Uma vez trabalhei num bar em Genève chamado Moulin à Danses. MAD. Moulin.
Numa altura em que praticamente não havia discotecas em Genève - e as que havia eram péssimas - o Moulin era uma espécie de porto de abrigo, símbolo de status, ponto de encontro. Era um clube privado e mais difícil lá entrar do que num harém.
De barman às vezes. Outras servia às mesas. Acabei por ser despedido: um dia um cliente bêbedo agrediu alguns clientes e uma empregada com uma faca e eu bati-lhe. Demais, no dizer dos pacifistas que dirigiam a coisa.
Uma vez o Claude Nougaro foi lá cantar. Não tinha grande estima pelo homem: alguns anos antes ouvira-o em La Chaux-de-Fonds cantar música brasileira e não achara que as canções - nessa altura conhecia-as de cor - ficassem a ganhar com a tradução para francês.
Estava de barman. Quando o concerto acabou o Nougaro veio ao bar pedir uma bebida. Ficámos na conversa, não sei se por causa desta canção. Espero que sim.
Falámos a noite toda, ele ao princípio ligeiramente mais bèbedo do que eu. Lembro-me de que tinha um complexo por ser baixo, e de que a Ile de Ré ficou, para sempre, uma das minhas canções favoritas.
Se calhar já era, não sei.
12.1.15
Jé estive aí
Não sei por que raio de carga de água penso agora na relação entre os países comunistas e o marxismo.
Ou na ausência de relação: nenhum país comunista representava o verdadeiro marxismo. Todos sem excepção eram deturpações. O verdadeiro marxismo mostraria ao mundo o que na verdade é ser marxista.
Ou na ausência de relação: nenhum país comunista representava o verdadeiro marxismo. Todos sem excepção eram deturpações. O verdadeiro marxismo mostraria ao mundo o que na verdade é ser marxista.
11.1.15
Definição
Boa música é aquela que te impede de ir dormir quando estás cheio de sono.
Ou de rum, é quase a mesma coisa.
Ou de rum, é quase a mesma coisa.
Piadas
Tenho duas piadas para os senhores da imigração dos diferentes países por onde passo. Uma é a morada: avenida da Liberdade, nº 1, Lisboa, Portugal (não sei quem lá mora, mas desde já as minhas desculpas). A outra é a profissão: travel writer.
Diário de Bordos - Cole Bay, etc.
"Il faut monter le niveau du sax". A música do Lagoonies hoje é completamente diferente. Uma banda a tocar o que lê numa pauta. Com o nível de som perfeitamente aceitável. Tangos. Gastei uma parte substancial do dinheiro que me resta num corona Partagas. É fútil, claro. Mas acho que se deve pôr o bolso onde se põe a boca. E já agora a boca. Que se foda o açúcar.
Sax, acordeão, orgão (eléctrico, mas orgão) e um baixo. E tango, bem tocado e cantado.
"Are you a happy skipper?" perguntou-me há pouco o gajo completamente grosso que me deu boleia de Marigot para Cole Bay. "Yes", respondi. Há muito tempo que não dizia uma verdade tão grande.
Tão boa.
Sax, acordeão, orgão (eléctrico, mas orgão) e um baixo. E tango, bem tocado e cantado.
"Are you a happy skipper?" perguntou-me há pouco o gajo completamente grosso que me deu boleia de Marigot para Cole Bay. "Yes", respondi. Há muito tempo que não dizia uma verdade tão grande.
Tão boa.
Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 10-01-2015
Poderia começar por dizer "O chuveiro da Little Crew House é comparativamente sujo", mas a frase teria um defeito: abre portas, não as fecha. Comparado a quê? Não sei. A milhares de chuveiros por onde tenho passado, por exemplo. Mas está longe de ser o mais sujo. A uma ideia platónica de chuveiro ideal. Não gosto de Platão, nunca gostei. Não vivemos uma caverna, por metafórica que seja. Ao chuveiro da mamã. À cozinha da Little Crew House.
Talvez. Não sei qual é mais sujo: se o chuveiro se a cozinha.
........
Deixei três dólares debaixo da garrafa de bourbon do G. Hoje disse-me que não estavam lá. Má sorte, mate.
Não deixo outros.
.......
Ontem a carcaça riu-se quando saiu do pique de ré do C. Hoje chorou: passei o dia a fazer ioga, outra vez. Não sabia que a cavalariça era tão flexível. Enfim, não sei se é. Sei que passa os dias em lugares onde a priori parece não haver espaço para ela e para o trabalho que a levou lá.
Mas acaba sempre por caber; e fazer. É uma cavalariça decente. Provavelmente boa de mais para o cavalo que acolhe.
.......
Muita conversa e pouco mar. Devia ser ao contrário.
Talvez. Não sei qual é mais sujo: se o chuveiro se a cozinha.
........
Deixei três dólares debaixo da garrafa de bourbon do G. Hoje disse-me que não estavam lá. Má sorte, mate.
Não deixo outros.
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Ontem a carcaça riu-se quando saiu do pique de ré do C. Hoje chorou: passei o dia a fazer ioga, outra vez. Não sabia que a cavalariça era tão flexível. Enfim, não sei se é. Sei que passa os dias em lugares onde a priori parece não haver espaço para ela e para o trabalho que a levou lá.
Mas acaba sempre por caber; e fazer. É uma cavalariça decente. Provavelmente boa de mais para o cavalo que acolhe.
.......
Muita conversa e pouco mar. Devia ser ao contrário.
10.1.15
Os bons, os maus e os inteligentes
É-me dolorosamente incompreensível que toda a intelligentsia bem pensante esteja neste momento tão preocupada em fazer a destrinça entre muçulmanos bons e muçulmanos maus.
A verdade é que até agora os "bons" nunca se manifestaram claramente contra estes actos de barbárie - o que de resto a meu ver ajuda a explicá-los -.
A mesma intelligentsia que defende a Palestina e acha os Israelitas uns selvagens.
A verdade é que até agora os "bons" nunca se manifestaram claramente contra estes actos de barbárie - o que de resto a meu ver ajuda a explicá-los -.
A mesma intelligentsia que defende a Palestina e acha os Israelitas uns selvagens.
Vómito d'alma
Uma senhora por quem tenho um infinito respeito diz-me que o DV é bom. Eu não acho. Parece-me uma merda, um vómito.
Tem apenas a qualidade de ser um vómito que vem directamente da alma.
Tem apenas a qualidade de ser um vómito que vem directamente da alma.
Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 09-01-2015, cont.
Nunca mais vi G. de cuecas. Agora aperalta-se. Deve ser por causa da chegada de uma jovem senhora, com a qual fala bastante. Em troca ela usa-lhe o computador enquanto ele vai trabalhar (ainda não percebi bem em quê ou para quem. Sei que tem um barco que ou se afundou ou sofreu bastante com o ciclone Gonçalo. No sábado a seguir ao fim do ano tirou o mastro do fundo da laguna. Estava torcido porque foi um dos que passou debaixo da ponte. A qual estava, naturalmente, fechada).
Verdade seja dita que não o vejo de cuecas, mas vejo-lhe as cuecas: os calções nem para trapos davam. Têm mais buracos do que tecido.
Hoje tentava resolver um dilema dilacerante, passe a aliteração: só tinha dois dólares e não sabia se devia ir ao chinès comprar uma cerveja (um dólar e vinte e cinco cèntimos) ou ir ao Lagoonies (dois dólares). "É melhor ir ao Lagoonies mais tarde, quando já estiverem todos bêbedos. Agora ninguém me paga uma cerveja. Daqui a duas horas sim".
Foi, por conseguinte e justificadissimamente ao chinês.
É um dilema que eu conheço muito bem, em termos diferentes. Sou incapaz de ir a um bar à espera de que alguém me pague uma cerveja. Mas já me aconteceu, por exemplo, ter de optar entre apanhar um autocarro e beber um café (ganhava este, invariavelmente). Ou comprar comida fazendo atenção aos cêntimos.
Tinha resolvido não lhe dar nada, porque ontem ele teve uma atitude desagradável. Não comigo, mas uma coisa que lhe expôs o carácter como os calções lhe mostram as cuecas. Porém a verdade é que comprei coxas de frango congeladas para o jantar, os bicos do fogão nem para metáforas servem e acabei por lhe propor um negócio: eu dava-lhe os cinquenta cêntimos que faltam para ele comprar outra cerveja no chinês e em troca ele deixava-me usar um bocado do Bourbon com que anda a tratar uma constipação (tratamento de resto intensivo: começa ao pequeno-almoço e acaba muito depois do jantar).
Disse que sim, alegremente."Good deal". Alguém lhe deve ter oferecido a garrafa.
Infelizmente usei muito mais do que pretendia e vou dar-lhe dois dólares. Assim fica como começou.
(Acabei por lhe deixar três dólares: bebi uma rolhinha ou duas, para ver se ainda gosto de Bourbon. Gosto).
........
De maneira que o meu jantar hoje vai ser um bastante estranho: cebola, pimentos, quatro malaguetas das muito picantes e gengibre salteados em azeite, déglacés em cerveja (um fundo de garrafa que pus na panela para não beber). Frango congelado frito muito superficialmente, flambé em bourbon e posto na panela a cozer em leite de coco, ao qual foi copiosamente acrescentado pó de caril e pimenta.
Talvez não seja cozinha de fusão; mas mistela de fusão é com certeza.
........
A minha generosidade com o G. vem na sequência de um excesso de generosidade comigo: comprei uma garrafa de vinho que ainda não sei se é boa, mas que custou dois dólares mais do que a zurrapa habitual.
Pode ser-se pobre, mas não se devem ser miserável. O dia soberbo, sublime, mágico de hoje aguenta bem uma liberalidadezinha, um pequeno excesso ou dois.
........
A cozinha da Little - mas insisto compreensiva - Crew House não é das mais limpas que tenho visto. Nem das mais bem equipadas. Cozinhar aqui não é propriamente um prazer. Hoje hesitei bastante : uma boa garrafa de vinho ou um jantar fora?
O problema estava enviesado, claro. Nunca compraria uma boa garrafa de vinho para beber nas chávenas (não há copos) do hostel. Acabei por gastar menos no chinês do que gastaria indo comer a um restaurante, tenho jantar para três dias e ainda ajudei um inglês tosco. É irrelevante, eu sei; mas que se foda a relevância.
O vinho é efectivamente melhor do que o outro. Por seis dólares não se pode pedir muito mais. O frango... bem o frango fica para depois. Ainda está a cozer. A música no Lagoonies está como todas as sextas: boa, demasiado alta e uma seca.
Nao sou muito chauvinista. Não sou nada. Mas todos os proprietários de bar deviam ir fazer um estágio ao Café Tati, sito no Cais do Sodré, em Lisboa, para perceberem o que é uma boa programação musical.
Verdade seja dita que não o vejo de cuecas, mas vejo-lhe as cuecas: os calções nem para trapos davam. Têm mais buracos do que tecido.
Hoje tentava resolver um dilema dilacerante, passe a aliteração: só tinha dois dólares e não sabia se devia ir ao chinès comprar uma cerveja (um dólar e vinte e cinco cèntimos) ou ir ao Lagoonies (dois dólares). "É melhor ir ao Lagoonies mais tarde, quando já estiverem todos bêbedos. Agora ninguém me paga uma cerveja. Daqui a duas horas sim".
Foi, por conseguinte e justificadissimamente ao chinês.
É um dilema que eu conheço muito bem, em termos diferentes. Sou incapaz de ir a um bar à espera de que alguém me pague uma cerveja. Mas já me aconteceu, por exemplo, ter de optar entre apanhar um autocarro e beber um café (ganhava este, invariavelmente). Ou comprar comida fazendo atenção aos cêntimos.
Tinha resolvido não lhe dar nada, porque ontem ele teve uma atitude desagradável. Não comigo, mas uma coisa que lhe expôs o carácter como os calções lhe mostram as cuecas. Porém a verdade é que comprei coxas de frango congeladas para o jantar, os bicos do fogão nem para metáforas servem e acabei por lhe propor um negócio: eu dava-lhe os cinquenta cêntimos que faltam para ele comprar outra cerveja no chinês e em troca ele deixava-me usar um bocado do Bourbon com que anda a tratar uma constipação (tratamento de resto intensivo: começa ao pequeno-almoço e acaba muito depois do jantar).
Disse que sim, alegremente."Good deal". Alguém lhe deve ter oferecido a garrafa.
Infelizmente usei muito mais do que pretendia e vou dar-lhe dois dólares. Assim fica como começou.
(Acabei por lhe deixar três dólares: bebi uma rolhinha ou duas, para ver se ainda gosto de Bourbon. Gosto).
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De maneira que o meu jantar hoje vai ser um bastante estranho: cebola, pimentos, quatro malaguetas das muito picantes e gengibre salteados em azeite, déglacés em cerveja (um fundo de garrafa que pus na panela para não beber). Frango congelado frito muito superficialmente, flambé em bourbon e posto na panela a cozer em leite de coco, ao qual foi copiosamente acrescentado pó de caril e pimenta.
Talvez não seja cozinha de fusão; mas mistela de fusão é com certeza.
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A minha generosidade com o G. vem na sequência de um excesso de generosidade comigo: comprei uma garrafa de vinho que ainda não sei se é boa, mas que custou dois dólares mais do que a zurrapa habitual.
Pode ser-se pobre, mas não se devem ser miserável. O dia soberbo, sublime, mágico de hoje aguenta bem uma liberalidadezinha, um pequeno excesso ou dois.
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A cozinha da Little - mas insisto compreensiva - Crew House não é das mais limpas que tenho visto. Nem das mais bem equipadas. Cozinhar aqui não é propriamente um prazer. Hoje hesitei bastante : uma boa garrafa de vinho ou um jantar fora?
O problema estava enviesado, claro. Nunca compraria uma boa garrafa de vinho para beber nas chávenas (não há copos) do hostel. Acabei por gastar menos no chinês do que gastaria indo comer a um restaurante, tenho jantar para três dias e ainda ajudei um inglês tosco. É irrelevante, eu sei; mas que se foda a relevância.
O vinho é efectivamente melhor do que o outro. Por seis dólares não se pode pedir muito mais. O frango... bem o frango fica para depois. Ainda está a cozer. A música no Lagoonies está como todas as sextas: boa, demasiado alta e uma seca.
Nao sou muito chauvinista. Não sou nada. Mas todos os proprietários de bar deviam ir fazer um estágio ao Café Tati, sito no Cais do Sodré, em Lisboa, para perceberem o que é uma boa programação musical.
9.1.15
Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 09-01-2015
Um dinghy de 17' com um motor de noventa cavalos que não é bem um dinghy, é um tapete voador; um dia lindo; percorrer a laguna nos ditos dinghy e dia.
Tudo isto precedido por uma soberba carbonnade (de porco, pela primeira vez na vida. Deliciosa). E sucedido por um rum punch com mais rum do que punch, porque na verdade o que me faz mal na mistura são os sumos de frutas, açúcar puro. O rum não: é açúcar destilado, sem demónios.
Esticando um bocadinho a definição de trabalho posso mesmo dizer que tudo isto foi trabalho.
........
Como levar a sério a burocracia francesa?
Sinto-me como se estivesse a combater um tanque armado com uma fisga. Terei uma quantidade infinita de pedras? Se sim, ganho. Se não perco.
Uma vez mais confirmo a minha opinião sobre os governos, todos: não há declaração de intenções, de objectivos, de projectos, programas e mai-la puta que os pariu que não seja balela.
A próxima vez que ouvir o palerma do Hollande falar de luta contra a exclusão social esfrego-lhe a minha história nas ventas. Anda aqui um pobre skipper solitário e longe de casa a tentar integrar-se na sociedade francesa e só lhe aparecem obstáculos pela frente.
Parece que estou a subir uma escada rolante descendente. Só temo que isto se transforme num desafio. Queira deus que não.
........
Hoje explicava ao Greg porque não podia pagar o alojamento e ele, mal eu começara, perguntou-me "Estás a trabalhar do lado francês? Então não há problema".
........
Vou deixar o dinghy / tapete voador antes do segundo rum punch (e na happy hour, ainda por cima). Sou um fraco carácter, mas profissional.
De qualquer forma a partir de amanhã vou ter uma semana de dias loucos, nos quais o profissionalismo se mede pela capacidade de gerir o caos e não de o criar.
Tudo isto precedido por uma soberba carbonnade (de porco, pela primeira vez na vida. Deliciosa). E sucedido por um rum punch com mais rum do que punch, porque na verdade o que me faz mal na mistura são os sumos de frutas, açúcar puro. O rum não: é açúcar destilado, sem demónios.
Esticando um bocadinho a definição de trabalho posso mesmo dizer que tudo isto foi trabalho.
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Como levar a sério a burocracia francesa?
Sinto-me como se estivesse a combater um tanque armado com uma fisga. Terei uma quantidade infinita de pedras? Se sim, ganho. Se não perco.
Uma vez mais confirmo a minha opinião sobre os governos, todos: não há declaração de intenções, de objectivos, de projectos, programas e mai-la puta que os pariu que não seja balela.
A próxima vez que ouvir o palerma do Hollande falar de luta contra a exclusão social esfrego-lhe a minha história nas ventas. Anda aqui um pobre skipper solitário e longe de casa a tentar integrar-se na sociedade francesa e só lhe aparecem obstáculos pela frente.
Parece que estou a subir uma escada rolante descendente. Só temo que isto se transforme num desafio. Queira deus que não.
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Hoje explicava ao Greg porque não podia pagar o alojamento e ele, mal eu começara, perguntou-me "Estás a trabalhar do lado francês? Então não há problema".
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Vou deixar o dinghy / tapete voador antes do segundo rum punch (e na happy hour, ainda por cima). Sou um fraco carácter, mas profissional.
De qualquer forma a partir de amanhã vou ter uma semana de dias loucos, nos quais o profissionalismo se mede pela capacidade de gerir o caos e não de o criar.
Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 08-01-2015
É preciso começar por dizer que a burocracia francesa ganhou o primeiro round por KO técnico. Técnico num sentido metafórico. Num arremedo de proteccionismo inqualificável a derrogação que me tinha sido concedida pela própria burocracia francesa não foi aceite.
Alguém um dia definiu burocracia como sendo um sistema em que o funcionário que nos atende ao guichet tem demasiado poder. Hoje não foi um funcionário do guichet; foi o chefe do escritório, o equivalente da pessoa que em Fort-de-France há quatro anos me passou o documento, com uma rapidez notável, porque eu precisava de tabalhar.
Mas enfim, posso pelo menos trabalhar nos pontões, coisa que vou fazer toda a semana que vem; e posso trabalhar noutra base da empresa de sonho que me acolhe, fora do território francês. E posso continuar a procurar empregos que não impliquem a burocracia gaulesa.
E já tenho uma residència oficial, primeiro passo para ter uma conta no banco.
........
Hoje à tarde fui trabalhar para o C., instalar gualdropes e respectivos moitões. Um trabalho que me dispensa de fazer ioga: o pique de ré do C. não é feito para gajos do meu tamanho. Nenhum é, num sloop de 43', verdade seja dita.
(Quando saí de lá, o meu corpo desatou a rir-se. Quero dizer o corpo todo. Músculos, articulações, veias e artérias... tudo a rir à gargalhada. Eu também ri, mas mais discretamente.)
No fim do dia J. leva-me a casa dele para tomar um duche, dá-me roupa lavada e paga-me o dia, apesar de eu lhe estar a dever dois dias. Hoje disse-lhe que não queria o dinheiro: assim cada vez que trabalho aumento a minha dívida, não a diminuo.
Limita-se a responder que eu preciso do dinheiro - o que é imegável - e traz-me ao Lagoonies, onde aproveita para pagar uma bebida ou duas.
M., J., a empresa para a qual trabalho e não me pode pagar por questões legais mas que faz tudo para me manter, R., que hoje me ajudou a obter a residência, C. que fez a factura em seu nome para que eu possa, um dia, ser pago -... Se alguém me ouvir dizer que estou sozinho dê-me, por favor, uma martelada na cabeça.
........
Hoje pela primeira vez desde que saí de Galveston medi a taxa do coiso no sangue. Estava altíssima. Parece que é por causa do tabaco. Dei um maço acabado de comprar ao R e deixei de fumar.
A cavalariça merece e o cavalo também.
Alguém um dia definiu burocracia como sendo um sistema em que o funcionário que nos atende ao guichet tem demasiado poder. Hoje não foi um funcionário do guichet; foi o chefe do escritório, o equivalente da pessoa que em Fort-de-France há quatro anos me passou o documento, com uma rapidez notável, porque eu precisava de tabalhar.
Mas enfim, posso pelo menos trabalhar nos pontões, coisa que vou fazer toda a semana que vem; e posso trabalhar noutra base da empresa de sonho que me acolhe, fora do território francês. E posso continuar a procurar empregos que não impliquem a burocracia gaulesa.
E já tenho uma residència oficial, primeiro passo para ter uma conta no banco.
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Hoje à tarde fui trabalhar para o C., instalar gualdropes e respectivos moitões. Um trabalho que me dispensa de fazer ioga: o pique de ré do C. não é feito para gajos do meu tamanho. Nenhum é, num sloop de 43', verdade seja dita.
(Quando saí de lá, o meu corpo desatou a rir-se. Quero dizer o corpo todo. Músculos, articulações, veias e artérias... tudo a rir à gargalhada. Eu também ri, mas mais discretamente.)
No fim do dia J. leva-me a casa dele para tomar um duche, dá-me roupa lavada e paga-me o dia, apesar de eu lhe estar a dever dois dias. Hoje disse-lhe que não queria o dinheiro: assim cada vez que trabalho aumento a minha dívida, não a diminuo.
Limita-se a responder que eu preciso do dinheiro - o que é imegável - e traz-me ao Lagoonies, onde aproveita para pagar uma bebida ou duas.
