11.11.16

Eu também tentei e posso dizer que consegui. Graças a ti, em grande parte.



Like a bird on the wire
Like a drunk in a midnight choir
I have tried in my way to be free
Like a worm on a hook
Like a knight from some old-fashioned book
I have saved all my ribbons for thee
If I, if I have been unkind
I hope that you can just let it go by
If I, if I have been untrue
I hope you know it was never to you
For like a baby, stillborn
Like a beast with his horn
I have torn everyone who reached out for me
But I swear by this song
And by all that I have done wrong
I will make it all up to thee
I saw a beggar leaning on his wooden crutch
He said to me, "you must not ask for so much"
And a pretty woman leaning in her darkened door
She cried to me, "hey, why not ask for more?"
Oh, like a bird on the wire
Like a drunk in a midnight choir
I have tried in my way to be free

Goodbye, Leonard

Não costumo ligar muito às manifestações de pesar (por vezes quase parecem de regozijo) pela morte de alguém. Todos nós morremos, até o meu Pai e a minha Mãe (por esta ordem).

Acabo de saber que Leonard Cohen morreu. Tenho passado por dias dificeis e estou talvez hiper-sensível, vulneràvel, frágil (se alguém me puder dizer quando não estive assim durante, digamos, um período superior a três meses agradeço).

Leonard Cohen morreu. Todos sabíamos que estava quase. É uma má notícia, não é uma surpresa. É pior do que uma surpresa, é uma certeza. A confirmação de uma certeza. E logo hoje, que não tenho rum a bordo, a única coisa que ajuda a diluir surpresas e certezas.

Ficam duas canções para uma senhora que provavelmente não me lerá e se ler não saberá que são para ela.



Sugestão

Uma forma particularmente violenta de tortura é tirar a vítima das tenazes, do fogo, da roda, da - para os mais cinéfilos ou maratonistas - cadeira do dentista e deixa-la sem nada.

Nada: sozinha, sem frio nem calor, sem fome nem desejo, sem luz e sem frio, sem certezas nem - oh quão pior - dúvidas, sem sede, vinho, luz, vontade, café ou uma pele que substitua a sua, magoada e vazia.

9.11.16

Diário de Bordos - Riviera Beach Marina, Flórida, EUA, 08-11-2016

Cheguei a Lisboa há mais ou menos seis meses. Vinha de Cabo San Lucas, de uma viagem horrível, decidido a mudar de vida. Ao princípio tudo correu bem, demasiado bem. Foi em Setembro que as coisas se complicaram. Depois ficaram bem outra vez; depois mal; depois bem; mal; bem; mal... a série parece não ter fim e oscila entre estes dois pólos, não como um pêndulo que passaria por todos os pontos intermédios, mas como dois gatos de Schrödinger assanhados, vivos e mortos ao mesmo tempo, sem estados intermédios. Ou três, ou quatro gatos, como os Vietnam do outro.

Estou exausto. Começo finalmente a ver uma luz ao fundo do túnel. Ainda é pequena e tremelica, mas é luz. Estou exausto.

........
Ontem fui jantar com a N. S., uma das poucas pessoas que admiro realmente. Veio a Miami fazer uma palestra sobre a sua experiência. N. é alemã; era responsável pelo marketing de uma dessas empresas do Mittelstand. Um dia comprou barco no Panamá que estava num estado mil vezes pior do que lhe tinha sido dito. Reparou-o todo, ela própria porque não tinha dinheiro para pagar a quem lhe fizesse o trabalho.

Somos amigos. Há três mulheres no mundo que amo de amor amigo, de amor amado. N. é uma delas. Com ela um dos gatos está vivo.

.........
Trump está à frente. Ainda é muito cedo, claro e estes resultados não querem dizer muito.

Enfim, dizem: há milhões de americanos mais saloios do que o mais saloio dos portugueses.

6.11.16

Subir, cair

É verdade que para quanto mais alto apontares de mais alto cais. E mais tempo duram a subida e a queda.

4.11.16

Impossível, vida

A convivência comigo próprio nunca foi fácil; quando as condições exteriores se aliam a mim com o objectivo de me fazer a vida impossível a coligação ganha.

En passant

Pequena nota de passagem: o bar Louie fica à frente do teatro onde agora se apresenta a peça "The Night of the Iguana". A qual peça tem bilhetes a sessenta e seis dólares. Sessenta e seis.

Bolas, a realidade não precisa de se exibir tão provocadora e trocistamente cada vez que venho jantar.

Velhice

Um dia envelheço e não aceito trabalhos em barcos com menos de setenta pés.

3.11.16

Vida, verdade, exagero

Verdade seja dita que aqui não se diz a verdade. Só mentira. Sem uma não existe a outra, de qualquer forma. Como se o mar não tivesse barcos ou o céu nuvens. Como se a música existisse sem Karen Dalton, que exagero. A vida.

Diário de Bordos - Riviera Beach Marina, Flórida, EUA, 02-11-2016

Várias coisas há que é preciso reconhecer.

Todas elas brevemente:
-A política portuguesa é uma escolha entre aldrabões e castrados. Ou se se preferir, entre gestores de quintinhas. Algumas são mais caras, outras mais baratas. No fim, todos mentem e ninguém tem tomates;
- Hoje comi um dos melhores pestos da minha vida e arredores; o que só demonstra que a minha vida e arredores merecem mais pestos (sem alho. Sou contra o alho no pesto);
- Foi também um dos melhores jantares desta vida, apesar de insuficiente para perceber porque gosto tanto dela;
- Hoje falei com um gajo que começou pr me perguntar, depois da resposta à sacramental pergunta "De onde és?" se Portugal era na América Latina. Quando lhe disse que não perguntou-me se era perto da Itália. Disse-lhe que era ao lado da Espanha disse "Ah", como se lhe tivesse dito que era o país onde fica o jardim da Dona Etelvina.
- Jantei com outro que nunca tinha comido pesto na vida mas já esteve no Pólo Sul e na cabana de Shackleton.
- Continuo a perguntar-me o que tem esta vida que a faz ser impossível de deixar. É como amar uma mulher bonita, inteligente e sexy. Ou feia, inteligente e sexy. Ou bonita, inteligente e assexuada. Ou... agora entram as variações inteligente / burra.

Talvez seja como não amar, no fundo.

- Amanhã tenho a inspecção dos seguros, mas hoje não tenho cigarros e bem precisava de um. Paciência. Amanhã já não terei a inspecção, terei cigarros e não precisarei  - espero - nem de uma nem dos outros.
- Está longe de ser tudo, mas é o que me ocorre. Sorte ter a cabeça pequena.

PS
- A estação de serviço tem um novo cozinheiro. Chama-se John e sabe fazer malassadas e chouriços porque viveu no Hawai. Tenho finalmente pequenos-almoços de ovos estrelados e bacon.

PPS
- Amanhã vai um rigger fazer uma inspecção ao mastro. Deus ele-prórpio sabe que não existe, mas se existisse faria com que o mastro esteja bom.

PPPS
- Inscrevi-me na Biblioteca. Aqui não preciso de ser residente para isso. Trouxe o Manual das Mulheres a Dias, mas ainda não consegui ler-lhe nem a capa. Soube também que posso abrir uma conta no banco. Não tarda estou a tirar a carta e a ficar como toda a gente.

PPPPS
-Já falei do rum? É uma merda infecta. Felizmente no domingo estávamos todos demasiado grossos para nos apercebermos disso e a garrafa está a um terço. Nao tarda está no lixo.

Que se fodam os P e os S
- Gasto quase oito amperes com os frigoríficos. Pergunto-me "para quê?" e apago-os. Agora só me resta perceber onde estou a gastar dois vírgula seis com tudo apagado. Tenho mil e duzentos, devia estar-me nas tintas. Infelizmente não consigo. Aposto que é do inversor, mas isto está num estado tal que não consigo chegar-lhe ao interruptor.

Por vezes pergunto-me se a resposta não será esta mistura quase mágica de impotência e omnipotência, tão vizinhas e imiscíveis como azeite e vinagre na mesa da sala de jantar.

Um marinheiro é um gajo que vive nos pólos opostos de cada vida. Se houvesse só uma seria enorme. Infelizmente não há.

- Sempre pensei que amamos quem nos ama, mas não é verdade. Amamos quem queremos amar. É como escrever ou navegar: por muito frágeis que sejamos somos nós que nos fodemos ou decidimos quem nos fode, que palavras, que mares. Ou seja: uma pele precisa de palavras? Ou seja: se um dia disser "Amo-te" estou enganado, mas não estou a enganar-te.

- Ignoro se preciso mais de mar do que de um barco, se mais de um corpo do que de amor.

Pergunta tola ou esperançosa: como separá-los?

1.11.16

Reedição - Necessidades súbitas, súbitos silêncios

Esconder nas fissuras do silêncio a dolorosa e súbita necessidade de silêncio.

30.10.16

Adenda - 28-10-2016

Quem me veio trazer à marina foi Lee, um albanês que viveu dois anos e meio em Genève antes de vir morar para os EUA . Tinha sete anos quando cá chegou. É o rapaz das entregas no italiano onde fui jantar. A comida era péssima mas as pessoas todas de uma simpatia inexcedível .

Lee ouviu-me chamar o táxi , viu o tempo que esperei, ouviu-me ligar de novo para a empresa de táxis e ser corrido a música. Houve ali uma troca de piadas sobre quem é que me vinha trazer e Lee acabou por se chegar à frente e dizer-me "vamos. O meu carro está um bocado desarrumado. Não te importas?" "Claro que não" e pronto, estou a bordo, com um insuportável cheiro a verniz, os cabos a ranger como se não tivessem sido feitos precisamente para o que estão a fazer e uma vontade de dormir que nem a perspectiva de continuar o Yourcenar que estou a ler consegue superar.

Lee vai à Albânia todos os anos no Verão. Pergunto-lhe como está aquilo é responde "a mesma merda de sempre. E tudo muito bonito mas não há dinheiro ". "Como Portugal". "Como a Europa toda. A Europa está fodida. Não há dinheiro".

Diário de Bordos - North Palm Beach, Flórida, EUA, 29-10-2016

Se alguém me quiser torturar tem um método fácil e legal, se bem um bocadinho lento: basta pôr-me num barco - ou numa casa, é a mesma coisa - onde eu não possa cozinhar. Se se pretende sofisticar essa tortura põe esse barco - ou essa casa, longe vá o agoiro - numa marina da Flórida. É verdade que a dor só aparece ao fim de duas ou três semanas. Mas é uma dor simultaneamente pungente e ilocalizável, disseminada pelo corpo todo. É tão insuportável que hoje pensei sucessivamente em tirar uma carta de condução (parece que são particularmente baratas, aqui) comprar um fogão eléctrico para ter a bordo (inútil. O problema não é só a inoperacionalidade do fogão. É que o barco parece um carrossel do qual todos os parafusos se tivessem partido quando rodava a toda a velocidade).

Quando a mesma coisa aconteceu à Nike - que vou ver em breve, sorte - convidei-a para utilizar a cozinha do barco onde estava, o A. F.. Fiz um acordo com ela: um dia comprava eu a comida no dia seguinte comprava ela. Funcionou lindamente e proporcionou-me uma estadia aceitável em Shelter Bay (Shelter Bay é uma tortura per se, com ou sem fogão). Uma companhia agradável, inteligente e bonita (não estraga nada), com discussões interessantes e óptima comida transformaram a estadia numa coisa agradável e de que hoje, esquecidos os maus momentos, só me lembro dos bons (e quase me comovo).

Mas aqui não tenho ninguém com a mesma perspectiva. Ed está lá perto: amanhã vou fazer o almoço (frango em molho de leite de coco, gengibre e pimentos) e hoje comi lá um frango que comprámos no CostCo, a Macro local. Era gigante, custou menos de seis dólares e ainda vai dar outra refeição.

