12.1.21

Talvez, calor

Talvez o calor dos edredons me atravesse e me chegue a todo o lado.

Diário de Bordos - Lisboa, 11-01-2021

A garrafa de Mei Kwei Lu com tanto entusiasmo e esperança comprada hoje à tarde continua tristemente fechada; o livro O barco farol avança muito devagar: não tenho energia para histórias violentas, por muito boa que seja a escrita. Esta é superlativamente excelente. Gosto destes estilos secos, depurados, sem rodriguinhos. Porém, vim deitar-me, cobrir-me de calor, fechar os olhos, tentar não me cansar mais do que já estou. O SNS respondeu rapidamente e já tenho o novo teste marcado, não me lembro se para quarta-feira se para quinta. Amanhã verei, mais o problema da mudança de voo, mais os problemas que não são problemas nenhuns, são simples episódios. Por mais que tente (não eu, mas alguém por mim) não consigo transformá-los, promovê-los a dramas, tragédias, acidentes termo-nucleares graves. São tantos que tive de fazer uma lista, para não me esquecer das razões por que tenho de lutar. Bem sei que... Merda, esqueçamos. Nada que não se resolva amanhã.

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Jantar bastante improvisado: porco no forno com limão e gengibre. Ficou assim assim, como tudo o mais desde que cheguei a casa e desmontei da bicicleta (na verdade foi ao contrário: primeiro desmontei).

Acho que devia tê-lo guisado numa panela. Amanhã verei. A priori gosto da combinação de limão, gengibre e coentros, mas... Pouco importa. Amanhã. 

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Este inverno vai ser frio e eu cheio de saudades da neve e de casas aquecidas. Nesta dói-me pensar quanto custará cada grau centígrado, mesmo não sendo eu a pagar. 

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Há dias vi um vídeo no Facebook de um indivíduo a tentar subir umas escadas rolantes descendentes. Levava uma embalagem e não conseguia chegar ao fim. Aquilo estava obviamente encenado mas bem feito e não perdia a comicidade. Nos dias que terminam como hoje, parece-me uma excelente metáfora da vida. Se voltar a ver aquilo, aposto que a personagem abandona a ideia de entregar a caixa e se deixa ir quietamente para baixo, para o fundo.

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"Não sei o que amanhã me trará." Not the faintest idea, mate. Excepto que não será mais do que uma pálida, esbatida continuação de hoje. Disso, estou seguro: não será amanhã a véspera do dia em que conseguirei chegar ao cimo das escadas.

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Seja como for: o período de hoje que decorreu entre a saída de casa e o regresso foi agradabilíssimo. Espero que essa meia dezena de horas não me estrague a infelicidade do resto.

Nada como uma boa dose de tristeza intacta, unspoiled, como diria o outro, o que não sabia de amanhã. Nunca soube, coitado.

11.1.21

O Barco Farol, de Siegfried Lenz, ed. Fragmentos, Lisboa, 1987

Comprei um livro chamado «O barco farol». Li-o há muitos anos, em francês. A primeira linha é: «Estavam fundeados e bem fundeados nos bancos...» Um tradutor (chama-se Inês Madeira de Andrade) que sabe a diferença entre «fundeado» e «ancorado» merece ser lido, agraciado, encorajado, louvado. Obrigado, Inês Madeira de Andrade, esteja V. onde estiver e seja quem for. Folheei o livro e todos os termos náuticos estão lá. É a primeira vez que vejo uma tradução portuguesa assim. Obrigado. Vou relê-lo, agora com outros olhos. Até aqui. lembrava-me vagamente de um barco-farol fundeado no Báltico, de uma atmosfera pesada, da noção de serviço. Não vou reler o livro: vou lê-lo. Começa assim:

«Estavam fundeados e bem fundeados nos bancos movediços de areia. [Já por ali naveguei. São horríveis] Há nove anos, desde a guerra, que o barco [aqui, talve tivesse preferido navio. Como no título, de resto. Mas não sou preciosista nem fundamentalista. Fique o barco] estava seguro a uma amarra comprida; era como uma colina vermelha de fogo coberta de conchas e de algas na planície do mar cinzento como ardósia - ali estava, excepto nos períodos curtos em que se encontrava no estaleiro.

