29.12.15

Obrigado

O Observador tem, no fim de cada artigo, um link para o autor. Diz "sugira uma pista" ou coisa que o valha.

Ontem li um artigo que me pareceu mal escrito  - para além de ser em acordês, coisa que de todo não ajuda -. Estava no Yacht Club, ao qual agora de vez em quando vou para ver se "por acaso" esbarro no J. Gosto de acasos, sobretudo voluntários.

Pela primeira vez desde que leio e deixei de ler e voltei a ler o jornal utilizei o tal link para sugerir pistas e coisas assim.

Quero deixar aqui o meu agradecimento à autora: não só respondeu ao mail como o fez educadamente.  É uma arte mandar um gajo à merda de tal forma que ele acha bem (Sir Winston tinha uma definição de política que era mais ou menos assim).

De caminho a senhora deixou-me algumas pistas sobre as condições de trabalho das pessoas que escrevem para jornais.

A próxima vez que me chatear com o português de um artigo tê-las-ei em mente. Não há estilo que resista. Nem que a notícia seja sobre o fim de Portas à frente do CDS.

Não sei

É indecente, se calhar. Saí do infame Soggy e acabei - não directamente. Precisei de uma série de desvios - no Byblos a beber Arak.

Arak nas Caraíbas seria um contra-senso se a) não estivesse em St. Maarten - estou - e b) as dissonâncias geográficas fossem relevantes. Não são.

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Resumo: comi e bebi demasiado, o que é bom; e daqui a pouco vou deitar-me. Ainda melhor.

Diário de Bordos - Simpson Bay Marina, Sint Maarten, Antilhas Holandesas, 28-02-2015 / II

Hoje só me apetece falar da sorte.

Conheço melhor o azar e não sei explicar nenhum deles. Depois do jantar fui ao Yacht Club beber Mount Gay e escrever meia dúzia de patetices. A seguir vim ao Soggy Dollar.

Devia ter começado por dizer que tenho o mais profundo desprezo pelo Soggy Dollar de St. Maarten: uma usurpação de nome desavergonhada, injustificável, imoral.

Pela primeira vez (é a minha terceira) não há mega-iates atracados aqui à frente. O que vejo é a laguna, algumas (poucas, porque estamos no lado holandês) luzes de gajos fundeados e as das colinas em face. A Lua ligeiramente depois de cheia torna todas as outras luzes patéticas: cresçam e apareçam e iluminem a laguna como eu.

Dizer que é lindo fica muito aquém do que é. O bar está vazio, a música baixo, o Mount Gay alto, a Lua brilhante e eu penso "O que é a sorte?" Não sei.

Não é uma fórmula; desconheço verdadeiramente como explicar o que me acontece excepto usando o termo "sorte", cuja definição foge de mim como se fosse uma miúda.

É irritante: devia no mínimo ser capaz de explicar o que me acontece. Sorte é uma palavra vaga,  inoperante e chata. Abre o apetite mas deixa-o insatisfeito. É mais do que ausência de azar.

Sorte é ter esta paisagem à frente, não ter um tusto (vinte dólares é menos do que um tusto) mas ter um barco onde viver, comer e trabalhar, dar um passeio de bicicleta, cair no merdoso Soggy Dollar vazio, pensar "que fiz para que isto me aconteça?" e a resposta ser "Nada".

Nada. Nunca serei budista, mas há momentos em que Nada é uma vida.

28.12.15

Diário de Bordos - Simpson Bay Marina, Sint Maarten, Antilhas Holandesas, 28-12-2015

O habitual chinfrim das segundas-feiras no Lagoonies está a começar e tenho de me ir embora, coisa que me chateia realmente. A luz está magnífica, K. aprendeu enfim a fazer rum punch e tive um dia que merecia prolongamento.

Bebo mais um, vá. As mesas longe da banda já estão todas ocupadas, claro. Mas um dia destes vale bem dez minutos de barulho.

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Ao meu lado chegou um Ron Holland. IOR, provavelmente 3/4.

Porque é que os barcos de regata resistem a tudo - à idade, aos ratings, às modas - e continuam lindos sempre até morrerem?

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A banda ataca Hey Joe. Jimi, perdoa-lhes. Não sabem o que fazem.

(O pior é que substituem falta de talento por nível de som elevado, má troca para quem ouve).

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O meu trabalho no S. M. está quase a acabar. O barco está um mimo.

É tão bom, não é?

Um barco mimado é como uma senhora feliz. Com a diferença que no dia seguinte não nos chateia com a loiça, o vinho ou a janela que está por reparar há uns míseros seis meses.

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Estou inquieto com J. Devia ter regressado dos Estados Unidos há uma semana.

Não te atrevas, J.

(Parece egoísta,  não é?  Que o que parece se foda).

27.12.15

Diario de Bordos - Philipsburg, Sint Maarten, Antilhas Holandesas, 27-12-2015

O dia devia ser de trabalho mas enquanto não conseguir olhar para os dedos sem que eles me doam espero.

Vim à Sucrière beber um café e comer um queque de amoras (se a diabetes pensa que manda bem pode desenganar-se. Hoje é dia de queque. Até pus creme nas mãos).

Como não venho aqui muitas vezes a paisagem é outra. Vejo as mesmas colinas e a mesma laguna e sinto o mesmo vento que ontem me estragou o suporte do bimini mas de uma perspectiva diferente.

Ainda é cedo e as colinas absorvem a luz como as esponjas água e devolvem-na filtrada e verde. Os barcos fundeados também são outros, excepto o cata belga que até ontem estava na Lagoon Marina e agora veio para uma bóia mesmo aqui à frente.

Cada vez quero mais ter um barco meu e fazer para mim as palhaçadas que faço para os outros. Talvez consiga o L. de borla. É pequeno e velho mas lindo de se morrer por ele. Depois precisa de tudo novo, do motor à mastreação. Não sei se lhe ponha um motor, de resto. É um plano German Frers pai que tem alguns sessenta anos e tem tudo de origem: velas, motor (a gasolina), molinetes, mastro... tudo. A construção é impecável. Espero não se tenha degradado muito estes anos que esteve sem cuidados.

Dormi nele muitas noites e fiz alguns bons jantares. Daria um excelente barco escola, fundeado em Mértola e a fazer passeios até Gibraltar e volta. Ou à Madeira.

Tenho de resolver o problema da energia, claro. E o do nome.

Isto caso a actual armadora mo dê. R. acha que sim, mas R. é um optimista. Eu também sou e acho que ela mo vai dar e vou conseguir pô-lo em estado de atravessar e a evolução vai um dia fazer os porcos voar.

Há uma bóia livre entre a esplanada da Sucrière e o cata. E as colinas continuam a reflectir enriquecida a luz que recebem, apesar das nuvens que ocasionalmente se interpõem entre elas e o Sol.

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A descida só não foi gloriosa porque não tenho grande confiança na burrica; se tivesse tão pouco o seria: duas rodas de vinte polegadas é pouco para grandes entusiasmos.

Mas foi boa, mesmo assim. Qualquer descida o é e esta teve a vantagem adicional de ser inesperada. Nunca pensei que conseguiria subir a colina.

Consegui e agora bebo uma Presidente mesmo ao lado da Bobby's Marina em Philipsburg enquanto na tasca ao lado passa Bob Marley e a chuva se anuncia mas faz esperar, como se fosse um prazer.

Daqui a pouco volto para Simpson Bay. Depois da chuva e outras novelas.

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Alguém pôs Bob Marley na categoria Reggae. Se calhar foi ele próprio, na volta.

Enganou-se. Está na categoria Música.

Diário de Bordos - Simpson Bay Marina, Sint Maarten, Antilhas Holandesas, 26-12-2015

Nunca entendi bem o sentido da expressão Santo Natal. Santo? Feliz, Bom, Generoso talvez. Mas Santo? Uma data na qual vamos desrespeitar pelo menos nove dos dez mandamentos  (e vontade não falta para o outro)?

Não sei. Talvez tenha começado agora a perceber o significado do adjectivo.

Não sair de bordo até às seis da tarde (e ter passado uma grande parte do dia a dormir e ou deitado); depois dar um passeio de bicicleta; e finalmente ser convidado para jantar num excelente restaurante libanês deve andar tão próximo da santidade quanto possível, não?

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Oiço um daqueles discos que comprei porque queria ser actual e li uma boa crítica no jornal. É uma merda.

A necessidade de actualidade dos críticos leva a isso; a culpa não é deles. Salvo raras excepções só se deve comprar um disco dez anos depois de ter saído.

Já com os livros não acontece o mesmo. Não sei se tem a ver com a qualidade da crítica se com alguma característica intrínseca da literatura: um bom livro é bom imediatamente.

(O disco é de um grupo chamado Silver Jews e só isso devia ter-me feito desconfiar).

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O trabalho desta manhã foi para o galheiro. Tenho de recomeçar e em pior.

Felizmente à tarde trabalhei bastante e bem. Tenho os dedos sensíveis como os ladrões de cofres de O'Henry, que limavam as unhas para sentir a combinação.

No meu caso não foi um cofre, foi um dinghy que limpei. Ficou como novo. Mas até pegar no telefone dói.

Amanhã terei de tratar do bimini outra vez. Não há marinheiro que não tenha Sísifo no nome.

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Redescubro fotografias antigas  (dois ou três anos, vá). Gosto de algumas.

Parece um contra-senso e se calhar é, mas devia fazer-se com as fotografias o que se faz com os discos e com os amores: esperar para saber quais os bons.

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A Simpson Bay é obviamente muito mais marina do que a Lagoon. Mas tem dois ou três defeitos que me fazem pensar se "obviamente" é a palavra certa: o Wifi é indescritivelmente mau; o dinghy ficou sujo em dez dias; e, por fim mas não por menos é uma marina de camisa. Um gajo tem de andar de t-shirt ou então aguenta ser o único ou pelo menos dos poucos. Eu aguento e ando sempre de torso nu, mas não me dá muito gozo.

Nunca pensei que numa luta entre a paciência e o decoro ambos podiam perder.

.........
Se tivesse Neutragena à mão enchia ambas dele. C'est dire. A última vez que usei cremes nas mãos deve ter sido antes do Dilúvio.

Devia perguntar-me que raio de carga de água me passou pela cabeça para raspar o fundo do bote com as mãos nuas mas não pergunto. Tenho medo da resposta.

(Depois pus as luvas. Foi um prazer. Teria sido o mesmo se as tivesse posto logo no início? Duvido.)

25.12.15

Teologia de base

Deus sabe que não acredito nele nem em nenhuma das suas formas. Não sou propenso a religiões sejam elas mono ou politeístas, políticas ou sociais, produtos da moda ou da ganância.

É possivelmente um defeito; não sei. Dizem-me frequentemente "mas acreditas em alguma coisa, de certeza".

Sim: acredito em mim, no vento e no mar, por junto ou em separado. Acredito na música, em alguns dos livros que li e filmes que vi, como Providence, Dersou Uzala, Casablanca ou Dodeskaden.

Acredito na capacidade transfiguradora de um bom rum ou um bom vinho, em alguns olhares e algumas peles que a providência me pôs debaixo das mãos ou dos olhos.

Acredito na vida e na morte, no poder purificador da solidão e na beleza do seu fim. Nas palavras, todas elas: não porque sejam a verdade mas porque são palavras, seja o que for que transportam.

Acredito em milhares de coisas: um sorriso, uma carícia, um bom café ou um chá branco feito como deve ser. Um cozido à portuguesa no Vasco da Parede ou um prato de accras de morue, um rum punch feito pela Tanya no Lagoonies ou um Mount Gay em Bequia.

Acredito na música de Hildegarde von Bingen, Frank Zappa, Miles Davis ou John Coltrane, nos Carmina Burana ou nas Vésperas de Rachmaninov, em Glen Gould e em tudo o que Borges, Beckett, Marguerite Yourcenar e Fernando Pessoa escreveram; num corpo que quer dançar e noutro que quer dormir; no que vejo e no que sei, em tudo o que já esqueci e no que vou aprender. No poder infinito de um determinado verbo quando acompanhado por um pronome reflexo, nos universos que esse verbo descobre e me faz descobrir.

Acredito na elusiva felicidade e na perenidade da sua ausência. Em alguns bares, como o Soggy Dollar em Jost van Dyke ou o Procópio em Lisboa. E restaurantes, livrarias e mercados em toda a parte do mundo.

Não há deuses ou deusas que cheguem sequer ao calcanhar de tudo isto, porque tudo isto existe e eles não.

