É como se tivesse um elástico amarrado às costas e cada vez que entro num porto esse elástico aperta e impede-me de sair. Aqui no Funchal o elástico foram dois: primeiro o frigorífico e segundo uma maldita carta.
Hoje tudo indica que o último se parte. A carta já está no Funchal, aparentemente. (Digo aparentemente porque não acredito em nada do que o shipchandler onde a comprei diz).
E nós partimos logo que ele se parta, se possível para o Panamá; se não para St. Martin.
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A psico-rigidez é um fenómeno que me apaixona mas não entendo. Quando se manifesta num miúdo de vinte e cinco anos passa definitivamente para o mundo do para-normal; ou das aberrações, não sei bem.
Como funcionam aqueles cérebros, que são o contrário de tudo o que um cérebro deve ser? Cérebros anti-evolucionários...
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Uma equipa de futebol qualquer ganhou um jogo no estrangeiro e - diz a televisão a abrir um telejornal, mais coisa menos coisa - "trezentos adeptos dirigiram-se ao aeroporto para [a] acolher". pelo que percebi eram três e meia da manhã. Amanhã aqueles desses trezentos mentecaptos que têm empregos passarão por heróis nas empresas e organismos onde "trabalham". Entre aspas. Quem trabalha não vai às três e meia da manhã para o aeroporto acolher equipas de futebol.
O pior é que não é só a abrir o telejornal que se fala disso. A coisa continua. Que seca! Felizmente o Facebook tem alguns excelentes disc-jokeys. Viva Bach. Viva o Facebook. Vivam o V. P., o F. C. et al.
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A distância é benéfica para um amor nascente. É um microscópio e um telescópio ao mesmo tempo. A ausência é transparente, a proximidade opaca (ou pelo menos o físico que a proximidade permite é opaco).
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Oito e meia da manhã. O café da marina começa a encher-se com as pessoas que aqui trabalham. São muitas: o Funchal tem inúmeras empresas de day-charter que criam dezenas de empregos. Infelizmente concentram-se todas em baixar os preços, em vez de encontrar forma de os subir.
........
Cavaco Silva foi-se embora e a esquerda, que adora emprenhar pelos ouvidos exulta com Marcelo. Pergunto-me quem será o próximo alvo daquela matilha acéfala. (Passe o pleonasmo...)
10.3.16
7.3.16
Diário de Bordos - Funchal, Madeira, Portugal, 07-03-2016
É sempre assim, não é? E em tudo, não só na área da náutica "de recreio" (entre aspas. É um termo que leva a confusões). Tudo é uma mistura de boas e más notícias; o que varia é a percentagem de umas e outras. Hoje estava tudo a correr bem, melhor, óptimo. Até que resolvemos abrir o compartimento da balsa salva-vidas e vimos que a validade expira em Março. Em termos de segurança não é um problema, de todo. Podia já ter expirado há um ano que estaria tão seguro como estou com aquilo dentro da data. É uma questão de regulação. de filhos da puta que não têm mais nada que fazer se não duvidar das capacidades de outrém.
Sendo, claro, que outrém é quem lá anda. Os fdp ficam-se pelos escritórios.
........
Isto dito esta escala tem sido um prazer desde que acordo até que adormeço. Apesar da ferida no punho - hoje fui mudar o penso e doeu que foi uma coisa estúpida - tudo flui, tudo corre como água num ribeiro tranquilo.
O trabalho está feito a um preço muito, muito abaixo do aceitável, o tempo está óptimo - escrevo este post em t-shirt e calções! - hoje vamos comer uma espetada ao Estreito, as previsões para a próxima travessia muito boas e outras coisas das quais este não é o sítio apropriado para falar.
Ou seja: mais um período que um dia vou ter de pagar (e me vai sair caro) mas de que agora tento usufruir tanto quanto possível.
........
E é isto. Dias felizes têm poucas histórias. A felicidade é difícil de partilhar porque é muito chata.
Para os outros, claro.
Sendo, claro, que outrém é quem lá anda. Os fdp ficam-se pelos escritórios.
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Isto dito esta escala tem sido um prazer desde que acordo até que adormeço. Apesar da ferida no punho - hoje fui mudar o penso e doeu que foi uma coisa estúpida - tudo flui, tudo corre como água num ribeiro tranquilo.
O trabalho está feito a um preço muito, muito abaixo do aceitável, o tempo está óptimo - escrevo este post em t-shirt e calções! - hoje vamos comer uma espetada ao Estreito, as previsões para a próxima travessia muito boas e outras coisas das quais este não é o sítio apropriado para falar.
Ou seja: mais um período que um dia vou ter de pagar (e me vai sair caro) mas de que agora tento usufruir tanto quanto possível.
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E é isto. Dias felizes têm poucas histórias. A felicidade é difícil de partilhar porque é muito chata.
Para os outros, claro.
5.3.16
Diário de Bordos - Funchal, Madeira, 05-03-2016
Não sei por onde começar.
........
Ontem a voltar para bordo escorreguei e abri o pulso esquerdo. Pus-lhe um bocadinho de mercurocromo, uma ligadura e fui dormir. De manhã ao mudar o penso o G. viu aquilo e exigiu que fosse ao hospital. Disse-lhe que sim, claro.
Que se lixe. Meia dúzia de pontos, quase. Que "não tenho cabeça". Que tudo e mais alguma coisa. Vou tirar eu os pontos, no mar. Não é a primeira vez, mas é a primeira que estou farto. Não me apetece voltar a ouvir enfermeiros e médicos contestar a minha maneira de lidar com o meu corpo. Que é meu, recordo; mas não só porque tenho uma tripulação pela qual sou responsável. Até agora temos tido uma relação mais coisa menos coisa harmoniosa, o corpo e eu. Não gosto que terceiros - e ainda por cima terceiros que não posso dispensar - metam o bedelho.
