3.6.19

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 03-06-2019

A bicicleta Panther avança depressa e silenciosamente por baixo do túnel de árvores da Rambla. É uma óptima burra apesar do peso e do contra-pedal, ao qual tenho uma certa dificuldade em habituar-me. É cedo, o ar está fresco sem estar frio, a bicicleta avança como água numa superfície impermeável, o sol levanta-se atrás de mim e parece empurrar-me. Vou buscar o carro e vou para o STP, o único sítio de Palma pelo qual trocaria o meu quarto apesar do cheiro, do tamanho e de ser no "segundo andar". Uma tenda no meio do STP... Penso em Hugh Hefner a olhar para as miúdas da revista mas num instante  ponho os pés na terra: para estas só posso olhar. São tantas, tão bonitas, ali tudo à vista porque estão varadas a pintar, reparar lemes ou aparelhos propulsores, trocar de quilhas. que sei eu?

No STP entrego uma máquina que comprara na sexta-feira, a massa volta para o banco e vou para bordo. O I. voltou de Inglaterra. Discutimos o trabalho do dia; é bom ver que agora já só falamos em montar peças, já não se desmonta nada, estamos a construir, a pôr no sítio, a discutir as opções de montagem. Dali vou para o café Acal, que é há um ano o meu escritório. Recebem-me alegremente, tentam adivinhar se hoje vai ser um americano ou um sumo de laranja...

Que fazer de um dia que começa assim, se não vivê-lo? Chego a casa às cinco da tarde. Ou seja: cinco minutos depois de acordar.

Por mais que se tente pensar na morte e no Menière e na diabetes eles repelem-nos, não é?

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A minha estratégia para perder peso sofreu um revés. Comer menos e beber mais não funciona, pelo menos no curto prazo.

2.6.19

Segundo andar, pronomes

Cada vez que voltava a casa via a luz do segundo andar acesa, qualquer que fosse a hora. Já amei uma miúda que vivia no segundo andar e mantinha a luz acesa, "para não te perderes", explicava-me. Infelizmente queria dizer "para não me perderes", eu não percebi e perdi-a. 

Ossos ao sol

Sentei-me ao sol numa cadeira em cima da rocha. Não havia um grão de areia ente os raios de luz e os meus ossos: era como ser crucificado por milhares de pregos embebidos numa droga qualquer que não só eliminasse a dor mas acrescentasse prazer, em micro-doses.

Dos ossos a luz transitava directamente para a medula, daí para o corpo todo e depois voltava ao sol, passando pela terra à minha volta. O sol é um dissolvente, o melhor de todos.

1.6.19

Estar, o verbo

Olhava para a vida como para as fotografias que tirara trinta anos antes: "eu estive aqui". Olha para a mesa, ouve as conversas, responde mecanicamente o mais das vezes e pensa "eu estive aqui". Esteve em todo o lado.

Como se o verbo não tivesse presente do indicativo. Só pretéritos: perfeito, mais-que-perfeito, imperfeito. Estúpido verbo este, tão incompleto. 

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 01-06-2019

Hoje fui à praia, um sítio aterradoramente bonito chamado Cala Lombards. O E. tem lá uma casa até terça ou quarta-feira, de modo nem sequer foi preciso ir para a areia, para o meio daquela gente toda. Um mergulho e um rum pré-prandiais, almoço no chiringuito, rum e mergulho pós-prandiais. É aflitivamente fácil gostar disto: o sítio é lindo e naquela casa um gajo sente-se como num barco que não se mexe.

Estou em terra há demasiado tempo, é o que é.

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Auto-diálogo matinal:
- Se fosse dado a essas coisas, a minha santíssima trindade seria Eric Tabarly, Leonard Cohen e Alejandra Pizarnik.
- Que fazes de Borges, Yourcenar e Beckett?

Aprendo assim a distinguir entre amor e fé, entre razão e sentimento? Talvez não aprenda, mas lá que confirmo confirmo.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 31-05-2019

Escrever no meu quarto é como fazer amor na casa de banho de um avião: só funciona nos filmes. Acendo três velas para ver se o cheiro a merda desaparece e venho para a Tasquita, mistura perfeita de espaço para escrever e animação distractiva dos disparates, serão com certeza muitos. Desde Genebra (e Londres, vá lá) que não estou numa cidade tão cosmopolita como Palma (suponho que a Lisboa hodierna o seja, mas não faço parte da comunidade imigrante).

A mesa de hoje parecia uma viagem àquele tempo: uma argentina, uma meio-holandesa meio-inglesa, uma jamaicana, um não-sei, um inglês e um português, quanto às nacionalidades. Orientações sexuais: três. A jamaicana e a meio-holandesa são "casadas" (com ou sem aspas), o não-sei é "casado" com um maiorquino (idem, mas o marido é rico e não estava ali), o resto opta por parceiros daquilo a que a Marguerite Yourcenar chamava a "inefável diferença" (invento. As aspas são abusivas; além disso o marido da argentina também não deve sofrer de problemas financeiros agudos). Havia ainda três ou quatro cachorros. As línguas faladas eram espanhol, inglês e português: a meio-holandesa e a argentina falam um português do Brasil quase perfeito e têm orgulho em mostrá-lo. A única diferença com Genebra é que naquele tempo ninguém falava português e quem falava tinha vergonha de o mostrar.

Gosto de estar ali, com um pé dentro e outro fora, como sempre: não sei estar e não-estar aborrece-me. Foi divertido, gosto muito da meio-holandesa e só me vim embora por causa das mamas da argentina: oprimiam-me de tão belas. Não sei se a megalomania pode ser diacrónica, mas caso possa: estaria pronto a apostar que a Janis Joplin disse aquilo ao Leonard Cohen a pensar em mim. A beleza é opressiva, sobretudo quando não lhes podemos tocar.

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Passei a tarde no carro, a guiar entre um dos múltiplos "poligonos" e o STP. Comprar ferramentas eléctricas, por um montante que já justifica estas viagens. Segunda-feira vou ter de devolver uma as máquinas que comprei, porque encontrei uma mais barata, mas não é isso que me marcou.

O que me marcou foi esta confirmação de que gosto muito de conduzir, sobretudo nas cidades. Só há duas coisas que não aprecio: a quantidade de manípulos, pedais, botões, volante que se devem manipular - três pedais, pisca-pisca, luzes, água atrás, água à frente, rádio, alavanca das mudanças, é um nunca mais acabar de coisas - e a atenção que se deve prestar à estrada. Conduzir seria uma actividade apaixonante se não incluísse estes dois escolhos.

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Há uns anos expliquei ao meu filho a teoria do Baudrillard sobre as duas funções das coisas: aquela para que são feitas e transmitir informação. Isto das velas é um exemplo magnífico. Comprei três no Mercadona (de tamanhos diferentes) por três euros. Na Rituals ontem pediam-me quinze euros pela mais barata, que não é fundamentalmente diferente e muito menos maior. Também as vi a vinte e vinte e cinco euros, numa loja cujo nome não recordo. Não sou especialmente frugal, mas pergunto-me o que levará um gajo a comprar velas pelo décuplo do preço.

Baudrillard explica e o tio Luís confirma: prefiro uma noite de mau cheiro a ser tomado por iletrado.

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História de talentos por descobrir: fui recentemente ouvir uns músicos ao Door 13, um excelente bar em Palma. Eram francamente bons e fizeram-me pensar nos seus equivalentes na vela. Não há: não temos Peyron desconhecidos, ou Tabarly ou Desjoyeaux.

Não sei se isto é uma qualidade ou um sintoma, mas opto por aquela.

31.5.19

Light, grace

The unlit summer in your face.

Gelo

Recordo esse corpo que amei como o patinador percorre o lago gelado: levemente, mal tocando o gelo.

Graus, penas e humor

Uma das muitas coisas boas da idade é um gajo aprender que a maioria das pessoas não percebe o humor. O segundo grau já é muito alto. E apesar disso divertir-se a servir-lhes piadas no quinquagésimo quarto grau, sem sequer sentir pena.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 30-05-2019

Devia fazer um roteiro de bebidas e bares: Painkiller no Soggy Dollar Bar em Jost van Dyke, uma das Ilhas Virgens Britânicas (BVI para os íntimos). Alexander no Procópio, em Lisboa, indubitavelmente o melhor bar do mundo e arredores, que certamente por simples coincidência tem o melhor barman do mundo (e arredores, vá lá). Margarita no bar de uma das marinas de Puerto Vallarta, no México. Não me lembro de qual mas aposto que seria capaz de lá voltar de olhos vendados, tão boa é a recordação que tenho daqueles baldes - piscinas - da mistura hipnotizante de doce e amargo, coabitam mas não se misturam, como aqueles rios no Brasil que correm lado a lado durante centenas de quilómetros. Piña Colada no Barrachino, em S. Juan de Puerto Rico, o bar onde foram inventadas e onde me embebedei com a minha filha, creio (que me embebedei. Estava com a minha filha, isso é certo). Mai Tai no Trader Vic's, em Oakland, onde me engrossei com uma das melhores tripulações com as quais me foi dado navegar.

Em La Guaira (ou pelo menos lá perto) bebi há muitos anos o melhor Cuba Libre de sempre - isto é um duplo oxímoro: para além daqueloutro óbvio, o Cuba Libre é um cocktail horrível. O do Paolo, um fascista italiano daqueles que defendia Mussolini porque põs os comboios italianos a andar a horas era simplesmente esplêndido. Não era o melhor por manifesta ausência de concorrência. Já não deve existir, vai para o arquivo. Mojito no Rana Dorada (o do Casco Viejo), na cidade de Panamá (nunca mais bebi um igual e o sacana do colombiano que mos fazia foi-se embora sem pré-aviso. Fiquei descalço de calças na mão). Whisky de malte no Piano Pub de La Rochelle, onde tive o privilégio, a honra, o prazer de aprender tudo sobre essa bebida pelas mãos do... do... do dono do lugar, uma torre com duas pernas e um bigode, jogador de rugby, montanha de sensibilidade com a qual hesitaria duas vezes - não, duas mil - antes de me bater com ele: um murro demolidor dado com sensibilidade é ainda mais demolidor, não é?

Escrevo no Tasquita d'Esquina, o único sítio em Palma que consegue rivalizar com o Antiquari e ganhar-lhe, tantas vezes. É provável que esta lista vá sendo acrescentada - lembro-me de uma Cachaceria em S. Luís, por exemplo; da Pilotine, em Dunkerque, também já passada àquele vasto terreno baldio da memória; da Casa do Largo, que era do Largo e do Luís e minha, onde escrevi algumas das poucas páginas decentes que escrevi; o Door 13 ainda não entrou para este panteão, mas falta muito pouco. Basta eu começar a gostar de cocktails modernos; lembro-me de um Dry Martini divino, genial, sublime - mas não me lembro de onde era...  Pouco importa: o roteiro é sobre bares, não sobre memórias. [Skullduggery, porra. Como consegues esquecer-te de mencionar o Skull? E o Palmar Tent Lodge, em Bastimentos, Bocas del Toro, Panamá??? Dark & Stormy em St. John's, Corral Bay. Come se chamava o bar? Quero lá ir agora.]

(Nota: o medronho da Tasquita acabou. Isto ou é maldição ou é azar: ao Fernet do Antiquari aconteceu o mesmo, ao vermute do qual eu gostava no Ca na Chinchilla também.)

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Animula vagula, blandula. Deambula, animula, passeia por essas ruas que ora te levam a um bar ora a ontem, bifurcações imprevistas: ou secas a adega aqui ou a secas ali e em todo o lado és bem vindo. Como é que fazem para não ver? Se calhar vêem e nesse caso quem não vê és tu, animula vagula, blandula, hóspede deste corpo que nunca verdadeiramente amaste e tanto te maltratou.

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Bifurcados, unifurcados, enforcados, forcados: morro num mundo no qual se morre por uma vírgula.

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Hoje quis comprar um livro de Gamoneda, mas a Babel não tinha.

"Detrás de la oscuridad están los rostros que me han abandonado.

Yo ví su piel trabajada por relámpagos. Ahora

ya sólo veo, en el instante amarillo,

el resplandor de sus lejanos párpados."


Ou então:

"Vienen con lámparas, conducen

serpientes ciegas a

las arenas albarizas.



