31.5.15

Matryoshkas

Há tempos dentro do tempo. É isso que o torna tão atraente, tão sedutor.

Tempos tempo

Prefiro o passado e o futuro. O presente é uma fábrica de cansaços e um manancial de expectativas. Dúvidas. Um candeeiro a petróleo que oscila como se tivesse vida - tem: o mar por baixo e o vento por cima -. Um navio encalhado num paraíso tropical - já alguém ouviu falar de um paraíso polar? - Sibelius massacrado por Gould. Ressuscitado - cada nota com um pingo de chuva -. Uma mulher a quem se diz adeus antes de se ter dito olá, estranha assimetria a acrescentar à diacronia da noite. O rum é Flor de Caña, tem a cor e o sabor da luz.

Uma nuvem cheia de chuva passou mas fica porque Gould continua às voltas com Sibelius, uma nota de cada vez. O candeeiro a petróleo não pára de abanar, completamente fora de ritmo. É preciso dar sentido ao tempo, como se fosse possível dar ordem ao vento.

Penso em mitos. Que seria da humanidade sem eles? Human kind can not bear too much reality. Penso nos tempos do tempo: muito mais do que a soma dos meus passados sou a soma dos meus futuros. A diferença entre o passado e o futuro é que um é uma prisão e o outro também. Les prisons se suivent mais ne se ressemblent pas. L'on saute de prison en prison avec la joie du Prisonnier qui aurait réussi à s'échapper pour tomber dans la prison d'à côté. Ao contrário do que se poderia pensar a felicidade não está entre as prisões, mas nelas.

Nas assincronias: num candeeiro que se abandona sem ritmo. Ou melhor: a um ritmo que não se vê, só ele sente. Os tempos do tempo: dois corpos deitados lado a lado. Dois passados, dois futuros, por mais que se pretenda o contrário. Duas prisões. Duas felicidades. Um tempo, muitos tempos.

(Para a ACR, maestra ex-tempi).

Mais uma reedição - Mundo flutuante

Viva a preguiça.

Poemas no mundo flutuante

Que me perdoem as feministas e os talibans da língua, mas uma mulher condutora de eléctricos é uma wattmanWattwoman seria, quando muito, uma personagem de Beckett.

Não é por aqui, eu sei, que devia ter começado a história. Assim não faz sentido. Eu vinha para casa no 15.

Melhor assim. Eu vinha para casa no 15. A wattman (uma jovem bonita, de longos cabelos pretos e sorriso claro) anunciou uma paragem. E logo a seguir, sem qualquer transição, começou a dizer Wasteland:

"April is the cruelest month, breeding
Lilacs out of the dead land, mixing
Memory and desire, stirring
Dull roots with spring rain.
Winter kept us warm, covering
Earth in forgetful snow, feeding
A little life with dried tubers.
Summer surprised us, coming over the Starnbergersee
With a shower of rain; we stopped in the colonnade
And went on in sunlight, into the Hofgarten,
And drank coffee, and talked for an hour.
Bin gar keine Russin, stamm' aus Litauen, echt deutsch.&
And when we were children, staying at the arch-duke's,
My cousin's, he took me out on a sled,
And I was frightened. He said, Marie,
Marie, hold on tight. And down we went.
In the mountains, there you feel free.
I read, much of the night, and go south in winter.


A maioria dos passageiros reconheceu-o imediatamente; claro. Estávamos todos siderados: a senhora dizia o poema num inglês primoroso, oxoniano, de cor. "Winter kept us warm", por exemplo; saiu perfeito. Podíamos ver o inverno do qual acabamos de sair (um bocadinho aos soluços, reconheça-se) e pensar "sim, estamos quentes".

Quando chegou a "I read, much of the night, and go south in winter" foi a apoteose. Levantámo-nos todos, batemos palmas calorosamente, e continuámos:

"What are the roots that clutch, what branches grow
Out of this stony rubbish? Son of man,
You cannot say, or guess, for you know only
A heap of broken images, where the sun beats,
And the dead tree gives no shelter, the cricket no relief,
And the dry stone no sound of water.


Foi muito bonito; a jovem senhora conduzia e dizia o poema ao mesmo tempo. Nós estávamos embalados: de pé, agarrados uns aos outros, declamávamos ao ritmo dos carris e dos abanões do eléctrico (que são, devo dizer, um dos seus grandes encantos) braços pelos ombros uns dos outros; "Who is the third who walks always beside you?" e olhávamo-nos para saber quem eram os terceiros.

Não havia terceiros. Nunca ninguém enganou ninguém naquele veículo. Celebraram-se vários casamentos entre Alcântara e a Praça da Figueira (enfim, dois; a verdade é mais pequena quando usamos números em vez de adjectivos, vá lá saber-se porquê) e nenhum divórcio. C'est dire.