Carta secreta

Isto, vizinha, ao preço a que estão as coisas cá em casa não se come se não lulas. Olhe, até a Consoada vai ser de lulas, guisadinhas em vinho branco. Pouco tomate, um bocadinho de louro...

A menos que as faça em caril. Não sei ainda. Elas já ali estão, descongeladas e à espera de que eu me levante, este vento deita-me tão abaixo. Ando cansado o dia todo, não imagina a vizinha. Só me apetece estar deitado e consigo na cama, desculpe a sinceridade. 

Pena estarmos tão longe. Batia-lhe à porta, olá se não batia.

Olhe, vou às lulas. Tenha um bom Natal, vocemecê e esse vadio do seu marido. Já está em casa ou ainda está pela taberna a fazer olhos de carneiro mal morto àquela rameira da Idalina, não me leve a mal dizer-lhe mas a vizinha sabe que é verdade.

A culpa é dela, não pode ver um par de calças que não queira deitar a mão ao que lá vem dentro. E depois só se interessa pelos homens da cintura para baixo. O resto é-lhe igual ao litro.

Já jantou? Eu já. Acabei por grelhar as lulas, não ando com paciência para grandes cozinhados. Rosé do Sul de França e aquele rapaz do cavaquinho a acompanhar. É agradável, leve e sempre muda das americanices.

Quem está desesperada é a espanhola, coitada. Quer música alegre. Mas eu só tenho da outra, da boa. Claro que podia arrefinfar-lhe com os Carmina Burana, mas não me apetece. Ela que se desenrasque. A rapariga é simpática e até ajuda, mas eu so me lembro de si, desculpe-me a vizinha mas é verdade.

É coisa da idade, acho eu. Ou do feitio. Ir para a cama com ela não valeria o tempo de conversa que levaria, se tivesse vontade. Ando parco com as palavras ou então são elas que fogem de mim. Tudo foge, porque não as palavras?

Ah, vizinha, vizinha. O que eu me lembro de si. Olhe, estou para aqui escarrapachado na varanda, está vento e quase frio e eu cheio de vontade de ir para a cama mas comi de mais e depois ponho-me a pensar em si e olhe não sei que lhe diga.

Ainda bem que a vizinha não lê estas coisas, isto é segredo meu, é uma carga que eu carrego para onde quer que vá e ninguém a vê.

Deu-me para isto, não sei se é da idade se do feitio.

24.12.15

Desejo, desigualdades

A vaga noção de que o desejo deve nascer como o sol - primeiro está escuro, depois vem o crepúsculo, a seguir o horizonte e de repente há cores (de repente nos trópicos,  naturalmente. Nas altas latitudes não há repentes) - talvez seja defensável.

Depende das circunstâncias. Se for consequência de uma mistura de excesso de rum com Leonard Cohen a cantar Anthem talvez não seja.

Duas coisas boas nem sempre produzem uma positiva, ao contrário de uma das regras básicas da álgebra. Mais ou menos. Isto não é um curso de matemática. Muito menos um discurso.

Álgebra, Cohen, o desejo e nascer do sol nos trópicos.

Isto dito é um conceito  que deve ser discutido. O desejo nasce, etc. Mas qual a relação do nascer do desejo com o rum? Ou melhor (a relação é conhecida e antiga): é legítima? Não.

Nada do que depende das circunstâncias é a priori legítimo.
- Define legítimo.
- Define circunstâncias.
- Conjunto de coisas que me rodeia e não depende da minha vontade.
- Conjunto de acções que tem uma sustentação ética. Isto é, é defensável se deslocarmos o nosso ponto de vista para o de quem é afectado por essas acções.

(Talvez seja essa a crítica do abulismo mais justa: um abúlico não tem mundo exterior. Ora o mundo exterior existe, como magistralmente canta Cohen: There is a crack, etc. É por aí que entra a luz. Podíamos substituir fenda por boca e luz por rum e ficava o círculo fechado.)

Mas agora quem canta é aquele gajo sem dentes dos Pogues e as minhas construções teóricas desvanecem-se.

Christmas Day, fada de Nova Iorque e eu aqui sozinho com o meu rum e agora a Nico. É uma compilação pessoal, para quem não tenha percebido.

Serei o teu espelho, caso não tenhas percebido. Serei a fenda em ti pela qual a luz entra. Serás a minha rainha porque já o és de Nova Iorque. Em breve teremos a Lua cheia.

Não digas nada. Vamos imaginar que há uma relação entre o nascer do sol e o do desejo e vamos imaginar que essa relação é directamente proporcional - quanto mais alto vai o sol maior o desejo - e vamos (agora as coisas complicam-se) imaginar que quem escreve estas linhas é um abúlico assumido, um niilista sem vergonha, um céptico de provas dadas, uma ilusão óptica,  táctil, auditiva e olfactiva.

Que fica se o dito céptico abúlico niilista e apesar disso vítima do desejo morrer atropelado por um triciclo conduzido por uma criança que calculou mal a curva?

Fica o que o homem disse, escreveu e fez, em quantidades desiguais.

Importa sublinhar: quantidades desiguais. Tal como de resto o sol a nascer é conjunto de desigualdades. Variáveis,  mas desigualdades.

E o desejo, a coisa mais desigual do mundo.

23.12.15

Diário de Bordos - Simpson Bay Marina, Sint Maarten, Antilhas Holandesas, 23-12-2015

Não escrevo com a caneta há uma eternidade. Gastei uma fortuna na tinta, mais vale usá-la. Fácil: posso escrever sobre as mulheres da mesa ao lado, a generosa porção de rum que R. me serviu - relembro que só vim ao Lagoonies porque não tenho net a bordo, argumento tão potente como falacioso e que vou gastar com estas palavras pelo menos vinte vezes o que valem -; sobre o tempo, muito ventoso porque estamos em Dezembro e é tempo das brisas natalícias que tornam a temperatura muito agradável.

Temas importantes.

Um delas tem a cara feia mas é atraente. Uma espécie de milagre: ser feio e bonito ao mesmo tempo.

O que faz bonita uma cara feia? O sorriso? O olhar? Ignoro. Tento não olhar demasiado para a senhora na minha tentativa de elucidar esta questão, mas é difícil. Resisto menos facilmente a um mistério do que a uma tentação.

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Está um badanal do caraças. Há dois ou três dias que não pára. Vinte vinte e cinco nós, diz o anemómetro; vinte e cinco trinta, digo eu.

Já agora gostava de ter a certeza. Fiz a viagem toda convencido de que o anemómetro estava errado.

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O dia foi frustrante. Todos nós sabemos como é: começa-se a reparar uma coisa - depois da terceira visita a um dos fornecedores, porque a peça que nos deu estava uma merda - e descobre-se que nos falta uma ferramenta e que outra coisa se partiu e que o trabalho em vez de levar uma hora como se tinha previsto vai levar mais um meio dia no mínimo.

[Adenda: estive hoje o dia todo quase de volta daquilo e tive de chamar um carpinteiro. "Um marinheiro é um gajo que sabe fazer tudo vírgula mal"]

Felizmente o Lagoonies fornece o anti-frustrante quase perfeito (quase porque custa cinco dólares. Se fosse mais barato seria perfeito).

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O S.M. mexe-se como se quisesse ir para o mar. E eu com ele. Quero.

No Mediterrâneo em Janeiro vou apanhar muito mais. Se não fosse pela proa...

Vai ser, claro. Em Setembro apanhei um arraial entre a Córsega e Port St. Louis pela popa e isto deve esgotar o capital de sorte para os próximos dez anos.

Que se lixe. Não é a primeira nem será a última vez. Um arraial de porrada no mar faz bem: põe-nos imediatamente no nosso lugar.

E aos Costas, Centenos e outros palhaços que nos governam. Gostaria de os ter ali a discutir as vantagens de renacionalizar a TAP ou salvar o Banif com o dinheiro dos trouxas que pagam impostos em Portugal  (parece que havia outra solução. Não sei). Força nove na proa e muito gostaria de ver o jeito para político do Toinas.

Eu não pago impostos, nem em Portugal nem em lado nenhum. Mal ganho para comer e beber, quanto mais alimentar cáfilas. E não pago renda de casa. Faria se pagasse.

De qualquer forma tenho de mudar de óculos e ir ao médico. Só isso paga os impostos de cinco anos no mínimo.

Que asco, meu Deus, que asco. Se alguém me tirasse o chip Portugal e mo substituísse por outro azul ou mar ou nenhures eu juro que desta vez diria sim.

Antes apátrida que sujeito daquela corja.

Amártrida. Que palavra tão bonita! Tem mar, amar, ausência de pátria e outras putrefacções.

Não é que não goste de Portugal. Adoro aquele país. Só preferiria não lhe ter nenhuma ligação afectiva e olhar para ele como para o Congo, o Panamá ou St. Vincent and the Grenadines.

Poder comer alheiras ou morcelas de arroz ou farinheira, cozido à portuguesa, peixe no forno, caldo verde, sopa de tomate, carne de alguidar ou fosse o que fosse sem memórias associadas. Que bom seria!

De resto pouco ou nada há a dizer. Pessoas simpáticas  (desde que não trabalhem num guichet de uma repartição), bom clima, boas comida e bebida a preços mais do que suportáveis mesmo por um pobre marinheiro longe de casa.

Só é pena este apego à miséria que nos faz eleger atrasados mentais e apoiar-lhes as políticas.

Atrasados mentais talvez não sejam. Governam-se bem. Mas bolas, isso não é um problema. Bastaria que em troca fizessem alguma coisa pelo país. Não fazem e a culpa não é deles, é de quem os aguenta e vota neles.

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Ardeu em S. Paulo o Museu da Língua Portuguesa. É uma das coisas que lamento não ter visto quando lá  estive. Parece que era realmente interessante e bonito.

João Soares, o nosso inefável ministro da Cultura quer ajudar o Brasil. Não sei exactamente como, nem porquê.

O PIB per capita do Brasil é aproximadamente metade do português. É difícil argumentar que o Brasil é um país pobre. Portanto a ou as causas da pobreza devem procurar-se noutro lado.

Os brasileiros são pobres porque querem. Ou pelo menos porque não querem não o ser. Talvez seja uma mistura: uma parte quer ser pobre e a outra concorda.

Pode dizer-se o mesmo de Portugal, claro. Podíamos ser muito mais ricos. Não somos porque preferimos ser pobres. Ser rico dá muito trabalho e implica correr riscos.

(Se alguém me perguntar porque é não sou rico apesar do que trabalho e dos riscos que corro mando-o apanhar no cu, fica já avisado.)

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Afinal o meu Natal não vai ser solitário. A tripulante resolveu ficar a bordo em vez de ir jantar a casa de uma argentina que não me quer em casa porque não me conhece.

Fiquei comovido e não lhe disse que de qualquer forma já tinha decidido não ir.

Charros, música de merda e conversa ainda pior: nada que uma garrafa de Mount Gay e os meus discos não substituam com vantagem.

A tripulante não fuma e suporta bem o meu silêncio. Vou fazer umas lulas e dormir cedo. O Pai Natal pode ir bater a outras portas. Verdade seja dita que para aí desde Maio ou Junho me tem visitado quase todos os dias.

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De modo é isto: tenho fome mas tenho comida a bordo, nao tenho massa mas tenho trabalho, não tenho mulher mas tenho paz.

Há muito tempo que não via um Natal assim.

22.12.15

Diário de Bordos - Simpson Bay Marina, Sint Maarten, Antilhas Holandesas, 21-12-2015

Há pessoas cujo objectivo na vida é ser ricos; outras, foder um país inteiro, ou muitas mulheres  (ou homens, claro).
Há tantos objectivos quanto pessoas, ou quase.

O meu é lamentavelmente simples: encontrar a receita do hambúrguer perfeito.

Ainda não foi hoje, mas cada dia estou mais perto.

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Se tivesse net a bordo não estaria no Lagoonies a ouvir uma banda lamentável interpretar canções da minha adolescência.

Nem tudo é mau: posso escolher entre vir de dinghy e vir de bicicleta.

Escolhi a burra (neste caso uma burrica), claro.

"Sem uma bicicleta és  como um barco a motor".

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Ignoro como são as outras actividades, mas trabalhar em náutica de recreio implica uma relação fácil com a palavra amanhã. E ter presente uma canção que Peggy Lee interpretava maravilhosamente: Let's forget about tomorrow (for tomorrow never comes).

Tudo o que tinha para fazer hoje fica pronto amanhã.

Ou noutro dia qualquer: amanhã nunca chega.

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Preparo-me para mais um Natal solitário. Espero já ter encontrado a receita do hambúrguer.

