24.6.19

Reedição - Se eu quisesse

Hoje fui engraxar os sapatos. Engraxar os sapatos é um acto de civilidade. Devem ser engraxados uma vez por semana - semana de uso, note-se, que é, naturalmente, diferente da semana de calendário. Se considerarmos que um senhor deve ter pelo menos dois pares de sapatos (refiro-me, escusado é perguntarem, a sapatos pretos de atacador. Sou contra o uso na cidade  durante as horas de trabalho, de outro tipo de sapatos, sejam eles sapatilhas, sapatos de vela, ou até mocassins, mesmo que pretos) dois pares de sapatos, dizia eu, usados alternadamente, cada um desses pares deve ser engraxado uma vez de quinze em quinze dias.

Pessoalmente, aconselho o senhor que engraxa sapatos no British Bar, ao Cais do Sodré. Receio muito o que vai acontecer, quando ele, que já não é novo, longe disso, morrer, coitado. Devo dizer que não é só ele que me leva ao British Bar: o beer shandy, os croquetes e ter sabido, já lá vão uns anos, que era o bar favorito do José Cardoso Pires são outras das razões. O British Bar é um sitío muito selecto, tem uns empregados correctíssimos, e o beer shandy, feito com verdadeira ginger beer é único, na nossa cidade. Ainda por cima fica ao lado de uma loja de jornais onde posso comprar quotidianamente o Financial Times; e uma vez por semana o Shipping News.

Reparei que trouxe os mocassins pretos. Compreende-se: é um dia quase feriado e eu sabia que estaria sozinho no escritório. Os mocassins não devem ser usados no trabalho, já o disse, creio. Reservo-os para as compras de sábado de manhã, para a Missa de domingo e para os jantares em casa do meu cunhado, de quem não gosto muito (uma vez até levei mocassins castanhos para jantar em casa dele... Castanhos! Mas depois reparei que muito mais do que ele, era eu que estava pouco à vontade e não voltei a repetir a graça).

No meu escritório temos pessoas que se vestem de todos os modos e feitios – alguns até vão de sapatilhas para o trabalho. Não lhes digo nada, claro, mas faço-lhes ver que desaprovo inteira, frontalmente. Felizmente não há mulheres – enfim, há só uma, mas é uma senhora de idade, secretária do patrão (já o era do pai dele), e não comete faltas de gosto, como deixar as alças do soutien à vista. Também verdade seja dita, raramente a vemos, nós, os que trabalhamos no rés-do-chão. É uma empresa de shipping: tratamos de tudo o que se relacione com o transporte marítimo de cargas secas – desde o fretamento de um navio até ao transbordo de um contentor, fazemos tudo.

Sou o responsável pelos cálculos de demurrage: são os fees que debitamos aos nossos clientes pelas estadias nos portos mais prolongadas do que o acordado. É um lugar importante: o demurrage pode contribuir com uma fatia significativa do lucro de uma operação; muitas vezes, será mesmo a única fonte de proveitos, quando, por exemplo, se acorda um preço e entretanto os preços do frete subiram, por causa de uma guerra ou um tremor de terra (a mim nunca aconteceu, felizmente, mas é do conhecimento de todos os que trabalham em shipping). Não é de admirar que o patrão – enfim, o filho do patrão, para mim ele será sempre o filho do patrão – me tenha confiado este lugar no dia em que o pai morreu. Antes disso, estava no frete, mas é um lugar muito aborrecido porque as regras nunca são muito claras e estamos constantemente a ser enganados.

No escritório, um dos grandes temas de conversa, para além do futebol e dos carros são as férias. Há os que preferem ir de carro porque, dizem, “fazem as férias que querem: de Lisboa a Florença e volta em dez dias, com passagem por Paris (“Não vejo nada? Mas eu já saí daqui com a intenção de não parar. Em Florença, por exemplo, vi os monumentos todos. Só não entrei em nenhum.”) e os que preferem o avião: “o carro já não compensa. Vais a Paris 3 noites 4 dias, ida e volta, por 70 contos” (este ainda fala em contos, coitado). Eu não: todos os anos vou a Benidorme, duas semanas em Agosto. Sem falhar, há vinte anos. Aquilo já não está a mesma coisa, claro – mas para quê mudar? Os outros sítios também já não são o que eram há vinte anos. E é barato, além disso: camioneta, meia-pensão, uma cerveja de vez em quando e não gasto mais de 450 euros. Isso sim, são férias, mesmo se por vezes a praia está demasiado cheia. E tive que mudar de pensão: a que usei durante dez anos estava perto da praia e ficou muito cara.

Cá em Portugal, uma vez por semana, ando a pé: apanho o comboio da linha de Cascais e vou andar no Paredão. É muito bonito (aí sim, levo as sapatilhas brancas). Parece que estamos em férias: aquele mar todo, tão azul e as velas dos barcos à vela. Muitas vezes vejo navios fundeados à espera de piloto. Não quiseram entrar para não pagar as taxas de fim-de-semana. Cada vez que os vejo pergunto-me quem terá feito os contratos de fretamento. Será que o demurrage inclui os fins-de-semana?

Não sou avarento, ao contrário do que dizem os meus colegas do escritório: tenho cuidado com o dinheiro, é tudo. Tenho as minhas poupanças no banco (vou deixá-las a uma instituição de caridade se me acontecer alguma coisa antes de tempo, longe vá o agoiro). Não desperdiço. Odeio o desperdício. Até no emprego: recusei o computador novo que o filho do patrão me quer oferecer há não sei quanto tempo – para quê? Uma calculadora, uma folha de papel e um lápis chegam perfeitamente para fazer o meu trabalho (“oferecer” é uma maneira de dizer, claro: o computador é dele). Os meus colegas riem-se de mim, eu sei, pela calada.

Mas não me importo: se eu quisesse, seria feliz. Sei o suficiente de demurrage para abrir uma universidade; conheço as regras do bom gosto e da boa educação, sou culto, tenho um pé-de-meia no banco e uma vez por ano vou de férias. Sou conhecido de todos e todos me respeitam. Bastava eu querer, e seria o homem mais feliz da terra.

23.6.19

Degraus

O que me tem matado ao longo desta longa vida é a ideia de que abaixo do melhor só há o pior. Como se entre os dois houvesse um abismo, um deserto, uma terra de ninguém infrequentável, inabitável, como se houvessse apenas dois  degraus na escada da vida, separados pela eternidade.

Envelheço e aprendo que entre eles há o tempo e mais alguns: aqueles que fomos fazendo, vivendo.

O meu dia e eu

Que fazer de um dia durante o qual nada se fez, excepto duas ou três coisas? Falamos das excepções com prazer ou com desgosto? Não dizemos nada? Antes isso.

Gosto de dias assim: passam por nós e nós por eles e nada se passa, como quando dois estranhos se cruzam nas escadas rolantes e trocam um olhar. Nunca mais se lembrarão um do outro.

22.6.19

Fala-me

Falasses-me tu metade do que eu queria que tu me falasses e passaria o dia a pedir-te para te calares.

21.6.19

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 21-06-2019

Diário de bordo, versão simplificada:

Engine hours departure - 720
ATD CVPA 210619/0958
ATA Sta Ponça 210619/1152

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- Fica tudo dito, não fica?
- Quase tudo, domingo há mais.

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Resolvi começar a beber menos álcool. Não que bebesse excessivamente, mas bebia muito. Hoje, por exemplo, enquanto a Vermuteria Vi.xet (pronuncia-se vichet) não abria fui à Can Joan de s'Aigó e bebi uma água com gás e um chá verde.

A água ainda vá que não vá, só as peço com gás para disfarçar o preço absurdo da água engarrafada. Mas o chá, senhores. O chá... De pacote, feito com água a ferver, sem qualquer controlo do tempo de infusão. Se os estabelecimentos de restauração começassem a fazer chá como deve ser a luta contra o consumo excessivo de álcool seria muito mais fácil. Entre um chá de merda e um bom copo de vinho (neste caso, de vermute) não há hesitação possível.

Que saudades tenho da minha parafernália para o chá: termómetro, ampulheta, bule como deve ser, chá fantástico de uma loja na Casa da Guia - infelizmente desaparecida, entretanto... Aqui ainda não lhe encontrei equivalente, se bem tenha a certeza de que o há.

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Um casal de jovens turistas chega de bicicleta à Can Joan de s'Aigó, ao mesmo tempo do que eu. Vem de guia (telefónico) na mão. Penso que demorei um ano e tal a descobrir a Vi.xet e essa pastelaria, ponto de encontro da burguesia palmense desde, diz um lindo painel de azulejos, 1700 (ficam na mesma rua). Descobri-os porque um dia tive o impulso de fazer um trajecto que faço frequentemente indo por ruas diferentes das habitais.

Compreendo porque detesto guias, nunca os uso, ou muito raramente; nem a porcaria dos sites como o Tripadvisor me fazem mudar. As cidades devem descobrir-se devagarinho, devemos deixá-las vir ter connosco e não correr freneticamente atrás delas.

(Refiro-me às cidades. Não são únicas, eu sei.)

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Programa para sexta-feira à noite: hibernar e ouvir Voyage Magnifique de Maria João Pires ao mesmo tempo. (Ou a Hélène Grimaud. Ou a Marta Argerich... Depois estarei a dormir, com a santa autorização do P.)

Guerras

Esta guerra foi longa, ainda não está resolvida e tem aspectos um bocado idiotas. Traz-me à memória outra muito mais longa, a única - ou pelo menos uma das poucas - que lamento vivamente ter ganho.

Passou-se no Burundi e o tema era as tarifas sobre os produtos de ajuda humanitária: tudo o que recebíamos pagava uma taxa de importação, relativamente elevada como sempre em África. Já em tempo normal não sou grande adepto de tarifas; aplicá-las a produtos cuja finalidade era ajudar pessoas que estavam numa situação horrorosa parecia-me o cúmulo do cinismo.

Vai daí, comprei uma guerra. Uma guerra a sério, nada como esta. Um dia tive uma reunião com o director da Alfândega - para quem não sabe: a alfândega em África tem um estatuto quase sagrado, é a única prova tangível que aqueles países têm da sua soberania. O senhor tinha sido Ministro das Finanças, sabia realmente do que falava. Era educadíssimo e falar com ele foi um prazer. Infelizmente não chegámos a um acordo. Ele queria manter as tarifas.

A guerra teve episódios rocambolescos, alguns indescritiveis outros cómicos. Durante a reunião com o dito ex-Ministro das Finanças ouvi uma coisa que me ficou gravada: "Isto não tem nada de animal. Os animais não fazem comércio".

Ganhei-a de uma forma que às vezes me faz corar de vergonha. Estava a perder. Todos, incluindo o representative queriam manter as tarifas; ninguém queria aboli-las. Foram quatro meses de gritos, lutas quase físicas no aeroporto, telefonemas, cartas (no princípio da minha estadia o e-mail era inexistente) . Até que um dia achei que ou perdia ou ganhava e resolvi ganhar. O meu senhorio era a eminência grise do sistema, Controlava tudo, era uma espécie de manipulador-em-chefe do país.  Arranjei um jantar com ele - morava numa casa muito perto da minha e  por vezes organizámos um churrasco ou um jantar. durante o qual ele tentava extrair-me informações e eu tentava fingir que não percebia.

Organizei o jantar e aproveitei a primeira deixa para lhe dizer que estava desesperado e a pensar seriamente ir-me embora. Podia ele imaginar que os produtos humanitários pagavam direitos de importação? Revoltante! (Sintetizo muito: a conversa foi longa).

Dois ou três dias depois recebíamos uma nota do Ministério das Finanças a isentar os produtos humanitários de taxas alfandegárias. O representative ainda arranjou maneira de manter algumas, mas oitenta por cento das tarifas foram abolidas.

Só alguns meses depois de sair do Burundi percebi que foi uma estupidez: os países precisam daquele dinheiro e se não lhe vier das tarifas virá de outro lado qualquer. É até hoje a minha maior vitória e a que menos sentido faz.

Ensinou-me a avaliar as guerras e as vitórias de outra  forma.

20.6.19

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 20-06-2019 / II

É preciso começar por dizer tantas coisas que um gajo perde-se nos meandros dos começos. Talvez a primeira seja: percebo perfeitamente as razões da marina. O P. entrou ali para ficar dois dias, depois uma semana, depois um mês, depois dois meses e está lá há mais de um ano. Isso eu percebo. O director / gerente / seja o que for da marina chegou a um ponto em que diz "eu quero ver estes gajos fora daqui, ponto final parágrafo". Até aqui, tudo bem.

