26.2.16

Diário de Bordos - La Linea, Espanha, 26-02-2016

Vento e frio outra vez. Trinta e cinco nós na marina. A única coisa que me apetece dizer é "Porra! Estou farto". E digo-o, aos altos berros no silêncio da minha cabeça: "Porra! Porra! Porra! Estou farto!"

Ninguém me ouve, claro. De qualquer forma seria inútil ir gritar para o convés ou o pontão. Ser ouvido não resolve nada, nestas circunstâncias. Noutras sim, às vezes. Mas reclamar contra o vento e a chuva e o frio não. Nunca funciona.

De maneira olha, vou fazer um cozido andaluz. Vou não, já estou a fazer. Um belíssimo naco de carne de guisar, um outro de toucinho - mas só a gordura, nada mais - um chouriço espanhol e mais meia dúzia de coisas que Pepe, o dono do talho Pepe à calle Clavel me vendeu hoje, juntamente com uns torresmos divinos e umas pastillas marroquinas que os tripulantes já provaram e dizem ser da mesma ordem dos chicharrones. Não sei. A minha está a aquecer agora; daqui a dez minutos saberei.

E depois vai ser cama cedo, que a noite de ontem cumpriu. Tapas na Bodeguya (Calle San Pablo 3) e copos no Bodegón Antoñito (Doctor Villar, 17). Com o que já tínhamos bebido a bordo o quadro ficou bem composto, e nós ao contrário.

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De qualquer forma domingo largamos. Até ao Funchal a máquina tem tempo de recuperar. E depois três semanas até St. Martin. E depois mais uma até ao Panamá. Desta vez o soma não se pode queixar. Vai estar muito tempo a água.

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O badanal piora e a pastilla estava uma delícia. Dupla confirmação, mas de sentidos opostos. Uma boa e outra que só dá vontade de gritar "Porra! Estou farto!"

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A rede na marina é um nojo. A dobrar: péssima e cara. Quando é que os espanhóis perceberão que para uma marina não ter net é como não ter água ou electricidade?

25.2.16

Sentido, sentidos

De repente a vida volta a fazer sentido. Esse sentido tem um nome, uma cara, um sorriso e uns cabelos muito bonitos.

Ou seja: a vida tem sentidos.

Cartas de amor, vida

Um dia não farei nada se não escrever cartas de amor. Não das ridículas, como o outro. Refiro-me a cartas de amor sérias, profundas, escritas a duas mãos: uma a do cérebro outra a do coração. (Andam sempre juntas, eu sei. Aqui fica uma primeira pequena entorse ao meu desideratum).

Enfim, tão pouco sei se cartas é correcto. Serão todas para a mesma pessoa. Talvez no fundo não passe de uma só.

Com muitos capítulos, como se fosse uma vida.

24.2.16

Diário de Bordos - La Linea de la Concepción, Espanha, 24-02-2016

La Linea fica do outro lado de Gibraltar. Nunca tive muita vontade de a conhecer até que em Agosto do ano passado naveguei com um armador que aqui passou dois ou três anos. Disse-me que era encantadora e devia visitá-la aquando da minha próxima pasagem por Gibraltar.

A cidade é assustadora de feia. Mas é uma fealdade estranha. J., malagueña, diz-me "la ciudad es fea pero la gente graciosa y además barata". Tem a razão toda. As pessoas são simpáticas, a vida barata e boa. Ontem perguntei já não sei a quem onde me sugeria que fosse comer e a resposta foi "a qualquer lado. São todos bons". Depois lá me disse "Ah, espera, vai à Bodeguiya", conselho que segui. Mas podia ter seguido o primeiro, realmente.

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C. já encontrou tripulantes. Chegam amanhã. Estava a preparar-me para largar sexta-feira - não há muita margem para superstições - mas se as previsões se mantiverem não saio antes de sábado.

Que nojo sinto daquelas duas coisas que desembarcaram! Prefiro quem me chama filho da puta pela frente a quem diz "aquele gajo é ligeiramente chato" pelas costas.

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Isto dito, o frio continua. Voltou. Se me apanho a) fora do Mediterrâneo e b) a menos de 23º27' de latitude nem acredito. Que sejam vinte e cinco graus, vá. O suficiente para poder navegar de calções à noite.

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E se me apanho em Lisboa e com a possibilidade de lá ficar dois ou três pares de meses ainda acredito menos.

22.2.16

Diário de Bordos - Gibraltar, Reino Unido, 22-02-2016

O termo português é hipócrita. Prefiro o francês faux-cul. Não é só por gostar de cul, é porque me parece mais honesto, verdadeiro, descritivo. Prefiro que me chamem filho da puta pela frente a chato pelas costas.

Hoje estava a preparar a largada e a tripulação decidiu que não seguia. Desembarcava. Não se sentiam em confiança comigo. Por mim tudo bem, mas há dois dias fomos jantar todos juntos para termos uma conversa e só me falaram da tempestade. Não disseram nada sobre o monte de coisas que puseram no mail para a agência. Coisas patetas a maioria, patéticas algumas e (reconhecidamente poucas) falsas o resto.

Passei um dia horrível. Havia três hipóteses: ou a agência nos desembarcava a todos, ou a mim ou a eles. Tive sorte. Fui eu que fiquei (não foi só sorte. C. interrogou pelo menos alguns dos tripulantes com quem naveguei noutros transportes para ele).

Mas ainda estou furioso. Sei lidar com tempestades, com avarias, com a maioria das coisas que podem acontecer numa embarcação de vela (ou a motor, já agora). Mas não sei lidar com a cobardia, com a falta de hombridade, com a mentira.

Não-pessoas. Não-entidades. Não-seres. Desembarquei-os sem um adeus sequer. Fora. Prefiro a merda ao cheiro a merda.

O pior é que tenho de ficar aqui à espera de tripulação nova. E "aqui"  nem sequer é Gibraltar, o que já seria mau. Amanhã vou fundear para La Linea, para poupar massa ao armador.

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Gibraltar é uma cidade inglesa, mas os gibraltinos são árabes que falam inglês.

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Tudo indica que as minhas palavras encontraram, finalmente, um porto. Onde elas estão estou eu. Onde elas ficarem eu fico, para sempre.

20.2.16

No mar, 16-02 a 18-02-2016; Gibraltar, Reino Unido, 20-02-2016

A cama leva dez minutos a aquecer. Ou mais. Não sei, é uma estimativa. A verdade é que adormeci ainda com os pés gelados. Aqueceram depois, enquanto dormia.

Noite linda, sem uma única núvem. A visibilidade é tão boa que vi a Lua a pôr-se por cima de Ibiza como se fosse um candeeiro enorme; ou um cíclope a olhar-nos com o seu olho gigante e triste.

O vento caiu um bocadinho e está ponteiro. Logo à tarde vai subir para cinco ou seis. É só um dia. Depois vai ser sempre de popa ou través. Estou espantado com o grau de fiabilidade das previsões. Desde Atenas que o Passage Weather tem acertado, não digo à hora mas quase.

Agora passo à frente de Cartagena. Há um aviso de tempestade para amanhã mas é de popa e não páro.

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Pois devia ter parado. À próxima já sei. Que arraial de pancada levei! Trinta a quarenta nós de vento, vagas de quatro metros, o S. B. quase ingovernável apesar de vir com um lenço de assoar à proa e mais nada (e mesmo assim vínhamos a fazer seis, sete, oito nós). Mais uma caterva de horas de leme (quatro, Não me posso queixar).

Posso: tenho tripulantes mas não tenho marinheiros. Dois pedaços de coisa sentados no cockpit porque não podiam dormir, aterrorizados, passivos, a quem é preciso dizer tudo.

Passageiros.

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O Mediterrâneo fez finalmente jus à sua reputação. Puta que a pariu, a reputação. Vagas curtíssimas, altas, mar pela alheta, Uma noite em branco. E chegado a Gib em vez de ir dormir tive de ir procurar material eléctrico porque não tenho uma única porra de luz de navegação que acenda. Não havia músculo que não me doesse. O Sheppard's estava fechado, felizmente. Fui ao outro, menos ship e mais chandler. E mais longe, claro.

Só depois fui dormir.

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Por muito bom que seja estar calado, no mar ou sozinho as palavras, como os barcos e as pessoas precisam de um porto que as acolha.

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Em Gibraltar até segunda-feira. Merda. Só vejo uma vantagem: amanhã vou jantar ao Tamid, o restaurante judeu da cidade. É o único pelo qual vale a pena parar.

16.2.16

Viver e depois

A única coisa que ter vivido muito nos ensina é que ainda não vimos nada; o melhor está para vir.

(Para a P. C.)

15.2.16

Mar, Sam

Se alguém quiser perceber porque se gosta do mar pode começar por aqui.

O mar e a vida

Por mais que viva e navegue nunca perceberei como há pessoas que conseguem opor ao mar os miseráveis problemas terrestres. Dinheiro, tempo, merdas assim. Há pessoas que andam no mar e não o entendem, como outras andam pela vida e nada dela percebem.

Só que andar pela vida e não a perceber é aceitável. Ninguém pediu para nascer. Andar no mar e não o merecer é outra história. Devia ser proibido.

(Talvez o Bloco de Esquerda possa fazer alguma coisa, por favor. Proibir de ir ao mar quem não entende o mar)?

Honorés camarades de l'avenir

"Honorés
camarades qui viendrez après nous !
en fouillant la merde pétrifiée
d’aujourd’hui,
pour étudier les ténèbres de nos jours,
peut-être
demanderez-vous aussi
qui j’étais.
Et peut-être vos savants
vous diront,
coiffant d’érudition
l’essaim des questions,
que vivait jadis
un chantre de l’eau bouillie,
ennemi furieux de l’eau crue.
Professeur,
ôtez vos lunettes-vélos !
Je vais parler moi-même
et du temps
et de moi.
"

Demorou muitos anos mas encontrei finalmente o poema de Maiakovski de onde vem uma das minhas citções favoritas:

"Honorés camarades de l'avenir
Je vous parlerai du temps et de moi."

Era o título de um evento em La Chaux-de-Fonds dedicado ao poeta russo, comido pela "revolução" (entre aspas).

Levei muitos anos a encontrar isto. Tudo o que é importante leva muitos anos.

Diário de Bordos - Palma de Mallorca, Baleares, Espanha, 15-02-2016

Amanhã vou-me embora. Ansiava por este momento e, como sempre, pergunto-me como quero parar, se a cada partida fico assim. A resposta é fácil: em primeiro lugar não quero parar completamente de navegar. Quero diminuir. E por outro quero fazer coisas de que gosto e me preenchem tanto como navegar, de maneira estar em terra não vai ser difícil. Vai ser tão bom como estar no mar, só que menos.

.........
O mau tempo passou. Hoje à tarde quando me levantei o céu era uma mistura de azul quase todo e ao longe o caos nebuloso da perturbação que andou por aqui estes dias. Amanhã vai ser motor de novo até ao cabo Nao. A seguir teremos vento - primeiro contra e depois a favor -.

Se a previsão se confirmar passamos Gibraltar com um levante de 30 nós. Não posso esperar. Sete ou oito dias até ao Funchal. Jurei a mim mesmo que nunca mais passaria o estreito com vento contra e tenciono respeitar essa promessa.

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Alguém me faz ver que tenho mais defesas do que uma manada de elefantes. Tenho pensado muito nisso. E algo me diz que vou continuar a pensar...

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Vou com a tripulação jantar ao Molta Barra. Tentei lá ir uma vez mas estava demasiado cheio. A próxima vez que vier a Palma estou pronto para descobrir novas moradas. Esta ainda foi um pouco romaria: Antiquari, 5ª Puñeta, Café Verde, Indico... E El Puente, claro, que não conhecia mas ficou da família.

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E é isto. E é muito. Cada dia mais e melhor. A minha mente já está do lado de lá do canal do Panamá. Anda sempre à frente ou atrás. Um dia vai aprender a andar ao lado, que também é bom.

14.2.16

Diário de Bordos - Palma de Mallorca, Baleares, Espanha, 14-02-2016

Estou em Palma, com uma bicicleta há quase duas semanas. Para os ciclistas há coisas estranhas nesta cidade. Por exemplo: as pessoas não andam nas ciclovias. Andam nos passeios e deixam as ciclovias para as bicicletas. Já o oposto não é verdade: toda a gente acha normal que as bicicletas circulem pelos passeios. É banal, por exemplo, pedir uma informação e responderem-nos "vais por ali, viras à esquerda - mas atenção, é contra-mão. Tens de ir pelo passeio" - ... Outra coisa da qual se sente a falta, horrivelmente: as buzinadelas. Não se houve uma, seja por que razão for. Hoje por exemplo entrei por engano numa estrada com três faixas onde os automóveis andam depressa e ninguém buzinou. Deixaram-me ir para a direita calmamente. Também não há automóveis estacionados no passeio. Suponho que os condutores de Palma vêm de outro planeta, um planeta diferente dos de Lisboa.