M., J., a empresa para a qual trabalho e não me pode pagar por questões legais mas que faz tudo para me manter, R., que hoje me ajudou a obter a residência, C. que fez a factura em seu nome para que eu possa, um dia, ser pago -... Se alguém me ouvir dizer que estou sozinho dê-me, por favor, uma martelada na cabeça.
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Hoje pela primeira vez desde que saí de Galveston medi a taxa do coiso no sangue. Estava altíssima. Parece que é por causa do tabaco. Dei um maço acabado de comprar ao R e deixei de fumar.
A cavalariça merece e o cavalo também.
Todos somos Charlie
Dizer Je suis Charlie não significa apenas que se está de acordo ou se gosta Charlie Hebdo. Significa reivindicar o direito de pensar ou dizer coisas eventualmente ofensivas para terceiros.
É por isso que não percebo aqueles que dizem que não são Charlie. Todos somos Charlie, excepto os vermes, as amibas e quem não tem coluna vertebral.
É por isso que não percebo aqueles que dizem que não são Charlie. Todos somos Charlie, excepto os vermes, as amibas e quem não tem coluna vertebral.
8.1.15
Disparates, coros
Um dos grandes inconvenientes de ter um blog é que já há tantos disparates por aí que juntarmos-lhes os nossos é desnecessário.
Isto dito, tenho imensa pena - raramente, mas tenho - de não ver televisão. Acabo de ler um post que é uma crítica a um anúncio de televisão. Se bem não seja impossível, parece-me pouco provável que o anúncio seja tão mau como a crítica.
Deixar-me-ia indiferente se não tivesse ficado sem vontade de escrever. Para dizer asneiras não é preciso um coro.
Isto dito, tenho imensa pena - raramente, mas tenho - de não ver televisão. Acabo de ler um post que é uma crítica a um anúncio de televisão. Se bem não seja impossível, parece-me pouco provável que o anúncio seja tão mau como a crítica.
Deixar-me-ia indiferente se não tivesse ficado sem vontade de escrever. Para dizer asneiras não é preciso um coro.
Pena de morte?
Sou genericamente contra a pena de morte. Mas não sou fundamentalmente contra.
Acho que o autor do massacre na Noruega, por exemplo, devia ser morto. E os autores deste também.
Acho que o autor do massacre na Noruega, por exemplo, devia ser morto. E os autores deste também.
Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 07-01-2015 - cont.
O dia começou mal, claro. A bárbarie é uma das coisas que ajuda a relativizar muitas outras. Enquanto esperava R. para tratar da residència - não apareceu, mas o meu stock de fúria estava esgotado e não me importei muito - vi televisão no café ao lado da Capitania.
Sou mau juiz, porque raramente vejo televisão e leio jornais (a menos que se considere ler os resumos do Observador como ler jornais. Trata-se apenas de uma boa aproximação). Mas pela primeira vez ouvi de boca de um dirigente muçulmano uma condenação clara, explícita, firme, sem ambiguidades.
É por aí que tem de se começar: enquanto a comunidade muçulmana não condenar estes atentados a amálgama entre muçulmano e terrorista não terminará.
........
R. não apareceu, já o disse. Fica para amanhã. Mas aprocura de trabalho deu alguns frutos: três dias de charter numa empresa rival daquela em que trabalho, ou trabalhava; e um cata de 52' que precia de uma tripulação skipper / stew.
Estava com C., uma jovem italiana com bastante experiência do meio e me propôs procurarmos trabalho juntos. Infelizmente a rapariga fala de mais e disse duas ou très coisas que não devia ter dito ao agente.
Vamos ver. Tenho o perfil e pedi um salário no limite mais elevado da fasquia. Um bocadinho de estabilidade sem problemas de residência, bancos e concomitantemente cartas de condução vinha mesmo a calhar.
........
Afinal a luta entre o sistema imunitário foi breve, intensa - passei o dia todo meio febril - mas acabou com uma clara vitória da cavalariça. ajudada apenas por um toalhete anti-séptico que expirava em 2002 e trouxe do TL, juntamente com uma série de coisas de primeiros socorros que os armadores queriam deitar fora. Não acreditava em prazos de validade para gazes, ligaduras e quejndos e agora tão pouco acredito neles para o Iodine (suponho que seja a mesma coisa que Betadine, mas não tenho a certeza).
A infecção não passou mas está reduzida a uma mísera sombra de si mesma.
(Também usei uma daquelas coisas que desde a gripe das aves ou outra farsa qualquer se encontram em todos os escritórios e dizem "Mãos limpas começam aqui". Talvez tenha sido daí e não do Betadine. Mais uma razão para estar feliz com os três dias de charter, foi nessa empresa).
........
Bebo o meu rum punch no Lagoonies. É mais barato do que um copo de vinho, e de qualquer tenho de incluir fruta na dieta. De repente ocorre-me uma pergunta fundamental, basilar: em quantos bares já terei estado desde que comecei a frequentar bares?
Que pena tenho de não poder dedicar muito tempo a este assunto fundamental.
Sou mau juiz, porque raramente vejo televisão e leio jornais (a menos que se considere ler os resumos do Observador como ler jornais. Trata-se apenas de uma boa aproximação). Mas pela primeira vez ouvi de boca de um dirigente muçulmano uma condenação clara, explícita, firme, sem ambiguidades.
É por aí que tem de se começar: enquanto a comunidade muçulmana não condenar estes atentados a amálgama entre muçulmano e terrorista não terminará.
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R. não apareceu, já o disse. Fica para amanhã. Mas aprocura de trabalho deu alguns frutos: três dias de charter numa empresa rival daquela em que trabalho, ou trabalhava; e um cata de 52' que precia de uma tripulação skipper / stew.
Estava com C., uma jovem italiana com bastante experiência do meio e me propôs procurarmos trabalho juntos. Infelizmente a rapariga fala de mais e disse duas ou très coisas que não devia ter dito ao agente.
Vamos ver. Tenho o perfil e pedi um salário no limite mais elevado da fasquia. Um bocadinho de estabilidade sem problemas de residência, bancos e concomitantemente cartas de condução vinha mesmo a calhar.
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Afinal a luta entre o sistema imunitário foi breve, intensa - passei o dia todo meio febril - mas acabou com uma clara vitória da cavalariça. ajudada apenas por um toalhete anti-séptico que expirava em 2002 e trouxe do TL, juntamente com uma série de coisas de primeiros socorros que os armadores queriam deitar fora. Não acreditava em prazos de validade para gazes, ligaduras e quejndos e agora tão pouco acredito neles para o Iodine (suponho que seja a mesma coisa que Betadine, mas não tenho a certeza).
A infecção não passou mas está reduzida a uma mísera sombra de si mesma.
(Também usei uma daquelas coisas que desde a gripe das aves ou outra farsa qualquer se encontram em todos os escritórios e dizem "Mãos limpas começam aqui". Talvez tenha sido daí e não do Betadine. Mais uma razão para estar feliz com os três dias de charter, foi nessa empresa).
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Bebo o meu rum punch no Lagoonies. É mais barato do que um copo de vinho, e de qualquer tenho de incluir fruta na dieta. De repente ocorre-me uma pergunta fundamental, basilar: em quantos bares já terei estado desde que comecei a frequentar bares?
Que pena tenho de não poder dedicar muito tempo a este assunto fundamental.
7.1.15
Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 07-01-2015
Os meus telefones continuam a ser mortalmente atraídos pela água, qualquer que ela seja. Ontem no regresso à minha pequena e, acrescento agora, generosa e compreensiva casa escorreguei na valeta e caí naquela mistura de lama, esgotos, algas e lixo.
Para minha surpresa o telefone continuou a funcionar, apesar de todo molhado e coberto de lama. Só à noite me apercebi do verdadeiro dano: não carrega. Espero que seja reparável.
Compreendo esta atracção dos meus telefones pela água: eu também a tenho. Mas só pela do mar. E não é mortal, a minha atracção. Nem vital, de resto. É simplesmente vida, e vida dispensa adjectivos.
Eu fiz uma ferida na mão. Infectou a uma velocidade lancinante, claro. Noutras circunstâncias teria sido interessante assistir à luta entre a fauna bacterial de uma valeta de Cole Bay e o meu sistema imunitário. Infelizmente com a crise de chikungunya que por aí vai não posso arriscar e hoje vou à farmácia comprar uma pomada antibiótica. O médico bem me disse para me vacinar, mas por uma razão qualquer não o fiz.
........
Escrevo de manhã. Hoje não vou trabalhar: vou dar os primeiros passos para a abertura de uma conta bancária. Até aqui o grande obstáculo tem sido a ausência de uma residência fixa. Antes sequer da ausência de fundos: uma concha vazia é uma concha, não um bocado de calcário, tal como uma conta é uma conta, vazia ou não. Se tudo correr bem esta tarde terei oficialmente uma residência. É o primeiro passo de um longo e pouco apetecível calvário.
Fictícia, claro, a residència. Mas que importa? Não há ficção maior do que a da burocracia. Responder-lhe com outra, bem menor é quase um imperativo moral. E residência por residência St. Martin não é a pior. Pelo menos aqui a carga fiscal é relativamente baixa. Não vai durar, é certo: a autonomia e o fim dos subsídios de França encarregar-se-ão disso. Mas ainda não é elevada.
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Para minha surpresa o telefone continuou a funcionar, apesar de todo molhado e coberto de lama. Só à noite me apercebi do verdadeiro dano: não carrega. Espero que seja reparável.
Compreendo esta atracção dos meus telefones pela água: eu também a tenho. Mas só pela do mar. E não é mortal, a minha atracção. Nem vital, de resto. É simplesmente vida, e vida dispensa adjectivos.
Eu fiz uma ferida na mão. Infectou a uma velocidade lancinante, claro. Noutras circunstâncias teria sido interessante assistir à luta entre a fauna bacterial de uma valeta de Cole Bay e o meu sistema imunitário. Infelizmente com a crise de chikungunya que por aí vai não posso arriscar e hoje vou à farmácia comprar uma pomada antibiótica. O médico bem me disse para me vacinar, mas por uma razão qualquer não o fiz.
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Escrevo de manhã. Hoje não vou trabalhar: vou dar os primeiros passos para a abertura de uma conta bancária. Até aqui o grande obstáculo tem sido a ausência de uma residência fixa. Antes sequer da ausência de fundos: uma concha vazia é uma concha, não um bocado de calcário, tal como uma conta é uma conta, vazia ou não. Se tudo correr bem esta tarde terei oficialmente uma residência. É o primeiro passo de um longo e pouco apetecível calvário.
Fictícia, claro, a residència. Mas que importa? Não há ficção maior do que a da burocracia. Responder-lhe com outra, bem menor é quase um imperativo moral. E residência por residência St. Martin não é a pior. Pelo menos aqui a carga fiscal é relativamente baixa. Não vai durar, é certo: a autonomia e o fim dos subsídios de França encarregar-se-ão disso. Mas ainda não é elevada.
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Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 06-01-2015
O vinho é francamente execrável. O peixe não (Swai is a white-flesh fish (typically available in fillet form) with a sweet mild, taste and light flaky texture that can be broiled, grilled, or coating with bread crumbs and fried, according to experts. It can be prepared simply, but also takes well to sauces. A 3.5-ounce serving of plain fish contains around 90 calories, 4 grams of fat (1.5 saturated), 45 grams of cholesterol and 50 milligrams of sodium. Not bad.)
Comi-o cozido. Não é grande coisa, mas tão pouco é péssimo. Na verdade pouco me importa. Hoje tive um magnífico almoço a bordo de um 60' do qual o tripulante e a namorada do skipper são italianos. Spaghetti (dois molhos diferentes) e - Allah uAqbar - Parmigiano a sério, saboroso, picante, seco, lindo.
Comprei uma grande embalagem do peixe. Vou comer swai muitas vezes, mesmo que os almoços não o compensem.
........
A minha luta contra a burocracia francesa continua. À tarde tive uma garantia - informal mas válida - de que se a resolver terei emprego no sonho de empresa que me quer dar trabalho. Entretanto fiquei a saber que mesmo o trabalho de pontão - eufemismo para manutenção - vai ser difícil.
Pelo sim pelo não voltei a procurar trabalho. Até hoje perdi todas as batalhas contra a burocracia nas quais estúpida ou ingenuamente me envolvi. Com uma excepção: a obtenção da Dérogation no Marin em 2011. Mas isso não foi uma luta. O senhor queria ajudar-me. Agora a coisa fia mais fino: os adversários são bancos e segurança social.
Reintegrar o grupo de pessoas que têm uma residência, conta bancária e - aqui fica a promessa - carta de condução é mais complicado do que eu pensava. Há dois grupos de adversários: um externo e outro interno. Não basta querer. É preciso querer.
Comi-o cozido. Não é grande coisa, mas tão pouco é péssimo. Na verdade pouco me importa. Hoje tive um magnífico almoço a bordo de um 60' do qual o tripulante e a namorada do skipper são italianos. Spaghetti (dois molhos diferentes) e - Allah uAqbar - Parmigiano a sério, saboroso, picante, seco, lindo.
Comprei uma grande embalagem do peixe. Vou comer swai muitas vezes, mesmo que os almoços não o compensem.
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A minha luta contra a burocracia francesa continua. À tarde tive uma garantia - informal mas válida - de que se a resolver terei emprego no sonho de empresa que me quer dar trabalho. Entretanto fiquei a saber que mesmo o trabalho de pontão - eufemismo para manutenção - vai ser difícil.
Pelo sim pelo não voltei a procurar trabalho. Até hoje perdi todas as batalhas contra a burocracia nas quais estúpida ou ingenuamente me envolvi. Com uma excepção: a obtenção da Dérogation no Marin em 2011. Mas isso não foi uma luta. O senhor queria ajudar-me. Agora a coisa fia mais fino: os adversários são bancos e segurança social.
Reintegrar o grupo de pessoas que têm uma residência, conta bancária e - aqui fica a promessa - carta de condução é mais complicado do que eu pensava. Há dois grupos de adversários: um externo e outro interno. Não basta querer. É preciso querer.
6.1.15
Mediocridade, ferocidade
O inimigo da mediocridade é a ferocidade. Portugal é um país de medíocres porque não há ferozes.
Kowtow, tempo
Foi num bar de Gibraltar, aproximadamente pelos anos de setenta e cinco ou seis que pela primeira vez ouvi falar dos Steeleye Span e especificamente desta canção.
Já por aqui falei do bar: ficava num primeiro andar, tinha um bouncer que lançava, literalmente, os soldados - dos quais havia nessa altura dez mil na cidade - pelas escadas abaixo. Nele apanhei um dia uma bebedeira de Tia Maria que me ficou na memória - ou nas memórias, a hepática incluída -.
A senhora que aqui canta chama-se Maddy Prior. Merece um vénia, ou duas.
Foi nessa noite que aprendi a equilibrar três copos assimetricamente.
E que conheci outra grande cantora inglesa chamada Sandy Denny.
Hoje apetece-me falar disto: do tempo que não passa.
O tempo é uma ilusão da memória. Somos o que fomos, amamos quem amámos, vivemos o que já vivemos.
Já por aqui falei do bar: ficava num primeiro andar, tinha um bouncer que lançava, literalmente, os soldados - dos quais havia nessa altura dez mil na cidade - pelas escadas abaixo. Nele apanhei um dia uma bebedeira de Tia Maria que me ficou na memória - ou nas memórias, a hepática incluída -.
A senhora que aqui canta chama-se Maddy Prior. Merece um vénia, ou duas.
Foi nessa noite que aprendi a equilibrar três copos assimetricamente.
E que conheci outra grande cantora inglesa chamada Sandy Denny.
Hoje apetece-me falar disto: do tempo que não passa.
O tempo é uma ilusão da memória. Somos o que fomos, amamos quem amámos, vivemos o que já vivemos.
Selenitas, Selenos et al.
Se alguém um dia me perguntasse qual é o meu astro favorito eu diria "a Lua". Todos gostamos do sítio de onde vimos.
(Esta é a forma romântica. Há outras razões. Já alguém alguma vez teve de usar creme de protecção lunar? Já alguém alguma vez ficou cego por olhar para a Lua? O que é mais bonito: entrar num porto à luz do Sol ou à da Lua? Onde foi dado o maior passo da humanidade: no Sol ou na Lua? Já alguém alguma vez viu o Sol na televisão?)
Depois da Lua é Sirius. Ou Canopus, ando há anos com esta dúvida astronómica. Sirius é muito brilhante - é por exemplo a única estrela que agora vejo quando vou à varanda fumar um cigarro -. Canopus brilha com muitas cores, parece que tomou ácido, ou coisa que o valha.
Uma vez tive uma alucinação com Canopus, ao largo das Filipinas. Parecia um OVNI. Só ao fim de algum tempo me apercebi que não era ela que se movia, era o navio.
Hoje Sirius não se mexe. Espera pacientemente que acabe a vodka, vá tomar banho e vá para a cama. Como eu, de resto.
(Esta é a forma romântica. Há outras razões. Já alguém alguma vez teve de usar creme de protecção lunar? Já alguém alguma vez ficou cego por olhar para a Lua? O que é mais bonito: entrar num porto à luz do Sol ou à da Lua? Onde foi dado o maior passo da humanidade: no Sol ou na Lua? Já alguém alguma vez viu o Sol na televisão?)
Depois da Lua é Sirius. Ou Canopus, ando há anos com esta dúvida astronómica. Sirius é muito brilhante - é por exemplo a única estrela que agora vejo quando vou à varanda fumar um cigarro -. Canopus brilha com muitas cores, parece que tomou ácido, ou coisa que o valha.
Uma vez tive uma alucinação com Canopus, ao largo das Filipinas. Parecia um OVNI. Só ao fim de algum tempo me apercebi que não era ela que se movia, era o navio.
Hoje Sirius não se mexe. Espera pacientemente que acabe a vodka, vá tomar banho e vá para a cama. Como eu, de resto.
Árvore seca
Seria preciso que de uma praia a areia o vento o mar o sopro o calor a luz voltassem e assim sílaba a sílaba palavra a palavra se construísse um mundo.
Ao longe o mar, liso como o telhado de um armazém. Não há vento. Arreei o pano. Árvore seca.
A sec de toile, matelot. Dans le gros temps.
Que se foda a árvore seca. Bebamos à saúde do Rei de França e dos apaixonados.
E à do Jean Françouest de Nantes.
Tiens bon, matelot.
Je suis content.
Je suis le maître à bord.
Ao longe o mar, liso como o telhado de um armazém. Não há vento. Arreei o pano. Árvore seca.
A sec de toile, matelot. Dans le gros temps.
Que se foda a árvore seca. Bebamos à saúde do Rei de França e dos apaixonados.
E à do Jean Françouest de Nantes.
Tiens bon, matelot.
Je suis content.
Je suis le maître à bord.
Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 05-01-2015
A prelecção de hoje de Francesco começou com uma defesa acérrima das denominações de origem controlada: ofereci-lhe vodka de uma garrafa que vinha de um dos barcos. As empresas de charter gerem diferentemente os restos das provisões dos clientes. A que gentil mas algo ambiguamente me acolhe no seu seio faz um monte e divide-o pelos empregados. Na partilha coube-me uma garrafa de vodka já meia - ou ainda meia, depende da perpsectiva -. (Ambiguamente é injusto. Já encontrei uma maneira de ser pago, apesar de saber que vai levar algum tempo e que até lá terei de navegar em árvore seca).
Francesco acha que aquilo não é vodka. Viu o rótulo, contrariamente a mim. E descobriu que não vem de um dos países que na sua opinião têm o direito de fazer vodka.
Na verdade não sei de onde vem, Nunca me dei ao trabalho de não respeitar um velho provérbio portugês que fala de dentes e de cavalos oferecidos.
Da vodka passou ao vinho. Não uso o singular por acaso ou facilidade. Falou de vinhos franceses, explicou-me a diferença entre vários tipos de vinho da Emilia Romagna - dos quais creio que vou gostar do Amarone - defendeu os vinhos franceses apesar de achar que são menos variados do que os italianos. Do vinho foi fazer uma visita à cidra e ao sherry, não me lembro bem por que ordem (e não, hoje não estou bêbedo).
Até aqui tudo bem. Estava a fritar peixe em azeite de gengibre e alho, a cozer grão-de-bico (a única leguminosa erótica da natureza). Francesco falava, eu dizia que sim, fui comprar vinho ao chinês e ele continuava a falar. Pelo menos apercebeu-se de que eu nao estava: quando voleti disse-me que baixara o lume do azeite durante a minha ausência.
Foi mais ou menos quando já tinha quase acabado de cozinhar e estava a preparar-me para comer que comecei a entrever uma certa confusão nas opiniões do jovem - "quase quarenta" (a propósito da vodka) -. [Vi agora que foi feita no Texas e custou quase vinte e cinco euros, preço exorbitante para uma garrafa de álcool em St. Maarten]. Explicava-me então que a cidra era feita de uvas que só crescem na Escócia e mais meia dúzia de países.
A vodka texana é boa. E não é por não ter sido eu a pagá-la.
O pior foi quando Francesco passou das DOC para a Europa. Tem ideias confusas sobre o assunto e deixou-me baralhado. Não sabia como explicar-lhe que ouvir as suas opiniões sobre a União Europeia não era a minha prioridade.
Uma vez mais o Don Vivo salvou-me. Comecei a escrever este post e para aí no terceiro parágrafo Francesco despediu-se, Eu disse-lhe "Boa noite, desculpa tenho uma coisa a escrever" e pronto.
Fico com a minha vodka, apercebo-me de que comprei um branco que detesto (e vou ter de beber, isto não está para desperdícios), preparo-me para me ir deitar. Não estou cansado, finalmente. O ritmo do trabalho foi calmo e aprazível. Mas ontem dormi pouco - problema que atribuo a não ter visto o preço da vodka - e ainda tenho de ir tomar o duche da noite e lavar a loiça (pouca. O grão-de-bico também é erótico porque não exige muita loiça).
