23.6.16

Um amor de gramática

És uma aliteração, um gerúndio, imperativo, futuro anterior e indicativo do presente, verbo de dizer e tocar, verbo de percorrer e conjugar em todos os tempos, todos os modos. És um amor de gramática e a gramática do amor. Artigo definido, indefinido, complemento directo e indirecto, sujeito e predicado, advérbio e preposição. És as palavras todas feitas uma, léxico novo da língua mais bela do mundo.

Diário de Bordos - Lisboa, 23-06-2016

Foi um daqueles dias de sorte: tudo estava bom ou quase; a companhia era excelente; os vinhos idem; não estava calor nem frio antes pelo contrário.

Devido a um esquecimento meu - coisa que raramente acontece mais de dez vezes por dia - o frango com molho de tahini foi substituído por frango com gengibre em leite de coco. O resto ficou igual. A beringela, uma receita sugerida pela Tatiana, italiana de gema, beleza e gosto ouviu muitos elogios. O resto também, mas esses foram mais devidos à simpatia das adoráveis pessoas que compunham o grupo, suponho. Ou não suponho. Sou péssimo crítico e pior ainda auto-crítico. A verdade é que gostei muito desta maratona e fiquei com vontade de fazer mais. O resto é conversa para encher chouriços.

........
Entretanto lá vou aterrando, meio aterrado meio espantado meio resignado. A lentidão e a falta de profissionalismo mudaram tão pouco como a beleza da cidade ou a luz: nada. Os portugueses continuam a tratar o tempo como se fossem donos dele; seria belo e poético se não tivesse as consequências que tem.

É como tudo: basta estar do bom lado da barreira e as vantagens aparecer-me-ão, claras e irrefutáveis como a erupção de um vulcão.

........
Não sei esperar, excepto quando cozinho. Ou passeio pelas margens do Tejo.

Ou penso na morte.

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A filha jovem de uma amiga brasileira morreu. Não imagino dor maior para uma mãe ou um pai do que perder um filho. Pensei nisso muitas vezes, quando os meus eram mais novos.

22.6.16

Lisboa

Como explicar a pessoas que vivem  isto todos os dias quão bom isto é?

Não é preciso. Elas sabem.

Alegria

Arrotear é uma palavra bonita. Imaginas um campo, um corpo. Imaginas outro corpo nesse campo, nesse corpo. Laborar lentamente, como os campos e os corpos devem ser

Tu és o campo e o arado eu. Tu és o que será e eu o que foi. Tu és e eu também: a meio da noite nos encontramos, surpresos como um tatu no meio da estrada: paralisados ambos na alegria da descoberta.

21.6.16

Capelinhas

Tenho com as capelinhas a relação que tenho com as igrejas: nenhuma.

Não é arrogância. É inabilidade.

Desescrever - II

Polir palavras é tão chato como polir aço inox.

Verão

Chega o verão e entranha-se-me pela pele como o delta de um rio em terreno árido.

Desescrever

Por razões que ainda não vêm ao caso tenho estado a editar o Don Vivo. A cada dia que passa as perplexidades empilham-se como livros nas estantes dos "não lidos".

Em primeiro lugar as correcções são tantas que um gajo é obrigado a perguntar-se como é que alguém pôde achar aquilo bom; depois, mais ou menos relacionada, são tantas as correcções que sou obrigado a perguntar-me como tive coragem de pôr aquilo em linha; e assim por diante. Não sabia que um texto podia ter tantos erros, tantos como os amigos nas esquinas de Grândola.

Hoje dizia que editar os textos que escrevemos é como tentar transformar em círculos elipses imperfeitas. Puxa-se de um lado estraga do outro. Cada vez admiro e invejo mais os escritores produtivos, fecundos, prolixos: eu por cada palavra que escrevo tenho de apagar duas. Isto para não falar das vírgulas, claro. Mais do que servir o texto serviram - parece-me - para me relentar quando escrevia.

20.6.16

Escolhas

Magra e vivida, como se fossem coisas que podes escolher.

Não podes.

Ruas, peles

Também me perco nas ruas do teu corpo, do teu olhar.

As ruas da pele são as melhores. 

19.6.16

Proporções

A alegria está para a felicidade como a percussão para a bateria.

Em favor da pena de morte

Aonde devo dirigir-me para solicitar a proibição absoluta e sem excepções do termo parabenizar, quando escrito em suportes portugueses por portugueses ou assimilados?

Beleza, ingratidão

Só,  divago nas ruas da beleza. Nas ruas, travessas, praças, largos e becos, avenidas e boulevards. Perco-me nas ruas da beleza. Como um adolescente espantado descobre o primeiro seio, como um homem descobre que é frágil.

A beleza é isso: um espanto e uma fragilidade. Uma cidade na qual me perco, na qual me dissolvo. A beleza é isso: uma solidão que se ignora. Descubro-a num poema, num rosto, numa amizade, no corpo esguio da mulher que ao meu lado joga xadrez com bocados de papel a fazer de peças, na memória de um corpo que amei ou amarei.

A beleza é esta constância, esta permanência, esta ausência: perdido e preso, livre e surpreso.

Sou pobre e sou rico à vez. Depende da hora do dia. Sou tudo e o seu contrário: alto e baixo, gordo e magro, feio e bonito. A única coisa que fica - é pouco, bem sei - é isto: perder-me sozinho nas ruas da beleza. Todas.

E ser feliz com isso.

........
Não é pouco. Sou ingrato, sei. Não acredito em deuses e de anjos só sei o que leio ou vejo no cinema. Acredito na beleza, no prazer solitário de ouvir o Gonçalo no café Tati, na sorte que tenho: poder perder-me nas ruas da beleza e não precisar sequer de me encontrar.

Pouco importa

É como ter-te amado: o problema foi começar.  Agora não sei desamar-te e mesmo que soubesse pouco provável seria que o quisesse. Talvez. Pouco importa: o problema não se põe.

Imagina um comboio nos carris, os boogies a fazerem aquele barulho ritmado, condutor atento ao caminho. Ba-dam ba-dam; ba-dam ba-dam.

Não é isto. Pouco importa. O comboio não vai parar tão cedo. Concentra-te no essencial: respirar. Ver com olhos de ver. Ouvir.

Tudo começou com a história de um bêbedo que morreu duas vezes e acabou com outro que nunca viveu. Importa pouco. Ver, respirar e ouvir não têm passado. Não podes respirar ontem, ouvir-te antes de ontem, ver-me. Mesmo que o quisesses.

É difícil desamar alguém. Requer treino e persistência. E tempo, claro. Vontade. Um sem fim de coisas para te desamar simplesmente e te desamar, simplesmente.

Arar-te o corpo fértil e feliz. Desamar-te. Pouco importa. Ponto final.

Palavras, pessoas

Falo tanto de palavras, não é?, e tão pouco de pessoas. Hoje descobri uma pessoa. Isto é: uma soma aleatória de passado, futuro, qualidades e defeitos, risos e coisas que se intuem ou se dão a ver - uma vida que não se vê é uma palavra que não se ouve -.

Descubro uma pessoa e descubro-me nela. Talvez seja essa a definição de pessoa: alguém que nos ensina algo sobre nós próprios. Talvez. Há livros, palavras coisas momentos que nos ensinam montanhas sobre nós próprios e não são pessoas.

Pessoa é quem nos arranca palavras em troca de um olhar ou nos cede mistérios como quem distribui confetti num desfile de Carnaval.

Uma palavra é um hiato entre dois silêncios;  uma pessoa um silêncio entre dois olhares.

Tenho sorte. Vivo num país onde não sou obrigado a escolher entre as palavras e as pessoas.

18.6.16

Táxis, Uber e eu

Na guerra dos taxis contra a Uber há um aspecto que tem sido injustamente pouco mencionado: as respectivas relações com os ciclistas. Acho profundamente injusto não ouvir um único piropo vindo de um chauffeur da Uber - não se distinguem dos outros condutores, a menos que a Uber também utilize carrinhas (vulgo vans) - e não passar uma hora sem receber as diversas provas de carinho dos taxistas.

Enfim, não tão diversas. "Sai da frente, caralho"; "levanta o cu, caralho"; "lá me saiu mais um destes caralhos": os senhores dos táxis têm uma fixação num determinado órgão.

Há poucos prazeres no ciclismo urbano que se comparem a estas manifestações  de ternura, boa educação e civismo. A Uber devia ensinar os seus condutores a seguir o exemplo dos taxistas sob pena de descrédito total.

17.6.16

Batalhas, vírgulas

Releio o post anterior e penso que escrever, mais do que "uma faxina, um vómito" e por aí adiante é uma batalha perdida contra as vírgulas. São como loiça suja: nunca acabam, por mais que as limpemos.

Reedição editada bis - Escrever

      Já não sei a que língua pertenço, a que país. Escrever é como procurar o melhor itinerário nas ruas de Genebra, actividade à qual me dedico todos os dias, montado numa scooter velha. Cá estou: outra vez entre duas vidas, dois países, duas ou três línguas e uma incalculável quantidade de paisagens, geográficas ou emocionais, pelas quais fui desde sempre atraído e das quais fui sempre fugindo, umas vezes voluntariamente, outras não.
       Escrever é como percorrer as ruas frias, feias e pouco convivais de Genebra sem um mapa; a cada esquina um precipício e indescritíveis monstros, disfarçados de polícias. Mas os caminhos da escrita são mais bonitos e há mais palavras do que ruas, o que torna o exercício cativante, se bem as punições sejam piores: não há multa que pague uma frase mal escrita, uma palavra mal escolhida, uma analogia deselegante, uma vírgula fora do lugar.
       Do francês, Cioran dizia: “esta língua de empréstimo, com todas as suas palavras pensadas e repensadas, afinadas, subtis até à inexistência, dobradas sob as exacções da nuance, inexpressivas porque já exprimiram tudo, assustadoras de precisão, discretas até na vulgaridade... Uma sintaxe duma rigidez, duma dignidade cadavérica encerra-as e atribui-lhes um lugar do qual nem Deus as poderia desalojar”.
       E depois desta descrição da língua francesa, a melhor que alguma vez li vem: “A pátria não passa de um acampamento no deserto, diz um texto tibetano. Não vou tão longe: trocaria todas as paisagens do mundo pela da minha infância”.
      A verdade é que eu não sei a que chamar, realmente, “a paisagem da minha infância”: será a Linha de Cascais, com a Marginal, esse cordão umbilical que sempre me ligou a Lisboa, e onde, ainda hoje, me acontece chorar quando vejo o sol pôr-se atrás do farol da Guia, e a luz a tornar-se espessa e dengosa e cor-de-laranja como uma mulher das ilhas? Ou será Quelimane, em Moçambique, com aquelas intermináveis filas de coqueiros, onde sonhei as minhas primeiras aventuras sentado na mangueira ao lado de casa, a encher-me de mangas verdes com sal porque era o título de um livro de poesia (de um poeta que só muito mais tarde vim a conhecer e apreciar)? Ou ainda, esticando um pouco os limites da infância, Lourenço Marques, cuja baía conheço como as minhas mãos, onde a adolescência me apanhou e com ela as primeiras dores de amor, imediatamente diluídas em Nietzsche e em whisky? Onde é o país da minha infância?
      Percorro as ruas de Genebra montado na minha scooter e tacteio o meu caminho através da escrita, tarefa nobre mas fastidiosa. Penso em todas as coisas que escrevi e deitei fora, porque não sabia, só hoje sei, que escrever é um castigo, uma faxina, um embaraço. Pensava nessa altura que cada frase devia ser sublime imediatamente porque no fundo sou preguiçoso e não há nada que mais tema do que a lassidão. Hoje sei que não é verdade, as palavras vêm como vómito e depois é preciso limpar tudo, cada sílaba, cada gaveta, cada prateleira, cada canto do espelho - porque escrevemos e vomitamos sempre à frente de um espelho, numa tentativa - falhada - de nos desgostarmos de nós e da escrita para sempre.
      Hoje, montado na scooter, não são as ruas de Genebra que eu vejo: são as inúmeras avenidas, ruas, becos, auto-estradas, por onde andei ao longo dos anos, labirinto sem fim cujo ponto de chegada é, inevitavelmente, o ponto de partida; e onde não há polícias para nos castigar – só as palavras e a morte, porque uma vida perdida é uma morte antecipada. E é dessas ruas, avenidas, becos sem saída, carreiros e caminhos de cabra que quero falar, um pouco como um arquitecto que fizesse os planos da casa depois dela construída.

Reedição editada - Um homem

Um homem procura, perde, ganha, empata, bate com a cabeça nas paredes, parte paredes e parte a cabeça, encontra saídas e mete-se em becos sem elas, encontra quem o ama e perde quem ama, bebe de mais ou de menos e come idem, tem dias lindos de morrer e morre por dias feios, é feliz, infeliz, triste, alegre, melancólico, empatiza, antipatiza e simpatiza, descobre saídas dos becos e portas onde antes só via paredes.

Um homem é um homem, não é um gato.