Quando chegámos à Praça de Figueira desci e fui cumprimentar os pedintes, toxicómanos,skaters e prostitutas que por lá passam os tempos livres (ou ocupados, neste último caso, que esperar por um cliente também é trabalho, diga-se o que se disser). Nada disto teria importância se fosse frequente. Mas não é. Raramente apanho wattmen ou condutores de autocarro que conhecem Eliot. O mais das vezes ficam-se por Ary dos Santos, Natália Correia ou mesmo Manuel Alegre, não desfazendo.

Wasteland num dia de sol como hoje, com os passageiros numa inacreditável comunhão espiritual foi um dos grandes momentos da minha vida. Por isso não fui para casa e acabei a festejar no bar da Lourdes. Não sei se conhecem. É um bar do mundo flutuante, no primeiro andar de um edifício que agora é uma catedral mas antigamente era uma cervejaria, ou uma tipografia, ou assim. Confundo muito as coisas, coitado de mim. Por exemplo: confundo-te com um tall ship, e contudo sei que não passas de uma chata. Já com a Lourdes é ao contrário: parece uma chata e é um tall ship.

Bom, isto tudo para dizer que hoje comprei umas bocas-de-leão, pujantes, lindas, virginais (não sei porque as acho "virginais". Acho que gosto do som). Foram-me aconselhadas por uma senhora por quem não estive apaixonado nem dois meses, ou três. Deviam mudar-lhes o nome para "bocas-de-leoa", mas reconheço que isso é apenas porque gosto de leoas, sempre gostei, desde pequenino - coisas da mãe, de certeza; e porque cada vez que olho para elas tenho vontade de lhe voltar (refiro-me à senhora, naturalmente; não à mãe) para os braços, ou as garras, ou os dentes, ou os olhos, ou o sorriso, ou o humor, ou a pele. Não sei. Não sei nada, nunca. Nunca mais saberei nada. Mau.

Enfim. Já alguma vez apanharam um piloto de cacilheiros que recitasse um poema de Miguel Serras Pereira que é assim:

"Para fazer pairar
ao longe e ao alto
um tremular de mastros
na solidão do olhar

e para rasgar no corpo
a seara antiga
onde o tempo amou
e me deitará contigo

é que escutei na sombra
a vibração sem voz
da tua voz nas ondas
onde ecoa a morte
" ?

Há um ou dois, só, e não é muito fácil ter a sorte de atravessar com eles o Tejo. Logo a seguir há outro poema,

"O navio é o mar a bordo de quem nasce
a bordo de quem morre o mar é o navio

Jamais os dois navios porém se reconhecem
Olhe-os quem morre ou nasce

ou só o mar ainda
de que outros insistentes olhos de ninguém?
"

Há outros, mas os pilotos dos cacilheiros não os conhecem todos, sobretudo se estiver um dia de verão e a embarcação estiver cheia de suecas a caminho da Caparica. Tudo o que flutua é um mundo, mas o mundo não flutua. E as suecas tendem a fazer-nos esquecer a poesia; a nós e aos pilotos de cacilheiros, claro. Já quanto ao peso do mundo não sei se têm influência.

Depois é isto. Olho em volta e só oiço música. Escuto, e só vejo o mundo. Estendo a mão e ninguém a colhe. Regresso a Thomas (de onde nunca devia ter saído, há tanto tempo):

"Here in this spring, stars float along the void;
Here in this ornamental winter
Down pelts the naked weather;
This summer buries a spring bird.
...
"

Ou

"...
Seaports by a drunken shore
Have their thirsty sailors hide him
...
"

Dylan sabia o que é uma costa bêbeda, ou um marinheiro sedento. Eu não. Sei de ti, um pouco. Tomara não saiba mais. Sei de muitas outras. Sei de momentos que nos mudam o rumo (como se tivéssemos um rumo. Enfim. Isso é outra história). Sei de vidas que mudam por causa de um momento. É verdade. Sei de momentos que perduram uma vida (tenho dois desses, entre muitos outros). Sei de momentos que explicam uma vida. Sei de vidas que procuram momentos.

Sei de eléctricos onde se ouve Eliot; de cacilheiros de onde se vê o mundo; de pessoas com quem se reconstrói o universo; pouco mais.

(Para a Mariana e o Lourenço, como se. Com um beijo e dois abraços).

Misturas

Ausência de sono, Sibelius por Gould, rum Flor de Caña e chuva.

Diário de Bordos - Isla San andrés, Colômbia, 30-05-2015 / II

Voltaram os dias cinzentos, nebulados, chuvosos (mais ou menos: comparado com Bocas isto é um deserto). É forçoso e intrigante reconhecer que são os mais interessantes, os mais atraentes, mais complexos. As cores ganham outra vida, mais intensa; e está menos calor. As matizes são mais variadas e visíveis.

San Andrés cidade não é bonita; sem praia tem pouco de interessante, excepto claro para quem se interesse por roupa, perfumes e marcas: Lacoste, Tommy Hilfiger, Hugo Boss; ou, na electrónica, Canon, Sony, Samsung, LG.

