27.6.20

A Fé, o milenarismo e outras digressões teórico-sentimentais

Há aproximadamente quatro ou cinco vidas interessei-me por neurologia, biologia e outros ias. Lia François Jacob, Jacques Monod, Edward Hall, Gregory Bateson, Paul Watzlawick, descobria Jean-Pierre Changeux, devorava o Morin do Paradigma Perdido e do Método... Foi um período que durou alguns anos e de que ainda hoje guardo muitos traços. Lá para o fim dele li uma tese segundo a qual a fé religiosa é uma parte constitutiva do cérebro humano e não uma opção. É o resultado de um processo evolutivo. O homem seria naturalmente religioso e o ateísmo uma desviância. Não me lembro do autor mas lembro-me de que na altura não levei aquilo muito a sério. Ateu desde os catorze anos, habituara-me a olhar para as manifestações de fé como formas particularmente bem sucedidas da superstição, um pouco à imagem da diferença entre dialecto e língua: "uma língua é um dialecto que tem um exército e uma marinha" diz a piada (que não o é assim tanto). Acreditava que as pessoas têm fé porque pensar dá mais trabalho do que acreditar. A fé não me interessava muito mais do que as práticas voodoo. Era-me mais próxima porque a conhecia, mas não havia grande diferença entre estas e aquela.

Hoje o meu interesse pela fé religiosa vai um pouco mais longe. Continuo a pensar que não há grande diferença entre comer uma hóstia acreditando que se está a comer o corpo de Cristo e espetar alfinetes num boneco pensando que assim se vai vingar uma ofensa qualquer; mas acredito, sim, que ambas as crenças são parte intrínseca do humano, que o nosso cérebro evoluiu com a necessidade de fé - com ou por causa da capacidade do simbólico, se preferirem. A fé tem a ver com o símbolo, é a estruturação do simbólico. E o homem precisa de símbolos, está "programado" para simbolizar.

Mas não é isso que está em causa. O que me fez pensar nisto tudo é a fé que as pessoas continuam a depositar em jornalistas e em políticos, duas classes profissionais cuja capacidade de fazer mal é conhecida há muitos séculos (na Roma antiga não havia jornalistas mas havia manipuladores de opinião. A actividade não é de hoje).

Os próprios jornais confessaram, há poucos dias, que tinham manipulado a opinião pública em favor do confinamento; a capacidade que os políticos têm de fazer qualquer coisa bem feita espelha-se perfeitamente na pobreza crónica do nosso país, na corrupção de que somos vítimas, no nepotismo, na endogamia das nossas «elites» (entre aspas porque é um sarcasmo). Mas as pessoas continuam a acreditar nuns e noutros da mesma forma que acreditam na virgindade da Senhora, coitada. 

(Há tempos li uma coisa sobre um fenómeno de hiper-plasticidade do hímen: parece - confesso que não dediquei muito tempo a pesquisar o assunto pela razão simples e explícita de que o hímen da senhora me interessa zero - que é possível engravidar mantendo-se tecnicamente virgem. Talvez haja aí um leitor médico que me confirme ou infirme isto. Quanto a mim é irrelevante e não chega para me fazer regressar à fé. Suponho porém que um fenómeno semelhante faz as pessoas acreditarem num político ou num jornalista: há uma possibilidade remota de o que ele diz ser verdade, portanto acredita-se no bolo todo.)

O problema desta necessidade de fé é que não se limita ao Bom. Quem acredita em Deus (no sentido lato) precisa de acreditar no demónio. Sem este, aquele não faz sentido, não pode existir. Do demónio as teorias milenaristas são parte integrante: "o fim está próximo", andam doidos a gritar pelas ruas e pelos caminhos desde que o primeiro homem se lembrou de cortar um tronco de árvore às rodelas e pô-las debaixo de uma carga pesada. Aliviar a carga é desafiar a ordem divina. O homem nasceu para sofrer e tudo o que lhe reduza o sofrimento é intrínseca e inevitavelmente mau.