Hay un incendio de campanas. Se

oye gemir el acero

en la ciudad rodeada de llanto."



É por causa destas coisas que queria comprar Gamoneda. Felizmente tenho a argentina selenita e sublime em casa, na cama mesmo ao lado da minha.

"La memoria es mortal. Algunas tardes, Billie Holliday pone su rosa enferma en mis oídos.

Algunas tardes me sorprendo

lejos de mí, llorando."


Nunca choro perto de mim, ou só raramente: detesto que me vejam chorar. É como ser apanhado a roubar no supermercado: toda a gente sabe que o fazemos por necessidade, mas isso não invalida a fundamental ilicitude do acto.

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Ontem pensava na resiliência da depressão; hoje penso na da vida, muito maior: "Somos todos uns farsantes, sobrevivemos aos nossos problemas".

30.5.19

A ver vamos onde isto vai parar

Compara-se tantas vezes o nevoeiro ao algodão. É compreensível, têm muitas coisas em comum. Não que eu as veja, claro: para mim, algodão é algodão e nevoeiro nevoeiro. Não percebo onde vão eles buscar parecenças. Devem ter um saco delas e depois tiram uma ao acaso. Eu gosto: são melhores do que as minhas, inexistentes de tão limitadas.

29.5.19

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 29-05-2019

Swing no Door 13. A banda é excelente: um viola, um senhor que alterna entre viola ritmo e clarinete e uma cantora com o físico do emprego - fina e alta - vestida a preceito e com uma energia impecável. Toca gaita de beiços e dança divinamente. É Suíça, fico a saber agora.

Começo com um Mai Tai, marginalmente melhor do que o do No Stress, onde estive antes (e provavelmente ao dobro do preço). Já a Marguerita é dez vezes melhor (e se calhar só custa o dobro). As coisas equilibram-se.

Seja como for, com música desta até whisky traficado se beberia. Felizmente o Door 13 é um bar sério, um speakeasy moderno, com produtos excelentes e profissionais quase tão bons como o Luís do Procópio, o Luís da ex-Casa do Largo ou o Senhor Miguel do Pavilhão Chinês.

Não me interpretam mal: este quase não tem nada a ver com a qualidade intrínseca dos senhores. Tem a ver com o facto de eu não os conhecer bem e nunca ter falado com eles.

Quem é quase sou eu.

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Somos o que somos quando interagimos com os outros. Sozinhos não passamos de nós próprios.

(A ideia não é nova mas a formulação é e preciso de a pensar. Era Borges que dizia "Todos acabamos por nos parecer com a ideia que os outros fazem de nós"? Era, creio.)

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Um gajo vai para a cama com uma senhora - bonita, por sinal - e a coisa resulta horrível, mais ou menos como tentar entrar numa parede de granito com uma colher de sobremesa. É uma situação que não tem culpados. Não há culpa. A coisa não funcionou, é tudo, seja qual for a razão.

Infelizmente, o nosso tempo transformou a culpa numa coisa pervasiva. Está em todo o lado. O acaso, a força das coisas, o tinha de ser desapareceram. Hoje há um culpado para tudo o que corre mal (e concomitantemente um herói para tudo o que sai bem).

Megalomania, é o que é. Precisaria de ser um Titan para sobreviver a tudo o que me correu mal se fosse eu o culpado, ou outro inocente qualquer. Reconhecer que as coisas são o que são e não há muito que possamos fazer é simultaneamente um reconhecimento de impotência e uma prova de força: não sou culpado e convivo muito bem com isso - e comigo.

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Uma das coisas que me impressiona na depressão é a sua resiliência.

(Cont.)

Transparência, opacidade

Transparência. É da transparência que gostaria de te falar, se por acaso tu gostasses de me ouvir. Nada é menos certo, o que só demonstra a opacidade do teu gosto.

Lembro-me de ti de costas à minha frente, mais opaca do que um passado. Nunca vi ninguém com tanta vontade de fazer do passado uma transparência como as que se vêem nos lagos de montanha. Bom, não importa. Não digas ainda, mas amar-te vai ser melhor hoje do que foi ontem.

Sombra de los días a venir

A Ivonne A. Bordelois

Mañana
me vestirán con cenizas al alba,
me llenarán la boca de flores.
Aprendré a dormir
en la memoria de un muro,
en la respiración
de un animal que sueña.

Alejandra Pizarnik, in Poesía Completa, ed. Penguin Random House, col. Lumen, pág. 202

Pergunta nómada

Viajar por onde já se andou conta como viajar ou é simplesmente regressar a casa?

Uma questão simples

A questão é simples: falar de mim é enjoativo; do resto irrelevante, porque há quem o faça muito melhor do que eu. 

28.5.19

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 28-05-2019

Menos três / duzentos e vinte e oito / zero. Três números que definem e delimitam outro glorioso embarque num avião: três boras antes da descolagem estava a duzentos e vinte e oito quilómetros do aeroporto, com zero meios de transporte definidos e muito menos reservados. Se volto a ouvir alguém dizer mal da internet, dos telefones portáteis e da modernidade em geral não sei o que faço. (Provavelmente nada; limito-me a pensar "idiota", ou "coitado", no caso de ele o ser já de antes). Desta vez quem me tirou de apuros foi a Blablacar e quem me meteu neles foi a habitual mistura de desleixo, falta de vontade de pactuar com companhias aéreas que de baixo so têm o serviço e a aplicação daquela regra simples da ética que diz "Não faças aos outros o que não queres que fe façam a ti."

As recompensas do outro mundo motivam-me pouco. Desta vez confirmei apenas que se pode ser correcto e atingir os nossos objectivos. Dependendo desses objectivos, claro. Devemos escolhê-los de forma a podermos comportarmo-nos de uma forma aceitável.

Enfim, vasto debate. A ética sai caro, é coisa de ricos. Ou se tem dinheiro para ela ou se aceita não o ter. Seja como for: agora é tarde para ser dono de um avião privado (a menos que me saia o toto-milhões, pouco provável porque raramente o compro), mas não é tarde para continuar a não fazer aos outros o que não quero que me façam a mim.

(Devo dizer que a minha bondade foi premiada com um par de mamas do outro mundo - o mundo jovem - generosa mas não devassamente expostas mesmo ao meu lado no avião? A ética compensa.)

..........
Chego a Palma e sou recebido de braços abertos, graciosa e opulentamente: depois de tratadas as formalidades do automóvel acorro ao Aurélio, que está a fechar e só me pode servir um vermute na brasa e me aconselha uma tasca do outro lado da rua que é, diz ele, muito boa. Diz ele, digo eu e dirá qualquer pessoa de bom senso ou bom gosto, coisa que às vezes sou. 

27.5.19

Monossílabos

Deito-me e embrulho-me em calor. O quarto tem ar condicionado mas não o ligo. Prefiro esta atmosfera quente, terna, aconchegante, na qual me dissolvo serenamente.

É segunda-feira mas a praça à frente do hotel está a abarrotar de gente. O barulho chega-me filtrado, como se ao ar quente faltasse energia para fazer de relai.

Apago a luz e preparo-me para não dormir: deixo-me simplesmente invadir por esta sensação de bem-estar com que um simples monossílabo conseguiu encher todos os interstícios da minha vida.

Diário de Bordos - Sevilla, Andaluzia, Espanha, 27-05-2019

Não é só as árvores, o calor e as mulheres bonitas. Há mais qualquer coisa que torna impossível um gajo não gostar destas cidades do Mediterrâneo mal lhes dá um passo pelos centros tortuosos, apertados e contorcidos como uma toalha de praia que se espreme para se lhe tirar o excesso de agua, depois de uma rajada a ter levado à água.

É o desleixo. O poder apelativo do desleixo é sistematicamente mal apreciado, passa despercebido mas a estética que dele resulta é poderosa. Esta mistura de arquitecturas imponente, pragmática, "o-que-pôde-ser", "estou-me-nas-tintas-para-o-que-os-outros-pensam", de ruas que não estão sujas mas tão pouco limpas, mesas que nascem como árvores e árvores onde não cabe uma cadeira só prova uma coisa: um mediterrânico é um tipo que sabe o que é a grandeza e convive com a desordem, sabe o que é belo e aceita a fealdade, é simultaneamente asseado em privado e sujo no público, entende que o caminho mais curto entre dois pontos é o mais bonito e não uma linha recta e - sobretudo - sabe dar valor ao que o merece e não dar ao resto.

Um mediterrânico sabe que o desleixo é a vida e a ordem morte. Ainda os termos entropia e neguentropia não existiam e já os mediterrânicos os aplicavam consciente e apelativamente.

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Por razões que têm a ver com o que têm a ver tive de ficar em Sevilha esta noite. Passei a tarde a dormir. Sonos velhos, acumulados, quase a perder a validade. Até amanhã terei de contar os cêntimos, literalmemte. O desleixo é bonito e caro, quase tanto como o voto.

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Escrevo numa tasca mesmo debaixo da televisão que aqui, ao contrário de Portugal, tem som. Programa de culinária. Um gajo qualquer que não vejo mas oiço diz que os "embutidos" são opcionales. Há alguma coisa que o não seja, minha besta? Tabarly (admitidamente a coisa mais perto de um deus que a evolução jamais criou) um dia fez um Pato com Laranja sem pato e sem laranja, só com arroz e diz quem o provou que estava óptimo, que foi o melhor pato com laranja de sempre.

(Verdada que tinha muito humor, um ingrediente que substitui praticamente tudo, na cozinha e fora dela.)

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Sacana do tele-cozinheiro não se cala. vou pregar para outra freguesia.

26.5.19

Pequeno dicionário de sinónimos modernos

Neoliberal: demónio, maligno, Satanás, Lúcifer;

Neoliberalismo: pecado, obras do demo, conjunto de acções, teorias e sonhos que junta ou separadamente constituem o Mal;

Aquecimento global: método pelo qual o Maligno tenta levar a humanidade ao Inferno, Mafarrico;

Ambientalismo: resposta das forças do Bem na luta de vida ou de morte contra o Mafarrico;

Capitalismo: outro método do demo para levar a humanidade à morte. É um metodo traiçoeiro porque finge que espalha prosperidade por onde passa. É mentira: só na aparência as pessoas ficam mais ricas, comem melhor, são mais livres e vivem nais tempo;

Verdes: pessoas, animais e outros seres que existem para desmascarar os malefícios do capitalismo, recorrendo às armas e artimanhas deste.

25.5.19

Votos

Que a tristeza te seja tão fugaz como a felicidade. 

Coisas, espanto

As "coisas" estão a correr bem, finalmente. Como um rio que corre do delta para a nascente: vasto rio, vasto e indefinível delta.

Daí as aspas: a que coisas se refere esse "coisas" que tão bem correm? Coisas atléticas? Coisas dessas geografias todas de que é feita uma vida: geografias de amores, trabalhos, geografias (passe a redundância)?

"Não sei, não quero saber e tenho raiva a quem sabe", diz a fórmula: limito-me a timonar o correr do rio, um bocadinho ofegante de cansaço, isento de impaciência... espantado, quase.

Compondo (como se pode)

A idade não me provoca engulhos de maior: sou indubitavelmente melhor pessoa agora do que há quarenta anos. Algumas funções estarão talvez longe do seu melhor nivel, mas enfim. Lá se vai  compondo.

24.5.19

Viver?

Mais ou menos como estar deitado em cima de uma passadeira rolante, acordar mesmo antes do fim, levantares-te ainda estremunhado de sono e correr para a outra ponta, tentar refazer o percurso sem dormir na forma.

23.5.19

Realidade, cânticos e tudo

"Human kind / cannot bear very much reality", dizia um tipo que percebia de terrenos e da humanidade. Penso nisto porque esta conversa do ambientalismo me leva àquela que me parece a verdadeira questão: por que raio de carga de água não pode a humanidade viver sem um demónio, sem um mal? Um gajo mata Deus e mata o Diabo ao mesmo tempo, claro; e a primeira coisa que o homem faz é substituir um e outro. Porque não se substitui só um deles, o bom, o Deus?

Porque um não pode existir sem o outro, estúpido. Que raio de religião seria o ambiente sem a ameaça de cheias, cancros e desgraças múltiplas?