("Sob o signo do frango": acabo de comer uma quesadilla de frango assassinada por um italiano. Deve estar a vingar-se de não ter pedido uma pizza. Comi mais pizzas (quem pensa que sou pedante repare, por favor, que não disse pizze) nestas três semanas do que nos quarenta anos desde Veneza. Quesadilla, um dos meus pratos mexicanos favoritos, a seguir aos tamales, nachos, tacos e mais meia dúzia de coisas que agora não me ocorrem, como a galinha com molho de mole, o guacamole e por aí adiante. Exagero. Uma boa quesadilla é tão boa como qualquer taco. Tudo é bom na comida mexicana, de qualquer forma. Por exemplo, se eu estivesse lá sem cozinha não seria uma tortura. Se calhar até antes pelo contrário).

Perco-me.

Retomando o fio à meada: hoje fui com Ed ao CostCo e a uma loja de vegetais cujos donos devem ser vietnamitas. A loja era boa, barata, com produtos que exigiam uma escolha mas enfim. CostCo é um grande armazém de venda por atacado que faz a Macro passar por uma mercearia de esquina.

Detesto grandes lojas e tive de acelerar a saída. É sábado e aquilo estava cheio. Acabei as compras a correr e precipitei-me para a loja de bebidas que lhe está ao lado (e lhe pertence) para comprar uma garrafa de rum.

Sou contra a violência, todas as formas dela, incluindo a dos preços. A loja só tinha duas marcas: Captain Morgan e um outro de St. Croix que não conheço (de qualquer forma é uma marca branca). São os dois spiced rum, de que não sou particularmente fã. Mas um litro vírgula setenta e cinco (repito: 1,75 l) custa quinze dólares. Quinze dólares um litro e setenta e cinco de um rum que não é nada mau (comprei o de St. Croix. Morgan já conheço e custa vinte).

O café Centro vai perder um cliente. Cliente teso, é certo; mas cliente. Nunca mais lá ponho os pés, salvo imprevistos improváveis.

........
O almoço foi bom. O frango era gigante, o barco uma maravilha e Ed (um capitão profissional ligeiramente mais velho do que eu) partilha muitos dos meus gostos: vinho, cozinha, navegar à vela, etc. Passámos o almoço a falar de receitas. É melhor do que falar de barcos, tema que deito pelas orelhas cada vez que a malta dos ditos se encontra.

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Está vento e chuva. A temperatura arrefeceu um bocado - vinte e seis graus agora, oito e meia da noite. Espero que amanhã o vento caia e a chuva páre para ir ao galope do mastro. Tenho de fazer uma inspecção cuidadosa, ver se o mastro sofreu com o raio. Não sou particularmente religioso, mas se fosse estaria a rezar em voz alta e rodar o terço como um muçulmano a misbaha.

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Para além do clima (um sítio em que um gajo pensa que está frio porque estão vinte e seis graus não pode ser totalmente mau) há uma coisa de que gosto aqui: a água. Há água em todo o lado e quem diz água diz barcos e marinas e mais barcos e mais água. Parece que alguém entornou um jarro gigante dela e ela se meteu por tudo quanto é canto.

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Anda por aí um boicote à cerveja Yuengling porque o dono apoia Trump. Acho errado misturar misturar cerveja com política e não adiro. De qualquer forma já boicoto todas cervejas de que não gosto, é um monte de boicotes, seja quem for que os respectivos donos apoiem.

As eleições são dia oito de Novembro. Recebo dois SMS por dia a dizer-me para ir votar ou em quem devo votar. E o Youtube está cheio de publicidade do Trump (mais do que da Clinton, não sei porquê). São os únicos efeitos das eleições na minha vida. Não ter televisão (ou ter e não a acender) faz um gajo viver noutro planeta. Na net ainda conseguimos escolher mais ou menos o que vemos. Na televisão (e vejo agora, no telefone) não.

29.10.16

Diário de Bordos - 28-10-2016, outra vez. Em West Palm Beach.

Pagar nove euros (dez dólares e antes da gorjeta) por um rum é uma violência em qualquer parte do mundo menos nos Estados Unidos (e na Suíça e no Reino Unido e na Dinamarca e em mais meia dúzia de países que conheço). A verdade é que estava a precisar de um rum, se possível Mount Gay que já sei aqui não há .

Fui jantar com Ed e John (respectivamente Capitão e armador do F. C.) e Dave, veterano de uma ou várias guerras, namorado da capitã ou armadora, não percebi, de um Leopard 48 que ate há dois dias ou três arvorava um pavilhão Trump.

O jantar foi pizza e simpático, duas coisas que nem sempre estão juntas, o que só prova que a comida não é o jantar. É parte dele, só .

Depois fui trabalhar, com um copo de Malbec horrível. Tinha que escrever um e-mail ou dois. Quem ganhou com a má qualidade do vinho foram os destinatários: nada como um vinho mau para dar asas à brevidade.

Por fim, em vez de chamar um carro de praça fui andar. Andarilhei até aterrar numa rua pela qual já passei várias vezes nos ditos carros. Tem bares, restaurantes, música  e rum Myers a dez dólares  (antes da gorjeta) a dose.

Chama-se café Centro. Se por acaso passarem em West Palm e quiserem ver um bocadinho da trivia americana classe média aborrecida como um dia de morte venham aqui. Não perdem nada, se bem tão pouco ganhem.

Tem uma vantagem: não é a Clematis Street.

........
Dormi uma sesta, a primeira em muito tempo.

É sexta-feira e trabalho amanhã e domingo. Não sei o que é um fim-de-semana. De todas as coisas que desconheço é uma das que me preocupa menos. Também não sei o que é uma semana, de resto.

........
A música do café Centro está um bocadinho alta de mais.

(É como dizer que o sol é amarelo: não é mentira mas está longe de ser a verdade toda).

........
O W. está com um problema grave nos sistemas eléctricos - levou com um raio, já não tenho dúvidas - mas em tudo o resto está a ficar melhor.

........
Esta gente veste-se como se tivesse lido os guias "Como vestir-se para sair sexta-feira à noite" numa revista de escuteiros.

Vá lá, pelo menos não andam mascarados como na Clematis. Hoje é Halloween - uma espécie de Carnaval triste daqui - mas aparentemente os escuteiros não sabem.

Andam mascarados o ano todo. Deve ser por isso.

28.10.16

Diário de Bordos - Riviera Beach Marina, Flórida, EUA, 28-10-2016

Tenho duas imagens: montar um cavalo bravo numa trip de ácido e coca (esta é a analogia realista); ou fazer uma bebinca com fatias alternadas em West Palm Beach e Santos (a versão gastronómica).

São as duas, alternadamente.

27.10.16

Diário de Bordos - West Palm Beach, Flórida, EUA, 26-10-2016

Acabo no Hullabaloo a ouvir uma pianista medíocre, beber rum Mount Gay e apanhar com um ar condicionado hiper-activo.

Tudo isto está bem para o dia: passei-o a dançar o tango com parceiros em trip de ácido. Acho piada porque normalmente o instável dos filmes sou eu. É uma sensação nova - e não sei se agradável se desagradável - estar no outro lado da barreira. Poder dizer - podre de razão, vejam o anagrama - que os outros mudam como andorinhas entontecidas por milho fermentado.

É uma falsa questão. Desde muito novo sei para onde quero ir. Só lá não estou - ainda - porque gosto de desvios e tenho azar com os atalhos.

..........
Contratei um filipino. É uma versão acessível, humana, simpática do super-homem. Estou longe de ser o Clark Kent mas sei reconhecer um quando o encontro.

Não, não é bem isto. Sei reconhecer a sorte mesmo num pântano de azares.

Não são azares, estúpido.

........
A mulher toca piano tão mal que é enternecedor. O Mount Gay é tão bom que enternece.

A ternura vem de todo o lado, não é? Parece um fogo de artíficio.

........
Sem carro e sem Uber West Palm é uma seca, ou uma angústia. Os preços são alucinantes. Há porém uma vantagem: já perdi peso desde que cheguei, apesar de só comer merda.

Ou porque só como merda. É impressionante o que consigo comer pouco daquela coisa.

26.10.16

Verdade, mentira

A merda é pesada, por isso vai para o fundo. A verdade é leve e vem ao de cima. 

25.10.16

Noite, devagar.

"Lenta como as árvores,  o vinho, alguns rios, o amor - assim a noite deve ser -" dizias-me um dia no comboio, debruçada à janela. Estávamos na Alsácia? Na Borgonha? Na Toscânia? Não sei qual o rio para o qual olhavas quando me dizias "a noite deve ser lenta porque é na lentidão que a verdade nasce". "Na ou da? perguntei. "Na da... que importa?" É  assim: "       " e dançaste uma árvore. Mostraste-me como dançam as árvores e com quem: um rio, um comboio, uma voz, se for lenta. Um olhar.

"Devagar como as árvores dançam".

É assim que me lembro de ti: como dançam as árvores. Lentamente, folha a folha, ramo a ramo, vogal a vogal, passo a passo, poro a poro.

(Na casca um canivete cruel lembra-nos outros rios, outros tempos.)

O vento. Um rio caudaloso. A areia na pele, a cascata no olhar. A mão que lentamente afaga; a mão; a pele. Isto é: arvores, mãos e olhos à flor da pele. Um rio caudaloso é lento se lento for o olhar que o olha.

A lentidão é uma árvore cujas raízes embalam o mundo. Devagar, como o desejo e o olhar se misturam antes de dormir.

É noite, lentamente. É verdade. 

24.10.16

O ângulo dos dias

Em fotografia uma solarização consiste em misturar na mesma imagem o positivo e o negativo. Isto é: parte da imagem é positiva e parte negativa (para quem estiver interessado: isto obtinha-se, quando se fazia fotografia analógica, expondo a imagem a uma luz branca forte durante a revelação do positivo).

Parece-me uma excelente analogia para os dias, mas a verdade é que isto me ocorre porque oiço música no Youtube e quando me inclino para trás na cadeira a imagem aparece perfeitamente solarizada.

Os dias também são uma questão de ângulo, claro.

Citação (resumo)

«Pour savoir lire, il faut savoir vivre»

(Guy Debord)

PS - Que de passagem seja dito escrevia como um deus.

Do que um dia é feito

Interessa-me pouco de que os dias são feitos: trabalho, um copo e muita conversa com Ed, skipper do cata que está no fundo do pontão, dor de cotovelo (literal e lancinante, não da metafórica e quiçá ainda mais lancinante), salsichas seis meses fora da data (na estação de serviço - "no outro dia comeste e não te aconteceu nada". "Não, mas não tinham a cor destas") Nico precedida de Marianne Faithfull, Pietra Montecorvino e uma indescritível maravilha chamada Silvia Pérez Cruz (uma rapariga, diz-me a Wikipedia nascida em 1983 e ainda há quem pense que o mundo vai para pior), um copo de vinho solitário, californiano e sofrível mas barato, vento fraco a moderado (diria um meteorologista português) a terrível memória do barco que se incendiou e do qual não resta nada se não a parte do casco que a água protegeu, a minha terceira transacção Bitcoin e a suspeita de que vou aderir àquilo - uma entidade que me guarda dinheiro sem querer saber quem sou, onde vivo e quanto pago de água não pode ser má - a revisão permanente do que vou fazer amanhã porque não o escrevi. De que são feitos os dias? De que se foda, ou fodam, em noventa por cento.

Interessa-me pouco de que são feitos, na verdade. Mais o que deles faço, o que deles fica. Cada dia é um ontem no futuro.

I'll be your mirror
Reflect what you are, in case you don't know
I'll be the wind, the rain and the sunset
The light on your door to show that you're home.


(A luz na minha porta para mostrar que chegaste.)

I find it hard to believe you don't know
The beauty that you are
But if you don't let me be your eyes
A hand in your darkness, so you won't be afraid

When you think the night has seen your mind
That inside you're twisted and unkind
Let me stand to show that you are blind
Please put down your hands
'Cause I see you


(Não vês nada. Vês-te a ti. Ver-te-ias, se eu não fosse cego. Mas sou e não vês. Ver é ser visto, como viver. Morrer é o contrário, já o outro o dizia e ele percebia de ver como ninguém. E de ser. Seres. Se estivesses aqui estarias a ver o mesmo que eu. Não é a ver, estúpido. É a ser. estarias a ser o mesmo que eu).