Para grande pena minha, esses doidos hoje têm acesso a jornais e a políticos e anunciam o fim do mundo em termos bonitos: aquecimento global, micro-plásticos, Covid-19. Preferiria de longe que o demónio regressasse, o bom velho demo. E que os curas deixassem de invadir as redacções e não pudessem ser eleitos. 

26.6.20

Narrativas, confrontos

Devíamos confrontar a nossa ideia de nós com a que o mundo faz. Uma espécie de confronto de narrativas. "A realidade e eu, um tango ou uma tanga?"

Pelo menos uma vez por dia, não vão as coisas mudar de repente.

23.6.20

Vida, viver

Nunca percebi claramente porque é que viver é tão bom. A vida não se resume a um gaspacho ou uma paletilla de cordero no "mini-restaurante casa Júlio", nem a um livro bem escrito, a um beijo recebido ou dado a uma mulher que nos ama. A vida é mais do que este tempo cálido, feliz, acolhedor, mais do que esta perspectiva de em breve estar no mar, a bordo do "meu" P. (ainda não sei bem para onde, mas isso é um pormenor insignificante).

A vida é muito mais do que as peças de que é feita, mas vivê-la consiste em apreciar cada uma delas separada e lentamente.

Por isso é tão difícil vivê-la: há que esquartejá-la primeiro e saboreá-la depois.

Dispersas do dia

"I'd rather not to" é a atitude correcta face aos tempos que vivemos e aos que aí vêm,  que serão piores.

A menos que se forme alguma resistência, claro. Mas quando vejo a mansuetude com que o povo do meu país aceita a incompetência, a arbitrariedade, a injustiça tenho sérias dúvidas sobre a possibilidade de isso acontecer.

Desçamos devagarinho para um "I'd rather not to" generalizado, com excepções escolhidas a dedo, cereja a cereja.

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O sono é uma droga muito viciante. Sempre dormi pouco e mesmo esse pouco  era a contragosto. Hoje dou por mim a ter de lutar para sair da cama e a entrar nela com inegável prazer. 

Não sei é se isto acontece porque eu mudei. Talvez tenha sido o mundo.

PS - O problema é haver um tipo de cansaço que o sono não resolve.

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Três contrariedades e uma boa notícia. O P. tem pelo menos a vantagem de me proporcionar dias ricos e variados.

Quando daqui a umas semanas o vir pronto e a navegar, verei que as contrariedades não passaram de uma ilusão de óptica.

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Nos Países Baixos há manifestações contra as restrições. Em Portugal pedem ainda mais restrições. 

E ainda há quem duvide de que somos pobres porque queremos.

PS - É que nem sequer se pode falar de apatia. Eles aprovam activamente estas medidas. Gostam de estar presos. Esta terra ainda vai tornar-se um imenso Estocolmo.

22.6.20

Teologia, idiotice

Mini-discussão em torno do SNS, outra vez. A algumas pessoas fala-se no SNS e o cérebro transforma-se-lhes num imenso paúl de sentimentos de amor, declarações de fidelidade eterna, paz, amor e água fresca, Allah o misericordioso, Santo Arnaud, a pomba da paz, sou-mais-santo-do-que-tu-porque-gosto-mais-do-SNS-do-que-tu, és um bandido porque queres desmantelar o SNS e por aí fora. Além disso, vêem uma estranha ligação entre o sistema americano de saúde pública - do qual desconhecem até os nomes - e o SNS. Dizer que o SNS devia ser reformado é imediatamente defender o sistema americano, numa espécie de salto cognitivo equivalente aos saltos do Evel Knievel - sistema esse que os coitados ignoram ser a merda que é por causa das intervenções do estado americano e querer, imediatamente, um sistema de saúde para os «ricos» (para eles, qualquer pessoa que ganhe o suficiente para comer decentemente).

