Só fica a conhecer os caminhos todos quem não tem medo de se perder.
31.3.19
O nível da felicidade
Tinha uma espécie de linha de baixo continuo - à qual ele chamava "bem estar" por achar "felicidade" excessivo - sobre a qual vinham enxertar-se todos os outros estados de espírito pelos quais passava com uma frequência e uma irregularidade assustadoras.
Podia estar depressivo a ponto de só pensar em morrer e saber-se bem, feliz lá no fundo de si, num universo que só não é paralelo porque existe a um nível diferente.
Era um morto vivo, mais vivo do que morto.
Podia estar depressivo a ponto de só pensar em morrer e saber-se bem, feliz lá no fundo de si, num universo que só não é paralelo porque existe a um nível diferente.
Era um morto vivo, mais vivo do que morto.
30.3.19
Dispersas de hoje, camionete Lisboa - Mértola, 30-03-2018
Verdade seja dita: se eu tivesse trazido roupa apropriada a chuva não seria uma chatice por aí além. Mas não trouxe e este vai ser um domingo molhado. E segunda-feira também, que um mal nunca vem só. Ainda não vi como está o tempo em Palma, mas lá tenho roupa para o que der e vier.
A ver se chego, janto e me deito, sem chuva entre cada uma destas etapas. Talvez não fosse má ideia lembrar-me de que não estou a viajar entre portos, mas sim entre terras. Ando feito terráqueo, daqueles que saem do avião e entram na sala de reuniões e de lá voltam para de onde vieram. Credo, homem, vade retro. Antes molhado do que engravatado.
Nómada em processo avançado de sedentarização? Ando a sonhar com ladrões, é o que é. Não me parece que alguém um dia me apanhe simultaneamente em cima da terra e quieto. Imóvel, só debaixo dela; ou a sair pela chaminé, que não é bem estar quieto mas anda lá perto.
É verdade: gosto de vadiar de um lado para o outro. Quando fico muito tempo no mesmo sítio sinto-me como se ele me pusesse na rua. São os lugares que me expelem; ou repelem, se preferirem. Não sei. Todavia algo me diz que por estas bandas vou ficar. Chego daqui a uma hora. Só preciso é de um carro, é mais agradável poder sair e parar quando quero. Não sei.
A quantidade de coisas de que um homem precisa quando pára é aterradora: casa, carro, fogão, frigorífico, roupa para a chuva e para o bom tempo, uma mulher...
Quando se anda de um lado para o outro também se precisa de uma mulher, mas é diferente. Isto é: são diferentes. A mulher e a necessidade. Não sei. É uma hipótese a analisar.
Por exemplo, hoje estava a fazer uma lista de objecções ao suicídio. Os filhos, o livro, os projectos em curso e os que hão-de vir... depois apercebi-me de que uma vida que me deu a possibilidade de viver com S. não merece ser abandonada. Não pode sequer ser abandonada.
Bom, estou provavelmente a divagar, preso no sonho do chauffeur da camionete, o homem esqueceu-se de tomar Paracetemol e levo aqui uma dor de cabeça que só vista. Além disso estou com saudades de Palma, é inútil negá-lo. E do mar também. No meio disto tudo só não tenho saudades do Sena porque nunca o subi. Vai ser a primeira vez. Chegar a Paris de barco faz-me lembrar quando fui contratado para levar um barco viking da Dinamarca ate Nova Iorque. O projecto acabou por ser cancelado, aquilo era uma associação e zangaram-se todos uns com os outros. Chegar a Nova Iorque num drakkar não é a mesma coisa do que chegar a Paris numa lancha a motor? ¡Qué vaya! Não se pode estar sempre a comparar tudo: viagens, mulheres, barcos... É tudo bom, todas, todos, cada um individualmente, em conjunto. Vou subir o Sena. Chega.
Hoje tive a confirmação de que o livro vai sair, finalmente. Devia estar mais feliz do que estou, eu sei, mas isto é só uma falsa impressão. A verdade é que estou feliz, muito. Penso no caminho todo que me trouxe aqui. De manhã estava a folhear um livro qualquer, tão qualquer que não me apetece sequer lembrar-me de qual era. Estava muito bem escrito, mas era desinteressante como um dia de chuva. Ocorreu-me que talvez fosse um livro órfão de vontade, um livro que não pediu para ser escrito. Pediu, não. Exigiu. A boa literatura nasce dos livros e vai para o autor, não o contrário. Não recordo quem disse que um livro só é bom quando teve de ser escrito, quando apontou uma pistola à cabeça do autor e lhe disse "escreve-me ou morres". Perguntem ao Hemingway, ao London, ao Conrad, ao Beckett. O livro está-se nas tintas para o estilo do autor, para a escolha lexical ou para seja o que for que não seja ele, livro.