Enfim, que se lixe o de que os dias são feitos. Fetos. Qualquer coisa assim: amanhã.

........
Frank Zappa. Acabamos sempre por acabar onde começámos. Como os dias.

23.10.16

Diário de Bordos - Riviera Beach Marina, Flórida, EUA, 23-10-2016

Acabei de ler o Garden of Evening Mists. O livro é uma longa, lenta, sublime e belíssima história dos amores da personagem principal: pelo seu mestre quando aprendiz de jardinagem, pela sua irmã, morta num campo de concentração, pela memória, pelas palavras.

De caminho aprendemos sobre chá,  jardins japoneses, tatuagens e mais um rol de coisas. Imagino o trabalho de pesquisa que este livro exigiu, admiro a maestria técnica no controlo dos diferentes tempos narrativos e penso, sobretudo, na montanha de emoções em que fiquei.

Consegui não chorar, vá lá.

........
O vento caiu faz alguns dias, as nuvens passaram e as noites frigorificaram. Tenho de me habituar ao frio. Não é difícil: basta lembrar-me das palavras de Tom, o armador noruguês para quem levei o bote (e ele) a Copenhaga: "Não existe frio. Existe tu não teres roupa suficiente".

........
Esta noite ardeu um barco na Marina. De alto a baixo. Não ficou nada. Ouvi as sirenes, mas não me levantei: já sou papalvo de coisas que cheguem não preciso de me tornar num de fait divers (verdade seja dita que não sabia ter sido um incêndio a razão do alarido). Hoje Ed mostrou-me um filme. É horrível, aterrador.

"Não perguntes por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti".

........
Daqui a pouco o W. fica com a sua nova cara: lavada, arumada, em ordem. Não ter sido capaz de fazer aquilo sozinho "interpela-me" (aspas porque detesto o termo, leva-me de volta aos anos em que nos deviamos sentir "interpelados" por tudo e mais alguma coisa).

Pergunto-me se é da idade ou - mais provavelmente - do bom senso que com ela vem.

.........
Está um dia lindo outra vez. Espero que este inverno não seja muito mau. Gosto de transições suaves e progressivas.

Diário de Bordos - West Palm Beach, Flórida, EUA, 22-10-2016

Um café e uma barra de chocolate pequena custam o mesmo que uma refeição barata em Lisboa. O café é indubitavelmente bom; está um bocadinho torrado de de mais para o meu gosto, mas é bom. O chocolate está para além do bom, para além do óptimo, para além de tudo o que provei até hoje. Uma mistura de chocolate e ghost pepper (aparentemente o piripiri mais potente do mundo. Vale a pena ir ao Google). Tudo orgânico, minúsculo e caríssimo. Compreende-se porquê: todas as mesas estão ocupadas por uma pessoa (ou duas, raras) cada uma com o seu laptop e um consumo, um.

O sítio é tão bom e bonito que consigo vencer a repulsa cada vez que penso no preço. E não vou buscar outro café, prova de que o bom senso quando não sai a bem entra a mal.

.......
O trabalho avança, devagar. Contratei uma deckhand. Deve ter sido o dinheiro mais bem gasto dos últimos dez dias. Esperava tê-la dois dias, mas não tenho a certeza de hoje termos feito metade do que queria. A desordem no barco é um Everest ao contrário, um Everest que se esparramou pelas montanhas vizinhas, um Everest partido em milhões de bocados e cada um deles num sítio diferente. A electricidade é outro desastre. Se conseguir largar daqui a uma semana já me dou por feliz.

Para não falar das baratas.

........
Parou de chover. O dia hoje esteve lindo, abençoado: quente, ventoso e ensolarado, mistura divina s'il en est. Só me falta ter energia e o fogão a funcionar, para poder cozinhar.

Não sei quando será a véspera desse dia.

.........
PS - o café chama-se Subculture. Fica na Clematis Street, 509. Se um dia ganhar o Euro totó volto cá.

........
PPS - Voltei a passar à frente do Teatro. Estão a apresentar A Noite da Iguana. Ontem fui perguntar o preço dos bilhetes. Sessenta e seis dólares. É desta que vou conseguir ler o livro, juro.

19.10.16

Passado, cansaço

Por causa desta história do Dylan tenho estado a ouvir a música da minha adolescência. (Excluo Cohen. Não é da adolescência, é da vida).

O passado é tão maçador, não é?

Adenda: claro que podemos sempre contrapôr Zappa, Hendrix, Bowie e meia dúzia de jazzmen desta altura ou antes mas que eu só viria a descobrir depois. Claro. 

A renda na Av. da Liberdade

Moro desde sempre no nº 1 da avenida da Liberdade (Freedom Avenue, Avenue de la Liberté, Calle Liberdad, etc.) de todas as cidades do mundo. É a melhor morada do universo ou - talvez mais precisamente - a única onde poderia morar. Não é querer, é "inabilidade fatal".

Mas foda-se, a renda é cara.

Diário de Bordos - Riviera Beach Marina, Flórida, EUA, 18-10-2016

Fui jantar com B. Convidei-a. Levou-me a um restaurante chamado Blandey's, "de onde podemos ver a ICW [Intracoastal Waterway, para quem não sabe]." "Tens razão, B., não vemos água que chegue". B. foi capitã de mega-iates muitos anos. Agora vende barcos na Florida e pede-me dois dólares para dar de gorjeta ao arrumador de automóveis. Sempre gostei dela, mas hoje fiquei a gostar ainda mais. A primeira vez que a vi foi em Bocas del Toro, na marina de Red Frog, da qual era directora. Pouco tempo depois de eu chegar foi-se embora, farta do salário baixíssimo e de lhe terem mudado o escritório para as casas de banho. Reconheci nela uma irmã de mar. Não sei exactamente como descrever o que é uma (ou um, já agora) irmão de mar mas é isso que a B. e muitos outros são.

Tem muito para cima de sessenta anos e um corpo ingrato, mas foi uma mulher bonita, vê-se à légua. É claramente uma das coisas que a marafa. Explica-me que quando era jovem e bonita toda a gente a queria ter por perto, mas agora velha e feia ninguém lhe liga. Di-lo sem amargura aparente, mas sei que isso a magoa.

É um tema que por vezes vem à tona e durante o jantar digo-lhe "B., se um dia fomos bonitos sê-lo-emos sempre. A beleza migra, não se esvai. Antes estava fora, agora está dentro".

Foi um bom jantar. Falou-me de uma cantora chamada Sia, trouxe-me a bordo e pediu-me para falar dela aos armadores. Teve uma boa vida, disse-me várias vezes, como se precisasse de se convencer a si própria. Tiveste, B. Melhor do que a de muita gente. E não te preocupes com a que tens agora. Temos a sorte de com esta idade podermos viver como se tivéssemos um terço dela: vivemos três vezes mais do que toda a gente, já viste?

.........
A conversa com B. foi muito mais do que isso. Falámos de tudo, desde os sítios que amamos até à necessidade de mar. Mar é amar com menos uma letra. Talvez por isso não é a melhor coisa do mundo. É quase.

.........
Não foi isso que disse hoje ao meu armador. Descobri que precisamos de comprar um fogão novo e disse-lho. Perguntou-me "Porque existem barcos?" "Porque são a melhor coisa do mundo, C."

Passo dois degraus ou três.

"As embarcações são feitas para ser navegadas, bem pilotadas e cuidadas. Se fizermos isto tudo temos uma para a vida".  (Depois acrescentei "Reconhecidamente há que pôr um bocadinho de dinheiro na mistura, de vez em quando", mas isso é outra história).

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Às vezes ocorre-me que se vive dentro de um barco como dentro de uma mulher, mas calo-o imediatamente: fugiriam todas, não é?, se me ouvissem dizer isto.

Ou quase todas.

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Consegui acelerar o ritmo de trabalho, mas não para onde devia estar. A flexibilidade num homem deve ser a mesma coisa do que a beleza numa mulher: não se esvai mas migra.

17.10.16

Diário de Bordos - Riviera Beach Marina, Flórida, EUA, 16-10-2016 / II

Não há muita volta a dar-lhe, pois não?, se não ouvir Hildegarde e pensar que fiz num dia o que podia ter feito num quarto de dia, trabalhando devagar; e pensar que amanhã será melhor, ou depois de amanhã, ou quando o diabo quiser. É sempre assim: às vezes mais valia ficar na cama com um bom livro e uma má companhia.

Até ao fim: mudei de antro para jantar. Já não posso ver a estação de serviço à frente. À tarde a senhora dissera-me que hoje, excepcionalmente, fechava às nove, mas normalmente fecha às dez. O que me chamou a atenção foram os hot dogs pure beef a um dólar cada. Qualquer gajo que tenha passado mais de meia hora nos Estados Unidos duvida. Alguma coisa não bate certo nesta história, mas que se lixe. Vamos aos hot dog a um dollar, pure beef .

Cheguei às oito e um quarto e o homem - já não era a senhora - estava a fechar. A máqina dos hot dogs estava desligada, mas ele "tinha acabado de tirar dois" que ainda "estavam mornos" (aspas porque cito). Vendia-me os dois por um dólar. Enchi-os de mostarda, levei um à boca, soube-me bastante bem (verdade seja dita que já não posso ver os burritos do outro) e catrapás. Cai-me tudo ao chão. Uma salsicha (pequena, muito pequena) e três quartos de outra (idem) perdidas, o chão amarelo de mostarda e eu vermelho de raiva incontida (não é verdade. Há muito que aprendi a não ceder à raiva quando estas coisas me acontecem. É a expressão de um desejo: gostaria de estar vermelho de raiva. Não estava). Fui comprar uma lata de mini-salsichas, enchia-as de mostarda e foi esse o meu jantar.

O homem não me debitou as salsichas que caíram ao chão e como prémio falei com a Barbara, amiga da ilha Bastimentos, no Panamá, a quem devo um daqueles momentos de solidariedade marítima que marcam um gajo. Convidei-a para jantar. Disse-me que tem um Jeep velho e pode vir até West Palm.

Oiço Hildegarde von Bingen: é a única música capaz de explicar isto tudo, de dar sentido a um dia que parece vazio e acaba com uma Lua cheia hipnotizante, a perspectiva de rever a Barbara e a certeza de que em breve terei de compensar isto tudo com um ritmo de trabalho que me vai limpar a alma, a consciência e a memória.

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Todas as segundas-feiras recebo um e-mail do Statcounter a dizer-me quantas pessoas foram ler este blogue durante a semana precedente. É uma coisa à qual ligo relativamente pouco, metade por cepticismo metade por falta de interesse.

Hoje contudo a coisa diz-me que tive uma média de oitenta e três pageloads por dia. Média. Na segunda-feira passada, por exemplo, foram dezasseis. Mentiria se dissesse que não me dá prazer ver que a audiência do coitado do DV está a aumentar. Claro que dá. Mas mentiria tanto ou mais se dissesse que compreendo quem lê isto, com tanta coisa boa que há por aí para ler.

Enfim, seja pelo que for: aqui fica o meu obrigado grato e reconhecido a quem vai lendo estas coisas. Prometo que nunca mais pensarei que escrevo como faço xixi: não é bem por querer. É mais porque tenho de, quer queira quer não.

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Hildegarde, hilfe.

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Imensa gente pensa que ser skipper de uma embarcação de recreio (pelo menos destas pequenas, até setenta pés) é um trabalho cheio de glamour. Não é verdade, obviamente. Se fosse, eu não seria skipper. Seria mulher a dias.

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Por pouco que tenha feito (fiz) o barco está diferente, melhor. A noite magnífica, com o vento ligeiramente mais fraco mas ainda fresco, a lua cheia (acho que já aqui o mencionei; está tão bonita que não é de mais), um cata lindo de morrer pela proa. Chama-se FAT CAT (acho que posso dizer o nome). Começou a sua vida como uma plataforma de sessenta e quatro pés para day racing: dois cascos e um trampolim no meio. Hoje tem oitenta pés, um salão, camarotes e um poço a ré com um chapéu de sol. Parece uma ex-miss que envelheceu com "graça e majestade" (aspas porque cito: Pedro Tamen).