Adoro teologia, mas há dias em que não tenho paciência para idiotas, nada a fazer.

20.6.20

Vírus, nihilismo e outras considerações sobre o século XX

Oiço o R. preparar a piña colada como lhe ensinei: com o shaker, ligeiramente mais leite de coco do que o recomendado, nada de gelo, seja ele moído ou em cubos. Gelo é água, coisa de demónios: precisamos deles - que seria uma vida só com anjos? - mas temos de os manter à distância. (Pequena nota ao post anterior: a margarita do 7 Machos continua impecável. Recomendo-a.)

A polícia interrompeu duas vezes a festa no Lo Divino, diz-me A., a DJ. Querem deixar-nos um mundo perfeito. Visivelmente já se esqueceram do resultado das tentativas feitas no séc. XX, o melhor da história da Humanidade - pelo menos se o critério for o número de mortos. Nunca se matou tanta gente por milhão de habitantes como no séc. XX e nenhuma das mortes foi por maldade. Todas tinham um objectivo "bom": a pureza da raça, a igualdade, a liberdade. Agora não matam pessoas, matam a vida. Sempre dá melhor consciência. Porra, já não se pode fazer uma festa num restaurante a meio do dia? Que cidade queremos? Asséptica, insonora, desinfectada, sem «maldade», feita de paz e amor - fake peace and fake love, que nada disto suporta um grama que seja de verdade, de realidade, sem racismo, sem história.

Não há nihilismo que resista a tanta estupidez. É preciso ir para as barricadas.

Há machos e nachos

Já me aconteceu muitas vezes entrar sóbrio no 7 Machos; hoje é a primeira vez que o lamento. O Johnson foi trabalhar para outro (a L. abriu mais dois, apesar de ter finalmente arranjado um namorado) e os nachos hoje estavam... enfim, estavam. Pode argumentar-se que mesmo assim são melhores do que noventa por cento dos nachos que se comem noutro lado qualquer (e a dois anos-luz dos que se comem em Lisboa) mas isso não satisfaz.

Quero-os bons como eram, não os quero melhores do que, como agora são. 

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 20-06-2020

Aos sábados, a madrugada em Palma acaba às onze da manhã. Só a essa hora as ruas ganham um pouco de vida e muitas mulheres bonitas, felizes porque é sábado, estão frescas e se sabem atraentes. A Rambla cheira a flores de uma ponta à outra e eu pedalo vagarosamente, distraído pelo cheiro e pela vista. Daqui a pouco o Lo Divino faz uma experiência e quero lá estar, fazer número e volume.

Comecei o dia à procura de uma escotilha para o P., irritação que me enfurece mais do que me irrita: a que temos está boa, mas precisa de uma fechadura, uma porcaria de uma peça de plástico que deve custar dez cêntimos a produzir e uns vinte euros a comprar. É uma Vetus que provavelmente está a bordo desde os tempos da Arca de Noé e já não há fechaduras para ela. Solução, uma de três: a) fechar a escotilha, impermeabilizá-la e esquecê-la. Esta era a opção original, mas agora decidimos fazer ali o armário de molhados e quero ter ventilação; b) comprar uma escotilha nova. Revolta-me, tanto pelo preço como pela ideia de substituir uma peça  que está em condições por causa de uma merda de um componente ínfimo (mas essencial); c) procurar uma escotilha em segunda mão, por muito que me chateie pôr material em segunda mão num barco que está a fazer um refit  de dois anos. Chateia, mas foi o que fiz. Creio que tive sorte. Vamos a ver. Se encontrar uma fechadura suplente para esta, fica. Se não encontrar, vem a nova. Não me apetece ter este problema na Patagónia.

Nem na Patagónia nem em lado nenhum, de passagem seja dito. Neste momento a minha mente já tem um espaço reservado para «compra de sobressalentes», actividade que para mim epitomiza o conceito de «dissonância cognitiva»: comprar uma coisa da qual se espera não vir a precisar, sabendo que a) um dia precisaremos e b) não compraremos nunca aquela de que viremos a necessitar. Múltiplas dissonâncias.

