31.12.14

Presentes estratégicos

Esta história da linha de aviação Bragança - Portimão, com paragem em Vila Real, Viseu e Cascais subvencionada pelo Estado é mais uma prova, infelizmente redundante, da impossibilidade de mudar os países.

As nações - todas, sem excepção - estão organizadas para que as pessoas que detêm o poder, qualquer tipo de poder: económico, político, social o mantenham e perpetuem num estado de calma e tranquilidade.

Nalgumas, para atingir esse objectivo é necessário partilhar o poder com o povo: é o caso das democracias do Norte da Europa, dos Estados Unidos, Canadá. Noutras, basta dar-lhe frigoríficos ou, uns anos mais tarde, uma linha aérea.

Claro que no caso dos aviões não é bem o povo quem vai beneficiar; isto é mais um favor de uma parte da "elite" a outra parte de si própria.

Um presente embrulhado, claro, em "visão estratégica".

A qual será paga quando os palermas dos "visionários" já cá não estarão por pessoas que nunca dela beneficiarão.

Definição

A banalidade é uma câmara-de-ar que é preciso furar todos os dias, infelizmente.

Coincidência, tempo

Um tempo que se define como ausência de frio é o mesmo que se define como ausência de horas. Não sei se é coincidência.

Perguntas, mitologias

Cada vez que vejo a imagem de um unicórnio pergunto-me se é mitológico porque só foi enganado uma vez.

Números

2014 acaba. Foi melhor do que 2013, o que em si está longe de ser uma proeza. Satisfaz-me é saber que vai ser muito pior do que 2015.

Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 30-12-2014

À primeira vista dir-se-ia que o ecossistema está montado: dormir na Little Crew House, comer na colombiana (Pollo Loco, se por acaso algum leitor passar por estes lados), ouvir música, escrever e beber no Lagoonies, trabalhar. Hoje tive uma ajuda. William apareceu de manhã no estaleiro e perguntou-me se tinha trabalho para ele. Disse-lhe que não: trabalho para ele significa menos trabalho para mim.

Mas o homem estava visivelmente aflito. Ficou ali a ver-me pintar as obras vivas do C., com este "olhar infinito" de que J. me falou. É um olhar que não tem foco, como se estivessem a olhar para o tempo, e não para um ponto qualquer físico. Senti-me a comer um banquete ao lado de um faminto e não resisti, obviamente. Trabalhou bem, mereceu o meio-dia que ganhou. De qualquer forma, fazer pintura de fundos não é nem de longe o meu trabalho favorito.

Achei piada porque torceu o nariz quando lhe paguei. Era pouco. "É o que eu ganho, William". Imagino a confusão naquela cabeça: brancos a ganhar o que muitos locais recusam? No fim lá percebeu, agradeceu-me e perguntou-me se tinha mais trabalho para ele.

Não tenho, mas aposto que amanhã vai estar no estaleiro. É teimoso, e não há melhor qualidade do que a que se mistura com um defeito tão intimamente como a teimosia.

Talvez seja um bom critério para avaliar qualidades: as que estão a um fio de ser defeitos são as boas.

........
Começo também a conhecer melhor o meu colega de quarto, um equatoriano a quem o patrão acaba de propor um trabalho aqui na ilha. Vive em Miami, é especialista em frio, veio para cá só para dar apoio ao princípio da época e há tanto trabalho que a empresa quer que fique.

É jovem, acha Miami "um stress" e quer vir para St. Maarten. Amanhã fico sozinho no quarto: vai a Miami vender o carro e rescindir o contrato com o senhorio. Volta na primeira semana de Janeiro.

Com sorte estarei a viver no C., que vai para a água dia cinco. Com mais sorte ainda estarei a navegar.

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Ausência de frio, ausência de calor. O clima desta ilha é a forma agradável da ausência. Há outras, suponho. Infelizmente interessam-me pouco.

Na verdade poucas são as coisas que me interessam muito.

30.12.14

Ano Novo

Um corpo na cama e uma cabeça na vida. Se possível na mesma pessoa.

Horários, vida

Uma das coisas que gosto nas Caraíbas é que os horários são feitos para gajos como eu: ainda não são dez horas da noite e o Lagoonies já está a fechar. É tarde, mas a qualidade da música explica e justifica. A festa continua, claro, alhures. Mas só para quem quer. Quem não quer paga e vai para a cama.

Exausto, como se tivesse vivido.

Por conseguinte

Tenho as mãos, o esqueleto e a pele num estado lamentável. Espero que a próxima namorada perceba que não é por ter andado a brincar.

Enfim, não é verdade: espero que a próxima namorada perceba, simplesmente. Já seria muito.

Cósmico, cómico

Deve haver uma razão, mas eu não sei qual é, pela qual o meu trabalho é reconhecido fora de Portugal e não o é no país onde eu gostaria de viver.

Hesito entre erro cósmico e erro cómico, sabendo que tendo mais para este último.

Pensar, agradecer

Pensa talvez na noite que te espera, na cama vazia, na lua quase cheia, nas estrelas, aos milhares. Ou não penses. Pensar é um erro: não faz amigos e os inimigos que traz não o merecem. Pensar é como os bons barcos: raramente merecem os donos. Dança, bebe, boxeia a vida ou fode-a, bebe-a, come-a, vive-a.

Mas não penses. Agradece. É a melhor maneira de pensar.

Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 29-12-2014 - II

São nove da noite, a música no Lagoonies acaba. É curioso encontrar-me aqui: foi o primeiro sítio que me fez gostar de St. Maarten e me fez pensar que isto também é Caraíbas e não apenas uma versão tropicalizada do Algarve.

Mudou de dono, de gerência, de barmaid - a brasileira que aqui trabalhava é das poucas pessoas que acho insubstituíveis - mas o espírito mantém-se.

É verdade que o espírito tem custos e regra geral vou comer à colombiana do outro lado da rua. Mas depois é aqui que bebo rum punch até ter sono. A Little Crew House (juro que nunca mais lhe chamarei outra coisa) fica no primeiro andar.

O resto não sei, e pouco me interessa.

Idade, música

- Tu não tens idade.
- Tenho. A da música que oiço.

Dançar, quase-retrato

Dança como se estivesse a boxear a vida. É a única coisa na qual ele pensa que se deve bater.

Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 29-12-2014

A maré sobe, a maré baixa.

Felizmente não me posso queixar: pelo menos tenho trabalho.

Não me apetece contar histórias tristes, conto uma bonita. Mesmo não sendo a primeira vez. Mas enfim, o Don Vivo, coitado, faz hoje onze anos. Pode permitir-se algumas repetições.

Ou em 2004 ou em 2006 saí de Cascais para as Canárias num Centurion 43, um barco magnífico. O armador perguntou-me quanto queria ganhar, eu disse-lhe. Ele respondeu "Isso é um salário de skipper, e eu preciso de um tripulante. O skipper sou eu. Pago-te xis". Eu aceitei, claro. Os meus problemas com dinheiro não datam de hoje, e há muito que tenho os de ego resolvidos.

Ainda não tínhamos chegado a Sagres e caíu-nos um Sudoeste em cima. A depressão era cavada, empatou por ali e o resultado foi um arraial de porrada que durou quatro ou cinco dias. Por arraial de porrada quero dizer arraial de porrada: trinta trinta e cinco nós pela proa, um barco demasiado carregado, dois gajos a bordo.

J., o armador nunca tinha apanhado uma coisa daquelas. Eu já, algumas. Discutimos algumas vezes sobre o que fazer. Ao fim de dois dias ele disse-me "contratei-te como marinheiro, mas tu sabes muito mais disto do que eu. A partir de hoje tu és o skipper e eu pago-te como tal desde Cascais".


Alguns anos mais tarde aterrei em St. Martin sem um chavo. Telefonei-lhe (ele vive aqui) e perguntei-lhe se me podia ajudar a arranjar um trabalho. Convidou-me para almoçar, expliquei-lhe que estava sem um tostão, e ele disse-me"Tenho um trabalho para ti no C., em Antigua".

Comprou um bilhete de avião e nessa tarde eu estava em Antigua, com três mil e quinhentos dólares no bolso. "Fazes as reparações e ficas com o que sobrar". Ando há anos a explicar-lhe que me sobrou dinheiro demais para o trabalho que fiz e que quero reembolsá-lo. Não responde, sequer.


Hoje fui trabalhar para o C. de novo. Foi "cicloné" (um neologismo, mesmo em francês que me atrai, vá lá saber-se porquê). A coisa foi muito mais complicada do que ambos pensávamos inicialmente.

Expliquei-lhe que faria o trabalho por metade do preço, para compensar. Nem me respondeu, como de costume. E pagou-me, como é hábito nos americanos, ao fim do dia de trabalho.

Não gosto nem desgosto de americanos. Gosto de pessoas. J. é uma das pessoas, poucas, que respeito neste meio.

........
Onze anos de Don Vivo. Onze anos de vida.

........
De maneira é isto: regressei à Little Crew House, estou no Lagoonies a ouvir rock e blues do melhor, fui jantar à colombiana porque é mais barato e paguei três dólares por um duche, porque saí do C. imundo e não me apetecia ir aos duches da Crew House. Amanhã às oito da manhã estarei no C. O meu cinto apertou mais um furo. Daqui por duas ou três semanas poderei trabalhar de novo na Dream Yachts. Questão de papéis e contas bancárias: merdas que os burocratas inventam para justificar o seu salário.

.........
Nada que um rum punch ou dois não resolvam. Nada que estar vivo não resolva. Nada que um barco, sol e vento e boa música não resolvam.

27.12.14

Terror

O dilema é simples: trabalhar para a empresa que tão gentilmente me acolhe no seio implica número de segurança social, conta bancária, residência, impostos e uma série de coisas que não tenho há alguns anos.

Coisas essas que não me fazem falta nenhuma.

Eles querem que eu tenha isso tudo: "Tu es sympa et tu bosses bien". Verbatim, e dito pelo pessoa mais antipática que jamais encontrei neste negócio. Eu queria estabilizar, mas assim de repente isto parece-me demasiado precoce. Não sei.

Não saber é um suave eufemismo. Aterroriza-me está muito mais perto da verdade.

Fantasmas

Se alguém me perguntasse o que fiz hoje não saberia dizer. "Não parar" é vago como descrição.

Dias como fantasmas: não se vêem, mas sentem-se.

Conselho

Embebeda-te devagar, como se estivesses a foder a vida. É a tua vez. Ela já te fodeu o suficiente, e durante muito tempo.

Pessoas, estereótipos

Dou-me mal com classes sociais, brancos, pretos, gordos, maricas, bêbedos, drogados. Só me dou bem com pessoas. Por uma razão qualquer não me entendo com estereótipos.

26.12.14

Loyauté

Il en est de la loyauté comme de l'amour. Celui qui ne sait pas être loyal à soi-même ne saura jamais être loyal à autrui.

Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 25-12-2014

O médico pode dizer o que quiser (verdade seja dita eu não lhe contei tudo; se tudo fosse grave ele tê-lo-ia descoberto, de qualquer forma); mas chego ao fim dos dias e sinto-os passar.

Forçoso é reconhecer que não foi apenas o trabalho: celebrei o emprego, o Natal, estar vivo e feliz. Dois dias seguidos de celebrações pagam-se. Hoje com muitas horas de sono.

........
O qual dia começou com uma cena adorável e provavelmente só possível nas Caraíbas: o condutor do bus (no roiginal porque não são autocarros, mas aquilo a que em Portugal chamamos minivans, creio) estava hílare. Alguém lhe tinha pago a viagem com um dólar rasgado ao meio. O homem, perdido de riso, explicava que lhe tinham dado a nota dobrada (é muito frequente) e ele não tinha, naturalmente, visto.

Aquilo fazia-o rir a bandeiras despregadas. E com ele todo o bus, que naturalmente inventava razões e fazia comentários. A hipótese mas votada foi, claro, que era para fazer os cinquenta cêntimos (alguns trajectos custam um dólar e meio).

...........
E depois foi por aí fora. Um cliente cujo barco garrou, um tipo perdido de fumo cujo barco se atravessou na ponte e estava tão pedrado que não se apercebeu que o motor não estava a funcionar quando o fui ajudar a sair dali, uma francesa histérica (nem sempre é um pleonasmo, francês histérico),

Acabei eram seis da tarde e, para completar a prenda de Natal que foi encontrar este trabalho, poderei muito provavelmente deixar a Shitty Crew House amanhã.