Estou a ponchas e a paracetemol. Podia ser pior.
........
Hoje há um jogo de futebol e a única mesa livre é a que está mesmo por baixo da televisão. Passo os pormenores: só espero que a vela nunca chegue a este nível de atrasadice mental.
Já esteve mais longe, é certo. Mas perceber uma regata exige mais tempo e mais inteligência do que perceber um jogo em que vinte pessoas correm atrás de uma bola e duas tentam pará-la.
........
Não tenho lido e a leitura falta-me. Comprei um livro do Silva Carvalho que foi uma decepção, um do Browne que é demasiado pesado para ler na cama, um de uma escritora açoriana que se lê em meia hora e o Hotel, de varela Gomes que já li e reli. Preciso ou de ir a uma livraria ou de me habituar a ler no computador.
Afinal tenho mais de cem livros no disco rígido externo. ("Disco rígido externo". Três palavras para designar uma coisa pela qual não daria um chavo só de olhar para ela.
Comme quoi les apparences...
........
O futebol é uma coisa muito aborrecida de ouvir, mas na verdade não sei o que é pior: se ouvi-lo se ver as pessoas que o vêem. Estão todas de frente para mim e sinto-me como se estivesse no cinema a ver um documentário sobre a doença mental.
A única diferença é que os períodos de catatonia são muito breves e interrompidos por momentos de agitação irracional intensos, durante os quais os espectadores falam para a televisão e entre eles, indistintamente.
........
Tenho uma instrução de G.: não perder o uso da mão direita. Espero que não. Que seria de mim sem ela?
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Ontem a voltar para bordo escorreguei e abri o pulso esquerdo. Pus-lhe um bocadinho de mercurocromo, uma ligadura e fui dormir. De manhã ao mudar o penso o G. viu aquilo e exigiu que fosse ao hospital. Disse-lhe que sim, claro.
Que se lixe. Meia dúzia de pontos, quase. Que "não tenho cabeça". Que tudo e mais alguma coisa. Vou tirar eu os pontos, no mar. Não é a primeira vez, mas é a primeira que estou farto. Não me apetece voltar a ouvir enfermeiros e médicos contestar a minha maneira de lidar com o meu corpo. Que é meu, recordo; mas não só porque tenho uma tripulação pela qual sou responsável. Até agora temos tido uma relação mais coisa menos coisa harmoniosa, o corpo e eu. Não gosto que terceiros - e ainda por cima terceiros que não posso dispensar - metam o bedelho.
Estou a ponchas e a paracetemol. Podia ser pior.
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Hoje há um jogo de futebol e a única mesa livre é a que está mesmo por baixo da televisão. Passo os pormenores: só espero que a vela nunca chegue a este nível de atrasadice mental.
Já esteve mais longe, é certo. Mas perceber uma regata exige mais tempo e mais inteligência do que perceber um jogo em que vinte pessoas correm atrás de uma bola e duas tentam pará-la.
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Não tenho lido e a leitura falta-me. Comprei um livro do Silva Carvalho que foi uma decepção, um do Browne que é demasiado pesado para ler na cama, um de uma escritora açoriana que se lê em meia hora e o Hotel, de varela Gomes que já li e reli. Preciso ou de ir a uma livraria ou de me habituar a ler no computador.
Afinal tenho mais de cem livros no disco rígido externo. ("Disco rígido externo". Três palavras para designar uma coisa pela qual não daria um chavo só de olhar para ela.
Comme quoi les apparences...
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O futebol é uma coisa muito aborrecida de ouvir, mas na verdade não sei o que é pior: se ouvi-lo se ver as pessoas que o vêem. Estão todas de frente para mim e sinto-me como se estivesse no cinema a ver um documentário sobre a doença mental.
A única diferença é que os períodos de catatonia são muito breves e interrompidos por momentos de agitação irracional intensos, durante os quais os espectadores falam para a televisão e entre eles, indistintamente.
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Tenho uma instrução de G.: não perder o uso da mão direita. Espero que não. Que seria de mim sem ela?
Profundidade, racionalidade
- É preciso olhar para as coisas com profundidade e racionalidade", disse Watts. Estávamos num bar de putas em Gibraltar, um primeiro andar onde há muitos anos ouvi pela primeira vez Steeleye Span e aprendi a equilibrar copos pelo lado errado.
- Não. A profundidade é devastadora para a racionalidade, Watts. Só o sentimento é profundo. A racionalidade espalha-se. O sentimento mergulha.
- Tolice - respondeu. - O sentimento está para a razão como a punheta para uma foda.
Um das putas que estava connosco abanou a cabeça. "Porra! Só a mim é que me calha disto". As putas percebem bastante de amor porque o sabem diferenciar do sexo e nunca se casam. O bar era escuro e grande. Cheirava a cerveja, esperma, suor e calor. Nunca o vi com menos de duzentas pessoas, se é que um soldado bêbedo ou em vias de o estar conta como pessoa. Para mim sim. Havia pelo menos duzentos deles.
Watts é um revoltado. Não me admira: a racionalidade leva à revolta. "É preciso imaginar Sísifo feliz e livre", disse Camus nessa obra sublime e primordial que é o Mito de Sísifo. Só um sentimental percebe isto sem se revoltar.
Provavelmente. Mas pelos outros não falo. Já por mim é penoso que chegue.
- Não. A profundidade é devastadora para a racionalidade, Watts. Só o sentimento é profundo. A racionalidade espalha-se. O sentimento mergulha.
- Tolice - respondeu. - O sentimento está para a razão como a punheta para uma foda.
