"Et moi aussi de près je suis sombre et terne"...
........
"J'ai eu le courage de regarder en arrière
Les cadavres de mes jours
Marquent ma route et je les pleure..."
Apollinaire, in Alcools
31.7.15
30.7.15
Pro, por, a favor de
Um dos argumentos em favor das senhoras jovens é a pena que dá imaginar tão bonitas mamas nas mãos inseguras dos putos da idade delas.
Já as senhoras mais velhas têm uma grande vantagem: não há corpo novo que valha uma cabeça vivida.
Já as senhoras mais velhas têm uma grande vantagem: não há corpo novo que valha uma cabeça vivida.
29.7.15
Casa
Um dia cheguei a Lisboa às sete da manhã vindo do Brasil e ao meio-dia tinha um avião para França. Era Dezembro. Fui a casa trocar de roupa. Não disse ao táxi para esperar porque naquela altura ainda conseguia viajar só com bagagem de cabine e tinha tempo para regressar ao aeroporto de comboio.
Desta vez fico mais tempo em Lisboa, "Moro" (entre aspas porque não quero abusar ou dar a pensar que abuso da hospitalidade de quem gentilmente me acolhe) mais perto do aeroporto e tenho o metro à porta de casa. A diferença de temperaturas é menor: em Inverness estarão cerca de oito graus quando eu chegar e treze durante o dia. Entre Salvador da Baía e a Bretanha (o norte da Bretanha, para ser mais preciso) no Inverno há mais graus de amplitude térmica.
Mas o sentimento é o mesmo: a ideia de que as casas são feitas para viver nelas e não para trocar de roupa aparece-me cada vez mais cheia de sentido.
Casa:
Desta vez fico mais tempo em Lisboa, "Moro" (entre aspas porque não quero abusar ou dar a pensar que abuso da hospitalidade de quem gentilmente me acolhe) mais perto do aeroporto e tenho o metro à porta de casa. A diferença de temperaturas é menor: em Inverness estarão cerca de oito graus quando eu chegar e treze durante o dia. Entre Salvador da Baía e a Bretanha (o norte da Bretanha, para ser mais preciso) no Inverno há mais graus de amplitude térmica.
Mas o sentimento é o mesmo: a ideia de que as casas são feitas para viver nelas e não para trocar de roupa aparece-me cada vez mais cheia de sentido.
Casa:
27.7.15
26.7.15
De um ponto de vista estético
As mamas da empregada do Buddha Bar continuam um mistério. Não sei se são naturais ou siliconadas. Pouco me importa, na verdade: a rapariga é de uma vulgaridade assustadora, capaz de tirar o desejo a uma manada de elefantes no cio.
Porém, de um ponto de vista estético é forçoso reconhecer que são bonitas. Ou devem ser, quando livres.
Porém, de um ponto de vista estético é forçoso reconhecer que são bonitas. Ou devem ser, quando livres.
Diário de Bordos - Alvaiázere, Portugal, 26-07-2015
Todos os dias usufruo da beleza do Aldear e todos os dias admiro o bom gosto de quem o construiu e decorou. Todos os dias penso na sorte e me esqueço do azar. É uma sorte, não é?
E depois penso na gratidão, irmã siamesa da sorte.
........
Hoje o passeio de bicicleta devia ter sido curto, mas descobri que sou incapaz de deixar uma subida a meio.
........
A carne guizada do jantar estava tragicamente boa: é daquelas que nunca conseguirei repetir.
Tão boa que decidi ir comer para o jardim. Há anos que quero ir à Escócia e uma mesa bonita num quadro ainda mais bonito fazem-me perguntar porquê.
Respondo com a guitarra mágica do Vasco Abranches, que tem resposta para tudo:
........
Enfim, qualquer dia estou no mar. É o grande apagador de dúvidas.
E depois penso na gratidão, irmã siamesa da sorte.
........
Hoje o passeio de bicicleta devia ter sido curto, mas descobri que sou incapaz de deixar uma subida a meio.