........
Hoje foi um dia louco. Espero que venham muitos mais assim. A carcaça que se desenrasque.

25.12.14

Diário de Bordos - Cole Bay, St, Maarten, Antilhas Holandesas, 24-12-2014

Estou tão cansado que nem forças tenho para beber o rum punch que o Matthieu sabe, finalmente, preparar como eu gosto.

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Hoje o dia começou com as manobras, como estava previsto. Ao fim de duas horas e meia o director da empresa pediu-me para ir ao escritório. "Preciso de falar contigo. Podes vir ao escritório, por favor?"

Já não faço manobras há algum tempo. As primeiras não foram tão fluidas e bonitas e limpas como eu gosto de as fazer. Não estava muito confiante.

Era para me dar mais trabalho. Vou às BVI buscar um barco, trazê-lo para aqui, embarcar com clientes, levá-los às BVI... Enfim, trabalho até dia 2 de Janeiro. Ou seja: se passar mais esta prova "A stew é brasileira; é uma chata. "Não tens camarote para dormir". "O salário é baixo" (isso já sabia. Mas como por enquanto não sei quanto ganho pouco me preocupa). "O barco está uma merda".

No fundo é mais um exame. "A minha função na empresa é elevar o nível".

Não é difícil. O nível da empresa é baixo. É uma empresa grande. Tão grande que posso sonhar com um trabalho em terra um dia. Quero deixar o mar, mas não completamente. Como uma namorada de quem nos tornamos amigos.

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Gosto do que faço. É inegável, e é uma sorte, uma dádiva. Hoje, depois das manobras, passei o dia a fazer manutenção: de mudar lâmpadas a mudar fogões, apertar parafusos, fazer check-ups a barcos, envergar velas e ensinar locais não parei.

Nunca serei rico: interesso-me mais pelo que faço do que pelo que recebo.

..........
Vai ser um Natal solit+ario e feliz. Que belíssima combinação.

24.12.14

Amabilidade e filha da putice

A filha da putice é sempre a mesma, igual a si própria. O que separa um filho da puta de outro é a consciência que cada um tem da sua condição. Um filho da puta que se sabe filho da puta não deixa de o ser. Torna-se, simplesmente, um filho da puta amável.

Enfim, não tão simplesmente como isso.

Liberdade, justiça

Liberdade e felicidade não são sinónimos, facto que mais não faz do que demonstrar, uma vez mais, que a vida não é justa.

Concurso

O dinheiro acaba, a esperança não.

E esta acaba sempre por ter razão.

Paralelos

"Arbeit macht frei".

Wein auch.

23.12.14

Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 23-12-2014

É preciso imaginar um céu azul que oscila entre o violeta e o branco. O dia acaba. Os cumulus ainda são brancos nas margens mas já são cinzento escuro por baixo. O vento cai, a água lamenta-o, a profusão das luzes da noite faz-nos ver que talvez, no fundo, a luz do dia seja monótona.

Matthieu, o jovem empregado do Lagoonies já sabe fazer o rum punch como eu gosto.

Amanhã tenho trabalho.

A Lua é uma vírgula, em crescente.

Também tenho trabalho para dois ou três dias entre o Natal e o Ano Novo.

Violeta escuro. As núvens deixaram de ter luz: são apenas sombras.

........
Hoje fui fazer um exame médico. O médico que me examinou diz que tenho uma condição física invejável "para a idade que tem". Peço-lhe que diga isso aos meus potenciais empregadores e lembro-me de uma pessoa que me dizia "tu não tens idade".

.........
Amanhã vou passar o dia a manobrar barcos. O senhor que me contratou pergunta-me "Estás à vontade com manobras?" "São a minha alegria e o meu orgulho". Gosto de correr riscos. A Marina de Fort Royale é apertada e com vento uma seca.

........
Hoje não posso dormir no trawler. R. tem a namorada a bordo.. Regresso à Shitty Crew House. "Mesmo quarto, mesma cama", diz-me C., o gerente da coisa. Deve ter adivinhado que preciso de estabilidade.

........
Não há luar: a Lua mal se ilumina a si própria.

Maude

I

Ontem fui almoçar com Maude e o namorado. Maude é a minha mulher. Somos casados há dezasseis anos. O rapaz é bastante mais novo do que nós. Ela tem quarenta e três e eu mais dois. Ele deve ter vinte e poucos. É pintor e expõe as obras no metro. Aparentemente foi assim que se conheceram. Maude sempre gostou de arte e de artistas. Ignoro o que a levou a casar-se com um piloto de aviões.

Gostei do rapaz. Tem o olhar mortiço e profundo dos criadores que criam e fala igualmente devagar, como se cada frase fosse um marco na sabedoria da humanidade e devesse ficar registada. Chama-se Jules, ou Julien, não me lembro bem. Tenho uma péssima memória para nomes. Talvez seja desinteresse, no fundo. Ou arrogância. Não sei.

Fomos almoçar a uma daquelas esplanadas do Campo Pequeno. Maude levava os óculos escuros redondos, que lhe cobrem metade da face e a tornam parecida com Janis Joplin. O rapaz ia com o uniforme de artista. Falou pouco. Eu estava com a farda de voo – tinha acabado de chegar e achei pena trocar de roupa. Assim sempre dei ao miúdo mais uma razão para se rir de mim. Os artistas não gostam de fardas. Excepto as deles, claro, mas este ainda é demasiado jovem para saber que está fardado. Pensa que está vestido–. Ele não sabe que eu sei. Maude sabe, porque Maude sabe tudo o que eu sei. Nunca falamos nos seus amantes. Nem nas minhas, mas são muito menos do que os dela, penso. Não os conheço todos. Desta vez aceitei ir almoçar porque Maude comprou uma ou duas telas ao rapaz e queria que eu o conhecesse. Também conheci o músico e o actor. Imagino que tenha havido mais, mas não os encontrei. O músico era simpático. Tocava bem – no metro, claro –. Talvez tivesse sido melhor comprar um carro à Maude antes de me aparecer com a fauna toda dos túneis em casa.

Há muito tempo que o amor entre Maude e mim foi substituído por uma amizade profunda, sexuada, cheia de prazer e vazia de paixão. A única condição é eu não saber. É-me indiferente que toda a gente saiba desde que ninguém me possa vir dizer que fui enganado.

O almoço foi agradável. O rapaz é frugal, Maude estava radiante e eu aproveitei para falar do clima, um tema que me aborrece mais do que as horas de sono da minha primeira empregada. Jules - ou Julien? – é culto, tem conversa (se bem um pouco lenta para o meu gosto) e não estava nem demasiado à vontade nem encavacado. Enquanto falávamos pensava que o rapaz me devia estar grato: dava-lhe uma mulher soberba e algumas razões para pensar que fazia bem em enganar-me com ela.

"Sabe estar, não achas?" resumiu Maude depois do almoço, já a caminho de casa.

........
Maude está sentada na borda da cama, pernas encolhidas, mamas esmagadas contra os joelhos. Pinta as unhas dos pés.

Quando acabar vai deitar-se de costas, coxas afastadas, pés em leque perfeito, simétricos, a arejar. Com a mão direita começará a masturbar-se. A mão esquerda ficará pousada no lençol, entre nós. Pouco a pouco vai suspirar; os suspiros aumentarão de intensidade; eu deixarei o livro que estou a ler e voltar-me-ei. Ela pegar-me-á na mão direita, pô-la-á no seu ventre e dir-me-á "Põe a foice em seara alheia", ou coisa que o valha. Maude consegue erotizar a mais anódina das expressões.

Em breve as nossas mãos estarão juntas; a sua mão esquerda estará algures no meu ventre. Eu continuarei deitado de costas; Maude esmagará a minha mão contra o seu monte-de-vénus, redondo e proeminente, de pentelheira farta. Começarei a entesar-me.

……
Está deitado de costas, pau feito a apontar para o tecto, quase vertical. Sento-me em cima dele, puxo-lhe a pila para a frente e enterro-a em mim. Aponto para o meu umbigo e digo-lhe Até aqui. Até aqui. Até aqui. Ponho as pernas por cima do peito dele. Gosto quando ele me mordisca os dedos dos pés enquanto o sinto no meu ventre. Até aqui. Já me vim uma vez. Vir-me-ei uma segunda e outra e outra.

Ele pega-me nos tornozelos, afasta-me ligeiramente as pernas, puxa-me para a frente e para trás. Sinto-lhe os tomates nas nádegas. Sei que isso o magoa um pouco e que ele conta com essa dor para atrasar o orgasmo.

Gosto de saber que ele me olha para a pentelheira, que vê o membro enterrado em mim até aos copos, que me vê feliz como se fosse a primeira vez. Não é. É melhor.

Diz-me "Ajuda o senhor Bispo" e eu obedeço. Com a mão direita masturbo-me de novo. Com a esquerda acaricio-me os seios. Viramo-nos de lado.

Ele gosta de acabar assim, os meus tornozelos nas mãos fechadas, para trás e para a frente e para trás e para a frente não cada vez mais depressa mas cada vez mais fundo, cada vez mais fundo, cada vez mais até aqui.

Sai depressa de mim. Não é como Jules, que gosta de se deixar ficar e de o tirar quando já está mole.

Amo-o, mas ele não sabe. Pensa que sinto por ele o que ele sente por mim: amizade.

Não é verdade. Amo-o.

II
Já alguma se apaixonaram por alguém que à partida não tem nada em comum convosco? Nada em comum com vocês ou aquilo que procuram no outro? Foi isso que me aconteceu com ele. Sempre gostei de artistas, de uma vida desorganizada, sem outras expectativas que não fossem criar, gozar, aprender, conhecer "pessoas interessantes" (as aspas são consequência destes dezasseis anos com ele, claro. O seu cepticismo contaminou-me. "Pessoas interessantes só existem nas cabeças de pessoas que as têm vazias. Toda a gente é interessante", dizia-me). Queria um homem ao meu lado sempre. Pensava que as minhas ideias se transformariam milagrosamente em livros, contos, letras de canções, pinturas, fotografias; sem trabalho, sem esforço, por obra e graça da inspiração e do talento.

Conheci-o num jantar. Era um jovem piloto com um sentido de humor demolidor, que defendia sozinho as suas ideias contra todos os presentes, educadamente, com um sorriso e uma resposta lapidar àquilo que visivelmente lhe parecia uma antologia de tonterias.

Não me lembro qual o tema de discussão desse primeiro jantar. A cena repetiu-se várias vezes, até ele se cansar e não falar se não do tempo e de aviões – duas coisas que, dizia, o apaixonavam. "Principalmente o tempo, a sua constante mudança, a sua imprevisibilidade" –.

Foi contra vontade que me apaixonei por ele. Era um homem decente, provavelmente o mais decente que jamais conheci. "Decente? Pior do que isso só ser cornudo", disse-me um dia. "Pensava que ser cornudo te deixava indiferente". "Deixa. É isso: não há nada pior do que ser decente".

Mas sim, era um homem decente. Oferecia-me flores, trazia-me constantemente prendas – joalharia, roupa – das suas viagens, amava-me maravilhosamente e, sobretudo, nunca me fazia perguntas. Um dia fiz-lho notar. "O que quiseres que eu saiba dizes; o que não quiseres eu invento", respondeu.

Demorei muito tempo a habituar-me a essa liberdade. Nos primeiros anos da nossa vida comum – vivemos três anos juntos, antes de nos casarmos – só pensava em deixá-lo. E casei-me cheia de dúvidas. Nunca o tinha enganado, se bem enganar não seja o termo adequado.

Um dia falámos no tema. Oh, muito por alto e indirectamente, de raspão, como se não fosse nada com ele, ou comigo. Nessa altura estávamos casados havia dois anos, se tanto. Mas tínhamos passado por muitas coisas juntos: uma separação curta e dolorosa para os dois, uma gravidez falhada para mim – que de resto me fez saber que nunca poderia vir a ter filhos e podia deixar a pílula – a morte da minha mãe, um acidente em que ele esteve envolvido e no qual poderia ter morrido.

