14.3.15

Diário de Bordos - Ft. Lauderdale, Florida, Estados Unidos, 13-03-2015

É difícil gostar-se de um país quando não se tem dinheiro, cartão de crédito, carta de condução e, para compor o ramalhete, o telefone está avariado. Tentar andar nesta terra gastando o menos possível nestas circunstâncias é difícil.

O que não significa que seja impossível, pelo menos no que respeita aos transportes. Já alojamento é outra história; seria necessário adicionar mais uma flor: estamos em período de férias estudantis e tudo o que é alojamento barato está cheio.

Tive sorte com o hostel em Fort Lauderdale - é pequeno, calmo e a única coisa que me impediu de dormir foi a porcaria do ar condicionado (o vizinho de baixo, um polícia reformado do estado de Nova Iorque que vem para aqui por causa do frio e por "conhecer bem os transportes" também não ajudou muito, mas enfim).

A verdade é que hoje me vinguei com uma soberba sesta, escrevi o que tinha de escrever (não está pronto, mas está quase) e descobri que se não tivesse de voltar a St. Martin era muito capaz de me meter num avião para Lisboa e deixar Cuba para outra ocasião.

¡Qué vaya! De hoje a pouco mais de uma semana terei novidades sobre o trabalho em Belize, de maneira mais vale habituar-me às condições difíceis, chegar a Cuba e relaxar.

E visitar, claro, os portos onde o meu Pai carregava açúcar para Londres, cidade onde acabou por conhecer a minha Mãe e enterrar os sonhos tropicais. "Podias ter nascido cubano", dizia-me muitas vezes. "Se a tua Mãe não fosse tão bonita" (esta é uma das continuações possíveis. Variavam. É a minha favorita e é a que fica).

A mistura genética teria sido diferente, mas há uma metade de mim que vai gostar de conhecer um país onde poderia ter nascido. A outra metade vai porque não tem alternativa.

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Fui ao 7-11 comer qualquer coisa (estou definitivamente em modo viagem) com Nelson, um porto-riquenho que está aqui para tirar a carta de pesados. Não fala uma palavra de inglês. Também foi polícia, mas só por causa do pai, que deve ter morrido. É novo, e fala-me da corrupção em Porto Rico. Mais um mito que cai: pensava que o país estava isento dessas latinices.

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Amanhã é dia de viagem. O objectivo é Marathon, que fica já nas Keys e é mais barato - ao que diz Dennys - do que Key West.

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"Coisa é essa de que ninguém se deve espantar, porque nunca ali vimos senão ficarem na maior parte sepultados no mar os que muito labutam no mar, e por isso, amigos meus, o melhor e mais certo é fazer conta da terra e trabalhar na terra, já que Deus foi servido de nos fazer de terra".
(Fernão Mendes Pinto, Peregrinação).

Discordo, mas que é bonito é.

13.3.15

Diário de Bordos - Ft. Lauderdale, Florida, Estados Unidos, 12-03-2015

(Fotografia de Jorge Palhais)

O ponto de vista precisava de ser um bocadinho mais baixo. Porém não me é difícil ver-me chegar aqui num 40 pés a cair de podre e passar um bom par de anos a refazê-lo. Todos temos uma Mértola. A minha, por feliz coincidència, chama-se Mértola.

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De momento estou longe, e não só na geografia. Fort Lauderdale é uma das mecas americanas do yachting, que é o nome inglês de marinha de recreio - ou, como aparentemente agora se deve dizer, náutica de recreio (não sei qual a diferença, não me incomoda particularmente. Ao contrário de outras) -.

Não andei pelas marinas e não vou andar. Quero ir para Cuba e não é nestas que vou encontrar um embarque, é em Key West. Aqui venho parar dois dias, escrever um texto há muito prometido e devido e pôr ordem nas ideias.

Vou a Cuba em peregrinação. Vou a Cuba para fechar mais um caminho no dédalo que a minha vida é.

"Nomadiser, faire face, se perdre, s'accepter, persévérer, se souvenir, danser, jouer, ruser, élucider: l'homme qui parvient à réunir toutes ces qualités a toutes les chances d'avancer, même après d'innombrables erreurs, vers la réponse à la seule question qui vaille: "qu'est-ce que je veux devenir?" (Jacques Attali, Chemins de sagesse - Traité du labyrinthe).

(Este livro devia ser de leitura obrigatória desde a quarta classe, ou o que agora a substitui.)

Tenho a resposta a essa pergunta, finalmente. Há que continuar a fechar portas e abrir novos caminhos - nunca se esgotam.

(Há livros assim. Caem-nos no regaço, na vida como se houvesse um relógio comandado por um génio meticuloso até à obsessão, preciso ao milisegundo, sensato até à falta de imaginação. Chemins de Sagesse é um desses.)

Antes de Mértola há Belize. É preciso navegar para Oeste para chegar a Leste, Sul se queres ir para Norte. "Son identité [du nomade] n'est pas définie par un territoire, il ne peut la retrouver en regardant un paysage, en visitant un cimetière, en parcourant une maison. Ses racines se déploient dans des récits, des chants, des danses, des cérémonies,des techniques..."

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"Léger, courtois, disponible, solidaire: telles sont les premières qualités du nomade".

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Não deixa de ser curioso que este livro me tenha aparecido quando trabalho a Peregrinação. Mais um ardil do tal génio que tem o relógio nas mãos.

"Et retrouver celles [les qualités]  des explorateurs de dédales: la persévérance, la lenteur, la malice, la curiosité, la ruse, la souplesse, l'improvisation, la maîtrise de soi..."

........
De Fort Lauderdale ainda só vi a praia, onde dei um longo passeio hoje ao fim da tarde. E pouco mais: o programa é olhar para dentro, para trás, para a frente mas não para os lados. A verdade é que conheço poucas cidades americanas e as que conheço - com a notória excepção de San Francisco - parecem-me todas iguais. (E St. Augustine, mas essa é igual às outras cidades turísticas do planeta).

10.3.15

Diário de Bordos - St. Augustine, Florida, Estados Unidos, 10-03-2015 / II

Fui dar um passeio grande pela cidade - na verdade, procurar o sítio onde amanhã às sete menos um quarto da manhã apanharei o autocarro para Palatka (o nome é um programa só por si) e onde um pouco mais tarde apanharei o comboio para Fort Lauderdale -.

Percorro as cidades quando preciso de encontrar a maneira de sair delas...

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Um bocadinho Disneyland, não muito. Já vi pior, incomensuravelmente. Mas não consigo deixar de comparar ao nosso Algarve. Os americanos, esses incultos, conseguiram deixar uma cidade de 1513 mais ou menos como era. Penso em Lagos, Portimão, Albufeira... Que terão eles mais do que nós?

Mais dinheiro, menos fuçanga.

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Escrevo no local da American Legion, uma associação de veteranos. Não fosse as cadeiras e as mesas não serem de  plástico (mai-la escolha de bebidas) e podia estar em Portugal, numa associação de província.

A semelhança interessa-me muito mais do que a diferença. "Nada do que é humano me é estranho..." Nada do que me é estranho é humano?

Diário de Bordos - St. Augustine, Florida, Estados Unidos, 10-03-2015

É indesmentível que turismo remete para tours, voltas, passeios, andar: máquinas fotográficas, cartas, calor, curiosidade fingida, discussões com o cônjuge e respectivo mau humor à mão. Não alinho nisso. Sou um péssimo turista.

Prefiro de longe sentar-me num bar, ver a vida passar por mim e perguntar-me como seria se aqui (ou ali) vivesse. Provavelmente tão chato aqui como ali ou acolá. Não sei.

Graças à minha amiga M., e seguindo uma sugestão da lindíssima empregada do bar onde me encontro (JP Henley's - a senhora tem um boné e um sorriso como a Sam do They All Laughed, ) tenho um bilhete num comboio da Amtrak até Fort Lauderdale. Já só me fica a faltar andar num Greyhound. mas isso não vai decerto tardar.

E tenho um destino: vou para Cuba, se nada me distrair entretanto.

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Terei de me desfazer dos livros, provavelmente. Mandá-los para Portugal custa o preço de os comprar ou quase.

Que absurdo! E quão difícil vai ser. Acho que tenho de deixar já uma encomenda a uma das minhas livreiras favoritas, a Joana da Little International Bookstore: os livros vêm até mim, como a vida no pub ou a paisagem no comboio.

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Há muito tempo que ando para ir a Cuba. Agora estou perto, tenho tempo... Seria estúpido esperar pela próxima oportunidade.

Rum, charutos e mulheres, acaba alguém de me dizer. Será? E barcos, também: ficar lá a trabalhar até Belize se confirmar (ou infirmar) parece-me um bom plano.

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Assusta-me voltar a Portugal. Os você (confesso que não sei porque me incomoda tanto. Parece-me uma paneleirice que não merece sequer um alçar de sobrolho, mas enfim), o tempo que parece não existir, a burocracia e respectiva indiferença... Não sei. Gosto de Portugal, mas a perspectiva de ser marciano no meu país assusta-me um bocadinho.

Para quê ser marciano quando posso ser um simples estrangeiro?

9.3.15

Diário de Bordos - St. Augustine, Florida, Estados Unidos, 09-03-2015

Consegui finalmente chegar a St. Augustine. Não parece, mas é obra; e já encontrei uma (provavelmente, a julgar pelo preço) espelunca para dormir (também é obra. Há um encontro de motas na cidade e está tudo cheio). Agora estou num café da beira-mar a beber Mount Gay. Custa oito dólares, mas é quase de certeza a maior porção de rum que alguém alguma vez me serviu num estabelecimento aberto tanto ao público como a tesos. E não me refiro apenas aos Estados Unidos.

A cidade é bonita. A mais antiga do país, ainda conserva os traços da cidade espanhola que já foi. Sinto-me na Andaluzia. Infelizmente é turística de mais para mim e  - isto parece maldição - o encontro de motociclistas (e ou de Harveys) provoca um barulho ensurdecedor.

Mas o calor voltou, o rum é (como Allah) grande e consigo ignorar tudo isso. A decisão de ir por estrada para baixo começa pouco a pouco a consolidar-se. Apetece-me ir à rodoviária e apanhar um Greyhound para qualquer sítio, o primeiro que saia amanhã de manhã.

Fechar os olhos e acabar de ler o Attali, que está cheio de pérolas, acho que uma editora portuguesa devia pegar naquilo e pagar-me para o traduzir, já. (O livro está cheio de coisas que me dizem respeito. Posso lê-lo de olhos fechados).

"Devant l'entrée, bouche d'ombre, le profane, l'ignorant ne voit qu'un tunnel semé de pièges, sans échappée. S'il fait demi-tour il se ferme la porte de la vie. S'il entre, s'il triomphe du vertige, des illusions, de la peur, s'il ne fait pas de noeuds en lui-même, s'il accepte de se servir de qualités très particulières, méprisées aujourd'hui, il découvrira que l'illusion initie, que la peur fortifie, que l'erreur grandit, que le vertige transfigure. ...

Pour ce faire il devra oublier les qualités tant vantés dans la société industrielle: la vitesse, la raison, la logique, la transparence. Et retrouver celles des explorateurs de dédales: la persévérance, la lenteur, la malice, la curiosité, la ruse, la souplesse, l'improvisation, la maîtrise de soi; qualités que les anciens inculquaient à leurs infants par des rites et des danses afin de leur rappeler que, s'ils avaient pu survivre jusque-là, c'est parce qu'ils n'avaient pas oublié leurs origines nomades et les vertus du voyageur."

