30.11.20

Diário de Bordos - Lisboa, 30-11-2020

No curto espaço de um dia aprendi duas novas palavras. Kuchisabichii e hasselback. Têm uma relação longínqua - ambas têm a ver com comida - e outra mais próxima: chegam-me as duas via Facebook, de duas pessoas que não conheço pessoalmente mas de quem aprecio a companhia facebookiana (e a quem agradeço, claro, o ensino). Ambas são evidentes, aquela evidência que nos leva a exclamar «Como não pensei nisto antes?». A resposta é fácil: não pensaste nisso antes porque não és japonês (para uma) nem cozinheiro (a outra). E ambas têm um charme obscuro, quase imperceptível. Tão leve que não se pode exprimir e muito menos explicar. 

Kuchisabichii significa «Nâo ter fome, mas comer porque a tua boca se sente sozinha». Hasselback é uma receita de batatas no forno que está neste momento a ser posta em prática na cozinha: talhar as batatas em rodelas finas mas sem as cortar até ao fim (isto é, ficam mais ou menos como um acordeão), pincelá-las com manteiga de cebolinho, levá-las ao forno num prato adequado com um fundo de azeite, dois ou três dentes de alho, alecrim e sal. Ainda não as provei, mas aposto o meu próximo salário em como vão ficar boas (se perder, de qualquer foma só tenho de pagar a aposta daqui a cinquenta anos). 

As ditas batatas vão acompanhar uns escalopes que no momento da compra tinham uma vocação de saltimbocca alla romana, mas agora se transformaram simplesmente em escalopes mal passados. Tal é a força das coisas. 

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Aviso à navegação: encontrei fenogrego na casa Popat, ao centro comercial da Mouraria. Não hesitem em utilizá-lo para um bocadinho de vinho quente, não se perde nada. 

Antes pelo contrário.

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Fui buscar a bicicleta e no caminho para casa parei na Ginginha. Pela primeira vez em décadas era o único cliente. Único. Um. «Lisboa, cidade triste» daria um belíssimo título para um documentário que alegraria, sem dúvida, os que reclamavam contra os turistas. É tão melhor assim, não é? Desespero antes da miséria. 

Assim se compreende melhor o conceito de «inteligência concreta» dos psicólogos: a malta que defende estas «medidas», incapaz de pensamento abstracto, só reage perante os números que a comunicação social lhe fornece. Os números da miséria que aí vem, mas que as televisões e os jornais escondem, são demasiado etéreos, suponho.

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A música de Hildegarde von Bingen atravessou séculos intacta, poderosa como sempre foi, encantatória, abissal. As feministas modernas enganam-se: o feminismo existe há séculos. Só que antigamente chamava-se talento. A moderna voracidade lexical trocou-lhe o nome e rebaixou-lhe a exigência.

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Adenda: o meu próximo salário bem pode estar descansado. Ninguém lhe vai tocar. As batatas Hasselback são uma maravilha. Agora basta afinar um pouco as ervas, é tudo. Ou nada: nada há a mudar. 

29.11.20

Método, prospectiva

Apliquemos ao passado a metodologia da prospectiva.

É a vida, só

Esta coisa de andar à pancada com a vida tem que se lhe diga. Ela nunca cai. Nós sim. Depois levantamo-nos. Vencer é simplesmente estar de pé. Quando caímos, perdemos - até voltarmos a ganhar. Ela nunca cai, nunca se levanta. Nem quando morremos ela se mexe.

Não é uma luta, estúpido. É a vida, só. 

28.11.20

Irra!

«A única coisa de que tenho vontade é de não ter vontade de nada.»

O senhor sempre acreditou na ascenção social. Agora vê-se confrontado com uma descida. «Brilhante fim de vida», pensa. «Poucos se podem orgulhar de falhar tão espectacularmente a classe social na qual lhes foi dado nascer. É quase uma traição», diz às paredes que o rodeiam - que, apercebe-se subitamente, não podiam ser mais classe média. «Até a desclassificação falho. Irra!»