Enfim. Seja pelo que for vou deitar-me à hora habitual e dormir como é habitual. Amanhã tenho outro dia de trabalho, A empresa de sonho que mo proporciona tem o mesmo objectivo do que eu - pôr-me no mar o mais depressa possível -.
Não fora a horrível notícia com que comecei o ano seria um homem feliz.
Mas isto dos ciclos é assim. Pouco há a fazer. Quando há vento pela proa há que bolinar. O resto é conversa de bar de clube náutico.
........
A música do Lagoonies é muito boa, mas não é adequada para quem sai de um dia de trabalho, mesmo calmo. A relação do rock da minha adolescência com o tabalho é ténue; e cansativa.
........
Por baixo da Little Crew House - e, manda a verdade que o diga, de uma forma totalmente autónoma desta - funciona uma pequena banca de venda de erva e crack. Passo por ela cada vez que vou tomar banho (refiro-me ao duche da noite; no da manhã a banca está deserta).
Os rapazes que a mantêm são simpáticos e já perceberam que só gosto de derivados de uvas, açucar e cereais. Desejam-me educadamente uma boa noite e, por vezes, oferecem-me um copo de rum.
O qual recuso. Não por falta de educação, espero que eles o compreendam.
Francesco acha que aquilo não é vodka. Viu o rótulo, contrariamente a mim. E descobriu que não vem de um dos países que na sua opinião têm o direito de fazer vodka.
Na verdade não sei de onde vem, Nunca me dei ao trabalho de não respeitar um velho provérbio portugês que fala de dentes e de cavalos oferecidos.
Da vodka passou ao vinho. Não uso o singular por acaso ou facilidade. Falou de vinhos franceses, explicou-me a diferença entre vários tipos de vinho da Emilia Romagna - dos quais creio que vou gostar do Amarone - defendeu os vinhos franceses apesar de achar que são menos variados do que os italianos. Do vinho foi fazer uma visita à cidra e ao sherry, não me lembro bem por que ordem (e não, hoje não estou bêbedo).
Até aqui tudo bem. Estava a fritar peixe em azeite de gengibre e alho, a cozer grão-de-bico (a única leguminosa erótica da natureza). Francesco falava, eu dizia que sim, fui comprar vinho ao chinês e ele continuava a falar. Pelo menos apercebeu-se de que eu nao estava: quando voleti disse-me que baixara o lume do azeite durante a minha ausência.
Foi mais ou menos quando já tinha quase acabado de cozinhar e estava a preparar-me para comer que comecei a entrever uma certa confusão nas opiniões do jovem - "quase quarenta" (a propósito da vodka) -. [Vi agora que foi feita no Texas e custou quase vinte e cinco euros, preço exorbitante para uma garrafa de álcool em St. Maarten]. Explicava-me então que a cidra era feita de uvas que só crescem na Escócia e mais meia dúzia de países.
A vodka texana é boa. E não é por não ter sido eu a pagá-la.
O pior foi quando Francesco passou das DOC para a Europa. Tem ideias confusas sobre o assunto e deixou-me baralhado. Não sabia como explicar-lhe que ouvir as suas opiniões sobre a União Europeia não era a minha prioridade.
Uma vez mais o Don Vivo salvou-me. Comecei a escrever este post e para aí no terceiro parágrafo Francesco despediu-se, Eu disse-lhe "Boa noite, desculpa tenho uma coisa a escrever" e pronto.
Fico com a minha vodka, apercebo-me de que comprei um branco que detesto (e vou ter de beber, isto não está para desperdícios), preparo-me para me ir deitar. Não estou cansado, finalmente. O ritmo do trabalho foi calmo e aprazível. Mas ontem dormi pouco - problema que atribuo a não ter visto o preço da vodka - e ainda tenho de ir tomar o duche da noite e lavar a loiça (pouca. O grão-de-bico também é erótico porque não exige muita loiça).
Enfim. Seja pelo que for vou deitar-me à hora habitual e dormir como é habitual. Amanhã tenho outro dia de trabalho, A empresa de sonho que mo proporciona tem o mesmo objectivo do que eu - pôr-me no mar o mais depressa possível -.
Não fora a horrível notícia com que comecei o ano seria um homem feliz.
Mas isto dos ciclos é assim. Pouco há a fazer. Quando há vento pela proa há que bolinar. O resto é conversa de bar de clube náutico.
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A música do Lagoonies é muito boa, mas não é adequada para quem sai de um dia de trabalho, mesmo calmo. A relação do rock da minha adolescência com o tabalho é ténue; e cansativa.
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Por baixo da Little Crew House - e, manda a verdade que o diga, de uma forma totalmente autónoma desta - funciona uma pequena banca de venda de erva e crack. Passo por ela cada vez que vou tomar banho (refiro-me ao duche da noite; no da manhã a banca está deserta).
Os rapazes que a mantêm são simpáticos e já perceberam que só gosto de derivados de uvas, açucar e cereais. Desejam-me educadamente uma boa noite e, por vezes, oferecem-me um copo de rum.
O qual recuso. Não por falta de educação, espero que eles o compreendam.
5.1.15
Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 04-01-2015
Só não posso ficar doente. De resto posso tudo. Apanhar a chikungunya agora seria uma catástrofe.
Enchi-me de repelente. E acredito, claro (apesar de saber que é mentira) que lhe estou imune porque já tive paludismo. Já quase morri dele. Isto devia imunizar-me contra uma série de coisas, incluindo crenças absurdas.
Que se fodam as crenças. São todas absurdas, de qualquer forma. Se apanhar chikungunya sobreviverei, como sobrevivi a tudo o que me aconteceu nestes anos todos.
........
O condutor do bus que apanhei hoje de regresso a casa é obeso. Os braços mal chegam ao volante ou às mudanças. Conduz muito inclinado para trás e mesmo assim o volante entra-lhe pela barriga dentro. É feio: de perfil (sentei-me à frente, como sempre faço quando o lugar está vazio) parece uma estátua da Ilha da Páscoa com os lábios mais grossos e o nariz mais achatado.
Fala alto, grita mas num tom contínuo, liso, como se estivesse a fazer um discurso e não a dialogar; há uma discussão entre ele e uma ou duas passageiras. Percebo quase nada do que dizem: falam em papiamento, e apesar das origens portuguesas (papo) da língua só percebo as palavras inglesas. É uma questão de dinheiro e trajectos: a (ou as) senhoras queriam que ele as levasse a um sítio ao qual não é suposto ir e não lhe pagaram o suficiente, na opinião dele. Na delas sim.
Acabou por levá-las, apesar de visível - e audivelmente - insatisfeito (e de elas lhe terem dado mais dinheiro).
Aproveitei a deixa para lhe pedir que se desviasse e me viesse deixar à Crew House. Estou exausto, meio febril, tive outro um dia de loucos - trinta nós de vento e cabos nos hélices à saída do pontão de fuel logo pela manhã, seguida pelo habitual caos à tarde - está a chover e frio. Os quinhentos metros a pé são de repente dispensáveis, violentos, uma montanha.
Começou por me dizer que não. "E onde deixo estas pessoas?" perguntou num grito, como se eu estivesse do outro lado de uma rua com quatro faixas de rodagem e não a meio metro dele.
Não respondi. Pouco depois das senhoras desceu o único passageiro que estava na carrinha. Tirei cinquenta cêntimos da carteira e disse-lhe que agora estávamos sozinhos e me podia levar. Mais um grito, no final do qual percebi "one dollar". Dei-lhe o dólar, ele respondeu-me "now we are talking" e veio deixar-me à porta.
........
Tive muita sorte com a história dos cabos nos hélices. Ainda estou para perceber de onde vieram. Passei a razar dois barcos fundeados e larguei ferro a tempo de ficar a dois metros de um recife. Depois tive de safar os cabos e mudar um dos hélices. Duas horas de trabalho que contam por quatro ou cinco.
O médico tinha razão: a carcaça é simpática.
........
Na sexta-feira trabalhei para o C. Pouco e mal. O ano começou com notícias péssimas. J. diz que está tudo bem, mas eu não estou satisfeito. Disse-lhe que não lhe cobrava as horas. Não me importo de trabalhar pouco; mal chateia-me. A verdade é que estava com a cabeça alhures.
Não existe trabalho manual, por mais que por vezes pareça.
........
St. Maarten é um não-lugar. Deve ser por isso que começo a gostar tanto de aqui estar.
Parte francesa, parte holandesa, parte marítima, parte laguna, dólares, euros, aventureiros, empreendedores, regras e ausência delas. Tudo cabe aqui. Mesmo um casal de brasileiros que está num barco e pensa que está em casa.
Fui ajudá-los a atracar. Bow thruster e stern thruster num 54'. São boa gente, mas não são marinheiros.
À noite embebedei-me. Não com o que bebi, que foi relativamente pouco - e na sua maioria pago pelo armador do 54, aqui fica o meu obrigado - mas pelas merdas todas que se estavam a acumular há algum tempo e que no primeiro dia do ano atingiram o pico.
Não percebo nada das vantagens ou desvantagens farmacêuticas do álcool; como diluente de merdas não conheço melhor.
Enfim, conheço: o mar. Mas agora estou em terra, não estou no mar.
O que gosto da burocracia não é descritível nem recorrendo a todos os vernáculos de todas as línguas, papiamento incluido, qualquer que seja o nível em que seja expresso.
........
A população residente da Little Crew House é reduzida - Allah uAqbar: estou de novo sozinho no quarto, depois da breve aparição de uma alemã simpatiquíssima, caladíssima e não muito bonita - e composta por uma mistura de pessoas que têm em comum apenas o facto de serem pessoas. Homens, mais precisamente. Há um inglês cujo nome esqueci que se passeia em cuecas como se estivesse de smoking, Fala com um horroroso sotaque cockney e só percebo o que ele me diz à terceira vez. Agora já quase não me fala. Deve pensar que sou burro. Tem razão, é certo, mas não é por não perceber o que me diz. É por razões mais complexas e infelizmente menos fáceis de contornar.
Francesco é um italiano do sul. Cinco minutos depois de ter falado pela primeira vez com ele fiquei a saber como calar cães que ladram demasiado (há dois no ferro-velho ao lado da hostel. É com balões cheios de água). Fiquei a saber uma quantidade incalculável de coisas, na verdade; mas lamentavelmente esqueci-me de todas (excepto dos balões para cães). Foi no dia em que estava grosso. É pena. Aposto que tudo o que ele me ensinou é interessantíssmo.
Mark é um jovem australiano que entre outras coisas é chef, presumo que de cozinha. Costuma elogiar o cheiro da comida que faço, mas de resto falamos pouco: é jovem e bonito e prefere poupar as suas palavras para senhoras jovens e bonitas.
Provavelmente nunca aprenderá que a palavra-chave da expressão sexo oposto é oposto e não sexo. (Como alguém deve ter dito antes de mim).
Enchi-me de repelente. E acredito, claro (apesar de saber que é mentira) que lhe estou imune porque já tive paludismo. Já quase morri dele. Isto devia imunizar-me contra uma série de coisas, incluindo crenças absurdas.
Que se fodam as crenças. São todas absurdas, de qualquer forma. Se apanhar chikungunya sobreviverei, como sobrevivi a tudo o que me aconteceu nestes anos todos.
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O condutor do bus que apanhei hoje de regresso a casa é obeso. Os braços mal chegam ao volante ou às mudanças. Conduz muito inclinado para trás e mesmo assim o volante entra-lhe pela barriga dentro. É feio: de perfil (sentei-me à frente, como sempre faço quando o lugar está vazio) parece uma estátua da Ilha da Páscoa com os lábios mais grossos e o nariz mais achatado.
Fala alto, grita mas num tom contínuo, liso, como se estivesse a fazer um discurso e não a dialogar; há uma discussão entre ele e uma ou duas passageiras. Percebo quase nada do que dizem: falam em papiamento, e apesar das origens portuguesas (papo) da língua só percebo as palavras inglesas. É uma questão de dinheiro e trajectos: a (ou as) senhoras queriam que ele as levasse a um sítio ao qual não é suposto ir e não lhe pagaram o suficiente, na opinião dele. Na delas sim.
Acabou por levá-las, apesar de visível - e audivelmente - insatisfeito (e de elas lhe terem dado mais dinheiro).
Aproveitei a deixa para lhe pedir que se desviasse e me viesse deixar à Crew House. Estou exausto, meio febril, tive outro um dia de loucos - trinta nós de vento e cabos nos hélices à saída do pontão de fuel logo pela manhã, seguida pelo habitual caos à tarde - está a chover e frio. Os quinhentos metros a pé são de repente dispensáveis, violentos, uma montanha.
Começou por me dizer que não. "E onde deixo estas pessoas?" perguntou num grito, como se eu estivesse do outro lado de uma rua com quatro faixas de rodagem e não a meio metro dele.
Não respondi. Pouco depois das senhoras desceu o único passageiro que estava na carrinha. Tirei cinquenta cêntimos da carteira e disse-lhe que agora estávamos sozinhos e me podia levar. Mais um grito, no final do qual percebi "one dollar". Dei-lhe o dólar, ele respondeu-me "now we are talking" e veio deixar-me à porta.
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Tive muita sorte com a história dos cabos nos hélices. Ainda estou para perceber de onde vieram. Passei a razar dois barcos fundeados e larguei ferro a tempo de ficar a dois metros de um recife. Depois tive de safar os cabos e mudar um dos hélices. Duas horas de trabalho que contam por quatro ou cinco.
O médico tinha razão: a carcaça é simpática.
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Na sexta-feira trabalhei para o C. Pouco e mal. O ano começou com notícias péssimas. J. diz que está tudo bem, mas eu não estou satisfeito. Disse-lhe que não lhe cobrava as horas. Não me importo de trabalhar pouco; mal chateia-me. A verdade é que estava com a cabeça alhures.
Não existe trabalho manual, por mais que por vezes pareça.
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St. Maarten é um não-lugar. Deve ser por isso que começo a gostar tanto de aqui estar.
Parte francesa, parte holandesa, parte marítima, parte laguna, dólares, euros, aventureiros, empreendedores, regras e ausência delas. Tudo cabe aqui. Mesmo um casal de brasileiros que está num barco e pensa que está em casa.
Fui ajudá-los a atracar. Bow thruster e stern thruster num 54'. São boa gente, mas não são marinheiros.
À noite embebedei-me. Não com o que bebi, que foi relativamente pouco - e na sua maioria pago pelo armador do 54, aqui fica o meu obrigado - mas pelas merdas todas que se estavam a acumular há algum tempo e que no primeiro dia do ano atingiram o pico.
Não percebo nada das vantagens ou desvantagens farmacêuticas do álcool; como diluente de merdas não conheço melhor.
Enfim, conheço: o mar. Mas agora estou em terra, não estou no mar.
O que gosto da burocracia não é descritível nem recorrendo a todos os vernáculos de todas as línguas, papiamento incluido, qualquer que seja o nível em que seja expresso.
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A população residente da Little Crew House é reduzida - Allah uAqbar: estou de novo sozinho no quarto, depois da breve aparição de uma alemã simpatiquíssima, caladíssima e não muito bonita - e composta por uma mistura de pessoas que têm em comum apenas o facto de serem pessoas. Homens, mais precisamente. Há um inglês cujo nome esqueci que se passeia em cuecas como se estivesse de smoking, Fala com um horroroso sotaque cockney e só percebo o que ele me diz à terceira vez. Agora já quase não me fala. Deve pensar que sou burro. Tem razão, é certo, mas não é por não perceber o que me diz. É por razões mais complexas e infelizmente menos fáceis de contornar.
Francesco é um italiano do sul. Cinco minutos depois de ter falado pela primeira vez com ele fiquei a saber como calar cães que ladram demasiado (há dois no ferro-velho ao lado da hostel. É com balões cheios de água). Fiquei a saber uma quantidade incalculável de coisas, na verdade; mas lamentavelmente esqueci-me de todas (excepto dos balões para cães). Foi no dia em que estava grosso. É pena. Aposto que tudo o que ele me ensinou é interessantíssmo.
Mark é um jovem australiano que entre outras coisas é chef, presumo que de cozinha. Costuma elogiar o cheiro da comida que faço, mas de resto falamos pouco: é jovem e bonito e prefere poupar as suas palavras para senhoras jovens e bonitas.
Provavelmente nunca aprenderá que a palavra-chave da expressão sexo oposto é oposto e não sexo. (Como alguém deve ter dito antes de mim).
4.1.15
Sócrates et al.
Há uma certa inevitabilidade nisto. Em toda a parte do mundo um político preso pensa que é um preso político.
2.1.15
Fragment
"Les douleurs se mélangent comme de la peinture: mets un peu de douleur-mineure dans la douleur-majeure pour blanchir celle-ci un peu et noircir l'autre, un peu aussi. Elle le suportera".
1.1.15
A medida das coisas
E depois de repente temos perante nós a medida de todas as coisas e todas as coisas nos parecem bem pequenas.
Navegar, prever
Navegar é a arte de prever o pior. Mas só o pior possível, imaginável. Não o pior como ele será realmente.
Se nos puséssemos a prever o que será como será não sairíamos sequer da cama.
Se nos puséssemos a prever o que será como será não sairíamos sequer da cama.
Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 31-12-2014 - II
O Château Tarin 2012 que comprei no chinês é o vinho mais barato do supermercado. Aposto que há melhores vinagres e mais caros.
Parece-me igualmente bem: daqui a um ano ser-me-á fácil beber um melhor e concluir que o ano foi bom.
Parece-me igualmente bem: daqui a um ano ser-me-á fácil beber um melhor e concluir que o ano foi bom.
31.12.14
Diario de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 31-12-2014
Não me preocupa muito acabar 2014 sozinho e sem dinheiro: não há razão nenhuma para que o fim do ano seja diferente do resto dele. E se comparar este com o anterior vejo que estes doze meses foram aquilo que prometeram. Recuperação.
Há um ano estava no Mindelo, sem um chavo no bolso e com uma tripulação de merda (um armador doente mental, um cobardolas nojento, uma gaja que não comia senão coisas cruas e não se lavava com sabão havia mais de três anos. Só se safava um jovem catalão educado, articulado e culto).
Este ano não tenho dinheiro mas sei que o vou ter assim que resolver os problemas burocráticos que a legislação francesa impõe; tenho um trabalho pelo menos por mais uns dias – e provavelmente resolverei a burocracia a tempo de continuar a trabalhar para aquela empresa –; e se estou sozinho é porque não faço esforços especiais para não estar.
Enganei-me a avaliar um gajo que em troca me enganou em alguns milhares de dólares; e não voltei para Portugal, como queria, também por uma questão de dinheiro. Tive alguns problemas de saúde, mas estão resolvidos. Parece-me pouco para estragar um ano que na verdade foi bom nas coisas importantes: o trabalho, as amizades, o futuro.
........
São seis da tarde. Acabo de comer o “especial fim-de-ano” do Pollo Loco, que em breve fechará. O Lagoonies também fechou. Ambos até sexta-feira. Pouco me resta para além de ir para a cama e começar uma tradução que já devia estar pronta. Mas antes disso compro uma garrafa de vinho no chinês, aberto como habitualmente até às nove (segundo me disseram não liga às festas ocidentais: só respeita os feriados chineses).
Parece-me bem: a vida de cada um não está necessariamente no fuso horário onde vive.
……..
Amanhã vai ser o primeiro dia sem trabalho desde terça-feira passada. Enfim, trabalho físico: vou tentar fazer pelo menos um terço da tradução. As condições são ideais: Lagoonies fechado, pouquíssimo dinheiro no bolso e ninguém para me distrair. Ou atrair, talvez.
……..
J. quer vender um dinghy velho e pediu-me para o pintar. Apliquei-me – é a primeira vez que pinto um RIB e queria que o resultado ficasse bom -. Ficou e ele já não o quer vender. A próxima tarefa vai ser instalar uma bomba de fundo no C.. Segunda-feira vai para a água e fico com um sítio para viver, pelo menos enquanto J. não decidir ir fazer uma viagem pelas ilhas. Já não navega há muito tempo e tem vontade de ir passear um bocado.
Está com setenta e oito anos. Não vai fazer muitas mais, penso. Quando o comparo (ele e, verdade seja dita, mais dois ou três) aos armadores com quem naveguei ou para quem trabalhei estes últimos anos fico optimista. A roda gira, a maré muda, o vento ronda.
........
E depois há pequenos prazeres que não deixam de o ser por serem pequenos: o Ernesto foi para Miami e estou sozinho no quarto. Parece - isto está nos pequenos prazeres porque ainda não confirmei - que ter tido malária imuniza contra a chikungunya. O Fernão Mendes Pinto avança - mais um que a confirmar-se muda imediatamente de categoria -.
........
Boa noite e bom ano, Don Vivo.
Há um ano estava no Mindelo, sem um chavo no bolso e com uma tripulação de merda (um armador doente mental, um cobardolas nojento, uma gaja que não comia senão coisas cruas e não se lavava com sabão havia mais de três anos. Só se safava um jovem catalão educado, articulado e culto).
Este ano não tenho dinheiro mas sei que o vou ter assim que resolver os problemas burocráticos que a legislação francesa impõe; tenho um trabalho pelo menos por mais uns dias – e provavelmente resolverei a burocracia a tempo de continuar a trabalhar para aquela empresa –; e se estou sozinho é porque não faço esforços especiais para não estar.
Enganei-me a avaliar um gajo que em troca me enganou em alguns milhares de dólares; e não voltei para Portugal, como queria, também por uma questão de dinheiro. Tive alguns problemas de saúde, mas estão resolvidos. Parece-me pouco para estragar um ano que na verdade foi bom nas coisas importantes: o trabalho, as amizades, o futuro.
........