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No Lo Divino a festa prossegue. Já disse ao R. que não me sirva mais boquerones mesmo que eu os peça, pedido esse ao qual ele acedeu e que desrespeitou mal lhe voltei a pedir mais uma dose. A música está bem engendrada. É da A., uma rapariga italiana que viveu muitos anos no Porto e em Lisboa e fala um português escorreito. Não me lembro o que estudou. Ela disse-me, mas a minha memória anda por baixo (isto é pescar auto-cumprimentos. Nunca foi alta. Aliás sempre fui acusado de não ligar nenhuma ao que me dizem. Acusação injusta, ça va de soi. Posso não as ouvir, ou não me lembrar do que me dizem, mas sinto-as muito melhor do que parece).

Sou um urso sensível, essa é que é essa. Um bloco de granito écorché vif, pobre de mim. Por isso sou obrigado a defender-me com Albariño no Lo Divino, «cheio» de miúdas giras (aspas porque o restaurante está vazio. Está toda a gente lá fora, miúdas insensíveis ao meu appeal incluídas). A música é a que se podia esperar, o que já é bastante bom. Podia ser pior.

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O vírus já me provocou três ou quatro desamiganços no Facebook. Não sei que pensar. A priori parece-me pouco mas depois pergunto-me se não será simplesmente consequência de má escolha dos «amigos». Se os tivesse bem escolhido de começo teriam sido muitos mais.

Este último acusa toda a gente por «não cumprimentar a mãe há quatro meses». Preferiu acreditar em tretas, mas a culpa é dos outros, claro. É sempre dos outros. Sem as nossas asneiras os outros seriam o paraíso, não o inferno. 

19.6.20

Pão, migalhas e circo

Uma das grandes vantagens dos tempos modernos sobre os antigos é que hoje já não é preciso dar pão e circo às massas para as satisfazer. O circo - se preferirem, o futebol, que é a sua versão hodierna - chega perfeitamente. 

É mais barato, mais fácil de gerir e - sobretudo - mais ao alcance das "elites" actuais. (Entre aspas para não usar pontos de interrogação. Seriam precisos muitos.)

Não se queixem só das "elites" (ditto). Um povo que dispensa pão e se contenta de migalhas e palhaços pagos a peso de ouro também tem culpas no cartório. 

18.6.20

Cama de mim

Uma fatiga que não se dissolve em sono, nem em Bailey's nem em nada que eu conheça. Um cansaço feito de altos e baixos, são os piores (os baixos espevitam, os altos iludem, a mistura dos dois esgota).

Talvez transformando-me em cama. 

Cama de mim.

17.6.20

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 16-06-2020

Desligar o dia. Ou desligar-me do dia? Ele continua, agora feito noite, mas eu prefiro a primeira. Oiço Eleni Karaindrou, folheio os livros que hoje comprei na "livraria" do Rodney (entre aspas porque aquilo não é bem bem uma livraria. Leram aquele livro do Doctorov sobre dois irmãos de Nova Iorque que morreram numa mansão transformada em labirinto de jornais? A história é simultaneamente trágica e linda. Esta livraria é assim, mas sem a tragédia. E os livros não estão sequer desarrumados. Estão acumulados. Rodney diz que estão assim porque ele não se importa: "I don't care".)

Enfim, deu-me para pensar nos preconceitos, no prazer que trocá-los dá, no cuidado que se deve ter ao construir novos e por aí fora. Já ali tinha estado, há pouco menos de dois anos, mas a minha interacção com o homem não foi das melhores e nunca mais lá pus os pés. Agora conheço-o do Abrakadabra e claro, é outra pessoa. Tenho uma certa pena de não ter lá voltado depois da primeira tentativa - na qual não passei da entrada, note-se - mas é pouca. As coisas são o que são e a impressão com que fiquei dele não era falsa. Era só parcial. Agora continua a ser parcial, mas a iluminação mudou para melhor.