É demasiado, para cinco anos de vida comum. Não precisava de um marido a dizer-me que podia fazer o que quisesse, desde que ele não soubesse. Um marido que naquele dia eu amava um pouco mais do que alguns anos antes; um marido ao qual pouco a pouco, devagar, me tinha habituado; que eu nunca tinha enganado. Porque viria ele agora com essa conversa, a propósito de um filme, ou de um livro, ou de uma coscuvilhice, não me lembro? Mas aquilo não foi bem uma conversa. Foi mais uma informação, como se estivéssemos numa estação de comboios e um altifalante dissesse que o próximo comboio ia chegar atrasado.

Não me lembro do que lhe respondi.

A primeira vez que tive um caso foi uns largos meses depois. O meu marido – já conseguia usar esta expressão sem sentir um arrepio – estava fora, num voo para o Brasil. Encontrei António numa festa. Escrevia, tinha muita graça, não tinha um chavo, e era péssimo na cama. Repararam que disse "tive um caso". Com António descobri que não estava a enganar o homem que, sim, amava. Informações só superficialmente contraditórias. E com as quais vivo desde então.

Aprendera, finalmente, aquilo que o meu marido me dizia havia anos: não se deve misturar o amor com mais nada. Como a água, que se pode misturar com tudo mas é melhor quando é pura.

António era brusco na cama, vinha-se depressa, parecia que está a fazer amor sozinho. Pouco me importa: não é por falta de bom sexo que fodia com ele. Era por não me faltar nada.

III
Um gajo pode ser bom naturalmente, por obra e graça da natureza, por ser anjinho; ou porque já foi mau: fez demasiadas asneiras, demasiados erros, maldades e aprendeu. Estou longe de ser o gajo decente que todos pensam que sou. No qual me transformei depois de ter feito muita merda. Não posso dizer que tenha sido de propósito. Não foi. Comecei simplesmente a empatizar com os outros, a perceber que as minhas acções tinham consequências, a sofrer demasiadas vezes as maldades de que ia sendo vítima. Pouco a pouco – o processo foi gradual, lento, por vezes imperceptível – transformei-me num "homem bom" (aspas porque repito o que milhares de vezes me disseram. Tu és um homem bom. You are a good man.Eres un hombre bueno. Tu es un chic tipe. Disseram-mo em todo o lado, em todas as línguas). Ando há cinco anos com Isabel. Ao princípio era suposto ser uma dessas relações “picada de mosca”, insensível, sem consequências, um banal affaire entre um piloto e uma hospedeira: queca em Nova Iorque, passeio no Rio, compras em S. Francisco. Mas um dia pedi para voar de chave com ela (significa fazer sistematicamente voos em conjunto com outro tripulante) e desde aí perdi o controlo. Passo mais tempo com Isabel do que com Maude. Penso nela mais vezes, toco-lhe e falo-lhe e rio-me com ela mais do que o faço com Maude. Se alguém me convida para um jantar e diz "Traga a sua mulher" é em Isabel que penso, não em Maude.

Maude... Quando penso no que este nome me fez sonhar e no pesadelo que hoje se tornou. Odeio tudo o que ele evoca para mim, a começar na minha cobardia, a continuar pela minha duplicidade, a acabar nas memórias que tenho dos tempos em que a amava.

Como cheguei aqui? Como posso não amar a pessoa que tanto amei? Como posso mentir-lhe? Não é como. É porque. Como eu sei. Porque não.

IV.
O vento predominante na costa portuguesa durante o verão é o norte.

A leste de Portugal o centro da Península Ibérica é seco, pouco arborizado. A terra aquece e com ela o ar. Este como tudo o que é quente sobe e a pressão atmosférica baixa. É assim que começam todas as depressões térmicas: ar quente a subir. A oeste está o anticiclone dos Açores. É provocado por ar frio que vem do Norte e desce porque está mais frio do que o ar que o rodeia.

Em torno de um anticiclone o ar gira no sentido dos ponteiros de relógio. Em torno de uma depressão gira no sentido oposto.

Portugal fica exactamente no ponto de encontro destes dois fluxos de ar opostos, antagónicos. É por isso que temos a Nortada em Portugal, e que à noite ela cai e durante o dia vai refrescando.

V
“Lisboa, 04-12-20…"

Meu querido,

Desculpa começar assim.

A Isabel morreu hoje, num acidente de automóvel. E eu vou deixar-te. Não me atirarei, como ela, da estrada abaixo nessa serra de Sintra da qual, disse-me ela – um pouco inutilmente – vocês tanto gostavam.

Hoje bateu-me à porta eram onze da manhã. Fui abrir. Estava muito calma, sorridente, mas não sabia como começar. Visivelmente não tinha pensado bem o que dizer.
– Bom dia. Chamo-me Isabel. Sou a… a… a… Tinha uma relação com o seu marido.
– Tinha? Já não tem? Entre.
– Tenho… Isto é, não tenho… Não sei. Gostava de ir almoçar consigo, se não se importa.
– Não me importo nada, mas não quer beber qualquer coisa? Ainda é cedo para almoçarmos.
– …
– Entre, Isabel. Há anos que sei que ele não me é fiel. Eu tão pouco, de resto. Mas até aqui tenho sido eu a apresentar-lhe os meus amantes. Ele nunca me apresentou nenhuma das suas… relações. – Fiz uma pausa antes de relações. Perdoar-me-ás, espero.
– Obrigado.

Ela bebeu um copo de vinho branco e eu um café. Antes de nos separarmos – disse-me que me levaria no seu carro, mas depois teria de vir de comboio porque tinha um compromisso logo ao princípio da tarde – pediu-me o número de telefone, para o caso de ser preciso. Dei-lho, ela ligou-me, eu respondi. Ficámos com os números uma da outra. Combinámos encontrar-nos à uma e meia num restaurante de Colares.

Está – estava, desculpa – contigo há cinco anos. Sentia-se muito ridícula por precisar de me contar estas coisas todas. Não lhe disse que não precisava de me contar nada. Visivelmente não tinha preparado um discurso. Quando cheguei ao restaurante ela já lá estava. Comemos um ensopado de borrego a meias. Pensei que se lá estivesses seria o que pedirias também. Estavas, claro.

Falou-me dela, só dela; ou quase só. Da sua infância difícil, de não acreditar que a relação contigo fosse durar, de quão culpada se sentia por te amar quando sabia que tinhas uma mulher “maravilhosa” (cito-a, como sabes). De não aguentar mais “esse amor”.

– Compreendo-a, Isabel. Ele é um homem decente, não é?
– É. O homem mais decente que já conheci.
– Vocè sabe que ele detesta que digam isso?
– Sei. Diz que ser decente não vale o esforço que custa. Que é uma patetice.

O ensopado estava excelente. Imaginava-te à mesa – não, via-te –. Antes de combinarmos o restaurante em Colares sugeri-lhe a esplanada do Jardim da Estrela, mas ela disse que tinha o tal compromisso e queria estar à vontade com o tempo.

Parece estúpido dizer isto agora, nestas circunstâncias, mas o almoço foi bom. Ela era adorável, bonita, inteligente (sei que preferirias a ordem inversa). Lutou muito, “contra tudo, todos e sobretudo eu própria” para conseguir ter uma vida “normal”. Entre a vida “normal” e a vida dela estava eu, claro. “Ainda bem que trouxe o meu carro”, pensei. Uma injustiça que agora lamento.

Não sofrerei tanto como tu com esta morte. Mas sofro bastante. “A vida não nos pertence inteira”, disseste-me tantas vezes. Exprimia-se bem, claramente, com lógica e sequência, sorrindo como se tudo aquilo fosse uma brincadeira, uma ilusão, a história de uma amiga que conhecera vagamente.

Voltei para casa. Ela calculou bem o timing: a policía ligou-me menos de uma hora depois de eu chegar. O meu número era o único que estava no seu telefone, que ela tinha tido o cuidado de pôr numa caixa, bem protegido, para resistir à queda do carro. Imagino que tenha sido a única parte que ela estudou antes. Não tinha documentos nenhuns com ela.

Desculpa-me por favor deixar-te nestas circunstâncias. Não posso fazer nada. Sabes que te amei, que te estou grata por estes anos todos de prazer e felicidade e amor que me deste. É infantil, dirás, fazer sofrer quem nos ama. É. Mas só os adultos conseguem fazer sofrer quem gosta de nós porque gosta de nós. Estou-te grata por me teres ensinado o que é ser livre. Por teres feito de mim a mulher livre que hoje sou. A aprendizagem foi difícil. Penso – ou será espero? – que em breve encontrarás uma outra Isabel, uma outra Maude.

Com afecto, ternura, apego, carinho,

Um abraço da

Maude”

VI
Relembro esta história numa ilha do Oeste do Canadá, onde vivo com Maweral, uma jovem Filipina que encontrei num porto qualquer dos Estados Unidos. Maweral cozinha, lava a roupa, limpa a casa e faz amor com devoção e silêncio. Tenho um barco chamado HADES. Quando chegou Maweral não sabia o significado. Um dia perguntou-me e eu respondi-lhe “Nada de especial. É um rio que todos temos à porta”. Pouco tempo depois de chegarmos à ilha disse-me “Sei o que é Hades”. Olhei-a surpreso – pouco falávamos para além das coisas práticas do dia a dia –. Estava a fazer o almoço. Muito pequenina, com cabelos pretos como o mar numa noite sem lua e sem vento. Ensinei-lhe português, que ela fala baixo, lentamente. “Lembra-te: a tua vida não te pertence inteira”.

St. Martin, 23-12-2014


Para a T. com afecto, ternura, apego, carinho e amizade,

22.12.14

Feliz Natal



Por esta altura o macaquinho da fotografia está com alguns dezasseis anos.

Os votos de Festas Felizes a todas e todos os leitores do Don Vivo - e por extensão aos do Facebook também - são de hoje.

De sempre.

Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 22-12-2014

O dia começou mal e não melhorou. Mas podia ter piorado e pelo menos não piorou. Falta-me uma démarche para acabar esta fase da procura de emprego, cada vez mais difícil. Idade e falta de qualificações formais. A meu favor a experiência e os contactos. A ver quem ganha.

Agora começa a pior fase: a corrida entre um telefonema ou um e-mail e o fim do dinheiro. É uma espera chata, dolorosa. Ainda por cima a meta aproximou-se porque os armadores do trawler vêm aí inesperadamente e o Amel tem um charter para breve - isso já sabia -. O resultado da corrida vai ser definido pelo C. ou por uma da meia dúzia de companhias que contactei.

Não é tanto não saber lidar com o imprevisto; é mais estar um bocadinho farto dele.

........
Felizmente o quadro presta-se pouco ao pessimismo: à minha frente a laguna, barcos, o sol que se põe como que empurrado pelos alísios, os santos alísios. A música é boa e não está alta, os cigarros que o stress destes últimos tempos infelizmente recrutaram como aliados não são caros e o rum, cuja hora está quase a chegar tão-pouco.

Mais tarde ou mais cedo alguma coisa aparecerá. Não é de longe a primeira vez - e no fundo de mim mesmo espero que não seja a última - que o meu horizonte temporal está reduzido a um dia ou pouco mais.

.......
St. Martin é uma ilha à volta de um mar. Como certas vidas.

Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 21-12-2014

A cada hóspede da Little Crew House são dadas quatro chaves: portão principal, porta do quarto, cozinha e duches. Os duches e a cozinha são maus, mas precisam de chave "por causa das pessoas que não estão na pousada".

Hoje é a última noite que lá fico. Amanhã tenho a escolha entre um Amel, um trawler e, se for para a água na terça o meu velho conhecido C., no qual fiz uma viagem e uma amizade memoráveis.

Costumo dizer que sou um estrangeiro onde quer que esteja, mas não é verdade.

........
O Amel e o trawler estão entregues a G. um brasileiro e português cuja família viveu em Lourenço Marques. O pai era director de uma empresa de petróleo. Foi para o Brasil depois da revolução "com a roupa que [tínhamos] no corpo"e fez uma fortuna. G. tem cinquenta e quatro anos. Veio para St. Martin para o baptizado de um afilhado mas não quer voltar para o Brasil. Os barcos pertencem a amigos dele que lhos deram para que ele tomasse conta deles aqui.

