30.9.20

Tonya

Tenho sessenta anos e vivo na casa onde nasci. É uma vivenda de dois pisos. Em baixo, sala de jantar, sala de estar, cozinha, despensa, casa de banho de hóspedes, quarto da criada e respectiva casa de banho. Em cima, três quartos, duas casas de banho, um hall grande em torno do qual se dispõem os quartos. Arrumações em cima e em baixo. A casa é espaçosa sem ser enorme, confortável, um grande terraço dá-lhe uma vista magnífica para o mar, ao qual o olhar chega depois de atravessar parte da cidade. Pouco tempo após a morte dos meus pais — foram os dois com um pequeno intervalo —, acrescentei-lhe uma cave com uma divisão especial para vinhos, temperatura e humidade controladas, rouparia, uma suíte que serve de quarto de passagem, biblioteca, arquivo e fourre-tout, como dizem os Franceses. 

Tonya tem quarenta anos e vive aqui há vinte. Viaja mais do que eu: é antropóloga, faz investigação no terreno, dá conferências e formação nos quatro cantos do mundo. Eu pouco saio. Sou engenheiro civil, faço cálculos e projectos para os arquitectos que mos pedem, para uma ou outra autarquia. No princípio da minha vida profissional, viajava bastante, mas o tempo permitiu-me seleccionar os projectos, e agora a ter de sair só aceito encargos que me permitam vir dormir a casa todas as noites. 

Não falei ainda do vasto jardim nem do carvalho que lá está há mais de um século. Já lá vamos. Não tenho cães nem gatos. Nunca precisei de me sentir o Napoleão fosse de quem fosse e não gosto de seres que ou são mal-educados ou são desprovidos de vontade. Aos gatos, não atribuo nenhuma virtude mágica em especial. São mamíferos e desenvolveram características que lhes permitem viver e prosperar num determinado ambiente. Se há magia, é na evolução, não nos bichos. 

Tonya veio viver para aqui quando começou o curso. Era filha de uma vaga amiga ou familiar de Paula, a minha mulher. Já não estamos casados. Paula morreu cedo e triste, coisa a que não consigo esquivar-me. Nem ao carvalho, de resto. Mas esse vejo-o todos os dias e não se mexe. Era professora de Psicologia. (Na universidade em que Tonya estudava, inevitavelmente. Só temos uma universidade na nossa cidade. Já lá vamos.) 

Para mim, o confinamento obrigatório não foi uma mudança radical de estilo de vida e de início até o acolhi bem. Estou sozinho. Tonya foi apanhada pela suspensão das viagens aéreas numa ilha qualquer do Pacífico Sul, onde orienta uma pesquisa, ou coisa que o valha. Conseguiu arrendar uma casa na cidade in extremis, antes de os voos serem suspensos e os hotéis fecharem. Tem Internet e falamos duas vezes por dia. A diferença horária é de dez horas: temos a noite e o dia trocados. As minhas saídas eram poucas, mas regulares: café de manhã, compras, copo antes do jantar, uma aguardente depois. Nunca lhes atribuí importância nenhuma: uma forma de a casa respirar, suponho; expirava-me e inspirava-me, reflexa e regularmente. 

Quando não está no estrangeiro, Tonya trabalha na faculdade e pouco pára por aqui. A vaziez da casa não me exaspera. É assim que a vejo desde miúdo, porque sempre vivi nas suas margens. Depois da revolução, os meus pais deixaram de ter criada e passei a dormir no respectivo quarto, que deixava para ir ao liceu e pouco mais. Fiz o curso em Lisboa e quando comecei a trabalhar viajava frequentemente. Só depois de os meus pais morrerem me vi a habitar a casa, deixei de distinguir os espaços entre «onde posso estar sozinho» e «onde não posso estar sozinho». Na adolescência e nos anos que se lhe seguiram, a minha mãe chamava-me «O morcego». Depois, morreu. Enfim, o meu pai foi primeiro, com um cancro. A mãe a seguir, de tristeza. Nunca conseguiu viver sem o marido e não era aos sessenta e muitos que ia começar. Só então me «mudei para casa» — a expressão é de Paula, que já estava comigo, mas ainda não vivia lá. Era da minha idade, trinta e alguns. Conhecêramo-nos na faculdade — antes de ir para Antropologia, fizera um ano ou dois de Engenharia. Depois, decidiu que o mundo não era feito de linhas rectas projectadas nem de cálculos de resistência de materiais e mudou para a nossa cidade, nesse tempo pouco mais de uma vila à beira-mar, anestesiada pelas mudanças que a modernidade lhe impusera e às quais se esquivara com uma agilidade invejável. O governo resolveu criar ali uma universidade para reter a gente nova autóctone e chamar a de fora. Olhando para trás, é fácil reconhecer que teve razão. Aposta ganha. Paula foi nos primeiros anos, começou e acabou o curso, foi ficando-se, como ela dizia. Víamo-nos regularmente e íamos para a cama irregularmente. Acabei o curso primeiro, voltei para a casa dos meus pais, ela começou a vir dormir mais vezes ao «quarto de baixo», como lhe chamava a minha mãe. Andámos assim meia dúzia de anos. Eles partiram e, um ano depois, entrou ela. 

Fui muito feliz com Paula. Ainda hoje sou, de certa forma, mas é uma felicidade triste. Melancólica. Ela vive na minha memória e em Tonya, quando fazemos amor ou nos dizemos «Olá!» assim que entra em casa vinda de uma das suas viagens. «Olá!» Tonya é alemã e costuma dizer que a nossa língua comum é o silêncio. Era aluna de Paula e, quando esta soube que precisava de uma casa, disse-lhe — depois de me perguntar — que o quarto da empregada estava livre. (As coisas têm uma prodigiosa capacidade de mudar de nome, não têm? Um nome não é parte integrante da coisa, ao contrário do que muita gente pensa. É parte de quem o pronuncia.) 

Tonya é uma mulher brincalhona, divertida, espiègle como diria um francês, a quem o silêncio serve de gabardina. Gosto do termo espiègle, porque me faz pensar em espiga e era assim que eu a via. Uma espiga loira, baixa e magra, agitada pelo vento, mas segura ao caule. A primeira vez que fizemos amor, Paula ainda estava viva. (Quando morreu, disse-me: «Trata bem da Tonya, prometes? Ela gosta muito de ti.» Nesse dia, confirmei aquilo de que desde muito suspeitava.) 

Os dias de confinamento são pesados. Não têm futuro, só passado e um bocadinho de presente, por ocasião das conversas por computador com a minha espiga direita e loira. Uso «presente» nos dois sentidos: o cronológico e o de dádiva. Fazemos amor duas vezes por dia, como o fazemos quando ela está cá. Habitualmente, as ausências são curtas: uma semana, às vezes dez dias. O computador é um mal menor, preferível à masturbação solitária. (Como se houvesse masturbações solitárias... Não há. As minhas, pelo menos, parecem-me um desfile de todas as mulheres que amei e quero amar, passando à minha frente sentadas num autocarro, umas atrás das outras. Não é que tenham sido muitas. Não foram. Mas trocam de lugares, reaparecem, às vezes fico dias sem as ver, outras é só uma a ocupar os bancos todos do autocarro.) 

Fiz um acordo com Tonya: o sexo é para se fazer, não para ser falado. Cada um faz o que quer (ou pode), desde que o outro não saiba e desde que não o magoe. A fidelidade é ao casal que nós formamos, não à outra metade dele. Nem sempre foi assim. Quando a conheci, Tonya tinha uma relação entusiástica, mas tecnicamente débil com a luxúria. Mais entusiasmo do que saber. Era preciso explicar-lhe tudo. 

— Põe uma almofada debaixo do rabo. 
— Uma almofada debaixo do rabo? 

Punha, sorria de alto a baixo e dizia:
— Que bom! 

Ou quando estava por cima de mim: 
— Não subas e desças. Isso é coisa de actriz porno. Anda para trás e para a frente. 

Às vezes, ajudava-a pondo-lhe as pernas por cima dos meus ombros e puxando-lhe pelos tornozelos. Depois, virávamo-nos, mas sem mudar de posição. Uma rotação de noventa graus que nos punha no mesmo plano. Continuava a puxar-lhe pelas pernas, às vezes mais devagar, outras mais depressa ou com mais força. Tonya aprendia depressa, soltava-se, tomava a iniciativa. Para alemã era baixa, magra e ágil, tinha o corpo seco da espiga, o ventre sorridente e acolhedor como o futuro da criança que nunca quis ter. 

Paula ainda era viva. Chegava a casa cansada, vinda da faculdade, e ia directamente para o duche. Agora, sei que ela sabia tudo. Mais: tinha sido ela a organizadora daquilo e os meus esforços para esconder a tarde de sexo que passara com Tonya parecem-me o que são na realidade: ridículos. Patéticos. 

Ando pelo mundo como um Meursault capaz de introspecção. 

Um dia, ensinei Tonya a fazer uma felação como deve ser: com a língua tanto como com os lábios, em conjunto. O sexo é uma actividade racional cujo objectivo é levar-nos a uma profunda perda de razão. Nada que ver com o amor. Enfim, às vezes tem, mas é uma relação ténue e sem causalidade: não é porque te amo que te quero; ou, pelo contrário: amo-te, mas não te desejo. Ou: amo-te e quero-te. Todas as combinações são possíveis. Cervantes andou lá perto: «Amor y deseo son dos cosas diferentes; que no todo lo que se ama se desea, ni todo lo que se desea se ama.» A minha avó ensinou-me que não se deve misturar o sexo, o amor e o casamento. Nem sequer é muito original, é preciso dizê-lo. Surpreendente é ser dito a mais de meio do século XX. Antes do romantismo e de a esperança de vida se ter prolongado algumas décadas, era a norma. Ninguém sonhava com casamentos por amor e para sempre. A avó era uma senhora muito católica, de boas famílias, nascida no final do século XIX. Enviuvou, vestiu-se de preto e que eu saiba nunca mais teve homem na vida. 

Efabulações: é-me totalmente indiferente se teve ou não mais homens. Quando a conheci (isto é, quando veio viver para esta casa), já andava pelos quase setenta. Morreu dez anos depois. Aterrorizava-me: praguejava como uma carroceira e benzia-se logo a seguir, coxeava porque tinha sido atropelada e usava a bengala tanto para nos bater (mais ameaçar do que bater) como para andar. Não autorizava a entrada a seres do sexo masculino na cozinha. Dizia-me (teria eu oito ou nove anos): 

— A cozinha não é para homens. Vai-te embora daqui. 
— Mas, avó, eu só quero um copo de água. 
— Pedes-me e eu levo-to. Um homem não entra na cozinha. — Claro está, dizia isto porque sabia que eu não teria coragem de lhe pedir fosse o que fosse fora das horas estabelecidas: pequeno-almoço, lanche matinal, almoço, lanche da tarde, jantar. 

Oito ou nove anos depois, começava eu a dar os primeiros passos nos terreiros erógenos das cachopas da vizinhança, mas foi já mais velho — teria dezoito ou dezanove anos, pouco antes de conhecer Paula, que ouvi o conselho. Levei meia vida a percebê-lo: 

— Ó homem, tu não tens juízo nenhum. 
— Avó, estou apaixonado pela... — Seguia-se um nome, que variava trimestralmente. 
— Apaixonado! Apaixonado! — O tom de desprezo que ela dava à palavra é irreproduzível. Como se estivesse a falar de um palhaço a candidatar-se a um lugar de importância social ou política. — Apaixonado! 
— ... 
— Arranjas uma mulher séria para te casares, que te trate bem e goste de ti e te faça o almoço e o jantar e te cosa a roupa; depois apaixonas-te à vontade por quem quiseres. E no fim arranjas uma ou duas para fazer disparates. Apaixonado! Tem juízo, homem. Vá, agora deixa-me ir para a cozinha fazer o jantar. 

Saía da sala e ainda ouvi um último: «Apaixonado!» Levei muito tempo a perceber o bem fundado daquele conselho e nunca o pus em prática: apaixonei-me por Paula, que não tratava de mim, não cozinhava e não sabia sequer por que lado se pegava numa agulha. E quando a rapariga «para fazer disparates» entrou na minha vida, apaixonei-me por ela também. Isto é, aquilo que para mim é «apaixonar-me»: nunca consegui declinar a palavra sem ouvir a minha avó: 

— Apaixonado! Tem mas é juízo, homem. 

As memórias aparecem como uma bola a rolar por uma escada abaixo e eu olho para elas, vejo-as chegar e ir de degrau em degrau, como se não fossem minhas. Alguém viveu isto por mim. Alguém está fechado nesta casa, alguém um dia trepou àquele carvalho e gritou: 
— Paula, faz-me uma felação! Tonya, faz-me um bico! Tu, Luísa, tu, Rita, tu, Ilse, tu, façam-me um broche! Paula! Tonya! Quero um broche! Um bico! Uma felação! Quero uma boca nesta pila! 