Um homem sofre, des-sofre, maravilha-se com uma paisagem, um seio, um sorriso, um livro ou um poema, sabe que vai morrer e sabe que tanta tristeza e tanta felicidade não morrem, que um dia de sol vale dez de chuva e um de chuva dez vidas, duvida de si, dos outros, do sol e dos planetas e sabe que um bom picante num guisado trata todas as dúvidas, tal como um dia de vento trata azias, reumatismo, dores nos ouvidos, problemas de articulações, unhas encravadas, vinho estragado ou intoxicações alimentares.

Um homem não é um gato. É um homem.

Um homem sabe que não há melhor mistura de cores do que o azul marinho e o azul celeste, mas por vezes cede e aceita um bocadinho de verde entre os dois. Um homem gosta de mulheres, de uma mulher e de tudo o que fica entre elas.

Um homem é frágil, porque nada é mais resistente do que a fragilidade de um homem.

Um homem acerta, falha, falha bem e acerta mal, é deus, diabo, anjo, anjinho e tudo o que há no meio, é bom, mau, mediano, tem sorte, azar e azar e sorte ao mesmo tempo, aprecia o silêncio e gosta do barulho, sabe que hoje ontem e amanhã são tão diferentes entre si como ele é do que era ontem e será amanhã, sabe que hoje o mar está calmo e amanhã não, que o sorriso daquela mulher vale as horas todas do mundo ou não vale um segundo, que tudo é, não é e é outra vez como num carrossel. Um homem sabe que o bem e o mal são as duas faces da moeda desequilibrada que lhe saiu na rifa e que querer mudar essa moeda ou mudar-lhe a face é como querer escolher o tempo que vai fazer amanhã.

Um homem é um homem. E é tudo o que um homem é.

(Com um obrigado grande ao R. A., que por vezes me faz acreditar em sonhos).

As moradas de Deus

Recentemente misturei num post Deus, Mallorca e sobreasada. A mistura não estava errada; meramente incompleta. Ora venham à Merendinha do Arco e digam-me se Deus não mora aqui também. Mora, claro. Deus mora onde se come bem, onde se ama (bem ou mal, pouco importa), onde se é feliz (muito ou pouco), onde se espera e alcança.

Já o desespero e o mau vinho são obra do diabo, mas isso fica para depois.

16.6.16

Diário de Bordos - Lisboa,16-06-2016

(Chuva, balanças)

Chove e sais de ti. Vais buscar a bicicleta, comprar um computador portátil, pagar os óculos que encomendaste anteontem, por causa dos quais passaste uma hora com um gajo a escarafunchar-te os olhos como se fosses um nariz e ele um dedo, o teu dedo. Acaba-se-te a intimidade, as desculpas para não fazeres o que devias ter feito há dias. Como se um degrau mais tivesse saído da terra e o tivesses subido empurrado pela água.

Não deixas de pensar na nuvem de onde caiu a chuva, na maré baixa que em breve te baterá à porta, mas isso pouco interessa: não foi ontem que aprendeste a viver um dia de cada vez, ou a conciliar os dois pratos da balança.

Das balanças. São muitas.

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Os olhos estão bons, mas o jovem que mos inspecciona tão profundamente diz-me que devia começar a tomar comprimidos para que não piorem. "Sim; talvez", respondo. Nem para reparar o que está avariado os tomo facilmente...

Daqui salto para a conversa que tive com um médico espanhol em Moçambique sobre a profilaxia versus terapia da malária. Era um especialista e arrasou-me em aproximadamente dois segundos:

- Tudo o que dizes sobre a profilaxia é verdade. Mas se pegares em dois grupos de mil pessoas cada e a um fizeres profilaxia e ao outro fizeres apenas terapia terás mais mortos neste do que no primeiro.

Quase morri no hospital de Genève: não fiz nem um nem outro. Lidar com o corpo é uma complicação, uma ambivalência e eu sou um tipo simples, no limite do simplório.

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Dizia-me R. A. recentemente que não se deve falar dos restaurantes de que gostamos, sob pena de os perder. Está podre de razão, claro. Mas seria estultícia pretender que uma menção no coitado deste blogue tenha um impacto qualquer no que quer que seja; e estultícia ainda maior não o fixar para futuras referências (já o mencionei, creio, uma vez. Repetir a menção não é de mais). Chama-se Delícia de Arroios. Hoje comemos lá um polvo panado com açorda de coentros e um bacalhau à Minhota que me fizeram esquecer os olhos, os comprimidos e as ambivalências. Ou seja: devolveram à vida a sua simplicidade essencial.

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O humor português é mau. São poucos os humoristas que têm piada e menos ainda os que a mantém ao longo do tempo. Não é preciso pô-los na fogueira: eles imolam-se a si próprios.

Alguns em fogo mais lento, é certo. A bananeira dá mais sombra para um lado do que para outro.

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Não se deve perder muito tempo com o insignificante, o medíocre, o que não interessa. Cheira mal, é feio e rapidamente provoca urticária.

Nietzsche tem uma ou duas frases sobre isso (enfim, tem muitas sobre tudo). "Quem luta com monstros deve ter cuidado para não se transforma ele próprio num monstro".

Devemos pesar as palavras: entre um monstro e um medíocre há um abismo. Ou uma montanha, se preferirem.

15.6.16

Diário de Bordos - Lisboa, 15-06-2016

Hoje choveu um bocadinho. Ia buscar a bicicleta mas a loja estava fechada e acabei - sem querer, claro - no El Corte Inglés.

Aquilo é uma desgraça. Tem produtos óptimos e baratos: sobreasada, por exemplo. Já por aqui lhe cantei laudas, uma das provas de que se Deus existisse moraria em Mallorca. E vinho e pâtés e chouriço de bolota e trinta por uma linha.

Lamento imenso o meu médico ser do SNS. Se fosse do sector privado poderia rapidamente ajudá-lo a acrescentar um quarto ou dois à casa de praia que provavelmente teria na praia de Moledo (é chic de mais para ir para a Comporta). Assim vou apenas contribuir para o buraco da Segurança Social.

Enfim, talvez não. Poupo no psiquiatra e nos anti-depressivos, muito mais caros do que sobreasada a treze euros o quilo ou vinho Portada a quatro a garrafa. A preços destes não há depressão que apareça. (O vinho é daqueles que se parecem com uma mulher bonita, tão bonita que não tem ponta por onde se lhe pegue. Mas que diabo, quem não gosta de dar uma volta de vez em quando com uma miúda linda e muda? Além de que acompanha bem os pâtés, estrangeirados eles também).

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Tudo acontece porém em câmara lenta, mortalmente lenta, como se alguém se tivesse esquecido do travão de mão, como se me tivesse esquecido de que estou em Portugal. Não esqueci. Não o conseguiria, mesmo que o quisesse: Lisboa corre-me nas veias e eu nas dela, feitos que fomos um para a outra. Todos os dias nos injectamos mutuamente.

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Daqui a um ano parecer-me-á que foi rápido, mas quanto tempo falta para daqui a um ano?

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Vou dizer poesia no Festival Silêncio. Recebi hoje a confirmação. Ninguém sabe a luta demente que travei com a timidez, com a dificuldade de falar em público.

Devo o prazer que agora tenho em dizer poemas para outros ouvirem ao meu amigo Celso Borges, um amigo de coração, de vinho e de poesia.

Não sou grande fã do Brasil, mas sou-o dos meus amigos brasileiros; de todos e do Celso em especial. Um dia ele virá a Lisboa e eu direi "Eis Celso Borges: poeta, músico e homem capaz de tudo, até de me pôr a falar nas ruas".

(E do Riba. Um homem que tem uma livraria chamada Poeme-se deve ser objecto da admiração toda de toda a gente. Aqui fica o meu abraço aos dois. Um dia far-vos-ei conhecer Lisboa como se cá tivessem nascido, meus irmãos).

14.6.16

Regras básicas

Apresentação de um livro num dos sítios mais bonitos que conheço em Lisboa. Quem me critica por hesitar tanto em publicar o que escrevo esquece um preceito básico da vida em sociedade: não faças aos outros o que não queres que te façam a ti.

Perenidade

Há um aspecto chato na felicidade: um gajo feliz está sempre à espera de que aquilo acabe; ou de ter de o pagar muito caro, um dia.

Um gajo infeliz sabe que nunca deixará de o ser.

Regresso, verbo

No princípio não era o Verbo, pá. Enganas-te redondamente. Zero. No princípio era o silêncio.

E a ele o Verbo deve regressar.

Horas

"Que devagar passem as horas
Como passa um enterro.

Chorarás a hora que choras
Passará demasiado depressa
Como passam todas as horas"

Guillaume Apollinaire, in Alcools

(A tradução é minha, com tudo o que isso implica).

12.6.16

Lisboa, à espera

É domingo de Santos Populares e eu, pouco dado tanto a uns como aos outros refugio-me no Tati enquanto o Tabernáculo não abre. Vou assar sardinhas, febras, entremeada e coiratos. Até lá bebo vinho branco, leio Nuno Júdice e olho para o calor que invade a rua, para a luz que o provoca - o céu está azul claro, as telhas do mercado encarnadas como se estivessem em chamas, o alcatrão das ruas amarelo e as pessoas movem-se como se estivessem no fundo de uma piscina -.

A música do Tati é excelente, como sempre. Das mesas chegam-me pedaços de frases em inglês, português, francês ou espanhol. Não as oiço. Poisei o livro de Júdice para escrever e pensar - não sei se por esta ordem ou pela inversa - e olhar para a rua. Já uma vez comparei a luz de Lisboa à água de uma piscina (por causa da densidade, da espessura) e a analogia não é completamente tola. Vejo a luz e o calor como oiço as pessoas, peço outro copo de vinho, falo com a jovem que mo serve ou penso nos poemas que acabei de ler.

"Vou dizer-te uma coisa simples: a tua ausência dói-me. ..."

Ou:
"Escuto o silêncio das palavras. O seu silêncio
Suspenso dos gestos com que elas desenham
Cada objecto, cada pessoa, ou as próprias ideias
Que delas dependem. Por vezes, porém, as
Palavras são o seu próprio silêncio. Nascem
De uma espera, de um instante de atenção..."

Nuno Júdice é um dos meus poetas favoritos. Ainda bem que não sei escrever: se soubesse escreveria como ele e não teria graça nenhuma.

Os romances de Böll também falam nesta suspensão do tempo, neste aquário que a tarde parece, nesta solidão fundamental e impossível de resolver porque nasce do silêncio, esse silêncio ontológico, visceral, concreto que é o meu.


Não tenho dinheiro mas tenho sorte. Já me aconteceu o contrário: ter azar e massa ao mesmo tempo. Na verdade já me aconteceu quase tudo: ter azar e não dinheiro, sorte e tê-lo, amar e ser amado, amar e não o ser, ser e não amar.

Por isso acredito na lentidão. Por isso gosto da lentidão, do calor,  desta piscina na qual, perante os meus olhos perpetuamente surpresos, a vida se deixa viver, puta lassa à espera sem pressa de que o último cliente se venha.

Uma coisa simples...

Ausência

Quero dizer-te uma coisa simples: a tua
Ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não
Magoa, que se limita à alma; mas que não deixa,
Por isso, de deixar alguns sinais - um peso
Nos olhos, no lugar da tua imagem, e
Um vazio nas mãos, como se as tuas mãos lhes
Tivessem roubado o tacto. São estas as formas
Do amor, podia dizer-te; e acrescentar que
As coisas simples também podem ser complicadas,
Quando nos damos conta da diferença entre o sonho e a realidade.
Porém, é o sonho que me traz a tua memória; e a
Realidade aproxima-me de ti, agora que
Os dias correm mais depressa, e as palavras
Ficam presas numa refracção de instantes,
Quando a tua voz me chama de dentro de
Mim - e me faz responder-te uma coisa simples,
Como dizer que a tua ausência me dói.

Nuno Júdice, in Pedro, lembrando Inês.

Lisboa é uma sorte, uma vida e uma festa

Se alguém tivesse dúvidas sobre a bondade da minha decisão de viver em Lisboa devia ter-me acompanhado ontem.

Lisboa é uma festa e eu todo sou gratidão: ao H. e à sua maravilhosa família, ao Tejo e ao vento e - porque não dizê-lo? - à vida, da qual não me canso, não há maneira, por mais tropelias que ela me faça e rasteiras me pregue.

Por muito teso que esteja - e estou - tenho sorte. Não há maior antídoto para a pobreza do que a sorte. Ou a amizade,  uma das suas consequências.

(Para o H. et al. com um abraço).

11.6.16

Diário de Bordos - Lisboa, 11-06-2016

Ontem tentei ver televisão mas fiquei desiludido. Pensava que com a mudança para o cabo e as caixas e o diabo a sete se teria, finalmente, acesso a uma quantidade ilimitada  (ou lá perto) de bons filmes e que o único embaraço seria a escolha.