Entretanto vai fazendo uns trabalhos aqui e ali - mais para se manter ocupado do que por precisar de trabalhar, parece-me -. Cruzámo-nos a atravessar a rua para ir ao chinês. Cumprimentou-me em português, não porque me conhecesse mas porque não fala inglês. É uma simpatia, adorável como só os brasileiros sabem ser. Mesmo assim preferia que o C. fosse para a água. Quero estar sozinho. Assim que encontrar trabalho nunca mais terei um momento de solidão. Além disso o C. vai para Marigot, no lado francês.

Há vários tipos de solidão, exactamente como os silêncios são muito diferentes uns dos outros. Estou feliz com aquela a que finalmente cheguei. Ou veio a mim, não sei.

........
Hoje é domingo, os lolos estão fechados. Tive de vir comer ao Yacht Club. Parece que ainda estou em Galveston. Comida de plástico - consegui o prodígio de comer uma jerk chicken que não sabia rigorosamente a nada - empregadas a perguntar de cinco em cinco minutos "está tudo bem with you, sir?" e, no fim, uma conta desproporcionada à qual vai ser preciso adicionar a gorjeta.

Vou começar a trabalhar aqui, mas assim que puder mudo-me para o sul, para as minhas Caraíbas: St. Vincent, Grenadines, Union Island, Deux Pitons, Bequia.

Bequia.

21.12.14

Cegueira

Ouvir um imbecil expor a sua imbecilidade ajuda a perceber o que é a cegueira.

Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 20-12-2014

"And Anticlea came, whom I beat off, and then Tiresias Theban,
Holding his golden wand, knew me and spoke first:
'A second time? why? man of ill star,
'Facing the sunless dead and this joyless region?
'Stand from the fosse, leave me my bloody bever
'For soothsay.'
               And I stepped back,
And he strong with the blood, said then: 'Odysseus
'Shalt return through spiteful Neptune, over dark seas,
'Lose all companions.' Then Anticlea came,
...
and he sailed, by Sirens and thence outward and away
And unto Circe."

Ezra Pound, in "Selected Cantos of Ezra Pound", Faber and Faber Limited, London, 1967

Não são precisas grandes explicações. Nunca li Pound com olhos de ler. No princípio do ano comprei este pequeno volume. Começo-o agora e sai-me isto. Há um tempo certo para tudo. Podemos comprimi-lo, como fez o London, que vivia num dia o que os outros vivem num mês. Ou esticá-lo, como eu (toutes proportions gardées, claro).

Não posso dizer "No meu tempo...". É uma dádiva.

20.12.14

Diário de Bordos - St. Martin, Antilhas Francesas, e St. Maarten, Antilhas Holandesas, 18 a 20-12-2014

Vamos começar pelo princípio: vou pagar caro esta sucessão de viagens de avião agradáveis, com espaço para as pernas e para dormir.

........
E agora?

Estou num lolo chamado Chez Coco. Não é o meu favorito mas é o único que está aberto. E tem karaoke, coisa que particularmente detesto.

A rapariga do Arawhak ofereceu-me o segundo ti'punch. À saída do aeroporto encontrei um táxi que me trouxe por um preço correcto. É o vice-presidente da associação de táxis. Pediu-me que se algum táxi me levasse mais de vinte dólares para me levar do aeroporto a Marigot lhe telefonasse.

O Centr'hotel tem quartos.

"Não sou grande fan de karaoke", digo à rapariga do Chez Coco.
"És fan de quê? De escrever?" responde com um sorriso rasgado.
"Tens vinho aberto?"
"Se não tiver abro-o para ti".

Estou nas ilhas.

O dono do Arawhak lembra-se de mim. Recebe-me com um sorriso e um aperto de mão franco, forte, aberto.

........
Cortei o cabelo, fiz cartões de visita, comprei pólos brancos e adaptadores para as tomadas, tenho um número de telefone local.

Não está demasiado calor.

E agora?

..........
Os duches da My Little Guest House são uma merda. Toda a My Little Guest House é uma merda, de resto. Mas custa metade do preço do Centr'hotel (ou seja, é caríssima. Tem muito menos de metade da qualidade).

Gosto do nome. Podia chamar-se My Shitty Crew House, por exemplo. Ou My Lousy Crew House.

E posso cozinhar.

Se bem hoje ainda tenha ido jantar à tasca da colombiana, do outro lado da rua. Mas já tenho pequeno-almoço para amanhã. E todas as refeições serão feitas e comidas na My Shitty Kitchen House.

Vou dormir num quarto colectivo. Não ter dinheiro é uma viagem no tempo.

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A Little Crew House fica na Lagoon Marina. por baixo tem um café / bar / restaurante chamado Lagoonies. Há três anos trabalhava aqui uma brasileira linda como se quisesse provar que a evolução por vezes acerta. Que por vezes há um bocadinho de sentido no acaso.

Agora pertence a um francês e só lá trabalham franceses e uma miúda que não é francesa e me põe a mão nas costas cada vez que me pergunta se quero alguma coisa. Pergunta vezes de mais. Hoje [sexta-feira] tem música ao vivo. Um bom guitarrista, uma cantora, um baixo e um bateria assim assim. Estou à espera que acabe para me ir deitar. Tocam demasiado alto e tenho os ouvidos aos gritos. Querer dormir com este barulho é como ir à praia e não querer ficar cheio de areia.

........
St. Martin deve ser um maravilhoso caso para se estudar a convivência de duas culturas diferentes. Holandeses e franceses partilham a ilha desde 1648. Nunca houve fronteiras dignas desse nome - sempre se circulou livremente entre a "parte francesa" e a "parte holandesa". O dialecto local é comum. A ilha é vista como uma cidade, da qual as aldeias ou aglomerados são os bairros, independentemente de estarem de um ou do outro lado da linha.


Mas as diferenças são grandes, espantosas. Quem conhece a França reconhece-a na parte francesa. O memsmo não se passa com a Holanda e a parte holandesa, muito mais caótica, vibrante, suja, rica, pobre.

Em St. Martin come-se melhor. Em St. Maarten mais variado. Os negócios estão do lado holandês. A qualidade de vida do lado francês. Os holandeses interferem muito pouco no governo da ilha. Os franceses começaram agora uma tímida, muito tímida tentativa de descentralização - que a administração local aproveitou para criar um imposto, claro (que de resto se compreende. Estes territórios viviam à custa de transferências da "metrópole", daí a qualidade de vida) .

É um pouco como ter dois jardins lado a lado: um à francesa e outro à inglesa.

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A mistura de chateado e excitado com a qual vim para aqui começa a esbater-se. Fica a excitação, a luta, a adrenalina, o desafio.

Barcos, armadores

"Os bons barcos raramente têm os donos que merecem" diz-me L., meu vizinho em Galveston.

Detesto confirmar estas ideias pessimistas,  estas visões cínicas da realidade.

17.12.14

Limites

Os limites da palavra são os mesmos do que os do silêncio.

Diário de Bordos - Galveston, Texas, Estados Unidos, 16-12-2014

O motor de arranque chegou com dois dias de atraso, só. O motor arrancou à primeira; não foi preciso mudar ou limpar filtros. A caixa funcionou - mal, mas funcionou -; o T. L. libertou-me mais cedo do que eu esperava.

Amanhã parto de Galveston. Poucas saudades levarei comigo: uma bicicleta de titânio e carbono que não só me fazia lamentar chegar aos destinos mas também, bastas vezes, me fez passá-los. Uma barmaid que desconhece Alexanders, Talisker e provavelmente outras coisas que não perguntei mas é linda de se morrer especado à frente dela. E - sobretudo - uma embarcação sublime cujos armadores pensam que eu estive a preparar para ser vendida mas na verdade estive a preparar para morrer (tentei fazê-la digna, pelo menos: vai limpa como nunca esteve e com uma série de sistemas a funcionar).

É um barco lindo de se viver por ele. Vai ficar na água uma eternidade, finda a qual - todas as eternidades têm um fim - os armadores vão pensar que tê-lo em terra é mais barato. Ali vai ficar a apodrecer até que um atrasado mental ou um marinheiro (não é um pleonasmo, embora pareça) veja nele um bom negócio (no primeiro caso) ou uma coisa linda, linda, linda (no segundo, e é qu oe impede o pleonasmo).

Aí será comprada por uma ninharia e maltratada, por uma fortuna.

........
Não vou para onde queria. Vou para onde posso. Quero mudar de vida, mas a vida não quer que eu a mude. Ao contrário das mulheres e do dinheiro o mar pega-se a mim como se, sem ele, eu não respirasse ou transpirasse. Ou pensasse. Ou vivesse.

Amanhã à noite estarei em St. Martin.

Devo dizer que a perspectiva de mudar de vida depois de uma época nas Caraíbas não me desagrada inteiramente. Nestes últimos dois anos fiz duas viagens: uma travessia do Atlântico problemática e  uma viagem de San Francisco a Panamá que serviu para compensar, ab ante, tudo o que seguiria.

Não chega. Preciso de acordar por baixo dos Deux Pitons, beber runs no meu amigo Lúcifer em Bequia, comer as accras do Comme à la Maison e o boudin créole do vizinho na Martinique, o philly steak da Sandra em Antigua, mergulhar nas Tobago Cays, fumar charros em Union Island na tasca do meu amigo rasta, beber rum punch no Robert em Mayreau ou no Mad Mongoose em Falmouth Harbour.

Preciso, enfim, de recompor o passado, antes de começar um futuro.

Um verso de Brel que li recentemente: "Il nous fallut bien du talent pour être vieux sans être adultes".

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Último jantar em Galveston. Vim ao Stuttgarten. Amanhã à noite estarei no Arawak a beber um ti' punch e pensarei que o mundo é sempre "mais pequeno do que o viajante que nele viaja".

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Amanhã esperam-me três horas no aeroporto de Miami. Ainda haverá o café mexicano? Ainda terá as margaritas gigantes?

Porque é que o meu mundo é tão pequeno?

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Há uma série de coisas que não fiz em Galveston: não andei na montanha russa (tem um loop); não visitei o submarino do museu naval e não comi um bom chilli. Preciso de razões mais fortes para cá voltar.

16.12.14

Banalidades de base

Quanto mais excepcional uma pessoa se vê ou se dá a ver, quanto mais especial se julga, mais vulgar e banal se descobre ao fim de meia dúzia de conversas. Ou menos.

15.12.14

Paráfrase

Aquilo que não pode ser compreendido não deve ser dito.

14.12.14

Genes, neardenthal

Não percebo muito bem o recente debate sobre a possível remanescência de genes do neardenthal no homo sapiens. Conheço tantos neardenthal puro-sangue que me admiro muito mais com a sobrevivência dos genes sapiens.

13.12.14

Diário de Bordos - Galveston, Texas, Estados Unidos, 12-12-2014

Nada mais há a fazer se não esperar. É a pior coisa do mundo, esperar. Aqui tem várias circunstâncias agravantes: esperar sem saber até quando; em Galveston, cidade que quanto mais conheço mais me desgosta; e sem receber, porque a culpa é minha, só minha e não dos meus (de resto adoráveis) patrões.

De modo aqui estou, a contar os cents e a pensar no que farei quando regressar a Portugal. Estou ansioso - mudar de vida é ansiógeno, por muito que o queiramos e esperemos.

Enquanto espero oiço Joe Cocker, um senhor que devia ter ouvido mais há muito tempo e não é só You are so beautiful ou With a little help from my friends (de resto canções muito bonitas, de passagem seja dito. E que prefiro de longe cantadas por ele).



In America you'll get food to eat
Won't have to run through the jungle
And scuff up your feet
You'll just sing about Jesus and drink wine all day
It's great to be an American

Ain't no lions or tigers-ain't no mamba snake
Just the sweet watermelon and the buckwheat cake
Ev'rybody is as happy as a man can be
Climb aboard, little wog-sail away with me

Sail away-sail away
We will cross the mighty ocean into Charleston Bay
Sail away-sail away
We will cross the mighty ocean into Charleston Bay

In America every man is free
To take care of his home and his family
You'll be as happy as a monkey in a monkey tree
You're all gonna be an American

Sail away-sail away
We will cross the mighty ocean into Charleston Bay
Sail away-sail away
We will cross the mighty ocean into Charleston Bay

........
Há muito quem pense que os barcos fazem barulho, ou barulhos se preferirem. Não é bem verdade. Os barcos conversam - entre si quando não têm ninguém a bordo, com os tripulantes quando os têm -.

