Aproveitei uma receita que vi recentemente na net: hamburgers de beringela. Sou avesso a comida sem carne ou peixe e hamburgers de beringelas é à partida demasiado oximórico para o meu gosto. Mas como gosto muito de beringela li a receita; e como levava gengibre e cominhos experimentei-a.
É uma delícia, uma simples e absoluta delícia. Consiste em misturar as beringelas (três) ligeiramente cozidas com gengibre rapado, cominhos, pão ralado e ovos e fritar aquilo como se fossem hamburgers. Não fiz vários. Fiz só um, grande.
Entretanto no forno tinha posto uma série de coxas de frango previamente marinadas em sumo de limão, sal e alho. Por cima cebola e pimento que estava a precisar de ser comido, por baixo azeite e vinho branco. Polvilhei com pimenta e esqueci-me da coisa no fogão. Só me lembrei dela quando as beringelas ficaram prontas.
"Dez em dez", disse-me B. "Delicioso", repetiu G. umas quatro vezes pelo menos. Eu comi pouco, como sempre que acho as coisas demasiado boas para terem sido feitas por mim. Mas que gostei gostei.
........
Amanhã largo. É um momento mágico, este em que se diz e se sabe "amanhã largo". A mente muda para modo largada e de repente estamos no mar. O horizonte reduz-se ao barco: encher os tanques de água, comprar gás não vá o diabo tecê-las, pensar na merda das baterias e em como vou fazer a manobra se ainda houver um bocado de vento, lembrar-me do porto do Funchal (vou sem cartas de pormenor).
Tudo isto em paralelo com a imagem de uma jovem e bonita senhora por quem descobri recentemente uma atracção que tem duas linhas de defesa: é justificada e é correspondida. Amar é bom, de per si. Amar simplesmente, reconhecer em alguém uma série de qualidades que nos levam a amá-la procura um prazer e satisfação que se bastam a si próprios. Quando esse sentimento é correspondido as coisas mudam, claro. De repente deixamos de ser uma dúvida; ou mudamos de dúvida.
E a dúvida que ser amado suscita é melhor do que a de amar só. Trata-se de trocar dúvidas, mas trocamos uma simples por uma complexa e a complexidade é sempre melhor do que a simplicidade, pelo menos para as mentes simples como a minha.
........
Seiscentas milhas até ao Funchal. Nada. Depois são duas mil e seiscentas até St. Martin e mil e cem mais até Shelter Bay. Devia reconhecer que esta viagem só me entusiasma verdadeiramente a partir do Pacífico. Até lá é tudo conhecido.
Não reconheço. O conhecido também é bom; pelo menos tão bom como o que não conhecemos.
..........
O vento caiu bastante. Ainda está frio, mas menos. Em breve estarei de calçõs e t-shirt. Quem me dera que o raio do planeta aquecesse de uma vez por todas...
28.2.16
27.2.16
Injustiça global
Nada tenho contra o aquecimento global. Antes muito pelo contrário: que a Terra aqueça é o meu maior desejo. Só há uma coisa que lhe critico: é que onde quer que eu esteja está um frio do caraças. Ora se o aquecimento é global isto é injusto, não é? Quero dizer, devia estar calor em todo o lado e não só onde eu não estou.
26.2.16
Diário de Bordos - La Linea, Espanha, 26-02-2016
Vento e frio outra vez. Trinta e cinco nós na marina. A única coisa que me apetece dizer é "Porra! Estou farto". E digo-o, aos altos berros no silêncio da minha cabeça: "Porra! Porra! Porra! Estou farto!"
Ninguém me ouve, claro. De qualquer forma seria inútil ir gritar para o convés ou o pontão. Ser ouvido não resolve nada, nestas circunstâncias. Noutras sim, às vezes. Mas reclamar contra o vento e a chuva e o frio não. Nunca funciona.
De maneira olha, vou fazer um cozido andaluz. Vou não, já estou a fazer. Um belíssimo naco de carne de guisar, um outro de toucinho - mas só a gordura, nada mais - um chouriço espanhol e mais meia dúzia de coisas que Pepe, o dono do talho Pepe à calle Clavel me vendeu hoje, juntamente com uns torresmos divinos e umas pastillas marroquinas que os tripulantes já provaram e dizem ser da mesma ordem dos chicharrones. Não sei. A minha está a aquecer agora; daqui a dez minutos saberei.
E depois vai ser cama cedo, que a noite de ontem cumpriu. Tapas na Bodeguya (Calle San Pablo 3) e copos no Bodegón Antoñito (Doctor Villar, 17). Com o que já tínhamos bebido a bordo o quadro ficou bem composto, e nós ao contrário.
........
De qualquer forma domingo largamos. Até ao Funchal a máquina tem tempo de recuperar. E depois três semanas até St. Martin. E depois mais uma até ao Panamá. Desta vez o soma não se pode queixar. Vai estar muito tempo a água.
..........
O badanal piora e a pastilla estava uma delícia. Dupla confirmação, mas de sentidos opostos. Uma boa e outra que só dá vontade de gritar "Porra! Estou farto!"
........
A rede na marina é um nojo. A dobrar: péssima e cara. Quando é que os espanhóis perceberão que para uma marina não ter net é como não ter água ou electricidade?
Ninguém me ouve, claro. De qualquer forma seria inútil ir gritar para o convés ou o pontão. Ser ouvido não resolve nada, nestas circunstâncias. Noutras sim, às vezes. Mas reclamar contra o vento e a chuva e o frio não. Nunca funciona.
