31.10.20

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 30-10-2020

Saio de casa «cedo» (aspas porque oito e meia é tudo menos cedo). O dia está lindo, azul menos claro, azul a meio caminho do escuro. A temperatura é de nove graus, estimulante, eléctrica. Consigo andar a um passo quase normal. Ainda não é o passo estugado do costume, mas é suficientemente rápido para me deixar pensar que a tendinite acabou. Vou para a outra margem do Ródano: um passeio de vinte, vinte e cinco minutos durante o qual revejo ruas que me são bastante familiares (de resto tenho-as visto ultimamente, andei para aquelas bandas). O fecho éclair do passado e do presente abre e fecha-se, levado pela mão da memória. São as zonas ricas da cidade, as ruas das Prada, dos Boss, dessas marcas que tão pouco ou nada me dizem. A moda infantil deve estar virada para vestir as crianças como se fossem adultos em miniatura. É abominável. Todas as modas o são, de resto. Só o mau gosto - ou a sua ausência - precisa da bengala da uniformidade. O bom gosto não muda, ou então muda devagar, quase imperceptivelmente. 

Ontem entrou em vigor a norma das máscaras na rua, mas poucas são as pessoas que as usam.

À tarde, outro passeio: fui buscar a cadela ao «cabeleireiro» canino. Esta antropomorfização dos animais repugna-me, mas pouco há a fazer. Fica para o outro lado da cidade, mais popular. São duas da tarde, a temperatura está «acima da média da estação», como dizia ontem o senhor da meteorologia na televisão. Fico contente: não é todos os dias que o aquecimento global está onde eu estou. Infelizmente, fica pouco tempo: para a semana voltam as temperaturas da época e a chuva.

Estou no fundo de um poço fundo, mas por milagre a luz chega até onde estou. Por quanto tempo? Este aquecimento local e interno acabará em breve, eu sei. Iremos para outras bandas mais obscuras, a maré baixa e eu. Que se lixe. Há que aproveitar, como vamos aproveitar este fim-de-semana, como aproveitamos estes momentos. Não se pode adiar o presente nem antecipar o futuro nem reviver o passado, mas pode-se fazer pontes entre eles, por breves, frágeis e incertas que sejam.

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Foi a vez de o namorado da H. ficar doente. Ao contrário dela, tem os sintomas todos, está mal, cheio de tosse e de dores de cabeça. «É um homem«, explica-nos a jovem com um encolher de ombros (implícito, ao telefone não se vê).

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Amanhã é dia de mais um passeio ao Jura. O maldito poço tem mesmo muita luz, desta vez.

28.10.20

Pergunta

Terão sido os media a trazer a política para a arena emocional? Ou pelo contrário foi essa deslocação que os fez começar a vender emoções em vez de vender factos?

Medo reconfortante

Perguntei a S. o que pode levar pessoas que presumivelmente não ganham nada de tangível com isso a instilar medo. No FB há vários, cheios de títulos, que se comprazem a assustar quem os lê. Usam informação truncada, números descontextualizados, modelos errados. O objectivo claramente não é infomar, é enformar.

Resposta: "há várias razões, mas a principal, provavelmente, é  que o medo cria dependência. Essas pessoas angariam uma corte de fiéis seguidores apavorados, que quanto mais medo têm, mais precisam de confiar em quem lho fornece." (Cito de memória.)

27.10.20

Conversa de café - Genebra, 27-10-2020

Os pequenos cafés de bairro são lúgubres, deprimentes, tristes, feios em todo o lado; Genebra não é portanto uma excepção. La Fleur de Champel, no bairro epónimo (um bairro chic, convém dizer) não foge à regra, com alguns predicados mais: o dono é mais antipático do que uma gárgula e como é espanhol tem a casa cheia de máquinas de jogos e uma vitrine com doces e salgados (esta é bem vinda, apresso-me a esclarecer: o folhado de salsicha é excelente, mesmo frio e a esta hora). O vinho da casa é Dão e bom, passe a redundância.