Trouxe de lá três livros e não trouxe quatro porque ele se esticou um bocadinho. Fica para a próxima. 

Por hoje é tudo. Estou cheio de sono e ou eu ou o dia temos de desligar-nos. 

16.6.20

Da série Epitáfios

"He died unbroken; he never lost his own wonder of life. He never did a thing he did not want to do and nothing and nobody could make him. He never wrote a word he did not mean at the time he wrote it. He never compromised with the little powers that be; if ever there lived a free, proud man, Lawrence was that man"

(Epitáfio de D. H. Lawrence por Frieda Lawrence.)

E ainda há quem diga que comprar livros que nunca se conseguirão ler totalmente é deitar dinheiro à rua.

Metades

A metade de mim que conheces, a outra que nunca viste, a que lês, a que não ouves, a que não te fala... De quantas metades somos compostos, tu e eu?

15.6.20

Fragmentário

As peças para a enora começaram hoje a ser instaladas. Quis celebrar a ocasião com uma fotografia mas infelizmente o excesso de sol mai-las lentes escuras frustraram o projecto e quando fui a ver havia duas meias-selfies. Fica para amanhã. 

Agora celebro: gambas al ajillo no Aurélio, café do Ruanda (exprès pour moi) no Arabay, grappa do Lucca, chocolate 85% do Gana.

É o primeiro passo: faltam-nos o piano e meia dúzia de "pentelhices" da electrónica até termos todos os grandes projectos fechados e começarmos finalmente a escolher a cor dos coxins. (Pentelhices vai entre aspas porque com a água que nos têm dado pela barba tomara eu o fossem.)

Ter em mente: metade de uma viagem de cem li não são cinquenta li. São noventa.

Apologia do aquecimento (global)

Alguém pode ligar o aquecimento global, por favor? Ainda não é esta semana que se prevê a chegada da mínima aos vinte graus. Enfim, chegar chega, mas não fica. É só uma vez. Depois continua nos dezoito, dezanove.

É certo que os catastrofistas do ambiente mudaram a designação de aquecimento global para alterações climáticas. Qualquer pessoa com dois dedos de testa prefere um mundo mais quente (há excepções, eu sei. Conheço uma) e aquecimento global não suscitava o mesmo medo do que as tais alterações. O objectivo dos profetas da desgraca sempre foi assustar as pessoas, coisa que me faz perguntar aos mais esquerdistas dentre eles (quase todos, sendo que também aqui há excepções, claro) como conciliam o desgosto que têm do mundo actual com o medo que ele acabe. 

Como toda a gente sabe, o calor faz bem aos modos. Alguém imagina o bom selvagem do Rousseau esquimó? Não. Era africano ou índio da Amazónia, aqueles lugares onde também situamos o paraíso. Ninguém vê a Eva e o Adão serem expulsos de um iceberg na Antártida. Nem maçãs haveria, se assim fosse. Ora nos trópicos toda a gente é boa, são todos uns santos. Ninguém faz mal a ninguém. Foi preciso os brancos chegarem a África, carregados de frio, para a humanidade descobrir o racismo, e talvez deixando o planeta aquecer ele desapareça.

Deixai aquecer o planeta, vá. Parti estátuas, mas deixai subir as mínimas para cima dos vinte graus. O resto é conversa de encher UCI.

PS - Se quiserdes destruir estátuas do Rousseau estou inteiramente de acordo. Rousseau e Marx. É só dizerem, que eu aplaudo (da varanda).

14.6.20

Birras e hamburgers

O meu corpo e eu temos andado envolvidos naquilo a que um jornalista chamaria «diálogo tenso» e eu chamo «diálogo dinâmico». Uma espécie de toma lá dá cá, toma cá dá lá entre ele e mim. Desde sexta-feira (se quiséssemos ser rigorosos diria desde quinta, mas não quero dar-lhe argumentos, ainda por cima discutíveis) que estamos envolvidos numa disputa sobre quem manda em quem.