Ao Don Vivo faltarão todas as qualidades menos essa: conseguiu vergar-me, ganhou esta roleta russa, obrigou-me a fazê-lo. (Com uma aliada de peso, uma senhora chamada JMV). Estou-lhes grato (ao DV, à J. e ao editor).
Falta um quarto de hora para chegar. Falta uma vida, que a morte já temos.
A ver se chego, janto e me deito, sem chuva entre cada uma destas etapas. Talvez não fosse má ideia lembrar-me de que não estou a viajar entre portos, mas sim entre terras. Ando feito terráqueo, daqueles que saem do avião e entram na sala de reuniões e de lá voltam para de onde vieram. Credo, homem, vade retro. Antes molhado do que engravatado.
Nómada em processo avançado de sedentarização? Ando a sonhar com ladrões, é o que é. Não me parece que alguém um dia me apanhe simultaneamente em cima da terra e quieto. Imóvel, só debaixo dela; ou a sair pela chaminé, que não é bem estar quieto mas anda lá perto.
É verdade: gosto de vadiar de um lado para o outro. Quando fico muito tempo no mesmo sítio sinto-me como se ele me pusesse na rua. São os lugares que me expelem; ou repelem, se preferirem. Não sei. Todavia algo me diz que por estas bandas vou ficar. Chego daqui a uma hora. Só preciso é de um carro, é mais agradável poder sair e parar quando quero. Não sei.
A quantidade de coisas de que um homem precisa quando pára é aterradora: casa, carro, fogão, frigorífico, roupa para a chuva e para o bom tempo, uma mulher...
Quando se anda de um lado para o outro também se precisa de uma mulher, mas é diferente. Isto é: são diferentes. A mulher e a necessidade. Não sei. É uma hipótese a analisar.
Por exemplo, hoje estava a fazer uma lista de objecções ao suicídio. Os filhos, o livro, os projectos em curso e os que hão-de vir... depois apercebi-me de que uma vida que me deu a possibilidade de viver com S. não merece ser abandonada. Não pode sequer ser abandonada.
Bom, estou provavelmente a divagar, preso no sonho do chauffeur da camionete, o homem esqueceu-se de tomar Paracetemol e levo aqui uma dor de cabeça que só vista. Além disso estou com saudades de Palma, é inútil negá-lo. E do mar também. No meio disto tudo só não tenho saudades do Sena porque nunca o subi. Vai ser a primeira vez. Chegar a Paris de barco faz-me lembrar quando fui contratado para levar um barco viking da Dinamarca ate Nova Iorque. O projecto acabou por ser cancelado, aquilo era uma associação e zangaram-se todos uns com os outros. Chegar a Nova Iorque num drakkar não é a mesma coisa do que chegar a Paris numa lancha a motor? ¡Qué vaya! Não se pode estar sempre a comparar tudo: viagens, mulheres, barcos... É tudo bom, todas, todos, cada um individualmente, em conjunto. Vou subir o Sena. Chega.
Hoje tive a confirmação de que o livro vai sair, finalmente. Devia estar mais feliz do que estou, eu sei, mas isto é só uma falsa impressão. A verdade é que estou feliz, muito. Penso no caminho todo que me trouxe aqui. De manhã estava a folhear um livro qualquer, tão qualquer que não me apetece sequer lembrar-me de qual era. Estava muito bem escrito, mas era desinteressante como um dia de chuva. Ocorreu-me que talvez fosse um livro órfão de vontade, um livro que não pediu para ser escrito. Pediu, não. Exigiu. A boa literatura nasce dos livros e vai para o autor, não o contrário. Não recordo quem disse que um livro só é bom quando teve de ser escrito, quando apontou uma pistola à cabeça do autor e lhe disse "escreve-me ou morres". Perguntem ao Hemingway, ao London, ao Conrad, ao Beckett. O livro está-se nas tintas para o estilo do autor, para a escolha lexical ou para seja o que for que não seja ele, livro.
Ao Don Vivo faltarão todas as qualidades menos essa: conseguiu vergar-me, ganhou esta roleta russa, obrigou-me a fazê-lo. (Com uma aliada de peso, uma senhora chamada JMV). Estou-lhes grato (ao DV, à J. e ao editor).
