26.5.16

Diário de Bordos - De Cabo San Lucas a Lisboa, 26 a 28-05-2016, se um dos múltiplos aviões não cair

Há mais de quatro meses que não punha os pés num avião. Nem tudo foi mau.

Estou no autocarro para o aeroporto. Uma hora e vinte de viagem. Tenho um cantor evangélico ao lado. Espero que o homem se cale depressa. A merda em que estou é suficientemente chata, não precisa de intervenção divina. A qual de resto não resolveria nada, muito antes pelo contrário. Tenho mais fé em mim.

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Cidade de México

Não é preciso conhecer-me muito bem para saber que entre ficar no aeroporto e comer normalmente ou vir à cidade e contar os tostões escolho esta última (eu decididamente não me conheço bem: passei metade do voo a dizer-me que ia ficar no aeroporto). E seria preciso conhecer-me ainda menos para saber que está a chover. ¡Qué vaya! É pouco.

O qual aeroporto é feio, grande, escuro e mal sinalizado, tudo coisas que obviamente não podia adivinhar.

A cidade de México tem vinte e dois milhões de habitantes. Dela terei visto, quando me for embora, menos de um por cento: vim a pé das Bellas Artes a Zocatlan, um passeio de dez minutos que eu fiz em quinze por causa da p... da anca esquerda. Em Zocatlan havia a feira (ou coisa que o valha) das Culturas Amigas. Um enormíssimo pavilhão circular em cujo interior se atropelavam milhares de pessoas e se sucediam stands de cada um dos países do globo e mais alguns (havia um da República Palestina, por exemplo). Não dei a volta. Comi duas espetadas deliciosas na República Popular do Congo e (quase pelo mesmo preço) dois pastéis de bacalhau merdosos no stand português. Depois saí. Não é fácil passar de quatro meses de mar e marinas para uma megalópole que tem só por si mais do dobro da população portuguesa.

Ainda do que vi: uma cidade imponente, ruas arborizadas, faixas para transportes públicos, muitas bicicletas, ruas limpas... o resto não será todo assim, claro. Mas isto é o suficiente para confirmar a vontade que tenho de conhecer melhor o país.

Estou no food court manhoso de um "centro joyero". Vi alguns dez na Calle Madero, todos enormes. Somos o que fomos.

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Afinal a chuva não é assim tão pouca. Tive de me refugiar num bar, por sinal bastante bonito. Chama-se Talisman. Parece-me de bom augúrio.  Há males que vêm por bem.

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Saí do Talisman a pensar ir directamente para o aeroporto mas em vez disso dou um passeio pelas ruas. É o fim do dia, estão cheias de gente que regressa a casa. Ninguém anda apressadamente. As pessoas sorriem, têm uma expressão aberta.  Que contraste com Paris, Londres ou Lisboa, onde parece que anda tudo a correr como numa estação de metro ou de comboios.

(Pequena nota para a cultura geral: o bar abriu há uma semana).

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A cidade está a mais de dois mil metros de altitude. Não creio que seja por isso que os locais andam devagar. Eu sinto a altitude. Até sentado estou cansado. O raio da anca não ajuda, claro. Sou demasiado novo para artroses. (Isto dito também o era para a próstata e foi o que se viu). Parece que o corpo todo decidiu fazer finca-pé e obrigar-me a parar quer eu queira quer não. Este estúpido já devia ter percebido que não é preciso. Cafés e livros, idiota. Está escrito em letras garrafais à tua frente. Não vês?

Preciso de mudar de óculos,  eu sei.

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O saco Slam está a desfazer-se.

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Daqui a uma hora posso fazer o check in. Depois é tentar arranjar um canto para dormir quatro ou cinco horas. O aeroporto é uma porcaria mas pelo menos consegue ser melhor do que o de Miami. O que me inquieta é que são onze e meia da noite e está com tanto movimento como tinha quando cheguei às três da tarde. Espero que isto acalme, daqui para a frente. Seria como tentar dormir no meio do Rossio à hora de ponta.

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JFK

Grosso modo a viagem pode dividir-se em duas partes: atravessar o continente americano e atravessar o Atlântico. Aquela está feita. Dois voos relativamente curtos, um passeio breve mas agradável na Cidade de México e uma noite interminável no aeroporto dessa cidade.

Agora estou em JFK com os habituais problemas dos aeroportos americanos: Wifi pago, poucos sítios para nos sentarmos, preços disparatados (acabam de me pedir dez dólares por uma cerveja de pressão. Declinei), formalidades burocráticas chagas e longas.

Daqui a meia hora abre o check-in da Royal Air Maroc e começa finalmente a segunda parte da viagem. Uma vez despachado o saco entro para a área de trânsito, onde pelo menos terei cadeiras em barda [não foi bem verdade, mas paciência].

Por agora estou no cenário pré -embarque. Mulheres de burka, homens feios e barbudos, crianças sem fim. Não consigo habituar-me a esta cultura, por mais que faça. A verdade é que não faço muito. Acho detestável vestir as mulheres desta forma. Detestável e prejudicial. É provavelmente por tratarem as mulheres como as tratam que estão tão perto da barbárie.

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Vi três filmes: um remake americano do Segredo de sus Ojos, ao qual preferi o original; uma história  sublime sobre a relação entre as raízes e a vida chamada Brooklin e uma semi-xaropada italiana sobre uma criança incompreendida que acaba por passar uns dias em casa de Laura Morante. A história podia ser gira mas está mal contada e é longa, chata.

O que basicamente significa que não dormi um minuto sequer. O voo estava cheio a abarrotar, não havia um lugar vazio e dormir naquelas cadeiras é quase impossível.

A Royal Air Maroc tem vinho, um serviço simpático e eficiente, uma vasta oferta de filmes e passageiros que também batem palmas quando o avião aterra.

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Dormi chez Paul, no aeroporto de Casablanca. E durmo mais quando chegar. Esta viagem não vai acabar hoje. Vai acabar amanhã de manhã quando acordar, tomar um duche e começar a trabalha no que aí vem.

Infelizmente não posso ainda esquecer este transporte porque tenho dinheiro a receber.

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Lisboa é a capital mais próxima de Casablanca. Todas as categorias, oiço um senho dizer no avião.

Cheguei. Tudo tem um fim.

Diário de Bordos - Cabo San Lucas, Baja California Sur, México, 25-05-2016 / II

Última noite em Cabo. Deixo-me docemente pairar (para quem não sabe: há uma diferença entre pairar e derivar. Esta é involuntária, aquela não). Não comi tacos, a melhor coisa que quem não tem taco pode comer aqui e não bebi (só) cerveja. Mais uma vez é preciso relativizar: os montantes em causa são ridículos. Pouco me importa: atenho-me às porcentagens como um preso injustamente à esperança. Bebo shots de tequila no Kruda porque ser nómada, já por aqui o disse, não é não ter casa. É ter uma casa onde se está.

A sedentarização está à esquina. Chama-se Nómadas Anónimos, Café Slocum ou outra coisa qualquer. Querer fechar uma vida num nome é tão digno de lástima como de escárnio. As palavras não chegam nem aos calcanhares da vida, apesar de serem o seu suporte.

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Mesmo em Cabo consigo descortinar um pouco de México e ser aceite. Não se pode ser mau em tudo, por mais que se tente.

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Perguntava-me a Clarisse recentemente se não sinto a falta de uma casa. Não. Sim: sinto falta dos meus livros e  da minha música; isso é sinónimo de casa.

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Vantagem dos números sobre as palavras: não se pode insultar ninguém com eles.

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Abraham nasceu, diz-me, "num berço de oiro. Os [seus] avós tinham muitos terrenos". A terra é fonte de riqueza. O mar não. Prefiro o mar, apesar de tudo. Não há dinheiro que substitua a vida.

Conversa, desvario

Ao contrário do que se poderia pensar a minha vida afectiva é muito pouco variada. Tenho uma ex-mulher e uma ex-namorada. O resto foi conversa ou desvario.

Diário de Bordos - Cabo San Lucas, Baja California Sur, México, 25-05-2016

Lentamente o puzzle fecha-se. Aprendi com o meu pai a gostar de puzzles. Trazia-os de Inglaterra  (o rebocador do qual era Imediato ficava de alerta em Penzance Bay e os puzzles eram o seu passatempo, mai-la leitura). Para fazer um puzzle começa-se pelas bordas. Fecha-se o quadro. Depois avança-se a partir de um dos lados. Não se deve procurar colocar as peças mais difíceis imediatamente: deve-se deixá-las encaixarem-se "sozinhas", quando o lugar delas é evidente.

De certa forma um puzzle resolve-se a si próprio. Nós somos apenas a força mecânica que põe as peças no lugar.

O meu puzzle mexicano está quase resolvido. Sábado chego a Lisboa e a uma nova vida, simultaneamente. Por um feliz acaso é a Lisboa que chego: descobri finalmente que as raízes têm uma voz, que a sedentarização faz sentido se for num sítio determinado e não num sítio qualquer.

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Abraham, o filho do dono do 101 Kruda queria pagar-me para lhe dar aulas de francês. Ouviu-me falar com os jovens franceses. Disse-lhe que não posso. Vou-me embora amanhã.

Não é a primeira vez que alguém me diz que falo francês como um francês. Não se pode ser mau em tudo, por mais que se tente.

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Penso na viagem que me espera, na sorte que tenho em ter um sofá onde dormir quando chegar - quantas vezes não tive nem isso? - na felicidade que é ter uma ideia, um futuro.

Pergunto-me quando acabarão os meus futuros? De quantos dispõe um homem? Provavelmente de tantos quantos os seus passados.

Os futuros são inesgotáveis, como os passados e o mar.

A., amigo de longa data e lutas comuns diz-me que temos setenta e sete vidas enquanto os gatos têm sete.

Compro a ideia, mas não a quantidade. Temos um número infinito de vidas. Pelo menos se as medirmos em possibilidades de vida, que é o critério correcto.

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Começaram as negociações com a agência para saber quem deve quanto a quem. Não é este o meu mar.

24.5.16

Diário de Bordos - Cabo San Lucas, Baja California Sur, México, 24-05-2016 / II

Levantei-me eram duas e meia da tarde. Sinto-me como se tivesse estado dentro de uma secadora de roupa. Vim ao 101 Kruda beber uma Margarita. Mal não faz e talvez faça bem. Ao amor-próprio faz de certeza. Já não posso olhar para cerveja, que ainda por cima no México é uma merda. Não percebo o que vêem na Corona. Gosto da Índio mas não costumo bebê-la: não sei porquê meteu-se-me na cabeça que é mais cara. Quando a bebi foi oferecida, deve ser por isso. A Margarita do Kruda é boa, mas hoje não há Only You, só há americanos. Dois casais: uma gorda e uma obesa, com um corpo horrível, disforme. Os homens são mais magros, mas estou-me nas tintas. É o meu bar favorito aqui: pequeno e simples. Tratassem melhor da música e seria uma maravilha, apesar do barulho da rua.

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Quinta-feira vou-me embora. Chego Sábado, depois de um périplo por Cidade do México (quinze horas de escala), Nova Iorque (oito) e Casablanca (seis). Pelo menos a travessia do Atlântico é com a Royal Air Maroc. Antigamente era uma boa companhia, tinha um bom serviço. Não me lembro se servem álcool. Creio que sim. Que se lixe. Bebo cada vez menos nos aviões, de qualquer forma.

Não tarda vou deitar-me outra vez. Não que o corpo o mereça, não merece, mas estou farto de me sentir um farrapo. Ao menos na cama estou bem. O dormitório é grande, não está atafulhado de camas e agora está quase vazio. Por quinze euros é difícil ter melhor.

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Está calor, mas só sinto o da febre (que não tenho. É raro ter febre. Excepto quando tinha as crises de paludismo, longe vá o agoiro). A verdade é que odeio estar doente. Parece-me uma traição. Se ao menos tivesse alguém para tratar de mim... Assim um gajo sente-se miserável, entregue a forças que não controla e não tem o lado positivo da doença, que é poder abandonar-se, poder reclamar audivelmente.

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Em Lisboa vou descansar. Aqui não: há demasiado ruído. É como querer dormir no meio do ringue.

Post grato

Um marinheiro no mar precisa de muitas mulheres em terra, diz-me M., que se esfalfou para me encontrar um bilhete que coubesse dentro do meu orçamento. Foi muito trabalho, muito tempo, muito carinho.

Aqui fica o meu obrigado, quida. Quem tem amigos assim não pode ser má pessoa.

Diário de Bordos - Cabo San Lucas, Baja California Sur, México, 24-05-2016

Há sempre um bolo e uma cereja para se lhe pôr por cima. Desta vez o bolo foi grande, o corpo todo decidiu reclamar destes maus tratos. Ontem uma intoxicação alimentar deixou-me de rastos e hoje o tinitus, exasperante tinitus. E há dois dias o herpes labial, mais sensível ao stress do que ao sol. Da intoxicação estou melhor mas não bom: foi forte. Do tinitus nunca estarei bom; o herpes tratei como de costume: dose cavalar de Aciclovir e em dois dias está longe. Até à próxima, espero venha longe, muito longe.