Passei muito tempo em cima da árvore. Gritei até ficar sem voz, mas ninguém me deve ter ouvido. Foi depois de ver um filme de Fellini. Saí do cinema impressionado e quis experimentar a loucura do tio que queria uma mulher. Tinha duas em casa e provavelmente uma ou outra num lugar qualquer, não seria justo gritar «Voglio una donna!» como o outro. (Digo que ninguém ouviu, porque a casa estava vazia. Nem uma nem outra lá estava. Nas traseiras da casa, passa uma ruela, só esporadicamente utilizada. As probabilidades de ter sido ouvido são muito baixas. Até na loucura deve haver método.) 

Chegou a noite. Tonya desperta para o seu dia de confinamento e eu continuo o meu, moeda de duas caras ou duas coroas. Só agora percebo quanto me falta a saída vesperal, o pequeno copo de aguardente que tomava antes de encontrar Tonya na cama, nua à minha espera, a agarrar-me no membro ainda mole e a dizer-me: «Dá cá a palha, vou aspirar tudo o que bebeste.» Ou: «Uma transfusão dessa aguardente saber-me-ia muito bem.» 

O sexo por computador tem piada quando é uma escolha, quando sabemos que vai terminar em breve. Agora, não. Deito-me, aponto a lente da câmara para a minha cara e falo para onde quer que Tonya tenha escolhido. Por vezes, a vagina, outras um seio ou os dois, os lábios. O corpo feminino é tão mais rico do que o masculino. Arquipélago versus península, televisão em cores versus televisão em preto-e-branco, montanhas versus planícies secas e chatas. Masturbamo-nos os dois tentando sincronizar-nos, como se estivéssemos um no outro e não simplesmente um com o outro. 

Tonya sabe que deve vir-se primeiro. «Prioridade às senhoras, meu amor.»
Pode um amor ser o que não é? Pode. Tanto como não ser o que é. A verdade é que definir o amor me parece uma perda de tempo. Não sei o que é. O que sinto por Tonya, o que sentia por Paula é diferente do que sinto pela senhora da padaria. Talvez o amor seja a diferença entre dois estados e não um desses estados. 

Ensinei Tonya a percorrer-me o corpo com os bicos das mamas, só os bicos, muito ao de leve, uma pena — duas —, por vezes humedecendo-me com a língua, devagar, Tonya, devagar. 
— Mas eu quero-te dentro de mim! 
— Só depois de te vires. Continua. 

Enfiava-lhe o dedo grande do pé na vagina, Tonya «passeava os passarinhos pelo quintal» até não poder mais e sentar-se em mim como se me desse uma palmada. Fazer-lhe amor permitia-me separar o sentimento da sensualidade. Cresciam as duas, mas eu só percebia uma. 

Paula adoeceu e morreu muito depressa. Cancro no pâncreas. Recusou ser tratada. 

— Isto não tem cura e tu não ficas sozinho. 

Seis meses depois: 

— Trata bem da Tonya. Ela gosta muito de ti. Trata-a como me trataste a mim. Amo-te. Adeus. 


II 

Percebo pouco de palavras. Sou um homem de números e de sentidos. Gosto do que faço: pensar, calcular e concretizar. As palavras escapam-se-me, não sei por onde andam nem para onde vão. Sei, contudo, apreciar-lhes a beleza. Bourlinguer, por exemplo, é uma palavra bonita. La bourlingue. Bourlingueur. Confinamento é feio. O conteúdo é odioso, o continente feio. Confinar. Confinado. Tem con e finado. Em francês, con significa cona e estúpido. Fechado numa cona, estúpido. Morto. Fechado em casa e, mesmo quando se sai, tudo está fechado. Conas fechadas, estúpidos fechados. A vida fechada. Como se cona, estupidez e morte fossem a mesma coisa. Serão? 

Não sei. Pouco importa. Sei que detestaria estar fechado numa cona (e morto muito menos, claro), porque o melhor dela é tudo o que a rodeia. O corpo no qual se inscreve, a cabeça que a governa. Já a estupidez não tem cona. Não se pode foder a estupidez, nem fazer-lhe minetes. E se se pudesse, não seriam bons. 

Estou fechado em casa. Tonya está fechada noutra casa. O silêncio é a nossa língua comum, porque sei o que ela pensa: pouco mais ou menos a mesma coisa que eu, sem as elucubrações sobre a cona, a que ela chama «vagina» nos dias bons e «rata» nos maus. 

— A minha rata quer comer-te. 
— Não sou um queijo. 
— És melhor do que queijo, és a armadilha. 

Nenhum de nós sabe quando a rata terá a sua armadilha, de que tanto gosta. 

O sexo por computador interposto é possível, porque o sexo se faz com a cabeça; e é uma mentira, porque sem corpo não fica senão a representação desse corpo. É como foder um fantasma que se conhece bem, por dentro e por fora. Mas fantasma: só existe na minha cabeça, na minha memória. 

A cidade está vazia. É uma cona seca. As cidades são feitas de gente. O que nos leva a gostar de uma cidade são as pessoas que nela conhecemos, aquelas com quem nos cruzamos nas ruas, o casal que encontramos num bar e com quem trocamos palavras de circunstância, os restaurantes aonde alguém a quem perguntámos nos aconselha a ir, as livrarias que visitamos para ir comprar um livro e folheá-lo no café ao lado. Só depois vêm as paredes, os prédios, os monumentos. Paris tem uma rua chamada Rue Daguerre, que em duzentos metros concentra França. Queijaria, mercearia, café, livraria, restaurante... Mas que seria disso tudo sem as pessoas? Que seria disso tudo se os estores estivessem corridos como de certeza agora estarão? Sem pessoas, a Rue Daguerre só vive na minha memória, como as mamas de Tonya, as pernas de Paula quando me apertavam como um glaciar esmaga as pedras que encontra no caminho. 

Estar confinado é isto: percorrer as ruas do passado. Não ter futuro. Cona que se recusa. Mulher que não te quer. 

Da minha janela, vejo o carvalho, se quiser vê-lo. Na maior parte dos dias, não quero. Quando era miúdo, espetei uma série de pregos no caule para fazer uma escada. No dia em que subi, já lá não estavam, devem ter sido engolidos. Tive de ir buscar uma escada. Tinha ido com Paula e Tonya ao cinema, e depois do filme elas foram beber um copo. Eu fui gritar para o carvalho. Onde se sentem primeiro as hesitações do amor, as suas bifurcações? Na pila? Na cabeça? Nas duas ao mesmo tempo? 

Quando voltaram para casa, já eu estava no escritório, punheta batida. Mas desta vez o autocarro só tinha duas passageiras e entraram juntas porta adentro. 

Em si mesma, a história do vírus é-me indiferente. Vírus há muitos, como chapéus. O que me intriga, interessa, fascina é estar a assistir, da minha casa perdida nos limites da cidade, ao primeiro episódio de histeria colectiva global. Nada escapa à globalização, nem o irracional. Os palermas do altermundialismo deveriam pensar nisto: o Homem não é como fruta no supermercado. Não se pode escolher só a boa. Vem tudo junto e não se pode separar. O Homem de hoje não é muito diferente daquele que na caverna de Platão via as sombras. Ou daquele de que fala Eliot, que não pode suportar muita realidade. Somos propensos ao medo e ele espalha-se pelas fibras ópticas. Todos iguais, no fundo. Nós e os que nos precederam, caçavam mamutes, temiam o Adamastor ou mandavam queimar bruxas. Comento isto com Bill, amigo do Facebook. Digo-lhe: 

— Nas histerias colectivas, as pessoas aceitam o colectivo, mas recusam a histeria. 

Bill responde-me que não é histérico. 

— Eu não sou histérico! 

Como os malucos dizem à entrada do manicómio que não são loucos e os presos no presídio que são inocentes. 

O problema é o risco, «gerir o risco». O problema é a morte. Desapareceu do radar, a morte é uma inconveniência, uma maçada, uma avó bêbeda que se hesita em trazer à sala quando há visitas. Tão limpa, tão rara, tão ausente. É preciso gerir o risco, não vá ele trazer inopinadamente a velhota já grossa para o meio das visitas. Para o Bill, é fácil, claro. Tem mais certezas na cabeça do que tem cabelos. Não há dúvida que ali penetre — nem dúvida nem pente, de resto. O homem é a personificação daquele verso de Blake: «Tudo aquilo em que se pode acreditar é uma imagem da verdade.» Só que para ele não é uma imagem: é a verdade, em três dimensões e numa mistura de granito, bronze, basalto e aço inox. Nem uma bomba atómica ali entra. A cabeleira protege-o da realidade, mantém-na à distância, carapuça bonita e loira. As pequenas gostam: não é só o riso que as leva à cama, as certezas também são muito eficazes para o efeito. Já alguém com dúvidas seduziu uma mulher? Isso e a música. Bill é músico, conhecido na praça, está sempre a ser entrevistado nas televisões. Nunca percebi por que carga de água lhe fazem perguntas sobre tudo menos sobre a única coisa de que ele pode falar decentemente. A mim, ninguém pergunta nada, ainda bem, não sou conhecido, mas tenho tanta autoridade para falar de vírus, do presidente dos Estados Unidos ou da cor da Fanta Laranja, como ele para falar de tudo e mais alguma coisa. Isto não é para dizer que deviam entrevistar-me, é para dizer que não deviam entrevistar o Bill. Os músicos que falem de música e dos seus engates, se quiserem. Para o resto, deixem-nos em paz. Quem diz músicos diz actores, escultores, performers (não perguntem) ou o resto da fauna. A única excepção a esta regra é Leonard Cohen, mas esse não era artista. Era um homem e por isso podia falar da humanidade e de tudo o que lhe apetecesse ou lhe perguntassem. E talvez Hemingway também. E Mark Twain. São pessoas que viveram. Enfim, não interessa. Que se lixe a vida e a leve a morte. Paula morreu, tenho de viver com isso, quer queira quer não. Presentemente, a minha vida é Tonya e pergunto a mim próprio quanto tempo vai durar. Por enquanto, não preciso de comprimidos, ao contrário da maioria dos meus amigos, cuja troca de números de telefone agora se resume a números de vendedores clandestinos de pílulas azuis. Que será de nós quando o sexo desaparecer? 

— Haverá uma nova superfície para o nosso silêncio se manifestar —responde-me. 



Paula morreu em casa. Estava morfinada havia semanas, esqueleto coberto de pele. Quando me falou pela última vez, já mal a consegui ouvir. 

— Ela gosta muito de ti. 

Como não tínhamos filhos nem ela irmãs, não houve partilhas. Fiquei com tudo o que lhe pertencia. Pus as coisas num dos quartos de cima, no qual só a mulher-a-dias entra e hoje é conhecido como «o quarto da Paula». Livros, cadernos, discos, roupa, meia dúzia de objectos. Tonya pergunta-me: 

— Quando eu morrer, vais fazer o mesmo com as minhas coisas? 
— Quando tu morreres, a casa será tua. Farás tu o que quiseres. 
— Quando tu morreres, nada será meu. 
— Quando eu morrer, miúda, tu poderás finalmente viver. 
— Cala-te e come-me. 
— Ainda é cedo, nem jantámos sequer. 
— Nunca precisaste de horários, não é agora que vais começar. 

Tonya era pequena, encaixava-se em qualquer espaço. Meço quase uns vinte centímetros mais do que ela e encaixo-me naquele corpo como as tardes de domingo nas semanas. 


III 

Paula era psicóloga, dava aulas de Psicologia Social na faculdade. Pergunto de mim para mim o que diria deste pânico cego. Sei a resposta: 

— Acreditas demasiado na razão e no teu solipsismo para poderes perceber estes movimentos colectivos. O gregarismo tem vantagens e, como tudo, tem inconvenientes. O medo é útil até um certo ponto e paralisa-te para lá dele. Multiplica isso por milhões de pessoas: a paralisia anula por completo a utilidade. O medo é como os venenos: depende da dose. Quando entras nestes fenómenos colectivos, torna-se impossível controlar a quantidade. O medo de um alimenta-se do do outro. Como diz uma professora da Universidade de Houston:[1] «A ansiedade é contagiosa.» 
— Sim, mas neste caso as pessoas estão a prejudicar-se, estão a suicidar-se. 
— Estão? Tens a certeza? Um toxicómano também está a suicidar-se? Um alcoólico está a suicidar-se? Um aventureiro está a suicidar-se? 
— Estão, mas tira o suicídio da equação. Viver é uma longa forma de suicídio. Explica-me o prejuízo que estão a infligir-se. 
— Em 1977, uma senhora chamada Frieda Gehlen[2] publicou um artigo no qual tentava explicar as razões das histerias colectivas. Comparou duas possibilidades: a resposta a um stresse ou uma «mania» à qual as pessoas aderiam inconscientemente — repito, a adesão era inconsciente — esperando obter uma vantagem qualquer, mesmo insignificante ou imaginária. Neste caso, a «vantagem qualquer» é a vida — a própria, a dos mais velhos ou a dos filhos. Pensas realmente que é com argumentos racionais que combates isto? 

