22.1.21

Gaëlle

 Lisboa, 29/11/2020

 

Querida Vanessa,

A carta vai atrasada, eu sei. Desculpa. Isto tem andado complicado, por estas bandas. Poucas vontades e sem elas não há memória que me valha. Tenho aproveitado estes dias para me lembrar da Gaëlle   , um miúda pequenina, loira, francesa de olhos azuis que conheci há tempos em Dunquerque, a cidade mais feia de França e a mais simpática de todas. Prova – como se fosse preciso provar – de que quem vê ruas e prédios não vê corações. Seduzi-la foi um processo longo e laborioso. Ela acabara de sair de um casamento horrível, com um alcoólico que lhe deixara um filho e um monte de dívidas e precisei de tempo e palavras em grande quantidade para, finalmente, um dia na praia lhe deitar a mão. Estávamos na Primavera, não havia ainda muita gente e eu, não sendo grande fã de sexo na praia – não gosto de areia em lado nenhum e muito menos nesses sítios – lá me abalancei.

A primeira vez nunca é a melhor. Isso é mito de meninas «livres» e meninos cheios de hormonas. Aquela vez na praia não fugiu à regra: foi rápido, com poucos preliminares e apenas chegou para nos dizer – aos dois – que devíamos insistir. A verdade é que o monte de palavras e tempo que gastara a seduzi-la me seduziram também a mim. Acontece muitas vezes, não é? Quantas vezes seduzir alguém serve simplesmente para nos seduzirmos a nós próprios?

Gaëlle morava no quinto andar de um prédio que ficava ali mesmo ao lado e foi lá que continuámos. Era muito pequenina mas forte e quando se vinha dizia-me «tu fodes-me como um deus» e tinha aquilo que me parecia uma descarga eléctrica. Toda ela tremia, enquanto ia repetindo «...como um deus. Como um deus» Eu acreditava, claro. Qual o homem que não acredita? Ainda por cima, nessa altura sentia-me verdadeiramente um deus, era um deus. Foder como um parecia-me a coisa mais natural do mundo.

Penso nela muitas vezes, ainda. Gostaria de saber se encontrou um homem que a merecesse. Gaëlle tinha três empregos, um dos quais consistia em vender livros pró-independência a grupos independentistas. Tinha para isso uma carrinha Citroën, daquelas de chapa ondulada que se vêem invariavelmente nos filmes franceses. Com ela, percorríamos a Flandres francesa, a Normandia – como de costume, eu tinha um trabalho que me permitia intermitências. Normalmente era eu quem guiava. Volta e meia ela pedia-me «Pára, por favor.» Eu parava no primeiro sítio possível, ela saltava para cima de mim, punha-me a pila dentro dela, já molhada e pronta. Imagino no que teria vindo a pensar, para estar já naquele ponto. Chegava rapidamente ao orgasmo e dava-me gozo fazê-la vir-se duas ou três vezes, duas ou três descargas, uma quantidade infinita de «oh meu Deus» e «como um deus». Depois desencaixava-se de mim, sentava-se no seu lugar e dizia-me »Desculpa, estava mesmo a precisar.» Outras vezes, dizia-me: «Esta é só para ti.» e fazia-me um bico ali à beira da estrada, aquele tufão loiro na minha cintura a mexer-se em todos os sentidos. Ela sendo pequenina, eu arranjava forma de não «ser só para mim» e enfiava-lhe um dedo na vagina, outro no cu até eles quase se tocarem lá dentro.

Nunca fui muito de acreditar nessas coisas do «vir-se ao mesmo tempo» - prefiro dar a prioridade às senhoras, quando gosto delas; ou não pensar muito nisso quando me são indiferentes – mas é verdade que por vezes havia qualquer coisa de mágico naqueles orgasmos em que Gaëlle    se molhava de cima a baixo e vibrava como um mastro numa tempestade enquanto eu esvaziava o meu nela.

Por causa do filho – teria meia dúzia de meses, talvez um ano, não me recordo – habituara-se a não gritar durante o sexo e toda aquela energia saía-lhe pelo corpo perfeito, musculado, seco e lindo. Um dia, fomos com uns amigos dela beber umas cervejas a um bar, no campo. Não sei se conheces a Flandres: uma região muito bonita, entrecortada por inúmeros canais, com antigos moinhos reconvertidos em bares. A bebida ali é a cerveja, não o vinho. Estaríamos talvez três ou quatro casais. A certa altura, sinto uma mão nas coxas. Era uma das raparigas, amiga dela, que me dizia «A Gaëlle diz maravilhas de ti. Gostava de experimentar. Posso?»  Disse-lhe que sim – Gaëlle piscara-me o olho pouco antes e agora percebia porquê. Estava entretido com a rapariga – uma loira, claro, as flamengas são do norte, cabelos de cerveja e olhos de mar – quando sinto uma pancada violenta no ombro. Era o homem dela. Não estava nada contente com aquilo e arrancou-ma dos braços, pegou nela e foram-se embora. A festa acabou ali, aquilo estragou um pouco o ambiente, como podes imaginar. No caminho Gaëlle disse-me «Eu bem tentei aguentá-lo, mas não consegui. Anda, faz-me a mim o que ela queria que lhe fizesses». Parou a carrinha, mas desta vez fomos para trás, para o meio dos livros. É tão bom, um corpo levezinho em cima de ti, não é? Deve ser daí que vem aquela expressão portuguesa da mulher e da sardinha. O prazer concentra-se todo na ponta da pila e nos olhos. A estúpida mania das conas  rapadas ainda não tinha chegado. Ver aquele tufo de pelos entre o amarelo e o castanho claro mexer-se em mim parecia dar corpo ao gozo, uma sinestesia com sensações em vez de vogais. «Era isto que querias fazer com a... (como lembrar-me do nome da rapariga?) Era? Diz se eu não sou melhor? Diz!» Era. Acabei por foder a outra, um dia em que nos encontrámos num bar os três – a Gaëlle   , ela e eu. O homem ciumento tinha ficado em casa, ou ela tinha-lhe passado um bilhete de desembarque, não sei. Comi-a na rua, no recesso de um portão e não, não foi bom. Quando acabámos, disse-lhe «temos de nos ver numa cama, isto é sítio para quem já se conhece» e voltámos para dentro, onde Gaëlle    me esperava com uma cerveja e um sorriso trocista. «A primeira vez nunca é a melhor», disse para a amiga. Que visivelmente não acreditou, porque nunca mais a vi.

Porque penso em Gaëlle agora, passados estes anos todos? Porque me lembro de quando ela me pedia para pôr o concerto de Colónia quando queria fazer amor – isto é, todos os dias, todas as horas? Porque me lembro daqueles seios pequenos, rosados, onde se me entaramelavam os dedos, a língua, o nariz, os olhos, às vezes a pila – pareciam um foguetão a caminho da Lua, quando cresciam de repente...

Eu sei porquê: é por causa da Gaëlle  e de todas as Gaëlle que me atravessaram os dias e as noites, que magoei sem querer – e às vezes querendo, mas sempre injustamente – que hoje sou quem sou. E não, Gaëlle, eu não fodia como um deus. Nós fodíamos como deuses. Há coisas que só se fazem a dois e ir para o céu é uma delas.

Beijos do


Luís 



(Lisboa, 29/11/2020)

21.1.21

Diário de Bordos - Lisboa, 21-01-2021

À minha direita, o negro do mar e a rebentação das vagas em fiadas paralelas, sucedendo-se como fileiras de dentes, brilhantes, brancos e convidativos. À esquerda, o alcatrão da outra faixa da Marginal. Do Estoril até Algés é a bicicleta que me puxa. De Algés a casa, sou eu que a puxo. Ou puxo por mim, diria o meu Pai. «A bicicleta é o único meio de transporte em que a besta se puxa a si própria.» Que sorte tem a besta! A noite espicaça, o vento está pela popa, a estrada quase deserta. Em Caxias uma senhora abranda ao meu lado para me avisar de que sou pouco visível. Ponho o colete e continuo leve, direito na minha Coluer, as pernas a um ritmo que elas mesmas escolheram. A noite estava - e foi - demasiado boa para me enfiar num comboio. 

O medo é um abafador. Abafa-vos a vida, berlinde a berlinde. Vejo mal, a surriada que o vento me traz põe-me os óculos como se estivesse no mar; nada disso cobre o prazer que é rolar por esta Marginal quase deserta, por esta noite que oscila entre o negrume completo e o verde brilhante dos semáforos, nesta bicicleta silenciosa, confortável como uma poltrona. Sinto-me como se estivesse num trenó. A bicicleta avança sozinha, os carros passam à vontade na faixa da esquerda (alguns depressa demais, mas quem nunca andou depressa demais numa Marginal deserta que atire a primeira pedra). De vez em quando paro para limpar os óculos, para memorizar uma ou outra ideia mas logo de seguida a burra puxa por mim, chama-me e as paragens acabam por ser breves, instantes tão fugazes como os que o chuvisco leva a encher-me de novo as lentes de uma cortina estrelada, como aqueles filtros das fotografias que transformavam cada luz numa estrela. 

Fui ao Estoril fazer o teste PCR, que desta vez correu bem - suponho que por cansaço dos intervenientes todos, eles e eu. Comecei por entrar com a máscara bem sobre o nariz e só a abaixar lá dentro; apenas uma vez um funcionário me chamou a atenção, mas de uma forma delicada, quase ténue. Na sala, o diálogo com a senhora foi cordial. Saí e fui a casa do A. G., onde lanchámos, jantámos, bebemos duas garrafas de vinho para lá do muito bom - Castelo d'Alba um e Quinta da Comenda o outro, creio mas não garanto. Este do Alentejo aquele do Douro. Vinhos à portuguesa, adstringentes, encorpados (mais o Douro do que o outro). Quando parou de chover, vim-me embora. Até à estação não há que pedalar nem um minuto, é sempre a descer. Lá em baixo, decidi continuar até S. João, depois até Oeiras, e aí soube que estava decidido: viria até casa. Por causa do mar, dos dentes brancos que me sorriam, da surriada que me embaciava os óculos, porque o medo é um abafador, porque respirar é preciso, porque ir numa bicicleta que desliza silenciosa na pele negra do alcatrão é como voar montado nas asas de um anjo, porque uma bela amizade deve ser celebrada.

Não sei como se chama o produto químico que o movimento regular das pernas envia para o cérebro, mas sei como se chama o resultado: êxtase.

