4.12.15

Retratos antigos






Amores rafeiros

As paixões desvanecem-se a uma velocidade directamente proporcional à sua intensidade.

Já o amor é diferente: tenho um que dura há cinquenta e oito anos com uma rameira chamada vida e apesar de alguns altos e muitos muito baixos continua intacto.

Talentos

Uma vez tive uma namorada que cantava maravilhosamente. A relação dela com o seu próprio talento era complicada (as suas relações com tudo, interno ou externo eram complicadas).

Estou no Lagoonies a ouvir um senhor que canta pior do que ela e tem um reportório infinito.

Ela também tinha um reportório vastíssimo, mas tudo o que dele me deixou foi uma tremenda necessidade de aplaudir cada música.

Agora sei o que custa, ou devia custar.

Quase provérbios

Contra factos fracos são os argumentos.

3.12.15

Diário de Bordos - Cole Bay, Sint Maarten, Antilhas Holandesas, 03-12-2015

Há uma espécie de satisfação infantil em voltar a um lugar onde se viveu e ouvir muita gente dizer-nos "good to see you again", "c'est bon de te revoir", "é bom ver-te".

Mas não é por ser infantil que é menos bom. Hoje o que mais me surprendeu foi o genuíno prazer dos chineses da frente. Até o marido, circunspecto e reservado sorriu quando me viu.

Prazeres simples mas reconfortantes.

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Comprei um livro. Enfim, é mentira. Não o comprei. Saltou-me para as mãos e tentei repô-lo na estante mas não entrava. Pasta de dentes fora do tubo, leite entornado, amor arrependido.

Uma compilação dos textos de Edgar Morin no Le Monde de 1963 até agora por doze euros.

Para comparar: comprei igualmente um bloco-notas Clairefontaine de capa rígida pelo mesmo preço.  Há aqui qualquer coisa que me escapa, mas agora não estou em modo pesquisa.

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A vantagem de St. Maarten sobre Antigua é a proximidade da França.

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Terça-feira vou para Lisboa. Hesitei entre Lisboa e Genève. Não foi fácil.

Nada é fácil quando se vive. Talvez seja essa uma medida: quanto mais difíceis as escolhas mais vives.

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Penso com nostalgia antecipada no dia em que serei de um lugar. Adorno tinha uma frase sobre os criadores que criam os seus precursores. Como dizer o mesmo de quem cria as suas raízes?

Diário de Bordos - Simpson Bay, Sint Maarten, Antilhas Holandesas, 03-12-2015

Larguei de Port Antonio no dia em que a minha Mãe faria oitenta e cinco anos, se ainda os fizesse. Continuarás a fazê-los, Mãe: estamos cá nós e os netos que te conheceram e até chegar a vez deles serás lembrada, e farás anos, e estarás connosco.

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Ninguém gosta de bolinar. Lembro-me de uma frase que li um dia e cujo autor não fixei: "não gosto de escrever, mas gosto de ter escrito". Acho que se pode dizer o mesmo da bolina: não gosto de bolinar mas gosto de o ter feito.

A viagem correu bem e depressa: sete dias. B. é um gentleman, por vezes um bocadinho exasperante porque não dá um passo sem perguntar. Mas foi um bom tripulante e uma boa companhia. St. Maarten acolheu-nos principescamente: um jantar com J. e no dia seguinte outro a bordo do SINCHRONICITY, um barco pelo qual me apaixonei no dia em que o vi e ainda não me desapaixonei, apesar de alguns tumultos na nossa história.

St. Maarten (ou Martin, para quem está no lado francês) é uma ilha adorável, complexa, bonita. É curioso pensar quanto a detestava quando comecei a cá vir; o mesmo se passou com o Panamá. Com quantos outros lugares, pessoas, coisas?

Os grandes amores começam ao contrário, começam connosco a defender-nos, como se soubéssemos que estamos sempre a um passo do abismo, a um passo do amor.

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Dos sete dias que levámos quatro foram de tempestade ou mau tempo. Não tanto como o que apanhámos à saida de Bocas, mas mesmo assim o suficiente para me fazer pensar que estou farto de mau tempo.

Ma non troppo: de Atenas até às Canárias vou ter de novo mais do que a minha justa parte de pancada. Cada vez que digo que quero mudar de vida aparece-me a grandiosa parede da realidade à frente.

........
Passei duas semanas na Jamaica à espera: de tripulantes; de uma decisão sobre a estúpida multa que a Alfândega me pregou, injusta e voraz; do Matthew.

Um marinheiro espera. E felizmente navega e quando navegra esquece-se de tudo o resto, porque navegar é esperar por coisas mais importantes.

........
Bolinar é uma chatice: não há gesto, posição ou acção que seja fácil. Estamos a subir permanentemente, até para nos deitar ou sentar temos de fazer um esforço.

Mas a ideia de que estamos a andar contra a energia que nos move tem qualquer coisa de mágico, de fascinante. E quando estou deitado no poço e oiço o S. M. a cortar as vagas, ágil e vivo; quando olho para o céu e vejo que há estrelas e que Orion está à minha proa e ao lado estão Castor e Pollux, as estrelas dos viajantes; quando percebo o que o barco me quer dizer - os barcos falam, não fazem barulho, já por aqui uma vez o disse - deixo-me levar, deixo-me encantar e lá vamos o barco e eu, se não de mãos dadas ao menos de almas juntas.

........
Falta pouco para chegarmos; se a terra fosse plana e eu não fosse míope veria o Panamá, a Jamaica. Não é, sou e não vejo. De qualquer forma prefiro olhar para a frente: St. Maarten, Atenas, Los Angeles. Do que está para trás só fica o que aprendi. O resto desvanece-se como a esteira que o S. M. deixa no mar.

........
Não sei se por injustiça se por recompensa: depois das tempestades o céu é mais bonito.

23.11.15

Diário de Bordos - Errol Flynn Marina, Port Antonio, Jamaica, 23-11-2015

A razão que tinha para ir a Lisboa antes de Atenas deixou de ser. O mais provável é ir de St. Maarten para a Grécia com uma escala em Amsterdam. Não sei. Ainda não saí de Porto Antonio.

Saio amanhã. Cada vez suporto pior esta palavra, amanhã. E noutras circunstâncias gosto tanto dela. Amanhã. A palavra não é particularmente bonita, mas o que representa é. Excepto quando se declina como consequência de adiar algo que já devia ter acontecido.

Amanhã largo. Talvez tenha de aportar na República Dominicana, porque a comida aqui é péssima e cara. Espero que não.

Se me apanho em St. Maarten não acredito.

Amanhã.

........
Matthew ainda não se decidiu. Está à espera de um mail da Alfândega a garantir-lhe que não vende o barco.

Quanto a mim bem podia esperar que a Marilyn Monroe ressuscitasse um dia na cama ao lado dele, vestida com Channel 5.

Teria mais sorte.

.........
As previsões continuam boas. A ver se se confirmam. Espero que sim. Estou com tanta vontade de me ir embora que só não sairia se me aparecesse um ciclone.

Porém não posso dizer que não gostei da Jamaica. Gostei. Mas enquanto me lembrar de tudo o que por aqui passei não terei muita vontade de voltar.

.........
Vou largar sem conhecer a decisão da Alfândega sobre a multa. Acho que me devia juntar ao Matthew na sua espera pela Marilyn, caso ele adira à minha sugestão. Se não aderir, lamento. Será para mim só.

Perspectivas

Hoje refiz as conexões eléctricas das bombas dos duches, baldeei o convés, limpei as ferramentas e arrumei o interior. O S. M. está pronto a largar, tão pronto como eu. Daqui a pouco o Bernard está aí. Amanhã compro os mantimentos, faço a clearance de saída e ou saio à tarde ou na terça de manhã cedo. As previsões meteorológicas são boas. O barco não está nas condições que eu gostaria mas não está muito longe. O capital de merdas não está gasto - nunca está - mas não anda muito longe do fim. Dia um ou dois de Dezembro estou no Lagoonies a beber um rum punch  e a comprar um bilhete para Lisboa.

Já tive piores perspectivas.

Diálogo curto

Um gajo rico diz a um teso Vou fazer de ti um homem rico. O teso ouve e responde delicadamente Eu já tentei e falhei.

Festa, vida

Penso: É tão bom estar vivo, não é? E logo a seguir: É tão bom viver, não é? Duas ideias diferentes num relâmpago. Dia de festa.

Qualidades breves

Estar bêbedo não é um defeito. É uma qualidade temporária.

Futuro, medo

Não ter medo do futuro será inconsciência, ingenuidade, arrogância ou simples e básico realismo?

22.11.15

Invariavelmente

Por vezes perguntam-me "Mas não tens medo do futuro?" Invariavelmente respondo "Não ".

Por que raio de carga de água invariavelmente tem razão?

21.11.15

Diário de Bordos - Errol Flynn Marina, Port Antonio, Jamaica, 21-11-2015

Os nimbus voltaram e com eles a chuva,  claro. Mas não são suficientes para me tirar o bom humor. A ideia de que largo segunda-feira paga um ciclone, longe vá o agoiro, quanto mais meia dúzia de nuvens baixas e cinzentas que além disso têm a vantagem de arrefecer a manhã.

É uma alegria injusta, eu sei. O país não tem culpa dos meus déboires. Mas a verdade é que estou ansioso por chegar a St. Maarten e ainda mais por a deixar e aterrar em Lisboa, ainda que por pouco tempo. Estranho nómada este, que tanto sonha com a sua terra que qualquer dia a faz sua de novo.

........
Chegou um Outremer 55. Quem acha que não há catas bonitos devia olhar para este. No fundo é um Kelsall desenhado por um francês. O que sonhei com este barco raia o inconfessável.

.......
O Mathew ainda não me disse se vem ou não, mas com a confirmação do Bernard estou menos preocupado. Gostava que ele viesse porque é simpático e traz um monte de coisas de que preciso mas se não vier paciência.

Bernard tem sessenta e cinco anos. Mandou-me um CV mas não o li. No papel pode escrever-se o que se quiser. No mar não.

Chega amanhã à noite. A ver, como dizia o ceguinho. Este pelo menos sabe o que o espera e não é nenhuma criança à cata de experiências para vivenciar.

Ou experienciar, não sei. Sou parco de vivências e de experiências no plural.

........
Parece-me que o inchaço no ombro esquerdo está a diminuir. Um dia crio uma farmacêutica e chamo-lhe Indiferença, Placebos e Outros Remédios.

Não lhe auguro grande sucesso. Fica melhor como título de um livro.

........
E. quer contratar-me para levar o cata da Sunsail para Fort Lauderdale.

Aí está um projecto apaixonante. Depois de reparado a ideia é fazer charters em Cuba, ou entre Cuba e os Estados Unidos.