27.11.20

Reaccionários

Dois reaccionários reencontram-se ao fim de quarenta anos. "Reencontram-se" é inexacto: na verdade cruzaram-se, mas não se conheciam. E "reaccionários" também: pertencem a bordos políticos opostos. O que os une é serem decentes, crerem na essência das coisas. Vêem, é certo, essas coisas de forma diferente mas ambos acreditam no que as sustenta: nos valores, quaisquer que eles sejam. Nos sentimentos, nas emoções, nos sonhos, tão distintos da política. No trabalho. Na importância de se fazer bem o que se faz, incluindo rir-se de si próprios. Na nobreza que nasce e não na que vem de trás. A política é um epifenómeno do fenómeno que é Ser.

26.11.20

Panem et circenses

Morreu um futebolista qualquer. Enfim, qualquer não era decerto, pois até o senhor lhe conhecia o nome. Chamava-se Maradona. Parece que jogava muito bem. As sociedades sempre precisaram de heróis que não as pusessem em causa. Entretenimento puro, simples, directo, leve. Dar uns pontapés numa bola não ameaça ninguèm, não põe uma sociedade em causa - antes pelo contrário. Serve de escapatória, como as faixas para camiões nas descidas das autoestradas; com a diferença de que estas raramente são usadas e o futebol é todos os dias, pelo menos a julgar pelas televisões nos cafés. 

Na Roma antiga estes heróis eram os gladiadores. O senhor detesta violência - ainda hoje é incapaz de ver meio minuto de boxe - mas pergunta-se se não terá mais valor arriscar a vida para manter de pé a organização social. Meter uma bola numa baliza está a léguas de enfiar uma espada num corpo - ou arriscar-se a levar com uma.

Talvez seja a isso que se chama civilização: adoucissement des moeurs. Houve progresso? O senhor não sabe. Os princípios são os mesmos, o que mudou foram os recipientes.

Via Dolorosa

Podia começar por dizer. «hoje bebi o melhor Pisco sour da minha vida.» Seria absolutamente verdade, mas insuficiente: também bebi o melhor pisco da minha vida e - sobretudo - comi o melhor ceviche da minha vida. Três vidas, um restaurante: chama-se Qosco, fica em Lisboa na Rua dos Bacalhoeiros e, por Viracocha*, acorram, depressa, urgentemente. O tarifário é acessível - até para um marinheiro longe de casa e em maré baixa - e não exagero: o ceviche era bastante melhor do que o meu. Reconheço-o com orgulho. É como ser batido pelo Mike Tyson num combate de boxe: não é vergonha nenhuma. 

Os meus amigos brasileiros, sobretudo os baianos, que me perdoem mas a comida peruana é indubitavelmente a melhor da América do Sul. O Qosco é a prova disso.

*Viracocha, acabo de aprender, é o deus inca que criou o «o céu, a terra, o oceano, o sol, a lua e a primeira raça que habitou o lago Titicaca». Mama Kilya, a sua companheira deusa da Lua, também merece ser invocada: o nome bonito é sedutor para um selenita como eu.  

24.11.20

Intersecções, troco

Intersecções: se fores para a esquerda morres de uma coisa qualquer; se fores para a direita morres também, mas de outra coisa. Na dúvida, escolhes as duas. Vais primeiro para a esquerda, depois para a direita. Morres atropelado primeiro e do coração depois, por exemplo, um pouco à imagem do pão que se coze duas vezes para durar mais. A única morte que recusas é o afogamento: como morrer daquilo que te fez viver?

Estira-te nessa ideia de morte que te persegue. Não és viável, pelo menos para os padrões da modernidade. Pertences àquela raça de portugueses que ficou sem trabalho, uma vez descoberta a Índia, não é? Sem trabalho e sem vida, sem sono e sem sonhos. 

Ou seja: não morras nem na Índia nem dela a caminho. Morre nuns braços que te estreitem até te virarem do avesso. Morre enfiado no corpo que amas, numa floresta a meio da tarde. Morre num adeus mudo à cidade onde foste amado. Morre onde e quando quiseres, mas deixa a Índia em paz: devolveste-lhe a vida, ficaste sem trabalho: que esperavas?