"De fait, se perdre n'est jamais un échec."

"Pour le nomade, rien n'est jamais perdu, toute erreur peut se racheter. Chacun doit se nourrir d'espoir, tant qu'il est vivant. Il doit persévérer et, pour cela, espérer. «Il se pourrait que l'espoir n'existe que dans le voyage», disait étonnament Christophe Colomb."

"Faire pleinement le voyage de la vie, comme Ulysse; être sourd à toutes le menaces et aux peurs, comme Thésée; affronter la solitude de la souffrance, comme Pénélope: telles sont les manifestations de la vertu de la persévérance - patience, opiniâtreté, détermination."

"Léger, courtois, disponible, solidaire: telles sont les premières qualités du nomade." 

Diário de Bordos - Jacksonville, Flórida, Estados Unidos, 08-03-2015

Não vale sequer a pena falar da música, é como um gajo ir para Marte e queixar-se do frio ou da falta de oxigénio; nem das televisões: idem.

De resto o lugar é indubitavelmente agradável. Chama-se Dos Gatos. Escuro ma non troppo, decoração ecléctica mas equilibrada (tijolos rústicos, tecido urbano, iluminação cuidada), bom ambiente (isto é, as miúdas são giras). Até a música seria bem escolhida, se estivesse mais baixo.

Agora está a passar uma de que o Pedro gostava e passava muitas vezes, quando trabalhávamos no Marchand de Sable. A maioria dos clientes do Dos Gatos ou não era nascida ou era jovem nessa altura. O Pedro escolheu morrer como vivia e isso chateia-me e a verdade é que ainda penso nele muitas vezes, trinta anos depois oiço a porra da música (não me lembro do nome, creio que é de um grupo chamado Van Halen mas não tenho a certeza) e catrapumba, lá me vem o Pedro e a última vez que o vi, num restaurante chamado Castafiore, na Parede; e as vezes todas que os vi antes dessa, os copos e as farras que fizemos juntos.

A loja do teu Pai agora é um banco, Pedro, mas isso já tu o sabes de certeza, tinhas uma irmã e um irmão, não era? Não me lembro dos nomes deles. Só me lembro de ti e da tua estúpida morte e da tua estúpida vida e de quanto gostávamos de ti, a S. e eu. O Dos Gatos é como o bar do Marchand, ficas pelo menos a sabê-lo. Maior e adaptado aos tempos, mas é o mesmo.

Se um dia tiver um bar chamar-lhe-ei Buñuel, não terá música (ou excepcionalmente, baixinha, quase em surdina; ainda mais excepcionalmente ao vivo - um violino, um sax, uma harpa, uma flauta -. Música para ouvir). E terá um limite de idade. Inferior, claro. Talvez lhe chame Cresca e Apareça. (O Pedro nunca cresceu, mas seria admitido, se aparecesse, os caracóis negros revoltos e violentos, sorriso escancarado, histórias de mulheres e milhares de histórias).

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O caso é semelhante ao do Maistre quando saiu da prisão: queria ir para casa mas os seus passos levaram-no para casa de uma Madame cujo nome não recordo. Eu fui à Western Union buscar dinheiro e queria ir para casa mas os meus pés, tal magnetos dirigidos por um íman inelutável levaram-me ao Candy Apple e respectivo Warres 2003 LBV de novo.

De lá ao Dos Gatos foi um salto e não precisei de íman nenhum.

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Mas isto foi ontem. Hoje fabriquei um dia estúpido como só eu sei fazê-los. Queria ir a St. Augustine e acabei num restaurante libanês de Jacksonville a beber arak e a comer hummus e a ouvir xaropadas - com excepção dos dois Leonard Cohen que passaram, isto deve estar num daqueles programas de mistura profunda, salta de Marianne para Júlio Iglésias (suponho. Era em espanhol) -.

O arak é mais barato do que o vinho. Há coisas cuja lógica me escapa completamente.

Vou gastar mais dinheiro do que queria, claro. Mas pelo menos posso voltar a pé para o hotel, uma espelunca que tem a vantagem de estar perto do centro.

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"Nomadiser reste l'apanage des plus forts parmi les sédentaires. Et la puissance appartient toujours à ceux qui circulent pour vendre ou conquérir, négociants ou guerriers, marins en tous cas."

Jacques Attali, in Chemins de Sagesse. Traité du Labyrinthe. Ed. Fayard, Paris.

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"I spent most of my dough on booze, broads and boats and the rest I wasted."

Elmore Leonard

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Ontem fui dar um passeio à beira-rio. Arranjadinho, bonito, chato. Nem a nortada gélida conseguia devolver um bocadinho de vida àquilo.

8.3.15

Leituras, citações

"Nomadiser reste l'apanage des plus forts parmi les sédentaires. Et la puissance appartient toujours à ceux qui circulent pour vendre ou conquérir, négociants ou guerriers, marins en tous cas."

Jacques Attali,  in Chemins de sagesse, Fayard, 1996

7.3.15

Telefotos - Jacksonville, 2




Telefotos - Jacksonville





Leituras

Hoje comprei três livros na Chamblin's Bookmine (nunca vi uma livraria tão bem nomeada): uma revista literária local, uma antologia de poemas de Donald Hall (a selecção é feita pelo autor, creio); e o The Sheltering Sky de Bowles que ando para ler há três vidas. Na mochila tenho um Jacques Attali soberbo (Chemins de Sagesse. Traité du labyrinthe) e o Rimbaudemônio do meu amigo Celso, que só agora (tanto tempo depois! Desculpa, Celso) comecei a ler. No quarto do hotel ficaram os dois volumes da Peregrinação, O Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas, o Rubay'iat.

Nunca consegui ler os livros todos que tenho. Gosto de lhes tocar, de os folhear, de ler dois ou três parágrafos aqui e ali. Gosto de os levar comigo como uma promessa, ou um peso. Não os leio, mas não os abandono.

Nunca consegui ler todos os livros que tenho, como não amei todas as mulheres que tive.


PS - Não foi na Bookmine, foi na Uptown. Mas podia ter sido.

6.3.15

Diário de Bordos - Jacksonville, Florida, Estados Unidos, 06-03-2015

É pântano, é delta, é água por todo o lado e terra em tudo quanto é água. É uma luz fascinante, vem de baixo, reflectida e filtrada pela água. Quando não se vêem a água ou a terra vêem-se árvores e mais árvores, separadas apenas pela ténue linha de alcatrão na qual nos deslocamos, silenciosamente (o silêncio é como a pele desta paisagem e a música desliza por ele e não fica).

É desta paisagem que me despeço. Cada vez me dou pior com a incompetência e ela comigo.

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Peço uma cerveja no detestável restaurante ao qual vim jantar. A jovem empregada, vestida como se trabalhasse num prostíbulo (é o uniforme, estão todas assim) pede-me a identificação. Pergunto-lhe se está a brincar comigo, diz que não e aponta para um badge que tem ao peito.

Não o vi, mas parece que é norma obrigatória da casa. Tal como as mamas,  suponho. Estão todas numa letra bastante avançada do alfabeto.

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Apanhei uma mocada. Literalmente: fui ao Museum of Contemporary Art, acronimamente MOCA. Não é grande coisa, mas descobri uns retratos de Picasso que não conhecia – “Retratos Imaginários”, feitos aos oitenta e muitos anos em cartão de embalagem, uma criatividade e força e alegria de fazer inveja a muitos artistas sessenta anos mais novos -; uma senhora chamada Tara Donovan, que faz esculturas com palhinhas – sim, palhinhas daquelas que os Americanos põem em tudo quanto é copo – e consegue não ser ser circense. Coisa que não está, infelizmente, ao alcance da maioria dos artistas contemporàneos. Descobri ainda um fotógrafo chamado Paul Graham, um inglês da minha idade que consegue fazer fotografia a partir de fotografia documentária, coisa que é mais difícil do que encontrar um bom vinho do Porto a preços decentes nos Estados Unidos.

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E acabou exactamente agora de me acontecer. A simpática recepcionista do museu aconselhou-me um restaurante. É visivelmente uma coisa da moda onde se come muitíssimo bem e – oh milagre – cujo vinho a copo mais barato é um Warres LBV de 2003. Cinco dólares. É difícil de acreditar, mas é verdade.

Isto é indescriptível, tanto mais que os ovos da entrada (“Deviled Eggs” e a sopa de tomate “Candy Apple Bisque”) estavam ao nível do LBV: saborosos, subtis, complexos e ligeiramente adstringentes.

O almoço vai custar-me uma fortuna. Normal, para um tesouro.

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A sopa de tomate da casa leva Madeira e Boursin.

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Este país limita a velocidade mas não a venda de armas. E avisa as pessoas de que as chávenas de café estão quentes ou, como hoje ouvi, que o comboio está em movimento, não vão elas pensar que estão na CP e o comboio está em greve (o anúncio continua com “agarrem-se, por favor”.  Estas preocupações com a infantilidade das pessoas e com a sua incapacidade para tratar de si próprias não se aplica, claro, às armas).

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Jacksonville é um destino turístico desde 1840, dizem os painéis informativos na margem do rio. O qual já teve mais tráfico de passageiros do que – imagine-se – o Mississipi, continuam.

Não sei. Cada vez que penso que não poderia nunca viver nos Estados Unidos acontecem-me coisas destas. Vou a um museu confirmar a minha ignorância em arte moderna, almoço num restaurante que poderia estar em Paris e descubro uma livraria cum café chamada Chamblin's Bookmine que só por si mereceria uma visita à cidade (não sei se existe desde 1840, não visitei o site. No que me respeita, existe desde e para sempre).

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Não pago impostos mas compro livros e discos numa livraria e bebo Warres LBV num restaurante que decerto os pagam.

Se não pagassem beberia decerto mais vinho e compraria mais discos e livros, mas isso é outra história. Ou lamentos de outro muro.

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E para terminar este dia reconciliador fui passear no Jacksonville Water Taxi. A história é americana, cem por cento: pergunto ao capitão do bote (um cata de quarenta pés com dois fora-de-borda de 150 cavalos cada e capacidade para talvez trinta pessoas) a que horas larga. Responde-me com o amis amplo e bonito e aberto sorriso do mundo "assim que o meu tripulante chegar".

Expliquei-lhe que queria ir ver uma marina, entretanto o tripulante ("mate") chegou, explicou-me que esperariam por mim e de repente apercebi-me de que teria o barco por minha conta. Não desembarcquei em nenhuma das marinas (há très, todas vazias) mas dei a volta toda, à conversa com o mate.

O dia está cinzento, chuvoso e frio. Mas a cidade é tão bonita, vista do rio.

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E o embarcadouro é ao lado do pub onde ontem bebi um Tullamore Dew e hoje bebo Smithwicks à pressão, a mãe de todas as cervejas.

(Suponho que seja por causa da Smithwicks que a Heineken afirma ser "provavelmente a melhor cerveja do mundo". Não quer cair no rídiculo de alguém mencionar a Smithwicks),

Que ela não diz nada, claro. Não precisa. Basta-lhe existir para ocupar os três primeiros lugares do pódio mundial de cervejas.

3.3.15

Soltas mas elaboradas

São quase onze da noite, toda a gente dorme, o rum é uma merda qualquer de Porto Rico, uma ilha da qual tanto gosto e depois faz-me isto; salto de Ahmad Jamal, gosto do ritmo, da energia, da velocidade a Closer (vou à música buscar o ocidente do ocidente e ao rum o sul do sul).