Muito provavelmente não dará em nada,  mas que é um nómada sem um sonho? Um refugiado, talvez.

Porquê?

Felizmente não tenho. Mas se tivesse de escolher uma e uma só razão para manter o Don Vivo essa razão seria a absurda quantidade de horas que passei agarrado a esta e a outras merdas de telefones portáteis para escrever uma linha.

Vírgulas, rodriguinhos

Os portugueses gostam demasiado de vírgulas.

Diário de Bordos - Errol Flynn Marina, Port Antonio, Jamaica, 20-11-2015 / II

O Labest Sports Bar tem sobre o outro bar que conheço em Porto Antonio várias vantagens. Desordenadamente: está mais perto da marina, é mais barato e a barmaid mais bonita. Acessoriamente hoje, sexta-feira, a grosso modo metade feminina da clientela é bastante agradável. Tenho pena de não poder ficar mais um bocadinho. O volume e qualidade da música impedem-mo.

O Labest Sports Bar fica no primeiro andar de uma esquina na praça à frente do mercado. Tem uma varanda onde me refugio e de onde observo a vida da cidade  (ou vila ou seja o que for. Porto Antonio tem vinte mil habitantes).

A confusão no tráfego é a habitual em qualquer cidade pequena fora da Europa e provavelmente dos Estados Unidos. Não é isso que me chama a atenção. É a quantidade de mulheres que andam sozinhas na rua, o meu indicador favorito de segurança. Rua ou quarteirão onde não veja mulheres sozinhas é rua que evito ou pelo menos onde presto mais atenção ao que me rodeia.

Gosto de ver o trânsito fluir sem regras, sem sinais,  sem polícias, traços nas ruas. Assim devia ser em todo o lado. Os acidentes ocorrem porque se desrespeitam as regras de trânsito. Se não houver regras não há acidentes.

Gosto da calma, da ausência de agressividade com que todos os tipos de veículos partilham a rua. Bicicletas,  automóveis, carrinhos de mão,  camionetas, motas  (poucas), peões... A rua é de todos igualmente.

Que país estranho este, encantador e odioso, amical e inimistoso, hospitaleiro e agressivo.

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Domingo à noite chega um tripulante do Canadá e hoje o José anunciou-me que a partir de amanhã os meus runs têm um desconto  (vinte e cinco por cento, não é despiciendo). Ao contrário do que possa parecer há uma relação entre os dois factos: posso largar segunda-feira e José quer que os últimos dias sejam agradáveis.

Se fosse dado a contas calcularia quanto me custou esta generosidade do José. Mas não sou. Estou mais para o lado das tintas.

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Falta-me resolver o problema da multa e já sei que não será antes de largar, a menos que Deus exista - o que já de si é mais do que duvidoso - e goste de mim,  coisa de que tenho bastas provas não é verdade.

Mas vou lutar até ao fim. Continuo a não perceber como é que há gente que acha o Estado bondoso, e de qualquer forma lutar contra o "bem" é uma causa nobre.

20.11.15

Diário de Bordos - Errol Flynn Marina, Port Antonio, Jamaica, 20-11-2015

A história é simples, triste e conta-se depressa.

Há uns dias chegou um cata da Sunsail. Vinha de Tortola e ia para Belize. Antipatizei com o skipper mal o vi. Foi uma daquelas antipatias imediatas e inexplicáveis. O rapaz nem sequer era agreste ou malcriado, mas pronto, não me passou pelo estreito. Anteontem vi-o fazer uma coisa com a qual não concordo muito e confirmei o meu sentimento.

Ontem ia-se embora. Os dois tripulantes que trazia desembarcaram (quando lhe perguntei porquê - vinham mesmo a calhar - respondeu-me evasiva e inverosivelmente que "tinham gostado muito da Jamaica e vão ficar aqui") e ele ia seguir viagem sozinho. Achei estranho porque as empresas não costumam autorizar transportes em solitário. Perguntei-lhe se a Sunsail o permitia disse-me com um sorriso entendido que sim e depois acrescentou "de qualquer forma não vou dizer-lhes". Pensei, mas não lhe disse, que o problema não era a sunsail, era a companhia de seguros.

Antes de largar passou por mim e despediu-se, simpaticamente.

Hoje quando acordei vi o cata na área técnica, mastro inclinado. Adomeceu e bateu num recife. Fui com o E. ver o barco (E. quer começar uma empresa de charter e está à procura de pechinchas). O rapaz não se calava "Não posso acreditar", dizia. Depois E. e eu fomos beber uma cerveja ao Peter (o daqui, infelizmente). Ficámos a saber que quando saiu de lá ontem à tarde - isto é, pouco antes de ter passado por mim para se despedir - estava tão bêbedo que o Peter lhe recusou mais cerveja.

Goste ou não do rapaz não deixo de lhe lamentar a sorte. Tem a carreira destruída - e isto sem ser preciso que se saiba quão bêbedo estava -.Também eu fiz muitas asneiras, felizmente nenhuma com consequências tão graves. Só com uma coisa me alegro: verificar o que aprendi e, dadas as circunstâncias que me fizeram parar na Jamaica, que ainda sou capaz de aprender.
Vim deitar-me  no cockpit como se estivesse no camarote. Os pontões não têm luz e tenho uma toalha para me cobrir se for preciso.

Daqui a pouco vem I Cover the Waterfront, o melhor slow de todos os tempos. Amanhã vou a Kingston. Talvez. Não tenho a certeza. Ter sono é tão bom como dormir: o que aí vem vale o que aí está.

Começou o Waterfront. Esta música faz-me pensar no Barco Negro  cantado pela Amália. É a minha música favorita dela.

Acontece-me muitas vezes adormecer cá fora.

19.11.15

Diário de Bordos - Errol Flynn Marina, Port Antonio, Jamaica, 19-11-2015 / II

"China, se não mudas a música já tenho um ataque cardíaco, morro e fico aí estendido no chão para todos verem. E morro antes de te pagar a conta!"

O China mudou logo a música, não sei se devido à primeira parte da ameaça se à segunda. Pôs reggae. Este magnífico fim de tarde merece muito mais, mas apesar disso é bastante melhor do que a merda anterior.

(Deve ter sido pela primeira. O dinheiro que tenho a pagar não justifica tanta prestabilidade).

.........
Não há pingo de vento. Se isto continuasse assim mais uma semanita eu chegaria num instante a St. Maarten. Não vai continuar, claro.

........
De repente o S. M. parece de novo uma embarcação de recreio. Estes últimos dias parecia um estaleiro flutuante.

Um dia terei um barco e farei estas coisas todas para mim. Versão alternativa: um dia não terei barcos nenhuns e não farei mais estas coisas.

........
Hoje tomei três banhos na piscina. O que as coisas mudam!

.........
M. adiou para amanhã a sua decisão. Compreendo-o. Não é fácil deixar um barco e muito menos a um bando de macacos uniformizados. E ainda há pessoas que acreditam no Estado. As únicas coisas que os Estados fazem melhor do que os privados são a guerra e a polícia e a isso deviam estar limitados. Já é muito, de passagem seja dito.

Bom ou mau

Quem me conhece sabe que o meu corpo deixa muito a desejar. Insatisfatório esteticamente, um falhanço total do ponto de vista mecânico, intelectualmente medíocre, míope, desmiolado, meio surdo, sem memória, incapaz de correr os cem metros em menos de uma hora - e não menciono sequer os cem metros barreiras - não sei que fazer dele.

Agora deu-lhe para me doer com dores que sobrevivem à indiferença com que sempre o tratei. Às vezes penso em mandá-lo dar uma volta ao bilhar grande, mas tenho medo que ele não volte. Bom ou mau é o único que tenho, e quem fez este já cá não está para fazer outro melhor.

Menos um

O Ma-schamba vai acabar. Bolas.

Diário de Bordos - Errol Flynn Marina, Port Antonio, Jamaica, 19-11-2015

Ontem à noite:

Vamos pôr ordem nisto tudo:

- Ainda não parou de chover;
- As bombas não estão prontas;
- O Matthew ainda não disse se vem;
- Não é amanhã que terei dinheiro;
- A Alfândega ainda não decidiu;
- As dores no ombro esquerdo ainda cá estão.

Mas:
- O Miles Davis está a tocar;
- Fui outra vez jantar ao Piggy's, ao que parece a melhor Jerk Chicken de Porto Antonio;
- As previsões meteorológicas para a viagem são soberbas.

Se fôssemos pela quantidade diríamos que está tudo na mesma. Felizmente prefiro a qualidade. E ou muito me engano ou domingo estou fora daqui.


Hoje de manhã:

- Parou de chover. As montanhas são verdes outra vez, o céu azul e a água da baía algures entre os dois. Pode ser que os meus sapatos sequem, as toalhas, as almofadas e eu também, que bem preciso.

- Reparei a bomba de água doce, marimbei na de fundo e os rizos estão quase prontos. Domingo ou segunda estou fora daqui.

Gosto da Jamaica, mas Porto Antonio é realmente demasiado miserável para mim. Há quem goste, mas nem sempre percebo porquê. E quando percebo acho horrível.

........
A baía é muito bonita, mas estou cansado e só lhe aprecio a beleza nos intervalos.

E as ruas estão surpreendentemente limpas. Não consigo impedir-me de pensar no Brasil, uma vez mais, e na imundície que se vê em todo o lado. Da sujidade passo ao barulho. Ou melhor, à sua ausência. Está-se e anda-se tranquilamente na rua, sem as agressões sonoras  das ruas brasileiras.

A Jamaica parece-me definitivamente mais um caso triste de país que não merece o governo que tem. São tantos...

18.11.15

Diário de Bordos - Errol Flynn Marina, Porto Antonio, Jamaica, 18-11-2015

É sempre assim: a grande vantagem de tudo estar mal é que tudo fica bem de repente e ao mesmo tempo.

Ou pelo menos tudo de repente parece poder correr bem. Como quando o sono chega subitamente no meio de uma insónia, ou uma mão que julgávamos presa nos toca e nos diz sim.

M. é um jovem russo que está em Porto Antonio com o barco arrestado por causa de uma tonteria qualquer da Alfândega jamaicana, a mesma que me impôs uma multa absurda de oitocentos e trinta e quatro dólares. A dele é de cinco mil. O rapaz (tem vinte e quatro anos) é de uma educação irreprensível, simpático, prestável (é no computador dele que tenho escrito quase todas estas crónicas, procurado tripulantes, vagueado pelo Facebook).

