2.6.18

Horizontais, verticais e enganos

Deslizo gentilmente pela música gregoriana das Benedictinas, pelo vinho sem sulfitos do supermercado biológico de Port de Andratx e - uma vez mais - percebo que o tempo é um arco que se morde a sim mesmo: quando esta música foi feita os vinhos não tinham sulfitos [por favor corrijam-me se estiver enganado].

Uma linha no horizonte. Mas ao contrário do que pensamos horizontal, paralela ao horizonte e não vertical: o tempo não é a linha que o Sol persegue. O Sol engana-se e engana-nos.

Sorte, azar

Conheço uma senhora que cantaria esta canção bastante melhor. É uma sorte, imagino, porque se não fosse sorte seria azar.

Economia ciclista

Para além de serem uma fonte de prazer, de exercício e de liberdade as bicicletas são uma excelente escola de economia.

Por exemplo, aquele conceito de que "ser pobre é caríssimo": a burra que comprei aqui - uma adorável Órbita de que a cada dia gosto mais - pouco mais é do que um quadro.

Para a pôr como deve ser vou gastar o dobro do que teria gasto se a comprasse nova, ou pelo menos em bom estado.

Contudo assim posso gastar o dinheiro quando é possível: vem um dia de chuva e oops, entra um travão ou um avanço ou uma corrente. Para a comprar nova teria de gastar a massa toda de uma vez.

As pessoas sensíveis aos custos não deviam ser pobres. Ser rico sai muito mais barato.

Código, lugares, autocarro

A vida em sociedade é feita de códigos, todos o sabemos. Servem para tudo: para facilitar, identificar, comunicar.

Alguns desses códigos são explícitos e transversais; outros - sobretudo os identitários - conhecidos apenas dos grupos que ajudam a definir.

Aqui onde estou há um desses: no autocarro os turistas sentam-se à frente e os locais atrás.

Isto funciona muito bem até aparecerem turistas com a mania de que são locais. Ou - privilégio supremo - que não são turistas; são viajantes, coitados (também os há ignorantes, mas para isso não há remédio).

Vão lá para a frente, porra. Estes lugares são nossos. Aqui atrás fala-se espanhol e os putos chilreiam. Não se fala alemão nem se conversa gravemente de assuntos sérios.

31.5.18

Yuri

- E se fosses brincar com o caralho do teu marido em vez de brincares com os meus sentimentos? - Não deve haver muitas relações a começar assim. A minha com o Yuri começou.

É pedreiro; faz obras em casa das pessoas. Quer deitar uma parede abaixo? Aumentar a cozinha? Descobrir o que a prende ao seu marido (ou agora se desprende)? Cimentar o seu casamento? Deitá-lo abaixo de uma vez por todas? Chame o Yuri. Ele trata de tudo. Não fala muito bem português, ainda; por vezes é preciso um estômago forte para o ouvir. Não é sequer particularmente bonito: nada daqueles deuses eslavos loiros, altos e esbeltos.

José - o marido em questão - é professor de filosofia na Universidade. Especialista em Kant, incapaz de responder "quatro" se alguém lhe perguntar "quanto é dois mais dois?" Começa por dizer que "dois é um mais um, dois mais zero, quatro menos dois ou quinhentos e oito menos quinhentos e seis. A qual deles te referes?" Depois explica que mais é o contrário de menos; que uma multiplicação pode ser vista como uma sucessão de adições. Diverge para explicar que adição em matemática ("ou álgebra") é diferente desse neologismo-anglicismo-palavra-a-evitar porque temos"dependência"; volta ao tema inicial para afirmar que a maioria dos autores aponta para "quatro", mas quando chega aí tu já esqueceste a pergunta inicial e estás a sonhar com um café, ver se acordas.

Eu sou "doméstica". É a primeira vez que engano o José. Ou qualquer outro dos poucos que o precederam, de resto. Isto não é bem verdade. O que é "enganar"? Ao meu casamento a minha amiga Ruth chama (erradamente, mas isso não é para aqui chamado) "Paz podre". Percebo o que quer dizer e não a interrompo enquanto penso naquele bruto atarracado que um dia me sentou na banca da cozinha, afastou-me as cuecas para o lado e penetrou-me com a energia de um camartelo. Não percebo sequer como já estava eu tão molhada, tão pronta a recebê-lo ("Parece manteiga", foi a observação dele. "No Verão", acrescentou, com medo de que eu não tivesse percebido a alusão).

As obras estão quase a acabar. Demoraram mais tempo porque foram interrompidas várias vezes por dia - nem sempre, apresso-me a esclarecer, na bancada da cozinha. Um dia levei-o para o quarto da "paz podre", que nessas ocasiões deixava de ser pacífico e - ainda menos - podre.

Hoje disse-lhe:
- As obras estão quase a acabar. Que vai ser de nós?

A resposta foi a mesma do primeiro dia:
- Vai brincar com o caralho do teu marido e deixa os meus sentimentos em paz.

..........
Yuri aprendeu português nas obras. Para ele "caralho" não é a mesma coisa do que para mim. Eu sei, mas faço como se não soubesse.
- É com o teu que quero brincar.
- Há sentimentos por trás dele, sabes? - Traduzo o seu português aproximativo, mas não o sentido do que me diz. Na Ucrânia Yuri era professor no liceu, ensinava ucraniano. Um dia perguntei-lhe:
- Porque não falas melhor português? Tens bagagem para isso.
- Não preciso de bagagem para deitar paredes abaixo.
- Precisas para me foder.
- Vou pensar nisso.

Aquela massa compacta de músculos escondia sentimentos de cuja existência era impossível suspeitar vendo-o manejar a maça e o cinzel, ou aplicar cimento com a colher. Nem na cama era fácil descobri-los. Yuri usava o silêncio como cimento por cima de tijolos e tinta por cima do cimento: camadas e camadas de vidas, fugas, andanças, placas geológicas sobrepostas, granito em cima de granito por baixo de basalto. O único modo de comunicação com ele era o tempo. Esperar. Esperar que ele se viesse (perguntava, serenamente, "posso vir-me?") esperar que ele falasse ("Não te quero chatear com as minhas histórias...").

Uma coisa aprendi: não era preciso esperar que ele sentisse. Imaginem-se a escalar uma montanha, espetar um piton numa falha e ela gritar "ai, magoaste-me". Dois meses depois, com sorte, mas a dor estava lá, imediata.

........
Um dia disse-me:
- Vivo ao retardador.

Assim mesmo, literalmente, sic, verbatim, o que quiserem: "Vivo ao retardador". Estávamos em casa dele, um tugúrio de vinte metros quadrados dos quais metade estavam ocupados por livros e por discos. "Salto de uma biblioteca para outra", pensei. "Mas não de uma pila para outra".


(Cont.)

29.5.18

Diário de Bordos - Paguera, Mallorca, Baleares, Espanha, 29-05-2018

Chamas a isto um dia? Chama-lhe um mês, um ano, um sentido até se quiseres. Porque hoje foi muito mais do que tudo isso.

Como se o P. tivesse ressuscitado subitamente, como se a luz deixasse de tremelicar lá ao fundo e fosse o túnel todo iluminado de uma vez, não devido a um só interruptor mas a muitos. Que salto, que mergulho tão altos e tão para a frente. Vieste para casa a cantarolar Avante Camarada, Avante (depois continuava: Junta a este muitos dias).

........
Acabei The Only Story, de Julian Barnes. É a história de amor entre um miúdo de dezanove e uma senhora de quarenta e oito anos (quando começou). Durou "dez ou doze anos", diz o narrador (a personagem masculina já numa idade avançada). A história é contada em modo memorial, dá saltos para trás e para a frente.

Não deixa uma única porta ou janela do amor por abrir. A maestria narrativa deixa-nos sem ar como um pontapé nos tomates, um pôr-do-sol particularmente bonito ou o não desesperado de uma miúda que amamos: ataca-nos por todos os lados, o físico, o estético e o dos sentimentos.

A última vez que me senti assim ao acabar de ler um livro foi com o The Sea, The Sea de Iris Murdoch.

........
Uma insónia como se os dois braços da ansiedade tivessem passado a noite a tricotar dentro de mim. De vez em quando trocavam as cores, para se divertirem.

Vá lá: consegui ler. A manta era pesada mas não opaca. O resultado é que agora morro de sono, claro. Mal me tenho de pé.

Ele que espere. Passou a noite a gozar-me, agora paga.

........
O café Can Miquel, em Andratx é certamente muito bonito, mas infelizmente o sei interesse queda-se por aí. Isto é como tudo na vida: antes o conteúdo do que o continente. 

28.5.18

Vantagem maiorquina

A vida em Mallorca tem pelo menos uma vantagem sobre outras regiões de Espanha: isto tem tantos alemāes como indígenas e os restaurantes abrem as cozinhas às seis da tarde. 

Esperas [e obrigado]

Uma das dificuldades em reler-me é que mal começo penso na quantidade de leituras decentes à minha espera.

[Adenda: acabo as primeiras páginas com as correcções de JMV. A re-leitura fica muito mais fácil. Um interminável obrigado, J.]

26.5.18

Bares, Lua

Os únicos bares aceitáveis são aqueles de onde se vê a Lua.

A noite e o bom senso

Uma noite acaba no Procópio da mesma forma que um rio desagua no mar: não por inevitabilidade (há rios que desaguam noutros rios, ou em terra); mas por simples bom senso.

25.5.18

Amor e óleo de fígado de bacalhau

Não te amar é doloroso, por muito necessário que seja. É como beber todos os dias uma dose gigante de óleo de figado de bacalhau. Pode ser bom para a saúde, mas é melhor estar doente.

Vogue Vogue petit navire

Por falar em Playboy: alguém alguma vez leu um artigo da Vogue?

(Li hoje o primeiro, de sempre. Mais vale olhar para as fotografias).

23.5.18

Anúncios

"Homem 42 anos, bom aspecto físico, situação estável, rentável, cultivado e com sentido de humor aceita ser usado para salvar casamentos, testar potencial de sedução de senhoras com dúvidas, ser amado passageiramente como quem espera por outrém.

Não guarda rancores, más vontades ou coisas similares."

Refit, e depois?

Um gajo vai ao Quinta Puñeta e pergunta-se "como para jantar?" responde "Não, estou ao lado do Ca na Chinchilla" (em voz baixa, claro, todo o diálogo) e pensa na J.

Conjugação feliz de acasos? Não. De vontades. O polvo à galega da Chinchilla é maravilhoso, o Albariño idem, da vida então nem se fala.

Mesmo no meio de um refit.

O conforto do calor

"Só me sinto confortada com comida quente" diz-me J.

Mude-se o género e subscrevo a cem por cento.

Infelizmente

Acabo de ter uma conversa interessante com uma jovem senhora a propósito de mamas.

Começo por dizer que as dela passam o teste do lápis sem qualquer compromisso.

"Infelizmente isso não chega" explico-lhe. "Gosto delas direitas ou caídas, fúseas ou abolachadas, com lápis, máquina de escrever ou a apontar para a Lua."

O mais importante não está nas mamas. Infelizmente.

Hesitação balística

Gosto de imaginar balas hesitantes: perguntam--se no caminho se o alvo é mesmo aquele? Ou se é merecido (isto é: merecem--na?) Balas que se desviam milimetricamente do seu trajecto, por causa do vento ou por vontade própria.

Uma bala que hesita é um homem que duvida.

Ruth e a dor

De Ruth guardo um tecido para limpar óculos com uma imagem de um quadro de Van Gogh trazido de uma visita ao museu de Amsterdão e a ideia de que devia ter limpo os óculos antes de ela me deixar e não depois. Agora é tarde.

Era uma miúda alta, muito magra, morena, bonita como o amor que sentia por mim, que era vasto. (E por ela. Narciso passou por ali. Há pecados piores. Esse é invejável).

Uma vez disse-lhe "estás à distância de um grito" e ela respondeu "não posso". O grito era meu por mim, não dela. A verdade é que recusei terminantemente apaixonar-me enquanto ela não "pudesse"; agora recrimino-me: "se te tivesses apaixonado hoje poderia".