19.1.21

Não-dormir, não-frio

Que se lixe a hora. Vais deitar-te e não-dormir, como ontem. Não-dormiste até de madrugada e não sabes que fizeste da noite. Nada, provavelmente. Como leste um dia, a vida é uma longa insónia ao fim da qual devemos poder responder a uma pergunta simples: que fiz eu desta noite? Desta longa noite? Não me venhas com a história das árvores,  dos filhos e dos livros, já fizeste isso tudo (e os filhos a dobrar). Fala-me de coisas importantes, de quantas vezes morreste, qual o amor que mais te queimou, qual o mal que fizeste que mais lágrimas te arranca hoje? Aprendeste a viver com o mal que fizeste... Nada mais há que possas fazer senão aprender, jurar que não voltas a ferir ninguém e menos ainda uma mulher cujo único erro foi apaixonar-se por ti. Jurar a quem? A ti próprio, não há mais ninguém. E as que te magoaram: que fazes dessas dores que se acumularam e ainda hoje ressoam, todas, não te falta uma, como se coleccionasses lágrimas e punhaladas, como se te preparasses para um dia as fulminares com um tiro cada uma, em fila de costas para ti, como alvos numa feira.

Não penses que no fim tens uma balança e podes pôr num prato umas, no outro as outras. Não há ninguém, nem para ler a balança nem para te ajudar a seleccionar as dores. Não são coloridas nem têm números. 

Dessa longa insónia só trazes dores? Não tens alegrias? És um chato. Vai não-dormir para a cama e pensa no que vais fazer quando acordares. Deixa-te de dores, coloridas ou numeradas. Pensa na tua sorte: não tens sequer frio. Quem não tem frio tem tudo. Quem não-dorme também. 

António

 

ANTÓNIO

(Para a Sandra)

 

António vai todas as noites passear o cão, um rafeiro preto que anda como se os passeios fossem nuvens e parece ausente como se nelas habitasse. É viúvo, tem setenta anos e dois filhos cujo nome esqueceu, ou finge que esqueceu. Incompatibilizou-se com eles ainda a mulher era viva e ela morreu relativamente jovem, teria ele quarenta e cinco,  talvez cinquenta anos no máximo. Mora sozinho naquilo a que agora chama "o poço da maré vazia", vive de um magro pecúlio composto pela reforma e pelo que resta das poupanças, previdentemente postas a render numa pequena instituição financeira. Como é pescador as suas analogias referem-se sistematicamente ao mar. O cão chama-se Faneca porque deve ter sangue de cão de água português.

António não sabe a idade dos filhos. Calcula que o mais velho esteja agora nos quarenta e muitos, a idade que ele tinha quando a mulher morreu, mais coisa menos ano. O outro é três anos mais novo. Raramente pensa neles, mas esse raramente tem cada vez mais redemoinhos e isso inquieta-o. Queria ter uma morte limpa, sem espinhas ou com elas arrumadas no sítio. Nada de coisas a espetarem-se onde não são chamadas.

Detesta a modernidade, para a qual sente que não contribuiu. Contudo, nem sempre foi assim. Maquinista de comboios durante a sua vida activa, foi progredindo na carreira até tingir uma posição elevda numa importante fábrica de material ferroviário na Alemanha. Pouco tempo depois de a mulher morrer despediu-se, pediu uma reforma antecipada, continuou a ignorar os filhos – e a ser ignorado por eles - e regressou a Portugal, para a nossa aldeia. Primeiro tentou Lisboa, mas o contraste com a Alemanha era-lhe insuportável e veio para o campo, onde segundo ele as diferenças se esbatem ou se tornam irrelevantes. Escolheu a nossa aldeia porque é delimitada por um rio no qual pode praticar o seu passatempo favorito (mas não único). Afasta-se decididamente de todas as polémicas, reduz os contactos connosco ao mínimo (nós sendo os outros aldeões, cerca de mil e poucos). O seu «Il faut être moderne» de antigamente transformara-se em «La modernité m'emmerde et je l'emmerde» (antes de ir para a Alemanha trabalhara em França, nos primeiros anos do TGV, de que era adepto, admirador e orgulhoso conhecedor).

- Percebes, Faneca? – O seu mais frequente interlocutor era o cachorro – O problema da modernidade é que ela nos fugiu. Queríamos que fosse uma coisa e ela desembestou por ali fora, feita égua louca. Fugiu-nos de mão. Repara, não há geração cujos velhos não digam o mesmo, não pensem que o caminho de repente deixou de ser ascendente e se tornou descendente. É normal, mas não deixa por isso de ser assustador. Eu fui mais livre do que os meus pais, estes mais do que os deles e por aí fora. Os meus filhos não são mais livres do que eu. São menos. Enfim, os gajos da idade dos meus filhos. Para eles estou-me nas tintas. – Um dos tais redemoinhos apareceu-lhe, a voz ia começar a tremer e resolveu calar-se. De qualquer forma, o cão não ligava nenhuma aos solilóquios do velho; não ligava a nada que não fosse comer, urinar e defecar. De vez em quando aparecia-lhe uma cadela com o cio e atirava-se a ela com uma energia insuspeita. Era a única coisa que o atraía para fora do seu próprio corpo.

- Tens sorte, – dizia-lhe António nesses dias – as fúrias não te abandonaram ainda. Ou azar, sabe-se lá. Durante um certo período da sua vida fora um impenitente mulherengo e hoje olha para a actividade sexual com um misto de sentimentos: «já tive que chega» e «nunca chega».

 

O trajecto do passeio com o cão é sempre o mesmo, o seu local de pesca igualmente. «Quem fez uma vida a andar nas linhas não precisa de desvios», explicava António a Faneca, que se adaptara ao percurso como se tivessem sido feitos um para o outro. Parava sempre na mesma árvore, cheirava os mesmos portões, urinava e defecava nos mesmos sítios. Andava um bocadinho de lado e ondulava como se fosse feito de borracha, cabeça para o chão, cauda para cima. Tinha sido bem educado, vinha quando António o chamava, não ladrava aos outros cães nem a pessoas, não pedia nem roubava comida. Só se transformava no campo: saltava, corria, caçava ratos, pedia a António que lhe atirasse paus para em seguida estrafegá-los. Iam ao campo duas vezes por semana: sábados à tarde e domingos de manhã. «Ninguém precisa mais de um desvio do que quem anda nas linhas, Faneca.» António era atraído por uma boa contradição como a água de um rio pelas barragens. «Ouve, Faneca, que eu não viverei sempre: quando estás nos carris não há desvios; quando estás nos desvios não há carris.» Faneca ouvia, abanava a cauda e corria atrás de uma folha que o vento empurrava sabe-se lá para onde.

 

II

António foi pescar. Em breve morreria, «seja ela que me vem buscar, seja eu que a vou visitar», explicava ao cão. «Não tarda acaba-se-me a massa, a cabeça, os olhos e os ouvidos... não me vês a viver como tu, pois não, Faneca?, na dependência de um idiota qualquer. Vá lá que tu ao menos ainda consegues mijar e cagar sozinho, mas um dia eu nem isso poderei fazer. Além de que sem fúrias a vida perde metade do interesse e essas há muito me deixaram pendurado.» É verdade que pensava cada vez mais na morte e cada vez mais a ideia de se reconciliar com os filhos lhe subia pela espinha acima. Contudo, não sabia como encontrá-los. Perdera-lhes o rasto há mais de vinte anos, por causa de uma história de mulheres. Isto é, mulheres deles: apanharam-no na cama com elas, as duas ao mesmo tempo. A mulher riu-se e encolheu os ombros; eram duas irmãs e delas dizia «não são gémeas mas são putas monozigóticas». Porém os filhos zangaram-se, recusaram-se a vir a casa dos pais quando ele lá estivesse, passado pouco tempo Katherine morreu – era o único elo que o ligava a eles – veio-se embora para Portugal e a corrente quebrou-se definitivamente. Até agora.

O resultado da pesca foi bom. No rio abundam lampreia, enguias, saboga, muge, barbo, picão, achigã, carpa, lúcio-perca, caranguejos azuis. Destes, alguns são importados sabe-se lá donde. A António a proveniência dos peixes é indiferente: pescou um belo lúcio-perca e três muges decentes. Têm jantar para três dias, Faneca e ele. Ao forno, o lúcio é excelente, fino e delicado. Já o muge (noutras paragens conhecido por sável) é melhor frito ou grelhado.

 

III

António deita-se no tempo como se estivesse na espreguiçadeira de um paquete, ao lado da piscina, vendo as senhoras de biquíni explicar aos maridos porque é que não devem olhar para a concorrência. Espera um cometa que o leve para o futuro ou lhe traga o passado.

- Verdade seja dita, Faneca, a Katherine não tinha concorrência, pois não?

- ...

- Pois, tu não a conheceste, não sabes. Há quantos anos estamos juntos, nós? Apanhei-te numa rua, eras tu cachorro de mal te aguentares nas pernas. Catorze anos? Quinze? Não sei. Não tarda vais desta para melhor, é o que é.

- ...

- Katherine era diferente das outras mulheres. Tinha mais testosterona do que elas. Tinha mais testosterona do que muitos homens que conheço, de resto.

- ...

- Percebes, Faneca? Não percebes, claro. O teu vocabulário é limitado. Percebes o teu nome e mais meia dúzia de palavras. Repara, o problema é simples: do que é que se gosta numa mulher? Ser como nós? Asneira. Aguentar-nos? Erro. Corrigir-nos, educar-nos, seja o que for? Fracasso assegurado. A única qualidade que te faz amar alguém como deve ser é essa pessoa deixar-te ser quem és e amar-te apesar de seres o que és. Dialéctica pura, meu caro. Muita sorte tens tu em não perceberes nada disto. «Amo-te porque me desafias e me levas a ser tudo o que sou.»

- ...

- Tu calas-te, claro. Talvez nessa meia dúzia de sinapses que não tens de dedicar às necessidades básicas consiga surgir uma pequena faísca de surpresa. Nunca me ouviste falar tanto tempo seguido, pois não?

Estavam deitados à beira-rio. O dia caía, a água tranquila reflectia os tons encarnados, rosa, amarelos do céu. A terra escurecia progressivamente, devagar como uma senhora velhinha a subir escadas. O pequeno pecúlio de António já acabou há algum tempo. O rio corre por entre margens escarpadas, «secas como ossos num deserto».