Ao meu lado, um senhor explica convictamente a uma interlocutora telefónica que «está no escritório» e «não, não está a mentir».

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 A sorte já me bateu à porta mais vezes do que eu acredito, quando penso nelas; apresenta-se como uma miúda gira, sorridente, mamalhuda, sexy como a Monroe e inteligente como a Basset (que também é sexy, de passagem seja dito. Talvez até mais do que a outra. Pouco importa. Isto não é uma crítica de misses). Escancara-se-lhe a porta e os braços e transforma-se imediatamente numa velha bruxa, desdentada e montada numa vassoura. Que fazer?

O melhor é empurrá-la para um quarto e fechá-la, sem nos assustarmos. Ela e o tempo lá se entendem, com altos e baixos. Ele não teme a fealdade. Às vezes fazem uma partida a três com o azar: «O tempo, a sorte e o azar encontram-se num quarto e fazem uma orgia» podia ser o começo de muitas biografias. Todas...

De tempos a tempos convém abrir a porta do quarto para o arejar, espreitar lá para dentro, entusiasmarmo-nos um bocadinho com as mamas da sorte ou as carícias do tempo. Bebe-se um bom rum, um bom absinto, olha-se bem para o quarto e deixa-se os três à solta. Eles lá saberão o que fazem. E não deixarão de no-lo dizer.

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 27-10-2020

O Outono está aí, mai-las respectivas cores: azul claro, castanho, cinzento, verde, encarnado, amarelo, cinzento outra vez, azul claro... as temperaturas sobem e descem com as cores, pas de deux a muitos. A esta hora devia estar a navegar no meu P. e estou aqui, varado (no melhor dos varadouros possíveis, verdade seja dita). Mas o melhor dos varadouros não vale o pior dos mares, essa é que é essa.

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H. testou «positiva» ao Covid. Dez dias em casa a partir do aparecimento dos sintomas, o que significa seis ou sete dias agora. Os que me desejavam ter um familiar «doente» ficarão contentes. Eu continuo onde estava: nas tintas. A rapariga tem vinte e oito saudáveis anos (e belos, mas isso é outra história). Tudo o que espero é que a Covid passe depressa à categoria «vírus da gripe» e que não se passe o contrário: os diferentes vírus gripais passarem à categoria «Covid».

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Hoje o Sol apareceu e tenho de fechar os estores para escrever. Deve haver poucas contradições que me irritem mais, depois das contradições dialécticas de Marx, que esta: excesso de luz em Genebra. 

E ainda há quem duvide de que isto é uma cidade mediterrânica, disfarçada de calvinista para um Carnaval invisível.

26.10.20

Viagem pelo Mediterrâneo

Oiço Eleni Karaindrou, leio Goliarda Sapienza - L'art de la Joie é a melhor coisa que me passou entre as mãos em muitos muitos anos (pelo menos sob a forma de livro) - penso na minha Palma, tão longe e no meu P. que nela espera e digo-me que só o Mediterrâneo pode produzir esta mistura de arrepios, de sensualidade e de mistério, de profundidade e ligeireza. Da Eleni Karaindrou passo para Evanthia Reboutsika, penso em Pietra Montecorvino, no Gattopardo, Ezra...:

And then went down to the ship,
Set keel to breakers, forth on the godly sea, and
We set up mast and sail on that swart ship,
Bore sheep aboard her, and our bodies also
Heavy with weeping, and winds from sternward
Bore us out onward with bellying canvas,
Circe’s this craft, the trim-coifed goddess.
Then sat we amidships, wind jamming the tiller,
Thus with stretched sail, we went over sea till day’s end.
Sun to his slumber, shadows o’er all the ocean,
Came we then to the bounds of deepest water,
To the Kimmerian lands, and peopled cities
Covered with close-webbed mist, unpierced ever
With glitter of sun-rays
Nor with stars stretched, nor looking back from heaven
Swartest night stretched over wretched men there.
The ocean flowing backward, came we then to the place
Aforesaid by Circe.
Here did they rites, Perimedes and Eurylochus...

