31.7.20

Vida, invenções

Não sei se conseguiria escrever um romance. Inventar a minha vida já me deu tanto trabalho...

Futuro feito

As pessoas deviam embebedar-se devagar, como se faz amor a uma senhora que se ama. Toda a tarde, copo a copo, abraço a abraço, beijo a beijo, gole a gole. Devagar e pensando no que se faz: um corpo, um copo amam-se milimetricamente.

Hoje, por exemplo: vim a Cascais, que agora amo mais do que amava quando cá vivia. É como reencontrar o corpo que amei e bebo-o, devagar. Volto a ele como voltaria a ti, volto a esta baía como ao teu ventre, a este vento como ao teu sopro, satisfeito e saciado.

Volto atrás: o meu futuro é tudo o que fiz, tudo o que te fiz.

Sem querer

Enquanto espero pela consulta no centro de saúde vejo as tele-notícias. Ao conjunto de sortes que é estar fora de Portugal acresce esta: não ver esta corja sem querer.

Magia dos números

Se a Alemanha perder dez por cento do PIB e Portugal também,  perde muito mais dinheiro do que nós mas fica infinitamente melhor.

Vidinha, vida

O que se vê não passa de um diminutivo daquilo que é.

«Isso»

A ideia é relativamente simples: a perna esquerda vai em modo passeio, a direita em modo deslocação (ou vice-versa, pouco importa). O resultado é ainda mais simples: um longo passeio de bicicleta que ao contrário do sentido habitual de passeio tem um objectivo: voltar para bordo. Daí, penso na bênção que é poder dizer «voltar para bordo», daí volto atrás e penso na sorte que é «fui jantar com um amigo». Não é bem um amigo, porque é mais do que isso. Não é bem um jantar, porque foi mais do que isso. Não é bem um passeio porque é mais do que isso.

Talvez no fundo «vida» seja tudo o que é mais do que «isso», não é? Tudo o que fica para além disso. Amizade cumplicidade, jantar triplo reencontro, bicicleta trajecto e passeio, Tejo cenário, tempo como se o tempo não existisse. 

Como se tudo isto fosse exactamente isso, isso mesmo, mais do que «isso».

30.7.20

Os queixos e as balizas

Ignoro se é possível gostar menos de qualquer coisa do que gosto de futebol. Se for, esse lugar está ocupado - em mim, claro. Não falo pelos outros - pelo boxe.

Mas tal como há golos que parece terem sido feitos não pelo goleador mas pela baliza - como se esta chamasse a bola, lhe dissesse "vem por aqui" e a bola não conhecesse a resposta correcta ("Sei que não vou por aí") suponho que haja queixos que chamam um uppercut, o provocam (no sentido de causalidade).

Não sei. Metáforas futebolísticas e boxísticas não são o meu forte. Refiro-me à inevitabilidade, a certo tipo de atracção demolidora, certo tipo de vitórias que o são por falta de alternativas.

Ou a certas vidas: são elas o queixo ou a baliza da minha analogia. Ou seja: há derrotas que contam como vitórias. A baliza que recebeu o golo porque a bola não tinha alternativa faz parte do golo, faz parte da beleza do conjunto, da grandiosidade geral, amorfa, difusa das coisas. 

Amar é isso: ser o queixo e o murro,  a bola e a baliza. 

Talvez não. Talvez isso seja apenas viver, talvez o amor não seja para aqui chamado.

É. 

29.7.20

Doxa, massas, mentiras

Que as pessoas gostem de ser aldrabadas,  enganadas, tomadas por idiotas não data de hoje. A história está cheia de episódios desses.

O que me parece recente é os crentes tomarem-se por espertos e pensarem que idiotas são os cépticos. É que nem sequer se lhes dá o benefício da dúvida: não alinhas na narrativa dóxica és um assassino, ponto.

Esta crise vai servir para mais um triste capítulo do tratado de psicologia de massas que alguém anda certamente a escrever. 

O sono é preferível

E assim chega Mértola ao fim, por esta vez. Jantar leve no Salvador, saudades pesadas e antecipadas espalhadas pelas ruas, meio minúsculo pingo de medronho no Guadiana. A velha máxima "Sou de onde estou" esfarela-se a cada saída de Mértola. Sou de onde quero ser está mais perto da verdade. Isto é, mais perto de mim.

Sou uma imagem da verdade - tudo aquilo passível de ser acreditado o é. Sim, sou  passível de ser crido. Já querido não sei, as opiniões divergem.