Onde tudo deixa de ir bem é na má-educação do senhor e - muito pior - na sua falta de profissionalismo. São duas coisas que não perdoo, não aceito, não quero aceitar. Se em vez de me chatear no cais o homem tivesse escrito um e-mail o P. estaria noutra marina há muito tempo. Se ele tivesse sido educado comigo - admitidamente difícil para um gajo que vem do exército - idem. Assim, vai averbar uma vitória muito pírrica: amanhã vou-me embora nos termos que eu defini e não ele.

(E se Deus quiser vai ver o pagamento de Junho no cu de Juno, mas isso é outra história. A questão é: esperemos até amanhã, porque só conta quando está lá fora, contrariamente ao que dizem futebolistas, pornógrafos e banqueiros, para quem só conta quando está lá dentro. A falta de educação paga-se, a de profissionalismo ainda mais.)

Na verdade tenho tudo pronto para sair amanhã: o mecânico, um semi-rígido para nos acompanhar, bombas de fundo testadas e a funcionar, baldes, lugar na marina à chegada. Tenho um marinheiro competente e um mecânico igualmente. Tenho um bote que me parece ok na generalidade. Tenho - sobretudo - uma vontade, difícil de quantificar, de mostrar àquele palerma que é um palerma, coitado, por muita dificuldade que ele tenha em aperceber-se disso.

(Elocubrações não custam nada, pois não? Mas é o que está em cima da mesa. Domani vediamo, signori. É com este status quo que me vou deitar; não tenho a certeza de que seja o melhor companheiro de cama. Pessoalmente preferiria outra companhia na cama mas isto é o que se arranja.)

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Ou seja: se amanhã estiver em Santa Ponsa a minha derrota foi muito parcial; se não estiver, é preciso ir a meças.

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Hoje fui beber uma cerveja (enfim, uma unidade de cervejas) ao Café España; depois fui jantar ao Ca na Cinchilla, um Pa amb Boli que ali é dos melhores de Palma. Em ambos os casos fiquei na esplanada, a ver passar a cidade.

As cidades: estão a duzentos metros um do outro e a pelo menos três andares no elevador social.

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(Tenho de confessar uma coisa: não sei se a minha euforia de agora me vem da ideia de que amanhã estarei na água. É possível).

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 20-06-2019

Confesso que tenho hesitado entre classificar isto como prestidigitação ou milagre, mas tendo para milagre. Parece-me mais apropriado, por um lado; e como milagre é melhor do que como preestidigitação, por outro: a minha caneta Kaweco reapareceu, muito gostaria eu de saber como. Sei onde e quando; como, não.

A coisa conta-se em duas penadas, mas se não se importam conto-a em três: há um café em Palma chamado La Palma à frente do qual deixo a minha bicicleta, todos os dias (é naquela zona que estaciono o carro). No La Palma faço muitas vezes a transição entre o dia e o seu fim: "inventei" uma bebida (aspas porque é manifesta mentira, consiste em sumo de laranja e vodka) chamada sumo de naranja natural mejorado e acontece-me de vez em quando ali parar antes de pegar na bicicleta para regressar a "casa" (aspas porque é um manifesto exagero).

Hoje foi um desses dias: cheguei, pedi à T., a dona, uma senhora que tem a voz mais irritantemente aguda que eu já ouvi numa mulher e é simpatiquíssima um sumo de laranja melhorado e esvaziei a mochila para cima da mesa: computador, rato e seu tapete, bloco-notas. Escrevi os e-mails que tinha a escrever, telefonei os telefonemas, bebi um sumo e depois outro, escrevi um disparate ou mais, tendem a sair em grupos e venho-me embora. Isto é, arrumo a mochila para me vir embora. Pus tudo lá dentro até que a certa altura vejo-me com o estojo da caneta na mão.

Juro que foi assim mesmo: o último objecto que faltava pôr na mochila era o estojo de canetas. Não o vi quando esvaziei o saco (literal, não metaforicamente); não o vi enquanto esteve em cima da mesa comigo à frente a trabalhar; não o vi até ao momento em que de repente o vi, na mão.

Se isto não é um milagre não sei o que um milagre é.

(Com a Kaweco - a melhor caneta que até hoje me passou pelas mãos - escrevo este post no bloco-notas. Logo à noite será transcrito para o blogue, durante uma noite de insónia - mais uma, esta com a grande e discutível vantagem de ser completamente desnecessária e injustificada - enquanto bebo rum Almirante, um atrai-sono melhor do que muitos outros mas dispensa receitas e é barato. Que circunvalações, meu Deus.)

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Hoje (ou ontem, pouco importa) esclareci dois mistérios: as simpatias do Aurélio (do quiosque Los Maños, um estabelecimento que recomendo a plenos pulmões) e a do Ismael, do café Acal, em Puerto de Andratx, há um ano o meu escritório: o Aurélio é de Huelva e o Ismael de Granada. Ver maiorquinos assim de afabilidade, cordialidade, simpatia e outras qualidades humanas andava a parecer-me estranho há muito tempo, mas agradava-me pensar que eram uma excepção à regra.

Em conversa, a U. pergunta-me:
- ¿Pero tu tienes la certeza que quieres pelearte con un cabrón de un mallorquin de Andratx que está en aquel lugar por todo menos por que sabe lo qué hace?
- Quero. Não procuro guerras mas só as evito até o isso raiar a cobardia. Aí entro.

Não é que não tenha medo. Só os imbecis não o têm. Mas não sei viver com medos não resolvidos, seja para que lado for.

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Agora é resistir à tentação do óptimo, inimigo do bom; e à da soberba, inimiga de uma salutar e ligeira pedantice.

19.6.19

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 19-06-2019

Exemplo  nº um milhão, trezentos e cinquenta e quatro mil, oitocentos e noventa e seis de uma das razões pelas quais adoro esta vida e estou ao mesmo tempo farto dela (ou seja: isto não é uma vida, é um vício): a primeira parte do problema - arranjar massa - está resolvida. A ante-primeira - arranjar um lugar noutra marina, o que em Junho em Mallorca é mais difícil do que fazer entrar um elefante no Elefante Branco - já estava resolvida. Havia lugar em duas marinas, com prazos e preços diferentes. Mas enfim, pelo menos tinha onde aproar. Hoje fui confirmar numa das marinas - a minha preferida, por ser mais barata e ter prazos de estadia mais alargados - e aquilo que estava reservado para amanhã passou para domingo; o que estava agendado para terça-feira passou para dia um de Julho. A outra marina tem uma vantagem: é mais perto de Puerto d'Andratx - e duas desvantagens: custa o dobro e só lá posso ficar pouco tempo. Ou seja, vou ter de passar três ou quatro dias (nada garante que a coisa não volte a mudar, no outro sentido) em Santa Ponsa antes de vir para Calanova. Mais quatro dias e um balúrdio (enfim, não é um balúrdio, é só muito dinheiro inutilmente gasto). Poder-se-ia pensar que isto só acontece nas Baleares, mas não é verdade. Acontece em todo o lado, em todas as marinas. Aposto que a astronáutica tem menos factores incontroláveis do que a velhinha navegação marítima.

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Entretanto, a luta com o clube continua, agora com outros temas. Tolero tudo menos a cobardia (a estupidez não é uma questão de tolerância. É que ela dá-se mal comigo).

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Quem me visse agora pensaria que acabei de fazer um parto. Por miserável azar, visualmente não se nota.

Notícias da frente

A primeira parte da crise está ultrapassada. Deixo aqui o meu obrigado a quem ajudou. É um obrigado especial, muito especial, para lá de especial: não há melhor engano neste mundo do que descobrir-se que não se está sozinho e que quem está ao nosso lado hoje é quem sempre esteve. Em princípio, amanhã saímos de Puerto de Andratx, que tem pelo menos o mérito de ter roubado a Cascais a posição no primeiro lugar do pódio do concurso "Pior Marina do Mundo". Cascais passa para um honroso segundo lugar - face ao CVPA qualquer competição nessa área empalidece. O terceiro lugar - bastante distante - vai para Shelter Bay (distante porque muitas das coisas que tornam a marina detestável não são culpa da gerência. Aliás por vezes hesito em dar-lhe um lugar no pódio).

Bebo um whisky para descontrair, penso nestes dois últimos dias e pergunto-me como será a minha vida quando deixar de ter momentos destes. como tanto quero (e quero, realmente). Que recordação deles ficará? Foram tantos, tantos... (Uso o passado sem querer. Isto é, sem pensar. Querer quero. Quem me dera que sejam passado para sempre, todos eles).

18.6.19

Planos

O plano original era engrossar-me devagarinho; acabei por não-me-engrossar devagarinho, o que é quase a mesma coisa. Agora vou deitar-me e não-dormir, já que o plano era deitar-me e dormir.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 18-06-2019

Vamos começar pelo princípio: perder é perder é perder. Perder é não ganhar. Perder é melhor do que não ir à luta, mas é pior do que ganhar. Ganhar é melhor.

Hoje perdi um round na luta contra a marina, uma das lutas mais absurdas em que me vi envolvido; e perdi a minha caneta Kaweco. Por muito habitual que seja, não deixa de ser enfurecedor.

E ontem perdi tempo a comprar um par de sapatos decentes, mas isso é anedótico: um gajo vai para uma reunião na qual é cilindrado, mas pelo nenos vai de sapatos novos (e bonitos, apesar de baratos).

Perdi mas não me apetece deitar a toalha para o ringue, por mais que me apeteça. Foda-se, já vi pior e não cedi.

(E já vi pior e perdi.)

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Fiz algumas fotografias do céu de Palma: há sempre uma fenda nesta cidade, uma fenda onde menos se espera.

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Recomendo vivamente o Door 13, apesar do nome. A continuar assim vai tornar-se um dos meus bares favoritos, tous lieux confondus.

Já é.

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Às diferentes categorias de amigos, é urgente acrescentar uma: a dos amigos de quem já o éramos antes de os conhecermos.

-te

L. disse-me que gostava da imagem "pendurar o silêncio "; eu também. Imagino um senhor de chapéu e gabardine chegar a casa e pôr tudo nos cabides: primeiro o chapéu, depois a gabardine e por fim o silêncio. Só nesse momento diz olá à mulher e dá um beijo aos filhos. Como se vivesse em dois mundos, o mudo e o outro. Todos vivemos, todos somos personagens de Beckett sem o saber: "Porque em mim sempre houve dois bobos, entre outros, um que não pede outra coisa senão ficar onde se encontra e outro que imagina que mais longe estaria um pouco menos mal". "Sim, acontecia-me esquecer não somente quem era, mas que era, esquecer-me de ser". (Molloy).

Mas em vez de pendurar o silêncio podemos pendurar-nos nele: passageiros de pé num metro ou no eléctrico, cada um agarrado ao seu silêncio, braço no ar, olhar curto... o eléctrico dos silêncios.

São todos, até que um dia damos um abraço e apercebemo-nos de que por engano - por engano, por acaso, golpe da sorte - estamos abraçados a uma palavra, a um verbo reflexo.

17.6.19

De onde caem as palavras?

O dinheiro não cai do céu, dizem os especialistas. E as palavras, de onde caem? Do céu não é, com certeza; do inferno tão pouco (com menos certeza). Talvez da mistura desses dois, a que nos momentos benévolos chamamos vida e nos outros desespero.

Memória, Calder

Há muitos anos recebi um disco de presente. Era rock soviético,  chamava-se "Pelas vagas da minha memória" (creio. Estou longe de ter a certeza. A minha memória sempre foi vaga, nunca precisou que lho lembrassem).

Penso nisso agora porque me parece que a memória é uma mistura de vagas e de circunvalações. Vagas sem ritmo, circunvalações irregulares: por exemplo, lembro-me de que a música era fraquinha, tenho uma vaga, muito vaga ideia da capa, lembro-me de que uma das palavras era Pamiat e não estou seguro de nada disto.

A miúda que mo deu - uma jovem actriz muito bonita - queria compará-lo aos Beatles, ou aos Rolling Stones? Nao sei. As vagas da minha memória perdem-se numa vaga praia chamada tempo, uma praia muito longa, cheia de curvas e becos sem saída. Até as vagas nela se perdem, chegam e não saem, rebentam em vagas mais pequenas, rebentam outra vez e por aí fora, sem fim.

Na volta, vamos a ver e a praia são as vagas. Não há areia nem rochas nem nada: só vagas e mais vagas carregadas de memória.

Só memória. Circular, elíptica, espiral. Estátua invisível. Mobile de Calder permanentemente em desequilíbrio. 