........
A carne guizada do jantar estava tragicamente boa: é daquelas que nunca conseguirei repetir.
Tão boa que decidi ir comer para o jardim. Há anos que quero ir à Escócia e uma mesa bonita num quadro ainda mais bonito fazem-me perguntar porquê.
Respondo com a guitarra mágica do Vasco Abranches, que tem resposta para tudo:
........
Enfim, qualquer dia estou no mar. É o grande apagador de dúvidas.
Gostos
Glenn Gould toca desenfreado o Concerto nº 5 de Beethoven, mais conhecido por Imperador. Quero ir deitar-me e não consigo: o Imperador é o pianista; quando o Beethoven compôs isto teria talvez o Gould em mente para solista.
Duvido. Gould transfigura tudo, deixa o compositor no bar do lado.
Oiça-se isto do princípio ao fim. Não gosto muito do romantismo na música e ainda menos de pós-romantismo. Depois oiço isto e fico com vontade de me dizer "porque no te callas?"
Duvido. Gould transfigura tudo, deixa o compositor no bar do lado.
Oiça-se isto do princípio ao fim. Não gosto muito do romantismo na música e ainda menos de pós-romantismo. Depois oiço isto e fico com vontade de me dizer "porque no te callas?"
Diário de Bordos - Alvaiázere, Portugal, 26-07-2015
A vida nocturna de Alvaiázere partilha-se entre o Alva Bar e o Buddha Bar (escolhi "partilha-se" devido à sua proximidade com "espartilha-se").
Ambos são medonhos. Mas a fealdade do Alva Bar é rebuscada, trabalhada, querida. A do Buddha Bar é natural. Tudo no Buddha Bar é natural, excepto talvez - não sei - as mamas de uma das empregadas que ou são de silicone ou de um soutien qualquer. E se calhar são naturais, alguém decerto saberá.
A música do Buddha é naturalmente má; a do Alva é só má. Os dois têm televisões, claro. A do Alva é maior tanto relativa como absolutamente.
Felizmente não dependo muito da vida nocturna. Por enquanto prefiro o Alva: privilegio o esforço, mesmo que no mau sentido.
.........
O jantar correu bem. Não ficou tão bom quanto poderia ter ficado mas mesmo assim foi bom e as pessoas gostaram e sempe ganhei, quando me pagarem, um bocadinho de dinheiro. Não muito: o suficiente para uns Bailey's "com uma gotinha de whisky, se faz favor". E para confirmar que gosto de cozinhar para um grupo de pessoas simpáticas, abertas, inteligentes.
São as únicas que percebem as delícias da imperfeição.
........
De hoje a uma semana estarei na Escócia. É curioso, não é?
Ambos são medonhos. Mas a fealdade do Alva Bar é rebuscada, trabalhada, querida. A do Buddha Bar é natural. Tudo no Buddha Bar é natural, excepto talvez - não sei - as mamas de uma das empregadas que ou são de silicone ou de um soutien qualquer. E se calhar são naturais, alguém decerto saberá.
A música do Buddha é naturalmente má; a do Alva é só má. Os dois têm televisões, claro. A do Alva é maior tanto relativa como absolutamente.
Felizmente não dependo muito da vida nocturna. Por enquanto prefiro o Alva: privilegio o esforço, mesmo que no mau sentido.
.........
O jantar correu bem. Não ficou tão bom quanto poderia ter ficado mas mesmo assim foi bom e as pessoas gostaram e sempe ganhei, quando me pagarem, um bocadinho de dinheiro. Não muito: o suficiente para uns Bailey's "com uma gotinha de whisky, se faz favor". E para confirmar que gosto de cozinhar para um grupo de pessoas simpáticas, abertas, inteligentes.
São as únicas que percebem as delícias da imperfeição.
........
De hoje a uma semana estarei na Escócia. É curioso, não é?