De maneira olha, vou fazer um cozido andaluz. Vou não, já estou a fazer. Um belíssimo naco de carne de guisar, um outro de toucinho - mas só a gordura, nada mais - um chouriço espanhol e mais meia dúzia de coisas que Pepe, o dono do talho Pepe à calle Clavel me vendeu hoje, juntamente com uns torresmos divinos e umas pastillas marroquinas que os tripulantes já provaram e dizem ser da mesma ordem dos chicharrones. Não sei. A minha está a aquecer agora; daqui a dez minutos saberei.
E depois vai ser cama cedo, que a noite de ontem cumpriu. Tapas na Bodeguya (Calle San Pablo 3) e copos no Bodegón Antoñito (Doctor Villar, 17). Com o que já tínhamos bebido a bordo o quadro ficou bem composto, e nós ao contrário.
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De qualquer forma domingo largamos. Até ao Funchal a máquina tem tempo de recuperar. E depois três semanas até St. Martin. E depois mais uma até ao Panamá. Desta vez o soma não se pode queixar. Vai estar muito tempo a água.
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O badanal piora e a pastilla estava uma delícia. Dupla confirmação, mas de sentidos opostos. Uma boa e outra que só dá vontade de gritar "Porra! Estou farto!"
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A rede na marina é um nojo. A dobrar: péssima e cara. Quando é que os espanhóis perceberão que para uma marina não ter net é como não ter água ou electricidade?
25.2.16
Sentido, sentidos
De repente a vida volta a fazer sentido. Esse sentido tem um nome, uma cara, um sorriso e uns cabelos muito bonitos.
Ou seja: a vida tem sentidos.
Ou seja: a vida tem sentidos.
Cartas de amor, vida
Um dia não farei nada se não escrever cartas de amor. Não das ridículas, como o outro. Refiro-me a cartas de amor sérias, profundas, escritas a duas mãos: uma a do cérebro outra a do coração. (Andam sempre juntas, eu sei. Aqui fica uma primeira pequena entorse ao meu desideratum).
Enfim, tão pouco sei se cartas é correcto. Serão todas para a mesma pessoa. Talvez no fundo não passe de uma só.
Com muitos capítulos, como se fosse uma vida.
Enfim, tão pouco sei se cartas é correcto. Serão todas para a mesma pessoa. Talvez no fundo não passe de uma só.
Com muitos capítulos, como se fosse uma vida.
24.2.16
Diário de Bordos - La Linea de la Concepción, Espanha, 24-02-2016
La Linea fica do outro lado de Gibraltar. Nunca tive muita vontade de a conhecer até que em Agosto do ano passado naveguei com um armador que aqui passou dois ou três anos. Disse-me que era encantadora e devia visitá-la aquando da minha próxima pasagem por Gibraltar.
A cidade é assustadora de feia. Mas é uma fealdade estranha. J., malagueña, diz-me "la ciudad es fea pero la gente graciosa y además barata". Tem a razão toda. As pessoas são simpáticas, a vida barata e boa. Ontem perguntei já não sei a quem onde me sugeria que fosse comer e a resposta foi "a qualquer lado. São todos bons". Depois lá me disse "Ah, espera, vai à Bodeguiya", conselho que segui. Mas podia ter seguido o primeiro, realmente.
........
C. já encontrou tripulantes. Chegam amanhã. Estava a preparar-me para largar sexta-feira - não há muita margem para superstições - mas se as previsões se mantiverem não saio antes de sábado.
Que nojo sinto daquelas duas coisas que desembarcaram! Prefiro quem me chama filho da puta pela frente a quem diz "aquele gajo é ligeiramente chato" pelas costas.
........
Isto dito, o frio continua. Voltou. Se me apanho a) fora do Mediterrâneo e b) a menos de 23º27' de latitude nem acredito. Que sejam vinte e cinco graus, vá. O suficiente para poder navegar de calções à noite.
........
E se me apanho em Lisboa e com a possibilidade de lá ficar dois ou três pares de meses ainda acredito menos.
A cidade é assustadora de feia. Mas é uma fealdade estranha. J., malagueña, diz-me "la ciudad es fea pero la gente graciosa y además barata". Tem a razão toda. As pessoas são simpáticas, a vida barata e boa. Ontem perguntei já não sei a quem onde me sugeria que fosse comer e a resposta foi "a qualquer lado. São todos bons". Depois lá me disse "Ah, espera, vai à Bodeguiya", conselho que segui. Mas podia ter seguido o primeiro, realmente.
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C. já encontrou tripulantes. Chegam amanhã. Estava a preparar-me para largar sexta-feira - não há muita margem para superstições - mas se as previsões se mantiverem não saio antes de sábado.
Que nojo sinto daquelas duas coisas que desembarcaram! Prefiro quem me chama filho da puta pela frente a quem diz "aquele gajo é ligeiramente chato" pelas costas.
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Isto dito, o frio continua. Voltou. Se me apanho a) fora do Mediterrâneo e b) a menos de 23º27' de latitude nem acredito. Que sejam vinte e cinco graus, vá. O suficiente para poder navegar de calções à noite.
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E se me apanho em Lisboa e com a possibilidade de lá ficar dois ou três pares de meses ainda acredito menos.
22.2.16
Diário de Bordos - Gibraltar, Reino Unido, 22-02-2016
O termo português é hipócrita. Prefiro o francês faux-cul. Não é só por gostar de cul, é porque me parece mais honesto, verdadeiro, descritivo. Prefiro que me chamem filho da puta pela frente a chato pelas costas.