Falta um quarto de hora para chegar. Falta uma vida, que a morte já temos.
Podia ser pior
Um pouco como escorregar por uma alameda coberta de safiras verdes e não saberes que na verdade são algas. Isto é, palavras: às vezes algas, outras safiras.
E não tens onde te agarrar: as palavras escorregam como algas, verdes e viscosas. Já as safiras não: brilham, ferem. Ofuscam-te.
Contrabandeias safiras, escorregas nas algas e tentas agarrar-te às palavras. Podia ser pior.
E não tens onde te agarrar: as palavras escorregam como algas, verdes e viscosas. Já as safiras não: brilham, ferem. Ofuscam-te.
Contrabandeias safiras, escorregas nas algas e tentas agarrar-te às palavras. Podia ser pior.
28.3.19
Misturas
Juro: não bebi de mais. A intensa comoção que me faz chegar as lágrimas ao quase canto do olho não é de origem etílica. Nasce desta mistura de favas com entrecosto e leituras entre favas de excertos de um livro ainda fresco da compra na estação do Cais do Sodré: Mundos de Fronteira, de uma senhora chamada Ilse Pollack, numa edição da Cotovia e traduzido por João Barrento.
É obviamente um lugar-comum dizer que se João Barrento se dá ao trabalho de traduzir um livro ele é bom. Não vale portanto a pena falar do português límpido, claro, "escorreito" (entre aspas porque ontem usei este termo e usar a mesma palavra dois dias seguidos pede aviso) de que João Barrento se serviu para traduzir um original que se adivinha ser igualmente limpido. É contudo necessário sublinhar a feliz coincidência de estar a comer um prato eminentemente nacional enquanto leio pedaços de vida de escritores desse mundo errante que é e sempre foi a Europa do Leste.
Em vésperas de partida é uma mistura comovente, no mínimo.
É obviamente um lugar-comum dizer que se João Barrento se dá ao trabalho de traduzir um livro ele é bom. Não vale portanto a pena falar do português límpido, claro, "escorreito" (entre aspas porque ontem usei este termo e usar a mesma palavra dois dias seguidos pede aviso) de que João Barrento se serviu para traduzir um original que se adivinha ser igualmente limpido. É contudo necessário sublinhar a feliz coincidência de estar a comer um prato eminentemente nacional enquanto leio pedaços de vida de escritores desse mundo errante que é e sempre foi a Europa do Leste.
Em vésperas de partida é uma mistura comovente, no mínimo.
Os risos e o resto
Escorreita corre a escrita ao correr da pena e das penas, corre melancólica por essa longa estrada fora como se as penas fossem uma só, elas que tantas são; e a pena muitas, cada uma para a sua cor. Na estrada desenham a traços largos e cores ligeiras as linhas todas das diversas dores, cada uma mais alegre do que a vizinha (e sabe Deus se a senhora é alegre, senhora de riso contagioso e ironia fina, senhora de si, de vastos reinos onde riso e penas se misturam ao correr da pena, levemente, como quem não quer incomodar a sorte, sabe Deus).
E que mais sabe Deus, ele que tanto se enganou todos os dias? Nada ou muito pouco, está a cotovia rouca de tanto rir e a senhora sábia de tanto a ouvir esquece as penas e vai dormir. Escorreita, claro.
E que mais sabe Deus, ele que tanto se enganou todos os dias? Nada ou muito pouco, está a cotovia rouca de tanto rir e a senhora sábia de tanto a ouvir esquece as penas e vai dormir. Escorreita, claro.
27.3.19
Rir, chorar, volume
Bruno anda preocupado, coitado: tem um problema por resolver e não lhe antevê solução fácil. A mulher da vida dele recusa-se terminantemente a assumir esse papel. Ora Bruno sabe que sem a mulher da vida dele nunca terá vida; e sem vida nunca terá a mulher na vida dele. Se ao menos pudesse dizer "a mulher ou a vida", como dantes se dizia da bolsa. Mas não pode. É "ou a mulher e a vida ou nada". Bruno convive mal com dilemas por resolver e isso desinquieta-o, coitado. Que fazer? Talvez rir, não, Bruno? Sempre dá menos trabalho do que chorar e não há dilema que resista a uma boa gargalhada.