São seis da tarde. Acabo de comer o “especial fim-de-ano” do Pollo Loco, que em breve fechará. O Lagoonies também fechou. Ambos até sexta-feira. Pouco me resta para além de ir para a cama e começar uma tradução que já devia estar pronta. Mas antes disso compro uma garrafa de vinho no chinês, aberto como habitualmente até às nove (segundo me disseram não liga às festas ocidentais: só respeita os feriados chineses).
Parece-me bem: a vida de cada um não está necessariamente no fuso horário onde vive.
……..
Amanhã vai ser o primeiro dia sem trabalho desde terça-feira passada. Enfim, trabalho físico: vou tentar fazer pelo menos um terço da tradução. As condições são ideais: Lagoonies fechado, pouquíssimo dinheiro no bolso e ninguém para me distrair. Ou atrair, talvez.
……..
J. quer vender um dinghy velho e pediu-me para o pintar. Apliquei-me – é a primeira vez que pinto um RIB e queria que o resultado ficasse bom -. Ficou e ele já não o quer vender. A próxima tarefa vai ser instalar uma bomba de fundo no C.. Segunda-feira vai para a água e fico com um sítio para viver, pelo menos enquanto J. não decidir ir fazer uma viagem pelas ilhas. Já não navega há muito tempo e tem vontade de ir passear um bocado.
Está com setenta e oito anos. Não vai fazer muitas mais, penso. Quando o comparo (ele e, verdade seja dita, mais dois ou três) aos armadores com quem naveguei ou para quem trabalhei estes últimos anos fico optimista. A roda gira, a maré muda, o vento ronda.
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E depois há pequenos prazeres que não deixam de o ser por serem pequenos: o Ernesto foi para Miami e estou sozinho no quarto. Parece - isto está nos pequenos prazeres porque ainda não confirmei - que ter tido malária imuniza contra a chikungunya. O Fernão Mendes Pinto avança - mais um que a confirmar-se muda imediatamente de categoria -.
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Boa noite e bom ano, Don Vivo.
Presentes estratégicos
Esta história da linha de aviação Bragança - Portimão, com paragem em Vila Real, Viseu e Cascais subvencionada pelo Estado é mais uma prova, infelizmente redundante, da impossibilidade de mudar os países.
As nações - todas, sem excepção - estão organizadas para que as pessoas que detêm o poder, qualquer tipo de poder: económico, político, social o mantenham e perpetuem num estado de calma e tranquilidade.
Nalgumas, para atingir esse objectivo é necessário partilhar o poder com o povo: é o caso das democracias do Norte da Europa, dos Estados Unidos, Canadá. Noutras, basta dar-lhe frigoríficos ou, uns anos mais tarde, uma linha aérea.
Claro que no caso dos aviões não é bem o povo quem vai beneficiar; isto é mais um favor de uma parte da "elite" a outra parte de si própria.
Um presente embrulhado, claro, em "visão estratégica".
A qual será paga quando os palermas dos "visionários" já cá não estarão por pessoas que nunca dela beneficiarão.
As nações - todas, sem excepção - estão organizadas para que as pessoas que detêm o poder, qualquer tipo de poder: económico, político, social o mantenham e perpetuem num estado de calma e tranquilidade.
Nalgumas, para atingir esse objectivo é necessário partilhar o poder com o povo: é o caso das democracias do Norte da Europa, dos Estados Unidos, Canadá. Noutras, basta dar-lhe frigoríficos ou, uns anos mais tarde, uma linha aérea.
Claro que no caso dos aviões não é bem o povo quem vai beneficiar; isto é mais um favor de uma parte da "elite" a outra parte de si própria.
Um presente embrulhado, claro, em "visão estratégica".
A qual será paga quando os palermas dos "visionários" já cá não estarão por pessoas que nunca dela beneficiarão.
Coincidência, tempo
Um tempo que se define como ausência de frio é o mesmo que se define como ausência de horas. Não sei se é coincidência.
Perguntas, mitologias
Cada vez que vejo a imagem de um unicórnio pergunto-me se é mitológico porque só foi enganado uma vez.
Números
2014 acaba. Foi melhor do que 2013, o que em si está longe de ser uma proeza. Satisfaz-me é saber que vai ser muito pior do que 2015.
Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 30-12-2014
À primeira vista dir-se-ia que o ecossistema está montado: dormir na Little Crew House, comer na colombiana (Pollo Loco, se por acaso algum leitor passar por estes lados), ouvir música, escrever e beber no Lagoonies, trabalhar. Hoje tive uma ajuda. William apareceu de manhã no estaleiro e perguntou-me se tinha trabalho para ele. Disse-lhe que não: trabalho para ele significa menos trabalho para mim.
Mas o homem estava visivelmente aflito. Ficou ali a ver-me pintar as obras vivas do C., com este "olhar infinito" de que J. me falou. É um olhar que não tem foco, como se estivessem a olhar para o tempo, e não para um ponto qualquer físico. Senti-me a comer um banquete ao lado de um faminto e não resisti, obviamente. Trabalhou bem, mereceu o meio-dia que ganhou. De qualquer forma, fazer pintura de fundos não é nem de longe o meu trabalho favorito.
Achei piada porque torceu o nariz quando lhe paguei. Era pouco. "É o que eu ganho, William". Imagino a confusão naquela cabeça: brancos a ganhar o que muitos locais recusam? No fim lá percebeu, agradeceu-me e perguntou-me se tinha mais trabalho para ele.
Não tenho, mas aposto que amanhã vai estar no estaleiro. É teimoso, e não há melhor qualidade do que a que se mistura com um defeito tão intimamente como a teimosia.
Talvez seja um bom critério para avaliar qualidades: as que estão a um fio de ser defeitos são as boas.
........
Começo também a conhecer melhor o meu colega de quarto, um equatoriano a quem o patrão acaba de propor um trabalho aqui na ilha. Vive em Miami, é especialista em frio, veio para cá só para dar apoio ao princípio da época e há tanto trabalho que a empresa quer que fique.
É jovem, acha Miami "um stress" e quer vir para St. Maarten. Amanhã fico sozinho no quarto: vai a Miami vender o carro e rescindir o contrato com o senhorio. Volta na primeira semana de Janeiro.
Com sorte estarei a viver no C., que vai para a água dia cinco. Com mais sorte ainda estarei a navegar.
........
Ausência de frio, ausência de calor. O clima desta ilha é a forma agradável da ausência. Há outras, suponho. Infelizmente interessam-me pouco.
Na verdade poucas são as coisas que me interessam muito.
Mas o homem estava visivelmente aflito. Ficou ali a ver-me pintar as obras vivas do C., com este "olhar infinito" de que J. me falou. É um olhar que não tem foco, como se estivessem a olhar para o tempo, e não para um ponto qualquer físico. Senti-me a comer um banquete ao lado de um faminto e não resisti, obviamente. Trabalhou bem, mereceu o meio-dia que ganhou. De qualquer forma, fazer pintura de fundos não é nem de longe o meu trabalho favorito.
Achei piada porque torceu o nariz quando lhe paguei. Era pouco. "É o que eu ganho, William". Imagino a confusão naquela cabeça: brancos a ganhar o que muitos locais recusam? No fim lá percebeu, agradeceu-me e perguntou-me se tinha mais trabalho para ele.
Não tenho, mas aposto que amanhã vai estar no estaleiro. É teimoso, e não há melhor qualidade do que a que se mistura com um defeito tão intimamente como a teimosia.
Talvez seja um bom critério para avaliar qualidades: as que estão a um fio de ser defeitos são as boas.
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Começo também a conhecer melhor o meu colega de quarto, um equatoriano a quem o patrão acaba de propor um trabalho aqui na ilha. Vive em Miami, é especialista em frio, veio para cá só para dar apoio ao princípio da época e há tanto trabalho que a empresa quer que fique.
É jovem, acha Miami "um stress" e quer vir para St. Maarten. Amanhã fico sozinho no quarto: vai a Miami vender o carro e rescindir o contrato com o senhorio. Volta na primeira semana de Janeiro.
Com sorte estarei a viver no C., que vai para a água dia cinco. Com mais sorte ainda estarei a navegar.
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Ausência de frio, ausência de calor. O clima desta ilha é a forma agradável da ausência. Há outras, suponho. Infelizmente interessam-me pouco.
Na verdade poucas são as coisas que me interessam muito.
30.12.14
Horários, vida
Uma das coisas que gosto nas Caraíbas é que os horários são feitos para gajos como eu: ainda não são dez horas da noite e o Lagoonies já está a fechar. É tarde, mas a qualidade da música explica e justifica. A festa continua, claro, alhures. Mas só para quem quer. Quem não quer paga e vai para a cama.
Exausto, como se tivesse vivido.
Exausto, como se tivesse vivido.
Por conseguinte
Tenho as mãos, o esqueleto e a pele num estado lamentável. Espero que a próxima namorada perceba que não é por ter andado a brincar.
Enfim, não é verdade: espero que a próxima namorada perceba, simplesmente. Já seria muito.
Enfim, não é verdade: espero que a próxima namorada perceba, simplesmente. Já seria muito.
Cósmico, cómico
Deve haver uma razão, mas eu não sei qual é, pela qual o meu trabalho é reconhecido fora de Portugal e não o é no país onde eu gostaria de viver.
Hesito entre erro cósmico e erro cómico, sabendo que tendo mais para este último.
Hesito entre erro cósmico e erro cómico, sabendo que tendo mais para este último.
Pensar, agradecer
Pensa talvez na noite que te espera, na cama vazia, na lua quase cheia, nas estrelas, aos milhares. Ou não penses. Pensar é um erro: não faz amigos e os inimigos que traz não o merecem. Pensar é como os bons barcos: raramente merecem os donos. Dança, bebe, boxeia a vida ou fode-a, bebe-a, come-a, vive-a.
Mas não penses. Agradece. É a melhor maneira de pensar.
Mas não penses. Agradece. É a melhor maneira de pensar.
Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 29-12-2014 - II
São nove da noite, a música no Lagoonies acaba. É curioso encontrar-me aqui: foi o primeiro sítio que me fez gostar de St. Maarten e me fez pensar que isto também é Caraíbas e não apenas uma versão tropicalizada do Algarve.
Mudou de dono, de gerência, de barmaid - a brasileira que aqui trabalhava é das poucas pessoas que acho insubstituíveis - mas o espírito mantém-se.
É verdade que o espírito tem custos e regra geral vou comer à colombiana do outro lado da rua. Mas depois é aqui que bebo rum punch até ter sono. A Little Crew House (juro que nunca mais lhe chamarei outra coisa) fica no primeiro andar.
O resto não sei, e pouco me interessa.
Mudou de dono, de gerência, de barmaid - a brasileira que aqui trabalhava é das poucas pessoas que acho insubstituíveis - mas o espírito mantém-se.
É verdade que o espírito tem custos e regra geral vou comer à colombiana do outro lado da rua. Mas depois é aqui que bebo rum punch até ter sono. A Little Crew House (juro que nunca mais lhe chamarei outra coisa) fica no primeiro andar.
O resto não sei, e pouco me interessa.
Dançar, quase-retrato
Dança como se estivesse a boxear a vida. É a única coisa na qual ele pensa que se deve bater.
Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 29-12-2014
A maré sobe, a maré baixa.
Felizmente não me posso queixar: pelo menos tenho trabalho.
Não me apetece contar histórias tristes, conto uma bonita. Mesmo não sendo a primeira vez. Mas enfim, o Don Vivo, coitado, faz hoje onze anos. Pode permitir-se algumas repetições.
Ou em 2004 ou em 2006 saí de Cascais para as Canárias num Centurion 43, um barco magnífico. O armador perguntou-me quanto queria ganhar, eu disse-lhe. Ele respondeu "Isso é um salário de skipper, e eu preciso de um tripulante. O skipper sou eu. Pago-te xis". Eu aceitei, claro. Os meus problemas com dinheiro não datam de hoje, e há muito que tenho os de ego resolvidos.
Ainda não tínhamos chegado a Sagres e caíu-nos um Sudoeste em cima. A depressão era cavada, empatou por ali e o resultado foi um arraial de porrada que durou quatro ou cinco dias. Por arraial de porrada quero dizer arraial de porrada: trinta trinta e cinco nós pela proa, um barco demasiado carregado, dois gajos a bordo.
J., o armador nunca tinha apanhado uma coisa daquelas. Eu já, algumas. Discutimos algumas vezes sobre o que fazer. Ao fim de dois dias ele disse-me "contratei-te como marinheiro, mas tu sabes muito mais disto do que eu. A partir de hoje tu és o skipper e eu pago-te como tal desde Cascais".
Alguns anos mais tarde aterrei em St. Martin sem um chavo. Telefonei-lhe (ele vive aqui) e perguntei-lhe se me podia ajudar a arranjar um trabalho. Convidou-me para almoçar, expliquei-lhe que estava sem um tostão, e ele disse-me"Tenho um trabalho para ti no C., em Antigua".
Comprou um bilhete de avião e nessa tarde eu estava em Antigua, com três mil e quinhentos dólares no bolso. "Fazes as reparações e ficas com o que sobrar". Ando há anos a explicar-lhe que me sobrou dinheiro demais para o trabalho que fiz e que quero reembolsá-lo. Não responde, sequer.
Hoje fui trabalhar para o C. de novo. Foi "cicloné" (um neologismo, mesmo em francês que me atrai, vá lá saber-se porquê). A coisa foi muito mais complicada do que ambos pensávamos inicialmente.
Expliquei-lhe que faria o trabalho por metade do preço, para compensar. Nem me respondeu, como de costume. E pagou-me, como é hábito nos americanos, ao fim do dia de trabalho.
Não gosto nem desgosto de americanos. Gosto de pessoas. J. é uma das pessoas, poucas, que respeito neste meio.
........
Onze anos de Don Vivo. Onze anos de vida.
........
De maneira é isto: regressei à Little Crew House, estou no Lagoonies a ouvir rock e blues do melhor, fui jantar à colombiana porque é mais barato e paguei três dólares por um duche, porque saí do C. imundo e não me apetecia ir aos duches da Crew House. Amanhã às oito da manhã estarei no C. O meu cinto apertou mais um furo. Daqui por duas ou três semanas poderei trabalhar de novo na Dream Yachts. Questão de papéis e contas bancárias: merdas que os burocratas inventam para justificar o seu salário.
.........
Nada que um rum punch ou dois não resolvam. Nada que estar vivo não resolva. Nada que um barco, sol e vento e boa música não resolvam.
Felizmente não me posso queixar: pelo menos tenho trabalho.
Não me apetece contar histórias tristes, conto uma bonita. Mesmo não sendo a primeira vez. Mas enfim, o Don Vivo, coitado, faz hoje onze anos. Pode permitir-se algumas repetições.
Ou em 2004 ou em 2006 saí de Cascais para as Canárias num Centurion 43, um barco magnífico. O armador perguntou-me quanto queria ganhar, eu disse-lhe. Ele respondeu "Isso é um salário de skipper, e eu preciso de um tripulante. O skipper sou eu. Pago-te xis". Eu aceitei, claro. Os meus problemas com dinheiro não datam de hoje, e há muito que tenho os de ego resolvidos.
Ainda não tínhamos chegado a Sagres e caíu-nos um Sudoeste em cima. A depressão era cavada, empatou por ali e o resultado foi um arraial de porrada que durou quatro ou cinco dias. Por arraial de porrada quero dizer arraial de porrada: trinta trinta e cinco nós pela proa, um barco demasiado carregado, dois gajos a bordo.
J., o armador nunca tinha apanhado uma coisa daquelas. Eu já, algumas. Discutimos algumas vezes sobre o que fazer. Ao fim de dois dias ele disse-me "contratei-te como marinheiro, mas tu sabes muito mais disto do que eu. A partir de hoje tu és o skipper e eu pago-te como tal desde Cascais".
Alguns anos mais tarde aterrei em St. Martin sem um chavo. Telefonei-lhe (ele vive aqui) e perguntei-lhe se me podia ajudar a arranjar um trabalho. Convidou-me para almoçar, expliquei-lhe que estava sem um tostão, e ele disse-me"Tenho um trabalho para ti no C., em Antigua".
Comprou um bilhete de avião e nessa tarde eu estava em Antigua, com três mil e quinhentos dólares no bolso. "Fazes as reparações e ficas com o que sobrar". Ando há anos a explicar-lhe que me sobrou dinheiro demais para o trabalho que fiz e que quero reembolsá-lo. Não responde, sequer.
Hoje fui trabalhar para o C. de novo. Foi "cicloné" (um neologismo, mesmo em francês que me atrai, vá lá saber-se porquê). A coisa foi muito mais complicada do que ambos pensávamos inicialmente.
Expliquei-lhe que faria o trabalho por metade do preço, para compensar. Nem me respondeu, como de costume. E pagou-me, como é hábito nos americanos, ao fim do dia de trabalho.
Não gosto nem desgosto de americanos. Gosto de pessoas. J. é uma das pessoas, poucas, que respeito neste meio.
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Onze anos de Don Vivo. Onze anos de vida.
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De maneira é isto: regressei à Little Crew House, estou no Lagoonies a ouvir rock e blues do melhor, fui jantar à colombiana porque é mais barato e paguei três dólares por um duche, porque saí do C. imundo e não me apetecia ir aos duches da Crew House. Amanhã às oito da manhã estarei no C. O meu cinto apertou mais um furo. Daqui por duas ou três semanas poderei trabalhar de novo na Dream Yachts. Questão de papéis e contas bancárias: merdas que os burocratas inventam para justificar o seu salário.
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Nada que um rum punch ou dois não resolvam. Nada que estar vivo não resolva. Nada que um barco, sol e vento e boa música não resolvam.
27.12.14
Terror
O dilema é simples: trabalhar para a empresa que tão gentilmente me acolhe no seio implica número de segurança social, conta bancária, residência, impostos e uma série de coisas que não tenho há alguns anos.
Coisas essas que não me fazem falta nenhuma.
Eles querem que eu tenha isso tudo: "Tu es sympa et tu bosses bien". Verbatim, e dito pelo pessoa mais antipática que jamais encontrei neste negócio. Eu queria estabilizar, mas assim de repente isto parece-me demasiado precoce. Não sei.
Não saber é um suave eufemismo. Aterroriza-me está muito mais perto da verdade.
Coisas essas que não me fazem falta nenhuma.
Eles querem que eu tenha isso tudo: "Tu es sympa et tu bosses bien". Verbatim, e dito pelo pessoa mais antipática que jamais encontrei neste negócio. Eu queria estabilizar, mas assim de repente isto parece-me demasiado precoce. Não sei.
Não saber é um suave eufemismo. Aterroriza-me está muito mais perto da verdade.
Fantasmas
Se alguém me perguntasse o que fiz hoje não saberia dizer. "Não parar" é vago como descrição.
Dias como fantasmas: não se vêem, mas sentem-se.
Dias como fantasmas: não se vêem, mas sentem-se.
Conselho
Embebeda-te devagar, como se estivesses a foder a vida. É a tua vez. Ela já te fodeu o suficiente, e durante muito tempo.
Pessoas, estereótipos
Dou-me mal com classes sociais, brancos, pretos, gordos, maricas, bêbedos, drogados. Só me dou bem com pessoas. Por uma razão qualquer não me entendo com estereótipos.
26.12.14
Loyauté
Il en est de la loyauté comme de l'amour. Celui qui ne sait pas être loyal à soi-même ne saura jamais être loyal à autrui.
Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 25-12-2014
O médico pode dizer o que quiser (verdade seja dita eu não lhe contei tudo; se tudo fosse grave ele tê-lo-ia descoberto, de qualquer forma); mas chego ao fim dos dias e sinto-os passar.
Forçoso é reconhecer que não foi apenas o trabalho: celebrei o emprego, o Natal, estar vivo e feliz. Dois dias seguidos de celebrações pagam-se. Hoje com muitas horas de sono.
........
O qual dia começou com uma cena adorável e provavelmente só possível nas Caraíbas: o condutor do bus (no roiginal porque não são autocarros, mas aquilo a que em Portugal chamamos minivans, creio) estava hílare. Alguém lhe tinha pago a viagem com um dólar rasgado ao meio. O homem, perdido de riso, explicava que lhe tinham dado a nota dobrada (é muito frequente) e ele não tinha, naturalmente, visto.
Aquilo fazia-o rir a bandeiras despregadas. E com ele todo o bus, que naturalmente inventava razões e fazia comentários. A hipótese mas votada foi, claro, que era para fazer os cinquenta cêntimos (alguns trajectos custam um dólar e meio).
...........
E depois foi por aí fora. Um cliente cujo barco garrou, um tipo perdido de fumo cujo barco se atravessou na ponte e estava tão pedrado que não se apercebeu que o motor não estava a funcionar quando o fui ajudar a sair dali, uma francesa histérica (nem sempre é um pleonasmo, francês histérico),
Acabei eram seis da tarde e, para completar a prenda de Natal que foi encontrar este trabalho, poderei muito provavelmente deixar a Shitty Crew House amanhã.
........
Hoje foi um dia louco. Espero que venham muitos mais assim. A carcaça que se desenrasque.
Forçoso é reconhecer que não foi apenas o trabalho: celebrei o emprego, o Natal, estar vivo e feliz. Dois dias seguidos de celebrações pagam-se. Hoje com muitas horas de sono.
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O qual dia começou com uma cena adorável e provavelmente só possível nas Caraíbas: o condutor do bus (no roiginal porque não são autocarros, mas aquilo a que em Portugal chamamos minivans, creio) estava hílare. Alguém lhe tinha pago a viagem com um dólar rasgado ao meio. O homem, perdido de riso, explicava que lhe tinham dado a nota dobrada (é muito frequente) e ele não tinha, naturalmente, visto.
Aquilo fazia-o rir a bandeiras despregadas. E com ele todo o bus, que naturalmente inventava razões e fazia comentários. A hipótese mas votada foi, claro, que era para fazer os cinquenta cêntimos (alguns trajectos custam um dólar e meio).