...

... o feixe dos sinais intermitentes girava há nove anos sobre a baía e o mar nocturno até às ilhas que sobressaíam no horizonte, cinzentas e planas como um leme. Agora, as zonas minadas estavam limpas, a água navegável era considerada segura, e daí a quinze dias o velho barco-farol seria recolhido; era a sua última missão.» É impossível ficr indiferente a isto, não é?

É.

Na minha bicicleta

Saí de casa com o objectivo final de ir buscar a bicicleta. Devagar, devagar. De caminho descobri um restaurante que me parece excelente - chama-se Zebras do Combro e ainda estou por perceber como não o conhecia antes. Pelo menos a julgar pelos croquetes e pela simpatia da senhora; comprei um maço de cigarros - acho estúpido que não se possa comprar cigarros avulso. Isto de forçar quem quer fumar um cigarro a comprá-los aos maços só incentiva as pessoas a fumar e a gastar dinheiro inutilmente; e lá fui, engrossando-me devagarinho, passando pelo anjo do arco (a designação é minha, inútil procurá-lo. Tem as melhores pataniscas da cidade), pela ginginha... É uma vantagem muito grande, um gajo poder embebedar-se passo a passo e não ter aquela necessidade compulsiva de ficar embriagado. Assim, as coisas vão entrando em nós aos poucos - tudo: a cidade, as ruas, esta luz, o frio, o sol, os prédios. Comprei um garrafa de Mei Kwei Lu encarnado. Não é tão bom como o azul, mas que se lixe. Não havia outro. O Mei Kwei Lu tem uma característica de que gosto muito: um homem não se apercebe de que está bêbedo antes de o estar completamente. Quando chegar a casa vou fazer um chá e beber um Mei Kwei. As minhas taças de Mei Kwei estão em Mértola, mas não faz mal. Bebê-lo-ei na mesma.  Às vezes gosto de comparar o Mei Kwei à coca, mas percebo incomparavelmente mais daquele do que desta. Género cem a um, ou mil a um. Acho apreciável que em Lisboa se possa comprar Mei Kwei Lu, mesmo sendo encarnado (já me tinham avisado que o azul acabaria em breve, e isto foi há uns anos).

Agora preparo-me para apanhar um táxi. Um Uber seria muito mais barato, mas só em termos relativos. Em termos absolutos, a diferença vai ser talvez de um euro, euro e meio. É forçoso reconhecer que aquele gesto urbano de estender o braço e parar um carro que vai a passar é infinitamente mais bonito do que pespegar o olhar no telefone portátil. São gestos que vão morrer e quanto mais não seja por isso devemos preservá-los tanto quanto possível, como se tenta preservar uma pessoa doente mesmo sabendo que ela vai  morrer. A linguagem diz tudo, como sempre: apanha-se um táxi, chama-se um Uber. Também se chama um táxi, mas não quando se está na rua. Um táxi chama-se do conforto de um restaurante ou de o alívio de uma cama, não de um passeio frio e ventoso da Almirante Reis. 

Devagar. A palavra-chave é devagar. Tudo é bom quando é feito devagar, incluindo viver. Deixar as coisas entrar em nós, as ruas pelas quais deslizo, bêbedo e cego. Não estou nem uma coisa nem outra, note-se, mas olho para esta luz que entra pela cidade, escorrega pelos prédios e penso que também ela está cega e que se estivesse bêbeda não se comportaria de outra forma. Entro por esta cidade dentro como se entrasse por um corpo que me ama, mesmo sabendo que esta Lisboa não me ama. Está-se a marimbar em mim, mas sabe que mesmo assim não deixo de gostar dela. Se calhar gosto dela porque se marimba em mim, não seria a primeira vez que me rendo ao bom-senso. Não sei. Ninguém sabe nada, seja como for. Sei que deslizo por estas ruas bêbedo e cego e que não estou nem bêbedo, nem cego e não deslizo, porque tenho de pedalar. E que todo este conjunto de coisas, leve como um autocarro de dois andares desgovernado, vai devagar.