Ou então, ouve, Bruno aprende comigo que eu não viverei para sempre, ouve as tocatas de Bach pelo Glenn Gould; ou seja o que for de Bach, verás o dilema dissolver-se à tua frente e transformar-se num triângulo isósceles, dois lados iguais e um de tamanho variável, os dois variáveis sendo a vida e a vida e o outro a mulher da tua vida e tu estarás no centro desse triângulo, Bruno, a desenhá-lo todos os dias, todas as vidas. É mais ou menos isto, Bruno: um triângulo, tu e a vida e a vida e a mulher da tua vida, é vida a mais para uma mulher só, é um triângulo, uma história de amor a três, contigo a sobrevoá-la fica uma pirâmide, Bruno e é preciso dar volume às coisas.
Ou então, ouve, Bruno aprende comigo que eu não viverei para sempre, ouve as tocatas de Bach pelo Glenn Gould; ou seja o que for de Bach, verás o dilema dissolver-se à tua frente e transformar-se num triângulo isósceles, dois lados iguais e um de tamanho variável, os dois variáveis sendo a vida e a vida e o outro a mulher da tua vida e tu estarás no centro desse triângulo, Bruno, a desenhá-lo todos os dias, todas as vidas. É mais ou menos isto, Bruno: um triângulo, tu e a vida e a vida e a mulher da tua vida, é vida a mais para uma mulher só, é um triângulo, uma história de amor a três, contigo a sobrevoá-la fica uma pirâmide, Bruno e é preciso dar volume às coisas.
As duas faces das palavras
"Amo-te" ou é de mais ou é inútil, consoante sou eu que to digo ou tu que o ouves.
26.3.19
Vidas, vida
Acreditem se quiserem, mas fui feito para trabalhar numa livraria, num café e num barco. Ou seja: no espaço, na terra e no mar. Como é aquela frase famosa de um grego pré-socrático? "Há três espécies de seres: os vivos, os mortos e os que vão para o mar".
Talvez se possa mudá-la um bocadinho: "há três espécies de vidas: as que se lêem, as que se bebem e as que se navegam. E depois há uma que as junta a todas e não deixa nenhuma delas por viver".
Talvez se possa mudá-la um bocadinho: "há três espécies de vidas: as que se lêem, as que se bebem e as que se navegam. E depois há uma que as junta a todas e não deixa nenhuma delas por viver".
Arrogância, paciência
Peço-vos encarecidamente que não o digam a ninguém, mas sou extremamente arrogante.
Isto é, se falta de paciência e arrogância forem sinónimos, do que me sinto longe de estar seguro.
Isto é, se falta de paciência e arrogância forem sinónimos, do que me sinto longe de estar seguro.
Lista original
Ao fim da quinquagésima visita que faco à vida... Reticências porque isto não é verdade. Como contar as visitas ao planeta? Logicamente escolheria a data da primeira os quinze anos, a primeira vez que li Zaratustra e apanhei uma bebedeira (da qual não me lembro, de resto). Mas isso é falso. Já uma vez em Quelimane bebera de mais e foi nessa cidade que li Sven Hassel e Erich Maria Remarque, Jack London, Somerset Maugham, Conrad, Steinbeck, Hemingway e O'Henry, imprescindíveis preâmbulos a Nietzsche. Ora eu saí de Quelimane aos catorze anos e o facto - incontestável - de não ter percebido rigorosamente nada da maioria das páginas que lia pendurado num ramo de mangueira não invalida outro facto incontornável: é difícil saber quando visitei este mundo pela primeira vez.
Ou seja: cada visita é a primeira. Perpetuamente virgem, entro no lupanar sabendo o que me espera, mas sabendo apenas teoricamente. "Conhecimento livresco", acusar-me-ia muitos anos mais tarde o meu Pai, quiçá lamentando ter-me presenteado com uma biblioteca de sonho e uma liberdade de leitura ainda mais vasta.
Reticências.
Este post divergiu da sua intenção inicial: falar desta mistura de espanto e prazer, maravilhamento que sinto cada vez que entro no bar Number Two, na minha modesta mas fundada opinião um reflexo perfeito da vida.
A música é contestável. A decoração também. A poncha é incontestavelmente a melhor dos dois mundos, este e o outro. A clientela oscila. Os tremoços oscilam entre o bom, o muito bom e o resto (como a vida, não é?)
Ou seja: é prá poncha. O resto, caros amigos, ou é conversa ou é Ler por aí... Das duas, antes esta do que aquela.
O post continua a divergir.
Nada disto consta da lista original.
Ou seja: cada visita é a primeira. Perpetuamente virgem, entro no lupanar sabendo o que me espera, mas sabendo apenas teoricamente. "Conhecimento livresco", acusar-me-ia muitos anos mais tarde o meu Pai, quiçá lamentando ter-me presenteado com uma biblioteca de sonho e uma liberdade de leitura ainda mais vasta.