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E depois foi por aí fora. Um cliente cujo barco garrou, um tipo perdido de fumo cujo barco se atravessou na ponte e estava tão pedrado que não se apercebeu que o motor não estava a funcionar quando o fui ajudar a sair dali, uma francesa histérica (nem sempre é um pleonasmo, francês histérico),
Acabei eram seis da tarde e, para completar a prenda de Natal que foi encontrar este trabalho, poderei muito provavelmente deixar a Shitty Crew House amanhã.
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Hoje foi um dia louco. Espero que venham muitos mais assim. A carcaça que se desenrasque.
25.12.14
Diário de Bordos - Cole Bay, St, Maarten, Antilhas Holandesas, 24-12-2014
Estou tão cansado que nem forças tenho para beber o rum punch que o Matthieu sabe, finalmente, preparar como eu gosto.
........
Hoje o dia começou com as manobras, como estava previsto. Ao fim de duas horas e meia o director da empresa pediu-me para ir ao escritório. "Preciso de falar contigo. Podes vir ao escritório, por favor?"
Já não faço manobras há algum tempo. As primeiras não foram tão fluidas e bonitas e limpas como eu gosto de as fazer. Não estava muito confiante.
Era para me dar mais trabalho. Vou às BVI buscar um barco, trazê-lo para aqui, embarcar com clientes, levá-los às BVI... Enfim, trabalho até dia 2 de Janeiro. Ou seja: se passar mais esta prova "A stew é brasileira; é uma chata. "Não tens camarote para dormir". "O salário é baixo" (isso já sabia. Mas como por enquanto não sei quanto ganho pouco me preocupa). "O barco está uma merda".
No fundo é mais um exame. "A minha função na empresa é elevar o nível".
Não é difícil. O nível da empresa é baixo. É uma empresa grande. Tão grande que posso sonhar com um trabalho em terra um dia. Quero deixar o mar, mas não completamente. Como uma namorada de quem nos tornamos amigos.
........
Gosto do que faço. É inegável, e é uma sorte, uma dádiva. Hoje, depois das manobras, passei o dia a fazer manutenção: de mudar lâmpadas a mudar fogões, apertar parafusos, fazer check-ups a barcos, envergar velas e ensinar locais não parei.
Nunca serei rico: interesso-me mais pelo que faço do que pelo que recebo.
..........
Vai ser um Natal solit+ario e feliz. Que belíssima combinação.
........
Hoje o dia começou com as manobras, como estava previsto. Ao fim de duas horas e meia o director da empresa pediu-me para ir ao escritório. "Preciso de falar contigo. Podes vir ao escritório, por favor?"
Já não faço manobras há algum tempo. As primeiras não foram tão fluidas e bonitas e limpas como eu gosto de as fazer. Não estava muito confiante.
Era para me dar mais trabalho. Vou às BVI buscar um barco, trazê-lo para aqui, embarcar com clientes, levá-los às BVI... Enfim, trabalho até dia 2 de Janeiro. Ou seja: se passar mais esta prova "A stew é brasileira; é uma chata. "Não tens camarote para dormir". "O salário é baixo" (isso já sabia. Mas como por enquanto não sei quanto ganho pouco me preocupa). "O barco está uma merda".
No fundo é mais um exame. "A minha função na empresa é elevar o nível".
Não é difícil. O nível da empresa é baixo. É uma empresa grande. Tão grande que posso sonhar com um trabalho em terra um dia. Quero deixar o mar, mas não completamente. Como uma namorada de quem nos tornamos amigos.
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Gosto do que faço. É inegável, e é uma sorte, uma dádiva. Hoje, depois das manobras, passei o dia a fazer manutenção: de mudar lâmpadas a mudar fogões, apertar parafusos, fazer check-ups a barcos, envergar velas e ensinar locais não parei.
Nunca serei rico: interesso-me mais pelo que faço do que pelo que recebo.
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Vai ser um Natal solit+ario e feliz. Que belíssima combinação.
24.12.14
Amabilidade e filha da putice
A filha da putice é sempre a mesma, igual a si própria. O que separa um filho da puta de outro é a consciência que cada um tem da sua condição. Um filho da puta que se sabe filho da puta não deixa de o ser. Torna-se, simplesmente, um filho da puta amável.
Enfim, não tão simplesmente como isso.
Enfim, não tão simplesmente como isso.
Liberdade, justiça
Liberdade e felicidade não são sinónimos, facto que mais não faz do que demonstrar, uma vez mais, que a vida não é justa.
23.12.14
Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 23-12-2014
É preciso imaginar um céu azul que oscila entre o violeta e o branco. O dia acaba. Os cumulus ainda são brancos nas margens mas já são cinzento escuro por baixo. O vento cai, a água lamenta-o, a profusão das luzes da noite faz-nos ver que talvez, no fundo, a luz do dia seja monótona.
Matthieu, o jovem empregado do Lagoonies já sabe fazer o rum punch como eu gosto.
Amanhã tenho trabalho.
A Lua é uma vírgula, em crescente.
Também tenho trabalho para dois ou três dias entre o Natal e o Ano Novo.
Violeta escuro. As núvens deixaram de ter luz: são apenas sombras.
........
Hoje fui fazer um exame médico. O médico que me examinou diz que tenho uma condição física invejável "para a idade que tem". Peço-lhe que diga isso aos meus potenciais empregadores e lembro-me de uma pessoa que me dizia "tu não tens idade".
.........
Amanhã vou passar o dia a manobrar barcos. O senhor que me contratou pergunta-me "Estás à vontade com manobras?" "São a minha alegria e o meu orgulho". Gosto de correr riscos. A Marina de Fort Royale é apertada e com vento uma seca.
........
Hoje não posso dormir no trawler. R. tem a namorada a bordo.. Regresso à Shitty Crew House. "Mesmo quarto, mesma cama", diz-me C., o gerente da coisa. Deve ter adivinhado que preciso de estabilidade.
........
Não há luar: a Lua mal se ilumina a si própria.
Matthieu, o jovem empregado do Lagoonies já sabe fazer o rum punch como eu gosto.
Amanhã tenho trabalho.
A Lua é uma vírgula, em crescente.
Também tenho trabalho para dois ou três dias entre o Natal e o Ano Novo.
Violeta escuro. As núvens deixaram de ter luz: são apenas sombras.
........
Hoje fui fazer um exame médico. O médico que me examinou diz que tenho uma condição física invejável "para a idade que tem". Peço-lhe que diga isso aos meus potenciais empregadores e lembro-me de uma pessoa que me dizia "tu não tens idade".
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Amanhã vou passar o dia a manobrar barcos. O senhor que me contratou pergunta-me "Estás à vontade com manobras?" "São a minha alegria e o meu orgulho". Gosto de correr riscos. A Marina de Fort Royale é apertada e com vento uma seca.
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Hoje não posso dormir no trawler. R. tem a namorada a bordo.. Regresso à Shitty Crew House. "Mesmo quarto, mesma cama", diz-me C., o gerente da coisa. Deve ter adivinhado que preciso de estabilidade.
........
Não há luar: a Lua mal se ilumina a si própria.
Maude
I
Ontem fui almoçar com Maude e o namorado. Maude é a minha mulher. Somos casados há dezasseis anos. O rapaz é bastante mais novo do que nós. Ela tem quarenta e três e eu mais dois. Ele deve ter vinte e poucos. É pintor e expõe as obras no metro. Aparentemente foi assim que se conheceram. Maude sempre gostou de arte e de artistas. Ignoro o que a levou a casar-se com um piloto de aviões.
Gostei do rapaz. Tem o olhar mortiço e profundo dos criadores que criam e fala igualmente devagar, como se cada frase fosse um marco na sabedoria da humanidade e devesse ficar registada. Chama-se Jules, ou Julien, não me lembro bem. Tenho uma péssima memória para nomes. Talvez seja desinteresse, no fundo. Ou arrogância. Não sei.
Fomos almoçar a uma daquelas esplanadas do Campo Pequeno. Maude levava os óculos escuros redondos, que lhe cobrem metade da face e a tornam parecida com Janis Joplin. O rapaz ia com o uniforme de artista. Falou pouco. Eu estava com a farda de voo – tinha acabado de chegar e achei pena trocar de roupa. Assim sempre dei ao miúdo mais uma razão para se rir de mim. Os artistas não gostam de fardas. Excepto as deles, claro, mas este ainda é demasiado jovem para saber que está fardado. Pensa que está vestido–. Ele não sabe que eu sei. Maude sabe, porque Maude sabe tudo o que eu sei. Nunca falamos nos seus amantes. Nem nas minhas, mas são muito menos do que os dela, penso. Não os conheço todos. Desta vez aceitei ir almoçar porque Maude comprou uma ou duas telas ao rapaz e queria que eu o conhecesse. Também conheci o músico e o actor. Imagino que tenha havido mais, mas não os encontrei. O músico era simpático. Tocava bem – no metro, claro –. Talvez tivesse sido melhor comprar um carro à Maude antes de me aparecer com a fauna toda dos túneis em casa.
Há muito tempo que o amor entre Maude e mim foi substituído por uma amizade profunda, sexuada, cheia de prazer e vazia de paixão. A única condição é eu não saber. É-me indiferente que toda a gente saiba desde que ninguém me possa vir dizer que fui enganado.
O almoço foi agradável. O rapaz é frugal, Maude estava radiante e eu aproveitei para falar do clima, um tema que me aborrece mais do que as horas de sono da minha primeira empregada. Jules - ou Julien? – é culto, tem conversa (se bem um pouco lenta para o meu gosto) e não estava nem demasiado à vontade nem encavacado. Enquanto falávamos pensava que o rapaz me devia estar grato: dava-lhe uma mulher soberba e algumas razões para pensar que fazia bem em enganar-me com ela.
"Sabe estar, não achas?" resumiu Maude depois do almoço, já a caminho de casa.
........
Maude está sentada na borda da cama, pernas encolhidas, mamas esmagadas contra os joelhos. Pinta as unhas dos pés.
Quando acabar vai deitar-se de costas, coxas afastadas, pés em leque perfeito, simétricos, a arejar. Com a mão direita começará a masturbar-se. A mão esquerda ficará pousada no lençol, entre nós. Pouco a pouco vai suspirar; os suspiros aumentarão de intensidade; eu deixarei o livro que estou a ler e voltar-me-ei. Ela pegar-me-á na mão direita, pô-la-á no seu ventre e dir-me-á "Põe a foice em seara alheia", ou coisa que o valha. Maude consegue erotizar a mais anódina das expressões.
Em breve as nossas mãos estarão juntas; a sua mão esquerda estará algures no meu ventre. Eu continuarei deitado de costas; Maude esmagará a minha mão contra o seu monte-de-vénus, redondo e proeminente, de pentelheira farta. Começarei a entesar-me.
……
Está deitado de costas, pau feito a apontar para o tecto, quase vertical. Sento-me em cima dele, puxo-lhe a pila para a frente e enterro-a em mim. Aponto para o meu umbigo e digo-lhe Até aqui. Até aqui. Até aqui. Ponho as pernas por cima do peito dele. Gosto quando ele me mordisca os dedos dos pés enquanto o sinto no meu ventre. Até aqui. Já me vim uma vez. Vir-me-ei uma segunda e outra e outra.
Ele pega-me nos tornozelos, afasta-me ligeiramente as pernas, puxa-me para a frente e para trás. Sinto-lhe os tomates nas nádegas. Sei que isso o magoa um pouco e que ele conta com essa dor para atrasar o orgasmo.
Gosto de saber que ele me olha para a pentelheira, que vê o membro enterrado em mim até aos copos, que me vê feliz como se fosse a primeira vez. Não é. É melhor.
Diz-me "Ajuda o senhor Bispo" e eu obedeço. Com a mão direita masturbo-me de novo. Com a esquerda acaricio-me os seios. Viramo-nos de lado.
Ele gosta de acabar assim, os meus tornozelos nas mãos fechadas, para trás e para a frente e para trás e para a frente não cada vez mais depressa mas cada vez mais fundo, cada vez mais fundo, cada vez mais até aqui.
Sai depressa de mim. Não é como Jules, que gosta de se deixar ficar e de o tirar quando já está mole.
Amo-o, mas ele não sabe. Pensa que sinto por ele o que ele sente por mim: amizade.
Não é verdade. Amo-o.
II
Já alguma se apaixonaram por alguém que à partida não tem nada em comum convosco? Nada em comum com vocês ou aquilo que procuram no outro? Foi isso que me aconteceu com ele. Sempre gostei de artistas, de uma vida desorganizada, sem outras expectativas que não fossem criar, gozar, aprender, conhecer "pessoas interessantes" (as aspas são consequência destes dezasseis anos com ele, claro. O seu cepticismo contaminou-me. "Pessoas interessantes só existem nas cabeças de pessoas que as têm vazias. Toda a gente é interessante", dizia-me). Queria um homem ao meu lado sempre. Pensava que as minhas ideias se transformariam milagrosamente em livros, contos, letras de canções, pinturas, fotografias; sem trabalho, sem esforço, por obra e graça da inspiração e do talento.
Conheci-o num jantar. Era um jovem piloto com um sentido de humor demolidor, que defendia sozinho as suas ideias contra todos os presentes, educadamente, com um sorriso e uma resposta lapidar àquilo que visivelmente lhe parecia uma antologia de tonterias.
Não me lembro qual o tema de discussão desse primeiro jantar. A cena repetiu-se várias vezes, até ele se cansar e não falar se não do tempo e de aviões – duas coisas que, dizia, o apaixonavam. "Principalmente o tempo, a sua constante mudança, a sua imprevisibilidade" –.
Foi contra vontade que me apaixonei por ele. Era um homem decente, provavelmente o mais decente que jamais conheci. "Decente? Pior do que isso só ser cornudo", disse-me um dia. "Pensava que ser cornudo te deixava indiferente". "Deixa. É isso: não há nada pior do que ser decente".
Mas sim, era um homem decente. Oferecia-me flores, trazia-me constantemente prendas – joalharia, roupa – das suas viagens, amava-me maravilhosamente e, sobretudo, nunca me fazia perguntas. Um dia fiz-lho notar. "O que quiseres que eu saiba dizes; o que não quiseres eu invento", respondeu.
Demorei muito tempo a habituar-me a essa liberdade. Nos primeiros anos da nossa vida comum – vivemos três anos juntos, antes de nos casarmos – só pensava em deixá-lo. E casei-me cheia de dúvidas. Nunca o tinha enganado, se bem enganar não seja o termo adequado.
Um dia falámos no tema. Oh, muito por alto e indirectamente, de raspão, como se não fosse nada com ele, ou comigo. Nessa altura estávamos casados havia dois anos, se tanto. Mas tínhamos passado por muitas coisas juntos: uma separação curta e dolorosa para os dois, uma gravidez falhada para mim – que de resto me fez saber que nunca poderia vir a ter filhos e podia deixar a pílula – a morte da minha mãe, um acidente em que ele esteve envolvido e no qual poderia ter morrido.
É demasiado, para cinco anos de vida comum. Não precisava de um marido a dizer-me que podia fazer o que quisesse, desde que ele não soubesse. Um marido que naquele dia eu amava um pouco mais do que alguns anos antes; um marido ao qual pouco a pouco, devagar, me tinha habituado; que eu nunca tinha enganado. Porque viria ele agora com essa conversa, a propósito de um filme, ou de um livro, ou de uma coscuvilhice, não me lembro? Mas aquilo não foi bem uma conversa. Foi mais uma informação, como se estivéssemos numa estação de comboios e um altifalante dissesse que o próximo comboio ia chegar atrasado.
Não me lembro do que lhe respondi.
A primeira vez que tive um caso foi uns largos meses depois. O meu marido – já conseguia usar esta expressão sem sentir um arrepio – estava fora, num voo para o Brasil. Encontrei António numa festa. Escrevia, tinha muita graça, não tinha um chavo, e era péssimo na cama. Repararam que disse "tive um caso". Com António descobri que não estava a enganar o homem que, sim, amava. Informações só superficialmente contraditórias. E com as quais vivo desde então.
Aprendera, finalmente, aquilo que o meu marido me dizia havia anos: não se deve misturar o amor com mais nada. Como a água, que se pode misturar com tudo mas é melhor quando é pura.
António era brusco na cama, vinha-se depressa, parecia que está a fazer amor sozinho. Pouco me importa: não é por falta de bom sexo que fodia com ele. Era por não me faltar nada.
III
Um gajo pode ser bom naturalmente, por obra e graça da natureza, por ser anjinho; ou porque já foi mau: fez demasiadas asneiras, demasiados erros, maldades e aprendeu. Estou longe de ser o gajo decente que todos pensam que sou. No qual me transformei depois de ter feito muita merda. Não posso dizer que tenha sido de propósito. Não foi. Comecei simplesmente a empatizar com os outros, a perceber que as minhas acções tinham consequências, a sofrer demasiadas vezes as maldades de que ia sendo vítima. Pouco a pouco – o processo foi gradual, lento, por vezes imperceptível – transformei-me num "homem bom" (aspas porque repito o que milhares de vezes me disseram. Tu és um homem bom. You are a good man.Eres un hombre bueno. Tu es un chic tipe. Disseram-mo em todo o lado, em todas as línguas). Ando há cinco anos com Isabel. Ao princípio era suposto ser uma dessas relações “picada de mosca”, insensível, sem consequências, um banal affaire entre um piloto e uma hospedeira: queca em Nova Iorque, passeio no Rio, compras em S. Francisco. Mas um dia pedi para voar de chave com ela (significa fazer sistematicamente voos em conjunto com outro tripulante) e desde aí perdi o controlo. Passo mais tempo com Isabel do que com Maude. Penso nela mais vezes, toco-lhe e falo-lhe e rio-me com ela mais do que o faço com Maude. Se alguém me convida para um jantar e diz "Traga a sua mulher" é em Isabel que penso, não em Maude.
Maude... Quando penso no que este nome me fez sonhar e no pesadelo que hoje se tornou. Odeio tudo o que ele evoca para mim, a começar na minha cobardia, a continuar pela minha duplicidade, a acabar nas memórias que tenho dos tempos em que a amava.
Como cheguei aqui? Como posso não amar a pessoa que tanto amei? Como posso mentir-lhe? Não é como. É porque. Como eu sei. Porque não.
IV.
O vento predominante na costa portuguesa durante o verão é o norte.
A leste de Portugal o centro da Península Ibérica é seco, pouco arborizado. A terra aquece e com ela o ar. Este como tudo o que é quente sobe e a pressão atmosférica baixa. É assim que começam todas as depressões térmicas: ar quente a subir. A oeste está o anticiclone dos Açores. É provocado por ar frio que vem do Norte e desce porque está mais frio do que o ar que o rodeia.
Em torno de um anticiclone o ar gira no sentido dos ponteiros de relógio. Em torno de uma depressão gira no sentido oposto.
Portugal fica exactamente no ponto de encontro destes dois fluxos de ar opostos, antagónicos. É por isso que temos a Nortada em Portugal, e que à noite ela cai e durante o dia vai refrescando.
V
“Lisboa, 04-12-20…"
Meu querido,
Desculpa começar assim.
A Isabel morreu hoje, num acidente de automóvel. E eu vou deixar-te. Não me atirarei, como ela, da estrada abaixo nessa serra de Sintra da qual, disse-me ela – um pouco inutilmente – vocês tanto gostavam.
Hoje bateu-me à porta eram onze da manhã. Fui abrir. Estava muito calma, sorridente, mas não sabia como começar. Visivelmente não tinha pensado bem o que dizer.
– Bom dia. Chamo-me Isabel. Sou a… a… a… Tinha uma relação com o seu marido.
– Tinha? Já não tem? Entre.
– Tenho… Isto é, não tenho… Não sei. Gostava de ir almoçar consigo, se não se importa.
– Não me importo nada, mas não quer beber qualquer coisa? Ainda é cedo para almoçarmos.
– …
– Entre, Isabel. Há anos que sei que ele não me é fiel. Eu tão pouco, de resto. Mas até aqui tenho sido eu a apresentar-lhe os meus amantes. Ele nunca me apresentou nenhuma das suas… relações. – Fiz uma pausa antes de relações. Perdoar-me-ás, espero.
– Obrigado.
Ela bebeu um copo de vinho branco e eu um café. Antes de nos separarmos – disse-me que me levaria no seu carro, mas depois teria de vir de comboio porque tinha um compromisso logo ao princípio da tarde – pediu-me o número de telefone, para o caso de ser preciso. Dei-lho, ela ligou-me, eu respondi. Ficámos com os números uma da outra. Combinámos encontrar-nos à uma e meia num restaurante de Colares.
Está – estava, desculpa – contigo há cinco anos. Sentia-se muito ridícula por precisar de me contar estas coisas todas. Não lhe disse que não precisava de me contar nada. Visivelmente não tinha preparado um discurso. Quando cheguei ao restaurante ela já lá estava. Comemos um ensopado de borrego a meias. Pensei que se lá estivesses seria o que pedirias também. Estavas, claro.
Falou-me dela, só dela; ou quase só. Da sua infância difícil, de não acreditar que a relação contigo fosse durar, de quão culpada se sentia por te amar quando sabia que tinhas uma mulher “maravilhosa” (cito-a, como sabes). De não aguentar mais “esse amor”.
– Compreendo-a, Isabel. Ele é um homem decente, não é?
– É. O homem mais decente que já conheci.
– Vocè sabe que ele detesta que digam isso?
– Sei. Diz que ser decente não vale o esforço que custa. Que é uma patetice.
O ensopado estava excelente. Imaginava-te à mesa – não, via-te –. Antes de combinarmos o restaurante em Colares sugeri-lhe a esplanada do Jardim da Estrela, mas ela disse que tinha o tal compromisso e queria estar à vontade com o tempo.