Não é assim. Há mais embaraços do que filmes decentes. Começa por ligar o aparelho - tenho de perguntar à dona da casa como se faz - e acaba como as minhas tentativas de ver televisão sempre acabaram: perco mais tempo a aprender a navegar naquilo do que tenho paciência para o fazer.

Finalmente a tal escolha "ilimitada": um filme russo sem legendas e sem movimento (ao princípio pensei que fosse Manoel de Oliveira dobrado, mas depois vi que não: falavam muito. Uma frase - curta - por minuto, aproximadamente. Isto quando havia "diálogos") e uma americanada sem interesse de que infelizmente percebia o que diziam (e estava legendada).

Desligo a coisa, único momento agradável de toda a experiência. Para a próxima vou tentar ver séries.  Se ainda existir televisão, se não tiver sido substituída por outra tecnologia qualquer.

........
Pouco a pouco o puzzle compõe-se. As bordas, como lhes chamava o meu Pai estão quase fechadas.

Enfim; não sei. A vida será um puzzle só com muitas áreas distintas ou vários com cores uniformes cada um? Talvez viver seja fazer paciências como quem toca bateria ou percussão: ao fim de muita pancada aparece a melodia.

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Pequeno passeio no Tejo, a bordo do FURANAI GE HUVAFEN (cito o nome porque o barco faz passeios no Tejo e é esplêndido), quinta ao fim da tarde.

A luz estava tão bonita que quase não via mais nada.

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Não gosto nada de escrever no telefone mas pelo menos reconheço-lhe as vantagens. É um método churchilliano: de duas frases a mais simples, de duas palavras a mais curta.

.......
Não tarda estou outra vez no Tejo. Ou ele em mim? Nunca saiu...

Tenho o Tejo em mim desde que em 1974 nele pus o meu Vaurien (chamava-se ADN), directamente do navio no qual viera de Lourenço Marques.

Oportunidades do zeitgeist

A ideia original era "abrir um albergue num sítio onde pudesse estar rodeada por animais" (a piada fácil seria perguntar-lhe porque os quer albergar também. Mas tendo passado tantas noites em albergues deixa de ser piada, passa a primeiro grau). Depois viu como é que os locais [o cenário é Belize] tratam os animais ("são coisas que se compram e vendem, não são parte da família") e a "Mãe Natureza" e o projecto mudou "lijeiramente" (o original inglês está cheio de erros). Agora vai ensinar os nativos a tratar de animais domésticos, construir casas com materiais  reciclados e por aí adiante. Como infelizmente os nativos tem de trabalhar para o "grande homem branco" uma parte dos lucros do albergue será para pagar um "salário" (entre aspas porque salário refere-se a trabalho e não a servir de suporte a fantasias) aos que se inscreverem no projecto.

Leio isto e parece-me ler um catálogo da ideologia colonialista do séc.  XXI. Está lá tudo: em vez de Cristo a Mãe Natureza, em vez dos infiéis os animais e em vez de roupa para cobrir as partes um salário. No papel de demónio o homem branco, naturalmente. A previsibilidade destes filmes faz parte do programa. O seu público não gosta de surpresas.

Depois desço à terra: afinal o oportunismo sempre se vestiu com as cores do zeitgeist. Se a miúda quisesse viver de difundir a fé cristã - ou, pior ainda - de pura e simplesmente explorar o potencial económico do Belize em seu proveito não encontraria quem a financiasse. Ou então teria de trabalhar, uma maçada.

9.6.16

À séria

Chega inevitavelmente o dia em que a realidade ganha. Trata-se apenas de não a deixar ganhar à séria, para sempre; e de nos lembrarmos de quando ela não tinha ainda pousado.

De quando podia oferecer-te flores. Não digo um ramo de flores tão grande tão grande que tu precisasses de um escadote para me ver por detrás delas e de uma grua para o pôr na jarra. Não, nada disso. Trata-se apenas de uma flor, uma só. Oferecer-te uma flor que resumisse na sua essência todas as flores que quero oferecer-te (e te oferecerei um dia), uma flor tão bonita, tão simples e essencial que bastaria tu olhares para ela um segundo e perceberias quanto, oh quanto, eu quero oferecer-te uma flor.

Chega inevitavelmente o dia em que a realidade ganha e as flores perdem. Não faz mal: não a deixarei ganhar à séria.

A puta generosa

Lisboa é puta; cara, daquelas de que hoje me falava F. C.: "os putos não sabem sequer o que uma puta é. Pensam que todas têm barbas até ao joelho". Ou que é barata porque olham para os preços que vêem e não para os que na realidade pagam, porque não percebem nada de putas. Lisboa é puta fina, daquelas que nos ensinam como é a vida e nos ensinam - ou ensinavam - a ser homenzinhos primeiro e homens depois, logo a seguir, sem tardar muito. (É por isso que os putos hoje são putos até tão tarde: não percebem nada de putas. Mas isso são contas de outro rosário).

Lisboa é puta fina. Ensina-nos o que é a vida até morrermos de exaustão. Pagamos-lhe caro, apesar de ela fingir que é barata. Sei do que falo: tenho cinquenta e oito anos, vivi em todo o lado e ainda hoje aprendo mais em Lisboa num dia do que em trinta noutro sítio qualquer.

Não me compete, claro, explicar tudo o que cada dia aprendo em Lisboa: não sou professor, sou aluno. Saí vós outros e aprendei também. Não perdereis nada: nem tempo nem dinheiro, quer os tenhais quer não. Porque Lisboa é puta fina, cara - e generosa (por isso parece barata) -.

8.6.16

Muro

Mãos como tijolos: palmo a palmo este muro que nos une levanta-se.

(Para a P., com um beijo.)

Este povo que é meu

A sedentarização é um processo lento e complexo.

"Lentamente, lentamente
caracol
sobe o Fuji".
(Issa)

Escorrega e derrapa e anda para trás para o lado volta a subir. Esta é a minha gente, o meu povo. Eu não sou dele. Não sou de ninguém, de lado nenhum.

Mentira.

Benditas palavras

Poucas coisas me encantam mais do que palavras bem ditas.

(A propósito de André Gago a dizer Ruy Belo no Belas)

7.6.16

Sorrisos doces

Agora é a vez da Caixa Geral de Depósitos. Uma coisa que me faz docemente sorrir é que quando cheguei a Portugal cheio de ideias e fui bater às portas de tudo quanto era banco, business angel, capitais de risco e quejandos fartei-me de levar tampas. Ele era "gestão de risco" para aqui, "demasiado arriscado" para ali, uma fartança de negas tal que durante muitos anos fiquei convencido de que na língua portuguesa não havia a palavra "sim".

Tá-se mesmo a ver, não tá-se? Pois tá-se.

Sim, Harry.

Novo post: Jamaica Farewell. Entristece-me ter de o dizer: estou a caminho, não regressarei tão cedo, o meu coração está em fanicos e a cabeça às voltas, deixei uma pequena em Kingston Town...

https://www.youtube.com/watch?v=xFomM7ug0B8

Calar e estar calado

Isto da escrita tem um problema de base: a palavra é para ser ouvida. Ou seja: antes de saberem ler as pessoas sabiam ouvir. Tu escreves e ninguém te lê (não são estúpidos, claro). Talvez fosse melhor falares (para ti).

No fundo hesitar não é uma má opção: ora ouves e não falas ora te calas e nada dizes.

Tarde, cedo

Poderíamos talvez imaginar que é tarde. Ou cedo: a esta hora as horas confundem-se e confundem-nos.

A melhor verdade

Vamos sim, querida. Vamos pensar no que teríamos sido. Vamos imaginar que tudo aquilo teria servido para... Sei lá - continuarmos juntos; separar-nos como se fôssemos civilizados; separa-nos como se fôssemos selvagens -.

Não sei qual das alternativas é melhor. Isto é, mais perto da verdade.

Milagre

Podíamos continuar: o que foi pode, por milagre, transformar-se no que é. Por milagre, convém lembrar.

(Outra vez para o meu irmão Vasco, porque um milagre que parece é).

O que mudou

Começo pelos teus pés. Por cada um dos dedos dos teus pés. Vejo-te deitada, claro: ver-te os pés de pé é difícil, quase impossível. Vejo-te deitada, não nos prolonguemos. Ou seja. Estás deitada e eu também. Não entro em pormenores; pouco interessam. Vamos imaginar que a noite foi boa, que nos deitámos como se realmente quiséssemos deitarmo-nos juntos, como se nos amássemos. Continuo sem saber o que é amar.

O que mudou foi: não quero saber. O que mudou foi: sim, tenho uma família, ou qualquer coisa que vista de perto parece uma família. O que mudou foi.

(Para o meu irmão Vasco)


6.6.16

Paris de ti

É de Paris que quero lembrar-me. Do Cana'bar, Vin des Rues, Maison Péret, a rue Daguerre toda. Tu mostravas-me Paris, alta, loira e linda que eras e eu absorvia tudo. Tudo. Não deixava escapar uma rua, um canto de jardim, uma perspectiva, uma explicação que me desses porque não era de Paris que me falavas; era de ti.

Amávamo-nos como nos amámos em Paris: minuciosa, atentamente, passo a passo. Quase. Paris ainda lá está, o nosso amor não.

"Na boca um cadáver"

Andam crocodilos pelos esgotos. Verdade, escaparam-se do jardim zoológico com as cheias e andam pelos esgotos e pelas ruas e também pelas cabeças de quem os viu. Mas não são apenas crocodilos. São crocodilos mágicos, resplandecentes, incendeiam as ruas e os futuros das futuras vítimas. É preciso estar atento: um futuro queimado por um desses crocodilos nunca mais volta.

Os crocodilos atacam depressa, mal se vêem, arrastam as vítimas para debaixo de água e deixam-nas lá a apodrecer. Por isso gostam tanto de futuros. Incendeiam-nos para que durem mais tempo. No Burundi as discotecas eram perto da praia e tinham avisos: "Atenção aos crocodilos", diziam. Mas mesmo assim todos os anos havia uma ou duas pessoas que se deixavam levar. Enfim, deixar não é bem o verbo. Uma vez na boca de um bicho daqueles as alternativas são poucas.

Por isso presto muita atenção aos crocodilos que se escaparam do Zoo de Vincennes. Foi lá que tudo começou, em 68. Talvez recomece agora com crocodilos fugitivos em vez de estudantes universitários. Infelizmente já não haveria Raymond Aron para escrever sobre a revolta dos bichos, ele que tão bem escreveu sobre a dos outros. Nem Zappa. Nem Debord. Morreram todos. Nem todos: o Vaneigem ainda está vivo. "Traité de savoir vivre à l'usage des jeunes crocodiles". Hoje venderia pouco. "Désormais, les analystes sont dans la rue. La lucidité n'est pas la seule arme. Leur pensée ne risque plus de s'emprisonner ni dans la fausse réalité des dieux, ni dans la fausse réalité des technocrates !" Hoje quem manda são os moralistas, meu caro Raoul; e não têm sequer a cultura dos outros, que eram moralistas mas pelo menos sabiam ler e escrever. Os velhos retiraram-se e deixaram a rua aos crocodilos. "Ceux qui parlent de révolution et de lutte de classes sans se référer explicitement à la vie quotidienne, sans comprendre ce qu'il y a de subversif dans l'amour et de positif dans le refus des contraintes, ceux-là ont dans la bouche un cadavre.

Ou um crocodilo.

"Le WELFARE STATE nous impose aujourd’hui, sous la forme de techniques de confort (mixer, conserves, Sarcelles et Mozart pour tous), les éléments d’une SURVIE au maintien de laquelle le plus grand nombre des hommes n’a cessé et ne cesse de consacrer toute son énergie, s’interdisant du même coup de VIVRE."


(As citações vêm de Traité de savoir vivre à l'usage des nouvelles générations e de Banalités de Base, livros que frequentei fugaz e levemente vai para alguns anos).

Receita - Frango frito com gengibre

Frango frito

Fazer uma marinada com bastante gengibre, alho, cerveja, cominhos e coentros moídos. Deixar o frango, cortado em bocados pequenos, pelo menos duas horas (ficou de um dia para o outro).

Polme 1 (seco): farinha, pimenta, sal;
Polme 2 (molhado): farinha, pimenta, paprika, cominhos, gemas de dois ovos e cerveja.

Passar os bocados de frango pelos polmes seco, molhado e seco de novo e fritar em óleo bem quente. (Usei uma mistura de óleo de palma e óleo de girassol).

Mais cedo?

Um gajo decide mudar de vida. "Decidir" é um facilitismo, uma preguiça; o processo é longo, telúrico, vulcânico de lava lenta. Arrasta-se até que um dia um gajo dá por si numa vida nova, como se tivesse sido esta e não ele a mudar. Até que um dia um gajo se pergunta "porque não o fiz mais cedo?"

4.6.16

Rachmaninov

O único problema das Vésperas é magoarem tanto. A beleza não devia ser tão agressiva, tão dolorosa.

[Adenda: poderia ser uma crítica ao rock: não é doloroso].

Definição - escrever

Escrever é lutar contra as vírgulas e as palavras inúteis: quase todas.