Gosto de opiniões divergentes. Nunca se sabe qual a verdadeira. Não é forçosamente a do meio, não pensem. Isso seria fácil de mais. Algumas pessoas querem-me, outras crêem-me, outras ainda nem uma nem nenhuma.

Eu creio em mim e há dias em que me quero. Nem sempre, claro. Apesar de tudo, prefiro o sono.

28.7.20

Flutuar, cansaço

Caio no cansaço como quem se lança para uma piscina e espera que a água o suporte. Boiar no cansaço...

Do asco

Martelar mil vezes na cabeça dos abutres: ter uma agenda política não dispensa a ética e o decoro.

Um rio tranquilo, se faz favor

Deixar-me ir, como se um rio me levasse.

Diário de Bordos - Mértola, Alentejo, Portugal, 27-07-2020

São quase oito e meia da tarde e a temperatura em Mértola caiu para uns míseros trinta e três graus. Hoje a máxima não chegou sequer aos quarenta. Amaricou-se e ficou lá perto, mas não, nada de passar a mágica marca dos quarenta, abaixo da qual a casa aguenta bem uma ventoinha, imagino. Sem isso, só na rua. 

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Deixei-me de arabescos e oiço Hildegarde. Não há melhor maneira de exprimir simultaneamente a gratidão e o espanto, sobretudo se se lhe juntar um copo de Balanches branco, como agora faço. A regra de que à noite nesta casa só se bebe medronho está posta de lado de uma vez por todas, como posta de pescada comida. Ficam as espinhas e a pele, que é a memória da garrafa de Farelo no congelador, coitada. Amanhã sai de lá, como eu saio daqui no dia a seguir. 

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Gosto demasiado da vida para ser capaz de a abarcar num só abraço. 

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A única coisa do género feminino que nunca me largou é a gratidão. Uma espécie dela metafísica, existencial, irracional. Não sei que fazer com isto que se me cola à pele como nunca mulher alguma. Pena não saber a quem dirigir o agradecimento.

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«Efectivamente, a virtude não é mais nada senão um afecto ordenado e medido cujo alvo nítido é Deus...
...

Podemos ver isto mesmo em uma ou duas virtudes. E sugiro que escolhamos a humildade e a caridade, pois quem obtivesse estas duas já não precisaria de mais nenhuma, uma vez que as possuiria a todas.»

(Anónimo, in A nuvem do não-saber.)

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«Dói-me o mundo todo excepto a tua mão
a lavar-me por dentro.
Isso sabemos nós.»

(Cláudia R. Sampaio,  in  Já não me deito em pose de morrer.)

Ou seja, se percebo bem: um anónimo inglês do século XIV, a música de Hildegarde von Bingen, o vinho branco de Balanches, a poesia de Cláudia Sampaio e o calor que se esvai, pouco a pouco. É isto uma noite? É.

«Tragam-me um homem que me levante com
os olhos
que em mim deposite o fim da tragédia»

(Cláudia, de novo.)

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A casa é pequena, os azulejos pavorosos, a luz aterradora e os móveis de fugir.  E ainda há quem goze com a capacidade que os marinheiros têm de sentir-se em casa seja onde for. 

Apercebo-me hoje, pela primeira vez, de que há um mistério mais vasto do que a vida. Chama-se gratidão e é o mistério dos mistérios.

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Sinto-me um porto à deriva sem um navio no cais. Ou seja: estou enganado, porque ando tudo menos à deriva e tenho montes de navios no cais, prontos a largar. Isto de não ser compreendido pelos próprios sentimentos é uma chatice.

27.7.20

S. Tamuje

Desafio qualquer ateu: venham comer ao Tamuje e digam-me se a meio da refeição não começam a ter dúvidas.

No fim, estão convertidos: Deus existe. É a senhora que lá cozinha. Chama-se Ana Isabel (ele há nomes predestinados) e juro, palavra de honra, xicuembo xa'nhaca, vou morrer aqui: uma refeição no Tamuje equivale à descida de cinquenta pombas. Ilumina. 

Dispersas do dia - Mértola, 27-07-2020

É raro ouvir música em Mértola. Uma das coisas que me seduz nesta vila é o silêncio. Já aqui muitas vezes falei dele, um silêncio sólido como uma barra de sabão de Marselha, que é preciso cortar à faca: ou como um olhar inteligente numa mulher bonita, que nos seduz antes de se deixar seduzir.

Hoje infringi esta regra. Infringi todas as regras: bebo vinho branco (Balanches, este homem foi tocado pela graça divina) em vez de medronho, oiço música em vez de ouvir silêncio e não faço nada em vez de não fazer nada.