- Agora moramos no poço da maré baixa, Faneca. Sem a ajuda do eurototós nunca mais sairemos dele. Os meus planos para a reforma ficaram a meio: pôr ordem no passado e apanhar um cancro fulminante, daqueles que matam em semanas ou em meses. Ainda vou a tempo, repara: tu não tarda vais de bola e eu... eu... eu, olha substituo o cancro por outra coisa qualquer, ainda mais rápida. Tenho a vida em ordem: o que parecia disperso e desarrumado foi limpo. A mulher a dias da vida passou por ali, deitou fora o que era de deitar fora, tirou o pó ao resto e arrumou-o por estantes, armários, gavetas, cómodas, tudo. Só me custou começar porque não sabia que ordem dar àquilo, que variáveis escolher. Uma vez isso feito, foi fácil, parecia um comboio lançado nos carris e sem sinais à frente. Fotografia, mulheres, viagens, trabalho, família, escrita, bebida... foi tudo a eito. Enfim, a eito é maneira de dizer. Foram mais de um dúzia de anos, não foi? Verdade seja dita, não a tempo inteiro. Havia a pesca, as caipirinhas no café do mercado – que linda é a mulher que as faz, não achas? – os passeios pelo campo contigo. O passado e o presente estão separados por uma rede permeável, uma rede que só retém o que lhe interessa e deixa passar o resto. Até lixo passa pelas malhas e nós vamos deixando-o acumular-se. A maior parte das vezes não nos apercebemos sequer de que é lixo; ouras, não ligamos. Dizemos «Ah, depois tratarei disto». Esse depois demora a chegar e o passado vai-se acumulando, desarrumado. Foi por isso que vim para a aldeia, Faneca: sentar-me à mesa, limpar os pratos do passado, apanhar um cancro e ir-me, com a casa limpa e as janelas sem mácula. Esta aldeia é o sítio ideal para fazer isso, excepto que de cancro nem sinais. Qualquer dia vou de cometa, é o que é. Vá, anda, vamos para casa. Está a ficar frio e a loira das caipirinhas já fechou.

 

- Também não vou durar muito, Faneca. Sabes isso, não sabes? Algures dentro de ti deve haver uma voz a avisar-te. A carcaça está podre, apesar de não parecer. São coisas que me chegam do fundo dela que mo dizem. Tu não estás muito melhor, repara. Estamos numa corrida, não para ver quem chega primeiro mas quem vai primeiro. Espero que sejas tu, com essa idade sem mim não duras muito e num canil qualquer mais vale estares morto, que aquilo não é vida.

 

IV

A questão está no que António disse ali em cima: o que separa o passado do presente e este do futuro é uma rede de malha muito larga: tudo passa de um lado para o outro. Arrumas o passado hoje e amanhã tens outro por arrumar e todos os dias um prato se junta à pilha. Nunca acaba. Um dia, resolveu acabar com as limpezas.

- Já fui muito infeliz. Mais infeliz do que tudo o que tu possas imaginar. Tão infeliz que não sabia sequer que a felicidade existia. Não era como se a tivesse esquecido, era mesmo não saber, nunca ter sabido. Só mais tarde, anos e anos depois, mais ou menos na altura em que conheci Katherine, descobri que a felicidade é real e não qualquer coisa de que se ouve falar ou se lê nos livros - mas não por conhecimento directo, não por a ter experimentado. Isso só veio depois. Muito, muito depois. Para mim, experimentar directamente a felicidade foi como renascer, como ver o Sol depois de um eclipse de séculos. Não me lembro de quando isso aconteceu, mas já ia muito avançado em direcção aos trinta. Até lá, a minha vida fora como aquelas intermináveis praias do mar do Norte, de areia cinzenta, céu cinzento, mar cinzento e mulheres muito brancas e finas como pasta de dentes. Não ligava às mulheres. Isto é, ligava e muito, queria tê-las mas não queria fazer o que era necessário para as ter. Como quando queres beber um café mas não tens vontade do o fazer. Era infeliz e deixava-me arrastar pela infelicidade como um entrevado numa cadeira de rodas no hall de um hospital. A infelicidade era a minha casa. No Inverno fazia batalhas de bolas de neve, ski de fundo, bebia vinho quente e era infeliz. No Verão, passeava pelos bosques, bebia cerveja ou vinho branco e... adivinhaste, Faneca. Ainda hoje me lembro desses dias com terror e espanto. Terror porque sei que podem voltar à cada instante. Espanto, porque não compreendo como lhes sobrevivi, como aguentei tanto tempo. Uma vez tentei acabar com aquilo, mas não consegui e mal saí do hospital real voltei para o meu hospital metafórico, o da cadeira de rodas, tetraplégico dos sentimentos.

A felicidade caiu em mim de repente. Já ouvira falar dela, como te disse. Talvez até a tivesse vislumbrado, talvez lhe tivesse tocado de raspão. Um dia, porém, descobri que podia ser feliz, podia ser como todos os homens à minha volta, podia ser deus. Deus menor, sem dúvida, mas deus. Finalmente, a minha vida começara a obedecer-me. Não sei como explicar-te isto: de ser vivido passei a viver. De bola de bilhar passei a ser o taco. Imagina um cego que de repente começa a ver: aposto que a sua alegria, a sua felicidade, o seu espanto não seriam maiores do que os meus, quando  descobri que também a mim era dado ser feliz. Como se tivesse nascido já adulto. Ainda hoje não percebo como aquilo aconteceu, mas espero que não acabe, ainda. - António pegou no gin tónico que pousara ao seu lado, deu-lhe um longo gole e continuou:

- Ainda é cedo. A partir de hoje, só trataremos do futuro, Faneca. Tu tens sorte, o teu é curto. Eu ainda tenho alguns anos para o fazer e é a isso que vou dedicar-me, de hoje em diante. Acabaram-se as arrumações.

 

 

Luís Serpa

 

Genebra 10/2020 - Lisboa, 19/01/2021

 

 

Voar para o sono

Não gosto da expressão "cair no sono". Faz pensar que há uma espécie de gravidade que nos puxa, inexoravelmente, para baixo, para o apagamento. O sono está lá em cima. Voa-se para o sono. Descola-se.

(Quando calha.)

18.1.21

Venenos, apelo

Pior do que o vírus é o veneno. Ou melhor, os venenos, são muitos. Não te ver. Afasta-te de mim. És um irresponsável. Vou denunciar-te à polícia. Põe a máscara! Faz o que eu te digo. Se o telejornal diz é verdade. Quem diz o contrário são os terraplanistas. Bom senso é acreditar em tudo o que te dizem. Queres deixar as pessoas morrer? Pões a economia à frente da vida. Os suecos são diferentes de nós. Quem é que pensas que és, achas-te diferente?

Venenos, só venenos. Vai ser o pior, o mais difícil de resolver: extraí-los desta gente toda, quando descobrirem que foram enganados, que se auto-enganaram. Ser enganado é chato, é duro, mas bom, acontece. Mas enganar-se a si próprio? Descobrir que quem nos pôs no lado errado da barreira fomos nós e não outra pessoa qualquer?

Já há informação que chegue. Ninguém vos pede que mudem de opinião. Façam-no vocês mesmos. Mas comecem por estudar toda a informação que existe. É só um passo, o primeiro.

17.1.21

Diário de Bordos - Lisboa, 17-01-2021, dia de eleições antecipadas

A bicha estava maior mas avançava mais depressa. Pelo menos foi o que me pareceu. Verdade é que foi rápido e gostei da organização. Havia pessoas a informar ao longo do trajecto, o processo foi fácil, fluido e rápido. Cumpri o meu dever eleitoral - votar na IL - muito mais facilmente do que esperava. Levei a bicicleta até o interior da reitoria, a senhora acedeu a guardar-ma (não percebi se com satisfação se não, mas isso é-me um bocadinho indiferente. Espero que tenha gostado. A Coluer é linda e tê-la à frente à guarda não é sacrifício para ninguém, suponho).

O cozido à portuguesa do café Tatu era óptimo, o vinho aceitável e agora vou para casa, devagarinho (esta é a palavra-chave). A bicicleta é confortável como uma poltrona e estou contente. Tudo é leve quando se está contente, mesmo uma bicicleta pesada.

Rolo por essa cidade abaixo. Há muitos carros e bicicletas na rua e a satisfação de ver automóveis parece-me estranha. Ciclistas a usar máscara é bizarro. Devem estar  proteger-se da variante ciclista do vírus, imagino. Mas é melhor vê-los assim do que não os ver de todo. Já gostar de ver carros é diferente. Não é bem uma novidade, mas anda lá perto. 

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Não estou a contar tudo como aconteceu. Este diário é relapso.

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Agora devia começar a série Amo-te Lisboa: parei na rua das Portas de Santo Antão. A ginginha estava fechada, mas a Ginginha Popular servia, prestando atenção à polícia que estava nas imediações. Foi um quadro de vida lisboeta - beber uma ginginha às escondidas da polícia roça o surrealismo - mas é a Lisboa que eu amo, a Lisboa resistente, a Lisboa de todos os santos vícios. Outro slide, no quiosque do cais do Sodré. Outro ainda, no meu amigo Hernâni. Cheguei a casa depois de n paragens e cada uma delas tinha sabor a Lisboa, a minha Lisboa, a de sempre, a que diz Sim e fecha as pernas ou Não e as abre, a Lisboa da finta, dos mânfios, a Lisboa que resistiu ao terramoto, ao Kruz Abecassis e há-de resistir ao Medina. Amo-te Lisboa e não é por causa do Mosteiro dos Jerónimos ou da Torre de Belém. É por causa da luz e das pessoas que ela ilumina e faz viver e elas em troca fazem viver. 

(A ginginha da Ginginha Popular é Espinheira, menos boa do que a Sem Rival, mas quem perder tempo a pensar nisto agora está equivocado.)

Lisboa é um equívoco para quem só vê bem e a cidade certa para quem sabe ver de través.

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Nb: o cerne da questão para um escritor não é saber se os leitores estão de acordo com aquilo que escreve. É saber se os leitores concordam com a forma como o escreveu. O trabalho do escritor é escrever, não é pensar. Absorver e escrever. E já agora, escrever bem. Isto é: tornar inteligíveis as ideias, sejam elas pensadas por si ou por outro gajo qualquer. O senhor da ginginha, que mas serviu (bebo sempre duas, para não ir coxo para casa) com um olho na garrafa e o outro nos polícias tem tanto direito a ser citado («estes cabrões não me largam, desde o princípio da tarde que andam aí») como o professor universitário que pensa que o vírus tem a obrigação de obedecer ao nosso primeiro-ministro (e se não obedeceu não foi ele, fomos nós).

Os chuis largaram-nos, bebemos as ginginhas - éramos dois à espera que aquilo passasse -  Lisboa foi Lisboa e o resto que vá para o inferno, como cantava um senhor brasileiro aqui há uns anos.

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Na verdade, a verdadeira questão foi formulada por Henrique Pereira dos Santos já em Março ou Abril: qual é o problema em aceitar que há um processo natural que nós não conseguimos controlar e ao qual nos devemos adaptar? Essa é a questão, inteira e límpida. Tentar parar o vírus com «medidas» é como tentar parar o vento com as mãos (continuo a citar Henrique Pereira dos Santos). Qual é a dificuldade em aceitar isto? Porque pensamos que temos um controle absoluto sobre todas as forças da natureza? Estas medidas só servem para ecrã de fumo, não resolvem nada - como se tem visto até agora em todo o mundo. Basta querer ver.