Verdade

No fundo, trata-se apenas de se ser honesto, dizer a verdade. Chamar amor ao que é amor, vinho ao vinho, noite a este ralo pelo qual o dia se esvai como vinho estragado pela pia. Ser honesto: mentir com sinceridade, dizer que está frio como se estivesse mesmo frio (está), dizer que estás aqui como se não estivesses alhures (não estás e estás), dizer que basta dizer para que o que se diz seja verdade.

Verdade: o que seria se o que é não fosse.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 16-06-2019

O termo soberba é preferível a pedantice? Não sei. Sei que quando decidi tornar o DV público a motivação foi "pior do que o que por aí anda não será de certeza". Seja por soberba, seja por pedantice continuo a pensar o mesmo. Mas é só meia pedantice, verdade seja dita: pior não é, mas melhor tão pouco. É o que é e isso é tudo o que é, como dizia Popeye de si próprio: "sou o que sou e é tudo o que sou".

Quero que se lixe, na verdade. Tento fazer o melhor que posso, não ser demasiado piegas e não fazer demasiados erros de português: a língua é a única regra à qual se deve obedecer sem hesitar. Não há outra, com a possível excepção de "não matarás o próximo". Note-se: aceito perfeitamente que não se respeite uma norma gramatical, desde que se saiba que se está a desrespeitá-la. E que faça sentido, que melhore o texto. Se for só para fazer género ou para ser original mais vale meter o desrespeito pelo cu adentro, porque nem desrespeito é. É só ignorância ou vaidade, outra forma de dizer pedantice ou soberba.

(No fundo, dos três prefiro soberba. É a mais bonita e ninguém ousará dizer de mim "ele é soberbo", como dizem - erradamente - "ele é pedante".)

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Passei o dia em casa - isto das marés baixas não é só desvantagens. Li, escrevi e cozinhei - como se estivesse a bordo, com a breve excepção de um passeio de bicicleta depois da sesta. É uma sorte ser apreciador de prazeres estáticos. O nómada imóvel? Talvez antes O nómada abúlico, não?

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Tentei ouvir rock, outra vez. Bruce Springsteen. Não há maneira: o rock é uma seca. Não se pode ouvir de per si, deve ter um objectivo: dançar, gritar, explodir, o que for. Mas ouvir só para ouvir: não. É maçador como ver uma barata a tentar escapar. (Ás vezes consegue, não é?)

Passei para o Brel: pelo menos percebo as letras, não tenho de as ler.

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Experimentei uma especiaria chamada Sumak. É muito usada na Turquia. Abençoados sejam os turcos e sobretudo o Ch., que me falou nela. Mai-lo argentino do Mercat, o homem percebe mais de especiarias do que eu de música (isto é ironia. Até uma criança de seis anos percebe mais de música do que eu, desde que consiga cantar um Parabéns a você afinado).

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E é isto. Deixemos o dia escorregar na sua palidez, na sua tibieza, como se estivesse no mar a um largo com força três: sem solavancos.

Como diz o Dylan que agora oiço: "Não penses duas vezes, está tudo bem", mas sem ironia: está realmente tudo bem.

16.6.19

Queima-te

Noites labirínticas, muito mais do que transição entre dias. (Há uns tempos dirias que os dias são a transição entre noites.) Labirintos nocturnos incendiados pela sombra do dia, isso sabes. Mas - que dia? Hoje, amanhã, aquele longínquo no qual te apaixonaste por uma jovem actriz russa? Que sombra, que dia?

Que incêndio, que labirinto?

Noites hesitantes. Tacteias o caminho entre flores, não as queres esmagar. A luz perde-se nos corredores do labirinto. Não tem saída nem - descobres agora, aterrado - entrada. As portas fecharam-se e não foram substituídas por outras abertas. O fogo crepita: deixaste o silêncio perder-se contigo, lado a lado, de mãos dadas.

O labirinto é hipnótico. Leva-te a uma praia no Algarve, a outra em Moçambique ou no Rio de Janeiro, a todas em cujas areias esperaste pelo mar. A um pinhal. A um veleiro que navega por brisa ligeira, levemente, no Sul da Irlanda, nos Açores, no Mediterrâneo, nas Caraíbas.

É noite, alguém algures te ama. Há um labirinto em fogo no qual ignoras se já entraste, que te ignora, indiferente. É noite, tu perdes-te, o dia afasta-se de ti em vez de se aproximar.

Há algures um labirinto que te espera quando esta noite se apagar. Apaga a luz, apaga o silêncio, deixa apenas o crepitar das chamas do tempo que arde, sempre ardeu. Não te queimes.

Queima-te.

15.6.19

Da série "Segredos del Mediterráneo" é a melhor coisa que me caiu nas mãos e à frente dos olhos em muito tempo

""Sabes? Naquele momento, sozinho ali em cima frente àquele mar tão bonito e vazio, senti que era um deus". Talvez seja isto que invejamos a estes homens, aos últimos homens livres. Invejamos-lhes os presentes que recebem da sua liberdade."

Da série "a inutilidade da maravilha só é comparável à maravilha da inutilidade"

"Pontífice (...) era un cargo herdado dos etruscos e referia-se a um sacerdote que tinha a seu cargo toda a parafernália e os rituais necessários para que se pudesse construir pontes de forma segura, porque os etruscos consideravam os rios sagrados e construir pontes era um processo carregado de simbolismos."

In Segredos del Mediterráneo, de Lluís Ferrés Gurt, ed. Juventud.

A tradução é minha; espero que o maravilhamento seja de todos.

Nb: não sei se há conhecimentos inúteis. Sei que alguns são deslumbrantes e este é um deles. Os Papas da religião católica foram buscar o seu qualificativo aos construtores de pontes. Isto não chega para refazer de mim católico,  mas que me faz gostar um bocadinho mais da crença faz.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 15-06-2019

Há dias disse que o bar Rita é um dos poucos locais maiorquinos onde sou recebido com manifestações visíveis de prazer. Não sei o que é muitos, mas apetece-me citar aqui o Aurélio, do Mercat del Olivar, onde antes de chegar já tenho um vermute à espera (exagero mas pouco); o Claudio da loja de gelados do Carrer Sindicat - a minha aversão aos doces esvanece-se pouco a pouco. Este ano já comi alguns três gelados, o último dos quais agora mesmo no Fluffy Fruits (não liguem ao nome, se por acaso um dia vierem aqui). O Claudio tinha o melhor café de Palma, a milhas de todos os outros, Arabay incluído (e acessoriamente o mais barato, a um euro). Ainda tem, graças a Deus. Mas à lista de coisas "o melhor de Palma" acrescento agora o gelado de pistaccio. Vai fazer a quantidades de gelados que como anualmente disparar exponencialmente. O estimado senhor Santini que me desculpe, mas creio que em termos de gelados de pistaccio encontrou quem o bata aos pontos.

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Dia calmo: em casa a ler, ouvir música, dormir, cozinhar, escrever. Fui ao Mercadona fazer compras: vem aí nova maré baixa e é preciso estar preparado. Comprei cavalas, que comi cozidas. O que sobrou vai para mayonnese, amanhã.

É sempre mais fácil saber o que fazer dos restos de comida do que dos de vida. Uma coisa é certa: tanto uns como outros ajudam a enfrentar marés baixas e badanais.

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Oiço Hildegarde von Bingen na cozinha, enquanto preparo o jantar. Joe, o miúdo que entrou hoje para o cinco vem ter comigo: "Como se chama essa música? Gosto muito desse género, de gospel..." (as reticências ficam porque ele estava visivelmente à procura de uma continução). Ajudei-o: "Isto é da Idade Média".  O puto já me era simpático porque hoje à tarde, logo a seguir a ter chegado, veio ao quarto dizer-me que tinha trazido muitas cervejas e podia servir-me à vontade. É uma atitude que não é frequente nesta malta - de certa forma compreensivelmente, estão à procura de trabalho, a concorrência é rude e não sabem quanto tempo terão de viver das reservas.

Punhal, janela

Vou fechar a janela, se não te importares. Pouco ou nada me interessa o que vai lá fora. A noite sem ti parece um punhal espetado na barriga, uma avalanche que se desfaz com fragor por esta encosta abaixo. Não quero saber de nada: nem por onde andas nem por onde andarias - andaríamos - se aqui estivesses. Deixemos este estúpido silêncio lá fora, pendurado na brisa que agora ajuda a arrefecer o quarto. Quando a janela estiver fechada deixará de haver brisa, silêncio, noite.

Não haverá nada senão esta mistura de sono e sonhos que me fazem acreditar: sim, um dia voltarás, um dia abrirás os olhos, um dia serás o punhal que agora me revolve o ventre.

13.6.19

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha (et al.), 13-06-2019

Mértola

A alta sociedade mertolense reúne-se no café Bom D+, sito ao mercado. Não é surpreendente: tem a melhor vista da vila e acessória (mas não despiciendamente) as únicas caipirinhas que até hoje achei excelentes fora do país de onde provêm. Isto é um assunto sério: qualquer viajante sabe que certas coisas não são exportáveis. O vinho verde. A retsina; a caipirinha; o Painkiller; (as três primeiras têm excepções. O quarto infelizmente não).

Pois bem: a alta sociedade mertolense não me parece grande apreciadora de caipirinhas - sou o único a bebê-las, assim mesmo no plural. Mas sabe apreciar uma belíssima vista, um serviço sorridente e eficaz e interessantes conversas sobre a colocação de tijolos, os horários de trabalho e os hábitos sexuais de algumas pessoas, para mal delas ausentes.

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O restaurante Tamuje está cheio. É a segunda vez que isto me acontece. Sentir-me-ia em Nova Iorque, não foram as caipirinhas da Natália: destas, só aqui ou no Brasil (e mesmo assim depende. Já lá as bebi piores).

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Lisboa

Não sei que dizer. Há dias em que falar desta cidade é como para um feto falar da placenta: que há, fora dela?

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Viagem para Palma

Vim com passageiros da Blablacar. Há pessoas que não valem uma vírgula, não há? Nâo por serem más, mas por não serem nada.

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Valência

Fragmento: "Numa esquina vejo um café que tresanda a clássico. Entro e o cuidado com que guardam os vinhos, os queijos e outros produtos expostos dizem-me que acertei no sitio. As mamas da criada cimentam isto tudo: "Alta charcuteria, Casa Adrián, desde 1944"...

(Agora devíamos um pensamento silencioso ao gajo que inventou os soutiens. De todos os vários desafios à gravidade são os mais excitantes, os únicos verdadeiramente úteis, louváveis)."

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Ferry para Palma

A habitual mistura de camionistas, camionistas e chauffers de camião com alguns turistas. Gosto de ver as manobras dos camiões: no fundo somos iguais, nós e eles. A água faz de nós seres um pouco mais sofisticados, talvez. A estrada nunca educou ninguém.

12.6.19

Vem por aqui

Se eu te dissesse "vem por aqui" e tu respondesses "não, vem tu por aqui" poder-se-ia pensar - poderíamos pensar, os dois - que estávamos a dizer a mesma coisa, que o teu "por aqui" é igual ao meu.

Tu e eu sabemos que os nossos "por aqui" são diferentes; forçoso é reconhecer, porém, que o não sabemos empiricamente. Nunca os experimentámos. Limitámo-nos a aceitar aquilo que as aparências nos sugerem e as aparências não só se enganam mas também enganam,  voluntária e dissimuladamente.

Talvez um dia devêssemos deixar a superfície das coisas e mergulhar conjuntamente nos "nossos caminhos": o pior que se pode fazer a uma aparência é demonstrar-lhe a falsidade; a melhor forma de demonstrar uma verdade, a mais violenta e apaixonante é vivê-la.

8.6.19

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 07-06-2019

Vim jantar ao bar Rita; agora tenho de me ir embora. Uma mesa de espanhóis (odiar-me-iam se me lessem; maiorquinos é o termo correcto) é capaz de assustar uma manada de elefantes enraivecidos. Comi as melhores croquetas de camarão de sempre e uma ensaladilla deliciosa. O bar Rita é um dos poucos locais de maiorquinos onde sou bem recebido. Isto é: as pessoas manifestam prazer por me ver. Nos outros não manifestam nada, nem prazer nem ausência dele. Refiro-me a bares: hoje tive mais uma pega com a marina. Vou-me embora dali mal regresse de Mértola.

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Há dias fui jantar a um peruano. Disse ao homem para escolher um prato que me desse vontade de lá voltar.

Trouxe-me arroz de marisco. Estava bom, sem dúvida,  mas é difícil impressionar quem conhece o do Pina. Foi um jantar neutro: o peruano não perdeu um cliente e o Pina manteve um fiel. Pena estar fechado à segunda-feira: iria lá só para mostrar ao peruano a diferença entre um arroz de marisco e um arroz com marisco.

