inventam para justificar o seu salário.

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Nada que um rum punch ou dois não resolvam. Nada que estar vivo não resolva. Nada que um barco, sol e vento e boa música não resolvam.

27.12.14

Terror

O dilema é simples: trabalhar para a empresa que tão gentilmente me acolhe no seio implica número de segurança social, conta bancária, residência, impostos e uma série de coisas que não tenho há alguns anos.

Coisas essas que não me fazem falta nenhuma.

Eles querem que eu tenha isso tudo: "Tu es sympa et tu bosses bien". Verbatim, e dito pelo pessoa mais antipática que jamais encontrei neste negócio. Eu queria estabilizar, mas assim de repente isto parece-me demasiado precoce. Não sei.

Não saber é um suave eufemismo. Aterroriza-me está muito mais perto da verdade.

Fantasmas

Se alguém me perguntasse o que fiz hoje não saberia dizer. "Não parar" é vago como descrição.

Dias como fantasmas: não se vêem, mas sentem-se.

Conselho

Embebeda-te devagar, como se estivesses a foder a vida. É a tua vez. Ela já te fodeu o suficiente, e durante muito tempo.

Pessoas, estereótipos

Dou-me mal com classes sociais, brancos, pretos, gordos, maricas, bêbedos, drogados. Só me dou bem com pessoas. Por uma razão qualquer não me entendo com estereótipos.