21.12.15

Nem mais nem menos

Há alguns anos cheguei a St. Maarten no dia dois de Outubro. Tinha cinquenta euros no bolso e não estava muito preocupado porque pensava encontrar trabalho no dia seguinte.

St. Maarten e a gémea  siamesa,  St. Martin estavam vazias. Nem um barco, para além dos locais. Nada. Zero.

Telefonei a um amigo que aqui vive há muitos anos. Convidou-me para almoçar e durante o almoço contei-lhe a minha história.

J. ficou horrorizado. Cinquenta euros em St. Martin chegam para um dia e é preciso ser poupado e não muito exigente. Tirou uma nota de quinhentos euros da carteira e deu-ma, para que eu "não andasse por aí sem dinheiro". Depois pensou um bocado e encontrou a solução. "Sabes mudar machos de fundo?" "Sei". "Então vais para Antigua mudar os do C." Quando acabarmos de almoçar vamos tratar do bilhete.

Fomos. Depois da agência de viagens  (J. gosta de interagir com pessoas mais do que com máquinas, característica que eu partilho) páramos no banco. Deu-me não me lembro se dois mil e quinhentos se três mil e quinhentos dólares e nessa tarde apanhei o avião para Antigua com um conjunto de instruções muito simples: "o C. está na marina tal, em seco. Quando lá chegares falas com fulano, sicrano e beltrano. Eu já lhes terei telefonado. Tens de mudar todos os machos de fundo e o dinheiro que sobrar é para ti".

Sobrou muito e passei um ano a dizer-lho. Nem nunca sequer me mandou calar.

No ano passado cheguei de novo a St. Maarten com pouco dinheiro. Mas era Dezembro e encontrei trabalho rapidamente. Por razões legais (e outras, mas essas não interessam) passei um mês e tal a trabalhar sem receber um tusto. Sobrevivi porque tinha crédito na crew house onde me hospedava, no café de uma senhora portuguesa onde almoçava e no Lagoonies onde bebia rum punch e por vezes jantava.

Ao contrário de J. nenhum dos proprietários ou gerentes dessas três casas me conhecia. Confiaram em mim, simplesmente.

Hoje é tempo de pagar outra vez, de outra forma. Quando J. veio ter comigo a perguntar se tinha trabalho para ela reconheci-lhe a urgência na voz. Depois disse-me que estava na Little  Crew House mas tinha pouco dinheiro,  etc. e reconheci o filme. Já ali tinha estado.

Disse-lhe que podia vir para bordo contra um pouco de trabalho. Ela ajuda mais do que eu esperava e em contrapartida pago-lhe a comida. Depois arranjei-lhe uns dia de trabalho na empresa de charter para a qual trabalhei e tanto tempo tempo leva a pagar.

Hoje adiantei-lhe uma grande parte do que vai receber pelo seu primeiro dia, "para não andar por aí sem dinheiro" (está muito longe dos quinhentos euros do J., mas a ideia é a mesma).

Não conto esta história para me vangloriar - se ligasse muito ao que pensam de mim não viveria como vivo -; para me dar a conhecer - há duas ou três pessoas que me conhecem e esse número chega-me -; nem por razão nenhuma em especial se não defender o meu conceito de ética. Que é simples, primário a raiar o básico: faz aos outros o que gostarias que te fizessem a ti. Ou já fizeram.

Nem mais nem menos.

19.12.15

Pessoas, lugares, azares

Às pessoas que são uma espécie de compilação dos lugares-comuns de uma época deve poder chamar-se pessoas-comuns sem ser ofensivo, não é?

Quero dizer: quem escolheu as tatuagens, as calças pelos joelhos, os soutiens à vista, as perfurações, o léxico PC et al. foram elas. Não foi a época que as obrigou.

Ser comum é uma escolha. Que vulgar seja sinónimo é azar.

18.12.15

Diário de Bordos - Simpson Bay Marina, Sint Maarten, Antilhas Holandesas, 18-12-2015

O dia ainda não acabou, é certo; e esta sucessão de boas notícias não precedidas nem seguidas por más vai acabar, eu sei. O real encarregar-se-á de lhe pôr cobro - e estatisticamente de ma cobrar -.

Paciência. Por enquanto limito-me a usufruir dela, sem pensar demasiado no que aqui me trouxe ou espera.

O cheque que pensava ter disponível daqui a uma semana já o está, foi levantado e parcialmente trocado por comida no supermercado; o mecânico diz que vem hoje à tarde (ainda só tem vinte minutos de atraso. Se chegasse agora seria como ter uma hora de adianto); e para terminar: acabo de fazer um Colombo de peixe (mero) que ficou, no dizer da tripulante, "excelente".

Partilho a opinião, passe a imodéstia. Estava bom. A culpa não foi minha, esclareço; foi das senhoras que me venderam as especiarias, o peixe e os legumes, por esta ordem.

........
De modo que hoje é, resolvi, dia de paga e em dias de paga não há marinheiro digno desse nome que trabalhe.

O mecânico veio e foi, o que do Colombo resta está no frigorifico, a tripulante dorme a sesta e eu não tardo a imitá-la. A garrafa de rosé que por acaso e quase sem querer trouxe do supermercado está vazia, o ar condicionado ligado e o S. M. em paz com o mundo.

Harmonia, se preferirem.

Isto se considerarmos que o mundo exterior é uma identidade sem estrutura própria. O calor e a vasta extensão de coisas por fazer são ilusões de óptica e só o que cá dentro acontece conta como realidade.

Diário de Bordos - Simpson Bay Marina, Sint Maarten, Antilhas Holandesas, 17-02-2015 / II

Misturei costeletas de porco, azeite, amêndoas,  vinho tinto, alho, orégãos e paprika  (e sal e pimenta) na mesma frigideira e deixei frigir.

Faltou um bocadinho de rum e outro de gengibre.

A vida é assim: falta sempre um bocadinho de rum, pelo menos.

Eu gosto dela, apesar disso. Acompanhei o jantar com blues, não fosse a tripulante pensar que só gosto de música com cinco séculos e agora ouço o pior disco de Bruce Springstreen: o que começa com Born in the USA e continua com merda do mesmo nível. Mal acabe de escrever isto vou pôr o Nebraska, ou o fantasma de Tom Ghost  (?) ou algo do género.

Lembro-me mal dos títulos dos discos. Falha que me ficou da adolescência: sempre preferi o conteúdo ao continente. Se calhar é por isso que me esqueço tão facilmente do nome das pessoas.

Não é por pedantice, apesar de o ser. É apesar de o ser. Pedantice ao contrário, ao avesso, humilhante e vergonhosa. Não recordo facilmente o nome das pessoas que cruzo. Nem dos discos.

Mas recordo outras coisas: as noites maravilhosas que passei com N. em Shelter Bay, por exemplo. As noites no mar, sem música, com toda a gente a dormir. As noites em Lisboa naquilo que tenho mais próximo de uma família. As noites em Antigua com a minha filha Lena.

Não que as minhas recordações sejam exclusivamente nocturnas, longe disso. Mas porque agora é noite e oiço um disco que vou mudar não tarda e amanhã vai ser um dia bom como hoje foi e um gajo pensa que está sucessão de dias bons tem de certeza uma sucessão de noites iguais.

Ou pelo menos teve.

Tom Joad, estúpido.

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Começou a chover. Era o que eu precisava para acabar o trabalho no mastro.

Vi-o hoje de manhã na previsão meteorológica. É raro apreciar uma previsão de chuva e ainda mais gostar de que se concretize.

........
Enquanto isso as coisas continuam simultaneamente independentes da nossa vontade e moldáveis por ela, em quantidades reduzidas.

Reduzidas não. Variáveis,  consoante a natureza d'"as coisas".

........
Quando acabar o Tom Joad vou pôr a Pietra Montecorvino. É uma espécie de Springstreen mediterrânico e feminino. Duas vantagens.

A única coisa que o Mediterrâneo não tem de bom é o mar.

........
Cada vez leio menos e escrevo mais. Não é difícil de verificar: isto só não está cada vez pior porque pior é impossível.

Reconfortante e encorajador: saber que nada pode ser pior de que o que está é  meio caminho andado para melhorar.

Infelizmente é a metade mais fácil, mas isso é outra história.

........
Se eu tivesse juízo ia buscar um bocadinho de rum. Infelizmente não tenho e vou dormir.

Nunca terei.

17.12.15

Diário de Bordos - Simpson Bay Marina, Sint Maarten, Antilhas Holandesas, 17-12-2015

Mais uma tarde passada a subir ao mastro e a descer e subir de novo. O S. M. está com tratamento de senhora grande.

Merece-o. É uma grande senhora.

........
Uma vida como um rio? Não. Como muitos rios. Uns largos e tranquilos, outros tortuosos e cheios de quedas.

Muitas vidas. Boas, más, assim assim e nem por isso: uma vida.

........
Não fosse a porra do ombro esquerdo, claro. Uma porra não é uma vida.

........
Queria reduzir a minha exposição ao Lagoonies e falhei redondamente.

Há falhanços tão pouco importantes que são quase felizes.

........
Nunca (pelo menos desde que me lembro) fui muito de natais. Estamos a uma semana do próximo e podia estar a um ano.

A verdade é que este ano foi um bom presente. Basta excluir o triste episódio do W. e tive quase dez meses de presentes de Natal.

Tanto quanto me lembro, pelo menos. Talvez tenham sido menos. Não sei.

Mas devemos aferir as coisas pelo fim, não é?

........
O gajo que está a tocar guitarra e a cantar no Lagoonies parece o Woody Allen de há quarenta anos.

Toca e canta assim assim mas tem uma qualidade imensa: toca baixinho.

Doxa, zeitgeist e outras doenças

É forçoso, se bem difícil,  desagradável e penoso reconhecer que o zeitgeist é uma merda e a doxa corrente nada melhor.

Mas é neles e com eles que vivemos, não é?

Pergunto-me como seriam os anteriores e serão os vindouros.

Iguais, sem dúvida.


Paisagem

Uma mistura de verticais e oblíquas que apontam todas para o mesmo sítio: a meia dúzia de estrelas e planetas que a poluição luminosa e a minha posição me deixam ver.

Fotografia

Há dois fotógrafos em Portugal com quem eu gostaria de fazer uma viagem: a Isabel Zuzarte e o Miguel Valle de Figueiredo.

Teria - teríamos - o mar fotografado por dentro e por fora.

Diário de Bordos - Simpson Bay Marina, Sint Maarten, Antilhas Holandesas, 16-12-2015

Preparado ou não, maré baixa é maré baixa. Oiço Cohen deitado no cockpit enquanto fumo um cigarro e me arrependo de não ter comprado um bocadinho de rum no chinês.

Ainda vou a tempo. Cinco minutos de dinghy para lá e cinco para cá.

Custa-me interromper o homem. É um dos raros que sabe pôr no seu lugar os probleminhas de maré.

........
Mais um dia de bom trabalho. Deve ser por dias como este que chamam a isto náutica de recreio. Um gajo não pára um minuto, não tem um tostão e continua a gostar do que faz.

Talvez se devesse substituir de recreio por mágica. Ganharia em poesia e em realismo, dupla desconhecida noutras áreas de actividade.

Não é uma fórmula. Alguém me pode dizer qual a profissão cuja descrição realista inclui a palavra mágica? (Refiro-me naturalmente a profissões sérias).

........
E qual o trabalho que acaba com um trabalhador deitado num cockpit a ouvir Cohen e a hesitar entre ir comprar rum de dinghy ou de bicicleta?

........
Gosto muito de J., a nova tripulante. Mas parece uma compilação de todas as modas modernas. Vegetariana,  vota Podemos - não por ideologia estruturada e refletida; porque sim, porque os "outros são corruptos", "todos" - meio esotérica, etc.

E não é assim tão jovem.

Não percebo e confesso que não me dou ao trabalho de sequer tentar. Não sou sociólogo nem pretendente a confessor.

Basta-me que trabalhe e não faça muitas asneiras. O resto é com ela.

........
Adenda: acabei por ir de dinghy. Era uma falsa questão,  não era?

Era.

O rum não é grande coisa mas custa um dólar e meio a garrafa de cento e setenta e cinco mililitros, mais do que suficiente para o que me resta de tempo acordado a ouvir Cohen e a pensar no que vou fazer amanhã.

Mudar óleo e filtros do motor e do gerador, limpar mastro, vaus e brandais, ir ao lado francês recordar à empresa de sonho que estou disponível por uns dias, acabar de arrumar e limpar o bote, trabalho sisifico s'il en est.