De roupa não sei, percebo pouco. A electrónica não é interessante: nem boas máquinas fotográficas nem bons computadores. Há écrans gigantes, máquinas fotográficas básicas e pouco mais. E electrodomésticos,  montes deles. Não sei como as pessoas os levam: frigoríficos, máquinas de lavar, congeladores.

Todas as lojas têm as mesmas coisas. Imagino que queiram fazer concorrência a Colón, mas estão muito longe. Colón também, de resto.

........
A rapariga é gorda e está vestida de cor de rosa - um vestido cai-cai e uma tiara com flores de plástico, pequenas, no cabelo -; o rapaz é alto, magro e musculado. Estão sentados na mesa ao lado da minha.

Cada um olha para o seu telefone. Ele tem o cotovelo na mesa e olha para cima; ela tem-no ao nível das mamas e olha para baixo.

Tento abafar a música do Beer Station com a da Ana, mas não funciona. Vou para bordo jantar.

........
"Sôbolos rios que vão
Por Babylonia, me achei,
Onde sentado chorei
As lembranças de Sião,
E quanto nella passei.
Alli o rio corrente
De meus olhos foi manado;
E tudo bem comparado,
Babylonia ao mal presente,
Sião ao tempo passado.

..."

30.5.15

"On n'avance pas vers la connaissance. On change de dogmes, c'est tout."

Curioso como a incapacidade de aderir a dogmas é vista por muita gente como estupidez.

Diário de Bordos - Isla San Andrés, Colômbia, 30-05-2015

Don Silvério atirou-se finalmente ao pau de bujarrona: já tem forma. A continuar assim quarta ou quinta está pronto. Aquilo que eu temia vai acontecer: vou ficar aqui parado à espera da coisa mais fácil de reparar: o braço hidráulico do leme.

E Lisboa aqui ao lado: duzentas milhas e oito ou nove horas de avião.

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Estive em Jacksonville em Março, creio. Há dois meses. É um triste sinal dos tempos ver que os meus sapatos Old Navy já precisam de ser substituídos. Se navegasse como deve ser durariam muito mais tempo, claro.

Seja como for desta vez vou comprar sapatos mais caros. A gama dos vinte dólares dura pouco, por muito que navegue. Fica quase nova num instante. San Andrés é um duty free: a escolha é vasta, os sapatos estão expostos nas montras e posso antever uma compra rápida. Mais uma semana e estou pronto. Felizmente não preciso de mais nada. Andar por essas porcarias de lojas à procura de roupa teria sido um sacrifício demasiado grande.

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Lei Serpa da manutenção marítima: o que não gastar hoje em manutenção gasta a triplicar em reparações. É uma lei que precisa de algum tratamento popperiano, como todas. Mas aposto que a sofrer alguma alteração será para cima, não para baixo.

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Sábado. Estou em San Andrés há três semanas.

Reedição - O cerco

No Burundi não tinha Diário de Bordos. Não hava sequer blogs, ainda. E se houvesse não teria tempo para escrever: foi dos períodos da minha vida em que mais trabalhei.

Mais tarde escrevi algumas dos episódios que mais me marcaram. Hoje reencontrei este, porque oiço as Suites Inglesas e porque falo com uma senhora bonita e porque me lembro deste dia de uma forma que nunca mais esquecerei.

Aqui fica mais uma reedição, a melhor arma da preguiça, e da memória [ligeiramente editado, como sempre]:

O Cerco

A felicidade, suspeito, é como as bruxas: não sabemos bem o que é, mas lá que ela existe, existe. Já fui feliz, muitas vezes – mas muitas menos quantas fui infeliz, e durante menos tempo, suponho –.

No Burundi vislumbrei a felicidade, ou pelo menos uma das suas formas: era aquilo que me perseguia quando eu, desrespeitando um pouco as normas de segurança seguia a cem à hora no meu 4 x 4, as Suites Inglesas do Bach e o ar condicionado no máximo. A pista era larga, bastante larga, e aquela zona estava mais ou menos deserta. Estava a tratar de uma distribuição no sul do país e tinha, como de costume, deixado o meu condutor em casa: não há pior condutor de 4 x 4 que um chauffeur africano; exceptuando, claro, os etíopes. Mas esses são uma excepção, não a norma. E a verdade é que não gostava de andar pelo mato com um Tutsi que dizia, quando eu lhe perguntava se trazia os documentos: "o meu passaporte é o meu nariz!".

A ideia era fechar um programa que se arrastava havia anos para nos podermos concentrar no Norte, onde estavam as verdadeiras urgências – e onde não estava a felicidade: a primeira vez que vi um campo de refugiados chorei; e ainda hoje, anos passados, não consigo deixar de me emocionar quando penso naquelas filas e filas ininterruptas de barracas de dez metros quadrados, cobertas com os plásticos de cujo envio para os campos eu era responsável –. Quando vemos uma família africana, pobre, esfarrapada, num campo de refugiados não podemos imaginar como poderia ela estar pior ainda: face àquela desolação que subia pelo ar com o fumo das inúmeras fogueiras, a ideia que aquela gente tinha fugido de um lugar, a casa deles, onde seria ainda mais miserável não me abandonava. Até onde pode ir a miséria; ou a felicidade?