Esta foi má. Assim de repente só me lembro da regata da ESA, de tão má. Com uma diferença: da regata foi eu que fiz a catástrofe. Nesta não. Porra! Enfim, o que não mata engorda e em breve as cicatrizes estarão fechadas e  tinitus de qualquer forma não resiste a uma boa dose quotidiana de chá de gengibre e o herpes vai levar um bom bocado até me apanhar noutra e a intoxicação alimentar... hoje ainda tenho que ir comer àquele restaurante, mas agora devo estar vacinado. E daí talvez não, talvez consiga ir comer ao outro, de qualquer forma a verdade é que os tacos são baratos mas não compensam, os outros têm muito mais que comer. A diferença é de cinquenta cêntimos, em valores absolutos. Cem por cento para quem gosta de relativizar. Prefiro relativizar porque me chateia andar a contar dinheiro aos cinquenta cêntimos. Enfim. Em breve estarei no avião. Já faltou mais.

Por agora como a porcaria do pequeno-almoço do hostel, só açúcar mas que se lixe. Não deve andar muito alto, estes dias. O corpo que vá reclamar ao serviço de clientes, se quiser. Aqui é o que há.

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Os jovens franceses foram-se embora. Foi um deles que me ajudou para pagar o hostel. Que sorte tive, no meio da merda. Não me refiro apenas ao dinheiro. Mais do que um prazer foi um privilégio conhecê-los.

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Tenho de me ir deitar outra vez. Raio do estômago. Enfim, não é só o estômago. Estou mal no corpo todo. Hiper-sensibilidade febril, náuseas... Como se não chegasse o que vomitei ontem e a porra da diarreia, dictatorial, todo-poderosa, impromptue. Uma vez tive uma semana de cama com uma intoxicação. Foi em Lisboa. Estava num hostel em Belém e fui comer a um chinês ali perto. Uma semana sem me poder mexer. Apesar de tudo esta é mais suavezita.

É só uma cereja no bolo.


Agonia, esperança

A agonia tem várias formas, todas elas mortais. É uma bomba nuclear que espalha desolação e vazio onde chega. Tudo parecia estar a correr bem. Mas "tudo" é muitas coisas, muitas pessoas, muitas fragilidades. E tudo desaba devagar, muito devagar, leva um dia a desfazer-se, pedra a pedra, fio a fio, esperança a esperança.

Amanhã será outro dia. Outra esperança.

Minhas, só minhas: a culpa e a esperança. E a esta não chega a agonia.

23.5.16

Diário de Bordos - Cabo San Lucas, Baja California Sur, México, 23-05-2016

Viver em dois fusos horários separados por sete horas de diferença já não é fácil. Hoje juntou-se-lhes outro, no meio, brasileiro. Falharam todos, claro. Estou na mesma, só que com menos dinheiro. Menos é uma maneira suave de dizer. Nada de brutalidades.

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Cabo está cheia de anúncios a pedir trabalhadores. Montra sim montra não precisa de empleados con inglés. A época vai começar. Há trinta anos ter-me-ia candidatado, mas hoje já não funciona. Idade, imigração, falta de paciência, outras coisas que fazer...

Em Atenas trabalhei num restaurante. É uma experiência interessante, trabalhar num restaurante num país do qual nem o alfabeto se conhece (mais tarde vim a conseguir pelo menos decifrá-lo, mas já não trabalhava ali).

Aqui pelo menos conheço a língua. Mas servir à mesa por servir à mesa prefiro fazê-lo em Portugal e para mim. É uma coisa de que gosto e faço bem.

Se é que há alguma coisa que faço bem, ideia da qual por vezes duvido seriamente.

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Enfim, olhemos para os lados positivos da situação: há uma luz no fundo do túnel e essa luz chama-se Lisboa. Não devo ter feito muitas coisas erradas nesta vida (nas anteriores fiz de certeza) para ter os amigos que tenho. Há muita gente por esse mundo fora que ajudei quando foi preciso.

E vou continuar. A minha vida nunca será o largo rio tranquilo com o qual sonho há tanto tempo, eu sei. Só queria que as quedas fossem menos brutais. Acho que vou conseguir: deve ser daquelas coisas que basta querer, não é?

Journal de Bords - Cabo San Lucas, Baja California Sur, Mexique, 23-05-2016

Ce post est écrit directement en français en hommage et remerciement à mes amis Clarisse, Alexis, Amaury et Louis (ça commence en ordre galant et continue en ordre alphabétique). Et Paul, naturellement, qui tout en étant pas là y était tout autant. Clarisse étant prof de Français je cours certains risques, mais ils sont plus que justifiés. Et puis, Clarisse, tu sais que tes suggestions sont plus que bienvenues...

Mon arrivée à Cabo fut difficile. (Difficile est un euphemisme). Je ne m'en serais jamais sorti tout seul. M. - qui, comme chacun sait, est l'initiale de Pénélope - m'a trouvé une chambre où passer la nuit et envoyé un peu d'argent. A l'exception de mes sacs, d'un paquet de cigarettes et d'une profonde sensation de délivrance je n'avais rien sur moi. J'ai passé une nuit de paix à Casa del Sol, dans un quartier tranquille de San Jose del Cabo, eloigné du centre et de tout ce que je venais de vivre. Le lendemain Alexis et ses amis sont arrivés.

Ils sont jeunes - vingt trois, vingt quatre ans - cultivés, éduqués, drôles, articulés, jeunes (ce n'est pas une distraction ni une redondance). Ils s'amusent et s'expriment également bien. Ceci peut paraître bête, mais je venais de passer deux mois avec des êtres dont le vocabulaire était limité. (Limité est un euphemisme généreux). Découvrir des personnes qui peuvent s'exprimer correctement, avec un lexique riche et des idées articulées fut pour moi un changement de planète.

J'avais besoin d'aide: de silence et de compagnie, d'argent, de normalité, d'humanité. Alexis et ses amis m'ont apporté tout ça en doses himalayennes, massives, sensibles, simples, joyeuses, jeunes. Rembourser l'argent sera facile - "les problèmes d'argent se règlent avec de l'argent", comme disent les Argentins. Rembourser le reste, à mes yeux beaucoup plus important, sera difficile. Et sera aussi un plaisir illimité.

Je ne suis pas un quinquado, néologisme horrible. J'aime mon age et ai finalement appris à vivre en paix avec moi-même. "C'est ce qu'il y a", comme me disait récemment un proche. Mais je sais reconnaître la valeur des personnes que je rencontre et sais, surtout, qu'elle n'a pas d'age.

22.5.16

Diário de Bordos - Cabo San Lucas, Baja California Sur, México, 21-05-2016

Em Quelimane havia um tipo que cantava num bar. Não me lembro do nome dele. Cada vez que oiço Only You lembro-me do homem. Tinha uns óculos redondos numa cara redonda, era mulato e puxava a canção a alturas inexcedíveis. Creio que se chamava Negrão, mas não tenho a certeza. Era mulato. Tenho pena de não me lembrar do nome do bar.

Agora oiço Only You num bar chamado 101 Kruda, em Cabo (San Lucas. Dizer o nome completo é um pleonasmo em certos meios).

Deve haver poucas semelhanças entre uma cidadezinha colonial portuguesa de final dos anos sessenta, princípios dos setenta e uma cidade turística mexicana do século XXI. As cores, talvez. O azul do céu, que a humidade faz mais claro do que deveria ser. A solidão de um então puto e hoje quase velho que gosta de uma canção e das memórias que ela lhe traz, de estar sozinho num café a olhar para a rua a pensar no que vai fazer a seguir, de ver as pessoas viver como se ele não fosse igualmente parte dessa vida.

O bar 101 Kruda fica perto do hostel onde durmo, "o mais barato da cidade". Vim aqui parar porque procurava um bar onde não fosse "invadido por americanos" e perguntei a um senhor que por acaso era também dono do dito bar. Descobri-o depois. Além do bar o senhor tem uma loja na qual me vende cigarros avulso.

A esta hora as ruas estão vazias. Os turistas devem estar em casa a lavar-se da praia e a preparar-se para a "noite".  O bar é barulhento por causa do tráfico contínuo, incessante.

Não há muito que ver, no fundo. O Only You acabou há muito tempo - escrever no telefone tem esta vantagem: meia dúzia de patacoadas levam um tempo desproporcional a escrever e abrandam o ritmo de consumo da cerveja -.

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As probabilidades de encontrar um embarque são poucas. A marina não permite dockwalk e os anúncios que deixei na recepção têm sido pouco solicitados, disse-me hoje a recepcionista. Passo lá duas vezes por dia: é importante que ela me veja e se lembre de mim. Imagino-me no avião, a desembarcar na Portela (agora Humberto Delgado. A palermice não tem limites), apanhar o metro e entrar noutra vida.

Foi assim que cheguei a Londres, em Janeiro de 2000, ao Brasil em 2010 e a tantos outros sítios antes. Uma das vantagens de mudar de vida é que elas começam sempre bem. A desvantagem é acabarem mal. Paciência. "É o que há", como me dizia hoje V., cujas vidas começam e acabam bem.

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Glenn Gould vivia fechado em casa, cortinas fechadas. E havia aqueles dois irmãos que fizeram um labirinto de jornais em casa, um morreu e o outro também, era surdo e cego, o livro é uma beleza. Chama-se Homer and Langley. A história é trágica e linda ao mesmo tempo. Dois irmãos fechados numa casa com um automóvel e um labirinto de jornais e no fim do labirinto está a morte.

Por vezes penso nisso: fechar-me num ovo até morrer; cortinas fechadas, jornais livros e música, escuridão. Não funciona: a minha é uma solidão de exteriores. Sempre foi. Desde que em Quelimane ouvia um jovem cantar Only You como se tivesse sido ele a compor a música.

Talvez seja por isso que gosto tanto de estar no mar: uma casa do tamanho do mundo, cortinas abertas, ora clara ora escura, "uma linguagem antiga que não sei decifrar", dizia Borges (cito em segunda mão).

Agora vou deixar o mar. Mishima escreveu um livro fabuloso chamado "O marinheiro que perdeu as graças do mar". Era um dos meus favoritos dele, mas não o releio há muito tempo. (Tenho tantas coisas para reler...) A personagem de Mishima teve uma morte horrível.

Não se muda de vida para morrer. Muda-se para viver outra vez. Para ressuscitar.

20.5.16

Diário de Bordos - Cabo San Lucas, Baja California Sur, México, 20-05-2016

O intervalo acabou. Regresso ao ringue. Passei a manhã a fazer anúncios, deixá-los na marina, percorrer as diferentes agências da Western Union em Cabo (exagero. Foram só duas. A média no México tem sido quatro). Depois sentei-me a beber uma cerveja num bar chamado Original Hooliganz Corner Bar. Os americanos não conseguem dar um nome a uma coisa qualquer que não inclua um adjectivo e um erro de ortografía.

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Cabo é quase como eu a imaginava, só que ainda mais desinteressante. Cafés, bares, restaurantes, lojas de roupa, lojas de souvenirs e productos para turistas, farmácias uns a seguir aos outros, todos iguais na decoração excessiva, na música demasiado alta, no serviço agressivo, insistente. A clientela é americana: obesa, mal vestida, feia (uma excepção gritante acaba de se sentar na mesa ao lado). A qual excepção integra um grupo de quatro senhoras que bebe shots de Tequila e tira fotografías. Numa mão o copo na outra a máquina ou o telefone.

As senhoras acabam as fotografias e os shots e vão-se embora. O Hooliganz fica vazio, mas apesar disso continua barulhento: à minha esquerda a aspiração da cozinha e por todo o lado a música, que talvez por a dona ser canadiana não está aos gritos.

Eu estou, mas não se ouvem.

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Já viajei assim. Fui backpacker avant la lettre. Ia para Itália gastar o dinheiro que tinha ganho a tirar neve dos telhados em La Chaux-de-Fonds, joguei à moedinha em Zadar e dormi no cockpit de um barco qualquer da marina, tive uma crise de febre e alucinações num albergue de juventude (como eran então designados os hostels) em La Spezia, passei quase dois meses em Atenas à espera que uma ferida cicatrizasse para poder viajar, quatro em Dunkerque a trabalhar na manutenção de uma frota de regatas e a ser feliz, dormi nas estações de comboios de Bern e Zürich e mais não sei quantas, amei uma rapariga improvável numa cidade improvável chamada Soleure, na Suíça, comi uma das melhores refeições da minha vida em Ancona, apanhei boleias de camionistas, de loucos e de pessoas perfeitamente normais, andei pelas ilhas da Croácia com uma mulher linda que tocava guitarra e tinha um facalhão no saco. Andava com uma mochila verde da qual gostava e que usei tanto como o actual saco Slam, do qual já mal se distingue a cor e me acompanha para onde quer que vá.

Talvez agora isto me chateie apenas por ter a impressão de que estou a comer comida fora de prazo. Verdade seja dita nunca liguei muito aos prazos de validade. Não passam de um mecanismo para fazer as pessoas deitar fora comida perfeitamente comestível. (Não estou com isto a dizer que me acho comestível, claro. Apenas que não se deve ligar muito aos prazos de validade).

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De maneira é assim. Viajo no tempo, tento lembrar-me das viagens todas que fiz ou sem dinheiro ou a poupá-lo até ficar mais fino do que uma daquelas folhas de plástico com as quais cobrimos a comida no frigorífico, tento impregnar-me o mais possível do que me rodeia porque no fundo é uma das coisas boas de estarmos onde estamos e não noutro sítio qualquer.