Um das putas que estava connosco abanou a cabeça. "Porra! Só a mim é que me calha disto". As putas percebem bastante de amor porque o sabem diferenciar do sexo e nunca se casam. O bar era escuro e grande. Cheirava a cerveja, esperma, suor e calor. Nunca o vi com menos de duzentas pessoas, se é que um soldado bêbedo ou em vias de o estar conta como pessoa. Para mim sim. Havia pelo menos duzentos deles.
Watts é um revoltado. Não me admira: a racionalidade leva à revolta. "É preciso imaginar Sísifo feliz e livre", disse Camus nessa obra sublime e primordial que é o Mito de Sísifo. Só um sentimental percebe isto sem se revoltar.
Provavelmente. Mas pelos outros não falo. Já por mim é penoso que chegue.
Diário de Bordos - Funchal, Madeira, 05-03-2016
Cafés pedantes há-os em todo o lado. Este onde agora estou não difere dos outros: música horrível, decoração a condizer, símbolo "wi-fi" à porta, visível e "moderno".
O vinho é horroroso, a wifi lenta, da música não volto a falar, a iluminação execrável.
Verdade seja dita: para fazer o que tenho de fazer (escrever disparates e publicar outros já escritos) está mais ou menos em consonância. A música não é pior do que uma frase minha, coisa que aliás seria difícil; a clientela pouco difere (apesar de mais bonita) e do resto "on s'en fout.
On n'est pas d'ici. Demain on s'en va".
........
É um prazer voltar ao Funchal. Há uma nonchalance nesta cidade que todas as outras deviam invejar. Ou emular, melhor ainda.
........
No mar:
Doze nós de vento pelo través e o SB entra em modo voo. Cinquenta e três milhas em seis horas. [Duzentas e duas foi a conta das vinte e quatro].
Lua em quarto minguante, mar de senhoras. Um bocadinho de frio, claro. Mas nada que umas camadas de roupa não resolvam.
E o mar. Não sei como explicar. Alguém se lembra do líquido amniótico? É parecido sem ser igual e igual sem ter nada que se pareça.
........
"Quem não sabe beber vinho bebe mijo", dizia o meu Pai quando eu chegava a casa visivelmente grosso. Estragou-me bebedeiras durante quase trinta anos, mas quanta razão tinha. Embebedamo-nos para nós e não para que os outros vejam que estamos bêbedos.
........
Os homens magoados deviam aprender a viver sem magoar os outros. É impossível, eu sei. Que graça teria estar magoado sozinho? Seria como estar apaixonado e não ter uma namorada.
........
Se eu fosse Nietzsche escreveria um livro ao qual daria o título de Genealogia do Mau Gosto. Infelizmente não sou. Ele preferiu escavar a moral.
Percebo-o? Não sei. Balanço entre a moral e a estética como um mastro entre duas vagas.
O vinho é horroroso, a wifi lenta, da música não volto a falar, a iluminação execrável.
Verdade seja dita: para fazer o que tenho de fazer (escrever disparates e publicar outros já escritos) está mais ou menos em consonância. A música não é pior do que uma frase minha, coisa que aliás seria difícil; a clientela pouco difere (apesar de mais bonita) e do resto "on s'en fout.
On n'est pas d'ici. Demain on s'en va".
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É um prazer voltar ao Funchal. Há uma nonchalance nesta cidade que todas as outras deviam invejar. Ou emular, melhor ainda.
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No mar:
Doze nós de vento pelo través e o SB entra em modo voo. Cinquenta e três milhas em seis horas. [Duzentas e duas foi a conta das vinte e quatro].
Lua em quarto minguante, mar de senhoras. Um bocadinho de frio, claro. Mas nada que umas camadas de roupa não resolvam.
E o mar. Não sei como explicar. Alguém se lembra do líquido amniótico? É parecido sem ser igual e igual sem ter nada que se pareça.
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"Quem não sabe beber vinho bebe mijo", dizia o meu Pai quando eu chegava a casa visivelmente grosso. Estragou-me bebedeiras durante quase trinta anos, mas quanta razão tinha. Embebedamo-nos para nós e não para que os outros vejam que estamos bêbedos.
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Os homens magoados deviam aprender a viver sem magoar os outros. É impossível, eu sei. Que graça teria estar magoado sozinho? Seria como estar apaixonado e não ter uma namorada.
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Se eu fosse Nietzsche escreveria um livro ao qual daria o título de Genealogia do Mau Gosto. Infelizmente não sou. Ele preferiu escavar a moral.
Percebo-o? Não sei. Balanço entre a moral e a estética como um mastro entre duas vagas.
4.3.16
Metáfora
Hoje à noite Meme Diouf comeu o lápis com que o desenhei. E comeu a borracha também, não fosse o diabo tecê-las. Assim não o posso apagar. Ignoro onde mora, mas deve ser mais para o lado do sonho do que do da memória. Vi-o perfeitamente: um rapazinho magro - muito magro, um traço só porque não sei desenhar e quando tenho de o fazer tento ser o mais simples possível. Um traço só. Quem vê que imagine o resto -, sentado num muro (ditto). Pareceu-me que estava a comer o lápis, mas isso é uma dedução: tinha uma coisa qualquer na boca e nem o lápis nem a borracha estão no seu lugar, onde religiosamente os deixo há anos. Alguém os tirou de lá.
(Devo dizer que desenho tão poucas vezes e tão pouco de cada vez que o lápis e a borracha eram os mesmos há uma eternidade.)
E não estão noutro lugar qualquer. Nada. Desvaneceram-se. Desapareceram.
Não sei quase nada do Meme Diouf. Africano, 15 anos, perdeu os pais numa daquelas guerras com que os países de África insistem em provar que a modernidade lhes chega às arrecuas e um dia caiu-me num sonho (tenho quase a certeza que não saiu da memória) para se sentar num muro e comer-me o lápis.