Noite, livro

Que noite escolher, que livro?

Blanc cassé

"Linhas em branco", leio num artigo sobre o congresso do PS. Parece-me muito mais um plano de vida, coisa que transcende o PS, os congressos e - sejamos honestos - qualquer partido.

Corta-palavras

Quanto mais curto um texto mais tempo leva a ser escrito. Pagar um escritor à palavra é uma injustiça e uma incompreensão. Quando muito deviam pagá-los à palavra cortada.

Memórias prévias

Como se fosse ontem: não sei. Só me lembro do que vai acontecer amanhã.

Merdas básicas

Escrever é uma necessidade básica. Por isso sai tanta merda.

Como o dia e a noite

De repente o ar torna-se ligeiro.

"Já quase no fim: uma mulher envolta em panos
e véus escuros veio e prometeu o vento.
E fez - plantou
na areia duas grandes ventoinhas, ..."

(Manuel Gusmão, in  Pequeno Tratado das Figuras, "Filmar o Vento")

Temos aqui a base de um diálogo "profícuo", como dizem as televisões.

"He desplegado mi orfandad
sobre la mesa, como un mapa.
Dibujé el itinerario
hacia mi lugar al vento.
Los que llegan no me encuentran.
Los que espero no existen.

Y he bebido licores furiosos
para trasmutar los rostros
en un ángel, en vasos vacios".

Alejandra Pizarnik, in Antologia Poética, ed. Correio dos Navios, "Fiesta"

Deixemo-nos de diálogos profícuos. Se fosse um céptico ou um nihilista diria que "diálogo profícuo" é um oxímoro. Não sou. É.

"Mon verre s'est brisé comme un éclat de rire"


"Ouvrez-moi cette porte où je frappe en pleurant.
La vie est variable aussi bien que l'Euripe"

Apollinaire,  in Alcools

Voltemos a esta noite que me espera, impaciente. Está quase a acabar. O sol nasce e eu deito-me, como se fosse um vampiro. Mas antes disso bebo música e Mount Gay alternadamente. É preciso que a luz chegue, que o escuro parta como por um beijo teu. Os teus beijos partem a escuridão, estilhaçam-na. Pelo menos é assim que me lembro deles: luminosos. Todos os beijos deviam ser assim, mas não são. Alguns músicos sabem-no, outros ensinam-no. Não os cito: demasiados ficariam de fora. Mas é assim: a música e o amor são uma luta contra a escuridão.

Que perdemos, claro. Mas isso é outra história, outra escuridão.

........
Durante muitos anos para mim "noite" era "ausência de luz". Redescubro hoje esta noite com luz, música, rum e ausência de horas. De séculos: oiço Hildegarde von Bingen e descubro porque gosto tanto dela: a música foi composta ontem, não foi?

.........
Deixemo-nos de histórias. Passemos às coisas sérias. Só há duas: corpos e solidões. Tudo o resto - corpos ausentes ou meio presentes, meias solidões ou solidões fingidas - são simulacros; ersatz, como se dizia quando eu era criança e me escondia nas livrarias para ler bandas desenhadas, proibidas em casa. Ersatz era palavra de casa, não de banda desenhada. Percebes o que eu quero dizer? Eu não. Tens sorte e eu não tenho. Por exemplo: não sou religioso. Sou ateu como meço um metro e setenta e seis, sou míope e gosto de música sacra: fatalidade e escolha, alternadamente. Por vezes percebo o que digo; outras não. Alternadamente, claro.

Como o dia e a noite.

Dores e amores

"Amo-te porque quero amar-te. O amor é voluntário ou não é". Quem não tiver compreendido isto não percebeu nada e vai sofrer até perceber.

A ordem correcta

Devíamos começar por nos amarmos e só depois nos conhecermos: a ordem inversa produz geralmente maus resultados.

Reedição - Marie-Thérèse

Reedição de um texto publicado no blogue Les Ombres du Temps.


“Tu sabes como eu era, já te contei: um bocadinho radical; ou totalmente idiota. É a mesma coisa. O mundo era a preto e branco. Ou sim ou não; ou estás dentro ou estás fora; ou é dos nossos ou és contra nós. À medida que fui crescendo fui percebendo que as coisas não eram assim tão simples, que o mundo, como ele dizia não é digital, é analógico. Quando o conheci já tinha as miúdas, uma excelente forma de aprender que nem as coisas nem as pessoas são simples. Sim, amava Pierre, muito. Estávamos casados havia doze ou treze anos e nunca o tinha enganado.

Conheci-o quando estava a fazer uma reportagem sobre as micro-empresas estrangeiras em Paris. Fiquei com as portuguesas e as brasileiras, naturalmente. A ideia era seleccionar duas ou três de cada país, de diferentes sectores e fazer um trabalho de fundo sobre elas. «Y en a marre des grosses boîtes, c’est des petites que je veux », disse-nos Stéphane, o editor. Não conseguia dizer uma frase que não tivesse pelo menos dois sentidos. Fiz o percurso habitual: consulado, anuários económicos, sites, amigos e conhecidos. Tudo. Sabes como sou, quando tenho de procurar alguma coisa. Não há porta que fique por abrir. Acabei com uma selecção gira, quatro empresas portuguesas e quatro brasileiras. É sempre melhor ficar com uma de reserva.

A dele importava produtos exóticos biológicos. Começara por ter uma série de fornecedores em Marselha, mas depois fartara-se de negociar com aquela gente e arranjou fornecedores em Paris. Não ganhava dinheiro, muito antes pelo contrário. Mas era teimoso como um caracol. Acompanhei-o duas ou três vezes nas suas expedições a Rungis; falei muito com ele, mas só de coisas relacionadas com o trabalho. Nunca me falou na família (tinha dois filhos) nem na mulher (uma russa linda de morrer, a julgar pelas fotografias que vi depois, quando já nos encontrávamos regularmente).

Um dia convidou-me para jantar. Vinha a Paris uma vez por mês; ficava três dias. Ligou-me ainda de Lisboa. Disse-me que chegava essa noite e se eu quisesse teria muito gosto em convidar-me para jantar. Achei graça, nessa altura já ganhava bastante bem a minha vida. Ele andava sempre aflito, mas mesmo assim convidou-me. Disse-lhe que sim. De qualquer forma Pierre estava habituado aos meus horários e as miúdas também.

Fomos jantar a um restaurantezito – em Portugal seria uma tasca – perto da rue Daguerre. Ele ficava sempre pelo XIVème ou XVème porque o avião aterrava em Orly. Chamava-se Au Vin des Rues, comia-se bem, tinha uma boa selecção de vinhos e não era muito caro. Lembro-me perfeitamente dessa noite. Foi a primeira vez que o vi com uma aliança. Estava apreensivo: no dia seguinte teria um encontro com um produtor marroquino de especiarias e não confiava nos marroquinos; mas achava que valia a pena encontrá-lo. «Deve haver pelo menos um marroquino honesto neste negócio. Só preciso de um, e pode ser este. Porque não correr o risco? O não já o tenho». Essa era outra das suas expressões favoritas, «o não já o tenho; agora há que procurar o sim».

Disse-lhe que não me apetecia falar do trabalho dele. Estava intrigada pela aliança e perguntei-lhe porque a pusera, nessa noite. «Porque queria que tu soubesses que sou casado», respondeu-me. Falava muito devagar, pronunciando claramente todas as sílabas, todas as letras. Já nos tratávamos por tu. Os pais dele tinham sido emigrantes em França como os meus, mas voltaram para Portugal quando ele tinha quinze ou dezasseis anos. Não partilhava essa mania portuguesa de tratar toda a gente por você durante anos e anos. Simpatizei muito depressa com ele e muito depressa estava a falar-lhe de mim, da minha vida, das crianças, do casamento. Ele ouvia devagar, como falava. Parece tolo, eu sei, mas quando falava com ele ficava com a impressão de que gravava tudo o que lhe dizia, revirava cada palavra, a observava de todos os lados e depois a arrumava num canto da memória. Meia hora, um mês, um ano depois essa palavra saía do armário onde estava guardada e ele dizia uma coisa qualquer relacionada com o tema que me deixava perplexa.

Não me perguntes porque fui para a cama com ele a primeira vez. Não sei. Como te disse nunca tinha enganado Pierre e para mim as coisas não tinham muitas nuances, se bem já tivessem algumas. Porque enganamos a pessoa com quem vivemos, que amamos, com quem passámos os piores e os melhores dias da nossa vida? Foi no dia seguinte a esse jantar; ele acompanhou-me a casa de carro. À porta disse-me «gostava de te ver outra vez», eu respondi «telefona-me amanhã à tarde», ele ligou-me e nessa noite fizemos amor pela primeira vez.

Estava outra vez com a aliança. «Não gosto de enganar as pessoas. Sou casado e gosto da minha mulher». «Então porque estás na cama comigo?»

Talvez não acredites, mas isto durou quase dois anos. Uma vez fui ter com ele a Lisboa. Nunca me escondeu; era como se o que fazíamos não fosse ilícito, imoral. Se nos encontrávamos com alguém que conhecia apresentava-me como “uma amiga de Paris”. «O que disseste à tua mulher?» «Que estava com uma pessoa de Paris e provavelmente não viria a casa muitas vezes». «E ela não se importa?»

Respondia a todas as perguntas que eu lhe fazia, nota; mas por vezes não respondia logo. Raramente falávamos das nossas famílias. Vi a fotografia da mulher porque um dia deixou a mala no quarto do hotel. Telefonou-me pouco depois de ter saído para me pedir uma morada num cartão de visita que estava num dos compartimentos. Quando chegou nessa noite disse-lhe que tinha visto a fotografia. «É bonita, a tua mulher». «Obrigado». «Parece russa». «É». «como se chama?» «Ludmila». «Ela sabe que nos encontramos?» «Não». «E sabe que a enganas? Tens outras mulheres, para além de mim?» «Não engano ninguém; não gosto de ser enganado e não faço aos outros o que não quero que me façam a mim». «E se a tua mulher tivesse amantes?» «Tudo o que lhe peço é que não mo diga, e eu não saiba por outras vias. De resto, pode fazer o que quiser. Ela sabe que a amo». «E tu sabes se ela te ama?» «Não. Nem me interessa. O amor é apenas uma entre muitas razões que mantêm um casal junto. O que é amar alguém? Tu amas o teu marido?» «Amo» «E amas-me?» Dessa vez fui eu que não respondi.

A verdade é que começava a amá-lo, muito. E cada vez menos amava o Pierre. Eram vasos comunicantes: o amor de um enchia o outro. Ele era atento, educado – não me lembro de uma vez, uma só que não me tivesse aberto a porta do táxi, por exemplo – correcto. Sabia que eu tinha muito mais dinheiro do que ele mas raramente me deixava pagar um jantar ou um táxi; nunca o vi zangado, por muito mal que lhe tivesse corrido o dia. Cada vez que eu tentava falar-lhe de nós dizia-me «Marie-Thérèse, nós temos uma relação. Não a transformemos em meta-relação, está bem?»

Nunca se deu verdadeiramente, mas também nunca fugiu; percebes o que quero dizer?
«Todos gostamos de determinadas coisas em cada pessoa; ninguém é suficientemente grande para encher uma vida. O que é feio é enganar, é o adultério, trair uma confiança. A infidelidade é normal; é quase uma inevitabilidade. Que me interessa saber se a Ludmila me ama, se tem amantes, se não tem? É a vida dela. O que amo nela é a parte desse vida que toca na minha, o seu gosto por música clássica, a maneira como educa os nossos filhos ou me sorri quando chego a casa cansado ou me recita um poema em russo, de que não percebo nem as vírgulas. Mas não tenho com ela aquilo que encontro em ti». «E que encontras em mim?»

Costumávamos ver-nos neste mesmo hotel. Foi por causa dele que o conheci. Vivo no XVIème, o XVème era-me estranho apesar de estar mesmo ao lado. Gosto deste aspecto familiar, paisible, pouco teatral do arrondissement. As coisas aqui são o que são. Venho cá muitas vezes. Compro um livro na Arbre à Lettres, vou lê-lo para o Rallye Perret, janto no Vin des Rues. De vez em quando tenho um amante que trago para este hotel, como tu. Pouco me interessa o que o pessoal pensa. Foi outra coisa que aprendi com ele: ignorar o olhar dos outros. É difícil, ao princípio; depois é terrível, um pouco assustador. E finalmente é a coisa mais apaziguadora e relaxante do mundo. «O que os outros pensam de mim interessa-me pouco, porque o que eu penso deles também», dizia-me. «Os outros interessam-te pouco», corrigi. «Não, os outros interessam-me. Mas não tudo nos outros». Era verdade: nunca vi ninguém que se interessasse tanto pelas pessoas; interessava-se pelo que faziam, pensavam, como viviam. Só não lhe interessava o que pensavam dele.