24.7.15
Amanhãs, esquerdas
A esquerda acredita em amanhãs que cantam - se possível com o dinheiro dos outros, mas isso é outra história - tal como a igreja católica e os muçulmanos acreditam no paraíso - estes cheios de virgens, se conseguirem matar quem o não é, de preferência em grandes quantidades -.
É agradável assistir a esta dilemática: por um lado é preciso manter o que está (o PCP por exemplo defende hoje uma Constituição contra a qual lutou afincadamente há alguns anos). Por outro é preciso "mudar" (entre aspas, claro: é simplesmente mais do mesmo, não é mudança nenhuma). O homem novo está à porta, basta abri-la.
Infelizmente, abre-se-lhe a porta e quem entra, mais tarde ou mais cedo, é o homem velho. De fraque.
É agradável assistir a esta dilemática: por um lado é preciso manter o que está (o PCP por exemplo defende hoje uma Constituição contra a qual lutou afincadamente há alguns anos). Por outro é preciso "mudar" (entre aspas, claro: é simplesmente mais do mesmo, não é mudança nenhuma). O homem novo está à porta, basta abri-la.
Infelizmente, abre-se-lhe a porta e quem entra, mais tarde ou mais cedo, é o homem velho. De fraque.
Dizer, não dizer
Se um gajo disser o que pensa é odioso. Se não disser, parece odioso.
Talvez seja melhor dizer: mais vale o proveito do que a aparência.
Talvez seja melhor dizer: mais vale o proveito do que a aparência.
Diário de Bordos - Alvaiázere, Portugal, 24-07-2015
Não era só o pneu da frente que estava furado. Eram os dois. Preciso de câmaras-de-ar sofisticadas e de mais pressão nos pneus. Podia ser pior.
Preciso igualmente de Marc Ribot, vinho verde branco, vinho tinto da tasca ao lado, cebola e pimentos da horta, Ricard no Zé da Praça e mais uma série de coisas que não posso dizer aqui e mesmo que pudesse não diria.
.........
Gosto de ir ao Alvabar beber um Bailey's (ou dois) para terminar o dia. É como regressar à terra depois de uma viagem no espaço.
Só espero que a miúda de ontem não esteja lá: o real é duro, não precisa de o ser demasiado.
........
É bom saber que a independência e a liberdade não desaguam todas no mesmo sítio, se bem tenham nascentes comuns: é para isso que elas servem.
Preciso igualmente de Marc Ribot, vinho verde branco, vinho tinto da tasca ao lado, cebola e pimentos da horta, Ricard no Zé da Praça e mais uma série de coisas que não posso dizer aqui e mesmo que pudesse não diria.
.........
Gosto de ir ao Alvabar beber um Bailey's (ou dois) para terminar o dia. É como regressar à terra depois de uma viagem no espaço.
Só espero que a miúda de ontem não esteja lá: o real é duro, não precisa de o ser demasiado.
........
É bom saber que a independência e a liberdade não desaguam todas no mesmo sítio, se bem tenham nascentes comuns: é para isso que elas servem.
Pergunto-me porquê
Não deixa de ser interessante pensar que nesta história da Grécia só se ouve falar da metade esquerda da coligação. A metade direita não existe.
23.7.15
Diário de Bordos - Alvaiázere, Portugal, 23-07-2015 / II
Lembrei-me, com uma certa injustiça, desta canção. Fui jantar ao quiosque do jardim, a única coisa para comer uma bifana que encontrei aberta.
Ao meu lado estava um senhor que - fez questão de mo fazer saber - é de Cascais; e está em Alvaiázere "há vinte anos". Cometi o erro de lhe dizer que trabalho onde trabalho e sentiu-se na obrigação de discorrer. Ele falava e eu pensava no Brassens e na injustiça: a questão não era bem onde ele tinha nascido.
O homem tem a sorte de ser um imbecil puro, não precisa sequer de ter nascido quelque part.
Felizmente há o Rachmaninov.