Nunca li os Cantos inteiros, mas cada vez que pego neles encontro qualquer coisa de que não me lembrava, ou que se adequa perfeitamente à situação, ou sei lá, me traz de volta à realidade e me faz pensar que nunca os lerei de fio a pavio e tenho a Modesta à minha espera na cama. 

Gostava de voltar a Atenas e às ilhas, tenho de ir à Sicília - o Princípe e a Modesta esperam - quero beber vermutes atrás de ouzos e à frente de pastis, comer moussaka e polenta e coniglio com azeitonas verdes acompanhado por Nero d'Avola. Quero tudo, menos outra vida. Esta chega-me.

Reedição - Irracionalidade (02-02-2008)

É mais fácil compreender (e frequentemente aceitar) a irracionalidade do que lidar com ela.

...........(26-10-2020)

Dois posts com alguns anos que vêm mesmo a calhar, nestes tempos de irracionalidade dominante.

Reedição - Irracionalidade II (02-02-2008)

A esmagadora maioria das pessoas é, obviamente, inteligente - mas é igualmente óbvio que essa mesma maioria é pontualmente capaz da mais total irracionalidade (infelizmente, a minoria em que a irracionalidade é permanente também é esmagadora).

Essa irracionalidade temporária, pontual, episódica tem várias origens: a facilidade (é mais fácil reagir cegamente a uma situação qualquer - agradável ou desagradável - do que tentar percebê-la); a ignorância (se se ignora a lógica que está por trás de um determinado comportamento e o percebe como "estúpido" - isto é, desprovido de razão - tende-se a reagir irracionalmente); ou o simples facto de sermos humanos - Edgar Morin, no volume 6 do "Método" (A Ética), diz "a compreensão racional objectiva, desumaniza*".

Se bem haja aqui um problema de lógica: o que é humano é a razão. Ser homem é pensar; não pensar é mais fácil, certo, mas porque será "mais humano"? Porque associamos a humanidade ao erro, à emoção, à irracionalidade, quando é justamente o sermos capazes de nos libertarmos deles que nos define como homens? Estamos mais perto da verdade quando igualamos um comportamento irracional a um comportamento animal.

- a citação é de memória, será verificada posteriormente.

25.10.20

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 25-10-2020

Tínhamos previsto ir ao Jura e fomos. Não pensáramos foi ir a Bassins, onde vivemos até eu decidir que estava intoxicado de clorofila, alérgico à fotossíntese e daltónico ao verde e que na cidade é que se respira bem. Dois anos, findos os quais peguei numa carta de Genebra, tracei-lhe o centro geométrico, desse ponto desenhei um círculo que delimitava uma distância de dez minutos a pé e disse «É dentro deste círculo que vamos viver». A proposta foi aceite e voltámos para a cidade, a cerca de três minutos a pé da universidade onde S. uns anos depois daria aulas, a cinco da Plaine de Plainpalais, a dez do Bâtiment des Forces Motrices, que então ainda não era o teatro de ópera que hoje é.

Não sei que dizer. Quando é que o passado e o presente se separam, como os dois lados de um fecho éclair ou uma folha de papel que se rasga em dois, após cuidadoso vinco feito com uma régua?

Bassins foi dos sítios mais bonitos onde até hoje vivi. A casa era ao lado do templo, um velha quinta reconvertida, com uma vista de tirar o fôlego para o lago e para os Alpes. Do outro lado, começa o Jura, que prefiro aos Alpes. Estávamos a oitocentros metros de altitude, acima do banco de nuvens que no Inverno cobre Genebra: era raro o dia em que tínhamos nevoeiro. Quando íamos para Genebra, sentíamo-nos como quando de avião se desce para o aeroporto depois de uma viagem ao sol. A H. foi baptizada no templo da aldeia - tenho um filho católico e uma filha protestante, réplica nem totalmente voluntária nem completamente involuntária do casamento. (Encontrar um padre que aceitasse casar-nos foi um sarilho...)