Tenho duas bicicletas: uma preta de cidade; e uma cinzenta de estrada. Gosto igualmente das duas. Isto não é nem um analogia, nem uma metáfora e muito menos um pedido de desculpa. É - quando muito - uma explicação: gosto igualmente de dois contrários que em comum só têm a beleza. A preta é pesada, bonita e confortável; a cinzenta é leve, rápida e bonita. A beleza tem várias formas e todas elas são apreciáveis. A beleza pode ser lenta e confortável ou leve e rápida. Talve seja essa a diferença entre o amor e a paixão. Não sei. A paixão é rápida e fulgurante e o amor lento e sedimentado. Talvez. Ou a diferença entre dois amores.

Nada sei, na verdade. Excepto que a beleza é o que é, que a luz é o que é, que estas ruas são a minha casa. Ou melhor: as janelas da minha casa, a partir das quais olho, oiço e vejo o mundo e nele passeio, na minha bicicleta.

Fantasmas

Falemos então de fantasmas, já que os aprecias tanto. Sei do que falo: sou um parque nacional de fantasmas, uma reserva de caça, um armazém, um museu, uma fábrica deles. Conheço os que estão de passagem, os que já se foram embora ou estão por vir, os que morreram nas guerras, congelados nas trincheiras. Sei do que falo. Conheço-os eunucos, priápicos, obcecados sexuais, moribundos... Conheço-os.

Estão todos à tua espera. Basta bateres-me à porta.

10.1.21

Sacrificar borregos?

Basicamente - isto é, de um modo básico - o problema consiste em compreender como se passa de um edifício teórico do qual o homem é o eixo principal, o pilar principal, para outro em que o homem se crê omnipotente. Até aqui, isto parece fácil: de ser o centro do universo a poder fazer do universo o que se quer - sobretudo com a ajuda do desenvolvimento tecnológico e científico - o caminho é uma brisa. Contudo, essa omnipotência não pode ser posta em causa,  muito menos por um vírus invisível, uma coisa nanométrica que morre por dá cá aquela palha e cuja única força vem da sua capacidade de saltar de um corpo para outro. Não deveria ser difícil admitir que não se é todo-poderoso. Há forças na natureza que não conseguimos controlar, dominar. Temos simplesmente de aprender a viver com elas e a protegermo-nos o melhor possível. Ninguém pensa acabar com o frio, com as vagas do mar ou com os raios ultravioleta: fazemos roupa quente e aquecimentos para as casas, muralhas para proteger os portos ou óculos escuros para os olhos e continuamos a nossa vida. Podíamos fazer a mesma coisa com este vírus: proteger os que estão em risco (se eles quiserem, isto é importante) - é um grupo perfeitamente identificado - tomar meia dúzia de precauções básicas e continuar com a vida tal como a conhecemos. Não: o objectivo já nem aplanar a curva é. É acabar com o vírus, esmagá-lo com uma "vacina", destrui-lo. Este vírus não é só uma doença: é uma ameaça ao nosso poder.

O processo é semelhante ao que se passa com o aquecimento global: seria muito mais inteligente adaptarmo-nos a ele, como a humanidade (e as outras espécies) têm feito ao longo de milénios. Em vez disso: é preciso acabar com ele, reverter o mundo ao statu quo ante (um estado que de resto só é mirífico na cabeça dos iluminados). 

A diferença entre o vírus e as alterações climáticas é que para estas ainda se pode admitir que há motivações políticas. Para aquele, obviamente, não há - por muito tentador e compreensível que seja pensar o contrário, tal a dimensão do absurdo.

Ou seja: há uma rampa inclinada do humanismo para esta crença (visivelmente errónea) nos nossos poderes. Há coisas que a humanidade não pode (ou ainda não pode) fazer. A questão que se põe é: porque é tão difícil admiti-lo? 