Amanhã ou depois o vento vai cair: as nuvens altas mal se mexem e as baixam andam,  mas devagarinho. Que bom seria se se mantivesse assim até eu largar daqui. Seria um voo, a viagem. Vai ser curta, com vento ou sem ele. Tenho tanta vontade de chegar às Bahamas...

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Escrevo à luz de uma lanterna: não tenho luz no salão; troquei a Hildegarde pela Bartoli. Vou bebendo pequenos goles de rum Cruzan, um rum das USVI (de St. Croix, mais específica e explicavelmente) que não é nada mau. Parece o Mount Gay em projecto, o que já é apreciável.

Vou lá para fora. O resto fica para amanhã. A noite está bonita demais. 

16.10.16

Descobertas

Outra coisa que acabo de descobrir: é impossível trabalhar e ouvir Leonard Cohen ao mesmo tempo. Descoberta tardia mas reveladora.

Perdão

"Sei que estou perdoado
Mas não sei como soube".

L. Cohen, um senhor a quem o Nobel fez o favor de poupar. (A tradução é minha, mas penso não estar muito longe do sentido).

Diário de Bordos - Riviera Beach Marina, Flórida, EUA, 16-10-2016

Fui almoçar. Isto não devia merecer reparos: todos nós almoçamos todos os dias; ou pelo menos quase todos nós quase todos os dias.

Mas este almoço - do qial voltei com uma mão cheia de histórias - fez-me ver porque quero mudar de vida. Ou então, pelo contrário, do que gosto nesta. Quero ir almoçar e voltar com um almoço no estômago, não com uma mão cheia de histórias na cabeça. É que são tantas que um gajo não sabe por onde começar.

Do mais simples para o mais complicado: hoje falei com o cozinheiro de um "restaurante" (as aspas são quase injustas, se comparadas à estação de serviço Marathon do outro lado da rua) italiano que nunca bebeu vinho na vida. É guatamalteco e pagou cinco mil dólares para vir da Guatemala para aqui, faz agora sete anos. Tem duas irmãs, um irmão que também está em West Palm e das duas irmãs tem oito sobrinhos. Oito. O rapaz tem trinta anos, quando muito. Já tem a sua casa na Guatemala "quase pronta". "Mas que não se pense que foi fácil. Não foi". "Uma vez no México passei dezoito horas imobilizado, de pé. Assim" e mostra-me: põe-se de pé, uma mão como se estivesse a agarrar uma pega  de um autocarro. "Não me podia mexer", explica. "O veículo estava cheio, cheio". Chama-se Ali (ou parecido) e está ilegal nos Estados Unidos. "As pessoas pensam que nós vimos para aqui porque gostamos. Não é. É porque precisamos".

Foda-se. Cinco mil dólares? E eu reclamo quando pago mais de mil para vir de avião e acho que viajar de avião é uma merda?

O "restaurante" - uma tasca infecta, mas estou farto da estação de serviço até aos cabelos - não serve álcool. Um dos funcionários da marina dissera-me que para comer devia ir ao Publix, que "tem um deli e tudo". Pensei que fosse um centro comercial, mas não é. É um supermercado. Comprei uma garrafa de vinho tinto - um Jacob's Creek dois terços Shiraz e um terço Cabernet Sauvignon que por nove dólares me pareceu a melhor opção (pelo menos era uma das mais baratas) - e voltai à Pizzaria Romana.

Pedi almôndegas à Parmigiana. Não estavam más, mas foram-me servidas num copo de styrofoam por uma empregada feia e mal-encarada, combinação mortal s'il en est. Tinha a garrafa de vinho embrulhada nos sacos de plástico do supermercado e ninguém me disse nada. Vá lá. Estava preparado para ir beber lá fora, como agora vão os fumadores fumar, mas não foi preciso.

Ali explicou-me que ela tem muitos problemas pessoais e não sabe fazer a diferença entre os seus problemas e o trabalho. Quero que a mulher se lixe, para dizer a verdade. Voltarei lá para falar com o Ali. É o meu lado missionário, estúpido ou masoquista, não sei. É um gajo porreiro e merece beber mais vinho.

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O trabalho não está a avançar e isso deve-se inteiramente a mim. Sou uma péssima mulher a dias, não há nada a fazer. O problema é que gosto de ordem e limpeza. Ou eu mudo ou mudo  as condições de trabalho.

Algo me diz que o mexilhão da história sou eu.

Diário de Bordos - Riviera Beach Marina, Flórida, EUA, 15-10-2016

Um gajo sai de bordo sem um plano preciso, exceptuando sair de bordo. Era a única coisa clara.

Acaba mal, claro. Palminhei quilómetros por ruas que me fizeram pensar na África do Sul (têm casas, mas parecem desertas), comprei o que precisava no Walmart mas em duas vezes. Da primeira esqueci-me de parte das coisas - por coincidência as mais importantes e urgentes -, esperei horas por autocarros que não aparecem nunca (pequeno vislumbre: um dos condutores era simpático), almocei maravilhosamente apesar de um episódio com o piripiri e voltei para bordo exausto e a precisar de um duche.

Só atendi à primeira condição. O duche fica para depois. Para quando acabar de ouvir os álbuns todos do Cohen que tenho gravados.

É a minha forma de dizer que me estou nas tintas para o Nobel do outro. Este também  (digo também porque não conheço Dylan o suficiente para dizer outra coisa) o mereceria. Deitado, peganhento (a solidão tem coisas boas) cansado e feliz. Não vai durar muito: as duzentas e cinquenta músicas que tenho gravadas dele vão acabar, a necessidade de um duche vai impor-se.

Mas isto é de aproveitar enquanto dura. Chama-se abandono e é uma das formas da liberdade. 

Avisos

Arre! Não há um objecto, um que não tenha um aviso sobre os perigos que encerra. Hoje era uma vela - enfim, um frasco com combustível dentro para fazer de vela na mesa -. Pergunto-me se as armas também têm avisos do género "Atenção, pode queimar-se se pegar na arma pelo cano depois de disparar". Ou "Não usar em escolas ou universidades".

15.10.16

Cinquenta cêntimos

Isto é a América.

O restaurante é excelente. Tudo é bom, tudo. A vista, a comida, a cerveja, o serviço, o molho picante.

Até ao momento em que pela terceira vez tenho de pedir mais molho picante.  "Não há problema, mas agora tenho de lho debitar, Sir. Cinquenta cêntimos".

A pequenez e a grandeza coabitam tão bem...

(Cont.)

A lua cheia não é de certeza: tenho-a em todo o lado, faça o que fizer.

Talvez seja outra coisa. Telefonei ao Chris B., amigo de muitas guerras. Telefonei-lhe primeiro para nos encontrarmos domingo (e deixei-lhe uma mensagem despreocupada). Depois a coisa mudou: preciso dele a bordo para me resolver o problema da energia. Má consciência,  etc. (já devia ter ligado; ele já não trabalha em barcos; amanhã é sábado; um sem fim de más consciências).

Ele respondeu-me:  "ou seja, o plano é: eu passo a buscar-te e vamos comer uma pizza. Onde estás?"

Chris vive em Fort Lauderdale, a três quartos de hora daqui.

Não sei. É isto tudo, estas coisas todas juntas, tão díspares, tão unas, únicas, 

Diário de Bordos - Riviera Beach Marina, Flórida, EUA, 14-10-2016

Não sei bem o que é, juro. Talvez seja esta conjunção de dias maravilhosamente estúpidos, como o de hoje e dias estupidamente maravilhosos, como tantos outros; ou poder de novo andar descalço o dia todo, prazer infantil e tão terra-a-terra, primitivo, primário, básico, essencial; ou estar num desses lugares quentes e húmidos em que o vento é simultaneamente uma promessa e a salvação; ou poder olhar para o barco e pensar "esta merda está exactamente como estava quando cheguei" sabendo que a) é mentira e b) amanhã, ou depois, ou um dia de repente vai estar completamente diferente. Não sei o que é.

Nem quero saber. A mágica explicada perde a magia e transforma-se numa sequência de gestos, nada mais.

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Conheci Ed, skipper do cata que está pela minha proa. Talvez seja isso também, não sei. Ou isso seja parte da mágica. Ajudou-me de moto proprio a mudar a ficha da energia de terra e partilhou cervejas comigo e histórias e como continuo sem energia de terra emprestou-me uma extensão para poder pelo menos carregar o telefone e o computador e foi-se embora com um sorriso, um encolher de ombros - simétrico do meu - e a certeza de que amanhã cá estará se for preciso e eu para ele, idem.

Se for preciso, quando for preciso, como for preciso. Com um encolher de ombros e um sorriso. Sem dramas.

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Ou talvez seja ver uma senhora bonita a zigzaguear nos pontões numa bicicleta a toda a velocidade, cabelos loiros a escapar-lhe do chapéu como água morna de uma cascata na selva.

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Uma piada velha - enfim, da minha adolescência tardia, vão quarenta anos, talvez - perguntava "qual a diferença entre fazer amor numa canoa e a cerveja americana? E respondia (em inglês) "None. Both are fucking close to water". Hoje pensava nisto enquanto bebia as maravilhosas cervejas que o Ed me trouxe (Yuengling, para os cépticos) e pensava "não consigo traduzir isto em português".

Consigo. "Ambas são uma foda à tona de água"?  Dúvida erótico-semântica que ficaria grato alguém me esclarecesse.

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Vou à cidade. Hoje é um dia estúpido, tão estúpido que raia o maravilhoso.

14.10.16

Abaixo o AO90, os joelhos e as alergias

Nunca gostei da expressão "fazer as coisas em cima do joelho", que sempre me pareceu mais uma desculpa para a crónica incapacidade nacional de decidir do que uma crítica à improvisação - de qualquer forma improcedente num povo incapaz de planear seja o que for -.

Porém agora estou a desenvolver-lhe uma alergia tal que se alguém a voltar a utilizar a menos de três metros de mim arrisca-se a sérios prejuizos na sua capacidade ótica. 

Serviço público - leituras

Gostaria de sugerir a todos os que me lêem que em vez de ler patetices vão a correr à Amazon ou telefonem a uma senhora que eu conheço  (e por acaso foi quem me vendeu o livro) e encomendem The Garden of the Evening Mists, de um autor chamado Tan Twan Eng.

Mais ainda recomendo que não se deixem abater pela aparente tépida brandura (e real lentidão) do livro. Aquilo está para a leitura como uma chávena de chá branco para o chá: só nos apercebemos de quão bom realmente é quando já estamos perto do fim.

Adenda - em caso de dúvida lógica: este post não é uma patetice.

Sem rir

"Quando tinha crises de depressão..." A frase ocorreu-me para princípio de um post: "quando tinha crises de depressão costumava dizer..."

Não sei exactamente onde classificar isto. Tinha? No pretérito imperfeito,  como se as crises depressivas fossem uma espécie de comichão que me dava por causa da idade ou da picada de um mosquito que só havia naquele estranho país que o passado é. Como se não estivessem aí à esquina, como se a avenida da Liberdade que tem sido a minha morada desde... sei lá,  talvez os dezoito anos? Talvez menos, até... estivesse isenta de esquinas obscuras, precipícios vários, monstros salivantes.

No tempo em que tinha crises de depressão é uma patetice, um amuo do meu sentido da realidade, uma escorregadela. Não tem sequer nobreza suficiente para ser um simples e tão frequente em mim excesso de optimismo.

Ao diabo. Há poucas razões para não vir de novo a ter uma daquelas depressões que me faziam sentir mastigado por uma gárgula bêbeda num jardim de urtigas regadas a ácido sulfúrico.

Hão-de voltar, eu sei. Espero simplesmente que se lembrem desta noite de lua quase cheia, vento fresco, em que um marinheiro saiu do seu beliche e se sentou no cais junto de uma tomada elétrica para poder escrever no seu telefone descarregado "quando tinha crises de depressão" sem se rir de si próprio. 