Deus sabe que eu quero voltar para Portugal. Mas seria tão bom se durante esta curta ausência um anjo descesse sobre a cabeça dos nossos automobilistas; ou uma pomba, vá. E lhes instilasse meia dúzia de regras de civilização.

Claro que também se poderia esperar que a polícia fizesse o seu trabalho. Mas isso seria pedir o impossível. Temos mais probabilidades de sucesso recorrendo a anjos, pombas e milagres.

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Dizem os médicos que um bom diagnóstico é metade da cura. Ou mais, não me lembro do pormenor. Infelizmente um bom diagnóstico talvez seja necessário, mas não suficiente. Ou então é o médico que não serve. Vá saber-se.

Entre o diagnóstico e a cura há um abismo, essa é que é essa. E nem todos os médicos o conseguem saltar.

Qualquer coisa, coisa qualquer

A ideia de partida é simples: pega-se numa tigela e enche-se-la de qualquer coisa. Corrijo: não de qualquer coisa mas de uma coisa qualquer que a) se desfaça com o calor, b) não seja demasiado cara, c) seja amarelada e d) não suje demasiado a camisa e ou as calças do experimentador uma vez a experiência terminada.

Manteiga foi a primeira coisa que me ocorreu, mas suponho que margarina, natas (apesar da cor) ou outra coisa qualquer; qualquer coisa servirá. Depois aquece-se uma faca e corta-se a coisa qualquer com a qual se encheu a tigela. Há-de cortar-se miudinho, em fatias muito pequenas, quase transparentes, de modo a que se possa ver qualquer coisa através delas. É preciso segurar a manteiga (ou a outra coisa qualquer) entre os dedos, não a deixar esmagar-se no chão, qualquer coisa pode acontecer, sei lá, alguém escorregar. Por exemplo.

Qualquer coisa há-de acontecer, uma coisa qualquer. O resultado da experiência é aleatório. Repare-se que caso se tenha escolhido encher a tigela com solidão amarela o resultado pode ser diferente. Já a solidão azul dará resultados coerentes.

13.2.16

Diário de Bordos - Palma de Mallorca, Baleares, Espanha, 13-02-2016 / II

Dia estúpido. Parece que estou colado ao monitor do tablet. Acabo numa tasca mexicana a comer tacos e a beber uma Margarita. A cidade está animada, cheia de vida. A temperatura subiu - à ida tive de tirar a polar e o blusão que aqui comprei há uns dias -.

Não há dias estúpidos. Acabo de receber um mail de H. R., que conheci há seis anos em La Rochelle (ou mais. A última vez que estive em La Rochelle deve ter sido em 2007 ou 8). Diz-me que vem a Lisboa e gostaria de me ver. Quem falou em dia estúpido? Não estarei, claro. Em Abril devo estar - coincidência - em pleno México. Mas que prazer me dá. Foi uma pessoa que me marcou bastante, uma personalidade incrível, forte, aventureira, segura de si.

Não há dias estúpidos quando se tem uma vida cheia, parvalhão.

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De modo a Margarita ganhou um s no fim e eu um sorriso (tanto mais que são baratíssimas). Vou retomar o meu caminho de bordo mais leve. Se não fosse o raio do tablet não teria recebido o mail agora. Talvez isto não passe de uma máquina de nos ligar ao passado.

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Vêm-me à mente os versos de Reinaldo Ferreira: "Voa cavalo, galopa mais / rumo àquele ponto / exterior ao mundo / para onde tendem as catedrais". E logo a seguir a canção de Geraldo Vandré: "Vem, vamos embora, que esperar não é saber / Quem sabe faz a hora, não espera acontecer". tenho passado a vida a galopar, nunca esperei que alguém fizesse a hora por mim.

De onde me vem esta insatisfação permanente, esta ideia de que amanhã será melhor do que hoje, quando hoje já é tão bom (pelo menos agora. Antes foi uma seca)?

Penso no ano de 2009, o ano do Mares Olhares; 94, quando fui para o Burundi; 83, quando apanhei o ciclone no Atlântico; os anos em que nasceram os meus filhos; o ano em que comecei uma empresa de charter nos Açores; o ano cheguei ao Brasil pela primeira vez (76, meu Deus. 76!); o ano em que fiz uma viagem inesquecível pelo norte de Moçambique com uma equipe de televisão inglesa. Podia pensar em tantos, tantos anos... Tudo por causa de um e-mail de uma senhora que não vejo há meia dúzia de anos e conheci meia dúzia de dias.

De repente a melancolia transforma-se numa coisa mais fácil, mais leve, com menos sílabas.

Um dia páro. juro. Não de encontrar pessoas apaixonantes, mas de me lembrar delas.

Diário de Bordos - Palma de Mallorca, Baleares, Espanha, 13-02-2016

Ontem fui à livraria Biblioteca de Babel ouvir uma leitura de cartas de amor. Sessenta pessoas (a sessão era gratuita). A qualidade - do músico, dos leitores (dois, uma senhora para as cartas femininas e um homem para as masculinas), da selecção de cartas - altíssima.

Na véspera fui ver 45 Years, com Charlotte Rampling. Uma história simples e superiormente contada, com interpretações dos dois actores principais à altura.

Palma não substitui Lisboa - nada nunca substituirá - mas deve ser a cidade no mundo que mais se aproxima.

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Hoje é o último dia de trabalhos a bordo. Agora é só esperar uma janela meteorológica. Em princípio terça largo.

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Duas inscrições confirmadas para a Escócia!

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Mudar de óculos começa a ser urgente e vai ter de esperar até Los Angeles. O mar é um grande definidor de urgência.

11.2.16

Diário de Bordos - Palma de Mallorca, Baleares, Espanha,11-02-2016 / II

No outro dia procurei-o e não o encontrei; hoje encontrei-o sem o procurar. Podia ser um desses já estafados koan zen, ou a epígrafe de um melodrama. Nada disso. Trata-se de um pequeno café perto do Mercado de Sta. Catalina. Chama-se, sei agora, Bar Junior. É um daqueles cafés antigos, cuja decoração deve ter a idade dos donos (um casal de setenta e alguns) e cujo "conceito" (entre aspas porque aposto que os senhores nunca pensaram sequer ter um "conceito") consiste simplesmente em servir os clientes o melhor possível a um preço que satisfaça ambas as partes.

Hoje comi lá umas almôndegas ("Duas ou três?" "Duas ou três". Vieram três, claro). Deliciosas, enormes - duas teriam chegado para o objectivo, que era dar-me combustível para chegar à 5ª Puñeta - num soberbo molho de tomate, sabia a tomate e a cebola e não tinha cozido demais. Mai-lo um copo de tinto: quatro euros.


¡Venga!

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O amor foi-se. Ficou-me a bicicleta. Melhor assim do que o contrário: antes sozinho do que apeado.

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Não largo muito provavelmente antes de terça-feira. Palma acolheu-me generosamente, desta vez. Mas enfim, forçoso é reconhecer que começa a ser tempo de me deixares ir, Palma. Desaperta um pouco, pode ser?

Diário de Bordos - Palma de Mallorca, Baleares, Espanha,11-02-2016

São quase nove da manhã e espero o meu café e croissant matinais. Ando a levantar-me tarde e a chegar tarde ao El Puente, onde todos os dias venho depois do pequeno-almoço a bordo. Bebo um café ou dois, como um croissant e leio os jornais - não os físicos mas os virtuais.

"Jornais" tem um sentido lato: inclui Facebook, Feedly e (hoje) leitura de algumas citações de John Stuart Mill. O debate sobre a eutanãsia parece-me um bocado inútil: Mill deu a resposta:

The only freedom which deserves the name is that of pursuing our own good in our own way, so long as we do not attempt to deprive others of theirs, or impede their efforts to obtain it. Each is the proper guardian of his own health, whether bodily, or mental or spiritual. Mankind are greater gainers by suffering each other to live as seems good to themselves, than by compelling each to live as seems good to the rest.”

Várias vezes:
Christian morality (so called) has all the characters of a reaction; it is, in great part, a protest against Paganism. Its ideal is negative rather than positive; passive rather than action; innocence rather than Nobleness; Abstinence from Evil, rather than energetic Pursuit of Good: in its precepts (as has been well said) 'thou shalt not' predominates unduly over 'thou shalt.”

Até que chegou ao ponto definitivo:
"The only part of the conduct of any one, for which he is amenable to society, is that which concerns others. In the part which merely concerns himself, his independence is, of right, absolute. Over himself, over his own body and mind, the individual is sovereign.” (O negrito é meu).

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Ir ao café ler os jornais é um hábito antigo. Pensar na eutanásia, numa morte recente que ainda não está completamente digerida e nunca o estará, ver como evoluem as previsões meteorológicas para a semana que vem (bem, obrigado), perguntar-me porque ponho a pata na poça tantas vezes e sempre da mesma maneira ("perguntar-me" é retórica. Sei a resposta. Até a repetição ad nauseam é justificada. Mais ou menos), pensar que está na altura de me ir embora, já passou mesmo a data e perguntar-me se terá feito sentido ter alertado o armador para o plotter são coisas de hoje.

Mudam todos os dias. As únicas coisas que lhes asseguram a permanência são o café e o croissant matinais: a actualidade é uma sucessão de antiguidades, não uma precursão de futuros.

10.2.16

Geografia doméstica dos cafés

As mulheres com uma espessa cabeleira ruiva, olhos verdes e um sorriso a meio caminho entre o céptico e o franco deviam ser proibidas de sair de casa e sentar-se ao meu lado no Antiquari, um dos poucos sítios no mundo onde se podem escrever disparates destes e encontrar-lhes um sentido.

A geografia tem uma nova linha de clivagem: as cidades que têm um Antiquari e as que não têm.

Lisboa tem, Chama-se Café Tati. Londres e Paris têm imensos. Em Genève há a Ferblanterie, da minha amiga Daisy. S. Luis não tem nenhum café assim. A cidade de Panamá tem o Viejo Habana, mas fica a milhas, é só porque é bonito. Talvez nem deva figurar, não sei. St. Martin tem o Lagoonies. No Porto gosto de um onde fui no outro dia mas cujo nome não recordo. Em Cartagena de Indias frequentava a livraria Ábaco. Nos Açores há o Peter, claro. Em la Coruña também há muitos. Preciso de procurar o nome de um deles. Em Antigua era o Skullduggery, mas não sei se agora que a Sandra já lá não trabalha aquilo está igual. Em San Francisco gostava do Magnolia e do Hi Dive, mas não fiquei lá tempo suficiente para confirmar que estão nesta liga.

(O Hi Dive não está. Se bem me lembro é um bar).

(Os olhos não eram verdes. Eram castanhos).

9.2.16

Diário de Bordos - Palma de Mallorca, Baleares, Espanha, 09-02-2016

Ora bem. Vamos aos factos e só a eles. M. foi-se embora e deixou-me aqui com mais respostas do que perguntas, conforme já escrevi algures; está um badanal desfeito. Não liguei os instrumentos mas as rajadas na marina não andam longe dos trinta e muitos, coisa que reduz consideravelmente a minha vontade de sair; de qualquer forma no outro dia comprei um aquecimento eléctrico daqueles pequenos de modo agora o barco está suportável.

O aquecimento foi anteontem. Às seis e meia da tarde saltou-me o fusível do frio, peguei na burra e fui procurar uma loja aberta. As primeiras duas pessoas a quem perguntei responderam-me "agora só amanhã". A terceira disse "não sei, mas há ali um supermercado, vá ver". Fui ver. Não fazia ideia de que há um supermercado aqui no Muelle mas a verdade é que não consegui entrar. Quando lá cheguei o senhor estava a fechar. Expliquei-lhe o problema, perguntei-lhe se tinha aquecedores, que não e eu porra e agora? Não aguento mais o frio e ele "Deixa a bicicleta e vem daí comigo vamos procurar uma loja no meu carro" e fomos. Mais tarde, aí para a segunda nega percebi que ele de qualquer forma já estava atrasado para ir buscar a mulher e o filho (quatro meses) e logo a seguir encontrámos uma ferreteria aberta e com aquecedores eléctricos e ele veio trazer-me à burra - onde tinha de voltar também de qualquer forma porque se tinha esquecido do telefone portátil no supermercado -.

É um cubano e tão certo com eu me chamar Luís Serpa amanhã vou lá comprar nem que seja uma garrafa de vinho, porque se hoje estou em tronco nu o salão a escrever patetices é em grande parte graças a ele.