Roubámos o poder a Deus e pensámos que podíamos fazer o mesmo que Ele, sem nos apercebermos de que o poder não é o mesmo. Como aqueles ladrões que roubam uma jóia valiosíssima e quando a vão vender descobrem que é um falso, uma cópia sem valor. O homem não é Deus, apesar de estar agora no lugar onde Ele esteve tanto tempo; e não é capaz de admitir que foi enganado (ou se enganou a si próprio). Por isso, quer acabar com as alterações no clima (bem podiam começar por acabar com este frio) e "vencer" um vírus que lhe anda a dar baile há mais de um ano e a ganhar claramente a "guerra": quando se fizerem as contas ao que teremos pago por esta futilidade  e ao que teremos ganho, veremos o vírus largamente beneficitário. Vamos perder muito mais do que ele.

Num campo, já ganhou: ele continua livre e nós não. Preferimos prender-nos, sacrifício ritual nada diferente - em termos de resultados - do que obteríamos sacrificando borregos.

9.1.21

Foi o humanismo?

Pergunto-me - na verdade, não é a mim, é aos meus amigos filósofos - se na opinião deles foi o humanismo que nos trouxe aqui, a esta delirante crença na omnipotência do homem, na "infabilidade" da "ciência" (aspas porque me refiro às versões populares dos conceitos).

Sou um humanista - trago em mim todos os defeitos e algumas das qualidades do meus companheiros de espécie; sou um humanista - acredito piamente no homem e penso que é nele que está a solução, não em Deus, na natureza, no amor ou no vinho tinto (por muito que dele emanem ou se sobreponham, mas isto não é um curso de metafísica).

Sou um humanista: penso que as fraquezas do homem são preferíveis a qualquer força que lhe seja exterior, seja ela qual for. Prefiro um homem frágil a um Deus todo poderoso. Sou familiar do falhanço, não me assusta tanto como a vitória - pelo menos, aferidos para as respectivas quantidades e frequências. 

Sou um humanista: acredito na liberdade, nas liberdades, na capacidade - não: na obrigação, no dever - de o homem ser livre. Acredito nos limites da liberdade - não passa de um conjunto de prisões que leva esse nome por terem sido livremente escolhidas. Acredito que essa liberdade é um pau de dois bicos e que mesmo assim é preferível ao pau de um bico só da ditadura e da opressão.

Sou um humanista. Acredito nestas coisas todas e em muitas mais, mas não consigo perceber que uma grande parte da humanidade tenha livremente optado pelo obscurantismo, tenha livremente optado pelo descalabro, que seja capaz friamente de trocar meia dúzia de mortes agora contra uma dúzia amanhã - sem ver que terá as duas, dúzia e meia bem medida de mortes, mai-la miséria que espreita à esquina.

Foi o humanismo que nos trouxe aqui?

Diário de Bordos - Porto, 09-01-2021 - (Cont.)

Saí do hotel San Marino todo pimpão: ia ao Tarantino (é assim que se chama) comer um pizza, depois a uma das muitas lojas de fotografia (duas) das cercanias comprar um filme e depois - bravo, signore - fotografar com filme, coisa que não faço há pelo menos quinze anos.  Restrições, meu caro. Restrições. Esqueci as restrições, esse magnífico mecanismo com o qual o nosso governo esconde a sua incapacidde de fazer seja o que for, Verdade seja dita: nenhum governo pode fazer seja o que for. O vírus está-se nas tintas para as «medidas»: se lhe fecham uma porta entra pela ajanela, se fecham a janela entra pelas frinchas do telhado. Não há é governos - salvo raras e honrosas excepções - que o reconheçam. Têm a «pressão popular» atiçada ao rubro pela comunicação «social» (entre aspas porque de social não tem nada. «Comunicação associal» seria mais apropriado). «Cem mortos» faz um título melhor do que «trezentos mortos, doas quais cem com Covid» ou «Voltaram os tempos dos hospitais cheios», ou coisa que o valha. Se saísse a fotografar, seria uma reportagem chamada «Porto triste», mas não me apetece. Volto pra o quarto escrever disparates, ler, dormir e ouvir Patxi Andion. «Duerme sin fin, compañera». É o que quero fazer: dormir sem fim. «Acaso una palabra, vendida por un sueldo / podría definirme, ¿ponerme nombre al cuello?» Não vejo nada. Vou restringir-me, não sem antes enviar o senhor António Costa para o prostíbulo que o viu nascer, nas esperança que nunca de lá saia, nunca mais. Ele que se torne pianista de bordel e, como o outro, o do paquete, ali fique fechado, rodeado de putas tão tristes e feias como estas ruas desertas e falidas, não tarda. 