Nunca lhe falei em vir comigo para St. Maarten porque sabia que ele estava a tentar resolver o problema do barco dele e parecia-me injusto pôr-lhe o meu em cima. Mas ontem fi-lo, de passagem e como quem não espera nada. "Devias era vir comigo para St. Martin". Sorrimos e continuámos uma daquelas conversas sobre nada que são o apanágio de marinheiros presos ao bar de uma marina por causa das autoridades, das avarias, de tripulantes, do tempo ou do que quer que seja.

Hoje veio ter comigo: está a pensar seriamente tirar do barco tudo o que pode e deixá-lo aqui. Vai dar-me uma resposta definitiva amanhã. Eu tenho de esperar até sexta pela decisão das autoridades e de qualquer forma quero estar cá no fim-de-semana porque há um mercado com comida boa e fresca (as lojas de porto António são fracas, para ser simpático).

Entretanto hoje avancei com as bombas. Amanhã devem estar funcionais. Os rizos são coisa para uma hora. Nas coisas que o M. traz do barco estão as que eu precisava de comprar.

Ainda é cedo para cantar vitória e estas linhas não são uma celebração precoce: são a manifestação de como me sentirei quando puder sair daqui. Vai ser de repente, vai ser assim.

........
A Jamaica é muito mais pobre do que eu pensava. Tem um PIB per capita de cinco mil e poucos dólares. O de Antigua, para comparação é de treze mil e o do Brasil doze mil.

O país está bastante endividado e o Governo encontrou a solução mágica: aumentou os impostos. Aí reside a resposta à minha pergunta do outro dia. O país é pobre, as pessoas miseráveis e o governo aumenta os impostos. José, o dono do bar está a pensar ir-se embora. Ele é cubano, pode ir. E quem não pode?

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Porque é que a direita perdeu a batalha da comunicação? Não sei. José diz-me, a respeito do aumento de impostos: é isto que está errado no capitalismo.

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De repente vejo-me em modo largada, o meu favorito. Já só falta a chuva parar.

17.11.15

Diário de Bordos - Errol Flynn Marina, Porto Antonio, Jamaica, 17-11-2015

Numa carrinha desenhada para transportar menos de trinta pessoas somos quarenta, quarenta e poucos.

O chauffeur sabe conduzir e conhece o caminho. As curvas e contra-curvas sucedem-se com suavidade e elegância; o motor dá o que pode e, suspeito, um bocadinho mais do que deve. A suspensão aguenta estoicamente.

"Vais chegar cansado" prevenira-me M. na marina. Estava podre de razão: estou nisto há meia hora e sinto-me comprimido num torno gigante que um louco qualquer agita como se tivesse acabado de fumar uma pipa de crack.

O condutor engrena reduzidas e duplas embraiagens magistralmente, num timing perfeito. Lembro-me dos water taxis em Bocas, os que faziam a linha de Almirante: a mesma competência, o mesmo brio, uma igual necessidade de extirpar a monotia de um trabalho essencialmente monótono, a ganância. E penso nos autocarros de S. Luís, tão diferentes: bruscos, agressivos, zangados. Aqui não. O condutor e a estrada são um só, como nos livros zen e nas conversas das cabeleireiras.

Alguns pormenores são tocantes: o cobrador que põe uma almofada nas costas de um dos passageiros, o meu vizinho a queixar-se de que estou a apoiar-me demasiado nele ("you are leaning too much on me"), como se eu tivesse alternativa. Nem às costas do strapontin que partilho com uma senhora gorda chego, quanto mais a ele. Estou sentado à beira do banco, pernas encolhidas e dormentes. Mal consigo mexer o polegar com que digito no telefone.

........
Das cinco coisas que tinha de fazer em Kingston consegui fazer três e meia. Dadas as circunstâncias não me parece mal.

Claro que ao chegar a bordo tudo mudou - a correia da bomba de fundo que tão facilmente encontrei e pensava ser difícil afinal não é a única avaria da bomba, esqueci-me dos [cones de madeira] (isto tem um nome) e gastei uma pipa de massa em táxis - são um absurdo de caro, aqui.

Tudo é caro na Jamaica. Acabam de me propor uma garrafa de rum por oitenta dólares, no bar da marina. Felizmente reagi a tempo. Oitenta dólares uma garrafa de rum? St. Maarten, ainda estás longe?

(Por que raio de carga de água quanto mais pobre é um país mais caras são as coisas?)

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Passei o dia em Kingston e fiz setenta por cento do que queria. Já só me faltam duas contigências a resolver: a multa e a tripulação (e os rizos e as malditas bombas, claro). Podia ser pior.

Kingston está dividida em duas: uptown e downtown. Não percebi se geograficamente há uma correspondência tão perfeita entre a realidade e as designações como a que há socialmente. Parecem dois mundos diferentes.

Mais uma vez penso no Brasil, onde as partes pobres e ricas de uma cidade são  duas galáxias diversas, divididas por linhas visiveis, palpáveis. Aqui não: a transição faz-se suave, gradualmente. Do Yacht Club para o shipchandler apanhei boleia do estafeta do clube, numa Honda 125 (creio, não garanto). Dei as voltas que ele tinha de fazer antes de me deixar: banco, assinar um cheque, procurar uma pessoa.

O resto fiz de táxi ou a pé. A boleia foi bem vinda, e não apenas do ponto de vista financeiro. As pessoas são adoráveis, simpáticas. E não é preciso usar capacete - nos táxis tão pouco é preciso cinto, mesmo no lugar da frente. Nem tudo é mau-.

........
A viagem de regresso foi melhor ainda. Apanhei a mesma carrinha, por acaso. O cobrador prometeu-me que iria menos cheia e tinha marginalmente razão: não havia ninguém de pé. De resto, continuávamos a ser cinco por fila - na minha só havia uma senhora gorda - mas consegui apanhar o lugar ao lado do que queria: última fila, num dos cantos. Esse estava ocupado por uma rapariga magrinha que mal se mexeu quando me sentei.

Era noite. Ao princípio havia uma grande fila de automóveis à nossa frente e vínhamos devagar. Mas mal o chauffeur se apanhou com a estrada livre deu largas à sua habilidade. Que bonito é ver alguém fazer bem o que faz.

Eric, o meu vizinho e C., a Consulesa de Espanha acham perigoso andar nestes autocarros. Eu não acho. Talvez seja, mas as vantagens são tantas que compensam largamente o risco. Qual o chauffeur privado que conduziria tão bem como este? Onde veria as pessoas de pé dar a quem está sentado os seus sacos e estes serem aceites sem um murmúrio? O senhor que ia sentado na fila à minha frente, perto da porta, levava três volumes no colo: uma carteira de senhora, um saco de alguém que não vi quem era e o dele, grande. Entrou uma mulher para a secção "de pé" e depositou-lhe a carteira no colo com um pequeno aceno da cabeça, correspondido por um igualmente minúsculo consentimento.

A viagem custa quatro dólares por trajecto. Não sei se ou outros condutores são tão bons como este. Se forem, posso garantir que é de borla.

.........
Hoje o dia está pior. Nada avança e chove. Tudo chove em cima de mim.

Amanhã será melhor.

15.11.15

Diário de Bordos - Errol Flynn Marina, Port Antonio, Jamaica, 14-11-2015 / II

A vantagem que nós, homens feios temos sobre os bonitos é que quando recebemos um beijo de uma miúda gira sabemos que não é por causa das aparências.

........
A piscina é minúscula e a miúda que está sentada no bar tem daqueles olhos enormes, globulares, protuberantes, saem-lhe da face como melancias mas brancas em vez de verdes. A música do bar não é reggae e hoje negociei com José, o cubano dono disto as condições de crédito. Isto é, disse-lhe que não corria risco nenhum de eu fugir sem pagar, o que é verdade. Acreditou, felizmente. Também não admira,  é um gajo inteligente. Só os estúpidos não sabem ver quando um homem diz a verdade ou está a mentir e para se defenderem pensam que os outros estão sempre a mentir. A estupidez é uma das formas da preguiça. O barman chama-se China mas deve ser alcunha porque é uma mistura visível à légua de preto e chinês; mais visível não podia ser. Faz uns rum punch sofríveis mas é simpático como o diabo quando está de bom humor (o diabo. China está sempre,  um bom humor delicado, discreto). O bar não é grande coisa e a piscina minúscula, estou a repetir-me, mas gosto do lugar. As pessoas são fantásticas. Paul, o director da marina pagou - ou melhor, avancou a massa - para a multa, se não teria de ir com o barco para o cais da policia "para eu não ficar com má impressão da ilha". Junior levou-me ao hospital em Kingston. Estava perdido de bêbedo, o hálito dele daria para fazer explodir um estádio (talvez os filhos da puta dos terroristas muçulmanos pudessem começar a adoptar esta técnica. Já não digo comer porco porque isso seria canibalismo ), íamos tres no carro - ele, a "bela namorada" e eu, ela comprimida entre mim e ele, só tinha dois lugares e a meio caminho ele parou para me oferecer uma Red Stripe que é uma cerveja do camandro e provavelmente para se oferecer um rum ou dois "sou mais um tipo de álcoois fortes". Fartámo-nos de rir, ele e eu, porque ele fez uma piada do género "querida, ele está a mexer-te?" e eu entrei no jogo e fomos assim até ao hospital. A miúda ia meio encavacada, só sorriu quando eu disse "se um dia estiveres farta do Junior telefona-me" e o Junior respondeu "pode ser já". "Ainda é demasiado cedo" retorqui e aí sim, ela sorriu. O médico tambem era curtido. Levou seiscentos dólares por uma hora ou duas de trabalho, mas no dia seguinte reduziu o preço para metade e quando acabou o tratamento ficámos ali na conversa, a Consulesa de Espanha ele e eu, a falar de vinhos portugueses e de viagens na Europa e ele fez uns desenhos muito bonitos a explicar o que tinha acontecido à V. Foi uma boa conversa e rimo-nos bastante apesar das circunstâncias, mas eu acho que é nessas situações que se deve rir.

Isto é, se formos ver um espectáculo do Raymond Devos, por exemplo, é impossível não nos rirmos, é normal, inevitável. Mas num hospital com uma conta de seiscentos dólares e uma miúda que quase perdeu dois dedos e um gajo com vinte dólares no bolso e sem saber como ou quando vai sair da ilha é muito mais dificil.

E melhor.

Não tenho má impressão da ilha, não tinha e assim continuo depois desta merda toda, cinco horas de papelada e telefonemas e argumentos e o caraças. Quando tiver dinheiro vou comprar os discos todos do Bob Marley e comer um bom jerk de galinha. O China já me disse onde ir e se o dele não é mau imagino como será um que ele diz ser "o verdadeiro". (Estou a marimbar-me para a verdade na cozinha, mas isso é outra história. Tudo o que é bom é uma construção, uma mentira).

Depois vou-me embora, só preciso de encontrar um tripulante ou dois.

