30.9.20
Tonya
Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 29-09-2020
Amanhã faço sessenta e três melancólicos outonos... Fomos jantar ao Auberge de Chambésy. O núcleo duro da família aumentou: S., eu, os dois filhos e respectivos cônjuges (as aspas não se vêem mas estão lá). Paradoxalmente, nunca os senti tão "meus" como agora, que os partilho (e eles a mim, mas isso sempre aconteceu). Aos trinta anos vê-se o produto acabado. Daqui para a frente será apenas evolução. As bases estão lá.
Estão sólidas e bonitas, seja S. louvada e agraciada.
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Na escola ao lado de casa não vejo quase ninguém de máscara no recreio, atulhado de miúdos até aos doze anos, creio. Os putos brincam como sempre brincaram, agarrados uns aos outros de todos os modos e feitios.
Cada vez gostaria mais de ver um estudo sobre a relação entre severidade e abrangência das medidas anti-Covid e PIB per capita.
27.9.20
Jantar improvisado - Frango guisado em cerveja
Começou da maneira clássica: a carne a alourar em lume forte, flamejada (com Kirsch); na mesma frigideira - mas uma vez retirados os peitos do jovem galináceo - cebola, pimentos, duas cenouras pequenitas, um belíssimo ramo de salsa frisada e pimenta rosa em grãos. A seu tempo, vai tudo junto para a panela, cobre-se de cerveja (Super Bock, por acaso) e tempera-se com paprika doce, curcuma, sálvia, orégãos e rosmaninho fresco. Cozeu até ficar pronto.
Os dois convivas gostaram, mas o que cozinhou não tem a certeza de conseguir repetir - prova de que é um péssimo cozinheiro (e não se importa nada com isso, infelizmente).
Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 27-09-2020
Domingo de votações na Suíça. A nível federal, uma iniciativa xenófoba da UDC foi recusada, o governo viu aprovado um envelope de seis mil milhões de francos para comprar um avião militar (50,1% a favor, 49,9% contra), o PDC perdeu a votação para incluir os custos da guarda das crianças nas deduções fiscais (coisa que deixou a esquerda toda contente, claro. Baixar impostos provoca-lhe urticária) e os cantões urbanos ganharam contra os rurais uma alteração de lei para aliviar as regras sobre a caça de lobos. A lei actual é de 1986, quando praticamente não os havia. «Agora há em excesso e atacam os rebanhos», dizem os agricultores. «Queremos poder abatê-los.» Que nenni, responderam os betos urbanos. Um congé paternité (direito de os pais terem uma folga remunerada aquando do nascimento dos filhos) de duas semanas passou a rampa. Ao nível cantonal, uma má notícia para Genebra: o «soberano» (o povo) aceitou a introdução de um salário mínimo. Vinte e três francos / hora (aproximadamente vinte e um euros / hora). De uma maneira geral, estas eleições foram ganhas pela esquerda (felizmente, no caso da iniciativa sobre a imigração) e se eu cá vivesse teria ficado chateado. Chatice essa mitigada por um facto simples e inegável: aqui são as pessoas quem escolhe. Não são os políticos. Abençoado país! (E a UDC levou outra nega. Que venham muitas mais.) Agora só falta ver esta malta começar a rebelar-se contra as máscaras e outras medidas «anti-Covid» idiotas (entre aspas porque são tão eficazes na luta contra o vírus como eu no salto em altura).
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A três dias de fazer sessenta e três anos entusiasmo-me tanto com as votações como me entusiasmava quando cá cheguei, com vinte e dois. O que mudou foi que agora tenho mais conhecimento de causa, o que torna o entusiasmo mais agradável. Só espero já não ser deste mundo se um dia o soberano votar positivamente a adesão à União Europeia (a menos, claro, que esta adopte o sistema político suíço, o que faz parte do campo do possível tanto como ver-se António Costa transformar-se num homem de Estado.)
25.9.20
Gemelidade quase perfeita
Eram gémeos como duas bananeiras do mesmo bananal mas diferiam numa coisa: A. detestava-se, B. não. A. matou B.: não suportava ver-se como poderia ter sido.
Veneno, autocarros
O autocarro está parado porque a rua está bloqueada. Uma senhora pergunta delicadamente ao condutor se pode descer ali. "Não", responde o jovem. Simpaticamente acrescenta "Porque se lhe acontece alguma coisa a culpa é minha." Não é uma paragem, mas o autocarro está na faixa junto ao passeio. Todos sabemos que cada vez que descemos de um autocarro acontece qualquer coisa, não é? É arriscadíssimo descer de um autocarro. Não tarda pedem-nos capacetes. Já bom senso não vale a pena pedir. A cultura da ausência de risco e da desresponsabilização é pervasiva como um gás. E venenosa, mas isso é outra história.
Escritores, preguiça
Os melhores escritores são aqueles que parecem preguiçosos e não escrevem uma única palavra que possa ser lá posta pelo leitor. Parecem: é dobro do trabalho.
24.9.20
Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 24-09-2020
Ontem, a G. ofereceu-me um bon cadeau [como é que se diz isto em português? Vale presente? Cheque presente? Não me lembro]. Trinta francos em livros na Payot, a maior livraria de Genebra. Comprei três: Le Clézio, Orsenna e d'Ormesson. Preciso de francês puro, elegante, o francês de filigrana. Gosto desta língua tanto como gosto do português: a este, amo de amor, nasci nele e com ele cresci. Àquela, amo de razão, é amor construído e tardio. São os que duram mais. (Nota nada neutra: o Avenida está a ser traduzido - e bem - para francês.)
23.9.20
Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 23-09-2020
A melhor razão para se gostar de cozinhar chilli con carne é ser uma coisa que se cozinha devagar. Uma tarde, no mínimo. Comecei por refogar a carne e o toucinho (com a pimenta rosa em grão, essa convém estar desde o início), separadamente as cebolas, os pimentos, as cenouras (com os orégãos) e por fim os alhos, Misturei tudo, deixei-os a conversar um bocado, juntei o tomate (três, grandes), mais uma volta de conversa até o tomate deixar de ser tomate e entram a água (até acima, a panela era alta) e as especiarias: um nada de noz-moscada, outro de cravinho, um montão de paprika e um igual de cominhos. Cozeu quatro horas. Sinal de que estava sintonizado: não tive de juntar nada, nem água nem especiarias. Ficou um bocadinho curto de sal para uma das convivas, só. Ficou bom porque: a) o pimentão doce, a paprika fumada, a paprika picante e os cominhos eram excelentes; b) a carne idem; c) a sorte ajudou, ajudada pela vontade de fazer um bom chilli. Era muita, esta. O objectivo era mesmo que ficasse bom, um querer que vinha de dentro, como quando estamos numa regata e não vamos deixar o gajo ao lado rondar a bóia antes de nós.
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Esta discussão em torno do vírus e da ciência parece-me estéril. Não é preciso «ciência» para se ver que a abertura das escolas sem máscaras e em condições normais não aumentou o número de mortos nos países que fazem isso, ou é? É. A ciência é empírica. Recusar-se a ver esses dados é religião, não é ciência.
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G. era vizinha da S. quando cheguei a Genebra e fui viver lá para casa. Foi por seu intermédio que arranjei o trabalho no Marchand de Sable. Era uma actriz que trabalhava num café para sobreviver. Depois foi trabalhar para um tribunal e lá ficou até à reforma, contra todos os prognósticos. É uma personalidade e uma personagem e um dia, eu sei, vai ser preciso falar dela. Não será hoje: precisa de um vasto espaço.