Nb: plano para o jantar: acordar a tempo de comprar uma francesinha no café Luso. Diz que são boas. Desde o café Gomes, em Vila Real, acredito na existência de tal coisa: uma francesinha boa. É basicamente como para um positivista acreditar na existência de fantasmas. 

Diário de Bordos - Porto, 09-01-2021

Resultado do nevão em Madrid: voltei para o hotel. Sesta pré-prandial. Amanhã vou para Lisboa com a Blablacar. Pouco mais de um terço do preço do comboio e liberdade no uso da coisa (já falei com o condutor). Antes de adormecer, insulto-me por não ter pensado antes nisso. Por baixo do hotel, um café chamado Tarrantino (ou algo lá perto) faz boas pizzas, aparentemente. Um sono, uma pizza e um copo de vinho: daqui por hora e meia o mundo terá recuperado a sua calma, eu a minha e tudo isto não será mais do que um imperceptível soluço na longa marcha cósmica.

Amo-te Porto, amo-te vida, amo-te tu inominável porque ainda é cedo para o dizer. ("Amo-te" tem exigências de relógio suíço: ou estás certo ou desapareces.) Algures, a vasta mecânica celestial toca uma canção de embalar só para mim. Algures no planeta, uma mulher ama-me. O universo arruma-se segundo as linhas de força de que mais gosta, magnéticas, invisíveis e poderosas. E eu cedo-lhes.

O tempo e a ausência

Como falar-te da noite, desta boca sequiosa em busca de uma fonte, destas mãos que palpam o vazio - a que alguns dão o nome de passado, outros o de futuro, mas nenhuns o de presente - como se o vazio não fosse senão a tua ausência,  a ausência de ti. Como se o presente fosse uma prenda do tempo e não aquilo que é: o tempo preso em ti, o tempo a fugir de ti, o tempo a entrar em ti como um comboio fatigado numa estação. És um presente e o presente do tempo: já houve um tempo sem ti, haverá outro no qual de ti não haverá senão a ausência. 

Que fizeste, para que sejam tão diferentes?

Um nome a tudo isso

É mais questão de palavras, de coisas mais facilmente reproduzíveis em sons, letras, símbolos do que em factos sólidos, concretos. Dois seios e um desejo, por exemplo. Desejo vivo, palpável, sentado em mim. Preciso de palavras para ele, para esse desejo que me caiu literalmente no colo. Preciso de palavras para descrever dois desejos que se encaixam um no outro com a implacabilidade da órbita de dois planetas. Preciso de palavras como elas precisam de mim. Ver-te, por exemplo. Falar-te. Ler-te. Sentir-te. Saber-te viva e ver o teu olhar. Parece tão diferente, não parece? Não é. Como esse desejo, como essas palavras que escorrem de um campo, de um mar, de uma pele que se estende pelo mundo, pelo tempo, mão bem espalmada num ventre que a acolhe, grato.

Não falemos desse ventre, nem dessa mão, nem - muito menos - dessa força que os rege. Falemos de nós: planetas de órbitas concêntricas, campos de forças distintas e convergentes, como se uma órbita fosse conjugável com outra.

É. Basta querer, basta pensar para lá dos planos orbitais, das forças centrífugas e centrípetas que ora nos afastam, ora nos aproximam. Há um ponto de equilíbrio no meio desses corpos - são os nossos - dessas mentes - são as nossas. É um ponto longínquo, escondido, disfarçado no meio das silvas astronómicas. Gosto de o imaginar, olhando-nos com as suas antenas verdes. Gosto de imaginar dois corpos perdidos num universo do qual acabaram de descobrir a gravidade. Não sabem ainda se se atraem, mas já sabem da gravidade, essa estranha força que os impele para um ponto.

Trata-se de definir esse ponto. Tarefa fácil: basta definir os corpos, o tempo, o espaço, traçar os contornos físicos do desejo e dar um nome a tudo isso.  