São tão diferentes como um dia de sol e um dia sem chuva.

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Não tarda recomeço a comer em casa. Como estratégia para perder peso, comer menos e beber mais não funciona. Deixar de beber um número par de bebidas é insuficiente: três é um número ímpar e passar de dois a três copos de cada bebida não serve de nada para quem quer perder peso. Vai ser preciso quantificar, coisa que imensa gente faz.

Seja como for, não cairei na armadilha do meu Pai: substituir whisky por chá está obviamente votado ao fracasso e à troça pública, como lhe aconteceu.

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Caí da bicicleta, pela segunda vez em duas semanas e terceira desde que aqui cheguei, vai para um  ano e um quarto. Desta vez a queda foi tão inócua que nem chateado fiquei.

O que me enfureceu, já depois, foi não ter sequer ficado aborrecido. É preciso  evitar a banalização das quedas.

O motivo foi o mesmo: de repente as minhas bicicletas começaram a andar mais depressa e as ruas de Palma mantiveram-se escorregadias. "Nem a luz páram", pensei hoje. Quanto mais um tipo armado em Eddie Merckx numa Panther de duzentos quilos e contra-pedal.

Pelo menos a queda de hoje foi para o lado direito. As outras foram para o esquerdo. Infelizmente não consegui endireitar o cesto, está todo torcido. Espero encontrar um método mais suave para o fazer voltar à forma inicial, que isto de cair é muito aleatório. 

6.6.19

Dicionário Khazar, exemplar feminino

Conheço pelo menos uma pessoa (uma, só uma) que tem a sorte de ter lido o Dicionário Khazar, de um autor serbo chamado Milorad Pavić.

Passei um dia relativamente estúpido (relativamente está ali só para relativizar, espécie de redundância redundante mas útil, para me lembrar de que o dia podia ter sido muito pior: todos os dias podem ser piores). Essa pessoa - a quem de resto dedico este post, apesar de merecer muito melhor - conhece os Balcãs e disse-me um dia que almeja ler o Dicionário no original serbo.

Não aspiro a tanto. A versão francesa chega-me perfeitamente e chegou-me recentemente às mãos. Está aqui ao meu lado; se eu tivesse juízo estaria a lê-la em vez de escrever disparates. Isto dito: C., o meu exemplar é feminino.

(Adenda, para quem não sabe: imaginem um livro escrito em conjunto por Borges e por Vila-Matas; exponenciem-no à potência dez; injectem-lhe uma mistura de LSD, álcool e cocaína (em micro-doses, só um cheirinho de cada); banhem-no numa mistura lúdica, irónica, culta e furiosa. Leiam. Releiam. Leiam outra vez. Repitam ad infinitum.

Digo isto, mas não toco no livro para aí há vinte anos. Não sigam o meu exemplo.)

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 06-06-2019

Tudo é suave em Palma, excepto a beleza das mulheres. É verdade que não chega ao exagero de Genebra, cidade em que até as feias são bonitas. Aqui só algumas o são. Mas é uma beleza muito mais selvagem, mais abrupta, mais brusca. Ainda não sei explicar porquê; talvez por muitas deles estarem de férias, mas não tenho a certeza.

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Fui beber uma cerveja à Llotja (o quarteirão e o café). Não é sítio onde vá muitas vezes, aquela mistura de turistas e yachties-que-não-vão-ao-Corner é maçadora (e a cerveja cara).  Mas é forçoso reconhecer-lhe a graça; mais ou menos como ir à Suiça quando ainda era frequentável, ou ao Nicola, do outro lado da Praça. Basta não ir muitas vezes.

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Acabo com uns boquerones no Bar Dia, um resistente. Não tenho nada contra a modernidade; só lamento que seja tão igual, tão monótona. O bar Dia resiste. Talvez fosse igual a todos os outros, quando a Llotja era a lota, local de encontro de pescadores, peixeiras e fauna acompanhante. Hoje não é igual a mais nenhum: é feio, barato e come-se bem, que é para o que foi feito.

Distância

Amávamo-nos à distância: adormecíamos todas as noites encostados à ausência um do outro.

Descrição do silêncio

"No hay silencio aquí
Sino frases que evitas oír.

...

(Haz que no muera 
sin volver a verte.) "

Alejandra Pizarnik, Estar, in Extracción de la Piedra de Locura.


5.6.19

Encostos

Se te espalmares lentamente - lentamente - contra a noite talvez ela se transforme em dia. Ou ao contrário: esparrama-te contra o dia e verás uma noite luminosa e límpida florescer. Tudo não passa disso: simples vontade de te encostares ao que amas.

Pré-associação em defesa dos idiotas

Ser idiota não é um grande problema, tem até algumas vantagens. O único aspecto desagradável é estar-se sempre tão sozinho. As pessoas inteligentes não querem perder tempo connosco, naturalmente.

Talvez nós, os idiotas devêssemos criar um movimento como aqueles que defendem cães, gatos, deficientes, refugiados, mulheres batidas, mulheres que batem, cegos, gagos, touros, vacas, frangos, a erva dos prados, as árvores, loiras, frígidas, lésbicas, maricas, alcoólicos, toxicómanos, zarolhos, carecas, impotentes...

Não há quem não tenha defensores, apoiantes e seguidores, com a notória excepção dos idiotas, a minoria mais maltratada de sempre.

Poder-se-ia até pensar em criar um partido dos idiotas, como há o dos animais. A questão sendo, claro, o critério de admissão. Dado que a maioria das pessoas é inteligente, o partido dos idiotas teria uma vocação minoritária. Contudo, cada inteligente considera que a maioria das suas relações é idiota, o que faria do partido dos idiotas uma organização maioritária, claramente em contradição com a sua vocação inicial. Teríamos de reservar o direito de admissão. Só idiotas comprovados, eleitos por um sistema de bolas brancas e pretas em comité fechado. Uma das perguntas seria: quantos idiotas conhece e por quantas pessoas V. é considerado idiota? Quem conhecesse mais idiotas seria aceite: só um idiota reconhece os  outros idiotas e consegue descortiná-los, escondidos atrás de uma capa de inteligência. 

Linhas

Só há uma linha perfeita: a do horizonte. As outras não passam de meras pretendentes, com a possível excepção da do Equador.

PS - E a Linha de Sombra mas essa tenho de a reler, para ter a certeza.

Diário de Bordos - Puerto de Andratx, Mallorca, Baleares, Espanha, 05-06-2019

Estamos na fase da montagem: os objectos mais comprados na ferretaria Seguina são parafusos, porcas e anilhas.

A excitação é visível, palpável e todos a sentem - até as bicicletas andam mais depressa.

4.6.19

Uma bicicleta vazia pela encosta abaixo

Não sei "por que palavra começar, por que desordem". Portanto não começo. Deixo-me ir neste fluxo de luz que se alaranja, trânsito a acalmar, dúvida que reage a isto tudo sem saber como reagir. Dúvida que se enrola em si própria como uma videira narcisista, serpente surda indiferente à flauta.

Deixo-me ir neste fluxo, bicicleta vazia pela ladeira abaixo sem cair, ligeira e triste mas direita.

Levantar cedo, em louvor de

Tenho de estar em Peguera às oito da manhã, buscar coisas para bordo. Pedalo pela Rambla deserta, fresca e bela e penso  "as ruas acolhem melhor quem as pisa primeiro".

Amor, anticorpos

A melhor forma de nos defendermos de bactérias e vírus é expor-nos a eles. Pergunto-me se apaixonarmo-nos não será a melhor defesa contra o amor, um mecanismo semelhante ao da criação de anticorpos.

3.6.19

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 03-06-2019

A bicicleta Panther avança depressa e silenciosamente por baixo do túnel de árvores da Rambla. É uma óptima burra apesar do peso e do contra-pedal, ao qual tenho uma certa dificuldade em habituar-me. É cedo, o ar está fresco sem estar frio, a bicicleta avança como água numa superfície impermeável, o sol levanta-se atrás de mim e parece empurrar-me. Vou buscar o carro e vou para o STP, o único sítio de Palma pelo qual trocaria o meu quarto apesar do cheiro, do tamanho e de ser no "segundo andar". Uma tenda no meio do STP... Penso em Hugh Hefner a olhar para as miúdas da revista mas num instante  ponho os pés na terra: para estas só posso olhar. São tantas, tão bonitas, ali tudo à vista porque estão varadas a pintar, reparar lemes ou aparelhos propulsores, trocar de quilhas. que sei eu?

No STP entrego uma máquina que comprara na sexta-feira, a massa volta para o banco e vou para bordo. O I. voltou de Inglaterra. Discutimos o trabalho do dia; é bom ver que agora já só falamos em montar peças, já não se desmonta nada, estamos a construir, a pôr no sítio, a discutir as opções de montagem. Dali vou para o café Acal, que é há um ano o meu escritório. Recebem-me alegremente, tentam adivinhar se hoje vai ser um americano ou um sumo de laranja...

Que fazer de um dia que começa assim, se não vivê-lo? Chego a casa às cinco da tarde. Ou seja: cinco minutos depois de acordar.

Por mais que se tente pensar na morte e no Menière e na diabetes eles repelem-nos, não é?

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A minha estratégia para perder peso sofreu um revés. Comer menos e beber mais não funciona, pelo menos no curto prazo.

2.6.19

Segundo andar, pronomes

Cada vez que voltava a casa via a luz do segundo andar acesa, qualquer que fosse a hora. Já amei uma miúda que vivia no segundo andar e mantinha a luz acesa, "para não te perderes", explicava-me. Infelizmente queria dizer "para não me perderes", eu não percebi e perdi-a. 

Ossos ao sol

Sentei-me ao sol numa cadeira em cima da rocha. Não havia um grão de areia ente os raios de luz e os meus ossos: era como ser crucificado por milhares de pregos embebidos numa droga qualquer que não só eliminasse a dor mas acrescentasse prazer, em micro-doses.

Dos ossos a luz transitava directamente para a medula, daí para o corpo todo e depois voltava ao sol, passando pela terra à minha volta. O sol é um dissolvente, o melhor de todos.

1.6.19

Estar, o verbo

Olhava para a vida como para as fotografias que tirara trinta anos antes: "eu estive aqui". Olha para a mesa, ouve as conversas, responde mecanicamente o mais das vezes e pensa "eu estive aqui". Esteve em todo o lado.

Como se o verbo não tivesse presente do indicativo. Só pretéritos: perfeito, mais-que-perfeito, imperfeito. Estúpido verbo este, tão incompleto. 

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 01-06-2019

Hoje fui à praia, um sítio aterradoramente bonito chamado Cala Lombards. O E. tem lá uma casa até terça ou quarta-feira, de modo nem sequer foi preciso ir para a areia, para o meio daquela gente toda. Um mergulho e um rum pré-prandiais, almoço no chiringuito, rum e mergulho pós-prandiais. É aflitivamente fácil gostar disto: o sítio é lindo e naquela casa um gajo sente-se como num barco que não se mexe.

Estou em terra há demasiado tempo, é o que é.

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Auto-diálogo matinal:
- Se fosse dado a essas coisas, a minha santíssima trindade seria Eric Tabarly, Leonard Cohen e Alejandra Pizarnik.
- Que fazes de Borges, Yourcenar e Beckett?

Aprendo assim a distinguir entre amor e fé, entre razão e sentimento? Talvez não aprenda, mas lá que confirmo confirmo.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 31-05-2019

Escrever no meu quarto é como fazer amor na casa de banho de um avião: só funciona nos filmes. Acendo três velas para ver se o cheiro a merda desaparece e venho para a Tasquita, mistura perfeita de espaço para escrever e animação distractiva dos disparates, serão com certeza muitos. Desde Genebra (e Londres, vá lá) que não estou numa cidade tão cosmopolita como Palma (suponho que a Lisboa hodierna o seja, mas não faço parte da comunidade imigrante).

A mesa de hoje parecia uma viagem àquele tempo: uma argentina, uma meio-holandesa meio-inglesa, uma jamaicana, um não-sei, um inglês e um português, quanto às nacionalidades. Orientações sexuais: três. A jamaicana e a meio-holandesa são "casadas" (com ou sem aspas), o não-sei é "casado" com um maiorquino (idem, mas o marido é rico e não estava ali), o resto opta por parceiros daquilo a que a Marguerite Yourcenar chamava a "inefável diferença" (invento. As aspas são abusivas; além disso o marido da argentina também não deve sofrer de problemas financeiros agudos). Havia ainda três ou quatro cachorros. As línguas faladas eram espanhol, inglês e português: a meio-holandesa e a argentina falam um português do Brasil quase perfeito e têm orgulho em mostrá-lo. A única diferença com Genebra é que naquele tempo ninguém falava português e quem falava tinha vergonha de o mostrar.