13.10.16

Diário de Bordos - Riviera Beach Marina, Flórida, EUA, 13-10-2016

"Eles desembarcam com as Bíblias nas mãos, mas depois é so matar e pôr bombas". A citação não é verbatim, mas o erro literário-religioso sim. Juan refere-se aos imigrados "árabes e africanos" que a Europa acolhe, segundo ele erradamente. "É o que acontece quando fazes o bem" - a imprecisão na transcrição permanece, mas o sentido está cem por cento correcto -. Juan faz uma pausa e continua: "é  por isso que o Reino Unido fez aquilo" (ipsis verbis, desta vez).

De passagem e por detrás dele ouvi uma rádio afirmar (verbatim) "esta é a única maneira santa de pensar". Não sei a que se referia o locutor, mas gostei da coincidência. Os proselitistas religiosos mentem até nas coincidências.

Não fiquei muito tempo no "restaurante" do Juan. A verdade é que só lá vou porque não há aternativas, apesar de o burrito de hoje ter sido bastante melhor do que o de ontem. Mas comer numa bomba de gasolina, por muito interessante que seja do ponto de vista antropológico e humano - Juan é pleonasticamente simpático, já por aqui o disse - é cansativo.

Ontem ao fim do dia fui ao centro de West Palm. A rua Clematis é a rua dos cafés e restaurantes. Há para todos os gostos, mas achei-os todos tristes. Talvez a culpa seja minha. É, quase de certeza.

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Não sei como se chama o dono da estação de serviço, mas sei que é bangladeshi. "Quase todas as lojas deste tipo (nós chamamos-lhes lojas de conveniência) e bombas de gasolina pertencem a bangladeshis", explica-me. Respondi-lhe que em Portugal as lojas também são de conveniência e também pertencem a bangladeshis.

Um povo conveniente, sem dúvida.

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Hoje começa o trabalho a sério: acabar de lavar a roupa, limpar o barco, ver porque não tenho corrente no salão, encher os tanques de água, encomendar peças à Catana, ver qual a melhor maneira de pôr o degrau à proa do lado de estibordo, ferrar a bomba da casa de banho de estibordo, fixar as mesas do salão e do cockpit, fazer a lista de compras no shipchandler, fixar o encontro com o comprador de bitcoins e por aí fora. Como mulher a dias não sou grande coisa, mas no resto safo-me, vá lá.

Diário de Bordos - Riviera Beach Marina, Flórida, EUA, 12-10-2016

É impossível gostar de um país que tem um café como o que agora estou a beber, trata os cidadãos como se fossem crianças - hoje vi um aviso num "restaurante" (mais sobre isto ali em baixo) a avisar os clientes de que comer carne insuficientemente cozida pode provocar doenças alimentares - regula tudo e mais alguma coisa com o cuidado e o furor de um maníaco e por aí fora.

E impossível não gostar de um país em que tudo é grande, tudo parece ir daqui até ao futuro longínquo, as bibliotecas abrem até às oito e meia da noite e por aí fora. Ou seja: estou em modo Estados Unidos. Esquizofrenia permanente, ininterrupta, simultaneamente fatigante e excitante (vêem o que quero dizer?).

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O "restaurante" entre aspas de que falo é o balcão de comidas da bomba de gasolina à frente da marina. Um dos funcionários desta hoje disse-me gentilmente - as pessoas são de uma gentileza inexcedível excepto se forem condutores de autocarros - que a bomba de gasolina tinha um "restaurante". Pensei que houvesse outra bomba de gasolina, mas não. Ele referia-se àquele balcão com três bancos onde um colombiano hiper-simpático (passe o pleonasmo) serve burritos medíocres e hamburgers decentes.

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O barco está em melhores condições do que o último. Não é difícil, claro. Mas é agradável.

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Uma primeira (tenho uma conta bitcoin) e uma segunda (andei de Uber pela segunda vez). Ainda há que me ache antiquado!

12.10.16

Pequena nota para a posteridade

Nunca um atraso num avião me foi tão agradável, tão bom, tão útil! Obrigado, American Airlines.

(E obrigado, R)

11.10.16

Diário de Bordos - Em voo de Lisboa para West Palm Beach, Flórida, EUA, 11-10-2016

Começa-se pelo princípio: o meu objectivo era chegar ao aeroporto (de Lisboa) às oito e quarenta e cinco e cheguei às oito e cinquenta. Quem não vê que alguma coisa está a mudar é cego.

O wifi do aeroporto de Lisboa - gratuito, ilimitado e normalmente bastante bom - não estava a funcionar. Ou é culpa do neo-liberalismo ou de alguma falha técnica. Tendo para a primeira: se fosse falha técnica a culpa seria também do neo-liberalismo. Escrevo no telefone, sorte para quem me lê e azar para mim.

Continua-se com a continuação: o Boeing 757 é o pior longo-curso do mundo. É mono-corredor (é assim que se traduz mono-aisle?) e as cadeiras são estreitas. Felizmente têm bastante espaço para as pernas. Valha-nos isso (incluo-me num grupo de provavelmente duzentos e alguns passageiros. A aeronave vai cheia a abarrotar) que a comida e o vinho tinto são a merda do costume. Há quem duvide, mas a TAP é a melhor companhia aérea do mundo, pelo menos uma vez dentro do avião. Até lá chegar isto discute-se. Ou não se discute: não é, ponto.

Bem, dizia eu que o B 757 é uma merda de um avião. Excepto para quem o fábrica e para quem o opera. É económico e tem uma boa capacidade de carga. A American Airlines tem uma pipa deles e eu passo a vida a voar AA, prova se necessária fosse de que não sou rico.

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Há outras viagens, mas essas não sei por onde começam. Se pelos olhos se pelas mamas ou - mais provavelmente - pelo olhar e pelo riso. Talvez. São viagens que já comecei muitas vezes. A maioria delas nem chega a começar, aliás. Outras sim. Têm sido boas, quase todas, com excepções. Uma ou duas acabaram mal. Pouco importa onde começam, desde que acabem bem.

E sejam boas, claro.

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Poucos obesos, hoje. Ainda não vi nenhum. É raro, num voo de ou para os Estados Unidos. Em contrapartida a senhora na fila à frente da minha não pára de falar. É portuguesa e não se cala. O senhor ao lado dela acabou por adormecer e ela agora fala com a vizinha do outro lado. Talvez viajem juntos e o rapaz seja o namorado ou o irmão e a conheça. Há pouco levantei-me para a ver: não tento ouvir o que ela diz e gostaria de saber se há mais nela do que o que oiço. Há: a miúda é gira. Deve ter uns trinta anos. Fala de mais, sem parar, com poucas entoações. Pergunto-me se seria capaz de viver ao lado daquela voz ininterrupta, monocórdica, parece um farol avariado. Não sei. Talvez por eu próprio falar de mais e ser esse o meu defeito de que menos gosto suporto-o mal nos outros.

Talvez. Tenho tantos defeitos que escolher o pior é quase impossível.

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Escala de cinco horas no aeroporto de Filadélfia. Aproveito para trabalhar. O aeroporto é porreiro: bonito, com wifi gratuito e ilimitado. Se bem me lembro é o primeiro que vejo assim nos Estados Unidos.

Chego a West Palm às nove e meia da noite. Do aeroporto à marina é um trajecto curto, diz-me o armador. Espero que seja.

Diário de Bordos - Lisboa, 10-10-2016

Dúvida do dia: viver é a) passear à beira do abismo e não cair, b) não sair dos sitios planos, ou c) cair, seja num abismo seja na planície mais plana do universo?

O problema é que não podemos escolher. A vida escolhe e nós montamo-la o melhor que podemos e sabemos.

O resto é conversa (de café, em breve.)

9.10.16

Diário de Bordos - Lisboa, 09-10-2016

Ontem a minha bicicleta Vitus Turbo bebeu de mais. Não há volta a dar-lhe nem outra forma de dizer as coisas: a bicicleta bebeu de mais e no caminho para casa caiu duas vezes. Como eu estava em cima dela caí também, claro. Felizmente, para além do ego não houve nada magoado.

Hoje vai estar a pão e óleo, de castigo.

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A noite foi deliciosa, apesar dessa história do excesso Turbístico. Fui jantar com três maravilhosas senhoras a um restaurante moçambicano de Alfama onde comi caril de caranguejo, matapa e caril de camarão e badgis. Tudo delicioso. A conversa fluiu leve e alegre.

Mal sabia eu que lá fora, amarrada a um cano de água, a Vitus estava a enfrascar-se. Não lhe quero mal. Como dizia uma senhora chamada Rose (de Pansec, algures na Suíça profunda - ou França? Não sei) temos o corpo cheio de pequenos diabos. Há que afogá-los (isto digo eu. A Rose tinha um remédio diferente, que passava por igrejas e padres e orações. Eu não. Afogo-os e pronto. Ecco! Visivelmente a minha bem-amada burra partilha os meus remédios anti-demozinhos).

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Isto tudo aconteceu depois da apresentação de um livro na Barraca. O livro era esplêndido. Uma das senhoras que depois veio jantar comigo diz que o autor é o maior poeta português vivo. Não conheço todos os poetas portugueses vivos e não posso fazer essa comparação. Mas que é um dos meus preferidos é, sem dúvida e de longe. E a senhora percebe de literatura como niguém neste país (e escreve poesia também, de resto).

Ou seja: um grande fim de dia. O bar da Barraca traz-me sempre à memória os estabelecimentos da Rússia Soviética, em mais pequeno. Tem deles as cores e a atmosfera. Quando cheguei à Rússia tinha dezanove anos. Fiquei quatro meses no primeiro porto - Nakhodka, para quem estiver interessado - e um no segundo - Tuapse, idem -.

Em Nakhodka apaixonei-me perdidamente por uma jovem senhora, lindíssima. O superlativo não é exagero. Era linda de fazer calar os tais estabelecimentos (que ela frequentava a contragosto. Quem a levava era eu, para beber vodka. Ela criticava-me. Achava que eu bebia muito). Quando entrávamos num - tinham duas portas, todos, porque era inverno e aquilo era frio - as pessoas olhavam para ela e calavam-se. Era actriz de teatro e recitava-me poemas de Pushkin em russo. Não percebia uma palavra do que ela dizia, mas amava-a abandonadamente.

Trinta e quatro anos depois veio visitar-me a Antigua. Ainda era muito bonita, mas não me recitava poesia e eu já não a amava. Vive na Itália e deixou o teatro. A Barraca tem o ambiente escuro e soturno dos cafés soviéticos, mas em mais bonito. E a poesia é melhor e percebo-a.

É curioso ver uma pessoa que amámos trinta e quatro anos antes desembarcar de novo na nossa vida. Enfim, de novo não é a expressão correcta: nesses anos todos tive três ou quatro vidas, no mínimo. Mas ela chegou e lembrava-se bem de mim e de muitos episódios que eu ja esquecera. E continuou a dizer-me que bebia muito, eu. Ela não.

Bom, Vicky: quem bebeu ontem foi a bicicleta. não fui eu. O Tom Waits tem um problema semelhante com o piano. Talvez ele devesse vir ao bar da Barraca tocar.

Em Tuapse também me apaixonei, mas menos, muito menos. Desta lembro-me dos olhos verdes e dos cabelos morenos; o nome esqueci. Também era bonita, mas menos do que a Vicky.

Tudo isto porque fui à Barraca e dei barraca na bicicleta. Duas quedas: uma no princípio do trajecto e outra quase no fim. Exactamente as mesmas circunstâncias: a andar devagar, muito devagar. Quase parado. A Vitus aguenta-se mal a baixas velocidades. É uma burra de corrida, daquelas que só está à vontade numa estrada e na pirisca. Na cidade, à noite e com uns copos vai-se abaixo, coitada.

Gosto do bar da Barraca porque me faz lembrar uma data de coisas.

7.10.16

Misantropia, senilidade

Um dos muitos sintomas da minha demência senil: cada vez mais prefiro os meus defeitos às qualidades de tantos outros.

Não todos: na verdade só serei realmente misantropo quando morrer, ou enlouquecer de vez.