Como habitualmente, o programa no sul do Burundi não estava a correr tão mal quanto poderia ter corrido nem tão bem quanto planeado: o projecto inicial era fazer uma distribuição “just in time”, fazendo os camiões sair de Buja com a assistência necessária para cada dia. As listas de beneficiários já tinham sido actualizadas: ao todo, vinte e seis mil pessoas, distribuídas por cerca de uma dezena de pontos de distribuição. Eu tinha a assistir-me uma rapariga suíça, uma pessoa extraordinária, dos seus cinquenta anos, bonita e risonha. E corajosa, também.

O Burundi é um país lindo. O norte é montanhoso e o sul é constituído por um planalto que domina a interminável savana e a parte sul do Rift. Era nesse planalto que a distribuição ia ter lugar. Por vezes parava num ponto do qual se via a falha e a savana amarela porque era a época seca; no carro, o Gould mastigava o Bach como pastilha elástica e fazia balões com ele, e a vista seguia a falha até ao fim do mundo, até ao vazio, e eu pensava que era por ali que tinha nascido a humanidade. E perguntava-me porque está África condenada? Porque é que amar África tem de ser como amar uma mulher bonita e infiel, que traz mais dor do que prazer? E porque é África tão bonita, tão infinitamente bonita?

Naquele dia tínhamos combinado com a tropa estar no ponto de distribuição às oito da manhã. Era um dos pontos com mais beneficiários, cerca de três ou quatro mil. O material tinha sido deixado de véspera numa cabana, da qual a Heidi (era o nome dela), e eu o tínhamos tirado quando chegáramos de manhã cedo. As pessoas faziam um grande círculo à nossa volta, enquanto nós arrumávamos as coisas: cobertores, jerrycans, baldes, sementes, etc. A tropa tardava a chegar, mas nós não estávamos assustados: o exército burundês é um dos melhores que conheço em África; se bem o diâmetro do círculo feito pelas pessoas à nossa volta fosse diminuindo aos poucos e poucos, calculei que havia tempo de sobra para os soldados chegarem. Começar a distribuição sem eles seria, de qualquer maneira, uma forma particularmente medonha de suicídio: um jerrycan vale uma fortuna, naqueles países, e ali estavam oitocentos ou novecentos, mais os cobertores, baldes, canecas, sementes, tudo parte de um “goodbye package”, guardado por quatro pessoas.

Já eram quase nove horas. O círculo à nossa volta estava perceptivelmente mais pequeno, e da tropa nem sombra. Disse à Heidi que ela tinha que ir buscar os soldados.
- Vai tu – respondeu ela, - eu não sei onde é o quartel.
- Isso está fora de questão, não te vou deixar aqui sozinha.
- É muito mais lógico ires tu: não só sabes onde é o quartel mas também guias mais depressa do que eu. Despacha-te.

Não valia a pena continuar a discussão. Eu já trabalhava com ela havia alguns dias e sabia que era teimosa; além de que os argumentos eram válidos: uma mulher bonita e loira perdida por aquelas paragens corre alguns riscos. Fui para o carro, tentando aparentar toda a calma deste mundo. O dia estava lindo: o azul do céu combinava-se perfeitamente com o amarelo da savana e o pouco verde que restava em alguma árvores. A mole de gente era cada vez mais compacta. Não havia muito barulho: pouco mais do que um murmúrio, que se perdia no cantar dos pássaros; o que em África é inquietante, porque nunca há silêncio, nunca. Estimei que, àquele ritmo, teria uma hora – se eles não acelerassem agora que o único branco se tinha ido embora e a tropa ainda não chegara.

Não liguei o ar condicionado: queria toda a potência que o Land Cruiser tivesse. Mas pus a cassette do Gould, de resto a única que tinha. A música barroca adapta-se especialmente bem aos caminhos de terra, às picadas. Ainda ontem o verifiquei, na serra de Sintra, com o meu carro: descobri um sítio que, inexoravelmente, me trouxe o sul do Burundi à memória – se bem que a vista fosse sobre Cascais e o mar, não sobre uma falha e a savana. Mas as estradas estavam igualmente cheias de buracos, e a paisagem era linda, e a música de Salieri moldava-se aos altos e baixos do carro. E, como no Burundi, a felicidade perseguia-me, vinha atrás de mim, escondida na nuvem de pó, constituída por uma mistura de beleza, solidão, harmonia.

Talvez o romântico seja melhor para o alcatrão, não sei. Naquele dia acelerei como nunca tinha acelerado; a picada era “chapa ondulada” e a música mal se ouvia. O pó vermelho dava-me a impressão de avançar à frente de um incêndio. E não conseguia deixar de pensar na Heidi e no círculo de beneficiários que se apertava em redor dela. O carro estava coberto de pó e cheio dele: aquela poeira vermelha penetra em tudo quanto é frincha, e o Toyota estava encarnado por fora e por dentro.