Parece estúpido dizer isto agora, nestas circunstâncias, mas o almoço foi bom. Ela era adorável, bonita, inteligente (sei que preferirias a ordem inversa). Lutou muito, “contra tudo, todos e sobretudo eu própria” para conseguir ter uma vida “normal”. Entre a vida “normal” e a vida dela estava eu, claro. “Ainda bem que trouxe o meu carro”, pensei. Uma injustiça que agora lamento.
Não sofrerei tanto como tu com esta morte. Mas sofro bastante. “A vida não nos pertence inteira”, disseste-me tantas vezes. Exprimia-se bem, claramente, com lógica e sequência, sorrindo como se tudo aquilo fosse uma brincadeira, uma ilusão, a história de uma amiga que conhecera vagamente.
Voltei para casa. Ela calculou bem o timing: a policía ligou-me menos de uma hora depois de eu chegar. O meu número era o único que estava no seu telefone, que ela tinha tido o cuidado de pôr numa caixa, bem protegido, para resistir à queda do carro. Imagino que tenha sido a única parte que ela estudou antes. Não tinha documentos nenhuns com ela.
Desculpa-me por favor deixar-te nestas circunstâncias. Não posso fazer nada. Sabes que te amei, que te estou grata por estes anos todos de prazer e felicidade e amor que me deste. É infantil, dirás, fazer sofrer quem nos ama. É. Mas só os adultos conseguem fazer sofrer quem gosta de nós porque gosta de nós. Estou-te grata por me teres ensinado o que é ser livre. Por teres feito de mim a mulher livre que hoje sou. A aprendizagem foi difícil. Penso – ou será espero? – que em breve encontrarás uma outra Isabel, uma outra Maude.
Com afecto, ternura, apego, carinho,
Um abraço da
Maude”
VI
Relembro esta história numa ilha do Oeste do Canadá, onde vivo com Maweral, uma jovem Filipina que encontrei num porto qualquer dos Estados Unidos. Maweral cozinha, lava a roupa, limpa a casa e faz amor com devoção e silêncio. Tenho um barco chamado HADES. Quando chegou Maweral não sabia o significado. Um dia perguntou-me e eu respondi-lhe “Nada de especial. É um rio que todos temos à porta”. Pouco tempo depois de chegarmos à ilha disse-me “Sei o que é Hades”. Olhei-a surpreso – pouco falávamos para além das coisas práticas do dia a dia –. Estava a fazer o almoço. Muito pequenina, com cabelos pretos como o mar numa noite sem lua e sem vento. Ensinei-lhe português, que ela fala baixo, lentamente. “Lembra-te: a tua vida não te pertence inteira”.
St. Martin, 23-12-2014
Para a T. com afecto, ternura, apego, carinho e amizade,
Ontem fui almoçar com Maude e o namorado. Maude é a minha mulher. Somos casados há dezasseis anos. O rapaz é bastante mais novo do que nós. Ela tem quarenta e três e eu mais dois. Ele deve ter vinte e poucos. É pintor e expõe as obras no metro. Aparentemente foi assim que se conheceram. Maude sempre gostou de arte e de artistas. Ignoro o que a levou a casar-se com um piloto de aviões.
Gostei do rapaz. Tem o olhar mortiço e profundo dos criadores que criam e fala igualmente devagar, como se cada frase fosse um marco na sabedoria da humanidade e devesse ficar registada. Chama-se Jules, ou Julien, não me lembro bem. Tenho uma péssima memória para nomes. Talvez seja desinteresse, no fundo. Ou arrogância. Não sei.
Fomos almoçar a uma daquelas esplanadas do Campo Pequeno. Maude levava os óculos escuros redondos, que lhe cobrem metade da face e a tornam parecida com Janis Joplin. O rapaz ia com o uniforme de artista. Falou pouco. Eu estava com a farda de voo – tinha acabado de chegar e achei pena trocar de roupa. Assim sempre dei ao miúdo mais uma razão para se rir de mim. Os artistas não gostam de fardas. Excepto as deles, claro, mas este ainda é demasiado jovem para saber que está fardado. Pensa que está vestido–. Ele não sabe que eu sei. Maude sabe, porque Maude sabe tudo o que eu sei. Nunca falamos nos seus amantes. Nem nas minhas, mas são muito menos do que os dela, penso. Não os conheço todos. Desta vez aceitei ir almoçar porque Maude comprou uma ou duas telas ao rapaz e queria que eu o conhecesse. Também conheci o músico e o actor. Imagino que tenha havido mais, mas não os encontrei. O músico era simpático. Tocava bem – no metro, claro –. Talvez tivesse sido melhor comprar um carro à Maude antes de me aparecer com a fauna toda dos túneis em casa.
Há muito tempo que o amor entre Maude e mim foi substituído por uma amizade profunda, sexuada, cheia de prazer e vazia de paixão. A única condição é eu não saber. É-me indiferente que toda a gente saiba desde que ninguém me possa vir dizer que fui enganado.
O almoço foi agradável. O rapaz é frugal, Maude estava radiante e eu aproveitei para falar do clima, um tema que me aborrece mais do que as horas de sono da minha primeira empregada. Jules - ou Julien? – é culto, tem conversa (se bem um pouco lenta para o meu gosto) e não estava nem demasiado à vontade nem encavacado. Enquanto falávamos pensava que o rapaz me devia estar grato: dava-lhe uma mulher soberba e algumas razões para pensar que fazia bem em enganar-me com ela.
"Sabe estar, não achas?" resumiu Maude depois do almoço, já a caminho de casa.
........
Maude está sentada na borda da cama, pernas encolhidas, mamas esmagadas contra os joelhos. Pinta as unhas dos pés.
Quando acabar vai deitar-se de costas, coxas afastadas, pés em leque perfeito, simétricos, a arejar. Com a mão direita começará a masturbar-se. A mão esquerda ficará pousada no lençol, entre nós. Pouco a pouco vai suspirar; os suspiros aumentarão de intensidade; eu deixarei o livro que estou a ler e voltar-me-ei. Ela pegar-me-á na mão direita, pô-la-á no seu ventre e dir-me-á "Põe a foice em seara alheia", ou coisa que o valha. Maude consegue erotizar a mais anódina das expressões.
Em breve as nossas mãos estarão juntas; a sua mão esquerda estará algures no meu ventre. Eu continuarei deitado de costas; Maude esmagará a minha mão contra o seu monte-de-vénus, redondo e proeminente, de pentelheira farta. Começarei a entesar-me.
……
Está deitado de costas, pau feito a apontar para o tecto, quase vertical. Sento-me em cima dele, puxo-lhe a pila para a frente e enterro-a em mim. Aponto para o meu umbigo e digo-lhe Até aqui. Até aqui. Até aqui. Ponho as pernas por cima do peito dele. Gosto quando ele me mordisca os dedos dos pés enquanto o sinto no meu ventre. Até aqui. Já me vim uma vez. Vir-me-ei uma segunda e outra e outra.
Ele pega-me nos tornozelos, afasta-me ligeiramente as pernas, puxa-me para a frente e para trás. Sinto-lhe os tomates nas nádegas. Sei que isso o magoa um pouco e que ele conta com essa dor para atrasar o orgasmo.
Gosto de saber que ele me olha para a pentelheira, que vê o membro enterrado em mim até aos copos, que me vê feliz como se fosse a primeira vez. Não é. É melhor.
Diz-me "Ajuda o senhor Bispo" e eu obedeço. Com a mão direita masturbo-me de novo. Com a esquerda acaricio-me os seios. Viramo-nos de lado.
Ele gosta de acabar assim, os meus tornozelos nas mãos fechadas, para trás e para a frente e para trás e para a frente não cada vez mais depressa mas cada vez mais fundo, cada vez mais fundo, cada vez mais até aqui.
Sai depressa de mim. Não é como Jules, que gosta de se deixar ficar e de o tirar quando já está mole.
Amo-o, mas ele não sabe. Pensa que sinto por ele o que ele sente por mim: amizade.
Não é verdade. Amo-o.
II
Já alguma se apaixonaram por alguém que à partida não tem nada em comum convosco? Nada em comum com vocês ou aquilo que procuram no outro? Foi isso que me aconteceu com ele. Sempre gostei de artistas, de uma vida desorganizada, sem outras expectativas que não fossem criar, gozar, aprender, conhecer "pessoas interessantes" (as aspas são consequência destes dezasseis anos com ele, claro. O seu cepticismo contaminou-me. "Pessoas interessantes só existem nas cabeças de pessoas que as têm vazias. Toda a gente é interessante", dizia-me). Queria um homem ao meu lado sempre. Pensava que as minhas ideias se transformariam milagrosamente em livros, contos, letras de canções, pinturas, fotografias; sem trabalho, sem esforço, por obra e graça da inspiração e do talento.
Conheci-o num jantar. Era um jovem piloto com um sentido de humor demolidor, que defendia sozinho as suas ideias contra todos os presentes, educadamente, com um sorriso e uma resposta lapidar àquilo que visivelmente lhe parecia uma antologia de tonterias.
Não me lembro qual o tema de discussão desse primeiro jantar. A cena repetiu-se várias vezes, até ele se cansar e não falar se não do tempo e de aviões – duas coisas que, dizia, o apaixonavam. "Principalmente o tempo, a sua constante mudança, a sua imprevisibilidade" –.
Foi contra vontade que me apaixonei por ele. Era um homem decente, provavelmente o mais decente que jamais conheci. "Decente? Pior do que isso só ser cornudo", disse-me um dia. "Pensava que ser cornudo te deixava indiferente". "Deixa. É isso: não há nada pior do que ser decente".
Mas sim, era um homem decente. Oferecia-me flores, trazia-me constantemente prendas – joalharia, roupa – das suas viagens, amava-me maravilhosamente e, sobretudo, nunca me fazia perguntas. Um dia fiz-lho notar. "O que quiseres que eu saiba dizes; o que não quiseres eu invento", respondeu.
Demorei muito tempo a habituar-me a essa liberdade. Nos primeiros anos da nossa vida comum – vivemos três anos juntos, antes de nos casarmos – só pensava em deixá-lo. E casei-me cheia de dúvidas. Nunca o tinha enganado, se bem enganar não seja o termo adequado.
Um dia falámos no tema. Oh, muito por alto e indirectamente, de raspão, como se não fosse nada com ele, ou comigo. Nessa altura estávamos casados havia dois anos, se tanto. Mas tínhamos passado por muitas coisas juntos: uma separação curta e dolorosa para os dois, uma gravidez falhada para mim – que de resto me fez saber que nunca poderia vir a ter filhos e podia deixar a pílula – a morte da minha mãe, um acidente em que ele esteve envolvido e no qual poderia ter morrido.
É demasiado, para cinco anos de vida comum. Não precisava de um marido a dizer-me que podia fazer o que quisesse, desde que ele não soubesse. Um marido que naquele dia eu amava um pouco mais do que alguns anos antes; um marido ao qual pouco a pouco, devagar, me tinha habituado; que eu nunca tinha enganado. Porque viria ele agora com essa conversa, a propósito de um filme, ou de um livro, ou de uma coscuvilhice, não me lembro? Mas aquilo não foi bem uma conversa. Foi mais uma informação, como se estivéssemos numa estação de comboios e um altifalante dissesse que o próximo comboio ia chegar atrasado.
Não me lembro do que lhe respondi.
A primeira vez que tive um caso foi uns largos meses depois. O meu marido – já conseguia usar esta expressão sem sentir um arrepio – estava fora, num voo para o Brasil. Encontrei António numa festa. Escrevia, tinha muita graça, não tinha um chavo, e era péssimo na cama. Repararam que disse "tive um caso". Com António descobri que não estava a enganar o homem que, sim, amava. Informações só superficialmente contraditórias. E com as quais vivo desde então.
Aprendera, finalmente, aquilo que o meu marido me dizia havia anos: não se deve misturar o amor com mais nada. Como a água, que se pode misturar com tudo mas é melhor quando é pura.
António era brusco na cama, vinha-se depressa, parecia que está a fazer amor sozinho. Pouco me importa: não é por falta de bom sexo que fodia com ele. Era por não me faltar nada.
III
Um gajo pode ser bom naturalmente, por obra e graça da natureza, por ser anjinho; ou porque já foi mau: fez demasiadas asneiras, demasiados erros, maldades e aprendeu. Estou longe de ser o gajo decente que todos pensam que sou. No qual me transformei depois de ter feito muita merda. Não posso dizer que tenha sido de propósito. Não foi. Comecei simplesmente a empatizar com os outros, a perceber que as minhas acções tinham consequências, a sofrer demasiadas vezes as maldades de que ia sendo vítima. Pouco a pouco – o processo foi gradual, lento, por vezes imperceptível – transformei-me num "homem bom" (aspas porque repito o que milhares de vezes me disseram. Tu és um homem bom. You are a good man.Eres un hombre bueno. Tu es un chic tipe. Disseram-mo em todo o lado, em todas as línguas). Ando há cinco anos com Isabel. Ao princípio era suposto ser uma dessas relações “picada de mosca”, insensível, sem consequências, um banal affaire entre um piloto e uma hospedeira: queca em Nova Iorque, passeio no Rio, compras em S. Francisco. Mas um dia pedi para voar de chave com ela (significa fazer sistematicamente voos em conjunto com outro tripulante) e desde aí perdi o controlo. Passo mais tempo com Isabel do que com Maude. Penso nela mais vezes, toco-lhe e falo-lhe e rio-me com ela mais do que o faço com Maude. Se alguém me convida para um jantar e diz "Traga a sua mulher" é em Isabel que penso, não em Maude.
Maude... Quando penso no que este nome me fez sonhar e no pesadelo que hoje se tornou. Odeio tudo o que ele evoca para mim, a começar na minha cobardia, a continuar pela minha duplicidade, a acabar nas memórias que tenho dos tempos em que a amava.
Como cheguei aqui? Como posso não amar a pessoa que tanto amei? Como posso mentir-lhe? Não é como. É porque. Como eu sei. Porque não.
IV.
O vento predominante na costa portuguesa durante o verão é o norte.
A leste de Portugal o centro da Península Ibérica é seco, pouco arborizado. A terra aquece e com ela o ar. Este como tudo o que é quente sobe e a pressão atmosférica baixa. É assim que começam todas as depressões térmicas: ar quente a subir. A oeste está o anticiclone dos Açores. É provocado por ar frio que vem do Norte e desce porque está mais frio do que o ar que o rodeia.
Em torno de um anticiclone o ar gira no sentido dos ponteiros de relógio. Em torno de uma depressão gira no sentido oposto.
Portugal fica exactamente no ponto de encontro destes dois fluxos de ar opostos, antagónicos. É por isso que temos a Nortada em Portugal, e que à noite ela cai e durante o dia vai refrescando.
V
“Lisboa, 04-12-20…"
Meu querido,
Desculpa começar assim.
A Isabel morreu hoje, num acidente de automóvel. E eu vou deixar-te. Não me atirarei, como ela, da estrada abaixo nessa serra de Sintra da qual, disse-me ela – um pouco inutilmente – vocês tanto gostavam.
Hoje bateu-me à porta eram onze da manhã. Fui abrir. Estava muito calma, sorridente, mas não sabia como começar. Visivelmente não tinha pensado bem o que dizer.
– Bom dia. Chamo-me Isabel. Sou a… a… a… Tinha uma relação com o seu marido.
– Tinha? Já não tem? Entre.
– Tenho… Isto é, não tenho… Não sei. Gostava de ir almoçar consigo, se não se importa.
– Não me importo nada, mas não quer beber qualquer coisa? Ainda é cedo para almoçarmos.
– …
– Entre, Isabel. Há anos que sei que ele não me é fiel. Eu tão pouco, de resto. Mas até aqui tenho sido eu a apresentar-lhe os meus amantes. Ele nunca me apresentou nenhuma das suas… relações. – Fiz uma pausa antes de relações. Perdoar-me-ás, espero.
– Obrigado.
Ela bebeu um copo de vinho branco e eu um café. Antes de nos separarmos – disse-me que me levaria no seu carro, mas depois teria de vir de comboio porque tinha um compromisso logo ao princípio da tarde – pediu-me o número de telefone, para o caso de ser preciso. Dei-lho, ela ligou-me, eu respondi. Ficámos com os números uma da outra. Combinámos encontrar-nos à uma e meia num restaurante de Colares.
Está – estava, desculpa – contigo há cinco anos. Sentia-se muito ridícula por precisar de me contar estas coisas todas. Não lhe disse que não precisava de me contar nada. Visivelmente não tinha preparado um discurso. Quando cheguei ao restaurante ela já lá estava. Comemos um ensopado de borrego a meias. Pensei que se lá estivesses seria o que pedirias também. Estavas, claro.
Falou-me dela, só dela; ou quase só. Da sua infância difícil, de não acreditar que a relação contigo fosse durar, de quão culpada se sentia por te amar quando sabia que tinhas uma mulher “maravilhosa” (cito-a, como sabes). De não aguentar mais “esse amor”.
– Compreendo-a, Isabel. Ele é um homem decente, não é?
– É. O homem mais decente que já conheci.
– Vocè sabe que ele detesta que digam isso?
– Sei. Diz que ser decente não vale o esforço que custa. Que é uma patetice.
O ensopado estava excelente. Imaginava-te à mesa – não, via-te –. Antes de combinarmos o restaurante em Colares sugeri-lhe a esplanada do Jardim da Estrela, mas ela disse que tinha o tal compromisso e queria estar à vontade com o tempo.
Parece estúpido dizer isto agora, nestas circunstâncias, mas o almoço foi bom. Ela era adorável, bonita, inteligente (sei que preferirias a ordem inversa). Lutou muito, “contra tudo, todos e sobretudo eu própria” para conseguir ter uma vida “normal”. Entre a vida “normal” e a vida dela estava eu, claro. “Ainda bem que trouxe o meu carro”, pensei. Uma injustiça que agora lamento.
Não sofrerei tanto como tu com esta morte. Mas sofro bastante. “A vida não nos pertence inteira”, disseste-me tantas vezes. Exprimia-se bem, claramente, com lógica e sequência, sorrindo como se tudo aquilo fosse uma brincadeira, uma ilusão, a história de uma amiga que conhecera vagamente.
Voltei para casa. Ela calculou bem o timing: a policía ligou-me menos de uma hora depois de eu chegar. O meu número era o único que estava no seu telefone, que ela tinha tido o cuidado de pôr numa caixa, bem protegido, para resistir à queda do carro. Imagino que tenha sido a única parte que ela estudou antes. Não tinha documentos nenhuns com ela.
Desculpa-me por favor deixar-te nestas circunstâncias. Não posso fazer nada. Sabes que te amei, que te estou grata por estes anos todos de prazer e felicidade e amor que me deste. É infantil, dirás, fazer sofrer quem nos ama. É. Mas só os adultos conseguem fazer sofrer quem gosta de nós porque gosta de nós. Estou-te grata por me teres ensinado o que é ser livre. Por teres feito de mim a mulher livre que hoje sou. A aprendizagem foi difícil. Penso – ou será espero? – que em breve encontrarás uma outra Isabel, uma outra Maude.
Com afecto, ternura, apego, carinho,
Um abraço da
Maude”
VI
Relembro esta história numa ilha do Oeste do Canadá, onde vivo com Maweral, uma jovem Filipina que encontrei num porto qualquer dos Estados Unidos. Maweral cozinha, lava a roupa, limpa a casa e faz amor com devoção e silêncio. Tenho um barco chamado HADES. Quando chegou Maweral não sabia o significado. Um dia perguntou-me e eu respondi-lhe “Nada de especial. É um rio que todos temos à porta”. Pouco tempo depois de chegarmos à ilha disse-me “Sei o que é Hades”. Olhei-a surpreso – pouco falávamos para além das coisas práticas do dia a dia –. Estava a fazer o almoço. Muito pequenina, com cabelos pretos como o mar numa noite sem lua e sem vento. Ensinei-lhe português, que ela fala baixo, lentamente. “Lembra-te: a tua vida não te pertence inteira”.
St. Martin, 23-12-2014
Para a T. com afecto, ternura, apego, carinho e amizade,
22.12.14
Feliz Natal
Por esta altura o macaquinho da fotografia está com alguns dezasseis anos.
Os votos de Festas Felizes a todas e todos os leitores do Don Vivo - e por extensão aos do Facebook também - são de hoje.
De sempre.
Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 22-12-2014
O dia começou mal e não melhorou. Mas podia ter piorado e pelo menos não piorou. Falta-me uma démarche para acabar esta fase da procura de emprego, cada vez mais difícil. Idade e falta de qualificações formais. A meu favor a experiência e os contactos. A ver quem ganha.
Agora começa a pior fase: a corrida entre um telefonema ou um e-mail e o fim do dinheiro. É uma espera chata, dolorosa. Ainda por cima a meta aproximou-se porque os armadores do trawler vêm aí inesperadamente e o Amel tem um charter para breve - isso já sabia -. O resultado da corrida vai ser definido pelo C. ou por uma da meia dúzia de companhias que contactei.
Não é tanto não saber lidar com o imprevisto; é mais estar um bocadinho farto dele.
........
Felizmente o quadro presta-se pouco ao pessimismo: à minha frente a laguna, barcos, o sol que se põe como que empurrado pelos alísios, os santos alísios. A música é boa e não está alta, os cigarros que o stress destes últimos tempos infelizmente recrutaram como aliados não são caros e o rum, cuja hora está quase a chegar tão-pouco.
Mais tarde ou mais cedo alguma coisa aparecerá. Não é de longe a primeira vez - e no fundo de mim mesmo espero que não seja a última - que o meu horizonte temporal está reduzido a um dia ou pouco mais.
.......
St. Martin é uma ilha à volta de um mar. Como certas vidas.
Agora começa a pior fase: a corrida entre um telefonema ou um e-mail e o fim do dinheiro. É uma espera chata, dolorosa. Ainda por cima a meta aproximou-se porque os armadores do trawler vêm aí inesperadamente e o Amel tem um charter para breve - isso já sabia -. O resultado da corrida vai ser definido pelo C. ou por uma da meia dúzia de companhias que contactei.