Estou cansado, cheio de feridas em tudo quanto é corpo, não lavei a roupa.

Antes e depois do sol houve nevoeiro, mas o sol durou mais.

Não quero estar em lugar nenhum, com a possível excepção daquele para onde vou.

O supermercado onde fazemos as compras é um supermercado de luxo, "topo de gama" (entre aspas: topo de gama é a expressão mais patética daquela gente patética). Tem tudo de todo o lado menos de Portugal. Minto: tem dois ou três Portos. Se conseguisse estar-me-ia nas tintas para Portugal.

Também me estou nas tintas para os Estados Unidos, note-se. Parece um país sem adultos. "Atenção ao degrau", "A chávena pode estar quente", " Veja onde põe os pés", não faça isto, aquilo ou seja o que for. Que se fodam os avisos mai-los americanos. Precisam que lhes digam que a chávena de café está quente?

O trabalho nunca mais acaba: cada passo que damos para a frente leva a dois para trás. Quero sair daqui.




Fado longe

O Rão não vai saber isto de certeza. Mas numa noite brumosa e fria, numa pequena ilha da Flórida chamada Amelia Island alguém me pediu que passasse uma música da minha cidade natal.

Escolhi Fado Bailado.

Manhã de nevoeiro



)Fotos de James Simmons)

Diário de Bordos - Amelia Island, Florida, Estados Unidos, 02-03-2015

A tripulação ficou completa sexta-feira passada; hoje fez sol e calor, pela primeira vez desde que cheguei; fui ao galope do mastro; estou cansado e morto de fome; e um bocadinho farto destas reparações que não acabam. Chateia-me ter de voltar a St. Martin por causa de uma porcaria de um banco.  Não consigo encontrar trabalho em Portugal. Não sei se vá ao Canadá no verão, como tinha previsto.

Não sei nada, na verdade. Trabalho, bebo rum, janto e vou para a cama. Se isto é uma vida.

É. Da qual gosto apesar de dias como o de hoje em que estou farto e me falta energia para contar tudo o que queria contar, faz sol e calor pela primeira vez numa semana e oiço Something Else e Footprints com um puto de vinte e seis anos enquanto espero pelo jantar e bebo Mount Gay..

Não largamos antes de sábado e se largarmos sábado é uma sorte.

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Ontem fomos descobrir o centro histórico de Fernandine Beach. Fui ao bar mais antigo da Flórida. Abriu em 1903 e nunca fechou, "nem durante a Proibição", esclarece o barman. Depois fomos jantar ao Peppers, um excelente restaurante mexicano. Tão bom que pela primeira vez em muito tempo consegui comer o molho picante: merecia o adjectivo.

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O mastro faz vinte e seis metros de altura, quase um metro no diâmetro maior e a cadeira é uma daquelas antigas, uma prancha de madeira estreita e sem apoio para as costas.

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Tudo é antigo no barco. Parece que voltei aos meus inícios na vela. Só que agora a coisa tem sessenta pés, não tem trinta e seis.

A melancolia é uma farsa, às vezes.

2.3.15

Viver, escrever

De dia trabalho e à noite vivo. É muito difícil escrever nestas circunstàncias.



27.2.15

A coisa vista de fora













Diário de Bordos - Amelia Island, Florida, Estados Unidos, 26-02-2015

A Little Crew House transformou-se numa mansão. Os catamarans vacas malhadas rápidos e ágeis como a torre Eiffel bêbeda são agora um 12m lindo, elegante e fino, apesar de mal refeito. E a minha tripulação compreende um americano hífen italiano de vinte e quatro anos que sabe cozinhar, um americano americano de vinte e seis que é professor de inglês e tem a maior cara de rapaz-bem-comportado-e-bom-genro que jamais vi e depois se revela e passamos o fim dos dias a falar de Borges e Barthes e Beethoven enquanto bebemos rum e ouvimos Miles.

Nunca percebi bem as pessoas que não gostam da juventude. É como não gostar da manhã, ou coisa que o valha.

26.2.15

Diário de Bordos - Amelia Island, Florida, Estados Unidos, 25-02-2015

Um gajo sai de um círculo vicioso que durou dois anos e começa um círculo virtuoso. Tudo se encaixa, tudo flui. Fica espantado, claro. Surpreso. Há tanto tempo que isto não lhe acontecia.

Os telefones dum gajo ou estão sem bateria, ou sem saldo, ou sem rede, ou na água, ou longe de mais, ou  na pata que os pôs. Nunca funcionam, excepto quando não devem.

Ou quando devem, agora que o círculo mudou de sentido.

Sábado estava em St. Barth a bordo de um Lagoon 450 a reparar a bomba de água doce. O telefone não tinha bateria, o saldo era ínfimo, as ferramentas estavam espalhadas por todo o barco, paneiros abertos, um gajo coberto de suor. Às dez horas e doze  inutos conseguiu falar para a base. Avisá-los de que ao contrário do previsto ia com os clientes para St. Martin e chegaria portanto à noite.

Não tive tempo. "Tens de vir já para St. Martin, tens um charter logo à tarde. Apanha o ferry das dez e quarenta e cinco".

Foi assim que começou o charter mais cansativo e mais bem remunerado da minha vida.

Uma família de indianos - onze pessoas, ao todo - que vive espalhada pela Índia, Estados Unidos, Reino Unido e Canadá junta-se para celebrar os sessentas anos do patriarca.

Agradeci mil vezes a Rushdie e a Naipaul: sem eles não teria percebido nada. É uma sensação esquisita, esta de termos as personagens dos livros que lemos à nossa frente durante uma semana.

Cheguei no sábado seguinte a Marigot, exausto. Domingo apanhei um avião para a Florida. Fiquei seis horas retido na Customs and Border Protection, mas acabaram por me deixar entrar.

........
Por isso hoje estou numa vivenda enorme num condomínio fechado. É a minha big crew house... À minha frente, do outro lado da porta da varanda, um pequeno lago (o repuxo começa às oito em ponto) e árvores, muitas árvores. Há só árvores neste país, teria Eugénio de Andrade dito se aqui estivesse.

Estou no norte da Flórida, no delta de um rio, pantanoso e verde. Quando vamos para o estaleiro lembro-me da estrada que ia para Shelter Bay. A vegetação é completamente diferente, claro; e o verde não é o mesmo; mas esta sensação de estar no deserto, ligeiramente inquietante é.

Atravessa-se um parque natural e não se vê vivalma. Árvores e estrada, estrada e árvores.

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O A. está em seco. Foi preciso mudar-lhe o motor. Quem o fez (está quase pronto), foi um mecànico local. O resto é uma lista interminável de coisas a ser feitas pela tripulação. Interminável não é um exagero: o barco merecia um refit melhor do que o que teve, coitado. Penso em L., de Galveston: "Os barcos raramente têm os armadores que merecem"..

O primeiro passo está dado: esvaziar o barco todo e limpá-lo. Hoje vamos escolher o que guardar e o que deitar fora. Amanhã chega a metade da malta que falta. Daqui a uma semana largamos.

Espero.

........
Há muito demasiado tempo que não ponho as unhas numa máquina de navegar. A. portou-se mqais do que honoravelmente na America's Cup. Das quarenta e nove regatas em que participou ganhou vinte e quatro.

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Num 12m a caminho de Antigua.  Preciso de repetir-me isto todos os dias ao acordar, para ter a ceretza de que não estou a sonhar.

13.2.15

Dia, noite

Penso no que tenho escrito sobre os lados holandês e francês da ilha e apercebo-me de que a noite é a vida.

O dia não passa de uma ponte, um passadiço, um intervalo.


Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 12-02-2015

"Ľair du printemps est une chose souple et tendre
Les pores s'ouvrent et ľair entre en nous
Et nous, nous nous répandons délicieusement en lui"

(Cito de memória, deve haver falhas. O poema é de Charles Baudouin).

Talvez seja isto a felicidade: o Lagoonies vazio, a música sublime e a um nível perfeito, um soberbo jantar e um monte de amanhãs: o transporte para Antigua, um cata de sessenta e sete pés, a vida toda.

Não sei. Talvez devesse ser mais velho e pensar que a vida toda já foi; ou mais responsável e pensar no futuro, em vez de futuros; ou mais... sei lá. Não sou.

Sou menos e sou feliz. Que se foda o mais.

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Em breve não haverá trabalho aqui em St. Martin. Esta época passou a correr. Agora quero navegar.

Não é pedir muito. É pedir o essencial.

12.2.15

Jantar improvisado - frango com nozes, amêndoas e cardamoma

Mais um jantar porreiro no S., o 57' mais bonito dos hemisférios norte e sul, leste e oeste.

Merece ficar registada, apesar de não ser definitiva. Precisa de algum trabalho:

Refogar nozes, amêndoas e cardamoma em grão; juntar o frango. Acrescentar água e deixar cozer.

Especiarias: pimenta, paprika, cominhos e curcuma.

Um iogurte e algum limão não teriam feito mal nenhum.




10.2.15

Porque sim

Foi assim. Enganámo-nos os dois. Tu porque sim e eu porque não.

Um dia desenganar-nos-emos. Sim.

Faísca, fogo

Era assim que sonhava contigo, quando sonhava: os cabelos, as mamas, o olhar, as mãos. Dessas partes eras o todo. Não te amar foi um privilégio, uma conquista, uma sorte.

Uma faísca. O fogo, esse, ficou.

(Para a A. I., com um beijo e uma chama.)

Diário de Bordos - Marigot, St. Martin, Antilhas Francesas, 09-02-2015 - II

Ontem tive de explicar ao A. duas ou três coisas. Por exemplo: agora temos um pequeno problema. Se tu continuares, vamos ter um grande problema. A escolha é tua.

Perguntou-me o que é que eu queria dizer. "Quando tiver que te explicar explico. Por outros meios".

Tudo indica que percebeu sem que eu tivesse de lhe explicar. Não sei. Vamos ver.

Não tenho jeito nenhum para office politics.

........
Vou continuar a trabalhar para a onírica empresa que me aceita no seu estranho seio.

Há coisas que o dinheiro não paga.

Diário de Bordos - Marigot, St. Martin, Antilhas Francesas, 09-02-2015

A descrição do problema é complicada. Envolve três variáveis (a legislação francesa, a prática da empresa e a Banque Postale); a das suas consequências, pelo contrário, é muito simples (apesar de profundamente oximórica): trabalho muito e não tenho um chavo no bolso.

Hoje fui depositar o primeiro cheque em meu nome na minha conta. Devido às particularidades da conta o dinheiro só fica disponível no fim do mês.

Outra parte do meu salário é paga por transferência bancária de uma empresa sedeada na ilha Maurícia.

Não sei quando chega e se a mesma regra dos dezasseis dias úteis para poder movimentar os fundos (no caso os baixos) se lhe aplicam.

Fui dormir a sesta. O sono é a melhor maneira de desatar nós.

........
Dia vinte e cinco ou seis vou para a Florida. Uma a duas semanas depois estarei em Antigua.

Algo me diz que o meu regresso a St. Martin é incerto.

........
"Não te aborreces?" pergunta-me C., o chefe de base. "Não", respondo. "Estou demasiado cansado". É parcialmente verdade. A outra parte do remédio são os livros: acabei Behind Closed Doors, uma excelente, pormenorizada e competente descrição das relações entre Stalin, Churchiĺl e Roosevelt; entre ontem e hoje li To Kill a Mocking Bird, livro sublime que acho injusto só agora ter lido.