5.10.16

Crónica simplificada, agradecimento extensivo

Os dias correm e eu corro com eles, tentar apanhá-los e não deixar que eles se afastem demasiado de mim. Abrir a cafetaria (Fundação, de nome próprio, apelido e alcunha) nestas condições só foi possível graças à equipa que tenho ao lado - e tantas vezes à frente -. Aqui fica o meu Obrigado! à Ana, à Cila e ao Luís. E um Obrigado muito especial à Margarida. Há muito tempo que não acredito tanto num projecto e nele ponho o que pus neste. Espero conseguir partilhar não só o entusiasmo mas sobretudo que nos espera.

Daqui a uma semana ou duas estaremos a funcionar a cem por cento (ninguém aguenta o ritmo de mil por cento a que temos andado).

Obrigado.

1.10.16

Cristiano Ronaldo nasceu na Madeira e joga num clube espanhol

Desde que me tornei utilizador regular do Facebook os meus conhecimentos sobre a actividade futebolística aumentaram exponencialmente. Continuam, porém, bastante inferiores aos da média. Saber por exemplo que o Futebol Club do Porto é de um senhor chamado Pinto da Costa - que há anos andou envolvido com uma senhora mais jovem -, tem uma camisola azul e um estádio chamado Dragão não faz de mim um especialista do dito clube, naturalmente. Ou que a camisola do Benfica é encarnada e joga no Estádio da Luz, o Sporting verde e Alvalade, respectivamente (reconheço a fotografia do jovem presidente deste clube quando a vejo nos jornais mas raramente compreendo o que diz).

Enfim. Percebo pouco de futebol e fico fascinado com a quantidade de pessoas que no nosso país sabem imenso desse por assim dizer desporto. Estou a ouvir uma conversa na mesa atrás da minha e confesso que ignoro como quem sabe tanto de actividade que gera fortunas vem comer a uma tasca que até para um pobretanas como eu é (às vezes) acessível.

Tanta sabedoria devia ser reconhecida e paga.

E estão longe de ser os únicos. O futebol é um tema que revela a excelência nacional: não há quem não saiba daquilo mais do que qualquer outra pessoa, viva ou morta, nacional ou estrangeira, profissional ou amadora.

Cada vez que oiço uma conversa sobre futebol num café penso no Poema em linha recta e - quase tenho vergonha de o confessar - perco a vontade toda de saber mais do que o que sei. É pouco, mas já é de mais.

Húbris, concorrência

O problema da húbris é não suportar outras a seu lado. Mesmo que não sejam verdadeiras, que sejam apenas percepções: a húbris transforma tudo o que vê em soberba.

Questão de concorrência, claro: a arrogância não pode ser solitária.

Diário de Bordos - Lisboa, 01-10-2016

No meio de uma inenarrável sequência de eventos a cafetaria Fundação vai abrir daqui a pouco. Não faltou nada, excepto tempo. De resto tivemos tudo o que se possa imaginar, por vezes em quantidades abomináveis.

Fizemos face. Acabamos de vender a nossa primeira empada de frango. Apercebo-me da vantagem de ser marinheiro: a mistura de inquebrantável optimismo e consciência da nossa fragilidade, ser capaz de lidar com um ambiente que muda permanente, imprevisível e incontrolavelmente, saber distinguir num ápice o essencial e o acessório, o que nos permite avançar e o que nos afunda.

Talvez afinal não precise de deixar de ser marinheiro. Apenas mudo de embarcação. 

30.9.16

Cinquenta e nove

Faço hoje cinquenta e nove anos. O Facebook e o telefone portátil impedem-me de o esquecer, como já tantas vezes aconteceu antes.

Pouco interessa o que fica para trás, por bom, mau, insuportável ou maravilhoso que tenha sido. Foi isso tudo e muito mais. Interessa-me sobretudo o que aí vem: um projecto novo, outra vida, mais uma - outra! - tentativa para perceber este país e fazer parte dele.

Não é pouco e é nada. Já estive muito mais longe do que estou hoje e menos do que amanhã estarei de poder dizer sim a Rudyard Kipling:

"If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you,
If you can trust yourself when all men doubt you,
But make allowance for their doubting too;
If you can wait and not be tired by waiting,
Or being lied about, don’t deal in lies,
Or being hated, don’t give way to hating,
And yet don’t look too good, nor talk too wise:

If you can dream—and not make dreams your master;
If you can think—and not make thoughts your aim;
If you can meet with Triumph and Disaster
And treat those two impostors just the same;
If you can bear to hear the truth you’ve spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
And stoop and build ’em up with worn-out tools:

If you can make one heap of all your winnings
And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breathe a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: ‘Hold on!’

If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with Kings—nor lose the common touch,
If neither foes nor loving friends can hurt you,
If all men count with you, but none too much;
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds’ worth of distance run,
Yours is the Earth and everything that’s in it,
And—which is more—you’ll be a Man, my son!"

Carne de frango

Hoje fui comprar uma pizza para trazer para casa e disse que queria uma com carne. Com carne não temos, diz a jovem empregada. Mas eu vi aqui umas com frango. Ah, mas frango não é carne. Pois claro. Tem razão. Frango é carne para maricas, termino. Ainda esboçou um sim, mas parou no s inicial.

No outro dia vi-os a beijarem-se, ela e o colega na porta ao lado do restaurante. Não era bem um beijo, era mais um encontro de aspiradores.

Era bonito de se ver. São os dois bonitos, de resto. Mas ela é mais.

27.9.16

Por baixo

Estou em Pombal e bebo Licor Beirão. Duas primeiras.

Não fazem uma segunda, claro: sentado no canto do café para carregar o telefone e o computador, costas para a praça, por sinal bem bonita. Por baixo, mil vezes.

Déjà vu à voir

Fala-se muitas vezes na sensação de déjà vu. Se bem me lembro até o Sigmund falou nisso. Não me lembro do que disse. Nunca fui grande fã da psicanálise, forma sofisticada e cara da superstição - outra coisa sobre a qual ele falou, se a memória não me falha -.

Que se foda a memória, digo sempre que o termo vem à baila. Ou quase, pelo menos. Passa a vida a foder-nos, a memória.

Já o fenómeno contrário me interessa muito mais. Isto é. Passo a explicar. Foi assim:

Hoje passei por paisagens que me fascinaram e pensei mas já passei aqui tantas vezes e não as vi como é possível? Estava sentado no bar do comboio, as paisagens desfilavam rápidas como naqueles jogos em que temos de memorizar a posição de uma carta ou uma sequência de números ou o nome das miúdas que a seu tempo amámos. E foi assim que me ocorreu como é possível estar a ver isto pela primeira vez quando já aqui passei tantas vezes, tantas?

Que diria Sigmund? A que estranho fenómeno inconsciente associaria ele este de se ver pela primeira vez aquilo que se viu tantas vezes? Como, sei lá, descubro hoje um corpo que já vi nu vinte vezes? Como vejo hoje pela primeira vez o que ontem vi pela milésima? Como vejo agora de repente o futuro no que vi ontem feito passado?

Amanhã olharei para hoje e verei o depois de amanhã. Amanhã olharei para depois e verei o que não vi hoje.

Indignação justa

Tenho uma certa dificuldade em dar-me bem com as justas indignações por duas razões: a) serem auto-fágicas e b) o seu perfeito sentido do timing.

Alguém se lembra de ter visto um justo indignar-se num momento em que a sua indignação fosse irrelevante? A pergunta é retórica. Não. E alguém alguma vez viu uma justa indignação extinguir-se? Não, igualmente. A indignação justa alimenta-se a e de si própria como um fogo que cresce sem oxigénio ou um amor sem esperança.

Coisa que naturalmente não atinge os fundamentos da indignação justa. É justa e indignada.

Amarcord

Lembro-me perfeitamente. Nessa noite as lebres tinham-se embebedado com um molho de palha fermentada. Impossível acertar numa. Por causa dos zigzagues, claro. Eu estava sóbrio como um carvalho num dia de chuva. As lebres titubeavam. Via-as bem por causa dos raios que caíam sem cessar perto de onde elas andavam. Tentei dar ao cano da minha espingarda uma forma curvilínea, inspirando-me para tal nas formas da montanha russa a que em criança o meu pai me levava. As balas bem saíam aos esses, mas mesmo assim não acertava uma. O defeito era meu, claro. Não é sóbrio que se caçam lebres bêbadas, tal como a embriaguez não ajuda a caçá-las quando estão sóbrias. Um zigzague que se transforma no celebríssimo, excelentíssimo, adequadissimo zaguezig rosiano, círculo vicioso em virtuoso, noite sem sono em sono sem noite. Em miúdo divertia-me a dizer o alfabeto de trás para a frente. Tão bem, é preciso acrescentar, que um dia caí de costas numa piscina vazia: as letras definiam o sentido da minha marcha. Comecei a jogar à macaca com elas, mas perdia sempre: juntavam-se e formavam palavras, letras malditas. Um dia cresci. Aprendi a ignorá-las, moldá-las, dar-lhes a forma e o sentido que eu queria que elas tivessem e tomassem. Transformei-me num cavalinho de carrossel e agora lembro-me de quando caçava lebres montadas em montanhas russas.

Tel un petit moineau remorquant un Zeppelin par un jour de tempête, pauvre de lui, mes yeux se remplissent de larmes, amères larmes rien qu'en me rappelant de cet épisode auquel mes jeunes yeux (les mêmes en moins agés) assistèrent étant-je tout jeune, tout jeune, pauvre de moi et du petit moineau, une tragique tragédie qui laissa des marques atroces et indélébiles dans ma mémoire meurtrie

"Plût au ciel que le lecteur, enhardi et devenu
momentanément féroce comme ce qu'il lit, trouve, sans se
désorienter, son chemin abrupt et sauvage, à travers les
marécages désolés de ces pages sombres et pleines de poison;
car, à moins qu'il n'apporte dans sa lecture une logique
rigoureuse et une tension d'esprit égale au moins à sa
défiance, les émanations mortelles de ce livre imbiberont
son âme comme l'eau le sucre. Il n'est pas bon que tout le
monde lise les pages qui vont suivre ; quelques-uns seuls
savoureront ce fruit amer sans danger. Par conséquent, âme
timide, avant de pénétrer plus loin dans de pareilles landes
inexplorées, dirige tes talons en arrière et non en avant.
Écoute bien ce que je te dis : dirige tes talons en arrière
et non en avant, comme les yeux d'un fils qui se détourne
respectueusement de la contemplation auguste de la face
maternelle; ou, plutôt, comme un angle à perte de vue de
grues frileuses méditant beaucoup, qui, pendant l'hiver,
vole puissamment à travers le silence, toutes voiles
tendues, vers un point déterminé de l'horizon, d'où tout à
coup part un vent étrange et fort, précurseur de la tempête.
La grue la plus vieille et qui forme à elle seule
l'avant-garde, voyant cela, branle la tête comme une
personne raisonnable, conséquemment son bec aussi qu'elle
fait claquer, et n'est pas contente (moi, non plus, je ne le
serais pas à sa place), tandis que son vieux cou, dégarni de
plumes et contemporain de trois générations de grues, se
remue en ondulations irritées qui présagent l'orage qui
s'approche de plus en plus. Après avoir de sang-froid
regardé plusieurs fois de tous les côtés avec des yeux qui
renferment l'expérience, prudemment, la première (car,
c'est elle qui a le privilége de montrer les plumes de sa
queue aux autres grues inférieures en intelligence), avec
son cri vigilant de mélancolique sentinelle, pour repousser
l'ennemi commun, elle vire avec flexibilité la pointe de
la figure géométrique (c'est peut-être un triangle, mais on
ne voit pas le troisième côté que forment dans l'espace ces
curieux oiseaux de passage), soit à bâbord, soit à tribord,
comme un habile capitaine; et, manoeuvrant avec des ailes
qui ne paraissent pas plus grandes que celles d'un moineau,
parce qu'elle n'est pas bête, elle prend ainsi un autre
chemin philosophique et plus sûr.
"

Canto 1, Estrofe 1 dos Cantos de Maldoror. Isidore o apaziguador.

Arabescos, alfabeto, vida

Quem desdenha o arabesco não percebeu o papel fundamental que a linha curva tem no desenho do alfabeto.

Isto é, na vida.