Tenho absolutamente de reler o Cântico para Leibowitz. Estava lá tudo e lembro-me de tão pouco.

Lisboa, placenta

Colo-me à pele desta cidade mas por dentro: vejo-a como um feto vê a mãe, mexo-me nela como no líquido amniótico, dou-lhe pontapés mas são pontapés de amor, não de raiva.

Diário de Bordos - Lisboa, 23-05-2019

R. pensa que sou um idiota. Tem razão no diagnóstico mas engana-se quanto às causas. Desta vez o tema da nossa "conversa" (entre aspas por preciosismo) foram as "alterações climáticas" (agora, porque cito). Parece que vão provocar uma subida dos oceanos e inundar metade das terras habitadas, entre muitas outras catástrofes.

Confesso que o tema me desinteressa ao mais alto grau. Tenho um razoável conhecimento da catequese católica e outro - menor - dos catecismos muçulmano ou budista mas evito discussões sobre temas religiosos: cada um acredita no que quer, desde que não queime na fogueira ou bombeie quem não partilha semelhante clarividência (uso o termo sem sombra de ironia: o que faz de uma religião uma religião é a sua evidência, a sua auto-explicação. Os três pastorinhos não viram a Virgem por causa das sopas de cavalo cansado do pequeno-almoço. Viram-Na porque sim, porque ela estava lá, em cima de uma oliveira ou coisa que o valha, numa suspensão temporária e de outra forma incompreensível da gravidade e da razão).

O movimento ambientalista nasceu da falência do comunismo. Tinha eu vinte anos e os agora "verdes" eram conhecidos por melancias: "verdes por fora e vermelhos por dentro". É um movimento religioso anti-capitalista que substituiu outro movimento religioso anti-capitalista, o marxismo (felizmente. Sempre mata menos). Já tinha prometido que com a R. não falaria senão de flores, bordados e casas para velhos, mas ontem, obviamente não resisti e mal o mar começou a subir à mesa eu subi com ele.

Uma vez dei a volta ao mundo num cargueiro. Atravessei o Pacífico entre o Panamá e uma cidade russa chamada Nakhodka, na qual de resto mais tarde viria e encontrar uma das grandes paixões da minha vida. Demorei trinta dias - trinta - entre o Panamá e a longitude do Japão. (É inútil entrar em pormenores muito técnicos, mas não fizemos o arco de círculo. O comandante, numa decisão acertada, preferiu-lhe uma loxodromia mas isso agora é irrelevante. Seguimos pelos vinte e cinco graus de latitude norte até ao Japão e aí "virámos à direita"). Trinta e tal dias de viagem para atravessar um oceano num sentido só. Alguém imagina quanto gelo seria preciso para fazer aquela massa de água subir um centímetro? Teriam que ir buscar gelo a metade do Universo, suponho.

E toda a gente fala da subida do oceano como dantes falavam da "Luta de Classes". A malta do século XIX teve mais sorte: não tinha Deus mas tinha a ciência (depois descambou no "socialismo científico", um dos oxímoros mais mortíferos da história...) Hoje temos esta porra desta crença infantil e primitiva de que os oceanos vão subir, o glifosato vai matar-nos e o Rousseau era bom rapaz (o outro é que o topava: "il prend envie de marcher à quatre pattes, Monsieur, quand on lit votre ouvrage").

Enfim, resumindo: a R. tem razão. Sou um idiota, mas não por causa do meu cepticismo crónico. A minha falta de inteligência dispensa explicações, como a Virgindade Perpétua de Maria - o que as religiões podem ser maldosas - ou a Santíssima Trindade.

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Isto dito, o jantar foi óptimo, como todos são sempre em casa da J. Conheci-a por intermédio do Facebook e só isso chegaria para me fazer fã do Zuckerberg, se fosse dado a fanatismos.

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O P. continua a avançar a bom ritmo. A minha previsão inicial - no fim de tudo teríamos de esperar pelos panos - confirma-se, mas pelas razões erradas. Acertar nos diagnósticos e falhar nas causas é mal universal.

22.5.19

Encostar

"Se à minha encostares a tua..." De que raio me falava? Nunca percebi se era da pele, se da vida, da carteira ou dos nossos respectivos sexos.

Na dúvida, encostei aquilo tudo mais um sonho ou dois, que por vezes partilhávamos acordados e outras a dormir.

21.5.19

Um sonho de Mértola

Hoje comi um bocado de plástico. Já não me lembro porquê: foi num sonho. Era um plástico muito macio e colorido, como aquele onde vinha o papel fotográfico antigamente, preto de um lado e colorido do outro. O sonho foi particularmente movimentado, andava para trás e para a frente com dois modelos, a J. M. V., e mais um tipo que era o manager ou RP dos modelos e se parecia com um amigo meu cujo nome agora me escapa. É belga e trabalha em publicidade. Andávamos os cinco num grande automóvel a visitar lugares da moda. A certa altura parámos para almoçar, num hotel muito chique que me lembrou o Polana. Um dos componentes do almoço vinha no tal plástico, que eu comi. Toda a gente ficou horrorizada, mas ninguém disse nada. Os modelos eram duas miúdas de vinte e poucos anos, nunca lhes vi a cara; depois do almoço foram desfilar. Acordei a tentar explicar a mim próprio porque tinha comido aquilo, mas não encontrei razão alguma. No pátio do hotel estava um carro que parecia um Porsche mas mais largo. Alguém do grupo comentou "olha que bom, o James Bond também aqui está. Vamos ter uma enchente". Ainda me lembro dos assentos do carro, espaçados. Assim que de repente me lembre é a primeira vez que como plástico num sonho e é o primeiro sonho de que lembro em Mértola, se não se incluir os sonhos acordados. Esses tenho-os com frequência. Não incluem comer plástico, nem levar modelos a almoçar a hotéis de luxo e muito menos carros com três lugares à frente, em cadeiras futuristas, daquelas que se viam nos filmes de ficção científica dos anos sessenta.

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O P. está a avançar muito bem e depressa. Finalmente encontrei um carpinteiro / laminador (especialista em fibra de vidro, para quem não sabe. Em português também se diz assim?) que trabalha bem, depressa e - segundo o I. - sabe o que faz.

Esse é outro sonho frequente: ver o P. pronto. Aposto que vai parecer-me tão estranho como comer plástico num hotel de cinco estrelas.

Um dia hei-de navegar o Estreito de Magalhães nele, passar o Horn e ir a Chiloé.

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Estes dias meio oníricos do Festival Islâmico acabaram. A vila regressa ao silêncio habitual. É um sonho de vila, esta.

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Mandei um artigo à R., uma das raras mulheres por quem fugiria de casa (se tivesse casa, eu sei. Não tendo é fácil).

Tens sim, estúpido. É um sonho, mas é real. Demonstra que tens uma interminável capacidade para concretizar os teus sonhos, apesar de tudo; e uma ainda maior para os esquecer.

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Sem querer, apercebo-me de que faço uma belíssima descrição de Mértola: um sonho dentro de um sonho dentro de um sonho.

Preferência

Antes ser o primeiro e não ter ninguém atrás do que o último de uma fila enorme. 

20.5.19

Escolhas

Não ter nada a dizer é a melhor das prisões e a pior das liberdades. Não sei qual escolher.

Luz, escuridão e deuses

Estar cheio de sol é assim: és um pequeno deus. Os grandes deuses vivem na e da escuridão.

A ferros

Saem-me a ferros, as palavras ainda por escrever e os amores já amados.

Saudades

Tenho saudades do tempo em que te podia escrever, mulher. Poder escrever a alguém é dar um alvo às flechas, dizer-lhes para onde irem. Elas retribuem: índicam-nos quem amar.

15.5.19

Poesia para gente crescida e poesia infantil

Pensa-se em Pizarnik e noventa e nove por cento dos outros poetas parecem autores infantis. Quem fica de fora? Celan, claro; Pessoa; Pound? Teria que relê-lo, para ter a certeza. O Éluard de depois da morte da mulher; Saint-John Perse; Tagore; quem mais? Alguma ideia? Não me venham com os beatnik, por favor: esses são infantis mesmo sem pensar na Alejandra.

Diário de Bordos - Mértola, Portugal, 15-05-2019

Está calor, mas ainda não é daquele que se vê. Por enquanto, este sente-se mas não é visível. Desse, só mais lá para o  Verão.

........
A ideia de que a cerveja serve para matar a sede deve ser reavaliada. Deve beber-se cerveja quando se tem fome e beber vinho quando se tem sede.

........
Primeiras horas em casa. Quando é que uma casa é a nossa casa? Uma relação começa na primeira noite em que se dorme junto e não se faz amor. E uma casa, quando é que começa a ser nossa, quando é que deixa de ser um acampamento, mais um?

Não sei.

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Azáfama para o Festival Islâmico. J. diz-me que está tudo muito atrasado. Isto não é bem atrasado, é mais da matéria de que os milagres se fazem.

14.5.19

Curiosidades

Já por aqui devo ter contado a história da criação da minha primeira empresa; se não contei, ficará para outro dia. Comecei-a sem um cêntimo, perdi imenso tempo à procura de um barco de uma forma que hoje - há muito tempo, na verdade - sei que seria impossível não falhar, acabei por encontrá-lo emprestado, fui para os Açores - era a primeira vez que lá  punha os pés  - e fartei-me de ganhar dinheiro até apanhar uma multa por charter ilegal.

Depois disso continuei a ganhar dinheiro, embora menos; e resolvi fazer as coisas mais de acordo com a legislação. Aí começou uma espécie de corrida de obstáculos, os cem mil metros barreiras, como lhe chamava. Para além da distância, esta corrida tinha três características que a diferenciavam dos banais cem metros:
a) os obstáculos não eram todos da mesma altura - alguns eram muito mais altos do que outros -; b) apareciam ao acaso, não estavam visíveis desde o início e c) entre as barreiras havia minas escondidas. Um gajo ia a correr e de repente aparecia-lhe uma barreira à frente; tudo o que havia a fazer era saltá-la. Às vezes lá dava para a contornar, com um bocadinho de jogo de cintura, sabendo que isso não passava de adiar a solução, sempre e só uma: saltar. Depois explodia uma mina. E assim iam os dias passando, alternando minas, barreiras altas, baixas, que apareciam e desapareciam sem se perceber como.

Curioso, não é? Isto aconteceu em 1985...

Avenida da Liberdade, nº 1

Suponho que todos os primeiros livros têm uma história por trás deles. Não vale a pena chatear as pessoas com mais uma.

Mas lá que estou feliz, estou. E grato.

Avenida da Liberdade, nº 1

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 13-05-2019

Há em mim uma espécie de perversão que consiste em reagir negativamente à pancada. Isto é, reagir ao contrário: em vez de dizer "Que se foda, ganharam" e mandar a toalha para o meio do ring, perguntar-me "Como vou resolver esta merda?" ainda mais teimosamente. É como se a cada murro ficasse mais resoluto, mais determinado. Foi isso que me fez aguentar a catástrofe dos Açores tanto tempo, ir às cordas a cada projecto ou no Burundi ganhar a guerra com a Alfândega (uma vitória de que posteriormente vi a futilidade e o erro e vim a lamentar, mas que não deixa de ser uma das mais bonitas da ninha vida - como de resto muito do que vivi naquele ano).

Há dois filmes de ou com Paul Newman que falam desta - insisto no termo - perversão. Um chama-se Never Give an Inch (aliás Sometimes a Great Notion, diz-me o IMDB). O outro chama-se Cool Hand Luke. Vi-os há muitos anos, quando ainda ia ao cinema. As pessoas dizem que perder é não ir à luta, mas quando isso não me parece uma malvadez - tem alguma nobreza, vá lá - passa a simples burrice. No caso dos filmes é impossível não apreciar as personagens, mas vida é vida, não é cinema.

Hoje tive um dia desses, um dia em que me pergunto por que raio de carga de água "as coisas" insistem em fazer de mim um saco de porrada. E logo a seguir, no mesmo movimento, "como raio hei-de foder estes gajos?" sendo que "foder estes gajos" consiste simplesmente em encontrar alguém de confiança para acabar o interior do P. Não é muito, mas para mim é mais do que imaginar Sísifo feliz e livre: é imaginá-lo a pôr a porra do calhau no cume da montanha, descer de lá satisfeito e - aí sim - livre, a esfregar as mãos de contentamento.