O dia cai e tenho de interromper a conversa com Paula. Não me apetece fazer amor, nem cozinhar, ler, ver televisão — não tenho, mas se tivesse, não quereria vê-la, decido — nem falar. Nem trabalhar, sequer. Mando uma mensagem a Tonya: 

— Se comparares com muitos outros episódios de histeria de massas que ocorreram ao longo da história, verás que este foi relativamente benigno. Ou melhor: achatou a curva das consequências. Vão sentir-se durante muito tempo. 
— ? 
— Desculpa, enganei-me. Estava a pensar noutra coisa. Vou fazer um jantar enorme, ler e dormir. Hoje, terás de fazer sem mim. 
— Não te preocupes, também não tenho vontade de nada. Estou farta. A tribo que a Ana estudou era canibal ainda há bem pouco tempo e ela suspeita de que de vez em quando ainda comem um gajo qualquer da tribo ao lado. Hoje, pensei que se calhar eram mais razoáveis do que pensamos. Boa noite. 


Uma coisa é estar fechado porque se quer, outra completamente diferente é estar fechado porque os nossos semelhantes no-lo impuseram. A palavra-chave é «semelhantes», como diria Samuel. Oiço a Ressurreição de Mahler e o cérebro limpa-se-me, fica oco como gostaria que fosse sempre. Estar fechado é um paradoxo: fica-se cheio de vazio. Fica-se oco, cheio de uma coisa qualquer que não se sabe o que é. 

À medida que os dias passam, as noites transformam-se num inferno. Sempre dormi bem, mas agora passo noites inteiras em claro, Tonya ou não-Tonya. Diminuímos bastante o ritmo das nossas «cenas», como ela lhes chama. 

— Hoje, quero uma cena diferente. Vamos fazer sem imagem, só com som. 

No dia seguinte: 

— Agora, fazemos o contrário: só imagem. 

O som funciona melhor do que a imagem. Até para o silêncio há limites. 

Paula nunca gritou muito. Um orgasmo nela era como um pneu a esvaziar-se. Uso a imagem propositadamente: quando acabávamos, parecia um pneu furado. Um dia, disse-lho e ela começou a dizer «furar» em vez de «foder», «comer», «ir para a cama». Isso permitia-lhe brincar quando estávamos acompanhados. «Aposto que tenho um pneu que se vai furar não tarda.» «Hoje de manhã, o pneu do carro furou-se. Ainda bem que aprendi a mudá-los num ápice. Dá-me cá um gozo...» Certa vez, um amigo nosso disse-lhe: 

— Estás sempre a ter furos nos pneus. Por onde é que andas com o carro? 
— Nem tu fazes ideia dos caminhos por onde me perco. 

Nesse dia, acabou-se a conversa dos furos, pelo menos quando tínhamos gente à volta. Pergunto a mim próprio por onde andará hoje, que só tem a minha memória — e a de quem a conheceu, claro — para se «perder». 

Ao contrário de Tonya, Paula era alta. Portuguesa, de tão mulher. Havia mais sensualidade num dos seus dedos do que em muitos corpos que conheci. Foi com ela que me habituei a fazer amor todos os dias, duas vezes por dia. Era um amor rápido, vinte minutos, meia hora. Às vezes era igual, outras não. Era sempre bom. A minha avó enganava-se de quando em quando. Eu também. Não era só a inteligência de Paula, a sua sensualidade, o seu sentido de humor, a sua vitalidade que me faziam gostar tanto de a furar. Não havia nada que não gostasse de fazer com ela: conversar, passear, comprar livros, ir jantar fora, tomar banho, esperá-la na pastelaria em frente da universidade quando por acaso tinha vontade disso. A pastelaria estava cheia de alunos e alguns sabiam que era o marido de Paula Gouveia. Nunca mais lá voltei, nem quando Tonya vai dar uma aula ou fazer uma palestra. O tempo é composto por camadas geológicas que não se misturam, mesmo que coexistam. Não: o tempo é composto por camadas geológicas que não devem misturar-se. Na verdade, acabam sempre por amalgamar-se e tudo o que consigo é separar as franjas: não ir esperar Tonya à pastelaria, não ir com ela à praia onde pela primeira vez fiz amor com Paula e onde, anos mais tarde, lhe disse que talvez não fosse má ideia casarmo-nos. 

— Curioso, estava precisamente a pensar o mesmo. 

Mas isto são só as franjas, eu sei. Impossível fugir à realidade nesta enorme caixa de ressonância, dela separada por um conjunto de normas absurdas. Enfim, digo que são absurdas, mas, na verdade, não sei o que são. Numa democracia, o governo deve fazer o que o povo quer. Uma democracia é — entre outras coisas — dar ao povo o direito de se enganar. Antes um erro em liberdade do que uma boa decisão totalitária. 

— A sério? — Paula pergunta-me com o olhar sardónico que me atraiu quando nos conhecemos. — Vais acabar a dizer que as sociedades precisam de um chefe? De um comandante? — O pai dela havia sido comandante da marinha mercante e tinha uma certa tendência para pensar que uma sociedade deveria ser gerida como um navio, o que eu contestava energicamente. 

— Porra, Paula, cala-te. Deixa-me pensar. 
— Não sou a Paula, querido. Sou a Tonya. Estás a trocar os nomes, mas não me importa. Pensa. Compreendo que para ti não seja fácil. Um misantropo humanista entra num bar... 

Há duas semanas que não fazemos amor, Tonya e eu. Há uma que nem sequer nos falamos. O confinamento invade-nos, rói-nos por dentro como aquelas formigas que na madeira vão traçando túneis separados. Por fora, a madeira não muda, mas de repente juntam-se e o edifício desaba. Conseguiu um voo para finais de Maio, meados de Junho o mais tardar. Faltam três ou cinco semanas. 

Que encontrará nesta casa? Que acontecerá às coisas de Paula? 


IV 

Tonya: 

A prova de que tenho uma vida é que as mulheres da minha vida passam a vida a fugir de mim. Tenho uma vida ciumenta, é o que isso quer dizer. Mas se na minha vida não há lugar para ti, que se foda a minha vida. Ser amado por ti é uma sorte que não mereço, mas que agradeço todos os dias. Já te vi nua, vestida, ansiosa, saciada, sorridente e decepcionada. Já te vi pelas frinchas todas que uma pessoa tem. Já te vi como se fosses eu. Quero amar-te e foder-te, ouvir-te e ver-te. Quero te na minha vida e que nunca dela saias, sem te, sem hífen, sem nada entre nós. Amo-te até «amo-te» perder a cor, de tão esfregado, limpo, rasgado, raspado até não ser mais do que a essência de «amo-te», aquilo que dele resta depois de ser repetido um milhão de vezes. 

Monologar para ti é melhor do que dialogar com quem quer que seja outro, e se pudesse foder-te com palavras, foder-te-ia até acabarem as letras do alfabeto, de todos os alfabetos de todas as línguas do mundo. Se pudesse foder-te com silêncios, o silêncio desapareceria e o mundo transformar-se-ia num interminável trovão. Se pudesse dizer-te quanto te amo, esgotaria todos os dicionários do mundo. É sempre a ti que volto, a ti que regresso, como se fosses o princípio e o fim, como se o que começou em ti acabasse em ti forçosamente, como se a nascente e a foz do rio fossem a mesma coisa. 

Só que isto não é um rio: não tem margens. 

Fui o primeiro a dizer «amo-te» e tu foste a primeira a calá-lo. Continuo a dizê-lo e tu a senti-lo. O fim deste fim está próximo — tudo é breve, num amor como o nosso, que não tem tempo. Tudo será amanhã, tudo foi ontem. Só nos falta o hoje, porque no-lo roubaram. 

Felizmente, teremos tempo para lhes roubar o tempo que nos roubaram. 


10-05-2020 





Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 29-09-2020

Amanhã faço sessenta e três melancólicos outonos... Fomos jantar ao Auberge de Chambésy. O núcleo duro da família aumentou: S., eu, os dois filhos e respectivos cônjuges (as aspas não se vêem mas estão lá). Paradoxalmente, nunca os senti tão "meus" como agora, que os partilho (e eles a mim, mas isso sempre aconteceu). Aos trinta anos vê-se o produto acabado. Daqui para a frente será apenas evolução. As bases estão lá. 

Estão sólidas e bonitas, seja S. louvada e agraciada.

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Na escola ao lado de casa não vejo quase ninguém de máscara no recreio, atulhado de miúdos até aos doze anos, creio. Os putos brincam como sempre brincaram, agarrados uns aos outros de todos os modos e feitios.

Cada vez gostaria mais de ver um estudo sobre a relação entre severidade e abrangência das medidas anti-Covid e PIB per capita.

27.9.20

Jantar improvisado - Frango guisado em cerveja

Começou da maneira clássica: a carne a alourar em lume forte, flamejada (com Kirsch); na mesma frigideira - mas uma vez retirados os peitos do jovem galináceo - cebola, pimentos, duas cenouras pequenitas, um belíssimo ramo de salsa frisada e pimenta rosa em grãos. A seu tempo, vai tudo junto para a panela, cobre-se de cerveja (Super Bock, por acaso) e tempera-se com paprika doce, curcuma, sálvia, orégãos e rosmaninho fresco. Cozeu até ficar pronto. 

Os dois convivas gostaram, mas o que cozinhou não tem a certeza de conseguir repetir - prova de que é um péssimo cozinheiro (e não se importa nada com isso, infelizmente).

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 27-09-2020

Domingo de votações na Suíça. A nível federal, uma iniciativa xenófoba da UDC foi recusada, o governo viu aprovado um envelope de seis mil milhões de francos para comprar um avião militar (50,1% a favor, 49,9% contra), o PDC perdeu a votação para incluir os custos da guarda das crianças nas deduções fiscais (coisa que deixou a esquerda toda contente, claro. Baixar impostos provoca-lhe urticária) e os cantões urbanos ganharam contra os rurais uma alteração de lei para aliviar as regras sobre a caça de lobos. A lei actual é de 1986, quando praticamente não os havia. «Agora há em excesso e atacam os rebanhos», dizem os agricultores. «Queremos poder abatê-los.» Que nenni, responderam os betos urbanos. Um congé paternité (direito de os pais terem uma folga remunerada aquando do nascimento dos filhos) de duas semanas passou a rampa. Ao nível cantonal, uma má notícia para Genebra: o «soberano» (o povo) aceitou a introdução de um salário mínimo. Vinte e três francos / hora (aproximadamente vinte e um euros / hora). De uma maneira geral, estas eleições foram ganhas pela esquerda (felizmente, no caso da iniciativa sobre a imigração) e se eu cá vivesse teria ficado chateado. Chatice essa mitigada por um facto simples e inegável: aqui são as pessoas quem escolhe. Não são os políticos. Abençoado país! (E a UDC levou outra nega. Que venham muitas mais.) Agora só falta ver esta malta começar a rebelar-se contra as máscaras e outras medidas «anti-Covid» idiotas (entre aspas porque são tão eficazes na luta contra o vírus como eu no salto em altura).

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A três dias de fazer sessenta e três anos entusiasmo-me tanto com as votações como me entusiasmava quando cá cheguei, com vinte e dois. O que mudou foi que agora tenho mais conhecimento de causa, o que torna o entusiasmo mais agradável. Só espero já não ser deste mundo se um dia o soberano votar positivamente a adesão à União Europeia (a menos, claro, que esta adopte o sistema político suíço, o que faz parte do campo do possível tanto como ver-se António Costa transformar-se num homem de Estado.)

25.9.20

Gemelidade quase perfeita

Eram gémeos como duas bananeiras do mesmo bananal mas diferiam numa coisa: A. detestava-se, B. não. A. matou B.: não suportava ver-se como poderia ter sido.

Veneno, autocarros

O autocarro está parado porque a rua está bloqueada. Uma senhora pergunta delicadamente ao condutor se pode descer ali. "Não", responde o jovem. Simpaticamente acrescenta "Porque se lhe acontece alguma coisa a culpa é minha." Não é uma paragem, mas o autocarro está na faixa junto ao passeio. Todos sabemos que cada vez que descemos de um autocarro acontece qualquer coisa, não é? É arriscadíssimo descer de um autocarro. Não tarda pedem-nos capacetes. Já bom senso não vale a pena pedir. A cultura da ausência de risco e da desresponsabilização é pervasiva como um gás. E venenosa, mas isso é outra história.

Escritores, preguiça

Os melhores escritores são aqueles que parecem preguiçosos e não escrevem uma única palavra que possa ser lá posta pelo leitor. Parecem: é dobro do trabalho.