Hoje estava a preparar a largada e a tripulação decidiu que não seguia. Desembarcava. Não se sentiam em confiança comigo. Por mim tudo bem, mas há dois dias fomos jantar todos juntos para termos uma conversa e só me falaram da tempestade. Não disseram nada sobre o monte de coisas que puseram no mail para a agência. Coisas patetas a maioria, patéticas algumas e (reconhecidamente poucas) falsas o resto.
Passei um dia horrível. Havia três hipóteses: ou a agência nos desembarcava a todos, ou a mim ou a eles. Tive sorte. Fui eu que fiquei (não foi só sorte. C. interrogou pelo menos alguns dos tripulantes com quem naveguei noutros transportes para ele).
Mas ainda estou furioso. Sei lidar com tempestades, com avarias, com a maioria das coisas que podem acontecer numa embarcação de vela (ou a motor, já agora). Mas não sei lidar com a cobardia, com a falta de hombridade, com a mentira.
Não-pessoas. Não-entidades. Não-seres. Desembarquei-os sem um adeus sequer. Fora. Prefiro a merda ao cheiro a merda.
O pior é que tenho de ficar aqui à espera de tripulação nova. E "aqui" nem sequer é Gibraltar, o que já seria mau. Amanhã vou fundear para La Linea, para poupar massa ao armador.
........
Gibraltar é uma cidade inglesa, mas os gibraltinos são árabes que falam inglês.
........
Tudo indica que as minhas palavras encontraram, finalmente, um porto. Onde elas estão estou eu. Onde elas ficarem eu fico, para sempre.
Hoje estava a preparar a largada e a tripulação decidiu que não seguia. Desembarcava. Não se sentiam em confiança comigo. Por mim tudo bem, mas há dois dias fomos jantar todos juntos para termos uma conversa e só me falaram da tempestade. Não disseram nada sobre o monte de coisas que puseram no mail para a agência. Coisas patetas a maioria, patéticas algumas e (reconhecidamente poucas) falsas o resto.
Passei um dia horrível. Havia três hipóteses: ou a agência nos desembarcava a todos, ou a mim ou a eles. Tive sorte. Fui eu que fiquei (não foi só sorte. C. interrogou pelo menos alguns dos tripulantes com quem naveguei noutros transportes para ele).
Mas ainda estou furioso. Sei lidar com tempestades, com avarias, com a maioria das coisas que podem acontecer numa embarcação de vela (ou a motor, já agora). Mas não sei lidar com a cobardia, com a falta de hombridade, com a mentira.
Não-pessoas. Não-entidades. Não-seres. Desembarquei-os sem um adeus sequer. Fora. Prefiro a merda ao cheiro a merda.
O pior é que tenho de ficar aqui à espera de tripulação nova. E "aqui" nem sequer é Gibraltar, o que já seria mau. Amanhã vou fundear para La Linea, para poupar massa ao armador.
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Gibraltar é uma cidade inglesa, mas os gibraltinos são árabes que falam inglês.
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Tudo indica que as minhas palavras encontraram, finalmente, um porto. Onde elas estão estou eu. Onde elas ficarem eu fico, para sempre.
20.2.16
No mar, 16-02 a 18-02-2016; Gibraltar, Reino Unido, 20-02-2016
A cama leva dez minutos a aquecer. Ou mais. Não sei, é uma estimativa. A verdade é que adormeci ainda com os pés gelados. Aqueceram depois, enquanto dormia.
Noite linda, sem uma única núvem. A visibilidade é tão boa que vi a Lua a pôr-se por cima de Ibiza como se fosse um candeeiro enorme; ou um cíclope a olhar-nos com o seu olho gigante e triste.
O vento caiu um bocadinho e está ponteiro. Logo à tarde vai subir para cinco ou seis. É só um dia. Depois vai ser sempre de popa ou través. Estou espantado com o grau de fiabilidade das previsões. Desde Atenas que o Passage Weather tem acertado, não digo à hora mas quase.
Agora passo à frente de Cartagena. Há um aviso de tempestade para amanhã mas é de popa e não páro.
........
Pois devia ter parado. À próxima já sei. Que arraial de pancada levei! Trinta a quarenta nós de vento, vagas de quatro metros, o S. B. quase ingovernável apesar de vir com um lenço de assoar à proa e mais nada (e mesmo assim vínhamos a fazer seis, sete, oito nós). Mais uma caterva de horas de leme (quatro, Não me posso queixar).
Posso: tenho tripulantes mas não tenho marinheiros. Dois pedaços de coisa sentados no cockpit porque não podiam dormir, aterrorizados, passivos, a quem é preciso dizer tudo.
Passageiros.
........
O Mediterrâneo fez finalmente jus à sua reputação. Puta que a pariu, a reputação. Vagas curtíssimas, altas, mar pela alheta, Uma noite em branco. E chegado a Gib em vez de ir dormir tive de ir procurar material eléctrico porque não tenho uma única porra de luz de navegação que acenda. Não havia músculo que não me doesse. O Sheppard's estava fechado, felizmente. Fui ao outro, menos ship e mais chandler. E mais longe, claro.
Só depois fui dormir.
........
Por muito bom que seja estar calado, no mar ou sozinho as palavras, como os barcos e as pessoas precisam de um porto que as acolha.
........
Em Gibraltar até segunda-feira. Merda. Só vejo uma vantagem: amanhã vou jantar ao Tamid, o restaurante judeu da cidade. É o único pelo qual vale a pena parar.
Noite linda, sem uma única núvem. A visibilidade é tão boa que vi a Lua a pôr-se por cima de Ibiza como se fosse um candeeiro enorme; ou um cíclope a olhar-nos com o seu olho gigante e triste.