Por agora, chega-me o prazer que é falar com ela sobre cinema ou teatro. Às vezes penso que tive sorte. Isto é, ainda mais sorte.
22.9.20
Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 22-09-2020
Dia desastrado, dia desastroso? Sim e não. Fui ainda mais desajeitado do que sou habitualmente. À primeira vista parece dificil, quase impossível. Deixei cair a máquina fotográfica e tenho de a mandar reparar. Com a maré no estado em que está e sem dar sinais de mudar, o mínimo que se pode dizer é: "Não foi oportuno." (Isto para não mencionar que vou ficar muito tempo sem poder fazer fotografia, o que bem vistas as coisas tão-pouco é agradável.) Depois lá mais para o fim do dia a coisa balançou um bocadinho para o outro lado. Isto é: não ficou tão em baixo.
Há dias assim, em que me pergunto por que milagre consegui habituar-me a viver comigo.
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Amanhã é dia de chilli con carne, não a pedido de várias famílias mas sim de vários na família. A memória das famílias é feita de coisas assim. Ocorrências recorrentes: chilli, fondue, qualquer dia amêijoas à Bolhão Pato, a distracção e a falta de jeito do pai. Estatisticamente, ainda tenho uns bons vinte anos disto (a menos que venha uma Covid e me prolongue a vida), mas como sei por experiência própria que vinte anos passam num ápice, mais vale aproveitar e sugar cada segundo.
Até ao tutano.
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Amanhã começo uma campanha de promoção do Avenida. Seja o diabo cego, surdo e mudo se não conseguir vender coisa que se veja. Quero continuar a trabalhar no segundo volume.
En attendant, parece que desta vez acertei com a tradução para francês. Hallelujah!
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Pequena nota privada: é incrível, inesperado, assustador quão todas as cabeças, mesmo as de que menos se espera tal coisa, são permeáveis ao zeitgeist, à l'air du temps, ao ar do tempo. Estou "proibido" de usar os termos "pédé" (maricas) e "gouine" (fufa). Devo dizer "homosexuel". As aspas em "proibido" servem para mostrar o que tenciono fazer da "proibição".
Malditos tempos... Antes o chili, ainda que pouco picante. Um dia, homosexuel e gay terão a mesma carga semântica que têm hoje maricas e fufa, mas já cá não estarei para me rir. Todas as épocas se esquecem das que as precederam e erigem-se em absolutas. Nas que lhes sucederão, então, nem pensam. Somos - nós e as palavras - um ponto no espaço-tempo, um degrau na escada semântica, um sopro na evolução dos valores. Sopro tão fraco que nem para apagar um fósforo chegaria. Quanto mais definir eternidades.
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Por exemplo: quem apostaria um avo em que eu seria, ao fim de tantos anos, forçado a reconhecer o meu gosto por Genebra, maior do que agora sou capaz de dizer?
Uma cidade é feita de pessoas e uma vida também.
21.9.20
Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 21-09-2020
E os supermercados, claro. Os queijos. Na Suíça há todos os queijos franceses, mai-los suíços. Em França, só há os franceses. Adivinhem quem fica a ganhar?
20.9.20
Jantar improvisado - Frango com emoções
Comecei por dourar os peitos de frango em lume forte e flambeá-los numa bela porção de kirsch. Enquanto isso, na panela vizinha estrugiam em azeite uma cebola às rodelas e um pimento encarnado, com um fundo de bagas de pimenta rosa. A isso, em devido tempo, juntei dois tomates pequenos cortados aos bocados e um bocadinho de salsa que languescia no frigorífico. Depois de um compasso de espera, vieram umas batatas tanbém elas em cubos.
Deixei que se misturassem bem, polvilhei com «paprika» fumada (entre aspas porque não tenho a certeza de que tenha vindo da Hungria), cominhos (que ao cheiro parecem sublimes), orégãos e uma boa colher de sopa de mostarda Maille à l'Ancienne, a marca e o modelo são importantes. O sumo da flambée juntou-se à festa, eu bebi um absinto (ou dois, vá lá, que absinto deste nem todos os dias me atravessa o estreito, vem das montanhas, etc.), desliguei o fogão e sentei-me a escrever tudo isto.
Agora passamos à mesa, as emoções e eu.
Excessos?
Pergunto a quem sabe: aquela regra segundo a qual tudo o que é em excesso faz mal também se aplica a mulheres e a dinheiro? Nunca tive de mais nem de um nem das outras.
17.9.20
Auto-citações da «gripe»
«Isto é tudo muito bonito e tal até que o corpo se lembra de que sem ele a festa fica incompleta e hoje me pespegou uma gripe de caixão à cama.»
«A doença vira um gajo do avesso. As costuras belas e regulares mostram a sua natureza interior e parecem-se com cicatrizes mal tratadas; as costuras das bainhas, até ali invisíveis, ficam a ver-se (e não são nada bonitas); e por aí fora: a tosse é de tal forma que se não tenho cuidado qualquer dia apanho os pulmões no céu da boca, a hiper-sensibilidade faz-me pensar que dormir em cima de lixa deve ser mais agradável do que nos lençóis. Nada apetece - nem estar deitado, nem sentado, nem de pé. »
«As mulheres gozam com a nossa reacção às gripes porque elas não as têm. As mulheres têm gripinhas, gripes cor-de-rosa e não esta mistura de gripe e peste bubónica que nos aflige.»
«A S. chegou e com ela os remédios: spray nasal, muitos comprimidos, supositório, tudo. Ela queria ser veterinária mas a meio resolveu mudar para psicologia. Comigo pode praticar as duas disciplinas. Tentei reclamar com o supositório - não sou contorcionista nem artista de cabaret - mas não serviu de nada.»
(Conjunto de excertos de posts escritos quando tive aquilo que na altura era conhecido por gripe e hoje seria, provavelmente, Covid-19. Fevereiro de 2020.)
Marta
Quando o doutor chegou à nossa aldeia estava a manhã quase no fim.
- Obrigado e até à próxima - (ao motorista).
Desceu e dirigiu-se
imediatamente ao mercado, do outro lado da aldeia.
- Boa tarde - (à miúda que vendia tremoços, conhecida por «a tremoceira»).
- Bom dia - respondeu a
outra, espigada de feitio. - Ainda não é meio-dia.
- Está quase.
- Quase é uma palavra que engana muito.
- Obrigado. Tem tremoço de barrela?
- Isso é coisa do norte e vossemecê está no sul, homem. Não acerta nem na
hora nem no lugar.
- Não é bem do norte, é mais do centro.
- Seja de onde for, não tenho. Quer alguma coisa ou só fazer-me perder
tempo?
A tremoceira era conhecida na aldeia e nenhum dos ouvintes estranhou.
Salvaguardava-a o facto de ser bonita e ter os melhores tremoços da região.
Vinham pessoas de longe para lhos comprar. (Muitos só para a ver e lhe cantar a
canção do bandido, mas a esses despachava-os ela em menos tempo do que leva a
trincar e deitar fora uma casca.)
- Se quiser, eu ensino-a a fazer tremoços de barrela.
A rapariga hesitou. Não era todos os dias que alguém lhe respondia como se
não a tivesse ouvido.
- Obrigada, não preciso. Ensine-me antes coisas que eu não saiba. - Tinha
uma reputação a defender.
O doutor era duas vezes mais velho do que ela mas parecia três. Conservador
excêntrico, gostava de desestabilizar os interlocutores, mantendo sempre uma
educação e uma cordialidade inatacáveis. O seu maior gozo, contudo, era
encontrar alguém que não se deixava enredar. Percebia tanto de tremoços de
barrela como eu de astropaleontologia. Era um indivíduo alto, magro, cabelos
brancos impecavelmente aparados, óculos sem aros, roupa de qualidade no
género «falso desleixado». Tudo nele era falso excepto ele próprio.