Cruzes, rectas

Ainda sobre linhas direitas: uma cruz é feita de rectas.

Rectas

Uma linha recta só é o caminho mais curto entre dois pontos para os geómetras e para quem não vive neste planeta.

Sensatez e imaginação

É relativamente simples e sensato, tão simples e sensato como ensinar um canguru a comer sentado à mesa, de garfo e faça e esperar que ele aprenda.

Não aprenderá nunca, estúpido. Melhor deixá-lo correr e saltar pelos campos fora; não sabe fazer outra coisa.

Sabe: imaginar que um dia se sentará à mesa e comerá de garfo e faca.

25.9.16

Teologia contemporânea

Não percebo rigorosamente nada de teologia mas gosto dos nomes de alguns dos seus constituintes: Angelologia; Soteriologia; Hamartiologia; Demonologia.

Sobretudo porque o grande demónio dos nossos tempos - o "neo-liberalismo" (entre aspas porque metade dos que o invocam não sabem o que é) poderia muito bem começar a integrar o corpus dessas disciplinas:

Hamartiologia - estudo do pecado (ou, para os diferentes teísmos actuais: estudo do "neo-liberalismo"). Angelologia: estudo dos anjos (isto é, de quem não é "neo-liberal"). Soteriologia: estudo da salvação (identificar e denunciar o "neo-liberalismo"). Demonologia: vê-se à légua.

23.9.16

Rades, golfos e tempo

Um gajo está a entrar na rade de Hyères. Está frio, se bem não muito. Vai a motor porque o vento é pouco e de proa. As luzes da costa fazem-no pensar na saída do golfo de Salonica, tão linda e tão mais fria, há oito meses precisamente.

Isto é um bocado como estar a jantar e a pensar no almoço de ontem, só que o mar comprime o tempo.

20.9.16

Segundo lugar

As vezes ganha-se; outras fica-se em segundo lugar, ou terceiro, quarto... por aí fora.

E outras ainda não se fica em lugar nenhum: numa das primeiras America's Cup - ganha como todas até 1983 pelos Estados Unidos - um Almirante disse desolado à Rainha Vitória "Ganharam os americanos, Majestade". A Rainha perguntou "Quem ficou em segundo lugar?" O senhor respondeu "Nesta regata não há segundo lugar, Majestade".

Não é só na America's Cup que não há segundo lugar, claro. Mas não é por isso que a dor é menor.

19.9.16

Retroacções

Um gajo tem uma manhã  miserável. Passo os pormenores. Basta saber isto. A certa altura dessa manhã vai aos correios buscar livros que põe na mochila (a Vitus Turbo não tem nem nunca terá cesto). Noutra altura, diferente, dessa manhã - que já não o é, é tarde - vai almoçar. Não há alheiras nem favas nem bacalhau à Brás nem nada do que pede. Resigna-se ao bife, esperando o pior.

(O pior chegará: o bife estava uma merda do princípio ao fim).

Mas antes de o bife chegar um gajo abre um dos livos que foi buscar aos correios. É uma antologia de poemas de Blake.

O bife não estava uma merda. A manhã não foi miserável.

Irritação

Era bonita. Rosto juvenil, sardento. Tinha cinquenta anos mas vista de cima parecia ter vinte. De pé dava-se-lhe a idade correcta e dizia-se "está bem conservada" enquanto se acenava aprovadoramente com a cabeça.  "Se" eram sobretudo - mas não exclusivamente, longe disso - os meus colegas de equipa  (eu era jogador de futebol, nessa altura). Encontrámo-nos na Tailândia: tínhamos sido convidados para uma série de jogos amicais com clubes de vários países asiáticos. Nesse ano Portugal tinha ganho o Mundial e nenhuma equipa portuguesa escapava aos mais variados convites. Éramos olhados como semi-deuses, apesar de não passarmos de uma obscura colectividade local da terceira divisão.

Eu tinha vinte anos - era um bocadinho mais novo do que o filho dela - mas fui adoptado inicialmente como amante. Mais tarde passei a namorado, depois a namorado "oficial".

Um dia acordámos - estávamos juntos havia dois anos - e disse-me "tu irritas-me". Fizemos amor, como todas as manhãs. Tinha um orgasmo bonito. Rejuvenescia. Parecia ter vinte anos.

Fomos tomar o pequeno-almoço. "Tens de te ir embora". Olhou-me bem nos olhos e continuou: "agora, por favor".

18.9.16

O que não disseste

Enfim. Verdade seja dita: se tu sabes que uma palavra muda o mundo e se não queres sequer mudar nem o nome da tua rua mais vale ficares calado, não vá isto mudar tudo de supetão só por causa da palavra que disseste.

Se bem quantas vezes a que não dizes também. 

Imagina

É preciso imaginar um corpo leve, fluído em cima ou por baixo de ti, pouco importa para o objectivo: imaginar. Imaginar um corpo: ventre, mamas, olhos, uma cabeleira loura ou ruiva, lábios (é um corpo labirintico), mãos. Concentra-te nas mãos, no ventre. Tu estás nele e elas em ti. Imagina. Talvez a cabeleira seja morena. Equivalem-se os cabelos, as mãos, as mamas, os ventres. Tudo o que vês se equivale.

A diferença está no que ouves, as time goes by.

Como o tempo passa. Some day my prince will come. O que ouves mistura-se com o que queres ouvir, a kiss is just a kiss. Ne me quitte pas, je t'amenerai à l'ile de Ré, dis, quand reviendras-tu? Take five stolen moments why am I so black and blue no porto de Amsterdão?

A rapariga não canta tão bem como pensa que canta mas não faz mal. Um piano bem tocado paga tudo. Apaga tudo. Imagina, como dizia o outro.

Se não rebento

Quero dizer. Isto é : não sei se quero. Tenho. Tenho de dizer. É preciso dizer que. Um piano bem tocado é uma porta, ponte, espada (como em "não morras já / que tenho uma espada /que mata com mais amor" - Ou isto ou quase isto). Um piano bem tocado acompanhado por uma bateria e uma guitarra-baixo. Uma ponte uma porta uma porra. Uma porra, este enchimento de merdas que vêm do piano bem tocado. Enche-me o peito e a mona, uma merda sou eu que vos digo. Não as palavras. Eu. O pianista chama-se Emílio Robalo. Os outros não sei. Não ouvi. Isto é. Podia ter ouvido mas não ouvi. É o piano muito fluído, subtil, fode fininho mas no bom sentido, quero dizer. Não quero. Tenho.

Tudo isto na Fábrica do Braço de Prata. Sou o único velho gordo careca surdo e feio e as miúdas giras são aos montes, quase todas e a música é boa, muito boa. Há bocadinho tocaram um tema do Chick Corea, imagine-se. O sacana do Robalo toca bem, muito concentrado, muito pince sans rire, como se não fosse nada com ele, estivesse ali por acaso, "aprendi a tocar piano ontem, deixam-me tocar um bocadinho por favor?"

Vai muito bem com a sala, cheia de livros (alguns baratos) e com o Bayley's com Jameson que bebo e agora vem o Georgia, entrou uma cantora seja Deus (com maiúscula) louvado. Tenho de dizer.

Se não rebento.

17.9.16

Diário de Bordos - Lisboa, Portugal, 17-09-2016

Para já é preciso começar por dizer que o balcão da Portugália está cheio, o que é bom. E continuar não ignorando o facto de que noventa e nove vírgula nove por cento dos clientes são iguais a mim: velhos gordos e feios (e agora a única senhora vai-se embora, pelo que a percentagem de velhos gordos sobe para cem por cento).

Quase. Há mais duas. Não importa. Importante é reconhecer que a imperial está muito boa, sinal seguro de forte tiragem.

Sinal igualmente seguro de um bom fim de bom sábado,  coincidência feliz s'il en est, como diria o Asterix se por aqui andasse.

Não anda. Só potenciais Obelixes, grupo do qual me excluo desde já porque não sei caçar javalis, apesar se ser animal que muito aprecio no prato.

E já passei uma noite a caçá-los, pendurado numa árvore na Haute Savoie numa noite de inverno. Apanhei uma valente e memorável bebedeira, vá lá. Não perdi tudo. No dia seguinte a neve por baixo da árvore onde eu tinha passado a noite estava cheia de pegadas de javali.

A aguardente caseira - e excepcionalmente boa - é uma grande aliada dos gajos que são contra a caça. PAN, aqui fica a ideia: obrigar cada caçador a levar um litro de aguardente caseira  (se for francesa chama-se marc).

Morreriam talvez meia dúzia de caçadores mas salvar-se-iam dezenas de animais.

........
Bom, resta que um chilli con carne sem chillies - nem um pimento levou! - não é bem bem um chilli con carne. Mas tão pouco é um guisado. Fica assim a meio caminho e aposto que há muitos soi disant chillies (estou com a cabeca na Savóia, é assim que se diz Savoie?)

Foi o almoço de hoje é vai fazer parte da ementa fixa da Carta, uma porta que se abre e tem uma vista soberba para o futuro. Em breve num Santos perto de si.

........
E disto depois e de tudo ficam milhares de coisas por dizer: não serei eu quem as dirá. Elas que se digam a si próprias que já são grandes. Nada posso se não correr atrás delas (as coisas por dizer) e pedir-lhes que fiquem um bocado mais, não se zanguem comigo. Ou então mandá-las para o raio que as parta. É o que merecem, as coisas por dizer aqui entre nós seja dito.

Quase retrato - nascença

Quando veio ao mundo em vez de chorar gritou "eu não sou dos vossos!" e assim não foi.

A bicyclette

Hoje fui a Alfragide na minha bicicleta Vitus Turbo (não é alcunha mas podia ser).

Se o Buda tivesse uma Vitus o conceito de desapego não existiria.

........
Para além das teológicas andar de bicicleta tem vantagens noutras áreas. Oníricas, por exemplo. Hoje vi dois polícias em frente de uma embaixada. No passeio alguns vinte automóveis em dupla fila. Automóveis em dupla fila num passeio (parece que é habitual naquela avenida. Por causa de um colégio e de embaixadas).

Sonho com um mundo sem espaço para peões, carrinhos ou cadeiras de todas. Um mundo motorizado. "Vamos dar uma volta a pé?" "A pé??? Estás louco? Vai buscar o Mercedes. Ontem fomos no Audi. E na volta deixas-me no ginásio".

.........
Outra grande vantagem da bicicleta: faz-nos tomar contacto com os automobilistas - são muitos mais do que se deduziria pela mera observação das nossas ruas - que não passam com sinais encarnados, não entopem cruzamentos, não estacionam em cima de passeios ou de passadeiras. Enfim, automobilistas que cumprem escrupulosamente todas as regras de trânsito e de civismo.

São imensos, muitos. Mal nos vêem a andar em contra-mão ou a passar uma passadeira sem desmontar ou a fazer qualquer destas coisas eles manifestam-se. Eles cumprem escrupulosamente todas as regras e nós, ciclistas anarquicos não? Vá de se darem a conhecer, civil e educadamente com uma buzinadela, um grito ou um gesto.

Pena é não haver mais desses automobilistas, cumpridores e educados.

16.9.16

Diário de Bordos - Lisboa, Portugal, 16-09-2016

Dias cheios, cheiíssimos, que a falta de computador e de vontade de escrever no telefone esvaziam.

Como se não se tivesse passado nada, como se um dia este futuro que nestes dias se constrói, define, toma forma cores e cheiros vá parecer ter nascido do nada.

Dias de laudas à vida e a Lisboa, terra mãe, madrasta, amante, puta que se deixa foder com prazer, mulher que fode com mais sentimentos do que técnica.

Dias entrecortados por uma breve viagem ao Porto, cada vez mais bonito e vivo; e uma passagem nauseante em Obidos, felizmente breve e de raspão. Gosto do turismo mas detesto turistas.

Cada vez suporto menos tudo e todos os que estão longe de mim, ainda que ao lado. E gosto mais de quem está perto, mesmo que longe.