Pergunto-me porque o terá feito. Estaria com fome? Para se vingar de o ter desenhado tão magrinho? Por curiosidade? Ignoro.
Meme Diouf engoliu o lápis. Um traço sentado em cima de outro traço com um traço la dentro. Não o posso desenhar mais. Resta-nos (a mim e a si, leitor, que isto da escrita é como o tango) imaginá-lo: olha-nos, mas será que nos vê? Sorri, mas de onde lhe vem o sorriso?
Um traço que engole quem o fez. Bela metáfora, não é?
(Devo dizer que desenho tão poucas vezes e tão pouco de cada vez que o lápis e a borracha eram os mesmos há uma eternidade.)
E não estão noutro lugar qualquer. Nada. Desvaneceram-se. Desapareceram.
Não sei quase nada do Meme Diouf. Africano, 15 anos, perdeu os pais numa daquelas guerras com que os países de África insistem em provar que a modernidade lhes chega às arrecuas e um dia caiu-me num sonho (tenho quase a certeza que não saiu da memória) para se sentar num muro e comer-me o lápis.
Pergunto-me porque o terá feito. Estaria com fome? Para se vingar de o ter desenhado tão magrinho? Por curiosidade? Ignoro.
Meme Diouf engoliu o lápis. Um traço sentado em cima de outro traço com um traço la dentro. Não o posso desenhar mais. Resta-nos (a mim e a si, leitor, que isto da escrita é como o tango) imaginá-lo: olha-nos, mas será que nos vê? Sorri, mas de onde lhe vem o sorriso?
Um traço que engole quem o fez. Bela metáfora, não é?
28.2.16
Diário de Bordos - La Linea, Espanha, 28-02-2016
Aproveitei uma receita que vi recentemente na net: hamburgers de beringela. Sou avesso a comida sem carne ou peixe e hamburgers de beringelas é à partida demasiado oximórico para o meu gosto. Mas como gosto muito de beringela li a receita; e como levava gengibre e cominhos experimentei-a.
É uma delícia, uma simples e absoluta delícia. Consiste em misturar as beringelas (três) ligeiramente cozidas com gengibre rapado, cominhos, pão ralado e ovos e fritar aquilo como se fossem hamburgers. Não fiz vários. Fiz só um, grande.
Entretanto no forno tinha posto uma série de coxas de frango previamente marinadas em sumo de limão, sal e alho. Por cima cebola e pimento que estava a precisar de ser comido, por baixo azeite e vinho branco. Polvilhei com pimenta e esqueci-me da coisa no fogão. Só me lembrei dela quando as beringelas ficaram prontas.
"Dez em dez", disse-me B. "Delicioso", repetiu G. umas quatro vezes pelo menos. Eu comi pouco, como sempre que acho as coisas demasiado boas para terem sido feitas por mim. Mas que gostei gostei.
........
Amanhã largo. É um momento mágico, este em que se diz e se sabe "amanhã largo". A mente muda para modo largada e de repente estamos no mar. O horizonte reduz-se ao barco: encher os tanques de água, comprar gás não vá o diabo tecê-las, pensar na merda das baterias e em como vou fazer a manobra se ainda houver um bocado de vento, lembrar-me do porto do Funchal (vou sem cartas de pormenor).
Tudo isto em paralelo com a imagem de uma jovem e bonita senhora por quem descobri recentemente uma atracção que tem duas linhas de defesa: é justificada e é correspondida. Amar é bom, de per si. Amar simplesmente, reconhecer em alguém uma série de qualidades que nos levam a amá-la procura um prazer e satisfação que se bastam a si próprios. Quando esse sentimento é correspondido as coisas mudam, claro. De repente deixamos de ser uma dúvida; ou mudamos de dúvida.
E a dúvida que ser amado suscita é melhor do que a de amar só. Trata-se de trocar dúvidas, mas trocamos uma simples por uma complexa e a complexidade é sempre melhor do que a simplicidade, pelo menos para as mentes simples como a minha.
........
Seiscentas milhas até ao Funchal. Nada. Depois são duas mil e seiscentas até St. Martin e mil e cem mais até Shelter Bay. Devia reconhecer que esta viagem só me entusiasma verdadeiramente a partir do Pacífico. Até lá é tudo conhecido.
Não reconheço. O conhecido também é bom; pelo menos tão bom como o que não conhecemos.
..........
O vento caiu bastante. Ainda está frio, mas menos. Em breve estarei de calçõs e t-shirt. Quem me dera que o raio do planeta aquecesse de uma vez por todas...
É uma delícia, uma simples e absoluta delícia. Consiste em misturar as beringelas (três) ligeiramente cozidas com gengibre rapado, cominhos, pão ralado e ovos e fritar aquilo como se fossem hamburgers. Não fiz vários. Fiz só um, grande.
Entretanto no forno tinha posto uma série de coxas de frango previamente marinadas em sumo de limão, sal e alho. Por cima cebola e pimento que estava a precisar de ser comido, por baixo azeite e vinho branco. Polvilhei com pimenta e esqueci-me da coisa no fogão. Só me lembrei dela quando as beringelas ficaram prontas.
"Dez em dez", disse-me B. "Delicioso", repetiu G. umas quatro vezes pelo menos. Eu comi pouco, como sempre que acho as coisas demasiado boas para terem sido feitas por mim. Mas que gostei gostei.
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Amanhã largo. É um momento mágico, este em que se diz e se sabe "amanhã largo". A mente muda para modo largada e de repente estamos no mar. O horizonte reduz-se ao barco: encher os tanques de água, comprar gás não vá o diabo tecê-las, pensar na merda das baterias e em como vou fazer a manobra se ainda houver um bocado de vento, lembrar-me do porto do Funchal (vou sem cartas de pormenor).