Mea culpa

 Sou o único reaccionário que conheço que é contra a diabolização do progresso.

Coisas que me enternecem

Coisas que me enternecem:

- Um senhor dos seus sessenta e muitos, setenta anos numa bicicleta de montanha eléctrica vestido de lycra. O grupo dos AMIL precisa de uma subdivisão;

- Casalinhos ao ar livre, de mão dada e máscara. É tão bonito, o bom senso...

- A proto-facha que há pouco me gritou "olha a máscara". Dêem-lhes uma causa e não há pide que não emerja de um democrata. Esta era giraça, classe média para cima, trinta e poucos, automóvel bom (tanto quanto me pareceu, percebo pouco disso). Era o homem que ia a guiar. Tinha um banco de criança atrás (pelo menos. Podia haver dois, mas só via um dos lados do veículo). Ia mascarada dentro do carro, não fosse o vírus precisar de boleia. Já devia ter votado, a julgar pela direcção do carro. A gente não os vemos, mas que eles andem aí andem;

- As filas para o voto antecipado na Cidade Universitária. Volto cá mais perto da hora do fecho, isto está impossível. E pensava eu que a abstenção seria enorme. As nossas autoridades têm aqui motivo de reflexão. Querem encorajar as pessoas a votar? Adiantem as eleições. 

- As ruas não estão tão vazias como eu supunha que estivessem. Para isto ficar suportável, só falta abrirem os cafés e eliminaram as máscaras na rua. Ah, e as lojas de roupa, claro. Preciso de um camisola tipo pullover da Burberry;

- Uma senhora "mais Avenidas Novas do que aquilo, morre-se" a tratar o cão (um cão de água português) por você. Estive quase para lhe oferecer (ao cão) uns restos do - magnífico - cozido à portuguesa que vim comer para o jardim do Campo Grande, na espera de que as filas para o voto se esvaziem;

- O dono de um restaurante condenado a vender meias-doses de cozido, enormes e soberbas,  "ao postigo" por 3,95 euros concordar com as "medidas": "Isto descambou, eles tinham de fazer alguma coisa". Quem é que falava em educar as massas? Era o Mao, não era?

Mentes vazias

O que está na minha mente, pergunta-me o Facebook. Está muita coisa: a alegria infantil de poder ir votar, por exemplo. Foi por um triz. Não estivesse a nevar em Madrid há duas semanas e a IL perderia por mais um voto; a alegria - menos infantil - de sentir que «isto» «está a acabar» (aspas porque «isto» designa um vasto conjunto de coisas e porque «a acabar» é um manifesto exagero. Começou a acabar - o meu irredimível optimismo leva a imprecisões na linguagem, uma lástima que não cesso de lastimar). A perspectiva de ir até à cidade universitária de bicicleta: gosto destes longos trajectos pela cidade e ainda mais agora, com as ruas quase desertas e este frio espicaçante.

Estão muitas coisas, algumas das quais não podem ser faladas e portanto devem ser caladas e outras que por deverem ser caladas não querem ser faladas.

Subir. Ou: És o teu melhor antidepressivo

Entre pairar e derivar escolhes aquele, claro, mas não tarda dás por ti a derivar, a deixar-te ir arrastado pela corrente - que não vês nem sentes, só sabes que está lá, tens uma ideia aproximada da velocidade - e pelo  vento. A deriva tem a vantagem de não exigir nada de ti senão deixares-te ir, saíres de ti como se deixasses uma casa ou uma cama que te acolheram. Pairar requer atenção, é como se estivesses à janela dessa casa ou sentado na borda da cama. Porém, a analogia correcta não é o mar. É um buraco no qual cais e do qual um dia te fartas, simplesmente. Estás lá em baixo. Evitas olhar para cima, não vá a luz do sol encandear-te. Até que um dia a luz de uma vela chega para te fazer ver. Sabes o que precisas de fazer para sair do buraco: uma escada. Tens ao teu alcance tudo o que precisas para a fazer: os degraus estão em ti, basta ordená-los. A luz do Sol chega-te, ilumina o fundo do buraco - é uma rocha escura, fria, escarpada - mostra-te onde deves pôr a escada, qual a ordem adequada dos degraus.

Está feito. Basta começares a subir.

16.1.21

Entreactos, entrecostos e carne picada - Receitas improvisadas

As garrafas de vinho têm a propensão - bem conhecida por toda a gente - de terminar no pior momento. Isto é, quando mais precisamos delas. Com o tempo aprendi a gerir-lhes os ritmos e as vontades. Ver uma garrafa esvaziar-se no preciso instante em que acabo de comer, ficando portanto com um copo cheio para a pausa pós-prandial é um triunfo nada despiciendo.

Sobretudo quando o almoço - umas rodelas deste chouriço extraordinário que me provém do talho O Naco, nunca por nunca ser o esquecerei - meia cebola, meio pimento encarnado, umas folhas de louro da frutaria (está para as frutas e legumes como o talho para a carne), dois dentes de alho esmagados, duas malaguetas do mercado da Ribeira, tudo isto refogado num pouco de azeite e outro tanto de banha. Lentamente. Devagarinho. A fogo brando. Quando estava tudo quase, acrescentei a carne picada, já misturada com alecrim e uns grãos de pimenta preta. Deixei refogar outra vez. Acrescentei vinho branco, cozeu devagar. Quando o devagar estava quase a acabar, fiz um arroz branco. - Acabou agora, ainda tenho o copo cheio, o palato grato, o pasmo intacto. (O sobretudo do almoço perdeu-se algures no caminho. Deixemo-lo.)

Ontem fiz entrecosto no forno em vinho branco, limão, alho, coentros e salsa e ficou bastante agradável, do que resulta que isto de gerir as durações do tinto vale a pena para não termos de sair a meio - tanto mais agora que o senhor da esquina já não tem vinho de Vila Real, o que prova que Deus não trata bem de quem Dele não trata, como eu (nem Deus nem a Cooperativa de Vinhos de Vila Real, mas isso é outra história). Agora bebo um alentejano que escapou ao raz-de-marée dos vinhos redondos, mas anda lá perto. (E tenho duas garrafas de um «biológico» das Beiras ali atrás, não vá o diabo tecê-las, mas essas estão guardadas para quando houver visitas.)

Os dias desenrolam-se entre ir às compras e consumi-las, com alguns entreactos e entrecostos de permeio. 

Uma reparação é devida

- Esta narrativa de culpa e medo está a afectar as pessoas - diz-me R. 
- São duas coisas de que elas precisam. Antigamente as igrejas davam-lhas em quantidade. Mataram-lhes Deus, ficam com a Covid - respondo.

Voltámos à Idade Média. Ou pelo menos estamos a caminhar para lá. Magnífica regressão. Cátaros, goliardos, ortodoxos, apóstatas, milenaristas, maniqueístas, estilitas e tutti quanti, o vosso esforço não foi em vão. Deixaram descendentes. Se formos procurar relações entre lojas fechadas e os pecados encontraremos algumas, aposto. Restaurantes, discotecas, lojas de roupa, livrarias (ler não é pecado? Depende do que se lê. Não foi assim há tanto tempo que o Index acabou [1966]) e não tarda está aí outro. Ninguém diz «Se pecares vais para o Inferno», mas «Se pecares não terás direito a ser tratado no hospital». A diferença é pouca. O discurso cristão oscila entre o individualismo - somos únicos e responsáveis perante Deus, é a Ele que devemos obediência e não à tribo - e o «rebanho», termo que aparece a cada três linhas. O pensamento religioso, maniqueísta, está de regresso. Há os bons e os maus, os santos e os pecadores, santa Greta (esta desapareceu?  Ou recuou para melhor saltar?) e os «negacionistas», os impuros e os vegans... A lista não acaba. Os crentes sentem-se autorizados a atirar pedras aos outros, aos leprosos da dúvida. 

Sabemos o que estamos a perder. Já passámos por lá. Não podemos recuar. Foi a nossa geração que estragou isto, tem o dever de reparar antes de desaparecer.


PS - Não gosto de igrejas, capelas, capelinhas, rebanhos, quintas ou quintinhas. Não é amanhã que me verão fazer parte de uma.

15.1.21

Oiça um bom conselho

Quando relatamos uma conversa, devemos resitir à tentação de dizer «Fulano disse-me que...». A forma correcta é «Fulano disse qualquer coisa que a mim soou como...»

Vésperas, Rachmaninov, fé, Genebra e mais uma data de coisas que não cabem num alfabeto

Oiço as Vésperas de Rachmaninov num aparelhagem fraquinha. Preciso do dobro do volume e da densidade, mesmo sabendo que quem as ouviu na catedral de Genebra dirigidas pelo Corboz nunca mais na vida chegará lá perto. 

(E quem não cedeu à tentação da fé naquele dia nunca se convertirá.)

Diário de Bordos - Lisboa, 15-01-2021

Recomeça esta prisão domiciliária completamente injusta e injustificada. Saio para fazer compras e apercebo-me de que é bem menos grave do que a primeira. Está tudo aberto menos os cafés e restaurantes. Deve ser a primeira vez na vida que me regozijo com uma palhaçada (das de fora do circo). Oiço Paco Ibañez e pergunto-me que raio de injustiça fez com que nós ficássemos com Godinhos e Afonsos e os espanhóis com Ibañez e Andions. Esta confusão com a Air Europa - resolvida hoje de manhã, hallelujah - deu-me pelo menos oportunidade de votar adiantado, se tiver feito as coisas correctamente. Não é impossível. Não voto Mayan, voto IL, uma vez mais. [Adenda: fiz. Vou votar no domingo]. Entretanto a televisão oferece-me Karajan e a filarmónica de Berlim, esqueci-me das natas no gratin dauphinois, o mundo volta, pouco a pouco, a ter tudo no lugar. Isto é, encarreirado, como se diz. Preferiria uma auto-estrada: «está tudo auto-estradado» mas contento-me com o carreiro. Não é difícil: gosto de formigas e detesto pressas. A minha geração bem pode limpar as mãos à parede, com esta cama que fez aos taradinhos da segurança, aos histéricos do risco zero, aos racismos identitários. Isto é tudo gente que vem dos MRPP e dos PRT e dos PCP-R e da liberdade socialista e se desabituou de pensar quando deixou a merda do marxismo-leninismo-maoismo-pol potismo-enver hodjismo-titismo e começou a trabalhar. Pata que os pôs! Confinem-se, mascarem-se, vacinem-se, matem-se mas deixem viver os outros.  Não consigo identificar a peça no canal Mezzo e lamento esta incapacidade. Nem o parabéns a você reconheço à primeira sílaba. É Brahms, vejo no programa. Vá lá, Não conheço Brahms de todo, ser-me-ia impossível reconhecê-lo. O mundo volta ao lugar e eu vou à rua comprar chouriços ao talho O Naco e ver se a minha fraca já chegou. Estou inscrito para votar, tenho uma consulta para os olhos e quero que o resto todo se lixe, com f grande. Amanhã talvez haja menos uma coisa no grupo «resto todo» e mais uma na lista das encarreiradas. Em Lisboa, a temperatura é de 14 graus centígrados, o que sempre é mais civilizado do que o briol de ontem e antes de ontem. Espero que haja muita gente a votar Mayan e que a fraca tenha chegado: são estes os limites da minha esperança. Pelo menos agora ninguém me pode acusar de megalomania.