.........
Um dia de merda mas acabou bem, tão bem quanta a merda foi merda: o DV vai finalmente transformar-se em livro (em livros, espero) e hoje deu-se o primeiro passo da primeira etapa dessa viagem. Digo "finalmente" porque o processo foi longo, difícil e tortuoso, uma espécie de tango mal dançado, resolvido no fim graças à determinação e insistência de J.M.V. e ao pior transporte da minha vida - Deus sabe se os tenho tido maus -. É como um parto por aquelas mães que recusam a gravidez, fazem o que podem para abortar sem abortar directamente e o filho nasce-lhes apesar de tudo. Neste caso não só nasceu como me deixou feliz. Que vivam, a vida e a liberdade e tudo o que elas nos trazem.

.........
Este refit é de longe o maior projecto deste tipo no qual estive envolvido como responsável. Parece-me um rio alimentado por centenas, milhares de afluentes: tudo o que fiz até hoje vem desaguar aqui. Sinto-me como uma criança com poderes mágicos ou um super-homem sem eles: em qualquer dos casos estou desarmado e tenho armas, nu e tenho roupa num armário qualquer. Basta-me procurar: já passei por eles todos, só que isoladamente. Agora todos os rios, riachos, ribeiros da minha vida, todos sem excepção convergem para aqui, para este dia, este ano, este barco.

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É assim: estar no pico e na cava da vaga ao mesmo tempo, como o gato do outro; amassado e lutador como o Newman nos filmes; ou simplesmente teimoso, como sempre fui.

13.5.19

Frio

Estou com frio, mas não sei se vem de fora ou de dentro. Por mais que me cubra não passa.

12.5.19

Aconchego

Hoje morreu o pai da M., que é um dos meus melhores amigos (a M.) e eu estou triste com ela, por ela, apesar de isto de os pais morrerem ser tão frequente,  acabam todos por nos deixar ali especados no meio da rua a perguntar "E agora?" enquanto o trânsito continua a toda a velocidade em todas as direcções e nós de repente sozinhos, nós de repente a perguntar-nos se fizemos sempre o que devíamos ter feito sabendo perfeitamente que não fizemos mas agora é tarde, vamos ter de viver sem o aconchego, sem a calma e a sabedoria e a simples presença do Pai, ali especados sozinhos.

Beijo-te, minha querida M.

11.5.19

Dispersas do dia - 11-05-2019, Palma

É sabado, está calor desde o fundo do ar até à medula dos ossos, o mercado começa a encher-se. A excitação no ar é tangível. As vendedoras estão mais bonitas do que o habitual: esta mistura de calidez e perspectiva de dinheiro a entrar estimula-lhes a produção de adrenalina e progesterona, uma combinação que transforma qualquer mulher em Miss Universo.

Por uma razão qualquer, a perspectiva de beber vinho não me atrai. Acompanho a carbonara com cerveja. Esta carbonara resiste a tudo. Enquanto me lembrar dela não conseguirei comer outra.

(Verdade seja dita: o meu estômago está ligeiramente perplexo. Mando-o dar uma volta ao bilhar grande e pergunto ao Luca onde encontrar um restaurante italiano que tenha pratos a sério. A cozinha italiana é a prova de que a civilização começou em Roma e esta merda destas pizze e pasta são uma praga - com a óbvia excepção das do Luca, mas isso é outro campeonato. Ele está muito à frente na conquista do título de melhor pastaio da galáxia e de qualquer maneira aquilo não é um restaurante. É um stand no mercado.)

O meu estômago está inseguro quanto à cerveja, suponho. Peço outra, não vá ele pensar que uma simples noite de copos lhe dá todos os direitos.

Às vezes penso na minha vida como um tricot, outras acho que ela se parece mais com um quebra-gelos a avançar através de uma camada de gelo no limite do que ele aguenta. O gelo faz barulho ao partir-se, reclama, luta. O quebra-gelos prossegue, nem impávido nem sereno.

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Acabo o almoço, a deambulação pelo mercado e venho deitar-me, decisão aprovada por quase todos os órgãos. Quase: os que não estão contentes que se amanhem.

Limpezas e arrumações

É forçoso - mas longe de ser um sacrifício, muito longe - reconhecer que a noite de ontem foi uma grande noite de copos. Cumpriu integralmente as funções dessas noites: limpar os circuitos sinápticos dos macaquinhos que por eles se passeiam (aos quais às vezes chamo demónios, mas isso é quando estou para choraminguices, pieguices e outras paneleirices. Hoje - e espero que daqui em diante - isto devia durar para sempre. "Isto" sendo esta alegria, esta leveza de ter o sótão limpo e arrumado).

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 10-05-2019

Onde começa um dia? Quando acaba: quando deixou de ser dia, quando deixou de ser trabalho? Não sei e pouco me interessa. Hoje começa pelo fim, pelo 7 Machos, que tem a melhor Tequila e os melhores nachos a leste do Pecos - e a dona mais bonita, aposto -. Foi lá que perdi o Ch., que já mal podia andar. Lembrou-me uma vez que levei um gajo a Setúbal de táxi. É uma história triste e não a vou contar aqui.

Antes dos 7 Machos estivemos num sítio absolutamente magnífico chamado Art Mobles i Vins, em maiorquino. É uma espécie de tangente do kitsch e da arte, mas isto tem muito que se lhe diga. Tomei bastantes notas. Com um pouco de sorte amanhã ainda estão legíveis.

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O lado feio da vida é o kitsch. O lado bonito do kitsch é a vida. Estão demasiado entrelaçados, eu sei.

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Há um ponto nevrálgico no qual a arte e o kitsch se encontram, Quem se ri de um não percebe o outro: a arte e o kitsch tocam-se no mesmo ponto em que a vida toca o belo e o feio toca a vida,

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Toda a gente sabe que o melhor cocktail do mundo se chama Painkiller. A seguir vem o Gin Tonic, que refresca e engrossa simultaneamente.

O Alexander do Procópio está obviamente fora de competição, como os filmes em Cannes e a Jacqueline Bisset.

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Se fosse preciso escolher entre comer e beber de mais escolheria sem dévida beber de mais. Comer muito é feio, é um desperdício interiorizado. Pelo contrário, beber muito é a utilização nobre dos recursos postos à nossa disposição para fazer do mundo um lugar suportável.

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Das quatro pessoas ao balcão, três estão agarradas ao telefone. Sobro eu, agarrado ao tinnitus, à vontade de te ver, ao saber que essa vontade é fútil, vã e infantil. Estéril. Agarro-me a quê, então?

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Kitsch? Arte no primeiro grau? As pessoas aqui já viveram mais do que metade da prisão, metade do convento, metado do hospital e metade do hospício viveram e não passam de uma dúzia de gatos pingados e velhos. A idade média do sítio não deve andar muito longe dos setenta anos, se excluirmos os empregados e a cantora, uma mulata linda, prova viva de que os racistas não só não percebem nada como ainda são punidos, coitados.

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Palma é um carnaval permanente: aldeia disfarçada de cidade grande, cidade grande disfarçada de aldeia.

9.5.19

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 09-05-2019

"Je suis devant ce paysage féminin
Comme un enfant devant le feu"

É um poema triste, por muito elegante que seja na tristeza mas é nele que penso cada vez que venho ao STP.

Je suis devant ces bateaux
Comme un enfant devant le feu...

É mais preciso, mas não é isso ainda. É assim:

Je suis devant ces bateaux 
qui se font choyer, câliner, dorloter,
caresser par des mains habilles et des regards aimants
Commue une gamine dans un hôpital de poupées.

Menos bonito, claro; mas mais descritivo. É exactamente isso. Se pudesse, seria no STP que viveria, a olhar para aquela beleza toda, para os cuidados que centenas de homens e mulheres profissionais e competentes lhe prestam, para o desvelo. É essa a palavra: desvelo.

........,
Se alguém pensar - correctamente - que Lisboa é uma cidade que se esconde, não se dá a ver: venha a Palma. Quanto tempo será preciso para se poder dizer "Conheço Palma"? Isto é, quantas vidas? Estou aqui há um ano, quase sempre no mesmo bairro e ainda não o conheço.

Hoje, por exemplo, descobri uma vermuteria cujo nome é ... não sei, não me lembro. Simplesmente porque decidi ir da Sifoneria à Tasquita por uma rua diferente da habitual. Fui recebido por uma senhora gorda e feia com um som parecido com um rosnido e uma frase que soava vagamente a "o que é que queres?" Quando saí já estava mais amigável, pouco. Pelo menos falava. A última vez que um estrangeiro ali entrou deve ter sido mais ou menos aquando da última invasão de piratas, lá para o século dezoito ou coisa que o valha.

Lamento, señora, mas a partir de agora vai ver pelo menos um estrangeiro muito mais vezes.

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Há cidades assim, feitas para nos perdermos - que só se abrem a quem se perde por elas.
Há livros que não se deixam reler, porque se lêem sempre pela primeira vez.
Há vidas que não se perdem, porque todos os dias as perdemos e as vivemos pela primeira vez.

Mértola, traço-de-união

Mértola é um de traço-de-união entre o campo e o mar. Os mais preciosistas dir-me-ão: "Traço-de-união é o rio, sua besta". Como de costume, os preciosistas não teriam percebido nada, se me tivessem dito isso. Ainda não disseram.

O traço-de-união é Mértola e o rio a sua expressão gráfica.

8.5.19

Dispersas do dia - Palma, 08-05-2019

Deixo aqui uma pergunta aos condutores de automóveis de Palma: se não buzinam quando o sinal muda para verde, como querem que saiba que o sinal mudou? Ou vocês pensam que um gajo está parado num semáforo a olhar para as luzes feito Ayrton Senna?

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Alguém me trouxe à memória o Dicionário Khazar, um daqueles livros que nunca se relêem porque cada vez que se os lê é a primeira vez.

Trouxe à memória não é a expressão adequada: nunca dela saiu.

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Uma expressão francesa (ou será suíça? Não sei) de que gosto muito: le fonds de l'air. Aplica-se à temperatura: le fonds de l'air est frais (ou chaud, ou tiède). Usa-se quando há uma discrepância entre a temperatura que se sente e a do "fundo do ar".

Aqui em Palma o fundo do ar deixou de ser fresco. O bendito calor está à porta.

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A continuar assim não tarda tenho o convés do P. impermeabilizado. Para acabar a electricidade falta pouco. O tanque de água vai chegar "em breve". O gerador não é uma prioridade. Basta-me tê-lo a bordo, se não estiver ligado agora liga-se depois; a madeira podre dos fundos foi toda removida. Amanhã retomamos o trabalho de refazer os apoios para os paneiros. Acabar de montar e pintar o convés. Capação. Provas de mar. Costa Brava. Charter. Navegar. 

7.5.19

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 07-05-2019

Chegas a bordo e ficas contente com o avanço do trabalho. Chegas a bordo e desesperas com a lentidão do trabalho. Seria melhor ter um temperamento bipolar para aguentar estes dias sem chegar exausto ao pobre do blogue, coitado.

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Hoje foi dia de mergulho outra vez, tirar o plug [alguém me ajuda na tradução, se faz favor?]. Não saiu, tal como era de esperar. A madeira inchou, vai ser preciso um mergulhador. Encontrei que me faz o serviço "por uma garrafa de Porto". É o marinheiro mais porreiro do clube; o ano passado trouxe-lhe uma de presente. Desta trago-lhe duas.

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Isto dito: vai devagar, mas vai. E - sobretudo, sobre muito tudo - vai bem. Já consigo vê-lo a navegar. Está tão impaciente como eu.

O nome da rosa

Simples questão de pegares numa rosa e a mandares à Lua com um bilhete se ida simples. Deixa-a crescer naquele lugar inóspito e por lá envelhecer,  regada sabe-se lá por quem.