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Começo a adquirir uma aversão profunda aos bonés de baseball. Será que nascem com aquilo aparafusado à cabeça?

Enfim, essa não é a questão. A questão é: como vou sair daqui?

19.5.16

Diário de Bordos - San José del Cabo, Baja California Sur, México, 18-05-2016 / II

A casa que M. encontrou é óptima: pequena, asseadíssima, bonita, perto do autocarro. O wifi funciona maravilhosamente. A cama é enorme, parece um campo de futebol e faz sonhar com outros desportos. Mal cheguei esvaziei - literal, não metaforicamente - os sacos, para os rearrumar e contabilizar os esquecimentos. Nenhum. Nem um. Zero. Ficou nada para trás. O S. B. vai sair da minha vida muito mais depressa do que entrou.

Trouxe os sabonetes Grão da Terra - por falar nisso descobri-lhes finalmente um defeito: nas baixas latitudes não secam. É um bom ómen: a minha terra fica nas latitudes intermédias,  no extremo ocidental de um continente que é dos que conheço o melhor. Nela os bons sabonetes secam e duram mais tempo -. Vieram as luvas e os gorros, as cartas com as quais um dia decorarei  um bar cujo nome poderia ser, sei lá, Nómadas Anónimos, Café Pousio, Bar do Mar, Café Slocum, Café Bequia, Ultramarina e por aí adiante, sem parar. Veio tudo, inclusivamente duas ou três peças de roupa que iam ser promovidas a trapos e afinal acabam no lixo.

A única sombra no quadro é ter recomeçado a fumar. Fumo de pouca dura. Passo bem sem cigarros mas não lhes resisto se estiverem perto.

E sobretudo tomei um duche. Um longo, interminável duche que me fez pensar na cena final do Coming Home, o Jon Voight (pai daquela horrível mulher) a tomar banho na cadeira de rodas no Pacífico. Salvas as devidas proporções,  claro. Apesar de tudo não estou a regressar do Vietname. Estou inteiro, a Jane Fonda não se apaixonou por mim e - sim - a vida continua.

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O México é um país adorável. Um dia hei-de percorrê-lo de norte a sul, de fio a pavio, de cima a baixo do vulcão.

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Está calor. Doce calor. A senhora que toma conta da casa, à boa maneira do país vizinho, ligou o ar condicionado e depois vinha carregada de mantas "para se tiver frio". Disse-lhe que não precisava, obrigado.

Quando estiver todo transpirado tomo outro duche. Aqui não preciso de me preocupar com os tanques de água nem com as baterias. Levanto-me, é tudo. Enfim, não é: será que o sabonete está seco?

Problema maiúsculo.

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Por hoje é tudo. Não preciso sequer de ler o Shandy para adormecer. Vou lê-lo por prazer.

Diário de Bordos - San José del Cabo, Baja California Sur, México, 18-05-2016

No curto prazo o mal ganha; no longo perde. Hoje fui corrido como se fosse um cão tinhoso. O manipulador profissional ganhou.

Tenho cinco pesos mexicanos e cinquenta cêntimos no bolso: é pouco, mesmo para os meus frugais padrões. Cerca de trinta cêntimos de euro. Daqui a umas semanas saberei quem deve quanto a quem. É possível mas pouco provável que ainda tenha alguma coisa a receber. ¡Qué vaya! O dinheiro nunca  me fez correr nem chorar nem rir. Não é agora que vai começar.

Felizmente a minha Penélope amada estava acordada e reservou-me uma casa onde dormir. Amanhã tratarei do resto. Hoje, apesar de tudo, sinto-me feliz e livre. Leve, sem ironia nem segundo sentido. Contratualmente C. pode fazer isto. Não discuti muito tempo: tenho-o na conta de homem decente. Porém a decência não protege do erro; minimiza-lhe as consequências,  quando muito. Neste caso não. Dar ouvidos àquele ser abjecto é um erro grave.

Mais para ele do que para mim. Vou dormir, ler, escrever e pensar. É um bom programa. Amanhã A., ex-tripulante de outras aventuras (também desgraçada, para ele) vem ver-me. Vive no México e por coincidência está no Cabo. Estou em San José, mesmo ao lado.

Cansado, claro. Livre. O pesadelo acabou. Volto à terra, à convivência com pessoas normais, à vida.

É bom.

Um dia a minha vida será aquele largo rio tranquilo ao qual há tantos anos aspiro. Será igualmente bom: viva a vida.

18.5.16

Diário de Bordos - Marina Puerto Los Cabos, Baja California Sur, México, 17-05-2016

Ignoro se isto é um pesadelo, se uma farsa. A tragédia não chegou, apesar de ter andado perto. Talvez num dia longínquo venha a ser uma comédia; por enquanto está demasiado próximo.

Uma coisa sei de saber certo: bateu o recorde que foi a travessia do Atlântico com um armador que sofria de perturbações mentais, coisa que sempre considerei impossível.

Começou com dois palermas; acabou com um psicopata que tive de desembarcar manu militari em Acapulco e um alcóolico perverso, manipulador e imaturo. Para compor o ramalhete não tem literalmente um chavo. Hoje deixou o relógio na recepção do hotel por cem dólares e bebeu cento e treze.

Se é isto os transportes para mim chega.

10.5.16

Diário de Bordos - Acapulco, Guerrero, México, 10-05-2016

A Besta perdeu. A última coisa que me deixou escrita, no recibo do dinheiro do táxi para o aeroporto confirma-o.

Agora fico com a bestinha, mas essa sozinha não vai longe. Aquilo não é embarcação de navegar contra o vento.

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Leio Keats, penso em T. e na peça que fomos ver em Londres ao Globe, daí voo para o odiado Colégio Paulo VI e para o padre Tiago, meu professor de português nos terceiro e quarto ano do liceu.

Nunca tive uma grande capacidade de introspecção. Ou melhor: de me ler, de me ouvir. Português era a minha disciplina favorita, apesar do ódio profundo, juvenil, intenso que tinha ao Colégio em geral e ao Padre Tiago em particular. Nos exames do quinto ano chumbei a ciências e dispensei da oral a letras. Apesar disso no sexto ano escolhi matemática em vez de português, porque queria ir para a Escola Náutica. Foi preciso T. deixar-me para eu perceber quanto a amava. Os exemplos são milhares.

Talvez por isso este coitado deste blog tenha sobrevivido tanto tempo. Não me oiço mas escrevo-me, não me percebo mas dou-me a perceber.

9.5.16

Diário de Bordos - Acapulco, Guerrero, México, 09-05-2016

A Besta está a perder. Não lutes contra a gravidade, mas luta contra o Mal.

30.4.16

Diário de Bordos - Barillas Marina, El Salvador, 30-04-2016

A Besta ganhou..

Maldade, gravidade e outras comparações desajustadas

Uma das coisas que digo nos briefings a novos  (ou melhor, inexperientes) tripulantes é "não lutem contra a gravidade. Ela ganha. Usem-na. Vocês ganham".

Hoje pensei nisto a propósito do mal (aqui definido como má-fé, maldade, estupidez - se bem haja uma estupidez boa -).

Impossível.  "Não lutes contra o mal. Ele ganha. Usa-o. Tu ganhas". É mentira. Soa a falso. A maldade ganha sempre (sempre sendo curto e médio prazos. Depois disso o bem prevalece. O mundo hoje é melhor do que há cem anos).

29.4.16

Diário de Bordos - De Panamá a Barillas Marina, Aserradores, El Salvador, 22 a 28-04-2016

A noite está muito clara apesar de a lua se ter escondido atrás de uma camada de nuvens (Altostratus, para quem possa interessar). Pouco densa, o que explica a claridade.

Vamos a motor, como esperava. Há um bocadinho de vento (pela proa, é inútil dizê-lo) mas serve apenas de arrefecimento.

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Parece-me que consegui resolver os problemas com a tripulação. A ver. Mas uma coisa é resolver os problemas e outra ter prazer em navegar com eles. Não tenho. G. é um adolescente de cinquenta e oito anos (feitos ontem). Está numa situação difícil mas isso não explica nem muito menos justifica. Serve de circunstância atenuante, quando muito. Apesar de tudo prefiro R., brasileiro de Natal. É desconfiado e susceptível mas é frontal, directo, honesto. E cozinha bem, qualidade que não estraga nada antes pelo contrário.

Mas foi passada um linha e agora fazer marcha atrás e pretender que está tudo na mesma é inútil. Pelo menos parcialmente: para mim conseguir respirar ao lado de G. será uma grande vitória. Por enquanto não posso. O homem tira-me o ar. Só de o ver fico nauseado. É viscoso, melífluo, traiçoeiro como uma serpente.

Enfim, falta um mês. Um mês na Costa Oeste da América passa depressa. Hoje já viram uma baleia, mantas e os inevitáveis mas sempre agradáveis golfinhos. Eu vi uma barbatana que não identifiquei. Talvez um tubarão pequeno. Não sei.

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Estou de quarto, com vento fraco pela proa, mar chão, a motor numa noite calma, clara e fresca. Oiço o motor e o barulho da água. Estou triste, ansioso, febril, impaciente. Quero chegar a Los Angeles o mais depressa possível. Passe a auto-citação: é preferível estar no sítio errado com as pessoas certas a estar no sítio certo com as pessoas erradas.

Penso no que vou fazer depois, numa senhora que espera por mim na praia, nestes últimos seis anos, nos próximos seis ou dez ou vinte. " I do not fuck much with the past but I fuck plenty with the future".

É tempo de mudar de vida. Esta acabou. Já não me consegue mudar e esse deve ser o critério: muda de vida no dia em que a vida deixa de te mudar.

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Ontem fiz uma análise profunda aquilo que estou a fazer mal. Depois fui comprar mais comida e refrigerantes. Beber refrigerantes no mar é ainda mais estúpido do que bebê-los em terra. O açúcar desidrata e fica-se com mais sede. Mas são grandes e não sou pai deles. O M. bebia Coca-Cola ao pequeno-almoço. Il était con comme trois balais. Est-ce que ceci explique cela? Va savoir. Talvez a Coca-Cola seja uma consequência e não a causa.

Estes só se lembraram dos refrigerantes depois de os verem no Swan com quem passámos as eclusas.

O G. é bastante mais con do que o M. Já o R. não. É menos. Talvez na verdade a relação entre os refrigerantes e a connerie seja ténue ou inexistente.

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O mar é demasiado tolerante, já por aqui há uns anos o escrevi. É provavelmente isso que faz a sua grandeza.

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Para a travessia do Canal comprei uma caixa daqueles hamburguers horríveis. O ambiente a bordo era péssimo e a minha vontade de cozinhar nula. Temos de dar de comer ao piloto e aos linehandlers, mas não temos de lhes dar alta gastronomia. Além de que já recebi de um piloto um elogio que cobre todas as faltas de vontade, birras da tripulação e quejandos. "Esta foi a melhor refeição que me deram", disse o senhor quando atravessei num barco de que nem sequer era o skipper. Ia como linehandler, por causa dos cento e vinte dólares. Mas propus-me fazer o almoço e o armador - de quem não recordo nome, cara ou sequer o barco - agradeceu-me e foi assim. Improvisei uma porcaria qualquer e por sorte saiu bem.

Desta vez não estava com muita vontade de repetir a proeza, mas pelo sim pelo não desfiz os hamburguers e pus a carne a marinar em rum.

Quem acabou por fazer o almoço foi R. Uma feijoada tão boa quanto gargantuesca. Ontem comemos parte do resto ao almoço e ainda há para uma refeição. Se não for deitada fora, claro.

De maneira a carne ficou no rum ou este naquela dois dias. Hoje acrescentei pimenta, os sublimes cominho e paprika do marroquino do talho de La Línea, cebola picada e um pouco de curcuma, para equilibrar.

Com isto recheei dois pimentos verdes e duas courgettes que estavam na rede há pelo menos metade de uma eternidade. Cortei um bom pedaço de gengibre às rodelas, quatro alhos inteiros, azeite quanto basta e mandei tudo para o forno.

Ficou delicioso. Isto com boa carne e um humor melhor do que o meu agora vai tornar-se um standard da casa.

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Revi P., o meu agente no Panamá. Meu e de quarenta mil outros, claro. Apreciamo-nos mutuamente. Uma quase-amizade correspondida. Está velho. Teve uma infecção séria no pé e foi operado. Já não parece uma personagem de John le Carré mas continua um homem bonito, com um sorriso e um sentido de humor irresistíveis.

Espero voltar a vê-lo. É um dos laços que tenho no Panamá e mais uma prova - já há tantas... - de que nem tudo é mau nesta terra.

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Hoje apanhei dois bonitos. Tinha duas linhas fora, coisa que raramente faço. Mas queria mesmo apanhar um peixe, fosse ele qual fosse, para mostrar aos dois idiotas (isto é injusto. O R. está longe de ser idiota. Comporta-se como se fosse, o que é diferente) que me servem de tripulantes que sim, no mar apanha-se peixe e pode-se comer.