Tudo isto em paralelo com a imagem de uma jovem e bonita senhora por quem descobri recentemente uma atracção que tem duas linhas de defesa: é justificada e é correspondida. Amar é bom, de per si. Amar simplesmente, reconhecer em alguém uma série de qualidades que nos levam a amá-la procura um prazer e satisfação que se bastam a si próprios. Quando esse sentimento é correspondido as coisas mudam, claro. De repente deixamos de ser uma dúvida; ou mudamos de dúvida.
E a dúvida que ser amado suscita é melhor do que a de amar só. Trata-se de trocar dúvidas, mas trocamos uma simples por uma complexa e a complexidade é sempre melhor do que a simplicidade, pelo menos para as mentes simples como a minha.
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Seiscentas milhas até ao Funchal. Nada. Depois são duas mil e seiscentas até St. Martin e mil e cem mais até Shelter Bay. Devia reconhecer que esta viagem só me entusiasma verdadeiramente a partir do Pacífico. Até lá é tudo conhecido.
Não reconheço. O conhecido também é bom; pelo menos tão bom como o que não conhecemos.
..........
O vento caiu bastante. Ainda está frio, mas menos. Em breve estarei de calçõs e t-shirt. Quem me dera que o raio do planeta aquecesse de uma vez por todas...
27.2.16
Injustiça global
Nada tenho contra o aquecimento global. Antes muito pelo contrário: que a Terra aqueça é o meu maior desejo. Só há uma coisa que lhe critico: é que onde quer que eu esteja está um frio do caraças. Ora se o aquecimento é global isto é injusto, não é? Quero dizer, devia estar calor em todo o lado e não só onde eu não estou.
26.2.16
Diário de Bordos - La Linea, Espanha, 26-02-2016
Vento e frio outra vez. Trinta e cinco nós na marina. A única coisa que me apetece dizer é "Porra! Estou farto". E digo-o, aos altos berros no silêncio da minha cabeça: "Porra! Porra! Porra! Estou farto!"
Ninguém me ouve, claro. De qualquer forma seria inútil ir gritar para o convés ou o pontão. Ser ouvido não resolve nada, nestas circunstâncias. Noutras sim, às vezes. Mas reclamar contra o vento e a chuva e o frio não. Nunca funciona.
De maneira olha, vou fazer um cozido andaluz. Vou não, já estou a fazer. Um belíssimo naco de carne de guisar, um outro de toucinho - mas só a gordura, nada mais - um chouriço espanhol e mais meia dúzia de coisas que Pepe, o dono do talho Pepe à calle Clavel me vendeu hoje, juntamente com uns torresmos divinos e umas pastillas marroquinas que os tripulantes já provaram e dizem ser da mesma ordem dos chicharrones. Não sei. A minha está a aquecer agora; daqui a dez minutos saberei.
E depois vai ser cama cedo, que a noite de ontem cumpriu. Tapas na Bodeguya (Calle San Pablo 3) e copos no Bodegón Antoñito (Doctor Villar, 17). Com o que já tínhamos bebido a bordo o quadro ficou bem composto, e nós ao contrário.
........
De qualquer forma domingo largamos. Até ao Funchal a máquina tem tempo de recuperar. E depois três semanas até St. Martin. E depois mais uma até ao Panamá. Desta vez o soma não se pode queixar. Vai estar muito tempo a água.
..........
O badanal piora e a pastilla estava uma delícia. Dupla confirmação, mas de sentidos opostos. Uma boa e outra que só dá vontade de gritar "Porra! Estou farto!"
........
A rede na marina é um nojo. A dobrar: péssima e cara. Quando é que os espanhóis perceberão que para uma marina não ter net é como não ter água ou electricidade?
Ninguém me ouve, claro. De qualquer forma seria inútil ir gritar para o convés ou o pontão. Ser ouvido não resolve nada, nestas circunstâncias. Noutras sim, às vezes. Mas reclamar contra o vento e a chuva e o frio não. Nunca funciona.
De maneira olha, vou fazer um cozido andaluz. Vou não, já estou a fazer. Um belíssimo naco de carne de guisar, um outro de toucinho - mas só a gordura, nada mais - um chouriço espanhol e mais meia dúzia de coisas que Pepe, o dono do talho Pepe à calle Clavel me vendeu hoje, juntamente com uns torresmos divinos e umas pastillas marroquinas que os tripulantes já provaram e dizem ser da mesma ordem dos chicharrones. Não sei. A minha está a aquecer agora; daqui a dez minutos saberei.
E depois vai ser cama cedo, que a noite de ontem cumpriu. Tapas na Bodeguya (Calle San Pablo 3) e copos no Bodegón Antoñito (Doctor Villar, 17). Com o que já tínhamos bebido a bordo o quadro ficou bem composto, e nós ao contrário.
........
De qualquer forma domingo largamos. Até ao Funchal a máquina tem tempo de recuperar. E depois três semanas até St. Martin. E depois mais uma até ao Panamá. Desta vez o soma não se pode queixar. Vai estar muito tempo a água.
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O badanal piora e a pastilla estava uma delícia. Dupla confirmação, mas de sentidos opostos. Uma boa e outra que só dá vontade de gritar "Porra! Estou farto!"
........
A rede na marina é um nojo. A dobrar: péssima e cara. Quando é que os espanhóis perceberão que para uma marina não ter net é como não ter água ou electricidade?
25.2.16
Sentido, sentidos
De repente a vida volta a fazer sentido. Esse sentido tem um nome, uma cara, um sorriso e uns cabelos muito bonitos.
Ou seja: a vida tem sentidos.
Ou seja: a vida tem sentidos.