E eu cada vez mais ansioso: nunca conseguiria fazer o trajecto de ida e volta numa hora. Poucos meses antes tinha ido ao enterro de um colega, dezanove anos, assassinado porque se pusera à frente de uns atacantes para cobrir uma personalidade (provavelmente um presidente de câmara) que estava em casa dele. Pensara que não o matariam, a ele, funcionário da ONU. Mataram-no com sete balas, e a vítima designada nem uma beliscadura teve. O meu colega morreu de hemorragia: ficou horas a esvair-se em sangue, a saber que ia morrer. Tinha dezanove anos. Será possível, aos dezanove anos, saber-se que se vai morrer? No dia seguinte fui ao aeroporto receber o corpo dele, embrulhado em sacos de plástico, porque onde eles estavam não havia mais nada para o embrulhar. Uma simples transfusão tê-lo-ia salvo, nenhum orgão vital tinha sido atingido. Ia conduzindo, via o círculo a reduzir-se, e imaginava as perguntas do inquérito:
- Porque a deixou lá? Porque não foi ela buscar a tropa? Porque foi um cobarde? Porque fugiu? Porque a deixou lá? Porque fugiu? Porque fugiu? Porque foi um cobarde? Como é, ser cobarde?

Cheguei, finalmente, ao quartel. O capitão explicou-me que não tinham ido porque no quartel só havia um carro, e fora cedido para um enterro “de uma pessoa que morrera e já não tinha o carro dela”. Estavam à minha espera, mas não tinham maneira de contactar comigo. Enchi o Toyota de soldados, tantos quantos cabiam, eles e as kalashes e as granadas e as facas de combate, compridas como espadas pequenas. O Land Cruiser era grande, mas os Tutsis também: o carro parecia rebentar. No regresso não pus música, porque sabia que eles não gostariam, nem ar condicionado, porque ainda precisava de toda a potência do motor. Tentava falar com o capitão, e explicar-lhe a situação, e não pensar no cheiro de mais de uma dúzia de soldados dentro de um carro fechado e não pensar nas granadas e nas kalashnikovs e na Heidi, e nos colegas locais, e na comissão de inquérito e de como me sentiria se lhe tivesse acontecido qualquer coisa, como sobreviveria.

Quando chegámos, o círculo à volta dos meus colegas tinha pouco mais de vinte metros de diâmetro. Os soldados tiveram dificuldade em atravessar aquela massa compacta de gente apesar das coronhadas que distribuíam generosa e violenta, indiscriminadamente. A Heidi sorriu quando me viu. Ainda à coronhada, afastámos as pessoas para noventa ou cem metros e começámos a distribuição.

Continuo sem saber o que é a felicidade, mas sei que a sorte é parte integrante, essencial dela. E ser feliz é quase tão difícil como ganhar à lotaria. O melhor é não desperdiçar esses momentos raros, únicos, valiosos e aceitá-los como o que são: presentes de um deus perverso, capaz de se esconder num país devastado pela guerra, numa picada de terra vermelha, no horror.


Cascais, 05.06.2002

Jantar improvisado - Frango em iogurte de tapioca

O começo é sempre o mesmo: deixar o frango a marinar em limão (ou neste caso lima) e sal; e também neste caso mais do que o habitual: ficou um dia. Continuou sem mudanças; gengibre a confitar, frango a dourar no azeite do gengibre e flambeado com rum.

Foi aqui que a normalidade divergiu: na frigideira do frango e noutro azeite (mas também do gengibre) dourei um montão de salsa picada fininha; à qual a seu tempo juntei o gengibre agora confitado.

Uma vez tudo isto feito, foram todos para a panela, mai-lo jalapeño verde (infelizmente pouquíssimo picante). Cobri tudo com iogurte de tapioca, juntei pimenta, paprika, cominho, um bocadinho de caril e dois ou três cravinhos.

Está a cozer. Vamos ver, como dizia o ceguinho.

Isto tudo acompanhado primeiro pelas Vésperas de Rachmaninov - estou mais ou menos em choque, a minha versão favorita está estragada também -; depois pela Ressurreição de Mahler e agora, enquanto escrevo, por uma banda espectacular que devo, uma vez mais, à Ana Cordeiro Reis.



(Eu devia ter começado por avisar que esta receita suja muita loiça...)

Diário de Bordos - Isla San Andrés, Colômbia, 29-05-2015

O fornecedor alemão das peças para o braço hidráulico recebeu o dinheiro, graças à ajuda da Nike. Agora trata-se de organizar o transporte, coisa que o senhor simpaticamente declinou fazer: sabe o trabalho e a chatice que são. A primeira escolha é a DHL. Não respondem. A segunda é a UPS. Passo horas a preencher as múltiplas páginas do site para encalhar numa mensagem de erro: "credit card's billing address". A pergunta é fácil de responder - o barco tem um cartão de crédito (que só consigo usar para pagamentos à distância porque o armador se esqueceu do PIN). Infelizmente a página não fornece maneira nenhuma de introduzir o dito endereço. E a UPS tão pouco responde aos mails.