Mentira, claro. Mas a história teria sido mais bonita. Isto é: ainda mais dolorosa.

Diário de Bordos - Puerto de Andratx, Mallorca, Baleares, Espanha, 23-05-2018

O refit de uma embarcação é um refit de nós próprios, cada um deles. Refazemos um objecto de sonho e refazemo-nos, refazemos os nossos sonhos todos os dias.

.......
Escrevo de novo num bloco Clairefontaine. "Tem dos outros, dos que não têm listagem para telefones?" "Não. Ninguém os compra. São muito caros". Agradeço em silêncio a explicação e compro o que tem as divisões  alfabéticas. "São caros porque são bons". "Sim, mas as pessoas não querem pagar..." Perco o resto no espaço sideral da desatenção. Ou do desinteresse, ainda maior.

Penso nas canetas de tinta permanente sem as quais um Clairefontaine e só meio, na merda daquela estúpida queda, quanto tempo falta para que os carris voltem a ser paralelos.

........
O café Can Miquel é o meu favorito em Andratx, depois do Cafeína. Ou antes.

(Na verdade esta afirmação tem pouco ou nenhum valor operacional: para além destes dois só conheço o Gastrobar no qual um dia me extraviei e não entra sequer na lista, por notória inadequação.)

........
Esperar por fornecedores é pior do que esperar por uma senhora séria. A esta pelo menos não pagamos.

Insónia?

É noite, sabes que é noite mas tens de entrar nela, tens de a atravessar, se lhe deres simplesmente a volta ela nunca se irá embora.

22.5.18

Marqueses

Por muito respeito que tenha pelos monárquicos - e tenho - não consigo deixar de ver naquela preocupação com as ascendências e descendências um certo patetismo.

Parece tudo a brincar, como miúdos a fingir que criam cavalos ou cachorros. "O meu quadrisavô era primo-irmāo do cocheiro do Conde de Serpa, do qual herdou o nome e a prima"; "a minha bisavó era a amante favorita do Rei Eduardo Nono, que lhe fez quatorze filhos antes de conseguirem uma menina, que era o que ele queria (para casar com o filho, como veio a acontecer)"

Além de que ignoram a entropia, princípio básico da física. Não é por acaso que se descende e não se ascende: os genes não melhoram com o tempo. Pioram.

Basta contar as pessoas no nosso país que descendem (sublinhado) de familias ricas, aristocratas, chiques: um bando de tesos na pior das hipóteses, marinheiros ou vadios na melhor.

Pior do que tesos: marqueses.

21.5.18

Janela vs. vontade

A vontade de te amar é mais forte do que o que vejo da janela.

Não é a janela que vou fechar.

Amor e Espírito Santo

"Would you rather love the more and suffer the more; or love the less and suffer the less?"

O livro que comprei hoje começa assim. Depois continua, diz que a questão não é verdadeira porque não se consegue controlar o amor. Estes são os dois primeiros parágrafos. Chama-se The Only Story e é de Julian Barnes.

É claro que se consegue controlar o amor: é um acto da vontade. Não uma pomba que nos cai na cabeça, feita Espírito Santo.

Não gosto de coisas involuntárias. Cheiram-me a erros. Têm o mesmo gosto do que eles, a mesma textura.

Projectos

Um dia voltarei a Oakland só para beber Mai Tai. Há projectos de vida piores, não há?

(Espera, foi Oakland? Verifica.)
(Foi. Trader Vic's.)

Definição - cidade

Provavelmente, definição de cidade é: um sitio onde um gajo pode comprar livros e beber hierbas secas.

20.5.18

A flecha do dia

As coisas são como são e não como as queremos, é facto irrefutável. Mas podemos - devemos - imaginá-las diferentes do que são, sem acreditar no que imaginámos. Exercício de equilibrismo, eu sei. Como tudo na vida: equilibristas na corda bamba, sem balancier.

Gosto de imaginar as coisas - todas as coisas, indiferenciadamente, objectos, actos, tempo, tudo - como se fossem aquelas flechas dos desenhos animados que procuram o alvo, hesitam, voltam para trás, sobem e descem até que finalmente chegam onde as queria o senhor (normalmente é um homem) que as atirou.

Hoje o meu dia, por exemplo foi uma flecha dessas atirada em direcção a um alvo que dizia "Ordem e descanso".

Ordem porque ultimamente me sentia como um polvo a perder a coordenação dos tentáculos. Descanso por razões mais ou menos óbvias.

Felizmente a flecha não perdeu muito tempo à procura do alvo. Antes assim. Posso readormecer em paz.

19.5.18

À espera do churrasco

À partida os planos eram simples: voltar para casa, tomar um duche, engrossar-me rapidamente e ir para a cama. Tudo correu mal desde o princípio: cheguei como previsto a Paguera, fui ao "escritório" beber uma cerveja (até aqui tudo bem) e ao supermercado Casa Pepe, cujo dono - Pepe, por coincidência, mas não o "meu" Pepe - é um chato mas tem uma carne esplêndida, salva seja, claro, a decência. A minha obrigação era comprar carne e vinho, mas um homem que tem carne tão boa tem de certeza um bom pâté au poivre e um bom queijo de Menorca. Em casa havia pão, manteiga e um fouet por acabar, bem como uma garrafa de vinho tinto meia aberta (falta uma vírgula).

Adivinhem o que aconteceu?


Assim é impossível um gajo engrossar-se, seja depressa seja devagar.

Colina, in contradictio

Nada de colossal nisto, ouve. Não passa de uma pequena colina que se trata de subir. Nunca desce, só sobe.

Enfim, sim, desce. Às vezes. Poucas. No fim vais ver que acabas mais alto do que quando começaste. Andaste às voltas e não te apercebeste de que subias. Era pouco, também, verdade seja dita.

Tens aproximadamente oitenta anos para a subir. Descer é instantâneo.

18.5.18

Um longo e interminável gin tonic

A ideia apelativa de que é possível separar as coisas umas das outras é irreal. O gin tonic que agora bebes no bar Stop em Paguera está relacionado com o que um dia bebeste não sabes onde nem quando, com a miúda por quem estás pronto a apaixonar-te, se ela quiser, com um livro da Marguerite Duras cujo título falava de Gibraltar, com os teus devaneios em Veneza há quarenta anos. Tudo o que hoje acontece está no fim de uma longa linha que foste paciente mas ignorantemente tecendo ao longo dos anos. A vida é um sono interrompido por meia dúzia de sonhos, mas é sempre o mesmo sono. E se fores a ver bem se calhar até o mesmo sonho.

Mudam os bares e os olhares, as mãos e os ventres, as palavras de uns e outros; mas hoje estás aqui como ontem estavas em Bastimento no Palmar Tent Lodge, no fim de um dia de trabalho a beber um rum punch; ou no Lagoonies a beber outro rum punch que era o mesmo, um prolongamento; já amaste a mulher que hoje amas, a caipirinha que bebias em S. Luis no Bar do Porto ainda não acabou.

Nada nunca acaba. O calor de ontem é o de amanhã, como a sorte, o azar, a dúvida.

Uma longa e interminável dúvida, sempre a mesma. Uma longa e interminável busca. Até os erros são os mesmos, vestidos de cores diferentes: aprendes a mudar-lhes a cor, é tudo.

Sonha; vive; engana-te; aprende; esquece; reaprende; cai; levanta-te; falha; acerta: tudo isso está nesse gin tonic que agora bebes num obscuro bar "familiar" de Paguera.

(Para a L., com um beijo).

17.5.18

Diário de Bordos - Paguera, Mallorca, Baleares, Espanha, 17-05-2918

A senhora tem mais de sessenta anos, deve andar perto dos setenta, ponham ou tirem cinco. Está visivelmente grossa, mas composta.

Diz-me "primeiro os maiorquinos, depois os estrangeiros". Respondo "primeiro as senhoras, sejam de onde forem", mas ela não regista. É a amiga que lho mete na cabeça e acrescenta "o senhor é um cavalheiro".

Ao meu lado está alemão apalhaçado. Fala sem parar e ouve-se falar, sem se aperceber de que é um chato sem piada, ao contrário do que pensa.

A lista de personagens é curta mas o almoço excelente (uma sandes de presunto e dois chocos comprados no stand ao lado. Um gajo traz as compras para este e eles cozinham).

Tudo começou porque estava perto do mercado de Sta. Catalina e quis beber um vermute da U., que de dia trabalha aqui e à noite tem a Sifoneria. Apareceu um senhor - cliente dela - com um prato de presunto para provarmos. Acabei por ficar-me a ver e a ouvir. Retribuí o presunto ao senhor com uma cerveja e pensei em quantos Charlies (é o nome do alemão, há destinos que nos são fixados à nascença) já vi por esse mundo fora. E no que é bom encontrar um desconhecido que nos oferece um bocado de presunto e aceita uma cerveja. A nossa troca limitou-se a isto, mas é preciso tão pouco, não é? Um gesto chega, um braço estendido para oferecer, outro para aceitar, um sorriso, um momento que se partilha, um prazer oferecido, toma, prova, é bom.

A U. não vende comida, a cena passa-se num stand lá perto, estou sentado num canto do balcão como se estivesse num canto do cinema.

........
Isto foi há alguns dias; entretanto muita água passou por baixo das pontes, clara, fresca, há que fazer no P. mas aquilo avança com a habitual mistura de boas e más surpresas, de tanto se repetirem já nem surpresas são, é só uma alegria embrulhada em papéis diferentes.

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Descobri um restaurante italiano perto do hotel (ou de casa?) e hoje fui lá comer uma pasta al nero di sepia que estava má. Quando se comeu aquilo feito por um cozinheiro atrasado mental que só sabia fazer seis pratos mas os fazia tocado pela graça (a única no meio da desgraca toda) é difícil. Menti ao homem, disse-lhe que estava muito bom. É o que dá pedir pratos que não estão na lista, teve de ir comprar a tinta mai-los chocos e depois vai de caminho inunda aquilo de tomate (ele não, a cozinheira, magra de tal forma que um canibal pensaria estar a comer peixe se lhe pusesse o dente), mas bom.

O pior foi ter comido de mais. Assim não emagreço, que maçada.

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Entretanto já o ano vai a meio, que é como quem diz acabou.

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Diálogo sucinto mas agradável com uma "amiga" (entre aspas porque) do Facebook. Fez-me ir à procura de um post que com um bocadinho de sorte merece algum trabalho.

Este ano o DV vai fazer quinze anos! Está lá tudo (quase).

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Quem envelhece é o blog, não eu. Deviar ser ao contrário. Mas como, se os dias são todos novos?

15.5.18

Diário de Bordos - Peguera, Mallorca, Baleares, Espanha, 15-05-2018

Começo a escrever sobre o dia enquanto oiço a Hildegarde e pergunto-me "mas que raio de interesse tem o teu dia?" "Nenhum, claro". O mesmo se passa com o rum: ontem comprei uma garrafa de Lamb's, de que não sou particularmente fã e hoje confirmo a) que tenho razão em não ser fã e b) e depois?

E depois? E depois? O que fica? As linhas do P. ficam, de certeza. Um ou dois ventres que amei para além do razoável também. Uma ou duas vidas que vivi sem querer mas depois quis. Borges, Yourcenar, Cem Anos de Solidão e outros de Gabo, Beckett todo, The Sea, The Sea de Iris Murdoch. A música da Hildegarde, a de Cohen.

E depois? Quem se interessa? A quem interessa aquilo de que gostas? Levamos nada daqui, excepto talvez uma memória ou duas, um seio numa mão um copo na outra, uma vaga à noite, uma Lua cheia de vez em quando, uns cabelos insubmissos por aqui um olhar rebelde por ali, os alísios pela popa quase a chegar, um dia de sonho no Mediterrâneo.

Hildegarde explica isso tudo muito bem.

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O casco do P. está bem. É mais ou menos como se alguém me dissesse que tenho cancro e afinal nâo tenho (aconteceu, a comparação não é um efeito de linguagem).

Tem várias maleitas, mas o casco e a estrutura estão bem. Algém imagina o que é ouvir isso em primeira mão de um surveyor?