Vive nas intersecções: é o único mundo que conheces, que te conhece. Morre devagar: nunca foste de pressas. Até nos abismos te precipitaste devagar.

Escolheste os dois lados da vida e ela agora limita-se a dar-te o troco.

23.11.20

Conjuntos indiscutíveis

As cores sofrem de uma terrível injustiça: é difícil dissociá-las do contexto. "Esse cor-de-rosa é horrível" significa na verdade "camisas (ou gravatas, ou meias) cor-de-rosa num homem ficam horríveis" - não menciono sequer casacos ou calças, isto não é um post de horror. "Não me digas que vais pintar a parede com esse verde?" O problema não é obviamente o verde, é a parede. Discutir cores é fútil porque raramente o que se discute são as cores e porque num conjunto que inclui o azul do mar num dia de sol, nas baixas latitudes, não há o que discutir.

Não estaríamos longe

Talvez se possa ver o tempo como uma piscina no meio da qual um tipo qualquer bóia - talvez até com a ajuda de uma bóia, é o mais provável. Uma ou mais, há quem recorra a várias. De vez em quando deixa o conforto das ajudas à flutuabilidade e mergulha. Vai sempre em apneia e volta para cima a cada vez sem reservas de oxigénio nos pulmões, roxo, sem ar. Outras vezes, atira-se ao ar, tenta apanhar as uvas da parreira que dá sombra à piscina - na verdade, um tanque de uma quinta. Nunca consegue apanhá-las, estão demasiado longe. Nem chegar ao fundo da piscina, afasta-se à medida que ele se aproxima.

Não estaríamos longe. 

22.11.20

Diário de Bordos - Em voo, Genebra - Porto, 22/11/2020

Deixo Genebra com esta indefinível tristeza que voltar ao passado me provoca. Ainda por cima, esqueci-me de pôr um livro no saco e recomeço, re-recomeço a ler cartas antigas. As da D., Ch. L.... Parei aí. As cartas eram-me dirigidas, mas sinto-me como se estivesse a devassar a correspondência de um estranho. Fui eu quem fez a D. sofrer daquela maneira? Às da Ch. não tentei sequer decifrar a caligrafia, apesar de não ser nada do outro mundo.

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No avião, a habitual palhaçada do tracing. Desta vez, preenchi o papel com uma mistura de L'art de la Joie e sistema solar. A única excepção foi a companhia aérea: Air Maybe. Não que não tenha confiança na EasyJet. Tenho bastante. Air Maybe refere-se a outra coisa: era o nome que dávamos às companhias aéreas do Zaire, quando tínhamos de voar numa delas. E não estarei eu num Zaire emocional? Num de-Zaire? Que resta do amor quando ele se transforma em afecto? Será que a única diferença entre um e outro é uma pila erecta? Até quando? Quanto tempo me resta para dizer «amo-te» a uma pequena?

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Cepticismo nestes tempos de fé: voltamos a ser proscritos. Continuo, porém, a invejar os cépticos de antanho: bastava-lhes duvidar de Deus. Hoje, temos de duvidar de uma infinda quantidade de igrejas, fés, capelas, seitas. Não são tempos para um preguiçoso como eu.

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Comprei três mini-garrafas de vinho para poder viajar sem máscara. Antes bêbedo que mascarado, apesar do preço estapafúrdio.

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Em vez de tentarem «controlar» o vírus, os governos bem podiam tentar mudar a aceleração da gravidade. Nove vírgula oito metros por segundo ao quadrado é uma brutalidade. Reduzam isso para metade. Já pensaram na quantidade de vidas que salvam? E de copos que não se partem?

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Em Portugal tenho imensas probabilidades de ficar rico, porque compro o totómilhões quase todas as semanas. Pouco menos do que as de morrer de Covid.

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Aterragem dentro de quarenta e cinco minutos. Einstein tinha absolutamente razão: nos aviões, o tempo pára.

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Começámos a descida. Às vezes pergunto-me se a minha relação com Portugal não é semelhante à que tenho com o meu passado. Respondo de seguida: «Portugal é o teu passado, estúpido.»