A modernidade infelizmente varia com as áreas geográficas. Na Europa com um telefone resolve-se o assunto. Aqui não: os telefones colombianos tanto da UPS como da DHL ou não funcionam ou não respondem. Há sete horas de diferença com Alemanha, pelo que a partir das oito ou nove da manhã nada a fazer. As chamadas internacionais custam uma fortuna. É assim que o tempo passa: a lutar contra a realidade e as múltiplas representações que dela faço.

.......
Afinal a pergunta simplória de ontem ficou sem resposta: estava com demasiado sono e fui dormir. Ou melhor: para o beliche. Dormir só às duas da manhã. Não me queixo: acabei o Lord of the Flies, um livro que devia ser obrigatório para todos os que põem em dúvida o pessimismo antropológico e as virtudes da civilização e da sociedade organizada.

Tal como o projecto de fazer turismo: fica para depois. Estou outra vez a contar tostões e prefiro contá-los nos sítios que me são familiares. Hoje por exemplo vim beber um rum à Kristhal Delicatessen. Já não têm Zapata 15 Anos, mas propuseram-me outro quase tão bom. O preço é o mesmo. Mas o sítio não é, definitivamente, tão agradável como o Lupita ou o Beer Station. Só tem uma vantagem: a música quase não se ouve.

O ar condicionado e os compressores dos vários frigoríficos cobrem-na por completo.

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29.5.15

Diário de Bordos - Isla San Andrés, Colômbia, 28-05-2015

Para picar o simpatiquíssimo dono do Café de la Plaza tem uma tablita com queijo, azeitonas, jámon disto e daquilo. Interrompo-o ao segundo jámon: queijo e azeitonas, por favor.

"Só tem queijo amarelo e mozzarella". Óptimo, venga.

Nada há a dizer do queijo amarelo. Era amarelo e tinha uma ou duas coisas em comum com queijo: a consistência, o aspecto e, muito muito vagamente o sabor.

Já a respeito da mozzarella tenho uma pergunta: porque não chamar-lhe Gruyère? Ou Brie? Ou queijo da Serra, de Serpa, flamengo, de cabra, ovelha, galinha, Parma, étivard (meu Deus, étivard)? É que tem tanto em comum com a mozzarella como tem com qualquer um dos outros citados.

Porém o momento é tão agradável que não ligo às denominações e como a mozzarella como se fosse queijo, o queijo amarelo como se fosse bom, o vinho como se não fosse medíocre (as azeitonas são esplêndidas) e estivesse em Brighton, Palma de Maiorca, Mértola, Sète, Cascais, Lisboa ou, desculpem a múltipla redundância, num paraíso qualquer.

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Hoje fui à praia. Não gosto de praia por causa da areia, das mulheres gordas e feias em string e pela complicação logística: toalha, fato de banho, mudar de roupa. um sem fim de chatices.

Mas não sou absolutista nem nos gostos nem nos desgostos; e praia nestas condições acaba por ser agradável: um longo longo mergulho e uma sesta na areia entre duas piñas coladas, um breve moto-táxi e um duche. Água quente e transparente numa praia bonita e a cinco minutos da marina.


Amanhã visto a camisola do turista e vou a sítio chamado San Luis, no sul da ilha. Qase São Luis, não é?, de que tanta falta sinto das pessoas que lá deixei e ainda hoje me povoam o coração. E sempre.

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Tudo começa sempre da mesma maneira: um homem nu e uma pergunta. Neste caso a pergunta é simples, não tem nada de metafísico: como ficará o frango com iogurte, gengibre, jalapeños verdes e salsa? Comprei montes de curcuma - encontrei o meu supermercado aqui -. Com um bocadinho de sorte vai ficar comestível.

E se não ficar como-o na mesma, portanto a pergunta para além de simplória é desnecessária.


28.5.15

A l'envers


Caravanserai, corpo

Um longo, enorme travelling sonoro; a lua esconde-se atrás da retranca da grande e envolve-a num halo esbranquiçado, estúpido; a música substitui o vento que hoje caiu, finalmente. Para que lado virar-me? Para a música? A lua amanhã estará noutro sítio; como tu, de resto. O vento em breve voltará; menos angustioso, talvez. Tu não. O tempo passa por ti como as caravanas pelo caravanserai. Não voltas: amanhã não serás o que hoje és, o que ontem foste.

É preciso imaginar uma pele. Um vento que a acaricia, centenas de caravanas que por ela passaram, um olhar que lhe fixa um futuro, um ponto no deserto.

"A pátria é um acampamento no deserto".

Não sei. Imagino um deserto, uma pessoa que nele se senta e o vê desfilar. A pessoa está imóvel; é o deserto que se move ao som desta música lunar. Camelos, berberes, tout le tralala. O gajo continua sentado.

Lembra-se de uma lua em crescente numa ilha das Caraíbas e pergunta-se Como pode a música que ouve descrever-lhe a puta da lua? Ou o vento? O resto?