Cartas de amor, vida
Um dia não farei nada se não escrever cartas de amor. Não das ridículas, como o outro. Refiro-me a cartas de amor sérias, profundas, escritas a duas mãos: uma a do cérebro outra a do coração. (Andam sempre juntas, eu sei. Aqui fica uma primeira pequena entorse ao meu desideratum).
Enfim, tão pouco sei se cartas é correcto. Serão todas para a mesma pessoa. Talvez no fundo não passe de uma só.
Com muitos capítulos, como se fosse uma vida.
Enfim, tão pouco sei se cartas é correcto. Serão todas para a mesma pessoa. Talvez no fundo não passe de uma só.
Com muitos capítulos, como se fosse uma vida.
24.2.16
Diário de Bordos - La Linea de la Concepción, Espanha, 24-02-2016
La Linea fica do outro lado de Gibraltar. Nunca tive muita vontade de a conhecer até que em Agosto do ano passado naveguei com um armador que aqui passou dois ou três anos. Disse-me que era encantadora e devia visitá-la aquando da minha próxima pasagem por Gibraltar.
A cidade é assustadora de feia. Mas é uma fealdade estranha. J., malagueña, diz-me "la ciudad es fea pero la gente graciosa y además barata". Tem a razão toda. As pessoas são simpáticas, a vida barata e boa. Ontem perguntei já não sei a quem onde me sugeria que fosse comer e a resposta foi "a qualquer lado. São todos bons". Depois lá me disse "Ah, espera, vai à Bodeguiya", conselho que segui. Mas podia ter seguido o primeiro, realmente.
........
C. já encontrou tripulantes. Chegam amanhã. Estava a preparar-me para largar sexta-feira - não há muita margem para superstições - mas se as previsões se mantiverem não saio antes de sábado.
Que nojo sinto daquelas duas coisas que desembarcaram! Prefiro quem me chama filho da puta pela frente a quem diz "aquele gajo é ligeiramente chato" pelas costas.
........
Isto dito, o frio continua. Voltou. Se me apanho a) fora do Mediterrâneo e b) a menos de 23º27' de latitude nem acredito. Que sejam vinte e cinco graus, vá. O suficiente para poder navegar de calções à noite.
........
E se me apanho em Lisboa e com a possibilidade de lá ficar dois ou três pares de meses ainda acredito menos.
A cidade é assustadora de feia. Mas é uma fealdade estranha. J., malagueña, diz-me "la ciudad es fea pero la gente graciosa y además barata". Tem a razão toda. As pessoas são simpáticas, a vida barata e boa. Ontem perguntei já não sei a quem onde me sugeria que fosse comer e a resposta foi "a qualquer lado. São todos bons". Depois lá me disse "Ah, espera, vai à Bodeguiya", conselho que segui. Mas podia ter seguido o primeiro, realmente.
........
C. já encontrou tripulantes. Chegam amanhã. Estava a preparar-me para largar sexta-feira - não há muita margem para superstições - mas se as previsões se mantiverem não saio antes de sábado.
Que nojo sinto daquelas duas coisas que desembarcaram! Prefiro quem me chama filho da puta pela frente a quem diz "aquele gajo é ligeiramente chato" pelas costas.
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Isto dito, o frio continua. Voltou. Se me apanho a) fora do Mediterrâneo e b) a menos de 23º27' de latitude nem acredito. Que sejam vinte e cinco graus, vá. O suficiente para poder navegar de calções à noite.
........
E se me apanho em Lisboa e com a possibilidade de lá ficar dois ou três pares de meses ainda acredito menos.
22.2.16
Diário de Bordos - Gibraltar, Reino Unido, 22-02-2016
O termo português é hipócrita. Prefiro o francês faux-cul. Não é só por gostar de cul, é porque me parece mais honesto, verdadeiro, descritivo. Prefiro que me chamem filho da puta pela frente a chato pelas costas.
Hoje estava a preparar a largada e a tripulação decidiu que não seguia. Desembarcava. Não se sentiam em confiança comigo. Por mim tudo bem, mas há dois dias fomos jantar todos juntos para termos uma conversa e só me falaram da tempestade. Não disseram nada sobre o monte de coisas que puseram no mail para a agência. Coisas patetas a maioria, patéticas algumas e (reconhecidamente poucas) falsas o resto.
Passei um dia horrível. Havia três hipóteses: ou a agência nos desembarcava a todos, ou a mim ou a eles. Tive sorte. Fui eu que fiquei (não foi só sorte. C. interrogou pelo menos alguns dos tripulantes com quem naveguei noutros transportes para ele).
Mas ainda estou furioso. Sei lidar com tempestades, com avarias, com a maioria das coisas que podem acontecer numa embarcação de vela (ou a motor, já agora). Mas não sei lidar com a cobardia, com a falta de hombridade, com a mentira.
Não-pessoas. Não-entidades. Não-seres. Desembarquei-os sem um adeus sequer. Fora. Prefiro a merda ao cheiro a merda.
O pior é que tenho de ficar aqui à espera de tripulação nova. E "aqui" nem sequer é Gibraltar, o que já seria mau. Amanhã vou fundear para La Linea, para poupar massa ao armador.
........
Gibraltar é uma cidade inglesa, mas os gibraltinos são árabes que falam inglês.
........
Tudo indica que as minhas palavras encontraram, finalmente, um porto. Onde elas estão estou eu. Onde elas ficarem eu fico, para sempre.
Hoje estava a preparar a largada e a tripulação decidiu que não seguia. Desembarcava. Não se sentiam em confiança comigo. Por mim tudo bem, mas há dois dias fomos jantar todos juntos para termos uma conversa e só me falaram da tempestade. Não disseram nada sobre o monte de coisas que puseram no mail para a agência. Coisas patetas a maioria, patéticas algumas e (reconhecidamente poucas) falsas o resto.