Ao fim de dois anos estava confusa. Cada vez o amava mais e a distância me era mais difícil de suportar. Ele escrevia-me de vez em quando: uma carta, um postal, um SMS. Eu respondia-lhe com longos mails que, sei agora, não lia. E cada vez se tornava mais claro que a nossa relação nunca seria mais do que era: duas bolas de bilhar juntas numa mesa até que um taco as separe. «O amor é o encontro de duas liberdades, não de duas prisões», escreveu-me um dia. Foi a primeira vez que utilizou o termo amor comigo.

Um dia descobri que Pierre tinha uma amante. Fiz-lhe uma cena, mas na verdade não estava magoada. Era-me totalmente indiferente que ele visse alguém para além de mim. Fiquei incomodada com as suas desculpas esfarrapadas, as suas promessas que eu sabia não cumpriria – não via razão para elas, nem muito menos para que as cumprisse – a sua incapacidade de assumir. Estupidamente, foi também nesse dia que decidi que não o queria deixar. O amor tinha definitivamente saído do nosso casamento, e o que nos manteria juntos dali para a frente seria outra coisa. Não as miúdas, ou o dinheiro, ou a dor, se dor houvesse. Uma relação é uma escolha; pode ser interessante tentar definir o que nos fez escolher A ou B, mas não é de forma alguma essencial. A vida não se esgota numa pessoa, tal como o amor, o desejo, o prazer de uma conversa sobre um livro, o cinema ou a economia.

Não há um aquilo que nos une uns aos outros; há um número infinito de aquilos que nos unem uns aos outros; não se excluem: adicionam-se. O meu amor por Pierre acabara, e fora substituído por outra coisa qualquer – amizade, ternura, passado, futuro? Que interessa -?

Não vou ao ponto de te dizer que o amor não existe. É óbvio que existe; para muita gente até tem essa função exclusiva, de fronteira, território, prisão, o que quiseres. Pouco me importa. Pensem o que quiserem, vivam como queiram. «Liberdade é poder escolher as suas prisões», disse-me ele um dia (era uma das suas citações favoritas, de resto). Para mim o amor, a sua ausência, a coabitação de vários amores ou a coabitação de várias ausências de amor é um dos dados do problema, não é o problema todo. A vida é um quadro no qual várias cores, várias formas, várias personagens coabitam; tira-lhe uma dessas cores, uma dessas personagens e o quadro fica incompleto. Pode também ser que para alguém esse quadro seja pintado com um amor, e que contenha uma personagem; muito bem. Não é menos verdadeiro do que o meu quadro, nem mais.

Sim, sou feliz. O meu casamento com Pierre nunca foi tão bom como é hoje. Ele não sabe de nada. Pensa que sou fiel; por vezes surpreendo-o num jogo de sedução com outra mulher qualquer, uma empregada, a mulher de um amigo. Não sei se os leva até ao fim ou não e não quero saber. Sou feliz quando estou com ele, como sou quando estou com outro homem, como sou quando estou sozinha. O mundo não é digital; é analógico. Entre zero e um há um número infinito de possibilidades, de escolhas, opções, vidas. Tudo tem um princípio, um meio e um fim e cada uma dessas etapas é escolhida por nós. O taco que ele mencionava na sua analogia somos nós que o seguramos, sei-o agora graças a ele. Por vezes apaixono-me; é bom estar apaixonada. Mas uma paixão não é a vida; é parte dela, só. Não me dou toda a ninguém, mas também não quero ninguém todo só para mim.

Como é que acabámos? Um dia cheguei ao hotel e deitei-me. Estava cansada, inquieta, tensa. Levantei-me, sentei-me à secretária, peguei numa folha de papel e escrevi “sou infiel; não sou adúltera”. Não sabia como continuar. O texto não era para ele, não tinha qualquer intenção de lhe escrever, ele chegaria daí a uma hora ou pouco mais. Foi pouco tempo depois de ter descoberto o affaire do Pierre.

Peguei no meu saco, pus a folha de papel em cima da cama desfeita e fui-me embora. Mandei-lhe um SMS a dizer «Obrigada» ao qual ele respondeu «Obrigado eu. Beijo». Nunca mais o vi. Por vezes manda-me um SMS ou um mail. Não respondo, mas sei que ele não espera uma resposta. As palavras são um mundo à parte, não é? Os actos são concretos, vêem-se, é como se se pudessem tocar, não se podem ignorar. As palavras não. São o que nós queremos que sejam. Esta mesa é azul. O que é azul? Que importa o azul? Porque é azul? Amo-te. O que é amar-te? Porquê? Para que serve o amor?

II
Marie-Thérèse é uma mulher grande, com um ligeiro excesso de peso; quase não se nota. Há pessoas assim, de tão magras por dentro não se vê que são gordas por fora. Ruiva, sardenta, com um nariz demasiado grande num rosto demasiado redondo não é muito bonita; começa-se por olhar para ela como para um puzzle com peças fora do lugar; depois qualquer coisa prende o olhar, que por ali fica a tentar perceber porquê. Ela está habituada. “Ainda bem que não sou bonita”, dizia por vezes. “Faria se fosse”.

É jornalista num jornal económico. Conheci-a há pouco tempo numa festa. Tivemos esta conversa no dia em que, por inabilidade minha, ela me deixou. Disse-lhe «Pois eu amo-te e sei o que é amar-te» e ela respondeu «Tens sorte. Vou-me embora. Adeus».

(Como sempre ligeiramente editado).

Expressões proverbiais

É melhor amar um troglodita do que um post-moderno, se bem menos fácil.

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Mais vale um novo pobre à vista do que um novo rico escondido (passe o oxímoro).

Reedição - O metro do sítio

(Um post mais actual hoje do que há sete anos).

"Pus o Sitemeter: tenho o dobro dos leitores do que tinha na última vez que o coloquei, há muitos anos. Pensava que teria metade. Merecia ter metade."

Fácil

Olha, vamos fazer assim: tu finges que me amas e eu que não te amo. Fingir é fácil, não é? Basta dizer uma coisa e olhar para outra. Por exemplo: eu olho para as tuas mamas, tão bonitas e redondas, do tamanho da mão de um homem honesto, o tamanho correcto para as mamas de uma senhora e digo-te: "não nos amamos". Tu em contrapartida olhas para mim, todo tosco e troglodita e dizes "Não".

Fácil, não é?

Diário de Bordos - Lisboa, sempre. 04-06-2016

Provavelmente esta mistura de rum Mount Gay e Keith Jarrett (e Gismonti et al.) não é específica a Lisboa. ("Provavelmente" é retórica. Sei perfeitamente que não é).

Que fará então desta noite a especificidade? Cheguei fará hoje mais logo uma semana. Fui à Feira do Livro, da qual só gosto quando tenho dinheiro para comprar livros; ao Tati ouvir o Gonçalo Marques e companhia, aos Poetas do Povo onde descobri um poeta que não conhecia (chama-se Rui Costa e é de ler); provei excelentes vinhos portugueses (provei é um understatement, seja Deus louvado e agraciado); apanhei (hoje) uma seca com uma senhora fotógrafa que falou muito, sem parar (uma das características e sinais distintivos de um bom fotógrafo é não gostar de falar). Falava para si própria e tinha uma tão infinita quanto massacrável capacidade de se ouvir; assisti a um espectáculo de poesia e música (esta a cargo de Carlos Barretto, que é um bom contrabaixo em qualquer parte do mundo e em Lisboa é melhor ainda porque Lisboa tem esta característica: magnifica o que é bom e apaga o que não interessa). A poesia lida por André Gago, António Caeiro e José Anjos, que por vezes também percussiona tão bem como escreve e diz. E tudo isto acaba com rum Mount Gay e (agora) Albert Ayler, ou Eric Dolphy, ou o que vier.

Não ter dinheiro é muito chato, claro. Hoje um vendedor da Cais abordou-me na Baixa. Disse-lhe que não e ele perguntou-me "mas pode pelo menos falar comigo?" "Não". Não, meu caro, não posso nem quero porque não quero ter de explicar-te que provavelmente tenho menos dinheiro no bolso do que tu e não quero dizer isso a um gajo qualquer na rua e sei que se calhar no fundo tenho mais sorte do que tu - e isso tão pouco é assunto de conversa, pelo menos agora -. Mas não ter dinheiro é passageiro, é como uma frente fria, um squall, um aguaceiro, uma depressão mais ou menos cavada, uma foda má. Não é como ouvir Dolphy ou Ayler ou Gismonti ou Jarrett que estão sempre lá; basta querer.

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Para não falar em Hildegarde von Bingen, claro.

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Pela primeira vez na vida tenho a impressão de que não vou ter de pagar o quão bem tudo isto se anuncia. Assustador, não é? Prefiro pagar, ainda que com atraso.

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O rum Mount Gay é bom; honesto, frontal, não engana ninguém. Mas basta uma tarde ou duas na Wine Up para me lembrar de que o que me corre nas veias é vinho. Rum é paisagem.

3.6.16

Auto-quase-retratos

Sou fundamentalmente céptico. Não acredito nem no que já aconteceu, quanto mais no que está para vir.

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- Vais escrever?
- Não. Vou escrever-me.

Reedição - Haiku eróticos

Enquanto "Agosto" entra e não sai, ou não sabe se sai se entra, ou se não entra mas sai, ficam algumas pequenas pérolas do livro "Haiku Érotiques", Traduzidos do japonês e apresentados por Jean Cholley, ed. Picquier Poche, 2000:

"Quand il dresse son mât,
l'épouse s'empresse alors
de prendre la barre"

"Sa belle-mère défunte,
sans plus de retenue l'épouse
éclate en sanglots"

"Quand à sa femme il fait
tourner le mortier à thé*
elle désaxe tout"

Reedição - Ah, Rita, ou Time is a fake healer, ou Inhabileté fatale

laisse-moi t'aimer, again, t'aider à redevenir toi-même, Rita, que boa eras, a cavalo em cima de mim, que grande, essas mamas a dar a dar e o sorriso cheio, de lua cheia, de mulher cheia. Nunca mais terás um sorriso assim, Rita, ficaste amarga e a culpa é minha, se calhar, não? Pelo menos é o que tu dizes, mas eu não acho. Se calhar já eras amarga antes de mim. Não é porque uma história de amor acaba mal que a culpa é minha - as que acabam bem são devido a ti?, à tua classe, à tua exigência? Ri-te, Rita, ri-te as once you did, remember us on the beach, numa dessas moto quatro, ce que tu rigolais alors, ou no farol a ver os livros "de bordo" velhos e roidos pela vida, pelo tempo. Et tu dis que si tu ne ris plus, aujourd'hui, a culpa é minha. Minha, Rita, a culpa de não rires mais? E quantas vezes te propus, once again, não deixes o passado vencer, o passado não passa daquilo que nós queremos fazer dele, mas tu não, tu preferes viver no passado, não é Rita? Ah Rita, há passados e passados, e o teu, o nosso, é o pior dos meus passados, e tu não me dás uma chance, pas une, de le corriger, Rita, como se o passado não fosse senão uma parte do futuro, a fucking, irrelevant, bit of future. O passado, Rita, a culpa: eu caí no caldeirão da culpa quando era pequenino, e hoje não sei viver sem ela, sem ele. Escrevo à luz de velas, era isso que sonhavas, não era?, uma cabana à beira-mar, amor e água fresca, e um bébé. O que eu quis esse bebé, Rita, o que eu o quis, mas tu decidiste que não, ou deixaste o corpo decidir por ti. Diz a verdade, Rita, essa sensualidade toda era fingida, não era? As mamas a dar a dar, as mãos partout - só não gostavas de felar, acho eu, mas gostavas do irmão, não era? - mas nem disso tenho a certeza, já lá vai tanto tempo. Para ti não vai, Rita, é como se tivesse sido ontem, é como se nada mudasse no esquema imutável das coisas: o que foi é, o que foi será, o que foi foi e foi e será e é. Os teus verbos só têm um tempo, Rita, e por isso vês a vida passar por ti e por isso te parece que não és parte dela. Ah, Rita, que duro é ver-te assim ao lado da vida, da minha vida, e não conseguir fazer-te rir de novo, um sorriso cheio como a maré cheia... Diz, aquele passeio às Azenhas do Mar, lembras-te?, quando fomos dois e viemos um, não te diz nada, hoje? Nada te diz nada, hoje, nada: só o que se passou ontem te fala ainda. O tempo para ti é uma múmia, Rita, e o tempo não é isso. O passado não é isso. O futuro não é isso. És tu que és uma múmia, não? e mumificas tudo à tua volta, como o calor do deserto, a secura. Eras uma mulherzinha, não eras, Rita? Uma mulherzinha, saída dos livros da Louisa May Alcott, ou coisa que o valha. Não eras uma mulher, saída da vida, ou metida na vida até ao pescoço, até ao topo do mastro que eu enterrava em ti com tanto amor, com tanta vontade, pois não? A vida sempre te passou ao lado, diz a verdade - e acusas-me a mim de não quereres rir de novo, Rita? Escreveste-me, Rita, cartas lindas, mas alguma vez me dançaste? Alguma vez me viveste "para lá do medo", desculpa a porra da fórmula feia como um nojo? Escrevias bem, então, e muito, torrentes de letras, linha após linha - e hoje já só tens frases feitas, frases mortas, frases pré-fabricadas, e dizes que a culpa é minha, Rita? Escrevias bem, mas já então, como hoje, detestavas as palavras. Detestavas "fornicar", por exemplo, e "foder" e "desculpa", "desculpa", "desculpa". Estás enganada, e se calhar eu também, mas a culpa não é minha, não é só minha, e eu tenho que aprender a viver com isto, Rita, quer tu queiras quer não eu vou aprender a viver com isto, contigo, com o que foste, com o que és, com o bebé que não foi, com a praia e as Azenhas do Mar e o farol e o teu corpo, tão bonito, tão sensual, tão corpo.