14.11.15

Diário de Bordos - Errol Flyn Marina, Port Antonio, Jamaica, 14-11-2015

A chegada à Jamaica foi pouco auspiciosa. Não estava previsto pararmos aqui, mas a V. teve um acidente grave e foi preciso repatriá-la. A única coisa que vi de Kingston foi o hospital. À nossa espera estava a habitual corte de agentes da autoridade (Imigração, Alfândega, Polícia Marítima, cada entidade representada por duas pessoas não vá uma perder-se) e a consulesa de Espanha que tinha sido chamada pelo namorado da V. para nos ajudar.

Ajudou, e muito. V. foi dormir a casa dela, eu voltei para bordo e no dia seguinte, de manhã cedo como de costume acordei, vi que a quilha ainda estava enterrada no lodo e resolvi ir-me embora, apesar de saber que devia fazer primeiro a clearance. Não fiz: a ideia de esperar ali quase 3 horas que o escritório abrisse e depois mais não sei quantas pela chegada de suas excelências pareceu-me insuportável. Parecença essa que me custou oitocentos e trinta e quatro dólares americanos.

Segunda-feira vou a Kingston tentar reduzir esta absurdidade.

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Resumo da viagem: o meu rumo e o vento na mesma linha, eu para lá e ele para cá.

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O vento chegou às três da madrugada, com o ímpeto e as hesitações dos ventos novos. O S. M. comporta-se às mil maravilhas. São sete da manhã e já rizei, desrizei e voltei a rizar. Mas oito nós de VMG compensam tudo e mais alguma coisa.

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Não há melhor revelador de carácter, personalidade, feitios, defeitos e qualidades do que o mar.  Se eu fossse psicólogo, psiquiatra, coach ou afim abriria um consultório num barco e promovê-lo-ia dizendo "quer saber quem é realmente e o que vale? Venha bolinar connosco".

Infelizmente não auguro grande sorte à iniciativa: ninguém gosta de pagar para descobrir que não vale uma merda.

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Suporto mal a estupidez, mas de certa forma perdoo-a (não só por simples mecanismo de auto-defesa mas também porque é involuntária). Já ser banal é uma escolha e imperdoável.

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Pela primeira vez na vida tive de desembarcar um tripulante por causa de um acidente. Recebi simultaneamente uma vasta e caríssima lição. Quem não fica estupefacto com a quantidade de coisas que aprende todos os dias? Eu fico.

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É paradoxal que apesar de tudo a Jamaica me pareça um país simpático e me dê vontade de a conhecer melhor.

A chegada a Porto Antonio é de tirar a respiração.

6.11.15

Diário de Bordos - Red Frog Marina, Bocas del Toro, Panamá, 05-11-2015

Quando cheguei a Red Frog Marina a estação de fuel já estava fechada. Tive de passar a noite aqui. Azar? Não sei. Um copo no Palmar ao fim do dia é uma estranha e injusta manifestação de azar.

Tal como acordar nesta paz, a água espelho do céu e da selva que a rodeia. Às seis da manhã só se ouvem os pássaros, os animais na floresta e uma solitária panga, que de tão solitária não choca. É parte da paisagem, como os pássaros e as nuvens cujo reflexo na água em breve - assim que a esteira chegar ao pontão - se romperá em mil pequenoa reflexos.

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Ontem recuperei os meus discos. V. pediu-me música africana. Pus as Mandé Variations. Toumani Diabaté toca Kora como se tocasse coração. Não é um jogo de palavras - seria péssimo se fosse.

A comoção é um delta ao contrário,  um delta  com muitos braços pelos quais os sentimentos entram antes de chegar a este rio que eu sou.

2.11.15

Diário de Bordos - Colon, Panamá, 02-11-2015 / II

Em Colon há um louco no céu com umas tampas enormes que ele mexe de forma aleatória. Excepto talvez a da manhã e a da noite: está escuro, escuro de breu. Qualquer coisa se passa lá em cima e está dia. Como o vento é nulo e a humidade altíssima a luz é ainda mais densa e alaranjada de que a de Lisboa. Tudo fica com um relevo muito marcado, quase surpreendente, como quando estamos a ver um filme em três D sem os óculos e depois os pomos. Ou então ao contrário: é dia, alguém mexe uma tampa e fica noite.

De súbito uma outra tampa mexe-se e desata a chover. A tampa volta e com ela o sol. E assim de seguida.

Hoje o senhor das tampas do céu (são as minhas favoritas; das terrenas já tenho que chegue) estava particularmente animado: num quarteirão chovia a rodos e três ruas ao lado estava um sol de verão algarvio; mais quatro ruas e chovia; mais duas e o sol ficava insuportável de quente. Foi assim até às eclusas, momento em que tudo ficou solenemente cinzento.

Agora chove a potes. O barbecue do Joachim vai ser adiado de novo, aposto.

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"A susceptibilidade é a saudade daquela batalha que ainda não ganhámos", diz-me T. Que descrição tão perfeita da susceptibilidade, tão peganhenta como a saudade e tão estúpida (às vezes) como as derrotas (algumas).

Ontem tive um acesso dela. Espero que a saudade se vá e a batalha não termine por uma derrota.

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Com um bocadinho de sorte largo amanhã. Com a habitual largo quarta. Primeiro vou a Bocas buscar as coisas que ainda lá tenho e depois rumo a St. Maarten. Vai ser bom. Quinze dias de mar numa embarcação soberba com uma boa, se bem inexperiente tripulante.

As qualidades humanas são mais importantes do que a experiência: esta adquire-se; aquelas não, a partir de certa altura.

Diário de Bordos - Colon, Panamá, 02-11-2015

A Marina de Shelter Bay continua a borrada que sempre foi; está só ligeiramente pior. Surpreendente, quando se pensa na pouca entropia de que aquilo precisa para ficar muito pior.

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Mil e cem milhas num X-50 com dez anos e super bem mantido (à bolina, é certo. Mas não se pode ter tudo), com uma tripulante que até agora tem superado todas as minhas expectativas, trabalho em perspectiva logo a seguir.

Se há dois anos alguém me dissesse que um dia estaria nesta situação tê-lo-ia mandado dar uma volta ao bilhar grande, pentear macacos ou pelo menos não gozar com a miséria alheia.

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Novembro é o mês das independências do Panamá. "Temos três", diz o senhor do hostel a uma jovem francesa, num inglês impecável. "Uma de Espanha, outra da Colômbia..." Olho para ele. Sei que vai dizer "e outra dos Estados Unidos" mas pára a tempo. "Enfim,  duas".

As independências do Panamá  (e a dos outros países latino-americanos, de resto) não é tema que se possa tratar pelas teclas virtuais do meu telefone, muito menos inteligente do que a maioria das pessoas diz.

Mas é um tema interessante e já aqui aconselhei duas leituras particularmente úteis: o Manual do perfeito imbecil sul-americano e Do bom selvagem ao bom revolucionário.

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Despedi-me de Lisboa em grande: desci a avenida da Liberdade a toda a liberdade, fui ao Chiado, ao Rossio, almocei na Merendinha do Arco, louvado seja Deus. Não há ateísmo que resista àquela feijoada, àqueles torresmos, àquela aguardente. Fui ao Terreiro do Paço, tirei fotografias com o telefone no Cais das Colunas, voltei para casa pela Almirante Reis. Jantei no Tambarina e bebi um copo no Viagem.

Uma minúscula fracção de Lisboa e já a alma se satisfaz.

Reverência (ou inveja?)

Há uma quantidade admirável de pessoas a querer escrever livros em vez de os ler.

28.10.15

Sou, fui, serei

Já tive uma namorada; e uma mulher; e uma amiga. Já vivi, morri, ressuscitei, Fiz tudo e o seu contrário (o contrário de tudo é tudo). Não me posso queixar e não me queixaria mesmo que pudesse. Já tive dinheiro e já não tive e quanto mais tinha mais queria e quanto menos menos, como toda a gente. Ri, chorei, sofri, amei e fui - imagine-se - amado, sofrido, rido e chorado. Falei, falaram-me, falhei, acertei, ouvi, vi, perdi, ganhei. Há poucos verbos no léxico que não possa conjugar e adjectivo nenhum que não se me cole à pele. Bebi e fui bebido, fumei e fui fumado, matei morri fui morto escrevi e fui escrito nos ossos, na carne, na pele e no sangue. Fiz, fui feito e desfeito e refeito e refiz-me, sempre, dia a dia hora a hora minuto a minuto. Sou vento sol lua mar e núvens, redondo e quadrado, linear e circular e espiral e linha recta, sólido e fluido, Sou corpo e corpos, pele e peles, olhar e olhares, mãos e mãos. Sou o que sou, fui e serei. Verbo, substantivo, adjectivo, advérbio, preposição e artigo: não há palavra que não tenha sido.

Ou serei: ainda não fui.

Paráfrase

Write drunk. Don't edit.

Sa vagabonde existence

"Mais le récit serait meilleur, pense-t-il, «si le héros s'étendait un peu moins sur ses impressions de poète (impressions renouvelées de tous les vulgaires touristes) et s'attachait un peu plus à nous initier aux détails et aux misères de sa vagabonde existence»"

In Courts voyages au pays du peuple (a citação é de uma crítica num jornal da época ao livro Mémoires d'un enfant de la Savoie, de Claude Genoux).

A prosa, os corpos et le coeur

"Il est temps que ceci se calme dans la prose qui m'attend et que s'opère l'ancien partage: le corps ici et là le coeur pour les livres et pour le monde."

Idem, ibidem.


Hors du salut point de femme

"De vos expériences malheureuses vous retirez au moins une conviction: hors de la femme, point de salut".

Michelet, Journal, citado por Jacques Rancière in Courts voyages au pays du peuple.

27.10.15

Diário de Bordos - Lisboa, 27-10-2015

Estou cansado mas tenho sorte: não estou cansado como o outro. Não é de já nada esperar que estou cansado. É da luxúria de esperar.

A esperança é uma falha da inteligência, eu sei. Apesar disso estou cheio de esperança, como a Lua se enche de luz que não é dela e a reflecte e nós só a vemos a ela e pensamos que é o luar e esquecemos que o luar vem do Sol como a esperança vem dos dias que vivemos, dos dias que nos enchem como o de hoje me encheu. De esperança, por muito ingénua que a palavra possa parecer.

Um dia que começa perdido no Alentejo a caminho de Mértola não pode ser um mau dia.

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Ilusão óptica: é-me impossível andar por Mértola sem me ver lá.

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Quinta-feira aterro em Panamá. É uma cidade inventada. Incêndios, terramotos, ataques de corsários, bombardeamentos... Nada há que não lhe tenha acontecido e ainda ali está, no meio de continentes, hemisférios, culturas e oceanos.