Não vou conseguir fazer isto tudo num dia.

Sorte.

16.12.15

O céu e o inferno

"Céu é um lugar em que os polícias são ingleses, os cozinheiros franceses, os amantes italianos, os engenheiros alemães e tudo é organizado por um suíço.

No inferno os polícias são alemães, os cozinheiros ingleses, os amantes suíços, os engenheiros franceses e tudo é organizado por um italiano."

Diário de Bordos - Cole Bay, Sint Maarten, Antilhas Holandesas, 15-02-2015 / II

Trabalhei muito e bem; tanto que consegui cortar uma coisa da lista. Isto é, cortar a cem por cento, eliminar, apagar.

Limpei os tanques de água. Tudo o mais foi começar ou continuar ou avançar ou marcar para data posterior.

Mas não me posso queixar. A quantidade de coisas terminadas está quase a meio da lista. Se tivesse o Microsoft Project a imagem seria bonita.

Não tenho, mas é bonita na mesma.

........
A X é a minha marca favorita, mas às vezes tem coisas desconcertantes. Parece que convidaram um engenheiro francês para desenhar algumas partes do barco. Para os tanques de água tinha orçamentado uma hora. Foram mais de três, quase quatro. Para tirar os paneiros que cobrem dois deles tem de se desmontar a mesa do salão (e não foram mais porque um dos tanques não tem porta de visita). Ou seja: dos três tanques limpei dois e levei o triplo do tempo que esperava levar. Parece-me um bom epítome do que é trabalhar numa embarcação. Não acrescento de recreio, se bem a tentação da ironia seja forte. São todas iguais.

As francesices e a lógica de residência secundária  (em vez de barco) no desenho do interior são as duas coisas de que não gosto no S. M. Isto dito, o bote é uma maravilha e quanto melhor o conheço mais gosto dele.

........
Seria difícil de outra forma. Deitado no cockpit após um jantar correcto a ouvir Carlo Gesualdo, com uma temperatura perfeita, cansado, feliz e leve... Como não gostar?

........
Arranjei uma ajudante. Estava a dormir na Little Crew House mas não tem dinheiro e precisa de um sítio mais barato.

Aqui é de borla: basta trabalhar. Dei-lhe o camarote de vante (o do armador) e disse-lhe que podia ficar três ou quatro dias à experiência.

Ajuda e é simpática. Se continuar assim tem casa para dormir e eu um par de braços para ajudar.

........
A dor no ombro esquerdo é uma chata, melga, peganhenta. Pergunto-me se não seria melhor ter dores intensas, fulminantes em vez destas magoa-tolos.

Não.

15.12.15

Diário de Bordos - Cole Bay, Sint Maarten, Antilhas Holandesas, 15-12-2015

Os dias sucedem-se e todos são bons, sejam eles de mim ou do bote. Ontem foi dele.

Acabou com um jantar simpático  (não sei se bom porque fui eu que o fiz. Rouille de calamars, com um bocadinho de alho a mais) a bordo do S. M.

Há muitos anos que não fazia esta receita, que tirei do Cuisine d'amour, o meu livro de receitas favorito.

........
Vêm aí dias de maré baixa, muito baixa. Depois virão outros de maré cheia. E assim por diante. Uma nora mesmo para quem não está à nora.

........
Acordo com a loiça para lavar e uma troca de opiniões no Facebook sobre Sócrates. Felizmente gosto de lavar loiça.

........
Está na hora de voltar para o mar. A terra é chata.

13.12.15

Diário de Bordos - Cole Bay, Sint Maarten, Antilhas Holandesas, 13-12-2015 / II

Que rico dia este de S. Mim. Paul Desmond, Sonny Rollins, Paul Motian, Edgar Morin e muitas sestas pelo meio. Arrumei e limpei a cozinha a fundo, ordenei o trabalho da semana que vem e preparei-me para a forte contenção de custos que aí vem.

Se homem prevenido vale por dois, preparado vale muitos mais.

........
O S. M. está longe de pronto, claro. As velas ainda estão na velaria à espera dos carros, que ainda não foram sequer encomendados; o mastro só está quase afinado (tinha um desvio de dez milímetros para bombordo, entre outras maleitas. Não admira o nó de diferença de velocidade de um bordo para outro); o motor está como chegou e a respectiva tampa idem; os tanques de água ainda estão sujos; os brandais e o mastro têm de ser limpos, escotas e adriças passadas na máquina de lavar. A lista é grande e muitas coisas dependem de outras.

Daqui a uma semana veremos o que resta. Espero não ter esta sensação horrorosa de que o trabalho todo desta semana não serviu para nada.

Parece dinheiro: nunca faço a mais pequena ideia de para onde foi.

........
É-me difícil compreender as pessoas que não conseguem estar sozinhas. Eu gosto, apesar de ser um chato arrogante e teso.

Como seria, se fosse um gajo porreiro?

Diário de Bordos - Cole Bay, Sint Maarten, Antilhas Holandesas, 13-12-2015

S. foi-se embora. Seria injusto acrescentar felizmente, mas é verdade que gosto de me reencontrar sozinho. Fritei dois ovos, pus o Fado Bailado do Rão e deitei-me no salão a organizar mentalmente o trabalho que me resta. Não é muito: quatro ou cinco dias plenos.

Começam amanhã. Hoje é dia de S. Mim.

........
Jantámos no lado francês (lolo Cisca, se houver interessados). Accras de morue, boudin créole, caranguejo recheado. Precedidos de um ou dois ti'punch no Arhawak e seguidos de um rum punch no Lagoonies.

Neste último havia demasiado barulho. Antes não: só paz e voluptuosidade.

Prefiro de longe o lado francês da ilha, nada a fazer. Por muito FN que votem estão mais perto da civilização. Ou do bom gosto, se se preferir.

........
Fado Bailado é o meu disco de fado preferido. O saxofone substitui com vantagem a voz de muitos fadistas e as letras da maioria dos fados.

E adequa-se tão bem ao domingo solitário de um marinheiro longe de casa.

12.12.15

Desordem

O S. M. está na desordem habitual de uma embarcação em reparações. S. não gosta de a deixar assim.

Compreendo e agradeço. Mas quem a vai limpar sou eu. Se há uma coisa que gosto de fazer a uma mulher depois de lhe fazer amor quase um mês é beijá-la.

Um barco não é obviamente um ser vivo, mas é quase tão complexo. Aprender a conhecê-lo - diferente  (infelizmente) de aprender a amá-lo - é um processo longo, curvilíneo, tortuoso.

Um processo amável, no fundo.

Escolha

A única coisa pior do que um gajo que se julga estúpido é um que se julga esperto.

Diário de Bordos - Cole Bay, Sint Maarten, Antilhas Holandesas, 11-12-2015

São poucos os armadores com quem me entendo tão bem como com S., o armador do S. M. (pena este hábito de não nomear os barcos. O nome deste é bonito). Hoje disse-me que ia ter saudades minhas.

É recíproco, S. Um dia passaremos o Horn juntos.

........
Jantar no S., a beleza pela qual me apaixonei há tantos anos, paixão essa que há tantos anos continua viva. Um recorde.

Retiro-me da conversa para escrever. Prefiro escrever disparates a ouvi-los.

Há sítios que não suportam faltas de respeito, não as merecem, nem aguentam ou digerem.

........
St. Martin está a um passo do paraíso. Esse passo é essencial: mais vale morrer de cansaço a um metro da praia do que de aborrecimento na areia.

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Estou a duas semanas do Natal e a vinte anos. Escolho estes últimos: o meu Natal dura trezentos e sessenta e cinco dias (e seis nos anos bissextos). Como escolher um dia?

Não escolho: que o Natal vá dar uma volta ao bilhar grande e volte daqui a muitos anos. Nessa altura talvez possa vestir um fato encarnado e ir para a rua olhar para as miúdas sem ser acusado de tarado.

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Amanhã fico de novo sozinho. É decerto um presente de Natal. Talvez não seja assim tão mau, afinal.

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Consigo viver como vivo sem ter inveja de ninguém. É uma qualidade ou um sintoma?

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Cheguei há dez dias. Tempo de largar. O melhor lugar do mundo é a mil milhas do porto mais próximo; o pior é o porto mais próximo.

Por muito que se goste dele.

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Os marinheiros são homens simples. Não precisamos de muito para ser felizes: mar, rum e uma miúda gira numa cidade qualquer dizer que tem saudades nossas.

Se a cidade coincidir com aquela onde nós estamos melhor. Se não, azar. Num fósforo estou aí, querida.

Se bem assim não possas dizer-me que tens saudades minhas. Melhor do que isso só "amo-te", não é?

Não. Melhor do que isso só "quero amar-te".

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Gosto tanto do Lagoonies em Cole Bay como do café Tati em Lisboa. As razões são basicamente as mesmas. No fundo sou um homem caseiro.

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E sem imaginação. Uma bênção.

11.12.15

Diário de Bordos - Cole Bay, Sint Maarten, Antilhas Holandesas, 10-02-2015 / II

O vento caiu; a música no Lagoonies oscila entre Johnny Cash e Elvis Presley  (passando por Pink Floyd e Wish You Were Gere à guitarra acústica, soberbo); comi um hambúrguer com pão,  batatas fritas e tudo; os chupitos (a empregada nova é espanhola) sucedem-se sem sobressaltos...

E assim por diante. Podia continuar a lista até o sol nascer. Não continuo: prefiro olhar para a noite a descrevê-la. Questão sem dúvida de gestão de recursos.

Escassos. Entre mim e a outra margem da laguna há dinghies, barcos (um deles é o S. M. É o mais bonito, coincidentemente), água na qual se reflectem as luzes do outro lado.

Atrás está a música, um bar lindo e as garrafas de rum. Podia alargar os conceitos de à frente e atrás, mas não me apetece.

Prefiro olhar para a noite e ouvi-la. O resto virá se tiver de vir.

Diário de Bordos - Cole Bay, Sint Maarten, Antilhas Holandesas, 10-12-2015

O dinheiro é uma substância simples que serve para transformar trabalho em rum (no meu caso. Há quem prefira barcos ou, menos compreensivelmente, casas e carros).

Se o rum vier com a forma, a cor e o sabor de um rum punch do Lagoonies o dinheiro vale um bocadinho mais; ou um copo de vinho no café Tati, em Lisboa. Se não, não faz mal. Paciência. Transforma-se no que houver, onde houver.

Afora isso não lhe vejo grande utilidade e não percebo a obsessão que a maioria das pessoas tem por uma coisa que desaparece mais depressa do que a Virgem Maria de uma cerimónia voodoo.

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Pouco a pouco o S. M. volta a parecer um barco. Ainda falta uma série de coisas, claro. E não forçosamente as mais simples. Mas não deixo de apreciar a beleza de um circuito que começa com uma coisa da qual se gosta e desagua noutra da qual se gosta o mesmo. Aperto um parafuso agora e daqui a meia dúzia de horas (isto é uma média. Se contasse desde o início andaria mais perto de uma dúzia inteira) esse parafuso materializa-se num copo de rum.

Talvez no fundo a pedra filosofal seja apenas uma garrafa de Mount Gay e os alquimistas da Idade Média só não o descobriram porque não conheciam as Antilhas.

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Daqui a umas semanas direi a mesma coisa de um Ouzo numa taverna qualquer da Plaka.

Talvez. Só terei a certeza quando lá chegar.

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"Pai, vocês vivem num planeta paralelo", dizia-me a minha filha há uns anos em Antigua  (vocês sendo as pessoas que como eu vivem onde trabalham,  em vez de trabalhar onde vivem,  suponho).

Talvez não. Talvez no fim nós vivamos neste planeta mais do que quem dele só vê uma janela.

10.12.15

Diário de Bordos - Cole Bay, Sint Maarten, Antilhas Holandesas, 09-12-2015

O vento mudou, claro. Ficou mais forte. Comecei o dia no galope do mastro e lá passei grande parte da manhã, a instalar a tricolor.

Perguntam-me muitas vezes se não tenho medo de estar ali, pendurado numa "cadeira" a quinze ou vinte metros de altura.

A resposta é um não qualificado. Por vezes tenho. Os primeiros minutos, por exemplo. Quando tenho uma faca ou uma ferramenta pesada na mão e penso no que acontecerá ao barco se a deixar cair.

Mas depois o trabalho absorve-me; e a vista, sublime. Esqueço-me de ter medo, faço o que tenho a fazer, volto para baixo e apercebo-me de que mal tenho força nas pernas para andar.