Hoje ao jantar essa disputa chegou ao fim. Quem manda sou eu mas comprometo-me a dar-lhe um pouco mais do ouvido que ele me deixa intacto. O outro não tem recuperação, faça eu o que fizer. Não lhe peço que volte a ouvir, tão-só que deixe de me chatear. Não é muito complicado, é simples. E que rompa essa aliança espúria que fez com o fígado, nunca vi uma aliança entre o fígado e o ouvido interno (o pâncreas também deve andar metido ao barulho, mas a esse deixei de ligar há muito tempo. Ele que fique a falar sozinho ou se alie a quem quiser. Estou-me nas tintas). Quem manda na máquina sou eu, ponto final.

PS - O Wine and Food faz uma Margarita louvável e o hambúrguer é quase tão bom como o do H. F. no Porto. Bem sei que este «quase» é maior do que a maior ponte suspensa do mundo, mas é o que está mais perto do outro. The Burger Point: Rua de Santa Catarina, 800, no Porto, primeiro, segundo e terceiro lugares. Logo a seguir: Wine and Food, Carrer del Sindicat, 3, Palma.

E a carcaça que se aguente, que estou farto de lhe aturar as birras.

Riqueza do nómada

Estar de passagem em todo o lado e em todo o lado viver como se fosse de lá. 

Diário de Bordos - Palma a calma, Mallorca, Baleares, Espanha, 14-06-2020

Onze da manhã de domingo. Palma começa docemente a fremir, muito levemente. Venho passear para a Palma extra-muros, a Palma que fica para lá das Avingudas e conheço mal. O S'Escorxador está aberto. É um antigo matadouro hoje convertido em zona de lazer e mini-centro comercial. Cafés, uma biblioteca, o único cinema da ilha que só passa filmes em versão original, um supermercado e dúzia e meia de lojas. 

Palma a calma, uma calma da qual é impossível não se gostar, por mais que às vezes canse. Mas descansa mais vezes do que cansa, essa é que é essa. Efeito das árvores, provavelmente. Tantas e tão grandes. Sombreiam as ruas e absorvem-lhes os ruídos. 

Anda mais gente de máscara na rua agora, que o governo ameaça com multas. E há mais tensão, mensurável à quantidade de buzinadelas ou reclamações de peões que oiço na minha Peugeot. Ouvi mais de umas e outras desde o fim do confinamento do que nos dois anos mais dia menos dia que o precederam. Verdade que são justificadíssimos, mas antes também eram e mais ainda, porque não conhecia a cidade como conheço hoje. Espero que não esteja para ficar. A bonomia era tão bonita... 

Ainda é, forço-me a reconhecer. Mesmo hoje oiço infinitamente menos imprecações numa semana do que num dia em Lisboa.

Porcaria das máscaras. A miúda do Mise en Place não a tinha. Esta tem. São as duas lindas, mas jovens demais para entrar na categoria mulheres espectaculares. Essa está reservada a senhoras com mais de trinta e cinco anos. Algumas nunca mais dela saem... Até aos trinta e cinco anos as miúdas são sacos de hormonas que só pensam em reproduzir-se. Precisam de ter um filho ou dois para que essas preocupações se diluam e os corpos se afirmem. Quem diz corpos diz cabeças, naturalmente. (E afirmem é figura de estilo, se por acaso.)

A miúda vem buscar a massa e no caminho baixa a máscara, para falar com duas amigas. É ainda mais bonita do que a imaginara. "Prefiro assim", digo-lhe. "Claro", responde. Gosto destes diálogos curtos e honestos, sem tergiversação. 