É importante ouvi-los, do mais inocente murmúrio às irritantes queixas das adriças nos mastros. Eles não falam por acaso.

........
Galveston tem duas categorias de habitantes: os BOI e os IBA. Born on the Island e Islander by adoption. Não há limites para o chauvinismo nem reduto que lhe esteja imune.

Quase - retrato

Não tem onde cair doente, quanto mais morto.

11.12.14

Pacto

Fiz um pacto com a tristeza. Ela deixa de me perseguir e eu de a procurar.

Inimigo interior

As ideias preconcebidas são os piores inimigos que se pode ter. 

Não podemos viver sem elas, mas provocam nove em cada dez erros que cometemos.

8.12.14

Raiva, despeito

Vistos de fora a raiva e o despeito podem confundir-se.

De dentro também.

6.12.14

Nas tintas, em sentido lato

Um gajo sabe que qualquer coisa está errada quando não se lembra do último gin tónico que bebeu; e qualquer coisa certa quando se está nas tintas para o que o Facebook vai fazer com os dados que dele recolher: não vai com eles ganhar para pagar os milissegundos que levar a compilá-los. (Gosto deste verbo. compilar. Se pudesse usá-lo-ia mais vezes). São planos diferentes, claro. Do corpo ao bolso vai um abismo. O qual agora se tenta preencher com mais vinho e menos gin tónico, com mais FB e menos do que quer que fosse antes dele.

No fundo um gajo está-se nas tintas e pensa na anedota do cavalo que está a ser vendido. Quando o vendedor o solta no prado para que o comprador o veja galopar o cavalo espeta-se em todas as árvores que lhe aparecem pela frente. "Este cavalo é cego", protesta o potencial futuro dono. "Não. O cavalo não é cego. Está-se nas tintas, somente (he just doesn't give a fuck, no original)".

Um gajo não tem árvores à frente. Tem ausências. Mas está-se nas tintas.

Um gajo é livre, outra vez. Que importam as árvores, as ausências, o raio que o parta ou a puta que a pariu? Pouco.

"Pouco" é a essência da liberdade: se alguém a pudesse espremer sairia "pouco": dinheiro, tempo a perder com o muito dos outros, pouca roupa, paciência, pouco com que preocupar-se. Pouco.

A liberdade é um conjunto de poucos que adicionados fazem "tudo".

O calor voltou a Galveston; o trabalho prolongou-se por mais uns poucos dias; pouco há a dizer. E menos ainda que fazer. Um gajo está-se nas tintas. A ausência de cabelo, por exemplo. Hoje leu num jornal qualquer que a melhor maneira de disfarçar uma receding hairline [como raio se diz isto em português?] é andar com o cabelo muito curto. Mas um gajo quer acordar todas as manhãs e pensar "tenho de ir cortar o cabelo" e deitar-se todas as noites sem sequer pensar na hairline, quanto mais se ela está a recuar, avançar ou estável.

Também há presenças, naturalmente: a barriga, por exemplo. Que se foda a barriga.

Estar-se nas tintas é a versão civilizada de querer que se foda (e mais ainda de estar a cagar-se). Não são intercambiáveis: a civilização não se troca por nada, e a opacidade de estar-se nas tintas tão pouco.

Um gajo trabalha, é reconhecido e apreciado no seu trabalho, que é das poucas coisas para as quais um gajo não se está nas tintas. Para o resto está, tudo: presenças, ausências e assim-assins. Felizmente é recíproco: as tintas estão-se para um gajo.

É assim que um gajo navega num mar de tintas, as que se fodam e as outras. Num mar de liberdade, que um dia chegará ao fim. Mas como amanhã não é a véspera desse dia não é depois de amanhã que um gajo deixa de se estar nas tintas.

O trabalho prolongou-se, a música continua excelente, o açúcar que se foda, E a vida? pergunta alguém. A vida está-se nas tintas para um gajo, e um gajo para ela. Não passa disto: uma mistura de presenças, ausências, vinho tinto, boa música, trabalho, hairlines a recuar, e a certeza banal de que ninguém sabe nem sonha de que será amanhã feito. Em sentido lato, amanhã.


4.12.14

Diário de Bordos - Galveston, Texas, Estados Unidos, 22-11 a 04-12-2014

Estou cansado, exausto; e não tenho computador, ainda. Quando preciso de um vou à biblioteca municipal de Galveston, que tem quarenta para uso público - e gratuito -. Mas é por fatias de hora e meia, e uma parte desse tempo é passada a trabalhar, outra a percorrer o livro das caras, outra a ler e responder a mails, outra a divagar... Perdi o meu telefone - enfim, perdi-o e perdi-me - na noite da prisão de Sócrates. Agora ando com um minúsculo, que me obriga a escrever três vezes cada palavra.

Fica pouco tempo para o blogue, coitado.

Verdade seja dita: pouco há a contar. O trabalho absorve-me os dias, o sono as noites. Entre os dois, pequeno-almoço e almoço rápidos e jantar em terra, quase sempre na Stuttgarten Tavern. Ou no Stork Club, um restaurante local, agradável, sem mais. Ou no Fuddruckers, de que já aqui falei e onde devia ir mais vezes.

Agora descobri outro canto, e encanto; o Mod Coffee House. Como é uma Coffee House a água é um bocadinho mais escura do que nos outros sítios e tem um ligeiro acréscimo de sabor. Não muito, claro, que aquilo está longe de ser café. Mas enfim, o local é agradável e tem uma atmosfera de café: pessoas a conversar, trabalhar, estudar, escrever, ler, boa música e - infelizmente, que raramente lhes resisto - óptimos biscoitos.

Como sempre um, por vezes dois para punir o meu corpo das malandrices que ele me faz: o cansaço, a incapacidade de gerir correctamente o açúcar no sangue, a miopia, o tinitus e essas coisas todas.

O frio voltou, a indecisão também, a solidão continua. Tudo isto mudará, mais tarde ou mais cedo. Com excepção do tempo, que gostaria mudasse já, o resto pode esperar.

........
Tudo tem um fim, menos as viagens: as que hoje faço são a continuação da que me levou a dar uma volta ao mundo em 1976? Provavelmente.

E tudo tem um princípio; menos a dor, claro. É uma aluvião, a dor. Sedimenta, consolida-se e ao fim de uma vida vamos a ver e foi ela que fez o leito pelo qual o rio correu. Já a felicidade não: vai com as águas, não pousa, nunca fica muito tempo no mesmo sítio.

........
Sei pouco da história de Galveston. Foi criada no início do século XIX no que era então a República do Texas. Está na trilha dos ciclones. Em 1900 um deles matou oito mil pessoas. E do presente tão-pouco sei grande coisa. Cidade turística, portuária, hospitalar e balneária, agora fora de época.

Tem uma universidade - cujos alunos são de resto uma boa parte da clientela do café Mod -. Não sei se vota à direita se à esquerda. É uma ilha, maior do que parece: no outro dia tentei dar-lhe a volta de bicicleta e não cheguei nem a um terço.

"A época da solha está quase a acabar?" pergunta um jornalista no jornal local. "Tudo leva a crer que não", responde: "o organismo que gere o parque nacional (uma grande parte da ilha está num parque, ou coisa que o valha) prolongou o limite da captura de duas solhas por pessoa até dia quatorze". É preciso dizer que a pesca recreativa é uma actividade vital para a população. A marina está sempre cheia de pescadores e de solhas acabadas de pescar; há lojas de isco e artigos de pesca em tudo quanto é canto; o jornal menciona frequentemente o tema.

Recentemente perguntei à rapariga do Stork qual a atracção turística de Galveston, para além, claro está, da praia. "Pode andar-se com bebidas na rua", responde, ao fim de bastante tempo de reflexão.

A cidade é bonita. E monótona. John, um dos donos do Stuttgarten diz-me que isto não são os Estados Unidos. "As pessoas deixam o cérebro do lado de lá da ponte quando a atravessam". É da Geórgia, mas viveu "em todo o lado", Trabalhou num navio de cruzeiros. Conhece Lisboa, o Estoril, Cascais. Está aqui apenas para ir à escola náutica, quer progredir na carreira e "chegar a comandante".

É o tipo mais simpático que aqui encontrei, juntamente com Ben, o mecânico que ontem veio a bordo. "A ética de trabalho aqui é..." John faz uma careta, desfaz, refaz e conclui "horrível". Vai-se embora assim que acabar o curso.

E eu logo que o trabalho acabe. Já não faltava muito, quase nada, mas agora apareceu outra porcaria para resolver. Mais um dia ou dois.

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O bar 21 tem Laphroaig a sete dólares e a barmaid mais bonita de Galveston, do Texas e do Universo, para cortar caminho. A rapariga tem classe, mais classe do que idade. Nasceu com ela. Já vem de trás. Aquilo é a refinação de muitos ciclos de DNA.

O bar é bonito, a música boa e calma (excepto aos fins-de-semana) e a barmaid - perdoem-me a insistência - linda como um dia de sol nas Baleares. Mas as televisões - duas! - estragam tudo. Somos perseguidos pela merda da televisão. Não se pode dar um passo sem que ela, ou elas se espequem à nossa frente como uma namorada mal escolhida.

........
Ontem foi o primeiro dia de folga desde que cheguei. Refiro-me a uma folga explícita, formal, assumida e voluntária. A do sábado a seguir à prisão de Sócrates não responde a nenhum desses critérios. É bom, mas pouco. Uma tarde não chega. Precisava pelo menos de mais um dia, mas não vai ser possível.

Por isso faço durar o Laphroaig, enquanto oiço - impossível não ouvir - uma conversa entre dois clientes. Um está à minha direita e só faz pergunats e o outro, acompanhado pela namorada, à esquerda e só responde. Este vai ficar desempregado. Tinha um bar, mas vai ter de o fechar não percebi bem porquê. Mas entretanto parece que se alistou na Marinha. É médico ou enfermeiro, tal como a mulher, de resto. Tento não ouvir muito, vou escrevendo e olhando para a televisão ou para a barmaid, quando ela não pode ver quer a miro como se a criação fosse o museu do Louvre e ela a Gioconda.

........
Aos fins-de-semana Galveston humaniza-se. Enche-se de gente ("de Houston, vêm aqui passar o fim-de-semana" diz-me a tal rapariga do Stork Club) e os carros ganham condutores humanos: buzinam, aceleram... Deixam de ser conduzidos por robots.

São os únicos dias desagráveis. Os outros? Meramente chatos.

30.11.14

Requiem, cidades

Uma cabra no céu brilha no lugar da estrela. É tarde, como se do golfinho ou do vento o sorriso e o salto tivessem ficado suspensos.

Ou a luz. A escuridão abocanha um naco do coelacanto fugido de Herberto Hélder.

Ia a caminho de Amsterdam. Todos vamos a caminho de um sítio qualquer. Alguns encontram-no. Os sítios oferecem-se-lhes como cumulus num dia de verão.

A cabra não. Tem problemas de identidade. Muda de nome e de pasto como muda numa chama a direcção do calor.

A inevitabilidade das coisas é largamente compensada pela sua capacidade de duvidarem. As cabras não duvidam. Comem. Há uma beleza linear, cristalina, aérea numa cabra que come, morta de fome.

Gosto especialmente das sinceridades da fome e da morte. Há uma verdade nelas que nos tritura ou dissolve, não sei.

Também gosto de margaridas antropofágicas.

Fabricar silêncio é um trabalho a tempo inteiro para o tempo inteiro.

Há cidades feitas para isso. Para quem acha que solidão é não ter a quem escrever mais do que não ter em quem tocar. Que a clorofila não é um veneno. Que a vida tem um centro ou, pior, um sentido.

Há cidades para tudo. Até para cantar o requiem como se fosse um hallelujah.

27.11.14

26.11.14

Ser, ou não

Pode ser-se tudo o que se quiser, desde que se o seja.

Liberdade, medo

Só quem teme a liberdade lhe mede realmente o valor, o alcance.

Compreensões

Compreender alguém é uma sorte, uma lotaria que raramente se ganha.

Só ser comprendido é mais raro.

Amor eterno e literatura

Amar alguém como é, como foi e como será.