Gosto de estar ali, com um pé dentro e outro fora, como sempre: não sei estar e não-estar aborrece-me. Foi divertido, gosto muito da meio-holandesa e só me vim embora por causa das mamas da argentina: oprimiam-me de tão belas. Não sei se a megalomania pode ser diacrónica, mas caso possa: estaria pronto a apostar que a Janis Joplin disse aquilo ao Leonard Cohen a pensar em mim. A beleza é opressiva, sobretudo quando não lhes podemos tocar.

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Passei a tarde no carro, a guiar entre um dos múltiplos "poligonos" e o STP. Comprar ferramentas eléctricas, por um montante que já justifica estas viagens. Segunda-feira vou ter de devolver uma as máquinas que comprei, porque encontrei uma mais barata, mas não é isso que me marcou.

O que me marcou foi esta confirmação de que gosto muito de conduzir, sobretudo nas cidades. Só há duas coisas que não aprecio: a quantidade de manípulos, pedais, botões, volante que se devem manipular - três pedais, pisca-pisca, luzes, água atrás, água à frente, rádio, alavanca das mudanças, é um nunca mais acabar de coisas - e a atenção que se deve prestar à estrada. Conduzir seria uma actividade apaixonante se não incluísse estes dois escolhos.

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Há uns anos expliquei ao meu filho a teoria do Baudrillard sobre as duas funções das coisas: aquela para que são feitas e transmitir informação. Isto das velas é um exemplo magnífico. Comprei três no Mercadona (de tamanhos diferentes) por três euros. Na Rituals ontem pediam-me quinze euros pela mais barata, que não é fundamentalmente diferente e muito menos maior. Também as vi a vinte e vinte e cinco euros, numa loja cujo nome não recordo. Não sou especialmente frugal, mas pergunto-me o que levará um gajo a comprar velas pelo décuplo do preço.

Baudrillard explica e o tio Luís confirma: prefiro uma noite de mau cheiro a ser tomado por iletrado.

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História de talentos por descobrir: fui recentemente ouvir uns músicos ao Door 13, um excelente bar em Palma. Eram francamente bons e fizeram-me pensar nos seus equivalentes na vela. Não há: não temos Peyron desconhecidos, ou Tabarly ou Desjoyeaux.

Não sei se isto é uma qualidade ou um sintoma, mas opto por aquela.

31.5.19

Light, grace

The unlit summer in your face.

Gelo

Recordo esse corpo que amei como o patinador percorre o lago gelado: levemente, mal tocando o gelo.

Graus, penas e humor

Uma das muitas coisas boas da idade é um gajo aprender que a maioria das pessoas não percebe o humor. O segundo grau já é muito alto. E apesar disso divertir-se a servir-lhes piadas no quinquagésimo quarto grau, sem sequer sentir pena.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 30-05-2019

Devia fazer um roteiro de bebidas e bares: Painkiller no Soggy Dollar Bar em Jost van Dyke, uma das Ilhas Virgens Britânicas (BVI para os íntimos). Alexander no Procópio, em Lisboa, indubitavelmente o melhor bar do mundo e arredores, que certamente por simples coincidência tem o melhor barman do mundo (e arredores, vá lá). Margarita no bar de uma das marinas de Puerto Vallarta, no México. Não me lembro de qual mas aposto que seria capaz de lá voltar de olhos vendados, tão boa é a recordação que tenho daqueles baldes - piscinas - da mistura hipnotizante de doce e amargo, coabitam mas não se misturam, como aqueles rios no Brasil que correm lado a lado durante centenas de quilómetros. Piña Colada no Barrachino, em S. Juan de Puerto Rico, o bar onde foram inventadas e onde me embebedei com a minha filha, creio (que me embebedei. Estava com a minha filha, isso é certo). Mai Tai no Trader Vic's, em Oakland, onde me engrossei com uma das melhores tripulações com as quais me foi dado navegar.

Em La Guaira (ou pelo menos lá perto) bebi há muitos anos o melhor Cuba Libre de sempre - isto é um duplo oxímoro: para além daqueloutro óbvio, o Cuba Libre é um cocktail horrível. O do Paolo, um fascista italiano daqueles que defendia Mussolini porque põs os comboios italianos a andar a horas era simplesmente esplêndido. Não era o melhor por manifesta ausência de concorrência. Já não deve existir, vai para o arquivo. Mojito no Rana Dorada (o do Casco Viejo), na cidade de Panamá (nunca mais bebi um igual e o sacana do colombiano que mos fazia foi-se embora sem pré-aviso. Fiquei descalço de calças na mão). Whisky de malte no Piano Pub de La Rochelle, onde tive o privilégio, a honra, o prazer de aprender tudo sobre essa bebida pelas mãos do... do... do dono do lugar, uma torre com duas pernas e um bigode, jogador de rugby, montanha de sensibilidade com a qual hesitaria duas vezes - não, duas mil - antes de me bater com ele: um murro demolidor dado com sensibilidade é ainda mais demolidor, não é?

Escrevo no Tasquita d'Esquina, o único sítio em Palma que consegue rivalizar com o Antiquari e ganhar-lhe, tantas vezes. É provável que esta lista vá sendo acrescentada - lembro-me de uma Cachaceria em S. Luís, por exemplo; da Pilotine, em Dunkerque, também já passada àquele vasto terreno baldio da memória; da Casa do Largo, que era do Largo e do Luís e minha, onde escrevi algumas das poucas páginas decentes que escrevi; o Door 13 ainda não entrou para este panteão, mas falta muito pouco. Basta eu começar a gostar de cocktails modernos; lembro-me de um Dry Martini divino, genial, sublime - mas não me lembro de onde era...  Pouco importa: o roteiro é sobre bares, não sobre memórias. [Skullduggery, porra. Como consegues esquecer-te de mencionar o Skull? E o Palmar Tent Lodge, em Bastimentos, Bocas del Toro, Panamá??? Dark & Stormy em St. John's, Corral Bay. Come se chamava o bar? Quero lá ir agora.]

(Nota: o medronho da Tasquita acabou. Isto ou é maldição ou é azar: ao Fernet do Antiquari aconteceu o mesmo, ao vermute do qual eu gostava no Ca na Chinchilla também.)

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Animula vagula, blandula. Deambula, animula, passeia por essas ruas que ora te levam a um bar ora a ontem, bifurcações imprevistas: ou secas a adega aqui ou a secas ali e em todo o lado és bem vindo. Como é que fazem para não ver? Se calhar vêem e nesse caso quem não vê és tu, animula vagula, blandula, hóspede deste corpo que nunca verdadeiramente amaste e tanto te maltratou.

.........
Bifurcados, unifurcados, enforcados, forcados: morro num mundo no qual se morre por uma vírgula.

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Hoje quis comprar um livro de Gamoneda, mas a Babel não tinha.

"Detrás de la oscuridad están los rostros que me han abandonado.

Yo ví su piel trabajada por relámpagos. Ahora

ya sólo veo, en el instante amarillo,

el resplandor de sus lejanos párpados."


Ou então:

"Vienen con lámparas, conducen

serpientes ciegas a

las arenas albarizas.



Hay un incendio de campanas. Se

oye gemir el acero

en la ciudad rodeada de llanto."



É por causa destas coisas que queria comprar Gamoneda. Felizmente tenho a argentina selenita e sublime em casa, na cama mesmo ao lado da minha.

"La memoria es mortal. Algunas tardes, Billie Holliday pone su rosa enferma en mis oídos.

Algunas tardes me sorprendo

lejos de mí, llorando."


Nunca choro perto de mim, ou só raramente: detesto que me vejam chorar. É como ser apanhado a roubar no supermercado: toda a gente sabe que o fazemos por necessidade, mas isso não invalida a fundamental ilicitude do acto.

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Ontem pensava na resiliência da depressão; hoje penso na da vida, muito maior: "Somos todos uns farsantes, sobrevivemos aos nossos problemas".

30.5.19

A ver vamos onde isto vai parar

Compara-se tantas vezes o nevoeiro ao algodão. É compreensível, têm muitas coisas em comum. Não que eu as veja, claro: para mim, algodão é algodão e nevoeiro nevoeiro. Não percebo onde vão eles buscar parecenças. Devem ter um saco delas e depois tiram uma ao acaso. Eu gosto: são melhores do que as minhas, inexistentes de tão limitadas.

29.5.19

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 29-05-2019

Swing no Door 13. A banda é excelente: um viola, um senhor que alterna entre viola ritmo e clarinete e uma cantora com o físico do emprego - fina e alta - vestida a preceito e com uma energia impecável. Toca gaita de beiços e dança divinamente. É Suíça, fico a saber agora.

Começo com um Mai Tai, marginalmente melhor do que o do No Stress, onde estive antes (e provavelmente ao dobro do preço). Já a Marguerita é dez vezes melhor (e se calhar só custa o dobro). As coisas equilibram-se.

Seja como for, com música desta até whisky traficado se beberia. Felizmente o Door 13 é um bar sério, um speakeasy moderno, com produtos excelentes e profissionais quase tão bons como o Luís do Procópio, o Luís da ex-Casa do Largo ou o Senhor Miguel do Pavilhão Chinês.

Não me interpretam mal: este quase não tem nada a ver com a qualidade intrínseca dos senhores. Tem a ver com o facto de eu não os conhecer bem e nunca ter falado com eles.

Quem é quase sou eu.

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Somos o que somos quando interagimos com os outros. Sozinhos não passamos de nós próprios.

(A ideia não é nova mas a formulação é e preciso de a pensar. Era Borges que dizia "Todos acabamos por nos parecer com a ideia que os outros fazem de nós"? Era, creio.)

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Um gajo vai para a cama com uma senhora - bonita, por sinal - e a coisa resulta horrível, mais ou menos como tentar entrar numa parede de granito com uma colher de sobremesa. É uma situação que não tem culpados. Não há culpa. A coisa não funcionou, é tudo, seja qual for a razão.

Infelizmente, o nosso tempo transformou a culpa numa coisa pervasiva. Está em todo o lado. O acaso, a força das coisas, o tinha de ser desapareceram. Hoje há um culpado para tudo o que corre mal (e concomitantemente um herói para tudo o que sai bem).

Megalomania, é o que é. Precisaria de ser um Titan para sobreviver a tudo o que me correu mal se fosse eu o culpado, ou outro inocente qualquer. Reconhecer que as coisas são o que são e não há muito que possamos fazer é simultaneamente um reconhecimento de impotência e uma prova de força: não sou culpado e convivo muito bem com isso - e comigo.

.........
Uma das coisas que me impressiona na depressão é a sua resiliência.

(Cont.)

Transparência, opacidade

Transparência. É da transparência que gostaria de te falar, se por acaso tu gostasses de me ouvir. Nada é menos certo, o que só demonstra a opacidade do teu gosto.

Lembro-me de ti de costas à minha frente, mais opaca do que um passado. Nunca vi ninguém com tanta vontade de fazer do passado uma transparência como as que se vêem nos lagos de montanha. Bom, não importa. Não digas ainda, mas amar-te vai ser melhor hoje do que foi ontem.

Sombra de los días a venir

A Ivonne A. Bordelois

Mañana
me vestirán con cenizas al alba,
me llenarán la boca de flores.
Aprendré a dormir
en la memoria de un muro,
en la respiración
de un animal que sueña.

Alejandra Pizarnik, in Poesía Completa, ed. Penguin Random House, col. Lumen, pág. 202

Pergunta nómada

Viajar por onde já se andou conta como viajar ou é simplesmente regressar a casa?

Uma questão simples

A questão é simples: falar de mim é enjoativo; do resto irrelevante, porque há quem o faça muito melhor do que eu. 

28.5.19

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 28-05-2019

Menos três / duzentos e vinte e oito / zero. Três números que definem e delimitam outro glorioso embarque num avião: três boras antes da descolagem estava a duzentos e vinte e oito quilómetros do aeroporto, com zero meios de transporte definidos e muito menos reservados. Se volto a ouvir alguém dizer mal da internet, dos telefones portáteis e da modernidade em geral não sei o que faço. (Provavelmente nada; limito-me a pensar "idiota", ou "coitado", no caso de ele o ser já de antes). Desta vez quem me tirou de apuros foi a Blablacar e quem me meteu neles foi a habitual mistura de desleixo, falta de vontade de pactuar com companhias aéreas que de baixo so têm o serviço e a aplicação daquela regra simples da ética que diz "Não faças aos outros o que não queres que fe façam a ti."