As discussões por causa da comida a bordo foram-se repetindo até que em Panamá fui às compras e trouxe tudo o que me pediram. Metade há-de ir fora, claro. Mas pelo menos ficaram satisfeitos. Não consigo perceber qual o prazer ou a vantagem que retiram de deitar comida fora, mas enfim. (Isto tão pouco é verdade. Percebo perfeitamente. O "abondanza" do Rei de Marrocos na Villa Sterne, uma versão rasca de potlatch - com a vantagem acrescida de que quem paga não são eles. Mas isso é um pormenor). Não sabem e eu não consigo explicar-lhes que no mar come-se o que há. A escolha é limitada pelo armazenamento (neste caso não se aplica, temos um camarote vazio) e pela capacidade de refrigeração. O nosso congelador não congela e só funciona bem quando vamos a motor. À vela consome demasiada energia. Temos montes de fruta e vegetais numa rede no salão, mas com estas temperaturas também têm a duração limitada. Ou seja: aquilo que eu pensava ser um trajecto à base de legumes, peixe e fruta transformou-se numa orgia de carnes, queijo e fiambre (ainda por cima merdosos) e Coca-cola, Sprite, Seven-Up. Nunca me tinha pedido refrigerantes, mas durante a travessia do Canal viram o barco ao lado bebê-los e hey, presto!, a ideia aterrou-lhes no cerebelo. (Mesmo assim estão longe de M., que bebia Coca-cola ao pequeno-almoço).

Não sou um gajo frugal (isto é um understatement) mas não preciso de alimentar o ego ou a auto-imagem com desperdícios.

Enfim, seja como for temos dois bonitos para comer. Cozidos, fritos e no forno com bacon, tomate, cebola e alho.

Cozido talvez não. Bonito não é grande coisa, seja como for. Mas alguma forma se há-de arranjar. Por agora estão no sal. Amanhã se verá.

Vou dormir.

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O dia está cinzento e o vento muito mais forte do que é habitual - onze nós (pela proa, claro). Calha bem. Ontem quase apanhei um escaldão e tenho a pele a arder.

Quem dera ardesse por outras razões.

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Continuo a motor. Quero chegar depressa. Para bolinar está perfeito porque não há mar. O S.B. chamar-lhe-ia um figo. Eu também, se estivesse para aí voltado. Não estou: o objectivo é chegar, não é navegar.

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Três homens num bote. Ou um adolescente e dois homens num bote. Adolescente mimado e estúpido, ainda por cima.

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Ao princípio R. parecia um gajo porreiro. Na verdade não passa de um gajo, nem porreiro nem antes pelo contrário. Pelo menos pôs a desconfiança e a falta de educação de lado e comporta-se normalmente. G. continua a víbora que sempre foi. Basta-me pensar nele para querer transformar-me naqueles animais que são inimigos atávicos das cobras e as mordem e partem em fanicos. Pensar que vou ter de o aturar mais um mês esgota-me.

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Que manhã tão linda. Navego com uma térmica fraquinha, ajudado pela corrente. Vamos à bolina cerrada, mas assim é uma sorte. Mar chão, o sol acaba de nascer e já aquece, mas não demasiado. O SB marulha suavemente, como se trocasse segredos com o mar.

Tudo é calma, luxo e voluptuosidade.

Daqui a pouco começo as tarefas do quarto das seis às dez: lavar a loiça da noite, limpar cockpit e salão, verificar fundos e motor. Quando sair de quarto faço o almoço : bonito cozido.

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Acabei por não fazer o almoço. R. antecipou-se e fez uma salada com feijão branco e salsichas frescas que ficou uma delícia.

Em contrapartida fui agraciado com uma daquelas vistas que me fazem adorar o Pacífico. Aproximadamente uma centena de golfinhos a outros tantos metros do barco. Meia dúzia deles faziam piruetas como se estivessem a treinar para um espectáculo num parque de diversões aquático. A dois metros do painel da popa e um de profundidade uma manta gigante. Fazia de envergadura quase metade da boca do SB.

A manta é um peixe lindo, majestoso. Uma vez nadei pertíssimo de uma, na Pool em Canouan. E vi várias vezes algumas a voar fora de água (voar devia levar aspas).

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Reescrevo isto em El Salvador, Barillas Marina. O essencial está correcto. Deveria acrescentar alguns pormenores. Não o faço. Prefiro falar de Barillas.

Não é bem uma marina. É bóias num rio e um parque manicurado para a casta possidente local. Os funcionários são adoráveis, simpáticos, sorridentes e prestáveis. Hoje rdeixaram-me usar os computadores do escritório  - já não têm a sala de computadores porque o wifi é ubiquo  -. Mangal por todo o lado e terrenos magnificamente tratados no meio (onde estamos, naturalmente).

Sou pouco fã destes parques para ricos mas às vezes sabem bem.

21.4.16

Diário de Bordos - Lago Gatun, Panamá, 20-04-2016

Dois dias depois do previsto estamos finalmente na linha de partida: o fundeadouro F, conhecido por amigos e família como "the Flats". O piloto deve chegar às quatro e meia, daqui a dez minutos. Mas não há relação entre o que deve ser e o que é. Os iates - particularmente os veleiros - estão  muito em baixo na lista de prioridades da ACP - Autoridade do Canal do Panamá, dantes conhecida por PCA. O Canal era americano. - Li algures que a arrogância, para usar um eufemismo, com que a ACP nos trata aumentou desde que isto passou para controlo indígena. Não sei. "Algures" é um guia gringo.

Ou seja: começa hoje a última perna da viagem. Já vai longa e pesada mas está etapa é a mais agradável. Excepto no que respeita a vento, que será sobretudo do porão.

Vamos parar na Costa Rica, na Guatemala e no México, antes de Los Angeles. Gosto muito do México  (ou pelo menos da parte minúscula que dele conheço), vou descobrir a Guatemala e revisitar a Costa Rica.

Nada mau, para quem gosta de viajar e de barco, ainda melhor.

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De braço dado com o S/Y SALSA. Ele é o grande do casal. Não tenho nada que fazer. É bom.

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Lago Gatun. Adoro este sítio.

Estar no lugar certo com as pessoas erradas é pior do que estar no lugar errado com as pessoas certas. A vida é feita de pessoas, mais do que de lugares.

18.4.16

Diário de Bordos - Panamá, Panamá, 18-04-2016

Regresso a Panamá, desta vez por razões profissionais: vou comprar as cartas para o resto da viagem. Comprei um "pacote de dados" e posso escrever no autocarro. Ajuda a passar o tempo. Viajo de pé, o que é chato. Mas a viagem é curta - pouco menos de duas horas se não houver tranque  - e barata. Por três dólares e quinze cêntimos não se pode pedir muito mais (pode. Alguns veículos têm televisão com filmes horríveis, ar condicionado a funcionar melhor do que este e amortecedores a ar (esta última informação devo-a a R., que me ensinou a distinguir o amortecimento a ar do de molas).

Este veículo é dos velhos. Um só piso, cadeiras estreitas, molas em vez de ar, ar cansado em vez de condicionado. Mas a velocidade é a mesma e não tarda estarei na Islamorada a comprar cartas.

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Hoje fiz as clearances (de entrada e saída. Em português diria " fiz a entrada e a saída"; ou "dei a entrada e a saída "). A burocracia é a mesma em toda a parte do mundo latino porque tem a mesma função: dar emprego a quem não sabe fazer mais nada ou, mais generosamente, não se importa de ser literalmente uma personagem camusiana toda a vida e se dedica com afinco a manusear o absurdo.

Faz alguns anos que não entro numa repartição pública portuguesa e se tiverem evoluído como os notários,  por exemplo, devem estar hoje radicalmente diferentes. As instalações da AMP em Colon trazem-me à memória as da função pública lusa de há alguns anos: feias, desmazeladas, maltratadas, sujas.

Como se todos soubessem que o que ali se faz não merece muito respeito, nem tempo ou dinheiro.

Enfim, consegui poupar umas poucas centenas de dólares ao armador, corrompi três pessoas (valor total: quarenta e cinco dólares. Corromper é um verbo demasiado forte) e amanhã largo para o Canal e depois Quepos, na Costa Rica.

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Tanta vontade tenho de estar no mar com uma tripulação porreira... Dou de mais e espero de mais das pessoas. O problema não é de modo nenhum novo mas há alguns anos que não estou numa situação em que ele tenha ocasião de se manifestar.

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Comprei as cartas em papel. É como deitar dinheiro ao mar.

Ou a um café. Um dia.

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Bebo um último mojito no Rana Dorada. Amanhã saio de Shelter Bay, se tudo correr - ou tiver corrido - bem. Os inspectores do Canal foram hoje fazer as medidas. Não tive nenhuma chamada, suponho portanto que não tenha havido problemas de maior.

Espero. Estou farto de urubus.

Diário de Bordos - Shelter Bay Marina, Panamá, 17-02-2016

Atravesso terça. Em princípio, obviamente. No Panamá nem do passado podemos estar seguros,  quanto mais do presente ou do futuro.

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Cada vez suporto menos a mesquinhez, a pequenez de espírito. É uma chatice mas não posso fazer nada.

Ainda menos a pequenez e a mesquinhez que se passeiam no mar, demasiado tolerante.

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Recentemente tomei uma decisão importante a respeito deste blog. Podem acusar-me de tudo menos de fugir à luta.

Avizinham-se tempos interessantes.

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Conheci C., adorável francês, músico amador (e por vezes profissional, creio) sensível sensato e bonito como só as pessoas em paz podem ser.

Convidou-me para ir a sua casa nos Alpes savoyards, não muito longe de Genève.

Espero sinceramente poder aceitar, um dia. Há privilégios de que seria pecado não beneficiar. E de caminho passar em Avignon e visitar os donos de um pequeno teatro que há muitos anos me fizeram um convite semelhante.

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A próxima escala será Quepos, na Costa Rica. Uma das chegadas mais bonitas da minha vida. O mistério não se repetirá, mas estou contente. Quanto mais perto de Los Angeles mais perto de Lisboa.

Rivalidades

Não é por o mar não aceitar rivais que os marinheiros não têm uma vida sentimental decente (excepto, claro, os que navegam em casal), ao contrário do que muitas vezes se pensa.

O mar aceita todas as rivais. Acolhe-as com prazer e depois esmaga-as, mastiga-as, digere-as e deita-as fora.

O marinheiro que se lixe.

17.4.16

Diário de Bordos - Cidade de Panamá, Panamá, 16-04-2016

Tarde em Panamá. Casco Viejo para começar. Bebo um mojito no Rana Dorada. É o melhor mojito que jamais bebi e está hoje igual ao primeiro, vai para três anos.

Venho para a esplanada. O ar está quente e húmido, denso como uma piscina de água ligeira. A Luz fez-me uma festa sincera. Nunca falei muito com ela - deve ter mais que fazer do que aturar marinheiros melancólicos, solitários e longe de uma casa que não têm - mas simpatizamos um com o outro. Eu com a eficácia dela e ela, provavelmente,  com o facto de eu não ser chato: encomendo (sempre a mesma coisa: um mojito sem açúcar - hoje ela recomendou ao barman que não se esquecesse desse pormenor -) bebo, re-encomendo, pago, agradeço e vou-me embora. E volto. Se calhar isso contribui para a simpatia, tanto a de um como a da outra.

Continuamos - estou com o R. - para o circuito habitual. Não é por acaso que gosto tanto dos Passos em Volta. Paradoxalmente não vejo isto como um regresso ao passado, um passeio do triste ou viagem pela memória. É uma espécie de futuro retroactivo. Já aqui estive, num momento particularmente difícil da minha vida e consegui construir laços com isto. Na altura não me apercebi, só agora o vejo. Posso voltar a Panamá quando quiser porque já aqui estive, porque já aqui fui o que sou. Em francês há um tempo verbal chamado futur passé (futur antérieur para os puristas, chatos et simili). É o meu tempo verbal favorito. Tão pouco por acaso, claro. O meu presente (a minha vida?) são uma mistura permanente de passado posterior e futuro anterior.

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Não gostei do Panamá quando cá cheguei porque estava mal e agora gosto porque estou bem. Il ne faut pas chercher midi à quatorze heures.

Mas talvez convenha aprender a olhar.
Isto é, a meta-olhar.

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Daqui a pouco voltamos para Shelter Bay. Táxi para Albrook, camionete para Colon, táxi para a marina.  Três horas de trajecto na pior das hipóteses,  duas na melhor e uma quantidade estúpida de dólares em ambas.

Enfim. Refuto o estúpida. Não há nada de estúpido em andar às volta do tempo.

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O Casco muda a um ritmo impressionante. A cada visita que faço está mais bonito. Restaurantes modernos, bares design, lojas de moda, mobiliário BCBG.

Qualquer dia de tão bonito fica infrequentável.

16.4.16

Continuações

Um dia sonhei escrever um livro que fosse a continuação do Passage to Juneau, um dos melhores livros de viagens que me foi dado ler. Saira de San Francisco com uma depressão monstruosa e com algumas coisas em comum com o livro.

Nunca escreverei esse livro mas vou fazer quase melhor: vou navegá-lo.

Descansa, super-homem

Esta necessidade de descanso tem que se lhe diga.