(Isto pede uma clarificação: o que havia de falso no doutor - o bom doutor,
como ficou conhecido na aldeia - era o que dava a ver. Não havia qualquer
correspondência entre o que mostrava - «exportava», dizia - e o que dele não se
via. Em tempos tivera um carro, um 2Cv que transformara de forma a acolher um
motor quatro vezes mais potente do que o original. A transformação fora
perfeita, de fora nada se via. Só o mecânico que a fizera a conhecia - e
tinha-o avisado: isso não vai durar muito tempo. Durou dois anos, talvez três.
O bom doutor não era dado a precisões numéricas. Já as palavras o
entusiasmavam.)
- Se você - dirigiu-se à tremoceira por você durante alguns anos, apesar de
tratar toda a gente por tu e pedir reciprocidade - se enganar num número o erro
é total, já viu? Se escrever 908 em vez de 1908 é possível que ninguém se
aperceba do erro. Pode ser que nunca o encontre. - Olhou-a de frente e beijou-a
levemente na testa. - Mas se disser «múnero» ou «númaro» em vez de
"número" toda a gente percebe.
- Me troço - respondeu a miúda.
- Tremo, só.
- Te, moço?
- Tremo, seira, eira, beira, leira.
A tremoceira não percebia metade das palavras que ele lhe dizia, mas sabia
duas coisas: estava apaixonada por ele e ele por ela. São duas coisas
diferentes, isso sabia de experiência. O bom doutor todos os dias a acompanhava
ao mercado e todos os dias a ia buscar. No intervalo, «escrevia livros».
- Mas que escreves tu? Porque não posso ler o que escreves?
- Um dia a menina lerá.
- Estúpido. Trata-me por tu! - A rapariga não tinha perdido a sua
truculência. Domesticara-a, quando muito.
- Mas alguma vez não te tuteei?
Os diálogos eram sempre curtos. Ela tinha de digerir novos vocábulos e ele
um amor que se renovava cada vez que falava com ela. Era uma mulher orgulhosa e
não se envergonhava da sua ignorância. Usava-o como um trampolim.
- Ensinar é a coisa que fazes melhor, a seguir a foder-me.
- O terceiro lugar vai para quê?
Chama-se Marta embora o doutor, velho cinéfilo, me tivesse pedido Laura.
Marta olha o bom doutor nos olhos. Estão na casa que ele comprou poucos
meses depois de chegar à aldeia. É um edifício grande, de esquina, com dois
pisos, um terraço, um jardim grande. As portadas são azuis, as paredes
brancas. Estão no jardim, o dia acaba e como sempre no Verão da planície o calor não
se vai embora. Desliga-se, simplesmente. A aldeia é no sul do país, esteve
muito tempo sob domínio árabe e o jardim – que provavelmente não existia nesse
tempo - parece lembrá-lo. Marta tem trinta e poucos anos, não tem cultura para
perceber porque gosta tanto disto, mas gosta e tem inteligência suficiente para
saber que é melhor aproveitar a vasta sabedoria do doutor. Sobretudo, o seu gosto
em ensinar. Sobretudo, o seu amor por ela.
Com a ajuda dele, o negócio dos
tremoços prosperou. Marta e a mãe dirigem agora uma pequena equipa que os
tempera, envasa e expede para vários pontos do país. Comprou-lhe um carro para
ela poder contactar novos clientes dava-lhe um conselho aqui e ali, se via que
precisava. Se não, deixava-a aprender sozinha. O bom doutor baseava a sua
pedagogia no método de «ensinar a ver» e não no de «forçar a ver». Aspas porque
o cito.
Quando chegara à aldeia não tinha a menor
intenção de se apaixonar fosse por quem fosse. Uma pequena herança dera-lhe a
possibilidade de se reformar antecipadamente do seu trabalho de professor de literatura
francesa numa universidade da capital. Era apreciado pelos seus pares, que lhe
agradeciam a falta de ambição e não se apercebiam de quão indiferentes lhe
eram. A mulher deixara-o havia alguns anos, provavelmente devido a essa mesma
falta. Era uma senhora de boas famílias. Quando se separou comprou-lhe metade
da casa, dinheiro que ele pôs a recato. Era um homem frugal. Alugou um
apartamento pequeno, ia comer todos os dias à tasca da esquina, pagava
correctamente uma senhora que lhe fazia a limpeza da casa uma vez por semana e
a outra que também uma vez por semana (mas em dias diferentes) ia lá dormir,
«para não perder de todo a prática», explicou um dia a uma colega que lhe
perguntou como lidava com a solidão. A mulher nunca mais lhe dirigiu a palavra
para além de «bom dia» e «boa tarde», o que o satisfez pois era esse o
objectivo. Sabia que poucas semanas depois a universidade inteira pensaria que
organizava orgias em sua casa todos os dias, mas isso deixava-o indiferente. (A bem da senhora, devo dizer que o bom doutor se enganava: não disse a ninguém,
receando que alguém lhe perguntasse como é que sabia. E porque não era o género
dela, verdade seja dita.) Não gastou o dinheiro da casa todo em livros, mas ao
princípio esforçou-se bastante. Comprava livros a torto e a direito. A certa
altura parou, porque já não tinha sito para os guardar. O apartamento era
pequeno e num quarto andar, o que não ajudava. Decidiu só comprar um livro
depois de ter acabado o que estava a ler. Posteriormente, lembrou-se de que
tinha centenas de volumes não lidos e deixou de comprar livros novos. Lia
simplesmente os que tinha. «Mesmo assim, precisarei de duas vidas para os ler
todos», disse um dia à tremoceira, que nunca tinha visto tantos livros juntos
na vida, exceptuando as visitas que com a escola fizera a uma biblioteca da
capital do distrito.
- Então para que os queres?
- Para me lembrar de tudo o que não sei.
- Para isso, basta-te olhar para mim.
- Bastar-te-ia olhar para mim, minha querida. Usa o condicional.
Passava-lhe as mãos pelos cabelos, pelos seios, pelas pernas. Bebiam um
vermute no jardim, os pássaros gritavam uns aos outros para definir a posse de
um território ou para impressionar as fêmeas, a brisa fazia as folhas
mexerem-se devagar. Era mais tremer do que mexer. Marta tinha olhos verdes e
uma basta cabeleira negra. Parecia fazer parte do cenário.
- A primeira noite que dormi contigo, alguém foi dizer à minha mãe. Um
velho cá da aldeia, chamávamos-lhe Manuel da Arrifana porque no Verão ele ia
trabalhar para lá. A minha mãe zangou-se comigo. Disse-me que podias ser meu
pai e eu respondi-lhe que sim, claro: nasceste no mesmo ano do que ela. Têm a
mesma idade. A certa altura perguntei-lhe se estava com ciúmes. Não me bateu
por um triz. Talvez não te lembres, mas mudei-me para cá muito depressa. Já não
conseguia ouvi-la. Nunca te falei nisto porque estou capaz de apostar que já o
sabes. Ou pelo menos sentiste-o. E depois, no trabalho continuávamos a
entender-nos bem, ela e eu. Era só nisto da vida contigo que nos desentendíamos.
O bom doutor não disse a Marta que tinha tido uma conversa com a mãe dela.
Não dizia muitas coisas, fiel a uma máxima de Camus que o perseguia desde a
adolescência: «Um homem é mais homem pelo que cala do que pelo que diz.»