Mulheres, dias

"Não sou grande espingarda. Nunca fui. Tenho contudo a vantagem de não me importar muito com isso. O filme está quase a acabar e gosto de finais tristes. Enfim, não exactamente tristes: que correspondam à história, que não dêem grandes piruetas para acabar, como os contos do O'Henry ou um malabarista de circo. Por isso me deixo ir sem sobressaltos por esta rampa abaixo. Sei o que me espera lá em baixo. Todos sabemos: já todos estivemos mortos, antes de nascer.  Andamos às voltas. O ponto de chegada é o ponto de partida. Se fores muito esperto, a diferença é que começas a descida mais alto. E se calhar demoras mais tempo a cair, é possível. Ou cais mais devagar ou a rampa é mais longa.

Passei a minha vida toda rodeado de gente inteligente. Sabes aquele estratagema das mulheres bonitas? Têm sempre uma amiga feia com quem gostam de se mostrar. Realça-lhes a beleza e poupa-lhes competição. Pois eu era o burro dos meus amigos intelectuais. Mostravam-me, deixavam-me falar e quem brilhava eram eles. Quem seduzia as miúdas mais bonitas, mais interessantes, mais estimulantes, mais tudo. A mim calhavam só  as que gostavam de felações e as faziam bem. Durante toda a vida isso revoltou-me, mas agora percebo que estava enganado. O que no fundo é natural: para alguma coisa se é burro e não é para acertar. Se acertasse seria como eles. Às vezes reunimo-nos para conversar e beber uns copos. Não lhes invejo as vidas, a nenhum deles. São mais ricos e tiveram mulheres mais bonitas? Sem dúvida. Mas quem deu as melhores quecas fui eu; e o que levas tu daqui, diz-me? Nada, se não as memórias de um corpo enredado no teu. Um ou vários, que foram muitos, graças a Deus. Já lá vai, tudo isso. Mora no largo da memória e nunca sai à rua. Foi o que mais me custou, quando chegou a velhice. Os outros escreviam, liam, iam a conferências, sei lá. Eu não: sem uma mulher ao meu lado sentia-me como se me tivessem cortado os braços. Como o guarda de um jardim zoológico sem animais. Caçador a quem o elefante tivesse esmagado a arma. Durmo sozinho nesta savana vasta e vazia. Os últimos elefantes deixaram-me há anos, alguns com pena, outros com riso. Custou-me bastante a aceitar, esse sossego. Agora regalo-me nele e gozo com os meus amigos: "Para vocês, nada mudou", digo-lhes. "Para que vos serve a velhice? Eu tive de reaprender a viver, enquanto vocês se limitaram a esquecer o que nunca souberam. Dei trabalho ao meu touro furioso. Esgotei-o. E vocês?" Nunca sabem bem o que me responder."

A campainha da porta toca. O senhor levanta-se e vai abrir. É a mulher a dias, uma jovem peruana de trinta anos a quem deu o trabalho por causa dos olhos, que o fazem chorar.

14.1.21

França, vida, coisas

- Coisas que nos fazem amar a língua francesa: «Viens rompre le pain chez moi.»
- Coisas que nos fazem amar a França: a língua;
- Coisas que nos fazem amar a vida: a manteiga da Bretanha; o vinho de Châteauneuf-du-Pape (e da Borgonha, de St. Émilion); o queijo de Époisses, o Camembert, o Morbier... (reticências porque a lista é interminável); os livros de le Clézio, Camus, Yourcenar (sim, eu sei).

Ainda

"Já fui muito infeliz. Mais infeliz do que tudo o que tu possas imaginar. Tão infeliz que não sabia sequer que a felicidade existia. Não era como se a tivesse esquecido, era mesmo não saber, nunca ter sabido. Só mais tarde, anos e anos depois, descobri que a felicidade é real e não qualquer coisa de que se ouve falar ou se lê nos livros - mas não por conhecimento directo, não por a ter experimentado. Isso só veio depois. Muito, muito depois. Para mim, experimentar directamente a felicidade foi como renascer, como ver o Sol depois de um eclipse de séculos. Não me lembro de quando isso aconteceu, mas já ia muito avançado em direcção aos trinta. Até lá, a minha vida fora como aquelas intermináveis praias do mar do Norte, de areia cinzenta, céu cinzento, mar cinzento e mulheres muito brancas e finas, como pasta de dentes. Não ligava às mulheres. Isto é, ligava e muito, queria tê-las mas não queria fazer o que era necessário para as ter. Como quando queres beber um café mas não tens vontade do o fazer. Era infeliz e deixava-me arrastar pela infelicidade como um entrevado numa cadeira de rodas no hall de um hospital. A infelicidade era a minha casa. No Inverno fazia batalhas de bolas de neve, ski de fundo, bebia vinho quente e era infeliz. No Verão, passeava pelos bosques, bebia cerveja ou vinho branco e... adivinhaste. Ainda hoje me lembro desses dias com terror e espanto. Terror porque sei que podem voltar à cada instante. Espanto, porque não compreendo como lhes sobrevivi, como aguentei tanto tempo. uma vez tentei acabar com aquilo, mas não consegui e mal saí do hospital real voltei para o meu hospital metafórico, o da cadeira de rodas, tetraplégico dos sentimentos.

A felicidade caiu em mim de repente. Já ouvira falar dela, como te disse. Talvez até a tivesse vislumbrado, talvez lhe tivesse tocado de raspão. Um dia, porém, descobri que podia ser feliz, podia ser como todos os homens à minha volta, podia ser deus. Deus menor, sem dúvida, mas deus. Finalmente, a minha vida começara a obedecer-me. Não sei como explicar-te isto: de ser vivido passei a viver. De bola de bilhar passei a ser o taco. Imagina um cego que de repente começa a ver: aposto que a sua alegria, a sua felicidade, o seu espanto não seriam maiores do que os meus, quando  descobri que também a mim era dado ser feliz. Como se tivesse nascido já adulto. Ainda hoje não percebo como aquilo aconteceu, mas espero que não acabe, ainda."

O senhor pegou no gin tónico que pousara ao seu lado, deu-lhe um longo gole e continuou:

"Ainda é cedo."

13.1.21

Diário de Bordos - Lisboa, 13-01-2021

Planos para o lanche. Que fazer depois de um soberbo almoço com uma senhora que foi uma das minhas estrelas da blogosfera (e espero volte a ser)? A ideia original era voltar para casa, mas a de um café e um pastel de nata na Versailles intrometeu-se; ao lado da Versailles fica o senhor Tavares, que vende quanto a mim o melhor café de Lisboa; na Versailles chateiam-me por causa da máscara, venho-me embora, vou à Flor do Chaimite onde compro duzentos e cinquenta gramas de café de Timor, um pacote de queijadas de Sintra - Casa do Preto - e uma mini-garrafa de licor de castanha assada. Não gosto de castanha assada, mas talvez o licor seja bom. Se nos ativermos apenas ao que já sabemos nunca saberemos nada. No caminho paro para ver um amigo que não conheço e gostava de conhecer, mas tem a loja fechada. Penso na Air Europa, um prodígio de ineficiência. penso no que esta bicicleta (a de cidade) é confortável, comparada com a outra (a de estrada), de como são ambas boas e belas, de como é uma estupidez comprar meia dúzia de queijadas de Sintra...

...das quais já comi cinco e estou enjoado até ao dedo grande do pé. O licor não é mau nem bom, antes pelo contrário, mas não deixa de ser curioso e oscila entre o mau e o bom até que no fim o ponteiro cai para o lado do bom e ali fica, no meio da música que vem do canal Stingray (fica ao lado do Mezzo e é bastante bom também, um bocadinho mais moderno). Hoje começa outro confinamento, eu continuo sem poder ir para Palma, o mundo continua a rodar como se eu não existisse e a única dúvida agora é saber quando me vai passar o enjoo das queijadas. Magna quaestio.

Versailles, Flor de Chaimite, café de Timor, licor de castanha assada, bicicleta Coluer a rolar por este fim de tarde em que a luz me aparece insultuosa, gozona, de tão bela: isto podia ser uma declaração de amor a Lisboa. É. A cidade passa os dias a gozar comigo e a dar-me tampas e eu passo-os a dizer-lhe que a amo e a ameaçá-la: «Olha que não é a primeira vez que te deixo, não é a primeira vez que deixo uma mulher que amo». Ela ri-se, inunda-me com esta luz, com o cheiro da Flor de Chaimite, com a perspectiva da mistura de licor de castanha assada com queijadas da Casa do Preto, faz-me uma festa nos olhos com a vista de algumas ruas (não penso nos pavimentos: amar alguém é amar-lhe os defeitos. As qualidades qualquer ama) e pronto, lá estou eu caído de novo, pelo beiço, pela alma, pelos olhos.

E pela boca, claro: experimentem ir ao restaurante Luzboa, ali para os lados da Gulbenkian; ou às Zebras do Combro - isto para mencionar apenas duas descobertas recentes. São uma maravilha, qualquer deles, em estilos diferentes. Estão ambos adequados ao sítio onde estão, o Luzboa mais para o moderno, o Zebras mais tradicional. Esta cidade prende-nos pelos olhos, pela boca, pelos sentidos todos e nós deixamo-nos levar, como um cego por uma vadia que o vai roubar e está todo contente, apesar de o saber.

Evaporação

Evaporação. Essa é a palavra-chave: evaporação. Qualquer que seja a forma: verbo, substantivo, adjectivo. Evaporado. Deixa as lágrimas evaporarem-se. Um dia, evaporar-te-ás.  Um dia, tudo não passará de uma enorme nuvem de vapor, tu incluído. Um dia, o teu passado e o teu futuro evaporar-se-ão e não terás nunca nada senão o presente.  Serás um eterno agora, sem passado nem futuro, evaporadíssimos juntamente com as lágrimas que teimas em verter a cada instante, como se fossem borboletas. Chora-te e desaparece, enche-nos de cores efémeras e evapora-te. Desaparece. 