Enfim, não são bem patetices, são mais factos. O plotter não deve ficar pronto antes de sexta ou segunda mas isso agora pouco me arrefece porque antes de terça, ou seja de hoje a oito não vou conseguir largar daqui por causa do tempo.

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Outro facto é que o S. B. abana para caraças apesar de estarmos no fundo da marina, mesmo juntinhos ao edifício da Capitania, parece que está a dar de cotovelos para os outros matulões do lado não virem para cima dele. De vez em quando bufa e vibra e depois lá volta aos abanos.

Tenho um Amel 54 a estibordo e uma porra qualquer de cinquenta e qualquer coisa a bombordo e os quarenta e cinco do S. B. parecem pouco.

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Outro facto: Palma ou não prefiro de longe estar no porto a estar lá fora.

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E é assim. Pode encher-se uma noite de factos e ficar-se com uma falsa impressão dela, da noite quero dizer. Os factos estão muito longe de ser tudo. E não me refiro apenas à ideia do Nietzsche sobre o que fazer com eles. É que não-factos por vezes descrevem  realidade muito melhor, mais imprecisamente.

A realidade é imprecisa, deixa mutas coisas em branco ou em cinzento e os factos com esta mania de serem branco ou pretos não chegam, tantas vezes.

Claro que podemos sempre diluir os factos em vinho tinto e em Eric Dolphy, como faço agora.

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Ficando pelos factos: o tablet / híbrido que comprei em Atenas por cento e setenta euros não vale nem o primeiro terço desse montante. É o que me dá querer ser poupado.  Entre mim e a poupança há o mesmo abismo que entre um paraplégico e os cem metros barreiras; ou uma pessoa com um QI de 72 e a física quântica.

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Acabo no Cecyl Taylor. Contra factos não há argumentos.



(Não é sempre, graças a Deus, não sou nada dado a iconoclasias, mas por vezes oiço isto e penso que o Keith Jarrett bem podia ir tocar para as creches).

Amálgamas, urgências

Aquela mistura de amor e ausência que nasceu da ausência de amor; a das respostas para as quais procuramos perguntas, gentileza a agradacer tanto a quem deu as respostas como a quem formula as questões - o contrário é pior, muito pior -; aqueloutra mescla de presença e amor - isto é, duas presenças e um amor -; dois tempos que se olham com o olhar vazio dos leões de cerâmica dos templos chineses, leões com dúvidas, com hesitações, com respostas perdidas como estes chapéus de sol que o vento abate e empurra pela rua até que a empregada do café vá a correr buscá-los, não vão eles fundir-se na calçada e desaparecer como um truque de prestidigitação e levar com eles essas perguntas que me e te farei quando as encontrar, quando o vento acalmar, quando o frio aquecer e deixar de o ser.

Um frio quente; um calor frio; mesclas, amálgamas de quem não sabe viver de um lado só da linha, por muito sinuosa que esta seja.

Chove amorosamente, a água escorre devagar pelos vidros, vejo-te do outro lado, na rua, hesitante. Para que lado queres ir? Não se pode ir para os dois: a ausência é à esquerda e a presença à direita e se fores em frente não as juntas. Antes pelo contrário: perde-las. Não vás em frente.

Bebo chá, imagina tu. Com leite. Os chineses não digerem o leite. Fazem leões inexpressivos mas assustadores. Pergunto-me como pode uma coisa assustar se não tem expressão. Como estar e não estar, isto é, como estar ausente estando presente. Ou o contrário. Qual preferes?

Não sei. Gostaria que começasse a chover e a água escorresse amorosamente pelo vidro da janela do outro lado da qual tu estás. Mas não começa. Não estás. Nada acontece nunca como queremos quando queremos. As respostas nunca chegam com as perguntas. Chegam antes ou depois ou nunca.

A rapariga da mesa ao lado é jovem, deve ter dezoito anos; vinte talvez, vá. Faz sinais desesperados ao rapaz com quem fala. Diz-lhe ama-me. Quero-te. Amo-te. Mas ele está intimidado e não pára de falar. Ela ri-se e inclina-se para a frente, para ele. Encontrou as perguntas. Ou pelo menos a pergunta: "quando é que este gajo me vai pegar na mão?" São bonitos. A rapariga, o sorriso e o amigo. É jovem. Tem tempo.

Nós os velhos é que não temos. Amalgamamos tudo. Misturamos o que foi e o que será, por exemplo. Tentamos destrinçar entre uma ausência presente e uma presença ausente. Entre um corpo e o desejo desse corpo. Vivemos numa urgência adiada.

Uma mescla, mais uma.

(In Café l'Antiquari, Palma de Mallorca, provavelmente o melhor sítio do mundo para se escrever disparates).

7.2.16

Diário de Bordos - Palma de Mallorca, Baleares, Espanha, 07-02-2016 / II

A Jaime III estava cheia de gente. É por lá que passam os desfiles de Carnaval. As Escolas (ignoro se aqui têm esse nome também) não são apenas de senhoras - há-as com e de homens, mulheres e crianças de ambos os sexos em todas as combinações possíveis - e estão vestidas. E a música não é samba. Andei por ali um bocadinho mas tive de me vir embora: demasiada gente, demasiado barulho e ainda por cima com a burra pela mão.

Pedalei muito e acabei perto de onde começara: no Gibson, onde há dias me encontrei com B. e onde a wifi funciona, o aquecimento também e as miúdas são giras.

Só estive uma vez exposto directamente ao Samba carnavalesco. Foi no Rio de Janeiro em 1976. Tinha saído sozinho e fui a uma escola da qual me tinham falado. Nessa altura ser português no Brasil dava um handicap positivo e a senhora que estava ao meu lado no bar meteu conversa comigo quando me ouviu pedir qualquer coisa para beber.

Falei com ela um bocado e fui dar uma volta. O Carnaval não estava longe e havia uma certa azáfama. Só quando regressei ao bar e à companhia da senhora me apercebi que ela estava a dançar da cintura para baixo. Da cintura para cima mal se mexia, mas os pés e as pernas pareciam pertencer a outro corpo.

Fora esse dia o Carnaval não me entusiasma. Aos desfiles de hoje reconheço um lado bon enfant, mas agora é tarde para me seduzir.

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A constipação passeou pela cidade e agradeceu-me piorando. Vivi vinte anos na Suíça e nem assim aprendi a conviver com o frio.

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Os maiorquinos conseguem a rara conjugação de simpatia e gentileza com altivez, nobreza e dignidade.

A minha ideia de que poderia viver aqui ficou um bocadinho abalada com este frio; mas pouco. Questão de roupa, como dizia o outro.

E de aspirinas, digo eu agora que não tenho nenhuma à mão.

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Chá forte, quente, sem açúcar, com rum e limão. É a coisa mais perto da aspirina que conheço.

........
Consegui finalmente levar M. - e levar-me - à Casa Júlio, "mini restaurante". Uma grande casa e o resto é conversa.

Diário de Bordos - Palma de Mallorca, Baleares, Espanha, 07-02-2016

O remédio funcionou: troquei meia gripe por uma constipação completa. Fiquei a ganhar.

........
O La Belle Café em Palma, onde agora tomo o pequeno-almoço também organiza sessões de poesia, uma vez por mês. Calha no próximo sábado, mas é pouco provável - e ainda menos desejável - que aqui esteja.

Quem há aqui alguns anos teria predito esta renascença de poesia? Eu não, quando comprei isto numa edição da Dom Quixote em 1974.

Whoroscope
By Samual Beckett

Extract:

What's that?
An egg?
By the brother Boot it stinks fresh.
Give it to Gillot

Galileo how are you
and his consecutive thirds!
The vile old Copernican lead-swinging son of a sutler!
We're moving he said we're off - Porca Madonna!
the way a boatswain would be, or a sack-of-potatoes charging Pretender
That's not moving, that's moving.

What's that?
A little green fry or a mushroomy one?
Two lashed ovaries with prosciutto?
How long did she womb it, the feathery one?
Three days and four nights?
Give it to Gillot

Faulhaber, Beeckmann and Peter the Red,
come now in the cloudy avalanche or Gassendi's sun-red crystally cloud
and I'll pebble you all your hen-and-a-half ones
or I'll pebble a lens under the quilt in the midst of day
To think he was my own brother, Peter the Bruiser,
and not a syllogism out of him
no more than if Pa were still in it.

Hey! Pass over those coppers
sweet milled sweat of my burning liver!
Them were the days I sat in the hot-cupboard throwing Jesus out of the skylight.

Who's that? Hals?
Let him wait.

My squinty doaty!
I hid and you sook.
And Francine my precious fruit of a house-and-parlour foetus!
What an exfoliation!
Her little grey flayed epidermis and scarlet tonsils!
My one child
Scourged by a fever to stagnant murky blood-
Blood!
Oh Harvey beloved
How shall the red and white, the many in the few,
(dear bloodswirling Harvey)
eddy through that cracked beater?
And the fourth Henry came to the crypt to the arrow.

What's that?
How long?
Sit on it.

A wind of evil flung my despair of ease
against the sharp spires of the one
lady:
not once or twice but?
(Kip of Christ hatch it!)
in one sun's drowing
(Jesuitasters please copy).
So on with the silk hose over the knitted, and the morbid leather-
What am I saying! the gentle canvas-
and away to Ancona on the bright Adriatic,
and farewell for a space to the yellow key of Rosicrucians.

They don't know what the master of the that do did,
that the nose is touched by the kiss of all foul and sweet air,
and the drums, and the throne of the faecal inlet,
and the eyes by its zig-zags
So we drink Him and eat Him
and the watery Beaune and the stale cubes of Hovis
because He can jig
as near or as far from His Jigging Self
and a sad or lively as the chalice or the tray asks
How's that, Antonio?

In the name of Bacon will you chicken me up that egg.
Shall I swallow cave-phantoms?
Anna Maria!
She reads Moses and says her love is crucified.
Leider! Leider! She blomed and withered,
a pale abusive parakeet in a maistreet window.
No I believe every word of it I assure you
Fallor, ergo sum!
The coy old fr?r!
He tolle'd and legge'd
and he buttoned on his redemptorist waistcoat.
No matter, let it pass.
I'm a bold boy I know
so I'm not my son
(ever if I were a concierge)nor Joachim my father's
but the chip of a perfect block that's neither old nor new,
the lonely petal of a great high bright rose.

Are you ripe at last,
my slim pale double-breasted turd?
How rich she smells,
this abortion of a fledgling!
I will eat it with a fish fork.
White and yolk and feathers.
Then I will rise and move moving
toward Rahab of the snows,
the murdering matinal pope-confessed amazon,
Christina the ripper.
Oh Weulles spare the blood of a Frank
Who has climbed the bitter steps,
(Ren頤u Perrron?!)
and grant me my second
starless inscrutable hour. 


Notes
These notes were provided by the author.
1. Rene Descartes, Seigneur du Perron, liked his omelette made of eggs hatched from eight to ten days; shorter or longer under the hen and the result, he says, is disgusting. He kept his won birthday to himself so that no astrologer could cast his nativity. The Shuttle of a ripening egg combs the warp of his days.
2. In 1640 the brothers Boot refused Aristotle in Dublin.
3. Descartes passed on the easier problems in analytical geometry to his valet Gillot.
4. Refer to his contempt for Galileo Jr., (whom he confused with the more musical Galileo Sr.), and to his expedient sophistry concerning the movement of the earth.
5. He solved problems submitted by these mathematicians.
6. The attempt at swindling on the part of his elder brother Pierre de la Bretailli貥--The money he received as a soldier.
7. Franz Hals.
8. As a child he played with a little cross-eyed girl.
9. His daughter died of scarlet fever at the age of six.
10. Honoured Harvey for his discovery of the circulation of the blood, but would not admit that he had explained the motion of the heart.
11. The heart of Henri iv was received at the Jesuit college of La Fl裨e while Descartes was still a student there.
12. His visions and pilgrimage to Loretto.
13. His Eucharistic sophistry, in reply to the Jansenist Antoine Arnauld, who challenged him to reconcile his doctrine of matter with his doctrine of transubstantiation.
14. Schurmann, the Dutch blue stocking, a pious pupil of Vo봬 the adversary of Descartes.
15. Saint Augustine has a revelation in the shrubbery and reads Saint Paul.
16. He proves God by exhaustion.
17. Christina, queen of Sweden. At Stockholm, in November, she required Descartes, who had remained in bed till midday all his life, to be with her at five o'clock in the morning.
18. Weulles, a Peripatetic Dutch physician at the Swedish court, and an enemy of Descartes
........
Vou passear a minha constipação pela cidade.