Há uma doçura, uma paz, uma plenitude nestas paisagens jurassianas que são difíceis de descrever. A terra é fértil e exala tranquilidade. No Outono basta andar um pouco e sentimo-nos no Canadá. Bassins é o princípio do Jura (do lado Sul) e o seu flanco Leste. Para oeste fica a Franche-Comté, terra de orgulhos e de lutas, passagem preferida para a Suíça durante a guerra. Perder-se no Jura é a mais pacificadora das experiências. Os Alpes são agressivos, estimulantes, excitantes. São o café. O Jura é o chá.

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O governo federal está a deixar os cantões tomarem as medidas que entendam. A comunicação social acusa-o de moleza, de intervir tarde e por aí fora. Mesmo assim, é muito mais comedida na distribuição de pânico do que a nossa. Pelo menos aqui na Suíça-francesa. Nas outras não sei o que se passa, nem quero saber. Só espero que isto acabe depressa e encontrar-me no meio do Atlântico a bordo do meu P. do meu coração.

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É lamentável que tantos casais divorciados se zanguem de morte. Não sabem o que perdem: a amizade pós-conjugal é fascinante e complexa. Fica algures no meio de um triângulo composto pelo amor que foi mas não desapareceu, a amizade que o substituiu e a cumplicidade que nasceu do encontro dos dois. 

Felicidade, melancolia

- Doutor, tenho a felicidade melancólica e a melancolia feliz. É grave?

- Se não se misturarem não é.

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 24-10-2020

Já aqui falei várias vezes da rouille de calamars e até já deixei uma receita.  A de hoje ficou perfeita no mais difícil (equilibrar o sabor do alho e das outras especiarias) e imperfeita no molho, ligeiramente líquido de mais. Ninguém notou, excepto eu. Vale que éramos só dois. Já a açorda alentejana ficou melhor, apesar de o pão ser genebrino e não alentejano. Fi-la pilando os coentros e o alho, como fazia a minha avó Carlota, que era de Estremoz e para além de cozinhar bem fazia uma excelente ginginha (pelo menos creio. Não tenho a certeza. Já lá vão mais de cinquenta anos). Pilava aquilo (coentros a que tinha retirado os caules, alho, um bocadinho de azeite, sal) e pensava que a porcaria das máquinas estragou tudo. Dão-nos tempo e tiram-nos o gosto, o prazer de mexer na comida com as mãos, o olfacto e os olhos. A comparação é velha, eu sei, mas não está gasta: fazer amor só é melhor do que cozinhar porque a comida não fala (bom, reconheço que haverá mais meia dúzia de terminações nervosas envolvidas, mas isto é uma litote e que se lixem as terminações). As lulas e a açorda estavam felizes e quem as comeu também e as analogias páram aqui.

A parte líquida da coisa tão pouco deixou a perder: absinto Artemisia antes, Dôle Blanche durante e rum Damoiseau depois. A bebida está para a comida como a inteligência para o amor: pode fazer-se sem, mas com é melhor. (Hà uma diferença: a inteligência nunca é de mais.)

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Depois das compras hebdomadárias fomos passear ao campo. Foi um passeio curto, local. Amanhã vamos ao Jura vizinho. Antigamente, o passeio semanal era ao domingo. Escolhíamos o destino alternadamente. O meu era sempre o mesmo: a beira lago. As crianças detestavam, mas eu não me deixava impressionar porque também detestavam o campo e uma vez fora de casa gostavam de tudo o que viam. Hoje escolheria estes campos limpos, arrumados, lisos. Estávamos no fim do dia e a Lua já estava bem visível. Quarto crescente muito claro, límpido. O campo em Genebra está em Genebra, ou quase. Não há arrabaldes nem longas estradas cheias de fábricas e de casas horríveis antes de lá chegar. Genebra é uma vasta planície entalada entre os Alpes e o Jura e víamos os dois. Ao longe, o Monte Branco, mais perto o Salève, no meio nós esta lisura monocromática que a cadela percorria aos saltos e a galope, atrás de hipotéticos ratos. As propriedades não têm muros, pode-se atravessá-las a pé, a cavalo, de bicicleta. Não há barulho e a Lua diz-nos que amanhã estará maior, mais tarde menor e pode substituir-se um e outro por melhor e pior que o resultado é o mesmo: hoje estamos bem, amanhã pior, depois de amanhã melhor e por aí fora, sem fim. Mudam as marés, nós não. 