Enfim, não faço nada é um manifesto exagero. Maravilhar-se é fazer alguma coisa, não é? Ser feito alguma coisa. Fazer qualquer coisa daquilo que se é, se vê, se pensa que se é... As concatenações são infinitas. Entro no silêncio, abato-o, substituo-o - por música árabe - e vejo que os elefantes continuam com o rabo virado para a porta. A senhora que eficaz e gentilmente me limpa a casa quando não estou reteve esta regra: os elefantes devem ter o rabo virado para a entrada da casa. Não é de modo algum consensual, mas eu gosto dela e por enquanto fica assim. Talvez mude qualquer dia, quando me fartar de ver os rabos dos elefantes e começar a acreditar noutra superstição qualquer. É preciso mudar de superstições regularmente, como toda a gente. Não tarda ponho máscaras nos proboscídeos, coitados. Tenho dois: um de pau-preto com a tromba para cima, outro de uma madeira que desconheço, com a tromba para baixo. Estão os dois de rabo virado para a porta.

Não tarda um terremoto ocorrerá em Mértola: os meus elefantes.

Ou o Balanches branco mas não quero falar muito nisto. Um cavalheiro não revela os segredos que acabam de lhe ser confiados.

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«Desta forma se verifica que tanto os principiantes como os discípulos mais adiantados só poderão meditar como convém se primeiro lerem ou escutarem; e só poderão orar como convém se primeiro meditarem.»

(in «A nuvem do não-saber», anónimo inglês, séc. XIV)

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«Silêncio de cortar à faca» é uma expressão ambígua. Em Mértola tem de se cortar o silêncio com uma faca para se poder avançar nas ruas, exactamente como na selva os exploradores cortam as lianas para progredir. É bom, contrariamente ao que a expressão idiomática sugere.

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Vou à janela e confirmo que a música está demasiados alta, o copo de vinho quase no fim, a temperatura mais baixa (está nos 27). Ajo sobre aquilo que posso: a música e o vinho. O resto aceito.  Verdade seja dita, não há muitas alternativas, pois não?

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Não sei se já repararam, mas um corpo feminino é um prodígio, uma dádiva, um sólido argumento em favor das ideologias teleológicas. Não as partilho, de todo - acredito mais no acaso do que na necessidade - mas gosto de tudo o que me faz vacilar, o que põe à prova as minhas convicções.

Quando esse corpo tem uma cabeça por cima, as coisas não mudam de figura. Mudam de grau, de patamar, de galáxia. Uma indecência, é o que é.

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«Ninguém vem para o Alentejo comer pouco», diz-me a senhora do restaurante. Corrijo interiormente: «Ninguém vem para o Alentejo viver pouco.» (A garrafa de medronho está no congelador, não vá amanhã escapar-se-me o dia e ficar eu só com o medronho.)

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Página em branco perante mim, como aquelas pistas nas quais deslizam velozes patinadores, mão atrás das costas, curvados para melhor avançar. Sentado na cadeira, claro. O mínimo que se pode dizer é que não sou um repentista. 

26.7.20

Diário de Bordos - Mértola, Alentejo, Portugal, 26-07-2020

42° em Mértola. Constato com satisfação que toda a gente anda de máscara, coisa que se justifica facilmente e se compreende ainda mais facilmente. Saio de casa e venho para o café Guadiana, centro da vida social, intelectual e cultural da vila. Sinto-me protegido, rodeado de devotos altruístas, amigos do próximo (neste caso eu) e de fantasias.

Usar máscara - diz meia dúzia de entendidos por esse mundo fora - tem tanta utilidade na luta contra o vírus como acender velas na igreja para acabar com os ciclones. Lutar contra as crenças é difícil, mas não devemos esmorecer: vejam o que aconteceu ao socialismo cientifico de Marx. Já nem os marxistas acreditam naquilo.  Foram precisos - o quê? - uns míseros cento e cinquenta anos. Um ápice. Um ar que lhes deu. Aposto que lá para 2170 a crença na maldade do vírus será substituída por outra crendice qualquer. O homem não terá mudado muito - não mudou desde que pintava bisontes e mamutes nas paredes das grutas, não é agora com um vírus marado que vai começar a acreditar na razão - e motivos não faltarão, desde o arrefecimento global ao crítico problema da inversão dos pólos magnéticos, coisa que nunca se terá visto e será certamente provocada pelo uso intensivo de papel feito com folhas de alface e o terrível impacto disso nas criações automatizadas de minhocas.