Provavelmente nem nos livros se pode estar tão perto do amor eterno.

Pena de morte

Sou contra a pena de morte, excepto em dois casos. Um deles é para quem usa material oxidável a bordo de uma embarcação de recreio.

Galveston, cansaço

Galveston é pequena de mais para o meu cansaço.

22.11.14

Alucinação

Se Deus existisse saberia que há pelo menos um gajo neste mundo que por questões físicas não devia beber muito e por razões laborais não devia deitar-se tarde.

Mas Deus não existe e deve haver muito mais gente na mesma situação,  pelo que de qualquer forma não teria como acudir a todos.

Acho bem: amanhã vai ser um sarilho convencer-me de que isto tudo não passa de uma alucinação provocada pelo produto tóxico com o qual passei o dia a lidar.

Diário de Bordos - Galveston, Texas, Estados Unidos, 22-11-2014

De repente o Stuttgarden Tavern On The Strand parece uma de duas coisas: ou um café de Metro ou uma esplanada em Paris.

Opto por esta última. A salsicha (pronuncia-se chalchicha) estava decente, o vinho custa quatro dólares o dedal - metade do que custa nos outros sítios (ou custaria, se eu bebesse) - a oito metros de mim está uma bicicleta feita de titânio e carbono - uma mistura etérea, no que diz respeito a bicicletas - a música ao vivo parou e Sócrates foi preso.

Nem a minha sweat shirt branca de Napa Valley Marina cheia de nódoas me entristece. Amanhã a roupa estará lavada e Sócrates solto. Mas hoje Sócrates está preso, e isso vale um milhão de nódoas por milímetro quadrado numa camisa de que tanto gosto.

Andar numa bicicleta de dois ou três quilos também é muito bom. Quase tão bom.

Mantenhamos a calma. Sócrates foi preso. Um dedal de vinho a quatro dólares é de borla. O TL - uma das formas da beleza - tem um comprador potencial.

A felicidade, aprendemos com o tempo  é feita de pequenas pinceladas de sonho na grande tela da realidade. Abençoadas sejam a felicidade e a realidade.

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Hoje é sexta-feira e há barulho em Galveston. Infelizmente não o oiço.

Estou demasiado ocupado a pensar quão boa é a vida quando flui como um grande rio tranquilo. Qualquer que seja a quantidade de nódoas na camisa comprada numa marina que de manhã cheirava a caca de vaca e à tarde parecia uma colónia de extra-terrestres que se enganaram de planeta.

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Amar por amar mais vale amar a vida, mesmo quando ela não sabe bem o que fazer connosco.

Nós sabemos o que fazer dela.

21.11.14

Diário de Bordos - Galveston, Texas, Estados Unidos, 20-11-2014

Agora tenho uma bicicleta. Galveston muda. (Bicicleta é dizer pouco: uma Dean de corrida que pesa metade da minha Turbo e custa cinco vezes mais).

Ou seja: estou livre da tirania do McDonald's - contra o qual, de resto,  nada tenho. Antes muito pelo contrário -.

De maneira hoje vim jantar ao Fuddruckers, coisa de que nunca tinha ouvido falar. Hambúrgueres excelentes e um conceito apreciável. Um gajo encomenda - a escolha é vasta e inclui uma opção sem pão - e vai para a mesa com uma aparelho que o avisa quando o prato está pronto. Até aqui nada de novo,  nem a Oeste nem a Leste.

Onde a novidade começa,  pelo menos para mim,  é quando se vai buscar a coisa. A senhora aponta para um enorme buffet e diz Os acompanhamentos estão ali.

Se estão. Salada, tomate, pickles, cebola, pimentos - you name it, perdoem-me o inglês mas aqui é mais do que justificado -.

Por oito dólares come-se bem - a carne esta excelente - respeita-se a auto-imposta restrição aos hidratos de carbono e ainda se ouve boa música.

Seria incapaz de viver nos Estados Unidos - incluindo San Francisco, cidade de que gosto especialmente - mas forçoso é reconhecer que merecem o que têm.

Só é pena esta obsessão com a regulação. É um país governado por juízes. Em Portugal já tivemos um cheirinho do que isso significa.

Aqui é muito pior. A terra dos livres há muito que deixou de o ser. Agora é a terra dos juízes.

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O trabalho avança depressa. Que prazer! Trabalho ao meu ritmo a fazer uma coisa de que gosto.

Sou pago decentemente para isso e para estar numa cidade que aprecio, mesmo não conhecendo ninguém.

A estadia vai ser curta, pero ¿qué importa? Aproveita o que tens quando tens... Amanhã és terra, como diz Omar Khayyam,  tão bem. E só servirás para fazer jarras de vinho.

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O Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas trouxe-me à memoria os meus tempos de leituras zen. E reconciliou-me com ele.

Depressa me aborreci: não lhe aceito a passividade, a ideia de que tudo é uma ilusão,  a ideia que é possível evitar a dor e o sofrimento.

Não é. Nem sequer é desejável: sem dor não há prazer, como sem tristeza não há alegria.

Mas lembrei-me de como o Zen me ajudou a perceber Camus e a apreciá-lo ainda mais: absurdo por absurdo prefiro o que o lamenta ao que se toma por objectivo.


20.11.14

Diário de Bordos - Galveston, Texas, Estados Unidos, 19 e 20-11-2014

Conheço mal Galveston, claro. Saio de bordo para comer - quase sempre no McDonald's, o sítio mais perto (meia hora a pé) que tem simultaneamente comida e wifi -, para ir ao Walmart comprar qualquer coisa ou para ir à biblioteca, que tem computadores (e gratuitos, qui plus est). A cidade é uma mistura esquisita de cidade portuária, cidade hospitalar e cidade histórica. Digo mistura, mas não sei se é correcto: ignoro como interagem.

As primeiras impressões são agradáveis. Ruas largas, desertas de peões - ando quilómetros todos os dias e contam-se pelos dedos da mão esquerda (tem os mesmos, mas desajeitados) a quantidade de peões com que me cruzo - percorridas por viaturas potentes que parecem circular sozinhas, seja por causa dos vidros escuros ou devido à aparente ausência de qualquer actividade humana - não há buzinadelas, acelerações bruscas,  travagens, curvas com os pneus a chiar -.

Os carros ou são conduzidos por máquinas ou por ninguém. Conduzem-se a si próprios.

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O autocarro é confortável,  pontual - há qualquer coisa de mágico numa cidade na qual os autocarros não só têm horários como os respeitam - e está limpo,  o que não é surpreendente porque está vazio, apesar de só passar de meia em meia hora. Até à paragem terminal sou o único passageiro. Depois desço e entra uma senhora.

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Hoje decidi jantar "em terra". Que se lixe o wifi. Vou a um restaurante a sério.

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(20-11-2014)

Fui. E depois fui a um bar que tem Laphroaig a sete dólares a dose.

Claro que nos Estados Unidos as doses são mais pequenas do que as nossas; e aos preços há que acrescentar a gorjeta. Mas vale a pena, mesmo assim. Há tantos anos que não bebia um whisky de malte... E logo este, um dos meus favoritos. E a rapariga do bar, tão bonita.

O Texas é incomparavelmente mais barato do que a Califórnia. E mais americano...

(No sentido de corresponder mais à ideia que fazemos da América. Desde que se lê Os Americanos de Alain Peyrefitte se sabe que não existe tal coisa como os americanos. É um livro que Galveston me deu vontade de reler.)

Lumbersexual

Isto começou se não me engano no metrosexual e já vai nos lenhadores. Se continuar a descer qualquer dia chega aos marinheiros.

Impostos, amor

"Trop d`impôt tue l`impôt".

O mesmo pode ser dito do amor.

19.11.14

Decência

Não somos decentes. Tornamo-nos decentes.  Ser decente é um objectivo,  uma vontade, um caminho.

Uma aberração,  no fundo: sabermo-nos imperfeitos e não o aceitar.

Diário de Bordos - Galveston, Texas, Estados Unidos, 18-11-2014

O aquecimento global continua a fazer das suas: está um frio de gelar as sinapses a um hiper-activo.

É raro tanto frio em Galveston, dizem-me.

Acredito: faço parte daquele grupo de pessoas que ficaria feliz se o mundo aquecesse globalmente e ele vinga-se arrefecendo localmente - o local sendo aquele onde estou.

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Os armadores do TL querem desfazer-sr dele a qualquer preço. As razões são as do costume: compraram o barco porque era giro ter um barco, não achas?, foram enganados como se tivessem tomado o mais pequeno dos planetas pelo sol, tiveram uma viagem horrorosa.

Enfim, gastaram uma pipa de massa para sofrer o que qualquer crente sofre de borla, seja qual for a religião.

O barco é lindo de se morrer, de viver, de acreditar na vida antes durante e depois da morte, de acreditar nos dias de graça dos arquitectos navais, de, sei lá,  pensar que não, a beleza não está nos olhos de quem a  vê ou sofre por não a ver.

É muito muito raro chatear-me por não ter dinheiro, ou ter vontade de o ter. Esta é uma dessas ocasiões.

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Anda por aí um meme que diz que o amor é uma doença mental,  ou coisa que o valha.

Discordo. Doença mental é não ver a beleza onde ela está. Seja numa cama, numa pele, num olhar ou numa marina,  pontão E lugar 45.

Barcos, famílias

Há pessoas que têm barcos como outras se casam ou têm filhos: por acaso, porque toda a gente tem, porque sim. Depois, claro, o casamento desfaz-se, os filhos tornam-se punks, padres ou adolescentes e tudo acaba em lágrimas,  advogados ou polícia.

Não é essa a forma correcta de ter um barco. Tem-se um barco como se tem uma mulher que se ama, ou filhos: porque sem ela, sem eles, sem ele a vida não é vida, é um ersatz de existência sem sentido e sem conteúdo.

Acresce que um barco não se pode ir embora sem nós e deixar-nos especados no cais como se tivéssemos deixado de existir.

17.11.14

Diário de Bordos - Galveston, Texas, Estados Unidos, 16-11-2014

Sinto-me como um atirador de facas de circo que se usasse a si próprio como alvo. E falhasse a grande maioria delas.

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A cada etapa houve uma pequena barreira, ultrapassada com a graça e distinção de uma gazela feliz.

Pela primeira vez entro nos Estados Unidos com um bilhete só de ida. E como não me lembrava de quando fiz o ESTA pela última vez passei-a numa tensão indescritível. 

Potenciada porque antes de vir meti a pata na poça como há muito tempo não metia. Tanto que antecipei o ano novo e tomei uma resolução das de ano novo vida nova. Foi uma lição dolorosa. Ainda bem. São as que ficam.

Não será ainda a vida mas há uma coisa em mim que vai mudar já.  

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Encontro o TL como o encontrei em Shelter Bay: sujo, desarrumado,  negligenciado.

É criminoso: o barco é lindo e deve navegar maravilhosamente. 

Nunca compreenderei a falta de amor por um barco. Seja bonito ou feio, de resto. 

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No aeroporto,  a dois metros de mim estão duas máquinas com aquilo de que mais preciso agora: uma carrega telefones a outra vende cartões SIM.

Mas só aceitam cartões de crédito. Há muito tempo que o cash deixou de ser rei.

Agora é vagabundo, pobre,  coisa de nómadas e de traficantes de droga.

15.11.14

Diário de Bordos - S. Luís, Maranhão, Brasil, 15-11-2014

São Luís acolheu-me como se eu fosse parte dela. Sou.

E agora, que me preparo para a deixar de novo, ainda mais. Não sei quanto tempo estarei fora. Três, quatro semanas, em Galveston, no Texas. Preparar um barco para ser vendido. Os armadores são dois irmãos para quem já trabalhei no Panamá.

"S. Luís é antropófaga", diz-me Jean Paul Delfino, um escritor francês que conheci aqui. A definição é boa, mas não exprime o prazer que sinto em saber-me engolido, aceite, integrado pela cidade.

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Os contos marítimos, agora numa versão europeia; traduções; um artigo para uma revista; os jantares literários. A nova vida começa a tomar formas concretas. Só falta um sítio para arrumar a roupa de mar. E outro para os livros.

Mas o mar resiste, como se soubesse que em breve não será mais o único lugar da minha vida. A roupa de mar será arrumada, mas acessível.