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Mesmo não estando de acordo com o que se passa na Suíça em relação ao vírus, é difícil não apreciar a diferença de atitude com Portugal, Espanha e França. As televisões apresentam sistematicamente os dois lados da questão, mesmo estando claramente enviesadas para a narrativa oficial. Mediática também, é preciso dizê-lo: esta narrativa é dos media antes de ser dos governos. São eles que nos dirigem, no fundo. Histeria mediático-facebookiana e os governos são obrigados a reagir. Será possível retirar um bocadinho de poder ao quarto poder? Só ensinando as pessoas a ler e a ouvir, mas isso é complicado porque elas pensam que já sabem.

22.10.20

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 22-10-2020

Tenho encontro com a G. nos Bains des Pâquis, onde no Verão de antigamente as miúdas vinham mostrar as mamas e os maricas o peito. Não sei como está no Verão de agora. Hoje, Outono, o lugar está medonho de melancólico, tão medonho e tão triste que não consigo impedir-me de gostar disto, desta luz que não sei bem se é luz se claridade, deste silêncio sepulcral, destas janelas que estupidamente cortam a vista para fora com um desenho de vagas e gaivotas a traços brancos - "Se fossem de cor seria pior", penso. Quando trabalhava no Intermaritime vinha muitas vezes aqui, não só por causa das mamas das miúdas mas também porque parecia o estrangeiro. G. (que entretanto chegou) diz-me que o lugar lhe lembra Cabanas de Tavira, coisa que só demonstra o poder mnésico dos opostos. Diametral, visceral, ontologicamente opostos. Mas não há dúvida de que os Bains têm qualquer coisa de fora do tempo, fora do espaço. Há uns anos queriam demoli-los e foram salvos por um iniciativa popular. A democracia directa tem inegáveis vantagens. 
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Chove outra vez. Vai chover o resto da semana, vai chover o resto da vida. Infelizmente não é desta chuva que preciso, é da outra.

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Um vírgula três litros de vinho, dois pratos de carne seca dos Grisons e um prato de queijo mais tarde (as comidas foram divididas por um vírgula um, G. a comer parece uma daquelas máquinas debulhadoras nas planícies americanas) volto para casa, à sombra da mesma chuva miudinha com que fui para lá. Há muito que não passo tanto tempo em Genebra e saio pouco: o passeio de hoje foi uma visita ao passado, o reencontro com o prazer de andar à chuva quando ela é comedida, suíça - e uma interrogação: quantas cidades há no mundo nas quais me reencontro? Comigo, com a arquitectura, com o passado em carne viva? Lisboa, Genebra, Palma; uma parte da cidade do Panamá, três ou quatro arrondissements em Paris, idem em Londres; S. Luís do Maranhão, a agora Maputo, Cape Town, Bujumbura, Lubumbashi... Caracas, Rio estão demasiado longe, não reconheceria nada. Isto não é um vida, é um caleidoscópio partido e espalhado pelo chão. Não admira que passe a vida a olhar para trás, a reconstituir isto tudo.

Como se fosse passível de reconstituição.

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 A Suíça prepara-se para um «semi-confinamento». Sabê-lo-emos de hoje a oito. Isto é desesperante. O que varia são os graus de loucura, não a loucura em si mesma. Arrependo-me de não ter ido para a Suécia há quarenta anos, quando uma miúda loira e bonita (e americana) me desafiou. «És o homem mais extraordinário que até hoje conheci», dizia-me numa carta que reencontrei - tantos reencontros - há pouco tempo. 