2.6.16

Diário de Bordos - Lisboa outra vez. 02-06-2016

Aqui estamos, Lisboa, tu e eu de novo tão iguais e tão diferentes. Tu mudas de vida, és uma cidade aberta, cheia de turistas e de poesia, de gosto e de beleza. E de buracos que aí vêm eleições, mecanismo infalível para despertar os imbecis e medíocres que de ti se aproveitam e sem ti nem um galinheiro mereciam. Verdade seja dita: tu recebe-los, resistes, deixa-los passar e sorris quando finalmente desaparecem.

E eu como sempre teso e optimista, a sair de uma vida para entrar noutra, a calcorrear-te como se nunca daqui tivesse saído, árvore andante como aquelas árvores dos mangais  que usam as raízes para se deslocar.

Somos um velho casal, Lisboa: já não nos enganamos um ao outro. Conhecemo-nos os truques e as manias, as ruas, vielas e atalhos, os terrenos baldios e os outros. Somos um do outro apesar das separações e resistimos a todas as chegadas, sejam elas de passagem ou de sonhos.

Agora nós, Lisboa. Outra vez.

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Lisboa recebe-me sumptuosa e generosamente, como se quisesse agradecer-me a decisão de por aqui ficar e se estivesse nas tintas para a falta de dinheiro.

Está ela e eu também: amanhã há mais. Mais dias, mais dinheiro e mais dias sem ele. Mais ideias e projectos. Outra vida e outras vidas.

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Jazz no Tati, poesia no Povo: como duvidar de um futuro assente nestas fundações?

30.5.16

"Escrevo uma carta de amor à luz do candeeiro, etc."

A ideia é torcer as palavras, decompô-las, transformá-las até elas ficarem irreconhecíveis. Leite, por exemplo torna-se arame; aquele e comum demonstra apenas que o processo não foi executado com suficiente vigor. Candeeiro deu amor; porta, anticiclone. E assim por diante.

Este processo é conhecido nos meios cientificos e na Academia por Método de Humpty Dumpty. Os meios literários apropriaram-se dele e chamam-lhe (não sem alguma auto-ironia) escrever. Quando em vez de palavras se tomam frases inteiras muda de nome e passa a poesia. Todo ele é frágil, caótico: depende muito do contexto e as relações causais entre um estado e o que o precedeu são frequentemente incompreensíveis. Indecifráveis. Invisíveis.

"Escrevo uma carta de amor à luz frágil do candeeiro, na esperança mais ou menos fundada de que um dia ela a lerá" pode transformar-se por exemplo em "Fui dar um passeio a cavalo para os lados de Salvaterra de Magos"; ou "Fui à Pastelaria Versailles comer um pastel de nata. Entrei em vez de ficar na esplanada porque sei que ela é friorenta e com um pouco de sorte talvez a visse. A esplanada estava cheia e a sala também mas não a vi. Deixou de ir à Versailles, suponho".


Quando acabei a carta fiz uma máquina de palavras com água a quarenta graus e pouco sabão. Mesmo assim algumas encolheram e outras debotaram. Pu-las a secar à varanda, ao sol frio e quase irritante de tão pálido deste dia de Outono. Imaginei-as numa praia puxadas por aqueles aviões que rebocam anúncios de cremes de sol ou de festas num sítio qualquer não muito longe, ondulando como ténias perdidas num intestino demasiado longo.

Não seria talvez má ideia protegê-las do sol como se protegem os corpos de radiações ou a vista de uma luz forte.

É preciso distância: afastar as palavras de tudo o que lhes possa perturbar a metamorfose semântica, desviá-las do caminho evolutivo. Numa palavra, resumindo: de tudo o que lhes possa dar um sentido ou tirá-las do silêncio que lhes serve de placenta.

29.5.16

Definição - Domingo

Domingo é tudo o que fica entre Alberto Gonçalves de manhã e Café Tati ao fim da tarde.

Como se fossem livres

Deixa cair palavras ao acaso como se não houvesse gravidade, como se não houvesse tempo. Sal, afecto, maçã, casa. Por exemplo. Deixa-as escorrer-te sobre a pele como mel de que não gostas por doce mas comes quando precisas de doce. Cabelos. Luz. Pele. Ouves a ambulância? É noite, adoeceu uma palavra. Vem buscar-te. Dorme. Deixa cair as palavras. O acaso tratará delas. É de noite que as palavras adoecem e doem. Pensa em sal. Pensa em sol, como um músico. Pensa em Sul.

Não penses. Deixa-as escorrer-te por dentro da pele. Não as libertes, não as deixes fugir, não as cures. Deixa-as respirar como se fossem livres. Como se soubessem dançar.

Pega numa carta do mundo, a que nas escolas chamavas mapa-múndi. Escolhe uma palavra que caiba nela, que a cubra, que lhe "fique bem". Uma só. Que palavra escolherias?

( Entre parênteses. Livre como um café escaldante a meio da noite. Um sorriso livre escaldante a meio da noite como um café. Como se fossem livres).

Deixa-as doer. Amanhã passam.

26.5.16

Diário de Bordos - De Cabo San Lucas a Lisboa, 26 a 28-05-2016, se um dos múltiplos aviões não cair

Há mais de quatro meses que não punha os pés num avião. Nem tudo foi mau.

Estou no autocarro para o aeroporto. Uma hora e vinte de viagem. Tenho um cantor evangélico ao lado. Espero que o homem se cale depressa. A merda em que estou é suficientemente chata, não precisa de intervenção divina. A qual de resto não resolveria nada, muito antes pelo contrário. Tenho mais fé em mim.

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Cidade de México

Não é preciso conhecer-me muito bem para saber que entre ficar no aeroporto e comer normalmente ou vir à cidade e contar os tostões escolho esta última (eu decididamente não me conheço bem: passei metade do voo a dizer-me que ia ficar no aeroporto). E seria preciso conhecer-me ainda menos para saber que está a chover. ¡Qué vaya! É pouco.

O qual aeroporto é feio, grande, escuro e mal sinalizado, tudo coisas que obviamente não podia adivinhar.

A cidade de México tem vinte e dois milhões de habitantes. Dela terei visto, quando me for embora, menos de um por cento: vim a pé das Bellas Artes a Zocatlan, um passeio de dez minutos que eu fiz em quinze por causa da p... da anca esquerda. Em Zocatlan havia a feira (ou coisa que o valha) das Culturas Amigas. Um enormíssimo pavilhão circular em cujo interior se atropelavam milhares de pessoas e se sucediam stands de cada um dos países do globo e mais alguns (havia um da República Palestina, por exemplo). Não dei a volta. Comi duas espetadas deliciosas na República Popular do Congo e (quase pelo mesmo preço) dois pastéis de bacalhau merdosos no stand português. Depois saí. Não é fácil passar de quatro meses de mar e marinas para uma megalópole que tem só por si mais do dobro da população portuguesa.

Ainda do que vi: uma cidade imponente, ruas arborizadas, faixas para transportes públicos, muitas bicicletas, ruas limpas... o resto não será todo assim, claro. Mas isto é o suficiente para confirmar a vontade que tenho de conhecer melhor o país.

Estou no food court manhoso de um "centro joyero". Vi alguns dez na Calle Madero, todos enormes. Somos o que fomos.

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Afinal a chuva não é assim tão pouca. Tive de me refugiar num bar, por sinal bastante bonito. Chama-se Talisman. Parece-me de bom augúrio.  Há males que vêm por bem.

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Saí do Talisman a pensar ir directamente para o aeroporto mas em vez disso dou um passeio pelas ruas. É o fim do dia, estão cheias de gente que regressa a casa. Ninguém anda apressadamente. As pessoas sorriem, têm uma expressão aberta.  Que contraste com Paris, Londres ou Lisboa, onde parece que anda tudo a correr como numa estação de metro ou de comboios.

(Pequena nota para a cultura geral: o bar abriu há uma semana).

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A cidade está a mais de dois mil metros de altitude. Não creio que seja por isso que os locais andam devagar. Eu sinto a altitude. Até sentado estou cansado. O raio da anca não ajuda, claro. Sou demasiado novo para artroses. (Isto dito também o era para a próstata e foi o que se viu). Parece que o corpo todo decidiu fazer finca-pé e obrigar-me a parar quer eu queira quer não. Este estúpido já devia ter percebido que não é preciso. Cafés e livros, idiota. Está escrito em letras garrafais à tua frente. Não vês?

Preciso de mudar de óculos,  eu sei.

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O saco Slam está a desfazer-se.

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Daqui a uma hora posso fazer o check in. Depois é tentar arranjar um canto para dormir quatro ou cinco horas. O aeroporto é uma porcaria mas pelo menos consegue ser melhor do que o de Miami. O que me inquieta é que são onze e meia da noite e está com tanto movimento como tinha quando cheguei às três da tarde. Espero que isto acalme, daqui para a frente. Seria como tentar dormir no meio do Rossio à hora de ponta.

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JFK

Grosso modo a viagem pode dividir-se em duas partes: atravessar o continente americano e atravessar o Atlântico. Aquela está feita. Dois voos relativamente curtos, um passeio breve mas agradável na Cidade de México e uma noite interminável no aeroporto dessa cidade.

Agora estou em JFK com os habituais problemas dos aeroportos americanos: Wifi pago, poucos sítios para nos sentarmos, preços disparatados (acabam de me pedir dez dólares por uma cerveja de pressão. Declinei), formalidades burocráticas chagas e longas.

Daqui a meia hora abre o check-in da Royal Air Maroc e começa finalmente a segunda parte da viagem. Uma vez despachado o saco entro para a área de trânsito, onde pelo menos terei cadeiras em barda [não foi bem verdade, mas paciência].

Por agora estou no cenário pré -embarque. Mulheres de burka, homens feios e barbudos, crianças sem fim. Não consigo habituar-me a esta cultura, por mais que faça. A verdade é que não faço muito. Acho detestável vestir as mulheres desta forma. Detestável e prejudicial. É provavelmente por tratarem as mulheres como as tratam que estão tão perto da barbárie.

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Vi três filmes: um remake americano do Segredo de sus Ojos, ao qual preferi o original; uma história  sublime sobre a relação entre as raízes e a vida chamada Brooklin e uma semi-xaropada italiana sobre uma criança incompreendida que acaba por passar uns dias em casa de Laura Morante. A história podia ser gira mas está mal contada e é longa, chata.

O que basicamente significa que não dormi um minuto sequer. O voo estava cheio a abarrotar, não havia um lugar vazio e dormir naquelas cadeiras é quase impossível.

A Royal Air Maroc tem vinho, um serviço simpático e eficiente, uma vasta oferta de filmes e passageiros que também batem palmas quando o avião aterra.

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Dormi chez Paul, no aeroporto de Casablanca. E durmo mais quando chegar. Esta viagem não vai acabar hoje. Vai acabar amanhã de manhã quando acordar, tomar um duche e começar a trabalha no que aí vem.

Infelizmente não posso ainda esquecer este transporte porque tenho dinheiro a receber.

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Lisboa é a capital mais próxima de Casablanca. Todas as categorias, oiço um senho dizer no avião.

Cheguei. Tudo tem um fim.

Diário de Bordos - Cabo San Lucas, Baja California Sur, México, 25-05-2016 / II

Última noite em Cabo. Deixo-me docemente pairar (para quem não sabe: há uma diferença entre pairar e derivar. Esta é involuntária, aquela não). Não comi tacos, a melhor coisa que quem não tem taco pode comer aqui e não bebi (só) cerveja. Mais uma vez é preciso relativizar: os montantes em causa são ridículos. Pouco me importa: atenho-me às porcentagens como um preso injustamente à esperança. Bebo shots de tequila no Kruda porque ser nómada, já por aqui o disse, não é não ter casa. É ter uma casa onde se está.

A sedentarização está à esquina. Chama-se Nómadas Anónimos, Café Slocum ou outra coisa qualquer. Querer fechar uma vida num nome é tão digno de lástima como de escárnio. As palavras não chegam nem aos calcanhares da vida, apesar de serem o seu suporte.

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Mesmo em Cabo consigo descortinar um pouco de México e ser aceite. Não se pode ser mau em tudo, por mais que se tente.