Quatro meses no Balboa Yacht Club equivalem a quatro anos noutro lado qualquer: não há navio que não nos passe pela frente nem sonho que não vejamos desfeito ou realizado, Panamá é uma espécie de rampa de lançamento de foguetes que lhes recolhe os detritos quando rebentam e os aplaude quando não. Nada daquilo parece real: os navios passam mas não ficam, tal como os sonhos.

Não conheço ninguém que viva em Panamá porque sim; todos lá ficam porque não.

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Panama - St. Martin - Atenas - Los Angeles - Mértola. Parece-me um bom programa, global e englobante.

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Isto dito pergunto-me como viver num país em que trato toda a gente pelo primeiro nome imediatamente e me respondem com "senhor Luís".

25.10.15

Posts telefónicos

Escrever posts no telefone tem várias desvantagens e uma grande vantagem: só escrevo metade do que tinha pensado escrever inicialmente.

Diário de Bordos - Lisboa, 25-10-2015

Acredito pouco na "mudança" e menos ainda que quando a há é para melhor. Tem dias. Ontem foi um desses dias e hoje também. Não me posso queixar: dois seguidos de como as coisas poderiam ser...

Ontem fui jantar ao Estoril de bicicleta e voltei. Uma hora e meia para lá, um nadinha menos para cá. Ouvi uma buzinadela à ida e uma daquelas gesticulações que os condutores portugueses usam para mostrar que são mentecaptos quando não têm outro método à vinda. É um recorde. Aliás, a buzinadela nem sequer foi das agressivas, foi só para dizer veja-me, como se os ciclistas fossem cegos (surdos nunca somos, valha-nos isso).

Hoje fui à Gulbenkian. Perguntei se podia guardar a bicicleta no interior porque não tenho cadeado. A recepcionista disse-me "no bengaleiro" e lá fui, burra na mão a pensar como vou dizer à senhora que preciso de deixar a Vitus Turbo no bengaleiro? Não foi preciso dizer nada. Ela viu-me chegar, apontou para a porta, pus a bicla lá dentro, recebi uma chapinha e até já, obrigado.

Há dias e dias e um dia haverá muitos mais como estes dois.

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Para o Estoril fiz tudo o que podia por dentro e pelos paredões. Para cá vim sempre pela Marginal. Na verdade nem sequer é preciso fazer pistas cicláveis. Basta reduzir a velocidade dos automóveis, encher a Marginal de gincanas, vasos de flores, canteiros, esplanadas. Aquela avenida é um luxo, não uma via de circulação. Quem quer deslocar-se que vá para a autoestrada. Na Marginal só deve andar quem quer apreciar a beleza da foz do Tejo e o mar.

De Cascais a Lisboa há duas autoestradas.

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Duas boas exposições no CAM: X de Charrua e Tensão e Liberdade. Não conhecia António Charrua, mas a exposição parece bastante completa e pedagógica.

Charrua, principalmente na última fase parece-se demasiado com Tàpies; não me impressionou por aí além mas fez-me pensar na importância que a originalidade tem na pintura. Na literatura um neo-realista lembra todos os neo-realistas; o mesmo com um surrealista, o nouveau roman ou, sei lá, a poesia concreta. Incomoda-me menos do que olhar para um quadro e ver um pintor diferente daquele que assina.

Ou então os quadros são demasiado parecidos, não sei. De qualquer forma isto aconteceu apenas nos dos últimos anos. Antes disso não me é de uma originalidade avassaladora, mas tão pouco me chocou.

Já a outra é obrigatória. Um vídeo de Beckett que vi algumas três vezes e uma sala inteira dedicada a Bruce Nauman chegam para justificar a ida venha-se de onde se vier. O bónus de uma exposição de arte contemporânea em que o n'importe quoi está em franca minoria reforça a obrigatoriedade.

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A peça de Beckett era Not Me. Uma boca a falar em grande plano, a toda a velocidade, durante onze minutos.

O génio artístico consiste em saber simplificar, identificar e cortar o supérfluo e não descrever as coisas mas dar a ver de onde vêm, ou onde chegaram. O que está antes ou depois é paleio.

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Frango em vinho tinto à minha maneira: paprika, cominho e coentros moídos, noz moscada, pimenta. Cebola às rodelas grossas e muito alho.

Quatro horas de forno a baixa temperatura. Devia ter levado uns coentros frescos ou salsa, mas apesar disso ficou bom.

Ocorreu-me que devia dar às receitas um nome simples: Frango, 25/10/2015, por exemplo. Mas imagino-me a explicar às pessoas a diferença entre Guisado, 12/08/2003 e Guisado, 09/11/2014 e a ideia seduz-me menos.


"Passaste perante o mundo..."

É curioso ver num texto da época romana (citado por Jacques Rancière em "Courts voyages au pays du peuple") uma crítica que faço à esmagadora maioria dos músicos portugueses (há excepções. Poucas mas há):

"Passaste perante o mundo sem que o mundo se tenha reflectido em ti, sem que ele se tenha imprimido em ti com caracteres vivos. Não há nada do drama, do sonho, do trabalho, da festa da vida. Nem terra nem céu; nem mares nem o misterioso e aéreo vapor; nem triunfo imperial nem festa da aldeia ... ; nem as cem mil profissões do povo trabalhador, nem as cem mil cerimónias religiosas e populares do diversos povos; nem as cem mil alegrias e as cem mil tristezas que lhes fazem bater o coração ... Tu não podes fazer a música que te peço ... Contentar-nos-emos com esses cantos simples e ingénuos que qualquer povo canta na sua tristeza ou na sua alegria, na guerra ou nas festas sem saber quando ou como eles lhe chegaram".

(A tradução é minha e é provavelmente desastrada).

(Este texto levou-me a pensar no "progresso" e na "evolução" e de como têm um ritmo muito grande, muito maior do que frequentemente se pensa. Até quando teríamos de recuar para que um homem não percebesse o mundo moderno?)

Para que servem os sindicatos?

Portugal tem um sistema absolutamente iníquo de colocação de professores e estes doze ou treze sindicatos para defender os seus direitos.

Duas perguntas:

a) Sou eu o único que vê uma relação entre estes dois factos?

b) Para que servem os sindicatos?

24.10.15

Até um dia

Vamos então fazer assim. Dizemo-nos adeus agora, adeus até um dia, adeus até nos reencontrarmos numa esquina qualquer do universo, adeus até os deuses nos reencontrarem. Foi um encontro em forma de assim, não foi?, o nosso. Um encontro em forma de adeus, de até já, até breve, até à próxima esquina. Não sei se são bons ou maus, piores ou melhores estes encontros que se escrevem com adeus no olá. Mas são os que temos, ou tivemos. Foi o que os deuses nos deram.

Até um dia, miúda. Porta-te mal. Faz um homem feliz; ou dois; ou todos os que puderes. Nunca somos de mais.

E depois imagina-te um dia numa rua da tua ou da minha ou de outra qualquer cidade a andar num passeio no sentido Norte - Sul, por exemplo; ou Leste - Oeste, como o sol. E eu na mesma rua mas no sentido contrário. Tu páras numa montra e eu também. Quero ter a certeza de que és tu.

Olá e adeus são os dois lados da moeda dos encontros.  Atira-a ao ar as vezes que quiseres: caem o mesmo número de vezes. Até um dia. A reversabilidade desaparece.

Até um dia.

22.10.15

Porta-aviões ao fundo

Começo pela graça e majestade às quais tu juntaste a dignidade e a teimosia, Mãe: foste como viveste. A outra ganhou - não é surpresa - mas resististe digna e teimosa, graciosa e majestosa até ao fim.

E continuo pelo outro lado: "Death is not the end". Acreditamos os dois nisso por razões diferentes. Tu acreditavas numa vida depois desta e eu acredito nesta, só. E nesta sei que vais ficar: na nossa memória, na dos nossos filhos, no que somos, no que eles são.

Teimosa e digna viveste, teimosa e digna morreste. Eras o porta-aviões da frota. Os porta-aviões, todos sabemos, não cabem no rio.

21.10.15

Barragem, palavra

Passei tanto tempo a pedir uma barragem contra as palavras que agora me sinto estúpido a pedir uma barragem contra uma palavra, uma só.

Perguntas para dentro da caixa

Pergunto a mim mesmo se uma boa maneira de acabar com a crise migratória não seria a Europa e os EUA tomarem de novo conta dos países que fazem fugir os seus nacionais.

A fé e o real

Separa-me da esquerda o que me separa das religiões, todas elas: não acredito em crenças que não seja apoiada por factos.

20.10.15

Mais uma

O porta-aviões continua a sua rota, imponente, altaneiro, orgulhoso, resistente. A cada vaga vai um bocadinho abaixo, mas pouco. Vem aí mais uma.

Vemo-nos amanhã de manhã, Mãe. Tu és maior do que esse rio que te espera e nunca lá caberás toda.

19.10.15

Batalha

Enquanto isso, no quarto ao fundo do corredor a batalha prossegue. Por muito que se conheça o desfecho não se pode deixar de felicitar uma das contendedoras (a outra vai ganhar,  mas parte com vantagem. Não merece respeito nenhum).

Excessos e surpresas

Às vezes penso nas reacções de surpresa de muitas pessoas quando lhes digo que raramente vejo televisão. Acho surpreendente é que se consiga fazê-lo mais de uma vez por ano (patamar esse que em 2015 lamentavelmente já excedi em cem por cento).

Agora, por exemplo, estão num programa Carlos Carreiras e João Cravinho, inter alia (que não conheço, infelizmente).

A craveira intelectual de um aliada à história do outro fazem-me pensar num programa de circo apresentado por focas amestradas: não sabem falar, mas surpreendem-nos cada vez que sobem graciosamente para um tamborete.

O caviar e o tremoço

É preciso começar por dizer que para mim esquerda caviar não tem nenhuma conotação negativa. Antes pelo contrário.  Pelo menos tem bom gosto e costuma ser mais culta do que por exemplo uma hipotética esquerda couve cozida ou copo de três.

O que me custa entender são  esquerdistas caviar com a cultura política de um esquerdista do tremoço.

Duas livrarias e tudo

Há duas livrarias em Lisboa que são de visita obrigatória: a Ler Devagar e a Paralelo W. Todas as livrarias deviam ser como essas duas, produtos da visão ou do amor.

Tudo devia resultar da visão ou do amor: sem eles não existiria beleza.

18.10.15

Diário de Bordos - Lisboa, 18-10-2015

Fui buscar a bicicleta à Rcicla. Duas boas notícias e uma má: a burra ainda é mais bonita do que eu me lembrava dela e fui embarretado - isto não é uma notícia - mas menos do que pensava - isto sim -. O quadro, diz-me Pedro da Velocité - para quem não sabe, a melhor loja e oficina de bicicletas de Lisboa, sita na Duque d'Ávila - é "histórico".