6.2.16

Diário de Bordos - Palma de Mallorca, Baleares, Espanha, 06-02-2016 / II

Não percebo de onde vem esta porra desta barra sobre os cookies. Parece que é a mão protectora da comunidade europeia. Se fossem bater punhetas a grilos desperdiçariam menos tempo com inutilidades.

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A única maneira eficaz que conheço para me ver livre desta porcaria é transpirar selvaticamente e depois tomar um duche. Faltavam-me cobertores - só tinha o edredon da cama, debaixo do qual tinha tanto frio como se estivesse em cima dele -. Agora fui buscar duas mantas a uma cama vazia e parece-me que estou a caminho da cura. Dois dias de cama! Que desperdício.

Amanhã é o último dia inteiro de M. em Palma e ficaria desgostoso se ela tivesse de o passar com um deficiente. Isto é, ainda mais deficiente do que sou.

........
A tripulação deve estar a ver ou a preparar-se para ver o rugby. Teria gostado de assistir a um jogo com um especialista, apesar de ainda me lembrar do Super Bowl que vi em Antígua com o C. Retive uma regra ou duas, das dezenas que ele explicou; mas foi divertido.

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Claro que a cura vem do aumento de temperatura corporal, não da transpiração. Esta merda deste vírus não aguenta um bocadinho de calor.

E ainda há quem não goste dos trópicos.

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Comprei um blusão nos saldos. Imagino como estaria se não o tivesse comprado. Há muito tempo que não gasto setenta e dois euros tão bem gastos.

É leve e não vai ocupar muito espaço no saco. A ver quanto tempo dura.

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Lá fora Palma vive e respira e eu aqui a tentar transpirar tudo o que posso. Pode ser que funcione e que não venham hóspedes para aquele quarto. Pelo menos calor já tenho, finalmente.

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Trato de um barco e M. trata de mim. Não lhe invejo a sorte. Ao menos o S. B. não reclama nem se queixa ou explode.

Espera pacientemente que o electrónico lá vá para levar o plotter e que eu traga a adriça da grande e impermeabilize a vigia. Não tem febre nem acessos de mau humor.

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Já estive doente em Palma mas não quero sequer pensar nisso. Da outra vez fui parar ao hospital com uma intoxicação alimentar e uma crise de Meunière completamente desatinada. Foi um horror.

Desta não é comparável, graças a Deus.

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Esta hipersensibilidade febril ajuda-me pelo menos a ver a quantidade de coisas que todos os dias me toca na pele. "Tens uma pele de elefante", dizia-me S., a pessoa que melhor me conhece neste mundo e arredores.

Referia-se a outra pele, claro; mas não me importo nada de a ter nesta também.

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Comprei um livro do Browne em espanhol. Vou confrontar de novo outro dos meus preconceitos: do barroco só aproveita a música.

A tradução pareceu-me boa. Pode ser que um dia consiga fazer a mesma compra em português.

(E que esse maldito acordo vá para o inferno).

Diário de Bordos - Palma de Mallorca, Baleares, Espanha, 06-02-2016

Palma, doce Palma. Desta vez nem tanto: estou doente por causa do raio do frio que faz. Detesto estar doente: um corpo que nos trai não merece consideração. Passo muito tempo na cama mas apesar disso saímos, redescubro Palma e trabalho (a velocidade reduzida, mas trabalho).

Verdade seja dita, pouco tenho de fazer. O armador quer que o plotter seja reparado aqui - no que está podre de razão, de agora para a frente ou os preços aumentam ou a qualidade cai ou, mais frequentemente os dois juntos - e do que havia para fazer só faltam a adriça da grande e o Sikaflex na vigia da casa de banho de estibordo.

Estou um bocadinho ambivalente a respeito deste prolongamento. Até agora tem sido soberba, esta redescoberta simultânea de Palma e do amor; mas tenho vontade de ir para o mar, vontade de me ver fora do Mediterrâneo, vontade de chegar a St. Martin e de passar o Canal outra vez e de refazer em sentido contrário a costa Oeste da América Central, de parar no México e rever o A., tripulante de viagem infortunada e amizade duradoura.

É tempo de ir.

........
Releio o post anterior e lembro-me com saudade de quando pensava que dia quinze de Fevereiro estaria a sair das Canárias. Se tiver muita sorte estarei a sair do Mediterrâneo.

De qualquer forma não vou parar nas Canárias. Vou à Madeira e de lá rumo para Sudoeste até apanhar os alísios. Estamos a fazer aqui tudo o que eu pensava seria feito em Las Palmas.

4.2.16

Diário de Bordos - Palma de Mallorca, Baleares, Espanha, 04-02-2016/ Ao largo da Sicília, Mar Mediterrâneo, 24 a 27-01-2016

Palma é uma cidade feita para se percorrer de amor e de bicicleta. Tenho os dois, felizmente; ando (não é o verbo correcto. Deslizo) por estas ruas estranhamente vazias de fantasmas, feliz e leve. Revejo todas as ruas que tão bem conheço, os bares e cafés e restaurantes, a livraria Babel, onde oiço Chet Baker, bebo um Hierbas seco e ofereci a M. uma edição ilustrada e linda do Ítaca de Cavafis (foi ela quem o descobriu). Ontem fomos ao Antiquari, o outro bar que eu quero ter algures em Portugal; e jantámos no Ca na Chinchilla; e andamos de bicicleta pelo Paseo Marítimo.

Palma é uma cidade feita para amar e ser amado, de todas as maneiras. Andar de bicicleta é uma das formas de amar uma cidade e de por ela ser amado.

.........
A navegar no Golfo de Corinto. A noite está gélida mas linda, limpa, clara com esta Lua quase cheia. O vento vai e vem: motor e vela alternam-se. Uma hora um, outra o outro. Quando não há vento a temperatura sobe. A costa é uma longa fila de luzes: quilómetros de cidade ou, mais provavelmente, cidades.

Amanhã estarei no mar alto. Prefiro. Navegar assim tão perto da costa faz-me pensar que saí para um pequeno passeio de domingo ou uma prova de mar. Estou em terra há quase dois meses: uma foma triste de eternidade. É tempo de ver azul.

........
A passagem do Canal de Corinto é um momento quase indescritível: paredes altíssimas, verticais, cheias de árvores que apesar do pouco vento abanam e parecem fazer-nos uma vénia. A água tem uma cor bonita, quase transparente. O canal é muito estreito, um corredor de casa antiga. Com este já passei pelos quatro ou cinco mais importantes: Suez, Panamá, Kiel; mais o Bósforo e Gibraltar, Dover, Malacca e Singapura, do qual ainda me lembro perfeitamente apesar de ter sido há tanto tempo.

........
Entrei de quarto há meia hora. Puto de vento. Um armador norueguês disse-me um dia “Não se deve dizer estou com frio, mas sim estou insuficientemente vestido”. Segui-lhe o preceito: três pares de meias (dos quais dois admitidamente finos), ceroulas e calças, cinco camadas de roupa no torso, dois gorros e luvas. Mesmo assim tenho os pés gelados, as pernas frias e o torso assim assim.

……..
Força 4, bolina folgada. O S. B. inclina-se como aqueles patinadores de velocidade que põem uma mão atrás das costas e quase se deitam para irem mais depressa e desembesta por aí fora - seis, sete nós -. A brisa está irregular mas mesmo assim raramente descemos dos cinco e meio.

É um destes desenhos modernos, casco quinado com o [maître bau] quase na popa.

A temperatura subiu. Hoje tive calor, debaixo das minhas cinco colchas. E agora, de quarto, aguento-me bem sem luvas. Nas Canárias já não nos lembraremos de como foi esta saída.

[Ajuda na tradução seria bem vinda, Mais não fosse terei de voltar a Portugal para reaprender a falar]

........
Pela popa está a Calábria; a bombordo, tão perto que quase posso ler os nomes das ruas a Sicília; à proa as Eólicas, tão ventosas que deram o nome ao Deus do vento (ou dele o tomaram); a estibordo o Stromboli. O cenário não é mau.

Vou seguir a costa siciliana até Palermo e aí decido se terei de ir à Sardenha meter gasóleo ou se vou directamente para Espanha: Almeria ou Cartagena. Gosto das duas por razões diferentes. Talvez escolha Almeria: a última vez que lá estive foi muito de raspão. Desta também será, mas dois raspões fazem um toque, não fazem?

........
O dia está a acabar. O frio voltou. Hoje em Reggio andei pendurado no mastro em tronco nu e pensei "Finalmente um país civilizado". Depois fomos todos almoçar a uma Trattoria à qual Saverio nos levou. Estava óptimo e comemos de mais.Tivemos uma pequena antevisão de como vai ser nas Canárias: calor e boa comida na jamoneria cujo nome esqueci. O dono é um senhor gordíssimo que sabe a história de todos e cada um dos presuntos que vende: de onde vêm, o nome do porco, o que este comeu e assim por diante.

........
Comprei um queijo, pão e alho ao Saverio. Ele ofereceu-nos uma garrafa de grappa e algumas cervejas. Da outra vez que aqui estive não fui muito à bola com o homem. Desta fiquei fã.

Um dia terei de falar dele. É uma figura incontornável para quem faz escala em Reggio di Calabria. Uma personagem que se vê demasiado ao espelho, Mas é simpático, eficaz, vende um queijo parmeggiano divino e faz um vinho idem. Deste não comprei: já tenho duas garrafas a bordo que não posso beber enquanto não estiver pelo menos uma noite em terra.

Está como para os aviadores: nada de álcool oito horas antes da largada.

........
Mas tudo isto tem um preço demasiado alto. Acabam de me convidar para ler uma poesia na festa de aniversário de um dos meus bares favoritos em Lisboa e nesse dia estarei muito provavelmente a largar das Canárias.

Um homem tem duas pernas, mas eu ando só numa.

……..
Um dos tripulantes tem um plano de televisão, net e telefone que lhe dá direito a trinta e cinco dias de net gratuita em cada país europeu onde vá.

Até há pouco estive online. Agora o sinal acabou. Lamento a mágica solidão marítima dos outros tempos e compreendo a sua impossibilidade hoje. Todavia gosto desta ideia de poder escrever e publicar no blog a navegar.

……..
Poder dizer em “tempo real” (abomino esta expressão) a beleza da costa pela qual passo: andar entre Scila e Caribdis sem ponta de vento é obra. O mar parece um lago e o S. B. arrefinfa-lhe bem. É frugal nos consumos, confortável, a milhas da qualidade do S. M mas aceitável.

Há pessoas que preferem barcos baratos a barcos bons e de certa forma têm razão: para a utilização que deles fazem é ter dinheiro parado numa marina.

Pessoalmente prefiro os bons, mas para mim é fácil: não tenho dinheiro para nenhum deles. Não poder por não poder antes gostar do que é bom, como por exemplo um X.

……..
Fiz rumo a Cagliari antes do que previra. Mais uma escala para bancas. Não são propriamente as escalas que me chateiam – são curtas de mais para isso – mas aquilo que as provoca: falta de vento. Não fosse a temperature e julgar-me-ia no Verão, que diabo!

……..
Acabamos de ser abordados pela Guardia Finanza. Muito delicados; pediram-me os papéis da embarcação e fizeram-me acordar o S., que estava a dormir depois do seu quarto. Só para o verem, explica-me o chefe do bando, sempre delicado e professional.

Não encontro o certificado de seguro. Deve ter ficado em Atenas.

- Em águas italianas é preciso o certificado.
- Eu sei. Tenho os seguros em dia – oh se tenho. Foram uma das razões do atraso para sair de Atenas – só que devem estar no computador e aqui não tenho net.
- De qualquer forma estamos em águas internacionais. Não faz mal. Para onde vai?
- Para Gibraltar, mas talvez precise de parar em Cagliari se precisar de combustível.
- Ah, então vai para Cagliari.
- Não. Vou para Gibraltar. Só páro em Cagliari se precisar de combustível.
- E como sabe se vai precisar de combustível?

Expludo mas fica tudo cá dentro. Muitos anos de prática a lidar com atrasados mentais.

- Se houver vento não preciso de gasóleo. Se não houver, preciso – falo devagar, como se falasse a um miúdo de seis anos. O homem sente-se mal. Ao menos isso.
- Ok, boa viagem. Mas olhe que em Cagliari precisa do certificado de seguros.

Mete o certificado no cu, inútil de merda, parasita, sanguessuga desocupada. Puta que te pariu mai-los seguros.

Penso isto tudo ou mais e faço rumo directamente a Cagliari não vá o imbecil reaparecer dqui a meia dúzia de milhas. Ainda não recuperei o dinheiro da multa da Jamaica – não o recuperarei nunca, provavelmente -. Não me apetece alimentar esta cáfila internacional de ladrões.