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Perguntava-me a Clarisse recentemente se não sinto a falta de uma casa. Não. Sim: sinto falta dos meus livros e  da minha música; isso é sinónimo de casa.

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Vantagem dos números sobre as palavras: não se pode insultar ninguém com eles.

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Abraham nasceu, diz-me, "num berço de oiro. Os [seus] avós tinham muitos terrenos". A terra é fonte de riqueza. O mar não. Prefiro o mar, apesar de tudo. Não há dinheiro que substitua a vida.

Conversa, desvario

Ao contrário do que se poderia pensar a minha vida afectiva é muito pouco variada. Tenho uma ex-mulher e uma ex-namorada. O resto foi conversa ou desvario.

Diário de Bordos - Cabo San Lucas, Baja California Sur, México, 25-05-2016

Lentamente o puzzle fecha-se. Aprendi com o meu pai a gostar de puzzles. Trazia-os de Inglaterra  (o rebocador do qual era Imediato ficava de alerta em Penzance Bay e os puzzles eram o seu passatempo, mai-la leitura). Para fazer um puzzle começa-se pelas bordas. Fecha-se o quadro. Depois avança-se a partir de um dos lados. Não se deve procurar colocar as peças mais difíceis imediatamente: deve-se deixá-las encaixarem-se "sozinhas", quando o lugar delas é evidente.

De certa forma um puzzle resolve-se a si próprio. Nós somos apenas a força mecânica que põe as peças no lugar.

O meu puzzle mexicano está quase resolvido. Sábado chego a Lisboa e a uma nova vida, simultaneamente. Por um feliz acaso é a Lisboa que chego: descobri finalmente que as raízes têm uma voz, que a sedentarização faz sentido se for num sítio determinado e não num sítio qualquer.

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Abraham, o filho do dono do 101 Kruda queria pagar-me para lhe dar aulas de francês. Ouviu-me falar com os jovens franceses. Disse-lhe que não posso. Vou-me embora amanhã.

Não é a primeira vez que alguém me diz que falo francês como um francês. Não se pode ser mau em tudo, por mais que se tente.

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Penso na viagem que me espera, na sorte que tenho em ter um sofá onde dormir quando chegar - quantas vezes não tive nem isso? - na felicidade que é ter uma ideia, um futuro.

Pergunto-me quando acabarão os meus futuros? De quantos dispõe um homem? Provavelmente de tantos quantos os seus passados.

Os futuros são inesgotáveis, como os passados e o mar.

A., amigo de longa data e lutas comuns diz-me que temos setenta e sete vidas enquanto os gatos têm sete.

Compro a ideia, mas não a quantidade. Temos um número infinito de vidas. Pelo menos se as medirmos em possibilidades de vida, que é o critério correcto.

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Começaram as negociações com a agência para saber quem deve quanto a quem. Não é este o meu mar.

24.5.16

Diário de Bordos - Cabo San Lucas, Baja California Sur, México, 24-05-2016 / II

Levantei-me eram duas e meia da tarde. Sinto-me como se tivesse estado dentro de uma secadora de roupa. Vim ao 101 Kruda beber uma Margarita. Mal não faz e talvez faça bem. Ao amor-próprio faz de certeza. Já não posso olhar para cerveja, que ainda por cima no México é uma merda. Não percebo o que vêem na Corona. Gosto da Índio mas não costumo bebê-la: não sei porquê meteu-se-me na cabeça que é mais cara. Quando a bebi foi oferecida, deve ser por isso. A Margarita do Kruda é boa, mas hoje não há Only You, só há americanos. Dois casais: uma gorda e uma obesa, com um corpo horrível, disforme. Os homens são mais magros, mas estou-me nas tintas. É o meu bar favorito aqui: pequeno e simples. Tratassem melhor da música e seria uma maravilha, apesar do barulho da rua.

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Quinta-feira vou-me embora. Chego Sábado, depois de um périplo por Cidade do México (quinze horas de escala), Nova Iorque (oito) e Casablanca (seis). Pelo menos a travessia do Atlântico é com a Royal Air Maroc. Antigamente era uma boa companhia, tinha um bom serviço. Não me lembro se servem álcool. Creio que sim. Que se lixe. Bebo cada vez menos nos aviões, de qualquer forma.

Não tarda vou deitar-me outra vez. Não que o corpo o mereça, não merece, mas estou farto de me sentir um farrapo. Ao menos na cama estou bem. O dormitório é grande, não está atafulhado de camas e agora está quase vazio. Por quinze euros é difícil ter melhor.

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Está calor, mas só sinto o da febre (que não tenho. É raro ter febre. Excepto quando tinha as crises de paludismo, longe vá o agoiro). A verdade é que odeio estar doente. Parece-me uma traição. Se ao menos tivesse alguém para tratar de mim... Assim um gajo sente-se miserável, entregue a forças que não controla e não tem o lado positivo da doença, que é poder abandonar-se, poder reclamar audivelmente.

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Em Lisboa vou descansar. Aqui não: há demasiado ruído. É como querer dormir no meio do ringue.

Post grato

Um marinheiro no mar precisa de muitas mulheres em terra, diz-me M., que se esfalfou para me encontrar um bilhete que coubesse dentro do meu orçamento. Foi muito trabalho, muito tempo, muito carinho.

Aqui fica o meu obrigado, quida. Quem tem amigos assim não pode ser má pessoa.

Diário de Bordos - Cabo San Lucas, Baja California Sur, México, 24-05-2016

Há sempre um bolo e uma cereja para se lhe pôr por cima. Desta vez o bolo foi grande, o corpo todo decidiu reclamar destes maus tratos. Ontem uma intoxicação alimentar deixou-me de rastos e hoje o tinitus, exasperante tinitus. E há dois dias o herpes labial, mais sensível ao stress do que ao sol. Da intoxicação estou melhor mas não bom: foi forte. Do tinitus nunca estarei bom; o herpes tratei como de costume: dose cavalar de Aciclovir e em dois dias está longe. Até à próxima, espero venha longe, muito longe.

Esta foi má. Assim de repente só me lembro da regata da ESA, de tão má. Com uma diferença: da regata foi eu que fiz a catástrofe. Nesta não. Porra! Enfim, o que não mata engorda e em breve as cicatrizes estarão fechadas e  tinitus de qualquer forma não resiste a uma boa dose quotidiana de chá de gengibre e o herpes vai levar um bom bocado até me apanhar noutra e a intoxicação alimentar... hoje ainda tenho que ir comer àquele restaurante, mas agora devo estar vacinado. E daí talvez não, talvez consiga ir comer ao outro, de qualquer forma a verdade é que os tacos são baratos mas não compensam, os outros têm muito mais que comer. A diferença é de cinquenta cêntimos, em valores absolutos. Cem por cento para quem gosta de relativizar. Prefiro relativizar porque me chateia andar a contar dinheiro aos cinquenta cêntimos. Enfim. Em breve estarei no avião. Já faltou mais.

Por agora como a porcaria do pequeno-almoço do hostel, só açúcar mas que se lixe. Não deve andar muito alto, estes dias. O corpo que vá reclamar ao serviço de clientes, se quiser. Aqui é o que há.

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Os jovens franceses foram-se embora. Foi um deles que me ajudou para pagar o hostel. Que sorte tive, no meio da merda. Não me refiro apenas ao dinheiro. Mais do que um prazer foi um privilégio conhecê-los.

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Tenho de me ir deitar outra vez. Raio do estômago. Enfim, não é só o estômago. Estou mal no corpo todo. Hiper-sensibilidade febril, náuseas... Como se não chegasse o que vomitei ontem e a porra da diarreia, dictatorial, todo-poderosa, impromptue. Uma vez tive uma semana de cama com uma intoxicação. Foi em Lisboa. Estava num hostel em Belém e fui comer a um chinês ali perto. Uma semana sem me poder mexer. Apesar de tudo esta é mais suavezita.

É só uma cereja no bolo.


Agonia, esperança

A agonia tem várias formas, todas elas mortais. É uma bomba nuclear que espalha desolação e vazio onde chega. Tudo parecia estar a correr bem. Mas "tudo" é muitas coisas, muitas pessoas, muitas fragilidades. E tudo desaba devagar, muito devagar, leva um dia a desfazer-se, pedra a pedra, fio a fio, esperança a esperança.

Amanhã será outro dia. Outra esperança.

Minhas, só minhas: a culpa e a esperança. E a esta não chega a agonia.

23.5.16

Diário de Bordos - Cabo San Lucas, Baja California Sur, México, 23-05-2016

Viver em dois fusos horários separados por sete horas de diferença já não é fácil. Hoje juntou-se-lhes outro, no meio, brasileiro. Falharam todos, claro. Estou na mesma, só que com menos dinheiro. Menos é uma maneira suave de dizer. Nada de brutalidades.

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Cabo está cheia de anúncios a pedir trabalhadores. Montra sim montra não precisa de empleados con inglés. A época vai começar. Há trinta anos ter-me-ia candidatado, mas hoje já não funciona. Idade, imigração, falta de paciência, outras coisas que fazer...

Em Atenas trabalhei num restaurante. É uma experiência interessante, trabalhar num restaurante num país do qual nem o alfabeto se conhece (mais tarde vim a conseguir pelo menos decifrá-lo, mas já não trabalhava ali).

Aqui pelo menos conheço a língua. Mas servir à mesa por servir à mesa prefiro fazê-lo em Portugal e para mim. É uma coisa de que gosto e faço bem.

Se é que há alguma coisa que faço bem, ideia da qual por vezes duvido seriamente.

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Enfim, olhemos para os lados positivos da situação: há uma luz no fundo do túnel e essa luz chama-se Lisboa. Não devo ter feito muitas coisas erradas nesta vida (nas anteriores fiz de certeza) para ter os amigos que tenho. Há muita gente por esse mundo fora que ajudei quando foi preciso.

E vou continuar. A minha vida nunca será o largo rio tranquilo com o qual sonho há tanto tempo, eu sei. Só queria que as quedas fossem menos brutais. Acho que vou conseguir: deve ser daquelas coisas que basta querer, não é?

Journal de Bords - Cabo San Lucas, Baja California Sur, Mexique, 23-05-2016

Ce post est écrit directement en français en hommage et remerciement à mes amis Clarisse, Alexis, Amaury et Louis (ça commence en ordre galant et continue en ordre alphabétique). Et Paul, naturellement, qui tout en étant pas là y était tout autant. Clarisse étant prof de Français je cours certains risques, mais ils sont plus que justifiés. Et puis, Clarisse, tu sais que tes suggestions sont plus que bienvenues...

Mon arrivée à Cabo fut difficile. (Difficile est un euphemisme). Je ne m'en serais jamais sorti tout seul. M. - qui, comme chacun sait, est l'initiale de Pénélope - m'a trouvé une chambre où passer la nuit et envoyé un peu d'argent. A l'exception de mes sacs, d'un paquet de cigarettes et d'une profonde sensation de délivrance je n'avais rien sur moi. J'ai passé une nuit de paix à Casa del Sol, dans un quartier tranquille de San Jose del Cabo, eloigné du centre et de tout ce que je venais de vivre. Le lendemain Alexis et ses amis sont arrivés.

Ils sont jeunes - vingt trois, vingt quatre ans - cultivés, éduqués, drôles, articulés, jeunes (ce n'est pas une distraction ni une redondance). Ils s'amusent et s'expriment également bien. Ceci peut paraître bête, mais je venais de passer deux mois avec des êtres dont le vocabulaire était limité. (Limité est un euphemisme généreux). Découvrir des personnes qui peuvent s'exprimer correctement, avec un lexique riche et des idées articulées fut pour moi un changement de planète.

J'avais besoin d'aide: de silence et de compagnie, d'argent, de normalité, d'humanité. Alexis et ses amis m'ont apporté tout ça en doses himalayennes, massives, sensibles, simples, joyeuses, jeunes. Rembourser l'argent sera facile - "les problèmes d'argent se règlent avec de l'argent", comme disent les Argentins. Rembourser le reste, à mes yeux beaucoup plus important, sera difficile. Et sera aussi un plaisir illimité.

Je ne suis pas un quinquado, néologisme horrible. J'aime mon age et ai finalement appris à vivre en paix avec moi-même. "C'est ce qu'il y a", comme me disait récemment un proche. Mais je sais reconnaître la valeur des personnes que je rencontre et sais, surtout, qu'elle n'a pas d'age.

22.5.16

Diário de Bordos - Cabo San Lucas, Baja California Sur, México, 21-05-2016

Em Quelimane havia um tipo que cantava num bar. Não me lembro do nome dele. Cada vez que oiço Only You lembro-me do homem. Tinha uns óculos redondos numa cara redonda, era mulato e puxava a canção a alturas inexcedíveis. Creio que se chamava Negrão, mas não tenho a certeza. Era mulato. Tenho pena de não me lembrar do nome do bar.

Agora oiço Only You num bar chamado 101 Kruda, em Cabo (San Lucas. Dizer o nome completo é um pleonasmo em certos meios).