«Tu ne m'auras pas avec un piège aussi grossier.» Não te deixes apanhar na armadilha da autocomiseração. Evapora-te antes de ela te apanhar à soleira da porta. A evaporação requer uma certa graça, elegância. Não se evapora quem quer, mas quem merece. Quem sabe fazer uma vénia sem parecer subserviente, quem sabe sobreviver sem ser subvivente. Sobreviver e subviver estão demasiado próximos, a linha que os separa é fina, muito mais fina do que uma letra ou duas. «És um sobrevivente», diz-me T. Não sou. Sou um sub-vivente. Era Vaneigem quem falava na subvida, não era? Ou Debord? Não me lembro: as memórias evaporam-se, quer queiremos quer não. A velhice é isso: descobrir a diferença entre sub-vida e a sobrevida, destrinçá-las correctamente, deixá-las evaporar-se um dia graciosamente, joelho ligeiramente curvado, sorriso irónico nos lábios (isto é, irónico para os conhecedores. Para os outros, não passará de um sorriso de circunstância).

A evaporação é a única forma elegante de desaparecer. Não te preocupes com a mistura de vidas, sub ou sobre. Deixa essa tarefa a quem te sucederá. Contenta-te com transformar em elegância a deselegância. É a isso que se chama evaporação.

(Para a T. C., com um beijo.)

12.1.21

Talvez, calor

Talvez o calor dos edredons me atravesse e me chegue a todo o lado.

Diário de Bordos - Lisboa, 11-01-2021

A garrafa de Mei Kwei Lu com tanto entusiasmo e esperança comprada hoje à tarde continua tristemente fechada; o livro O barco farol avança muito devagar: não tenho energia para histórias violentas, por muito boa que seja a escrita. Esta é superlativamente excelente. Gosto destes estilos secos, depurados, sem rodriguinhos. Porém, vim deitar-me, cobrir-me de calor, fechar os olhos, tentar não me cansar mais do que já estou. O SNS respondeu rapidamente e já tenho o novo teste marcado, não me lembro se para quarta-feira se para quinta. Amanhã verei, mais o problema da mudança de voo, mais os problemas que não são problemas nenhuns, são simples episódios. Por mais que tente (não eu, mas alguém por mim) não consigo transformá-los, promovê-los a dramas, tragédias, acidentes termo-nucleares graves. São tantos que tive de fazer uma lista, para não me esquecer das razões por que tenho de lutar. Bem sei que... Merda, esqueçamos. Nada que não se resolva amanhã.

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Jantar bastante improvisado: porco no forno com limão e gengibre. Ficou assim assim, como tudo o mais desde que cheguei a casa e desmontei da bicicleta (na verdade foi ao contrário: primeiro desmontei).

Acho que devia tê-lo guisado numa panela. Amanhã verei. A priori gosto da combinação de limão, gengibre e coentros, mas... Pouco importa. Amanhã. 

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Este inverno vai ser frio e eu cheio de saudades da neve e de casas aquecidas. Nesta dói-me pensar quanto custará cada grau centígrado, mesmo não sendo eu a pagar. 

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Há dias vi um vídeo no Facebook de um indivíduo a tentar subir umas escadas rolantes descendentes. Levava uma embalagem e não conseguia chegar ao fim. Aquilo estava obviamente encenado mas bem feito e não perdia a comicidade. Nos dias que terminam como hoje, parece-me uma excelente metáfora da vida. Se voltar a ver aquilo, aposto que a personagem abandona a ideia de entregar a caixa e se deixa ir quietamente para baixo, para o fundo.

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"Não sei o que amanhã me trará." Not the faintest idea, mate. Excepto que não será mais do que uma pálida, esbatida continuação de hoje. Disso, estou seguro: não será amanhã a véspera do dia em que conseguirei chegar ao cimo das escadas.

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Seja como for: o período de hoje que decorreu entre a saída de casa e o regresso foi agradabilíssimo. Espero que essa meia dezena de horas não me estrague a infelicidade do resto.

Nada como uma boa dose de tristeza intacta, unspoiled, como diria o outro, o que não sabia de amanhã. Nunca soube, coitado.

11.1.21

O Barco Farol, de Siegfried Lenz, ed. Fragmentos, Lisboa, 1987

Comprei um livro chamado «O barco farol». Li-o há muitos anos, em francês. A primeira linha é: «Estavam fundeados e bem fundeados nos bancos...» Um tradutor (chama-se Inês Madeira de Andrade) que sabe a diferença entre «fundeado» e «ancorado» merece ser lido, agraciado, encorajado, louvado. Obrigado, Inês Madeira de Andrade, esteja V. onde estiver e seja quem for. Folheei o livro e todos os termos náuticos estão lá. É a primeira vez que vejo uma tradução portuguesa assim. Obrigado. Vou relê-lo, agora com outros olhos. Até aqui. lembrava-me vagamente de um barco-farol fundeado no Báltico, de uma atmosfera pesada, da noção de serviço. Não vou reler o livro: vou lê-lo. Começa assim:

«Estavam fundeados e bem fundeados nos bancos movediços de areia. [Já por ali naveguei. São horríveis] Há nove anos, desde a guerra, que o barco [aqui, talve tivesse preferido navio. Como no título, de resto. Mas não sou preciosista nem fundamentalista. Fique o barco] estava seguro a uma amarra comprida; era como uma colina vermelha de fogo coberta de conchas e de algas na planície do mar cinzento como ardósia - ali estava, excepto nos períodos curtos em que se encontrava no estaleiro.

...

... o feixe dos sinais intermitentes girava há nove anos sobre a baía e o mar nocturno até às ilhas que sobressaíam no horizonte, cinzentas e planas como um leme. Agora, as zonas minadas estavam limpas, a água navegável era considerada segura, e daí a quinze dias o velho barco-farol seria recolhido; era a sua última missão.» É impossível ficr indiferente a isto, não é?

É.

Na minha bicicleta

Saí de casa com o objectivo final de ir buscar a bicicleta. Devagar, devagar. De caminho descobri um restaurante que me parece excelente - chama-se Zebras do Combro e ainda estou por perceber como não o conhecia antes. Pelo menos a julgar pelos croquetes e pela simpatia da senhora; comprei um maço de cigarros - acho estúpido que não se possa comprar cigarros avulso. Isto de forçar quem quer fumar um cigarro a comprá-los aos maços só incentiva as pessoas a fumar e a gastar dinheiro inutilmente; e lá fui, engrossando-me devagarinho, passando pelo anjo do arco (a designação é minha, inútil procurá-lo. Tem as melhores pataniscas da cidade), pela ginginha... É uma vantagem muito grande, um gajo poder embebedar-se passo a passo e não ter aquela necessidade compulsiva de ficar embriagado. Assim, as coisas vão entrando em nós aos poucos - tudo: a cidade, as ruas, esta luz, o frio, o sol, os prédios. Comprei um garrafa de Mei Kwei Lu encarnado. Não é tão bom como o azul, mas que se lixe. Não havia outro. O Mei Kwei Lu tem uma característica de que gosto muito: um homem não se apercebe de que está bêbedo antes de o estar completamente. Quando chegar a casa vou fazer um chá e beber um Mei Kwei. As minhas taças de Mei Kwei estão em Mértola, mas não faz mal. Bebê-lo-ei na mesma.  Às vezes gosto de comparar o Mei Kwei à coca, mas percebo incomparavelmente mais daquele do que desta. Género cem a um, ou mil a um. Acho apreciável que em Lisboa se possa comprar Mei Kwei Lu, mesmo sendo encarnado (já me tinham avisado que o azul acabaria em breve, e isto foi há uns anos).

Agora preparo-me para apanhar um táxi. Um Uber seria muito mais barato, mas só em termos relativos. Em termos absolutos, a diferença vai ser talvez de um euro, euro e meio. É forçoso reconhecer que aquele gesto urbano de estender o braço e parar um carro que vai a passar é infinitamente mais bonito do que pespegar o olhar no telefone portátil. São gestos que vão morrer e quanto mais não seja por isso devemos preservá-los tanto quanto possível, como se tenta preservar uma pessoa doente mesmo sabendo que ela vai  morrer. A linguagem diz tudo, como sempre: apanha-se um táxi, chama-se um Uber. Também se chama um táxi, mas não quando se está na rua. Um táxi chama-se do conforto de um restaurante ou de o alívio de uma cama, não de um passeio frio e ventoso da Almirante Reis. 

Devagar. A palavra-chave é devagar. Tudo é bom quando é feito devagar, incluindo viver. Deixar as coisas entrar em nós, as ruas pelas quais deslizo, bêbedo e cego. Não estou nem uma coisa nem outra, note-se, mas olho para esta luz que entra pela cidade, escorrega pelos prédios e penso que também ela está cega e que se estivesse bêbeda não se comportaria de outra forma. Entro por esta cidade dentro como se entrasse por um corpo que me ama, mesmo sabendo que esta Lisboa não me ama. Está-se a marimbar em mim, mas sabe que mesmo assim não deixo de gostar dela. Se calhar gosto dela porque se marimba em mim, não seria a primeira vez que me rendo ao bom-senso. Não sei. Ninguém sabe nada, seja como for. Sei que deslizo por estas ruas bêbedo e cego e que não estou nem bêbedo, nem cego e não deslizo, porque tenho de pedalar. E que todo este conjunto de coisas, leve como um autocarro de dois andares desgovernado, vai devagar.

Tenho duas bicicletas: uma preta de cidade; e uma cinzenta de estrada. Gosto igualmente das duas. Isto não é nem um analogia, nem uma metáfora e muito menos um pedido de desculpa. É - quando muito - uma explicação: gosto igualmente de dois contrários que em comum só têm a beleza. A preta é pesada, bonita e confortável; a cinzenta é leve, rápida e bonita. A beleza tem várias formas e todas elas são apreciáveis. A beleza pode ser lenta e confortável ou leve e rápida. Talve seja essa a diferença entre o amor e a paixão. Não sei. A paixão é rápida e fulgurante e o amor lento e sedimentado. Talvez. Ou a diferença entre dois amores.

Nada sei, na verdade. Excepto que a beleza é o que é, que a luz é o que é, que estas ruas são a minha casa. Ou melhor: as janelas da minha casa, a partir das quais olho, oiço e vejo o mundo e nele passeio, na minha bicicleta.

Fantasmas

Falemos então de fantasmas, já que os aprecias tanto. Sei do que falo: sou um parque nacional de fantasmas, uma reserva de caça, um armazém, um museu, uma fábrica deles. Conheço os que estão de passagem, os que já se foram embora ou estão por vir, os que morreram nas guerras, congelados nas trincheiras. Sei do que falo. Conheço-os eunucos, priápicos, obcecados sexuais, moribundos... Conheço-os.

Estão todos à tua espera. Basta bateres-me à porta.

10.1.21

Sacrificar borregos?