Por mim, aceito tudo. O calor, a cerveja no café Guadiana (não há imperial), o terrível barulho do ar condicionado ("está velhinho, por isso faz esse barulho". É sempre bom saber a "causa das coisas"). Vim para dentro, mas a diferença de temperatura não justifica tal desgaste no capital de paciência e volto para fora. Ficar em casa é difícil, mas já o sabia e comovi-me na mesma quando cheguei com os meus sacos de livros, fiz as primeiras arrumações e descobri duas ou três coisas cuja existência me estava completamente obliterada da memória. 

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Estou em Mértola, rodeado de devotos de S. Covid, banhado em calor, a beber cerveja insuficientemente gelada. Fico três noites. Como não aceitar tudo?

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As pessoas põem religiosamente a máscara antes de entrar no café. Antigamente, benziam-se quando passavam à frente da igreja. O mecanismo é o mesmo, porém este é-me mais dificil de aceitar, talvez por ser mais recente. Apesar de tudo a Igreja deu grandes obras ao mundo. Este vírus limita-se a expor as insuficiências cognitivas da população. Há uma diferença, convenhamos.

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O projecto de passar os dias em casa parece-me comprometido. Não importa. Os planos devem ser como os princípios do outro: se não servem, arranjam-se uns diferentes.

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No museu Vieira da Silva almocei a melhor feijoada brasileira que até hoje comi no hemisfério norte (e em grande parte do sul). Quinta têm cozido à portuguesa. Já um lugar para mim está reservado. Quem come fondue de queijo em Moçambique come um cozido em Portugal (este raciocínio é falacioso. A ver se os pró-Covid descobrem a falácia. É pouco provável, mas nunca se sabe. Althusser tentou inverter alguns andares da pirâmide de Marx. Não conseguiu: entretanto saltou-lhe uma loucura ao caminho e teve de matar a mulher. Mas pelo menos percebeu que o edifício teórico não estava lá muito sólido. A minha falácia é mais fácil de denunciar).

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A senhora que se veio sentar na mesa à minha frente é obesa, fuma, grita imenso com um dos dois miúdos que traz, o mais novo que se lhe senta nos joelhos, ela continua a fumar, o miúdo põe-se a brincar com as coisas que estão na mesa, a senhora diz-lhe para não brincar com as coisas que estão na mesa. Compreende-se: o vírus transmite-se muito facilmente. Vá lá que tem a máscara ao queixo, pronta a ser posta no regulamentar sítio.

O puto (chama-se João, para quem estiver interessado) não pára de se mexer, a senhora não pára de gritar e eu pergunto-me por que raio não é esta doença fulminante? Entrar por aquelas goelas abaixo, calar a mulher, imobilizar o puto (poupando o mais velho, adorável). 

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O jantar vai ser leve, o vinho Balanches, a cama cedo: uma vida ordenada é prólogo da felicidade. Só espero resistir aos impulsos assassinos  (o calor é um poderoso aliado. Vou resistir).

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O café Guadiana encheu-se de pessoas e de moscas. Às oito encontro-ume aqui com o C., que me deu boleia para baixo. Faltam quinze minutos. A senhora obesa agora grita para um telefone, o puto parou, as moscas não, o mais velho fala continuamente com a mãe que não o ouve sequer e menos ainda responde e eu pergunto-me  se não será hora de ir ao supermercado. 

É. 

...

Não era. Está fechado. Amanhã, pequeno-almoço no Estaminé. A senhora gorda foi-se embora, as moscas multiplicaram-se por um factor dez e a mesa à frente foi ocupada por duas senhoras francesas. Está definitivamente na hora de me ir embora.

Anti-daltónicos

Esta prática de esquartejar a sociedade em peças cada vez mais pequenas cria grupos  onde os esquartejadores não os querem. Coisa que me deixaria indiferente, não fossem as vítimas os grupos que estes palermas dizem querer defender. É revoltante. Já nem daltónico se pode ser.

Há muito tempo na má direcção

Uma das sete pragas do mundo moderno é este hábito de pôr gelo moído nas bebidas. Talvez alguém devesse chamar a atenção da Greta para o crime ecológico que é moer gelo; ou a dos politicamente correctos para a discriminação a que os nobres cubos de antanho estão agora sujeitos.

Açaimos em todo o lado, histeria global, AO90, aquecimentos gretescos e premiados, gelo moído: este mundo não avança na boa direcção. 

Já o andam a dizer há mais de cinco mil anos.

25.7.20

O que aí vem

«Por conseguinte, presta muita atenção ao tempo, ao modo como o despendes, pois nada é mais precioso do que o tempo. Num só momento, por breve que seja, pode-se ganhar ou perder o Céu. Um sinal da preciosidade do tempo é este: Deus, que o administra, não concede dois momentos de cada vez, mas um após outro. E Deus faz isso, porque não quer inverter a ordem ou curso normal da causalidade na criação, pois o tempo existe para o homem, e não o homem para o tempo.»