Ao meu lado estava um senhor que - fez questão de mo fazer saber - é de Cascais; e está em Alvaiázere "há vinte anos". Cometi o erro de lhe dizer que trabalho onde trabalho e sentiu-se na obrigação de discorrer. Ele falava e eu pensava no Brassens e na injustiça: a questão não era bem onde ele tinha nascido.
O homem tem a sorte de ser um imbecil puro, não precisa sequer de ter nascido quelque part.
Felizmente há o Rachmaninov.
Jornal de Bordos - Alvaiázere, Portugal, 23-07-2015
Não é bem que a rapariga seja feia. Não é, quando se consegue descortinar por detrás do que está à vista. É só que exala mau-gosto da ponta do penteado à ponta das unhas dos pés. Um mau-gosto profundo, camadas sedimentadas de mau-gosto, gerações de mau-gosto. Não há um milímetro quadrado naquele corpo que não esteja coberto de mau-gosto (é tanto que inclui a pele, coitada).
........
Não sei bem como medir a importância de uma povoação - se pelo número de habitantes se pelo de rotundas -. Aquele está em franca diminuição; este aumenta. Escolhamos o optimismo: moro numa vila de trinta rotundas. Trinta? Que sorte. A minha só tem vinte e quatro. E assim por diante.
........
Hoje aventurei-me de novo pelos caminhos de terra. É a segunda vez. Ganhei um pneu furado, claro e uma hora de prazer intenso. Pensei nas minhas aventuras todo-o-terreno do Burundi e do então Zaire, mais conhecido por desaire.
Todo-o-terreno é uma maneira de dizer: havia sempre um purista para explicar que aquilo era todo-o-caminho (tout le chemin no original. Por uma razão que desconheço os puristas têm uma forte propensão para a nacionalidade francesa). Era preciso distinguir o tout-le-chemin do tout-le-terrain).
(Eu distinguia-os, mas não por palavras: quando tinha de ir mesmo para fora das estradas levava o Nissan; quando era para ficar pelos caminhos ia com o Toyota, muito mais confortável e menos macho).
Era nisso que pensava hoje enquanto pedalava deliciado por estes caminhos ladeados de oliveiras, cheios de sombras e dos quais não se tem vonatde de sair, a menos que uma razão muito forte nos a isso obrigue. (A razão era a chegada iminente de uma família francesa, por sinal bastante simpática).
Pouco me surpreende - isto é o resto das minhas reflexões - a falta de vontade ou necessidade de conduzir. Vivo bem sem carta de condução. Depois dos chemins e dos terrains africanos quem tem vontade de se chatear por estas estradas alcatroadas, sinalizadas, mantidas à perfeição, doentias de tão aborrecidas?
Felizmente o pneu aguentou até casa.
........
Parto em breve para a Escócia para um breve transporte de quatro dias, de Inverness para um porto qualquer no sueste do Reino Unido. Eu sei que não se pode ter tudo, etc. Mas dias como o de hoje fazem-me duvidar tanto dessa verdade tão verdadeira (e tantas vezes confirmada)...
........
Não sei bem como medir a importância de uma povoação - se pelo número de habitantes se pelo de rotundas -. Aquele está em franca diminuição; este aumenta. Escolhamos o optimismo: moro numa vila de trinta rotundas. Trinta? Que sorte. A minha só tem vinte e quatro. E assim por diante.
........
Hoje aventurei-me de novo pelos caminhos de terra. É a segunda vez. Ganhei um pneu furado, claro e uma hora de prazer intenso. Pensei nas minhas aventuras todo-o-terreno do Burundi e do então Zaire, mais conhecido por desaire.
Todo-o-terreno é uma maneira de dizer: havia sempre um purista para explicar que aquilo era todo-o-caminho (tout le chemin no original. Por uma razão que desconheço os puristas têm uma forte propensão para a nacionalidade francesa). Era preciso distinguir o tout-le-chemin do tout-le-terrain).