Não acreditei e não fui (além de que era ainda mais frio do que a cidade onde então estava, que já o era bastante). Mais extraordinário ou mais cobardolas? Talvez simplesmente mais estúpido, mas ela confundia tudo e eu não percebia nada.

21.10.20

Breve tratado de teologia insomníaca

Porque é que todas as religiões precisam tanto de culpabilidade e de auto-flagelação? É um dispositivo da submissão: somos culpados, temos de nos redimir. Seja com a jihad, seja com a penitência ou com o desapego, temos de mudar o homem que há em nós.

As novas religiões seculares herdaram esses mecanismos. Sem eles não seriam religiões e nao atraíriam fiéis. A antropogénese das mudanças no clima - uma coisa  que muda desde que existe e existe muito antes de haver humanidade (e mesmo que seja fruto do nosso pecado, a ideia de que talvez seja melhor adaptar-nos, como a humanidade tem feito desde que existe, é ela mesma pecado); a santa igreja dos terraplanistas da Covid, que "conseguiu" aplanar a terra e pensa que consegue fazer o mesmo ao vírus, com o êxito que está à vista; a santa igreja da natureza - cujo Livro não é, infelizmente, La Méthode, de Morin; o comunismo, que tem na propiedade privada o seu pecado orginal e se propunha criar o homem novo e dar-lhe amanhãs radiosos (esta resolveu abolir todas as outras, chamando-lhes ópio, porque é contra a concorrência)

Este dispositivo de auto-ciliciação coabita com uma húbris de tamanho igual e sinal contrário: o homem pode tudo, desde mudar-se a si próprio a mudar a natureza. Somos deuses, que diabo! (Ou imagens Dele, para alguns.) Para que serve sermos deuses se não conseguimos sequer mudar o clima, parar um vírus ou proteger a natureza?

Ainda me hão-de ver a acender velas na igreja. Não que me tenha convertido, mas para que a Igreja Católica Apostólica Romana, os Adventistas do Sétimo Dia ou as duzentas e cinquenta e quatro fomas de protestantismo recuperem as suas "ovelhas" (aspas porque cito).

(Já todos ficaríamos a ganhar - ou pelo menos manteríamos as cabeças em cima dos pescoços e não ao lado - se uma das religiões do Livro perdesse alguns fiéis, mas isso é outra história.)

O ateísmo - paradoxalmente, sem dúvida - é a única "religião" (aspas porque ironizo) que não faz mal a nada nem ninguém e põe o homem no seu lugar: a periferia do universo.

18.10.20

Anarquia, álcool e eleições

Fiz uma eleição interna para escolher a melhor bebida polivalente, todas as categorias incluídas. Como tenho andado a beber um absinto extraordinário, produção artesanal, daquele que fica verde quando se lhe põe a primeira pedra de gelo, 68º - sim, leram bem, sessenta e oito graus - tenderia a escolher este: Absinto Angélique, produzido por Artemisia, Distillerie Artisanale no Val-de-Travers, Suíça.

Na realidade o exercício é filho do ócio, claro. Precisaria de pelo menos um milhão de eleitores para ter uma resposta válida. Os três ou quatro que trago em mim não chegam. Runs, vinhos - a família toda, dos verdes brancos aos eiswein -, whiskies, aguardentes - vínicas ou de frutas, mirabelle à cabeça, ex-aequo com o medronho - vermutes, cervejas, tequilas, vodkas, liquores, bebidas regionais - ouzo, pastis, Très Caires, raki, arak, o Mei Kwei Lu... A única coisa que nunca consegui beber - ou melhor, de que nunca consegui gostar - são aqueles destilados e fermentados africanos e as aguardentes chinesas com cobras e lagartos lá dentro. (Já de mezcal sou fã, incondicional e para sempre, apesar da monumental, histórica e vergonhosa bebedeira que com aquilo apanhei em Jo'burg.)