8.1.21

Porto, abençoado Porto

Que bom é estar no Porto,  que pena ser tão pouco tempo. Lisboa é bonita por causa da luz. O Porto,  por causa das gentes. Aqui respiram pela boca e pelo nariz, não por guelras como lá em baixo.

Lisboa, vestida de cerimónia, diz-me adeus

Que linda estás, Lisboa, toda de luz vestida. Enroupaste-te de cerimónia, hoje. Maquilhaste-te e tudo. Isso foi para mim, não foi? Vestida de luz, parece que vais de festa chic, tu que tão triste tens andado. És uma toca-e-foge, Lisboa. Provocadora. Sabes que me vou embora e vestes-te de rainha, tocas-me com o pé debaixo da mesa, sorris-me esse teu sorriso denso e alaranjado de fim de tarde. Mas quando se trata de passar aos actos, aí desapareces, não é? Dás de frosques. Piras-te. Tocas-me e foges-me há tanto tempo que já nem sei como poderias ser diferente.

Mas diferente será um dia, isso te assevero eu. Levar-te-ei à cama, ao altar, ao hotel. Por esta ordem.

7.1.21

Nota bene

A parte da chave que abre a porta é a que não se vê. Assim deve ser o texto.

6.1.21

Carta de amor

Queria escrever-lhe uma longa carta de amor. Mas a verdade é que andava a escrever-lha há uma vida. Meia dúzia de palavras - uma dúzia, que fosse - não acrescentaria nada ao que já lhe dissera. Muito menos a tudo o que ainda tinha a dizer-lhe.

Basalto, vazio

O bom senhor António espera no seu canto qualquer coisa que não sei bem o que seja. Talvez uma Antónia que não conheço nem sei por onde anda. Louis Armstrong toca para o café vazio. Tenho fome e penso que seria boa ideia ir para casa. O café não tem Ricard. 

- Acabou agora mesmo, com aquele senhor que está no balcão - diz-me a empregada. É simpática, espigadota e tolera a ausência de máscara.

Não tenho nada a ver com tudo isto. É exterior, são coisas que giram à minha volta mas do lado de fora de mim. Nem a fome vem de onde devia vir. Penso naquelas cadeiras de carrossel suspensas por correntes que a força centrífuga faz levantar e chegar quase à horizontal. Algumas das cadeiras separar-se-ão, irão por esse vazio fora; outras, mal o carrossel pare, cair-me-ão aos pés e por ali ficarão, restos vazios de um dia sujo, vazio, parado. Nada disto faz parte de mim. Nada disto sou eu. Nada disto, nada. Não sou senão este corpo que não pára de fingir já ter sido meu e que não paro de encher de basalto e de vazio.

5.1.21

Palavras, dúvidas

As palavras acabam como começam: com dúvidas. Quanto maiores, maior a dúvida que trazem com elas, ou nelas. Vêm inquietas, inseguras, desassossegadas, tementes. Contudo, não as deixo apertar o cinto de segurança: que arrisquem. Sem risco, a mais bonita das imagens não passa de um traço desbotado. Às vezes pegam-se. Não intervenho. Que vença a melhor, as melhores (andam em bandos, geralmente).

De qualquer forma, no fim as dúvidas ganham sempre.

Pesadelos

Os pesadelos são como as drogas: criam habituação. Têm de ser cada vez piores para causar efeito.

4.1.21

Silêncios, cores

Voltámos ao tempo dos silêncios. Eu digo-te nada, tu nada respondes e assim falamos dias a fio, semanas, meses. Felizmente entendemo-nos bem e sabemos o que queremos não-dizer um ao outro. Escolhemos bem as palavras que não-pronunciamos, as metáforas, eufemismos, analogias, hipérboles, litotes e por aí fora que calamos. Estamos longe um do outro, como sempre estivemos: tu no meio das tuas planícies, eu nas minhas covas.