(O qual mais terde acrescentou "a tua armadora tem sorte em ter-te como skipper" mas disso não falo, não vá ainda começar a acreditar e já é tarde para acreditar nessas coisas, nem ditas por uma miúda gira, quanto mais por um surveyor).

Mas lá que faz bem faz e vai daí vim para casa tratar dos cabos, é coisa que repõe o ego onde ele deve estar.

.........
Ouvir Hildegarde von Bingen é como estar deitado numa cama feita de coisas sem matéria. Não sei bem o que é uma coisa sem matéria, mas basta ouvir a música da senhora para perceber. E ainda há quem pense que a Igreja Católica foi uma catástrofe. Para além da Inquisição - quem nem sequer foi assim tão má como dizem - dos pastores de Fátima e da confissão não lhe vejo nada de realmente trágico.

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Em Peguera tenho uma casa. Que sensação tão estranha.

Das coisas que falam

Há barcos assim, mas são poucos: as linhas falam. Contam histórias de velocidade, ângulos de bolina, plananços fabulosos. O P. é um desses barcos. E eu tenho a sorte de ser um dos homens que o ouve e fala com ele todos os dias.



Darwin e as famílias

Pôr repetida, sistematicamente fotografias dos filhos no Facebook é um mecanismo darwiniano e como tal deve ser respeitado.

Raros são os homens (a prática é maioritariamente feminina) que à vista de uma criança feliz, talentosa e bonita não têm vontade de fazer outra.

12.5.18

Pizarnik

Isto não é um diário. É uma obra. Um escritor escreve como eu navego. Eu escrevo como um escritor navega. 

Diário de Bordos - Paguera, Mallorca, Baleares, Espanha, 12-05-2018

"Se fizeres aquilo de que gostas nunca trabalharás". É mentira, jovens. Não acreditem. Fazer aquilo de que se gosta é trabalhar.

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Suponho que isto acontece a todos os que têm uma vida parecida com a minha: um dia chega em que um gajo se apercebe de que faz parte do sítio onde está. Quero dizer, não me interpretem mal: sei perfeitamente que ainda agora aqui cheguei e que não tarda me vou embora. Mas de repente é isto: cheguei. É uma chegada temporária, mas é uma chegada e até me ir embora é aqui que estou, é daqui que sou.

Não tem nada a ver com a mojo hand. É outra coisa. Como se um meteorito um dia andasse às voltas de um planeta e por lá ficasse até lhe reconhecer as montanhas e os vales, os rios e os oceanos. Ou pelo menos percebesse onde estão. Ou um nómada que chega a um oásis desconhecido e começa a conhecê-lo e um dia sabe que na verdade sempre esteve ali porque aprendeu a ver o que todos os oásis têm de semelhante e de diferente.

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"There's a shoulder / where death comes to cry", canta Leonard Cohen no you coiso. Penso outra coisa: "Há um ombro onde a vida se vem encostar para descansar" e esse ombro é o meu.

Acolho-a, saciado e ela agradece-me: "fazer o que se gosta não é trabalhar".

É pior. É uma prisão sem barras nas janelas nem guardas armados no pátio. Uma das formas do amor. Uma das formas da plenitude.

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Há pessoas que não gostam da indústria farmacêutica. Eu gosto. A guerra entre a diabetes e a vida está ganha pela vida graças a um comprimido que tomo duas vezes por dia. Não foi fácil decidir-me - as boas decisões nunca são fáceis nem evidentes - mas a indústria química (de que a farmácia é uma parte, tal como os fabricantes de vinho e outras bebidas) tem aqui um admirador reconhecido.

.........
Comprei o Diário de Alejandra Pizarnik na Babel à tarde e agora acabei a garrafa de Kuei Hua Chen Chiew, um produto da indústria química chinesa. Não há relação nenhuma entre os dois factos, de resto separados por um grande lapso de tempo.

A única coisa que os une é a sequência cronológica agora: o Arvo Pärt que me perdoe, mas vou deixá-lo pela Pizarnik. Os pedaços que li no autocarro mais do que justificam a troca, por difícil que seja (e é). O ideal seria poder ouvir o Part e ler a Pizanik ao mesmo tempo, mas ainda não é hoje.

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Poderia talvez imaginar-se uma fisga gigante, com a capacidade de atirar pedras para lá da força gravitacional da Terra. Põe-se uma pedra nessa fisga e ela parte não se sabe bem para onde (de propósito, a fisga não foi apontada para lado nenhum em especial).


Essa pedra acabará por aterrar num sítio qualquer do Universo, não é? Que tenha sido ela a escolhê-lo ou não é irrelevante.

A música de Arvo Pärt (juntamente com a de Hildegarde von Bingen, Rachmaninov, Mahler e mais dois ou três) descreve ou pelo menos acompanha a viagem da pedra.

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O amor é o único poço no qual se cai tanto por vontade como por gravidade. Tem uma vantagem: é uma queda boa. E uma desvantagem: o poço não tem fundo.

Um dia

Um dia navegar-te-ei a noite toda.

11.5.18

Fauna

Alemães com cortes de cabelo ridículos, cães patéticos, piercings idiotas e tatuagens feias.

Salva-se a luz, o calor e a ideia de que Palma não está longe.

Diário de Bordos - Paguera, Mallorca, Baleares, Espanha, 11-05-2018

Não é todos os dias que um pobre e solitário skipper longe de casa recebe um elogio de um surveyor. Há duas raridades nisto: o surveyor não pensar que o skipper é um idiota cuja única actividade no mundo é beber Mojitos (sem açúcar) com abundantes loiras enquanto o bote se desfaz por baixo dele (e da loira); outra é dizê-lo, não vá o homem acreditar.

Compreender-se-á portanto a minha emoção quando hoje o surveyor me diz "you're doing a good job here" (no original para não pensarem que me enganei na tradução).

Não fosse a merda da dor no cotovelo - obviamente ligada ao "good job" (aspas porque cito) - e estaria nas nuvens. Assim não estou: estou a caminho da farmácia.

........
O Verão chegou, finalmente.  Espero que não se vá embora depressa. Dois três anos, pelo menos.

........
Foi-me difícil abotoar a camisa para me vir embora do escritório. Paciência. Porém agora custa-me levantar o gin tónico.

Para se ver que a vida de um skipper não consiste só em beber Mojitos.

........
O mesmo surveyor que teve aquelas palavras simpáticas a meu respeito (desculpem a insistência. Ainda não acredito) fez um desconto no preço porque é para o P.

Há dias assim: nem um cotovelo idiota chega para os deitar abaixo.

10.5.18

Diário de Bordos - Paguera, Mallorca, Baleares, Espanha, 10-05-2018

O bar Stop é o único sítio da "rua principal" (aspas porque traduzo) que não é para turistas, diz-me I. Suponho que seja verdade porque é o único que está vazio. Quando cheguei - vindo de uma coisa infecta onde comi uma salsicha alemã e batatas fritas que me fizeram pensar nos Estados Unidos - o patrão estava a jogar às cartas. Considerou inútil interromper o jogo para me servir. Acabou de distribuir as cartas, deixou o copo de vinho que lhe pedi (e é abominável) no balcão e voltou para a mesa de jogo.

O homem faz vagamente lembrar o patrão do Stop do Bairro, sito em Campo de Ourique, no qual me aconteceu uma coisa gira: a primeira vez que lá fui uma imperdível necessidade de escrever acometeu-me sem eu querer, de modo passei o jantar todo a escrevinhar num dos blocos-notas que usava antes de me habituar a fazê-lo no telefone. Escrevi durante todo o jantar e o homem convenceu-se de que eu estava a tomar notas para um artigo sobre o restaurante, de modo tratou-me como se eu fosse uma mistura de Jose Quitério, Virgem Maria, Francisco Balsemão e Miguel Esteves Cardoso. Aquilo foram mimos sem fim - ainda recordo com emoção a garrafa de vinho que ele trouxe para eu acompanhar a refeição -.

Quando chegou a conta fiquei siderado: era muito menos do que eu esperava. Uma ninharia. Um achado.

Um mês depois voltei lá, sem caderninho. O homem não me reconheceu. Pedi o mesmo vinho mas um alarme tocou e perguntei-lhe o preço. Custava três vezes o que eu pagara pelo anterior jantar todo.

Agora escrevo no telefone e já ninguém pensa que estou a tomar notas.

........
O dono do bar Stop fala alemão. Um casal daquelas bandas sentou-se na mesa ao lado. São visivelmente conhecidos.

Mais um mito que desaba.

.......
A senhora alemã à minha frente tira fotografias ao marido com o telefone. Umas a seguir as outras, como se tivesse medo de que ele se desvaneça de um momento para o outro e se transfome no homem invisível.

Uma delas deve ter ficado bem: o senhor ri-se e bate palmas. Depois volta à sua condição de homem inaudível.

........
O licor de hierbas secas é uma merda. Só deve vir a este bar quem gosta de bares vazios (e de homens no princípio da terceira idade que podem desaparecer a qualquer momento).

........
Sábado vou a Palma comprar outro computador. Espero que seja o último sal que a ferida recebe. Ainda dói horrivelmente.

........
A única livraria de Paguera é alemã e só tem livros em alemão.

.........
Adenda: quando fui pagar a conta no Stop tive de pedir ao senhor que repetisse. Duas vezes. Ele deve estar habituado: explicou-me quase como se pedisse desculpa que aquilo "é um bar familiar" e que ele "não é como os outros que só pensam em dinheiro".

Acho sinceramente que me vou juntar à família.

(Assim é facil de perceber porque estava vazio: ninguém vai de férias para desperdiçar oportunidades de mostrar o dinheiro que tem.)

9.5.18

Diário de Bordos - Paguera, Mallorca, Baleares, Espanha, 09-05-2018

Paguera - que, registe-se, é incomensuravelmente preferível a Puerto de Andratx - consiste (para mim e até agora) numa longa rua que num país anglófono se chamaria Main Street e numa praia que não se vê dessa rua. Sei que há mais Paguera por ouvir dizer e porque hoje vim por uma rua paralela à "rua principal". As lojas estavam fechadas - não por causa da hora, mas por manifesta falta de negócio - e tudo aquilo exalava tristeza. Uma rua ao lado era o oposto, excepto na tristeza: montes de gente, movimento, lojas a abarrotar de clientes e de produtos.

Mentiria se dissesse que nunca fui turista. Fui muitas vezes e gostei quase outras tantas. A viagem de Parnaíba para a Guiana Francesa, por exemplo. Espero um dia poder voltar aos Açores com muito dinheiro, muito tempo e nada para fazer excepto ver, ler e usufruir da hospitalidade e simpatia das pessoas; gostava ir à China vindo de Moscovo.

Mas mentiria igualmente se dissesse que percebo o que vêm as pessoas fazer a lugares como este. Faz pensar em Gibraltar sem o charme e as memórias. É só alemães - alguns restaurantes já não se dão sequer ao trabalho de escrever os menus noutras línguas -; é tudo rasca, igual ao mililitro (incluindo as lojas de marcas, que as há).

O problema é que não acredito que os sítios de onde esta gente gorda, feia e taciturna vem sejam piores do que isto.

Mudar? Sim, claro. Mas para Peguera (ou Puerto de Andratx ou Santa Ponsa)?

 ¡No jodas!

........
O mastro e a retranca saíram finalmente do convés do P. Estou exausto e feliz, por esta ordem. Amanhã damos o primeiro passo para a quilha e para os machos de fundo e o último para os molinetes. Não tenho muita experiência doutras profissões, mas organizar um refit deve ser das que mais se aproximam da medicina (salvas as devidas proporções, claro está).

Com a vantagem de que depois se pode navegar no paciente.

........
E Palma aqui tão perto... O cansaço implica com as distâncias.

Tretas

Hoje vinha na rua a escrever um post e ocorreu-me que houve tempos em que lia na rua. Agora escrevo.

E ainda há quem pense que a tecnologia é progredir, evoluir ou tretas equivalentes.

Ou envelhecer.