Basicamente - isto é, de um modo básico - o problema consiste em compreender como se passa de um edifício teórico do qual o homem é o eixo principal, o pilar principal, para outro em que o homem se crê omnipotente. Até aqui, isto parece fácil: de ser o centro do universo a poder fazer do universo o que se quer - sobretudo com a ajuda do desenvolvimento tecnológico e científico - o caminho é uma brisa. Contudo, essa omnipotência não pode ser posta em causa,  muito menos por um vírus invisível, uma coisa nanométrica que morre por dá cá aquela palha e cuja única força vem da sua capacidade de saltar de um corpo para outro. Não deveria ser difícil admitir que não se é todo-poderoso. Há forças na natureza que não conseguimos controlar, dominar. Temos simplesmente de aprender a viver com elas e a protegermo-nos o melhor possível. Ninguém pensa acabar com o frio, com as vagas do mar ou com os raios ultravioleta: fazemos roupa quente e aquecimentos para as casas, muralhas para proteger os portos ou óculos escuros para os olhos e continuamos a nossa vida. Podíamos fazer a mesma coisa com este vírus: proteger os que estão em risco (se eles quiserem, isto é importante) - é um grupo perfeitamente identificado - tomar meia dúzia de precauções básicas e continuar com a vida tal como a conhecemos. Não: o objectivo já nem aplanar a curva é. É acabar com o vírus, esmagá-lo com uma "vacina", destrui-lo. Este vírus não é só uma doença: é uma ameaça ao nosso poder.

O processo é semelhante ao que se passa com o aquecimento global: seria muito mais inteligente adaptarmo-nos a ele, como a humanidade (e as outras espécies) têm feito ao longo de milénios. Em vez disso: é preciso acabar com ele, reverter o mundo ao statu quo ante (um estado que de resto só é mirífico na cabeça dos iluminados). 

A diferença entre o vírus e as alterações climáticas é que para estas ainda se pode admitir que há motivações políticas. Para aquele, obviamente, não há - por muito tentador e compreensível que seja pensar o contrário, tal a dimensão do absurdo.

Ou seja: há uma rampa inclinada do humanismo para esta crença (visivelmente errónea) nos nossos poderes. Há coisas que a humanidade não pode (ou ainda não pode) fazer. A questão que se põe é: porque é tão difícil admiti-lo? 

Roubámos o poder a Deus e pensámos que podíamos fazer o mesmo que Ele, sem nos apercebermos de que o poder não é o mesmo. Como aqueles ladrões que roubam uma jóia valiosíssima e quando a vão vender descobrem que é um falso, uma cópia sem valor. O homem não é Deus, apesar de estar agora no lugar onde Ele esteve tanto tempo; e não é capaz de admitir que foi enganado (ou se enganou a si próprio). Por isso, quer acabar com as alterações no clima (bem podiam começar por acabar com este frio) e "vencer" um vírus que lhe anda a dar baile há mais de um ano e a ganhar claramente a "guerra": quando se fizerem as contas ao que teremos pago por esta futilidade  e ao que teremos ganho, veremos o vírus largamente beneficitário. Vamos perder muito mais do que ele.

Num campo, já ganhou: ele continua livre e nós não. Preferimos prender-nos, sacrifício ritual nada diferente - em termos de resultados - do que obteríamos sacrificando borregos.

9.1.21

Foi o humanismo?

Pergunto-me - na verdade, não é a mim, é aos meus amigos filósofos - se na opinião deles foi o humanismo que nos trouxe aqui, a esta delirante crença na omnipotência do homem, na "infabilidade" da "ciência" (aspas porque me refiro às versões populares dos conceitos).

Sou um humanista - trago em mim todos os defeitos e algumas das qualidades do meus companheiros de espécie; sou um humanista - acredito piamente no homem e penso que é nele que está a solução, não em Deus, na natureza, no amor ou no vinho tinto (por muito que dele emanem ou se sobreponham, mas isto não é um curso de metafísica).

Sou um humanista: penso que as fraquezas do homem são preferíveis a qualquer força que lhe seja exterior, seja ela qual for. Prefiro um homem frágil a um Deus todo poderoso. Sou familiar do falhanço, não me assusta tanto como a vitória - pelo menos, aferidos para as respectivas quantidades e frequências. 

Sou um humanista: acredito na liberdade, nas liberdades, na capacidade - não: na obrigação, no dever - de o homem ser livre. Acredito nos limites da liberdade - não passa de um conjunto de prisões que leva esse nome por terem sido livremente escolhidas. Acredito que essa liberdade é um pau de dois bicos e que mesmo assim é preferível ao pau de um bico só da ditadura e da opressão.

Sou um humanista. Acredito nestas coisas todas e em muitas mais, mas não consigo perceber que uma grande parte da humanidade tenha livremente optado pelo obscurantismo, tenha livremente optado pelo descalabro, que seja capaz friamente de trocar meia dúzia de mortes agora contra uma dúzia amanhã - sem ver que terá as duas, dúzia e meia bem medida de mortes, mai-la miséria que espreita à esquina.

Foi o humanismo que nos trouxe aqui?

Diário de Bordos - Porto, 09-01-2021 - (Cont.)

Saí do hotel San Marino todo pimpão: ia ao Tarantino (é assim que se chama) comer um pizza, depois a uma das muitas lojas de fotografia (duas) das cercanias comprar um filme e depois - bravo, signore - fotografar com filme, coisa que não faço há pelo menos quinze anos.  Restrições, meu caro. Restrições. Esqueci as restrições, esse magnífico mecanismo com o qual o nosso governo esconde a sua incapacidde de fazer seja o que for, Verdade seja dita: nenhum governo pode fazer seja o que for. O vírus está-se nas tintas para as «medidas»: se lhe fecham uma porta entra pela ajanela, se fecham a janela entra pelas frinchas do telhado. Não há é governos - salvo raras e honrosas excepções - que o reconheçam. Têm a «pressão popular» atiçada ao rubro pela comunicação «social» (entre aspas porque de social não tem nada. «Comunicação associal» seria mais apropriado). «Cem mortos» faz um título melhor do que «trezentos mortos, doas quais cem com Covid» ou «Voltaram os tempos dos hospitais cheios», ou coisa que o valha. Se saísse a fotografar, seria uma reportagem chamada «Porto triste», mas não me apetece. Volto pra o quarto escrever disparates, ler, dormir e ouvir Patxi Andion. «Duerme sin fin, compañera». É o que quero fazer: dormir sem fim. «Acaso una palabra, vendida por un sueldo / podría definirme, ¿ponerme nombre al cuello?» Não vejo nada. Vou restringir-me, não sem antes enviar o senhor António Costa para o prostíbulo que o viu nascer, nas esperança que nunca de lá saia, nunca mais. Ele que se torne pianista de bordel e, como o outro, o do paquete, ali fique fechado, rodeado de putas tão tristes e feias como estas ruas desertas e falidas, não tarda. 

Nb: plano para o jantar: acordar a tempo de comprar uma francesinha no café Luso. Diz que são boas. Desde o café Gomes, em Vila Real, acredito na existência de tal coisa: uma francesinha boa. É basicamente como para um positivista acreditar na existência de fantasmas. 

Diário de Bordos - Porto, 09-01-2021

Resultado do nevão em Madrid: voltei para o hotel. Sesta pré-prandial. Amanhã vou para Lisboa com a Blablacar. Pouco mais de um terço do preço do comboio e liberdade no uso da coisa (já falei com o condutor). Antes de adormecer, insulto-me por não ter pensado antes nisso. Por baixo do hotel, um café chamado Tarrantino (ou algo lá perto) faz boas pizzas, aparentemente. Um sono, uma pizza e um copo de vinho: daqui por hora e meia o mundo terá recuperado a sua calma, eu a minha e tudo isto não será mais do que um imperceptível soluço na longa marcha cósmica.

Amo-te Porto, amo-te vida, amo-te tu inominável porque ainda é cedo para o dizer. ("Amo-te" tem exigências de relógio suíço: ou estás certo ou desapareces.) Algures, a vasta mecânica celestial toca uma canção de embalar só para mim. Algures no planeta, uma mulher ama-me. O universo arruma-se segundo as linhas de força de que mais gosta, magnéticas, invisíveis e poderosas. E eu cedo-lhes.

O tempo e a ausência

Como falar-te da noite, desta boca sequiosa em busca de uma fonte, destas mãos que palpam o vazio - a que alguns dão o nome de passado, outros o de futuro, mas nenhuns o de presente - como se o vazio não fosse senão a tua ausência,  a ausência de ti. Como se o presente fosse uma prenda do tempo e não aquilo que é: o tempo preso em ti, o tempo a fugir de ti, o tempo a entrar em ti como um comboio fatigado numa estação. És um presente e o presente do tempo: já houve um tempo sem ti, haverá outro no qual de ti não haverá senão a ausência. 

Que fizeste, para que sejam tão diferentes?

Um nome a tudo isso

É mais questão de palavras, de coisas mais facilmente reproduzíveis em sons, letras, símbolos do que em factos sólidos, concretos. Dois seios e um desejo, por exemplo. Desejo vivo, palpável, sentado em mim. Preciso de palavras para ele, para esse desejo que me caiu literalmente no colo. Preciso de palavras para descrever dois desejos que se encaixam um no outro com a implacabilidade da órbita de dois planetas. Preciso de palavras como elas precisam de mim. Ver-te, por exemplo. Falar-te. Ler-te. Sentir-te. Saber-te viva e ver o teu olhar. Parece tão diferente, não parece? Não é. Como esse desejo, como essas palavras que escorrem de um campo, de um mar, de uma pele que se estende pelo mundo, pelo tempo, mão bem espalmada num ventre que a acolhe, grato.

Não falemos desse ventre, nem dessa mão, nem - muito menos - dessa força que os rege. Falemos de nós: planetas de órbitas concêntricas, campos de forças distintas e convergentes, como se uma órbita fosse conjugável com outra.

É. Basta querer, basta pensar para lá dos planos orbitais, das forças centrífugas e centrípetas que ora nos afastam, ora nos aproximam. Há um ponto de equilíbrio no meio desses corpos - são os nossos - dessas mentes - são as nossas. É um ponto longínquo, escondido, disfarçado no meio das silvas astronómicas. Gosto de o imaginar, olhando-nos com as suas antenas verdes. Gosto de imaginar dois corpos perdidos num universo do qual acabaram de descobrir a gravidade. Não sabem ainda se se atraem, mas já sabem da gravidade, essa estranha força que os impele para um ponto.

Trata-se de definir esse ponto. Tarefa fácil: basta definir os corpos, o tempo, o espaço, traçar os contornos físicos do desejo e dar um nome a tudo isso.  

8.1.21

Porto, abençoado Porto

Que bom é estar no Porto,  que pena ser tão pouco tempo. Lisboa é bonita por causa da luz. O Porto,  por causa das gentes. Aqui respiram pela boca e pelo nariz, não por guelras como lá em baixo.