Não é tanto não saber lidar com o imprevisto; é mais estar um bocadinho farto dele.
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Felizmente o quadro presta-se pouco ao pessimismo: à minha frente a laguna, barcos, o sol que se põe como que empurrado pelos alísios, os santos alísios. A música é boa e não está alta, os cigarros que o stress destes últimos tempos infelizmente recrutaram como aliados não são caros e o rum, cuja hora está quase a chegar tão-pouco.
Mais tarde ou mais cedo alguma coisa aparecerá. Não é de longe a primeira vez - e no fundo de mim mesmo espero que não seja a última - que o meu horizonte temporal está reduzido a um dia ou pouco mais.
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St. Martin é uma ilha à volta de um mar. Como certas vidas.
Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 21-12-2014
A cada hóspede da Little Crew House são dadas quatro chaves: portão principal, porta do quarto, cozinha e duches. Os duches e a cozinha são maus, mas precisam de chave "por causa das pessoas que não estão na pousada".
Hoje é a última noite que lá fico. Amanhã tenho a escolha entre um Amel, um trawler e, se for para a água na terça o meu velho conhecido C., no qual fiz uma viagem e uma amizade memoráveis.
Costumo dizer que sou um estrangeiro onde quer que esteja, mas não é verdade.
........
O Amel e o trawler estão entregues a G. um brasileiro e português cuja família viveu em Lourenço Marques. O pai era director de uma empresa de petróleo. Foi para o Brasil depois da revolução "com a roupa que [tínhamos] no corpo"e fez uma fortuna. G. tem cinquenta e quatro anos. Veio para St. Martin para o baptizado de um afilhado mas não quer voltar para o Brasil. Os barcos pertencem a amigos dele que lhos deram para que ele tomasse conta deles aqui.
Entretanto vai fazendo uns trabalhos aqui e ali - mais para se manter ocupado do que por precisar de trabalhar, parece-me -. Cruzámo-nos a atravessar a rua para ir ao chinês. Cumprimentou-me em português, não porque me conhecesse mas porque não fala inglês. É uma simpatia, adorável como só os brasileiros sabem ser. Mesmo assim preferia que o C. fosse para a água. Quero estar sozinho. Assim que encontrar trabalho nunca mais terei um momento de solidão. Além disso o C. vai para Marigot, no lado francês.
Há vários tipos de solidão, exactamente como os silêncios são muito diferentes uns dos outros. Estou feliz com aquela a que finalmente cheguei. Ou veio a mim, não sei.
........
Hoje é domingo, os lolos estão fechados. Tive de vir comer ao Yacht Club. Parece que ainda estou em Galveston. Comida de plástico - consegui o prodígio de comer uma jerk chicken que não sabia rigorosamente a nada - empregadas a perguntar de cinco em cinco minutos "está tudo bem with you, sir?" e, no fim, uma conta desproporcionada à qual vai ser preciso adicionar a gorjeta.
Vou começar a trabalhar aqui, mas assim que puder mudo-me para o sul, para as minhas Caraíbas: St. Vincent, Grenadines, Union Island, Deux Pitons, Bequia.
Bequia.
Hoje é a última noite que lá fico. Amanhã tenho a escolha entre um Amel, um trawler e, se for para a água na terça o meu velho conhecido C., no qual fiz uma viagem e uma amizade memoráveis.
Costumo dizer que sou um estrangeiro onde quer que esteja, mas não é verdade.
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O Amel e o trawler estão entregues a G. um brasileiro e português cuja família viveu em Lourenço Marques. O pai era director de uma empresa de petróleo. Foi para o Brasil depois da revolução "com a roupa que [tínhamos] no corpo"e fez uma fortuna. G. tem cinquenta e quatro anos. Veio para St. Martin para o baptizado de um afilhado mas não quer voltar para o Brasil. Os barcos pertencem a amigos dele que lhos deram para que ele tomasse conta deles aqui.
Entretanto vai fazendo uns trabalhos aqui e ali - mais para se manter ocupado do que por precisar de trabalhar, parece-me -. Cruzámo-nos a atravessar a rua para ir ao chinês. Cumprimentou-me em português, não porque me conhecesse mas porque não fala inglês. É uma simpatia, adorável como só os brasileiros sabem ser. Mesmo assim preferia que o C. fosse para a água. Quero estar sozinho. Assim que encontrar trabalho nunca mais terei um momento de solidão. Além disso o C. vai para Marigot, no lado francês.
Há vários tipos de solidão, exactamente como os silêncios são muito diferentes uns dos outros. Estou feliz com aquela a que finalmente cheguei. Ou veio a mim, não sei.
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Hoje é domingo, os lolos estão fechados. Tive de vir comer ao Yacht Club. Parece que ainda estou em Galveston. Comida de plástico - consegui o prodígio de comer uma jerk chicken que não sabia rigorosamente a nada - empregadas a perguntar de cinco em cinco minutos "está tudo bem with you, sir?" e, no fim, uma conta desproporcionada à qual vai ser preciso adicionar a gorjeta.
Vou começar a trabalhar aqui, mas assim que puder mudo-me para o sul, para as minhas Caraíbas: St. Vincent, Grenadines, Union Island, Deux Pitons, Bequia.
Bequia.
21.12.14
Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 20-12-2014
"And Anticlea came, whom I beat off, and then Tiresias Theban,
Holding his golden wand, knew me and spoke first:
'A second time? why? man of ill star,
'Facing the sunless dead and this joyless region?
'Stand from the fosse, leave me my bloody bever
'For soothsay.'
And I stepped back,
And he strong with the blood, said then: 'Odysseus
'Shalt return through spiteful Neptune, over dark seas,
'Lose all companions.' Then Anticlea came,
...
and he sailed, by Sirens and thence outward and away
And unto Circe."
Ezra Pound, in "Selected Cantos of Ezra Pound", Faber and Faber Limited, London, 1967
Não são precisas grandes explicações. Nunca li Pound com olhos de ler. No princípio do ano comprei este pequeno volume. Começo-o agora e sai-me isto. Há um tempo certo para tudo. Podemos comprimi-lo, como fez o London, que vivia num dia o que os outros vivem num mês. Ou esticá-lo, como eu (toutes proportions gardées, claro).
Não posso dizer "No meu tempo...". É uma dádiva.
Holding his golden wand, knew me and spoke first:
'A second time? why? man of ill star,
'Facing the sunless dead and this joyless region?
'Stand from the fosse, leave me my bloody bever
'For soothsay.'
And I stepped back,
And he strong with the blood, said then: 'Odysseus
'Shalt return through spiteful Neptune, over dark seas,
'Lose all companions.' Then Anticlea came,
...
and he sailed, by Sirens and thence outward and away
And unto Circe."
Ezra Pound, in "Selected Cantos of Ezra Pound", Faber and Faber Limited, London, 1967
Não são precisas grandes explicações. Nunca li Pound com olhos de ler. No princípio do ano comprei este pequeno volume. Começo-o agora e sai-me isto. Há um tempo certo para tudo. Podemos comprimi-lo, como fez o London, que vivia num dia o que os outros vivem num mês. Ou esticá-lo, como eu (toutes proportions gardées, claro).
Não posso dizer "No meu tempo...". É uma dádiva.
20.12.14
Diário de Bordos - St. Martin, Antilhas Francesas, e St. Maarten, Antilhas Holandesas, 18 a 20-12-2014
Vamos começar pelo princípio: vou pagar caro esta sucessão de viagens de avião agradáveis, com espaço para as pernas e para dormir.
........
E agora?
Estou num lolo chamado Chez Coco. Não é o meu favorito mas é o único que está aberto. E tem karaoke, coisa que particularmente detesto.
A rapariga do Arawhak ofereceu-me o segundo ti'punch. À saída do aeroporto encontrei um táxi que me trouxe por um preço correcto. É o vice-presidente da associação de táxis. Pediu-me que se algum táxi me levasse mais de vinte dólares para me levar do aeroporto a Marigot lhe telefonasse.
O Centr'hotel tem quartos.
"Não sou grande fan de karaoke", digo à rapariga do Chez Coco.
"És fan de quê? De escrever?" responde com um sorriso rasgado.
"Tens vinho aberto?"
"Se não tiver abro-o para ti".
Estou nas ilhas.
O dono do Arawhak lembra-se de mim. Recebe-me com um sorriso e um aperto de mão franco, forte, aberto.
........
Cortei o cabelo, fiz cartões de visita, comprei pólos brancos e adaptadores para as tomadas, tenho um número de telefone local.
Não está demasiado calor.
E agora?
..........
Os duches da My Little Guest House são uma merda. Toda a My Little Guest House é uma merda, de resto. Mas custa metade do preço do Centr'hotel (ou seja, é caríssima. Tem muito menos de metade da qualidade).
Gosto do nome. Podia chamar-se My Shitty Crew House, por exemplo. Ou My Lousy Crew House.
E posso cozinhar.
Se bem hoje ainda tenha ido jantar à tasca da colombiana, do outro lado da rua. Mas já tenho pequeno-almoço para amanhã. E todas as refeições serão feitas e comidas na My Shitty Kitchen House.
Vou dormir num quarto colectivo. Não ter dinheiro é uma viagem no tempo.
........
A Little Crew House fica na Lagoon Marina. por baixo tem um café / bar / restaurante chamado Lagoonies. Há três anos trabalhava aqui uma brasileira linda como se quisesse provar que a evolução por vezes acerta. Que por vezes há um bocadinho de sentido no acaso.
Agora pertence a um francês e só lá trabalham franceses e uma miúda que não é francesa e me põe a mão nas costas cada vez que me pergunta se quero alguma coisa. Pergunta vezes de mais. Hoje [sexta-feira] tem música ao vivo. Um bom guitarrista, uma cantora, um baixo e um bateria assim assim. Estou à espera que acabe para me ir deitar. Tocam demasiado alto e tenho os ouvidos aos gritos. Querer dormir com este barulho é como ir à praia e não querer ficar cheio de areia.
........
St. Martin deve ser um maravilhoso caso para se estudar a convivência de duas culturas diferentes. Holandeses e franceses partilham a ilha desde 1648. Nunca houve fronteiras dignas desse nome - sempre se circulou livremente entre a "parte francesa" e a "parte holandesa". O dialecto local é comum. A ilha é vista como uma cidade, da qual as aldeias ou aglomerados são os bairros, independentemente de estarem de um ou do outro lado da linha.
Mas as diferenças são grandes, espantosas. Quem conhece a França reconhece-a na parte francesa. O memsmo não se passa com a Holanda e a parte holandesa, muito mais caótica, vibrante, suja, rica, pobre.
Em St. Martin come-se melhor. Em St. Maarten mais variado. Os negócios estão do lado holandês. A qualidade de vida do lado francês. Os holandeses interferem muito pouco no governo da ilha. Os franceses começaram agora uma tímida, muito tímida tentativa de descentralização - que a administração local aproveitou para criar um imposto, claro (que de resto se compreende. Estes territórios viviam à custa de transferências da "metrópole", daí a qualidade de vida) .
É um pouco como ter dois jardins lado a lado: um à francesa e outro à inglesa.
........
A mistura de chateado e excitado com a qual vim para aqui começa a esbater-se. Fica a excitação, a luta, a adrenalina, o desafio.
........
E agora?
Estou num lolo chamado Chez Coco. Não é o meu favorito mas é o único que está aberto. E tem karaoke, coisa que particularmente detesto.
A rapariga do Arawhak ofereceu-me o segundo ti'punch. À saída do aeroporto encontrei um táxi que me trouxe por um preço correcto. É o vice-presidente da associação de táxis. Pediu-me que se algum táxi me levasse mais de vinte dólares para me levar do aeroporto a Marigot lhe telefonasse.
O Centr'hotel tem quartos.
"Não sou grande fan de karaoke", digo à rapariga do Chez Coco.
"És fan de quê? De escrever?" responde com um sorriso rasgado.
"Tens vinho aberto?"
"Se não tiver abro-o para ti".
Estou nas ilhas.
O dono do Arawhak lembra-se de mim. Recebe-me com um sorriso e um aperto de mão franco, forte, aberto.
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Cortei o cabelo, fiz cartões de visita, comprei pólos brancos e adaptadores para as tomadas, tenho um número de telefone local.
Não está demasiado calor.
E agora?
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Os duches da My Little Guest House são uma merda. Toda a My Little Guest House é uma merda, de resto. Mas custa metade do preço do Centr'hotel (ou seja, é caríssima. Tem muito menos de metade da qualidade).
Gosto do nome. Podia chamar-se My Shitty Crew House, por exemplo. Ou My Lousy Crew House.
E posso cozinhar.
Se bem hoje ainda tenha ido jantar à tasca da colombiana, do outro lado da rua. Mas já tenho pequeno-almoço para amanhã. E todas as refeições serão feitas e comidas na My Shitty Kitchen House.
Vou dormir num quarto colectivo. Não ter dinheiro é uma viagem no tempo.
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A Little Crew House fica na Lagoon Marina. por baixo tem um café / bar / restaurante chamado Lagoonies. Há três anos trabalhava aqui uma brasileira linda como se quisesse provar que a evolução por vezes acerta. Que por vezes há um bocadinho de sentido no acaso.
Agora pertence a um francês e só lá trabalham franceses e uma miúda que não é francesa e me põe a mão nas costas cada vez que me pergunta se quero alguma coisa. Pergunta vezes de mais. Hoje [sexta-feira] tem música ao vivo. Um bom guitarrista, uma cantora, um baixo e um bateria assim assim. Estou à espera que acabe para me ir deitar. Tocam demasiado alto e tenho os ouvidos aos gritos. Querer dormir com este barulho é como ir à praia e não querer ficar cheio de areia.
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St. Martin deve ser um maravilhoso caso para se estudar a convivência de duas culturas diferentes. Holandeses e franceses partilham a ilha desde 1648. Nunca houve fronteiras dignas desse nome - sempre se circulou livremente entre a "parte francesa" e a "parte holandesa". O dialecto local é comum. A ilha é vista como uma cidade, da qual as aldeias ou aglomerados são os bairros, independentemente de estarem de um ou do outro lado da linha.
Mas as diferenças são grandes, espantosas. Quem conhece a França reconhece-a na parte francesa. O memsmo não se passa com a Holanda e a parte holandesa, muito mais caótica, vibrante, suja, rica, pobre.
Em St. Martin come-se melhor. Em St. Maarten mais variado. Os negócios estão do lado holandês. A qualidade de vida do lado francês. Os holandeses interferem muito pouco no governo da ilha. Os franceses começaram agora uma tímida, muito tímida tentativa de descentralização - que a administração local aproveitou para criar um imposto, claro (que de resto se compreende. Estes territórios viviam à custa de transferências da "metrópole", daí a qualidade de vida) .
É um pouco como ter dois jardins lado a lado: um à francesa e outro à inglesa.
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A mistura de chateado e excitado com a qual vim para aqui começa a esbater-se. Fica a excitação, a luta, a adrenalina, o desafio.
Barcos, armadores
"Os bons barcos raramente têm os donos que merecem" diz-me L., meu vizinho em Galveston.
Detesto confirmar estas ideias pessimistas, estas visões cínicas da realidade.
Detesto confirmar estas ideias pessimistas, estas visões cínicas da realidade.
17.12.14
Diário de Bordos - Galveston, Texas, Estados Unidos, 16-12-2014
O motor de arranque chegou com dois dias de atraso, só. O motor arrancou à primeira; não foi preciso mudar ou limpar filtros. A caixa funcionou - mal, mas funcionou -; o T. L. libertou-me mais cedo do que eu esperava.
Amanhã parto de Galveston. Poucas saudades levarei comigo: uma bicicleta de titânio e carbono que não só me fazia lamentar chegar aos destinos mas também, bastas vezes, me fez passá-los. Uma barmaid que desconhece Alexanders, Talisker e provavelmente outras coisas que não perguntei mas é linda de se morrer especado à frente dela. E - sobretudo - uma embarcação sublime cujos armadores pensam que eu estive a preparar para ser vendida mas na verdade estive a preparar para morrer (tentei fazê-la digna, pelo menos: vai limpa como nunca esteve e com uma série de sistemas a funcionar).
É um barco lindo de se viver por ele. Vai ficar na água uma eternidade, finda a qual - todas as eternidades têm um fim - os armadores vão pensar que tê-lo em terra é mais barato. Ali vai ficar a apodrecer até que um atrasado mental ou um marinheiro (não é um pleonasmo, embora pareça) veja nele um bom negócio (no primeiro caso) ou uma coisa linda, linda, linda (no segundo, e é qu oe impede o pleonasmo).
Aí será comprada por uma ninharia e maltratada, por uma fortuna.
........
Não vou para onde queria. Vou para onde posso. Quero mudar de vida, mas a vida não quer que eu a mude. Ao contrário das mulheres e do dinheiro o mar pega-se a mim como se, sem ele, eu não respirasse ou transpirasse. Ou pensasse. Ou vivesse.
Amanhã à noite estarei em St. Martin.
Devo dizer que a perspectiva de mudar de vida depois de uma época nas Caraíbas não me desagrada inteiramente. Nestes últimos dois anos fiz duas viagens: uma travessia do Atlântico problemática e uma viagem de San Francisco a Panamá que serviu para compensar, ab ante, tudo o que seguiria.
Não chega. Preciso de acordar por baixo dos Deux Pitons, beber runs no meu amigo Lúcifer em Bequia, comer as accras do Comme à la Maison e o boudin créole do vizinho na Martinique, o philly steak da Sandra em Antigua, mergulhar nas Tobago Cays, fumar charros em Union Island na tasca do meu amigo rasta, beber rum punch no Robert em Mayreau ou no Mad Mongoose em Falmouth Harbour.
Preciso, enfim, de recompor o passado, antes de começar um futuro.
Um verso de Brel que li recentemente: "Il nous fallut bien du talent pour être vieux sans être adultes".
........
Último jantar em Galveston. Vim ao Stuttgarten. Amanhã à noite estarei no Arawak a beber um ti' punch e pensarei que o mundo é sempre "mais pequeno do que o viajante que nele viaja".
........
Amanhã esperam-me três horas no aeroporto de Miami. Ainda haverá o café mexicano? Ainda terá as margaritas gigantes?
Porque é que o meu mundo é tão pequeno?
........
Há uma série de coisas que não fiz em Galveston: não andei na montanha russa (tem um loop); não visitei o submarino do museu naval e não comi um bom chilli. Preciso de razões mais fortes para cá voltar.
Amanhã parto de Galveston. Poucas saudades levarei comigo: uma bicicleta de titânio e carbono que não só me fazia lamentar chegar aos destinos mas também, bastas vezes, me fez passá-los. Uma barmaid que desconhece Alexanders, Talisker e provavelmente outras coisas que não perguntei mas é linda de se morrer especado à frente dela. E - sobretudo - uma embarcação sublime cujos armadores pensam que eu estive a preparar para ser vendida mas na verdade estive a preparar para morrer (tentei fazê-la digna, pelo menos: vai limpa como nunca esteve e com uma série de sistemas a funcionar).
É um barco lindo de se viver por ele. Vai ficar na água uma eternidade, finda a qual - todas as eternidades têm um fim - os armadores vão pensar que tê-lo em terra é mais barato. Ali vai ficar a apodrecer até que um atrasado mental ou um marinheiro (não é um pleonasmo, embora pareça) veja nele um bom negócio (no primeiro caso) ou uma coisa linda, linda, linda (no segundo, e é qu oe impede o pleonasmo).
Aí será comprada por uma ninharia e maltratada, por uma fortuna.
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Não vou para onde queria. Vou para onde posso. Quero mudar de vida, mas a vida não quer que eu a mude. Ao contrário das mulheres e do dinheiro o mar pega-se a mim como se, sem ele, eu não respirasse ou transpirasse. Ou pensasse. Ou vivesse.
Amanhã à noite estarei em St. Martin.
Devo dizer que a perspectiva de mudar de vida depois de uma época nas Caraíbas não me desagrada inteiramente. Nestes últimos dois anos fiz duas viagens: uma travessia do Atlântico problemática e uma viagem de San Francisco a Panamá que serviu para compensar, ab ante, tudo o que seguiria.
Não chega. Preciso de acordar por baixo dos Deux Pitons, beber runs no meu amigo Lúcifer em Bequia, comer as accras do Comme à la Maison e o boudin créole do vizinho na Martinique, o philly steak da Sandra em Antigua, mergulhar nas Tobago Cays, fumar charros em Union Island na tasca do meu amigo rasta, beber rum punch no Robert em Mayreau ou no Mad Mongoose em Falmouth Harbour.
Preciso, enfim, de recompor o passado, antes de começar um futuro.
Um verso de Brel que li recentemente: "Il nous fallut bien du talent pour être vieux sans être adultes".
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Último jantar em Galveston. Vim ao Stuttgarten. Amanhã à noite estarei no Arawak a beber um ti' punch e pensarei que o mundo é sempre "mais pequeno do que o viajante que nele viaja".
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Amanhã esperam-me três horas no aeroporto de Miami. Ainda haverá o café mexicano? Ainda terá as margaritas gigantes?
Porque é que o meu mundo é tão pequeno?
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Há uma série de coisas que não fiz em Galveston: não andei na montanha russa (tem um loop); não visitei o submarino do museu naval e não comi um bom chilli. Preciso de razões mais fortes para cá voltar.
16.12.14
Banalidades de base
Quanto mais excepcional uma pessoa se vê ou se dá a ver, quanto mais especial se julga, mais vulgar e banal se descobre ao fim de meia dúzia de conversas. Ou menos.
15.12.14
14.12.14
Genes, neardenthal
Não percebo muito bem o recente debate sobre a possível remanescência de genes do neardenthal no homo sapiens. Conheço tantos neardenthal puro-sangue que me admiro muito mais com a sobrevivência dos genes sapiens.