(Eu distinguia-os, mas não por palavras: quando tinha de ir mesmo para fora das estradas levava o Nissan; quando era para ficar pelos caminhos ia com o Toyota, muito mais confortável e menos macho).
Era nisso que pensava hoje enquanto pedalava deliciado por estes caminhos ladeados de oliveiras, cheios de sombras e dos quais não se tem vonatde de sair, a menos que uma razão muito forte nos a isso obrigue. (A razão era a chegada iminente de uma família francesa, por sinal bastante simpática).
Pouco me surpreende - isto é o resto das minhas reflexões - a falta de vontade ou necessidade de conduzir. Vivo bem sem carta de condução. Depois dos chemins e dos terrains africanos quem tem vontade de se chatear por estas estradas alcatroadas, sinalizadas, mantidas à perfeição, doentias de tão aborrecidas?
Felizmente o pneu aguentou até casa.
........
Parto em breve para a Escócia para um breve transporte de quatro dias, de Inverness para um porto qualquer no sueste do Reino Unido. Eu sei que não se pode ter tudo, etc. Mas dias como o de hoje fazem-me duvidar tanto dessa verdade tão verdadeira (e tantas vezes confirmada)...
Religiões e políticas
É fácil atestar a natureza profundamente religiosa da esquerda: a sua crença de que o que devia ser é sempre e necessariamente melhor do que o que é, a indiferença aos milhões de mortos que os diferentes socialismos causaram - a mesma que a da igreja católica face por exemplo à Inquisição - a necessidade de santos e demónios - Obama versus Tatcher, Fidel Castro versus todos os outros - a ideia de que as massas alienadas precisam de quem lhes abra os olhos e as façam ver a luz. A esquerda é uma fé, uma superstição não muito diferente na sua essência do cristianismo, do islão ou das crenças de qualquer tribo da Amazónia ou da Polinésia.
22.7.15
Diário de Bordos - Alvaiázere, Portugal, 22-07-2015
Às quartas-feiras há mercado e feira, ao lado. As sardinhas estavam bonitas, frescas e viçosas. Os chocos também, cheios de tinta. Não comprei nada, não me apetecia ter de voltar a casa e preparar aquilo tudo. Fui almoçar ao Zé da Praça, onde tinha o resto da garrafa de vinho de ontem.
Quero comer peixe, mas o prato do dia é cozido.
Vou precisar de fazer alguns duzentos quilómetros de bicicleta para apagar estes excessos todos.
Comprei tremoços em barrela de cinzas. Nunca tinha ouvido falar disto. A senhora explicou-me como se faz: só se pode usar um tipo de cinzas, de oliveira. As outras deixam os tremoços "negros, negros". Põem-se as cinzas numa meia de mulher e deixam-se cozer com os tremoços quinze minutos. Ficam "corados" (cor-de-laranja intenso) e saborosos. Aprendi o nome de uma profissão: tremoceiro. Ou tremoceira, neste caso: é a avó da senhora jovem que mos vendeu quem os prepara.
O Zé da Praça está cheio. Só locais. Se estivesse em África seria o único branco no restaurante.
Não admira, o cozido está excelente. É difícil falhar um cozido: se o que entrar for bom o que sai é óptimo; caso contrário é péssimo. Gosto da cozinha portuguesa por causa disso: é pouco sensível a habilidades. Se bem as haja, claro; e as aceite.
Um bom cozido prenuncia invariavelmente uma boa sesta.
........
Há muitos anos havia no Bairro Alto um restaurante chamado Baralto, cuja especialidade eram lulas recheadas. Nele trabalhava uma jovem chamada Paula (suponho: tratávamo-la por Paulinha) que chegara havia pouco do campo. Tinha as faces rosadas e o sorriso genuíno mas contido. Era muito bonita. A senhora que hoje me serve trouxe-me a Paulinha à memória. Algumas coisas nunca mudam. É tão bom, não é?
........