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Imagina o começo de um dia de Lua Cheia. A Lua está visivel no horizonte,  a praia-mar será por volta das duas da tarde (se estiveres nas nossas latitudes, algures entre os trinta e os cinquenta graus), tu sais de casa, do teu camarote, de um bar no qual a noite se arrastou, de uma cama que te custa deixar, de um quarto que nunca mais acabou: que fazer daquele disco agora pálido e cuja função te parece ser arrastar água de um lado do planeta para o outro, inspirar poetas medíocres (como tu) ou grandes parangonas nos jornais sobre a "super-Lua"?

Planta-lhe uma rosa, deixa-a crescer regada apenas pelo teu olhar. Dá um nome a essa rosa: Ana, Rita, Helena, Sandra, Tatiana, Paula, Diane, Alexandra, Viktoria, Tsombé, Isabel, Suzanne, Ilse...

Um nome, estúpido. Só um.

6.5.19

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 06-05-2019

Que dizer de dias que se atropelam uns aos outros? Não é "um automóvel desgovernado atingiu um peão na passadeira", mas sim "vinte automóveis parcialmente governados atingiram um peão parcialmente atordoado".

A minha habilidade manual é nula; espero ter mais capacidade para lidar com vinte bolas no ar, das quais mais de metade não obedece às leis da gravidade que todos conhecemos.

Melhor não dizer nada: atravessar a pista com a banda toda a tocar, não pôr o pé na caca de elefante porque é difícil tirá-lo, não deixar o público aperceber-se de que o circo está rodeado de tanques. Fazer de Rommel no deserto mas não aceitar a opção oferecida. Seguir em frente. Ganhar a guerra.  Navegar como os pilotos das lanchas em Bocas del Toro: acasalar com as vagas, não as atravessar.

Acasalar com os dias, com a vida. 

Peço justiça

As palavras andam por aí aos magotes, aos trambolhões mas há quem mas escamoteie, quem mas açambarque, quem mas desvie. Enfim, o "açambarcamento" era um crime, nos idos do PREC; o roubo é um, hoje; e o desvio, o rapto também mas não sei se palavras podem ser incluidas no código penal como vítimas. "Aquela senhora roubou-me as palavras, senhor doutor juiz; raptou-as, guardou-as com ela e não mas devolve, por mais que eu faça. A única maneira que tenho de a magoar é dizer-lhe quanto gosto dela, veja lá; porém, quanto mais lho digo mais ele me tira as palavras das mãos. Sim, das mãos: estou longe dela, se falasse ela não me ouviria. Escrevo-lhas, bato-as no teclado do pobre computador que não tem culpa nenhuma, coitado. E nem assim ela mas devolve. É que nem um "Boa noite" senhor doutor juiz. Peço justiça."

4.5.19

Energia matinal

Se por acaso amanhã de manhã te sentires capaz de mover planetas, cometas, estrelas e astros diversos: começa por te levantar da cama.

Melhoramentos selectivos

É este danado problema da entropia: tudo se degrada à tua volta. Tu não, claro. Antes pelo contrário,  estás cada vez melhor. Como se o tempo soubesse escolher: tu dum lado e o resto todo do outro. As coisas não aprendem, é uma maçada.

Só não se percebe é como com tanto melhoramento tu não aprendes a lidar com elas.

3.5.19

"Until it's time for you to go"

É um erro pensar que esta canção se refere apenas às relações entre um homem e uma mulher.

https://www.youtube.com/watch?v=8wgZmVvs-Xk

Vinho quotidiano, frio

Escrevo-te, escrevo-me, escrevo esta Palma chuvosa, fria e triste. Chovem-me por dentro, tu e a tua distância, a tua ausência, fazem-me frio, tu passeias-te por mim como eu nestas ruas molhadas, escorregadias, sozinhas.

Resolvi comprar uma boa garrafa de vinho, quero mudar do vinho de todos os dias, é um bocadinho como querer mudar da tristeza de todos os dias, não é, a tristeza habitual, tão habitual que já nem se degusta, como o vinho quotidiano.

Como a tua ausência, estas palavras que te procuram como a boca de um afogado procura o ar, esbracejando. Logo provarei o vinho novo, a tristeza nova, a solidão de sempre, o frio e a chuva de hoje.

Há cidades que não são feitas para a chuva, como Palma; há lábios feitos para  chamar por ti, os meus; corpos para ser amados, tu. Choves-me por dentro, mulher e eu pouco mais tenho do que o vinho quotidiano, o casaco que me deste, o frio.

1.5.19

Imbecilidade, amor e outras coisas

Devíamos, todos juntos cantar uma lauda à imbecilidade. Todos: não há ninguém que não tenha um imbecil à mão de semear. Um imbecil favorito: para mim um socialista, para um socialista um liberal e assim por diante.

Simultaneamente faríamos um hino ao amor. Teria  menos clientes mas seria muito mais honesto. 

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 30-04-2019

Há muito tempo que não fazia isto: vir à Babel comprar um livro, sentar-me na esplanada (esta ou a da Antiquari, ao lado), ler e beber um copo de vinho enquanto oiço o músico que por acaso está nas escadas. Hoje é um sax, bastante bom, por sinal. Começou com Take Five. Um dos livros que comprei é uma pequena compilação da Pizarnik, apesar de já ter as obras completas dela. Mas Pizarnik é Pizarnik e viver sem a ter ao lado é como pintar com uma paleta sem metade das cores; ou viver sem passado.

"No me entregues, 
                              tristísima medianoche
Al impuro mediodia blanco"


Tristísima medianoche...
Mediodia blanco...

Onde é que este poema foi escrito? Por quê, por quem? "No me entregues"

Não foi de certeza neste fim de tarde maiorquino, na praça de onde nasceu a minha primeira estadia em Palma. Sem Pizarnik a vida é um quadro pintado por um pintor daltónico.

..........
Algumas pessoas não gostam do calor. Compreendo-as tão bem como se me dissessem "não gosto de e=mc2". Ou "Não gosto de g=9,8m/s2".

.........
O grande problema de escrever é que enquanto escrevo não leio. Vinte volumes meus não valem uma vírgula da Alejandra. "Escribo contra el miedo. Contra el viento con garras que se aloja en mi respiración."

........
Acabei a jantar com F., o dono do Antiquari e um amigo dele, pintor. Não sei se posso dizer que foi uma seca, porque foi. O homem deve ter sniffado uma linha de coca de Lisboa a Cascais e volta.

........
"en esta noche en este mundo
extraordinario silencio el de esta noche
lo que pasa con el alma es que no se ve
lo que pasa con la mente es que no se ve
lo que pasa con el espíritu es que no se ve
¿de onde viene esta conspiración de invisibilidades?

Ninguna palabra es visible
..."

Não sei, Alejandra, não sei de onde vêm estas conspirações todas. Somos invísiveis, tu menos do que eu, felizmente. O mundo ganha com o que tu não vês mas advinhaste com tal clareza que te fez morrer.

A tua paleta só tem cores densas, escuras e foi a claridade que te matou.

..........
"Había que escribir sin para qué, sin para quién". 

29.4.19

Palma, subir na vida: Fragmento

(Mas antes devo dizer que tive um dia de merda e que se essa merda tingir este post é merda do dia, não é merda de mais lado ou lapso nenhuns.)

Comecemos pela cidade, adorável. Poderia viver aqui e pensei nisso muito tempo. Agora menos, falta-me a cultura, aquela efervescência cultural de Lisboa, a família de Genebra ou a perspectiva de futuro de Mértola. De resto é linda, é um paraíso para quem anda de bicicleta - oiço menos buzinadelas em Palma num ano do que em Lisboa numa semana - e há dinheiro, o que significa que as miúdas são giras, a comida boa, as livrarias bem recheadas e as ruas limpas.

Os indígenas são sui generis, mas à custa de não te dares com eles aprendes a conhecê-los, respeitá-los e até, em alguns casos mais raros - apreciá-los. São fechados como ostras - mas curiosamente não chauvinistas como os catalães. Ignoram-te, simplesmente. Não se dão sequer ao esforço de te detestar ou sentir sejo o que for a teu respeito. Aqui, os estrangeiros dão-se com estrangeiros. Podes viver vinte anos em Mallorca sem aprender espanhol e ninguém acha isso estranho.

Há duas Palmas: a dos locais (que inclui turistas, "expats", "yachties" e outros palermas) e a dos nómadas, a dos gajos que sabem que não são daqui mas se estão nas tintas porque de qualquer forma tão pouco são doutro lado. A minha é esta, claro: uma cidade onde flutuo sem raízes mas com afectos, sem futuro mas com passados. Vivo numa guesthouse muito bonita, que vou ter de deixar esta sexta-feira porque os preços vão subir; eu subo também, para o segundo andar da mesma casa, o andar rasca. É a minha forma de subir na vida.

AMDG

Não sei se é legítimo um ateu como eu pensar AMDG quando um sublime (ou será divino?) par de mamas vem sentar-se na mesa em frente. Seria de certeza se se tivessem sentado à minha frente na mesa. Agora na mesa em frente não sei. Penso que sim. AMDG.

PS - Se contiverem silício, então as laudas vão para a indústria quimica e para a medicina moderna.

PPS - Na mesa a seguir um senhor velhote (mais dez anos do que eu? Qualquer dia não poderei chamar-lhe velhote) partilha o meu fascínio e tenta trocar olhares cúmplices comigo sem que a senhora ao lado dele veja.

28.4.19

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 27-04-2019 / II

Door 13: um rapazinho com voz de rapazinho (bem educado) a passar de Lou Reed para Leonard Cohen e a assassinar os dois, mas estranhamente ainda não me chateei o suficiente para me chatear. Limito-me a pensar como eram as canções originais (Walk on the Wild Side e Hallelujah) e oiço tranquilamente, sem solavancos. O escorrega funciona bem.

Funcionaria melhor se me levassse a St. Johns, nas USVI, beber Dark & Stormies bem feitos; e daí ao Soggy Dollar, em Jost van Dyke, beber Painkillers até ficar a voar como o Superman só que um bocadinho de lado e aterrar em Oakland para beber Mai Tai até me esquecer de querer voar.

O S. do Door 13 foi simpatiquíssimo, contente por me ver de novo e tudo. Não ouvi três quartos do que ele me dizia. Qualquer dia estarei surdo do ouvido direito e pergunto-me como vou lidar com isso? Dizer às pessoas que sou surdo, obrigado? (Como faço com o esquecimento dos nomes...) Não sei. Por enquanto o problema não é a surdez, é o acufeno. Mais uma ponte a atravessar quando lá chegar.

O rapazinho bem educado continua na sua "desconstrução". Bob Dylan já por lá passou. Agora é Wish You Were Here. Tem pelo menos um mérito, mas preciso de o identificar. (Não é ironia. Isto não é mau de todo. É só esquisito).

O Dark & Stormy está uma merda, mas é grande, vá lá. O gajo põe canela nisto. Canela num Dark & Stormy! Por menos do que isso pessoas morreram. Eu não morro, mas também não vôo. Bebo-o tranquilamente e penso que esse é o melhor advérbio de modo da língua portuguesa: tranquilamente.

Abençoadamente. Solitariamente. Silenciosamente. Há tantos pretendentes ao titulo.

O Alexander salvou a honra do convento. Não há natas, mas ele (o Giovani, não o outro, mais recente) substituiu-as por Baileys e a coisa funciona.

Isto é: acrescenta mais um destino ao meu vôo: o Procópio, em Lisboa, ao Jardim das Amoreiras. O barman chama-se Luís. Com o outro Luís, da falecida Casa do Largo e com o Sr. Miguel do Pavilhão Chinês integra o (meu) pódio no concurso inter-galáctico de barmen.

O rapazinho bem educado sentou-se à mesa das italianas bêbadas e chatas. Há muitos anos pensei que morrer de Sida seria uma boa forma de morrer e fiz tudo o que pude para atrair os respectivos vírus (menos injecções, claro, é coisa à qual nunca me habituei). Por uma razão qualquer aquilo não funcionou, os vírus declinaram - simpaticamente, acrescento agora - o meu convite e o exercício custou-me um número incalculável de noites com prostitutas de rua (isto é mentira. Estava em noite de choradinho. Descobri depressa que afinal o caminho para o Sida não era assim tão bom), uma noite de castidade com uma rapariga que ainda hoje deve estar a perguntar-se por que raio de carga de água a recusei, alguns dias de ansiedade quando fiz o primeiro teste (negativo. Os outros a seguir confirmaram, mas já não estava ansioso) e - sobretudo - a decisão de nunca mais voltar a deitar-me com uma mulher para a qual precise de camisa-de-Vênus. Seja ela quem for, incluindo italianas bêbedas, por bonitas que sejam.