É preciso imaginar um deserto e nele um caravanserai. Pessoas conversam, ouvem música. Talvez um bocadinho de vinho clandestino. Mulheres dançam.

Um homem diz: Prefiro acordar com uma mulher inteligente ao meu lado a acordar com uma bonita. Outro responde: Prefiro o olhar de uma mulher aos seus olhos. O terceiro: A inteligência é a única beleza.

Mariquices. Merdices. O deserto está-se nas tintas para a beleza ou para a inteligência ou para a puta que o pariu. O deserto é a vida e a vida só se interessa pela vida.

A música parece uma tempestade de areia, um squall no mar das Caraíbas, um camelo que se revolta na caravana, uma mulher que te diz sim.

Uma tempestade na calma do deserto. Uma tempestade no meio da calma. Um squall no caravanserai. A beleza onde menos a procuramos.

A imagem é esta: um homem sentado en tailleur porque está no deserto. O deserto move-se perante o homem sentado em tailleur. Avança, recua, esboça um passo de dança, troça do homem sentado. Um corpo, uma pele. Um turbilhão. Homens vestidos de azul; um homem nu sentado à beira do deserto, à beira da vida.

Uma pele e um olhar: a isso se resume um corpo. Num caravanserai, se estiver parado.

Vida, vinho

É mais ou menos isto: um gajo pensa que acabou de jantar e apercebe-se de que bebeu uma garrafa de vinho e ouviu a vida dele contada por uma senhora que não o conhece de lado nenhum.

Enfim, a ordem é a inversa: bebeu a garrafa de vinho porque; não ante.

Diário de Bordos - Isla San Andrés, Colômbia, 27-05-2015

Faço mais um jantar de mistela e apercebo-me de que cada vez gosto mais destas misturas imprevistas, fruto do acaso - de vários acasos -. Cada vez tenho mais vontade de as trabalhar, burilar, afinar.

Acompanho-o com um Malbec passável e com a música fundamental, basilar da Ana Cordeiro Reis, uma senhora portuguesa que vive em no Reino Unido - pormenores pouco interessantes - e faz uma música surpreendente. Pelo menos para mim. Depois de jantar deitei-me no cockpit a fumar um cigarro - o vinho não chega para gerir esta merda toda - e ouvir aquela música desfilar. É um travelling sonoro.

O melhor travelling que conheço no cinema é o do final de Providence, de Alain Resnais. O segundo melhor é a música toda da Ana. Pergunto-me "como cheguei aqui?" "Como comecei a gostar desta música?" Não sei. Talvez um dia; por agora mergulho de cabeça na descoberta. Ou mergulho sem cabeça: ela vem depois, ao contrário do que parece quando se vê alguém mergulhar de uma prancha para o desconhecido.

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Silvério não começou o pau-de-bujarrona. Aborrece-me pouco: já o esperava. Aborrece-me muito: quero lidar com alguém diferente. Silvério é-o, na aparência e nos modos. À superfície. Não gosto da superfície das pessoas. Isto é: não me interessa. "Embora os meus olhas sejam..." etc.

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Se calhar gosto desta música porque retrata a minha vida. Não sei. Só superficialmente começo a aceitar que tenho uma vida. Ou melhor: que isto que vivo é uma vida. Maravilhosa, ainda por cima. Não por ser boa, mas por ser a que quero; por ser livre.

Livre: procuro um sinónimo e não o encontro. Liberdade não tem sinónimos.

27.5.15

Diário de Bordos - Isla San Andrés, Colômbia, 26-05-2015

Edgar, o electricista ilusão-de-óptica apareceu hoje e montou o alternador. Combinei com o carpinteiro que começa a fazer o pau-de-bujarrona amanhã, e o teremos feito na segunda. Não teremos, mas não faz mal. Mais vale falhar um objectivo do que não ter objectivos. Dei o primeiro passo para que os seals do braço hidráulico cheguem. O vento caiu um bocadinho e a música no Beer Station não está tão má como de costume. Há bocadinho até Jimi Hendrix passaram. Decidi definitiva e irrevogavelmente que daqui a três semanas estarei em Lisboa. Se não forem três são três e meia. Isto é: não vou parar em Cuba, não vou a Cartagena, não vou a lado nenhum. Vou do Panamá para Lisboa, na TAP porque o voo é directo e terei montes de bagagem. Faltam duzentas milhas para isto tudo acontecer. Duzentas milhas. Nada. Amanhã.

Há dias assim.

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Ontem comi uma fondue de queijo. Fondue devia ter meia dúzia de quilómetros de aspas, mas não tem: má, mas fondue. A senhora da Kristhal Delicatessen não percebe muito de queijo mas é bonita, simpática e poitrinée, o que não estraga nada. Não tinha kirsch; paliei com vodka. A fondue é daquelas que já vem feita em pacote, mas não é Gerber.  Ela não sabe a marca e eu não quero saber.