O vento caiu um bocadinho e está ponteiro. Logo à tarde vai subir para cinco ou seis. É só um dia. Depois vai ser sempre de popa ou través. Estou espantado com o grau de fiabilidade das previsões. Desde Atenas que o Passage Weather tem acertado, não digo à hora mas quase.
Agora passo à frente de Cartagena. Há um aviso de tempestade para amanhã mas é de popa e não páro.
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Pois devia ter parado. À próxima já sei. Que arraial de pancada levei! Trinta a quarenta nós de vento, vagas de quatro metros, o S. B. quase ingovernável apesar de vir com um lenço de assoar à proa e mais nada (e mesmo assim vínhamos a fazer seis, sete, oito nós). Mais uma caterva de horas de leme (quatro, Não me posso queixar).
Posso: tenho tripulantes mas não tenho marinheiros. Dois pedaços de coisa sentados no cockpit porque não podiam dormir, aterrorizados, passivos, a quem é preciso dizer tudo.
Passageiros.
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O Mediterrâneo fez finalmente jus à sua reputação. Puta que a pariu, a reputação. Vagas curtíssimas, altas, mar pela alheta, Uma noite em branco. E chegado a Gib em vez de ir dormir tive de ir procurar material eléctrico porque não tenho uma única porra de luz de navegação que acenda. Não havia músculo que não me doesse. O Sheppard's estava fechado, felizmente. Fui ao outro, menos ship e mais chandler. E mais longe, claro.
Só depois fui dormir.
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Por muito bom que seja estar calado, no mar ou sozinho as palavras, como os barcos e as pessoas precisam de um porto que as acolha.
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Em Gibraltar até segunda-feira. Merda. Só vejo uma vantagem: amanhã vou jantar ao Tamid, o restaurante judeu da cidade. É o único pelo qual vale a pena parar.
16.2.16
Viver e depois
A única coisa que ter vivido muito nos ensina é que ainda não vimos nada; o melhor está para vir.
(Para a P. C.)
(Para a P. C.)
15.2.16
O mar e a vida
Por mais que viva e navegue nunca perceberei como há pessoas que conseguem opor ao mar os miseráveis problemas terrestres. Dinheiro, tempo, merdas assim. Há pessoas que andam no mar e não o entendem, como outras andam pela vida e nada dela percebem.
Só que andar pela vida e não a perceber é aceitável. Ninguém pediu para nascer. Andar no mar e não o merecer é outra história. Devia ser proibido.
(Talvez o Bloco de Esquerda possa fazer alguma coisa, por favor. Proibir de ir ao mar quem não entende o mar)?
Só que andar pela vida e não a perceber é aceitável. Ninguém pediu para nascer. Andar no mar e não o merecer é outra história. Devia ser proibido.
(Talvez o Bloco de Esquerda possa fazer alguma coisa, por favor. Proibir de ir ao mar quem não entende o mar)?
Honorés camarades de l'avenir
"Honorés
camarades qui viendrez après nous !
en fouillant la merde pétrifiée
d’aujourd’hui,
pour étudier les ténèbres de nos jours,
peut-être
demanderez-vous aussi
qui j’étais.
Et peut-être vos savants
vous diront,
coiffant d’érudition
l’essaim des questions,
que vivait jadis
un chantre de l’eau bouillie,
ennemi furieux de l’eau crue.
Professeur,
ôtez vos lunettes-vélos !
Je vais parler moi-même
et du temps
et de moi."
Demorou muitos anos mas encontrei finalmente o poema de Maiakovski de onde vem uma das minhas citções favoritas:
"Honorés camarades de l'avenir
Je vous parlerai du temps et de moi."
Era o título de um evento em La Chaux-de-Fonds dedicado ao poeta russo, comido pela "revolução" (entre aspas).
Levei muitos anos a encontrar isto. Tudo o que é importante leva muitos anos.
camarades qui viendrez après nous !
en fouillant la merde pétrifiée
d’aujourd’hui,
pour étudier les ténèbres de nos jours,
peut-être
demanderez-vous aussi
qui j’étais.
Et peut-être vos savants
vous diront,
coiffant d’érudition
l’essaim des questions,
que vivait jadis
un chantre de l’eau bouillie,
ennemi furieux de l’eau crue.
Professeur,
ôtez vos lunettes-vélos !
Je vais parler moi-même
et du temps
et de moi."
Demorou muitos anos mas encontrei finalmente o poema de Maiakovski de onde vem uma das minhas citções favoritas:
"Honorés camarades de l'avenir
Je vous parlerai du temps et de moi."
Era o título de um evento em La Chaux-de-Fonds dedicado ao poeta russo, comido pela "revolução" (entre aspas).
Levei muitos anos a encontrar isto. Tudo o que é importante leva muitos anos.
Diário de Bordos - Palma de Mallorca, Baleares, Espanha, 15-02-2016
Amanhã vou-me embora. Ansiava por este momento e, como sempre, pergunto-me como quero parar, se a cada partida fico assim. A resposta é fácil: em primeiro lugar não quero parar completamente de navegar. Quero diminuir. E por outro quero fazer coisas de que gosto e me preenchem tanto como navegar, de maneira estar em terra não vai ser difícil. Vai ser tão bom como estar no mar, só que menos.
.........
O mau tempo passou. Hoje à tarde quando me levantei o céu era uma mistura de azul quase todo e ao longe o caos nebuloso da perturbação que andou por aqui estes dias. Amanhã vai ser motor de novo até ao cabo Nao. A seguir teremos vento - primeiro contra e depois a favor -.