À categoria dos cornos mansos devia acrescentar-se a dos embarretados mansos, com direito a associação e tudo.

Agora há que reconstruir o quadro "histórico", tirar o lixo que veio da Rcicla e pôr material decente. Quando voltar em Abril terei uma Vitus Turbo como nova e a Rolex Voadora estará, espero, esquecida. Enfim, esquecida não; menos presente.

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Jantar de Aniversário da T. no Nogueira's. Cada vez suporto menos anglicismos e nomes ingleses e o uso do inglês por dá cá aquela palha. O restaurante é correcto, bom e barato. Decoração um pouco americanizada e padronizada e banal de mais para o meu gosto, mas decididamente uma boa morada. Pelo menos para quem está feito ao bife: não provei mais nada.

Na verdade é raro encontrar carne boa, bem cortada e mal passada e isso vale anglicismos e banalidades. Até o vinho é a um preço correcto. E têm rum - não é Mount Gay nem Flor de Caña mas o maître d'o prometeu que os teriam em breve -.

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Regresso a Évora hoje. Ontem comprei um bilhete de ida e volta. Fiz mal, claro. Qualquer tentativa de previsão, por pequena que seja sai mal.

Ou então foi excesso de zelo na aplicação daquela velha máxima que diz "Tens de ter um plano para poderes não o respeitar".

17.10.15

Deambulações

Deambulo pela memória do dia afogado em chá verde. Recentemente vi um eclipse da Lua, mas só depois me apercebi de que era um eclipse. Isto é, quando a Lua voltou a encher-se. Quando saí de quarto a Lua estava cheia e quando voltei para o quarto seguinte, três horas mais tarde, mal se via. Pensei que era por causa de uma nuvem, apesar de a Lua estar redonda, só com uma pequena fracção claramente delineada. Depois vi que era um eclipse.

Não sei quando verei outro, mas não era essa a memória do dia. Ou melhor: essa foi uma das memórias, mas não foi a única. Durante o dia lembrei-me do eclipse e agora lembro-me de tudo o que me lembrei durante o dia, como se o dia não quisesse acabar. Talvez seja por isso que fiz um bule cheio de chá verde, para ele não acabar.

Ou eles: o chá e o dia. Dias que se recusam a acabar, como se dormir não fosse parte deles.

Preciso de ler mais autores portugueses, mas hoje também pensei em Alejandra Pizarnik, uma argentina que se matou jovem. Tinha trinta e seis anos, era depressiva. Tomou barbitúricos. Escrevia poemas bonitos, com duas palavras evocam uma vida, descrevem a solidão, explicam a morte.

Depois voltei a pensar no eclipse, naquela Lua da qual só se via uma sombra pálida e uma unha e voltou a ser Lua cheia, próxima, resplandecente. Não me lembro do tempo que estava, mas já devia estar vento pois só dormi três horas.

O chá está frio. A memória do dia - ou deveria antes dizer as memórias do dia? - também. Pensei nos contos de Mário de Carvalho, nas primeiras vezes que fui a Viana do Alentejo (onde passei o dia) e em outras coisas. Apercebo-me agora de que não me lembro de todas as vezes que fui a Viana nem de todas as coisas nas quais pensei durante o dia.

Talvez o devesse esquecer, em vez de tentar lembrar-me de tudo o que me trouxe à memória e ao pensamento. Ou então pensar nas coisas em que não pensei. O Panamá, por exemplo. Não pensei no Panamá? Duvido: lembro-me claramente de me ter lembrado da Little Crew House em St. Martin, de como gosto tanto dela e gostava tão pouco. Também pensei na quantidade de coisas das quais não gosto imediatamente e gosto a posteriori. Um bocadinho como o eclipse da Lua do outro dia, no mar.

Talvez seja melhor esquecer o dia, agora que o chá está frio e de qualquer forma já pouco resta. Talvez amanhã não reste nada de hoje.

Não sei se é uma boa ideia deambular por Viana do Alentejo. Também pensei no mar, em como gostaria de estar no mar apesar de só estar em terra há duas semanas.

Talvez seja melhor o dia acabar. Ou acabar eu com ele.

Citações

- I've got an erection.
- Oh. So you have. Is it urgent?
- It's not mine!

De Providence, filme de Alain Resnais.

16.10.15

Revolta-te contra a morte da luz

Há promessas que podem quebrar-se, e como esta já a quebrei há pouco deixo aqui outra quebra, que foi a que me acompanhou o dia todo.

"Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.

Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.

..."


Alejandra Pizarnik de novo

SILENCIOS

La muerte sempre al lado.
Escucho su decir.
Solo me oigo.

A morte está no quarto ao lado e eu oiço-a e só me oiço a mim próprio. Tinha prometido a mim próprio que não voltaria a falar dela. Assim é fácil: tenho quem o faça por mim, e muito melhor.

Biblioteca em linha - Alejandra Pizarnik

MORADAS

                                                 A Théodore Fraenkel

En la mano crispada de un muerto,
en la memoria de un loco,
en la tristeza de un niño,
en la mano que busca el vaso,
en el vaso inalcanzable,
en la sed de siempre.


FIESTAS

He desplegado mi orfandad
sobre la mesa, como un mapa.
Dibujé el itinerario
hacia mi lugar al viento.
Los que llegan no me encuentran,
Los que espero no existen.

Y he bebido licores furiosos 
para transmutar los rostros
en un ángel, en vasos vacios.

Tive uma irmã gémea, há muitos anos. Matou-se em Buenos Aires, no dia 25 de Setembro de 1972. Eu tinha quinze anos e nunca ouvira sequer falar dela, quanto mais lê-la.

Descobri-a recentemente, não sei onde. Creio que em Cartagena de Indias, na livraria Ábaco, mas não tenho a certeza. Alguém se lembra do sítio onde descobriu a irmã gémea?

Adenda - Os poemas foram extraídos de Alejandra Pizarnik, Antologia Poética, ed. O Correio dos Navios. A edição é bilingue, com tradução de Alberto Augusto Miranda. Algumas das escolhas da tradução são-me difíceis de compreender, mas de qualquer forma cada um poderá julgar por si. A selecção de poemas é de Alberto Augusto Miranda, António Sá Moura e Carlos Saraiva Pinto.

"Never give an inch"

Está frio e no quarto ao fundo do corredor oiço alguém respirar como se lutasse só contra um batalhão de cavaleiros berberes; ou contra os tanques do Jesus Christ Superstar.

Ou contra mais uma noite, simplesmente. Força, Mãe. Não cedas um milímetro. Ela chegará, o rio acolher-te-á - mas que sejam eles a vir a ti e não tu a eles.

Diário de Bordos - Évora, 15-10-2015

Que Portugal está dividido em dois já há muito sabia. "Portugal é Lisboa, o resto é paisagem" não data propriamente de hoje.

Surpresa é a "paisagem" ser tão agradável. Isto continua assim e em breve será Lisboa a paisagem.

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Hoje vi televisão. Foi a primeira vez em alguns anos e espero que seja a última em outros tantos. Ou mais.

Infelizmente, continuo sem perceber uma coisa: como é que só há quarenta por cento de abstencionistas?

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O transporte Atenas - Los Angeles já só está pendente de um visa dos Estados Unidos. Quatro meses sem ter de procurar trabalho, quatro meses de mar (com escalas, claro), quatro meses para ir de um mundo ao outro.

Ainda há quem ache que tenho um trabalho instável.

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Évora é uma cidade adorável que tem o problema de não ter água perto e a vantagem de ter uma livraria chamada Fonte de Letras.

O acrescento, inevitável há alguns anos "e só está a cento e cinquenta quilómetros de Lisboa" é irrelevante, desadequado, desajustado.

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O psicodrama nacional continua. Cada vez me parece menos provável que António Costa consiga formar governo à esquerda. Por um lado é pena. Por outro estou-me nas tintas. Se alguém me dissesse que um dia me veria defender Passos Coelho tão veementemente eu ter-lhe-ia dito que estava com alucinações.

Assim, sou eu que me sinto alucinado.

15.10.15

Amanhã, espero

Fui almoçar a uma tasca: apetecia-me poder palitar os dentes depois do almoço sem ter de provocar os outros clientes. Ou seja: estou em paz. Gostaria tanto de ser mal-educado... Cuspir na rua, dar puns em todo o lado, palitar os dentes em público sem vergonha nem arrogância. No primeiro grau, naturalmente, sem segundas - ou primeiras - intenções. Ando fraquinho. Nada de provocações.

Isto das tentações... Nunca poderia, por exemplo, ser alcoólico porque sou incapaz de ser ex-alcoólico. Eu cedo - e, pior ainda, com a alegria expectante de uma prostituta a quem mostram uma nota de quinhentos euros - a todas as tentações. Dependências (para quem não sabe, é aquilo que agora se designa por adições, vá lá saber-se porquê. Talvez alguém tenha um dia a gentileza de me explicar o que são subtracções) exigem independências, qualquer gajo que tenha lido mais de uma linha de Hegel o suspeita.

Hoje cedi a duas tentações. Comprei livros e comi uma dose enorme de migas à alentejana.

A primeira foi na livraria Fonte de Letras, em Évora (antigamente era em Montemor). A senhora foi simpatiquíssima e perguntou-me se queria que accionasse um dispositivo que afasta as pessoas das estantes. Disse-lhe que não, claro. Comprei um Manuel de Gusmão - ninguém resiste a um livro dele do qual percebeu os dois primeiros poemas que leu - e um Mário de Carvalho - não fiquei embalado com o outro que li e não acredito muito em primeiras impressões; devem ser confirmadas ou, melhor ainda, infirmadas -.

A segunda foi no restaurante "Tasquinha a Mata". Fica na rua do Raimundo 113. O diminutivo do nome não é, ou pelo menos não é só afectivo. É pequeno e come-se bem, é barato e pode palitar-se os dentes, apesar de alguns clientes serem estrangeiros e de nem todos serem burgueses à cata de um bom almoço "em conta".

Isto das tentações é complicado. Um gajo está num restaurante chic e apetece-lhe palitar os dentes, ou não lhe apetece levantar-se para ir à casa de banho fazê-lo. Ou apetece-lhe dar um pum. Ou fungar com força, puxar um escarro bem lá do fundo. A opção mais fácil é o pum, claro; mas quem nos garante que não é também a mais cobarde?

As tentações ganham sempre, mesmo quando não ganham, mesmo quando lhes resistimos e optamos pelo pum, ou optamos por fingir que somos mal-educados e estamos a treinar para aceder à educação. Não há empates.