Deve haver poucas semelhanças entre uma cidadezinha colonial portuguesa de final dos anos sessenta, princípios dos setenta e uma cidade turística mexicana do século XXI. As cores, talvez. O azul do céu, que a humidade faz mais claro do que deveria ser. A solidão de um então puto e hoje quase velho que gosta de uma canção e das memórias que ela lhe traz, de estar sozinho num café a olhar para a rua a pensar no que vai fazer a seguir, de ver as pessoas viver como se ele não fosse igualmente parte dessa vida.

O bar 101 Kruda fica perto do hostel onde durmo, "o mais barato da cidade". Vim aqui parar porque procurava um bar onde não fosse "invadido por americanos" e perguntei a um senhor que por acaso era também dono do dito bar. Descobri-o depois. Além do bar o senhor tem uma loja na qual me vende cigarros avulso.

A esta hora as ruas estão vazias. Os turistas devem estar em casa a lavar-se da praia e a preparar-se para a "noite".  O bar é barulhento por causa do tráfico contínuo, incessante.

Não há muito que ver, no fundo. O Only You acabou há muito tempo - escrever no telefone tem esta vantagem: meia dúzia de patacoadas levam um tempo desproporcional a escrever e abrandam o ritmo de consumo da cerveja -.

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As probabilidades de encontrar um embarque são poucas. A marina não permite dockwalk e os anúncios que deixei na recepção têm sido pouco solicitados, disse-me hoje a recepcionista. Passo lá duas vezes por dia: é importante que ela me veja e se lembre de mim. Imagino-me no avião, a desembarcar na Portela (agora Humberto Delgado. A palermice não tem limites), apanhar o metro e entrar noutra vida.

Foi assim que cheguei a Londres, em Janeiro de 2000, ao Brasil em 2010 e a tantos outros sítios antes. Uma das vantagens de mudar de vida é que elas começam sempre bem. A desvantagem é acabarem mal. Paciência. "É o que há", como me dizia hoje V., cujas vidas começam e acabam bem.

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Glenn Gould vivia fechado em casa, cortinas fechadas. E havia aqueles dois irmãos que fizeram um labirinto de jornais em casa, um morreu e o outro também, era surdo e cego, o livro é uma beleza. Chama-se Homer and Langley. A história é trágica e linda ao mesmo tempo. Dois irmãos fechados numa casa com um automóvel e um labirinto de jornais e no fim do labirinto está a morte.

Por vezes penso nisso: fechar-me num ovo até morrer; cortinas fechadas, jornais livros e música, escuridão. Não funciona: a minha é uma solidão de exteriores. Sempre foi. Desde que em Quelimane ouvia um jovem cantar Only You como se tivesse sido ele a compor a música.

Talvez seja por isso que gosto tanto de estar no mar: uma casa do tamanho do mundo, cortinas abertas, ora clara ora escura, "uma linguagem antiga que não sei decifrar", dizia Borges (cito em segunda mão).

Agora vou deixar o mar. Mishima escreveu um livro fabuloso chamado "O marinheiro que perdeu as graças do mar". Era um dos meus favoritos dele, mas não o releio há muito tempo. (Tenho tantas coisas para reler...) A personagem de Mishima teve uma morte horrível.

Não se muda de vida para morrer. Muda-se para viver outra vez. Para ressuscitar.

20.5.16

Diário de Bordos - Cabo San Lucas, Baja California Sur, México, 20-05-2016

O intervalo acabou. Regresso ao ringue. Passei a manhã a fazer anúncios, deixá-los na marina, percorrer as diferentes agências da Western Union em Cabo (exagero. Foram só duas. A média no México tem sido quatro). Depois sentei-me a beber uma cerveja num bar chamado Original Hooliganz Corner Bar. Os americanos não conseguem dar um nome a uma coisa qualquer que não inclua um adjectivo e um erro de ortografía.

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Cabo é quase como eu a imaginava, só que ainda mais desinteressante. Cafés, bares, restaurantes, lojas de roupa, lojas de souvenirs e productos para turistas, farmácias uns a seguir aos outros, todos iguais na decoração excessiva, na música demasiado alta, no serviço agressivo, insistente. A clientela é americana: obesa, mal vestida, feia (uma excepção gritante acaba de se sentar na mesa ao lado). A qual excepção integra um grupo de quatro senhoras que bebe shots de Tequila e tira fotografías. Numa mão o copo na outra a máquina ou o telefone.

As senhoras acabam as fotografias e os shots e vão-se embora. O Hooliganz fica vazio, mas apesar disso continua barulhento: à minha esquerda a aspiração da cozinha e por todo o lado a música, que talvez por a dona ser canadiana não está aos gritos.

Eu estou, mas não se ouvem.

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Já viajei assim. Fui backpacker avant la lettre. Ia para Itália gastar o dinheiro que tinha ganho a tirar neve dos telhados em La Chaux-de-Fonds, joguei à moedinha em Zadar e dormi no cockpit de um barco qualquer da marina, tive uma crise de febre e alucinações num albergue de juventude (como eran então designados os hostels) em La Spezia, passei quase dois meses em Atenas à espera que uma ferida cicatrizasse para poder viajar, quatro em Dunkerque a trabalhar na manutenção de uma frota de regatas e a ser feliz, dormi nas estações de comboios de Bern e Zürich e mais não sei quantas, amei uma rapariga improvável numa cidade improvável chamada Soleure, na Suíça, comi uma das melhores refeições da minha vida em Ancona, apanhei boleias de camionistas, de loucos e de pessoas perfeitamente normais, andei pelas ilhas da Croácia com uma mulher linda que tocava guitarra e tinha um facalhão no saco. Andava com uma mochila verde da qual gostava e que usei tanto como o actual saco Slam, do qual já mal se distingue a cor e me acompanha para onde quer que vá.

Talvez agora isto me chateie apenas por ter a impressão de que estou a comer comida fora de prazo. Verdade seja dita nunca liguei muito aos prazos de validade. Não passam de um mecanismo para fazer as pessoas deitar fora comida perfeitamente comestível. (Não estou com isto a dizer que me acho comestível, claro. Apenas que não se deve ligar muito aos prazos de validade).

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De maneira é assim. Viajo no tempo, tento lembrar-me das viagens todas que fiz ou sem dinheiro ou a poupá-lo até ficar mais fino do que uma daquelas folhas de plástico com as quais cobrimos a comida no frigorífico, tento impregnar-me o mais possível do que me rodeia porque no fundo é uma das coisas boas de estarmos onde estamos e não noutro sítio qualquer.

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Começo a adquirir uma aversão profunda aos bonés de baseball. Será que nascem com aquilo aparafusado à cabeça?

Enfim, essa não é a questão. A questão é: como vou sair daqui?

19.5.16

Diário de Bordos - San José del Cabo, Baja California Sur, México, 18-05-2016 / II

A casa que M. encontrou é óptima: pequena, asseadíssima, bonita, perto do autocarro. O wifi funciona maravilhosamente. A cama é enorme, parece um campo de futebol e faz sonhar com outros desportos. Mal cheguei esvaziei - literal, não metaforicamente - os sacos, para os rearrumar e contabilizar os esquecimentos. Nenhum. Nem um. Zero. Ficou nada para trás. O S. B. vai sair da minha vida muito mais depressa do que entrou.

Trouxe os sabonetes Grão da Terra - por falar nisso descobri-lhes finalmente um defeito: nas baixas latitudes não secam. É um bom ómen: a minha terra fica nas latitudes intermédias,  no extremo ocidental de um continente que é dos que conheço o melhor. Nela os bons sabonetes secam e duram mais tempo -. Vieram as luvas e os gorros, as cartas com as quais um dia decorarei  um bar cujo nome poderia ser, sei lá, Nómadas Anónimos, Café Pousio, Bar do Mar, Café Slocum, Café Bequia, Ultramarina e por aí adiante, sem parar. Veio tudo, inclusivamente duas ou três peças de roupa que iam ser promovidas a trapos e afinal acabam no lixo.

A única sombra no quadro é ter recomeçado a fumar. Fumo de pouca dura. Passo bem sem cigarros mas não lhes resisto se estiverem perto.

E sobretudo tomei um duche. Um longo, interminável duche que me fez pensar na cena final do Coming Home, o Jon Voight (pai daquela horrível mulher) a tomar banho na cadeira de rodas no Pacífico. Salvas as devidas proporções,  claro. Apesar de tudo não estou a regressar do Vietname. Estou inteiro, a Jane Fonda não se apaixonou por mim e - sim - a vida continua.

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O México é um país adorável. Um dia hei-de percorrê-lo de norte a sul, de fio a pavio, de cima a baixo do vulcão.

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Está calor. Doce calor. A senhora que toma conta da casa, à boa maneira do país vizinho, ligou o ar condicionado e depois vinha carregada de mantas "para se tiver frio". Disse-lhe que não precisava, obrigado.

Quando estiver todo transpirado tomo outro duche. Aqui não preciso de me preocupar com os tanques de água nem com as baterias. Levanto-me, é tudo. Enfim, não é: será que o sabonete está seco?

Problema maiúsculo.

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Por hoje é tudo. Não preciso sequer de ler o Shandy para adormecer. Vou lê-lo por prazer.

Diário de Bordos - San José del Cabo, Baja California Sur, México, 18-05-2016

No curto prazo o mal ganha; no longo perde. Hoje fui corrido como se fosse um cão tinhoso. O manipulador profissional ganhou.

Tenho cinco pesos mexicanos e cinquenta cêntimos no bolso: é pouco, mesmo para os meus frugais padrões. Cerca de trinta cêntimos de euro. Daqui a umas semanas saberei quem deve quanto a quem. É possível mas pouco provável que ainda tenha alguma coisa a receber. ¡Qué vaya! O dinheiro nunca  me fez correr nem chorar nem rir. Não é agora que vai começar.

Felizmente a minha Penélope amada estava acordada e reservou-me uma casa onde dormir. Amanhã tratarei do resto. Hoje, apesar de tudo, sinto-me feliz e livre. Leve, sem ironia nem segundo sentido. Contratualmente C. pode fazer isto. Não discuti muito tempo: tenho-o na conta de homem decente. Porém a decência não protege do erro; minimiza-lhe as consequências,  quando muito. Neste caso não. Dar ouvidos àquele ser abjecto é um erro grave.

Mais para ele do que para mim. Vou dormir, ler, escrever e pensar. É um bom programa. Amanhã A., ex-tripulante de outras aventuras (também desgraçada, para ele) vem ver-me. Vive no México e por coincidência está no Cabo. Estou em San José, mesmo ao lado.

Cansado, claro. Livre. O pesadelo acabou. Volto à terra, à convivência com pessoas normais, à vida.

É bom.

Um dia a minha vida será aquele largo rio tranquilo ao qual há tantos anos aspiro. Será igualmente bom: viva a vida.

18.5.16

Diário de Bordos - Marina Puerto Los Cabos, Baja California Sur, México, 17-05-2016

Ignoro se isto é um pesadelo, se uma farsa. A tragédia não chegou, apesar de ter andado perto. Talvez num dia longínquo venha a ser uma comédia; por enquanto está demasiado próximo.

Uma coisa sei de saber certo: bateu o recorde que foi a travessia do Atlântico com um armador que sofria de perturbações mentais, coisa que sempre considerei impossível.

Começou com dois palermas; acabou com um psicopata que tive de desembarcar manu militari em Acapulco e um alcóolico perverso, manipulador e imaturo. Para compor o ramalhete não tem literalmente um chavo. Hoje deixou o relógio na recepção do hotel por cem dólares e bebeu cento e treze.

Se é isto os transportes para mim chega.

10.5.16

Diário de Bordos - Acapulco, Guerrero, México, 10-05-2016

A Besta perdeu. A última coisa que me deixou escrita, no recibo do dinheiro do táxi para o aeroporto confirma-o.

Agora fico com a bestinha, mas essa sozinha não vai longe. Aquilo não é embarcação de navegar contra o vento.

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Leio Keats, penso em T. e na peça que fomos ver em Londres ao Globe, daí voo para o odiado Colégio Paulo VI e para o padre Tiago, meu professor de português nos terceiro e quarto ano do liceu.

Nunca tive uma grande capacidade de introspecção. Ou melhor: de me ler, de me ouvir. Português era a minha disciplina favorita, apesar do ódio profundo, juvenil, intenso que tinha ao Colégio em geral e ao Padre Tiago em particular. Nos exames do quinto ano chumbei a ciências e dispensei da oral a letras. Apesar disso no sexto ano escolhi matemática em vez de português, porque queria ir para a Escola Náutica. Foi preciso T. deixar-me para eu perceber quanto a amava. Os exemplos são milhares.

Talvez por isso este coitado deste blog tenha sobrevivido tanto tempo. Não me oiço mas escrevo-me, não me percebo mas dou-me a perceber.

9.5.16

Diário de Bordos - Acapulco, Guerrero, México, 09-05-2016

A Besta está a perder. Não lutes contra a gravidade, mas luta contra o Mal.