Um gajo já sabia que não é o super-homem (desde o fim da adolescência, uma vez percebido e digerido Zaratrusta). Depois vai passando por várias fases - não sou mas um dia serei; não sou mas vou tentar chegar o mais perto possível; etc. - e de repente dá por ele numa marina perdida da América Central, à entrada do canal do Panamá a pensar "olha a sorte que tive em não ser o super-homem".

Raciocínio, sintonia

Leio Morin e Tristram Shandy ao mesmo tempo. E ainda há quem se admire por eu ter um raciocínio circular. (Ou elíptico, vá. Hoje estou em maré de bondade para comigo próprio.)

História de sintonia, decerto.

Diário de Bordos - Shelter Bay Marina, Panamá, 15-04-2016 / II

As coisas, tenho-o dito e redito são como são e não como deviam ser ou quereríamos nós que elas fossem. Que me perdoem os revolucionários, activistas, optimistas e todos aqueles que acham que o mundo devia ser diferente.

Têm razão, é óbvio: o mundo devia ser diferente e que ele hoje é melhor do que era há cem anos é prova irrefutável de que quem tem razão são eles, esses a quem agora peço me desculpem por laborar neste erro: as coisas são o que são.  Para mim são. Podia se quisesse elencar aqui uma interminável lista de provas (circunstanciais, é certo) do que afirmo.

Dispenso. O dia de hoje é suficiente e não há revolução ou optimismo que me desconvença.

Sentir-me grato por estar em Shelter Bay, por exemplo. Quem diria? Ninguém e eu menos ainda. Comer no restaurante da marina em vez de comer a bordo. Estar exausto e não conseguir dormir, apesar dos dois execráveis rum punch (Katel, Tanya, Ona, où êtes-vous?) e cervejas e vinho branco que bebi, como se acreditasse que bebendo dormiria.

Sabia perfeitamente que não. Primeiro porque não bebi o suficiente e depois porque o que tenho não se dissolve em álcool. A irrefutabilidade de as coisas serem como são e não como eu queria que elas fossem - apesar de hoje elas terem sido como eu queria e não como seriam se fossem como são - não se apaga com uma cerveja Balboa, um vinho branco caríssimo para o que é ou dois rum punch baratos e maus.

O erro - se fosse honesto diria semi-erro - que cometi à saída de St. Maarten - a saber, uma mistura de fundos e informação - não teve as consequências dramáticas, trágicas que poderia ter tido. Não atravesso o Canal amanhã, prova de que Deus existe ou - mais honestamente - de que as coisas por vezes são melhores do que seriam se fossem como costumam ser; e acho que vou conseguir dormir depois de jantar - este restaurante era horrível; suponho que não tenha mudado; depois de um mau hamburguer e uma cerveja mais ou menos pouco há a fazer, sobretudo se o computador portátil tiver a bateria quase a acabar e o telefone idem -.

Ou seja. Está tudo a correr bem, demasiado bem. Não sei como desenvencilhar-me desta situação. Preciso de dinheiro, mas isso pode esperar até amanhã; de descansar, mas sei que mais tarde ou mais cedo vou conseguir dormir. Vou atravessar o Canal mas amanhã não será a véspera desse dia. Hoje terei descanso.

Pelo menos parcial, porque apesar de tudo as coisas não deixam de ser como são.

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Estamos em Abril e Shelter Bay está cheia. Hoje até vi miúdas com menos de sessenta e oito anos. Muitas e giras. Tinham todas a mesma T-shirt, o que me faz pensar que estavam no mesmo barco e que quem quer que seja que as tenha recrutado tem bom gosto. Nunca vi mais de três garotas jovens nesta marina simultaneamente e mesmo essas eram do tempo da minha saudosa Nike, que valia por duas.

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A cerveja está quase a acabar. O hamburguer era horrível. As coisas são como são, mas isso nem sempre significa que são más. Penso em Espinosa: somos nós que as tornamos boas ou más, consoante.

Estou-me nas tintas. Não o bastante para dormir assim que chegar a bordo mas pelo menos que chegue para pensar que o sono e o descanso não estão longe.

Devia ter ficado mais dois dias em Sint Maarten, essa é que é essa e o resto conversa. Não fiquei. Que se lixe. As coisas são como são. Eu não. Sou o que estou "e é tudo o que sou". Hoje, por exemplo, sou um homem cansado, com problemas que me sobrevoam como urubus e apesar de tudo consegue encontrar harmonia nisto tudo.

Questão de entropia, aposto. Ou de resignação, aposto mais ainda.

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Um dia começarei uma nova carreira: escritor, fotógrafo e barman. Três novas carreiras, como um chapéu espanhol.

No jodas. O meu universo próximo consiste em dormir, acordar amanhã,  não ter rigorosamente nada que fazer se não descongelar o frigorífico, continuar a digerir a raiva que tenho ao G. - está cada dia mais fácil - e pensar que qualquer dia estou numa praia perto de Lisboa a tentar convencer uma jovem senhora de que sou um homem decente.

Sou. Não foi fácil porque as coisas etc. mas sou.

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Um homem decente dorme, não escreve disparates.

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Equilíbrio delicado e difícil, não é? Entre o que as coisas são, o que aceitamos que sejam e o que fazemos para que não sejam.

15.4.16

Antepassados

Isto aconteceu na África do Sul, não me lembro se em Jo'burg se no Cabo. Era uma festa, uma manifestação pública. Lembro-me mal das circunstâncias.

Recordo perfeitamente que estava no hall de um hotel com um tipo pouco mais velho do que eu - eu andaria pelos quarenta e poucos e ele pelos quarenta e meios. Era um gajo grande, de óculos, publicitário. Tinha um sentido de humor fascinante e a repartida rápida dos publicitários. Conheceramo-nos dois ou três dias antes e estávamos frequentemente juntos.

Naquele dia o programa incluía danças tradicionais e o hotel estava cheio de grupos das diferentes etnias que compõem o país, vestidos com os respectivos trajes.

De repente damos de caras com um sujeito enorme, imponente, numa roupa tradicional feita de palha, cores vivas, uma espécie de saia encarnada e montes de colares a cobrir-lhe o peito. Parecia estranho porque estava sozinho, afastado dos restantes membros da sua comitiva. No emaranhado de colares, brincos e múltiplos artefactos que lhe cobriam a cabeça segurava um telefone portátil.

O publicitário olhou para o senhor, olhou para mim e disse-me: "Calling the ancestors".

Diário de Bordos - No mar, 07-04-16 a Shelter Bay, Panama, 15-04-2016

Antes de mais nada: a ver se percebo porque gosto tanto deste país de que gosto tão pouco.

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Não há ansiedade, mortal que seja, que resista a três dias de mar. Esta resistiu, mas é hoje uma sombra do que foi à largada de St. Maarten. Amanhã desvanecer-se-á, espero.

Que erro incompreensível! Acho que posso dar cursos de auto-sabotagem. Ou então, mais simplesmente, é o meu inconsciente a obrigar-me a fazer o que ele quer que eu faça e eu só entrevejo ou duvido ou hesito.

Logo se verá. Por agora só posso apreciar a beleza destes dias e lamentar o vento mais fraco agora que vou à popa do que foi das duas vezes que fiz este trajecto no sentido contrário, à bolina.

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Traga-me um noite estrelada, por favor. Mexida não. Talvez cozida. Bem cozida.

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Isto eram tudo ideias para desenvolver, mas parece-me que vão ficar para depois. A viagem correu bem, finalmente. Agora tenho um pequeno problema para resolver, mas que é isso comparado com o que poderia ter sido?

6.4.16

Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 06-04-2016

Pela primeira vez desde que cheguei a St. Maarten hoje trabalhei bem, muito, metódica e eficazmente. Acabei de colar os patches e pus um slide na grande, lubrifiquei a calha do mastro, pus protecções nos vaus e aparelhei o pano.

Quando estava a pôr um dos rizos, no fim disto tudo, cansado (devia dizer exausto...), caí e a cabeça passou-me a centímetros de um corrimão de aço que ma teria aberto em dois. Ou pelo menos feito uma boa mossa. Como se isto não fosse suficiente caí em cima dos coxins do poço que estavam dobrados. Ou seja, uma queda de quase dois metros acabou numa gargalhada e numa celebração da sorte.

Que também a tenho e quando a tenho vem em doses duplas ou triplas, em baldes muito maiores do que os baldes de merda que me calham tantas vezes. É por isso que estou vivo, não é?

Viva a vida! Que se foda a morte.

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Do resto não falo hoje. Logo se vê, como diria o ceguinho.

5.4.16

Karen Dalton, quase

Volto a Karen Dalton como a uma droga ("Não se ouve Karen Dalton, injecta-se", escrevi creio ontem e hoje é ainda mais verdade). Faz parte de um grupo restrito de cantores capaz de nos fazer ver o abismo.

E quase ter vontade de lá estar.


O livro da tua pele

Escrevo e cada letra é uma porção da tua pele. Faço frases inteiras percorrendo-te os membros um a um, o ventre, os olhos. Toco-te um seio, a "coivara dos dedos", analogia tão bonita que ardo só de a evocar, um lábio, um dedo do pé, o joelho e uma página escreve-se.

Estou na laguna. Mastros, Karen Dalton - uma descoberta musical que me faz perguntar como é possível? - alísios, rum Mount Gay, uma largada para breve. Como descrever-te tudo isto?

Pele infinita.

Karen Dalton - It Hurts Me Too

4.4.16

Diário de Bordos - Cole Bay, St Maarten, Antilhas Holandesas, 04-04-2016

Segunda-feira é provavelmente a pior música ao vivo do Lagoonies e em breve terei de me ir embora. O que é pena, porque hoje foi o primeiro dia de relativa descompressão desde que cheguei. Encontrei um tripulante - isto como sempre é para ser tomado com pinças. Até o ver no convés a largar os cabos não acredito em nada - e consegui levantar a pouca massa que tinha no banco aqui em St. Martin. (Chamar banco àquilo é um exagero de boa vontade, mas enfim). A verdade é que fui armado apenas com o passaporte e a senhora, simpaticamente, disse-me "não tenho de procurar o seu número de conta, mas vou fazê-lo". Encontrou-o, foi de uma simpatia inexcedível - isto na Banque Postale, um organismo cujos funcionários fazem os seus colegas públicos portugueses passar por modelos de colaboração e empatia - disse-me quanto lá tinha e hey, presto!, fui almoçar ao Arhawak. Que tinham chegado umas bavettes da Argentina e o tinto não estava mal de todo e a ucraniana toda sorrisos e o Jean-Paul é um tipo com quem eu simpatizo até à medula e que se lixe. A bavette estava realmente uma maravuilha, o tinto e a ucraniana ditto (o raio da mulher está igual hoje ao que era há cinco anos quando aqui vim pela primeira vez. Como é que as nórdicas fazem? Verdade seja dita tem pouco por onde envelhecer).

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Trabalho de uma maneira desorganizada, sem plano, ao acaso, como se estivesse perdido. Não estou, mas gostava de estar.

Ontem Jim propôs-me levar o C. para Cascais e depois ficar a tratar dele na Europa. Talvez seja a isto que chame estar perdido.

Não é. Já estava assim antes do jantar de ontem, com Jim e quatro ou cinco amigos daqui, aquilo a que em francês se chamaria les vieux de la vieille, gajos que ganharam dinheiro a traficar erva nas Caraíbas dos anos setenta e oitenta, que conhecem isto por dentro, por fora e por todos os lados e com quem eu sei que poderei contar muito mais do que com quem quer que seja.

A proposta de levar o C. para a Europa chega para me provar que nem tudo foi tempo perdido na minha vida. Falta a aprovação da senhora, que a priori não está muito seduzida pela ideia.

A ver vamos.

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Segunda-feira é realmente um mau dia aqui. Devia ter ido logo para a "varanda". Agora está tudo ocupado, natural e obviamente. Vou para bordo. Prefiro não ouvir música de todo a ouvi-la má e aos gritos.

3.4.16

Diário de Bordos - Marigot, St. Martin, Antilhas Francesas, 02-04-2016

Venho ao lado francês. O objectivo era procurar um tripulante, mas perco-me num Planteur (a versão francesa do Rum Punch), num copo (ou dois) de rosé, nesta calma absoluta: não há barulho de motas ou carros a acelerar, o empregado não vem perguntar-me de cinco em cinco minutos se está tudo bem (está). Até o vento parece ralentir.

Esta - já aqui o devo ter dito algumas vinte vezes - é uma das coisas que me faz gostar de St. Martin: poder mudar de país em dois driver stop, please (faço questão no please. A norma dispensa-o). Um vai da marina até à Rotunda; o outro desta a Marigot. Dois dólares e cinquenta cêntimos, dois Driver, stop, please e muda-se de mundo.

Daqui a pouco vou às accras da Cisca, aos boudin créole e a um ou dois (se houver) crabe farci. Depois volto para bordo. Sem tripulante mas de alma cheia. (Não que tenha a alma na barriga. Não tenho, ou não tenho só. Mas rima com calma e dizer "volto para bordo de calma cheia" não funcionaria...)

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Gosto de Marigot, mas tenho a alma noutro lado, noutra praia. Quero chegar depressa a Los Angeles. Que estranho, não é? Estar aqui e ali e querer estar acolá e ser daqui e querer ser dali... Como se o mundo fosse uma pastilha elástica com a qual se fizessem balões que não rebentam.