Se palitar os dentes não fosse tão agradável não seria, naturalmente, "proibido". Aqui não é só uma questão de ser bom. É que faz parte. Se não palitasse os dentes metade da sala olhar-me-ia com desprezo (isto naturalmente se metade da sala se preocupasse comigo) e pensaria que sou pedante ou venho de famílias ricas e necessito de assertar as minhas origens sociais e exibir a educação (que não tenho mas poderia ter) e ficaria tão isolado como se fosse o único branco num restaurante africano (preto foi banido do léxico aceitável).
Quem me traz os palitos é o senhor Zé ele mesmo. Vêm embrulhados num invólucro individual. Faço uma observação qualquer e o senhor Zé responde. Começámos nos palitos, passámos pelo trabalho infantil ("comecei a trabalhar aos onze anos e não fiquei enfezado"), passámos pela dívida pública "estas modernices modernas (sic): uma criança nasce e já deve trinta mil euros").
Não sei se são trinta mil euros, senhor Zé. Mas espero que isto mude e deixemos de criar uma geração de alérgicos e indefesos. Se não, qualquer dia estamos a importar anticorpos do Benim.
Quero comer peixe, mas o prato do dia é cozido.
Vou precisar de fazer alguns duzentos quilómetros de bicicleta para apagar estes excessos todos.
Comprei tremoços em barrela de cinzas. Nunca tinha ouvido falar disto. A senhora explicou-me como se faz: só se pode usar um tipo de cinzas, de oliveira. As outras deixam os tremoços "negros, negros". Põem-se as cinzas numa meia de mulher e deixam-se cozer com os tremoços quinze minutos. Ficam "corados" (cor-de-laranja intenso) e saborosos. Aprendi o nome de uma profissão: tremoceiro. Ou tremoceira, neste caso: é a avó da senhora jovem que mos vendeu quem os prepara.
O Zé da Praça está cheio. Só locais. Se estivesse em África seria o único branco no restaurante.
Não admira, o cozido está excelente. É difícil falhar um cozido: se o que entrar for bom o que sai é óptimo; caso contrário é péssimo. Gosto da cozinha portuguesa por causa disso: é pouco sensível a habilidades. Se bem as haja, claro; e as aceite.
Um bom cozido prenuncia invariavelmente uma boa sesta.
........
Há muitos anos havia no Bairro Alto um restaurante chamado Baralto, cuja especialidade eram lulas recheadas. Nele trabalhava uma jovem chamada Paula (suponho: tratávamo-la por Paulinha) que chegara havia pouco do campo. Tinha as faces rosadas e o sorriso genuíno mas contido. Era muito bonita. A senhora que hoje me serve trouxe-me a Paulinha à memória. Algumas coisas nunca mudam. É tão bom, não é?
........
Se palitar os dentes não fosse tão agradável não seria, naturalmente, "proibido". Aqui não é só uma questão de ser bom. É que faz parte. Se não palitasse os dentes metade da sala olhar-me-ia com desprezo (isto naturalmente se metade da sala se preocupasse comigo) e pensaria que sou pedante ou venho de famílias ricas e necessito de assertar as minhas origens sociais e exibir a educação (que não tenho mas poderia ter) e ficaria tão isolado como se fosse o único branco num restaurante africano (preto foi banido do léxico aceitável).
Quem me traz os palitos é o senhor Zé ele mesmo. Vêm embrulhados num invólucro individual. Faço uma observação qualquer e o senhor Zé responde. Começámos nos palitos, passámos pelo trabalho infantil ("comecei a trabalhar aos onze anos e não fiquei enfezado"), passámos pela dívida pública "estas modernices modernas (sic): uma criança nasce e já deve trinta mil euros").
Não sei se são trinta mil euros, senhor Zé. Mas espero que isto mude e deixemos de criar uma geração de alérgicos e indefesos. Se não, qualquer dia estamos a importar anticorpos do Benim.
Subscrever:
Mensagens (Atom)