Passei um dia horrível. Havia três hipóteses: ou a agência nos desembarcava a todos, ou a mim ou a eles. Tive sorte. Fui eu que fiquei (não foi só sorte. C. interrogou pelo menos alguns dos tripulantes com quem naveguei noutros transportes para ele).
Mas ainda estou furioso. Sei lidar com tempestades, com avarias, com a maioria das coisas que podem acontecer numa embarcação de vela (ou a motor, já agora). Mas não sei lidar com a cobardia, com a falta de hombridade, com a mentira.
Não-pessoas. Não-entidades. Não-seres. Desembarquei-os sem um adeus sequer. Fora. Prefiro a merda ao cheiro a merda.
O pior é que tenho de ficar aqui à espera de tripulação nova. E "aqui" nem sequer é Gibraltar, o que já seria mau. Amanhã vou fundear para La Linea, para poupar massa ao armador.
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Gibraltar é uma cidade inglesa, mas os gibraltinos são árabes que falam inglês.
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Tudo indica que as minhas palavras encontraram, finalmente, um porto. Onde elas estão estou eu. Onde elas ficarem eu fico, para sempre.
20.2.16
No mar, 16-02 a 18-02-2016; Gibraltar, Reino Unido, 20-02-2016
A cama leva dez minutos a aquecer. Ou mais. Não sei, é uma estimativa. A verdade é que adormeci ainda com os pés gelados. Aqueceram depois, enquanto dormia.
Noite linda, sem uma única núvem. A visibilidade é tão boa que vi a Lua a pôr-se por cima de Ibiza como se fosse um candeeiro enorme; ou um cíclope a olhar-nos com o seu olho gigante e triste.
O vento caiu um bocadinho e está ponteiro. Logo à tarde vai subir para cinco ou seis. É só um dia. Depois vai ser sempre de popa ou través. Estou espantado com o grau de fiabilidade das previsões. Desde Atenas que o Passage Weather tem acertado, não digo à hora mas quase.
Agora passo à frente de Cartagena. Há um aviso de tempestade para amanhã mas é de popa e não páro.
........
Pois devia ter parado. À próxima já sei. Que arraial de pancada levei! Trinta a quarenta nós de vento, vagas de quatro metros, o S. B. quase ingovernável apesar de vir com um lenço de assoar à proa e mais nada (e mesmo assim vínhamos a fazer seis, sete, oito nós). Mais uma caterva de horas de leme (quatro, Não me posso queixar).
Posso: tenho tripulantes mas não tenho marinheiros. Dois pedaços de coisa sentados no cockpit porque não podiam dormir, aterrorizados, passivos, a quem é preciso dizer tudo.
Passageiros.
........
O Mediterrâneo fez finalmente jus à sua reputação. Puta que a pariu, a reputação. Vagas curtíssimas, altas, mar pela alheta, Uma noite em branco. E chegado a Gib em vez de ir dormir tive de ir procurar material eléctrico porque não tenho uma única porra de luz de navegação que acenda. Não havia músculo que não me doesse. O Sheppard's estava fechado, felizmente. Fui ao outro, menos ship e mais chandler. E mais longe, claro.
Só depois fui dormir.
........
Por muito bom que seja estar calado, no mar ou sozinho as palavras, como os barcos e as pessoas precisam de um porto que as acolha.
........
Em Gibraltar até segunda-feira. Merda. Só vejo uma vantagem: amanhã vou jantar ao Tamid, o restaurante judeu da cidade. É o único pelo qual vale a pena parar.
Noite linda, sem uma única núvem. A visibilidade é tão boa que vi a Lua a pôr-se por cima de Ibiza como se fosse um candeeiro enorme; ou um cíclope a olhar-nos com o seu olho gigante e triste.
O vento caiu um bocadinho e está ponteiro. Logo à tarde vai subir para cinco ou seis. É só um dia. Depois vai ser sempre de popa ou través. Estou espantado com o grau de fiabilidade das previsões. Desde Atenas que o Passage Weather tem acertado, não digo à hora mas quase.
Agora passo à frente de Cartagena. Há um aviso de tempestade para amanhã mas é de popa e não páro.
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Pois devia ter parado. À próxima já sei. Que arraial de pancada levei! Trinta a quarenta nós de vento, vagas de quatro metros, o S. B. quase ingovernável apesar de vir com um lenço de assoar à proa e mais nada (e mesmo assim vínhamos a fazer seis, sete, oito nós). Mais uma caterva de horas de leme (quatro, Não me posso queixar).
Posso: tenho tripulantes mas não tenho marinheiros. Dois pedaços de coisa sentados no cockpit porque não podiam dormir, aterrorizados, passivos, a quem é preciso dizer tudo.
Passageiros.
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O Mediterrâneo fez finalmente jus à sua reputação. Puta que a pariu, a reputação. Vagas curtíssimas, altas, mar pela alheta, Uma noite em branco. E chegado a Gib em vez de ir dormir tive de ir procurar material eléctrico porque não tenho uma única porra de luz de navegação que acenda. Não havia músculo que não me doesse. O Sheppard's estava fechado, felizmente. Fui ao outro, menos ship e mais chandler. E mais longe, claro.
Só depois fui dormir.
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Por muito bom que seja estar calado, no mar ou sozinho as palavras, como os barcos e as pessoas precisam de um porto que as acolha.
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Em Gibraltar até segunda-feira. Merda. Só vejo uma vantagem: amanhã vou jantar ao Tamid, o restaurante judeu da cidade. É o único pelo qual vale a pena parar.
16.2.16
Viver e depois
A única coisa que ter vivido muito nos ensina é que ainda não vimos nada; o melhor está para vir.
(Para a P. C.)
(Para a P. C.)