Explicara gentilmente à senhora que também ele estava surpreendido, que nunca
mais pensara apaixonar-se e muito menos por uma miúda com metade da idade dele.
Não disse que de qualquer forma não tinha muito tempo de vida, que aqueles
meses com Marta tinham sido um bónus, uma gratificação inesperada. Retirara-se
para aquela aldeia para escrever e morrer, não para amar e viver.
Marta e o doutor estão no jardim. Acaricia-a levemente, como o vento as
folhas das árvores. Foi naquela casa que passaram o confinamento. Coabitavam havia
três anos e aqueles meses tinham-lhe feito ver os limites de «coabitar»: um
habituado a estar sozinho, outra que se realizava no contacto com a clientela.
Nunca gostara de relações simbióticas e aquela convivência forçada custara-lhe
mais do que conseguia admitir; para ela, também não fora fácil: passar os dias
com uma só pessoa, ademais sempre a mesma, ia contra o âmago do que era.
Antes de morrer, o doutor queria casar-se com Marta e perguntava-se se
devia falar-lhe nisso agora que o amor deles tinha sido sacudido daquela forma.
Ter-lhe-ia o terremoto atingido os alicerces? Viviam juntos havia três anos,
talvez três e meio. O livro estava pronto. Tinha sido aceite por uma editora,
revisto e paginado. Faltava o título e escolher um pseudónimo: não queria que
as pessoas da aldeia soubessem que tinha sido ele a escrever aquilo a que injustamente
chamava «uma longa jeremiada». Durante o confinamento não fora ao médico e o
cancro que lhe roía os intestinos não parara. Perguntava-se também se lhe devia
dizer que ia morrer. Sabia que para ela o confinamento também tinha sido
difícil, que os negócios tinham retomado mas não muito, que tinha saído daquela
prova magoada. Casar-se era um acto egoísta ou, pelo contrário, ajudá-la-ia nos
trâmites de heranças, etc.? O testamento estava feito e era simples: «Deixo
tudo o que tenho e os eventuais proveitos futuros à senhora Marta Barbosa,
etc.» Tinha sido visto por um advogado, segundo o qual casar-se não alteraria
muito as coisas. Quando muito, simplificá-las-ia. O doutor lembrou-se do que
sempre pensara sobre o casamento: é um acto social, nada tem de pessoal.
«Caso-me perante os outros ou perante Deus. Para mim, estou casado com Marta
desde a primeira vez que a vi. Não preciso de papéis.»
Resolveu dizer-lhe metade.
- Marta, quero casar-me contigo. Aceitas-me?
- Sim.
Morreu três meses depois da cerimónia, sem saber que Marta tinha deixado de tomar contraceptivos e ia ser pai. Passou o último mês morfinado, deitado numa cama a definhar sem se aperceber de nada do que o rodeava. O livro foi publicado, teve um sucesso de estima e caiu no esquecimento. O miúdo chamou-se Henrique, como o pai, mas na aldeia ficou conhecido por «o filho do doutor». Era igual ao progenitor que nunca vira: alto, magro, ensimesmado, delicado e pouco dado às aparências (ou muito, consoante o ponto de vista: nada do que mostrava de si era verdade). De Marta, só sei que o negócio continuou a prosperar e que se reconciliou totalmente com a mãe. Ignoro se voltou a casar-se: uma vez esta história terminada perdi o contacto com ela. O livro chamou-se «Amar até ao fim», título escolhido pelo editor e de que o doutor não gostou, mas já não teve forças para contestar. Nunca chegou a escolher um pseudónimo e a obra apareceu com o seu nome.
16.9.20
Diário de Bordos - Lisboa, 16-09-2020
Lisboa, de «cidade branca» - apodo tolo - a «cidade triste» (injusto).
Gazeta Rural VI - OS LUGARES QUE DEIXAMOS
Pensamos muitas vezes nas cidades que já visitámos, nos países onde estivemos, naqueles aonde gostaríamos de ir. Mas quantas vezes nos lembramos dos lugares que tivemos de abandonar, voluntária ou involuntariamente? (Sim, há «ter de» voluntário: uma vez estava na Horta, na Pousada. Era o meu aniversário, tinha ido jantar com uma senhora fotógrafa e bailarina – isto é uma combinação que não se inventa – americana de ascendência açoriana, o que explica a sua presença no Faial. Não seria justo dizer que era minha namorada – tínhamos iniciado uma relação afectiva uns dias antes, semana, talvez duas – mas tão-pouco era aventura de passagem. Depois do jantar – num dos restaurantes chiques da Horta, não me lembro o nome – fomos para a Pousada. Como provavelmente sabem dá directamente para a marina. A senhora era muito bonita, morena e musculada, inteligente e culta. Às duas da manhã eu ainda não tinha adormecido, ela sim. Dormia ao meu lado, solta e feliz, os longos cabelos negros espalhados pela almofada, o ventre e as pernas musculadas da bailarina à vista, a dizerem-me: «Não me deixes.» Às duas e meia da manhã decidi que tinha de me ir embora. Vesti-me, ela acordou, expliquei-lhe que ia para Lisboa e se ela quisesse vir era bem-vinda a bordo porque ia fazer a viagem sozinho. Hesitou um pouco, disse «Não vou», combinámos encontrar-nos em Lisboa e vim-me embora. Creio que este é o melhor exemplo, se bem não seja o único, de uma pessoa querer ir-se embora porque tem de ir-se embora. «Os teus cabelos, o teu amor, o teu ventre, as tuas pernas de bailarina são um repto demasiado forte para a minha fraqueza. Vou-me embora e quando nos reencontrarmos em Lisboa estaremos em igualdade.»)
De que sítios saí, ao longo da minha
vida? Saí de Quelimane e de Lourenço Marques, sem querer. De Nakhodka, idem. De
Caracas, querendo. Detestei aquele país, hoje vejo que injustamente. De Lisboa.
La Chaux-de-Fonds, duas ou três vezes. Aveiro, onde acabara de passar um ano.
Zurique... Que horror! Ainda não estou em metade da minha vida e já deixei
metade de meio mundo. Passei a vida a deixar lugares, pessoas, vidas. Viajar,
muito mais do que chegar a qualquer lado é largar desse lugar, seja ao fim de
quatro meses seja depois de mil sonhos. Como quando larguei dos Açores pela
última vez, desta vez de avião, parecia que deixava para trás uma tonelada de
basalto que trazia agarrada às costas. O meu barco chegou depois, chamava-se
Don Vivo e ficou arrestado na marina de Vilamoura por causa de um polícia
marítimo maldoso. Havia muitos, nesses longínquos anos oitenta.
De onde é que já
saí? De Maputo, mas ainda é cedo para pensar nisso. De Bocas del Toro –
larguei, voltei a entrar, voltei a largar e ainda hoje penso no Palmar Tent
Lodge onde ia todos os dias ao fim da tarde beber um rum punch e ver o
mar numa das praias mais bonitas que me foi dado ver. (Não sou grande
apreciador de praia, por isso dizer que aquela praia está ao nível da de
Salines, na Martinique ou das do Parque Nacional Manuel António, na Costa Rica,
ou daquela onde ia nas Filipinas, não recordo o nome, é dizer muito.)