(Escrevo isto e penso numa das suas frases: "se tirares os adjectivos ficas com os factos").

Estou para sempre enamorado de Scout Finch, a mais gloriosa, terna, encantadora e valente de todas as marias-rapazes da literatura. E não me importaria nada de ter tido Atticus Finch como pai.
.........

Amar a vida como eu amo é como amar uma mulher feia, ou perturbada. Tem decerto outras qualidades.

6.2.15

Pessoas que encontrei pelo caminho - II: Nike Steiger (Intro)

A série Pessoas que encontrei pelo caminho está injustamente quase vazia.

A Nike tem nela o seu lugar reservado. É uma jovem alemã que conheci em Shelter Bay.

Na verdade é muito mais do que uma jovem alemã: é uma marinheira, e os narinheiros não têm nacionalidade nem idade.

Escrevi um texto para o seu blog. Precisa de duas ou três correcções, mas ficam para depois.

O texto que escrevi é este. Fala mais de mim do que da Nike. Na verdade é um preâmbulo a um longo texto que um dia - cada vez mais próximo - escreverei sobre ela.

5.2.15

Circo, palhaços

Isto dito, não tenho nada contra os palhaços, naturalmente.

Sem eles (mai-los domadores e os trapezistas) não haveria circo.

Diário de Bordos - Marigot, St. Martin, Antilhas Francesas, 04-02-2015

Ontem dei vinte dólares a um tipo que me prometeu devolver-mos hoje. Eu sabia que ele estava a mentir e de vez em quando gosto de confirmar as minhas intuições. É tão raro ter razão...

Na verdade ter cinco dólares no bolso - a soma com que fiquei depois do meu misantropo gesto - não é muito diferente de ter vinte e cinco. Um dia e meio de comida, talvez.

O que é um dia e meio numa vida?

........
Começo a estar cansado de St. Martin. Haverá alguma vacina anti-nomadismo?

........
A lua está cheia e sobe a toda a velocidade. Em breve vou para bordo dormir.

Para fazer um haiku agora precisaria de um gato, ou chuva, ou um sentimento. Inesperados, claro.

O cansaço não serve.

.......
Pouco acima da lua está um planeta. Não sei qual. Talvez Marte ou Júpiter. Por baixo estão núvens. Cumulus, com um bordo dourado (esbranquiçado, neste caso).

Não há chatice que olhar para cima não cure.

3.2.15

Diário de Bordos - Marigot, St. Martin, Antilhas Francesas, 03-02-2015

Este blues tem um nome. Chama-se blues da árvore seca. Bare pole blues.


Os problemas administrativos e burocráticos - passe a redundância - mudaram de sede (agora estão no banco) e estou de novo à sec de toile.

E cansado: há um mês que trabalho sem folgas. Hoje tirei uma. Duvido desta expressão: tirar o dia. Tirar? A quem? O dia é meu. Não tirei uma folga. Não tirei nada a ninguém. Ofereci-me uma folga. Ou duas: amanhã também não trabalho.

De qualquer forma estou farto de reparar embarcações de recreio. Se não for para o mar morro.

No mar não tenho de me preocupar com assuntos financeiros, administrativos e burocráticos - os três venenos de um homem livre -.

........
R. emprestou-me dinheiro, o Lagoonies e o Sous-marin dão-me crédito, a Little Crew House também, vivo num barco cedido pela empresa de sonho para a qual trabalho em regime livre.

Já estive em piores lençóis.

(Estes são os meus argumentos contra o blues da árvore seca, sem resultados infelizmente).

........
Ontem paguei o jantar à D. e ao R. apesar de não ter ainda a certeza sobre o que me fizeram à tarde.

Não há falta que mereça a fome como punição.

........
Bare pole blues

Ou tenho vento ou tenho velas.

........
Fim de tarde no Lagoonies: a luz escoa-se pelo fim do dia, densa como o desejo e terna como uma carícia numa pele vivida.

Gosto de dias que acabam assim, com uma promessa, uma reverência, um abraço.

........
Hoje não trabalhei. Que bom! Precisamos de nos afastar do que gostamos.

Ou do que não gostamos: o importante é a distância, não aquilo de que nos distanciamos.

........
Bare pole blues

Se há velas não há vento
e se há vento não há velas.

Falta sempre qualquer coisa
para sair da árvore seca.

........
Declaração de amor à vida: todos os dias, todo o dia.

........
A senhora da Banque Postale que abriu a minha conta faz qualquer bancário português passar por um modelo de virtude e honestidade.

Começou por me mentir descaradamente sobre o montante mínimo a depositar para a abertura; e continuou mentindo-me sobre o tempo que leva.

Suspeito que quer ser promovida.

........
Não ter computador e ser obrigado a escrever num telefone portátil é uma chatice, mas tem pelo menos duas vantagens: escrevo menos inanidades e só as que são inevitáveis.


29.1.15

Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 28-01-2015

Foram-se um computador, um telefone e um bocadinho de ego.

O telefone já voltou; ego faz pouca falta, tenho que chegue; falta-me o computador. Muito. Mas enfim, vou de novo confirmar que "muito" é relativo e que se pode viver com muito menos do que se pensa.

Ego e computador incluídos.

........
Procuro activamente uma stew. Se alguém souber de alguém que queira um trabalho em barcos à vela por favor transmita.

O salário não é grande coisa, mas a vida podia ser pior.

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O que me assusta na expressão "trabalho estável" é o adjectivo.

O substantivo (e verbo) é um amor de palavra.

Mesmo que se refira a manutenção de embarcações de recreio.

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Nasci com dois braços esquerdos. Não tenho jeito para trabalhos manuais. Nem apertar parafusos sei.

Mudar de preconceitos é bom. Vê-los progressivamente trucidados pela realidade ainda melhor.

27.1.15

Lauda, laudae

Que inveja tenho de quem sabe cantar laudae.

Se eu soubesse cantaria uma e uma só: à vida e ao vento, ao mar e ao amor.


Ser, não-ser, proporções

É noite e a vida volveu ao normal: tenho  facebook, gmail e DV. Um espaço virtual no não-mundo em que vivo.

Deve ser de uma sensação semelhante que nasceu o mito do tapete voador. É num deles que vivo. Às vezes aos comandos, outras comandado, outras ainda - a maioria - nem uma nem outra.

O que não comanda não se deixa comandar, tal como o que vive não se deixa matar, o que luz apagar, o que voa abater.

Somos o que somos e o que não-somos. Só variam as proporções.

Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 26-01-2015

Estou de novo condenado a escrever num telefone portátil: ontem escorreguei a entrar num dinghy e fui para a água. Eu, o telefone que herdei do T.L. e o computador Asus comprado em Galveston.

Os danos são: a) um ego molhado pela água suja da laguna, pesado com a má-consciência de fazer, outra vez, um erro básico e chateado com o dinheiro que a distracção custa (deviam fazê-las mais baratas, ainda que com mais custos intangíveis); b) um telefone portátil no lixo. Pouco grave. Estava previsto; c) um computador portátil idem.

É o pior. Não vale sequer a pena elaborar. E não sei quando poderei comprar outro.

Este deve ter batido o recorde de brevidade de vida: dois meses.

........
A semana de charter correu demasiado bem.

Estas coisas pagam-se.

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Falo com o filho do meu melhor e mais antigo amigo (não é uma redundância. É um espanto).

Está na Tanzânia em trabalho. Digo-lhe para ir a Kigoma, onde uma vez sobrevoei um engarrafamento de vinte e cinco quilómetros de vagões de caminhos-de-ferro. Fica nas margens do lago Tanganika.

Fui lá para ver se havia maneira de escoar aquilo tudo mais rapidamente. Não havia.

É preciso imaginar a linha de Cascais cheia de comboios parados para se perceber a dimensão do absurdo.

Às vezes parece-me que vivi. Deve ser uma ilusão, como todas as outras.

........
Hoje soube que vou ter mais charters. Provavelmente duas semanas por mês.

Gostaria de ter mais uma: três semanas de trabalho e ums de descanso, em vez de duas de charter e duas de manutenção.

Se calhar é a isto que chamamos vida: a bóia de barlavento chama-se realidade e a de sota sonho, ou desejo, ou o que devia ser e não é.

.......
Uma promessa é uma promessa e com o meu primeiro salário fui comer ao Bistro Nu.

O meu colombo é melhor, mas mesmo assim foi um grande jantar.

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Os serviços de transporte público em St. Martin (e em St. Maarten - salvo explicitamente contrariado uso-os indiferentemente -) são fornecidos por táxis, buses e gipsies.

Estes operam sobretudo aos domingos, quando há menos buses e cobram os mesmos preços, apesar de terem menos custos e - regra geral - menos capacidade.

Tenho uma enorme simpatia por eles, tanto mais que os chauffeurs de bus são geralmente antipáticos.

Hoje porém vi um fazer uma coisa e quase mudei a minha percepção: numa paragem (das quais algumas têm lugar designado e a maioria depende do driver please stop gritado pelo passageiro que quer descer) o condutor parou a carrinha de modo a bloquear o trânsito que vinha no sentido oposto, para que o passageiro - um miúdo - pudesse atravessar a estrada em segurança.

Começo a gostar desta ilha, o que é tão agradável como inesperado.

Retratos quase reais

Uma sublime velhaca: não havia maldade na sua velhacaria.

Não é por crueldade que o sol nos queima, ou a escuridão nos impede de ler.

17.1.15

Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 16-01-2015

As marés metafóricas não mudam como as reais, com uma precisão lunar, previsivelmente. São irregulares, repentinas, avassaladoras. A minha mudou hoje. Acabou a vazante, começou a enchente.

E que enchente. Fui pago e amanhã começo uma semana de charter. Vou às BVI, um arquipélago no qual não gostaria de viver mas onde gosto de ir. Ainda não sei o percurso: é charter à cabine, versão marítima de conduzir autocarros.

O que demonstra quão melhor é tudo o que é marítimo: até conduzir autocarros é bom.

16.1.15

Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 15-01-2015

Hoje a prelecção de Francesco começou pelos preços das coisas. No lado francês são muito mais baratas, coisa que Francesco não compreende, não aceita e contra a qual se revolta. E me revolta.
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Agora vai no vegetarianismo; veganismo; o tio dele e respectivo pai; um gajo qualquer que tem cancro e o tratou com comidas naturais devido ao conselho de um "quase guru" (sic) indiano.

Coisas que não aparecem na televisão porque é preciso comprar gorduras, etc. e enriquecer as empresas que querem ganhar dinheiro matando-nos, etc.

Digo que sim a tudo. Posso não ser um ouvinte atento mas sou fácil. Não contesto, não respondo, Não por falta de educação ou de interesse, muito longe disso. Mas porque acho pena interromper um fluxo de palavras tão bonito, tão largo, tão tranquilo, no fundo.

(Isto dito, Francesco come carne e aceita o vinho que lhe ofereço. Mas sabe que "quando morrer não culpará ninguém se não ele próprio").

Os temas já variaram bastante, entretanto. Agora está a falar da mãe e da cozinha dela. A garrafa de Frontera que comecei no início do jantar - isto é, incluíndo o cozinhar - e da qual lhe ofereci dois copos está quase a acabar.

Transpiro abundantemente, em partes iguais devido ao picante, ao silêncio do Francesco (calou-se para comer e o silêncio é abafador) e ao calor na cozinha da Little Crew House.

Talvez não seja em partes iguais. Francesco tira a camisa, o que num gajo magro quase esquelético é sinal de calor a sério.