Se a previsão se confirmar passamos Gibraltar com um levante de 30 nós. Não posso esperar. Sete ou oito dias até ao Funchal. Jurei a mim mesmo que nunca mais passaria o estreito com vento contra e tenciono respeitar essa promessa.
.......
Alguém me faz ver que tenho mais defesas do que uma manada de elefantes. Tenho pensado muito nisso. E algo me diz que vou continuar a pensar...
........
Vou com a tripulação jantar ao Molta Barra. Tentei lá ir uma vez mas estava demasiado cheio. A próxima vez que vier a Palma estou pronto para descobrir novas moradas. Esta ainda foi um pouco romaria: Antiquari, 5ª Puñeta, Café Verde, Indico... E El Puente, claro, que não conhecia mas ficou da família.
........
E é isto. E é muito. Cada dia mais e melhor. A minha mente já está do lado de lá do canal do Panamá. Anda sempre à frente ou atrás. Um dia vai aprender a andar ao lado, que também é bom.
.........
O mau tempo passou. Hoje à tarde quando me levantei o céu era uma mistura de azul quase todo e ao longe o caos nebuloso da perturbação que andou por aqui estes dias. Amanhã vai ser motor de novo até ao cabo Nao. A seguir teremos vento - primeiro contra e depois a favor -.
Se a previsão se confirmar passamos Gibraltar com um levante de 30 nós. Não posso esperar. Sete ou oito dias até ao Funchal. Jurei a mim mesmo que nunca mais passaria o estreito com vento contra e tenciono respeitar essa promessa.
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Alguém me faz ver que tenho mais defesas do que uma manada de elefantes. Tenho pensado muito nisso. E algo me diz que vou continuar a pensar...
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Vou com a tripulação jantar ao Molta Barra. Tentei lá ir uma vez mas estava demasiado cheio. A próxima vez que vier a Palma estou pronto para descobrir novas moradas. Esta ainda foi um pouco romaria: Antiquari, 5ª Puñeta, Café Verde, Indico... E El Puente, claro, que não conhecia mas ficou da família.
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E é isto. E é muito. Cada dia mais e melhor. A minha mente já está do lado de lá do canal do Panamá. Anda sempre à frente ou atrás. Um dia vai aprender a andar ao lado, que também é bom.
14.2.16
Diário de Bordos - Palma de Mallorca, Baleares, Espanha, 14-02-2016
Estou em Palma, com uma bicicleta há quase duas semanas. Para os ciclistas há coisas estranhas nesta cidade. Por exemplo: as pessoas não andam nas ciclovias. Andam nos passeios e deixam as ciclovias para as bicicletas. Já o oposto não é verdade: toda a gente acha normal que as bicicletas circulem pelos passeios. É banal, por exemplo, pedir uma informação e responderem-nos "vais por ali, viras à esquerda - mas atenção, é contra-mão. Tens de ir pelo passeio" - ... Outra coisa da qual se sente a falta, horrivelmente: as buzinadelas. Não se houve uma, seja por que razão for. Hoje por exemplo entrei por engano numa estrada com três faixas onde os automóveis andam depressa e ninguém buzinou. Deixaram-me ir para a direita calmamente. Também não há automóveis estacionados no passeio. Suponho que os condutores de Palma vêm de outro planeta, um planeta diferente dos de Lisboa.
Deus sabe que eu quero voltar para Portugal. Mas seria tão bom se durante esta curta ausência um anjo descesse sobre a cabeça dos nossos automobilistas; ou uma pomba, vá. E lhes instilasse meia dúzia de regras de civilização.
Claro que também se poderia esperar que a polícia fizesse o seu trabalho. Mas isso seria pedir o impossível. Temos mais probabilidades de sucesso recorrendo a anjos, pombas e milagres.
.........
Dizem os médicos que um bom diagnóstico é metade da cura. Ou mais, não me lembro do pormenor. Infelizmente um bom diagnóstico talvez seja necessário, mas não suficiente. Ou então é o médico que não serve. Vá saber-se.
Entre o diagnóstico e a cura há um abismo, essa é que é essa. E nem todos os médicos o conseguem saltar.
Deus sabe que eu quero voltar para Portugal. Mas seria tão bom se durante esta curta ausência um anjo descesse sobre a cabeça dos nossos automobilistas; ou uma pomba, vá. E lhes instilasse meia dúzia de regras de civilização.
Claro que também se poderia esperar que a polícia fizesse o seu trabalho. Mas isso seria pedir o impossível. Temos mais probabilidades de sucesso recorrendo a anjos, pombas e milagres.
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Dizem os médicos que um bom diagnóstico é metade da cura. Ou mais, não me lembro do pormenor. Infelizmente um bom diagnóstico talvez seja necessário, mas não suficiente. Ou então é o médico que não serve. Vá saber-se.
Entre o diagnóstico e a cura há um abismo, essa é que é essa. E nem todos os médicos o conseguem saltar.
Qualquer coisa, coisa qualquer
A ideia de partida é simples: pega-se numa tigela e enche-se-la de qualquer coisa. Corrijo: não de qualquer coisa mas de uma coisa qualquer que a) se desfaça com o calor, b) não seja demasiado cara, c) seja amarelada e d) não suje demasiado a camisa e ou as calças do experimentador uma vez a experiência terminada.
Manteiga foi a primeira coisa que me ocorreu, mas suponho que margarina, natas (apesar da cor) ou outra coisa qualquer; qualquer coisa servirá. Depois aquece-se uma faca e corta-se a coisa qualquer com a qual se encheu a tigela. Há-de cortar-se miudinho, em fatias muito pequenas, quase transparentes, de modo a que se possa ver qualquer coisa através delas. É preciso segurar a manteiga (ou a outra coisa qualquer) entre os dedos, não a deixar esmagar-se no chão, qualquer coisa pode acontecer, sei lá, alguém escorregar. Por exemplo.