Genève, 2001 (?) - Reedição


Semanas, eternidade

A eternidade é consituída por um número infinito de semanas, agrupadas duas a duas.

(Piada privada).

13.11.14

Não sou faquir

Por mais bonita que seja, uma mulher burra ou sem cultura suscita-me tanto desejo como aquelas pranchas de madeira com pregos sobre as quais os faquires se deitam.

12.11.14

(Cont. e fim)

Frail no more também é uma expressão muito bonita.

11.11.14

Diário de Bordos - Belém, Pará, Brasil, 11-11-2014

Belém fica para trás. Pela frente está S. Luís, de novo, por alguns dias. Começo a conhecer esta cidade; ou melhor, alguns recantos dela. Hoje passeei pelos locais habituais: Estação das Docas, Ver-o-Peso, Comércio.

Conheço poucos quarteirões tão bem nomeados como este último. É um gigantesco centro comercial a céu aberto, com stands em quase todas as ruas. Vendem tudo: comida, roupa, ouro e prata, bugigangas chinesas, sapatos, telefones... Tudo.

Parafraseando Almeida Faria, Nada do que é comercial é estranho ao Comércio.

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Doze horas de autocarro até S. Luís. Os bilhetes de avião internos no Brasil têm preços absurdos, sobretudo quando reservados à última da hora. Transformar este país é uma tarefa hercúlea. Requereria muita vontade e muito tempo. Uso o condicional: começa por faltar a primeira, e é fundamental.

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Frail é uma das palavras mais bonitas que conheço em inglês.

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Três dias em S. Luís. Vai ser pouco. Que encontrarei?

Diário de Bordos - Belém, Pará, Brasil, 10-11-2014

Estou de novo no meu bar favorito de Belém. Chama-se Cosa Nostra e é o único que conheço. Hoje tem música ao vivo. Um baterista e um guitarra. Começaram bem, um pouco jazzy. Depois resvalaram para a música brasileira.  Curiosamente têm muito menos aplausos.

Ou as pessoas gostam de jazz ou se cansaram de os aplaudir.

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Mais uma noite e um dia em Belém.  O despachante que devia ter aparecido às duas e meia da tarde chegou às quatro e meia.

Mas não foi por isso que fiquei. Disse-me que talvez consiga tirar as peças amanhã.

Ao princípio duvidei. Garantiu-me que não estava a inventar. De qualquer forma teria de pagar o quarto - não o deixei, porque começo a conhecer o Brasil - e creio que posso passar mais um dia fora de S. Luís.

Aquilo está por um fio. Sinto-me um equilibrista ou malabarista ou construtor de castelos de cartas. Três semanas de trabalho simples não me farão mal.

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Hostel é simplesmente outra palavra para espelunca? Sim e não.

A quem acredite mais no não sugiro o hostel Amazónia,  na rua Ó de Almeida. 548 (sei a morada de cor. Agora é a minha morada oficial no Brasil.  Pelo menos para efeitos de alfândega). Quem tenda para sim, a pousada Portas da Amazônia,  perto da Sé.

Qualquer está bem para o preço que cobra, bem situado - o hostel no centro, a pousada perto do mercado A Ver-o-Peso.

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Não estou a ouvir a música.

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Simetrias diacrónicas, ressentimentos assíncronos.

Para quando simetrias síncronas?

10.11.14

Diário de Bordos - Belém, Pará, Brasil, 09 e 10-11-2014

O último vestígio físico de um soberbo e desvairado dia em Cólon, Panamá, há pouco mais de um ano ficou no aeroporto de Lisboa. Era um frasco de Fahrenheit de 200 ml. Tinha previsto trazê-lo no porão,  mas por razões que nem de peso eram tive de trazer o saco onde ele estava na mão e não passou no filtro de segurança.

A esse incidente - que me aborreceu mas pouco - seguiu-se uma das melhores viagens de avião dos últimos anos. Saímos à hora, o voo estava praticamente vazio, a refeição excelente, a tripulação de cabine - aliás como sempre na TAP - eficaz e amabilíssima.

Não sei se para pagar isto se por uma questão de simetria em Belém o senhor da alfândega decidiu reter as peças pelas quais tanto tempo esperei em Lisboa.

Estou habituado a lidar com pessoal das alfândegas, mas nunca na vida vi coisa semelhante,  filho da puta maior.

Uma das pessoas com quem comentei o caso, ainda no aeroporto, explicou-me que ele é um "comprador de confusão" e contou-me duas ou três histórias escabrosas a seu respeito.

Coisa que não chega, nem de perto, para atenuar a raiva, a fúria, o desprezo, o asco que sinto pelas alfândegas em geral e pela brasileira em particular.

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Mas a chegada foi mais do que este desagradável e inesperado contacto com uma das coisas de que o meu desgosto pelo o Brasil é feito. Menor do que o sentimento extremamente negativo que sinto pelas alfândegas, quaisquer que sejam - mas mesmo assim bastante forte - é o que nutro pela burocracia. E a burocracia brasileira é fantástica. Faz Kafka passar por um escritor infantil.

Excedi de novo o meu período de estadia. Desta vez em dois dias. Ou seja, agora a multa é de dezasseis reais, cerca de três euros. É um problema complexo, pagar dezasseis reais de multa (da última vez foram três dias e vinte e quatro reais; fiquei quatro horas no gabinete da Polícia Federal enquanto os funcionários faziam tudo o que podiam para me ajudar. Desta vez foram só duas horas e meia, o que demonstra que não há proporcionalidade directa entre o tempo que se perde e o montante). Compreende as seguintes etapas:

a) Pedir a um funcionário da companhia aérea que se disponibilize para pagar a multa com o seu cartão de débito. Isto é feito pelo polícia federal, porque eu não posso abandonar o sítio onde me encontro - o controle de passaportes do aeroporto.

A multa não pode ser paga em dinheiro e só o pode ser com um cartão de débito - todos sabemos que os estrangeiros têm contas no banco no Brasil, naturalmente.

b) O dito funcionário - neste caso Daniel, da TAP, simpátiquíssimo e prestável como todos os funcionários da TAP - descobre que não pode fazer o pagamento porque o código de barras caduca ao fim de quinze dias; claro que um estrangeiro que apanhou uma multa ao sair do Brasil tem como principal prioridade pagá-la ao chegar ao seu país. E igualmente claro é que no seu país há agências do Banco do Brasil, o único autorizado a receber os ditos pagamentos.

c) Os funcionários da Polícia Federal procuram uma solução alternativa (esta etapa parece inócua, mas não é. Implica longuíssimos debates e vários testes).

d) Os ditos funcionários optam por uma solução e descobrem que ela não é exequível.

e) Repete c).

f) Os funcionários tentam outra solução e debatem-se com dois ou três funcionalidades do programa informático que usam.

g) (Até agora tenho usado funcionários no plural. Neste momento surge um caso grave - um mandato de prisão - e o funcionário sénior tem de abandonar o meu caso e tratar da prisão).

O funcionário júnior - em termos de posto, porque de idade é tão júnior como eu e mais velho do que o funcionário sénior - encontra um problema no dito programa. Espera aproximadamente dez minutos. Telefona ao outro para que o venha ajudar. O funcionário sénior aparece ao fim de cinco minutos - o problema da prisão ainda não estava resolvido mas estava a resolver-se -.Qual era o problema? "O sistema está a pedir uma morada, mas não aceita a morada do senhor em Lisboa". "Não faz mal, põe uma morada fictícia". "Mas eu tenho uma morada no Brasil, se quiserem", digo. Querem. Dou a morada em S. Luís. O sistema aceita.

h) O funcionário júnior não consegue imprimir o documento que o sistema finalmente produziu.

i) O funcionário sénior reaparece e consegue imprimir a GRU. Esta etapa leva aproximadamente vinte minutos. Sei porque fui comer (especial favor de júnior, porque em princípio não posso sair do gabinete onde me encontro), trocar dinheiro - outro espectáculo - e quando voltei eles tinham acabado de encontrar a solução. O documento ainda não estava impresso, mas estava em vias de.

j) Ir chamar o funcionário da TAP que entretanto, incompreensivelmente, se retirou. Presumo que para ir trabalhar.

k) Imprimir as duzentas e cinquenta cópias de todos os documentos envolvidos, desde o que tinha acabado de ser impresso até ao meu passaporte, agrafá-los, cortar o excesso de papel - júnior tentou primeiro com um objecto que não percebi bem qual era, depois com um cartão de crédito, depois e finalmente com uma régua. Só com este obteve resultados satisfatórios -.

l) Entregar-me todos os papéis e cópias. Ir carimbar o passaporte, coisa que só sénior pode fazer.

m) Despedidas efusivas, amigáveis, felizes, agradecimentos mútuos e promessas de que nunca mais deixarei tal coisa acontecer (não é difícil: sábado vou para os Estados Unidos e quando regressar não precisarei de noventa dias. Isto assumindo que o "sistema" mos concede, generosamente. Desta vez só tive direito a vinte e oito. Nenhum dos dois me soube ou quis explicar porquê).

Talvez o sistema aprecie os desafios que eu lhe coloco.

(Em Brasília, há quatro meses, o problema foi ligeiramente mais complexo: o novo GRU - não perguntem - tinha um código de barras válido, mas que não aceitava as transferências feitas por um desfile de funcionários com cartões de diferentes bancos. Até que um dos funcionários - não sei qual, estavam resguardados - teve a ideia de fazer a transferência por banca doméstica e funcionou).

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Ou seja: estou de novo no Brasil. Fui jantar ao Clube de Remo, um restaurante popular onde as caipirinhas são boas e baratas, as pessoas comunicam entre si a um nível sonoro nunca inferior a noventa decibéis, a música anda lá perto, o chão está tão peganhento que posso fazer exercício simplesmente tentando levantar os pés uma vez por minuto, o serviço péssimo em termos de qualidade e adorável como só os brasileiros sabem ser.

Estou de novo no Brasil. Tive de discutir com o chauffeur de táxi - ele ganhou, com uma mistura de argumento falacioso ("não tenho troco") e psicológico ("este gajo está demasiado cansado para se chatear por dez reais") -, voltei a pé para o hotel temendo ser assaltado (não fui) por passeios esburacados e ruas sujas, com cheiros alternadamente sublimes e nauseabundos.

E penso que a questão não é tanto gostar do Brasil ou não: é gostar da vida ou não. Descubro que sim, gosto.

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(10-11-2014)

Trocar dinheiro no Brasil também é uma operação complexa, que exige de uma das pessoas - são necessárias duas - que procede à troca dons de romancista, creio, tanto é o que escrevem num computador quando o turista sem cartão de débito ou crédito petende fazê-lo.

E isto qualquer que seja o montante. A única diferença no tempo que a operação leva é que provem da quantidade de algarismos.

Mas tem uma coisa mais simples do que a emissão de um GRU: só é necessária uma fotocópia. A do passaporte.

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O senhor Brito, que me vai apresentar um despachante despachado veio ver-me para se informar e me informar que me vem buscar ao meio-dia.Diz que não terei problemas para levantar as peças.

Pergunto-me quanto tempo será "não terei problemas".

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O dia está lindo, quente, os alísios cheios de força. As mangueiras que bordam as ruas ainda não têm mangas. O trânsito continua caótico, livre, excitante e perigoso. Os semáforos voltam a ser meros indicadores de probabilidades de se encontrar veículos vindos das outras direcções: quando estão verdes as probabilidades são mais baixas; encarnados, mais altas (isto aplica-se também, naturalmente, aos sinais das travessias de peões).

Palavras, sentimentos

A amizade e o amor começam sempre pelas palavras - há excepções, claro. Mas são isso mesmo. E de qualquer forma mesmo as excepções precisam, cedo ou tarde, de palavras -.

Elas farejam e reconhecem os sentimentos muito antes dos olhos ou das mãos. 

7.11.14

Diário de Bordos - Comboio Porto Lisboa, 07-11-2014

Só recebo piropos quando sou fotografado pela Graça Ezequiel.  E mesmo assim associam-me a um cantor local ou a uma das suas cançonetas com pretensões.

Forçoso é reconhecer que não me importaria de receber um ou dois piropos mais - por mês,  já não digo por semana -.