Deixei Genebra aos bocadinhos, levei
quase dois anos a mudar-me para Cascais – daqui a dias estarei ali de novo, o
que me leva a pensar no que é «deixar um sítio», partir. Alguma vez partimos,
verdadeiramente? Onde é que ia, antes deste desvio todo? Zurique. Nunca mais
ali voltei. Morava na Niederdorf, no centro do centro. O apartamento ficava por
cima de uma boutique da moda, que não tinha cabines para as senhoras mudarem de
roupa. Quando saía para ir trabalhar – trabalhava nas limpezas, para um
refugiado político checoslovaco que só não me surpreendeu porque já tinha
estado na Rússia Soviética. O homem conhecia o conceito de exploração até ao
fundo e levava-o a sério - via as
senhoras na boutique a mudar de roupa no meio da loja, visão abençoada naquele
tempo em que ninguém usava soutien. Limpava bancos (literal, não
metaforicamente). Um dos que limpava tinha uma quantidade que me parecia
ilimitada de obras do Christo e ali me familiarizei com as obras deste
artista.
Outra cidade que deixei várias vezes e
nunca deixei foi S. Luís do Maranhão, onde ainda hoje um bocadinho de mim se
passeia pelas ruas e ao fim da tarde vai beber uma cerveja ao Mercado do Peixe,
ver o decote da Jeny e trocar com ela sorrisos de entendido: «Este decote serve
para vender cervejas», diz-me. «Eu sei, Jeny». Falávamos sem trocar uma só
palavra. (Não sei de onde vem este gosto pelo entendimento tácito. Suponho que
seja a noção de pertença a um grupo. Esta grande fraternidade de pessoas que
não se conhecem, mas conhecem as mesmas coisas, viveram as mesmas situações,
passaram pelo mesmo e sabem que hoje sou eu e amanhã és tu e depois de amanhã
será outro e é para isso que estamos cá.)
Deixei Antigua, aonde espero nunca
mais voltar; Bequia, onde quero voltar para morrer. Deixei St. Martin, ilha
mágica porque mistura tudo o que as outras são. Deixei Jost van Dyke vezes de
mais porque ali se bebe o melhor
cocktail do mundo – chama-se Painkiller e é o único cocktail que conheço cujo
nome corresponde à realidade. Deixei Bitter End, fim amargo de tudo o que de
bom aquelas ilhas têm. Deixei o Burundi, vencedor vencido e o Zaire, vencido
mas revoltado. Deixei Kindu, uma evacuação como aquelas que se vêem nos filmes,
soldados armados por todo o lado, o avião a parar para me deixar entrar, uma
mãe a ter de escolher qual dos filhos a acompanharia na fuga.
As
partidas marcam mais do que as chegadas, com a possível excepção de Bequia
(pronuncia-se Béqüei) porque ali mal cheguei e pela segunda vez na vida vi o
lugar onde quero morrer (o primeiro é praticamente inacessível. Chama-se
península de Burton e fica na margem oeste do lago Tanganica. Não se pode
querer morrer num lugar ao qual não se pode voltar). A Bequia quero voltar,
todos os marinheiros querem. Richard Dey escreveu as coisas mais bonitas que há
sobre esta ilha. Não tenho o livro comigo, mas é de lá que vem aquele verso que
não me deixa: «I know them. I am one of them.»
Já deixei mais sítios do que aqueles a
que cheguei: a matemática das viagens não é algébrica, é alquímica.
15.9.20
Libertação, músicas
Comparada com a música medieval, a renascentista é tão mais leve. Não há que admirar: O homem libertou-se de Deus.
Ou ao contrário, vá saber-se.
12.9.20
Negacionismos
11.9.20
Poemas para Rute
Se assim me deito em ti sem ti aqui, imagina como me deitaria em ti se aqui estivesses. Ah!!! Que festa seria, tu aqui e eu ao lado, tu ali e eu a ver-te, tu deitada e eu também.
Absurdo?
10.9.20
Notas
A irracionalidade devasta-me não por si-própria mas porque está invariavelmente - ou pelo menos na maioria das vezes - associada à maldade.
A estupidez é maldosa. O estúpido bom não é estúpido; é tolo, o que é diferente.
9.9.20
Tempo, aldeias
Em nenhum lugar do mundo o ridículo da modernidade é mais exposto do que numa aldeia pequena. Numa cidade grande dilui-se, há muitas tribos. Numa aldeia, um carrapito pequeno e de mau gosto transforma-se num farol grotesco, uma saia demasiado à la mode uma marca de desfazamento, uma tatuagem demasiado visível sintoma de deslocalização. De certa forma é uma injustiça, claro: por algum lado há-de o tempo chegar ao campo. Só é pena é que a sua ponta-de-lança seja o ridículo.
Espelhos
Das coisas que não sendo foram ou serão, das que foram não são e nunca mais serão, das outras, resta-me a lembrança da tua pele, dos teus olhos, das tuas mãos, do teu ventre. As coisas que não sendo são matéria de memória, olfacto das noites, alimento de amanhã. "Ya todo está" . "Solo una cosa no hay: es el olvido". "Os reflexos do teu rosto no espelho". Tu em mim. Não há espelho que reflicta isto: os espelhos não têm tempo.
Tempo é coisa da vida, coisa de sábio sofrido (passa-me o pleonasmo, passas?) Um dia inventarei um espelho ao retardador, só para ti. E pôr-me-ei nele como me ponho em ti: todos os dias, todas as memórias, para sempre.
O que não sei
Nunca sei por onde começar a escrever: o mundo ou eu? O exterior ou o interior? Tu na praia dali ou eu na praia de mim? Onde acabo e começa o resto? Da esponja vê-se onde acaba e começa, é fácil, tem cores. Eu não. O mundo entra por mim e eu por ele, como este copo de vinho que agora bebo e é tanto eu como eu sou ele, ou este disco da Nico, Desertshore, que entra por mim e pela noite de Mértola.
My only child
...
Man and wife are feasting the time
The time that lies behind
At home in sweetness and delight
Drinking the bitter wine
Their hands are old
Their faces cold
Their bodies close to freezing
Their feelings find
...
Afraid
Cease to know or to tell
Or to see or to be your own
Cease to know or to tell
Or to see or to be your own
Have someone else's will as your own
Have someone else's will as your own
....
All that is my own
Your winding winds stood so
All that is my own
Where land and water meet
Where on my soul I sit upon my bed
Your ways have led me to bleed
Não sei. Digo «não sei» muitas vezes, eu sei. Não é um bordão: a verdade é que não sei a maior parte das coisas, por muito que queira escrever sobre elas.
Antes escrever sobre aquilo que não sei: tudo. Eu e o resto.
8.9.20
Da repetabilidade da história
Daqui a mil anos, a nossa reacção ao vírus vai ser vista como hoje olhamos para as práticas da Idade Média.
(Não serão mil anos. Aposto que cem chegarão. O tempo acelerou.)
7.9.20
Praia
Não fazer nada é uma actividade que nunca me atraiu. Canso-me depressa de não ter nada que fazer. Porém, acabo de passar alguns dias no Porto com a missão clara e específica de ficar quieto - os mais realistas dir-me-ão que isso é fazer alguma coisa - e consegui. Aqui em Mértola a missão é diferente, mas envolve também uma grande dose de inactividade. A ver como me saio. A julgar pelo primeiro dia não vai ser muito fácil. Estou a sessenta quilómetros do mar, o que é simultaneamente muito e pouco.
Quero ir à praia.
Escrever rios
A escrita deve ser límpida, cristalina, sem vírgulas a mais nem pontuação exagerada. Pontos e vírgulas são como meandros de um rio de planície: impedem-te de lhe seguir o curso. Escreve clara e linearmente, como um rio de montanha. Se tiveres alguma coisa a dizer ver-se-á imediatamente, no primeiro lago a seguir à primeira cascata. Se não, perder-te-ás num areal qualquer, sem força para chegares ao mar.