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E agora, que tanto gosto do Porto, eis-me aqui nele fechado. Uma dúzia de imbecis e uns milhões de cobardolas hipocondríacos coligaram-se contra a vida. Querem salvá-la, dizem.

21.11.20

Pedras ao Diabo

"Eu avisei-te", disse-me ela no dia em que, sem me dizer mais nada, me deixou. Continuei sentado na sala, no cadeirão que herdei de um passeio qualquer. Relia uma história que devia ser enviada em breve para o editor e não dediquei muita atenção a uma coisa que estava para acontecer há meses. Gosto muito de O'Henry, mas prefiro histórias assim, que não terminam de repente nem com um sobressalto. Histórias que acabam como o rum na garrafa: previsivelmente, pouco a pouco, gole a gole. "Não me telefones, se precisares de mim", continuou. Amélia não me perdoava ser capaz de sofrer em silêncio. Era histriónica, teatral e exagerada. Não sei como nos demos tão bem tanto tempo. Um dia apareceu-nos uma rampa à frente, metemo-nos nela e agora chegamos ao fim. "Está bem", respondo. As letras à minha frente eram pedaços de carvão vindas com o vento e que aterraram na página. Não via patavina. "Liga-me tu, então."

Já estava no patamar quando me gritou: 

- Viver contigo é como atirar pedras ao Diabo. Voltam ainda mais quentes.

20.11.20

Fragmento

«...      Uma coisa é certa: aquilo a que assistimos hoje [da parte da imprensa] é o corolário de um processo que começou há mais de cinquenta anos.
          Isto dito, convém não esquecer que a imprensa nasceu, no séc. XVII, com a função de anunciar os incêndios, as invasões, as infecções, as guerras, etc. Anunciar tragédias faz portanto parte do DNA do jornalismo - a tal ponto que em Veneza, aqueles a quem hoje chamamos jornalistas eram conhecidos por «menanti», os ameaçadores.
         Não só do DNA, mas também do prato - eram as tragédias que lhes punham o pão no prato; quanto mais tragédias, mais pão e manteiga. Não havia muitas mais fontes de informação credíveis.
         Lá para a segunda metade do séc. XX aconteceu uma mudança no modelo de negócios da imprensa. Atribuo essa mudança à televisão, mas não tenho a certeza. Pode tratar-se de simples coincidência cronológica. Ainda não estudei suficientemente o assunto paraa formar uma opinião: a partir dos anos 60, 70, a imprensa deixou de vender informação e começou a vender emoções. Já não chega dizer «há fome na Etiópia». É preciso mostrar fotografias das vítimas, de preferância crianças de barriga inchada e olhar vazio. Os factos já não chegam. É preciso impressionar, comover. Finalmente: a função da comunicação social mudou. Deixou de ser um contra-poder (o quarto poder) para começar a ser defensora do bem e inimiga do mal. (Tudo isto, claro, auto-decidido. Quem define o que é mal e o que é bem é a comunicação social.) Se necessário for, o quarto poder muda-se para o quarto do poder - desde que este esteja do lado do bem, claro. Se estiver do lado do mal, é alvo da fúria dos justos. Os factos passam para segundo plano, face à investida da moral. ...»

O volume das palavras

Despeço-me de um céu que de repente se põe cinzento. Cor de rato, de burro, de baba de caracol, de odioso. Céu mimético, plagiador, que nem de melancólico merece ser chamado por ser palavra demasiado bonita para o que descreve. As palavras devem adequar-se ao que vêem com os seus olhos escondidos na pele. Devem tomar a forma do que cobrem, como o chapéu do outro: deixou de ser chapéu quando engoliu um elefante e passou a ser cobra. Devem moldar-se como a vista se molda à paisagem, lhe adapta as curvas das colinas, os picos das montanhas, as vagas no mar ou num lago, o verde da planície. E devem ter volume, também. Não gosto de palavras planas como não gosto de céus que de repente se acinzentam, enegrecendo assim os passados que da varanda se avistam. 