Sim, é um privilégio. O resto é conversa.

........
Hoje avançámos muito. Fazer reparações numa embarcação da qual se gosta - e merece, como é o caso desta - é um prazer sem fim.

Em todos os sentidos: o processo é circular. Da lista de coisas a fazer escolhe-se um conjunto delas que se começam. Nenhuma,  sabe-se à partida, vai avançar linearmente: para esta é preciso uma peça, para aquela um técnico que só está disponível "amanhã", a outra é mais complicada do que parecia. O barco fica um caos: paneiros levantados, locas vazias (e respectivo conteúdo espalhado por tudo quanto é sítio), técnicos a entrar e a sair (isto é um bocadinho faz-de-conta. Na realidade nunca aparecem quando disseram que vinham), viagens ao ship chandler seguidas de sessões de improvisação. Avanca-se em quatro ou cinco ou seis frentes ao mesmo tempo e nada avança excepto a desordem.

Pouco a pouco aparecem os primeiros V na lista. A desordem é a mesma, claro, porque o que ficou pronto é o mais simples. Ou por outra razão qualquer, da ordem do bruxedo.

E depois um dia apercebemo-nos, com uma mistura de espanto, gratidão e alívio de que só falta uma coisa: limpar e arrumar. Quase todos os itens a lista têm o V - uma injustiça, esse tracinho tão simples esconde horas de trabalho e dólares às carradas -; os que não têm ficam para a próxima escala.

O barco volta a parecer um barco e se se tiver tido sorte e nada tiver caído do mastro (longe vá o agoiro) - ou de mais baixo - não ficaram marcas. Tudo funciona outra vez. Ficamos a conhecer e a amar mais e melhor o bote.

Ser capaz de raciocinar em espiral, de lidar com a ausência de linhas direitas e estruturas rígidas, capacidade de se adaptar e gerir o imprevisto: o mar não é decerto a única profissão que requer este género de qualidades, mas é a mais bonita.

Pelo menos quando fazemos estas coisas todas em St. Martin, a meia dúzia de metros do Lagoonies e a vista que se tem do galope do mastro é a laguna mai-las baías adjacentes e as colinas que nos separam de Philipsburg, com sol e vento e o barco é uma beleza e qualquer dia estamos a caminho de Atenas para uma viagem de dez mil milhas.

9.12.15

O sono e o rum

A luz foi-se abaixo, outra vez. Há um problema com o gerador, ou coisa que o valha.

As empregadas do Lagoonies aproveitam para pôr os clientes da outra mesa, ruidosos e aniversariantes na rua.

A mim não chateiam. Sabem que não é nem o último rum nem o último sono.

Saúde, desprezo

Gosto da vida mas não faço nada para a prolongar por aí além. Talvez saúde seja isso: não a ausência de doenças, mas o desprezo por elas.

O que é e o que devia ser

Olho para a laguna, linda e poluída e lamento a esquerda: não consegue olhar para o que é sem ver o que devia ser.

Últimos, continuidades

Hesito entre um último rum e ir dormir. Escolho o rum, claro.

Qual seria a opção entre um rum e o último sono?

"Estudos de género"

Pergunta aos estudiosos  (e estudiosas, claro) de género: há mulheres livres e felizes?

Instabilidade, religião

O vento caiu, finalmente. Amanhã volto ao galope do mastro para montar a tricolor que hoje desmontei. Vai estar mais calmo, se nada mudar.

É pouco provável: nada mudar é tão estranho a esta vida como a mudança é para uma religião.

Talvez seja por isso que sou ateu: alguém conhece uma religião que tenha um deus da instabilidade?

Altruísmo

Defendo a alegria do desprendimento e penso em quanto gostaria de ter um computador para escrever e uma máquina fotográfica para mostrar.

Depois lembro-me nos disparates que escrevo e mostro e percebo a sorte que quem me lê e vê tem.

Amanhã?

De que será amanhã feito?

Não sei. Mas tão pouco sei de que foram ontem e hoje feitos.

Sorte

Como explicar a um esquerdista a incomensurável sorte que não ter é?

Liberdade, fatalidade

Ao contrário da saúde  (por exemplo) que tem custos mas não tem preço a liberdade tem um preço mas não tem custos.

Não ter nada e ser feliz assim não é um custo. É uma sorte, ou uma fatalidade.

Diário de Bordos - Cole Bay, Sint Maarten, Antilhas Holandesas, 08-12-2015

Começar o dia de trabalho no galope de um mastro de quase vinte metros e acabar o mesmo dia a secar fundos é um privilégio.

Difícil de explicar, mas privilégio.

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Fiquei a trabalhar no S.M. O barco precisa e eu também. Os astrólogos chamariam a isso uma conjunção feliz, suponho.

Eu chamo sorte. É menos exótico, mas igualmente próximo da realidade,  não é?

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St. Martin é uma ilha adorável. A cada dia que aqui estou mais gosto dela.

E me pergunto como consegui passar tanto tempo a detestá-la. Não acredito em amores à primeira vista, é o que é.

Excepto Bequia, claro. Mas isso não foi amor, foi bom senso. E não foi à primeira vista. Foi à segunda vida, ou terceira, ou as que tiverem sido.

Pensava que era específico de marinheiros, mas não. Hoje S., dentista e acessoriamente armador do S.M. disse-me que Bequia é a sua ilha favorita nas Caraibas.

Podia argumentar que não conhece muitas, mas isso seria um argumento barato, desprezível.

Os marinheiros não têm a exclusividade do bom gosto, mais simplesmente.

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Cinco dólares por um Mount Gay pode parecer caro. Parece até se ver a quantidade de rum que há no copo.

É tanta que torna impossível não beber outro.

7.12.15

Diário de Bordos - Cole Bay, Sint Maarten, Antilhas Holandesas, 06-12-2015

Chego ao Lagoonies no fim da festa. Agora aos Domingos há um brunch e - o Lagoonies sendo o Lagoonies - música ao vivo (bastante boa, se as duas canções que ouvi servem de aferição).

O lugar está cheio de crianças e respectivas progenituras.

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As coisas mudaram de novo. Não é novidade, claro. Isso seria elas não mudarem. A largada de Atenas foi outra vez adiada e tenho de ficar por aqui a trabalhar uns dias. Ou semanas, ou o que for. Não sei. A burocracia grega nada tem a invejar à portuguesa  (ou vice-versa, se calhar).

De maneira hoje lá fui perguntar à empresa para a qual trabalhei na época passada se tinham trabalho para mim. "Talvez". A ver. Parecem-me mais bem organizados, coisa que a confirmar-se verdade seja dita não seria difícil. Já não está ninguém do ano passado.

Talvez. Que se lixe. Se não for ali é noutro lado qualquer. Amanhã chega o armador do S. M. e logo se vê.

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Entretanto vou arrumando e limpando o bote e fazendo experiências culinárias. A de hoje bateu todos os recordes. Ia chamar-lhe Lulas à vou morrer aqui, ou Lulas à vocês não vão acreditar  (para quem não é de Moçambique). A incredulidade vem de terem ficado comestíveis. Omito a receita: desafiar o acaso é uma coisa, provocá-lo outra muito diferente.

Escrever aquilo seria uma provocação e não passaria impune. De qualquer forma sobrou bastante e como só deito comida fora quando nem as bactérias a conseguem comer amanhã posso reavaliar a questão.

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Não me importaria nada de esperar uma semana em Atenas. O Tsipras conseguiu fazer aprovar um conjunto de medidas de austeridade que me encheu de admiração por ele: não sei se aquilo é falta de vergonha se excesso de génio e muito apreciaria saber.

A verdade é que nem a imprensa nem a esquerda lusas (perdoem a redundância) tugiram ou mugiram.

Acho bem. António Costa prepara-se para relançar a economia pelo lado da procura e deve dispensar maus exemplos. Pode ser que o próximo programa de reajustamento,  depois do relançamento que aí vem seja dirigido por um socialista.

Sempre poderão pedir conselhos ao herói grego. Há muitas maneiras de comer sapos e ele conhece-as todas, suponho.

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O PCF acabou. Agora chama-se Frente Nacional e acaba de ganhar a primeira volta de uma eleições regionais em França.

A relação dos franceses com a civilização é inegavelmente fecunda, mas instável.

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http://youtu.be/FF0M7z7DHdM

Rum

"Rum'll drive you mad". These were his last words, said just before his mother tongue died in him and another language descended upon his bald head.

Depuis ce jour il vit caché, dans la crainte légitime de voir ce nouveau langage mourir à son tour en lui.

"Tu comprends : je ne l'ai pas choisi. Bien au contraire" m'explica-t-il quand je l'ai eût finalement retrouvé. "Si je le laisse mourir comment saurai-je lequel suivra?" "Ou même s'il y en aura un autre", répondis-je.

Il me regarda terrorisé. Visiblement l'idée de ne pas avoir de langue ne lui avait pas affleuré l'esprit.

- Digo muitas disparates, não digo?
- Dizes.
- Sabes o que me dá gozo?
- Não.
- É que digo cada vez menos.
- A continuar assim quando morreres deixas de os dizer.
- Verdade. O bom senso é mortal.
- Disparate. Porque não experimentas calar-te em vez de morrer?
- É quase a mesma coisa. Passa-me o rum, por favor.

5.12.15

Diário de Bordos - Cole Bay, Sint Maarten, Antilhas Holandesas, 05-12-2015

Ontem fiz um Colombo de frango. É uma espécie de caril típico das Antilhas Francesas, assim chamado por ter sido trazido para aqui pelos trabalhadores de Ceilão quando a escravatura acabou e era precisa mão-d'obra para o açúcar.

Não foi o melhor mas tão pouco ficou mal. Cada vez gosto mais de cozinhar. Qualquer dia começo a ouvir vozes como a minha avó Filipa. A ela apareceu o St. António e disse "Filipa, o teu futuro é a cozinha". A senhora obedeceu e transformou-se numa cozinheira excepcional.

Começou a carreira a vender bolos na praia da Nazaré. Tinha enviuvado e não queria depender da sogra.

Eu não estou viúvo e a ter sogra seria o mar, de quem não posso não depender porque o mar é a prisão absoluta, a liberdade absoluta.

Perguntam-me frequentemente se não me aborreço no mar. Não. Aborreço-me mais em terra.

Excepto quando cozinho, claro.

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Terça-feira vou para Lisboa. Depois Atenas - Los Angeles. Até Abril não terei muitas ocasiões de me aborrecer nem necessidade de ouvir vozes.

.........
No Lagoonies bebo o melhor rum punch de sempre e para sempre. O rum punch perfeito.

Um dia se ouvir vozes e lhes der ouvidos tentarei replicá-lo.

4.12.15


Retratos antigos






Amores rafeiros

As paixões desvanecem-se a uma velocidade directamente proporcional à sua intensidade.

Já o amor é diferente: tenho um que dura há cinquenta e oito anos com uma rameira chamada vida e apesar de alguns altos e muitos muito baixos continua intacto.

Talentos

Uma vez tive uma namorada que cantava maravilhosamente. A relação dela com o seu próprio talento era complicada (as suas relações com tudo, interno ou externo eram complicadas).

Estou no Lagoonies a ouvir um senhor que canta pior do que ela e tem um reportório infinito.

Ela também tinha um reportório vastíssimo, mas tudo o que dele me deixou foi uma tremenda necessidade de aplaudir cada música.

Agora sei o que custa, ou devia custar.

Quase provérbios

Contra factos fracos são os argumentos.

Diário de Bordos - Cole Bay, Sint Maarten, Antilhas Holandesas, 03-12-2015

Há uma espécie de satisfação infantil em voltar a um lugar onde se viveu e ouvir muita gente dizer-nos "good to see you again", "c'est bon de te revoir", "é bom ver-te".

Mas não é por ser infantil que é menos bom. Hoje o que mais me surprendeu foi o genuíno prazer dos chineses da frente. Até o marido, circunspecto e reservado sorriu quando me viu.

Prazeres simples mas reconfortantes.

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Comprei um livro. Enfim, é mentira. Não o comprei. Saltou-me para as mãos e tentei repô-lo na estante mas não entrava. Pasta de dentes fora do tubo, leite entornado, amor arrependido.

Uma compilação dos textos de Edgar Morin no Le Monde de 1963 até agora por doze euros.

Para comparar: comprei igualmente um bloco-notas Clairefontaine de capa rígida pelo mesmo preço.  Há aqui qualquer coisa que me escapa, mas agora não estou em modo pesquisa.

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A vantagem de St. Maarten sobre Antigua é a proximidade da França.