........
Vou para a varanda fumar o cigarro que troquei por um dos copos de vinho. A varanda tem muitas vantagens: vento, Sirius, posso estar descalço sem pensar que estou a andar em cima de uma porcaria qualquer (o chão é de madeira, à moda caribenha, tábuas afastadas para escoar a água da chuva). E tem Ph., o homem que ontem estava aflito porque só tinha cem dólares, quantia com a qual me sinto quase rico.

"Estoy borracho. Desculpame" (falamos espanhol. Ele vive em Mallorca). "Por amor de Deus, Ph." não lhe respndo. "Ontem foi a minha vez".

A varanda está voltada a Sul. O vento entra pela esquerda. Sirius está a Sueste. É o único astro que se vê. Ph. foi para o quarto, Francesco idem. Volto para a cozinha. Ainda tenho um copo de vinho, e não consigo escrever bem (nem mal, de resto, como é mais frequente) na varanda, porque não há mesas. Há sofás confortáveis onde me posso sentar e esticar as pernas.

........
Penso muitas vezes na reforma. Tenho duas alternativas: um cancro benfazejo ou o mar.

........
Fui trabalhar para o C. e por conseguinte consegui comprar comida. Fiz uma espécie de caril com o peixe que me sobrava. Não consigo imaginar-me a pedir crédito ao chinês (ou à chinesa. Ele não fala uma palavra de inglês). À Olivia do Lagoonies é mais fácil.

Não é por racismo, claro - quando muito seria por socialismo - mas não deixo de pensar que é irónico: se a senhora soubesse de certeza me pediria para ser o mais racista possível.

(Francesco acha que são "ladrões autorizados" e que eu devia andar quinze minutos, depois do trabalho, para ir ao supermercado grande do lado francês, poupar dinheiro nas compras e ganhar em qualidade. Eu não. Estou-lhes grato por serem do outro lado da rua, por terem leite e gengibre e frango, peixe ou carne picada congelados, ovos, bacon, sal e azeite. E vinho. Nunca lá comprei utras coisas, que assim de repente me lembre).

E sabonetes. Hoje comprei um, enquanto não chegam os sabonetes / shampoos da Grão da Terra. É um luxo, eu sei, importar sabonetes artesanais do Alentejo.

Como dizia M., ontem "sê gentil contigo". Sou.

........
Não tenho medido o nível de coiso no sangue. A julgar pelo tinitus deve andar na estratosfera. Bom proveito. Pelo menos adoça-a.

........
O Lagoonies fechou, o vinho acabou, o tinitus urra, a loiça pede-me insistentemente que a lave, para ir dormir.

Daqui a pouco estarei a dormir. Há pessoas que não gostam de viver ao dia a dia, Acham desestabilizante, ou coisa que o valha. Eu gosto; mas não é ao dia a dia. É ao sono a sono.

15.1.15

Os outros; nós

Porque é que cada mulher fantástica que conheço tem um marido detestável?

Serei detestável, eu tambèm?

(Sou. Eu sei. Mas não é isso que quero dizer).

Mar

Se eu soubesse desenhar transformaria esta fotografia num desenho.


Erros, eros

Por onde começar? Pela cabeça - coitada? Pelos pés, tão apertados?

Por onde acabar?. Como foder uma asneira? Pô-la por cima? Por baixo? Ao lado?

A única maneira de conviver com um erro é deixá-lo foder-nos. No outro sentido a coisa não funciona: um erro é uma entidade autónoma, independente, masculina.

Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Hlandesas, 14-01-2015, cont. cont.

And then suddenly un oiseau s'est échappé de sa cage e o G. come a sua comida vegetariana e eu, cujo ego levou um arrombo hoje (e a V. disse "ainda bem, os egos todos precisam de vez em quando de ser amachucados") tento compreender o dia.

Não é fácil.

Espetei-me num barco fundeado. Ponto final. Não tinha o motor de bombordo e A. não me ajudou com o dinghy. Mas isso são merdices. Punhetas.

Agora estou a beber esta merda. Daqui a pouco vou fodê-la.

Depois se vè, como diz o cego à mulher. Que é surda, coitada.

Diário de Bordos - Marigot, St. Martin, Antilhas Francesas, 14-01-2015 - Cont.

Uma das minhas avós ensinou-me, aos dezoito anos, que não se deve confundir amor, casamento e sexo. Eu era demasiado novo para perceber a lição, claro.

A mesma avó dizia-me que a única maneira de resolver problemas era dormir com eles. Também levei algum tempo a perceber.

A única - ou pelo menos a mais eficaz - maneira de resolver problemas é fodê-los. E quanto mais os problemas sabem, ou gostam de foder (é quase a mesma coisa) melhor é.

Na verdade, sei agora, talvez seja mesmo a melhor maneira de seleccionar problemas: os que não merecem ser fodidos não devem sequer ser considerados.

14.1.15

Diário de Bordos - Marigot, St. Martin, Antilhas Francesas, 14-01-2015

Não sei o que o dinheiro faz à felicidade; mas sei o que a ausência dele faz à ausência dela: potencia-a. A culpa é minha, claro: deixo sempre a corda ir até ao último nó, o elástico até ao milímetro antes de rebentar. Ontem Ph. dizia-me na Little Crew House que não tinha dormido bem. Estava à espera que o armador lhe enviasse dinheiro. Já só lhe restavam cem dólares. Eu tenho dez, disse-lhe. Mas estava a exagerar. Na verdade tenho quatorze.

E J. perguntara-me se precisava de dinheiro. Disse-lhe não. Esperava ter o cheque da empresa hoje, mas ainda não foi desta.

A transferência do Ph. chegou hoje de manhã. Espero que o meu cheque chegue depressa, ele também. Estou cansado do trabalho e farto deste problema do dinheiro. Amanhã não trabalho nem que a frota seja engolida numa vertigem de avarias, num abismo de problemas a resolver.

........
Trabalhar na manutenção de embarcações tem duas desvantagens: o salário é relativamente baixo e o trabalho exigente fisicamente. E uma grande vantagem: não há melhor maneira de ficar a conhecer barcos do que mexer-lhes nas entranhas. E quando, como aos fins-de-semana, é sob pressão (entre as nove da manhã e as cinco da tarde temos de os reparar) ainda mais.

É preciso uma enorme capacidade de improvisação, flexibilidade tanto física como mental, saber gerir a pressão. Qualidades boas, prazerosas.

Apesar disso tudo, preferia estar no mar.

........
Escolher um sítio para almoçar é resolver uma equação com quatro variáveis: a qualidade da comida, o seu preço, existência ou não de wi-fi e a taxa de câmbio do dólar.

A ordem não é necessariamente esta; ou pelo menos sempre esta. Acabo invariavelmente no Sous-marin, que responde favoravelmente a três dos quatro critérios.

À noite a equação é mais simples: por defeito cozinho na Crew House; se não tenho dinheiro, janto no Lagoonies. Uma das curiosidades da vida na parte inferior do leque de rendimentos é que se acaba por gastar mais, pelas razões mais inesperadas.

........
À tarde o vento cai, diz a meteorologia. Espero que sim. Gosto de vento, mas esta última semana tem sido insuportável. Vinte e cinco, trinta nós todos os dias, permanentemente acaba por cansar.

Manobrar na Marina Fort la Royale nestas condições exige uma concentração e um cuidado excepcionais, cansativos.

........
Tenho um novo colega de quarto. É preciso reconhecer a boa sorte: tal como o Ernesto Edwin é cuidadoso, educado, não faz barulho. Ao menos isso.

Se me apanho numa casa nem acredito. Ou num barco. Ou no mar, a mil milhas do porto mais próximo. É o melhor lugar do planeta.

Ou o único.

13.1.15

Desajeito. Tolerância

Pronto, yes, sim, oui, da. Vamos deixar as palavras fugir, como se fossem veados a escapar de um aquário, mosquitos de um sítio sem luz, eu de um  bar com a música demasiado alta.

Vamos pensar em palavras. Ao acaso: música. Bullshit. Vinho. Vinho outra vez.    

Mar. Intolerância: deve o mar acolher pessoas que não são marinheiras? Não, claro. Sim. Não suporto elefantes no mar. Como será uma foca em terra?

Como eu quando estou em terra. Desajeitada.

Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 12-01-2015

Dia trinta de Janeiro vou à Florida buscar um barco e levá-lo até Antigua. Uma embarcação feita para a America's Cup (perdeu), agora transformada para charter.

Parece-me uma boa maneira de regressar a Antigua.

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Mais um dia de loucos. O jovem local com quem trabalho só fez asneiras. Do princípio ao fim, e não só profissionais.

Que sorte tenho com os meus filhos: apesar do pai que têm saíram bem-educados. O meu obrigado à Mãe deles é absoluto, eterno.

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No Lagoonies - e para além dele - trava-se uma feroz batalha entre a fome, o barulho (ou música) e a falta de dinheiro.

Estou cheio de fome, tenho de lá comer porque é lá que tenho crédito mas a música - ou melhor, o seu nível - é insuportável.

O princípio do fim deste calvário é amanhã, creio. Enfim, dizem-me. E eu acredito. De pouco me serviria não acreditar. C., o chefe de base é um tipo decente, vê-se à légua. E A., a responsável pelo departamento técnico, uma mulher admirável.

Às vezes penso descrever um dia de trabalho, mas depois parece-me que para os leitores deve ser uma seca incompreensível. Ou então que vão pensar que estou numa casa de doidos, e o que faço é o equivalente aquático de senhores a passear no Júlio de Matos com um funil na cabeça.

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A música da pequena banca de drogas não é tão boa como a do Lagoonies - não chega sequer a ser música - mas está mais baixo. Só por isso merece um obrigado. Só lamento que não vendam comida. A crédito, claro.

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Tenho estado sozinho no quarto, mas hoje chegou uma pessoa. Não sei por quanto tempo. De qualquer forma C. vai para a água amanhã, de maneira é provável que eu possa finalmente mudar-me em breve. Que bom seria.

Viver nm barco na marina de Fort Louis, enquanto espero a viagem para Jacksonville. O céu não deve ser muito diferente.

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Vir para St. Martin em vez de voltar para Lisboa, como tinha planeado, não foi uma decisão fácil. É táo fácil enganarmo-nos.

E tão bom.

12.1.15

Com princípio sem fim

Amanhã partimos para ontem ou hoje. E se partirmos hoje vamos para amanhã. Esqueçamos ontem.

O destino depende da partida: é por isso que ontem nunca acaba. Os dias todos: começam mas não acabam, como as viagens, as vidas e alguns amores.

Nougaro

Uma vez trabalhei num bar em Genève chamado Moulin à Danses. MAD. Moulin.

Numa altura em que praticamente não havia discotecas em Genève - e as que havia eram péssimas - o Moulin era uma espécie de porto de abrigo, símbolo de status, ponto de encontro. Era um clube privado e mais difícil lá entrar do que num harém.

De barman às vezes. Outras servia às mesas. Acabei por ser despedido: um dia um cliente bêbedo agrediu alguns clientes e uma empregada com uma faca e eu bati-lhe. Demais, no dizer dos pacifistas que dirigiam a coisa.

Uma vez o Claude Nougaro foi lá cantar. Não tinha grande estima pelo homem: alguns anos antes ouvira-o em La Chaux-de-Fonds cantar música brasileira e não achara que as canções - nessa altura conhecia-as de cor - ficassem a ganhar com a tradução para francês.