24.9.20

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 24-09-2020

Ontem, a G. ofereceu-me um bon cadeau [como é que se diz isto em português? Vale presente? Cheque presente? Não me lembro]. Trinta francos em livros na Payot, a maior livraria de Genebra. Comprei três: Le Clézio, Orsenna e d'Ormesson. Preciso de francês puro, elegante, o francês de filigrana. Gosto desta língua tanto como gosto do português: a este, amo de amor, nasci nele e com ele cresci. Àquela, amo de razão, é amor construído e tardio. São os que duram mais. (Nota nada neutra: o Avenida está a ser traduzido - e bem -  para francês.)

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Em Genebra como em todo o lado: a culpa da difusão do vírus somos nós e se alterarmos o nosso comportamento conseguiremos vencê-lo. Para todas as religiões, o homem é à partida culpado e deve mudar o seu comportamento se quer a redenção: não comer carne de porco, não beber álcool, não fornicar a mulher do próximo, e assim de seguida. O mesmo se aplica ao ambiente (tema de actualidade aqui, com um protesto em Berna e um julgamento em Lausanne). O planeta aquece porque somos maus e devemos ciliciar-nos se queremos que ele arrefeça. O homem precisa de um deus, Frederico. Sem ele, sente-se perdido. O acaso não o satisfaz: precisa de necessidade também. Ainda hoje Lamarck é mais bem compreendido do que Darwin. 

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Genebra continua a ser a cidade do mundo com mais mulheres bonitas por metro cúbico. Porém, desta vez não sei se devo calar-me por modéstia ou gritá-lo com orgulho: contribuí activamente para isso. A minha filha é linda (e adorável, mas isso é outra história).

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Amanhã acaba a balbúrdia com o tempo e as temperaturas caem a pique. Já estou em modo «Embarque»: não terei frio de certeza, mas vou precisar de fazer ginástica com as lavagens de roupa. A história do rato do campo e do rato da cidade adaptada. 

Mal adaptada. Preciso tanto de uma como do outro.

23.9.20

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 23-09-2020

A melhor razão para se gostar de cozinhar chilli con carne é ser uma coisa que se cozinha devagar.  Uma tarde, no mínimo. Comecei por refogar a carne e o toucinho (com a pimenta rosa em grão, essa convém estar desde o início), separadamente as cebolas, os pimentos, as cenouras (com os orégãos) e por fim os alhos, Misturei tudo, deixei-os a conversar um bocado, juntei o tomate (três, grandes), mais uma volta de conversa até o tomate deixar de ser tomate e entram a água (até acima, a panela era alta) e as especiarias: um nada de noz-moscada, outro de cravinho, um montão de paprika e um igual de cominhos. Cozeu quatro horas.  Sinal de que estava sintonizado: não tive de juntar nada, nem água nem especiarias. Ficou um bocadinho curto de sal para uma das convivas, só. Ficou bom porque: a) o pimentão doce, a paprika fumada, a paprika picante e os cominhos eram excelentes; b) a carne idem; c) a sorte ajudou, ajudada pela vontade de fazer um bom chilli. Era muita, esta. O objectivo era mesmo que ficasse bom, um querer que vinha de dentro, como quando estamos numa regata e não vamos deixar o gajo ao lado rondar a bóia antes de nós.

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Esta discussão em torno do vírus e da ciência parece-me estéril. Não é preciso «ciência» para se ver que a abertura das escolas sem máscaras e em condições normais não aumentou o número de mortos nos países que fazem isso, ou é? É. A ciência é empírica. Recusar-se a ver esses dados é religião, não é ciência.

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G. era vizinha da S. quando cheguei a Genebra e fui viver lá para casa. Foi por seu intermédio que arranjei o trabalho no Marchand de Sable. Era uma actriz que trabalhava num café para sobreviver. Depois foi trabalhar para um tribunal e lá ficou até à reforma, contra todos os prognósticos. É uma personalidade e uma personagem e um dia, eu sei, vai ser preciso falar dela. Não será hoje: precisa de um vasto espaço. 

Por agora, chega-me o prazer que é falar com ela sobre cinema ou teatro. Às vezes penso que tive sorte. Isto é, ainda mais sorte.

22.9.20

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 22-09-2020

Dia desastrado, dia desastroso? Sim e não.  Fui ainda mais desajeitado do que sou habitualmente. À primeira vista parece dificil, quase impossível. Deixei cair a máquina fotográfica e tenho de a mandar reparar. Com a maré no estado em que está e sem dar sinais de mudar, o mínimo que se pode dizer é: "Não foi oportuno." (Isto para não mencionar que vou ficar muito tempo  sem poder fazer fotografia, o que bem vistas as coisas tão-pouco é agradável.) Depois lá mais para o fim do dia a coisa balançou um bocadinho para o outro lado. Isto é: não ficou tão em baixo.

Há dias assim, em que me pergunto por que milagre consegui habituar-me a viver comigo.

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Amanhã é dia de chilli con carne, não a pedido de várias famílias mas sim de vários na família. A memória das famílias é feita de coisas assim. Ocorrências recorrentes: chilli, fondue, qualquer dia amêijoas à Bolhão Pato, a distracção e a falta de jeito do pai. Estatisticamente, ainda tenho uns bons vinte anos disto (a menos que venha uma Covid e me prolongue a vida), mas como sei por experiência própria que vinte anos passam num ápice, mais vale aproveitar e sugar cada segundo.

Até ao tutano.

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Amanhã começo uma campanha de promoção do Avenida. Seja o diabo cego, surdo e mudo se não conseguir vender coisa  que se veja. Quero continuar a trabalhar no segundo volume.

En attendant, parece que desta vez acertei com a tradução para francês. Hallelujah!

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Pequena nota privada: é incrível, inesperado, assustador quão todas as cabeças, mesmo as de que menos se espera tal coisa, são permeáveis ao zeitgeist, à l'air du temps, ao ar do tempo. Estou "proibido" de usar os termos "pédé" (maricas) e "gouine" (fufa). Devo dizer "homosexuel". As aspas em "proibido" servem para mostrar o que tenciono fazer da "proibição". 

Malditos tempos... Antes o chili, ainda que pouco picante. Um dia, homosexuel e gay terão a mesma carga semântica que têm hoje maricas e fufa, mas já cá não estarei para me rir. Todas as épocas se esquecem das que as precederam e erigem-se em absolutas. Nas que lhes sucederão, então, nem pensam. Somos - nós e as palavras - um ponto no espaço-tempo, um degrau na escada semântica, um sopro na evolução dos valores. Sopro tão fraco que nem para apagar um fósforo chegaria. Quanto mais definir eternidades.

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Por exemplo: quem apostaria um avo em que eu seria, ao fim de tantos anos, forçado a reconhecer o meu gosto por Genebra, maior do que agora sou capaz de dizer?

Uma cidade é feita de pessoas e uma vida também.

21.9.20

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 21-09-2020

A chuva parou, por agora. Vai ficar até sexta, com intermitências. E as temperaturas vão baixar, tornar-se mais consentâneas com a estação do ano. E eu, quando me tornarei consentâneo? E com quê? Hoje pensei fazer uma ode aos sofás. Isto é, uma ode a dormir num sofá. Fazer e desfazer a «cama» todos os dias deve ser a melhor forma de se ter a noção de que hoje é outro dia. Nem sequer amanhã. É hoje. Um gajo acorda, tira os lençóis, dobra--os, dobra o edredon, ajeita a almofada, o sofá-cama volta à posição sofá, a roupa da cama vai para o gavetão... ecco. Uma noite passou, não deixou traços, o novo dia encontra-te fresco e disposto. Todas as manhãs, todas as noites os rituais repetem-se. Um amigo do meu Pai dizia que não tendo carro tinha mil e quinhentos carros - era a quantidade de táxis que havia em Lisboa nessa altura. (Hoje são três mil e quinhentos, diz o Google. Não se pode dizer que o aumento tenha sido exponencial. Ou então a minha memória engana-me. Pouco importa.) 

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Genebra também aderiu à moda das máscaras, do distanciamento social e da «luta contra o vírus». Teria de ir para a Suíça-alemã para escapar a isto. Há uma componente cultural fortíssima nisto da »luta». Os nórdicos são mais pragmáticos e menos cobardolas do que os latinos. E há uma função social, também: o medo une as pessoas, tanto quanto as separa. Há um inimigo comum. Paradoxalmente, para nos unirmos contra ele temos que nos distanciar, desunir, de certa forma. É por isso que nós, os cépticos, somos tão violentamente atacados: «assassinos», «idiotas»... So não nos chamam «associais» porque é um termo demasiado complicado para a maioria dos do grupo.

O problema é que do social à política vai um minúsculo passo, daqueles que dávamos quando escolhíamos as equipes de futebol, pé ante pé,  E claro, agora quem manda é a política. Nunca gostei muito de governos de tecnocratas, mas o caso da Suécia faz-me pensar. Claro que os tecnocratas devem ser competentes. Se forem como os Buescus, os Fróis e os Joões Seixas da nossa praça estaríamos ainda pior. 

Aqui em Genebra tentam fazer algo ligeiro. Hoje vi uma turma de escola, miúdos dos seus dez anos, na rua. Nenhum usava máscara, nem o professor. Não sei se é por estarem na rua. Os jornais e a televisão estão enviesados, mas isto carece de análise, ainda não os li suficientemente. O jornal esquerdista local, Le Temps, sei que está, mas esse não li uma única vez. Pertence ao Monde e está ainda mais à esquerda. Não me apetece ter deixado de ler os pasquins nacionais para ler os dos outros.

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Cada vez gosto mais de Genebra e cada vez mais estes preços me enfurecem. Nunca vislumbrei em mim manisfestação de inveja e impotência mais límpida, clara, cristalina do que a que me assalta quando me passeio por estas ruas escovadas mais do que varridas, bem pavimentadas, com poucas buzinadelas e cheias de bicicletas. Autocarros e eléctricos ininterruptamente (e se compararmos os preços numa base PPP mais baratos do que em Lisboa). Depois sento-me para beber um copo de vinho - um decilitro, medido ao milímetro - e a impotência toma o lugar da inveja.

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Com a diferença a que o sofá-cama dá forma, a vida amical é bastante semelhante à vida conjugal. S. trabalha, eu cozinho e trato da cozinha, leio e escrevo. Quando trabalhava aqui, a diferença estava na escrita: escrevia menos. Este casamento evoluiu como um bom vinho: tornou-se naquilo que já era, mas mais apurado, mais sofisticado, mais complexo

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Outro motivo de inveja: as livrarias. Hoje encontrei praticamente tudo de Sapienza Goliarda, de quem ouvi pela primeira vez falar há coisa de seis meses. Só tenho de esperar que chova - chuva da outra, claro. Esta, para os livros só contribui com as árvores.

E os supermercados, claro. Os queijos. Na Suíça há todos os queijos franceses, mai-los suíços. Em França, só há os franceses. Adivinhem quem fica a ganhar?

20.9.20

Jantar improvisado - Frango com emoções

Comecei por dourar os peitos de frango em lume forte e flambeá-los numa bela porção de kirsch. Enquanto isso, na panela vizinha estrugiam em azeite uma cebola às rodelas e um pimento encarnado, com um fundo de bagas de pimenta rosa. A isso, em devido tempo, juntei dois tomates pequenos cortados aos bocados e um bocadinho de salsa que languescia no frigorífico. Depois de um compasso de espera, vieram umas batatas tanbém elas em cubos.

Deixei que se misturassem bem, polvilhei com «paprika» fumada (entre aspas porque não tenho a certeza de que tenha vindo da Hungria), cominhos (que ao cheiro parecem sublimes), orégãos e uma boa colher de sopa de mostarda Maille à l'Ancienne, a marca e o modelo são importantes. O sumo da flambée juntou-se à festa, eu bebi um absinto (ou dois, vá lá, que absinto deste nem todos os dias me atravessa o estreito, vem das montanhas, etc.), desliguei o fogão e sentei-me a escrever tudo isto.

Agora passamos à mesa, as emoções e eu.

Excessos?

Pergunto a quem sabe: aquela regra segundo a qual tudo o que é em excesso faz mal também se aplica a mulheres e a dinheiro? Nunca tive de mais nem de um nem das outras.

17.9.20

Auto-citações da «gripe»

 «Isto é tudo muito bonito e tal até que o corpo se lembra de que sem ele a festa fica incompleta e hoje me pespegou uma gripe de caixão à cama.»

«A doença vira um gajo do avesso. As costuras belas e regulares mostram a sua natureza interior e parecem-se com cicatrizes mal tratadas; as costuras das bainhas, até ali invisíveis, ficam a ver-se (e não são nada bonitas); e por aí fora: a tosse é de tal forma que se não tenho cuidado qualquer dia apanho os pulmões no céu da boca, a hiper-sensibilidade faz-me pensar que dormir em cima de lixa deve ser mais agradável do que nos lençóis. Nada apetece - nem estar deitado, nem sentado, nem de pé. »

«As mulheres gozam com a nossa reacção às gripes porque elas não as têm. As mulheres têm gripinhas, gripes cor-de-rosa e não esta mistura de gripe e peste bubónica que nos aflige.»