Reticências.
Este post divergiu da sua intenção inicial: falar desta mistura de espanto e prazer, maravilhamento que sinto cada vez que entro no bar Number Two, na minha modesta mas fundada opinião um reflexo perfeito da vida.
A música é contestável. A decoração também. A poncha é incontestavelmente a melhor dos dois mundos, este e o outro. A clientela oscila. Os tremoços oscilam entre o bom, o muito bom e o resto (como a vida, não é?)
Ou seja: é prá poncha. O resto, caros amigos, ou é conversa ou é Ler por aí... Das duas, antes esta do que aquela.
O post continua a divergir.
Nada disto consta da lista original.
25.3.19
Um problema e dois poetas
O grande problema da poesia portuguesa da actualidade só não é o maior porque me parece ser o único: nós temos dois poetas excepcionais e uma multidão doutros, que oscilam entre a mediania, a mediocridade e o zero absoluto.
Os dois são Cláudia R. Sampaio e Miguel Martins.
PS - "Poetas de casa de banho que se queixam com grafitti" é um manifesto exagero (o António Cabrita também faz parte dos dois melhores poetas portugueses, por exemplo) mas esta descrição de Ferlinghetti é bastante boa.
Os dois são Cláudia R. Sampaio e Miguel Martins.
PS - "Poetas de casa de banho que se queixam com grafitti" é um manifesto exagero (o António Cabrita também faz parte dos dois melhores poetas portugueses, por exemplo) mas esta descrição de Ferlinghetti é bastante boa.
Cadeiras, solidão
Poder-se-ia talvez pensar que andar sozinho tem uma vantagem: um gajo senta-se à mesa e em menos de cinco minutos é abordado por metade do restaurante: "posso levar esta cadeira, por favor?" (A maioria das pessoas é polida). Enquanto há cadeiras livres ninguém está sozinho. Depois sim, ainda mais: pedem-nos cadeiras para irem para outras mesas, claro. E um gajo fica sem a possibilidade de oferecer um lugar à Jacqueline Bisset.
24.3.19
Lábios
Lábios ressequidos, lábios sedentos, saciados... Que lábios usarei para te falar? Não os posso usar todos ao mesmo tempo, como agora faço.
23.3.19
Sono, mundo
É de retórica que te falo, daquele conjunto de planos intersectáveis de que uma vida é composta, das facas que a cortam em fatias, dos pedaços de Lua que a preenchem e lhe dão forma, do sabor que o frio da manhã te põe nos lábios, da alegria simples dos amores complicados (ou vice-versa), da verdade toda que um polegar contém, igual à de um corpo.
É a retórica do desejo, a gramática do amor, o alfabeto dos dias de sol, o prazer líquido de construires uma torre cujo fim não sabes se é o céu, o inferno ou o limbo do que lhes fica entre, o limbo da mediania, a tangente a um sorriso que te agradece o calor, tangente cujo nome procuras e por vezes encontras, outras balbucias, outras ainda decides esquecer: o nome das coisas sem nome não deve ser recordado, a alegria tangível da flecha que ainda não saiu do arco, o mergulho lento no sono que te acolhe, braços abertos como um mundo.
É a retórica do desejo, a gramática do amor, o alfabeto dos dias de sol, o prazer líquido de construires uma torre cujo fim não sabes se é o céu, o inferno ou o limbo do que lhes fica entre, o limbo da mediania, a tangente a um sorriso que te agradece o calor, tangente cujo nome procuras e por vezes encontras, outras balbucias, outras ainda decides esquecer: o nome das coisas sem nome não deve ser recordado, a alegria tangível da flecha que ainda não saiu do arco, o mergulho lento no sono que te acolhe, braços abertos como um mundo.
20.3.19
Amanhã (provavelmente a palavra mais justa num diário)
Isto vai a ver-se, um gajo percorre o mundo de A a Z e descobre que o mundo está em M,, de Mértola. Descoberta que nada tem de estranho a quem percorreu o dito globo, claro: o mundo é o que queremos que seja, onde o queremos.