Ode a Rute
Tenho ainda calosas as mãos, mulher. Mas não é de cabos, é da vida. Falta-lhes a tua pele e sem ela não há pele que resista.
Doze mil
Doze mil posts no DV. Efeméride: doze mil disparates celebram-se. Com Balanches tinto e medronho. Assim ganhamos peso ao mesmo tempo, o blogue e eu.
Pecados mortais
Venho almoçar ao Tamuje. Sopa de tomate. Está sublime, claro, inútil é dizê-lo, mas não consigo acabá-la, fica mais de metade.
Decidi que vou parar de engordar à custa da comida. Agora, só o vinho e o medronho me farão ganhar peso. O que sobra vai para casa: deitar fora comida desta é pecado mortal.
Reedição - À ròla do mar
Os marinheiros não morrem: entregam-se um dia em que a pistola do capitão não tenha balas e mais valha folgar do que andar à ròla do mar."
«É tão longe pedir»
O poema chama-se Mendiga Voz e vem a propósito, ainda que por vias travessas, de uma conversa que tive hoje com a minha irmã R.. É de Alejandra Pizarnik e dou-o aqui na versão traduzida por Alberto Augusto Miranda. Vem numa pequena antologia da editora O Correio dos Navios, nome que por si só me faria gostar da obra. Felizmente há mais: as traduções são óptimas (o traditore não inventa) e a selecção de poemas também - tendo presente que a antologia é verdadeiramente curta.
«E ainda me atrevo a amar
O som da luz numa hora morta
A cor do tempo num muro abandonado.
No meu olhar perdi tudo.
É tão longe pedir. Tão perto saber que não há.»
Rute, rente ao mar
É rente ao mar, Rute, que te vejo em mim e eu em ti. Rute é palavra de sempre, não acaba nem começa, palavra telúrica, vem do pangea, significava amor quando foi inventada e hoje também: amor de mar, amor infinito, amor de linha de horizonte, amor de calma e de tempestade, amor de chegar e de partir. Tens os olhos da cor do mar e os cabelos da do Sol, o sorriso da matéria dos dias e o olhar do brilho da noite. Queres melhor prova do que te digo, Rute rente ao mar e rente ao céu, rente ao amor e à alegria, rente ao mundo e à vida?
Em ti me perdi, Rute e sem ti me perco. Como navegar num mar sem ti, sem ti no mar? Como respirar sem o ar que és e me dás a respirar, ver sem os teus olhos, falar sem os teus lábios nos meus? Diz-me como, Rute e eu rente às palavras obedecerei, a elas me dobrarei.
Não digas, Rute. Rente ao silêncio te quero, nos quero.
6.9.20
Cannery Row
Por muito romântico que pareça, por muito apelativo que seja para jovens em busca de alma ou aprendizes de monge em busca do desapego, não ter dinheiro é uma chatice. Complica tudo - mais do que a falta de jeito, a inabilidade fatal ou a falta de um ouvido. O menor e mais banal dos actos vê-se comprometido, exige o triplo do tempo e o quádruplo do trabalho, esmifra a paciência do pobre e de quem o rodeia.
Pobre? Só em Cannery Row e de vez em quando.
Até amanhã
O périplo pelo Norte acabou. Em termos de vendas de livros não foi propriamente brilhante. Vai ser preciso mudar da estratégia. Contudo, em muitas outras coisas foi maravilhoso: descansei. Descansei física e mentalmente. A dor na anca atenuou-se bastante e a cabeça parece o quarto de um adolescente depois de a mãe lá ter passado: ainda cheia, mas pelo menos com cada coisa no seu lugar. Esperam-me uma dúzia de dias em Mértola: aposto que o quarto vai ficar vazio. Revi Guimarães, cidade exemplar porque está recuperada e não é uma caixa de bonbons, como Óbidos, exemplo. Nada naquele centro histórico enjoa. Conheci pessoas que gostei de conhecer, pessoas em que vejo aquilo que nós portugueses temos de bom, em quem me revejo: a hospitalidade, a abertura de espírito, a tolerância, a generosidade. Vi os meus textos fugirem da caixa, lidos por uma sublime leitora (acresce que a selecção foi estupenda). Confirmei que as amizades aparecem e crescem onde menos se espera.
Confirmei, sobretudo, aquilo de que há muito suspeito: a minha vida é a minha melhor obra de arte, não a trocaria por nenhuma outra, é uma obra que não cabe num museu e que, quando eu morrer, continuará nos livros, no DV, na memória de quem me conheceu. Os momentos de sofrimento por que passei - tantos! - equilibram-se muito bem com os de exaltação - ditto - e agora, que a obra se aproxima do fim, entrou na recta final, tudo se equilibra, tudo cai no sítio e mostra a sua intrínseca claridade, a sua indomável liberdade.
Dei este nome ao blogue para homenagear um dos barcos de que mais gostei - e porque não quis perder muito tempo à procura, verdade seja dita. Vejo agora que só o trocaria por outro, muito parecido: Dona Vida.
Estou cansado, mas é um cansaço límpido, honesto, daqueles que se resolvem com uma boa noite de sono. Que venham muitos assim. Até amanhã.
4.9.20
A cidade e os livros
Se uma cidade que visitamos se define em função dos livros que nela compramos - e não das mulheres que nela conhecemos, etc., - como definir Guimarães:
- Raymond Chandler, O imenso adeus, ed. Livros do Brasil;
- Damião Peres, História dos Descobrimentos Portugueses, ed. Vertente;
- Obras completas de S. Francisco Xavier, ed. ... daqui a bocadinho, o livro está na mochila.
Livro de estilo, saltério
"Se orarem com palavras, serão muito poucas; na verdade, quanto menos, melhor! E se empregarem um curto monossílabo, julgo que será melhor do que um dissílabo e estará mais de acordo com o trabalho do espírito..."
...
"Um monossílabo dito assim penetra mais depressa os ouvidos de Deus omnipotente do que um longo saltério distraidamente engrolado por entre os dentes."
O fétido cheiro do pecado
"Enquanto viveres neste mundo miserável, nunca deixarás de sentir de alguma forma um fétido e asqueroso bloco de pecado como que unido e misturado com a substância do teu ser. Por isso, deves alternar entre estas duas palavras - "pecado" e "Deus" - tendo sempre em mente a seguinte noção geral: se possuísses a Deus, não terias pecado, e se fosse possível não ter pecado, estarias na posse se Deus."
In A nuvem do não-saber
Geografia, felicidade
Regresso a um lugar que já conheço, no qual sou um estranho e pergunto-me quantos há assim por esse mundo fora? Ou melhor: onde é que não sou estrangeiro? Lisboa, Genebra, Palma, Mértola? O que é ser estrangeiro? Intuitivamente, retiro as duas últimas da lista. Em Quelimane e Maputo sou, sem sombra de dúvida. O que é ser estrangeiro? Em Maputo vivi provavelmente os dois piores anos da minha vida e sabe Deus se ela os tem maus.
A felicidade é coisa de velhos e de palermas, escrevi recentemente. Hoje acrescentaria "adolescentes", mas esses estão implícitos nos palermas, mais coisa menos coisa. Não interessa, mais vale diferenciá-los.
A felicidade é coisa de velhos, palermas e adolescentes. Confessemos que não fica muita gente de fora.
Eu não fico, seja onde for.
3.9.20
A ordem das coisas
"Desta forma se verifica que tanto os principiantes como os discípulos mais adiantados só poderão meditar como convém se primeiro lerem ou escutarem; e só poderão orar como convém se primeiro meditarem."