Escrevo ainda com o gosto das migas no palato. Subtil, equilibrado e barato. Nada despiciendo, o preço. Baratíssimo. Tasquinha a Mata. Recomendo.

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Está calor. Vim beber um café e uma aguardente a uma esplanada. Chama-se Alguidares. Está calor e Évora tem a luz pálida das cidades sem mar. As pessoas movem-se devagar, como se não fossem elas mas a rua a mexer-se, a empurrá-las e elas avançassem contra-vontade.

De dentro do café chega-me uma música brasileira, vem de longe. Do Brasil ou do sótão dos meus desgostos. Há pouco era jazz, sempre fica melhor com as tentações, com o calor da rua, com dentes palitados e escarradelas na rua (no caminho para aqui cuspi para uma parede, uma escarradela bem puxada, densa, quase sólida de tão densa. Ficou colada à parede como se tivesse levado cinquenta por cento de Araldite).

Tenho a morte à porta, portas dentro. Nas tintas para as escarradelas. Espero que ninguém veja nisto uma parábola, uma analogia, um eufemismo, uma metonímia - um cuspo por um insulto, um pum por uma dor, um palito para afastar o inevitável -. Escarrei na parede, é tudo. Primeiro grau. Não estava ninguém a ver. Ou pelo menos ninguém que valesse a pena ofender.

Nada de eufemismos, analogias, parábolas. Má-educação pura, simples e assumida. (Sabe melhor quando é provocação, verdade seja dita. Maldita seja a propensão para a complexidade).

O restaurante chama-se Alguidares, fica na rua Miguel Bombarda. Até agora ainda só provei a aguardente caseira e a simpatia da senhora. O resto fica para amanhã.

Fica tudo para amanhã, de resto. Espero.

14.10.15

Violência

É da violência que falo. Isto é, da ausência. Do silêncio.

Profissões, moradas e outras irrelevâncias

- Qual a sua profissão? - pergunta-me a senhora do banco. O que faço é totalmente irrelevante para o que fui ali fazer. Costumo responder "escritor de viagens", porque normalmente quem me pergunta isso são os os funcionários da imigração nos aeroportos ou portos das ilhas e "escritor de viagens" intimida-os.

- Marinheiro - respondi. Mas acrescentei - De férias -, não fosse a senhora pensar que estava a mentir-lhe, coisa que a acontecer me deixaria sobremaneira preocupado e inseguro.

(Também me perguntou a morada. Não disse o habitual "Avenida da Liberdade, nº 1, Lisboa", mas - Quinta do Almeida, Évora -, porque quando entrei no banco estava um senhor a varrer o passeio e achei que ele merecia e além disso penso que se deve passar férias no sítio onde se mora, ou assim, apesar de a senhora de certeza não se lembrar do que eu lhe dissera segundos antes sobre a profissão e o estado e para ela estar de férias e morar na quinta do Almeida são a mesma coisa. Se não forem espero que comecem a ser.).

Um dia hei-de perceber para que querem eles saber essas coisas. Infelizmente vai demorar, porque sou muito lento a perceber as coisas. Essas coisas, quero dizer. As outras não as percebo de todo.

13.10.15

Princípio

Se um dia tivesse de começar pelo princípio começaria pelo fim. Por este corpo que hoje da cama me olha como se me dissesse "Eu avisei-vos". Mas avisaste-nos de quê, Mãe? De que não irias sem uma última guerra? De que iríamos sofrer montanhas? De que um dia serias um esqueleto com pele por por cima e o sorriso de quem diz "Eu avisei-vos"?

Não sei. Espero não ter de começar pelo princípio. Espero poder começar pelo fim, por essa cama onde agora estás quase imóvel, quase muda, quase sem corpo mas com a força de sempre. Sem ti "energia" não teria o mesmo significado, pois não? Nem "teimosia". Nem "força". Nada daquilo que faz e fez de nós homens e mulheres, Mãe, teria o mesmo significado sem ti.

Voltas ao princípio e nós chegamos ao fim.  O princípio onde agora estás, onde sempre estiveste, de onde sempre foste.

Esse espasmo que hoje vejo, Mãe, seremos nós um dia, no fim. O princípio és tu.

12.10.15

Anti-pavlovianas

Nunca fui grande fã de Cavaco Silva, nem mesmo quando era Primeiro-Ministro e andava badalado como o melhor Primeiro-Ministro de sempre e arredores.

Porém ao ver o asco que a malta de esquerda lhe tem percebo que tenho andado enganado. Um tipo que suscita tanto ódio intuitivo, imediato, pavloviano à esquerda não pode ser má pessoa. E muito menos mau político.

Objecção aos banqueiros, pessoas cautelosas e outros sábios

Pensam que o passado ajuda a prever o futuro. Não ajuda. Quando muito, a explicá-lo - quando deixa de ser futuro.

Objecções à modernidade

Por ordem decrescente de capacidade irritativa:

a) Fogões a indução;
b) Máquinas de café Nespresso et simili;
c) Roupa interior usada como se fosse exterior;
d) Música hip-hop.

Adenda:
e) Chá em pacotes.

NB:
1 - Como se vê, sou muito menos reaccionário do que parece.
2 - Não incluo nesta lista o AO90 porque não tem nada a ver com a modernidade. Antes pelo contrário: a parvoíce é de sempre.

10.10.15

Resumo - 10 de Outubro de 2015

Há precisamente cinco anos, no dia dez de Outubro de 2010 (gostaria de pensar que foi às dez da manhã, mas não foi) apanhei um avião para o Brasil. Ia buscar um barco que estava a ser construído na praia de uma cidade implausível chamada Parnaíba, no estado do Piauí.

Dessa viagem pouco recordo. Como já aqui disse uma vez, todas as viagens de avião são iguais. Lembro-me contudo perfeitamente da escala, da jovem senhora mulata que servia no bar com uma placa ao peito a dizer "Temporário". A senhora parecia saída de um livro do Corto Maltese. O bar estava cheio de homens, metade do quais via na placa uma promessa e metade uma ameaça.

O barco não estava pronto e no bota-abaixo foi ao fundo. Rebocámo-lo para a cidade, um processo longo no qual quase perdi a vida - não é retórica. Foi uma das ocasiões em que estive perto dela -. O armador despediu-me e em vez de voltar para Portugal decidi ir para as Caraíbas.

De Parnaíba à Guiana Francesa fiz uma viagem com a qual sonhava desde criança. Atravessei o delta do Amazonas, fiz uma viagem de carro com um senhor que atravessa o Equador duas vezes por semana e não sabe o que é o Equador - uma grande, grande lição de relativização -, cheguei a Cayenne e aborreci-me mortalmente. Deve ser a única coisa que se pode fazer em Cayenne desde sempre - pelo menos a julgar por um livro de Albert Londres sobre a cidade, ainda hoje um documento que me parece importante para a compreendermos -.

Trabalhei nas Caraíbas como skipper - fiz transportes e charters, redescobri a Martinique, onde não ia havia muitos anos e descobri ilhas que não conhecia de todo. Apaixonei-me por elas, todas (umas mais do que outras, claro; mas isso é irrelevante).

Apaixonei-me também por uma jovem senhora. Não a soube amar como ela queria, precisava (e merecia). No dia - mais coisa menos coisa - em que me apercebi do erro em que incorria e decidi corrigi-lo ela deixou-me. A ruptura foi violenta, desleal, demolidora, cruel. Fiquei de rastos dois anos.

Recuperei, penosamente. Fiz uma viagem de S. Franciso ao Panamá que se vai juntar ao catálogo "Viagens da Minha Vida". Passei cinco dias no canal do Panamá amarrado a uma bóia. Fui dono e depois deixei de o ser de um catamaran de 50' ao qual dei o nome da minha filha, HELENA S. Conheci uma rapariga alemã por quem não me apaixonei porque ela tinha juízo (ainda tem, graças a Deus) e eu não; tivesse sido ao contrário - tivesse eu juízo e ela não - ter-me-ia apaixonado por ela.

Este é o primeiro ano depois da grande depressão. A vida não continua - retoma, o que é diferente e melhor -. Seria tentador dizer que o círculo se fechou mas não é verdade: o círculo continua aberto, receptivo e feliz. Ainda há muito por ver, fazer e amar.

Reencontrei, sobretudo, a vontade de me apaixonar, a mais ajuizada de todas e a menos: não depende só de nós. Exige reciprocidade e - sobretudo - que as outras vontades todas saiam da frente, desapareçam, se enterrem onde de nunca deveriam ter saído.

A vida retoma. Li alguns livros que merecem ser lembrados, porque nunca os esquecerei: "There But For The", "The Sea, The Sea", "Satanic Verses"; descobri que afinal gosto do Panamá, um amor que não se desvanecerá porque os amores que começam mal são os que duram mais; encontrei pessoas que me enganaram e muitas mais que confirmaram o meu optimismo. Naveguei muito e vou navegar mais ainda. Fiz uma espantosa viagem às Bahamas, que acabou comigo a trazer um gato de regresso aos Estados Unidos. Fiz amigos de sempre e para sempre em S. Luís, no Brasil.

Atravessei o Atlântico num 50' (creio) com um armador que sofria de vários problemas psicológicos. Foi uma experiência que não quero repetir. A diferença entre uma perna partida e uma TOC  ou uma borderline é que uma perna partida não se pode negar. E não põe a vida dos outros em risco.

A minha filha veio ter comigo comigo a Antigua. Em dois meses e meio navegámos duas mil e quinhentas milhas juntos. Agora quer repetir a experiência, mas mais tempo.

Cinco anos é metade de uma vida. Cinco anos pode ser duas vidas, ou muitas. Escrevo em Évora, onde a minha Mãe está a dias do rio. É como se tivesse uma grande parte de mim arrancada - e vai ser assim o resto da minha vida. Todos nós, pelo menos a partir de certa idade, somos incompletos. Vivemos e assim preenchemos o vazio que a partida dos que nos são queridos provoca em nós.

Cidades circulares

Évora é uma cidade circular. A melhor maneira de se andar numa cidade circular é a direito. Cortar a direito. Andando a direito passa-se obrigatoriamente pelo centro. Nas cidades não circulares tem de se andar às voltas, como se se estivesse a recuperar um homem ao mar. Nessas cidades (quase todas, no fundo) demora-se mais tempo a chegar ao centro: o percurso é mais longo.

Nas cidades circulares vai-se direito ao assunto (se o assunto for o ou no centro, claro). É por isso que se deve resistir à tentação de andar em círculos numa cidade circular: arrisca-se não encontrar o centro, apesar de se saber para que lado fica.

