15.9.20

Libertação, músicas

Comparada com a música medieval, a renascentista é tão mais leve. Não há que admirar: O homem libertou-se de Deus.

Ou ao contrário, vá saber-se.

12.9.20

Negacionismos

A bipolarização da sociedade que vivemos reflectiu-se, naturalmente, nesta crise. Há dois campos, bem distintos: para uns, isto foi uma histeria colectiva que desaguou num gigantesco embuste, um virus é um processo natural mitigável mas não eliminável; outros pensam que a histeria não o foi, que é justificada, que as "medidas" foram e são necessárias, que o combate ao vírus é como uma batalha na guerra que termina com a morte do inimigo. 

Curiosamente, ambos são designados pelo mesmo termo: negacionistas. Uns porque negam o embuste, o lado oposto porque nega a evidência.

11.9.20

Poemas para Rute

Se assim me deito em ti sem ti aqui, imagina como me deitaria em ti se aqui estivesses. Ah!!! Que festa seria, tu aqui e eu ao lado, tu ali e eu a ver-te, tu deitada e eu também.

Absurdo?

Pensar que há conspirações, interesses obscuros, objectivos terroristas por detrás disto tudo é simplesmente um sintoma da incapacidade de muita gente em lidar com o absurdo. Nem todos leram Camus a tempo. Histeria, incompetência, desvario, falta de sentido de Estado, sacudir a água do capote, mentira, cobardia, demência? Humano, demasiado humano. Absurdo para quem pensa que o humano pode ser outra coisa. Nao pode.

10.9.20

Notas

A irracionalidade devasta-me não por si-própria mas porque está invariavelmente - ou pelo menos na maioria das vezes - associada à maldade.

A estupidez é maldosa. O estúpido bom não é estúpido; é tolo, o que é diferente.

9.9.20

Tempo, aldeias

Em nenhum lugar do mundo o ridículo da modernidade é mais exposto do que numa aldeia pequena. Numa cidade grande dilui-se, há muitas tribos. Numa aldeia, um carrapito pequeno e de mau gosto transforma-se num farol grotesco, uma saia demasiado à la mode uma marca de desfazamento, uma tatuagem demasiado visível sintoma de deslocalização. De certa forma é uma injustiça, claro: por algum lado há-de o tempo chegar ao campo. Só é pena é que a sua ponta-de-lança seja o ridículo.

Espelhos

Das coisas que não sendo foram ou serão, das que foram não são e nunca mais serão, das outras, resta-me a lembrança da tua pele, dos teus olhos, das tuas mãos, do teu ventre. As coisas que não sendo são matéria de memória, olfacto das noites, alimento de amanhã. "Ya todo está" . "Solo una cosa no hay: es el olvido". "Os reflexos do teu rosto no espelho". Tu em mim. Não há espelho que reflicta isto: os espelhos não têm tempo.

Tempo é coisa da vida, coisa de sábio sofrido (passa-me o pleonasmo, passas?) Um dia inventarei um espelho ao retardador, só para ti. E pôr-me-ei nele como me ponho em ti: todos os dias, todas as memórias, para sempre.

O que não sei

Nunca sei por onde começar a escrever: o mundo ou eu? O exterior ou o interior? Tu na praia dali ou eu na praia de mim? Onde acabo e começa o resto? Da esponja vê-se onde acaba e começa, é fácil, tem cores. Eu não. O mundo entra por mim e eu por ele, como este copo de vinho que agora bebo e é tanto eu como eu sou ele, ou este disco da Nico, Desertshore, que entra por mim e pela noite de Mértola. 

My only child

...

Man and wife are feasting the time
The time that lies behind
At home in sweetness and delight
Drinking the bitter wine

Their hands are old
Their faces cold
Their bodies close to freezing
Their feelings find

...

Afraid

Cease to know or to tell
Or to see or to be your own
Cease to know or to tell
Or to see or to be your own
Have someone else's will as your own
Have someone else's will as your own

....

All that is my own

Your winding winds stood so 
All that is my own 
Where land and water meet 
Where on my soul I sit upon my bed 
Your ways have led me to bleed 

Não sei. Digo «não sei» muitas vezes, eu sei. Não é um bordão: a verdade é que não sei a maior parte das coisas, por muito que queira escrever sobre elas. 

Antes escrever sobre aquilo que não sei: tudo. Eu e o resto.