In A nuvem do não-saber
"Dos estratagemas espirituais..."
"...Mas há ainda outro estratagema. Experimenta-o, se quiseres. Quando sentires que não te é possível de modo nenhum combater os pensamentos, cai prostrado diante deles, como um pobre cobarde vencido em batalha, e considera que seria loucura lutar mais tempo contra eles. ... E importa que te sintas como se tivesses perdido para sempre. Rogo-te que prestes muita atenção a este estratagema, pois julgo que ao experimentá-lo devias liquefazer-te completamente. Não há dúvida, penso eu, de que este estratagema, compreendido com subtileza, não é outra outra coisa senão a consciência de ti mesmo, tal como és realmente: um ser miserável e imundo, bem pior do que nada. Uma tal consciência é humildade."
In A nuvem do não saber, ed. Sistema Solar, autor anónimo.
À ròla da esperança
À ròla. Não do mar mas da esperança, vagas desencontradas, mar caótico. As vagas vêm de todos os lados, umas levantam-me, outras puxam-me para o fundo. E eu nado, à ròla da esperança, à rola da força que me dá saber que para o fundo não irei.
A menos que queira, claro.
2.9.20
Diário de Bordos - Porto, 02-09-2020
O bar Aduela, que à noite tem uma equipe impecável a trabalhar, tem à tarde uma colecção de trastes a quem estou infinitamente grato. Não teria vontade nenhuma de escrever, não fora tanta idiotice junta. Acabo de perguntar à empregada de mesa a que horas mudam o turno. Não me pode dizer, responde. É segredo. Isto vem, é verdade, no seguimento de um diferendo sobre a máscara (hoje) e outro sobre eu ter trazido uma garrafa de LBV Warres (de 2007, não sou especialista mas creio que é um ano bastante para lá do aceitável) ontem. A rapariga - uma sujeita provavelmente descontente consigo própria e portanto com o mundo - resolveu embicar comigo.
Queria fazer o livestream aqui mas não o vou fazer. Estará demasiado barulho e a esta não poderei nem dizer que está bom tempo. O miúdo da noite é mais simpático e vivo. E o outro, o mais velho, também. Raio da Covid vei dar cabo disto tudo. Aposto que se não fosse a máscara - as máscaras, todas, a minha e a de toda a gente - o chaço que me traz os copos de rosé estaria mais sorridente e seria menos chaço.
Não há mulheres feias, há mulheres que não querem ser bonitas. É diferente.
........
A chuva continua a não chover, parafraseando os meus (dos meus pais) empregados em Moçambique. Se bem eles usassem mais vezes a positiva: «A chuva está a chover». Sobretudo em Quelimane, onde chovia a rodos.
São chuvas diferentes, eles perceberão.
.......
Saio do hotel e tenho a acolher-me o calor da praça, a esplanada do bar Tarrantino, a pressão no ventre (não quis ficar sozinho no quarto, malandro) e a tensão na cabeça (ditto). Bebo um fino ou dois, venho ao Aduela buscar material e motivação e volto para o Tarrantino, almoçar. É possível viajar num guardanapo, se se quiser e souber.
........
Por causa desta porra deste virus vou ter de refazer uma grande parte do edífício teórico que tenho habitado ao longo destes anos. Já os putos do Aduela não: incompetentes e idiotas a trabalhar ao lado de gente que é o contrário disso sempre houve. Continuarei a vir aqui e eles a trabalhar, a corrente entre nós a não passar ou a passar, consoante as horas.
Continuarei do lado de fora da cerca, a invejar os que estão dentro e a lamentá-los, continuarei a ser feliz e triste, arrogante e humilde, a escrever disparates e a disparatar sem escrever: o edifício teórico que habitamos é bem pouca coisa.
A menos que se encha de gente, claro. Mas disso não será amanhã a véspera.
Múmia, espera
O remédio é simples: tenta-se aconchegar a ansiedade em meia dúzia de cobertores, fica-se quieto, separa-se o ventre do resto do corpo e não se pensa mais nele. Isto feito, faz-se o mesmo com o cérebro: deixamo-lo a falar sozinho ou, na melhor das hipóteses, com o ventre, já que estão os dois desligados.
Depois espera-se, feito múmia.
OS VINHOS QUE NOS DÃO
Que fazemos com os vinhos que nos Dão? Bebemo-los, partilhamo-los, damo-los e – sobretudo – agradecemo-los. Agradecemo-los a quem no-los deu, a quem os fez, a quem os partilha connosco, prova-rainha de amizade. Sem desprimor, não é em torno de um copo de leite ou de água que se selam amores, amizades, projectos, futuros comuns, que nos reconciliamos com amigos desavindos ou reatamos laços familiares há muito quebrados.
Se os vinhos que nos dão vêm do Dão, o agradecimento deve ser feito a dobrar, porque os vinhos do Dão têm todas as características de um bom vinho, a dobrar. Além disso, atraem uma classe especial de pessoas para os fazer. Ou melhor, continuam a atrair: os que sabem fazer vinho. Quando em Portugal havia meia dúzia de marcas, a que sobressaía era o Grão-Vasco (pelo menos para um jovem recém-regressado de Moçambique e que de vinho só conhecia a palavra). A minha descoberta do vinho foi uma exploração metódica pelas várias regiões de Portugal – e mais tarde de França – mas desde cedo fixei a preferência nos vinhos do Dão. Há tempos escrevi porquê: gosto de vinhos e de mulheres que deixam um rasto quando passam por mim. Os vinhos do Dão deixam marcas, deixam traços, deixam – como tantas mulheres – uma irresistível vontade de voltar a eles, de não os deixar. E não nos deixam a memória.
Adstringentes ma non troppo, encorpados sem se parecerem com blocos de granito líquido, equilibrados e a saber a uvas – é o que procuro num vinho, não é sabor a morangos, bananas, coiro velho ou alicates de pressão – os vinhos do Dão equilibram doçura e carácter, sabem persuadir pela inteligência e não pelo força, sabem unir quem os partilha porque foram feitos para isso – unir.
Há tempos ofereceram-me três garrafas de vinhos do Dão: uma de Touriga Nacional, uma de Encruzado e outra de Clarete. A primeira foi oferecida a um irmão, as duas últimas partilhadas com uma senhora e muitos amigos que ocupam no meu planisfério de afectos uma área muito grande. É o destino correcto a dar aos vinhos do Dão que nos dão: abrir o mapa-mundo do afecto, escolher as áreas mais vastas e profundas e deixá-los lá.
Vivo no estrangeiro e quando dou jantares em casa é sempre aos vinhos do Dão que dou prioridade na hora de escolher os vinhos. Nem sempre é fácil encontrá-los, ou encontrar os que se adequam ao que vou cozinhar (se bem me aconteça muitas vezes adaptar o menu ao vinho que tenho disponível). Muito mais do que qualquer outra região portuguesa –as outras que me perdoem – penso que é a do Dão que melhor representa as características portuguesas, as características do vinho português. Ou seja: o vinho que nos Dão não se limita a Portugal: devemos dá-lo, bebê-lo, partilhá-lo e apreciá-lo nos sete cantos do mundo.
Não quero neste artigo citar marcas, pela razão simples e irrefutável de que a) não sou um especialista, sou um amador. As minhas impressões não passariam disso mesmo: impressões subjectivas, modeladas tanto pela memória como pelos sentimentos e b) seria incapaz de me lembrar deles todos. São muitos, uns melhores outros piores mas nenhum mau.