«A S. chegou e com ela os remédios: spray nasal, muitos comprimidos, supositório, tudo. Ela queria ser veterinária mas a meio resolveu mudar para psicologia. Comigo pode praticar as duas disciplinas. Tentei reclamar com o supositório - não sou contorcionista nem artista de cabaret - mas não serviu de nada.»

(Conjunto de excertos de posts escritos quando tive aquilo que na altura era conhecido por gripe e hoje seria, provavelmente, Covid-19. Fevereiro de 2020.)

Marta

Quando o doutor chegou à nossa aldeia estava a manhã quase no fim. 

 - Obrigado e até à próxima -  (ao motorista).


 Desceu e dirigiu-se imediatamente ao mercado, do outro lado da aldeia. 

- Boa tarde - (à miúda que vendia tremoços, conhecida por «a tremoceira»).

- Bom dia - respondeu a outra, espigada de feitio. - Ainda não é meio-dia.
- Está quase.

- Quase é uma palavra que engana muito.

- Obrigado. Tem tremoço de barrela?

- Isso é coisa do norte e vossemecê está no sul, homem. Não acerta nem na hora nem no lugar.

- Não é bem do norte, é mais do centro.

- Seja de onde for, não tenho. Quer alguma coisa ou só fazer-me perder tempo?

A tremoceira era conhecida na aldeia e nenhum dos ouvintes estranhou. Salvaguardava-a o facto de ser bonita e ter os melhores tremoços da região. Vinham pessoas de longe para lhos comprar. (Muitos só para a ver e lhe cantar a canção do bandido, mas a esses despachava-os ela em menos tempo do que leva a trincar e deitar fora uma casca.)

- Se quiser, eu ensino-a a fazer tremoços de barrela.

A rapariga hesitou. Não era todos os dias que alguém lhe respondia como se não a tivesse ouvido. 

- Obrigada, não preciso. Ensine-me antes coisas que eu não saiba. - Tinha uma reputação a defender.

O doutor era duas vezes mais velho do que ela mas parecia três. Conservador excêntrico, gostava de desestabilizar os interlocutores, mantendo sempre uma educação e uma cordialidade inatacáveis. O seu maior gozo, contudo, era encontrar alguém que não se deixava enredar. Percebia tanto de tremoços de barrela como eu de astropaleontologia. Era um indivíduo alto, magro, cabelos brancos impecavelmente aparados, óculos sem  aros, roupa de qualidade no género «falso desleixado». Tudo nele era falso excepto ele próprio. 

(Isto pede uma clarificação: o que havia de falso no doutor - o bom doutor, como ficou conhecido na aldeia - era o que dava a ver. Não havia qualquer correspondência entre o que mostrava - «exportava», dizia - e o que dele não se via. Em tempos tivera um carro, um 2Cv que transformara de forma a acolher um motor quatro vezes mais potente do que o original. A transformação fora perfeita, de fora nada se via. Só o mecânico que a fizera a conhecia - e tinha-o avisado: isso não vai durar muito tempo. Durou dois anos, talvez três. O bom doutor não era dado a precisões numéricas. Já as palavras o entusiasmavam.)


- Se você - dirigiu-se à tremoceira por você durante alguns anos, apesar de tratar toda a gente por tu e pedir reciprocidade - se enganar num número o erro é total, já viu? Se escrever 908 em vez de 1908 é possível que ninguém se aperceba do erro. Pode ser que nunca o encontre. - Olhou-a de frente e beijou-a levemente na testa. - Mas se disser «múnero» ou «númaro» em vez de "número" toda a gente percebe.   

- Me troço - respondeu a miúda. 

- Tremo, só. 

- Te, moço?

- Tremo, seira, eira, beira, leira. 

A tremoceira não percebia metade das palavras que ele lhe dizia, mas sabia duas coisas: estava apaixonada por ele e ele por ela. São duas coisas diferentes, isso sabia de experiência. O bom doutor todos os dias a acompanhava ao mercado e todos os dias a ia buscar. No intervalo, «escrevia livros». 

- Mas que escreves tu? Porque não posso ler o que escreves? 

- Um dia a menina lerá. 

- Estúpido. Trata-me por tu! - A rapariga não tinha perdido a sua truculência. Domesticara-a, quando muito.

- Mas alguma vez não te tuteei?

Os diálogos eram sempre curtos. Ela tinha de digerir novos vocábulos e ele um amor que se renovava cada vez que falava com ela. Era uma mulher orgulhosa e não se envergonhava da sua ignorância. Usava-o como um trampolim.

- Ensinar é a coisa que fazes melhor, a seguir a foder-me. 

- O terceiro lugar vai para quê?

 

Chama-se Marta embora o doutor, velho cinéfilo, me tivesse pedido Laura.

 

Marta olha o bom doutor nos olhos. Estão na casa que ele comprou poucos meses depois de chegar à aldeia. É um edifício grande, de esquina, com dois pisos, um terraço,  um jardim grande. As portadas são azuis, as paredes brancas. Estão no jardim, o dia acaba e como sempre no Verão da planície o calor não se vai embora. Desliga-se, simplesmente. A aldeia é no sul do país, esteve muito tempo sob domínio árabe e o jardim – que provavelmente não existia nesse tempo - parece lembrá-lo. Marta tem trinta e poucos anos, não tem cultura para perceber porque gosta tanto disto, mas gosta e tem inteligência suficiente para saber que é melhor aproveitar a vasta sabedoria do doutor. Sobretudo, o seu gosto em ensinar. Sobretudo, o seu amor por ela.

          Com a ajuda dele, o negócio dos tremoços prosperou. Marta e a mãe dirigem agora uma pequena equipa que os tempera, envasa e expede para vários pontos do país. Comprou-lhe um carro para ela poder contactar novos clientes dava-lhe um conselho aqui e ali, se via que precisava. Se não, deixava-a aprender sozinha. O bom doutor baseava a sua pedagogia no método de «ensinar a ver» e não no de «forçar a ver». Aspas porque o cito.

          Quando chegara à aldeia não tinha a menor intenção de se apaixonar fosse por quem fosse. Uma pequena herança dera-lhe a possibilidade de se reformar antecipadamente do seu trabalho de professor de literatura francesa numa universidade da capital. Era apreciado pelos seus pares, que lhe agradeciam a falta de ambição e não se apercebiam de quão indiferentes lhe eram. A mulher deixara-o havia alguns anos, provavelmente devido a essa mesma falta. Era uma senhora de boas famílias. Quando se separou comprou-lhe metade da casa, dinheiro que ele pôs a recato. Era um homem frugal. Alugou um apartamento pequeno, ia comer todos os dias à tasca da esquina, pagava correctamente uma senhora que lhe fazia a limpeza da casa uma vez por semana e a outra que também uma vez por semana (mas em dias diferentes) ia lá dormir, «para não perder de todo a prática», explicou um dia a uma colega que lhe perguntou como lidava com a solidão. A mulher nunca mais lhe dirigiu a palavra para além de «bom dia» e «boa tarde», o que o satisfez pois era esse o objectivo. Sabia que poucas semanas depois a universidade inteira pensaria que organizava orgias em sua casa todos os dias, mas isso deixava-o indiferente. (A bem da senhora, devo dizer que o bom doutor se enganava: não disse a ninguém, receando que alguém lhe perguntasse como é que sabia. E porque não era o género dela, verdade seja dita.) Não gastou o dinheiro da casa todo em livros, mas ao princípio esforçou-se bastante. Comprava livros a torto e a direito. A certa altura parou, porque já não tinha sito para os guardar. O apartamento era pequeno e num quarto andar, o que não ajudava. Decidiu só comprar um livro depois de ter acabado o que estava a ler. Posteriormente, lembrou-se de que tinha centenas de volumes não lidos e deixou de comprar livros novos. Lia simplesmente os que tinha. «Mesmo assim, precisarei de duas vidas para os ler todos», disse um dia à tremoceira, que nunca tinha visto tantos livros juntos na vida, exceptuando as visitas que com a escola fizera a uma biblioteca da capital do distrito.

- Então para que os queres?

- Para me lembrar de tudo o que não sei.

- Para isso, basta-te olhar para mim.

- Bastar-te-ia olhar para mim, minha querida. Usa o condicional.

 

Passava-lhe as mãos pelos cabelos, pelos seios, pelas pernas. Bebiam um vermute no jardim, os pássaros gritavam uns aos outros para definir a posse de um território ou para impressionar as fêmeas, a brisa fazia as folhas mexerem-se devagar. Era mais tremer do que mexer. Marta tinha olhos verdes e uma basta cabeleira negra. Parecia fazer parte do cenário.

- A primeira noite que dormi contigo, alguém foi dizer à minha mãe. Um velho cá da aldeia, chamávamos-lhe Manuel da Arrifana porque no Verão ele ia trabalhar para lá. A minha mãe zangou-se comigo. Disse-me que podias ser meu pai e eu respondi-lhe que sim, claro: nasceste no mesmo ano do que ela. Têm a mesma idade. A certa altura perguntei-lhe se estava com ciúmes. Não me bateu por um triz. Talvez não te lembres, mas mudei-me para cá muito depressa. Já não conseguia ouvi-la. Nunca te falei nisto porque estou capaz de apostar que já o sabes. Ou pelo menos sentiste-o. E depois, no trabalho continuávamos a entender-nos bem, ela e eu. Era só nisto da vida contigo que nos desentendíamos.

O bom doutor não disse a Marta que tinha tido uma conversa com a mãe dela. Não dizia muitas coisas, fiel a uma máxima de Camus que o perseguia desde a adolescência: «Um homem é mais homem pelo que cala do que pelo que diz.» Explicara gentilmente à senhora que também ele estava surpreendido, que nunca mais pensara apaixonar-se e muito menos por uma miúda com metade da idade dele. Não disse que de qualquer forma não tinha muito tempo de vida, que aqueles meses com Marta tinham sido um bónus, uma gratificação inesperada. Retirara-se para aquela aldeia para escrever e morrer, não para amar e viver.

 

Marta e o doutor estão no jardim. Acaricia-a levemente, como o vento as folhas das árvores. Foi naquela casa que passaram o confinamento. Coabitavam havia três anos e aqueles meses tinham-lhe feito ver os limites de «coabitar»: um habituado a estar sozinho, outra que se realizava no contacto com a clientela. Nunca gostara de relações simbióticas e aquela convivência forçada custara-lhe mais do que conseguia admitir; para ela, também não fora fácil: passar os dias com uma só pessoa, ademais sempre a mesma, ia contra o âmago do que era.

Antes de morrer, o doutor queria casar-se com Marta e perguntava-se se devia falar-lhe nisso agora que o amor deles tinha sido sacudido daquela forma. Ter-lhe-ia o terremoto atingido os alicerces? Viviam juntos havia três anos, talvez três e meio. O livro estava pronto. Tinha sido aceite por uma editora, revisto e paginado. Faltava o título e escolher um pseudónimo: não queria que as pessoas da aldeia soubessem que tinha sido ele a escrever aquilo a que injustamente chamava «uma longa jeremiada». Durante o confinamento não fora ao médico e o cancro que lhe roía os intestinos não parara. Perguntava-se também se lhe devia dizer que ia morrer. Sabia que para ela o confinamento também tinha sido difícil, que os negócios tinham retomado mas não muito, que tinha saído daquela prova magoada. Casar-se era um acto egoísta ou, pelo contrário, ajudá-la-ia nos trâmites de heranças, etc.? O testamento estava feito e era simples: «Deixo tudo o que tenho e os eventuais proveitos futuros à senhora Marta Barbosa, etc.» Tinha sido visto por um advogado, segundo o qual casar-se não alteraria muito as coisas. Quando muito, simplificá-las-ia. O doutor lembrou-se do que sempre pensara sobre o casamento: é um acto social, nada tem de pessoal. «Caso-me perante os outros ou perante Deus. Para mim, estou casado com Marta desde a primeira vez que a vi. Não preciso de papéis.»

Resolveu dizer-lhe metade.

- Marta, quero casar-me contigo. Aceitas-me?

- Sim.

 

Morreu três meses depois da cerimónia, sem saber que Marta tinha deixado de tomar contraceptivos e ia ser pai. Passou o último mês morfinado, deitado numa cama a definhar sem se aperceber de nada do que o rodeava. O livro foi publicado, teve um sucesso de estima e caiu no esquecimento. O miúdo chamou-se Henrique, como o pai, mas na aldeia ficou conhecido por «o filho do doutor». Era igual ao progenitor que nunca vira: alto, magro, ensimesmado, delicado e pouco dado às aparências (ou muito, consoante o ponto de vista: nada do que mostrava de si era verdade). De Marta, só sei que o negócio continuou a prosperar e que se reconciliou totalmente com a mãe. Ignoro se voltou a casar-se: uma vez esta história terminada perdi o contacto com ela. O livro chamou-se «Amar até ao fim», título escolhido pelo editor e de que o doutor não gostou, mas já não teve forças para contestar. Nunca chegou a escolher um pseudónimo e a obra apareceu com o seu nome.