.........
Terça-feira vou para Lisboa. Hesitei entre Lisboa e Genève. Não foi fácil.

Nada é fácil quando se vive. Talvez seja essa uma medida: quanto mais difíceis as escolhas mais vives.

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Penso com nostalgia antecipada no dia em que serei de um lugar. Adorno tinha uma frase sobre os criadores que criam os seus precursores. Como dizer o mesmo de quem cria as suas raízes?

3.12.15

Diário de Bordos - Simpson Bay, Sint Maarten, Antilhas Holandesas, 03-12-2015

Larguei de Port Antonio no dia em que a minha Mãe faria oitenta e cinco anos, se ainda os fizesse. Continuarás a fazê-los, Mãe: estamos cá nós e os netos que te conheceram e até chegar a vez deles serás lembrada, e farás anos, e estarás connosco.

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Ninguém gosta de bolinar. Lembro-me de uma frase que li um dia e cujo autor não fixei: "não gosto de escrever, mas gosto de ter escrito". Acho que se pode dizer o mesmo da bolina: não gosto de bolinar mas gosto de o ter feito.

A viagem correu bem e depressa: sete dias. B. é um gentleman, por vezes um bocadinho exasperante porque não dá um passo sem perguntar. Mas foi um bom tripulante e uma boa companhia. St. Maarten acolheu-nos principescamente: um jantar com J. e no dia seguinte outro a bordo do SINCHRONICITY, um barco pelo qual me apaixonei no dia em que o vi e ainda não me desapaixonei, apesar de alguns tumultos na nossa história.

St. Maarten (ou Martin, para quem está no lado francês) é uma ilha adorável, complexa, bonita. É curioso pensar quanto a detestava quando comecei a cá vir; o mesmo se passou com o Panamá. Com quantos outros lugares, pessoas, coisas?

Os grandes amores começam ao contrário, começam connosco a defender-nos, como se soubéssemos que estamos sempre a um passo do abismo, a um passo do amor.

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Dos sete dias que levámos quatro foram de tempestade ou mau tempo. Não tanto como o que apanhámos à saida de Bocas, mas mesmo assim o suficiente para me fazer pensar que estou farto de mau tempo.

Ma non troppo: de Atenas até às Canárias vou ter de novo mais do que a minha justa parte de pancada. Cada vez que digo que quero mudar de vida aparece-me a grandiosa parede da realidade à frente.

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Passei duas semanas na Jamaica à espera: de tripulantes; de uma decisão sobre a estúpida multa que a Alfândega me pregou, injusta e voraz; do Matthew.

Um marinheiro espera. E felizmente navega e quando navegra esquece-se de tudo o resto, porque navegar é esperar por coisas mais importantes.

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Bolinar é uma chatice: não há gesto, posição ou acção que seja fácil. Estamos a subir permanentemente, até para nos deitar ou sentar temos de fazer um esforço.

Mas a ideia de que estamos a andar contra a energia que nos move tem qualquer coisa de mágico, de fascinante. E quando estou deitado no poço e oiço o S. M. a cortar as vagas, ágil e vivo; quando olho para o céu e vejo que há estrelas e que Orion está à minha proa e ao lado estão Castor e Pollux, as estrelas dos viajantes; quando percebo o que o barco me quer dizer - os barcos falam, não fazem barulho, já por aqui uma vez o disse - deixo-me levar, deixo-me encantar e lá vamos o barco e eu, se não de mãos dadas ao menos de almas juntas.

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Falta pouco para chegarmos; se a terra fosse plana e eu não fosse míope veria o Panamá, a Jamaica. Não é, sou e não vejo. De qualquer forma prefiro olhar para a frente: St. Maarten, Atenas, Los Angeles. Do que está para trás só fica o que aprendi. O resto desvanece-se como a esteira que o S. M. deixa no mar.

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Não sei se por injustiça se por recompensa: depois das tempestades o céu é mais bonito.

24.11.15

Diário de Bordos - Errol Flynn Marina, Port Antonio, Jamaica, 23-11-2015

A razão que tinha para ir a Lisboa antes de Atenas deixou de ser. O mais provável é ir de St. Maarten para a Grécia com uma escala em Amsterdam. Não sei. Ainda não saí de Porto Antonio.

Saio amanhã. Cada vez suporto pior esta palavra, amanhã. E noutras circunstâncias gosto tanto dela. Amanhã. A palavra não é particularmente bonita, mas o que representa é. Excepto quando se declina como consequência de adiar algo que já devia ter acontecido.

Amanhã largo. Talvez tenha de aportar na República Dominicana, porque a comida aqui é péssima e cara. Espero que não.

Se me apanho em St. Maarten não acredito.

Amanhã.

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Matthew ainda não se decidiu. Está à espera de um mail da Alfândega a garantir-lhe que não vende o barco.

Quanto a mim bem podia esperar que a Marilyn Monroe ressuscitasse um dia na cama ao lado dele, vestida com Channel 5.

Teria mais sorte.

.........
As previsões continuam boas. A ver se se confirmam. Espero que sim. Estou com tanta vontade de me ir embora que só não sairia se me aparecesse um ciclone.

Porém não posso dizer que não gostei da Jamaica. Gostei. Mas enquanto me lembrar de tudo o que por aqui passei não terei muita vontade de voltar.

.........
Vou largar sem conhecer a decisão da Alfândega sobre a multa. Acho que me devia juntar ao Matthew na sua espera pela Marilyn, caso ele adira à minha sugestão. Se não aderir, lamento. Será para mim só.

23.11.15

Perspectivas

Hoje refiz as conexões eléctricas das bombas dos duches, baldeei o convés, limpei as ferramentas e arrumei o interior. O S. M. está pronto a largar, tão pronto como eu. Daqui a pouco o Bernard está aí. Amanhã compro os mantimentos, faço a clearance de saída e ou saio à tarde ou na terça de manhã cedo. As previsões meteorológicas são boas. O barco não está nas condições que eu gostaria mas não está muito longe. O capital de merdas não está gasto - nunca está - mas não anda muito longe do fim. Dia um ou dois de Dezembro estou no Lagoonies a beber um rum punch  e a comprar um bilhete para Lisboa.

Já tive piores perspectivas.

Diálogo curto

Um gajo rico diz a um teso Vou fazer de ti um homem rico. O teso ouve e responde delicadamente Eu já tentei e falhei.

Festa, vida

Penso: É tão bom estar vivo, não é? E logo a seguir: É tão bom viver, não é? Duas ideias diferentes num relâmpago. Dia de festa.

Qualidades breves

Estar bêbedo não é um defeito. É uma qualidade temporária.

Futuro, medo

Não ter medo do futuro será inconsciência, ingenuidade, arrogância ou simples e básico realismo?

22.11.15

Invariavelmente

Por vezes perguntam-me "Mas não tens medo do futuro?" Invariavelmente respondo "Não ".

Por que raio de carga de água invariavelmente tem razão?

21.11.15

Diário de Bordos - Errol Flynn Marina, Port Antonio, Jamaica, 21-11-2015

Os nimbus voltaram e com eles a chuva,  claro. Mas não são suficientes para me tirar o bom humor. A ideia de que largo segunda-feira paga um ciclone, longe vá o agoiro, quanto mais meia dúzia de nuvens baixas e cinzentas que além disso têm a vantagem de arrefecer a manhã.

É uma alegria injusta, eu sei. O país não tem culpa dos meus déboires. Mas a verdade é que estou ansioso por chegar a St. Maarten e ainda mais por a deixar e aterrar em Lisboa, ainda que por pouco tempo. Estranho nómada este, que tanto sonha com a sua terra que qualquer dia a faz sua de novo.

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Chegou um Outremer 55. Quem acha que não há catas bonitos devia olhar para este. No fundo é um Kelsall desenhado por um francês. O que sonhei com este barco raia o inconfessável.

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O Mathew ainda não me disse se vem ou não, mas com a confirmação do Bernard estou menos preocupado. Gostava que ele viesse porque é simpático e traz um monte de coisas de que preciso mas se não vier paciência.

Bernard tem sessenta e cinco anos. Mandou-me um CV mas não o li. No papel pode escrever-se o que se quiser. No mar não.

Chega amanhã à noite. A ver, como dizia o ceguinho. Este pelo menos sabe o que o espera e não é nenhuma criança à cata de experiências para vivenciar.

Ou experienciar, não sei. Sou parco de vivências e de experiências no plural.

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Parece-me que o inchaço no ombro esquerdo está a diminuir. Um dia crio uma farmacêutica e chamo-lhe Indiferença, Placebos e Outros Remédios.

Não lhe auguro grande sucesso. Fica melhor como título de um livro.

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E. quer contratar-me para levar o cata da Sunsail para Fort Lauderdale.

Aí está um projecto apaixonante. Depois de reparado a ideia é fazer charters em Cuba, ou entre Cuba e os Estados Unidos.

Muito provavelmente não dará em nada,  mas que é um nómada sem um sonho? Um refugiado, talvez.

Porquê?

Felizmente não tenho. Mas se tivesse de escolher uma e uma só razão para manter o Don Vivo essa razão seria a absurda quantidade de horas que passei agarrado a esta e a outras merdas de telefones portáteis para escrever uma linha.

Vírgulas, rodriguinhos

Os portugueses gostam demasiado de vírgulas.

Diário de Bordos - Errol Flynn Marina, Port Antonio, Jamaica, 20-11-2015 / II

O Labest Sports Bar tem sobre o outro bar que conheço em Porto Antonio várias vantagens. Desordenadamente: está mais perto da marina, é mais barato e a barmaid mais bonita. Acessoriamente hoje, sexta-feira, a grosso modo metade feminina da clientela é bastante agradável. Tenho pena de não poder ficar mais um bocadinho. O volume e qualidade da música impedem-mo.

O Labest Sports Bar fica no primeiro andar de uma esquina na praça à frente do mercado. Tem uma varanda onde me refugio e de onde observo a vida da cidade  (ou vila ou seja o que for. Porto Antonio tem vinte mil habitantes).

A confusão no tráfego é a habitual em qualquer cidade pequena fora da Europa e provavelmente dos Estados Unidos. Não é isso que me chama a atenção. É a quantidade de mulheres que andam sozinhas na rua, o meu indicador favorito de segurança. Rua ou quarteirão onde não veja mulheres sozinhas é rua que evito ou pelo menos onde presto mais atenção ao que me rodeia.

Gosto de ver o trânsito fluir sem regras, sem sinais,  sem polícias, traços nas ruas. Assim devia ser em todo o lado. Os acidentes ocorrem porque se desrespeitam as regras de trânsito. Se não houver regras não há acidentes.

Gosto da calma, da ausência de agressividade com que todos os tipos de veículos partilham a rua. Bicicletas,  automóveis, carrinhos de mão,  camionetas, motas  (poucas), peões... A rua é de todos igualmente.

Que país estranho este, encantador e odioso, amical e inimistoso, hospitaleiro e agressivo.

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Domingo à noite chega um tripulante do Canadá e hoje o José anunciou-me que a partir de amanhã os meus runs têm um desconto  (vinte e cinco por cento, não é despiciendo). Ao contrário do que possa parecer há uma relação entre os dois factos: posso largar segunda-feira e José quer que os últimos dias sejam agradáveis.

Se fosse dado a contas calcularia quanto me custou esta generosidade do José. Mas não sou. Estou mais para o lado das tintas.

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Falta-me resolver o problema da multa e já sei que não será antes de largar, a menos que Deus exista - o que já de si é mais do que duvidoso - e goste de mim,  coisa de que tenho bastas provas não é verdade.

Mas vou lutar até ao fim. Continuo a não perceber como é que há gente que acha o Estado bondoso, e de qualquer forma lutar contra o "bem" é uma causa nobre.

20.11.15

Diário de Bordos - Errol Flynn Marina, Port Antonio, Jamaica, 20-11-2015

A história é simples, triste e conta-se depressa.

Há uns dias chegou um cata da Sunsail. Vinha de Tortola e ia para Belize. Antipatizei com o skipper mal o vi. Foi uma daquelas antipatias imediatas e inexplicáveis. O rapaz nem sequer era agreste ou malcriado, mas pronto, não me passou pelo estreito. Anteontem vi-o fazer uma coisa com a qual não concordo muito e confirmei o meu sentimento.