As recompensas do outro mundo motivam-me pouco. Desta vez confirmei apenas que se pode ser correcto e atingir os nossos objectivos. Dependendo desses objectivos, claro. Devemos escolhê-los de forma a podermos comportarmo-nos de uma forma aceitável.

Enfim, vasto debate. A ética sai caro, é coisa de ricos. Ou se tem dinheiro para ela ou se aceita não o ter. Seja como for: agora é tarde para ser dono de um avião privado (a menos que me saia o toto-milhões, pouco provável porque raramente o compro), mas não é tarde para continuar a não fazer aos outros o que não quero que me façam a mim.

(Devo dizer que a minha bondade foi premiada com um par de mamas do outro mundo - o mundo jovem - generosa mas não devassamente expostas mesmo ao meu lado no avião? A ética compensa.)

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Chego a Palma e sou recebido de braços abertos, graciosa e opulentamente: depois de tratadas as formalidades do automóvel acorro ao Aurélio, que está a fechar e só me pode servir um vermute na brasa e me aconselha uma tasca do outro lado da rua que é, diz ele, muito boa. Diz ele, digo eu e dirá qualquer pessoa de bom senso ou bom gosto, coisa que às vezes sou. 

27.5.19

Monossílabos

Deito-me e embrulho-me em calor. O quarto tem ar condicionado mas não o ligo. Prefiro esta atmosfera quente, terna, aconchegante, na qual me dissolvo serenamente.

É segunda-feira mas a praça à frente do hotel está a abarrotar de gente. O barulho chega-me filtrado, como se ao ar quente faltasse energia para fazer de relai.

Apago a luz e preparo-me para não dormir: deixo-me simplesmente invadir por esta sensação de bem-estar com que um simples monossílabo conseguiu encher todos os interstícios da minha vida.

Diário de Bordos - Sevilla, Andaluzia, Espanha, 27-05-2019

Não é só as árvores, o calor e as mulheres bonitas. Há mais qualquer coisa que torna impossível um gajo não gostar destas cidades do Mediterrâneo mal lhes dá um passo pelos centros tortuosos, apertados e contorcidos como uma toalha de praia que se espreme para se lhe tirar o excesso de agua, depois de uma rajada a ter levado à água.

É o desleixo. O poder apelativo do desleixo é sistematicamente mal apreciado, passa despercebido mas a estética que dele resulta é poderosa. Esta mistura de arquitecturas imponente, pragmática, "o-que-pôde-ser", "estou-me-nas-tintas-para-o-que-os-outros-pensam", de ruas que não estão sujas mas tão pouco limpas, mesas que nascem como árvores e árvores onde não cabe uma cadeira só prova uma coisa: um mediterrânico é um tipo que sabe o que é a grandeza e convive com a desordem, sabe o que é belo e aceita a fealdade, é simultaneamente asseado em privado e sujo no público, entende que o caminho mais curto entre dois pontos é o mais bonito e não uma linha recta e - sobretudo - sabe dar valor ao que o merece e não dar ao resto.

Um mediterrânico sabe que o desleixo é a vida e a ordem morte. Ainda os termos entropia e neguentropia não existiam e já os mediterrânicos os aplicavam consciente e apelativamente.

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Por razões que têm a ver com o que têm a ver tive de ficar em Sevilha esta noite. Passei a tarde a dormir. Sonos velhos, acumulados, quase a perder a validade. Até amanhã terei de contar os cêntimos, literalmemte. O desleixo é bonito e caro, quase tanto como o voto.

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Escrevo numa tasca mesmo debaixo da televisão que aqui, ao contrário de Portugal, tem som. Programa de culinária. Um gajo qualquer que não vejo mas oiço diz que os "embutidos" são opcionales. Há alguma coisa que o não seja, minha besta? Tabarly (admitidamente a coisa mais perto de um deus que a evolução jamais criou) um dia fez um Pato com Laranja sem pato e sem laranja, só com arroz e diz quem o provou que estava óptimo, que foi o melhor pato com laranja de sempre.

(Verdada que tinha muito humor, um ingrediente que substitui praticamente tudo, na cozinha e fora dela.)

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Sacana do tele-cozinheiro não se cala. vou pregar para outra freguesia.

26.5.19

Pequeno dicionário de sinónimos modernos

Neoliberal: demónio, maligno, Satanás, Lúcifer;

Neoliberalismo: pecado, obras do demo, conjunto de acções, teorias e sonhos que junta ou separadamente constituem o Mal;

Aquecimento global: método pelo qual o Maligno tenta levar a humanidade ao Inferno, Mafarrico;

Ambientalismo: resposta das forças do Bem na luta de vida ou de morte contra o Mafarrico;

Capitalismo: outro método do demo para levar a humanidade à morte. É um metodo traiçoeiro porque finge que espalha prosperidade por onde passa. É mentira: só na aparência as pessoas ficam mais ricas, comem melhor, são mais livres e vivem nais tempo;

Verdes: pessoas, animais e outros seres que existem para desmascarar os malefícios do capitalismo, recorrendo às armas e artimanhas deste.

25.5.19

Votos

Que a tristeza te seja tão fugaz como a felicidade. 

Coisas, espanto

As "coisas" estão a correr bem, finalmente. Como um rio que corre do delta para a nascente: vasto rio, vasto e indefinível delta.

Daí as aspas: a que coisas se refere esse "coisas" que tão bem correm? Coisas atléticas? Coisas dessas geografias todas de que é feita uma vida: geografias de amores, trabalhos, geografias (passe a redundância)?

"Não sei, não quero saber e tenho raiva a quem sabe", diz a fórmula: limito-me a timonar o correr do rio, um bocadinho ofegante de cansaço, isento de impaciência... espantado, quase.

Compondo (como se pode)

A idade não me provoca engulhos de maior: sou indubitavelmente melhor pessoa agora do que há quarenta anos. Algumas funções estarão talvez longe do seu melhor nivel, mas enfim. Lá se vai  compondo.

24.5.19

Viver?

Mais ou menos como estar deitado em cima de uma passadeira rolante, acordar mesmo antes do fim, levantares-te ainda estremunhado de sono e correr para a outra ponta, tentar refazer o percurso sem dormir na forma.

23.5.19

Realidade, cânticos e tudo

"Human kind / cannot bear very much reality", dizia um tipo que percebia de terrenos e da humanidade. Penso nisto porque esta conversa do ambientalismo me leva àquela que me parece a verdadeira questão: por que raio de carga de água não pode a humanidade viver sem um demónio, sem um mal? Um gajo mata Deus e mata o Diabo ao mesmo tempo, claro; e a primeira coisa que o homem faz é substituir um e outro. Porque não se substitui só um deles, o bom, o Deus?

Porque um não pode existir sem o outro, estúpido. Que raio de religião seria o ambiente sem a ameaça de cheias, cancros e desgraças múltiplas?

Tenho absolutamente de reler o Cântico para Leibowitz. Estava lá tudo e lembro-me de tão pouco.

Lisboa, placenta

Colo-me à pele desta cidade mas por dentro: vejo-a como um feto vê a mãe, mexo-me nela como no líquido amniótico, dou-lhe pontapés mas são pontapés de amor, não de raiva.

Diário de Bordos - Lisboa, 23-05-2019

R. pensa que sou um idiota. Tem razão no diagnóstico mas engana-se quanto às causas. Desta vez o tema da nossa "conversa" (entre aspas por preciosismo) foram as "alterações climáticas" (agora, porque cito). Parece que vão provocar uma subida dos oceanos e inundar metade das terras habitadas, entre muitas outras catástrofes.

Confesso que o tema me desinteressa ao mais alto grau. Tenho um razoável conhecimento da catequese católica e outro - menor - dos catecismos muçulmano ou budista mas evito discussões sobre temas religiosos: cada um acredita no que quer, desde que não queime na fogueira ou bombeie quem não partilha semelhante clarividência (uso o termo sem sombra de ironia: o que faz de uma religião uma religião é a sua evidência, a sua auto-explicação. Os três pastorinhos não viram a Virgem por causa das sopas de cavalo cansado do pequeno-almoço. Viram-Na porque sim, porque ela estava lá, em cima de uma oliveira ou coisa que o valha, numa suspensão temporária e de outra forma incompreensível da gravidade e da razão).

O movimento ambientalista nasceu da falência do comunismo. Tinha eu vinte anos e os agora "verdes" eram conhecidos por melancias: "verdes por fora e vermelhos por dentro". É um movimento religioso anti-capitalista que substituiu outro movimento religioso anti-capitalista, o marxismo (felizmente. Sempre mata menos). Já tinha prometido que com a R. não falaria senão de flores, bordados e casas para velhos, mas ontem, obviamente não resisti e mal o mar começou a subir à mesa eu subi com ele.

Uma vez dei a volta ao mundo num cargueiro. Atravessei o Pacífico entre o Panamá e uma cidade russa chamada Nakhodka, na qual de resto mais tarde viria e encontrar uma das grandes paixões da minha vida. Demorei trinta dias - trinta - entre o Panamá e a longitude do Japão. (É inútil entrar em pormenores muito técnicos, mas não fizemos o arco de círculo. O comandante, numa decisão acertada, preferiu-lhe uma loxodromia mas isso agora é irrelevante. Seguimos pelos vinte e cinco graus de latitude norte até ao Japão e aí "virámos à direita"). Trinta e tal dias de viagem para atravessar um oceano num sentido só. Alguém imagina quanto gelo seria preciso para fazer aquela massa de água subir um centímetro? Teriam que ir buscar gelo a metade do Universo, suponho.

E toda a gente fala da subida do oceano como dantes falavam da "Luta de Classes". A malta do século XIX teve mais sorte: não tinha Deus mas tinha a ciência (depois descambou no "socialismo científico", um dos oxímoros mais mortíferos da história...) Hoje temos esta porra desta crença infantil e primitiva de que os oceanos vão subir, o glifosato vai matar-nos e o Rousseau era bom rapaz (o outro é que o topava: "il prend envie de marcher à quatre pattes, Monsieur, quand on lit votre ouvrage").

Enfim, resumindo: a R. tem razão. Sou um idiota, mas não por causa do meu cepticismo crónico. A minha falta de inteligência dispensa explicações, como a Virgindade Perpétua de Maria - o que as religiões podem ser maldosas - ou a Santíssima Trindade.

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Isto dito, o jantar foi óptimo, como todos são sempre em casa da J. Conheci-a por intermédio do Facebook e só isso chegaria para me fazer fã do Zuckerberg, se fosse dado a fanatismos.

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O P. continua a avançar a bom ritmo. A minha previsão inicial - no fim de tudo teríamos de esperar pelos panos - confirma-se, mas pelas razões erradas. Acertar nos diagnósticos e falhar nas causas é mal universal.

22.5.19

Encostar

"Se à minha encostares a tua..." De que raio me falava? Nunca percebi se era da pele, se da vida, da carteira ou dos nossos respectivos sexos.

Na dúvida, encostei aquilo tudo mais um sonho ou dois, que por vezes partilhávamos acordados e outras a dormir.

21.5.19

Um sonho de Mértola

Hoje comi um bocado de plástico. Já não me lembro porquê: foi num sonho. Era um plástico muito macio e colorido, como aquele onde vinha o papel fotográfico antigamente, preto de um lado e colorido do outro. O sonho foi particularmente movimentado, andava para trás e para a frente com dois modelos, a J. M. V., e mais um tipo que era o manager ou RP dos modelos e se parecia com um amigo meu cujo nome agora me escapa. É belga e trabalha em publicidade. Andávamos os cinco num grande automóvel a visitar lugares da moda. A certa altura parámos para almoçar, num hotel muito chique que me lembrou o Polana. Um dos componentes do almoço vinha no tal plástico, que eu comi. Toda a gente ficou horrorizada, mas ninguém disse nada. Os modelos eram duas miúdas de vinte e poucos anos, nunca lhes vi a cara; depois do almoço foram desfilar. Acordei a tentar explicar a mim próprio porque tinha comido aquilo, mas não encontrei razão alguma. No pátio do hotel estava um carro que parecia um Porsche mas mais largo. Alguém do grupo comentou "olha que bom, o James Bond também aqui está. Vamos ter uma enchente". Ainda me lembro dos assentos do carro, espaçados. Assim que de repente me lembre é a primeira vez que como plástico num sonho e é o primeiro sonho de que lembro em Mértola, se não se incluir os sonhos acordados. Esses tenho-os com frequência. Não incluem comer plástico, nem levar modelos a almoçar a hotéis de luxo e muito menos carros com três lugares à frente, em cadeiras futuristas, daquelas que se viam nos filmes de ficção científica dos anos sessenta.