16.9.20

Diário de Bordos - Lisboa, 16-09-2020

Lisboa, de «cidade branca» - apodo tolo - a «cidade triste» (injusto). 

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Nesta coisa em que Lisboa se transformou e na qual não é fácil reconhecer-me, sobrevivem ilhotas, oásis, pontos de beleza, cabeços de amarração. O Tambarina é um deles. Quando chego está desoladoramente vazio (menos qundo saio). É-me doloroso vê-lo assim. Mas o Domingos é o mesmo, a cachupa não sei porque ainda não chegou (é).

- Ando longe, Domingos - digo-lhe.

- Não faz mal. Longe ou perto estamos aqui.

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Gosto de Lisboa aos pontos, como antigamente tínhamos os hurricane holes, portos (normalmente, golfos) nos quais nos devíamos refugiar em caso de ciclone. Ainda hoje os temos.

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Máscaras e palermas em todo o lado. Por muito que saiba que não há relação de causalidade entre eles, que não pertencem juntos, they don't belong together, à força de os ver juntos é difícil distingui-los.

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O nó do problema, como sempre, está em mim: convivi tanto tempo com esta gente afável, polida, hospitaleira que hoje se mascara, põe gel nas mãos de cinco em cinco minutos e não hesita em denunciar quem não usa máscara? Comprava e lia estes jornais que hoje se revelam infames? Esta gente adorável não passa de um bando de cobardolas e bufos? (Mas isso já sabias, estúpido.)

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Tantas mamas tão jovens e tão bonitas por essa cidade. A sorte que têm os meus compadres mais novos. Posso estar enganado, mas enquanto a humanidade produzir mamas assim, nada mudará radicalmente. Não há feminismo nem correcção política nem ambientalismo, animalismo, wokismo que resista a um par de mamas bem feitas num par de mãos bem treinadas. Ou ansiosas, se souberem controlar-se e pensar que é para as mamas e respectivas donas que trabalham, não para si e respectivos donos.

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Esta Lisboa na qual não quero viver... Não é que queira viver no campo, não é isso. Quero mudar-me para outro mundo.  

Gazeta Rural VI - OS LUGARES QUE DEIXAMOS

          Pensamos muitas vezes nas cidades que já visitámos, nos países onde estivemos, naqueles aonde gostaríamos de ir. Mas quantas vezes nos lembramos dos lugares que tivemos de abandonar, voluntária ou involuntariamente? (Sim, há «ter de» voluntário: uma vez estava na Horta, na Pousada. Era o meu aniversário, tinha ido jantar com uma senhora fotógrafa e bailarina – isto é uma combinação que não se inventa – americana de ascendência açoriana, o que explica a sua presença no Faial. Não seria justo dizer que era minha namorada – tínhamos iniciado uma relação afectiva uns dias antes, semana, talvez duas – mas tão-pouco era aventura de passagem. Depois do jantar – num dos restaurantes chiques da Horta, não me lembro o nome – fomos para a Pousada. Como provavelmente sabem dá directamente para a marina. A senhora era muito bonita, morena e musculada, inteligente e culta. Às duas da manhã eu ainda não tinha adormecido, ela sim. Dormia ao meu lado, solta e feliz, os longos cabelos negros espalhados pela almofada, o ventre e as pernas musculadas da bailarina à vista, a dizerem-me: «Não me deixes.» Às duas e meia da manhã decidi que tinha de me ir embora. Vesti-me, ela acordou, expliquei-lhe que ia para Lisboa e se ela quisesse vir era bem-vinda a bordo porque ia fazer a viagem sozinho. Hesitou um pouco, disse «Não vou», combinámos encontrar-nos em Lisboa e vim-me embora. Creio que este é o melhor exemplo, se bem não seja o único, de uma pessoa querer ir-se embora porque tem de ir-se embora. «Os teus cabelos, o teu amor, o teu ventre, as tuas pernas de bailarina são um repto demasiado forte para a minha fraqueza. Vou-me embora e quando nos reencontrarmos em Lisboa estaremos em igualdade.»)

          De que sítios saí, ao longo da minha vida? Saí de Quelimane e de Lourenço Marques, sem querer. De Nakhodka, idem. De Caracas, querendo. Detestei aquele país, hoje vejo que injustamente. De Lisboa. La Chaux-de-Fonds, duas ou três vezes. Aveiro, onde acabara de passar um ano. Zurique... Que horror! Ainda não estou em metade da minha vida e já deixei metade de meio mundo. Passei a vida a deixar lugares, pessoas, vidas. Viajar, muito mais do que chegar a qualquer lado é largar desse lugar, seja ao fim de quatro meses seja depois de mil sonhos. Como quando larguei dos Açores pela última vez, desta vez de avião, parecia que deixava para trás uma tonelada de basalto que trazia agarrada às costas. O meu barco chegou depois, chamava-se Don Vivo e ficou arrestado na marina de Vilamoura por causa de um polícia marítimo maldoso. Havia muitos, nesses longínquos anos oitenta. 

De onde é que já saí? De Maputo, mas ainda é cedo para pensar nisso. De Bocas del Toro – larguei, voltei a entrar, voltei a largar e ainda hoje penso no Palmar Tent Lodge onde ia todos os dias ao fim da tarde beber um rum punch e ver o mar numa das praias mais bonitas que me foi dado ver. (Não sou grande apreciador de praia, por isso dizer que aquela praia está ao nível da de Salines, na Martinique ou das do Parque Nacional Manuel António, na Costa Rica, ou daquela onde ia nas Filipinas, não recordo o nome, é dizer muito.)

          Deixei Genebra aos bocadinhos, levei quase dois anos a mudar-me para Cascais – daqui a dias estarei ali de novo, o que me leva a pensar no que é «deixar um sítio», partir. Alguma vez partimos, verdadeiramente? Onde é que ia, antes deste desvio todo? Zurique. Nunca mais ali voltei. Morava na Niederdorf, no centro do centro. O apartamento ficava por cima de uma boutique da moda, que não tinha cabines para as senhoras mudarem de roupa. Quando saía para ir trabalhar – trabalhava nas limpezas, para um refugiado político checoslovaco que só não me surpreendeu porque já tinha estado na Rússia Soviética. O homem conhecia o conceito de exploração até ao fundo e levava-o a sério -  via as senhoras na boutique a mudar de roupa no meio da loja, visão abençoada naquele tempo em que ninguém usava soutien. Limpava bancos (literal, não metaforicamente). Um dos que limpava tinha uma quantidade que me parecia ilimitada de obras do Christo e ali me familiarizei com as obras deste artista. 

          Outra cidade que deixei várias vezes e nunca deixei foi S. Luís do Maranhão, onde ainda hoje um bocadinho de mim se passeia pelas ruas e ao fim da tarde vai beber uma cerveja ao Mercado do Peixe, ver o decote da Jeny e trocar com ela sorrisos de entendido: «Este decote serve para vender cervejas», diz-me. «Eu sei, Jeny». Falávamos sem trocar uma só palavra. (Não sei de onde vem este gosto pelo entendimento tácito. Suponho que seja a noção de pertença a um grupo. Esta grande fraternidade de pessoas que não se conhecem, mas conhecem as mesmas coisas, viveram as mesmas situações, passaram pelo mesmo e sabem que hoje sou eu e amanhã és tu e depois de amanhã será outro e é para isso que estamos cá.)

          Deixei Antigua, aonde espero nunca mais voltar; Bequia, onde quero voltar para morrer. Deixei St. Martin, ilha mágica porque mistura tudo o que as outras são. Deixei Jost van Dyke vezes de mais porque ali se  bebe o melhor cocktail do mundo – chama-se Painkiller e é o único cocktail que conheço cujo nome corresponde à realidade. Deixei Bitter End, fim amargo de tudo o que de bom aquelas ilhas têm. Deixei o Burundi, vencedor vencido e o Zaire, vencido mas revoltado. Deixei Kindu, uma evacuação como aquelas que se vêem nos filmes, soldados armados por todo o lado, o avião a parar para me deixar entrar, uma mãe a ter de escolher qual dos filhos a acompanharia na fuga.

As partidas marcam mais do que as chegadas, com a possível excepção de Bequia (pronuncia-se Béqüei) porque ali mal cheguei e pela segunda vez na vida vi o lugar onde quero morrer (o primeiro é praticamente inacessível. Chama-se península de Burton e fica na margem oeste do lago Tanganica. Não se pode querer morrer num lugar ao qual não se pode voltar). A Bequia quero voltar, todos os marinheiros querem. Richard Dey escreveu as coisas mais bonitas que há sobre esta ilha. Não tenho o livro comigo, mas é de lá que vem aquele verso que não me deixa: «I know them. I am one of them.»

          Já deixei mais sítios do que aqueles a que cheguei: a matemática das viagens não é algébrica, é alquímica.

 (Para o R. A., com um abraço.)         

15.9.20

Libertação, músicas

Comparada com a música medieval, a renascentista é tão mais leve. Não há que admirar: O homem libertou-se de Deus.

Ou ao contrário, vá saber-se.

12.9.20

Negacionismos

A bipolarização da sociedade que vivemos reflectiu-se, naturalmente, nesta crise. Há dois campos, bem distintos: para uns, isto foi uma histeria colectiva que desaguou num gigantesco embuste, um virus é um processo natural mitigável mas não eliminável; outros pensam que a histeria não o foi, que é justificada, que as "medidas" foram e são necessárias, que o combate ao vírus é como uma batalha na guerra que termina com a morte do inimigo. 

Curiosamente, ambos são designados pelo mesmo termo: negacionistas. Uns porque negam o embuste, o lado oposto porque nega a evidência.

11.9.20

Poemas para Rute

Se assim me deito em ti sem ti aqui, imagina como me deitaria em ti se aqui estivesses. Ah!!! Que festa seria, tu aqui e eu ao lado, tu ali e eu a ver-te, tu deitada e eu também.

Absurdo?

Pensar que há conspirações, interesses obscuros, objectivos terroristas por detrás disto tudo é simplesmente um sintoma da incapacidade de muita gente em lidar com o absurdo. Nem todos leram Camus a tempo. Histeria, incompetência, desvario, falta de sentido de Estado, sacudir a água do capote, mentira, cobardia, demência? Humano, demasiado humano. Absurdo para quem pensa que o humano pode ser outra coisa. Nao pode.

10.9.20

Notas

A irracionalidade devasta-me não por si-própria mas porque está invariavelmente - ou pelo menos na maioria das vezes - associada à maldade.

A estupidez é maldosa. O estúpido bom não é estúpido; é tolo, o que é diferente.

9.9.20

Tempo, aldeias

Em nenhum lugar do mundo o ridículo da modernidade é mais exposto do que numa aldeia pequena. Numa cidade grande dilui-se, há muitas tribos. Numa aldeia, um carrapito pequeno e de mau gosto transforma-se num farol grotesco, uma saia demasiado à la mode uma marca de desfazamento, uma tatuagem demasiado visível sintoma de deslocalização. De certa forma é uma injustiça, claro: por algum lado há-de o tempo chegar ao campo. Só é pena é que a sua ponta-de-lança seja o ridículo.

Espelhos

Das coisas que não sendo foram ou serão, das que foram não são e nunca mais serão, das outras, resta-me a lembrança da tua pele, dos teus olhos, das tuas mãos, do teu ventre. As coisas que não sendo são matéria de memória, olfacto das noites, alimento de amanhã. "Ya todo está" . "Solo una cosa no hay: es el olvido". "Os reflexos do teu rosto no espelho". Tu em mim. Não há espelho que reflicta isto: os espelhos não têm tempo.

Tempo é coisa da vida, coisa de sábio sofrido (passa-me o pleonasmo, passas?) Um dia inventarei um espelho ao retardador, só para ti. E pôr-me-ei nele como me ponho em ti: todos os dias, todas as memórias, para sempre.

O que não sei

Nunca sei por onde começar a escrever: o mundo ou eu? O exterior ou o interior? Tu na praia dali ou eu na praia de mim? Onde acabo e começa o resto? Da esponja vê-se onde acaba e começa, é fácil, tem cores. Eu não. O mundo entra por mim e eu por ele, como este copo de vinho que agora bebo e é tanto eu como eu sou ele, ou este disco da Nico, Desertshore, que entra por mim e pela noite de Mértola. 

My only child

...

Man and wife are feasting the time
The time that lies behind
At home in sweetness and delight
Drinking the bitter wine

Their hands are old
Their faces cold
Their bodies close to freezing
Their feelings find

...

Afraid

Cease to know or to tell
Or to see or to be your own
Cease to know or to tell
Or to see or to be your own
Have someone else's will as your own
Have someone else's will as your own

....

All that is my own

Your winding winds stood so 
All that is my own 
Where land and water meet 
Where on my soul I sit upon my bed 
Your ways have led me to bleed 

Não sei. Digo «não sei» muitas vezes, eu sei. Não é um bordão: a verdade é que não sei a maior parte das coisas, por muito que queira escrever sobre elas. 