8.9.20

Da repetabilidade da história

Daqui a mil anos, a nossa reacção ao vírus vai ser vista como hoje olhamos para as práticas da Idade Média. 

(Não serão mil anos. Aposto que cem chegarão. O tempo acelerou.)

7.9.20

Praia

Não fazer nada é uma actividade que nunca me atraiu. Canso-me depressa de não ter nada que fazer. Porém, acabo de passar alguns dias no Porto com a missão clara e específica de ficar quieto - os mais realistas dir-me-ão que isso é fazer alguma coisa - e consegui. Aqui em Mértola a missão é diferente, mas envolve também uma grande dose de inactividade. A ver como me saio. A julgar pelo primeiro dia não vai ser muito fácil. Estou a sessenta quilómetros do mar, o que é simultaneamente muito e pouco. 

Quero ir à praia.

Escrever rios

A escrita deve ser límpida, cristalina, sem vírgulas a mais nem pontuação exagerada. Pontos e vírgulas são como meandros de um rio de planície: impedem-te de lhe seguir o curso. Escreve clara e linearmente, como um rio de montanha. Se tiveres alguma coisa a dizer ver-se-á imediatamente, no primeiro lago a seguir à primeira cascata. Se não,  perder-te-ás num areal qualquer, sem força para chegares ao mar.

Ode a Rute

Tenho ainda calosas as mãos, mulher. Mas não é de cabos, é da vida. Falta-lhes a tua pele e sem ela não há pele que resista. 

Doze mil

Doze mil posts no DV. Efeméride: doze mil disparates celebram-se. Com Balanches tinto e medronho. Assim ganhamos peso ao mesmo tempo, o blogue e eu.

Pecados mortais

Venho almoçar ao Tamuje. Sopa de tomate. Está sublime, claro, inútil é dizê-lo, mas não consigo acabá-la, fica mais de metade. 

Decidi que vou parar de engordar à custa da comida. Agora, só o vinho e o medronho me farão ganhar peso. O que sobra vai para casa: deitar fora comida desta é pecado mortal.

Reedição - À ròla do mar

O texto é recente - 26.02.18 - mas pede reedição. Aqui vai. 


"Marinheiro sem eira nem beira é pleonasmo e rima pobre, pecado a dobrar. Não há casa que queira pecados destes, lastro duplo, adornados até às portas de mar, retrancas a roçar as cristas e vergas desvairadas, de antes desarvorar que rizar, pistola na mão "dou um tiro ao primeiro filho da puta que tocar numa escota". 

Se morressem morreriam pobres, os marinheiros. Pobres e podres, que o sal conserva, mas mal: Seca e Meca percorridas o que lhes fica nas entranhas é a liberdade, que da merda livram-se toda e a liberdade corrói, a liberdade é uma prisão da qual só morto escapas e como não morres nem assim de pés para diante dela sairás. Os marinheiros não morrem: transformam-se em vagas que um dia nas praias desfalecem, montadas por putos em pranchas de surf, a olhar-lhes para as miúdas que os esperam nas areias e a pensar nos albatrozes que viram ao largo do Boa Esperança ou do Horn, nos bordéis onde foram fodidos como putos num ginásio de Atenas, eles que durante um milésimo de segundo pensaram ser os reis do mar, do vento e dos corpos, dos ventres, seres nem vivos nem mortos.

Os marinheiros não morrem: entregam-se um dia em que a pistola do capitão não tenha balas e mais valha folgar do que andar à ròla do mar."

Notas:
"Dou um tiro, etc.": durante a mais célebre das regatas entre clippers (CUTTY SARK vs. THERMOPYLAE) o capitão do Cutty vinha para a ponte, pistola na mão, para impedir os marinheiros de folgar pano.

Retrancas e vergas: peças da mastreação, onde envergam as velas (panos).

Folgar (pano): aumentar o ângulo que uma vela faz com o vento. É a primeira etapa para diminuir o adornar (inclinação) de uma embarcação de vela. A seguinte é  rizar (diminuir a área de pano exposta ao vento).

Escotas: cabos que controlam o ângulo que as velas fazem com o vento, uma das afinações fundamentais para a velocidade do navio. 

«É tão longe pedir»

O poema chama-se Mendiga Voz e vem a propósito, ainda que por vias travessas, de uma conversa que tive hoje com a minha irmã R.. É de Alejandra Pizarnik e dou-o aqui na versão traduzida por Alberto Augusto Miranda. Vem numa pequena antologia da editora O Correio dos Navios, nome que por si só me faria gostar da obra. Felizmente há mais: as traduções são óptimas (o traditore não inventa) e a selecção de poemas também - tendo presente que a antologia é verdadeiramente curta.