8.5.18

Flagrante delito

Um dia serei apanhado em flagrante delito de amor. Já fui apanhado em amor, em delito e em flagrante, mas nunca nos três ao mesmo tempo, como este provavelmente senegalês que agora entrou pelo restaurante a vender aquelas bugigangas que eles vendem, coitados. Aquilo é uma prisão infernal e desde que fiquei a saber isto não o posso esquecer. Vem-me à memória essoutra escravatura, tão mais bonita. Não é?

O homem tem um ar simpático, sorridente - a tristeza não vende - e nada ridículo apesar da merda cor-de-rosa que leva na cabeça.

Eu não tenho nada dessa cor em mim, Deus me livre, excepto talvez a vontade mas essa não se vê. Pelo menos de fora.

Sinto-me um bocadinho como esse senegalês, sem as coisas na cabeça. Estão noutro lado qualquer.

Concatenaçōes

Tal como a velocidade de um comboio é a do seu navio mais lento; ou a resistência de uma corrente a do seu elo mais fraco, a credibilidade da expressão "amor louco" é a de "louco".

7.5.18

Diário de Bordos - Puerto de Andratx, Mallorca, Baleares, Espanha, 06-05-2018

O tempo arrasta-se como um caracol e deixa uma baba igualmente pegajosa.

Enquanto não vir o P. em terra, o mastro arreado e os brandais no rigger, os pernos da quilha desapertados, os machos de fundo e os passa-cascos fora e o motor a caminho não acredito no relógio.

.........
O meu computador nadador não tem remédio. Boa ilustração da diferença entre notícia e novidade.

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Fui a Andratx na minha bicicleta Órbita. Vinte minutos, indo devagarinho. Não sei porquê mas tenho a impressão de que foi a melhor compra que fiz nestes últimos malfadados tempos.

........
Se não fosse o Acal Puerto de Andratx seria uma versão europeia do bagne

Meu hífen de ti

És o hífen que me liga à vida.

6.5.18

Quinta carta a Pandora

Minha querida Pandora,

Sabes como gosto da melancolia. Ou melhor, daquela mistura tão frequente em mim de felicidade e melancolia, alegria melancólica, uma forma de matizar os sentimentos, de os complementar.

Já a tristeza detesto. Um peso invade-me sem razão visível e ofusca a beleza do dia que começa ou acaba, faz-me ver quanto me custa a tua ausência, perguntar o sentido que tem tu tão longe e eu aqui sozinho, como pedra sem caminho.

Não é por tua causa que estou triste, mas a tristeza faz-me pensar em ti. Se aqui estivesses estaria triste na mesma. Refugiar-me-ia num buraco qualquer dentro de mim, sustentaria o teu olhar crítico e esperaríamos ambos que a coisa passasse, cada um de nós agarrado ao seu livro, forma de nos deixarmos em paz que sempre preferimos aos telefones.

A melancolia enriquece, a tristeza empobrece, torna tudo igual, sem cores nem formas, sem volumes nem texturas. Fica tudo igualmente feio.

Não é assim. Digo isto e penso nessa cabeleira ruiva, capaz de incendiar um bloco de mármore: reduziria esta tristeza a um monte de cinzas que vento e luz se encarregariam alegremente de espalhar pela baía; e esta receberia de promontórios abertos como braços.

Teu Prometeu, sem fogo.

Ingredientes para uma manhã de domingo obnóxia e respectivos diluentes

Muitas pequenas contrariedades irrelevantes e uma grande alegria - os Mojitos do Acal curam mesmo as dores de cotovelo, apesar de serem grandes e pesados -; hesitações existenciais sobre onde almoçar, é um problema recorrente há décadas; confirmação do que pensava a respeito da água nos fundos do P. - uma hora de trabalho logo ao saltar do beliche, já não posso ver aqueles fundos nem que se lá ponham fotografias da Marilyn Monroe -; um diálogo internetiano com uma miúda gira mas longínqua; dúvidas existenciais menos imediatas do que as acima citadas.

Uma flûte de Cava. Ouvi dizer que é um óptimo diluente para manhãs de domingo funestas (apesar de tecnicamente já não ser de manhã ainda é).

........
Pequena nota sobre as qualidades analgésicas dos Mojitos do Acal: quem pensar que foi devido ao repouso nocturno que o cotovelo amanheceu livre de dores não percebe nada da vida e respectivos mecanismos.

........
As Selecções do Reader's Digest tinham uma secção chamada "O riso é o melhor remédio". Esqueceram-se do rum: "O rum e o riso são os melhores remédios" é mais exacto, mais completo e próximo da verdade.

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Pizza no Coppola. 

Qualidades e analgésicos

À longa lista, quase interminável, de qualidades do café-bar-restaurante-escritório Acal devo agora acrescentar a dos seus Mojitos. A dor de cabeça está a passar.

Não chegam aos do saudoso Red Frog no Casco Antiguo da Cidade do Panamá - nunca nenhum chegará - , mas são bastante bons.

5.5.18

Diário de Bordos - Puerto de Andratx, Mallorca, Baleares, Espanha, 05-05-2018

Deve ser a Primavera: o computador alugado actualiza-se pela quinquagésima terceira vez; o telefone precedeu-o algumas duzentas. Na Primavera actualize-se e goze o seu Verão em paz.

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Quem merece paz sou eu. A porcaria do Cotovelo de Tenista reapareceu furiosamente. Tem estado a ameaçar e hoje irrompeu pelo court como um touro louco pela arena. Bolas, não jogo ténis há cinquenta anos, salvo duas ou três esporádicas e irrelevantes excepções. É como se um castrado apanhasse uma gonorreia.

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Hoje enviei para Lisboa a mochila que caiu à água comigo. O polaco que me ajudou a sair puxou por ela com tanta força que rebentou uma alça. Está a transformar-se numa tradição: com a anterior desmaiei na bicicleta e cai, dois ou três dias depois de a ter comprado. Ficou com dois buracos pequeninos.

Esta vai ficar com sal até ao fim dos dias. Pena porque é bastante boa. É feita por uma portuguesa, anti-roubo e anti-fogo e anti-tudo. Sugeri à senhora que as fizesse anti-mergulhos involuntários.

Mar não faz parte de tudo. É um planeta diferente.

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A dor de cabeça é tremenda. Combato-a com Mojitos sem açúcar. Tenho a impressão de que não faço nada senão limpar fundos. Terça encalho. A impressão desaparecerá, mas é provável que dor de cabeça se intensifique.

Veremos então se os Mojitos são um bom analgésico.

Quarta carta a Pandora

Incendiaste-me outra vez a noite, mulher, com essa cabeleira ruiva tão longa e tão densa, tão longe e tão quente.

Via-te ao meu lado deitada, de costas, mãos cruzadas no ventre, cabeleira espalhada pela almofada - não as fazem suficientemente grandes para ta acolher inteira - pernas juntas, nua, quente como o rescaldo do incêndio.

Não ateies fogos que não possas apagar, pedi-te um dia; e tu em vez de os apagar todas as noites ateias um novo, diferente do de ontem e cada vez mais vasto, mais quente e profundo, dois corpos que se conhecem e se fazem de novo a cada noite e agora dormes, tão longe em mim, tão fundo, como se não fosse nada contigo.

Não ateies fogos que não podes apagar; não apagues fogos que ainda não arderam até ao fim.

P.

4.5.18

Diário de Bordos - Andratx, Mallorca, Baleares, Espanha, 04-05-2018

Passei o dia em diferentes escritórios de Puerto de Andratx: primeiro o Es Porteño - onde de resto se come bastante bem, aconselho-o vivamente -; depois no Sailor, fantástico para quem gosta de televisão. (O Acal tinha e tem o wifi avariado).

Puerto de Andratx tem o condão de me sair pelas orelhas mal passo muito tempo fora do P., de modo resolvi vir espairecer a Andratx. Na esperança, claro, de que o Gastrobar não fosse o único sítio aberto.

Não é e Cubano estava cheio, felizmente. Já a Cafeteria Bar Cafeína está aberta, faz bons cocktails e tem uma empregada que consegue o prodígio de ser espectacularmente bonita e ainda mais simpática. Ou ao contrário, não sei, ainda não aterrei completamente. Junte-se a isto uma música neutra, não-agressiva, um ambiente calmo e propício à reflexão e compreender-se-á porque não é de certeza a última vez que aqui venho.

........
Graças à J. conheci um escritor catalão chamado Josep Pla. Menciono isto por duas razões: a) agradecer pública e veementemente à J. a sugestão; b) sugerir ainda mais veementemente a todos que acorram à primeira livraria que encontrarem, à Amazon, ao que for. A Viagem de Autocarro, que comecei e não acabei já me tinha dado um cheiro da maravilha. Hoje comecei as Cartas de Itália e estou subjugado. Se um dia escrever um livro sobre as minhas mudanças de casa já tenho o tom: uma mistura de amor e ironia. Infelizmente não tenho o talento do homem, mas muito trabalho substitui o talento e nunca ninguém me viu fugir do trabalho, excepto talvez dois ou três patrões, entre os quais o da TPH (Toujours Plus Haut) empresa que se dedicava à nobre missão de montar andaimes em Genebra e arredores.

Tentei também trabalhar numa empresa de mudanças, em La Chaux-de-Fonds, mas dessa fugi no primeiro dia. Enfim, no primeiro minuto: o homem veio buscar-me ao ponto de encontro e disse-me "Está dois minutos atrasado" (não estava, mas isso é irrelevante). Respondi-lhe: "Então lamento muito, mas não vou trabalhar. Não nos vamos entender. Au revoir". E voltei para casa, para o aconchego da Ch., apesar dos protestos do senhor.

A Ch. era rechonchuda (sem ser gorda), tinha cabelos encaracolados e sardas, olhos verdes e um corpo acolhedor como nunca mais encontrei. Um homem que me diz que estou dois minutos atrasado não é concorrência para tanta felicidade e não devia tentar.

Fora estes e talvez mais um ou outro não fujo ao trabalho.

........
Acabado o período de auto-motivação: tecer loas ao talento, à competência e à simpatia da barmaid do Cafeína; reafirmar a minha esperança em ver um dia o P. refeito, a brilhar por dentro e por fora pendurado numa grua (e com uma cana de leme em vez daquela atroz roda, ora pro nobis); perguntar-me se um dia chegarei verdadeiramente a Lisboa; e pouco mais.

........
O problema sendo que são dez e meia da noite, estou cheio de sono e cansado - o trabalho intelectual também cansa, consome bastante açúcar (parece) - isto a quem tem um intelecto; imagine-se o que não custará a mim - e não me apetece sair daqui e meter-me num táxi e ir buscar a burra que deixei no porto. Ainda agora cheguei. Havia um filme chamado The Goodbye Girl, não era?

........
E é isto: sono, cansaço, trabalho, uma barmaid bonita e um filme de que só recordo o título. Não sei se chega para fazer uma noite, mas de que é o fim de um dia não há dúvida.

Diário de Bordos - Puerto de Andratx, Mallorca, Baleares, Espanha, 04-05-2018

Um gajo decide consagrar o dia a trabalho de escritório, que isto de refits não consiste só em acartar material e limpar fundos. O escritório habitual não tem a net funcional, o seguinte é óptimo mas o patrão maluco; acaba numa coisa chamada Sailor que tem pelo menos cinco televisões ligadas com o som altíssimo. Peço para porem mais baixo (ao fim de uma hora e meia) e o homem responde-me que "isto é um bar, não é um café ou um escritório". Digo-lhe que sim e acrescento em silêncio "E se fosses para a puta que te pariu mai-lo escritório?" O bar está vazio. Para além de mim há duas alemãs que ou não se vêem há muito tempo ou qualquer coisa no género e não param de falar. Ninguém vê televisão, excepto - claro! Como não pensei nisso? - o barman.

Se me apanho longe de Puerto de Andratx não acredito. Até Paguera será melhor.

........
 Ultimamente sonho enquanto durmo como raramente: não páram. A minha cabeça está transformada numa pequena Holywood, produtora de filmes da corrente Realismo Fantástico Super-Pormenorizado. Uma espécie de Spielberg e Lynch revistos por Virginia Woolf e Duras. Os sonhos descem a pormenores absolutamente inacreditáveis, têm aventura e substância.