Antes escrever sobre aquilo que não sei: tudo. Eu e o resto.

8.9.20

Da repetabilidade da história

Daqui a mil anos, a nossa reacção ao vírus vai ser vista como hoje olhamos para as práticas da Idade Média. 

(Não serão mil anos. Aposto que cem chegarão. O tempo acelerou.)

7.9.20

Praia

Não fazer nada é uma actividade que nunca me atraiu. Canso-me depressa de não ter nada que fazer. Porém, acabo de passar alguns dias no Porto com a missão clara e específica de ficar quieto - os mais realistas dir-me-ão que isso é fazer alguma coisa - e consegui. Aqui em Mértola a missão é diferente, mas envolve também uma grande dose de inactividade. A ver como me saio. A julgar pelo primeiro dia não vai ser muito fácil. Estou a sessenta quilómetros do mar, o que é simultaneamente muito e pouco. 

Quero ir à praia.

Escrever rios

A escrita deve ser límpida, cristalina, sem vírgulas a mais nem pontuação exagerada. Pontos e vírgulas são como meandros de um rio de planície: impedem-te de lhe seguir o curso. Escreve clara e linearmente, como um rio de montanha. Se tiveres alguma coisa a dizer ver-se-á imediatamente, no primeiro lago a seguir à primeira cascata. Se não,  perder-te-ás num areal qualquer, sem força para chegares ao mar.

Ode a Rute

Tenho ainda calosas as mãos, mulher. Mas não é de cabos, é da vida. Falta-lhes a tua pele e sem ela não há pele que resista. 

Doze mil

Doze mil posts no DV. Efeméride: doze mil disparates celebram-se. Com Balanches tinto e medronho. Assim ganhamos peso ao mesmo tempo, o blogue e eu.

Pecados mortais

Venho almoçar ao Tamuje. Sopa de tomate. Está sublime, claro, inútil é dizê-lo, mas não consigo acabá-la, fica mais de metade. 

Decidi que vou parar de engordar à custa da comida. Agora, só o vinho e o medronho me farão ganhar peso. O que sobra vai para casa: deitar fora comida desta é pecado mortal.

Reedição - À ròla do mar

O texto é recente - 26.02.18 - mas pede reedição. Aqui vai. 


"Marinheiro sem eira nem beira é pleonasmo e rima pobre, pecado a dobrar. Não há casa que queira pecados destes, lastro duplo, adornados até às portas de mar, retrancas a roçar as cristas e vergas desvairadas, de antes desarvorar que rizar, pistola na mão "dou um tiro ao primeiro filho da puta que tocar numa escota". 

Se morressem morreriam pobres, os marinheiros. Pobres e podres, que o sal conserva, mas mal: Seca e Meca percorridas o que lhes fica nas entranhas é a liberdade, que da merda livram-se toda e a liberdade corrói, a liberdade é uma prisão da qual só morto escapas e como não morres nem assim de pés para diante dela sairás. Os marinheiros não morrem: transformam-se em vagas que um dia nas praias desfalecem, montadas por putos em pranchas de surf, a olhar-lhes para as miúdas que os esperam nas areias e a pensar nos albatrozes que viram ao largo do Boa Esperança ou do Horn, nos bordéis onde foram fodidos como putos num ginásio de Atenas, eles que durante um milésimo de segundo pensaram ser os reis do mar, do vento e dos corpos, dos ventres, seres nem vivos nem mortos.

Os marinheiros não morrem: entregam-se um dia em que a pistola do capitão não tenha balas e mais valha folgar do que andar à ròla do mar."

Notas:
"Dou um tiro, etc.": durante a mais célebre das regatas entre clippers (CUTTY SARK vs. THERMOPYLAE) o capitão do Cutty vinha para a ponte, pistola na mão, para impedir os marinheiros de folgar pano.

Retrancas e vergas: peças da mastreação, onde envergam as velas (panos).

Folgar (pano): aumentar o ângulo que uma vela faz com o vento. É a primeira etapa para diminuir o adornar (inclinação) de uma embarcação de vela. A seguinte é  rizar (diminuir a área de pano exposta ao vento).

Escotas: cabos que controlam o ângulo que as velas fazem com o vento, uma das afinações fundamentais para a velocidade do navio. 

«É tão longe pedir»

O poema chama-se Mendiga Voz e vem a propósito, ainda que por vias travessas, de uma conversa que tive hoje com a minha irmã R.. É de Alejandra Pizarnik e dou-o aqui na versão traduzida por Alberto Augusto Miranda. Vem numa pequena antologia da editora O Correio dos Navios, nome que por si só me faria gostar da obra. Felizmente há mais: as traduções são óptimas (o traditore não inventa) e a selecção de poemas também - tendo presente que a antologia é verdadeiramente curta.

«E ainda me atrevo a amar
O som da luz numa hora morta
A cor do tempo num muro abandonado.

No meu olhar perdi tudo.
É tão longe pedir. Tão perto saber que não há.
»

Rute, rente ao mar

É rente ao mar, Rute, que te vejo em mim e eu em ti. Rute é palavra de sempre, não acaba nem começa, palavra telúrica, vem do pangea, significava amor quando foi inventada e hoje também: amor de mar, amor infinito, amor de linha de horizonte, amor de calma e de tempestade, amor de chegar e de partir. Tens os olhos da cor do mar e os cabelos da do Sol, o sorriso da matéria dos dias e o olhar do brilho da noite. Queres melhor prova do que te digo, Rute rente ao mar e rente ao céu, rente ao amor e à alegria, rente ao mundo e à vida?

Em ti me perdi, Rute e sem ti me perco. Como navegar num mar sem ti, sem ti no mar? Como respirar sem o ar que és e me dás a respirar, ver sem os teus olhos, falar sem os teus lábios nos meus?  Diz-me como, Rute e eu rente às palavras obedecerei, a elas me dobrarei.

Não digas, Rute. Rente ao silêncio te quero, nos quero.

6.9.20

Cannery Row

Por muito romântico que pareça, por muito apelativo que seja para jovens em busca de alma ou aprendizes de monge em busca do desapego, não ter dinheiro é uma chatice. Complica tudo - mais do que a falta de jeito, a inabilidade fatal ou a falta de um ouvido. O menor e mais banal dos actos vê-se comprometido, exige o triplo do tempo e o quádruplo do trabalho, esmifra a paciência do pobre e de quem o rodeia.

Pobre? Só em Cannery Row e de vez em quando.

Até amanhã

O périplo pelo Norte acabou. Em termos de vendas de livros não foi propriamente brilhante. Vai ser preciso mudar da estratégia. Contudo, em muitas outras coisas foi maravilhoso: descansei. Descansei física e mentalmente. A dor na anca atenuou-se bastante e a cabeça parece o quarto de um adolescente depois de a mãe lá ter passado: ainda cheia, mas pelo menos com cada coisa no seu lugar. Esperam-me uma dúzia de dias em Mértola: aposto que o quarto vai ficar vazio. Revi Guimarães, cidade exemplar porque está recuperada e não é uma caixa de bonbons, como Óbidos, exemplo. Nada naquele centro histórico enjoa. Conheci pessoas que gostei de conhecer, pessoas em que vejo aquilo que nós portugueses temos de bom, em quem me revejo: a hospitalidade, a abertura de espírito, a tolerância, a generosidade. Vi os meus textos fugirem da caixa, lidos por uma sublime leitora (acresce que a selecção foi estupenda). Confirmei que as amizades aparecem e crescem onde menos se espera.

Confirmei, sobretudo, aquilo de que há muito suspeito: a minha vida é a minha melhor obra de arte, não a trocaria por nenhuma outra, é uma obra que não cabe num museu e que, quando eu morrer, continuará nos livros, no DV, na memória de quem me conheceu. Os momentos de sofrimento por que passei - tantos! - equilibram-se muito bem com os de exaltação - ditto - e agora, que a obra se aproxima do fim, entrou na recta final, tudo se equilibra, tudo cai no sítio e mostra a sua intrínseca claridade, a sua indomável liberdade. 

Dei este nome ao blogue para homenagear um dos barcos de que mais gostei - e porque não quis perder muito tempo à procura, verdade seja dita. Vejo agora que só o trocaria por outro, muito parecido: Dona Vida.

Estou cansado, mas é um cansaço límpido, honesto, daqueles que se resolvem com uma boa noite de sono. Que venham muitos assim. Até amanhã. 

4.9.20

A cidade e os livros

Se uma cidade que visitamos se define em função dos livros que nela compramos - e não das mulheres que nela conhecemos,  etc., - como definir Guimarães:

- Raymond Chandler, O imenso adeus, ed. Livros do Brasil;

- Damião Peres, História dos Descobrimentos Portugueses, ed. Vertente;

- Obras completas de S. Francisco Xavier, ed. ... daqui a bocadinho, o livro está na mochila.

Livro de estilo, saltério

 "Se orarem com palavras, serão muito poucas; na verdade, quanto menos, melhor! E se empregarem um curto monossílabo, julgo que será melhor do que um dissílabo e estará mais de acordo com o trabalho do espírito..."

...

"Um monossílabo dito assim penetra mais depressa os ouvidos de Deus omnipotente do que um longo saltério distraidamente engrolado por entre os dentes."

O fétido cheiro do pecado

 "Enquanto viveres neste mundo miserável, nunca deixarás de sentir de alguma forma um fétido e asqueroso bloco de pecado como que unido e misturado com a substância do teu ser. Por isso, deves alternar entre estas duas palavras - "pecado" e "Deus" - tendo sempre em mente a seguinte noção geral: se possuísses a Deus, não terias pecado, e se fosse possível não ter pecado, estarias na posse se Deus."


In A nuvem do não-saber

Geografia, felicidade

Regresso a um lugar que já conheço, no qual sou um estranho e pergunto-me quantos há assim por esse mundo fora? Ou melhor: onde é que não sou estrangeiro? Lisboa, Genebra, Palma, Mértola? O que é ser estrangeiro? Intuitivamente, retiro as duas últimas da lista. Em Quelimane e Maputo sou, sem sombra de dúvida. O que é ser estrangeiro? Em Maputo vivi provavelmente os dois piores anos da minha vida e sabe Deus se ela os tem maus. 

A felicidade é coisa de velhos e de palermas, escrevi recentemente. Hoje acrescentaria "adolescentes", mas esses estão implícitos nos palermas, mais coisa menos coisa. Não interessa, mais vale diferenciá-los.

A felicidade é coisa de velhos, palermas e adolescentes. Confessemos que não fica muita gente de fora. 

Eu não fico, seja onde for.

3.9.20

A ordem das coisas

"Desta forma se verifica que tanto os principiantes como os discípulos mais adiantados só poderão meditar como convém se primeiro lerem ou escutarem; e só poderão orar como convém se primeiro meditarem."


In A nuvem do não-saber

"Dos estratagemas espirituais..."

"...Mas há ainda outro estratagema. Experimenta-o, se quiseres. Quando sentires que não te é possível de modo nenhum combater os pensamentos, cai prostrado diante deles, como um pobre cobarde vencido em batalha, e considera que seria loucura lutar mais tempo contra eles.  ...  E importa que te sintas como se tivesses perdido para sempre. Rogo-te que prestes muita atenção a este estratagema, pois julgo que ao experimentá-lo devias liquefazer-te completamente. Não há dúvida, penso eu, de que este estratagema, compreendido com subtileza, não é outra outra coisa senão a consciência de ti mesmo, tal como és realmente: um ser miserável e imundo, bem pior do que nada. Uma tal consciência é humildade."

In A nuvem do não saber, ed. Sistema Solar, autor anónimo. 

À ròla da esperança

À ròla. Não do mar mas da esperança, vagas desencontradas, mar caótico. As vagas vêm de todos os lados, umas levantam-me, outras puxam-me para o fundo. E eu nado, à ròla da esperança, à rola da força que me dá saber que para o fundo não irei.

A menos que queira, claro.

2.9.20

Diário de Bordos - Porto, 02-09-2020

O bar Aduela, que à noite tem uma equipe impecável a trabalhar, tem à tarde uma colecção de trastes a quem estou infinitamente grato. Não teria vontade nenhuma de escrever, não fora tanta idiotice junta. Acabo de perguntar à empregada de mesa a que horas mudam o turno. Não me pode dizer, responde. É segredo. Isto vem, é verdade, no seguimento de um diferendo sobre a máscara (hoje) e outro sobre eu ter trazido uma garrafa de LBV Warres (de 2007, não sou especialista mas creio que é um ano bastante para lá do aceitável) ontem. A rapariga - uma sujeita provavelmente descontente consigo própria e portanto com o mundo - resolveu embicar comigo.