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Da calle Blanquerna desço para zonas que me são mais familiares: Santa Catalina, la Lontja. Digo desço em vários sentidos, alguns dos quais literais, outro menos: em Palma as ruas não sobem. Só descem. Algumas - raras - sobem e descem e uma, uma só, sobe sempre: chama-se Costa de sa Pols (Costa do Pó, em português, porque em cima fica a igreja e havia muitas caleches e coches a passar por ali). Essa só sobe, não sei porquê. (Talvez por causa do Antiquari, vá lá saber-se, que lhe fica a meio). Mas a esmagadora maioria das outras ruas de Palmas só têm sentido descendente. Voltasse eu agora para a Blanquerna e iria a descer. Uma das maravilhas de Palma, mais uma.

A lingua que se ouve na rua mudou: deixou de ser espanhol ou mallorquin e passou a ser inglês e alemão. Na Plaza Drassana escolho o bar Arenas, um dos raros que foge à regra. A empregada não me liga nenhuma: está ocupada a zangar-se com uma cliente cujos filhos desmontaram a fita que ela pôs em torno da esplanada, vá lá saber-se porquê. É uma daquelas disputas mediterrânicas que se eternizam, externalizam, envolventes e continuam mesmo depois de a mãe dos garotos se ter ido embora. Ao meu lado dois senhores que me parecem vagabundos, trolhas ou talvez sem-abrigo comentam, simpatéticos: "é a vida".

A empregada tem sangue na guelra, cabelo louro, deve estar quase a chegar ao mágico patamar dos trinta e cinco anos e agora zanga-se com um senhor - provavelmente pai dela - que levanta a mesa onde estavam a prevaricadora, filhos e (soubemos todos depois) mãe. 

A calma voltou. Palma, a calma.

Prémio

São seis da manhã e acabo de conhecer uma rapariga giríssima. Dei-lhe o nome de Deveras Brilhante; na realidade chama-se Vera Brilhante. Trabalha em cinema, mas não percebi exactamente o que faz. Talvez seja operadora de câmara, talvez realizadora. Vive perto de Genebra, naquilo a que ali chamam France voisine. É mulata, pequenina, magrinha, tem cabelos pretos compridos e ri-se com facilidade, um riso amplo que lhe envolve os olhos e faz oscilar a cabeleira.

Conheci-a através de um amigo cineasta, um rapaz que encontrei na escola de cinema e desde aí nunca mais vi. Não percebi como é que ele veio parar ao sonho mas agradeço-lhe a boleia no jeep Willys. Só não percebo porque se foi embora e me deixou em casa da Deveras, que não tinha quarto para mim e me disse que podia acabar a noite na cama dela, onde já estava o namorado. "Ele não se importa", explicou-me. Tivemos um diálogo relativamente curto mas intenso, profundo se se considerar que não nos conhecíamos. Foi durante essa conversa que a tratei por Deveras e o apodo ficou.

Não me lembro de como terminou porque acordei (na cama onde durmo habitualmente, sozinho - claro - e onde ontem passei algumas horas bastante penosas, sendo essa a razão - suponho - que levou o meu inconsciente a premiar-me).

Se é que se pode chamar prémio a isto.

13.6.20

Beleza, matinas

Uma daquelas mulheres em quem Deus revela os seus dotes de artista plástico. A senhora é de tal forma escultural que lhe perdoo o marido e o filho infante e chato, passe o pleonasmo. Passa tudo: as carrinhas de entregas que me estragaram o silencio da praça, a dor de cabeça provocada pelas múltiplas bebidas que ontem escorregaran por mim dentro, a insuportável claridade do céu,  tão cedo e tão azul. Suponho que Deus ande por ali a espreitar a obra. A refastelar-se na obra.

A senhora põe-se de perfil, apercebo-me de que está grávida (quatro meses, a olho) e lembro-me de que pensar me faz doer os joelhos. O céu continua azul, a carrinha foi-se embora, a família também, a empregada do café vem levantar a mesa e eu faço uma profunda e grata vénia à evolução, a Deus, à geografia, seja a quem for que me tenha povoado esta dorida manhã de tanta beleza.