Estava de barman. Quando o concerto acabou o Nougaro veio ao bar pedir uma bebida. Ficámos na conversa, não sei se por causa desta canção. Espero que sim.

Falámos a noite toda, ele ao princípio ligeiramente mais bèbedo do que eu. Lembro-me de que tinha um complexo por ser baixo, e de que a Ile de Ré ficou, para sempre, uma das minhas canções favoritas.

Se calhar já era, não sei.






Jé estive aí

Não sei por que raio de carga de água penso agora na relação entre os países comunistas e o marxismo.

Ou na ausência de relação: nenhum país comunista representava o verdadeiro marxismo. Todos sem excepção eram deturpações. O verdadeiro marxismo mostraria ao mundo o que na verdade é ser marxista.

11.1.15

Definição

Boa música é aquela que te impede de ir dormir quando estás cheio de sono.

Ou de rum, é quase a mesma coisa.

Piadas

Tenho duas piadas para os senhores da imigração dos diferentes países por onde passo. Uma é a morada: avenida da Liberdade, nº 1, Lisboa, Portugal (não sei quem lá mora, mas desde já as minhas desculpas). A outra é a profissão: travel writer.

Diário de Bordos - Cole Bay, etc.

"Il faut monter le niveau du sax". A música do Lagoonies hoje é completamente diferente. Uma banda a tocar o que lê numa pauta. Com o nível de som perfeitamente aceitável. Tangos. Gastei uma parte substancial do dinheiro que me resta num corona Partagas. É fútil, claro. Mas acho que se deve pôr o bolso onde se põe a boca. E já agora a boca. Que se foda o açúcar.

Sax, acordeão, orgão (eléctrico, mas orgão) e um baixo. E tango, bem tocado e cantado.

"Are you a happy skipper?" perguntou-me há pouco o gajo completamente grosso que me deu boleia de Marigot para Cole Bay. "Yes", respondi. Há muito tempo que não dizia uma verdade tão grande.

Tão boa.

Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 10-01-2015

Poderia começar por dizer "O chuveiro da Little Crew House é comparativamente sujo", mas a frase teria um defeito: abre portas, não as fecha. Comparado a quê? Não sei. A milhares de chuveiros por onde tenho passado, por exemplo. Mas está longe de ser o mais sujo. A uma ideia platónica de chuveiro ideal. Não gosto de Platão, nunca gostei. Não vivemos uma caverna, por metafórica que seja. Ao chuveiro da mamã. À cozinha da Little Crew House.

Talvez. Não sei qual é mais sujo: se o chuveiro se a cozinha.

........
Deixei três dólares debaixo da garrafa de bourbon do G. Hoje disse-me que não estavam lá. Má sorte, mate.

Não deixo outros.

.......
Ontem a carcaça riu-se quando saiu do pique de ré do C. Hoje chorou: passei o dia a fazer ioga, outra vez. Não sabia que a cavalariça era tão flexível. Enfim, não sei se é. Sei que passa os dias em lugares onde a priori parece não haver espaço para ela e para o trabalho que a levou lá.

Mas acaba sempre por caber; e fazer. É uma cavalariça decente. Provavelmente boa de mais para o cavalo que acolhe.

.......
Muita conversa e pouco mar. Devia ser ao contrário.

10.1.15

Os bons, os maus e os inteligentes

É-me dolorosamente incompreensível que toda a intelligentsia bem pensante esteja neste momento tão preocupada em fazer a destrinça entre muçulmanos bons e muçulmanos maus.

A verdade é que até agora os "bons" nunca se manifestaram claramente contra estes actos de barbárie - o que de resto a meu ver ajuda a explicá-los -.

A mesma intelligentsia que defende a Palestina e acha os Israelitas uns selvagens.

Vómito d'alma

Uma senhora por quem tenho um infinito respeito diz-me que o DV é bom. Eu não acho. Parece-me uma merda, um vómito.

Tem apenas a qualidade de ser um vómito que vem directamente da alma.

Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 09-01-2015, cont.

Nunca mais vi G. de cuecas. Agora aperalta-se. Deve ser por causa da chegada de uma jovem senhora, com a qual fala bastante. Em troca ela usa-lhe o computador enquanto ele vai trabalhar (ainda não percebi bem em quê ou para quem. Sei que tem um barco que ou se afundou ou sofreu bastante com o ciclone Gonçalo. No sábado a seguir ao fim do ano tirou o mastro do fundo da laguna. Estava torcido porque foi um dos que passou debaixo da ponte. A qual estava, naturalmente, fechada).

Verdade seja dita que não o vejo de cuecas, mas vejo-lhe as cuecas: os calções nem para trapos davam. Têm mais buracos do que tecido.

Hoje tentava resolver um dilema dilacerante, passe a aliteração: só tinha dois dólares e não sabia se devia ir ao chinès comprar uma cerveja (um dólar e vinte e cinco cèntimos) ou ir ao Lagoonies (dois dólares). "É melhor ir ao Lagoonies mais tarde, quando já estiverem todos bêbedos. Agora ninguém me paga uma cerveja. Daqui a duas horas sim".

Foi, por conseguinte e justificadissimamente ao chinês.

É um dilema que eu conheço muito bem, em termos diferentes. Sou incapaz de ir a um bar à espera de que alguém me pague uma cerveja. Mas já me aconteceu, por exemplo, ter de optar entre apanhar um autocarro e beber um café (ganhava este, invariavelmente). Ou comprar comida fazendo atenção aos cêntimos.

Tinha resolvido não lhe dar nada, porque ontem ele teve uma atitude desagradável. Não comigo, mas uma coisa que lhe expôs o carácter como os calções lhe mostram as cuecas. Porém a verdade é que comprei coxas de frango congeladas para o jantar, os bicos do fogão nem para metáforas servem e acabei por lhe propor um negócio: eu dava-lhe os cinquenta cêntimos que faltam para ele comprar outra cerveja no chinês e em troca ele deixava-me usar um bocado do Bourbon com que anda a tratar uma constipação (tratamento de resto intensivo: começa ao pequeno-almoço e acaba muito depois do jantar).

Disse que sim, alegremente."Good deal". Alguém lhe deve ter oferecido a garrafa.

Infelizmente usei muito mais do que pretendia e vou dar-lhe dois dólares. Assim fica como começou.
(Acabei por lhe deixar três dólares: bebi uma rolhinha ou duas, para ver se ainda gosto de Bourbon. Gosto).

........
De maneira que o meu jantar hoje vai ser um bastante estranho: cebola, pimentos, quatro malaguetas das muito picantes e gengibre salteados em azeite, déglacés em cerveja (um fundo de garrafa que pus na panela para não beber). Frango congelado frito muito superficialmente, flambé em bourbon e posto na panela a cozer em leite de coco, ao qual foi copiosamente acrescentado pó de caril e pimenta.

Talvez não seja cozinha de fusão; mas mistela de fusão é com certeza.

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A minha generosidade com o G. vem na sequência de um excesso de generosidade comigo: comprei uma garrafa de vinho que ainda não sei se é boa, mas que custou dois dólares mais do que a zurrapa habitual.

Pode ser-se pobre, mas não se devem ser miserável. O dia soberbo, sublime, mágico de hoje aguenta bem uma liberalidadezinha, um pequeno excesso ou dois.

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A cozinha da Little - mas insisto compreensiva - Crew House não é das mais limpas que tenho visto. Nem das mais bem equipadas. Cozinhar aqui não é propriamente um prazer. Hoje hesitei bastante : uma boa garrafa de vinho ou um jantar fora?

O problema estava enviesado, claro. Nunca compraria uma boa garrafa de vinho para beber nas chávenas (não há copos) do hostel. Acabei por gastar menos no chinês do que gastaria indo comer a um restaurante, tenho jantar para três dias e ainda ajudei um inglês tosco. É irrelevante, eu sei; mas que se foda a relevância.

O vinho é efectivamente melhor do que o outro. Por seis dólares não se pode pedir muito mais. O frango... bem o frango fica para depois. Ainda está a cozer. A música no Lagoonies está como todas as sextas: boa, demasiado alta e uma seca.

Nao sou muito chauvinista. Não sou nada. Mas todos os proprietários de bar deviam ir fazer um estágio ao Café Tati, sito no Cais do Sodré, em Lisboa, para perceberem o que é uma boa programação musical.

9.1.15

Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 09-01-2015

Um dinghy de 17' com um motor de noventa cavalos que não é bem um dinghy, é um tapete voador; um dia lindo; percorrer a laguna nos ditos dinghy e dia.

Tudo isto precedido por uma soberba carbonnade (de porco, pela primeira vez na vida. Deliciosa). E sucedido por um rum punch com mais rum do que punch, porque na verdade o que me faz mal na mistura são os sumos de frutas, açúcar puro. O rum não: é açúcar destilado, sem demónios.

Esticando um bocadinho a definição de trabalho posso mesmo dizer que tudo isto foi trabalho.

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Como levar a sério a burocracia francesa?

Sinto-me como se estivesse a combater um tanque armado com uma fisga. Terei uma quantidade infinita de pedras? Se sim, ganho. Se não perco.

Uma vez mais confirmo a minha opinião sobre os governos, todos: não há declaração de intenções, de objectivos, de projectos, programas e mai-la puta que os pariu que não seja balela.

A próxima vez que ouvir o palerma do Hollande falar de luta contra a exclusão social esfrego-lhe a minha história nas ventas. Anda aqui um pobre skipper solitário e longe de casa a tentar integrar-se na sociedade francesa e só lhe aparecem obstáculos pela frente.

Parece que estou a subir uma escada rolante descendente. Só temo que isto se transforme num desafio. Queira deus que não.

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Hoje explicava ao Greg porque não podia pagar o alojamento e ele, mal eu começara, perguntou-me "Estás a trabalhar do lado francês? Então não há problema".

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Vou deixar o dinghy / tapete voador antes do segundo rum punch (e na happy hour, ainda por cima). Sou um fraco carácter, mas profissional.

De qualquer forma a partir de amanhã vou ter uma semana de dias loucos, nos quais o profissionalismo se mede pela capacidade de gerir o caos e não de o criar.

Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 08-01-2015

É preciso começar por dizer que a burocracia francesa ganhou o primeiro round por KO técnico. Técnico num sentido metafórico. Num arremedo de proteccionismo inqualificável a derrogação que me tinha sido concedida pela própria burocracia francesa não foi aceite.

Alguém um dia definiu burocracia como sendo um sistema em que o funcionário que nos atende ao guichet tem demasiado poder. Hoje não foi um funcionário do guichet; foi o chefe do escritório, o equivalente da pessoa que em Fort-de-France há quatro anos me passou o documento, com uma rapidez notável, porque eu precisava de tabalhar.

Mas enfim, posso pelo menos trabalhar nos pontões, coisa que vou fazer toda a semana que vem; e posso trabalhar noutra base da empresa de sonho que me acolhe, fora do território francês. E posso continuar a procurar empregos que não impliquem a burocracia gaulesa.

E já tenho uma residència oficial, primeiro passo para ter uma conta no banco.

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Hoje à tarde fui trabalhar para o C., instalar gualdropes e respectivos moitões. Um trabalho que me dispensa de fazer ioga: o pique de ré do C. não é feito para gajos do meu tamanho. Nenhum é, num sloop de 43', verdade seja dita.

(Quando saí de lá, o meu corpo desatou a rir-se. Quero dizer o corpo todo. Músculos, articulações, veias e artérias... tudo a rir à gargalhada. Eu também ri, mas mais discretamente.)