Queria fazer o livestream aqui mas não o vou fazer. Estará demasiado barulho e a esta não poderei nem dizer que está bom tempo. O miúdo da noite é mais simpático e vivo. E o outro, o mais velho, também.  Raio da Covid vei dar cabo disto tudo. Aposto que se não fosse a máscara - as máscaras, todas, a minha e a de toda a gente - o chaço que me traz os copos de rosé estaria mais sorridente e seria menos chaço.

Não há mulheres feias, há mulheres que não querem ser bonitas. É diferente.

........
A chuva continua a não chover, parafraseando os meus (dos meus pais) empregados em Moçambique. Se bem eles usassem mais vezes a positiva: «A chuva está a chover». Sobretudo em Quelimane, onde chovia a rodos. 

São chuvas diferentes, eles perceberão.

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Saio do hotel e tenho a acolher-me o calor da praça, a esplanada do bar Tarrantino, a pressão no ventre (não quis ficar sozinho no quarto, malandro) e a tensão na cabeça (ditto). Bebo um fino ou dois, venho ao Aduela buscar material e motivação e volto para o Tarrantino, almoçar. É possível viajar num guardanapo, se se quiser e souber. 

........
Por causa desta porra deste virus vou ter de refazer uma grande parte do edífício teórico que tenho habitado ao longo destes anos. Já os putos do Aduela não: incompetentes e idiotas a trabalhar ao lado de gente que é o contrário disso sempre houve. Continuarei a vir aqui e eles a trabalhar, a corrente entre nós a não passar ou a passar, consoante as horas.

Continuarei do lado de fora da cerca, a invejar os que estão dentro e a lamentá-los,  continuarei a ser feliz e triste, arrogante e humilde, a escrever disparates e a disparatar sem escrever: o edifício teórico que habitamos é bem pouca coisa.

A menos que se encha de gente, claro. Mas disso não será amanhã a véspera.

Múmia, espera

 O remédio é simples: tenta-se aconchegar a ansiedade em meia dúzia de cobertores, fica-se quieto, separa-se o ventre do resto do corpo e não se pensa mais nele. Isto feito, faz-se o mesmo com o cérebro: deixamo-lo a falar sozinho ou, na melhor das hipóteses, com o ventre, já que estão os dois desligados. 

Depois espera-se, feito múmia.

OS VINHOS QUE NOS DÃO

Que fazemos com os vinhos que nos Dão? Bebemo-los, partilhamo-los, damo-los e – sobretudo – agradecemo-los. Agradecemo-los a quem no-los deu, a quem os fez, a quem os partilha connosco, prova-rainha de amizade. Sem desprimor, não é em torno de um copo de leite ou de água que se selam amores, amizades, projectos, futuros comuns, que nos reconciliamos com amigos desavindos ou reatamos laços familiares há muito quebrados. 

Se os vinhos que nos dão vêm do Dão, o agradecimento deve ser feito a dobrar, porque os vinhos do Dão têm todas as características de um bom vinho, a dobrar. Além disso, atraem uma classe especial de pessoas para os fazer. Ou melhor, continuam a atrair: os que sabem fazer vinho. Quando em Portugal havia meia dúzia de marcas, a que sobressaía era o Grão-Vasco (pelo menos para um jovem recém-regressado de Moçambique e que de vinho só conhecia a palavra). A minha descoberta do vinho foi uma exploração metódica pelas várias regiões de Portugal – e mais tarde de França – mas desde cedo fixei a preferência nos vinhos do Dão. Há tempos escrevi porquê: gosto de vinhos e de mulheres que deixam um rasto quando passam por mim. Os vinhos do Dão deixam marcas, deixam traços, deixam – como tantas mulheres – uma irresistível vontade de voltar a eles, de não os deixar. E não nos deixam a memória. 

 Adstringentes ma non troppo, encorpados sem se parecerem com blocos de granito líquido, equilibrados e a saber a uvas – é o que procuro num vinho, não é sabor a morangos, bananas, coiro velho ou alicates de pressão – os vinhos do Dão equilibram doçura e carácter, sabem persuadir pela inteligência e não pelo força, sabem unir quem os partilha porque foram feitos para isso – unir. 

Há tempos ofereceram-me três garrafas de vinhos do Dão: uma de Touriga Nacional, uma de Encruzado e outra de Clarete. A primeira foi oferecida a um irmão, as duas últimas partilhadas com uma senhora e muitos amigos que ocupam no meu planisfério de afectos uma área muito grande. É o destino correcto a dar aos vinhos do Dão que nos dão: abrir o mapa-mundo do afecto, escolher as áreas mais vastas e profundas e deixá-los lá. 

Vivo no estrangeiro e quando dou jantares em casa é sempre aos vinhos do Dão que dou prioridade na hora de escolher os vinhos. Nem sempre é fácil encontrá-los, ou encontrar os que se adequam ao que vou cozinhar (se bem me aconteça muitas vezes adaptar o menu ao vinho que tenho disponível). Muito mais do que qualquer outra região portuguesa –as outras que me perdoem – penso que é a do Dão que melhor representa as características portuguesas, as características do vinho português. Ou seja: o vinho que nos Dão não se limita a Portugal: devemos dá-lo, bebê-lo, partilhá-lo e apreciá-lo nos sete cantos do mundo. 

Não quero neste artigo citar marcas, pela razão simples e irrefutável de que a) não sou um especialista, sou um amador. As minhas impressões não passariam disso mesmo: impressões subjectivas, modeladas tanto pela memória como pelos sentimentos e b) seria incapaz de me lembrar deles todos. São muitos, uns melhores outros piores mas nenhum mau. 

 Os vinhos que o Dão nos dá são nobres. Trazem neles a nobreza das gentes que os fazem, das terras – tão belas - onde crescem, enobrecem quem os bebe e por isso devemos agradecer-lhes. 


Porto, 30-08-2020

1.9.20

Interrogação, palmatória

O grande mistério, sem ironia nenhuma, é: porque estão os governos da Europa quase todos a prolongar a palhaçada em vez de lhe ir pondo fim paulatinamente? Não acredito em conspirações, nem em que sejam estúpidos, mal-intencionados, o que for. Para erro, parece-me gigantesco de mais - afinal os políticos estarão na linha da frente quando os tiros (metafóricos, apresso-me a esclarecer) começarem. 

Durante algum tempo acreditei que era simples estratégia: é preciso fazer as pessoas acreditar que o Apocalipse estava à porta, o Armagedão ao virar da esquina, para justificar o descalabro económico que aí vem. Mas as pessoas já estão convencidas, demasiado, mesmo. Para quê prolongar? 

Será que não acreditam que é possível contrariar os media? Estamos a ser governados pelos jornalistas por políticos interpostos? Em todo o lado ao mesmo tempo?

Não sei. Não faço ideia. Venha a festa, ver se se consegue abrir os olhos a meia dúzia deles.

(Se as mortes aumentarem significativamente a partir de finais de Setembro serei o primeiro a dar as mãos à palmatória.)

AQUILO QUE NUNCA TE DEIXA

Não sei onde começa esta história – se no bar Aduela, no Porto, se em Milão, frente à embaixada do Brasil, onde Paola trabalhava. Nunca se sabe bem onde começam as histórias, onde – se – acabam. Não se sabe nunca sequer onde começam. Espero contudo que não seja no Aduela, onde os empregados são de uma juventude e ignorância confrangedoras. Sei lidar com a juventude, apesar da minha idade avançada; mas não com a ignorância. Consequência decerto do meu apreço pelo ensino, por aquilo a que chamo a minha “tentação pedagógica”. Gosto de ensinar tanto quanto de aprender. Por isso chego ao fim da vida e todos me detestam: tenho sempre uma resposta na ponta da língua para todas as questões, fundamentada, com as fontes à mão para quem se lembrar de mas pedir. A ignorância dos empregados do bar Aduela é compreensível: o que eu lhes peço não faz parte do passado deles. O passado individualizou-se, deixou de ser colectivo. No meu tempo – detestável expressão – toda a gente sabia o que era uma “rolha”: é aquilo que se paga quando se leva uma garrafa para um bar. Estes não sabem. Também não sabem o que é um LBV, coisa que no Porto é particularmente dolorosa. 

Quando fui ter com Paola a Milão tão pouco sabia muitas coisas. Começa logo por não saber que ia ter com ela. Não sabia sequer que ia para Milão, antes de chegar ao aeroporto. Só me lembrei no avião. Paola é brasileira, o pai diplomata e desde que acabou a faculdade trabalha no corpo diplomático brasileiro. É uma rapariga bonita, alta e magra, muito doce, suave, terna. Foi a ela que dei o meu primeiro beijo, nos cimos de Carcavelos. Eu estava de costas para o mar, ela de frente, depois mexemo-nos, sei porque de repente abri os olhos e vi o mar lá ao fundo, ao lado da cabeça dela. Dei milhares de beijos desde esse dia, mas este foi o primeiro e não me esqueço dele, nunca esquecerei. Isto da memória tem que se lhe diga: um dia esquecerei a ignorância dos putos do Aduela; nunca esquecerei a minha e a de Paola naquele dia - mais tarde confessou-me que foi o primeiro beijo para ela também. 

Éramos muito novos, duas crianças recém-saídas da adolescência, ela ligeiramente mais velha do que eu, poucos meses. Quando cheguei a Milão já tínhamos vivido juntos uns meses, em Lisboa, numa casa do pai dela. Só ocasionalmente nos visitava, estava colocado não sei onde. Todas as minhas relações têm ausência nelas, como alguns detergentes têm lixívia ou os vinhos taninos: estão lá, não se vêem, sentem-se, são dispensáveis (para alguns. Para mim não são). Aterrei no aeroporto, roubaram-me uma das carteiras, fui à embaixada, ela estava de folga, tive de esperar que lhe telefonassem, ela disse-lhes que sim, podiam dar-me a morada, meti-me num táxi, fui a casa dela. Era de manhã, tinha acabado de acordar, voltámos a deitar-nos, amámo-nos como se nos tivéssemos deixado na véspera e arrependido um de nós (provavelmente eu) tivesse voltado atrás. Há ausências assim, colam-se-nos à pele, não nos largam, ficam presentes. Fazem parte de nós: sou a soma de todas as ausências que me fizeram. 

Paola está deitada ao meu lado. Acabo de desembarcar de um avião, cansado e cheio de sono, mas tenho dezanove anos e aquele ventre liso, duro não me deixa dormir. Sou feliz, mas nessa idade não se pensa na felicidade, pois não? A felicidade é coisa de velhos e de palermas. Os jovens seguros de si não pensam nela, tal como estes idiotas da Aduela não querem perceber o que é uma “rolha”, não lhes passa sequer pela cabeça perguntar, têm um poder em miniatura na cabeça a despontar e não o querem interromper. Com a idade deles não era assim, mas quem era? Quem se importa com isso? Na idade deles nada era como eles, porque se fosse o mundo não teria avançado, mudado, «progredido» (entre aspas porque é irónico). A idiotice não progride – não é curiosa, não pergunta – mas o mundo não é idiota. Só partes dele o são. Paola era uma mulher inteligente, muito culta, gostava de ir passear com ela pelas ruas de Milão. Vimos juntos a Última Ceia, com a porta que os frades abriram porque nessa altura o Leonardo era só um pintor e não aquilo que o tempo fez dele. 

A ausência, estúpido. É disso que se trata aqui, da ausência. Nunca mais viste Paola, voltaste a Milão mas não foste à Igreja de Santa Maria delle Grazie, não te lembras de onde ela vivia, não queres lembrar-te de nada, nem mesmo daquele ventre liso e duro que não te larga a memória. Como se a ausência pudesse dividir-se em partes distintas: Paola, o ventre de Paola, os beijos de Paola, a ternura de Paola. A ausência é isso: faltarem-nos peças e não a peça. Quando nos falta a pessoa toda não lhe sentimos a ausência. Ou o lugar. Milão falta-me porque quero voltar a ir ver a Última Ceia, quero voltar a comer gelados na Galeria Vittorio Emanuele II, quero rever a ragazza bonita pobre e nervosa que um dia me pediu dinheiro, teria talvez oito, dez anos, devia ser para comprar cola, não lho dei porque com o roubo da carteira no aeroporto também eu tinha ficado desfalcado. Milão está ausente porque me ficaram estes fragmentos: sem eles, que seria dela? Do Duomo, essa coisa que me deixou boquiaberto porque pela primeira vez percebi o que o Ferreira queria dizer com «para onde tendem as catedrais». Percebi na carne, quero dizer, no corpo todo, na alma. 

Paola falta-me hoje tanto quanto me falta há quarenta anos, porque nunca me deixou. A ausência é isso, não é? Aquilo que nunca te deixa. 

Porto, 01-09-2020 

(Para a M. H. B., com um beijo que nunca me deixa.)

Educação

A miúda que serve no Aduela (vinte e poucos) não sabe o que é um LBV. 

Para onde vai a Educação neste país?

Sílabas, simplicidade

No fundo,  trata-se apenas de exprimir a complexidade e a beleza da vida com um mínimo de pentassílabos.

Não é fácil: quanto menos sílabas mais trabalho.