Como eleger uma? Bebe e cala-te.

Reedição - Vinte mil vezes, 25-04-2007

 “Take any bird and put it in a cage
And do al thyn entente and thy corage
To frostre it tenderly with mete and drinke
Of alle deyntees that thou canst bithinke
And keep it al-so clenly as thou may
And be his cage of gold never so gay
Yet has this bird by twenty thousand fold
Lever in a forest that is rude and cold
Gon ete wormes and swich wrecchedness.”

Geoffrey Chaucer, Maunciples Tale


(Pega em qualquer ave e mete-a numa gaiola
E usa todo o teu empenho e todo o teu coração
Para ternamente a nutrires com alimento e bebida
De todas as requintadas iguarias que consigas imaginar
E mantém-na também tão limpa quanto possas
E não possa a sua gaiola de ouro ser mais alegre
Mesmo assim vinte mil vezes preferirá essa ave
Voar numa floresta inclemente e fria
Comer vermes e tais porcarias)

 in Ultramarina, Malcolm Lowry, col. Dois Mundos, ed. Livros do Brasil. Trad. de Fernanda Pinto Rodrigues, com esta nota:

 “Sem ter a pretensão de traduzir poesia, nem tão-pouco de ser entendida em inglês medieval, atrevo-me no entanto, para esclarecer o leitor na medida do possível, a dar uma tradução aproximada dos versos de Chaucer, penitenciando-me, desde já, de possíveis inexactidões.”

Da pulhice e do autoritarismo

Faço parte daquele grupo de pessoas que pensa que se Salazar tivesse organizado eleições tê-las-ia ganho todas. Na minha opinião, isso não deixa de fazer do homem um governante autoritário. Já para o nosso Primeiro-Ministro não é assim. Salazar não era autoritário. Era um democrata. 

António Costa é um pulha. Política e - cada vez o suspeito mais - pessoalmente..

17.10.20

Vingança?

Ao contrário do que todos pensávamos, a comunicação social não está morta e para o provar resolveu matar meio mundo.

Ontem, hoje, amanhã

Nunca acreditei muito nessa coisa de a vida ser o dia de hoje. Let's forget about tomorrow é uma linda canção - sobretudo quando cantada por Peggy Lee - mas é isso mesmo: uma canção. Viver cada dia dia-a-dia é simultaneamente um objectivo bonito, impraticável - excepto pelos muito ricos e pelos muito pobres - e uma tanga zen, exequível num mosteiro ou nos livros de autores californianos.

Sem ontens não há hoje que se aguente; sem amanhãs não há hoje que faça sentido.

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 16-10-2020

O Outono já aí está, depois de muitas hesitações. Dias "quentes", nublados e limpos, Sol ora sem a máscara das nuvens ora com ela posta até aos cabelos. Às vezes pinga, outras chove - chuva mansa, não se sente, não se vê, não molha; hoje foi dia de bise. Amanhã vai cair, diz o meteorologista.

O mais extraordinário apresentador da meteo que vi numa televisão: há meia dúzia de dias mostra uma carta cheia de sóis e diz:

- Isto é o que todos gostaríamos de ter amanhã de manhã. Infelizmente, não sabemos se é o que haverá ou se nuvens  altas virão cobrir o Sol. Só amanhã saberemos. 

Que honestidade! Que beleza! Que belíssima admissão da incerteza das previsões meteorológicas. Era do dia seguinte que ele falava não do tempo dali a uma semana (não sei se por ele se pelo previsor de Météo Suisse, mas pouco importa), 

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A Arte da Alegria, de Sapienza Goliarda, parece uma continuação do Leopardo. Uma espécie de "o Príncipe veio à cidade". Ou "o Príncipe ressuscitou quarenta anos depois da mais bonita valsa da história do cinema". O livro é extraordinário, mas como ainda nem a meio estou (é um calhamaço de oitocentas páginas) reservo-me e espero para ver. Daria uma fantástica série de televisão, isso é seguro.