Foi uma grande noite. Discutia situacionismo com um imbecil brasileiro, falava com uma amiga portuguesa e bebia mau vinho chileno. Na Kristhal Delicatessen uma taça de mau vinho custa dez mil pesos e uma dose de Zapata 15 anos oito mil. Zapata 15 anos não é o meu rum favorito, mas está longe de ser mau. Infelizmente só o descobri ao fim de dois copos de vinho, mas enfim. Não é decerto a última vez que vou à Kristhal, se bem seja de certeza a última que lá como fondue de queijo.

Gosto destes preços. No Beer Station uma taça de vinho custa dezanove mil pesos e um mojito treze mil. Fartei-me de rir, quando o empregado me disse o preço. O rapaz (é um tipo novo) também. Rimo-nos os dois. De vez em quando eu perguntava outra vez e voltávamos a rir. Agora pergunto sempre o preço do vinho antes de o beber. Rir não é só um remédio, é também uma boa escola de prevenção.

No Lupita custa seis mil e não é mau de todo. É por isso que lá vou. A comida (Tex Mex) é assim assim. Depois há a música e as televisões, claro. O meu favorito é o Beer Station, por causa da praia e do vento.  E dos kitesurfers. Ontem voavam, era lindo.

Às vezes cozinho a bordo, mas são poucas. O pequeno almoço e o almoço, só. À tarde gosto de sair. Ver um gajo sair da água com a máscara de mergulho, o snorkel e uma Gopro à frente; um pai e uma filha a comer alitas: mão direita numa luva de plástico e na esquerda um telefone portátil. Cada um deles olha para o seu telefone, come, troca uma frase e olha para o telefone, faz uma fotografia do que está a comer, troca uma frase e assim por diante. Gosto particularmente do pormenor das luvas de plástico para comer com as mãos.

Nunca experimentei, mas imagino que seja prático. Feio é, de certeza, mas ele há tantas coisas feias por aí que mais uma menos uma pouco importa. Além de que é para ver estas coisas que gosto de sair.

Antes de me ir embora vou dar uma volta à ilha. Se não me engano são vinte e sete quilómetros. Lisboa Cascais. Já tentei comprar uma bicicleta, mas só as há novas. Não a poderia revender.

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Há dias assim. Agora trata-se de fazer o que se pode para que eles sejam muitos. Ou pelo menos mais do que os outros.

Tele-turis-fotos



Uma fondue de queijo desterritorializada (mais a cair para o surreal) e uma praia igual a todas as praias, excepto algumas.

26.5.15

Spinoza, sempre

§1
"Quando a experiência me ensinou que tudo o que geralmente ocorre na vida trivial é vão e fútil, quando vi que todas as coisas pelas quais eu temia não continham em si nem bem nem mal a não ser até onde o espírito era movido por elas, decidi então indagar se existiria alguma coisa que fosse um verdadeiro bem capaz de se comunicar e pelo qual só, rejeitando tudo o resto, o espírito fosse afectado; ou antes, se haveria alguma coisa através de cuja descoberta e posse, eu fruisse para todo o sempre uma alegria contínua e suprema.


§3
... Na verdade, aquelas coisas que na vida vêm com mais frequência ao espírito, e que os homens, como se pode concluir das suas acções, consideram como bem supremo, reduzem-se a estas três, a saber: riquezas, honra e volúpia. A mente é partilhada a tal ponto por estas três coisas que quase não pode pensar em outro bem.


§12
... Para que isto seja rectamente compreendido, é de notar que o bem e o mal só se dizem de maneira relativa, a tal ponto que uma e a mesma coisa se pode dizer boa e má, segundo os diferentes aspectos (porque é encarada).


§84
Por consequência, nós distinguimos a Ideia Verdadeira das outras percepções e mostramos que as ficções, as ideias falsas e outras têm a sua origem na imaginação, isto é, em algumas sensações fortuitas..."

(Bento de Espinosa, "Tratado sobre a reforma do entendimento", Livros Horizonte, 1971(?), Trad. António Borges Coelho.)

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Um gajo em puto lê Spinoza. Demasiado puto, talvez. Um gajo não é filósofo, nem sequer intelectual. Sabe ler e já é um pau por uma pedra. Um gajo fica apanhado por aquela ideia de que em si mesmas as coisas não são boas ou más, tudo depende de para onde elas "movem o espírito".

Anos depois esse mesmo gajo tenta falar com pessoas para quem o mal é o mal, e o mal é o dinheiro e o capital e o lucro; e o bem é o bem, ele é os valores, as pessoas, as vidas. Um gajo argumenta que nem todos os valores são bons, nem todas as pessoas; que o dinheiro e o lucro, esse malvado lucro podem ser bons, etc. Chorrilhos. Disparates. Ingenuidades. Banalidades que nem de base são. "Sensações fortuitas".

Que se fodam as banalidades. Prefiro Spinoza. Prefiro a liberdade. Antes excomungado mil vezes que arrebanhado uma.

Bom selvagem mau civilizado

Matem o Rousseau de vez, já que ele não morre.

Desperdício

Tanto vento e eu no porto.