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Mar. A viagem até ao Panamá vai ser rápida. Já a fiz duas vezes no sentido inverso, à bolina. Agora vai ser uma longa descida à popa. Vou fazer em oito dias o que da primeira vez me levou quinze e da segunda um mês - incluindo quinze dias na Jamaica, é preciso dizê-lo -.

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A ferida do pulso está quase fechada, quase tratada, como se o corpo tivesse decidido, ele também, concentrar-se no que é essencial e deixar de lado o que não o é.

Sobrevivi a quase todas as feridas que me fiz ou fizeram. Ou a todas, se considerarmos que ainda estou vivo. Cicatrizado, mas vivo.

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[Adenda]

Acabei por voltar de gipsy. Gosto desses táxis clandestinos que me deixam entrar a fumar e não me obrigam a pôr o cinto. Pago cinco dólares em vez de dois e meio, mas demoro menos de metade do tempo, não páro de cinco em cinco minutos e o homem só me diz para apagar o cigarro quando este está no fim. Não sei se fez de propósito, mas que foi elegante foi.

Que noite tão boa, tão St. Martinienne...

2.4.16

Talvez, sim

Talvez isto seja a vida. Ou uma vida. Navegar barcos, repará-los nos portos, beber uma cerveja numa esplanada anódina de St. Maarten porque o Soggy tem a música demasiado alto e o Lagoonies está longe, ser reconhecido na rua aqui, em Palma, em S. Luís ou em Bocas del Toro, conhecer uma embarcação como se conhece uma casa ou a mulher amada.

Não sei. Talvez.

Ou talvez seja antes descobrir a mulher amada, ser reconhecido na rua da aldeia, reparar a bicicleta, beber um galão frio com uma torrada no café da esquina enquanto se lê os jornais do dia, pedalar a bicicleta pela cidade de onde se é ou de onde se quer ser, como se é do mar nessa outra vida que não sabemos se é uma ou só a aparência de uma.

Um homem do mar pode viver em terra? Talvez. Mais do que um homem da terra pode viver no mar.

O mar dá-nos essa capacidade plástica de ser de onde se está, tarefa dificil para o terreno que é de onde veio, como se um pequeno acidente geográfico fosse suficiente para contrabalançar a duvidosa influência da Lua ou a mais do que certa existência de outros continentes, outros mares, céus diferentes e não necessariamente melhores.

Talvez não haja uma só vida, haja vidas que se alternam como as fases da Lua ou os períodos de hibernação dos ursos, que dormem metade do ano e comem mel e turistas e trutas a outra.

Talvez.

Talvez tu existas, meu amor e a vida seja isso que está no teu sorriso ou nos teus cabelos tão densos, quase impenetráveis como algumas vidas.

Talvez.

Sim.

Em caso de dúvida respondo sim: o não nada muda, é uma certeza, o não já o temos e fugir não foge. Já o sim é preciso ir buscá-lo, lutar por ele.

Sim.

Aceite-se portanto que sim há uma vida ou várias vidas e todas elas convergem para ti como naqueles desenhos pirosos de um sol atrás de uma nuvem com os raios a projectar-se em todas as direcções.

Isto é,  nós vamos contra as nuvens, não a favor delas. Os raios convergem, não divergem. Atrás daquelas nuvens há uma vida, à frente também. Uma é feita de barcos, azul ultramarino, tripulantes esgrouviados, cerveja e esplanadas numa espécie de paraíso tropical.

A outra - melhor - do que quisermos que seja.

1.4.16

Diário de Bordos - St. Maarten, Antilhas Holandesas; Atlântico, 10-03 a 01-04-2016


De novo em St. Maarten, de novo no Lagoonies. Cada um tem a casa que pode. Tenho sorte: as minhas são as mais bonitas do mundo.

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A travessia correu mal. Outra vez problemas com a tripulação. Claro que isto não pode ser só culpa deles. Alguma tenho também. Sei qual é: com a idade comecei a trocar a enorme dose de paciência que dantes tinha por uma igualmente grande de tolerância. Não sei se fiquei a ganhar com a troca, mas é irrelevante: nem eu fiz de propósito nem posso (ou quero) inverter o processo.

Há qualquer coisa de arrogante nesta mistura de tolerância: "sê o que queres ser" com falta de paciência: "mas não me chateies".

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Algumas notas de durante a viagem. Confirmo que não consigo conciliar a escrita e a navegação. Por um lado problemas físicos (fáceis de resolver, verdade seja dita); por outro de disponibilidade mental. Vão mais ou menos em bruto. Um dia terei tempo (e paciência?) para as editar.



Alguém cujo nome não recordo descreveu o avião como uma terra de ninguém. As viagens aéreas teriam segundo esse autor essa estranha característica (o "estranha" é meu, creio. Não me lembro o suficiente do texto para ter a certeza) de nos fazer passar de um país a outro por intermédio de um território vazio, neutro, morto (e mortal, pelo menos de aborrecimento). Nada mais verdadeiro.

Escrevo no poço de uma embarcação de vela na qual saí ontem do Funchal com destino a Panamá na melhor das hipóteses ou St. Martin se não.

Vou demorar três ou quatro semanas a chegar e vejo quão diferente é o mar. Não é uma terra de ninguém: é de todos. Não é neutro e muito menos vazio. O mar vive e nele se vive, mexe connosco literal e simbolicamente, mata e faz viver.

Talvez seja por isso que chegar de barco a um sítio qualquer é tão diferente de chegar por outra via qualquer: antes de chegar, entre a partida e a chegada mudou-se de vida, mudou-se a vida, mudámos nós. Chegamos diferentes do que largamos porque o mar nos fez viver.

No mar não se pode ser ninguém.

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Esta sexta-feira passou num instante. Apanhámos finalmente vento, se bem ainda um pouco variável. E vimos orcas. Um par delas, aos saltos perto do barco. Foi a primeira vez que vi orcas tão perto.

Enfim, penso que são orcas. Parecidas eram, mas no Funchal vi uma das empresas de observação de baleias anunciar "False killer whales".

A averiguar. Que eram bonitas eram. Resta saber se são verdadeiras ou falsas.

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São onze da noite. Vou amurado a bombordo, com quinze nós de vento pelo través. Decidi ir para Sul: tenho uma depressão bastante cavada na proa e arrisco-me a apanhar porrada da grossa. Como sempre o SB avança bem. Sete oito nós nas calmas, sem esforço aparente, elegante como um bailarino em pontas.

A noite ainda está fria, mas nada que se compare às anteriores. Não se vê a ponta de um chavelho. Que raio, para quando as doces noites tropicais? E melhor ainda: para quando as doces noites tout court? Apre que nunca mais é Maio...

E é isto. Com o problema da electricidade aparentemente resolvido o dia foi-se que não o vi passar.

E o quarto. Falta meia hora e é como se ainda agora tivesse começado. Há dias assim: parecem minutos.

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Hoje mudei o penso. Está a evoluir bem. A pomada antibiótica tratou do princípio de infecção que tinha aparecido. Terça-feira devo poder tirar os pontos.

É todavia forçoso reconhecer que o espanto do enfermeiro da clínica que foi chamar o médico era justificado. O raio da ferida é feia.

(E o médico do hospital que coseu esta porcaria bem podia ter dado um ponto ou dois mais).

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Não há um pum de vento outra vez. Vou esgotar esta noite e amanhã um dos dois dias que tinha de reserva de combustível.

Ou seja: vou mesmo ter de parar em St. Martin.

É uma chatice, mas verdade seja dita: há-as muito piores.

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Uma hora depois de ter escrito isto o vento apareceu e com ele a esperança de poder não parar em St. Martin.

A noite chega, encantada e encantadora: com mar chão mesmo à bolina o SB faz seis nós em dez de vento real.

Já saímos dos trintas de latitude. Estamos nos vinte - e muitos, é certo. Mas é nos vintes que estão Câncer e Capricórnio, não é? É. E muito antes do primeiro teremos calor e alísios -.

Por enquanto calor só durante o dia. E de alísios nada. É como se estivéssemos numa estrada no campo à espreita da primeira entrada na auto-estrada.

Sabemos que há uma mas não quando. Entretanto vamos andando: a estrada é bonita e vai na boa direcção.

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À bolina, claro, ou não me chamasse eu Luís Miguel Serpa. Não é muito surpreendente, verdade seja dita: ainda estamos nos vinte e muitos de latitude. Devemos estar a apanhar o limite Sul de uma depressão monstruosa que atravessa o Atlântico lá para cima. Quando acabarmos de nos cruzar deve entrar Norte, o vento que espero nos levará até aos alísios.

Por enquanto não estou preocupado: estamos no rumo, o mar continua quase de senhoras, o SB avança bem. A questão é saber se entre o Sudoeste que tenho agora e o Norte do fim da depressão terei muito tempo de Oeste. Mas como é uma pergunta cuja resposta só chegará em "tempo real" deixo-a para quando sua majestade o momento real chegar. Por enquanto para a frente é que é o caminho.

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Outra vez o maldito motor. Ponta de vento. Pus de lado a ideia de chegar ao Panamá. Chegar a St Martin já vai pedir duas ou três acrobacias com o combustível e com a comida (esta menos, é certo. Entre o que temos e que vamos pescar vai chegar).

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No Funchal há dois shipchandlers. Um fica na Marina e deve ser evitado, excepto por quem gosta de ser enrabado ou, dito de forma menos popularucha, enrolado, enganado, roubado, expoliado, embarretado e por aí adiante. O outro fica na rua em frente e é o que vou usar da próxima vez que por ali passar.

A qual gostaria fosse muito em breve, verdade seja dita.

Esta viagem tem sido rica do ponto de vista das escalas: Palma de Mallorca, La Linea, Funchal, St. Martin se não conseguir evitar lá parar...

Ate me custa pensar que quero evitar St. Martin mas quinze dias em Palma, mais de uma semana em La Línea e quase uma no Funchal são paragens a mais. Dos cem dias que tinha já lá vão quase metade e ainda não estou no Pacífico nem nada que se pareça.

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Que noite sublime. Fossem todas assim e a vela seria mais popular do que o futebol. (Felizmente não são e nunca será).

A Lua em quarto crescente mesmo por cima de mim e ao lado de Órion. Vento Sueste dez onze reais entre a amura e o través de bombordo. Mar calmo, de senhoras. Raras nuvens: a visibilidade é perfeita. Vejo as estrelas, o horizonte a toda a volta, a esteira do SB, que ligeiramente adornado "pula e avança" como se quisesse, ele também, recuperar o tempo que perdemos.

Volto a ter esperança numa ida directa para o Panamá. Não é impossível.

À popa por bombordo tenho um planeta que penso ser Marte [era Júpiter]; a estibordo a Ursa Maior. Do mesmo lado para ré do través a Polar. Ligeiramente para vante e mais altos os fiéis Gémeos.

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Hoje tirei os pontos. Está um bocadinho infectado mas nada do outro mundo. Carreguei-lhe com a pomada antibiótica e deixei-o ao ar livre um bom bocado. Confesso que estou farto desta ferida. Ainda por cima vai deixar uma cicatriz horrível. Que estupidez foi aquela queda.

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Por muito multicultural que se seja há sempre coisas que não lembram nem ao diabo, quanto mais a um pobre diabo como eu.

Hoje deixei um salpicão cortado às rodelas para comermos como snack. B. não lhe tocou: não sabia se era para comer cru ou se tinha de ser cozinhado.

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Aqueles dos meus leitores que paciente e generosamente me lêem há algum tempo lembrar-se-ão talvez da minha constante preocupação com os sapatos. Por razões de peso - peso literal, aquele que as balanças dos aeroportos medem, os meus ombros portam quando tenho de andar com o saco às costas e a minha carteira desconhece - só tenho um par de sapatos (para além das botas de mar, claro).

Esses mesmos leitores, coitados, leram a minha desilusão com a marca Foreva, a fraude que foi o calçado Land Rover comprado no Panamá, a alegria que me deram uns sapatos adquiridos em Sitges, em saldos, cuja marca esqueci.

Tenho de me render à evidência, pôr o patriotismo sapateiro no armário de onde nunca, de resto, devia ter saído e reconhecer a superioridade dos nossos vizinhos espanhóis no que respeita ao fabrico de calçado.

Porto presentemente sapatos da marca Zara Man que me foram oferecidos há quase um ano (nove meses, para ser preciso) por uma jovem e bonita senhora que se apiedou pelo estado do par que trazia à chegada a Lisboa. No limite do praticamente novo ou até para lá - ou seja, inutilizável -.

Pois bem: os sapatos Zara Man têm-se aguentado como há muito tempo não via. Três hurras e um hip à Zara, man. Só agora, ao fim de nove meses de uso quase constante deixaram de estar novos. E ainda deve faltar um valente par de meses (ou mais porque em breve chegarei às latitudes descalças) para entrarem na fase praticamente novos - na qual se manterão, aposto, um largo período de tempo -.

Deixo aqui expressa a minha gratidão à jovem senhora (a quem de passagem desejo as maiores felicidades e que o seu namorado actual tenha sapatos decentes) e à Zara Man.

(Não são infelizmente muito apropriados para andar a bordo. Mas como disse em breve estarei nas latitudes descalças e isso deixará de ser um problema.)