……..
Acabo de ler Hotel, de Paulo Varela Gomes. A melhor coisa escrita em português que me caiu nas mãos em muitos anos. Duas ou três pequenas falhas de revisão num mar de qualidade, criatividade, personagens bem urdidas, uma história magnificamente contada, ironia subtil, cultura, humor, português bem escrito.

Termino o livro com pena. Felizmente M. tem bastantes no seu computador e vou encontrar alguma coisa de jeito.

……..
Chateia-me parar em Gibraltar mas é pouco provável que consiga evitá-lo. Paciência. Vou comer ao restaurante judeu e comprar livros na livraria. Já não há mais nada que fazer em Gib, transformada num centro commercial para turistas. Os bares sórdidos cheios de soldados desapareceram, a novidade da Coca-Cola e do Crunchie e dos banhos públicos também.

Durante alguns anos ainda gostei de lá voltar, mas desta não me apetece mesmo. Que se lixe. O que não tem remédio remediado está.

……..
M. é giro. Faz tudo por séries: visita cidades antigas (um dia apanhou um avião para Istambul e regressou à sua Gales natal passando por todas as cidades antigas do caminho), lê os prémio Nobel (agora está no Saramago. Leu-os todos, mesmo os que achou difíceis e chatos) e assim por diante. Faz religiosamente tudo o que eu lhe digo para fazer, mas não percebe a razão por que eu lhe digo. S. é mais vivo, excelente pessoa, bem-educado. É o inevitável vegetariano – desta vez para lutar contra o sofrimento dos animais -. Adoro o rapaz mas esta porra dos vegetarianos já começa a enjoar-me. Ando há anos a aperfeiçoar um repertório de receitas para serem feitas numa só panela e com isto tenho de deixar de misturar a carne com os legumes.

Enfim, podia ser pior. São ambos bons tripulantes, fiáveis, com conversa e sentido de humor. A isto tudo S. acrescenta uma excelente colecção de música.

………
Se vestir-se apresenta problemas apaixonantes, despir-se não é deles inteiramente desprovido. A razão sendo que um gajo sai de quarto por exemplo às três da manhã, como agora, não completamente enregelado mas lá perto e tudo o que quer é despir-se e meter-se na cama (dantes beliche. Agora seria mais do que uma injustiça uma inexatidão). Como em tudo o que respeita ao leito há que conter-se. Despir-se a granel e sem atender à devida ordem tem duas consequências, ambas desagradáveis: primeira (por ordem decrescente de importância) as roupas não ficam ordenadas para quando for preciso vestir-se daqui a aproximadamente cinco horas e segunda o frio fica desigualmente distribuído pelo corpo: pés gelados e torso apenas frio, por exemplo. Há que respeitar regras, procedimentos, ter calma e ir tirando a roupa de modo a manter o equilíbrio térmico de todas as zonas do corpo.

Mesmo assim tão agradável é como forçoso reconhecer que um gajo se despe mais depressa do que se veste, coisa que se verifica também noutras ocasiões relativas à cama.

Como se pode ver não há actividade menos monótona do que a pilotagem de uma embarcação de recreio quando não há vento. Os temas em que pensar são inúmeros e o tempo que se lhes pode dedicar permite um aprofundamento que nenhuma outra actividade - com a possível excepção da condução de uma bicicleta numa estrada sem trânsito - permite.


.........
Chegámos finalmente à Marina perto de Cagliari onde vamos fazer bancas. A viagem foi chata: cinquenta e oito horas de motor em menos de três dias. (Quem, eu incluído comentava "ah, o Med no inverno etc. e tal" está servido. Em seis dias de navegação tivemos um de vela. Bolina, mas vela).

Felizmente há coisas importantes com que ocupar o espírito, para além de ver navios (pouquíssimos) ou estar atento a possíveis problemas do motor (nenhuns. Inch'Allah). Eu por exemplo procuro a resposta a uma pergunta que faço cada vez que tenho de vestir as quatorze peças de roupa com que ando vestido quotidianamente (não incluo os gorros e as luvas porque estão na mesa do poço e de qualquer forma agora só os ponho ocasionalmente). A pergunta é: por que devo pôr as meias na mesma ordem em cada pé?

É uma questão séria, na qual os meus abnegados e cultos leitores reconhecerão alentos beckettianos e que nos leva para as vastas estepes da estética, simetria, educação, pressão social, consciência de si e ocupação dos tempos livres.

Um gajo usa três pares de meias porque se não tem frio nos pés. É óbvio que se no pé esquerdo estiver primeiro a branca, depois a azul e por fim a preta e no direito a ordem for a inversa esse objectivo - não ter frio nos pés - é tão atingido (não é, nem nada que se pareça. Mas isso são bolinhas de outro terço) como é quando nos dois pés a ordem das meias é a mesma.

Apesar disso faço um esforço, três ou quatro vezes por dia, para calçar as meias pela mesma ordem.

As razões estéticas podem eliminar-se imediatamente: ando todo o dia de botas; a pressão social idem: a bordo não há grandes preocupações com o que cada um leva vestido e como; e assim por diante.

Claro que nos vem imediatamente à memória a história de Selznick com as cuecas de Vivian Leigh em Tudo o Vento Levou: "mas para quê mandar fazer cuecas de seda como as que se usavam no séc. XIX?" pergunta a actriz. "Ninguém sabe o que eu uso por baixo das saias". "Tu sabes", responde-lhe o grande Selznick, que acabou a vender os direitos do filme quando já não lhe restava nada porque seguiu à risca o preceito do pai: "de viver com o que tem qualquer idiota é capaz. Difícil é viver acima do que se pode".

Vêem o que quero dizer? Começa-se com um problema de ordem das peúgas e acaba-se com David Selznick, Vivian Leigh, as pedras no bolso de uma personagem de Beckett, o frio no mar e - sobretudo - a falta de vontade de dar duzentos euros por um par de botas de couro. Isto é, mesmo que os tivesse, duzentos euros é uma pipa de massa para dar por um par de botas.

Quando o debate entra por estes comezinhos problemas de dinheiro lembro-me do pai de Selznick, respondo que não me chamo David e não sou produtor de filmes (com grande pena minha, acrescento) e penso noutra coisa.

E assim já passou uma boa meia-hora. Ou mais. Não há monotonia no mar. Há sempre coisas em que pensar.

.......
Parei em Reggio para fazer bancas, ou, de uma maneira mais compreensível, meter gasóleo. Em Atenas o litro de diesel custou um euro e quatro cêntimos. Em Reggio um e quarenta e nove. Cento e quinze litros (o S. B. é um bote frugal: dois litros e meio à hora) custam cento e setenta e tal euros. Faço uma observação bem-humorada e nada agressiva ao senhor da bomba e ele responde-me na mesma moeda: "estamos aqui ilegais e..." Perco o resto da explicação e pergunto-me se lhe devo perguntar ou não.

Deixei ficar. Talvez tenha percebido mal e ele me tenha dito "estamos legais e..." Mas prefiro a primeira hipótese: o combustível é caro porque é ilegal atrai-me mais do que a realidade. O combustível é caro porque os políticos são mafiosos que se equivocaram.

Enfim, na Calábria não se chama Máfia. Nhangreta, ou coisa que o valha.

Estive em Almería pela primeira vez há muitos anos. Ainda não havia aquelas estufas que envenenam a paisagem. Lembro-me das terras vermelhas e de um magnífico jantar de tapas com a tripulação. Pouco tempo antes tinha estado em Cartagena, mas não vi nada da cidade. Ficou-me para sempre a imagem de uma tripulação de submarinistas ingleses a perguntarem-me no cais "onde é que estamos?" e a excitação que se seguiu quando respondi "Cartagena". No dia seguinte os jornais falavam de destruição da cidade por hordas de marinheiros bêbados.

Tive uma vez uma namorada que quis morrer em Cartagena. Faltou-lhe coragem, felizmente. Atravessei a cidade toda a correr; uma avenida de peões grande e larga. Quando cheguei a bordo era falso alarme, mais um.

A rapariga vivia da e para a palavra. "Quero matar-me" e morria; "amo-te" e amava-me; "desculpa" e desculpava-se. Não se apercebia da ausência de correspondência entre as palavras, o que delas ela fazia e a realidade. Mas em Cartagena eu ainda não sabia isso e corri afogueado a cidade toda, eu que não sou capaz de correr mais de cinco metros seguidos.

23.1.16

Diário de Bordos - Kalamakis, Atenas, Grécia, 23-01-2016 / II

Volto ao restaurante onde ontem acabei a noite. O bouzouki toca ainda melhor, o viola idem e a cantora mudou ligeiramente a cor do cabelo.

Vim com a tripulação,  Mas está cada um agarrado ao seu telefone. De qualquer forma é difícil ouvirmo-nos e vamos ter três meses e meio para falarmos.

Esta é uma das inegáveis vantagens da modernidade: estou aqui e na Praia das Maçãs, oiço música grega e leio um blog português, troco uma frase com um dos tripulantes e comento um post no Facebook.

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Aprecio a liberdade de fumar, na Grécia. Fuma-se em qualquer sítio. Mas às vezes é um pouco exagerado. Não percebo como num restaurante apinhado como este há pessoas a fumar à mesa.

Como antigamente...

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Estou subjugado, é o termo. Percebo finalmente porque é que este povo acreditou nas balelas do Tsipras: vive afogado em beleza.

E a um afogado não se pede que veja.

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Não sei o que melhor exprime a alma de um povo: se a sua música se a suas mulheres.

Neste caso coincidem. A rapariga pode não cantar tão bem como o bouzouki e o viola tocam mas têm uma voz bonita, grave, canta poucas vezes e é linda de morrer.

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Pena o cheiro a tabaco, verdadeiramente exagerado.

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Impus um recolher obrigatório porque saimos amanhã. Vai ser difícil respeitá-lo. É bom. Todas as partidas devem ser dolorosas.

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O ambiente é sublime. Que se lixe o cheiro a tabaco. Hoje comprei uma camisa no supermercado.

Diário de Bordos - Kalamakis, Atenas, Grécia, 23-01-2016

Esperava gostar de Atenas; tudo o que viesse depois do que por aqui passei seria bom. Nunca pensei que gostaria tanto e pelas razões porque gosto: a simpatia das pessoas, prestáveis e sempre com um sorriso na cara; a beleza absolutamente deslumbrante das mulheres - foi a isso que o Chico escreveu aquele magnífico hino, aposto -; a comida; poder andar de táxi à frente sem ser chateado com o cinto de segurança.

Há muito naturalmente duas ou três coisas que não mudaram. São poucas, felizmente. Uma delas, a pior, é a a absoluta falta de respeito dos automobilistas pelos peões.

Com o Mark em 1981 chegámos a um ponto tal de saturação que um dia começámos a dar murros num autocarro que nos tinha cortado o caminho numa passagem de peões. O condutor saiu, contornou o veículo pela frente e veio para nós. Quando nos viu parou e começou a desafiar os passageiros para virem também. O Mark e eu decidimos que não era o momento certo para criar um incidente diplomático envolvendo três países e saímos dali calma mas rapidamente, com a namorada dele, uma miúda magrinha e com as pernas em forma de x cujo nome acaba de me ocorrer - Debbie - pela mão. Ela não conseguia andar depressa e tínhamos de a puxar.

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Ontem voltava do Agora e tive uma pequena e esperava eu passageira necessidade de comer. Era meia-noite e queria comer uma coisa rápida. Entrei num restaurante no qual um trio tocava música grega. Bouzouki, voz e viola. O bouzouki era excepcional, a viola seguia e a voz acompanhava (como era bonita não se notava muito que havia um pequeno desfazamento). Acabei por ficar, pedir mais deste vinho tinto tão leve que parece água com um bocadinho de corante e mesmo assim consegue não ser rosé. Às duas o dono do restaurante veio chamar-me para a sua mesa, onde estava com a mulher e alguns amigos.

Fiquei até às três e quase meia, a conversar sobre o Tsipras, Syriza, Merkel e companhia. As opiniões na mesa divergiam mas a conversa foi civilizada. Hoje vou lá jantar com a tripulação.

O grupo é tão bom que merecia um convite para tocar em Portugal.

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E é isto. Amanhã largo. Se tudo corresse bem só pararia nas Canárias. Mas é raro as coisas correrem bem. Só espero que não corram muito mal e não apanhe nenhum arraial pela proa. É pedir muito, eu sei. O Mediterrâneo no inverno é um horror.

Mas são quinze dias. É um piscar de olhos.

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Se bem com o frio que está até passarmos a Sicília vai ser uma seca.

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Tenho tido sorte com as tripulações, ultimamente. Esta excede tudo o que tive até agora. Bato na madeira três vezes, ou as que forem precisas para que continuemos como estamos agora.