Não admira que comece finalmente a gostar tanto de dormir.

........
Praticamente vazio, sem o motor e sem o chumbo o P. baila ligeiro na água. Coisa mais linda!

A ver se lhe arranjamos um futuro digno.

........
Chove e está frio de novo. Esta Primavera hesita.

Decide-te, porra. Uma má decisão vale mais do que qualquer indecisão.

3.5.18

Alternativas

Não é assim que vou emagrecer, começo por pensar. Demasiada comida ao almoço, idem ao jantar. Quanto ao trabalho físico só de manhã foi demasiado; à tarde aguentou-se.

Continuo a pensar nas diferentes alternativas:
- Gordo e doente;
- Magro e saudável;
- Gordo e bem disposto;
- Saudável e infeliz;
- Gordo e chateado por ser gordo;
- Magro e orgulhoso.

Detesto o orgulho. Só traz chatices.

2.5.18

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 02-05-2018

Começando pelo princípio: mais vale não começar por aí.

Comecemos antes pelo que me inquieta verdadeiramente. Passei a tarde a andar de bicicleta de um lado para o outro em Palma e não ouvi uma única buzinadela, insulto, grito que fosse. Nada. Zero, Nix oberlix. Que se esconderá por trás deste silêncio?

........
Comprei uma bicicleta Órbita. Foi uma compra inoportuna, para dizer o mínimo. Porém: tinha prometido ao homem, por um lado; por outro, a burra é irresistível.

Fiquemos por aqui. Pedalo todo direito e bem sentado, com espaço para a barriga e para a má consciência.

........
Tenho finalmente um telefone. É um Nokia. Não sei mexer com ele nem ele comigo e ainda lhe faltam metade dos números. Não sei como fazer quando um dia tiver de descrever como vivo. Penso que só para amadores de carrinhos de choque e montanhas russas, como eu. Os outros não perceberiam, nem que eu fosse Stendhal.

Ou Pla. Hoje comprei dois livros dele: um diário de juventude e um relato de uma viagem a Itália. Ao folhear este último apercebi-me (já?, perguntarão alguns) de uma diferença fundamental: eu não viajo. Mudo de casa. Nunca conseguirei escrever um livro de viagens por essa razão simples e irrebatível.

........
Fui à Babel comprar os livros e beber um copo e olhava para casa onde vivi com T., há uns anos. E depois?, pensei. Não é o depois, estúpido. É o antes.

........
Acabo a trabalhar no café Rita, bem nomeado. O rapaz ainda se lembra de mim e fez uma referência ao copo entornado.

Gostaria uma vez de ser capaz de me deitar sem ter o trabalho do dia acabado. Não consigo. Infelizmente: esta incapacidade não me levou muito longe.

Tenho pelo menos a sorte de poder acabar o dia num dos melhores lugares de Palma, com música excelente, mesas bonitas de mármore, um nome que me faz sonhar e umas Hierbas Secas magníficas. Uma mina de carvão seria pior, sem dúvia. Para não mencionar um escritório, claro.

Lição nº 1, várias versões

1 - Quando o Universo conspira contra ti não respondas. Refugia-te num café, bebe um copo de vinho e vê passar as miúdas bonitas (para as feias não olhes, fazem parte da conspiração).

2 - A confrontação directa com todos os elementos do Universo é inútil, vã, fútil, condenada a perder. Mais vale bolinares num copo de vinho e lavar os olhos nas miúdas giras cujo fluxo é ininterrupto.

3 - O Universo é constituído por uma série de elementos que em condições normais se anulam entre si e o tornam um lugar neutro. Há dias em que esses elementos se alinham negativamente. Não são eles, és tu.

4 - Não há coligação negativa do Universo que resista àquela mistura mágica de relógio e persistência.

5 - O Universo que se foda.

1.5.18

Diário de Bordos - Puerto de Andratx, Mallorca, Baleares, Espanha, 01-05-2018

De repente tudo começa a correr bem, o que não me espanta muito: pior só enterrado. Esperemos que esta nova maré venha para ficar. Alguém acha estranho eu gostar tanto de montanhas russas?

........
De hoje a uma semana o P. encalha. Estamos em contagem decrescente: o objectivo é fazer a nado (sem jogos de palavra estúpidos, por favor) tudo o que se pode. Três semanas em seco não serão de mais para tudo o que há a fazer.

........
Dias de trabalho intenso, mas feliz. Puerto de Andratx deixou de ser um buraco porque se transformou numa linha quase recta entre o P., o café Acal e o supermercado Eroski (por ordem decrescente de tempo passado em cada um dos sítios).

Amanhã vou a Palma. Espero que Puerto de Andratx não volte à sua condição.

..........
Nunca gostei muito de feriados nem fins-de-semana. O do Trabalho é particularmente estúpido: a melhor maneira de celebrar o trabalho é trabalhando, não fazendo feriado (argumento de resto usado com sucesso pelo povo suíço para recusar que esse dia - isto é, hoje - fosse de folga. Não sei como está agora, mas lembro-me de pelo menos duas votações em que a proposta de ferialização (?) foi recusada.

Bem aventurado povo, que até para os feriados vota. Os políticos na Suíça são criadores de propostas, não são decisores. O mundo seria melhor se esse sistema fosse adaptado por mais países. 

28.4.18

Diário de Bordos - Puerto de Andratx, Mallorca, Baleares, Espanha, 28-04-2018 / II

O Limoncello do Café Central em Puerto de Andratx (daqui para a frente este nome será escrito em espanhol de lei e não num destes dialectos patéticos e patetas) é uma merda. A maioria das coisas em Puerto de Andratx são uma merda. Salvam-se a Casa Vera, ship chandler; o restaurante bar Acal; o kebab cujo nome não recordo agora e o supermercado Eroski - que por ironia da sorte é o melhor Eroski que vi até hoje, sendo como sou fã incondicional do Mercadona, cadeia de supermercados que de tão boa resista à troca de duas letras do nome e tudo -. (A esta lista deve acrescentar-se a pizzeria Coppola, cujo único defeito é estar sempre cheia; e o Pepe, que é um homem sério e competente).

Quando encalhar volto para Paguera (ditto), que consegue ser melhor e mais acolhedor do que este buraco.

........
Entretanto no bote as coisas avançam, devagar de mais para o meu gosto. Não posso fazer sozinho as duas principais tarefas que tinha para fazer; segunda-feira espero ter ajuda de I., um sul-africano que conheci no hotel de Paguera onde fiquei (trabalha lá mas prefere os barcos, vá lá saber-se porquê).

Gosto a priori de sul-africanos: os melhores marinheiros com quem trabalhei vêm de lá, muito perto (antes ou depois, não sei) dos holandeses. Com uma vantagem sobre estes: são dez vezes mais baratos e dez vezes mais simpáticos, apesar de falarem a mesma língua (pelo menos os boers).

........
Pouco a pouco as coisas voltam ao normal. Habituei-me à vida sem Facebook e sem telefone. Este mais difícil; mas mesmo assim fica provado que era possível viver antes da Internet e da telefonia portátil. Era uma vida mais triste, mas era vida.

.........
Aviso à navegação: o porto público de Puerto de Andratx é quatro vezes mais barato do que o Club de Vela e dez vezes pior. A única coisa que se poupa vindo para aqui é dinheiro; tudo o resto é mais caro.

........
Ajudei uns russos a atracar. Cada vez me é mais difícil fazer isto: bolas, se não sabem navegar contratem um skipper, não? Os problemas são sempre os mesmos: deixam o barco atravessar-se por falta de velocidade, demasiada excitação a bordo, o skipper que trata de tudo e mais alguma coisa (mal), falta de lugares atribuídos a cada tripulante.

(Reconheço que sou injusto: nem toda a gente aprendeu a manobrar com os holandeses da Ballast-Nedam...)

Diário de Bordos - Port d'Andratx, Mallorca, Baleares, Espanha, 28-04-2018

"O excesso de confiança mata o homem e engravida a mulher", diz-me Pepe quando lhe conto da ida ao molho. Teria preferido um outro verbo em vez de "Mata", seria um melhor pendant para o "engravidar" que se lhe segue.

O pior, como sempre, são os ses: se estivesse grosso provavelmente não teria acontecido porque teria tido mais cuidado - não é inteiramente verdade. Uma vez no Texas fui à água de bicicleta e tudo (felizmente era daquelas mais leves do que o ar e foi fácil tirá-la de lá); se o computador não fosse meu teria tido mais cuidado - genericamente verdade, sou mais cuidadoso com o que é meu. Mas bom, para não fugirmos muito: a bicicleta supra-citada não era minha -. Enfim, seja como for: um gajo cair à água porque está grosso é mais aceitável do que cair à água por asneira, excesso de confiança (também conhecido por arrogância), paixão pelo risco (isto é, má avaliação do dito) ou simples e mais provavelmente estupidez.

Já tenho metade do problema resolvido, pelo menos provisoriamente: aluguei um laptop que chega perfeitamente para o que dele necessito; falta-me o telefone. O chip funciona, já o experimentei.

Agora é esperar que a espessa camada de auto-confiança que me cobre saia com mais um furo ou dois, como buracos de bala num armadura da Idade Média. Já tem muitos, verdade seja dita; mas ao contrário do que penso não são de mais.

A verdade é que as minhas experiências de queda no "elemento líquido" são raras, todas salvo uma nos pontões e quase sempre - há excepções, esta é uma delas - provocadas por um excesso de outro elemento líquido. Uma vez na Horta não vi o fim de um finger e entrei na água a andar, o mais direito possível. Felizmente nessa altura não havia computadores portáteis. Também já caí porque a balaustrada estava fraca, mas aí não tinha o telefone - aprendi faz algum tempo a não trabalhar com os telefones no bolso. Foi uma aprendizagem rápida: bastou-me perder alguns vinte. (Mas aprendi: a prova é que este Samsung que foi ao charco estava comigo há três anos). Para não re-mencionar a gloriosa entrada na água com uma bicicleta de titânio e carbono em Galveston, Texas, provocada por uma súbita fuga do pontão para a esquerda, ou direita, já não sei. Não caí à água: entrei nela, como na Horta. Os pescadores - de que o pontão estava cheio - ajudaram-me a sair. O mais fascinante foi que no dia seguinte não houve uma única menção ao incidente. Nada. Ninguém mencionou seja o que for. Quando fui agradecer a um deles respondeu-me "Não me lembro de nada".

.........
Enfim, o importante é que a marca da bala cá fique. E que a próxima queda seja daqui a vinte anos, no mínimo, quando os computadores portáteis forem à prova de água, vinho e excesso de confiança.

27.4.18

Dois recordes

Ontem bati dois recordes: o da mais longa permanência de um telefone portátil comigo (três anos, mais coisa menos coisa) e o da mais curta permanência de um computador igualmente portátil: pouco menos de nove horas entre o momento em que o fui buscar à loja e aquele em que o dito computador, mai-los telefone e eu foi parar à água.

O mar e a arrogância (a que se poderia neste caso concreto igualmente chamar estupidez - haverá algum em que não se possa?) são imiscíveis. É possível que dentro de alguns decénios a vontade de me esquartejar em bocadinhos pequenos passe. Até lá: "enterrar os mortos e tratar dos vivos".

25.4.18

Diário de Bordos - Paguera, Mallorca, Baleares, Espanha, 25-04-2018

Encontro o P. melhor do que esperava. Amanhã mudo-me para bordo. Não se pode dizer que seja um hotel de cinco estrelas mas é como se fosse. Isto é: é melhor do que qualquer hotel, tenha as estrelas todas do céu se quiser. Está desarvorado, coitado, com o mastro a sair-lhe três metros pela proa e dois pela popa. Hoje tirei-lhe os vaus e comecei a tirar os brandais, andei pelos fundos - o motor já saiu -; tenho de ir a Palma buscar meia dúzia de coisas.

Há pessoas que não gostam de refits. Percebo-as perfeitamente: é como gostar de andar à beira do abismo num dia de muito vento sabendo que a pedra onde caminhamos pode esboroar-se por ali abaixo a qualquer momento. Se não for a pedra é o vento. Se não forem a pedra e o vento somos nós. Ou Deus, a existir. Ou o azar. Sei lá: o universo inteiro conjura para nos pôr lá em baixo. 