Lisboa, vestida de cerimónia, diz-me adeus

Que linda estás, Lisboa, toda de luz vestida. Enroupaste-te de cerimónia, hoje. Maquilhaste-te e tudo. Isso foi para mim, não foi? Vestida de luz, parece que vais de festa chic, tu que tão triste tens andado. És uma toca-e-foge, Lisboa. Provocadora. Sabes que me vou embora e vestes-te de rainha, tocas-me com o pé debaixo da mesa, sorris-me esse teu sorriso denso e alaranjado de fim de tarde. Mas quando se trata de passar aos actos, aí desapareces, não é? Dás de frosques. Piras-te. Tocas-me e foges-me há tanto tempo que já nem sei como poderias ser diferente.

Mas diferente será um dia, isso te assevero eu. Levar-te-ei à cama, ao altar, ao hotel. Por esta ordem.

7.1.21

Nota bene

A parte da chave que abre a porta é a que não se vê. Assim deve ser o texto.

6.1.21

Carta de amor

Queria escrever-lhe uma longa carta de amor. Mas a verdade é que andava a escrever-lha há uma vida. Meia dúzia de palavras - uma dúzia, que fosse - não acrescentaria nada ao que já lhe dissera. Muito menos a tudo o que ainda tinha a dizer-lhe.

Basalto, vazio

O bom senhor António espera no seu canto qualquer coisa que não sei bem o que seja. Talvez uma Antónia que não conheço nem sei por onde anda. Louis Armstrong toca para o café vazio. Tenho fome e penso que seria boa ideia ir para casa. O café não tem Ricard. 

- Acabou agora mesmo, com aquele senhor que está no balcão - diz-me a empregada. É simpática, espigadota e tolera a ausência de máscara.

Não tenho nada a ver com tudo isto. É exterior, são coisas que giram à minha volta mas do lado de fora de mim. Nem a fome vem de onde devia vir. Penso naquelas cadeiras de carrossel suspensas por correntes que a força centrífuga faz levantar e chegar quase à horizontal. Algumas das cadeiras separar-se-ão, irão por esse vazio fora; outras, mal o carrossel pare, cair-me-ão aos pés e por ali ficarão, restos vazios de um dia sujo, vazio, parado. Nada disto faz parte de mim. Nada disto sou eu. Nada disto, nada. Não sou senão este corpo que não pára de fingir já ter sido meu e que não paro de encher de basalto e de vazio.

5.1.21

Palavras, dúvidas

As palavras acabam como começam: com dúvidas. Quanto maiores, maior a dúvida que trazem com elas, ou nelas. Vêm inquietas, inseguras, desassossegadas, tementes. Contudo, não as deixo apertar o cinto de segurança: que arrisquem. Sem risco, a mais bonita das imagens não passa de um traço desbotado. Às vezes pegam-se. Não intervenho. Que vença a melhor, as melhores (andam em bandos, geralmente).

De qualquer forma, no fim as dúvidas ganham sempre.

Pesadelos

Os pesadelos são como as drogas: criam habituação. Têm de ser cada vez piores para causar efeito.

4.1.21

Silêncios, cores

Voltámos ao tempo dos silêncios. Eu digo-te nada, tu nada respondes e assim falamos dias a fio, semanas, meses. Felizmente entendemo-nos bem e sabemos o que queremos não-dizer um ao outro. Escolhemos bem as palavras que não-pronunciamos, as metáforas, eufemismos, analogias, hipérboles, litotes e por aí fora que calamos. Estamos longe um do outro, como sempre estivemos: tu no meio das tuas planícies, eu nas minhas covas.

De onde estamos, não nos vemos um ao outro, nem nos ouvimos. Os nossos silêncios falam por nós. Às vezes pintamo-los: azul, verde, amarelo, encarnado... Um silêncio azul, a resposta a violeta, as perguntas a verde, todas. Parece simples, mas não é: tens um talento especial para cores complexas, matizes que os silêncios não deixam ver bem. Gosto particularmente dos teus azuis, não sei onde os vais buscar, não conheço na natureza - nem no oceano, vê lá tu - um azul igual aos teus.

Assim, de silêncio em silêncio, de cores em cores nos vamos afastando, devagarinho, sem sequer nos apercebermos. De que cor pintarás o adeus?

3.1.21

Diário de Bordos - Lisboa, 02-02-2021

É certo que a carne, o chouriço e o nabo vieram do talho O Naco (também tem alguns artigos de mercearia) mas isso não chega para explicar a totalidade do total. A sorte teve uma fatia de leão. Comecei por refogar metade de um cebola, juntei-lhe a carne picada (metade vaca, metade porco), acrescentei um alho ou dois, deixei secar, flambeei com umas gotas de aguardente, juntei vinho branco, deixei reduzir um bocadinho, acrescentei umas rodelas de chouriço, uma lata de ervilhas (com o líquido e tudo) um nabo às rodelas e respectivos grelos (são pelo menos tão bons como os outros, se não melhores), pimenta preta em grão. Deixei cozer a lume muito fraco, pensando «isto vai tudo para o lixo, que chatice». 

Bem, não só não foi como até está bastante bom, dentro do género «comida para a mina». O nabo e seus grelos dão o tom maior, a pimenta o contraponto, o ritmo vem da carne e a melodia das ervilhas. Isto bem estudado dará qualquer coisa.

Entretanto, no forno pus um franguito do campo, com limão, sal e alecrim (e pimenta preta em grão). Está a cozer à nórdica, a setenta graus. Ainda falta um bom par de horas para ficar pronto. A ver. Cada vez acredito mais no fogo lento, para a cozinha (e para tudo, mas isso são contas de outro rosário).

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Entretanto, fui brincando com o telecomando e acabei a ver televisão. É uma experiência que não tenciono repetir. Vi a entrevista de uma senhora que passa por ministra da justiça. Diz que mandou uma carta que afinal não e uma carta - é uma nota; confidencial que afinal não o é - está na televisão; e tinha três «lapsos» - curiosamente, os «lapsos» eram todos a favor do candidato que o governo defendia. É como aqueles senhores das feiras que se enganam no troco, mas é sempre a favor deles, nunca do cliente. Bolas, a senhora bem podia ter disfarçado e feito um lapso em desfavor do homem. Assim sempre nos ajudava a acreditar na tese dos «lapsos». Bom, que se lixe. Tão cedo não volto a tocar no telecomando, excepto para ligar e desligar o aparelho. Descobri que a televisão tem rádio, descoberta que será útil se um dia quiser ouvir a Antena 2. 

Bem sei que não sou exemplo de nada para ninguém, mas confesso que não percebo como há pessoas que conseguem ver televisão todos os dias. A S. vê, diz que a descontrai. Há muita gente assim, a julgar pelas «audiências». Só comecei a «ver» quando descobri o canal Mezzo, há uns anos - e estou numa casa a) que tenha televisão e b) e me deixem ouvi-lo. É melhor do que uma rádio porque falam menos e a música é sistematicamente boa. Na rádio nem sempre.

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Continuo a reler os Chemins de sagesse, do Attali. Gostei mais da primeira leitura. Agora parece-me um pouco a cair para o verborreico. Mas não deixa de ser interessante, estimulante. Gosto de labirintos: são uma bela maneira de me rever num livro. 

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A paralisia estendeu-se às arrumações que tinha previstas para hoje. Sinto-me como se estivesse de pés e mãos amarradas. Fui beber um mojito à brasileira da rua Verde (?) e fui-me deixando levar. De repente aquilo ficou desagradável: era uma e meia e a senhora estava inquieta por causa da hora de recolher. Estas restrições transformam-nos a todos em adolescentes, com a agravante de que nem sequer é de noite. Uma e meia da tarde, não da manhã. 

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O meu corpo continua a fugir de mim. Ele que não preste atenção, não: ainda acaba num buraco.

2.1.21

Os pobres que se desenrasquem

O ambientalismo. os alimentos bio, os carros eléctricos, os ataques à globalização são os meninos das classes médias a dizer aos pobres que têm de pagar mais caro a sua alimentação, os seus automóveis, as suas roupas porque eles, meninos da classe média, não gostam de ver estufas quando passam nos seus iates à frente de Almeria, ou acham desagradável o cheiro das porcarias quando estão nas seus montes do Alentejo. Os meninos da classe média e média-alta precisam de mecanismos de distinção social. Não estão nada contentes com esta dificuldade em serem distinguidos das classes inferiores. De certa forma compreendo-os: só se é rico se houver pobres. Sem eles, seríamos todos demasiado iguais. Ou pior ainda: seriam eles, classe média, os pobres, o degrau mais baixo da pirâmide.

Nómadas, meandros e labirintos

Não há labirintos meândricos nem meandros labirínticos. Excluem-se. O destino dos labirintos está neles, é eles próprios. Um labirinto desagua em si mesmo (incluindo os que são de atravessar, mas isto não é uma aula sobre labirintos. É uma divagação sobre o tempo, sobre a geografia interior, sobre as andanças da alma e dos corpos que as têm).

Para um nómada, a vida é um labirinto. A sua  existência é uma permanente demanda pela sobrevivência: o nómada vai para onde há comida, água, trabalho. Para onde há vida. Meandros é coisa de sedentários (e sinal de sabedoria, que os há frenéticos e ofuscados, coitados). Um sedentário sage sabe que a vida é coisa lenta e curvilínea, como o amor com uma mulher bonita. O sedentário num labirinto morre; o nómada num meandro impacienta-se. 

O tempo prefere meandros ou labirintos? E a vida? A esta, é indiferente. Não tem gostos. É o que é. Não sabe sequer a diferença entre eles. Para a vida, ter-lhe calhado um nómada na rifa, um sedentário, um frenético, um linguado de Dover ou uma águia real é a mesma coisa. Já o tempo é diferente. Há que amestrá-lo, ensiná-lo, formá-lo, moldá-lo. Sem um homem nas rédeas o tempo é um cavalo louco num desfiladeiro apertado: galopa a toda a velocidade só para sair dali. Há que ensinar-lhe as virtudes do labirinto ou a beleza dos meandros. 

A alma tem geografias que a geografia desconhece.

1.1.21

Mistérios

Falo dos misteriosos meandros do tempo, das raízes dos dias, ora aéreas ora subterrâneas, das silenciosas ligações dos segundos. Passam tão delicadamente, cosidos em crochet, elegantes... e todos juntos de repente fazem uma vida. 

Misteriosas propriedades dos dias: nunca acabam como começaram. Nunca se repetem. Só a dor que contêm se renova a cada instante. Sempre a mesma, sempre diferente, como se a pessoa que maneja as agulhas só conhecesse uma linha mas soubesse fazer infinitas variações sobre ela.

Misteriosas cores nos horizontes: vão do vermelho vivo ao ocre do sangue seco. 

Mistérios.