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Os gregos não são propriamente silenciosos mas numa mesa na outra ponta do restaurante está um grupo de brasileiros. São os únicos que se ouvem. No Brasil as pessoas habituaram-se a falar aos gritos por causa do ruído ambiente e depois é difícil adaptarem-se a outras necessidades.

22.1.16

Diário de Bordos - Kalamakis, Atenas, Grécia, 22-01-2016

A primeira vez que vim a Atenas foi em 1981 (isto diz-me agora a Wikipedia, abençoada seja. Não sei porquê estava convencido que tinha sido em 1983). Cheguei no dia seguinte a um tremor de terra que destruiu a cidade. As pessoas estavam aterrorizadas; nunca tinha visto tanto medo, um medo colectivo que se sentia por todo o lado e parecia água a espalhar-se pelas ruas, cheias de tendas. Muita gente ficara sem casa; outros tinham simplesmente medo. Foi em Fevereiro e estava frio.

Viera à boleia desde La Chaux-de-Fonds com uma rapariga francesa jovem e insuportavelmente burra. Dormíamos na pensão de um sri-lankês cuja namorada era finlandesa ou dinamarquesa; tinha vindo para Atenas para se desintoxicar. A rapariga era heroinómana e em Atenas era difícil arranjar droga. Mais tarde descobri que estava longe de ser a única: havia muita gente nessa altura a fazer o mesmo. O sri-lankês fechou-a quinze dias num quarto e cobriu as paredes de colchões para ela não se magoar. Quando saiu do quarto ficou a trabalhar na pensão e pouco tempo depois mudou-se para o quarto dele.

A jovem francesa com quem eu tinha feito a viagem estava obcecada com o tremor de terra e com as suas sequelas. Todas as noites me acordava.

- Sentiste?
- Não. Deixa-me dormir, miúda. - Tinha dezoito anos e havia-me sido entregue com muitas recomendações por um tio com quem estava na Suíça a passar uns dias. Era gira e ao fim de dois dias não a podia nem ver.

Uma semana depois de chegarmos veio dizer-me que tinha encontrado um francês e se ia embora com ele. Não sei porquê tenho na cabeça que era sábado. Nesse dia fui almoçar com um casal de americanos que estava na mesma pensão. Durante o almoço ocorreu a grande sequela do terramoto. Foi a primeira vez que senti um tremor de terra. Parecia que estava num comboio em movimento.

Clientes e empregados esconderam-se debaixo das mesas. Ao nosso lado um grego - o único para além de nós que continuara sentado a comer - recebeu um pedaço de estuque no prato de sopa. Levantou-se para ir à cozinha reclamar mais sopa, mas o cozinheiro não quis sair de debaixo da mesa e recusou. O cliente serviu-se, voltou para o seu lugar e piscou-nos o olho.

Pouco tempo depois encontrei uma americana, judia e linda, com quem ouvia jazz num café da Plaka, o único em Atenas nessa altura onde se o podia ouvir. O dono tinha vivido na América, provavelmente. Não me lembro. Ela e a amiga com quem viajava iam para Creta e decidi ir também. Estávamos apaixonados. Em Creta iríamos finamente dormir juntos. Foi o meu primeiro contacto com a cultura, o sentido de humor, a beleza e a sensualidade judias.

Do grupo que se juntava naquele sítio por causa do jazz fazia parte um tunisiano que vivia em Atenas. Na véspera da saída para Creta, quando saímos do café convidou-me para ir a casa dele beber um copo e ouvir já não sei o quê.

Ao primeiro gole da bebida vi que tinha alguma coisa. Mas já não consegui reagir. O animal pôs tanta coisa no copo que um gole foi suficiente para me pôr a dormir a noite toda. Acordei no dia seguinte num jardim. Ainda corri para a pensão para fazer o saco e fui trôpego e cambaleante ao Pireus. Quando lá cheguei o ferry para Creta estava a sair. Nunca mais vi a minha americana, cujo nome esqueci. Eu estava mal, cheio de tonturas e náuseas. Não conseguia falar, não percebia o que me tinha acontecido. No caminho de regresso a Atenas senti uma dor no rabo, fortíssima.

Tinha uma queimadura de segundo grau nas nádegas; como se, explicou-me o médico, me tivesse sentado em cima da placa de um fogão eléctrico.

A minha memória deste episódio é obviamente inexistente. Por vezes ocorre-me de fugida que quando acordei no jardim estava em cima de qualquer coisa quente e talvez tenha sido aí que me queimei. Não sei. Interessa pouco. O médico disse-me também que não havia sinais de violação e enrolou-me uma ligadura a toda a volta da cintura. Não é preciso ser grande especialista para perceber que aquilo não era sustentável. Felizmente o casal americano tinha boas noções de primeiros socorros e foram eles que me trataram dali em diante.

Já não me lembro de quanto tempo passei em Atenas até a ferida cicatrizar e ser capaz de me sentar o tempo suficiente para regressar à Suíça. Eles vieram comigo e ficaram em minha casa cinco meses. Suponho, mas não tenho a certeza, que o tunisiano quis impedir-me de ir para Creta com a jovem americana.

........
Estou de novo em Atenas. Enfim, "de novo" é um pormenor técnico que não corresponde à realidade. Nem a cidade nem eu somos os mesmos.

Hoje há jazz por todo o lado, a Plaka é um abominável antro de turistas, a minha saúde está boa e a senhora por quem espero apaixonar-me um dia em Lisboa, numa casa perto do mar. Atenas, uma cidade pela qual não tinha grande afecto encanta-me. Lembrava-me dela poluída e suja, dos gregos façanhudos (impressão que um cruzeiro num iate à vela pelas Cíclades em 2004 e uma recente passagem muito rápida por um porto na costa oeste do país não desfizeram) e não são. Antes pelo contrário: sorridentes, prestáveis, simpáticos. E bonitas, inesperadamente bonitas.

Anteontem fomos a Atenas, a tripulação e eu. O meu objectivo era rever a Plaka, comer num restaurante daqueles onde ninguém fala inglês (reminiscência de uma tentativa de emprego da outra estadia, em que trabalhei num restaurante do qual nem os clientes nem o pessoal da cozinha falava uma palavra de qualquer língua que não fosse grego. Para as encomendas levava um menu às mesas e os clientes marcavam o que queriam com cruzinhas. Depois levava o menu à cozinha e eles davam-me um "novo" - isto é, com as cruzinhas apagadas -. Para entregar os pratos percorria o restaurante com eles numa travessa até uma mesa reconhecer a sua encomenda. Trabalhei pouco tempo porque o patrão me substituiu por uma ou duas canadianas obesas).

Começa por que hoje em Atenas toda a gente fala inglês. Até o funcionário da Carris local que vende bilhetes numa estação precária, gélida e longe de tudo foi capaz de me explicar como chegar à marina. Num bar - que não tinha rigorosamente nada a ver com os bares da Plaka dos quais tenho uma memória difusa - perguntei ao barman (um jovem elegantíssimo, alfaiate de profissão) qual o bairro dos artistas que ainda não são. Keramikos.

(Nesse bar vi mais ou menos o meu futuro: pequeno, lindo, com bebidas de qualidade e preços a condizer; e descobri uma bebida grega chamada Mastika, feita com a seiva de uma árvore que só cresce na ilha de Kios.)

Em Keramikos fiz uma das melhores noitadas da minha vida: comemos uma mistura de especialidades gregas no café Philos, ouvimos excelente jazz ao vivo no bar Kerameio, entrámos numa associação de artistas que estava a preparar uma exposição e tinha algumas fotografias interessantes, dancei música grega com os artistas e finalmente voltámos ao café Philos beber mais um copo (como se tivessem sido poucos os que até ali bebêramos ).

Voltámos para bordo às quatro da manhã bêbedos de Mastika, vinho, cerveja, raki (grego, mais uma descoberta), ouzo e bom humor.

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Na associação falei com um jovem artista sobre Tsipras. Para ele o homem não é um aldrabão. É uma vítima.

Quando me despedia das pessoas para nos virmos embora uma artista gorda e feia recusa o beijinho que lhe ia dar. Não percebi se por causa do Tsipras se por não dar beijos a estranhos, mas inclino-me mais para a primeira hipótese.

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Essa noite de festa fez-me pensar na quase inconcebível e fascinante fragilidade dos maus momentos. Não há um que resista a uma boa mistura de mar, música, boa comida e amor, mesmo longe.

........
Uma boa maneira de se escolher um bar, café ou restaurante em Atenas é ver se ele tem o nome em cirílico. Se o tiver escrito em caracteres romanos pode passar-se.

19.1.16

Metade

É a história de um anjo a quem alguém chamou Ternura. Passava-me pela face todos os dias, roçava-me os lábios, olhava-me nos olhos a dizer-me Quando souberes voar estarei aqui para ti, mas até lá não.

Voar é fácil. Basta olhar atentamente para onde queres ir. A paz, por exemplo.

Mas os anjos são maus professores de voo. Aprenderam sozinhos a voar e voar sozinho é como beber metade do mar: parece muito, mas não passa de metade.

Arrogância, carências

Uma vez disseram-me "estás carente" como se me dissessem "tens gonorreia", "roubaste a gamela do pobre" ou "achas bem andar atrás da mulher do vizinho, que é gorda, careca, desdentada, mal-educada, não tem gosto nenhum e ainda por cima não se lava?"

Em Portugal estar sozinho contra vontade e tentar deixar de o estar é motivo de vergonha. Como de resto qualquer tentativa de mudar uma condição da qual não se gosta: a ambição é mal-vista, por exemplo. Querer um emprego melhor ou não se conformar com o que a sorte nos trouxe é ser fraco. Pobre. Carente.

Somos um país de super-homens estóicos, abúlicos e calados. Inconformado, apaixonado, impaciente, independente, desrespeituoso e livre pergunto-me se um estóico e abúlico involuntário não será simplesmente um palerma, mais um.

Acho que não. Seria arrogância, que tão pouco deve ser vista muito pela rua.

18.1.16

A palavra

Acordas a meio da noite. Queres dormir mas estás irrequieto, inseguro. Falta-te uma respiração ao lado, uma pele.

Não sabes o que te aconteceu e menos ainda o que fazer. Olhas à tua volta. O quarto está às escuras e não tem respostas. Não as teria, de qualquer forma, mesmo iluminado: é em ti que elas se escondem.

Vou dar-te uma sugestão: pega numa palavra, uma qualquer. Amor, céu, triângulo, via láctea, Sirius, que é a tu estrela favorita. Uma qualquer.

Escolhes amor - ou talvez tenha sido ela a escolher-te -? Não sabes. Massaja-a bem, afaga-a, acaricia-a, molda-a nas tuas mãos em concha, aperta-a com força. Talvez amor seja a palavra mais bonita do léxico porque nela cabes tu e o mundo, o passado e o futuro, a luz e a sombra, tu e a pessoa que amas, a alegria e a felicidade e a dor. Tens a palavra nas mãos. Molda-a. É tua.

Aconchega-a bem: é frágil. Dá -lhe de comer: tem fome. Acolhe-a no teu regaço como se tivesse acabado de nascer.

Quando tiveres a certeza oferece-a. Já não é só tua.

Para a M., co-exploradora dos caminhos incertos do futuro, com e ao nosso amor caril.

14.1.16

Partir, partir

Os ingleses têm dois verbos: to leave e to break. Os franceses também: partir e casser. Os portugueses, que sabem do que falam usam o mesmo verbo: partir. Partir é partir-se e partir: algo se quebra a cada partida.

Abraço

Um par de pernas a abrir-se à minha frente antes e a ficar aberto depois, tão aberto que mais parecia braços do que pernas.

Respirava ela e respirava eu, devagar e ao mesmo tempo; olhávamos para o tecto. Talvez; ou talvez mais para dentro porque depois daquele abraço pouco ou nada há para ver que se queira ver ou não se tenha visto antes.

E depois, verdade seja dita: pára-nos o tempo, o ar flui mais devagar, mais de fundo, mais de como se não houvesse peso.

Era assim: ela na cama estendida de braços abertos até ao céu e eu calado não fosse o céu estragar-se e fechar-se.

- Queres um cigarro?
- Não, obrigado.
- E um whisky?
- Também não, obrigado.
- E um obrigado?
- É recíproco.
- E um beijo?
- Também.
- E silêncio, queres?

Não quero nada se não olhar-te e perder-me no abraço dessas pernas, nesse abraço que é o mundo todo inteiro, nos teus olhos gratos, saciados e felizes.