15.2.16
O mar e a vida
Por mais que viva e navegue nunca perceberei como há pessoas que conseguem opor ao mar os miseráveis problemas terrestres. Dinheiro, tempo, merdas assim. Há pessoas que andam no mar e não o entendem, como outras andam pela vida e nada dela percebem.
Só que andar pela vida e não a perceber é aceitável. Ninguém pediu para nascer. Andar no mar e não o merecer é outra história. Devia ser proibido.
(Talvez o Bloco de Esquerda possa fazer alguma coisa, por favor. Proibir de ir ao mar quem não entende o mar)?
Só que andar pela vida e não a perceber é aceitável. Ninguém pediu para nascer. Andar no mar e não o merecer é outra história. Devia ser proibido.
(Talvez o Bloco de Esquerda possa fazer alguma coisa, por favor. Proibir de ir ao mar quem não entende o mar)?
Honorés camarades de l'avenir
"Honorés
camarades qui viendrez après nous !
en fouillant la merde pétrifiée
d’aujourd’hui,
pour étudier les ténèbres de nos jours,
peut-être
demanderez-vous aussi
qui j’étais.
Et peut-être vos savants
vous diront,
coiffant d’érudition
l’essaim des questions,
que vivait jadis
un chantre de l’eau bouillie,
ennemi furieux de l’eau crue.
Professeur,
ôtez vos lunettes-vélos !
Je vais parler moi-même
et du temps
et de moi."
Demorou muitos anos mas encontrei finalmente o poema de Maiakovski de onde vem uma das minhas citções favoritas:
"Honorés camarades de l'avenir
Je vous parlerai du temps et de moi."
Era o título de um evento em La Chaux-de-Fonds dedicado ao poeta russo, comido pela "revolução" (entre aspas).
Levei muitos anos a encontrar isto. Tudo o que é importante leva muitos anos.
camarades qui viendrez après nous !
en fouillant la merde pétrifiée
d’aujourd’hui,
pour étudier les ténèbres de nos jours,
peut-être
demanderez-vous aussi
qui j’étais.
Et peut-être vos savants
vous diront,
coiffant d’érudition
l’essaim des questions,
que vivait jadis
un chantre de l’eau bouillie,
ennemi furieux de l’eau crue.
Professeur,
ôtez vos lunettes-vélos !
Je vais parler moi-même
et du temps
et de moi."
Demorou muitos anos mas encontrei finalmente o poema de Maiakovski de onde vem uma das minhas citções favoritas:
"Honorés camarades de l'avenir
Je vous parlerai du temps et de moi."
Era o título de um evento em La Chaux-de-Fonds dedicado ao poeta russo, comido pela "revolução" (entre aspas).
Levei muitos anos a encontrar isto. Tudo o que é importante leva muitos anos.
Diário de Bordos - Palma de Mallorca, Baleares, Espanha, 15-02-2016
Amanhã vou-me embora. Ansiava por este momento e, como sempre, pergunto-me como quero parar, se a cada partida fico assim. A resposta é fácil: em primeiro lugar não quero parar completamente de navegar. Quero diminuir. E por outro quero fazer coisas de que gosto e me preenchem tanto como navegar, de maneira estar em terra não vai ser difícil. Vai ser tão bom como estar no mar, só que menos.
.........
O mau tempo passou. Hoje à tarde quando me levantei o céu era uma mistura de azul quase todo e ao longe o caos nebuloso da perturbação que andou por aqui estes dias. Amanhã vai ser motor de novo até ao cabo Nao. A seguir teremos vento - primeiro contra e depois a favor -.
Se a previsão se confirmar passamos Gibraltar com um levante de 30 nós. Não posso esperar. Sete ou oito dias até ao Funchal. Jurei a mim mesmo que nunca mais passaria o estreito com vento contra e tenciono respeitar essa promessa.
.......
Alguém me faz ver que tenho mais defesas do que uma manada de elefantes. Tenho pensado muito nisso. E algo me diz que vou continuar a pensar...
........
Vou com a tripulação jantar ao Molta Barra. Tentei lá ir uma vez mas estava demasiado cheio. A próxima vez que vier a Palma estou pronto para descobrir novas moradas. Esta ainda foi um pouco romaria: Antiquari, 5ª Puñeta, Café Verde, Indico... E El Puente, claro, que não conhecia mas ficou da família.
........
E é isto. E é muito. Cada dia mais e melhor. A minha mente já está do lado de lá do canal do Panamá. Anda sempre à frente ou atrás. Um dia vai aprender a andar ao lado, que também é bom.
.........
O mau tempo passou. Hoje à tarde quando me levantei o céu era uma mistura de azul quase todo e ao longe o caos nebuloso da perturbação que andou por aqui estes dias. Amanhã vai ser motor de novo até ao cabo Nao. A seguir teremos vento - primeiro contra e depois a favor -.
Se a previsão se confirmar passamos Gibraltar com um levante de 30 nós. Não posso esperar. Sete ou oito dias até ao Funchal. Jurei a mim mesmo que nunca mais passaria o estreito com vento contra e tenciono respeitar essa promessa.
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Alguém me faz ver que tenho mais defesas do que uma manada de elefantes. Tenho pensado muito nisso. E algo me diz que vou continuar a pensar...
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Vou com a tripulação jantar ao Molta Barra. Tentei lá ir uma vez mas estava demasiado cheio. A próxima vez que vier a Palma estou pronto para descobrir novas moradas. Esta ainda foi um pouco romaria: Antiquari, 5ª Puñeta, Café Verde, Indico... E El Puente, claro, que não conhecia mas ficou da família.
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E é isto. E é muito. Cada dia mais e melhor. A minha mente já está do lado de lá do canal do Panamá. Anda sempre à frente ou atrás. Um dia vai aprender a andar ao lado, que também é bom.
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