São.

A música no Doir 13 deixou de ser ao vivo e melhorou bastante. Não me interpretem mal: o rapazinho não era mau. Era assim assim. Tem um chapéu à Neil Young. A italiana (só vejo uma. Não sei para onde foi a outra) está demasiado bêbeda para saber o que quer. Eu não estou e sei: ir para casa.

........
À saída tive direito a uma degustação de runs. Dois Mount Gay que confirmaram o que sei deles; um rum da Reunião de que não gostei, por demasiado doce; um Plantation de Barbados: fraude simples; e um Clément branco, delicioso. Esta ideia de que só os runs castanhos é que são bons devia ser revista.

Não o será tão cedo, imagino. Ainda bem.

27.4.19

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 27-04-2019

De que é feita uma noite em Palma? De uma mistura de vinho tinto, Palo, vermute, hierbas secas, de Sifoneria, Cala Seu, hoje entrou um pouco de cerveja - é raro mas acontece - o medronho da Sandra também entrou definitivamente no circuito, os vermutes (antes) e (agora também) as tapas do Can Rigo, a Bodega Belver, o Moltabarra, a 5ª Puñeta, tudo isso de bicicleta por estas ruas senhoriais. Não esquecer o Ca na Chinchilla, o Antiquari - esquecer este seria como esquecer a mãe num texto sobre a família - a Biblioteca de Babel, o bar Rita, onde hoje comi uma Serranita deliciosa e vi que a miúda do bar (e acessoriamente mulher do patrão) é ainda mais bonita do que eu a recordava e já era muito, da Sifoneria, outra vez, sempre. A U. é daquelas miúdas que um gajo leva ao altar antes de levar ao hotel, tão diferente fisicamente da S. e tão igual no resto, alemã até ao tutano e aqui há tanto tempo... Hoje passei por um sítio simpático, estava uma senhora a tocar guitarra e a cantar com aquela voz que numa mulher faz de mim um bocadinho de manteiga ao sol, parei e sentei-me, estava lá o D,, um baixo que gosto de ouvir. Pedi uma cerveja - hoje a noite incluía-as - e logo a seguir começou uma cena de pancada, muito nada de especial, só uns empurrões mas vim-me embora. Não me apetece estragar a noite com dois idiotas bêbedos à porrada.

E o dia, de que foi o dia feito? Comecei a combinar com o I. a minha próxima ausência, é uma merda que me chateia mas tenho de ir, isto de um gajo tentar respeitar a palavra dada é uma porra, a palavra empobrece, não nos torna mais ricos (isto é um choradinho indecente que para começar não se aplica de todo a este caso e para continuar é irrelevante e só aqui ficaaté à próxima revisão). Daí fui para a marina pôr o plug no esgoto do tanque de águas negras, foram precisos dois mergulhos, a porra da água está fria - já sabia - e o casco já está todo cagado - idem, está ali parado há mais de seis meses - depois fui ao mercado comer pasta e vim para casa dormir a sesta.

De que são feitos as noites e os dias, de que são feitas as horas, de que são feitas as coisas, em itálico por ser demasiado abrangente, este coisas refere-se a tudo o que um gajo faz e não fez, pensa e devia pensar, aos objectos, aos erros - tantos, meu Deus -? De que é feita esta merda toda?

Não faço ideia. Limito-me a percorrê-la, de tão habituado ao cheiro até gosto dele, tento fazer poucos solavancos, o menos possível, é preciso que isto seja fluido e bom.

É, verdade seja dita. É bom.  Confrontados ao real não há pessimismo que ganhe nem tristeza que se justifique.

PS - ou eu me engano muito ou isto vai tudo acabar no Door 13.

Do rum e outras histórias; (Fragmento)

(...)
Os runs falam línguas, como as pessoas e os papagaios. Há-os anglófonos - os meus favoritos -; francófonos - os mais elegantes e complexos; - hispanófonos - os piores, no sentido de serem os que têm menos marcas apreciáveis; - e lusófonos - não são runs. Só quem atenta mais às raízes do que aos resultados lhes chama rum -.

Os anglófonos são masculinos e os francófonos femininos. Os espanhóis são simplesmente maus, salvo algumas raras e honrosas excepções. Dos outros não se fala, por educação e pudor (com a potencial excepção de meia dúzia de cachaças, demasiado difíceis de encontrar fora de Minas Gerais).

De todos, o Clément é sem dúvida um excelente expoente dessa invenção francesa que é o rum agricole. Deve provar-se também o J.M., menos redondo; ou o Damoiseau, da Guadeloupe, forte e racista (é verdade: não se deixa beber por lábios inocentes). Dos ingleses sugiro os El Dorado todos (sendo que o de 15 anos é uma das provas da benevolência de Deus); e o Mount Gay, que é o Johnny Walker dos runs: decente e barato (pelo menos o corrente). Nos outros: o Flor de Caña, bom em todas as idades e muito bom nas mais velhinhas; o Zacapa, só nas velhas; e o Botran, que só provei uma vez e do qual não posso fazer uma apreciação definitiva, mas pareceu-me pelo menos aceitável.

Nessas bandas deve encontrar-se isto tudo. Mai-lo Trois Rivières, que devia ser dado na escola primária para ensinar os putos a distinguir o sublime do meramente excelente; ou - na categoria brancos, jovens e inescapáveis - o Habitation La Favorite, que se deixa beber como uma puta apaixonada se deixa foder: como se fosse a primeira vez.

........
O calor voltou a Palma, a reboque das cores. Contudo, as pequenas ainda estão de inverno; os maiorquinos são desconfiados e não se mostram sem ter a certeza do que os espera. Elas ainda mais.

........
Recuperei a carta de condução mas não veio com qualquer formação em automóveis. Continuo o mesmo ignorante, agora com uma janela aberta para as diferenças de qualidade. Pouco importa: se um dia tiver dinheiro para comprar um bom automóvel não o compro. Preferirei um barco.

(...)

26.4.19

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 26-04-2019

Dizem os entendidos que não se deve misturar uvas com cereais. O medronho - abençoado seja - não é um cereal e pode ser bebido ao mesmo tempo do que tudo, incluindo boa música e um ambiente porreiro.

Estou na Sandra (salvo seja), na Tasquita da Esquina, que tem bom medronho, boa música, simpatia para dar e vender e quase uma dúzia de boas fotografias, feitas pela supra-mencionada senhora.

Sou um verdadeiro pacóvio: refiro-me a tudo pelos nomes das pessoas e não pelas respectivas designações comerciais. Reflexo de marinheiro mais do que pacóvio: só as pessoas nos interessam. O melhor navio do mundo com um capitão que não lhe está à altura nada mais é do que uma jangada mal-amanhada. E uma destas bem tripulada fica um paquete de luxo.

.........
O meu plano para amanhã de manhã é: dormir. Devo dizer - ou melhor, digo-o com um prazer indelével - que já consigo dormir até tarde, às vezes até às dez da manhã; e quando o faço os dias já não me parecem perdidos. Não sei o que é que mudou - se fui eu se foi o sono se os dias - mas algo não só não está igual como está melhor.

Depois vou ter de mergulhar na marina para pôr um plug (como se diz em português?) no passa-cascos do esgoto do tanque de águas negras. O tanque está vazio, mas a marina é um gigantesco tanque de merda; não faz mal. Chateia-me mais o frio da água. Para a merda basta manter a boca fechada, mas para me defender do frio não posso fechar a pele.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 25-04-2019

Seria preciso desatar para aí a escrever sem parar, mas é tarde e estou com sono. Há que ser sintético e perguntar-se porque é que esta noite foi tão maiorquina, de onde me vem a falta de vontade para tudo em geral e para nada em particular, por que raio de carga de água o jazz é tão mau nesta cidade, porque é que a L. tem uns olhos tão bonitos - terá ela alguma coisa por trás deles? - porque continuo a ter surpresas do meu P. adorado, porque consigo ouvir Hildegarde von Bingen sem jamais me cansar?

Não tenho resposta a nenhuma destas perguntas e verdade seja dita, é-me quase dolorosamente indiferente.

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Há pessoas que vão para os palcos cantar, apesar de cantarem mal; outras cantam bem e é um sarilho para as convencer disso.

Tem mais a ver com a auto-imagem do que com o talento, não é?

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E com a persistência. Eu tenho muita. Sou um verdadeiro camelo de persistência.

25.4.19

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 24-04-2019

Lembro-me vagamente do post que hoje "escrevi". Vai entre aspas porque não o escrevi. Ditei-o simplesmente, para aquele bloco-notas interior cujas folhas são feitas de água e vento: eu bem dito e ele mal escreve.

Enfim, ¡qué vaya!, lembro-me do princípio: era um post sobre as cores, o verde, o amarelo e o azul, cores que mantêm entre elas relações profundas (de amizade, claro). O problema é que para se fazer amarelo com o verde precisa-se do encarnado e esse anda ausente, talvez pelas comemorações do feriado que aí vem (para quem vive em Portugal. Nós - emigras, vagabundos, nómadas, o que quiserem chamar-nos - não temos direito a cravos. Não é bem verdade. Estivesse eu em Portugal e trabalharia na mesma, porque não há cravo que chegue aos calcanhares do P.)

Isto é: há. Qualquer cravo chega aos calcanhares do bote e até passa para cima, mas o problema é esse mesmo: é que são tantos que um gajo já nem os vê. É como perguntar a um peixe se ele pensa na água. Duvido.

De maneira fico-me com as cores deste dia de Verão: o azul do mar - não sei porquê, voltou a ficar azul. Até agora andava assim meio tosco, um azul preguiçoso -; o verde da vegetação - esse sei porque ficou tão verde de repente: por causa da água -; e o amarelo do Sol. Era isto.  Pode fazer-se verde misturando azul e amarelo, qualquer estudante de pintura sabe, como de resto qualquer botânico: o azul da água e o amarelo do Sol fazem um verde porreiro.

Vi muitos desses verdes, em Quelimane, no Burundi (onde chovia que era uma alegria, aquilo não era bem chuva, era uma fecundação), no Zaire, no Panamá, sei lá... E na Costa Rica, claro. Em Quepos vi a gama toda de verdes ao mesmo tempo, chegámos de madrugada e parecia que Deus se tinha esquecido das outras cores todas, vi uma parede de verdes como nunca mais voltei a ver.

Hoje não, de certeza. Os verdes aqui são mais recatados. Mas a mistura de verde, azul e amarelo estava tão bonita que nem sequer pensei em Quepos, só pensei "isto é tão bonito!", assim mesmo, com ponto de exclamação e tudo.

Isto é tão bonito! É tão bom poder repetir esta frase todos os dias, tantas vezes que "isto" deixa de ser só "isto" e passa a tudo...

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Escrevi muito mais coisas, mas o bloco-notas é lixado e não retém um milésimo do que lhe dito todo o dia, todos os dias. Sorte para quem lê, azar para quem escreve.

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Assim, pela via do prazer, da felicidade e da calma escorrego pelo tempo dentro. Tomara dure até ao fim.

23.4.19

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 23-04-2019

O dia derramou-se em mim e agora esparramo-me eu na cama, como naquelas intermináveis filas de dominós em que cada peça faz cair a seguinte. (Não fizesse eu parte da fila e seria assim; faço e não é.)

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Ver tudo a andar de novo é inebriante; imagino que as folhas sentem o mesmo quando lhes chega a primeira seiva da Primavera e sabem as flores para breve. Ou o primeiro sol a uma família de ursos hibernados. Ressurreição: a Páscoa não podia ter calhado em data mais adequada.

Estavamos a avançar ao pé coxinho. Agora, pelo menos, temos os dois pés no chão.

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Por isso chego a casa e tudo o que vejo é uma cama, uma imensa cama em pleno centro da cidade, para onde me posso atirar como se o relógio se tivesse adiantado meia dúzia de horas.

Hoje foi um dia tricotado, linha a linha. Nem me chateio com a dor de cabeça quotidiana: se um dia ela acabar (espero bem que sim) enviarei um ramo de flores gigante e uma garrafa de vinho aos senhores que fabricam Paracetamol.