O centro de Évora chama-se Praça do Giraldo. É uma caracteristica das cidades circulares: têm um centro facilmente identificável. Uma vez, há muitos anos, li histórias de detectives sentado num banco dessa praça. Eram histórias amadoras e doridas, pouco interessantes. À noite dormi numa pensão numa pequena rua, labiríntica.

Há inúmeros labirintos em Évora, escondidos na área circular da cidade.

E pelo menos um fora dela.

(Para a C.V., com ternura, afecto, carinho e essas labirintices todas).

9.10.15

Por aí

Nada é fluido. Estou doente, ainda. Bebo rum no Aduela, que fica ao lado do meu hotel e rezo para que a livraria esteja fechada amanhã. Em Évora um porta-aviões vai ao fundo. Leio um livro leve, daqueles cujo autor nos descreve o que se passa em vez de nos fazer perguntar porquê.

Se tudo correr bem e o rum cumprir a sua função amanhã acordarei tarde. Oito horas da manhã, quiçá nove.

Se Deus existisse um dia eu dormiria um dia inteiro. Não existe e não durmo. Bebo rum Barceló  (entre o medíocre mais e o suficiente menos) e penso na esplêndida noite que passei até agora.

 E pergunto-me porque me dói cada vez que parto de Genève. Doer não é o verbo correcto. Rasgar é.

Diário de Bordos - Porto, 08-10-2015

Que lugar tão bonito... Espero que a comida esteja ao nível da decoração e da simpatia e da música e de tudo.

Está. As porções são pequenas, ideais e bem feitas. O serviço perfeito.

No fundo é pior do que isso: parece-me que faz sentido só ter conhecido isto agora: sinto-me como se o Porto me tivesse, finalmente, aberto a porta.

Chama-se D. Gertrudes e é no Passeio de S. Lázaro 44.

Agora em francês

Une vie en faux semblants. La plupart du temps je prétends que je suis pauvre et dans les brèches je fais semblant d'être riche.

8.10.15

Diário de Bordos - Genève, Genève, Suíça, 08-10-2015

Despeço-me de Genève a contragosto. Queria ficar mais tempo, por um lado; e por outro a razão que me leva a voltar a Portugal tão depressa. Não me larga.

Mas enfim, dentro do que foi possível fiz tudo: amigos, filhos, S., a tradicional constipação que me pregou em casa três dias e o também tradicional passeio pelos meus sítios favoritos da cidade: Plainpalais, Forces Motrices e Pont des Machines. No capítulo gastronómico fondue, raclette, saucisson vaudois.

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A luz de Genève é chata, plana, sem densidade nem cor; e a papelaria Brachard continua a ter as melhores montras da galáxia.

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Genève muda, claro. Mas subterraneamente. À superfície tudo está igual, imóvel, como se a cidade sofresse de paraplegia. Não sofre, mas é preciso conhecê-la.

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Agora Porto e depois Évora, esperar pelo fim do porta-aviões. É um fim digno. Não chega para atenuar a dor, mas pelo menos não a torna pior.

7.10.15

6.10.15

Da beleza da língua francesa

"Je suis paresseux. Je ne porte pas mon age".

Biblioteca em linha

"And I suppose we can develop positive attitudes which mean that in our dealings with others, in our day-to-day lives, we behave a little better.
- And we would deserve credit for all the effort envolved?
- Yes. A lot of credit." 

Alexander McCall Smith, in  "The right attitude to rain"

5.10.15

Diário de Bordos - Genève, Genève, Suiça, 05-10-2015

Genève faz-me pensar naquelas bolas de vidro com uma paisagem imóvel dentro. Agita-se a bola e a paisagem vive.

Só é preciso saber onde e como agitar.

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Como é que um povo tão feio faz mulheres tão bonitas? A pergunta não é exclusivamente genebrina - uma hora na Rússia e não nos larga o espírito - mas aqui a resposta é fácil: imigração. Mistura. Brassage.

Cada vez percebo menos a xenofobia.

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O único artefacto da modernidade que não aceito é o fogão a indução.

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2001 (?)

Metonímia


Simples


Depois de uma semana de mar os prazeres simples: esplanada, jornal, livro e vinho.

Tele-turis-fotos Marseille







Tele-turis-fotos Scheveningen, Nordzeekanal, Amsterdam, Canal de Kiel, Preveza


 Em Scheveningen as ruas estão decoradas com as bandeiras do CIS...






Tele-turis-fotos Aveiro e Porto







3.10.15

Ultra-liberal

Ser liberal é saber que as pessoas podem fazer escolhas erradas e mesmo assim pensar que essas escolhas são melhores do que quaisquer outras.

Diário de Bordos - Genève, Genève, Suíça, 03-10-2015

Genève é para mim sinónimo de fondue em casa da S. (onde de resto fico quando aqui estou) com - pelo menos - a Gege. Da fondue falarei em pormenor. Da Gege menos: vizinha de S. quando começámos a viver juntos foi ela quem me arranjou o trabalho num café chamado Marchand de Sable ao qual devo muito do que sou, sei e faço hoje.

Na altura era uma actriz de teatro que trabalhava num café. Depois foi trabalhar para um tribunal, deixou o teatro e os cafés e - miraculosamente - continua exactamente a mesma pessoa.

A minha fondue evoluiu, ela. Deixei de pôr Maïzena e uso cada vez menos dos outros ingredientes  (com excepção do alho). Queijo do Oberson em Plainpalais, um bom vinho branco seco (Luins, regra geral), caquelon bem esfregado com alho, um bocadinho de noz moscada. Umas gotas de kirsch quando está quase pronto e.

E mais nada. Mesa com ela, Gege à mesa, Epesses da Marina Bovard (não a conheço pessoalmente mas juro que tenho pena) e uma história de Brigitte Bardot, inimitavelmente contada pela inimitável Gege:

- Qual foi o melhor dia da sua vida? - pergunta o entrevistador
- Foi uma noite - responde BB.

Banalidades

Fui ao supermercado fazer compras e tive de sair a meio. A banalidade agride-me, magoa-me, fere-me, dói-me.

Incompreensivelmente. Não deve ser coisa má. Se fosse não haveria tanta em todo o lado onde se juntam mais de dez pessoas.

2.10.15

Diário de Bordos - Marselha, França, 02-10-2015 / II

Despeço-me de Marselha com um magnífico kebab libanês. A fila - ou sendo Marselha Marselha as filas - não enganam.  Uma minúscula meia-cave onde um casal dos seus cinquenta anos atende dezenas de pessoas que esperam no passeio numa desordem calma, consentida. Ontem provei lá um pastel de carne delicioso. Felizmente foi antes de jantar e não havia bicha.

E despeço-me de França com a SNCF atrasada. A companhia de caminhos de ferro francesa mantém com os horários uma relação de proximidade. Nada de intimidades.

Não fui à Bonne Mère rever os ex-voto dos marinheiros, tantos e alguns deles tão bonitos. Fica para a próxima, Marselha não acaba hoje.

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A próxima etapa é Genève, uma cidade da qual se gosta se se não viver lá.

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Comprei uma edição da Point dedicada à "vida simples". Completíssima, como todos os números temáticos da revista.

O tema interessa-me bastante, claro. Vivo cada vez mais despojado, mais indiferente, mais longe.

Mas as teorias anti-progresso, de retorno à terra, luditas, rousseauistas (?), católicas, orientais, fascistas parecem-me ainda menos defensáveis do que o consumismo que criticam.

A tecnologia é uma óptima aliada do ascetismo, da distância, da não-pertença. A modernidade é boa; má é a utilização que fazemos dela.

Diário de Bordos - Marselha, França, 02-10-2015

Foi uma viagem mediterrânica: de zero a nove Beaufort tivemos tudo. Felizmente pouco pela proa. Com excepção da primeira noite quase não houve bolina. O temporal veio no fim, entre as Bocas de Bonifácio e Fos. Um dia e algumas horas de força sete, oito, nove, oito, sete. Foi cansativo: K. não podia fazer leme e R. fazia-o mal. A certa altura um helicóptero da marinha francesa veio dizer-nos que estávamos a entrar numa zona de exercícios militares com fogo real, mísseis, submarinos e todos os brinquedos com os quais os militares gostam de treinar. Perguntou para onde íamos e deu-nos um ponto para sair do perímetro dos exercícios: oito milhas para Sul e vinte para Oeste (o que se compreende porque o meu rumo era Nordeste. Se fosse Sudoeste aposto que teria de ir para Norte e Este). As vinte milhas para Oeste eram uma alheta, quase popa arrazada. Mais uma carga de leme e de tranquilização de tripulantes. R. "não estava confortável". Eu tão pouco, mas por causa do cansaço, só.

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Não há problemas de dinheiro, preocupações, má consciência, mau estar generalizado que ver o Stromboli a duas milhas ou um temporal não resolvam. Soluções de curto prazo, é verdade. Mas oh quão eficazes.

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A primeira noite foi aborrecida. Mar curto e desencontrado, tão típico do Mediterrâneo; um squall dos fortes, demasiado precoce para quem ainda não conhece bem a embarcação; e tráfico a mais para a minha paz de espírito.

Depois o vento caiu e consegui voltar ao rumo.

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Hoje perguntei a R. se no RYA não davam cursos de humildade. Não percebeu bem à primeira, de modo tive de insistir.

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Marselha é uma cidade que parece estar sempre a rir-se. Os estivadores estão em greve? Marselha ri-se; não estão? -às vezes acontece... - Mais uma gargalhada. O mesmo com as greves do pessoal do lixo (outra grande clássica), com as obras públicas permanentes - só conheço uma cidade que rivaliza com esta nesse aspecto: Genebra (hoje fui almoçar ao meu bem-amado Café des Arts e as obras estavam exactamente onde as deixei em 2007 ou 2008) -; e outras greves e outros désagréments: Marselha ri-se.

O Falafel está fechado para férias. Vim comer ao Bistrot à Vin. Têm pratos leves e a carta de vinhos parece um roteiro para o céu. Amanhã de manhã vou tratar do computador, aos correios enviar a papelada do transporte e depois para Genebra ver família e amigos.

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A superioridade do transporte ferroviário sobre o transporte aéreo começa nas estações: alguém conhece um aeroporto que seja mais bonito do que qualquer estação de caminho de ferro?

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Um corpo cúbico com um sorriso permanente por cima, como as nuvens na serra de Sintra.

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Devia estar a escrever ou a dormir, mas estou a embebedar-me com três mulheres em Marselha. Duas são bonitas, inteligentes, engraçadas e lésbicas. Estão apaixonadas, e o amor vê-se-lhes como a espuma das vagas num dia de vento forte.

É bonito o amor quando quem ama o é também.

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Gostar de Marselha é fácil: quem não gosta de uma velha gaiteira e inteligente que já viu tudo e finge que ainda tem vinte anos?