Ontem ia-se embora. Os dois tripulantes que trazia desembarcaram (quando lhe perguntei porquê - vinham mesmo a calhar - respondeu-me evasiva e inverosivelmente que "tinham gostado muito da Jamaica e vão ficar aqui") e ele ia seguir viagem sozinho. Achei estranho porque as empresas não costumam autorizar transportes em solitário. Perguntei-lhe se a Sunsail o permitia disse-me com um sorriso entendido que sim e depois acrescentou "de qualquer forma não vou dizer-lhes". Pensei, mas não lhe disse, que o problema não era a sunsail, era a companhia de seguros.

Antes de largar passou por mim e despediu-se, simpaticamente.

Hoje quando acordei vi o cata na área técnica, mastro inclinado. Adomeceu e bateu num recife. Fui com o E. ver o barco (E. quer começar uma empresa de charter e está à procura de pechinchas). O rapaz não se calava "Não posso acreditar", dizia. Depois E. e eu fomos beber uma cerveja ao Peter (o daqui, infelizmente). Ficámos a saber que quando saiu de lá ontem à tarde - isto é, pouco antes de ter passado por mim para se despedir - estava tão bêbedo que o Peter lhe recusou mais cerveja.

Goste ou não do rapaz não deixo de lhe lamentar a sorte. Tem a carreira destruída - e isto sem ser preciso que se saiba quão bêbedo estava -.Também eu fiz muitas asneiras, felizmente nenhuma com consequências tão graves. Só com uma coisa me alegro: verificar o que aprendi e, dadas as circunstâncias que me fizeram parar na Jamaica, que ainda sou capaz de aprender.
Vim deitar-me  no cockpit como se estivesse no camarote. Os pontões não têm luz e tenho uma toalha para me cobrir se for preciso.

Daqui a pouco vem I Cover the Waterfront, o melhor slow de todos os tempos. Amanhã vou a Kingston. Talvez. Não tenho a certeza. Ter sono é tão bom como dormir: o que aí vem vale o que aí está.

Começou o Waterfront. Esta música faz-me pensar no Barco Negro  cantado pela Amália. É a minha música favorita dela.

Acontece-me muitas vezes adormecer cá fora.

19.11.15

Diário de Bordos - Errol Flynn Marina, Port Antonio, Jamaica, 19-11-2015 / II

"China, se não mudas a música já tenho um ataque cardíaco, morro e fico aí estendido no chão para todos verem. E morro antes de te pagar a conta!"

O China mudou logo a música, não sei se devido à primeira parte da ameaça se à segunda. Pôs reggae. Este magnífico fim de tarde merece muito mais, mas apesar disso é bastante melhor do que a merda anterior.

(Deve ter sido pela primeira. O dinheiro que tenho a pagar não justifica tanta prestabilidade).

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Não há pingo de vento. Se isto continuasse assim mais uma semanita eu chegaria num instante a St. Maarten. Não vai continuar, claro.

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De repente o S. M. parece de novo uma embarcação de recreio. Estes últimos dias parecia um estaleiro flutuante.

Um dia terei um barco e farei estas coisas todas para mim. Versão alternativa: um dia não terei barcos nenhuns e não farei mais estas coisas.

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Hoje tomei três banhos na piscina. O que as coisas mudam!

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M. adiou para amanhã a sua decisão. Compreendo-o. Não é fácil deixar um barco e muito menos a um bando de macacos uniformizados. E ainda há pessoas que acreditam no Estado. As únicas coisas que os Estados fazem melhor do que os privados são a guerra e a polícia e a isso deviam estar limitados. Já é muito, de passagem seja dito.

Bom ou mau

Quem me conhece sabe que o meu corpo deixa muito a desejar. Insatisfatório esteticamente, um falhanço total do ponto de vista mecânico, intelectualmente medíocre, míope, desmiolado, meio surdo, sem memória, incapaz de correr os cem metros em menos de uma hora - e não menciono sequer os cem metros barreiras - não sei que fazer dele.

Agora deu-lhe para me doer com dores que sobrevivem à indiferença com que sempre o tratei. Às vezes penso em mandá-lo dar uma volta ao bilhar grande, mas tenho medo que ele não volte. Bom ou mau é o único que tenho, e quem fez este já cá não está para fazer outro melhor.

Menos um

O Ma-schamba vai acabar. Bolas.

Diário de Bordos - Errol Flynn Marina, Port Antonio, Jamaica, 19-11-2015

Ontem à noite:

Vamos pôr ordem nisto tudo:

- Ainda não parou de chover;
- As bombas não estão prontas;
- O Matthew ainda não disse se vem;
- Não é amanhã que terei dinheiro;
- A Alfândega ainda não decidiu;
- As dores no ombro esquerdo ainda cá estão.

Mas:
- O Miles Davis está a tocar;
- Fui outra vez jantar ao Piggy's, ao que parece a melhor Jerk Chicken de Porto Antonio;
- As previsões meteorológicas para a viagem são soberbas.

Se fôssemos pela quantidade diríamos que está tudo na mesma. Felizmente prefiro a qualidade. E ou muito me engano ou domingo estou fora daqui.


Hoje de manhã:

- Parou de chover. As montanhas são verdes outra vez, o céu azul e a água da baía algures entre os dois. Pode ser que os meus sapatos sequem, as toalhas, as almofadas e eu também, que bem preciso.

- Reparei a bomba de água doce, marimbei na de fundo e os rizos estão quase prontos. Domingo ou segunda estou fora daqui.

Gosto da Jamaica, mas Porto Antonio é realmente demasiado miserável para mim. Há quem goste, mas nem sempre percebo porquê. E quando percebo acho horrível.

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A baía é muito bonita, mas estou cansado e só lhe aprecio a beleza nos intervalos.

E as ruas estão surpreendentemente limpas. Não consigo impedir-me de pensar no Brasil, uma vez mais, e na imundície que se vê em todo o lado. Da sujidade passo ao barulho. Ou melhor, à sua ausência. Está-se e anda-se tranquilamente na rua, sem as agressões sonoras  das ruas brasileiras.

A Jamaica parece-me definitivamente mais um caso triste de país que não merece o governo que tem. São tantos...

18.11.15

Diário de Bordos - Errol Flynn Marina, Porto Antonio, Jamaica, 18-11-2015

É sempre assim: a grande vantagem de tudo estar mal é que tudo fica bem de repente e ao mesmo tempo.

Ou pelo menos tudo de repente parece poder correr bem. Como quando o sono chega subitamente no meio de uma insónia, ou uma mão que julgávamos presa nos toca e nos diz sim.

M. é um jovem russo que está em Porto Antonio com o barco arrestado por causa de uma tonteria qualquer da Alfândega jamaicana, a mesma que me impôs uma multa absurda de oitocentos e trinta e quatro dólares. A dele é de cinco mil. O rapaz (tem vinte e quatro anos) é de uma educação irreprensível, simpático, prestável (é no computador dele que tenho escrito quase todas estas crónicas, procurado tripulantes, vagueado pelo Facebook).

Nunca lhe falei em vir comigo para St. Maarten porque sabia que ele estava a tentar resolver o problema do barco dele e parecia-me injusto pôr-lhe o meu em cima. Mas ontem fi-lo, de passagem e como quem não espera nada. "Devias era vir comigo para St. Martin". Sorrimos e continuámos uma daquelas conversas sobre nada que são o apanágio de marinheiros presos ao bar de uma marina por causa das autoridades, das avarias, de tripulantes, do tempo ou do que quer que seja.

Hoje veio ter comigo: está a pensar seriamente tirar do barco tudo o que pode e deixá-lo aqui. Vai dar-me uma resposta definitiva amanhã. Eu tenho de esperar até sexta pela decisão das autoridades e de qualquer forma quero estar cá no fim-de-semana porque há um mercado com comida boa e fresca (as lojas de porto António são fracas, para ser simpático).

Entretanto hoje avancei com as bombas. Amanhã devem estar funcionais. Os rizos são coisa para uma hora. Nas coisas que o M. traz do barco estão as que eu precisava de comprar.

Ainda é cedo para cantar vitória e estas linhas não são uma celebração precoce: são a manifestação de como me sentirei quando puder sair daqui. Vai ser de repente, vai ser assim.

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A Jamaica é muito mais pobre do que eu pensava. Tem um PIB per capita de cinco mil e poucos dólares. O de Antigua, para comparação é de treze mil e o do Brasil doze mil.

O país está bastante endividado e o Governo encontrou a solução mágica: aumentou os impostos. Aí reside a resposta à minha pergunta do outro dia. O país é pobre, as pessoas miseráveis e o governo aumenta os impostos. José, o dono do bar está a pensar ir-se embora. Ele é cubano, pode ir. E quem não pode?

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Porque é que a direita perdeu a batalha da comunicação? Não sei. José diz-me, a respeito do aumento de impostos: é isto que está errado no capitalismo.

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De repente vejo-me em modo largada, o meu favorito. Já só falta a chuva parar.

17.11.15

Diário de Bordos - Errol Flynn Marina, Porto Antonio, Jamaica, 17-11-2015

Numa carrinha desenhada para transportar menos de trinta pessoas somos quarenta, quarenta e poucos.

O chauffeur sabe conduzir e conhece o caminho. As curvas e contra-curvas sucedem-se com suavidade e elegância; o motor dá o que pode e, suspeito, um bocadinho mais do que deve. A suspensão aguenta estoicamente.

"Vais chegar cansado" prevenira-me M. na marina. Estava podre de razão: estou nisto há meia hora e sinto-me comprimido num torno gigante que um louco qualquer agita como se tivesse acabado de fumar uma pipa de crack.

O condutor engrena reduzidas e duplas embraiagens magistralmente, num timing perfeito. Lembro-me dos water taxis em Bocas, os que faziam a linha de Almirante: a mesma competência, o mesmo brio, uma igual necessidade de extirpar a monotia de um trabalho essencialmente monótono, a ganância. E penso nos autocarros de S. Luís, tão diferentes: bruscos, agressivos, zangados. Aqui não. O condutor e a estrada são um só, como nos livros zen e nas conversas das cabeleireiras.

Alguns pormenores são tocantes: o cobrador que põe uma almofada nas costas de um dos passageiros, o meu vizinho a queixar-se de que estou a apoiar-me demasiado nele ("you are leaning too much on me"), como se eu tivesse alternativa. Nem às costas do strapontin que partilho com uma senhora gorda chego, quanto mais a ele. Estou sentado à beira do banco, pernas encolhidas e dormentes. Mal consigo mexer o polegar com que digito no telefone.

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Das cinco coisas que tinha de fazer em Kingston consegui fazer três e meia. Dadas as circunstâncias não me parece mal.

Claro que ao chegar a bordo tudo mudou - a correia da bomba de fundo que tão facilmente encontrei e pensava ser difícil afinal não é a única avaria da bomba, esqueci-me dos [cones de madeira] (isto tem um nome) e gastei uma pipa de massa em táxis - são um absurdo de caro, aqui.

Tudo é caro na Jamaica. Acabam de me propor uma garrafa de rum por oitenta dólares, no bar da marina. Felizmente reagi a tempo. Oitenta dólares uma garrafa de rum? St. Maarten, ainda estás longe?

(Por que raio de carga de água quanto mais pobre é um país mais caras são as coisas?)

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Passei o dia em Kingston e fiz setenta por cento do que queria. Já só me faltam duas contigências a resolver: a multa e a tripulação (e os rizos e as malditas bombas, claro). Podia ser pior.

Kingston está dividida em duas: uptown e downtown. Não percebi se geograficamente há uma correspondência tão perfeita entre a realidade e as designações como a que há socialmente. Parecem dois mundos diferentes.

Mais uma vez penso no Brasil, onde as partes pobres e ricas de uma cidade são  duas galáxias diversas, divididas por linhas visiveis, palpáveis. Aqui não: a transição faz-se suave, gradualmente. Do Yacht Club para o shipchandler apanhei boleia do estafeta do clube, numa Honda 125 (creio, não garanto). Dei as voltas que ele tinha de fazer antes de me deixar: banco, assinar um cheque, procurar uma pessoa.

O resto fiz de táxi ou a pé. A boleia foi bem vinda, e não apenas do ponto de vista financeiro. As pessoas são adoráveis, simpáticas. E não é preciso usar capacete - nos táxis tão pouco é preciso cinto, mesmo no lugar da frente. Nem tudo é mau-.

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A viagem de regresso foi melhor ainda. Apanhei a mesma carrinha, por acaso. O cobrador prometeu-me que iria menos cheia e tinha marginalmente razão: não havia ninguém de pé. De resto, continuávamos a ser cinco por fila - na minha só havia uma senhora gorda - mas consegui apanhar o lugar ao lado do que queria: última fila, num dos cantos. Esse estava ocupado por uma rapariga magrinha que mal se mexeu quando me sentei.