Um dia o refit acaba e é a vida: não é como queremos mas é o melhor que podemos e quando vamos a ver já é muito.

Quando o bote merece é ainda melhor, um paraíso. O P. merece.

........
Paguera - o sítio onde estou até amanhã, mais ou menos a meio caminho entre Palma e Port d'Andratx - é menos desinteressante do que Port d'Andratx e menos interessante do que Palma. Três em cada duas pessoas são alemãs. Infelizmente a escola de línguas Al Almofada só funciona para quem quiser aprender alemão da Idade Média. 

Uma longa rua com restaurantes, lojas de roupa e dois supermercados  (até agora). É compreensível que os alemães escolham isto como destino de férias: não precisam de articular uma única palavra de espanhol. 

Nutria uma certa simpatia pelos boches, antigamente. Agora cansam-me. Se ao menos fossem jovens... A medecina moderna é uma maravilha mas com a modernização perdeu de vista os critérios estéticos.

........
Janto na Casa Enrique, como ontem mas pior. 

Escolhi um prato em vez de tapas. Qualquer dia volto cá, para tirar dúvidas.

Isto dos restaurantes é como as mulheres em menos: não são precisos cem anos para saber se nos enganámos.

23.4.18

Auto-retrato (parece que chegou a altura de re-publicar isto)

Há coisas das quais me posso orgulhar: a liberdade, a independência, a incapacidade total, absoluta de emprenhar pelos ouvidos. Mais do que imune, sou alérgico ao zeitgeist. Sempre fui. A opinião dos outros nunca me interessou se não para aprender com eles o que não sei e ser capaz de fazer as minhas próprias opiniões. E o que pensam de mim é-me tão indiferente que chego a ter vergonha de tanta indiferença, nos dias piores - felizmente são poucos - .

Duvido a priori de tudo o que é consensual - não porque seja contra os consensos, mas porque acho que devem ser investigados e avaliados -.

Nunca me submeti à pressão de um grupo, fosse essa pressão de que natureza fosse. Não alinho em grupos, modas, clubes, partidos, sindicatos, escolas, facções ou seja o que for.

Respeito quem sabe mais do que eu quando me demonstra que sabe mais do que eu (ainda por cima saber mais do que eu não é difícil).

Não aceito argumentos ab auctoritate, não reconheço qualquer valor aos apelidos das pessoas, às suas origens sociais, ao dinheiro que têm ou não têm; - reconheço sim e unicamente ao que fazem. E quando há uma contradição entre o que dizem e o que fazem só me interessa o que fazem. Respeito as regras que devem ser respeitadas - por exemplo a cortesia e a ortografia, uma das suas variantes - faço o que posso para ser um homem decente, sou um bom pai (senão todos os dias pelo menos a julgar pelos resultados). Mas a minha adesão a essas regras é voluntária e não imposta.

Tenho uma aversão profunda, insondável e incurável a rebanhos, sejam eles do que ou de quem forem.

22.4.18

Incompreensivelmente

Não percebo nada de travestis e pouco de disfarces. Não serei portanto a pessoa certa para falar disto. A primeira vez na vida que vi travestis foi em New Orleans em 1977. Pareciam mulheres. O primeiro-maquinista e eu estávamos a fazer-nos ao bife (encorajados pelas ditas senhoras, de resto). Felizmente fomos avisados a tempo pela barmaid, que era minha amiga. Tão pouco percebo de disfarces. Detesto mascarar-me, bals costumés e quejandos.

Posto isto tudo não sei como hei-de qualificar o gajo que ficou à minha frente no jantar: um calmeirão de mais de dois metros vestido de mulher, com carteira e tudo. Mas só vestido. Barbeado, com manápulas que parecem pás de Caterpillar, mini-saia e meias de malha larga. Como aqueles gajos que se mascaram de mulher no Carnaval (coisa de que aliás nunca percebi muito bem o sentido: se são maricas ou travestis ou que for sejam-no o ano todo, como este simpatiquíssimo vizinho de mesa).

As opções sexuais de cada um indiferem-me profundamente (sem jogo de palavras), desde que não mas imponham, naturalmente. O meu lema nessa área - de uma elegância indiscutível - sempre foi "Cada um dá onde pode e leva onde quer". Mas confesso que não percebo por que raio de carga de água o homem anda mascarado. Deve ser alguma tomada de posição política e tal contra o heteropatriarcado machista, contra a opressão de género e dos preconceitos. O texto de apresentação da exposição ia nesse sentido. Mais parecia um catálogo das ideias feitas da época, é verdade. Mas a ideia central era essa. Depois vai-se a ver as fotografias e são bastante interessantes, estimulantes como se dizia há trinta anos.

Esqueci-me de perguntar o nome ao homem, coisa que me aborrece. Gostava de ter uma designação para ele diferente de "calmeirão mascarado de mulher". Travesti sempre usa menos letras, mas parece-me incorrecto pô-lo na estante dos travestis de New Orleans.

Tenho a impressão de que vou continuar a não perceber nada.

21.4.18

Over the telhado

Para além do nome e da música, que é execrável: o Roof 61 tem uma vista bonita, vinho da casa aceitável, serviço simpatiquíssimo e é extremamente confortável. 

Telhados, fogueiras e parolos

Entretanto espero pelo jantar e bebo um copo de vinho no Roof 61. Um dia esta palermada aperceber-se-á de que Telhado 61 é muito mais "in" (aspas porque cito e gozo) do que Roof. Até lá resta-nos reclamar, revoltar-nos, espernear, troçar, apiedar-nos e por aí fora. Não serve para nada se não para nos fazer passar por idiotas reaccionários, mas isso já o sou faça ou diga o que fizer ou disser. Mais uma acha não tornará a fogueira perceptivelmente maior.

Diário de Bordos - Setúbal, 21-04-2018

É preciso começar por dizer, insistir, sublinhar, repetir que o senhor é encantador. Venho com ele a Setúbal ver uma exposição de fotografia cum vídeo cum instalação.

Já lera o texto de apresentação e sabia portanto ao que vinha. Não tenho a desculpa de ter vindo ao engano.

Isto dito, a fotografia não é totalmente falha de interesse: retratos de corpo inteiro de uma senhora nua (a artista) em diversos cenários, vestida com uma capa de plástico transparente. Não ligando muito à verborreia vazia e cliché-ística do citado texto as imagens podem eventualmente levar-nos a paragens interessantes. Do vídeo e da "instalação" - a dita capa de plástico transparente, suspensa do tecto por fios de pesca ou semelhante - não vale a pena falar.

No caminho o senhor explica-me com a maior seriedade do mundo que nos anos noventa Setúbal definhou por vontade expressa do "cavaquismo" (aspas porque cito), por vingança política: "Setúbal, comunismo..." (idem, de memória). Para aquela pobre cabeça - que provavelmente é excelente no seu trabalho ("escultura e terapias quânticas, Reiki, etc" - ibidem) Cavaco foi para o governo com o fito de condenar uma cidade - provavelmente uma região - à miséria porque essa cidade ou região (a extensão é minha) é ou era comunista.

Saio da exposição e venho passear por Setúbal, cidade de que gosto bastante e onde não venho há muito tempo. A primeira paragem é outra exposição, esta de pintura intitulada 5 mulheres artistas (sic). Das cinco escapa uma, à tangente .

Serei eu o único a estar farto do feminismo, dos "géneros" e da verborreia líquida e inconsistente de quem precisa de os montar para ser visto?

E ainda por cima julgam-se na "vanguarda" (aspas porque está cheio de segundos sentidos) e não se apercebem de que não passam de mais um no rebanho, vozes afinadinhas do coro Zeitgeist, coro imortal e tão antigo como o gemido.

Danos colaterais

Convivo bem com a diferença de opiniões, com a diversidade. Seja ela de que ordem for. Em contrapartida - e para meu grande désarroi - cada vez tenho menos paciência para a falta de rigor intelectual.

A questão não está exactamente no confronto de ideias diferentes, mas no de ideias construídas e pensadas de um lado e ideias tipo pombinha do Espírito Santo do outro.

Dano colateral do ateísmo, suponho.

Diário de Bordos - Lisboa, 21-04-2018

O dia está chuvoso, cinzento e chato. Tempo de amar e ler, alternadamente: um capítulo, um beijo. Talvez uma sesta depois dos capítulos e dos beijos, vai saber. Em vez disso escrevo-te esta meia dúzia de disparates, só desculpáveis porque estou de largada. Terça volto para Mallorca, novo do coração aos documentos. Só me falta o computador para tudo voltar ao statu quo ante.

Como se fosse possível. Não é. Uma vez fora do tubo a pasta de dentes não volta para dentro. Antes usá-la até ao fim.

20.4.18

Terceira carta a Pandora

Lisboa, 20-04-2018

Navego os corpos que conheço tanto como os que desconheço. Não me aproximo porém dos que não me atraem. Saber não é sinónimo de querer, tão pouco como desconhecer.

Querer não tem sinónimos; querer-te ainda menos, mas tem um e só um complemento directo.

Talvez não: navegar-te. Imaginar que és um mar e a embarcação, marear-te os panos, definir-te o rumo, dizer-te "Vamos. Larga as amarras". Pegar-te nos bicos dos seios, beijar-te os lábios,  percorrer-te os braços, o ventre e as coxas, virar-te ao contrário.

Tocar-te, ver-te, perder-me.

Não me perco quando navego. Não me perderei quando te navegar.

P.

19.4.18

Rios, lagos, mar, vidas, pensar

Vastos rios subcutâneos; um deserto debaixo do qual cresce uma floresta; um mar que um dia secará ou já esteve seco. Não passamos de metades - duas metades coladas uma à outra -. Planícies inundáveis com uma gota de sangue, uma lágrima; ou iluminadas por um sorriso. Montanhas humildes percorridas por avalanches benéficas, chuvas ingratas, ondas de calor na Sibéria.

Onde estás? Querer pôr ordem neste magma é como fazer uma barragem num rio de lava; ou instalar uma rede para te protegeres dos iões. Pensa nisso: a ordem queima, mata, asfixia. A lava também. Não há nada que não queime; morre então a fazer o que queres. É a isso que se chama viver. Só os mortos fazem o que devem.

Pensa num lago: se tens de morrer afoga-te no mar. Se tens de viver escolhe o sal. Pensa no mar.

Não penses.

Diário de Bordos - Lisboa, 18-04-2018

A caminho de casa comprei um Baga: Ataíde Simões. Não é espectacular. Gosto de castas difíceis, como de pessoas, de resto: Baga, Jaen, Alfrocheiro (das pessoas não digo o nome. São muitas, esqueceria metade e de qualquer forma não gosto de citar nomes neste blog. Estar associado a mim não é propriamente uma condecoração). A este falta-lhe o passe de mágica de Luís Pato, ou o da filha. Mas acompanhou bem as favas, hoje estavam melhores do que ontem - poderia dizer "ainda melhores": cozinhar aceita faltas de modéstia -. Enquanto jantava ouvia Brahms. Nunca gostei muito da música do século XIX, mas ando cada vez mais inseguro de gostos (excepto os referentes às pessoas, claro. E aos vinhos).

O jantar foi bom e tranquilo. Pensava no livro de Josep Pla que estou a ler (Viagem de Autocarro) e se um dia escrever um livro de viagens não será muito diferente: todas as viagens são interiores, todas são reminiscências mesmo quando vamos pela primeira vez a um sítio (o que não é o caso do livro).

Teria preferido Rachmaninoff, Hildegard, Mahler? Outro vinho? Outra coisa em que pensar? Não. Descobrir é um prazer em si, qualquer que seja o resultado da descoberta. Destruir os nossos próprios preconceitos e substitui-los por outros dá tanto prazer como confirmá-los.

Abençoadas favas.

17.4.18

Sequências urbanas

Um gajo perde-se a vir do Parque das Nações para o Saldanha de bicicleta e descobre um universo paralelo. Vários: ora parece que está no campo, ora atravessa bairros de lata, ora está numa versão violenta de uma aldeia do faroeste.