13.1.16

Diário de Bordos - Lisboa, 12-01-2016

Para fazer avançar uma bicicleta é normalmente necessário pedalar. Como a Vitus não é uma bicicleta dispensa essas trivialidades e avança sozinha. Eu só pedalo para fingir que estou numa burra. Não estou. A Vitus Turbo é um objecto não categorizável, ataxinómico, independente; que por acaso me trouxe até à Casa Independente porque foi rejeitada num outro local.

Foi a segunda vez que hoje alguém - pequenos Hitlers, preciso já - proibiram a Vitus de entrar. Não especifico quais porque não quero envergonhá-los. Há dois tipos de razões pelas quais isso é um erro.

a) Razões relativas: a Vitus é a bicicleta mais bonita que os ditos cujos pequenos ditadores viram, terão visto e verão na sua vida;

b) Razões absolutas: não há absolutamente razão alguma para se proibir a entrada de uma bicicleta - seja ela bonita, feia ou assim assim - num local.

Enfin, passons.

De modo é isto. Na Casa Independente não só me deixam entrar com a Vitus como ainda a elogiam. Uma bicicleta tem esta vantagem. Alguém imagina entrar num café e ouvir: "a sua senhora é muito bonita"? Não, claro. O que é pena. Devia ser prática habitual e socialmente aceite. "Que linda está a sua mulher hoje". "Eu tenho duas bastante parecidas, mas a sua é mais bonita". "E mais leve" (depois de lhe pegar. Podia ser "E as mamas são mais duras", por exemplo).

Duvido.

........
Fui ao teatro ver uma peça de Beckett chamada Not I (Não Eu). Brilhante interpretação. Exemplar. Soberba. Deitou por terra todas as dúvidas que tinha a priori. Doze minutos de encantamento.

A actriz chama-se Inês Pereira, para quem quiser saber; e o encenador Miguel Sopas.

........
"É difícil seguir o raciocínio", diz uma jovem espectadora à saída.

O meu cérebro ainda está meio anestesiado e só ouve: seguir; raciocínio; e depois, interior: Beckett.

"Seguir o raciocínio de Beckett"?

Raciocínio. Beckett. Alguém vê nestas duas palavras o mesmo que eu?

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Inês Pereira, Miguel Sopas. T'inquiète pas, Samuel. T'aurais accepté.

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Amo-te e não te desejo. Crueldade. Estupidez. Vida.

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"Les vieux cons" c'est un oximoron. Plus on devient vieux moins on devient con.

12.1.16

Lisboa, vida

I don't mean to suggest
That I loved you the best

(L. Cohen)

Estou longe de ser o melhor dos teus amantes, Lisboa. Há-os mais ricos, mais cultos, mais presentes. Mas dos tesos trogloditas e fugazes estou de certeza no pódio.

Amo-te e pedalo-te desde a livraria Galileu em Cascais àquela tasca em Alcochete onde há muitos anos me engrossei de tal forma que não me lembro nem do nome nem do que comi. Só me lembro do bom que estava a tasca e do bem eu.

Ficam-te bonitas as mulheres e bem a luz e as ruas, a ginja Sem Rival e a Merendinha do Arco.

Hoje foi dia de chamuças na D. Mónica em Belém e nos Primos em Alcântara; e de matar saudades no Beira-Rio em Santos. E de voltar ao Vertigo no Chiado, que parece foi feito para me acolher mai-là Vitus (sem quem tu serias tão menos, ó Lisboa minha de tantas das minhas vidas).

Amo-te Lisboa: tu percebes como ninguém que eu fujo de quem amo e a quem amo volto mas não fico em quem amo porque não fico em lado nenhum se não morto e tu és vida, não morte.

10.1.16

Declaração de voto

Não estarei em Portugal no dia 24 e não poderei portanto votar.

Confesso que tenho pena. Votaria em Henrique Neto, se votasse. De todos os candidatos que conheço  (uma minoria) é o único que espremido não produz uma versão táctil do vazio.

Seria, creio, um péssimo presidente; porém isso é irrelevante. Não vai ganhar. Mas face ao vazio - seja ele absoluto ou relativo - é o único que vale um deslocamento.

Obrigado ab ante

Estou há horas a tentar encontrar uma definição de paraíso que não inclua as palavras Lisboa e Portugal e ainda não encontrei.

Se alguém puder ajudar: agradecimentos adiantados.

Tão: redescobertas

Redescubro a cada estadia estas mulheres tão pequenas, de pele tão branca e tão desconfiadas.

Lições do Tati

Estava para me ir embora e apareceu o puto do sax. É um pedante de merda e bom como tudo e estou-lhe grato: hoje confirmei que ser pedante é menos mau do que ser bom é bom.

Fico.

Lisboa é um privilégio

Várias centenas de milhar de pessoas têm o privilégio de viver em Lisboa. Quantas exactamente não sei: depende do que consideramos Lisboa e, numa menor medida, privilégio.

Para mim qualquer das definições é simples: privilégio é poder vir à jam do café Tati aos domingos e viver em Lisboa é poder fazê-lo todos os domingos.

Gabriel

Começo pela anjo. Alvas asas abertas estendidas de um lado ao outro das ruas da nossa cidade. Espessa sobrancelha negra, uma só, que lhe liga as orelhas como a faca liga a mão ao coração que acaba de matar. Espalha a doença e o ódio pela cidade.

Mais tarde a avó chamar-lhe-ia Angélica; o avô acrescentou Cimbra. As anjos não têm pais, como se sabe.

Uma anjo que distribui ódio e arrotos pelas ruas da cidade e canta Streets of London, melopeia melosa e merdosa feita para anjos merdosos e melosos.  Uma anjo atópica, assexuada como algumas dores alguns sorrisos. É por ela que começo.

Pede desculpa todos os dias várias vezes ao dia. Quer peidar-se em paz, suponho. Vai à Versailles tomar o pequeno-almoço mas as asas não lhe passam pela porta e fica cá fora. "É assim que gosto da cidade".

Pausa.

"Ventosa cinzenta e chuvosa".

Pausa.

Ninguém responde. A pausa deixou de ser pausa e transformou-se em vazio. Num canto alguém pigarreia, incomodado; cospe ruidosamente para partilhar o incómodo. "O egoísmo é muito feio", concorre a anjo Angélica.

Pausa. Parece uma peça do Beckett. Uma nódoa no silêncio.

Um pum no angélico silêncio. Gabriel traz boas notícias: a peste alastra na cidade. Precisa de aparar as asas. "Quantos anos têm as suas penas?" pergunta a alacure. "Não me lembro. Há anos que não as aparo". "Vamos a elas".

Gabriel interpreta mal as palavras da senhora mas nada diz. Vamos a elas. Às penas, palerma.

Angélica tem uma mama grande e outra pequena. "Mamas ecuménicas, para todos os gostos e todas as mãos. Fui eu que as fiz e recuso ser feita por elas (refere-se a si própria no feminino). Eu não sou as minhas mamas."

Todos podem olhar mas poucos tocar. O ecumenismo tem limites. Angélica sublinha cada olhar com um arroto. Um olhar mais intenso tem direito a um pum ruidoso. Gabriel desvia o olhar. A conversa cheira-lhe mal.

A anjo Angélica Cimbra, neta de avô cinéfilo e o anjo Gabriel, distribuidor e anunciante de pestes várias encontraram-se na rua.

(Cont.)

9.1.16

Diálogos prováveis

- Ela é boa mas chata de comer, como as mangas ou os lichees.

- Esse gajo é um dildo falante.

Reiterações

A imigração é um direito e um problema e tentar escamotear um dos lados da equação um erro, qualquer que seja o lado escamoteado.

8.1.16

Diário de Bordos - Barajas, em trânsito, 08-01-2016

São raros os aeroportos dos quais gosto: já apreciei - injustamente, é preciso sublinhar - a secção de partidas do aeroporto de Genève  (agora prefiro as chegadas); e sempre gostei da Portela, para chegar ou para me ir embora. Chegar a ou partir de Lisboa são duas aventuras quase sempre tão boas uma como a outra, novas e diferentes.

Barajas é um dos aeroportos cujo desgosto se mantém constante. Construído na lógica da estação de caminho de ferro é enorme, rectilíneo como a espada do aborrecimento e igualmente interminável, mal sinalizado e feio.

Fizeram-lhe um acrescento e conseguiram o prodígio de o tornar ainda pior.

Outro que lhe pede meças na categoria Detestáveis é o de Miami. Desta vez não passei por lá. (Em troca passei por um na República Dominicana que aposto integraria rapidamente o pódio. Era tão mau que tive de escolher entre a irritação e o fascínio. Preferi este: não tinha energia para a outra. Felizmente não faz parte da lista de aeroportos frequentes).

Agora estou em Barajas. Daqui a duas horas e pouco aterrarei na Portela. Tenho uma relação difícil e complicada com a modernidade mas reconheço-lhe os méritos.

7.1.16

Diário de Bordos - Simpson Bay Marina, Sint Maarten, Antilhas Holandesas, 06-01-2016

A desculpa para vir a Philipsburg foi conhecer Erik, dono de um estaleiro aqui e muito recomendado por C.

É sempre útil conhecer fornecedores de serviços e alguém tão recomendado justificava amplamente a viagem.

A verdadeira razão foi querer ver isto uma última vez antes de me ir embora. Por pouco que se goste de Philipsburg  (e é impossível gostar mais do que pouco) forçoso é reconhecer que despida das hordas de passageiros dos paquetes a cidade até nem é feia. E come-se bem, variadamente.

Hoje está cheia desses horrorosos seres que saem dos navios - como farão para os escolher? São todos igualmente feios -  e o meu almoço começou com um ceviche de entrada no restaurante Nazca, peruano; ao qual se seguiu um guisado de carneiro no The original jerk and roti house, Jamaica; e terminou na Taska com uma empanada da República Dominicana.

Ou seja: conheci Erik - um rapagão que inspira confiança à primeira vista - e viajei gastronomicamente pelas Caraíbas e pelo Pacífico. (Que o meu ceviche seja melhor do que o do Nazca entristeceu-me, mas enfim. Não se pode ter tudo).

.........
Último dia em St. Maarten. Fui jantar com a tripulante ao Yacht Club. Jantar simpático e simples.

Uma senhora vegetariana é chato em casa mas agradável no restaurante. Ainda por cima insistiu em pagar uma parte do seu jantar.

........
Descubro com um certo horror que amanhã vou ter um dia cheio de trabalho.

O mito de Sísifo talvez seja uma metáfora para toda a humanidade. Para um marinheiro é uma descrição simples e realista do quotidiano.

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Sou um grande fã das insónias quando tenho um bar ao lado e dinheiro no bolso. São uma bênção. Dormir é aborrecido.

O pior é que essas duas condições são menos frequentes do que as impossibilidades de dormir, coisa que demonstra de forma definitiva a injustiça da vida.

E a beleza da sorte.

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Chove como se Deus estivesse a vomitar. Felizmente não bebe álcool. Faria se fosse eu.

Infelizmente isto levou a rapariga do bar onde me acolhia a pôr uma música execrável cujo tema é a chuva e consegue, espantosamente, ser ainda menos agradável.

Pena o Soggy ter voltado à sua condição habitual: infrequentável.

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Guterres diz que o seu candidato à presidência é quem o PS escolher.

A acefalia da política portuguesa seria inquietante se não fosse tão fascinante.

Por vezes comparo-a à adesão a um clube de futebol. Que longe estou! Apoiar um clube de futebol parece um acto racional, pensado e pesado ao lado das escolhas políticas.

E este foi primeiro-ministro. Imagine-se quem nele votou.

5.1.16

Diário de Bordos - Simpson Bay Marina, Sint Maarten, Antilhas Holandesas, 05-01-2016

A grande vantagem dos dias de ressaca é que um gajo bebe muito menos. A desvantagem sendo, claro, a razão pela qual se bebe menos.

A causa porém foi  nobre e bonita: um dos meus irmãos veio a St. Maarten e ou se é Serpa ou não se é. Ele sendo e eu também foi de caixão à cova.

Estou há quarenta minutos no Lagoonies e tudo o que bebi foi uma imperial. Ao almoço bebi água, provavelmente a maneira mais estúpida de se gastar dinheiro  (refiro-me à água engarrafada, não à água doce em geral).

Hoje não me parece que o divino rum punch da K. tenha sucesso. A mera imagem virtual que se me forma na mente quando penso nele dá origem a uma crise de azia só comparável às que tinha no Burundi, provocadas por uma dieta cujos pilares eram o whisky e o piripiri.