No fim do dia J. leva-me a casa dele para tomar um duche, dá-me roupa lavada e paga-me o dia, apesar de eu lhe estar a dever dois dias. Hoje disse-lhe que não queria o dinheiro: assim cada vez que trabalho aumento a minha dívida, não a diminuo.

Limita-se a responder que eu preciso do dinheiro - o que é imegável - e traz-me ao Lagoonies, onde aproveita para pagar uma bebida ou duas.

M., J., a empresa para a qual trabalho e não me pode pagar por questões legais mas que faz tudo para me manter, R., que hoje me ajudou a obter a residência, C. que fez a factura em seu nome para que eu possa, um dia, ser pago -... Se alguém me ouvir dizer que estou sozinho dê-me, por favor, uma martelada na cabeça.

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Hoje pela primeira vez desde que saí de Galveston medi a taxa do coiso no sangue. Estava altíssima. Parece que é por causa do tabaco. Dei um maço acabado de comprar ao R e deixei de fumar.

A cavalariça merece e o cavalo também.

Todos somos Charlie

Dizer Je suis Charlie não significa apenas que se está de acordo ou se gosta Charlie Hebdo. Significa reivindicar o direito de pensar ou dizer coisas eventualmente ofensivas para terceiros.

É por isso que não percebo aqueles que dizem que não são Charlie. Todos somos Charlie, excepto os vermes, as amibas e quem não tem coluna vertebral.


8.1.15

Os barcos e as secas

Só se deve falar de barcos com pessoas que sabem a seca que é falar de barcos.

Disparates, coros

Um dos grandes inconvenientes de ter um blog é que já há tantos disparates por aí que juntarmos-lhes os nossos é desnecessário.

Isto dito, tenho imensa pena - raramente, mas tenho - de não ver televisão. Acabo de ler um post que é uma crítica a um anúncio de televisão. Se bem não seja impossível, parece-me pouco provável que o anúncio seja tão mau como a crítica.

Deixar-me-ia indiferente se não tivesse ficado sem vontade de escrever. Para dizer asneiras não é preciso um coro.

Camus

"Faire souffrir est la seule façon de se tromper."

Caligula

Pena de morte?

Sou genericamente contra a pena de morte. Mas não sou fundamentalmente contra.

Acho que o autor do massacre na Noruega, por exemplo, devia ser morto. E os autores deste também.

Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 07-01-2015 - cont.

O dia começou mal, claro. A bárbarie é uma das coisas que ajuda a relativizar muitas outras. Enquanto esperava R. para tratar da residència - não apareceu, mas o meu stock de fúria estava esgotado e não me importei muito - vi televisão no café ao lado da Capitania.

Sou mau juiz, porque raramente vejo televisão e leio jornais (a menos que se considere ler os resumos do Observador como ler jornais. Trata-se apenas de uma boa aproximação). Mas pela primeira vez ouvi de boca de um dirigente muçulmano uma condenação clara, explícita, firme, sem ambiguidades.

É por aí que tem de se começar: enquanto a comunidade muçulmana não condenar estes atentados a amálgama entre muçulmano e terrorista não terminará.

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R. não apareceu, já o disse. Fica para amanhã. Mas aprocura de trabalho deu alguns frutos: três dias de charter numa empresa rival daquela em que trabalho, ou trabalhava; e um cata de 52' que precia de uma tripulação skipper / stew.

Estava com C., uma jovem italiana com bastante experiência do meio e me propôs procurarmos trabalho juntos. Infelizmente a rapariga fala de mais e disse duas ou très coisas que não devia ter dito ao agente.

Vamos ver. Tenho o perfil e pedi um salário no limite mais elevado da fasquia. Um bocadinho de estabilidade sem problemas de residência, bancos e concomitantemente cartas de condução vinha mesmo a calhar.

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Afinal a luta entre o sistema imunitário foi breve, intensa - passei o dia todo meio febril - mas acabou com uma clara vitória da cavalariça. ajudada apenas por um toalhete anti-séptico que expirava em 2002 e trouxe do TL, juntamente com uma série de coisas de primeiros socorros que os armadores queriam deitar fora. Não acreditava em prazos de validade para gazes, ligaduras e quejndos e agora tão pouco acredito neles para o Iodine (suponho que seja a mesma coisa que Betadine, mas não tenho a certeza).

A infecção não passou mas está reduzida a uma mísera sombra de si mesma.

(Também usei uma daquelas coisas que desde a gripe das aves ou outra farsa qualquer se encontram em todos os escritórios e dizem "Mãos limpas começam aqui". Talvez tenha sido daí e não do Betadine. Mais uma razão para estar feliz com os três dias de charter, foi nessa empresa).

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Bebo o meu rum punch no Lagoonies. É mais barato do que um copo de vinho, e de qualquer tenho de incluir fruta na dieta. De repente ocorre-me uma pergunta fundamental, basilar: em quantos bares já terei estado desde que comecei a frequentar bares?

Que pena tenho de não poder dedicar muito tempo a este assunto fundamental.

7.1.15

O misericordioso voltou a atacar. Puta que o pariu.

Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 07-01-2015

Os meus telefones continuam a ser mortalmente atraídos pela água, qualquer que ela seja. Ontem no regresso à minha pequena e, acrescento agora, generosa e compreensiva casa escorreguei na valeta e caí naquela mistura de lama, esgotos, algas e lixo.

Para minha surpresa o telefone continuou a funcionar, apesar de todo molhado e coberto de lama. Só à noite me apercebi do verdadeiro dano: não carrega. Espero que seja reparável.

Compreendo esta atracção dos meus telefones pela água: eu também a tenho. Mas só pela do mar. E não é mortal, a minha atracção. Nem vital, de resto. É simplesmente vida, e vida dispensa adjectivos.

Eu fiz uma ferida na mão. Infectou a uma velocidade lancinante, claro. Noutras circunstâncias teria sido interessante assistir à luta entre a fauna bacterial de uma valeta de Cole Bay e o meu sistema imunitário. Infelizmente com a crise de chikungunya que por aí vai não posso arriscar e hoje vou à farmácia comprar uma pomada antibiótica. O médico bem me disse para me vacinar, mas por uma razão qualquer não o fiz.

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Escrevo de manhã. Hoje não vou trabalhar: vou dar os primeiros passos para a abertura de uma conta bancária. Até aqui o grande obstáculo tem sido a ausência de uma residência fixa. Antes sequer da ausência de fundos: uma concha vazia é uma concha, não um bocado de calcário, tal como uma conta é uma conta, vazia ou não. Se tudo correr bem esta tarde terei oficialmente uma residência. É o primeiro passo de um longo e pouco apetecível calvário.

Fictícia, claro, a residència. Mas que importa? Não há ficção maior do que a da burocracia. Responder-lhe com outra, bem menor é quase um imperativo moral. E residência por residência St. Martin não é a pior. Pelo menos aqui a carga fiscal é relativamente baixa. Não vai durar, é certo: a autonomia e o fim dos subsídios de França encarregar-se-ão disso. Mas ainda não é elevada.

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Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 06-01-2015

O vinho é francamente execrável. O peixe não (Swai is a white-flesh fish (typically available in fillet form) with a sweet mild, taste and light flaky texture that can be broiled, grilled, or coating with bread crumbs and fried, according to experts. It can be prepared simply, but also takes well to sauces. A 3.5-ounce serving of plain fish contains around 90 calories, 4 grams of fat (1.5 saturated), 45 grams of cholesterol and 50 milligrams of sodium. Not bad.)

Comi-o cozido. Não é grande coisa, mas tão pouco é péssimo. Na verdade pouco me importa. Hoje tive um magnífico almoço a bordo de um 60' do qual o tripulante e a namorada do skipper são italianos. Spaghetti (dois molhos diferentes) e - Allah uAqbar - Parmigiano a sério, saboroso, picante, seco, lindo.

Comprei uma grande embalagem do peixe. Vou comer swai muitas vezes, mesmo que os almoços não o compensem.

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A minha luta contra a burocracia francesa continua. À tarde tive uma garantia - informal mas válida - de que se a resolver terei emprego no sonho de empresa que me quer dar trabalho. Entretanto fiquei a saber que mesmo o trabalho de pontão - eufemismo para manutenção - vai ser difícil.

Pelo sim pelo não voltei a procurar trabalho. Até hoje perdi todas as batalhas contra a burocracia nas quais estúpida ou ingenuamente me envolvi. Com uma excepção: a obtenção da Dérogation no Marin em 2011. Mas isso não foi uma luta. O senhor queria ajudar-me. Agora a coisa fia mais fino: os adversários são bancos e segurança social.

Reintegrar o grupo de pessoas que têm uma residência, conta bancária e - aqui fica a promessa - carta de condução é mais complicado do que eu pensava. Há dois grupos de adversários: um externo e outro interno. Não basta querer. É preciso querer.

6.1.15

Mediocridade, ferocidade

O inimigo da mediocridade é a ferocidade. Portugal é um país de medíocres porque não há ferozes.

Saber, aprender

Não sei tudo, mas sei aprender.

Kowtow, tempo

Foi num bar de Gibraltar, aproximadamente pelos anos de setenta e cinco ou seis que pela primeira vez ouvi falar dos Steeleye Span e especificamente desta canção.

Já por aqui falei do bar: ficava num primeiro andar, tinha um bouncer que lançava, literalmente, os soldados - dos quais havia nessa altura dez mil na cidade - pelas escadas abaixo. Nele apanhei um dia uma bebedeira de Tia Maria que me ficou na memória - ou nas memórias, a hepática incluída -.

A senhora que aqui canta chama-se Maddy Prior. Merece um vénia, ou duas.



Foi nessa noite que aprendi a equilibrar três copos assimetricamente.

E que conheci outra grande cantora inglesa chamada Sandy Denny.





Hoje apetece-me falar disto: do tempo que não passa.

O tempo é uma ilusão da memória. Somos o que fomos, amamos quem amámos, vivemos o que já vivemos.

Selenitas, Selenos et al.

Se alguém um dia me perguntasse qual é o meu astro favorito eu diria "a Lua". Todos gostamos do sítio de onde vimos.

(Esta é a forma romântica. Há outras razões. Já alguém alguma vez teve de usar creme de protecção lunar? Já alguém alguma vez ficou cego por olhar para a Lua? O que é mais bonito: entrar num porto à luz do Sol ou à da Lua? Onde foi dado o maior passo da humanidade: no Sol ou na Lua? Já alguém alguma vez viu o Sol na televisão?)

Depois da Lua é Sirius. Ou Canopus, ando há anos com esta dúvida astronómica. Sirius é muito brilhante - é por exemplo a única estrela que agora vejo quando vou à varanda fumar um cigarro -. Canopus brilha com muitas cores, parece que tomou ácido, ou coisa que o valha.

Uma vez tive uma alucinação com Canopus, ao largo das Filipinas. Parecia um OVNI. Só ao fim de algum tempo me apercebi que não era ela que se movia, era o navio.

Hoje Sirius não se mexe. Espera pacientemente que acabe a vodka, vá tomar banho e vá para a cama. Como eu, de resto.

Árvore seca

Seria preciso que de uma praia a areia o vento o mar o sopro o calor a luz voltassem e assim sílaba a sílaba palavra a palavra se construísse um mundo.

Ao longe o mar, liso como o telhado de um armazém. Não há vento. Arreei o pano. Árvore seca.

 A sec de toile, matelot. Dans le gros temps.



Que se foda a árvore seca. Bebamos à saúde do Rei de França e dos apaixonados.