Esta pérola (salvo dois ou três pormenores da tradução, como aquele «pode-se ganhar ou perder» em vez do para mim preferível «pode ganhar-se ou perder-se» e duas vírgulas dispensáveis) está num livro chamado "A nuvem do não-saber" (The cloud of unknowing) de um anónimo inglês do século XIV, editado pela Sistema Solar com a chancela Documenta. Ainda estou no princípio, mas pelos afagos que já lhe dei percebi que é a primeira de uma longa série de maravilhas. Foi-me recomendado pelo dono de uma livraria chamada Poesia Incompleta, a quem deixo aqui um modesto e sincero obrigado.

Há outra antes, ainda no prólogo: «Qunto aos tagarelas carnais, os bajuladores e os detractores de si mesmos ou dos outros, os mexeriqueiros, os linguareiros e os que espalham boatos, e ainda toda a espécie de críticos, nunca eu desejei que vissem este livro. É que nunca tive a intenção de escrever esta obra para indivíduos desse jaez.» Esta mesma precedida de uma outra, logo no segundo parágrafo.

Ir às raízes do nosso saber é provavelmente a única forma de enfrentar o que para aí vem.

24.7.20

Dispersas do dia. Lisboa, 22-07-2020

A biografia de um homem - ou pelo menos a sua parte afectiva - devia ser feita não a partir dos amores que viveu, mas dos seus amores falhados. Ses amours ratées, pour ainsi dire. Une longue liste d'amours manquées é sinal seguro de uma vida preenchida. Isto é, pré-enchida, de uma vida que se viveu a priori, ab ante. Os amores falhados são os únicos que só têm futuro. Os outros não saem do presente ou do passado.

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Quando preciso de verduras bebo um mojito ou dois (sem açúcar, claro) e assim fico com o tanque da clorofila cheio. Para a vitamina C escolho rum simples: a lima é uma poderosa e inigualável fonte da coisa.

Sugiro fortemente os mojitos do Procópio. Têm a melhor proporção de verde e rum que se pode encontrar a leste da cidade do Panamá. Não igualam - infeliz mas compreensivelmente - os do Red Frog do Casco Viejo de Panamá quando o colombiano lá trabalhava. Nenhum iguala, em parte alguma do mundo, mas os do Procópio andam lá perto.

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Devia ser proibido ouvir falar francês quando não se pode intervir na conversa.

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Buñuel escreveu um tratado sobre bares que é - para mim - seminal. Cada vez que venho ao Procópio penso que foi aqui que ele o escreveu.

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Entro no táxi, na rádio passa Life is life, um hit dos anos oitenta, creio. A cançoneta leva-me a falar com o chauffeur. Moldavo, engenheiro civil, em Portugal desde o ano dois mil, nove anos em Reguengos de Monsaraz, a filha fez o ISEG e casou-se com um colega economista. Taxista em Lisboa. O melhor que apanhei nos últimos duzentos anos. A mulher morreu de cancro e ele «não [pode] sair daqui sem ela.»

«A minha vida é aqui», conclui quando chegamos ao destino. Life is life. A vida é uma contorcionista cega, boa e sexy como um amor que chegou ao fim antes de acabar. Escrever é uma das maneiras de lhe fazer amor: ela não pode dizer que não.

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Dia mais estúpido dos próximos vinte anos, espero: começa horrivelmente, continua sofrível e acaba com um jantar adorável. Quem falou em contorcionistas cegas?

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Em cada sábio vive um pedagogo. Infelizmente, o inverso não é verdade.

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Pedir à maioria das pessoas que pense racional, ordenada, logicamente é como pedir a um católico que apresente provas da virgindade da Senhora ou da ressurreição do homem. A fé e a razão são campos de jogo diferentes, jogos diferentes, outros árbitros.  Tão miscíveis como aço inox e hidrogénio.

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Os elementos físicos de um bom bar são:
- Qualidade dos cocktails;
- Decoração;
- Luz;
- Música;
- Competência e simpatia do pessoal.

O que faz um bom bar: a dignidade. A nobreza. O resto é conversa de esvaziar copos.

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Os dias estúpidos são feitos de uma sequência de erros que cometemos. Os bons, de uma de coisas boas que nos aconteceram, nos foram oferecidas.

Um teólogo que interprete isto. Eu não sei.

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Escrever é uma espécie de metalurgia: há que dar forma ao metal, torná-lo comestível.