E tudo isto enquanto faz exercício, o qual desencadeia uma fome gigantesca que acaba saciada com uma soberba feijoada à transmontana, seguida por uma sesta num banco do Jardim da Estrela. E ainda há quem não goste de bicicletas.

15.4.18

Segunda Carta a Pandora

Lisboa, 15-04-2018

Minha querida Pandora,

Não abras a caixa. Uma vez soltos os demónios não se deixam apanhar: a liberdade é um vírus e eles não são diferentes de nós. Quem tendo sido livre escolheu voltar para a prisão  que lhe foi imposta?

Tu não e eu tão pouco: nunca não fui livre, nunca deixei um único demónio com fome ou sede de uma carícia, nunca desde que te conheço deixei de te pensar livre.

Mas disso nada sei: que sabe uma nuvem sobre as nuvens, excepto talvez saber a que dá mais água, sombra, neve, vento?

O ideal seria escrever sobre o que sei. Conhecer-te a pele, as mamas, o ventre, ter-te despenteado o cabelo e sido visto por esse olhar transparente, como tu lhe chamas; beijado dos lábios aos pés, ouvido gemer os gemidos que te dei.

O ideal porém morre numa praia, não é?

Um dia trar-te-ei o fogo e enterrar-to-ei fundo, de onde nunca mais sairá; as ruas da cidade serão tuas para sempre.


Prometeu

14.4.18

Primeira carta a Pandora

Lisboa, 10-04-2018

Minha querida Pandora,

Ao longo dos anos fui aprendendo que se a pila e as palavras apontam para a mesma mulher ela é importante. Significativa. Cheia de sentido.

Isto é. Quero dizer: sempre tive a pila vagabunda e as palavras errantes, tu sabes, conheces-me como se me tivesses feito. Só algumas mulheres - raras - conseguiram alguma vez dar casa àquela e direcção a estas. Às vezes coincidiam a casa e a direcção, mas nunca consegui antever essa por assim dizer coincidência e muito menos compreender o seu valor.

Hoje não só sei a raridade que é ter duas agulhas a apontar para o mesmo Norte como aprecio desmesuradamente a coincidência, talvez por o ser cada vez menos. As mulheres que me atraem atraem-me todo, por atacado como se dizia antigamente nas lojas, venda ao retalho e por atacado, não era?

O atacado agora é só um, inteiro, pila e palavras "Quer que embrulhe?" "Não é preciso, obrigado, isto mal chegue a casa vai ser posto a uso, uma e outras" "Óptimo, que lhe façam bom proveito".

Bom proveito fazem, tanto mais que é a dividir por dois e estas coisas quando se dividem multiplicam-se.

Não abras a caixa, mas junta-lhe as palavras e o desejo erecto e duro. Saberás como fazê-lo.

Teu,

Prometeu

Beatriz

"Falemos então de marinheiros bêbedos", dizia-me Beatriz no Bar Subterrâneo, um bar que comecei a frequentar vai para cima de dez meses, ou talvez dez anos, é estranho como tenho melhor memória para números do que para as palavras e digo isto apesar de me lembrar perfeitamente das palavras dela: "falemos então de marinheiros bêbedos".

Disse-lhe que isso era simultaneamente um mito e uma redundância, um pouco como falar dos cabelos "de Beatriz", uma espessa cabeleira ruiva que ela insistia em cortar apesar de eu me opor veementemente.

"Cabelos de Beatriz" tornou-se assim desta forma lenta uma palavra de código entre nós e designava coisas de que não queríamos falar, coisas que sabíamos estarem ali ao alcance da memória mas não ao da mão,  coisas que se nos escapam de tão fluidas e tão densas ao mesmo tempo, como as bebedeiras de um marinheiro quando chega a terra ou os cabelos ruivos de Beatriz quando ela excepcionalmente não os cortava e as minhas mãos - essas mãos que tantos copos haviam levado à boca - se neles perdiam sem se perderem,  como um navio no temporal: não está perdido, mas está e assim nesses cabelos, nesse temporal se as minhas mãos divagavam enquanto eu lhe dizia aos ouvidos o mar e lhe falava de ténue linha que separa um sonho daquilo em que ele se torna, uma linha ténue mas preenchida, vivida, feliz.

Beatriz não respondia,  deixava-me às mãos as palavras, cada carícia era uma sílaba e quando completava uma frase dizia-me: "é bom ser amada pelas tuas palavras", mas eu queria amá-la com as mãos e com a pele toda e por isso continuava e ela cortava o cabelo para eu me reencontrar, acabar com o temporal e voltar ao que sou: um velho marinheiro bêbedo apaixonado pelos cabelos ruivos de um temporal.

Sorte, azar?

No fundo, talvez se possa definir "ter sorte" como "poder esquecer o azar". Os azares, se preferirem.

Ter sorte não é não ter azares; é poder esquecê-los.

12.4.18

Post sobre a incompreensabilidade da mudança e da imanência

O bar Snob já esteve - geográfica  e categoricamente - entre o bar Irreal e o Procópio. Hoje não está: lidera uma categoria à parte, chamada "Doce melancolia da decadência". A geografia mantêm-se, claro. Tudo se mantém. Poder-se-ia dizer que a decadência é feita disso, de tudo ficar como era.

Não é verdade: o bar Procópio é o melhor bar do universo (meço as palavras) apesar ou por causa de estar igual ao que era. (Só faltam os filmes de Charlot).

O bar Snob está igual e por causa disso ficou diferente. Não percebo o suficiente de gestão de bares para explicar este fenómeno.

Não percebo nada de coisa nenhuma, essa é que é essa.

A vida

Todos os bares do mundo deviam ser iguais ao bar Procópio. Os outros podem se quiserem ser como o bar Irreal. Entre os dois não há nada, só vazio (nada e vazio são coisas diferentes).

É um bocadinho como as mulheres, mas não consigo explicitar claramente as analogias. Não quero ser batido, já me basta a vida.

Vastas mas breves considerações sobre dois bares de Lisboa, do mundo

O bar Procópio, sito em Lisboa é  - relembro para os mais distraídos - o melhor bar a Sul do pólo Norte, a Oeste do Meridiano de Greenwich e a Leste da Linha Internacional de Mudança de Data. Ao contrário do bar Irreal tem o melhor barman do mundo, mas seria inadequado compará-los porque não jogam na mesma liga. Não jogam sequer o mesmo desporto.

O bar Irreal é alimento para o pensamento e o Procópio um spa para a alma.

Podia perder muito tempo com considerações filosóficas, mas não me parece curial: quem tem alma e gosta de Alexanders bem feitos vai ao Bar Procópio. Quem não tem não vai a lado nenhum e está muito bem assim.

Os outros vão ao Irreal. 

A cidade e as serras

O bar Irreal tem simultaneamente a melhor música de Lisboa e a pior barmaid, o que explica parcialmente porque gosto tanto dele: os opostos atraem-me.

Sobretudo se forem concomitantes com whisky irlandês do bom a quatro euros o copo. Ou seja: boa música, bom whisky irlandês a preços adequados, uma localização muito apropriada e uma barmaid terrível: melhor do que isto nem no campo.

11.4.18

Hallelujah!

Quatro dias de hospital terminam com umas ginginhas Sem Rival e petiscos no senhor David: os melhores torresmos que conheço em Lisboa, idem para os filetes de choco e para as pataniscas. O tinto é bastante aceitável e o piripiri ao nível dos torresmos.

Não posso dizer que fui maltratado, antes muito pelo contrário, com a notória excepção da primeira noite nas urgências. Essa seria traumática se eu fosse dado a traumatismos. Não sou. Já vi hospitais no Burundi, no Zaire, no Panamá e sei que há pior. Mas também já os vi na Suíça, nos Estados Unidos e na Alemanha e sei que há melhor.

Que se lixe. Agora só é preciso exprimir aqui o meu agradecimento a quem me tratou, conjuntamente com a minha admiração. E celebrar, celebrar sem fim nem fundo: tenho uma máquina que compensa largamente as múltiplas deficiências do órgão que lhe está por cima. Usemos as nossas forças e desprezemos as fraquezas.

Tenho sorte, fui bem feito. Isto não tem nada de talento. Se há aqui algum know how ele consiste simplesmente em saber fazer das fraquezas forças.

Hallelujah!

8.4.18

Diário de Bordos - Lisboa, 08-04-2018

Numa pequena nota à parte e que não tem nada a ver: não sabia que as faculdades de Medicina têm critérios estéticos para a admissão de jovens estudantes do sexo feminino tão severos como os das notas. São todas bonitas, muito mais do que o acaso permitiria se não houvesse os tais critérios.

Antes assim. Um gajo sentir a realidade entrar-lhe pelas orelhas, pouco a pouco, sílaba a sílaba é bastante menos doloroso se as sílabas - ou a realidade, como preferirem - saírem de um bonito palmo de cara.

(Hoje tive um bónus e foram duas as caras bonitas).

A realidade é chata, mas não dramática: o meu coração não é fundamentalmente diferente do das outras pessoas do meu género e idade. Não sou muito dado a grupos e fazer parte deles nunca foi um grande objectivo para mim; este - o das pessoas com riscos cardíacos - é vasto e aparentemente inescapável. Fico a sabê-lo por uma voz calma, sorridente, simpática, que me explica o que vou fazer, os riscos, as escolhas. Optei por ficar: não quero que isto volte a acontecer e muito menos no mar. São sessenta anos que valem por cento e vinte ou cento e oitenta. Vivi muitas vidas, altos e baixos muito baixos e muito altos.

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E preciso que tudo mude para que tudo fique na mesma? Não será antes É preciso que nada mude para que nada fique na mesma?

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Enfim. Tenho livros, amigos e filhos, um grupo de pessoas que trata correctamente de mim em condições adequadas e energia para o que aí vem.

Não tenho de que me queixar, mesmo que isso implique integrar um grupo.

7.4.18

Léxico hospitalar

Ninguém gosta de passar um monte de horas num hospital, mas esse desgosto pode ser atenuado pelo enriquecimento do vocabulário.

Hoje por exemplo aprendi o termo "enfartar" (fazer um ou nais enfartes) e fiquei a saber que tenho uma "auscultação inocente" (aspas porque cito, verbatim).

Tudo em mim é inocente, doutora. Até - fico a sabê-lo graças a si - o que não controlo.

Da solidão

A maioria das pessoas que fala da solidão não sabe do que fala. É como se comentasse um livro que não leu ou tendo lido não percebeu.

Impenetrável

Seria talvez melhor começar por dizer que estas coisas não se dizem. Imprescindível: cabelos revoltos e densos como alguns desejos desordenados, pesados como granito; hercúleas resistências que nem a distância explica; a subterrânea propagação de dois corpos que nada faria encontrarem-se e um dia se desencontraram. Foi assim: a cada palavra correspondia um olhar; a cada frase uma carícia na densa floresta dos cabelos negros; a cada parágrafo uma escalada no desejo.

Do amor nunca sequer foi questão: algumas ausências são mais aparentes do que uma miragem no deserto. Aparentes, quero dizer:

De cabelos densos e revoltos a imagem apenas. Aparente. De um corpo estendido e expectante outra aparência. De um olhar simples como o monossilábico imperativo de um verbo.

Imperativo impenetrável. Do desejo não mais foi questão .

5.4.18

Alfabetos do amor

Penetrar-te com F grande, o maior que alguma vez me aconteceu e amar-te com o mesmo F e um A tão grande ou maior, acariciar-te com as M mais suaves que terás sentido, olhar-te com a pele mais bela que alguma vez terei visto.

Misturam-se-me as letras como te misturas tu comigo, com a vida, com os sentidos como se os sentidos tivessem letras e a vida não passasse de um alfabeto caótico do qual emerges como uma maiúscula num oceano de letras pequenas.