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Leio Derrida pela primeira vez (a minha relação com as modas, quaisquer que elas sejam é difícil e baseada numa assincronia absoluta). O livro é um conjunto de dois textos que ele apresentou num congresso de escritores (ou coisa que o valha). O primeiro (do qual estou bastante no início) chama-se Cosmopolitismo e estuda a ideia de uma rede de cidades livres (villes franches no original) na qual seriam acolhidos todos aqueles que nelas procurassem refúgio.

Que ideia tão bonita! Cidadãos acolherem outros cidadãos, seus semelhantes, seus iguais!, sem a interferência de políticos, ONG, padres, freiras ou mullahs. (Devo confessar que ainda não cheguei à parte onde ele explica o conceito. Por enquanto só o vi mencionado como um desiderato. Mas é assim que o imagino).

A imigração é um direito e um problema, eu sei. E os políticos terão sempre uma palavra a dizer, obviamente. Mas a ideia é sedutora.

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"Quid est in territorio est de territorio". É no On Cosmopolitanism que leio esta frase, da Idade Média.

Idade Média? Ao privilégio de ter alguma da música mais bonita que jamais foi feita junta-se agora o de um dos princípios mais belos jamais formulado.

Durante muitos anos vivi pensando que o meu país é aquele onde estou. Aos poucos fui mudando: o meu país é Portugal e eu um nómada que o leva comigo para onde quer que vá. Agora vejo que há mil anos alguém resumiu o problema de uma forma sublime. Se estou aqui sou daqui. Se não quero ser daqui vou para de onde quero ser.

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Saio de quarto com uma noite completamente diferente. Em menos de uma hora o céu cobriu-se e o vento subiu um grau na escala de Beaufort. O AV já não pula: avança desabridamente.

Com a velocidade o vento aparente foi mais para vante, claro, e agora estamos num ângulo um pouco mais fechado. Mas o mar continua calmo e depois destes dias de calmaria a velocidade é um prazer infinito, inesgotado, lindo como estava a noite há pouco.

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Bolina cerrada! Vá lá que pelo menos não tenho de fazer bordos (e há vento).

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O mar perdeu a ingenuidade. Está formado, claro. E com este vento de merda quase não avançamos.

O SB bem se esforça, verdade seja dita. À mais pequena rajada parece que salta. Mas a milagres ninguém nem nada é obrigado. E não é com doze nós de vento na amura e o mar dos vinte de hoje de manhã que lá vamos.

Esta porcaria devia rondar a norte. Espero que o faça depressa. Cada dia me parece mais difícil ir directamente ao Panamá.

Ainda por cima ontem perdemos um montão de água doce da forma mais estúpida possível: alguém deixou uma torneira entreaberta numa casa de banho. Quando liguei a bomba a água começou a escorrer e só demos por ela quase quarenta minutos depois. Alguns cem litros para o galheiro. É difícil dizer a raiva que sinto.

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Pronto. Foi-se a última gota de esperança de não parar em St. Martin. Tive de mudar o tanque de água. Ou seja, temos duzentos litros. Dá para duas semanas à vontade e três apertado. St. Martin à vontade (temos estado a gastar um pouco mais de dez litros por dia) e Panamá apertado. Não posso arriscar. Dois dias parado e fico sem água doce a bordo.

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Quinta-feira 17/03

Dir-se-ia que a viagem começou hoje...

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A ideia de Derrida é totalmente irrealista. Mas é linda. Adoro inteiramente: o irrealismo de uma ideia nunca foi suficiente para me afastar dela.

Adiro igualmente à sua opinião sobre o perdão: só o que é imperdoável pode ser perdoado. Um pouco como a liberdade de expressão, que só se aplica ao indizível.

Derrida diz ainda que o perdão "político" não é o verdadeiro perdão. Este é pessoal, da vítima. Se a vítima morreu o perdão morre com ela, porque ninguém se pode pôr no lugar dela para perdoar.

Acho que se pode extrapolar e aplicar o conceito à solidariedade: sou contra os impostos redistributivos porque a solidariedade é minha, não do Estado e este não pode ser solidário em meu nome.

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B. é uma espécie de prodígio de rigidez mental num corpo jovem e um sorriso desafiante. Hoje disse-me que não bebe café porque não quer tornar-se "numa daquelas pessoas que precisam de café para começar o dia". Explica-me que em toda a sua vida bebeu um café "por engano". Perante o meu olhar interrogativo continua: "alguém me fez um café e eu fui demasiado polido para recusar".

Não gosta da minha cozinha. "Demasiada carne de porco". Em cada o seu prato habitual é "legumes cozidos". Come muito pouca carne.

(G. partilha a opinião sobre o porco. Eu também).

B. é um tripulante adorável. Sério, não pretende saber mais do que o que sabe e o que sabe faz bem. Gosta de governar e muitas vezes desliga o piloto. Governa bem, concentrado, atento. Antecipa as guinadas e não usa demasiado leme.

Se eu tivesse um bocadinho mais de paciência puxaria um bocadinho por ele. Infelizmente não tenho. A minha paciência foi toda substituída por uma inesgotável carrada de tolerância.

Não julgar os outros, não esperar nada deles, aceitá-los como são é uma forma de arrogância, não é? De distância, de afastamento.

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O vento voltou e com ele a esperança e o bom humor. Dia 30 ou 31 estaremos em St. Martin (agora já não há dúvida).

Vou para a Lagoonies Marina. Se St. Martin é a minha casa o Lagoonies é o meu quarto.

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Comprei uma quantidade enorme de enchidos e de porco, sobretudo entremeada. Está tudo farto, eu incluso.

Quero poder fazer compras todos os dias, se possível num mercado. E ir ao cinema. E escrever no meu computador sem ter de me preocupar com a bateria. E andar na minha bicicleta Vitus Turbo azul, tão linda que até me dói só de pensar nela.

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Não bebes café, não bebes chá... És um asceta, B.

B. não sabe o que é um asceta. G. tão pouco. Quando lhes explico, G. declara que a filosofia é aborrecida. Tento hedonismo. Também desconhecem.

Foi por coisas como esta que há muitos anos parei de fazer vela. Algo me diz que desta não estou muito longe.

É curioso. Costumo dizer que não sou um intelectual que navega; sou um marinheiro que sabe ler.

Mas os intelectuais tão pouco me aceitariam como um deles: os meus conhecimentos são básicos, primários, insuficientes.

Entre duas águas, dois mundos, duas vidas. Só quando morrer me integrarei verdadeira e definitivamente.

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Vinte e três graus e vinte sete minutos de latitude. Entramos geograficamente nos trópicos. Frios, demasiado frios; e tristes. Os dias passam depressa mas eu quero chegar mais depressa do que eles passam.

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Fiz pão. Não vai ficar grande coisa, mas enfim. O próximo será melhor.

Talvez.

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Pouco a pouco os marcos que costumo usar nas viagens grandes aproximam-se: 1317 milhas até à chegada (metade da viagem na carta); 40 graus de longitude (longitude mediana); 1000 milhas até ao destino (menos de quatro dígitos).

A seis nós, seis e meio vamos mais devagar do que poderíamos ir e mais depressa do que já estivemos: passámos dias de nem cem milhas fazermos.

Chegamos no fim do mês. 31 de Março ou 1 de Abril. Está quase. Mais dez dias. Se passarem tão depressa como os onze que levamos vai ser um abrir e fechar de olhos.

A Lua está quase cheia. O planeta que tem ao lado é Júpiter, creio. B. mostrou-me há pouco uma aplicação que tem no telefone chamada Google Star, ou Sky. É um mapa das estrelas hiper bem feito.

Vou poder reencontrar muitas das estrelas que conhecia quando navegava com sextante e depois esqueci: Fomalhaut, Arcturus, Capella, Pollux, Alderaban...

Gostava de saber o que é feito do Gérard, astrónomo amador e gago que atravessou comigo o Atlântico em 83 ou coisa que o valha. Todos os dias, de manhã e à tarde me preparava as observações com quatorze ou quinze estrelas (normalmente preparam-se sete).

Enfim, preparavam-se. Sextante agora é para saudosistas e militares americanos, que vão reaprender a usá-lo não vão os terroristas deitar abaixo a rede GPS.

Espero que não seja amanhã a véspera desse dia. Se Deus existisse o GPS seria uma das provas da sua existência.

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Hoje passamos dois marcos importantes: o meridiano mediano da viagem (40 W) e a metade da distância na carta (1317'). O próximo é as mil milhas: a distância passar de quatro para três algarismos. O seguinte é a chegada.

O dia está lindo, temos tido vento (se bem não tanto quanto eu gostaria. Mas enfim, melhor do que nada) e a energia só hoje começou a dar sinais de que pode vir a haver um problema. Até aqui temos conseguido fazer doze horas entre cada carga de baterias.

Ou seja: tudo estaria bem no melhor dos mundos não fosse esta vontade de chegar.

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Mais uma pega com G., que começa seriamente a implicar-me com o sistema. Se não aguenta a privação de tabaco não deixe de fumar.

Excedido, disse-lhe que não preciso dele para nada (é verdade é ele sabe-o). Quando acordei a minha casa de banho estava limpa de brilhar.

G. tenta compensar as suas deficiências em navegação com as limpezas, mas desta vez excedeu-se. Se há coisa que detesto é graxistas, lambe-cus e afins; além disso ele sabe - porque eu lhes disse - que não quero que eles limpem a minha área do barco - do meu camarote e da minha casa de banho trato eu. (Admitidamente estava bastante suja mas chateia-me gastar água - que boa desculpa- a limpar uma coisa que sou o único a usar e a sujar).

Para compor o ramalhete: não me acordou para o quarto.

Resolvi fazer pão. A noite está sublime: quinze nós de vento, lua cheia, o S. B. calmo, tranquilo como um corredor de fundo. De maneira fiz pão. No poço ao luar. A raiva passou - passam sempre e depressa, de qualquer forma - e de manhãzinha haverá pão para quem estiver de quarto.

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Estamos quase a chegar - falta uma semana, se o vento não nos pregar grandes ou prolongadas partidas - mas o calor não está à nossa espera.

Está coisa do aquecimento global tem que se lhe diga. Quanto mais não seja, o dinheiro que já se gastou com aquilo daria para aquecer o planeta três vezes e não andar aqui um gajo cheio de frio nos vinte e um (e muitos) de latitude. Norte, acrescento porque ainda ontem foi o equinócio.

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Os chineses têm um provérbio segundo o qual metade de uma viagem de cem li não são cinquenta li. São noventa.

Hoje chegamos a essa metade final: vamos passar a marca das mil milhas. Isto é, a partir desta noite vão faltar menos de mil milhas para a chegada. Uma semana, à velocidade que temos vindo a fazer.

Largámos do Funchal faz hoje duas semanas. Foram longas, mas passaram depressa. Espero que esta última passe igualmente depressa.

Estou ansioso por chegar. Nada tenho em comum com esta gente. Nem o mar: o meu é diferente do deles.

G. está na sua quarta travessia do Atlântico e hoje estava espantado por haver ondulação de duas direcções diferentes. Que vêm estes gajos fazer para aqui?

Chatear-me é só parte da resposta, não é a resposta toda.

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B., o homem que não conhecia a palavra asceta (verdade seja dita que G. tão pouco) não sabia que se pode fazer queijo de ovelha.

E ri-se quando eu falo de queijo de ovelha como se eu fosse de outro planeta.

Queijo de ovelha.

Não sou eu quem vem de outro planeta.

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Daqui a duas horas é sábado. Quem pensava que nunca mais era sábado enganou-se redondamente. Com vinte, vinte e cinco nós de vento o SB voa.

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Entro de quarto à meia-noite e provavelmente terei de rizar, por causa do pano. Está colado contra os brandais como uma t-shirt molhada contra as mamas de uma senhora bem provida.

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Mais uma conversa com G. Não será a última, tenho a impressão. Pelo menos lá reconheceu que terá sido "inutilmente rude".

O problema foi o tabaco; mas não só. O homem é um diabo e vou ter de o aguentar mais dois meses.

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"Fez-me sentir que não sou parte da tripulação". B. referia-se ao aprovisionamento no Funchal, que não foi muito bem feito. Por uma razão qualquer eles não perceberam que estavam ali para escolher as coisas de que gostam e queriam comer durante a viagem, eu excedi-me na carne de porco e nos enchidos e ao fim de uma semana eles já não podiam ver entremeada no forno com farinheira. Ainda por cima B. é meio vegetariano...

O sacana fez-me chorar. Tenho como principal prioridade fazer uma tripulação unida, fazer que todos se sintam bem e dizer-me aquilo foi como se me espetasse uma faca.

Em St. Martin vamos corrigir isso, B.

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Mais una dias e a Lua estará em Quarto Minguante. Por agora ainda está bastante grande e ilumina suavemente a noite. A Ursa Maior já está de cabeça para baixo. O vento mantém-se nos dezoito vinte, vinte e cinco nas rajadas e o SB voa, claro. Cheira-lhe a casa.

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As coisas com o G. parecem melhorar. Engoli alguns sapos e ainda não pus tudo para fora. Só em St. Martin, depois de ele ter fumado um cigarro (ou um maço deles, mais provavelmente) e bebido umas cervejas é que vai ouvir o resto.

O fdp arruinou-me a viagem. Uma travessia atlântica num veleiro não são nem o momento nem o local certos para se deixar de fumar.