Os vinhos que o Dão nos dá são nobres. Trazem neles a nobreza das gentes que os fazem, das terras – tão belas - onde crescem, enobrecem quem os bebe e por isso devemos agradecer-lhes.
Porto, 30-08-2020
1.9.20
Interrogação, palmatória
O grande mistério, sem ironia nenhuma, é: porque estão os governos da Europa quase todos a prolongar a palhaçada em vez de lhe ir pondo fim paulatinamente? Não acredito em conspirações, nem em que sejam estúpidos, mal-intencionados, o que for. Para erro, parece-me gigantesco de mais - afinal os políticos estarão na linha da frente quando os tiros (metafóricos, apresso-me a esclarecer) começarem.
Durante algum tempo acreditei que era simples estratégia: é preciso fazer as pessoas acreditar que o Apocalipse estava à porta, o Armagedão ao virar da esquina, para justificar o descalabro económico que aí vem. Mas as pessoas já estão convencidas, demasiado, mesmo. Para quê prolongar?
Será que não acreditam que é possível contrariar os media? Estamos a ser governados pelos jornalistas por políticos interpostos? Em todo o lado ao mesmo tempo?
Não sei. Não faço ideia. Venha a festa, ver se se consegue abrir os olhos a meia dúzia deles.
(Se as mortes aumentarem significativamente a partir de finais de Setembro serei o primeiro a dar as mãos à palmatória.)
AQUILO QUE NUNCA TE DEIXA
Não sei onde começa esta história – se no bar Aduela, no Porto, se em Milão, frente à embaixada do Brasil, onde Paola trabalhava. Nunca se sabe bem onde começam as histórias, onde – se – acabam. Não se sabe nunca sequer onde começam. Espero contudo que não seja no Aduela, onde os empregados são de uma juventude e ignorância confrangedoras. Sei lidar com a juventude, apesar da minha idade avançada; mas não com a ignorância. Consequência decerto do meu apreço pelo ensino, por aquilo a que chamo a minha “tentação pedagógica”. Gosto de ensinar tanto quanto de aprender. Por isso chego ao fim da vida e todos me detestam: tenho sempre uma resposta na ponta da língua para todas as questões, fundamentada, com as fontes à mão para quem se lembrar de mas pedir. A ignorância dos empregados do bar Aduela é compreensível: o que eu lhes peço não faz parte do passado deles. O passado individualizou-se, deixou de ser colectivo. No meu tempo – detestável expressão – toda a gente sabia o que era uma “rolha”: é aquilo que se paga quando se leva uma garrafa para um bar. Estes não sabem. Também não sabem o que é um LBV, coisa que no Porto é particularmente dolorosa.
Quando fui ter com Paola a Milão tão pouco sabia muitas coisas. Começa logo por não saber que ia ter com ela. Não sabia sequer que ia para Milão, antes de chegar ao aeroporto. Só me lembrei no avião. Paola é brasileira, o pai diplomata e desde que acabou a faculdade trabalha no corpo diplomático brasileiro. É uma rapariga bonita, alta e magra, muito doce, suave, terna. Foi a ela que dei o meu primeiro beijo, nos cimos de Carcavelos. Eu estava de costas para o mar, ela de frente, depois mexemo-nos, sei porque de repente abri os olhos e vi o mar lá ao fundo, ao lado da cabeça dela. Dei milhares de beijos desde esse dia, mas este foi o primeiro e não me esqueço dele, nunca esquecerei. Isto da memória tem que se lhe diga: um dia esquecerei a ignorância dos putos do Aduela; nunca esquecerei a minha e a de Paola naquele dia - mais tarde confessou-me que foi o primeiro beijo para ela também.
Éramos muito novos, duas crianças recém-saídas da adolescência, ela ligeiramente mais velha do que eu, poucos meses. Quando cheguei a Milão já tínhamos vivido juntos uns meses, em Lisboa, numa casa do pai dela. Só ocasionalmente nos visitava, estava colocado não sei onde. Todas as minhas relações têm ausência nelas, como alguns detergentes têm lixívia ou os vinhos taninos: estão lá, não se vêem, sentem-se, são dispensáveis (para alguns. Para mim não são). Aterrei no aeroporto, roubaram-me uma das carteiras, fui à embaixada, ela estava de folga, tive de esperar que lhe telefonassem, ela disse-lhes que sim, podiam dar-me a morada, meti-me num táxi, fui a casa dela. Era de manhã, tinha acabado de acordar, voltámos a deitar-nos, amámo-nos como se nos tivéssemos deixado na véspera e arrependido um de nós (provavelmente eu) tivesse voltado atrás. Há ausências assim, colam-se-nos à pele, não nos largam, ficam presentes. Fazem parte de nós: sou a soma de todas as ausências que me fizeram.
Paola está deitada ao meu lado. Acabo de desembarcar de um avião, cansado e cheio de sono, mas tenho dezanove anos e aquele ventre liso, duro não me deixa dormir. Sou feliz, mas nessa idade não se pensa na felicidade, pois não? A felicidade é coisa de velhos e de palermas. Os jovens seguros de si não pensam nela, tal como estes idiotas da Aduela não querem perceber o que é uma “rolha”, não lhes passa sequer pela cabeça perguntar, têm um poder em miniatura na cabeça a despontar e não o querem interromper. Com a idade deles não era assim, mas quem era? Quem se importa com isso? Na idade deles nada era como eles, porque se fosse o mundo não teria avançado, mudado, «progredido» (entre aspas porque é irónico). A idiotice não progride – não é curiosa, não pergunta – mas o mundo não é idiota. Só partes dele o são. Paola era uma mulher inteligente, muito culta, gostava de ir passear com ela pelas ruas de Milão. Vimos juntos a Última Ceia, com a porta que os frades abriram porque nessa altura o Leonardo era só um pintor e não aquilo que o tempo fez dele.
A ausência, estúpido. É disso que se trata aqui, da ausência. Nunca mais viste Paola, voltaste a Milão mas não foste à Igreja de Santa Maria delle Grazie, não te lembras de onde ela vivia, não queres lembrar-te de nada, nem mesmo daquele ventre liso e duro que não te larga a memória. Como se a ausência pudesse dividir-se em partes distintas: Paola, o ventre de Paola, os beijos de Paola, a ternura de Paola. A ausência é isso: faltarem-nos peças e não a peça. Quando nos falta a pessoa toda não lhe sentimos a ausência. Ou o lugar. Milão falta-me porque quero voltar a ir ver a Última Ceia, quero voltar a comer gelados na Galeria Vittorio Emanuele II, quero rever a ragazza bonita pobre e nervosa que um dia me pediu dinheiro, teria talvez oito, dez anos, devia ser para comprar cola, não lho dei porque com o roubo da carteira no aeroporto também eu tinha ficado desfalcado. Milão está ausente porque me ficaram estes fragmentos: sem eles, que seria dela? Do Duomo, essa coisa que me deixou boquiaberto porque pela primeira vez percebi o que o Ferreira queria dizer com «para onde tendem as catedrais». Percebi na carne, quero dizer, no corpo todo, na alma.
Paola falta-me hoje tanto quanto me falta há quarenta anos, porque nunca me deixou. A ausência é isso, não é? Aquilo que nunca te deixa.
Porto, 01-09-2020
(Para a M. H. B., com um beijo que nunca me deixa.)
Educação
A miúda que serve no Aduela (vinte e poucos) não sabe o que é um LBV.
Para onde vai a Educação neste país?
Sílabas, simplicidade
No fundo, trata-se apenas de exprimir a complexidade e a beleza da vida com um mínimo de pentassílabos.
Não é fácil: quanto menos sílabas mais trabalho.