«E ainda me atrevo a amar
O som da luz numa hora morta
A cor do tempo num muro abandonado.

No meu olhar perdi tudo.
É tão longe pedir. Tão perto saber que não há.
»

Rute, rente ao mar

É rente ao mar, Rute, que te vejo em mim e eu em ti. Rute é palavra de sempre, não acaba nem começa, palavra telúrica, vem do pangea, significava amor quando foi inventada e hoje também: amor de mar, amor infinito, amor de linha de horizonte, amor de calma e de tempestade, amor de chegar e de partir. Tens os olhos da cor do mar e os cabelos da do Sol, o sorriso da matéria dos dias e o olhar do brilho da noite. Queres melhor prova do que te digo, Rute rente ao mar e rente ao céu, rente ao amor e à alegria, rente ao mundo e à vida?

Em ti me perdi, Rute e sem ti me perco. Como navegar num mar sem ti, sem ti no mar? Como respirar sem o ar que és e me dás a respirar, ver sem os teus olhos, falar sem os teus lábios nos meus?  Diz-me como, Rute e eu rente às palavras obedecerei, a elas me dobrarei.

Não digas, Rute. Rente ao silêncio te quero, nos quero.

6.9.20

Cannery Row

Por muito romântico que pareça, por muito apelativo que seja para jovens em busca de alma ou aprendizes de monge em busca do desapego, não ter dinheiro é uma chatice. Complica tudo - mais do que a falta de jeito, a inabilidade fatal ou a falta de um ouvido. O menor e mais banal dos actos vê-se comprometido, exige o triplo do tempo e o quádruplo do trabalho, esmifra a paciência do pobre e de quem o rodeia.

Pobre? Só em Cannery Row e de vez em quando.

Até amanhã

O périplo pelo Norte acabou. Em termos de vendas de livros não foi propriamente brilhante. Vai ser preciso mudar da estratégia. Contudo, em muitas outras coisas foi maravilhoso: descansei. Descansei física e mentalmente. A dor na anca atenuou-se bastante e a cabeça parece o quarto de um adolescente depois de a mãe lá ter passado: ainda cheia, mas pelo menos com cada coisa no seu lugar. Esperam-me uma dúzia de dias em Mértola: aposto que o quarto vai ficar vazio. Revi Guimarães, cidade exemplar porque está recuperada e não é uma caixa de bonbons, como Óbidos, exemplo. Nada naquele centro histórico enjoa. Conheci pessoas que gostei de conhecer, pessoas em que vejo aquilo que nós portugueses temos de bom, em quem me revejo: a hospitalidade, a abertura de espírito, a tolerância, a generosidade. Vi os meus textos fugirem da caixa, lidos por uma sublime leitora (acresce que a selecção foi estupenda). Confirmei que as amizades aparecem e crescem onde menos se espera.

Confirmei, sobretudo, aquilo de que há muito suspeito: a minha vida é a minha melhor obra de arte, não a trocaria por nenhuma outra, é uma obra que não cabe num museu e que, quando eu morrer, continuará nos livros, no DV, na memória de quem me conheceu. Os momentos de sofrimento por que passei - tantos! - equilibram-se muito bem com os de exaltação - ditto - e agora, que a obra se aproxima do fim, entrou na recta final, tudo se equilibra, tudo cai no sítio e mostra a sua intrínseca claridade, a sua indomável liberdade. 

Dei este nome ao blogue para homenagear um dos barcos de que mais gostei - e porque não quis perder muito tempo à procura, verdade seja dita. Vejo agora que só o trocaria por outro, muito parecido: Dona Vida.

Estou cansado, mas é um cansaço límpido, honesto, daqueles que se resolvem com uma boa noite de sono. Que venham muitos assim. Até amanhã. 

4.9.20

A cidade e os livros

Se uma cidade que visitamos se define em função dos livros que nela compramos - e não das mulheres que nela conhecemos,  etc., - como definir Guimarães:

- Raymond Chandler, O imenso adeus, ed. Livros do Brasil;

- Damião Peres, História dos Descobrimentos Portugueses, ed. Vertente;

- Obras completas de S. Francisco Xavier, ed. ... daqui a bocadinho, o livro está na mochila.