Qualquer coisa há-de acontecer, uma coisa qualquer. O resultado da experiência é aleatório. Repare-se que caso se tenha escolhido encher a tigela com solidão amarela o resultado pode ser diferente. Já a solidão azul dará resultados coerentes.
Manteiga foi a primeira coisa que me ocorreu, mas suponho que margarina, natas (apesar da cor) ou outra coisa qualquer; qualquer coisa servirá. Depois aquece-se uma faca e corta-se a coisa qualquer com a qual se encheu a tigela. Há-de cortar-se miudinho, em fatias muito pequenas, quase transparentes, de modo a que se possa ver qualquer coisa através delas. É preciso segurar a manteiga (ou a outra coisa qualquer) entre os dedos, não a deixar esmagar-se no chão, qualquer coisa pode acontecer, sei lá, alguém escorregar. Por exemplo.
Qualquer coisa há-de acontecer, uma coisa qualquer. O resultado da experiência é aleatório. Repare-se que caso se tenha escolhido encher a tigela com solidão amarela o resultado pode ser diferente. Já a solidão azul dará resultados coerentes.
13.2.16
Diário de Bordos - Palma de Mallorca, Baleares, Espanha, 13-02-2016 / II
Dia estúpido. Parece que estou colado ao monitor do tablet. Acabo numa tasca mexicana a comer tacos e a beber uma Margarita. A cidade está animada, cheia de vida. A temperatura subiu - à ida tive de tirar a polar e o blusão que aqui comprei há uns dias -.
Não há dias estúpidos. Acabo de receber um mail de H. R., que conheci há seis anos em La Rochelle (ou mais. A última vez que estive em La Rochelle deve ter sido em 2007 ou 8). Diz-me que vem a Lisboa e gostaria de me ver. Quem falou em dia estúpido? Não estarei, claro. Em Abril devo estar - coincidência - em pleno México. Mas que prazer me dá. Foi uma pessoa que me marcou bastante, uma personalidade incrível, forte, aventureira, segura de si.
Não há dias estúpidos quando se tem uma vida cheia, parvalhão.
.........
De modo a Margarita ganhou um s no fim e eu um sorriso (tanto mais que são baratíssimas). Vou retomar o meu caminho de bordo mais leve. Se não fosse o raio do tablet não teria recebido o mail agora. Talvez isto não passe de uma máquina de nos ligar ao passado.
........
Vêm-me à mente os versos de Reinaldo Ferreira: "Voa cavalo, galopa mais / rumo àquele ponto / exterior ao mundo / para onde tendem as catedrais". E logo a seguir a canção de Geraldo Vandré: "Vem, vamos embora, que esperar não é saber / Quem sabe faz a hora, não espera acontecer". tenho passado a vida a galopar, nunca esperei que alguém fizesse a hora por mim.
De onde me vem esta insatisfação permanente, esta ideia de que amanhã será melhor do que hoje, quando hoje já é tão bom (pelo menos agora. Antes foi uma seca)?
Penso no ano de 2009, o ano do Mares Olhares; 94, quando fui para o Burundi; 83, quando apanhei o ciclone no Atlântico; os anos em que nasceram os meus filhos; o ano em que comecei uma empresa de charter nos Açores; o ano cheguei ao Brasil pela primeira vez (76, meu Deus. 76!); o ano em que fiz uma viagem inesquecível pelo norte de Moçambique com uma equipe de televisão inglesa. Podia pensar em tantos, tantos anos... Tudo por causa de um e-mail de uma senhora que não vejo há meia dúzia de anos e conheci meia dúzia de dias.
De repente a melancolia transforma-se numa coisa mais fácil, mais leve, com menos sílabas.
Um dia páro. juro. Não de encontrar pessoas apaixonantes, mas de me lembrar delas.
Não há dias estúpidos. Acabo de receber um mail de H. R., que conheci há seis anos em La Rochelle (ou mais. A última vez que estive em La Rochelle deve ter sido em 2007 ou 8). Diz-me que vem a Lisboa e gostaria de me ver. Quem falou em dia estúpido? Não estarei, claro. Em Abril devo estar - coincidência - em pleno México. Mas que prazer me dá. Foi uma pessoa que me marcou bastante, uma personalidade incrível, forte, aventureira, segura de si.
Não há dias estúpidos quando se tem uma vida cheia, parvalhão.
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De modo a Margarita ganhou um s no fim e eu um sorriso (tanto mais que são baratíssimas). Vou retomar o meu caminho de bordo mais leve. Se não fosse o raio do tablet não teria recebido o mail agora. Talvez isto não passe de uma máquina de nos ligar ao passado.
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Vêm-me à mente os versos de Reinaldo Ferreira: "Voa cavalo, galopa mais / rumo àquele ponto / exterior ao mundo / para onde tendem as catedrais". E logo a seguir a canção de Geraldo Vandré: "Vem, vamos embora, que esperar não é saber / Quem sabe faz a hora, não espera acontecer". tenho passado a vida a galopar, nunca esperei que alguém fizesse a hora por mim.
De onde me vem esta insatisfação permanente, esta ideia de que amanhã será melhor do que hoje, quando hoje já é tão bom (pelo menos agora. Antes foi uma seca)?