Procuro uma citação de Beckett para a) me confortar nesta ideia e b) exprimi-la correctamente. Há pouco tempo comprei uma edição trilingue de Mal Vu Mal Dit. A versão portuguesa é de um senhor chamado Rui qualquer coisa e devia chamar-se só Mal Traduzido. Esta mania que os tradutores portugueses têm de se subsituir ao autor é confrangedora, mas neste caso a inépcia é visível logo desde o prefácio. Nunca vi coisa mais pedante, mais redundante, cassante. Felizmente bebo um Cabriz e oiço os Carmina Burana de Clemencic: não há melhor antídoto para um balão de ar quente do que um par de pés na terra húmida e de repente a necessidade de citar desaparece. Apesar disso: "Absence meilleur des biens et cependant. Illumination donc repartir cette fois pour toujours et au retour plus trace. ... Et si par malheur encore repartir pour toujours encore. ... Au lieu de s'acharner sur place. ... Encore faut-il pouvoir. Pouvoir s'arracher aux traces. De l'illusion."
Hora de cama: os cânticos da liturgia eslava dos monges de Chevretogne substituem os bêbedos anteriores, eu deixo o sono entrar pouco a pouco, educadamente, pé ante pé e pergunto-me se estas linhas não estariam melhor no lixo. Amanhã saberei.
Procuro uma citação de Beckett para a) me confortar nesta ideia e b) exprimi-la correctamente. Há pouco tempo comprei uma edição trilingue de Mal Vu Mal Dit. A versão portuguesa é de um senhor chamado Rui qualquer coisa e devia chamar-se só Mal Traduzido. Esta mania que os tradutores portugueses têm de se subsituir ao autor é confrangedora, mas neste caso a inépcia é visível logo desde o prefácio. Nunca vi coisa mais pedante, mais redundante, cassante. Felizmente bebo um Cabriz e oiço os Carmina Burana de Clemencic: não há melhor antídoto para um balão de ar quente do que um par de pés na terra húmida e de repente a necessidade de citar desaparece. Apesar disso: "Absence meilleur des biens et cependant. Illumination donc repartir cette fois pour toujours et au retour plus trace. ... Et si par malheur encore repartir pour toujours encore. ... Au lieu de s'acharner sur place. ... Encore faut-il pouvoir. Pouvoir s'arracher aux traces. De l'illusion."
Hora de cama: os cânticos da liturgia eslava dos monges de Chevretogne substituem os bêbedos anteriores, eu deixo o sono entrar pouco a pouco, educadamente, pé ante pé e pergunto-me se estas linhas não estariam melhor no lixo. Amanhã saberei.
19.3.19
Cheira a leite
Em meados do século passado começou a feminização da civilização ocidental. Questão de tecnologia, dizem uns; resultado da luta das mulheres, outros; da morte de milhões de homens na Segunda Grande Guerra, arrisca quem não concorda com os dois primeiros.
Alguém me sabe explicar a que se deve a infantilização que actualmente vivemos? Assim, até se compreende a revolta das mulheres: estavam quase lá e são substituídas por adolescentes cujos cueiros ainda cheiram a leite.
Alguém me sabe explicar a que se deve a infantilização que actualmente vivemos? Assim, até se compreende a revolta das mulheres: estavam quase lá e são substituídas por adolescentes cujos cueiros ainda cheiram a leite.
Vida, gramática
Na gramática da vida o sujeito e o predicado nem sempre concordam, o complemento directo distrai-se e perde-se, o indirecto não sabe que verbo o rege, as preposições ligam termos mais desemparelhados do que meias depois da lavagem e dos advérbios só se safam os de modo, por causa do sufixo. Viver deve ser uma tentativa de escrever qualquer coisa de jeito nestas condições.
Incêndios...
Como numa pradaria queimada por um milhar de incêndios, todos eles ateados com a melhor das intenções, o mais puro dos amores.
18.3.19
Tesos? Nem isso
Vai fazer quase dez anos que o hospital de Cascais mudou de instalações. Hoje passei à frente das antigas, onde o meu Pai morreu.
O edifício - que fica em pleno centro de Cascais, para quem não sabe - está abandonado, a caminho de se tornar uma ruína. Não é caso único, claro, mas não deixa de ser revoltante verificar-se uma vez mais que Portugal é um país de tesos que nem tesos sabem ser.
Gostamos de viver entre ruínas e de reclamar quando alguém no-las tira.
O edifício - que fica em pleno centro de Cascais, para quem não sabe - está abandonado, a caminho de se tornar uma ruína. Não é caso único, claro, mas não deixa de ser revoltante verificar-se uma vez mais que Portugal é um país de tesos que nem tesos sabem ser.
Gostamos de viver entre ruínas e de reclamar quando alguém no-las tira.
Subscrever:
Mensagens (Atom)