Mas é igualmente forçoso reconhecer que se ouvisse vinte piropos por dia,  e desprovidos da graça (e da Graça, claro) talvez gostasse menos de os ouvir e esperasse pelo próximo com menos ansiedade. Ou seja: de certa e invejosa forma compreendo as senhoras e os maricas que querem limitar a quantidade - ou aumentar a qualidade - dos piropos que ouvem quotidianamente.

O problema que vejo nisto é mais de ordem prática. Como legislar? É proibido dizer piropos se não forem acompanhados por fotografias da Graça Ezequiel e por referências à música popular indígena?

É proibido dizer piropos se forem notoriamente falsos, mesmo se apoiados em fotografias da dita - e simpática - senhora (não a conheço pessoalmente, mas quem faz fotografias daquelas de mim não pode ser má pessoa)?

É proibido dizer piropos se não puderem - ainda que falaciosamente - ser associados a cantores e canções mediocres?

Como proibir uma pessoa de manifestar o seu mau gosto ou, mais frequentemente, a sua falta de educação, tacto, sensibilidade, jeito ou - pior - esperança?

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Na mesa ao lado da minha está sentada uma senhora que sem ser bonita é linda, aquele linda que nos levaria ao altar sem passar pelo hotel (isto é para ser dito em francês,  claro). Falam - ela e o casal que a acompanha -  de viagens. Profusão de viagens.  As dela (fala no plural. Aposto que tem um namorado), as dos amigos, as do casal e respectivos amigos e assim por diante. Quando me fui embora ficaram provavelmente a discutir as viagens do papa ou as de algum condutor de comboios que calhem conhecer.

Estou a reler Fernão Mendes Pinto e não posso deixar de pensar na atracção que os portugueses têm pelas viagens.

Eu não aspiro a nada mais do que uma quinta em Almada - em Mértola, se possível - e pergunto-me se viajar de turismo é viajar.

Acho que não. Só se viaja verdadeiramente quando se é cativo, vendido,  escravo, amaldiçoado.

Ou bendito, mas isso é outra história.

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Entre apanhar um comboio mais cedo para Lisboa e comprovar uma vez mais a existência de Deus optei por esta última (vou fundar um ramo da teologia chamado teologia gourmet). Não existe, nem mesmo quando cozinha no restaurante Aleixo: o peixe galo estava perfeito e a açorda de ovas também. Mas não estavam divinos.

A única coisa divina foi a já mencionada senhora, com ou pela qual eu iniciaria muito rapidamente uma carreira estática e sedentária em teologia estética, idolatria sensual ou até conversaria sobre viagens.

Se ela quisesse, claro. Não sou de piropos.

6.11.14

Amizades

Há imensos anos que abandonei o negócio de fazer amigos.  Ainda bem, de resto: perco mais do que faço e se tivesse insistido teria esse negócio o destino dos outros que iniciei e não deixei a tempo.

Por vezes encontro pessoas que gostava de conhecer. São cada vez menos, feĺizmente. E cada vez melhores.

E ainda há quem não goste de envelhecer.

Diário de Bordos - Lisboa, 05-11-2014

Uma bicicleta é boa quando nos faz lamentar chegar ao destino, qualquer que tenha sido a distância ou o tempo que pedalámos para o atingir.

Desse ponto de vista a bicicleta Vitus Turbo* que hoje comprei é excelente. E linda, o que é um prémio. De longe a mais bonita de todas as bicicletas que tive até hoje.

Só a vou usar um dia: sexta-feira vou ao Porto e sábado regresso ao Brasil. A bicicleta será entregue para rentabilização amanhã e ficará em Lisboa à minha espera.

Mais um elástico que ponho nas costas e que me puxará para aqui cada vez que pensar em não voltar.

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Há uma diferença muito grande entre ser-se mal-educada e ser-se ordinária. É uma diferença importante: conheço gente ordinária muito educadinha, e, ao contrário, pessoas mal-educadas que são selectas.

A Rosa das Pintas - uma vendedora de flores do Mercado da Ribeira de quem já por aqui algumas vezes falei - fazia parte deste último grupo.

Só muito recentemente lhe soube a alcunha, proveniente das inúmeras sardas. A senhora era inimaginavelmente malcriada. Íamos à Ribeira beber cacau e comprar flores à Rosa - era a nossa vendedora preferida - e de lá saíamos aquecidos pela bebida e pelos chorrilhos de asneiras que ela proferia ao mais pequeno pretexto.

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Outra menção frequente: o prazer que sinto quando vejo um dos meus preconceitos - são tantos ou mais do que as sardas da Rosa - despedaçado, partido em mil estilhaços, exposto-lhes a falsidão e o erro.

E desta vez com fragor: a ideia de que em Portugal não se sabe dizer poesia (não falo de mim, claro; não sei dizer em lado nenhum) foi destruída pela voz poderosa, versátil e sensível do André Gago.

Ouvi-a pela primeira vez nos Poetas do Povo, mas soube a pouco. Esta semana ouvi-a de novo e muito mais nas Primas Terças do Bela Vinhos e Petiscos (que afinal fica em Alfama e não em Sintra, como eu misteriosamente pensava).

O André estava acompanhado por um guitarrista chamado Vasco Duarte Abranches. Chamar-lhe guitarrista é insuficiente - ele está muito mais perto do génio do que do instrumento - e Vasco uma ilusão: naquela noite parecia que Alberto Caeiro ele-mesmo estava a tocar ali sentado enquanto o André lhe dizia os poemas.

Mais uma noite maravilhosa, mais um elástico para a colecção.

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"Eu cá sou de antes quebrar do que torcer", dizia o senhor que me engraxava os sapatos no Rossio aqui há uns dias.

Isto vinha no decorrer de uma conversa cujo teor completo não recordo, infelizmente. Devia ter-me levantado e corrido para o Gelo escrevê-la, mas enfim. A verdade é que estes diários não se querem uma compilação rigorosa e milimétrica dos dias.

Antes quebrar do que torcer. Engraxar sapatos no Rossio.

A resposta é sim.

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Quase a ir-me embora lembro-me de algo que pensei há muito: as únicas partidas são as dolorosas. Uma partida sem dor é uma viagem. Ou melhor: um passeio.

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Por razões estéticas e práticas evito usar a Gare do Oriente. Poucos sítios haverá em que a dicotomia entre a função e a forma seja tão profunda, tão evidente (e tão bonita, mas isso é outro debate).

Aquilo não devia ser uma estação de comboios - e terminal, meu Deus -. Quando muito, um cenário para filmes de horror futuristas, campo de batalha para adolescentes desordeiros e bêbedos, armadilha para extra-terrestres que querem passar despercebidos e para isso vão apanhar o comboio. Seriam provavelmente os únicos que compreenderiam aquele estúpido desperdício de espaço, aquela ausência de luz, o eco cavernoso e triste, o vento (sim, há sítios em que o vento é desagradável).

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A maioria das ideias e projectos que tinha quando cheguei a Lisboa estão a avançar. Nem todos chegarão ao fim, claro. Mas o facto simples e irrevogável de já não estarem num parque de estacionamento mental fez desta estadia a melhor em muito tempo. Parece que a ampulheta se virou, finalmente.

* - Isto precisa de ser clarificado. O quadro da bicicleta é Vitus. O resto vem de um molhe de coisas que  RCycla recicla, como por feliz coincidência o nome da loja / oficina indica.

Aconselho-a fortemente. Fica na 24 de Julho, ao lado de  um restaurante chamado Beira-Rio.

O qual é melhor tasca de Lisboa,  arredores e similares.

Cinefilia

Laura, A Desaparecida, de certa forma Providence: os meus filmes favoritos são feitos de ausência.

3.11.14

Diário de Bordos - Mértola, Portugal, 03-11-2014, (cont.)

Um dia bom, mais um, cheio de futuro aos molhos.

Agora chega ao fim, tranquilo, calmo como quem sabe que fez o que podia ou devia.

Uma vida não precisa de muitos assim. Dois ou três molhos deles a cada princípio,  outros tantos no meio e no fim.

Dias como este são especiarias num cozinhado que esteve quase cinquenta anos ao lume (excluo os da adolescência. São um lume diferente).

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A lua está em crescente. Eu também.

Não amor

Eu sei que não te amo. É fácil não te amar para sempre.

Deixa-me dizer-te baixinho, ao ouvido,  nesta almofada na qual repousamos cansados, saciados e satisfeitos: não te amo para sempre. Não te amo como se tu não fosses o mundo, o sol, a lua, a noite e o dia. Não te amo como se nunca te tivesse amado, nunca te tivesse feito amor de manhã, à tarde e à noite, encavalitados no tempo, à luz do sol ou da lua, das estrelas ou sem luz nenhuma, nem mesmo a do tempo.

Não te amo como se não tivesses mamas e ventre e olhos e cabeça para compreender o que te digo quando me calo e o que calo quando te digo.

Não te amo como se não fosses tu a vida, o mundo, o tempo e o vento.

Não te amo como se não estivesse em Mértola, como se não tivesse memória, como se não soubesse que sem ti o amor o tempo o passado e o futuro não passam de um magma disforme, sem cara e sem olhar.

Não te amo como se não te amasse.

Não te amo como se este quarto estivesse vazio, como se por este rio não voassem sonhos, como se por este silêncio não perpassasse o teu sorriso céptico, ansioso e triste.

Não te amo como se tu não fosses uma das razões de eu não te amar.

Diário de Bordos - Mértola, Portugal, 03-11-2014

O silêncio denso, quase sólido das pequenas vilas e aldeias: quando passa um automóvel quase lhe agradecemos. Como se ´fosse uma pequena distracção, um truque para nos chamar a atenção para o principal.

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Falei com P., o dono do mastro que vi atracado no cais. O mastro é de um Vulcain 6, um dériveur lesté de trinta e poucos pés que de patilhão em baixo cala dois metros e dez. Diz-me que só teve de o subir num sítio. Com um metro e sessenta não terei dificuldades de maior.

P. é um suíço de Bienne e partilha o meu entusiasmo por Mértola. Quem não partilha? Estar no campo com um veleiro atracado só na Holanda; é muito menos bonito, mais caro, as pessoas menos simpáticas e a comida mil vezes pior.

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Mértola e Lisboa, Portugal e mar, literatura e vela: os ingredientes parecem bons. A ver o bolo.

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No verão a maioria dos turistas é portuguesa; no inverno estrangeira: espanhóis, Franceses, Holandeses.

2.11.14

Quase provérbios

"Quem tem Visa meu amigo é".

Do Sebastião Antunes, uma pérola de um colar infinito delas. (Em Mértola, claro. Esta terra excita a criatividade de quem a tem e faz quem não pensar que sim).

1.11.14

Serviço Público - Restaurantes, Mértola

O Repuxo.

Quando acabar de digerir este esplêndido almoço comento.

Av Aureliano Mira Fernandes. Tel 286 612 552.

Diário de Bordos - Mértola, Portugal, 01-11-2014

Está muito calor, e esse calor vem de todo o lado: do ar, do vinho que bebemos ao almoço, das ruas de Mértola, tão acolhedoras como sempre.

Pergunto-me se ainda terão fantasmas. Não sei. Logo verei.

Apenas sei o que vejo;  e o que vejo é o cais com um mastro, um só; um dia haverá dois.

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Mértola está deserta; sinto-me no mar.

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A estadia em Portugal está quase a terminar. Em breve regressarei ao Brasil. Depois Texas, Brasil de novo, Caraíbas, Canadá e, final e felizmente, Portugal. Há muito tempo que não tenho um itinerário previsto com tanta antecedência. Há muito tempo que lugar algum no mundo me acolhia como Lisboa me acolheu desta vez. As mudanças de vida são assim: uma mistura de lentidão e celeridade, esforço e inevitabilidade.

Vou pôr os pés em terra; enfim, pelo menos um. O outro ficará no mar. Portugal e o mar: mistura antiga, de provas dadas. Feitos um para o outro, como eu para um e outro.

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Esta escala em Lisboa estava suposta durar quinze dias. Vai para mês e meio. Penso em tudo o que aconteceu, em tudo o que ficou preparado, em tudo o que me espera. Vida destilada: cinquenta e muitos anos de vida que convergem para um ponto, que se condensam, afinam como um queijo ou uma aguardente.