Penso no ano de 2009, o ano do Mares Olhares; 94, quando fui para o Burundi; 83, quando apanhei o ciclone no Atlântico; os anos em que nasceram os meus filhos; o ano em que comecei uma empresa de charter nos Açores; o ano cheguei ao Brasil pela primeira vez (76, meu Deus. 76!); o ano em que fiz uma viagem inesquecível pelo norte de Moçambique com uma equipe de televisão inglesa. Podia pensar em tantos, tantos anos... Tudo por causa de um e-mail de uma senhora que não vejo há meia dúzia de anos e conheci meia dúzia de dias.
De repente a melancolia transforma-se numa coisa mais fácil, mais leve, com menos sílabas.
Um dia páro. juro. Não de encontrar pessoas apaixonantes, mas de me lembrar delas.
Diário de Bordos - Palma de Mallorca, Baleares, Espanha, 13-02-2016
Ontem fui à livraria Biblioteca de Babel ouvir uma leitura de cartas de amor. Sessenta pessoas (a sessão era gratuita). A qualidade - do músico, dos leitores (dois, uma senhora para as cartas femininas e um homem para as masculinas), da selecção de cartas - altíssima.
Na véspera fui ver 45 Years, com Charlotte Rampling. Uma história simples e superiormente contada, com interpretações dos dois actores principais à altura.
Palma não substitui Lisboa - nada nunca substituirá - mas deve ser a cidade no mundo que mais se aproxima.
........
Hoje é o último dia de trabalhos a bordo. Agora é só esperar uma janela meteorológica. Em princípio terça largo.
........
Duas inscrições confirmadas para a Escócia!
.........
Mudar de óculos começa a ser urgente e vai ter de esperar até Los Angeles. O mar é um grande definidor de urgência.
Na véspera fui ver 45 Years, com Charlotte Rampling. Uma história simples e superiormente contada, com interpretações dos dois actores principais à altura.
Palma não substitui Lisboa - nada nunca substituirá - mas deve ser a cidade no mundo que mais se aproxima.
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Hoje é o último dia de trabalhos a bordo. Agora é só esperar uma janela meteorológica. Em princípio terça largo.
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Duas inscrições confirmadas para a Escócia!
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Mudar de óculos começa a ser urgente e vai ter de esperar até Los Angeles. O mar é um grande definidor de urgência.
11.2.16
Diário de Bordos - Palma de Mallorca, Baleares, Espanha,11-02-2016 / II
No outro dia procurei-o e não o encontrei; hoje encontrei-o sem o procurar. Podia ser um desses já estafados koan zen, ou a epígrafe de um melodrama. Nada disso. Trata-se de um pequeno café perto do Mercado de Sta. Catalina. Chama-se, sei agora, Bar Junior. É um daqueles cafés antigos, cuja decoração deve ter a idade dos donos (um casal de setenta e alguns) e cujo "conceito" (entre aspas porque aposto que os senhores nunca pensaram sequer ter um "conceito") consiste simplesmente em servir os clientes o melhor possível a um preço que satisfaça ambas as partes.
Hoje comi lá umas almôndegas ("Duas ou três?" "Duas ou três". Vieram três, claro). Deliciosas, enormes - duas teriam chegado para o objectivo, que era dar-me combustível para chegar à 5ª Puñeta - num soberbo molho de tomate, sabia a tomate e a cebola e não tinha cozido demais. Mai-lo um copo de tinto: quatro euros.
¡Venga!
........
O amor foi-se. Ficou-me a bicicleta. Melhor assim do que o contrário: antes sozinho do que apeado.
........
Não largo muito provavelmente antes de terça-feira. Palma acolheu-me generosamente, desta vez. Mas enfim, forçoso é reconhecer que começa a ser tempo de me deixares ir, Palma. Desaperta um pouco, pode ser?
Hoje comi lá umas almôndegas ("Duas ou três?" "Duas ou três". Vieram três, claro). Deliciosas, enormes - duas teriam chegado para o objectivo, que era dar-me combustível para chegar à 5ª Puñeta - num soberbo molho de tomate, sabia a tomate e a cebola e não tinha cozido demais. Mai-lo um copo de tinto: quatro euros.
¡Venga!
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O amor foi-se. Ficou-me a bicicleta. Melhor assim do que o contrário: antes sozinho do que apeado.
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Não largo muito provavelmente antes de terça-feira. Palma acolheu-me generosamente, desta vez. Mas enfim, forçoso é reconhecer que começa a ser tempo de me deixares ir, Palma. Desaperta um pouco, pode ser?
Diário de Bordos - Palma de Mallorca, Baleares, Espanha,11-02-2016
São quase nove da manhã e espero o meu café e croissant matinais. Ando a levantar-me tarde e a chegar tarde ao El Puente, onde todos os dias venho depois do pequeno-almoço a bordo. Bebo um café ou dois, como um croissant e leio os jornais - não os físicos mas os virtuais.
"Jornais" tem um sentido lato: inclui Facebook, Feedly e (hoje) leitura de algumas citações de John Stuart Mill. O debate sobre a eutanãsia parece-me um bocado inútil: Mill deu a resposta:
“The only freedom which deserves the name is that of pursuing our own good in our own way, so long as we do not attempt to deprive others of theirs, or impede their efforts to obtain it. Each is the proper guardian of his own health, whether bodily, or mental or spiritual. Mankind are greater gainers by suffering each other to live as seems good to themselves, than by compelling each to live as seems good to the rest.”
Várias vezes:
“Christian morality (so called) has all the characters of a reaction; it is, in great part, a protest against Paganism. Its ideal is negative rather than positive; passive rather than action; innocence rather than Nobleness; Abstinence from Evil, rather than energetic Pursuit of Good: in its precepts (as has been well said) 'thou shalt not' predominates unduly over 'thou shalt.”