13.12.14
Diário de Bordos - Galveston, Texas, Estados Unidos, 12-12-2014
Nada mais há a fazer se não esperar. É a pior coisa do mundo, esperar. Aqui tem várias circunstâncias agravantes: esperar sem saber até quando; em Galveston, cidade que quanto mais conheço mais me desgosta; e sem receber, porque a culpa é minha, só minha e não dos meus (de resto adoráveis) patrões.
De modo aqui estou, a contar os cents e a pensar no que farei quando regressar a Portugal. Estou ansioso - mudar de vida é ansiógeno, por muito que o queiramos e esperemos.
Enquanto espero oiço Joe Cocker, um senhor que devia ter ouvido mais há muito tempo e não é só You are so beautiful ou With a little help from my friends (de resto canções muito bonitas, de passagem seja dito. E que prefiro de longe cantadas por ele).
In America you'll get food to eat
Won't have to run through the jungle
And scuff up your feet
You'll just sing about Jesus and drink wine all day
It's great to be an American
Ain't no lions or tigers-ain't no mamba snake
Just the sweet watermelon and the buckwheat cake
Ev'rybody is as happy as a man can be
Climb aboard, little wog-sail away with me
Sail away-sail away
We will cross the mighty ocean into Charleston Bay
Sail away-sail away
We will cross the mighty ocean into Charleston Bay
In America every man is free
To take care of his home and his family
You'll be as happy as a monkey in a monkey tree
You're all gonna be an American
Sail away-sail away
We will cross the mighty ocean into Charleston Bay
Sail away-sail away
We will cross the mighty ocean into Charleston Bay
........
Há muito quem pense que os barcos fazem barulho, ou barulhos se preferirem. Não é bem verdade. Os barcos conversam - entre si quando não têm ninguém a bordo, com os tripulantes quando os têm -.
É importante ouvi-los, do mais inocente murmúrio às irritantes queixas das adriças nos mastros. Eles não falam por acaso.
........
Galveston tem duas categorias de habitantes: os BOI e os IBA. Born on the Island e Islander by adoption. Não há limites para o chauvinismo nem reduto que lhe esteja imune.
De modo aqui estou, a contar os cents e a pensar no que farei quando regressar a Portugal. Estou ansioso - mudar de vida é ansiógeno, por muito que o queiramos e esperemos.
Enquanto espero oiço Joe Cocker, um senhor que devia ter ouvido mais há muito tempo e não é só You are so beautiful ou With a little help from my friends (de resto canções muito bonitas, de passagem seja dito. E que prefiro de longe cantadas por ele).
In America you'll get food to eat
Won't have to run through the jungle
And scuff up your feet
You'll just sing about Jesus and drink wine all day
It's great to be an American
Ain't no lions or tigers-ain't no mamba snake
Just the sweet watermelon and the buckwheat cake
Ev'rybody is as happy as a man can be
Climb aboard, little wog-sail away with me
Sail away-sail away
We will cross the mighty ocean into Charleston Bay
Sail away-sail away
We will cross the mighty ocean into Charleston Bay
In America every man is free
To take care of his home and his family
You'll be as happy as a monkey in a monkey tree
You're all gonna be an American
Sail away-sail away
We will cross the mighty ocean into Charleston Bay
Sail away-sail away
We will cross the mighty ocean into Charleston Bay
........
Há muito quem pense que os barcos fazem barulho, ou barulhos se preferirem. Não é bem verdade. Os barcos conversam - entre si quando não têm ninguém a bordo, com os tripulantes quando os têm -.
É importante ouvi-los, do mais inocente murmúrio às irritantes queixas das adriças nos mastros. Eles não falam por acaso.
........
Galveston tem duas categorias de habitantes: os BOI e os IBA. Born on the Island e Islander by adoption. Não há limites para o chauvinismo nem reduto que lhe esteja imune.
11.12.14
Inimigo interior
As ideias preconcebidas são os piores inimigos que se pode ter.
Não podemos viver sem elas, mas provocam nove em cada dez erros que cometemos.
8.12.14
6.12.14
Nas tintas, em sentido lato
Um gajo sabe que qualquer coisa está errada quando não se lembra do último gin tónico que bebeu; e qualquer coisa certa quando se está nas tintas para o que o Facebook vai fazer com os dados que dele recolher: não vai com eles ganhar para pagar os milissegundos que levar a compilá-los. (Gosto deste verbo. compilar. Se pudesse usá-lo-ia mais vezes). São planos diferentes, claro. Do corpo ao bolso vai um abismo. O qual agora se tenta preencher com mais vinho e menos gin tónico, com mais FB e menos do que quer que fosse antes dele.
No fundo um gajo está-se nas tintas e pensa na anedota do cavalo que está a ser vendido. Quando o vendedor o solta no prado para que o comprador o veja galopar o cavalo espeta-se em todas as árvores que lhe aparecem pela frente. "Este cavalo é cego", protesta o potencial futuro dono. "Não. O cavalo não é cego. Está-se nas tintas, somente (he just doesn't give a fuck, no original)".
Um gajo não tem árvores à frente. Tem ausências. Mas está-se nas tintas.
Um gajo é livre, outra vez. Que importam as árvores, as ausências, o raio que o parta ou a puta que a pariu? Pouco.
"Pouco" é a essência da liberdade: se alguém a pudesse espremer sairia "pouco": dinheiro, tempo a perder com o muito dos outros, pouca roupa, paciência, pouco com que preocupar-se. Pouco.
A liberdade é um conjunto de poucos que adicionados fazem "tudo".
O calor voltou a Galveston; o trabalho prolongou-se por mais uns poucos dias; pouco há a dizer. E menos ainda que fazer. Um gajo está-se nas tintas. A ausência de cabelo, por exemplo. Hoje leu num jornal qualquer que a melhor maneira de disfarçar uma receding hairline [como raio se diz isto em português?] é andar com o cabelo muito curto. Mas um gajo quer acordar todas as manhãs e pensar "tenho de ir cortar o cabelo" e deitar-se todas as noites sem sequer pensar na hairline, quanto mais se ela está a recuar, avançar ou estável.
Também há presenças, naturalmente: a barriga, por exemplo. Que se foda a barriga.
Estar-se nas tintas é a versão civilizada de querer que se foda (e mais ainda de estar a cagar-se). Não são intercambiáveis: a civilização não se troca por nada, e a opacidade de estar-se nas tintas tão pouco.
Um gajo trabalha, é reconhecido e apreciado no seu trabalho, que é das poucas coisas para as quais um gajo não se está nas tintas. Para o resto está, tudo: presenças, ausências e assim-assins. Felizmente é recíproco: as tintas estão-se para um gajo.
É assim que um gajo navega num mar de tintas, as que se fodam e as outras. Num mar de liberdade, que um dia chegará ao fim. Mas como amanhã não é a véspera desse dia não é depois de amanhã que um gajo deixa de se estar nas tintas.
O trabalho prolongou-se, a música continua excelente, o açúcar que se foda, E a vida? pergunta alguém. A vida está-se nas tintas para um gajo, e um gajo para ela. Não passa disto: uma mistura de presenças, ausências, vinho tinto, boa música, trabalho, hairlines a recuar, e a certeza banal de que ninguém sabe nem sonha de que será amanhã feito. Em sentido lato, amanhã.
No fundo um gajo está-se nas tintas e pensa na anedota do cavalo que está a ser vendido. Quando o vendedor o solta no prado para que o comprador o veja galopar o cavalo espeta-se em todas as árvores que lhe aparecem pela frente. "Este cavalo é cego", protesta o potencial futuro dono. "Não. O cavalo não é cego. Está-se nas tintas, somente (he just doesn't give a fuck, no original)".
Um gajo não tem árvores à frente. Tem ausências. Mas está-se nas tintas.
Um gajo é livre, outra vez. Que importam as árvores, as ausências, o raio que o parta ou a puta que a pariu? Pouco.
"Pouco" é a essência da liberdade: se alguém a pudesse espremer sairia "pouco": dinheiro, tempo a perder com o muito dos outros, pouca roupa, paciência, pouco com que preocupar-se. Pouco.
A liberdade é um conjunto de poucos que adicionados fazem "tudo".
O calor voltou a Galveston; o trabalho prolongou-se por mais uns poucos dias; pouco há a dizer. E menos ainda que fazer. Um gajo está-se nas tintas. A ausência de cabelo, por exemplo. Hoje leu num jornal qualquer que a melhor maneira de disfarçar uma receding hairline [como raio se diz isto em português?] é andar com o cabelo muito curto. Mas um gajo quer acordar todas as manhãs e pensar "tenho de ir cortar o cabelo" e deitar-se todas as noites sem sequer pensar na hairline, quanto mais se ela está a recuar, avançar ou estável.
Também há presenças, naturalmente: a barriga, por exemplo. Que se foda a barriga.
Estar-se nas tintas é a versão civilizada de querer que se foda (e mais ainda de estar a cagar-se). Não são intercambiáveis: a civilização não se troca por nada, e a opacidade de estar-se nas tintas tão pouco.
Um gajo trabalha, é reconhecido e apreciado no seu trabalho, que é das poucas coisas para as quais um gajo não se está nas tintas. Para o resto está, tudo: presenças, ausências e assim-assins. Felizmente é recíproco: as tintas estão-se para um gajo.
É assim que um gajo navega num mar de tintas, as que se fodam e as outras. Num mar de liberdade, que um dia chegará ao fim. Mas como amanhã não é a véspera desse dia não é depois de amanhã que um gajo deixa de se estar nas tintas.
O trabalho prolongou-se, a música continua excelente, o açúcar que se foda, E a vida? pergunta alguém. A vida está-se nas tintas para um gajo, e um gajo para ela. Não passa disto: uma mistura de presenças, ausências, vinho tinto, boa música, trabalho, hairlines a recuar, e a certeza banal de que ninguém sabe nem sonha de que será amanhã feito. Em sentido lato, amanhã.
4.12.14
Diário de Bordos - Galveston, Texas, Estados Unidos, 22-11 a 04-12-2014
Estou cansado, exausto; e não tenho computador, ainda. Quando preciso de um vou à biblioteca municipal de Galveston, que tem quarenta para uso público - e gratuito -. Mas é por fatias de hora e meia, e uma parte desse tempo é passada a trabalhar, outra a percorrer o livro das caras, outra a ler e responder a mails, outra a divagar... Perdi o meu telefone - enfim, perdi-o e perdi-me - na noite da prisão de Sócrates. Agora ando com um minúsculo, que me obriga a escrever três vezes cada palavra.
Fica pouco tempo para o blogue, coitado.
Verdade seja dita: pouco há a contar. O trabalho absorve-me os dias, o sono as noites. Entre os dois, pequeno-almoço e almoço rápidos e jantar em terra, quase sempre na Stuttgarten Tavern. Ou no Stork Club, um restaurante local, agradável, sem mais. Ou no Fuddruckers, de que já aqui falei e onde devia ir mais vezes.
Agora descobri outro canto, e encanto; o Mod Coffee House. Como é uma Coffee House a água é um bocadinho mais escura do que nos outros sítios e tem um ligeiro acréscimo de sabor. Não muito, claro, que aquilo está longe de ser café. Mas enfim, o local é agradável e tem uma atmosfera de café: pessoas a conversar, trabalhar, estudar, escrever, ler, boa música e - infelizmente, que raramente lhes resisto - óptimos biscoitos.
Como sempre um, por vezes dois para punir o meu corpo das malandrices que ele me faz: o cansaço, a incapacidade de gerir correctamente o açúcar no sangue, a miopia, o tinitus e essas coisas todas.
O frio voltou, a indecisão também, a solidão continua. Tudo isto mudará, mais tarde ou mais cedo. Com excepção do tempo, que gostaria mudasse já, o resto pode esperar.
........
Tudo tem um fim, menos as viagens: as que hoje faço são a continuação da que me levou a dar uma volta ao mundo em 1976? Provavelmente.
E tudo tem um princípio; menos a dor, claro. É uma aluvião, a dor. Sedimenta, consolida-se e ao fim de uma vida vamos a ver e foi ela que fez o leito pelo qual o rio correu. Já a felicidade não: vai com as águas, não pousa, nunca fica muito tempo no mesmo sítio.
........
Sei pouco da história de Galveston. Foi criada no início do século XIX no que era então a República do Texas. Está na trilha dos ciclones. Em 1900 um deles matou oito mil pessoas. E do presente tão-pouco sei grande coisa. Cidade turística, portuária, hospitalar e balneária, agora fora de época.
Tem uma universidade - cujos alunos são de resto uma boa parte da clientela do café Mod -. Não sei se vota à direita se à esquerda. É uma ilha, maior do que parece: no outro dia tentei dar-lhe a volta de bicicleta e não cheguei nem a um terço.
"A época da solha está quase a acabar?" pergunta um jornalista no jornal local. "Tudo leva a crer que não", responde: "o organismo que gere o parque nacional (uma grande parte da ilha está num parque, ou coisa que o valha) prolongou o limite da captura de duas solhas por pessoa até dia quatorze". É preciso dizer que a pesca recreativa é uma actividade vital para a população. A marina está sempre cheia de pescadores e de solhas acabadas de pescar; há lojas de isco e artigos de pesca em tudo quanto é canto; o jornal menciona frequentemente o tema.
Recentemente perguntei à rapariga do Stork qual a atracção turística de Galveston, para além, claro está, da praia. "Pode andar-se com bebidas na rua", responde, ao fim de bastante tempo de reflexão.
A cidade é bonita. E monótona. John, um dos donos do Stuttgarten diz-me que isto não são os Estados Unidos. "As pessoas deixam o cérebro do lado de lá da ponte quando a atravessam". É da Geórgia, mas viveu "em todo o lado", Trabalhou num navio de cruzeiros. Conhece Lisboa, o Estoril, Cascais. Está aqui apenas para ir à escola náutica, quer progredir na carreira e "chegar a comandante".
É o tipo mais simpático que aqui encontrei, juntamente com Ben, o mecânico que ontem veio a bordo. "A ética de trabalho aqui é..." John faz uma careta, desfaz, refaz e conclui "horrível". Vai-se embora assim que acabar o curso.
E eu logo que o trabalho acabe. Já não faltava muito, quase nada, mas agora apareceu outra porcaria para resolver. Mais um dia ou dois.
........
O bar 21 tem Laphroaig a sete dólares e a barmaid mais bonita de Galveston, do Texas e do Universo, para cortar caminho. A rapariga tem classe, mais classe do que idade. Nasceu com ela. Já vem de trás. Aquilo é a refinação de muitos ciclos de DNA.
O bar é bonito, a música boa e calma (excepto aos fins-de-semana) e a barmaid - perdoem-me a insistência - linda como um dia de sol nas Baleares. Mas as televisões - duas! - estragam tudo. Somos perseguidos pela merda da televisão. Não se pode dar um passo sem que ela, ou elas se espequem à nossa frente como uma namorada mal escolhida.
........
Ontem foi o primeiro dia de folga desde que cheguei. Refiro-me a uma folga explícita, formal, assumida e voluntária. A do sábado a seguir à prisão de Sócrates não responde a nenhum desses critérios. É bom, mas pouco. Uma tarde não chega. Precisava pelo menos de mais um dia, mas não vai ser possível.
Por isso faço durar o Laphroaig, enquanto oiço - impossível não ouvir - uma conversa entre dois clientes. Um está à minha direita e só faz pergunats e o outro, acompanhado pela namorada, à esquerda e só responde. Este vai ficar desempregado. Tinha um bar, mas vai ter de o fechar não percebi bem porquê. Mas entretanto parece que se alistou na Marinha. É médico ou enfermeiro, tal como a mulher, de resto. Tento não ouvir muito, vou escrevendo e olhando para a televisão ou para a barmaid, quando ela não pode ver quer a miro como se a criação fosse o museu do Louvre e ela a Gioconda.
........
Aos fins-de-semana Galveston humaniza-se. Enche-se de gente ("de Houston, vêm aqui passar o fim-de-semana" diz-me a tal rapariga do Stork Club) e os carros ganham condutores humanos: buzinam, aceleram... Deixam de ser conduzidos por robots.
São os únicos dias desagráveis. Os outros? Meramente chatos.
Fica pouco tempo para o blogue, coitado.
Verdade seja dita: pouco há a contar. O trabalho absorve-me os dias, o sono as noites. Entre os dois, pequeno-almoço e almoço rápidos e jantar em terra, quase sempre na Stuttgarten Tavern. Ou no Stork Club, um restaurante local, agradável, sem mais. Ou no Fuddruckers, de que já aqui falei e onde devia ir mais vezes.
Agora descobri outro canto, e encanto; o Mod Coffee House. Como é uma Coffee House a água é um bocadinho mais escura do que nos outros sítios e tem um ligeiro acréscimo de sabor. Não muito, claro, que aquilo está longe de ser café. Mas enfim, o local é agradável e tem uma atmosfera de café: pessoas a conversar, trabalhar, estudar, escrever, ler, boa música e - infelizmente, que raramente lhes resisto - óptimos biscoitos.
Como sempre um, por vezes dois para punir o meu corpo das malandrices que ele me faz: o cansaço, a incapacidade de gerir correctamente o açúcar no sangue, a miopia, o tinitus e essas coisas todas.
O frio voltou, a indecisão também, a solidão continua. Tudo isto mudará, mais tarde ou mais cedo. Com excepção do tempo, que gostaria mudasse já, o resto pode esperar.
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Tudo tem um fim, menos as viagens: as que hoje faço são a continuação da que me levou a dar uma volta ao mundo em 1976? Provavelmente.
E tudo tem um princípio; menos a dor, claro. É uma aluvião, a dor. Sedimenta, consolida-se e ao fim de uma vida vamos a ver e foi ela que fez o leito pelo qual o rio correu. Já a felicidade não: vai com as águas, não pousa, nunca fica muito tempo no mesmo sítio.
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Sei pouco da história de Galveston. Foi criada no início do século XIX no que era então a República do Texas. Está na trilha dos ciclones. Em 1900 um deles matou oito mil pessoas. E do presente tão-pouco sei grande coisa. Cidade turística, portuária, hospitalar e balneária, agora fora de época.
Tem uma universidade - cujos alunos são de resto uma boa parte da clientela do café Mod -. Não sei se vota à direita se à esquerda. É uma ilha, maior do que parece: no outro dia tentei dar-lhe a volta de bicicleta e não cheguei nem a um terço.
"A época da solha está quase a acabar?" pergunta um jornalista no jornal local. "Tudo leva a crer que não", responde: "o organismo que gere o parque nacional (uma grande parte da ilha está num parque, ou coisa que o valha) prolongou o limite da captura de duas solhas por pessoa até dia quatorze". É preciso dizer que a pesca recreativa é uma actividade vital para a população. A marina está sempre cheia de pescadores e de solhas acabadas de pescar; há lojas de isco e artigos de pesca em tudo quanto é canto; o jornal menciona frequentemente o tema.
Recentemente perguntei à rapariga do Stork qual a atracção turística de Galveston, para além, claro está, da praia. "Pode andar-se com bebidas na rua", responde, ao fim de bastante tempo de reflexão.
A cidade é bonita. E monótona. John, um dos donos do Stuttgarten diz-me que isto não são os Estados Unidos. "As pessoas deixam o cérebro do lado de lá da ponte quando a atravessam". É da Geórgia, mas viveu "em todo o lado", Trabalhou num navio de cruzeiros. Conhece Lisboa, o Estoril, Cascais. Está aqui apenas para ir à escola náutica, quer progredir na carreira e "chegar a comandante".
É o tipo mais simpático que aqui encontrei, juntamente com Ben, o mecânico que ontem veio a bordo. "A ética de trabalho aqui é..." John faz uma careta, desfaz, refaz e conclui "horrível". Vai-se embora assim que acabar o curso.
E eu logo que o trabalho acabe. Já não faltava muito, quase nada, mas agora apareceu outra porcaria para resolver. Mais um dia ou dois.
........
O bar 21 tem Laphroaig a sete dólares e a barmaid mais bonita de Galveston, do Texas e do Universo, para cortar caminho. A rapariga tem classe, mais classe do que idade. Nasceu com ela. Já vem de trás. Aquilo é a refinação de muitos ciclos de DNA.
O bar é bonito, a música boa e calma (excepto aos fins-de-semana) e a barmaid - perdoem-me a insistência - linda como um dia de sol nas Baleares. Mas as televisões - duas! - estragam tudo. Somos perseguidos pela merda da televisão. Não se pode dar um passo sem que ela, ou elas se espequem à nossa frente como uma namorada mal escolhida.
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Ontem foi o primeiro dia de folga desde que cheguei. Refiro-me a uma folga explícita, formal, assumida e voluntária. A do sábado a seguir à prisão de Sócrates não responde a nenhum desses critérios. É bom, mas pouco. Uma tarde não chega. Precisava pelo menos de mais um dia, mas não vai ser possível.
Por isso faço durar o Laphroaig, enquanto oiço - impossível não ouvir - uma conversa entre dois clientes. Um está à minha direita e só faz pergunats e o outro, acompanhado pela namorada, à esquerda e só responde. Este vai ficar desempregado. Tinha um bar, mas vai ter de o fechar não percebi bem porquê. Mas entretanto parece que se alistou na Marinha. É médico ou enfermeiro, tal como a mulher, de resto. Tento não ouvir muito, vou escrevendo e olhando para a televisão ou para a barmaid, quando ela não pode ver quer a miro como se a criação fosse o museu do Louvre e ela a Gioconda.
........
Aos fins-de-semana Galveston humaniza-se. Enche-se de gente ("de Houston, vêm aqui passar o fim-de-semana" diz-me a tal rapariga do Stork Club) e os carros ganham condutores humanos: buzinam, aceleram... Deixam de ser conduzidos por robots.
São os únicos dias desagráveis. Os outros? Meramente chatos.
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