4.4.18

Diário de Bordos - Aeroporto de Madrid, Espanha, 04-04-2018

Enquanto isso, no pior aeroporto do mundo (do meu mundo, claro; não falo pelo dos outros): um gajo sente-se espoliado, extorquido, chantageado ao almoço. Antes disso aconteceu-lhe pela primeira vez uma coisa fantástica, no sentido primeiro do termo: o avião foi para um terminal, a bagagem para outro e ninguém disse nada a ninguém. Trocando por miúdos: a manga estava no Terminal 1 e nos monitores para os carrocéis das bagagens o voo não aparecia. Ao fim de um quarto de hora um gajo decide perguntar a um senhor velhote, de bigode e badge ao peito. "Ah, se o seu voo era Norwegian as bagagens estão no Terminal 2".

Inútil dizer que o terminal 2 fica para lá de Konamair Street, as indicações são sub-realistas (o termo é pedido de empréstimo) e ir, vir, fazer o check in para o voo seguinte (tenho dois bilhetes, à dúzia é mais barato) foi mais de uma hora. Ou seja: decidi - erradamente, vejo agora - não ir a Barajas, vila que apesar de tudo consegue ser mais apelativa do que o respectivo aeroporto - e andei por aqui perdido à procura de um sítio para comer.

Calhou-me o Coffee and Baker Santagloria (sic), para provar que se uma coisa corre mal tudo correrá a seguir, como nas maratonas de Nova Iorque e outras cidades.

Está quase a acabar este purgatório. Ao menos isso: o vinho é caro, as sandes más e caras, mas acaba tudo deglutido.

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No filtro para entrar no espaço alfandegado a senhora felicita-me pelo meu "paisano". Não percebo e pergunto-lhe quem. "O Ronaldo. Não és português?" (A frase soou como "O Ronaldo, estúpido. Não és português?")

Vi o golo e mesmo eu, que não gosto nem quero gostar de futebol reconheço que é bonito. É como as jogadas no bilhar, antigamente havia um canal de televisão que transmitia jogos de snooker e outras modalidades: são muito bonitas, mesmo quando não se percebe nada.

Adenda: o bilhar tem uma qualidade suporifera que o futebol não tem. Por isso o prefiro.

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Uma das características mais irritantes do aeroporto de Barajas (já aqui a mencionei) é fazer-me esquecer tudo o que tenho aprendido nestas longas e inúmeras viagens.

Da última vez isso custou-me uma hora na aldeia ou vila ou seja o que for de Barajas, porque me esqueci de ler o cartão de embarque como deve ser. Hoje esqueci-me de que as probabilidades de um voo no fim do dia da Easyjet estar atrasado são iguais às que eu tenho de ganhar o Totomilhões.

Infelizmente voo mais frequentemente na Easyjet do que compro os diferentes Totós Milhões.

Adenda: o voo acabou por sair a horas, apesar do embarque tardio. Parabéns Easyjet. Vou continuar a não comprar loterias.

Serviço público - Bares, cafés e laranjadas, Palma de Mallorca

O Bar Sta. Eulália na praça do mesmo nome tem tapas boas, baratas e "caseiras" (aspas porque cito, não porque duvide da palavra dos senhores, que por acaso até são senhoras, tanto quanto sei pelo que a U. da Sifoneria me disse, já que foi ela quem me sugeriu o estabelecimento) e fica perto da Literanta. Isto é: um lugar ideal para se ler os livros que se compraram dois minutos antes, numa praça muito bonita (em Palma poucas o não são, mas isso é outro departamento).

O Bar 7machos (sic) fica em Sta. Catalina, o quarteirão "hot" (entre aspas porque felizmente de "hot" não tem nada, apesar dos yachties gostarem de pensar que tem). É o lugar ideal para quem tem uma crise de fringale a meio da noite (desculpem a exibição de francesismo, mas é o único termo que me parece adequado de entre a vasta quantidade de línguas, dialectos e outros idiomas que domino fluente e perfeitamente. Já agora: significa "uma grande quantidade de fome"). Tem nachos e tacos impecáveis, sem filas pelo passeio fora, rápidos e bastos, como convem quando se tem uma fringale. Isto dito, uma coisa curiosa que ontem me ocorreu enquanto fazia de árbito entre a fome e a montanha de nachos que tinha pela proa: a comida mexicana não se exporta. Nem no Texas, nem na Flórida, nem em lado nenhum fora do México comi mexicano (salvo seja, claro) tão bem como no México.

O Bar Corner é o ponto de encontro dos ditos yachties e não tem ponta de interesse, excepto quand se vai de Sta. Catalina para casa e o canto fica no caminho. É um canto sem encanto.

O Bar Rita... ah, o Bar Rita. esse vai passar para o pódio. Ontem tive uma daquelas cenas que só em Palma, que me fazem amar Palma. Cheguei ao bar e perguntei se tinham a) um lugar onde ligar o computador porque - precisei - está sem bateria e b) wifi. O homem disse-me que sim e acrescentou (sorridente e bem educadamente) "mas olha que isto não é um escritório". "Claro, hombre", respondi no meu melhor espanhol e de caminho aproveitei para encomendar umas hierbas secas

O rapazinho que me trouxe a bebida deixou-a cair mesmo a chegar à mesa. O copo escorregou-lhe da mão e caiu. Molhou um bocadinho do computador, que já estava aberto na mesa, mas a maior parte do líquido caiu ao lado. Desculpas, limpezas, etc., salto para a frente. Bebi três hierbas (num prazo de tempo relativamente longo, não vão os leitores pensar que sou um bebedolas. Digo porque é importante para a história, como poderão verificar já de seguida) e quando ia a pagar o homem - o mesmo que me tinha dito que aquilo não é um escritório - diz-me "não pagas nada. Quem vai pagar é ele" - e aponta para o rapazinho, mas a rir, numa boa onda, passe o exoterismo. Eu insisti "Oferece-me uma e eu pago duas, vá". E ele que não e pronto, vim-me embora.

Rita é sem dúvida nenhuma um nome mágico, aquele bar é mágico e eu tenho uma sorte do caraças, essa é que é essa. (Se bem a descoberta do sítio se deva mais ao meu hábito de me perder pelas ruas de Palma em vez de ir directo pelos caminhos que conheço. Uma daquelas sortes para a qual se trabalhou muito).

Em ti, vamos

Ou seja: vamos transformar em palavreado visível as palavras que se me atropelam no teu corpo.

- Dar-lhes uma sequência mais ou menos lógica;
- Torná-las apelativas para quem as lê (como se os leitores estivessem a ver-te);
- Fazê-las passar-te pela tua pele, olhos e pelo resto de ti, devagarinho;
- Deixá-las escorregar lentamente em ti.

Vamos.

Em favor do rum Mount Gay e outras preces

Acabo a noite no Corner Bar. É a coisa mais deprimente e degradante que me pode acontecer em Palma. Que gente tão triste. E os preços são absurdos: mais de seis euros por um Mount Gay? Pata que os pôs. Detesto o capitalismo. O rum Mount Gay devia ter os preços limitados administrativamente. Nunca mais do que um euro a dose tripla. Não me venham cá com os custos do transporte, mão-de-obra, rendas, impostos e mai-lo diabo a sete. Um euro cada copo cheio, sem gelo.

3.4.18

Diário de Bordos - Palma de Mallorca, Baleares, Espanha, 03-04-2018

Palma tem em comum com Lisboa serem cidades nas quais é melhor perdermo-nos do que conhecer o caminho.

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Novo poiso, para sempre: Bar Rita, Plaça Llorenç Bisbal, 13. Um misto de Tati e Irreal sem a música ao vivo. Depois dos BFF temos os BBF: Best Bars Forever.

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Um dos inconvenientes da Sifoneria (tem muitos: o espaço, que é rústico e adorável; a dona, linda e simpática; os vinhos bons e os preços baixos) é estar perto de uma livraria chamada Literanta. Não é tão bonita como a Babel, porque morei ao lado desta muito tempo (alguns três meses) e só de passagem via aquela.

Dá-se porém um facto inelutável: cada vez que saio da Sifoneria passo à frente da Literanta e hoje vi um livro na montra (esta oração dispensa complementos).

Chama-se Pequeno Tratado de Todas as Verdades sobre a Existência. É um título ao nível de Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos. Só depois de o comprar vi que a autora é francesa e falhei portanto a decisão de só comprar livros na língua original, se for uma das que leio.

Que se lixe. Pelo que vi do que folheei vale a pena comprá-lo até em esquimó.

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Por que raio de carga de água as traduções espanholas são quase tão boas como as francesas e as portuguesas são a merda que toda a gente sabe?

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As mulheres queixam-se muito dos homens; eu não me queixo das mulheres, muito antes pelo contrário. Excepto numa coisa: algumas entram-nos pela cabeça adentro e não saem. Fazem-me pensar num livro da Ali Smith chamado There But For The: o hóspede de um convite para jantar fecha-se num quarto da casa dos anfitriões e lá fica por meses.

O livro é absolutamente sublime. As mulheres que por simples e evidente indelicadeza não nos largam a cabeça não.

Abandono

Cada vez que deixo um barco acontece o mesmo: sinto-me como se fosse ele que me deixa. Como quando uma miúda que eu amo me deixa antes de tempo.

2.4.18

Diário de Bordos - Port d'Andratx, Mallorca, Baleares, Espanha, 02-0402018

Sacana do cansaço colou-se-me à pele e não me larga, sanguessuga maldita. Hoje não há razão nenhuma para estar cansado como estou e a verdade é que continuo cansado, um peso em cada braço e outro maior em cada perna. Isto só se resolve de cama e panos quentes, mas amanhã não é a véspera do dia em que os terei e mais vale descansar-me e pensar noutra coisa.

Enfim, terça vou para Palma e quarta para Lisboa. Chateia-me deixar o P. assim mas tem de ser. Quando regressar em Maio já o motor estará fora, o mastro em baixo e os brandais inspeccionados e se necessário reparados. Depois é só substituir machos de fundo e passa-cascos, impermeabilizar o convés e a quilha, pôr o novo motor, substituir o poleame... Nada do outro mundo. Acho que estou cansado por antecipação do que aí vem.

Não sei. Pouco me interessa, na verdade. Só quero parar meia dúzia de dias, não é pedir muito.

Uma vez cheguei a Brighton de uma travessia do Atlântico num 60' que não tinha piloto nem enroladores (era uma goeleta. Linda de morrer) e quatro dias depois estava a bordo de um 32' para Lisboa e depois Palma. Hoje fá-lo-ia?

Claro que sim, estúpido. Cala-te e dorme. 

Palavras, andaimes

As palavras precisam de sustentação, de algo por trás que as não deixe cair: os sentimentos.

A imagem que me ocorre é a dos andaimes que eu montava quando trabalhava numa empresa chamada TPH (Toujours Plus Haut, isto não se inventa) e o meu trabalho consistia em - exactamente: montar andaimes, toujours plus haut -: as palavras são as pranchas de madeira e os sentimentos as peças em alumínio sobre a qual se apoiam.

Todas as palavras, mesmo os substantivos, o mais simples dos artigos, os advérbios e os pronomes, os verbos intransitivos tanto quanto os transitivos, os adjectivos (meu Deus, os adjectivos)... Todas precisam de um andaime. Sem ele não passam de sons vazios, formas ocas, vãs e condenadas a desvanecer-se ao primeiro sopro.

(Para a L., andaime de muitas palavras).

1.4.18

Domingo de Páscoa - II (continua, espero)

Não acredito em belezas complexas, complicadas. A beleza ou é simples ou não é.

Paz, calma, boa música tocada por um tipo competente, borrego para cima de muito bom, uma paisagem linda, óptimo vinho tinto, a edição da semana passada do FT Weekend, uma empregada com quem me casaria já se ela quisesse (do que duvido e pelo sim pelo não não lho pergunto), Roberto Calasso (a quem decidi dar mais umas páginas, isto dos raptos torna-se viciante): querem beleza mais simples?

Domingo de Páscoa - I (cont.)

Pouco mais de dez nós de vento, sol, "le fonds de l'air est frais", música excelente, vermute seco, paisagem linda, leitura adequada e abundante.

Daqui a pouco vem borrego, trazido pela empregada mais adorável de que me lembro.

Melhor, só se não estivesse sozinho. Como estou, melhor é impossível.