........
Acabo Alentejo Prometido, de Henrique Raposo. O único defeito que lhe vejo é o malfadado acordo: não há direito de se estragar uma prosa tão bonita, limpa e escorreita com aquele crime ortográfico. De resto o livro é esplêndido. Procuro as causas do alarido que provocou e não as encontro. Espero que quem protestou contra aquele retrato corajoso, bem focado, informativo e desapaixonado esteja agora a roer-se de vergonha. Não está, de certeza. Só a inteligência se arrepende. A estupidez nunca o faz.

........
Amanhã vou buscar o computador. A vida reatará o seu curso, como se as comportas da barragem deixassem passar palavras e não horas (ou minutos, que os não há de mais vazios).

........
O nosso governo encadeia disparates uns atrás dos outros, como um epiléptico a tentar comer a sopa durante um ataque da doença. Aquilo é incontrolável. Tento não falar de política neste coitado deste blog, já tão massacrado pelas faltas de jeito e de interesse.

Mas o que este primeiro-ministro e respectivos acólitos fazem não releva apenas da política. É caso de perturbação mental; de tragédia, literatura ou - mais provavelmente - de circo.

Infelizmente na arena estamos nós e não os palhaços e malabaristas que nos e se governam. Em breve entrarão os leões em cena; os artistas estarão a salvo e nós na travessa que será servida aos bichos.

13.9.16

Prazeres, preços

De novo no comboio, desta vez para o Porto. Vou guiar a visita de inspecção de uns operadores canadianos. Preciso de aprender coisas sobre a cidade mas não consigo largar a biografia de O'Neill que A., a autora me ofereceu ontem.

O prazer de ler é um dos mais caros que conheço. Se não o mais caro.

Imagina

Grande noite de Beckett ontem no Povo. O prazer do texto espraiado pelo prazer de ler mai-lo de dizer.

"imagine si ceci
un jour ceci
un beau jour
imagine
si un jour
un beau jour ceci 
cessait 
imagine"

Imagina. 

11.9.16

Tudo se paga

Sei, juro que sei: tudo isto se paga. A felicidade, a harmonia, a fluidez têm um preço. Tudo corre bem em todas as frentes, tirando uma ou duas e não são as mais preocupantes. Tudo se paga, tudo tem um preço.

Mas num canto recôndito de mim acredito que paguei adiantado e agora estou apenas a receber a mercadoria. 

10.9.16

Nicles, emoção

Imagine o leitor (o género é específico) que se apaixona por uma jovem senhora - as senhoras são sempre jovens; há mulheres que não são jovens e jovens que não são senhoras, mas isso é outra história - e ela corresponde.

Não falo de um jovem senhora qualquer. Falo da mulher da sua vida, para usar o cliché, inexacto como todos os clichés e igualmente confortável. Ela corresponde (por vezes acontece).

O leitor prepara-se para a noite inaugural: lava os dentes pela primeira vez nessa semana, repara nas nódoas da camisa e muda-a, lamenta não ter tido tempo de comprar a água de Colónia que por azar acabou o ano passado. Essas coisas que todos os homens fazem perante a feliz conjunção de senhora da vida deles e primeira noite.

E nicles. Nicles oberlix. Nada. Niente. Zero. O bispo recusa-se à missa, o palhaço ao circo - dê-lhe o leitor o nome que der, o resultado é o mesmo: uma enorme, esmagadora mistura de embaraço e frustração -.

(Há quem diga que essas coisas acontecem mais frequentemente quando o amor é verdadeiro e nós homens estamos subjugados pela emoção. É uma tese que eu partilho, apesar de não ter tido verdadeiros amores em quantidade suficiente para a legitimar).

Pois bem: ontem aconteceu-me uma coisa muito semelhante mas com um jantar. Não estava propriamente horrível. Estava só uma porcaria. E logo não para uma mas para as duas senhoras da minha vida (a que aí vem). Há tanto tempo que não falhava um cozinhado que já nem me lembrava como é - uma enorme mistura de embaraço e frustração -.

Espero que elas acreditem naquela coisa da emoção e tal. 

8.9.16

À espera dos livros

Não sei há quantos anos vivo sem os meus livros. Creio que dez. Não aguento nem mais um dia.

7.9.16

Celan, com certeza.

"Vive as vidas, vive-as todas
Mantendo os sonhos separados,
Vê, eu subo, vê, eu caio,
Sou outro e não sou outro."

In A morte é uma flor. A tradução é minha, por assim dizer.  

Pública?

Chamar humorista a Bruno Nogueira é como chamar orgíaco ao Papa.

Essa coisa (pelo menos em termos de humor. Pessoalmente até pode ser um porreiraço. Não sei. Não o conheço) foi aparentemente contratada pela estação de televisão pública. Confesso que não percebo por que raio de carga de água aquela estação não é privatizada, como visivelmente os que lá trabalham pensam que devia ser.

Ser, dar

1

Em caso de dúvida começa-se pela metafísica. Ontologia. Quem sou eu e para que sirvo? De onde vem esta dúvida que me define e aprisiona há tantos anos? Porque hesito entre a cerveja e o vinho? Um papagaio sente o mesmo que eu face ao vazio dos dias? Vai chover amanhã?

A vantagem da ontologia é esta: saímos rapidamente dos limites estreitos do ser e acaba-se na meteorologia. Isto se o jantar tiver sido bom: não há ser que resista a um bacalhau insonso, por exemplo. Nem chuva que não seja agradável se ao lado do nosso um outro ser- feminino no meu caso, mas isto é uma escolha pessoal (diria fisiológica mais do que ontológica) - um outro ser.

Deixa-me dizer-te que de Heidegger não percebo nada. Nada. Mas percebo de olhar para a Lua nas sizígias, esperar pela chuva, descobrir num corpo o que nele leva à alma.

"Há uma ferida em todas as coisas. É por aí que a luz entra", canta esse grande especialista em feridas. Também percebo de feridas. Estou coberto delas, da cabeça aos pés. Sou uma ferida ambulante. A chuva, a Lua, o mar e o vento, seu irmão gémeo, o vinho e o rum não mas curam mas lavam-mas.


2

O processo é antigo e conhecido: estende uma mão. Estende-a de novo. Estende-a outra vez e outra e outra e outra. Estende-a sempre. Chegarás aos limites do universo, que são aproximadamente os teus. És o mundo e é nele que recebes o corpo que te apazigua ou faz sofrer. Nele se instalarão a presença ou a ausência.  És o mundo; és o que és, o que serás e foste. Tens o tempo contigo. Estende a mão: é nela que virá a resposta.

Olha para fora, para amanhã,  para o dia que nasce. Lembra-te: és uma dúvida, um soluço do tempo. É tudo o que és, o mundo.

Nada és, mas sem ti nada é. Estende o braço. Dá-lhe a mão.

Dá-te. És o que dás, não o que recebes ou pensas, sonhas, fazes.

Dá-te inteiro, como és, todo de uma vez, sempre e para sempre. Não há fracções de mundo: não há partes de ti. "És todo em cada coisa". Dá-te como és.

Nada sobrará de ti se não o que de ti deste.


(Para a H., filha e ilha)

6.9.16

Marinadas - carne

Digam o que disserem, a mistura de vinho tinto, mostarda, sal, pimenta, orégãos em quantidade que alguns considerariam excessiva (isto caso houvesse alguns a ver) e para mim não o é de todo, rosmaninho e alho picado continua a ser uma grande mistura para se cozinhar carne. Sobretudo se antes serviu também de marinada.

5.9.16

Sabonetes humanistas

Alguém vende sabonetes (ou outra coisa qualquer, não me lembro) na net. Uma parte dos lucros vai para ajudar crianças no Quénia.

Não percebo porque escolhem crianças num país africano e não ciclistas no nosso. Eu por exemplo preciso absolutamente de uma bicicleta de cidade (tenho uma de estrada minha e outra de montanha emprestada, mas de cidade até agora nada).

Caros clientes dos sabonetes em questão  (não recordo a marca mas não tarda): por favor canalizem a vossa ajuda para um desgraçado ciclista português dos quatro costados. Com quinhentos sabonetes a ginga é minha. Ou mil, vá.  Não custa nada. Deixem as crianças queniamas para depois. Aquilo no Quénia é um calor desgraçado  (eu sei porquê já lá estive). E a insegurança é tal que não dar para andar de bicicleta na rua. 

Tu, vida, sesta

Desnudo-me perante a sesta como perante ti. Perante ti e a sesta, conjugação perfeita de duas perfeições. Perante ti só: nu imóvel me quedo perante a vida.

Palavras, rios

São palavras simples, coitadas. Mas dentro delas corre um rio, brilha um sol, levanta-se a Lua prenhe e vermelha, saciada.

Abismologia

Antes cair de um abismo do que trepar uma colina.

(Melhor ainda é conquistar o abismo, claro. Mas isso é outra histórica, como diz o meu telefone).

4.9.16

Ele há frangas

Os frangos (ou mais quase de certeza frangas) marinaram numa mistura de azeite, sumo de limão, vinagre balsâmico  (pouco), gengibre, pimento, alho, cominho e coentros moídos,  pimenta e sal, paprika, curcuma e alecrim.

Depois foram a grelhar e gostaram. As pessoas, quero dizer. As frangas essas adoraram.

Ontem. Hoje pu-las numa panela com cebola picada e lume muito baixo. Depois acrescentei coentros frescos picados com alho e vinho tinto. As pessoas eram outras, mas também gostaram.

Das frangas nem falo. Haverá uma que resista a quem gosta delas?

Metamorfoses

Preocupa-me muito a imagem que os outros fazem de mim. A percepção de terceiros. Os outros são importantes. Jorge Luís Borges, por exemplo, que está para os outros como o Sol para um dos satélites de Plutão dizia "todos acabamos por nos tornarmos na imagem que os outros fazem de nós" (cito de memória, que está cada vez mais como sempre foi).

É por isso que acho importante dar uma boa imagem de mim: quero transformar-me nela.

Luz, tristeza

Um farol irregular mas que nunca pára: por vezes deixa-nos longos períodos na escuridão mas não se perde pela espera: mais tarde ou mais cedo vem e varre-nos a felicidade da alma como agora varri as cinzas da varanda ou as migalhas de cima da mesa: com energia e sem discussão.

A tristeza é a luz: sem ela não se vê um palmo à frente do nariz.

Fractal fatal

É uma simples questão de arquitectura,  percebes? Não? Refiro-me aos sentimentos. Onde pôr este amor? E esta amizade? Separo-os com uma parede ou um corredor? Onde preferes a dor? Que achas de colar o medo ao amor, com um balcão e meia dúzia de bancos daqueles de bar, altos? Assim habitamos um e temos o outro debaixo de olho. Talvez não seja má ideia, mas onde dormimos - no lado do amor ou no do medo - ? E que achas de pôr a dúvida no centro, com uma saída para o alívio? O desespero? Esse põe-o num canto escondido, que se lixe.

Arquitectura, digo-te eu. Esta merda é um labirinto e um lego juntos. Perdes-te no labirinto, as peças  de lego não encaixam umas nas outras e os quartos são uma confusão, uma desordem.

Esquece a simetria. Faz de conta que acreditas na ordem e entendes a sua ausência.

Como se do átomo de um piscar de olho ao universo de uma vida partilhada tudo não fosse se não uma questão de escala; como se o amor, a amizade, a esperança e a dor e o resto fossem partes de um fractal.

Na verdade são. Chama-se vida. A dor de hoje é uma ínfima parte de toda a dor que já sentiste e vais sentir; como a alegria de ontem ou a felicidade de amanhã.  É um fractal.

Faz uma fogueira e põe-a no centro do teu sorriso, da tua casa, da tua vida. É nela que vais morrer e é ela que te faz viver. Pede ao arquitecto que de todas as divisões se veja o fogo; adormece como vives, ri como choras, sê feliz como sofres, espera como se houvesse lenha para a fogueira durar até ao infinito.

Um incêndio começa com uma fagulha, a mais frágil das luzes.

1.9.16

Definição - bicicletas

Uma bicicleta é um peão com rodas e não um veículo sem motor.

(À atenção de polícias e demais autoridades da via pública, automobilistas, ACP - são coisas diferentes - e taxistas - ditto -.)