Passámos há bocadinho a marca das quinhentas milhas. Amanhã a esta hora faltarão trezentas e cinquenta. Depois duzentas e depois estarei em casa.

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O G. está mais ou menos controlado. Agora é a vez do B. Verdade seja dita que hoje fui um bocadinho bruto com ele. Ainda estava furioso com a história de ontem à noite: vinte nós de vento à popa e eu pendurado no mastro porque o cabo do lazy-bag estava entalado no moitão. Peço-lhe para ir ao pé do mastro dar-me um bocadinho de folga e diz-me que não!

E eu lá em cima, agarrado com uma mão, vagas de três metros, o mastro de um lado para o outro. Ainda me engasgo só de pensar nisto. Depois lá consegui desenrascar aquilo e vim para baixo exausto.

Hoje saiu-me, claro, e o menino fez birra. São quatro da tarde e ainda não saiu do camarote.

Que raio de vida esta! Só me apetece mandar isto tudo para o c... e ir para casa.

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B.: aquela cabeça é um poço de certezas. Tentar encontrar uma dúvida ali dentro seria como procurar um prato de spaghetti alla bolognese numa escultura do Miguel Ângelo..

Que tristeza!

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Medo? Claro que tenho. Só os idiotas não têm medo. O medo alerta os sentidos, aguça o pensar e ajuda a fazer as coisas mais depressa e melhor.

Um gajo aproveita-se do medo e deita-o fora quando já não precisa dele. O contrário é coisa de cobarde, não de homem.

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O B. acaba de me dizer que desembarca em Marigot. Que bom. Não suporto cobardes, não consigo conviver com eles.

10.3.16

Diário de Bordos - Funchal, Madeira, Portugal, 10/03/2016

É como se tivesse um elástico amarrado às costas e cada vez que entro num porto esse elástico aperta e impede-me de sair. Aqui no Funchal o elástico foram dois:  primeiro o frigorífico e segundo uma maldita carta.

Hoje tudo indica que o último se parte. A carta já está no Funchal, aparentemente. (Digo aparentemente porque não acredito em nada do que o shipchandler onde a comprei diz).

E nós partimos logo que ele se parta, se possível para o Panamá; se não para St. Martin.

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A psico-rigidez é um fenómeno que me apaixona mas não entendo. Quando se manifesta num miúdo de vinte e cinco anos passa definitivamente para o mundo do para-normal; ou das aberrações, não sei bem.

Como funcionam aqueles cérebros, que são o contrário de tudo o que um cérebro deve ser? Cérebros anti-evolucionários...

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Uma equipa de futebol qualquer ganhou um jogo no estrangeiro e - diz a televisão a abrir um telejornal, mais coisa menos coisa - "trezentos adeptos dirigiram-se ao aeroporto para [a] acolher".  pelo que percebi eram três e meia da manhã. Amanhã aqueles desses trezentos mentecaptos que têm empregos passarão por heróis nas empresas e organismos onde "trabalham". Entre aspas. Quem trabalha não vai às três e meia da manhã para o aeroporto acolher equipas de futebol.

O pior é que não é só a abrir o telejornal que se fala disso. A coisa continua. Que seca! Felizmente o Facebook tem alguns excelentes disc-jokeys. Viva Bach. Viva o Facebook. Vivam o V. P., o F. C. et al.

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A distância é benéfica para um amor nascente. É um microscópio e um telescópio ao mesmo tempo. A ausência é transparente, a proximidade opaca (ou pelo menos o físico que a proximidade permite é opaco).

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Oito e meia da manhã. O café da marina começa a encher-se com as pessoas que aqui trabalham. São muitas: o Funchal tem inúmeras empresas de day-charter que criam dezenas de empregos. Infelizmente concentram-se todas em baixar os preços, em vez de encontrar forma de os subir.

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Cavaco Silva foi-se embora e a esquerda, que adora emprenhar pelos ouvidos exulta com Marcelo. Pergunto-me quem será o próximo alvo daquela matilha acéfala. (Passe o pleonasmo...)

7.3.16

Diário de Bordos - Funchal, Madeira, Portugal, 07-03-2016

É sempre assim, não é? E em tudo, não só na área da náutica "de recreio" (entre aspas. É um termo que leva a confusões). Tudo é uma mistura de boas e más notícias; o que varia é a percentagem de umas e outras. Hoje estava tudo a correr bem, melhor, óptimo. Até que resolvemos abrir o compartimento da balsa salva-vidas e vimos que a validade expira em Março. Em termos de segurança não é um problema, de todo. Podia já ter expirado há um ano que estaria tão seguro como estou com aquilo dentro da data. É uma questão de regulação. de filhos da puta que não têm mais nada que fazer se não duvidar das capacidades de outrém.

Sendo, claro, que outrém é quem lá anda. Os fdp ficam-se pelos escritórios.

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Isto dito esta escala tem sido um prazer desde que acordo até que adormeço. Apesar da ferida no punho - hoje fui mudar o penso e doeu que foi uma coisa estúpida - tudo flui, tudo corre como água num ribeiro tranquilo.

O trabalho está feito a um preço muito, muito abaixo do aceitável, o tempo está óptimo - escrevo este post em t-shirt e calções! - hoje vamos comer uma espetada ao Estreito, as previsões para a próxima travessia muito boas e outras coisas das quais este não é o sítio apropriado para falar.

Ou seja: mais um período que um dia vou ter de pagar (e me vai sair caro) mas de que agora tento usufruir tanto quanto possível.

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E é isto. Dias felizes têm poucas histórias. A felicidade é difícil de partilhar porque é muito chata.

Para os outros, claro.

5.3.16

Diário de Bordos - Funchal, Madeira, 05-03-2016

Não sei por onde começar.

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Ontem a voltar para bordo escorreguei e abri o pulso esquerdo. Pus-lhe um bocadinho de mercurocromo, uma ligadura e fui dormir. De manhã ao mudar o penso o G. viu aquilo e exigiu que fosse ao hospital. Disse-lhe que sim, claro.

Que se lixe. Meia dúzia de pontos, quase. Que "não tenho cabeça". Que tudo e mais alguma coisa. Vou tirar eu os pontos, no mar. Não é a primeira vez, mas é a primeira que estou farto. Não me apetece voltar a ouvir enfermeiros e médicos contestar a minha maneira de lidar com o meu corpo. Que é meu, recordo; mas não só porque tenho uma tripulação pela qual sou responsável. Até agora temos tido uma relação mais coisa menos coisa harmoniosa, o corpo e eu. Não gosto que terceiros - e ainda por cima terceiros que não posso dispensar - metam o bedelho.

Estou a ponchas e a paracetemol. Podia ser pior.

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Hoje há um jogo de futebol e a única mesa livre é a que está mesmo por baixo da televisão. Passo os pormenores: só espero que a vela nunca chegue a este nível de atrasadice mental.

Já esteve mais longe, é certo. Mas perceber uma regata exige mais tempo e mais inteligência do que perceber um jogo em que vinte pessoas correm atrás de uma bola e duas tentam pará-la.

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Não tenho lido e a leitura falta-me. Comprei um livro do Silva Carvalho que foi uma decepção, um do Browne que é demasiado pesado para ler na cama, um de uma escritora açoriana que se lê em meia hora e o Hotel, de varela Gomes que já li e reli. Preciso ou de ir a uma livraria ou de me habituar a ler no computador.

Afinal tenho mais de cem livros no disco rígido externo. ("Disco rígido externo". Três palavras para designar uma coisa pela qual não daria um chavo só de olhar para ela.

Comme quoi les apparences...

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O futebol é uma coisa muito aborrecida de ouvir, mas na verdade não sei o que é pior: se ouvi-lo se ver as pessoas que o vêem. Estão todas de frente para mim e sinto-me como se estivesse no cinema a ver um documentário sobre a doença mental.

A única diferença é que os períodos de catatonia são muito breves e interrompidos por momentos de agitação irracional intensos, durante os quais os espectadores falam para a televisão e entre eles, indistintamente.

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Tenho uma instrução de G.: não perder o uso da mão direita. Espero que não. Que seria de mim sem ela?

Eternidade, morte

A eternidade só dura enquanto estamos vivos. A morte acaba com ela num instante.

Profundidade, racionalidade

- É preciso olhar para as coisas com profundidade e racionalidade", disse Watts. Estávamos num bar de putas em Gibraltar, um primeiro andar onde há muitos anos ouvi pela primeira vez Steeleye Span e aprendi a equilibrar copos pelo lado errado.
- Não. A profundidade é devastadora para a racionalidade, Watts. Só o sentimento é profundo. A racionalidade espalha-se. O sentimento mergulha.
- Tolice - respondeu. - O sentimento está para a razão como a punheta para uma foda.

Um das putas que estava connosco abanou a cabeça. "Porra! Só a mim é que me calha disto". As putas percebem bastante de amor porque o sabem diferenciar do sexo e nunca se casam. O bar era escuro e grande. Cheirava a cerveja, esperma, suor e calor. Nunca o vi com menos de duzentas pessoas, se é que um soldado bêbedo ou em vias de o estar conta como pessoa. Para mim sim. Havia pelo menos duzentos deles.

Watts é um revoltado. Não me admira: a racionalidade leva à revolta. "É preciso imaginar Sísifo feliz e livre", disse Camus nessa obra sublime e primordial que é o Mito de Sísifo. Só um sentimental percebe isto sem se revoltar.

Provavelmente. Mas pelos outros não falo. Já por mim é penoso que chegue.

Diário de Bordos - Funchal, Madeira, 05-03-2016

Cafés pedantes há-os em todo o lado. Este onde agora estou não difere dos outros: música horrível, decoração a condizer, símbolo "wi-fi" à porta, visível e "moderno".

O vinho é horroroso, a wifi lenta, da música não volto a falar, a iluminação execrável.

Verdade seja dita: para fazer o que tenho de fazer (escrever disparates e publicar outros já escritos) está mais ou menos em consonância. A música não é pior do que uma frase minha, coisa que aliás seria difícil; a clientela pouco difere (apesar de mais bonita) e do resto "on s'en fout.

On n'est pas d'ici. Demain on s'en va".

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É um prazer voltar ao Funchal. Há uma nonchalance nesta cidade que todas as outras deviam invejar. Ou emular, melhor ainda.

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No mar:

Doze nós de vento pelo través e o SB entra em modo voo. Cinquenta e três milhas em seis horas. [Duzentas e duas foi a conta das vinte e quatro].

Lua em quarto minguante, mar de senhoras. Um bocadinho de frio, claro. Mas nada que umas camadas de roupa não resolvam.

E o mar. Não sei como explicar. Alguém se lembra do líquido amniótico? É parecido sem ser igual e igual sem ter nada que se pareça.

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"Quem não sabe beber vinho bebe mijo", dizia o meu Pai quando eu chegava a casa visivelmente grosso. Estragou-me bebedeiras durante quase trinta anos, mas quanta razão tinha. Embebedamo-nos para nós e não para que os outros vejam que estamos bêbedos.

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Os homens magoados deviam aprender a viver sem magoar os outros. É impossível, eu sei. Que graça teria estar magoado sozinho? Seria como estar apaixonado e não ter uma namorada.

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Se eu fosse Nietzsche escreveria um livro ao qual daria o título de Genealogia do Mau Gosto. Infelizmente não sou. Ele preferiu escavar a moral.

Percebo-o? Não sei. Balanço entre a moral e a estética como um mastro entre duas vagas.

4.3.16

Metáfora

Hoje à noite Meme Diouf comeu o lápis com que o desenhei. E comeu a borracha também, não fosse o diabo tecê-las. Assim não o posso apagar. Ignoro onde mora, mas deve ser mais para o lado do sonho do que do da memória. Vi-o perfeitamente: um rapazinho magro - muito magro, um traço só porque não sei desenhar e quando tenho de o fazer tento ser o mais simples possível. Um traço só. Quem vê que imagine o resto -, sentado num muro (ditto). Pareceu-me que estava a comer o lápis, mas isso é uma dedução: tinha uma coisa qualquer na boca e nem o lápis nem a borracha estão no seu lugar, onde religiosamente os deixo há anos. Alguém os tirou de lá.

(Devo dizer que desenho tão poucas vezes e tão pouco de cada vez que o lápis e a borracha eram os mesmos há uma eternidade.)

E não estão noutro lugar qualquer. Nada. Desvaneceram-se. Desapareceram.

Não sei quase nada do Meme Diouf. Africano, 15 anos, perdeu os pais numa daquelas guerras com que os países de África insistem em provar que a modernidade lhes chega às arrecuas e um dia caiu-me num sonho (tenho quase a certeza que não saiu da memória) para se sentar num muro e comer-me o lápis.

Pergunto-me porque o terá feito. Estaria com fome? Para se vingar de o ter desenhado tão magrinho? Por curiosidade? Ignoro.

Meme Diouf engoliu o lápis. Um traço sentado em cima de outro traço com um traço la dentro. Não o posso desenhar mais. Resta-nos (a mim e a si, leitor, que isto da escrita é como o tango) imaginá-lo: olha-nos, mas será que nos vê? Sorri, mas de onde lhe vem o sorriso?

Um traço que engole quem o fez. Bela metáfora, não é?