Até que chegou ao ponto definitivo:
"The only part of the conduct of any one, for which he is amenable to society, is that which concerns others. In the part which merely concerns himself, his independence is, of right, absolute. Over himself, over his own body and mind, the individual is sovereign.” (O negrito é meu).
..........
Ir ao café ler os jornais é um hábito antigo. Pensar na eutanásia, numa morte recente que ainda não está completamente digerida e nunca o estará, ver como evoluem as previsões meteorológicas para a semana que vem (bem, obrigado), perguntar-me porque ponho a pata na poça tantas vezes e sempre da mesma maneira ("perguntar-me" é retórica. Sei a resposta. Até a repetição ad nauseam é justificada. Mais ou menos), pensar que está na altura de me ir embora, já passou mesmo a data e perguntar-me se terá feito sentido ter alertado o armador para o plotter são coisas de hoje.
Mudam todos os dias. As únicas coisas que lhes asseguram a permanência são o café e o croissant matinais: a actualidade é uma sucessão de antiguidades, não uma precursão de futuros.
"Jornais" tem um sentido lato: inclui Facebook, Feedly e (hoje) leitura de algumas citações de John Stuart Mill. O debate sobre a eutanãsia parece-me um bocado inútil: Mill deu a resposta:
“The only freedom which deserves the name is that of pursuing our own good in our own way, so long as we do not attempt to deprive others of theirs, or impede their efforts to obtain it. Each is the proper guardian of his own health, whether bodily, or mental or spiritual. Mankind are greater gainers by suffering each other to live as seems good to themselves, than by compelling each to live as seems good to the rest.”
Várias vezes:
“Christian morality (so called) has all the characters of a reaction; it is, in great part, a protest against Paganism. Its ideal is negative rather than positive; passive rather than action; innocence rather than Nobleness; Abstinence from Evil, rather than energetic Pursuit of Good: in its precepts (as has been well said) 'thou shalt not' predominates unduly over 'thou shalt.”
Até que chegou ao ponto definitivo:
"The only part of the conduct of any one, for which he is amenable to society, is that which concerns others. In the part which merely concerns himself, his independence is, of right, absolute. Over himself, over his own body and mind, the individual is sovereign.” (O negrito é meu).
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Ir ao café ler os jornais é um hábito antigo. Pensar na eutanásia, numa morte recente que ainda não está completamente digerida e nunca o estará, ver como evoluem as previsões meteorológicas para a semana que vem (bem, obrigado), perguntar-me porque ponho a pata na poça tantas vezes e sempre da mesma maneira ("perguntar-me" é retórica. Sei a resposta. Até a repetição ad nauseam é justificada. Mais ou menos), pensar que está na altura de me ir embora, já passou mesmo a data e perguntar-me se terá feito sentido ter alertado o armador para o plotter são coisas de hoje.
Mudam todos os dias. As únicas coisas que lhes asseguram a permanência são o café e o croissant matinais: a actualidade é uma sucessão de antiguidades, não uma precursão de futuros.
10.2.16
Geografia doméstica dos cafés
As mulheres com uma espessa cabeleira ruiva, olhos verdes e um sorriso a meio caminho entre o céptico e o franco deviam ser proibidas de sair de casa e sentar-se ao meu lado no Antiquari, um dos poucos sítios no mundo onde se podem escrever disparates destes e encontrar-lhes um sentido.
A geografia tem uma nova linha de clivagem: as cidades que têm um Antiquari e as que não têm.
Lisboa tem, Chama-se Café Tati. Londres e Paris têm imensos. Em Genève há a Ferblanterie, da minha amiga Daisy. S. Luis não tem nenhum café assim. A cidade de Panamá tem o Viejo Habana, mas fica a milhas, é só porque é bonito. Talvez nem deva figurar, não sei. St. Martin tem o Lagoonies. No Porto gosto de um onde fui no outro dia mas cujo nome não recordo. Em Cartagena de Indias frequentava a livraria Ábaco. Nos Açores há o Peter, claro. Em la Coruña também há muitos. Preciso de procurar o nome de um deles. Em Antigua era o Skullduggery, mas não sei se agora que a Sandra já lá não trabalha aquilo está igual. Em San Francisco gostava do Magnolia e do Hi Dive, mas não fiquei lá tempo suficiente para confirmar que estão nesta liga.
(O Hi Dive não está. Se bem me lembro é um bar).
(Os olhos não eram verdes. Eram castanhos).
A geografia tem uma nova linha de clivagem: as cidades que têm um Antiquari e as que não têm.
Lisboa tem, Chama-se Café Tati. Londres e Paris têm imensos. Em Genève há a Ferblanterie, da minha amiga Daisy. S. Luis não tem nenhum café assim. A cidade de Panamá tem o Viejo Habana, mas fica a milhas, é só porque é bonito. Talvez nem deva figurar, não sei. St. Martin tem o Lagoonies. No Porto gosto de um onde fui no outro dia mas cujo nome não recordo. Em Cartagena de Indias frequentava a livraria Ábaco. Nos Açores há o Peter, claro. Em la Coruña também há muitos. Preciso de procurar o nome de um deles. Em Antigua era o Skullduggery, mas não sei se agora que a Sandra já lá não trabalha aquilo está igual. Em San Francisco gostava do Magnolia e do Hi Dive, mas não fiquei lá tempo suficiente para confirmar que estão nesta liga.
(O Hi Dive não está. Se bem me lembro é um bar).
(Os olhos não eram verdes. Eram castanhos).
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