Não me perguntes, aliás, de que gosto. Não saberia responder-te. Ultimamente, Deus tem andado a jogar aos dados com o universo e deve ter perdido uma fortuna. 

Não gosto de dados, por exemplo. Não me perguntes, por favor. Suplico-te. Detesto pedir. Detesto detestar. Este céu cinzento (interior, vê-se imediatamente, não é preciso estenderes-te num sofá) corta-te as asas, não te deixa voar, nem ver nem nada. 

A solução seria talvez vestires-te com um fato amarelo, comprares um estojo para violino e desembarcares de um paquete noutro planeta. Alguém te esperaria certamente, se o fizesses. Mas primeiro tens de aprender a dar volume às palavras. Sem elas não há nada que valha a pena fazer ou ver. Nem céu de outra cor.

Distinguo, metamorfose

Sou um nómada, não um viajante. Isto só serei quando  - e enquanto - fizer a circumnavegação a bordo do meu bem amado P. Ninguém imagina o que preciso desta metamorfose.

19.11.20

Epifenómenos, sinédoques

Ao fim destes séculos todos - séculos? Milénios - a humanidade ainda não aprendeu a distinguir os fenómenos dos epifenómenos. Aquilo a que um anónimo inglês do séc. XIV chamava «a nuvem do não-saber» refere-se a essa cortina de epifenómenos com os quais rodeamos, escondemos, envolvemos, disfarçamos o cerne das coisas (para ele Deus, para mim outra coisa qualquer à qual agora não sei dar nome. Talvez «os cernes» resolva a questão, pelo menos temporariamente).

Os epifenómenos têm um papel central na organizção social: desviam as atenções. «Humankind cannot bear very much reality»? Não só. Humankind doesn't want to bear very much reality. A parte pelo todo.

Depressão, camas

A depressão tem poucas vantagens. Talvez nenhuma mesmo. Ou uma: torna atractiva uma cama vazia.

Mulheres fictícias

Não gosto nadinha da palavra gaja, mas gosto do conceito que acabo de ler num comentário: "gaja fictícia é uma redundância" (mais coisa menos coisa). Ainda por cima foi escrito por uma senhora. Sabe do que fala, imagino. 

A razão pela qual gosto da ideia é da ordem do sonho: nunca até hoje tive uma mulher fictícia. Só mulheres verdadeiras - devem ser as excepções à regra de redundância - e essas são muito cansativas, muito exigentes, uma espécie de ninfomaníacas do espírito. Gostaria tanto de encontrar uma ficção com mamas... Alguém que não estivesse onde eu pensasse que está, se construísse todos os dias, não fosse o que visse quando a olhasse, um fantasma etéreo que me poupasse o trabalho de a decifrar, que sem maquilhagem fosse uma pessoa e com outra, não só diferente mas irreconhecível. Uma vez tentei engatar uma miúda muito estúpida e não consegui (isto é, abandonei a tarefa precocemente, antes de ela se lembrar de não me dar tampa). Apercebo-me agora de que me enganei no ponto de vista: devia tê-la considerado fictícia em vez de burra. Dou-me muito melhor com a ficção do que com a estupidez.

Enfim, não sei como seria a relação de um tipo que não é mais do que o que é por falta de imaginação com uma mulher que só é o que não é, talvez por a ter em excesso. 

Ou, mais provavelmente, por simples e lhana falta de paciência. 

18.11.20

Passos de mim

Estou aqui, estou ali; estou ali, estou acolá. Salto daqui para acolá, de mim para ti, dali para lá. 

Passos sem distância: nunca saio de mim.

17.11.20

Ingenuidade, gentileza

Uma das formas da maldade - não sei se a pior, mas de certeza uma das piores - consiste em levar alguém a crer que somos tolos (não o sendo, claro. De qualquer forma, sendo-o não se leva a crer, mostra-se. É diferente). Por isso, devemos resistir  à ingenuidade alheia até se ter a certeza de que é genuína - e depois não nos deixar levar por ela. Questão de desconfiança, primeiro; e de gentileza, depois.