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Há dias assinei um contrato com um editor. É inegavelmente bom, apesar de não ser daqueles contratos como sonhamos. Mas a casa é boa e séria, não daquelas "passa-para-cá-o-guito Editora". Pouco a pouco as coisas vão tomando forma.

Uma vida tricotada linha a linha, é o que é. Qual dia, qual quê.

Sobreviver

Deus fá-lo-ia, decerto, se existisse: dir-te-ia sem palavras o que eu me mato a dizer-te alto e bom som.

Passemos. Nem Ele existe nem tu ouves; eu sobrevivo. Na cruz, mas sobrevivo.

21.4.19

Chuva e outros agravos

Pergunto-me se de um dia desagradável se poderá dizer "este dia está a chover-me em cima" como se se dissesse "este gajo cuspiu-me em cima".

Questão de espaço e harmonia

Lembrar-me dos teus cabelos chovendo no meu ventre não mos traz de volta, nem eles nem ele. Já foi. O ventre no qual reposaste não existe, tal como o desejo que a ele te conduziu. Antes assim. Apreciemos a harmonia, por muito que ela faça sofrer. A mortificar-se, melhor um do que dois: esta cruz é pequena e solitária, não tem espaço para mais.

Neutrão, abismo

Em breve partirei de Palma. Acrescento entredentes "se Deus quiser" e penso que trocar-se uma cidade que se adora por um sítio que nunca se viu é mais ou menos como tentar não se pensar na mulher que se ama: sabe-se que estão lá e lá ficarão, núcleos de átomos dos quais não se é mais do que um neutrão, na melhor das hipóteses. Já "se Deus quiser" é a manifestação espúria do desejo de que o abismo não comece amanhã. Um pedido de clemência, vá lá: vou-me embora / não penso nela, mas tu, abismo deixas-me continuar vivo?

Da relatividade das pragas e respectiva ubiquidade

O nosso tempo tem pragas como o terrorismo muçulmano, as politicas identitárias ou o politicamente correcto. Coisas que nos envenenam os dias e nos fazem duvidar do conceito de progresso.

Nenhuma dessas pragas, porém, chega ao calcanhar da ubiquidade das pizzarias, do Nespresso e dos animais de estimação.

Quando?

À sua volta, o mundo refazia-se diariamente. Porém, ao fim de tantos anos ele aprendera a ver o sentido das mudanças, antes imperceptível. No fundo, um funil é apenas a forma portátil de um turbilhão, de um remoínho. Aprender a ler quando se transvasa um líquido qualquer para um recipiente mais pequeno, com a ajuda desse precioso instrumento; sobreviver quando no estreito de Messina um gigantesco remoínho nos agarra a embarcação pela quilha e dela faz um pião; usar da vida os turbilhões como as crianças um escorrega no parque infantil - formas diferentes dessa coisa una, indivisa que se chama vida? Ou formas fundamentalmente semelhantes de uma vida múltipla? Pouco importa. Tudo toma forma, pouco a pouco.

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A verdadeira questão não é a vida. É a morte, é saber quando passamos para o lado de lá da linha: ainda estaremos a usar os anos de vida, ou já estamos do outro lado, a consumir os que a morte tão generosamente nos emprestou? Onde situar essa linha? Os árabes diziam: "plantar uma árvore, escrever um livro, fazer um filho". Sabe a pouco, ou temos a mania das grandezas e não nos apercebemos de que tudo o mais é fútil, é vinho num funil, seio bonito que o desejo nos faz esquecer quantas vezes acariciámos, lábios já tão beijados... Para que queremos mais?

Começamos do lado da vida; um dia passamos para o da morte. Não perguntes porquê ou como. Pergunta quando.

20.4.19

Diário de Bordos - Genève, Suíça, 20-04-2019

O último de cinco dias em Genebra: logo à noite estarei em Palma, num dos meus outros mundos. Em época de reconciliações, acrescento uma a esta lista feliz: vi um programa de televisão que me encheu as medidas e me trouxe à memória um debate, antigo mas sempre válido, ao qual o meu interlocutor exasperado pôs fim dizendo-me "tu defendes a televisão porque não a vês". É verdade, Ph., mas também é verdade que quando a vejo (e não me refiro só ao canal Mezzo, que não é bem televisão, é outra coisa) sei que tenho razão: não se deve confundir o medium com a mensagem, diga o McLuhan o que quiser.

(O programa chama-se La Grande Librairie. A quem fale francês e se interesse pelas religiões e pelo seu papel no mundo moderno sugiro intensamente que o veja. É uma hora e meia de jouissance. Atenção, só está disponível até dia 26 deste mês).

Enquanto ouvia o programa perguntava-me quem teríamos em Portugal para replicar um debate igual e a resposta é o nome do outro. Não há selvagens de colete amarelo, encarnado, preto ou seja qual for a cor que consigam fazer esquecer a qualidade da vida intelectual francesa.

........
(Cont.)

19.4.19

O sentido da vida

Acordo em Genebra e apercebo-me de que à lista das minhas cidades (no sentido lato) - Lisboa, Palma, Mértola - é preciso acrescentar esta.

História, geografia e ciência do caos: ainda há quem procure o sentido da vida? Comece por aqui.

18.4.19

Declaração de intenções

Um blog no primeiro, segundo e terceiro graus sobre poesia, política, economia, cozinha, navegação à vela, afectos, literatura, cinema, amor, restaurantes - numa palavra, Maiakovski: "Honorés camarades de l'avenir, je vous parlerai du temps et de moi".

Foi esta a primeira declaração de intenções do Don Vivo. Continua válida. 

"Conheço-os. Sou um deles"

A ideia original era traduzir a história, mas é linda de mais, é a melhor descrição de um marinheiro que vi até hoje. Vem num livro chamado "Secretos del Mediterráneo", de Lluis Ferrés Gurt: o capitão de uma embarcação luta denodadamente contra um temporal. Quando se apercebe de que vai perder agarra-se a um estai e grita para o vento "Reconhecerás pelo menos que te entrego o meu navio em bom estado".

[Adenda: o título do post é uma tradução desajeitada de um verso que no original inglês diz "I know them. I am one of them". É óbvio que a repetição do pronome é importante e que eu devia ter resistido à mania de não usar o inglês excepto em casos de força maior. Este é inegavelmente um desses casos.]

Passos, palavras

Pôr palavras umas depois da outras com o mesmo cuidado - e o mesmo escrutínio - com que miúdos púnhamos um pé à frente do outro para medir qualquer coisa, com uma concentração de vida e de morte.

De onde vêm? Quem deu o primeiro passo? Quem primeiro marcou no chão de terra uma dor, uma alegria ou esperança, um sorriso, a fremência do primeiro beijo, a brisa que antes de te acordar te agitou os sonhos e os misturou todos, como se a paleta de aguarelas que seguravas se tivesse entornado, como se a chuva?

Os teus passos são delicados; palavras de quem sabe os perigos do caminho, os precipícios, as zagaias que não espreitam mais ninguém se não tu. Um a um, uma a uma, vida a vida.  

O resto guardas na memória. Ou melhor: nas memórias. As que já tens e as que um dia terás, quando se te acabarem os passos, as palavras, as vidas.

17.4.19

Moicanas

As donas da livraria-café feminista-alternativo-LGBTQIYZWQETEAX onde gosto de ir parecem homens.

As lésbicas são os últimos machistas.

Para os dois

Percebes, Pedro - Bruno pronuncia claramente o meu nome, sublinha-o,  porque no fundo se dirige a si próprio e aquele Pedro na verdade é Bruno - o estúpido desta situação é que se ela aceitasse o meu amor não precisaria de me amar. O meu amor por ela chega para os dois. 

15.4.19

Demiurgo

Poema do dia:

Eu purgo o demiurgo que há em mim. 

14.4.19

Diário de Bordos - Sneek, Friesland, Países Baixos, 14-04-2019

Neste país as mulheres ou são muito bonitas ou muito feias; não há meio-termo. Os homens são teimosos como mulas e altos. Parecem máquinas, eles e elas, mas desenhadas por deuses diferentes.

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Países Baixos é mais bonito do que Holanda e igualmente impreciso. Devia ser Países Flutuantes: há água por todo o lado. Por vezes pergunto-me se não será a única coisa flexível que têm, mas depois apercebo-me de que não os conheço o suficiente para fazer este tipo de julgamentos.

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Vamos todos embora, repatriados. O estaleiro só fez merda, a mulher do armador está doente e ele quer ficar aqui sozinho a lidar com o estaleiro. Há poucas asneiras que aprecio mais do que esta: preciso de uns dias em Genebra e esta é uma ocasião que não podia vir mais a calhar.

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Está frio, mas as esplanadas estão cheias: as pessoas preferem o sol ao calor. Compreendo-as, mas pouco tempo depois de me sentar ao "sol" (aspas porque é um manifesto exagero) venho para um café beber copos e escrever. Não sei se a ordem é esta, se a inversa, ou se há sequer uma ordem. Acontecem simultaneamente.

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Uma amizade que nasceu epistolar (não nasceu, mas pelo menos cresceu) ressuscita pela mesma via. Não se deve subestimar o poder da palavra escrita, mesmo que o universo de leitores seja uma pessoa: há leitores que valem um planeta, uma vida.

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O clima de Portugal é o pior inimigo dos portugueses: por causa dele aceitamos os políticos que temos.

Admiração, inveja

A pergunta foi feita uma vez com uma razão específica, mas é universal: um amor que nasce da admiração conta como amor? A igualdade é a base de todos os amores, a sua condição de sobrevivência, de durabilidade, etc. Mas: a admiração coexiste com a igualdade? Podemos admirar-nos entre iguais?

Devemos. Entre desiguais a admiração tenderá inevitavelmente para a inveja e não é bonita.

13.4.19

Diário de Bordos - Sneek, Friesland, Países Baixos, 13-04-2019

Sábado amanheceu com um nevão, chuva e ainda um pouco mais frio do que o costume, o trabalho do estaleiro está péssimo, vamos todos voltar para casa, não só não chego a Paris de barco mas nem sequer saio da Holanda. Este é o plano por agora, pelo menos. Vamos ver o que amanhã nos reserva.

De garantido, só o frio e a chuva, neve e granizo a alternarem com um céu azul de morrer, estes holandeses de quem o sorriso esconde uma teimosia ilimitada e as holandesas, obras ora de Deus - quando são bonitas - ora do Diabo, caso contrário: não há meio termo, ou são lindas de cegar ou feias de não se poder olhar para elas.

O que fica do que foi?

Explodes-me as noites, mulher, transpiras-me os sonhos, envolves-me as mãos, monopolizas-me o querer, desvias-me dos olhos a luz.

Dos dias que vivi sobras tu.

Sorte, pequena

Uma frase bem escrita, um café bem feito, um chá saboroso, uma miúda gira e simpática que se senta ao nosso lado no avião, uma viagem bonita à nossa espera.

É tão simples, não é? Fazer um café decente, alinhar meia dúzia de palavras de uma forma harmoniosa, agradecer à genética ter sido misericordiosa com a vizinha (e já agora aos pais, que a beleza mal-educada não passa de desperdício), ter sorte.

Não falo de sorte grande, lotaria, toto-milhões; mas sim da sorte simples, lhana, sorte nem grande nem pequena, daquela de nos perguntarmos: "Ontem o dia foi bom e hoje foi um bocadinho, um milímetro melhor. Como será amanhã?" e estarmo-nos nas tintas para a resposta.

10.4.19

Fluição

Não é só o frio, abominável: oito de máxima,  um de mínima (vá lá que são acima de zero. Amanhã baixa para um negativo). O pior não é o frio. É eu gostar disto e não saber como vai ser quando não houver mais. O bote não está pronto, a tripulação é porreira, a Holanda está cheia de água em todo o lado e de miúdas giras idem, hoje comi um papet vaudois como nunca comi, no sábado largamos se o tempo estiver bom, o bote é lindo e porreiro, parece uma miúda gira apesar de não ser muito miúda, é como uma que conheci há uns anos, trabalha num banco e é gira que se farta, hoje experimentei uma bicicleta eléctrica pela primeira vez e é assim que os dias vão correndo.