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O P. está a avançar muito bem e depressa. Finalmente encontrei um carpinteiro / laminador (especialista em fibra de vidro, para quem não sabe. Em português também se diz assim?) que trabalha bem, depressa e - segundo o I. - sabe o que faz.

Esse é outro sonho frequente: ver o P. pronto. Aposto que vai parecer-me tão estranho como comer plástico num hotel de cinco estrelas.

Um dia hei-de navegar o Estreito de Magalhães nele, passar o Horn e ir a Chiloé.

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Estes dias meio oníricos do Festival Islâmico acabaram. A vila regressa ao silêncio habitual. É um sonho de vila, esta.

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Mandei um artigo à R., uma das raras mulheres por quem fugiria de casa (se tivesse casa, eu sei. Não tendo é fácil).

Tens sim, estúpido. É um sonho, mas é real. Demonstra que tens uma interminável capacidade para concretizar os teus sonhos, apesar de tudo; e uma ainda maior para os esquecer.

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Sem querer, apercebo-me de que faço uma belíssima descrição de Mértola: um sonho dentro de um sonho dentro de um sonho.

Preferência

Antes ser o primeiro e não ter ninguém atrás do que o último de uma fila enorme. 

20.5.19

Escolhas

Não ter nada a dizer é a melhor das prisões e a pior das liberdades. Não sei qual escolher.

Luz, escuridão e deuses

Estar cheio de sol é assim: és um pequeno deus. Os grandes deuses vivem na e da escuridão.

A ferros

Saem-me a ferros, as palavras ainda por escrever e os amores já amados.

Saudades

Tenho saudades do tempo em que te podia escrever, mulher. Poder escrever a alguém é dar um alvo às flechas, dizer-lhes para onde irem. Elas retribuem: índicam-nos quem amar.

15.5.19

Poesia para gente crescida e poesia infantil

Pensa-se em Pizarnik e noventa e nove por cento dos outros poetas parecem autores infantis. Quem fica de fora? Celan, claro; Pessoa; Pound? Teria que relê-lo, para ter a certeza. O Éluard de depois da morte da mulher; Saint-John Perse; Tagore; quem mais? Alguma ideia? Não me venham com os beatnik, por favor: esses são infantis mesmo sem pensar na Alejandra.

Diário de Bordos - Mértola, Portugal, 15-05-2019

Está calor, mas ainda não é daquele que se vê. Por enquanto, este sente-se mas não é visível. Desse, só mais lá para o  Verão.

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A ideia de que a cerveja serve para matar a sede deve ser reavaliada. Deve beber-se cerveja quando se tem fome e beber vinho quando se tem sede.

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Primeiras horas em casa. Quando é que uma casa é a nossa casa? Uma relação começa na primeira noite em que se dorme junto e não se faz amor. E uma casa, quando é que começa a ser nossa, quando é que deixa de ser um acampamento, mais um?

Não sei.

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Azáfama para o Festival Islâmico. J. diz-me que está tudo muito atrasado. Isto não é bem atrasado, é mais da matéria de que os milagres se fazem.

14.5.19

Curiosidades

Já por aqui devo ter contado a história da criação da minha primeira empresa; se não contei, ficará para outro dia. Comecei-a sem um cêntimo, perdi imenso tempo à procura de um barco de uma forma que hoje - há muito tempo, na verdade - sei que seria impossível não falhar, acabei por encontrá-lo emprestado, fui para os Açores - era a primeira vez que lá  punha os pés  - e fartei-me de ganhar dinheiro até apanhar uma multa por charter ilegal.

Depois disso continuei a ganhar dinheiro, embora menos; e resolvi fazer as coisas mais de acordo com a legislação. Aí começou uma espécie de corrida de obstáculos, os cem mil metros barreiras, como lhe chamava. Para além da distância, esta corrida tinha três características que a diferenciavam dos banais cem metros:
a) os obstáculos não eram todos da mesma altura - alguns eram muito mais altos do que outros -; b) apareciam ao acaso, não estavam visíveis desde o início e c) entre as barreiras havia minas escondidas. Um gajo ia a correr e de repente aparecia-lhe uma barreira à frente; tudo o que havia a fazer era saltá-la. Às vezes lá dava para a contornar, com um bocadinho de jogo de cintura, sabendo que isso não passava de adiar a solução, sempre e só uma: saltar. Depois explodia uma mina. E assim iam os dias passando, alternando minas, barreiras altas, baixas, que apareciam e desapareciam sem se perceber como.

Curioso, não é? Isto aconteceu em 1985...

Avenida da Liberdade, nº 1

Suponho que todos os primeiros livros têm uma história por trás deles. Não vale a pena chatear as pessoas com mais uma.

Mas lá que estou feliz, estou. E grato.

Avenida da Liberdade, nº 1

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 13-05-2019

Há em mim uma espécie de perversão que consiste em reagir negativamente à pancada. Isto é, reagir ao contrário: em vez de dizer "Que se foda, ganharam" e mandar a toalha para o meio do ring, perguntar-me "Como vou resolver esta merda?" ainda mais teimosamente. É como se a cada murro ficasse mais resoluto, mais determinado. Foi isso que me fez aguentar a catástrofe dos Açores tanto tempo, ir às cordas a cada projecto ou no Burundi ganhar a guerra com a Alfândega (uma vitória de que posteriormente vi a futilidade e o erro e vim a lamentar, mas que não deixa de ser uma das mais bonitas da ninha vida - como de resto muito do que vivi naquele ano).

Há dois filmes de ou com Paul Newman que falam desta - insisto no termo - perversão. Um chama-se Never Give an Inch (aliás Sometimes a Great Notion, diz-me o IMDB). O outro chama-se Cool Hand Luke. Vi-os há muitos anos, quando ainda ia ao cinema. As pessoas dizem que perder é não ir à luta, mas quando isso não me parece uma malvadez - tem alguma nobreza, vá lá - passa a simples burrice. No caso dos filmes é impossível não apreciar as personagens, mas vida é vida, não é cinema.

Hoje tive um dia desses, um dia em que me pergunto por que raio de carga de água "as coisas" insistem em fazer de mim um saco de porrada. E logo a seguir, no mesmo movimento, "como raio hei-de foder estes gajos?" sendo que "foder estes gajos" consiste simplesmente em encontrar alguém de confiança para acabar o interior do P. Não é muito, mas para mim é mais do que imaginar Sísifo feliz e livre: é imaginá-lo a pôr a porra do calhau no cume da montanha, descer de lá satisfeito e - aí sim - livre, a esfregar as mãos de contentamento.

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Um dia de merda mas acabou bem, tão bem quanta a merda foi merda: o DV vai finalmente transformar-se em livro (em livros, espero) e hoje deu-se o primeiro passo da primeira etapa dessa viagem. Digo "finalmente" porque o processo foi longo, difícil e tortuoso, uma espécie de tango mal dançado, resolvido no fim graças à determinação e insistência de J.M.V. e ao pior transporte da minha vida - Deus sabe se os tenho tido maus -. É como um parto por aquelas mães que recusam a gravidez, fazem o que podem para abortar sem abortar directamente e o filho nasce-lhes apesar de tudo. Neste caso não só nasceu como me deixou feliz. Que vivam, a vida e a liberdade e tudo o que elas nos trazem.

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Este refit é de longe o maior projecto deste tipo no qual estive envolvido como responsável. Parece-me um rio alimentado por centenas, milhares de afluentes: tudo o que fiz até hoje vem desaguar aqui. Sinto-me como uma criança com poderes mágicos ou um super-homem sem eles: em qualquer dos casos estou desarmado e tenho armas, nu e tenho roupa num armário qualquer. Basta-me procurar: já passei por eles todos, só que isoladamente. Agora todos os rios, riachos, ribeiros da minha vida, todos sem excepção convergem para aqui, para este dia, este ano, este barco.

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É assim: estar no pico e na cava da vaga ao mesmo tempo, como o gato do outro; amassado e lutador como o Newman nos filmes; ou simplesmente teimoso, como sempre fui.

13.5.19

Frio

Estou com frio, mas não sei se vem de fora ou de dentro. Por mais que me cubra não passa.

12.5.19

Aconchego

Hoje morreu o pai da M., que é um dos meus melhores amigos (a M.) e eu estou triste com ela, por ela, apesar de isto de os pais morrerem ser tão frequente,  acabam todos por nos deixar ali especados no meio da rua a perguntar "E agora?" enquanto o trânsito continua a toda a velocidade em todas as direcções e nós de repente sozinhos, nós de repente a perguntar-nos se fizemos sempre o que devíamos ter feito sabendo perfeitamente que não fizemos mas agora é tarde, vamos ter de viver sem o aconchego, sem a calma e a sabedoria e a simples presença do Pai, ali especados sozinhos.

Beijo-te, minha querida M.

11.5.19

Dispersas do dia - 11-05-2019, Palma

É sabado, está calor desde o fundo do ar até à medula dos ossos, o mercado começa a encher-se. A excitação no ar é tangível. As vendedoras estão mais bonitas do que o habitual: esta mistura de calidez e perspectiva de dinheiro a entrar estimula-lhes a produção de adrenalina e progesterona, uma combinação que transforma qualquer mulher em Miss Universo.

Por uma razão qualquer, a perspectiva de beber vinho não me atrai. Acompanho a carbonara com cerveja. Esta carbonara resiste a tudo. Enquanto me lembrar dela não conseguirei comer outra.

(Verdade seja dita: o meu estômago está ligeiramente perplexo. Mando-o dar uma volta ao bilhar grande e pergunto ao Luca onde encontrar um restaurante italiano que tenha pratos a sério. A cozinha italiana é a prova de que a civilização começou em Roma e esta merda destas pizze e pasta são uma praga - com a óbvia excepção das do Luca, mas isso é outro campeonato. Ele está muito à frente na conquista do título de melhor pastaio da galáxia e de qualquer maneira aquilo não é um restaurante. É um stand no mercado.)

O meu estômago está inseguro quanto à cerveja, suponho. Peço outra, não vá ele pensar que uma simples noite de copos lhe dá todos os direitos.

Às vezes penso na minha vida como um tricot, outras acho que ela se parece mais com um quebra-gelos a avançar através de uma camada de gelo no limite do que ele aguenta. O gelo faz barulho ao partir-se, reclama, luta. O quebra-gelos prossegue, nem impávido nem sereno.

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Acabo o almoço, a deambulação pelo mercado e venho deitar-me, decisão aprovada por quase todos os órgãos. Quase: os que não estão contentes que se amanhem.

Limpezas e arrumações

É forçoso - mas longe de ser um sacrifício, muito longe - reconhecer que a noite de ontem foi uma grande noite de copos. Cumpriu integralmente as funções dessas noites: limpar os circuitos sinápticos dos macaquinhos que por eles se passeiam (aos quais às vezes chamo demónios, mas isso é quando estou para choraminguices, pieguices e outras paneleirices. Hoje - e espero que daqui em diante - isto devia durar para sempre. "Isto" sendo esta alegria, esta leveza de ter o sótão limpo e arrumado).

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 10-05-2019

Onde começa um dia? Quando acaba: quando deixou de ser dia, quando deixou de ser trabalho? Não sei e pouco me interessa. Hoje começa pelo fim, pelo 7 Machos, que tem a melhor Tequila e os melhores nachos a leste do Pecos - e a dona mais bonita, aposto -. Foi lá que perdi o Ch., que já mal podia andar. Lembrou-me uma vez que levei um gajo a Setúbal de táxi. É uma história triste e não a vou contar aqui.

Antes dos 7 Machos estivemos num sítio absolutamente magnífico chamado Art Mobles i Vins, em maiorquino. É uma espécie de tangente do kitsch e da arte, mas isto tem muito que se lhe diga. Tomei bastantes notas. Com um pouco de sorte amanhã ainda estão legíveis.

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O lado feio da vida é o kitsch. O lado bonito do kitsch é a vida. Estão demasiado entrelaçados, eu sei.

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Há um ponto nevrálgico no qual a arte e o kitsch se encontram, Quem se ri de um não percebe o outro: a arte e o kitsch tocam-se no mesmo ponto em que a vida toca o belo e o feio toca a vida,

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Toda a gente sabe que o melhor cocktail do mundo se chama Painkiller. A seguir vem o Gin Tonic, que refresca e engrossa simultaneamente.

O Alexander do Procópio está obviamente fora de competição, como os filmes em Cannes e a Jacqueline Bisset.

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Se fosse preciso escolher entre comer e beber de mais escolheria sem dévida beber de mais. Comer muito é feio, é um desperdício interiorizado. Pelo contrário, beber muito é a utilização nobre dos recursos postos à nossa disposição para fazer do mundo um lugar suportável.