Era noite. Ao princípio havia uma grande fila de automóveis à nossa frente e vínhamos devagar. Mas mal o chauffeur se apanhou com a estrada livre deu largas à sua habilidade. Que bonito é ver alguém fazer bem o que faz.

Eric, o meu vizinho e C., a Consulesa de Espanha acham perigoso andar nestes autocarros. Eu não acho. Talvez seja, mas as vantagens são tantas que compensam largamente o risco. Qual o chauffeur privado que conduziria tão bem como este? Onde veria as pessoas de pé dar a quem está sentado os seus sacos e estes serem aceites sem um murmúrio? O senhor que ia sentado na fila à minha frente, perto da porta, levava três volumes no colo: uma carteira de senhora, um saco de alguém que não vi quem era e o dele, grande. Entrou uma mulher para a secção "de pé" e depositou-lhe a carteira no colo com um pequeno aceno da cabeça, correspondido por um igualmente minúsculo consentimento.

A viagem custa quatro dólares por trajecto. Não sei se ou outros condutores são tão bons como este. Se forem, posso garantir que é de borla.

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Hoje o dia está pior. Nada avança e chove. Tudo chove em cima de mim.

Amanhã será melhor.

15.11.15

Diário de Bordos - Errol Flynn Marina, Port Antonio, Jamaica, 14-11-2015 / II

A vantagem que nós, homens feios temos sobre os bonitos é que quando recebemos um beijo de uma miúda gira sabemos que não é por causa das aparências.

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A piscina é minúscula e a miúda que está sentada no bar tem daqueles olhos enormes, globulares, protuberantes, saem-lhe da face como melancias mas brancas em vez de verdes. A música do bar não é reggae e hoje negociei com José, o cubano dono disto as condições de crédito. Isto é, disse-lhe que não corria risco nenhum de eu fugir sem pagar, o que é verdade. Acreditou, felizmente. Também não admira,  é um gajo inteligente. Só os estúpidos não sabem ver quando um homem diz a verdade ou está a mentir e para se defenderem pensam que os outros estão sempre a mentir. A estupidez é uma das formas da preguiça. O barman chama-se China mas deve ser alcunha porque é uma mistura visível à légua de preto e chinês; mais visível não podia ser. Faz uns rum punch sofríveis mas é simpático como o diabo quando está de bom humor (o diabo. China está sempre,  um bom humor delicado, discreto). O bar não é grande coisa e a piscina minúscula, estou a repetir-me, mas gosto do lugar. As pessoas são fantásticas. Paul, o director da marina pagou - ou melhor, avancou a massa - para a multa, se não teria de ir com o barco para o cais da policia "para eu não ficar com má impressão da ilha". Junior levou-me ao hospital em Kingston. Estava perdido de bêbedo, o hálito dele daria para fazer explodir um estádio (talvez os filhos da puta dos terroristas muçulmanos pudessem começar a adoptar esta técnica. Já não digo comer porco porque isso seria canibalismo ), íamos tres no carro - ele, a "bela namorada" e eu, ela comprimida entre mim e ele, só tinha dois lugares e a meio caminho ele parou para me oferecer uma Red Stripe que é uma cerveja do camandro e provavelmente para se oferecer um rum ou dois "sou mais um tipo de álcoois fortes". Fartámo-nos de rir, ele e eu, porque ele fez uma piada do género "querida, ele está a mexer-te?" e eu entrei no jogo e fomos assim até ao hospital. A miúda ia meio encavacada, só sorriu quando eu disse "se um dia estiveres farta do Junior telefona-me" e o Junior respondeu "pode ser já". "Ainda é demasiado cedo" retorqui e aí sim, ela sorriu. O médico tambem era curtido. Levou seiscentos dólares por uma hora ou duas de trabalho, mas no dia seguinte reduziu o preço para metade e quando acabou o tratamento ficámos ali na conversa, a Consulesa de Espanha ele e eu, a falar de vinhos portugueses e de viagens na Europa e ele fez uns desenhos muito bonitos a explicar o que tinha acontecido à V. Foi uma boa conversa e rimo-nos bastante apesar das circunstâncias, mas eu acho que é nessas situações que se deve rir.

Isto é, se formos ver um espectáculo do Raymond Devos, por exemplo, é impossível não nos rirmos, é normal, inevitável. Mas num hospital com uma conta de seiscentos dólares e uma miúda que quase perdeu dois dedos e um gajo com vinte dólares no bolso e sem saber como ou quando vai sair da ilha é muito mais dificil.

E melhor.

Não tenho má impressão da ilha, não tinha e assim continuo depois desta merda toda, cinco horas de papelada e telefonemas e argumentos e o caraças. Quando tiver dinheiro vou comprar os discos todos do Bob Marley e comer um bom jerk de galinha. O China já me disse onde ir e se o dele não é mau imagino como será um que ele diz ser "o verdadeiro". (Estou a marimbar-me para a verdade na cozinha, mas isso é outra história. Tudo o que é bom é uma construção, uma mentira).

Depois vou-me embora, só preciso de encontrar um tripulante ou dois.

14.11.15

Diário de Bordos - Errol Flyn Marina, Port Antonio, Jamaica, 14-11-2015

A chegada à Jamaica foi pouco auspiciosa. Não estava previsto pararmos aqui, mas a V. teve um acidente grave e foi preciso repatriá-la. A única coisa que vi de Kingston foi o hospital. À nossa espera estava a habitual corte de agentes da autoridade (Imigração, Alfândega, Polícia Marítima, cada entidade representada por duas pessoas não vá uma perder-se) e a consulesa de Espanha que tinha sido chamada pelo namorado da V. para nos ajudar.

Ajudou, e muito. V. foi dormir a casa dela, eu voltei para bordo e no dia seguinte, de manhã cedo como de costume acordei, vi que a quilha ainda estava enterrada no lodo e resolvi ir-me embora, apesar de saber que devia fazer primeiro a clearance. Não fiz: a ideia de esperar ali quase 3 horas que o escritório abrisse e depois mais não sei quantas pela chegada de suas excelências pareceu-me insuportável. Parecença essa que me custou oitocentos e trinta e quatro dólares americanos.

Segunda-feira vou a Kingston tentar reduzir esta absurdidade.

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Resumo da viagem: o meu rumo e o vento na mesma linha, eu para lá e ele para cá.

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O vento chegou às três da madrugada, com o ímpeto e as hesitações dos ventos novos. O S. M. comporta-se às mil maravilhas. São sete da manhã e já rizei, desrizei e voltei a rizar. Mas oito nós de VMG compensam tudo e mais alguma coisa.

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Não há melhor revelador de carácter, personalidade, feitios, defeitos e qualidades do que o mar.  Se eu fossse psicólogo, psiquiatra, coach ou afim abriria um consultório num barco e promovê-lo-ia dizendo "quer saber quem é realmente e o que vale? Venha bolinar connosco".

Infelizmente não auguro grande sorte à iniciativa: ninguém gosta de pagar para descobrir que não vale uma merda.

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Suporto mal a estupidez, mas de certa forma perdoo-a (não só por simples mecanismo de auto-defesa mas também porque é involuntária). Já ser banal é uma escolha e imperdoável.

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Pela primeira vez na vida tive de desembarcar um tripulante por causa de um acidente. Recebi simultaneamente uma vasta e caríssima lição. Quem não fica estupefacto com a quantidade de coisas que aprende todos os dias? Eu fico.

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É paradoxal que apesar de tudo a Jamaica me pareça um país simpático e me dê vontade de a conhecer melhor.

A chegada a Porto Antonio é de tirar a respiração.

6.11.15

Diário de Bordos - Red Frog Marina, Bocas del Toro, Panamá, 05-11-2015

Quando cheguei a Red Frog Marina a estação de fuel já estava fechada. Tive de passar a noite aqui. Azar? Não sei. Um copo no Palmar ao fim do dia é uma estranha e injusta manifestação de azar.

Tal como acordar nesta paz, a água espelho do céu e da selva que a rodeia. Às seis da manhã só se ouvem os pássaros, os animais na floresta e uma solitária panga, que de tão solitária não choca. É parte da paisagem, como os pássaros e as nuvens cujo reflexo na água em breve - assim que a esteira chegar ao pontão - se romperá em mil pequenoa reflexos.

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Ontem recuperei os meus discos. V. pediu-me música africana. Pus as Mandé Variations. Toumani Diabaté toca Kora como se tocasse coração. Não é um jogo de palavras - seria péssimo se fosse.

A comoção é um delta ao contrário,  um delta  com muitos braços pelos quais os sentimentos entram antes de chegar a este rio que eu sou.

3.11.15

Diário de Bordos - Colon, Panamá, 02-11-2015 / II

Em Colon há um louco no céu com umas tampas enormes que ele mexe de forma aleatória. Excepto talvez a da manhã e a da noite: está escuro, escuro de breu. Qualquer coisa se passa lá em cima e está dia. Como o vento é nulo e a humidade altíssima a luz é ainda mais densa e alaranjada de que a de Lisboa. Tudo fica com um relevo muito marcado, quase surpreendente, como quando estamos a ver um filme em três D sem os óculos e depois os pomos. Ou então ao contrário: é dia, alguém mexe uma tampa e fica noite.

De súbito uma outra tampa mexe-se e desata a chover. A tampa volta e com ela o sol. E assim de seguida.

Hoje o senhor das tampas do céu (são as minhas favoritas; das terrenas já tenho que chegue) estava particularmente animado: num quarteirão chovia a rodos e três ruas ao lado estava um sol de verão algarvio; mais quatro ruas e chovia; mais duas e o sol ficava insuportável de quente. Foi assim até às eclusas, momento em que tudo ficou solenemente cinzento.

Agora chove a potes. O barbecue do Joachim vai ser adiado de novo, aposto.

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"A susceptibilidade é a saudade daquela batalha que ainda não ganhámos", diz-me T. Que descrição tão perfeita da susceptibilidade, tão peganhenta como a saudade e tão estúpida (às vezes) como as derrotas (algumas).

Ontem tive um acesso dela. Espero que a saudade se vá e a batalha não termine por uma derrota.

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Com um bocadinho de sorte largo amanhã. Com a habitual largo quarta. Primeiro vou a Bocas buscar as coisas que ainda lá tenho e depois rumo a St. Maarten. Vai ser bom. Quinze dias de mar numa embarcação soberba com uma boa, se bem inexperiente tripulante.

As qualidades humanas são mais importantes do que a experiência: esta adquire-se; aquelas não, a partir de certa altura.

2.11.15

Diário de Bordos - Colon, Panamá, 02-11-2015

A Marina de Shelter Bay continua a borrada que sempre foi; está só ligeiramente pior. Surpreendente, quando se pensa na pouca entropia de que aquilo precisa para ficar muito pior.

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Mil e cem milhas num X-50 com dez anos e super bem mantido (à bolina, é certo. Mas não se pode ter tudo), com uma tripulante que até agora tem superado todas as minhas expectativas, trabalho em perspectiva logo a seguir.

Se há dois anos alguém me dissesse que um dia estaria nesta situação tê-lo-ia mandado dar uma volta ao bilhar grande, pentear macacos ou pelo menos não gozar com a miséria alheia.

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Novembro é o mês das independências do Panamá. "Temos três", diz o senhor do hostel a uma jovem francesa, num inglês impecável. "Uma de Espanha, outra da Colômbia..." Olho para ele. Sei que vai dizer "e outra dos Estados Unidos" mas pára a tempo. "Enfim,  duas".

As independências do Panamá  (e a dos outros países latino-americanos, de resto) não é tema que se possa tratar pelas teclas virtuais do meu telefone, muito menos inteligente do que a maioria das pessoas diz.

Mas é um tema interessante e já aqui aconselhei duas leituras particularmente úteis: o Manual do perfeito imbecil sul-americano e Do bom selvagem ao bom revolucionário.

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Despedi-me de Lisboa em grande: desci a avenida da Liberdade a toda a liberdade, fui ao Chiado, ao Rossio, almocei na Merendinha do Arco, louvado seja Deus. Não há ateísmo que resista àquela feijoada, àqueles torresmos, àquela aguardente. Fui ao Terreiro do Paço, tirei fotografias com o telefone no Cais das Colunas, voltei para casa pela Almirante Reis. Jantei no Tambarina e bebi um copo no Viagem.

Uma minúscula fracção de Lisboa e já a alma se satisfaz.

Reverência (ou inveja?)

Há uma quantidade admirável de pessoas a querer escrever livros em vez de os ler.