E à do Jean Françouest de Nantes.



Tiens bon, matelot.



Je suis content.



Je suis le maître à bord.

Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 05-01-2015

A prelecção de hoje de Francesco começou com uma defesa acérrima das denominações de origem controlada: ofereci-lhe vodka de uma garrafa que vinha de um dos barcos. As empresas de charter gerem diferentemente os restos das provisões dos clientes. A que gentil mas algo ambiguamente me acolhe no seu seio faz um monte e divide-o pelos empregados. Na partilha coube-me uma garrafa de vodka já meia - ou ainda meia, depende da perpsectiva -. (Ambiguamente é injusto. Já encontrei uma maneira de ser pago, apesar de saber que vai levar algum tempo e que até lá terei de navegar em árvore seca).

Francesco acha que aquilo não é vodka. Viu o rótulo, contrariamente a mim. E descobriu que não vem de um dos países que na sua opinião têm o direito de fazer vodka.

Na verdade não sei de onde vem, Nunca me dei ao trabalho de não respeitar um velho provérbio portugês que fala de dentes e de cavalos oferecidos.

Da vodka passou ao vinho. Não uso o singular por acaso ou facilidade. Falou de vinhos franceses, explicou-me a diferença entre vários tipos de vinho da Emilia Romagna - dos quais creio que vou gostar do Amarone - defendeu os vinhos franceses apesar de achar que são menos variados do que os italianos. Do vinho foi fazer uma visita à cidra e ao sherry, não me lembro bem por que ordem (e não, hoje não estou bêbedo).

Até aqui tudo bem. Estava a fritar peixe em azeite de gengibre e alho, a cozer grão-de-bico (a única leguminosa erótica da natureza). Francesco falava, eu dizia que sim, fui comprar vinho ao chinês e ele continuava a falar. Pelo menos apercebeu-se de que eu nao estava: quando voleti disse-me que baixara o lume do azeite durante a minha ausência.

Foi mais ou menos quando já tinha quase acabado de cozinhar e estava a preparar-me para comer que comecei a entrever uma certa confusão nas opiniões do jovem - "quase quarenta" (a propósito da vodka) -. [Vi agora que foi feita no Texas e custou quase vinte e cinco euros, preço exorbitante para uma garrafa de álcool em St. Maarten]. Explicava-me então que a cidra era feita de uvas que só crescem na Escócia e mais meia dúzia de países.

A vodka texana é boa. E não é por não ter sido eu a pagá-la.

O pior foi quando Francesco passou das DOC para a Europa. Tem ideias confusas sobre o assunto e deixou-me baralhado. Não sabia como explicar-lhe que ouvir as suas opiniões sobre a União Europeia não era a minha prioridade.

Uma vez mais o Don Vivo salvou-me. Comecei a escrever este post e para aí no terceiro parágrafo Francesco despediu-se, Eu disse-lhe "Boa noite, desculpa tenho uma coisa a escrever" e pronto.

Fico com a minha vodka, apercebo-me de que comprei um branco que detesto (e vou ter de beber, isto não está para desperdícios), preparo-me para me ir deitar. Não estou cansado, finalmente. O ritmo do trabalho foi calmo e aprazível. Mas ontem dormi pouco - problema que atribuo a não ter visto o preço da vodka - e ainda tenho de ir tomar o duche da noite e lavar a loiça (pouca. O grão-de-bico também é erótico porque não exige muita loiça).

Enfim. Seja pelo que for vou deitar-me à hora habitual e dormir como é habitual. Amanhã tenho outro dia de trabalho, A empresa de sonho que mo proporciona tem o mesmo objectivo do que eu - pôr-me no mar o mais depressa possível -.

Não fora a horrível notícia com que comecei o ano seria um homem feliz.

Mas isto dos ciclos é assim. Pouco há a fazer. Quando há vento pela proa há que bolinar. O resto é conversa de bar de clube náutico.

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A música do Lagoonies é muito boa, mas não é adequada para quem sai de um dia de trabalho, mesmo calmo. A relação do rock da minha adolescência com o tabalho é ténue; e cansativa.

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Por baixo da Little Crew House - e, manda a verdade que o diga, de uma forma totalmente autónoma desta - funciona uma pequena banca de venda de erva e crack. Passo por ela cada vez que vou tomar banho (refiro-me ao duche da noite; no da manhã a banca está deserta).

Os rapazes que a mantêm são simpáticos e já perceberam que só gosto de derivados de uvas, açucar e cereais. Desejam-me educadamente uma boa noite e, por vezes, oferecem-me um copo de rum.

O qual recuso. Não por falta de educação, espero que eles o compreendam.

5.1.15

Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 04-01-2015

Só não posso ficar doente. De resto posso tudo. Apanhar a chikungunya agora seria uma catástrofe.

Enchi-me de repelente. E acredito, claro (apesar de saber que é mentira) que lhe estou imune porque já tive paludismo. Já quase morri dele. Isto devia imunizar-me contra uma série de coisas, incluindo crenças absurdas.

Que se fodam as crenças. São todas absurdas, de qualquer forma. Se apanhar chikungunya sobreviverei, como sobrevivi a tudo o que me aconteceu nestes anos todos.

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O condutor do bus que apanhei hoje de regresso a casa é obeso. Os braços mal chegam ao volante ou às mudanças. Conduz muito inclinado para trás e mesmo assim o volante entra-lhe pela barriga dentro. É feio: de perfil (sentei-me à frente, como sempre faço quando o lugar está vazio) parece uma estátua da Ilha da Páscoa com os lábios mais grossos e o nariz mais achatado.

Fala alto, grita mas num tom contínuo, liso, como se estivesse a fazer um discurso e não a dialogar; há uma discussão entre ele e uma ou duas passageiras. Percebo quase nada do que dizem: falam em papiamento, e apesar das origens portuguesas (papo) da língua só percebo as palavras inglesas. É uma questão de dinheiro e trajectos: a (ou as) senhoras queriam que ele as levasse a um sítio ao qual não é suposto ir e não lhe pagaram o suficiente, na opinião dele. Na delas sim.

Acabou por levá-las, apesar de visível - e audivelmente - insatisfeito (e de elas lhe terem dado mais dinheiro).

Aproveitei a deixa para lhe pedir que se desviasse e me viesse deixar à Crew House. Estou exausto, meio febril, tive outro um dia de loucos - trinta nós de vento e cabos nos hélices à saída do pontão de fuel logo pela manhã, seguida pelo habitual caos à tarde - está a chover e frio. Os quinhentos metros a pé são de repente dispensáveis, violentos, uma montanha.

Começou por me dizer que não. "E onde deixo estas pessoas?" perguntou num grito, como se eu estivesse do outro lado de uma rua com quatro faixas de rodagem e não a meio metro dele.

Não respondi. Pouco depois das senhoras desceu o único passageiro que estava na carrinha. Tirei cinquenta cêntimos da carteira e disse-lhe que agora estávamos sozinhos e me podia levar. Mais um grito, no final do qual percebi "one dollar". Dei-lhe o dólar, ele respondeu-me "now we are talking" e veio deixar-me à porta.

........
Tive muita sorte com a história dos cabos nos hélices. Ainda estou para perceber de onde vieram. Passei a razar dois barcos fundeados e larguei ferro a tempo de ficar a dois metros de um recife. Depois tive de safar os cabos e mudar um dos hélices. Duas horas de trabalho que contam por quatro ou cinco.

O médico tinha razão: a carcaça é simpática.

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Na sexta-feira trabalhei para o C. Pouco e mal. O ano começou com notícias péssimas. J. diz que está tudo bem, mas eu não estou satisfeito. Disse-lhe que não lhe cobrava as horas. Não me importo de trabalhar pouco; mal chateia-me. A verdade é que estava com a cabeça alhures.

Não existe trabalho manual, por mais que por vezes pareça.

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St. Maarten é um não-lugar. Deve ser por isso que começo a gostar tanto de aqui estar.

Parte francesa, parte holandesa, parte marítima, parte laguna, dólares, euros, aventureiros, empreendedores, regras e ausência delas. Tudo cabe aqui. Mesmo um casal de brasileiros que está num barco e pensa que está em casa.

Fui ajudá-los a atracar. Bow thruster e stern thruster num 54'.  São boa gente, mas não são marinheiros.

À noite embebedei-me. Não com o que bebi, que foi relativamente pouco - e na sua maioria pago pelo armador do 54, aqui fica o meu obrigado - mas pelas merdas todas que se estavam a acumular há algum tempo e que no primeiro dia do ano atingiram o pico.

Não percebo nada das vantagens ou desvantagens farmacêuticas do álcool; como diluente de merdas não conheço melhor.

Enfim, conheço: o mar. Mas agora estou em terra, não estou no mar.

O que gosto da burocracia não é descritível nem recorrendo a todos os vernáculos de todas as línguas, papiamento incluido, qualquer que seja o nível em que seja expresso.

........
A população residente da Little Crew House é reduzida - Allah uAqbar: estou de novo sozinho no quarto, depois da breve aparição de uma alemã simpatiquíssima, caladíssima e não muito bonita - e composta por uma mistura de pessoas que têm em comum apenas o facto de serem pessoas. Homens, mais precisamente. Há um inglês cujo nome esqueci que se passeia em cuecas como se estivesse de smoking, Fala com um horroroso sotaque cockney e  só percebo o que ele me diz à terceira vez. Agora já quase não me fala. Deve pensar que sou burro. Tem razão, é certo, mas não é por não perceber o que me diz. É por razões mais complexas e infelizmente menos fáceis de contornar.

Francesco é um italiano do sul. Cinco minutos depois de ter falado pela primeira vez com ele fiquei a saber como calar cães que ladram demasiado (há dois no ferro-velho ao lado da hostel. É com balões cheios de água). Fiquei a saber uma quantidade incalculável de coisas, na verdade; mas lamentavelmente esqueci-me de todas (excepto dos balões para cães). Foi no dia em que estava grosso. É pena. Aposto que tudo o que ele me ensinou é interessantíssmo.

Mark é um jovem australiano que entre outras coisas é chef, presumo que de cozinha. Costuma elogiar o cheiro da comida que faço, mas de resto falamos pouco: é jovem e bonito e prefere poupar as suas palavras para senhoras jovens e bonitas.

Provavelmente nunca aprenderá que a palavra-chave da expressão sexo oposto é oposto e não sexo. (Como alguém deve ter dito antes de mim).

4.1.15

Sócrates et al.

Há uma certa inevitabilidade nisto. Em toda a parte do  mundo um político preso pensa que é um preso político.

2.1.15

De regresso à casa velha

Fragment

"Les douleurs se mélangent comme de la peinture: mets un peu de douleur-mineure dans la douleur-majeure pour blanchir celle-ci un peu et noircir l'autre, un peu aussi. Elle le suportera".

1.1.15

A medida das coisas

E depois de repente temos perante nós a medida de todas as coisas e todas as coisas nos parecem bem pequenas.

Música



Navegar, prever

Navegar é a arte de prever o pior. Mas só o pior possível, imaginável. Não o pior como ele será realmente.

Se nos puséssemos a prever o que será como será não sairíamos sequer da cama.

Telefotos - Do bom uso das especiarias


Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 31-12-2014 - II

O Château Tarin 2012 que comprei no chinês é o vinho mais barato do supermercado. Aposto que há melhores vinagres e mais caros.

Parece-me igualmente bem: daqui a um ano ser-me-á fácil beber um melhor e concluir que o ano foi bom.