De onde estamos, não nos vemos um ao outro, nem nos ouvimos. Os nossos silêncios falam por nós. Às vezes pintamo-los: azul, verde, amarelo, encarnado... Um silêncio azul, a resposta a violeta, as perguntas a verde, todas. Parece simples, mas não é: tens um talento especial para cores complexas, matizes que os silêncios não deixam ver bem. Gosto particularmente dos teus azuis, não sei onde os vais buscar, não conheço na natureza - nem no oceano, vê lá tu - um azul igual aos teus.

Assim, de silêncio em silêncio, de cores em cores nos vamos afastando, devagarinho, sem sequer nos apercebermos. De que cor pintarás o adeus?

3.1.21

Diário de Bordos - Lisboa, 02-02-2021

É certo que a carne, o chouriço e o nabo vieram do talho O Naco (também tem alguns artigos de mercearia) mas isso não chega para explicar a totalidade do total. A sorte teve uma fatia de leão. Comecei por refogar metade de um cebola, juntei-lhe a carne picada (metade vaca, metade porco), acrescentei um alho ou dois, deixei secar, flambeei com umas gotas de aguardente, juntei vinho branco, deixei reduzir um bocadinho, acrescentei umas rodelas de chouriço, uma lata de ervilhas (com o líquido e tudo) um nabo às rodelas e respectivos grelos (são pelo menos tão bons como os outros, se não melhores), pimenta preta em grão. Deixei cozer a lume muito fraco, pensando «isto vai tudo para o lixo, que chatice». 

Bem, não só não foi como até está bastante bom, dentro do género «comida para a mina». O nabo e seus grelos dão o tom maior, a pimenta o contraponto, o ritmo vem da carne e a melodia das ervilhas. Isto bem estudado dará qualquer coisa.

Entretanto, no forno pus um franguito do campo, com limão, sal e alecrim (e pimenta preta em grão). Está a cozer à nórdica, a setenta graus. Ainda falta um bom par de horas para ficar pronto. A ver. Cada vez acredito mais no fogo lento, para a cozinha (e para tudo, mas isso são contas de outro rosário).

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Entretanto, fui brincando com o telecomando e acabei a ver televisão. É uma experiência que não tenciono repetir. Vi a entrevista de uma senhora que passa por ministra da justiça. Diz que mandou uma carta que afinal não e uma carta - é uma nota; confidencial que afinal não o é - está na televisão; e tinha três «lapsos» - curiosamente, os «lapsos» eram todos a favor do candidato que o governo defendia. É como aqueles senhores das feiras que se enganam no troco, mas é sempre a favor deles, nunca do cliente. Bolas, a senhora bem podia ter disfarçado e feito um lapso em desfavor do homem. Assim sempre nos ajudava a acreditar na tese dos «lapsos». Bom, que se lixe. Tão cedo não volto a tocar no telecomando, excepto para ligar e desligar o aparelho. Descobri que a televisão tem rádio, descoberta que será útil se um dia quiser ouvir a Antena 2. 

Bem sei que não sou exemplo de nada para ninguém, mas confesso que não percebo como há pessoas que conseguem ver televisão todos os dias. A S. vê, diz que a descontrai. Há muita gente assim, a julgar pelas «audiências». Só comecei a «ver» quando descobri o canal Mezzo, há uns anos - e estou numa casa a) que tenha televisão e b) e me deixem ouvi-lo. É melhor do que uma rádio porque falam menos e a música é sistematicamente boa. Na rádio nem sempre.

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Continuo a reler os Chemins de sagesse, do Attali. Gostei mais da primeira leitura. Agora parece-me um pouco a cair para o verborreico. Mas não deixa de ser interessante, estimulante. Gosto de labirintos: são uma bela maneira de me rever num livro. 

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A paralisia estendeu-se às arrumações que tinha previstas para hoje. Sinto-me como se estivesse de pés e mãos amarradas. Fui beber um mojito à brasileira da rua Verde (?) e fui-me deixando levar. De repente aquilo ficou desagradável: era uma e meia e a senhora estava inquieta por causa da hora de recolher. Estas restrições transformam-nos a todos em adolescentes, com a agravante de que nem sequer é de noite. Uma e meia da tarde, não da manhã. 

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O meu corpo continua a fugir de mim. Ele que não preste atenção, não: ainda acaba num buraco.