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A Suíça - até a Suíça - cede à histeria dos «casos». Mas sendo o que é, cede calma, reflectidamente. Ontem na televisão (canal principal, telejornal) até um crítico - em Portugal seria um "negacionista" - (aspas para assinalar o escárnio com que uso este termo) entrevistaram. A curiosidade é que é a pessoa que dirigiu a luta contra a pandemia até há bem pouco tempo. Entretanto, o governo federal cria uma célula para centralizar as coisas e os cantões opõem-se. Na televisão, a presidente da Confederação diz "O nosso modelo negativo é a França. Não queremos fazer aquilo que eles estão a fazer, porque prejudica a economia e não resolve a pandemia" (a citação não é verbatim).

Isto dito, a Covid também aqui tem contornos políticos curiosos. Há uns tempos o cantão de Zurique queria obrigar as prostitutas a tomar nota do nome, número de telefone, morada e duração das "operações" de cada cliente. Duvido que tenha passado - a verdade é que continuo a ver televisão só muito esporadicamente - mas depois ficou a saber-se que aquele delírio foi o resultado de uma luta entre o governo cantonal e o principal partido da oposição. 

Luta antiga - os zuriquenses (?) herdaram mais calvinismo do que Genebra. No princípio dos anos oitenta a cidade era praticamente governada por uma Frauengesellschaft (ou coisa que o valha. Significa "Sociedade de senhoras") que punha e dispunha em tudo o que era diversão e vida nocturna. As discotecas, por exemplo, não podiam vender álcool. Era preciso comprar-se as bebidas no exterior e para entrar pagava-se uma "rolha".

Escusado será dizer que em termos de luta contra o consumo excessivo de álcool não funcionava muito bem: pelo preço de uma bebida comprava-se uma garrafa, que alguns bebiam pelo gargalo para não pagar os refrigerantes ao balcão. O ambiente era horrível, as bebedeiras alastravam como a carga de uma manada de bisontes, o cheiro insuportável - mas mesmo assim foi preciso uma série de iniciativas para pôr fim às garras das senhoras na vida de cada um.

(É um fenómeno generalizado nas crenças, semelhante ao dos apóstolos da Igreja de S. Covid dos Dias do Meio: dão mais peso àquilo em que acreditam ou ao que gostariam que fosse do que à realidade. Infelizmente a praga da histeria não vai lá com iniciativas populares.  Se em Portugal houvesse um referendo, ficaríamos todos presos em casa, escolas fechadas, comida distribuída e rendas pagas por Santo Estado até pelo menos dez anos depois do aparecimento das primeiras vacinas. "Os portugueses são hipocondríacos",  diz-me S. - Os psicólogos são falhos em vocabulário. Não têm a palavra cobardes, por exemplo. Para dizerem burrice, em contrapartida, usam um eufemismo bonito: inteligência concreta.)

Hoje não vi as notícias. Deixemos para amanhã o que não podemos resolver hoje ou o que herdámos de ontem. Dito de outra forma: amanhã que se desenrasque.

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O P. continua a avançar à velocidade de uma gota de água numa tortura chinesa, pingo a pingo. Espero que a chuva venha depressa.

Isto dito, na verdade estes dias em Genebra têm sido um bênção. Mal saio de casa e com excepção de semana e meia de cadela agarrada aos tornozelos, tenho avançado em várias frentes. A tendinite parece que cedeu, mas não quero deitar foguetes antes da hora.

Sinto-me como se estivesse a jogar um puzzle em que as peças fossem magnéticas e se atraíssem caoticamente. Mas aos poucos vão encaixando correctamente umas nas outras, sem que se perceba porquê. 

(E muita sorte tenho eu. Olha se fosse uma das peças e não o jogador... 

Na verdade sou uma das peças, mas enfim. Fiquemo-nos por aqui que ficamos bem.)

Os dias do dia

Dias suíços: tranquilos por fora, uma ebulição por dentro.