Correndo não: fluindo.

9.4.19

De onde sou

Aprendemos muitas coisas em Palma, basta querer. Eu quero, prometo, mas só as coisas que não conheço. As outras ponho no alforje, já basto carregado.

De modo temos de nos quedar pelo jantar, pelas coisas que fazem de nós humanos, por esta difusa sensação de pertença. Sou daqui; sou de todos os sítios onde já fui feliz, onde sou ou - quem sabe? - um dia serei. 

8.4.19

O fim de uma ilusão (princípio de outra)

Uma cidade também é isto. Não; uma cidade é isto: encontrar aldeias, grupos, nichos, destruir preconceitos e construir novos: aprender. Uma cidade ensina, o campo sedimenta o que a cidade nos ensinou. Tempos diferentes, preconceitos reconstruídos... Há ele maior prazer do que descobrir que se está enganado?

Talvez este post se venha a chamar "Pasta alla bolognese, divagações e fim"; ou "Ragù bolognese, o fim de uma ilusão". Ou qualquer coisa assim.

Ou seja: hoje fiquei a saber que nem o  bolognese nem o ragù são "molhos de tomate com carne", como sempre pensei, mas sim o contrário: molhos de carne sem tomate. Devo a descoberta ao Luca, o italiano do Mercat del Olivar e à sua mulher Silvia, a quem estarei para sempre grato. Devíamos todos trocar de preconceitos como trocamos de camisas (menos frequentemente, claro); e ficar grato às cidades, porque nos proporcionam mais ocasiões para o fazer (e têm 5 à Sec para as camisas).

A razão é simples: um citadino que chega ao campo sabe que não sabe nada do que ali se passa. O mesmo homem numa cidade sabe tudo. Está portanto muito mais habilitado a reaprender, enquanto que no campo só pode aprender.

Ora se aprender é bom, reaprender é melhor, como o próprio prefixo indica. 

7.4.19

Domingo

Aos domingos a cidade fica silenciosa e triste. A maioria dos cafés fecha e os passeios sem esplanadas e vazios mostram as mazelas. Esta maioria inclui praticamente todos os lugares de que eu gosto, o que me leva a perguntar-me se não haverá um paralelismo entre cafés decentes fecharem ao domingo e, por exemplo, senhoras educadas não andarem na rua sozinhas à noite. Não sei: o Ler por Aí... Café está aberto aos domingos e é decentíssimo; e a quantidade de senhoras educadas que andam na rua à noite, desacompanhadas e seguras é infinita.

Mas há de certeza uma relação. Só é preciso descobri-la. Por exemplo, na Rambla o El Punt está aberto. Nunca aqui entrei, até hoje; e nunca voltarei: o Vermute é medícre e caro. Vou ao lado, ao Cover, onde também nunca pus os pês. Vamos ver. Talvez seja para isso que os domingos servem: descobrir lugares novos, pensar na mulher que amamos, lembrarmo-nos das que um dia amaremos, ir-nos preparando para a próxima viagem, para o próximo domingo.

Ilusões

Nunca passamos desta coisa dos princípios e fins. Onde começou isto, onde acabou aquilo? Não sei.

Amo-te desde antes de te conhecer, amar-te-ei depois. É mais ou menos assim que todos os amores devem ser: patéticos, honestos, profundos e eternos. Os outros não passam de ilusões ópticas.

6.4.19

Equilíbrio

Andamos sempre à procura de um princípio e nunca o encontramos porque as coisas têm fim mas não têm princípio; e mesmo quanto ao fim não estou seguro. Ainda agora por exemplo pensava em quanto gostaria de falar contigo, dizer-te quão bem estou em Palma, quanto me lembro dos dias que aqui passámos... Ainda não acabaram, vês? Ainda por aqui andas comigo, vamos ao Mercadona juntos, econtramo-nos no Antiquari. Curiosa, esta resistência que as coisas oferecem aos fins, como velhos que se agarram à vida por pouco sentido que ela agora tenha para eles, dias de chuva que nunca acabam, dias sem dinheiro, garrafas de mau vinho ou sorrisos fingidos.

Eu por aqui estou, fora da caixa como de costume; ou dentro da minha. Na verdade mudámos pouco. Talvez sejamos ambos mono-lugar, ela e eu.

Não me portei bem contigo nem tu comigo: foi talvez uma das relações mais equilibradas que jamais tive. Talvez por isso não haja maneira de ter fim, apesar dos múltiplos princípios que teve.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 06-04-2019

É óbvio que a história começa com a Carbonara do italiano do mercado, apesar de antes disso ter bebido um vermute no Aurélio e comprado legumes na miúda gira cujo nome desconheço. Responde simplesmente por Princesa quando me dirijo a ela, com um sorriso encantador no canto do olhar, um daqueles sorrisos que dizem "sabes muito, daqui não levas nada mas continua, que eu gosto". É a ela que compro legumes, pimentos, tomate, salsa e só não levo mais porque ela não quer.

Depois continua no stand onde fui comprar a sobreasada para o frango. Vejo várias caixas de Époisses, pergunto à senhora se estão prontos e ela diz-me que não. Na brincadeira, digo-lhe "bem, então volto daqui a duas semanas" e ela responde "te lo guardo, se quieres", eu digo "claro que quiero", ela pergunta-me o nome e eis, senhor, daqui a duas semanas o Époisses estará no ponto.

Antes disso: acabei a Carbonara com uma grappa reserva e um café brasileiro que não conhecia, uma coisa maravilhosa, o rapaz teve o cuidado de baixar a temperatura e a pressão da máquina, é dias destes que por vezes me levam a pensar "Palma é outro planeta e eu fui feito para viver no espaço sideral, não sei, algures num país em que se possa comer carbonara feita com guanciale e sem natas, beber café feito à boa pressão e temperatura porque o rapaz simpatizou comigo e depois vir para casa cozinhar chili con carne e frango de mistela improvisado enquanto se vive, descansado porque algures no mercado há Époisses a amadurecer, Époisses do bom".

Parece um bocado melodramático não é? É e é.

Pouco importa. Estou a preparar a próxima etapa do P., vamos eu e ele para a Costa Brava, por muito que me chateie deixar Palma e é muito.

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Roubaram-me uma burra que nem sequer era minha, era alugada e eu pergunto-me se sou verdadeiramente contra a pena de morte.

Dia Mundial da Carbonara

Quem me conhece sabe que vendo a boa metade da família por uma carbonara  como deve ser. (Agora que estamos reconciliados um pouco mais caro: a coisa tem de ser excepcional). Acresce que hoje é - aparentemente; não ponho as mãos no fogo - dia mundial da carbonara.

Ou seja: decidi comer esse molho de pobres e campesinos no italiano do Mercat del Olivar. Há pelo menos um em cada mercado: vendem pasta que cozinham no momento, vinhos, queijos e outras especialidades italianas.

Fiz a pergunta sacramental: "pões natas na carbonara?"

Ainda não comecei a comer e já sei que vai ser boa. O homem olhou para mim como se eu lhe tivesse perguntado em que esquina costuma a mãe dele trabalhar.

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Degustação.

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Esperem. Vou ali ao céu e já venho.

O que os espera

Descrever concretamente factos abstractos, transcrever sentimentos confusos e inexplicáveis em palavras mais ordenadas e compreensíveis, dar a ler o invisível: saberão os jovens pretendentes a escritor o que os espera?

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Dizer-lhe, por exemplo:
- Sou infeliz porque te amo, mas sê-lo-ia muito mais se não te amasse.

É nesta fenda, neste intervalo, nesta espécie de rift afectivo que Hugo vive: entre o deserto de amar e o abismo de não amar, a gravidade e o calor em luta permanente, uma a puxar para baixo, o outro a elevar-se e a puxá-lo para cima.

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Andreia levanta-se, vai à cozinha fazer café e pergunta-lhe: queres torradas ou cereais, no teu abismo?

Desequilíbrio

O grande problema da tristeza é ser muito cansativa, muito chata, insuportável. A infelicidade dá demasiado trabalho para as poucas vantagens que proporciona. 

2.4.19

Diário de Bordos - Sevilha, Andaluzia, Espanha, 01-04-2019

Por onde começar? Pela viagem, claro: a camionete de Mértola para Vila Real de Santo António chega às cinco da tarde. A de Vila Real para Sevilha sai às cinco menos cinco. A solução é evidente e é uma pinça: a) pedir ao senhor de uma das camionetes que espere e b) ao outro que acelere.

A estratégia funcionou: o carro espanhol esperou o português, que chegou com um ligeiro atraso, apesar do entusiasmo do chauffeur (diga-se sem ser de passagem: foi ele quem conseguiu fazer com que o colega espanhol nos esperasse). Resultado: estou em Sevilha.

A viagem de Mértola para Vila Real foi agradável antes, durante e depois de adormecer. O chauffeur  (ele intitula-se motorista) tinha sobre Mário Soares a peculiar mas discutível opinião de que "o pai da nossa democracia" (não é o motorista que cito) devia ser amarrado a um cavalo e arrastado pelo chão até morrer "como vi fazer ontem num filme na televisão" (aqui é). Com Cavaco Silva e com Jorge Sampaio era menos feroz. "Também têm culpas no cartório", cito de memória mas verbatim.

Apercebi-me de que a política o fazia perder velocidade, pedi-lhe desculpa e adormeci profundamente. Acordei pouco mais de uma hora depois graças ao esforço que o senhor fazia para "cortar no horário": o Jim Clark que dormita nele há muitos anos despertara ao volante daquela camionete, Deus o abençoe. Chegámos três ou quatro minutos depois das cinco, o que significa que ele "cortou" seis ou sete do percurso: tínhamos saído com dez de atraso, sem razão nenhuma porque Mértola é o inicio da linha.

Não é de todo a primeira vez que uma coisa semelhante me acontece. No tempo em que chegava sistematicamente atrasado aos aviões aconteceu-me telefonar do metro que me levava a Heathrow para o balcão de check in da TAP e pedir-lhes que não o fechassem antes de eu chegar. Passado o momento inicial de estupor a senhora acedeu, com condições mais destinadas a salvar-lhe a face do que a acelerar o metro.
Nunca mais repeti a cena, claro: há coisas que não se fazem mais do que uma vez na vida, sob pena de transformarem em má educação ou arrogância o que não passou de um ligeiro desvario, um jogo de dados com o universo, um teste à sorte, uma aposta contra "o sistema" (aspas porque fica mais bonito).

Seja como for: estou em Sevilha, num quarto de hotel pequeno e cuja recepcionista (do hotel, não do quarto) é podre de boa, coitada. O jantar foi óptimo, uma sequência de tapas aqui e ali,  incluindo na Bodega Santa Cruz, sugestão de C. M. F., a quem agradeço ter mencionado o lugar na sua página (e ter visitado a Ler por aí... logo no primeiro dia, claro).

Amanhã turisto de manhã e apanho o avião à tarde, repartição de tarefas que não me parece má de todo: aquilo que vi da cidade à primeira vista dá vontade de lhe dedicar mil vistas.

Já cá tinha estado vai para quarenta anos, mas não me lembro de nada se não de ter dormido em frente a uma estação de comboios, num daqueles carros de transportar bagagens; e de umas ruas velhas iluminadas por candeeiros amarelos. Hoje passei pela catedral e vi de novo as limitações das viagens de quando era hobo. Enfim, quase hobo. Hobo intermitente,  a tempo parcial.

Ou seja: em quarenta anos passei de um estrado de madeira ao ar livre para um quarto minúsculo e sem casa de banho no terceiro andar sem elevador de um pequeno mas encantador hotel, cuja recepcionista faria um estilita duvidar.
Há quem tenha feito melhor, mas não me queixo. Amanhã estarei na minha amada Volta Dos e aí se poderá confirmar que o salto foi maior. E que não tivesse sido: a Andaluzia é uma região maravilhosa, povoada por mulheres bonitas, vinho bom e Jerez muito seco. Mais um vagabundo ou menos um não a estragaria.

1.4.19

Guerras de sono

Lutar contra a insónia, lutar contra o sono? Quanto mais o tempo passa mais ambas as lutas me parecem igualmente patéticas, guerras perdidas à partida.

O sono ganha sempre, estando lá ou não.