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Das quatro pessoas ao balcão, três estão agarradas ao telefone. Sobro eu, agarrado ao tinnitus, à vontade de te ver, ao saber que essa vontade é fútil, vã e infantil. Estéril. Agarro-me a quê, então?

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Kitsch? Arte no primeiro grau? As pessoas aqui já viveram mais do que metade da prisão, metade do convento, metado do hospital e metade do hospício viveram e não passam de uma dúzia de gatos pingados e velhos. A idade média do sítio não deve andar muito longe dos setenta anos, se excluirmos os empregados e a cantora, uma mulata linda, prova viva de que os racistas não só não percebem nada como ainda são punidos, coitados.

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Palma é um carnaval permanente: aldeia disfarçada de cidade grande, cidade grande disfarçada de aldeia.

9.5.19

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 09-05-2019

"Je suis devant ce paysage féminin
Comme un enfant devant le feu"

É um poema triste, por muito elegante que seja na tristeza mas é nele que penso cada vez que venho ao STP.

Je suis devant ces bateaux
Comme un enfant devant le feu...

É mais preciso, mas não é isso ainda. É assim:

Je suis devant ces bateaux 
qui se font choyer, câliner, dorloter,
caresser par des mains habilles et des regards aimants
Commue une gamine dans un hôpital de poupées.

Menos bonito, claro; mas mais descritivo. É exactamente isso. Se pudesse, seria no STP que viveria, a olhar para aquela beleza toda, para os cuidados que centenas de homens e mulheres profissionais e competentes lhe prestam, para o desvelo. É essa a palavra: desvelo.

........,
Se alguém pensar - correctamente - que Lisboa é uma cidade que se esconde, não se dá a ver: venha a Palma. Quanto tempo será preciso para se poder dizer "Conheço Palma"? Isto é, quantas vidas? Estou aqui há um ano, quase sempre no mesmo bairro e ainda não o conheço.

Hoje, por exemplo, descobri uma vermuteria cujo nome é ... não sei, não me lembro. Simplesmente porque decidi ir da Sifoneria à Tasquita por uma rua diferente da habitual. Fui recebido por uma senhora gorda e feia com um som parecido com um rosnido e uma frase que soava vagamente a "o que é que queres?" Quando saí já estava mais amigável, pouco. Pelo menos falava. A última vez que um estrangeiro ali entrou deve ter sido mais ou menos aquando da última invasão de piratas, lá para o século dezoito ou coisa que o valha.

Lamento, señora, mas a partir de agora vai ver pelo menos um estrangeiro muito mais vezes.

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Há cidades assim, feitas para nos perdermos - que só se abrem a quem se perde por elas.
Há livros que não se deixam reler, porque se lêem sempre pela primeira vez.
Há vidas que não se perdem, porque todos os dias as perdemos e as vivemos pela primeira vez.

Mértola, traço-de-união

Mértola é um de traço-de-união entre o campo e o mar. Os mais preciosistas dir-me-ão: "Traço-de-união é o rio, sua besta". Como de costume, os preciosistas não teriam percebido nada, se me tivessem dito isso. Ainda não disseram.

O traço-de-união é Mértola e o rio a sua expressão gráfica.

8.5.19

Dispersas do dia - Palma, 08-05-2019

Deixo aqui uma pergunta aos condutores de automóveis de Palma: se não buzinam quando o sinal muda para verde, como querem que saiba que o sinal mudou? Ou vocês pensam que um gajo está parado num semáforo a olhar para as luzes feito Ayrton Senna?

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Alguém me trouxe à memória o Dicionário Khazar, um daqueles livros que nunca se relêem porque cada vez que se os lê é a primeira vez.

Trouxe à memória não é a expressão adequada: nunca dela saiu.

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Uma expressão francesa (ou será suíça? Não sei) de que gosto muito: le fonds de l'air. Aplica-se à temperatura: le fonds de l'air est frais (ou chaud, ou tiède). Usa-se quando há uma discrepância entre a temperatura que se sente e a do "fundo do ar".

Aqui em Palma o fundo do ar deixou de ser fresco. O bendito calor está à porta.

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A continuar assim não tarda tenho o convés do P. impermeabilizado. Para acabar a electricidade falta pouco. O tanque de água vai chegar "em breve". O gerador não é uma prioridade. Basta-me tê-lo a bordo, se não estiver ligado agora liga-se depois; a madeira podre dos fundos foi toda removida. Amanhã retomamos o trabalho de refazer os apoios para os paneiros. Acabar de montar e pintar o convés. Capação. Provas de mar. Costa Brava. Charter. Navegar. 

7.5.19

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 07-05-2019

Chegas a bordo e ficas contente com o avanço do trabalho. Chegas a bordo e desesperas com a lentidão do trabalho. Seria melhor ter um temperamento bipolar para aguentar estes dias sem chegar exausto ao pobre do blogue, coitado.

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Hoje foi dia de mergulho outra vez, tirar o plug [alguém me ajuda na tradução, se faz favor?]. Não saiu, tal como era de esperar. A madeira inchou, vai ser preciso um mergulhador. Encontrei que me faz o serviço "por uma garrafa de Porto". É o marinheiro mais porreiro do clube; o ano passado trouxe-lhe uma de presente. Desta trago-lhe duas.

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Isto dito: vai devagar, mas vai. E - sobretudo, sobre muito tudo - vai bem. Já consigo vê-lo a navegar. Está tão impaciente como eu.

O nome da rosa

Simples questão de pegares numa rosa e a mandares à Lua com um bilhete se ida simples. Deixa-a crescer naquele lugar inóspito e por lá envelhecer,  regada sabe-se lá por quem.

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Imagina o começo de um dia de Lua Cheia. A Lua está visivel no horizonte,  a praia-mar será por volta das duas da tarde (se estiveres nas nossas latitudes, algures entre os trinta e os cinquenta graus), tu sais de casa, do teu camarote, de um bar no qual a noite se arrastou, de uma cama que te custa deixar, de um quarto que nunca mais acabou: que fazer daquele disco agora pálido e cuja função te parece ser arrastar água de um lado do planeta para o outro, inspirar poetas medíocres (como tu) ou grandes parangonas nos jornais sobre a "super-Lua"?

Planta-lhe uma rosa, deixa-a crescer regada apenas pelo teu olhar. Dá um nome a essa rosa: Ana, Rita, Helena, Sandra, Tatiana, Paula, Diane, Alexandra, Viktoria, Tsombé, Isabel, Suzanne, Ilse...

Um nome, estúpido. Só um.

6.5.19

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 06-05-2019

Que dizer de dias que se atropelam uns aos outros? Não é "um automóvel desgovernado atingiu um peão na passadeira", mas sim "vinte automóveis parcialmente governados atingiram um peão parcialmente atordoado".

A minha habilidade manual é nula; espero ter mais capacidade para lidar com vinte bolas no ar, das quais mais de metade não obedece às leis da gravidade que todos conhecemos.

Melhor não dizer nada: atravessar a pista com a banda toda a tocar, não pôr o pé na caca de elefante porque é difícil tirá-lo, não deixar o público aperceber-se de que o circo está rodeado de tanques. Fazer de Rommel no deserto mas não aceitar a opção oferecida. Seguir em frente. Ganhar a guerra.  Navegar como os pilotos das lanchas em Bocas del Toro: acasalar com as vagas, não as atravessar.

Acasalar com os dias, com a vida. 

Peço justiça

As palavras andam por aí aos magotes, aos trambolhões mas há quem mas escamoteie, quem mas açambarque, quem mas desvie. Enfim, o "açambarcamento" era um crime, nos idos do PREC; o roubo é um, hoje; e o desvio, o rapto também mas não sei se palavras podem ser incluidas no código penal como vítimas. "Aquela senhora roubou-me as palavras, senhor doutor juiz; raptou-as, guardou-as com ela e não mas devolve, por mais que eu faça. A única maneira que tenho de a magoar é dizer-lhe quanto gosto dela, veja lá; porém, quanto mais lho digo mais ele me tira as palavras das mãos. Sim, das mãos: estou longe dela, se falasse ela não me ouviria. Escrevo-lhas, bato-as no teclado do pobre computador que não tem culpa nenhuma, coitado. E nem assim ela mas devolve. É que nem um "Boa noite" senhor doutor juiz. Peço justiça."

4.5.19

Energia matinal

Se por acaso amanhã de manhã te sentires capaz de mover planetas, cometas, estrelas e astros diversos: começa por te levantar da cama.

Melhoramentos selectivos

É este danado problema da entropia: tudo se degrada à tua volta. Tu não, claro. Antes pelo contrário,  estás cada vez melhor. Como se o tempo soubesse escolher: tu dum lado e o resto todo do outro. As coisas não aprendem, é uma maçada.

Só não se percebe é como com tanto melhoramento tu não aprendes a lidar com elas.

3.5.19

"Until it's time for you to go"

É um erro pensar que esta canção se refere apenas às relações entre um homem e uma mulher.

https://www.youtube.com/watch?v=8wgZmVvs-Xk

Vinho quotidiano, frio

Escrevo-te, escrevo-me, escrevo esta Palma chuvosa, fria e triste. Chovem-me por dentro, tu e a tua distância, a tua ausência, fazem-me frio, tu passeias-te por mim como eu nestas ruas molhadas, escorregadias, sozinhas.

Resolvi comprar uma boa garrafa de vinho, quero mudar do vinho de todos os dias, é um bocadinho como querer mudar da tristeza de todos os dias, não é, a tristeza habitual, tão habitual que já nem se degusta, como o vinho quotidiano.

Como a tua ausência, estas palavras que te procuram como a boca de um afogado procura o ar, esbracejando. Logo provarei o vinho novo, a tristeza nova, a solidão de sempre, o frio e a chuva de hoje.

Há cidades que não são feitas para a chuva, como Palma; há lábios feitos para  chamar por ti, os meus; corpos para ser amados, tu. Choves-me por dentro, mulher e eu pouco mais tenho do que o vinho quotidiano, o casaco que me deste, o frio.

1.5.19

Imbecilidade, amor e outras coisas

Devíamos, todos juntos cantar uma lauda à imbecilidade. Todos: não há ninguém que não tenha um imbecil à mão de semear. Um imbecil favorito: para mim um socialista, para um socialista um liberal e assim por diante.

Simultaneamente faríamos um hino ao amor. Teria  menos clientes mas seria muito mais honesto. 

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 30-04-2019

Há muito tempo que não fazia isto: vir à Babel comprar um livro, sentar-me na esplanada (esta ou a da Antiquari, ao lado), ler e beber um copo de vinho enquanto oiço o músico que por acaso está nas escadas. Hoje é um sax, bastante bom, por sinal. Começou com Take Five. Um dos livros que comprei é uma pequena compilação da Pizarnik, apesar de já ter as obras completas dela. Mas Pizarnik é Pizarnik e viver sem a ter ao lado é como pintar com uma paleta sem metade das cores; ou viver sem passado.

"No me entregues, 
                              tristísima medianoche
Al impuro mediodia blanco"


Tristísima medianoche...
Mediodia blanco...

Onde é que este poema foi escrito? Por quê, por quem? "No me entregues"

Não foi de certeza neste fim de tarde maiorquino, na praça de onde nasceu a minha primeira estadia em Palma. Sem Pizarnik a vida é um quadro pintado por um pintor daltónico.

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Algumas pessoas não gostam do calor. Compreendo-as tão bem como se me dissessem "não gosto de e=mc2". Ou "Não gosto de g=9,8m/s2".

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O grande problema de escrever é que enquanto escrevo não leio. Vinte volumes meus não valem uma vírgula da Alejandra. "Escribo contra el miedo. Contra el viento con garras que se aloja en mi respiración."

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Acabei a jantar com F., o dono do Antiquari e um amigo dele, pintor. Não sei se posso dizer que foi uma seca, porque foi. O homem deve ter sniffado uma linha de coca de Lisboa a Cascais e volta.

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"en esta noche en este mundo
extraordinario silencio el de esta noche
lo que pasa con el alma es que no se ve
lo que pasa con la mente es que no se ve
lo que pasa con el espíritu es que no se ve
¿de onde viene esta conspiración de invisibilidades?

Ninguna palabra es visible
..."

Não sei, Alejandra, não sei de onde vêm estas conspirações todas. Somos invísiveis, tu menos do que eu, felizmente. O mundo ganha com o que tu não vês mas advinhaste com tal clareza que te fez morrer.

A tua paleta só tem cores densas, escuras e foi a claridade que te matou.

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"Había que escribir sin para qué, sin para quién".