Um dia pedi um remédio para aquilo a uma rapariga dos Pharmaciens sans Frontières. Deu-me uma caixa de Maaloxsan e disse-me "isto é xarope, mas se fosse a ti, com o whisky que bebes e o piripiri que comes usava-o em perfusão intravenosa, vinte e quatro horas por dia". ( Era um exagero. Eu só bebia whisky à noite. Piripiri não: começava logo de manhã nos ovos mexidos. Nunca comi um molho picante tão bom como o das margens norte do Lago Tanganika. Uma pasta espessa, encarnada, picante como nunca tinha visto e igualmente saborosa. Pedi a receita mas nunca consegui fazer um que se aproximasse sequer dos que me serviam nos restaurantes).

........
Desde ontem estou em modo partida, mas agora o voo está marcado. Já é mais chegada do que partida.

........
O S. M. fica bem: electricidade, mastreação, velame, motor, carpintaria reparados por bons profissionais, dinghy limpo, ferramentas e peças arrumadas e classificadas. Se fosse meu não estaria melhor.

É bom.

4.1.16

Sem título visível

É mais ou menos isto. Uma palavra que abreviada fica mais longa um tempo encurtado que nunca mais acaba uma mulher a quem alguém pergunta Você não tem fim. Tem princípio? responde Tenho, baixinho. Mas não saberias encontrá-lo mesmo que quisesses.

........
O caos é um sistema hipersensível que não se pode reproduzir porque a mais pequena variação leva a resultados completamente diferentes; um sistema cuja sequência de causalidades é inidentificável: não se pode deduzir onde começou e como chegou olhando para o que é.

Até breve pode assim transformar-se em até mais breve, por exemplo,  sem que seja possível deduzir de onde vem o mais.

(Mais é um erro, uma errância, um desvio, uma vagabundagem caótica por terrenos inexplorados).

(Mais é um medo, uma dúvida, uma pergunta sem resposta breve).

(Mais é um x que se revoltou).

(Mais é a luta de um texto entre parênteses pela liberdade).

(Mais uma tentativa para pôr ordem no caos).

(Mais é uma das suas palavras favoritas).

Mais rum mais sono mais tempo mais amor mais caos mais dúvidas mais medo mais curvas mais perguntas mais mar.

Mar é a resposta fácil a todas as perguntas. Mais mar. Mais vento. Mais.

Caos. Amor é metade do caos? Têm cinquenta por cento das letras em comum.

........
Poder-se-ia talvez dizer que um mar sem vento é uma vida sem amor. Ambos porém os termos da equação soam falso.

Não se pode por exemplo dizer de um mar sem amor que é um dia sem vento. Uma analogia só o é se for simétrica. O caos não é simétrico. Mais é.

Mais distância, mais tempo. Menos caos.

.........
Nada. O caos não funciona autonomamente; tende para a ordem se não receber energia do exterior.

Talvez o amor seja uma das formas da entropia cuja função é introduzir ordem no caos. Ou a luta entre o caos e a entropia.

Talvez o caos seja uma mistura disto tudo: amor, mar, vento, desejo, distância, até mais breve.

Talvez o amor seja breve ou longo, caótico ou ordenado; entropia negativa: neguentropia. Talvez.

a) Ordenar por ordem alfabética:

  • Amor
  • Até 
  • Breve
  • Caos
  • Distância
  • Mais
  • Mar
  • Tempo
  • Vento


b) Misturar e agitar num copo de dados ou num shaker.

c) Procurar um recipiente suficientemente grande para receber o resultado.

Faltam bastantes ingredientes.

Num processo caótico a introdução aleatória de um elemento pode alterar profundamente o resultado e torná-lo irreconhecível.

........
Alguns sistemas ordenam-se internamente numa lógica curvilínea, multi-axial que por vezes assume a forma transitória do sinal mais: rectilínea, perpendicular, bi-axial, simétrica. Acontece. Raramente. Acontece.

........
É preciso segmentar a vida em subsistemas:

  • Amor,
  • Mar (por vezes e erradamente associado ao vento),
  • Tempo (frequentemente coincide com distância).


Como definir um tempo sem vida / vida sem tempo / amor sem vida tempo?

Talvez o tempo seja a vida. Mais tempo mais vida.

Como explicar então que mais breve é mais vida?

Uma vida não tem sinónimos. Tem antónimos; extremos; caos.

Hesitante. Caos hesitante.

Chegámos.

........
Voltemos atrás.

A complexidade de um sistema mede-se pela entropia que gera?

Somos leves e livres. Por onde passámos?

........
O horizonte é uma fraude que se move com o observador. Não há caos no horizonte. É linear e explicável. Intocável.

Viajar não é procurar o horizonte; é fugir dele.

Trace-se por exemplo um rumo (setenta e cinco por cento de amor) numa carta. É preciso ter um plano se se quiser não o seguir. Não há caos num rumo mas a viagem é caótica. Um rumo, ou seja um conjunto de direcções. Quase um amor.

Um amor: quase um tempo. Mais amor: mais tempo mais breve. Mais hesitante. Mais vida.

Menos caos.

........
Estabilidade é um caos hesitante. Uma das formas do medo. Um rumo numa carta: é para ali que vamos mas não sabemos como ou quando chegaremos.

É preciso ver no medo a aventura. A aventura da estabilidade, por exemplo. O desafio. Um desafio hesitante.

Invisível.

3.1.16

Diário de Bordos - Simpson Bay Marina, Sint Maarten, Antilhas Holandesas, 03-01-2016

A Sucrière está a abarrotar. Sento-me na esplanada que dá para a laguna e espero que passe. Por uma razão qualquer não há serviço de mesa, nem aos domingos.

Se a bicha não diminuir vou-me embora, escritos os disparates do dia. Tenho um dia cheio, entre passeio de dinghy pela laguna, compras no lado francês e preparação dos hambúrgueres perfeitos (enfim, uma etapa, mais uma num caminho sem fim).

........
Estes eram os planos. Acabo de saber que o embarque em Atenas é daqui a duas semanas.

Há coisas que vão mudar.

........
Jantar com R. e D. Bom, como sempre (trouxeram-no do S., o que é uma garantia de qualidade).

Depois de jantar converso com D. sobre o novo presidente argentino (a rapariga é brasileira mas vive na Argentina há oito anos). Pensei que depois da horrível Kirchner tudo seria bem vindo,  mas não é.

Apercebo-me sobretudo de que não tenho informação suficiente. Falta-me a leitura regular do Economist, do WSJ, do FT, do Monde.

O mar é um mundo mas não é o mundo.

........
Daqui a três semanas estou a navegar outra vez. É nestes momentos que queria saber cantar.

Não sei e entro esfuziante na pastelaria ao lado da Sucrière. Não tem nem a vista nem a qualidade da outra mas tudo o que quero é um croissant e um café.

A empregada - uma francesa bonita e mal-encarada - pergunta-me o que quero.

- Um sorriso, por favor.

O rosto fecha-se-lhe como se lhe tivesse pedido uma felação terna e carinhosa.

2.1.16

Profissões

Um coxim e uma almofada no poço, vento não muito forte, temperatura perfeita e música  (agora Lou Reed, Magic and Loss, um milagre, uma epifania a primeira vez que o ouvi na Marginal a caminho de Lisboa, uma contradição absoluta com a imagem que tenho de Lou Reed), um Ti'Punch puxado a Boulogne, na minha opinião o melhor rum para Ti'Punch tirando o Clément e vinte outros.

Esta mistura e a possibilidade de a repetir frequentemente são dois dos pontos fortes da minha profissão.

São tantos...

Diário de Bordos - Simpson Bay Marina, Sint Maarten, Antilhas Holandesas, 02-01-2016

M. é uma senhora francesa, pequena, magra, com a pele e a voz de quem teve muito tempo exposto ao sol e ao rum dos trópicos.

Já pouco francês fala. Exprime-se melhor em espanhol. Melhor talvez não seja o termo certo. Mais fluentemente. Na verdade não percebo nada do que ela me diz seja em que língua for. Devem ser poucas as sinapses alinhadas que ainda lhe sobram.

Como todos os franceses M. tem um problema não com uma coisa em particular mas com o mundo em geral. É com o alojamento  (mora no barco de uns amigos); o trabalho (tema vasto e abrangente. Vende timeshares na rua); o filho que lhe pediu cinco mil euros (ela mandou); o "dinheiro da Grécia" (chega para a semana. Não faço ideia). E por aí adiante, uma catadupa de contratempos mencionados numa voz rouca em espanhol correcto mas sincopado, elíptico, como se todos nós soubéssemos o que é "o dinheiro da Grécia" e porque tarda a chegar; ou porque é que ela não pode nem pôr uma garrafa de água no frigorífico do barco onde vive e de onde quer sair mas para isso precisa de arranjar casa e ela não vai pagar setecentos dólares por mês por uma casa mai-lo depósito  (dois meses) porque "não é loira" (por acaso ou por escolha é) e e e e.

Hoje apareceu-me a bordo. Disse-lhe que J. ( a tripulante, através de quem a conheci) não estava e ela respondeu-me que sim, sabia, mas vinha por mim. Fiquei um nadinha assustado e lamentei não ter bebido mais uma cerveja no Lagoonies. Cheguei a bordo exactamente ao mesmo tempo que ela.

Queria levar-me ao lado francês, a uma empresa onde eu estava para ir segunda-feira porque talvez tenham trabalho e o S. M. está praticamente pronto.

Anuí contrafeito. Antes tinha de pôr a carne picada a marinar e depois ir comer qualquer coisa ao Market Garden. Que sim e veio comigo. Por acaso esquecera-se da carteira no carro e portanto paguei-lhe o almoço. Depois já no Time Out Boatyard, TOBY para habitués paguei-lhe uma cerveja.

Tentei encontrar um tema de conversa que nos permitisse trocar meia dúzia de palavras mas foi como jogar pingpong com um paralítico.

No regresso explica-me que tem duas casas. Uma em França está alugada. Na outra, em Fuerteventura, mora a filha. Por esta altura começo a perceber ligeiramente o que ela me diz, mas expliquei-lhe que tinha uma sesta por dormir e despedi-me.

(Havia uma festa qualquer no estaleiro e o dono da empresa estava lá. Estão com muito trabalho e é possível que haja algum para mim. Diz-me na segunda-feira.)

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R. voltou do charter e hoje vamos jantar a bordo do S. M. É a nossa vez de retribuir os inúmeros jantares que fizemos no S.

É bom.

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Ando entusiasmado com as fotografias, mas gostava de ter uma máquina e de as fazer mais sistematicamente.

A máquina não vai tardar muito. Já o resto não sei.

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Estou ansioso por ter o S. M. pronto e estar sentado num avião a caminho de Atenas.

Ou seja: estou ansioso por me ver com saudades dele.

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A alguns metros de mim uma jovem senhora fala ao telefone. Não presto atenção até que uma frase me bate nos ouvidos e entra sem pedir licença: "onde estás agora?"

De repente pareceu-me que ela estava a falar comigo, de tantas vezes me fazem essa pergunta.

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O Natal afasta-se e o vento cai. O programa de amanhã é aparelhar a grande e tudo indica que vai ser cumprido.

É o último "grande" trabalho no S. M. Depois vão ser só festinhas, carícias e coisas ligeiras para pagar o alojamento.

Uma hora por dia de ternura post-coital. Post coitum omni animal...

1.1.16

Diário de Bordos - Marigot, St. Martin, Antilhas Francesas, 01-01-2016

Resumindo: no frigorífico tenho carne para dois ou três dias, vinho para um e uns poucos legumes; fora dele tenho uma garrafa de rum Boulogne (50 graus, apropriado para ti'punch) e bastantes latas.

Nas colunas passa Leonard Cohen e o livro do Canal entra na fase final.

Ou seja: só preciso de comprar limas para o ti'punch e uma garrafa de vinho para estar preparado para o que aí vem.

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Encontrei E. P. no Lagoonies. Continua em Oyster Pond, mas agora só trabalha em mastreação.

Continua o mesmo écorché vif, um mordido da vida. O nome do barco dele é um programa.

Está outra vez sozinho. Deve ser difícil viver com uma ferida aberta que se esconde atrás de uma muralha de auto-suficiência tão espessa; parece arrogância mas não é.

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Ontem deixei cair o telefone e partiu-se o vidro. Nada de grave; tudo funciona normalmente.

Uma ferida superficial. A superfície das coisas aparece-me cada vez mais longe das coisas.

Nunca estiveram perto, verdade seja dita. Mas agora afastam-se ainda mais depressa e em mais coisas.

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Vim a Marigot na burrica. O programa é o de sempre: ti'punch num dos lolos, cerveja no Arahwak, Marina Port St.-Louis ver os barcos.

Se estivesse deste lado acrescentaria um croissant na Sucrière. E se não tivesse almoçado accras e boudin juntamente com o ti'punch.

Se tivesse dinheiro uma visita à livraria. E se tivesse vontade uma visita ao passado. Não tenho.