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| Examples of Forsooth in a sentence |
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| Examples of Forsooth in a sentence |
Quando um gajo sabe perfeitamente qual a música que quer ouvir, ouve Leonard Cohen, como é óbvio. Quando não sabe, hesita, tacteia - vai parar a Leonard Cohen. Não quero que pensem que sou um fanático do senhor - não sou fanático de ninguém, nem mesmo de mim. Mas sou fanático da vida e não há vida que não tenha um Leonard para a cantar, nem canção dele que não corresponda a uma vida.
(When a guy knows exactly what he wants to listen, he listens to Leonard Cohen. When he doesn't know, he hesitates, he gropes around - and he ends up listening to Leonard Cohen. I don't want you to think I'm a fan of the gentleman - I wouldn't be a fan of anyone, not even myself. But I'm a fan of life and there's not a life without a Cohen's song, as there isn't a song of his without a corresponding life.)
(Para D., a mais bonita música que jamais ouvi de Leonard Cohen.)
Ler uma coisa bem escrita - clara, concisa, coerente, incisiva (cortante, para manter a inicial) - e sarcástica na justa proporção é um dos grandes prazeres desta vida tristonha, monótona e agora confinada.
A ordenação lógica do pensamento reflecte-se numa escrita fluida, escorreita, sem curvas a mais mas com elas onde devem estar. (Não quero com isto dizer que - por exemplo - Hegel não ordenasse logicamente o seu pensamento, mas isto não é um tratado de filosofia e isso fica para depois.)
Um sarcasmo bonito e bem exposto está para a literatura como um bisturi para os instrumentos de cortar ou como um Wally para as embarcações de vela. A incapacidade de o apreciar (ou à sua prima bem educada, a ironia) revela uma deficiência emocional grave: não se pode confiar em quem não aprecie uma incisão limpa, milimétrica, daquelas que nem sangrar faz.
Viva o sarcasmo, as mentes que o formam e as mãos que lhe dão vida.
Começo o passeio pela Casa da Música, ver os putos fazer acrobacias nos skates. É muito bonito de ver e acho o local adequado: aqueles ruídos todos juntos fazem música. O resto é mais banal: andar por estas ruas quase desertas, os raros transeuntes com que me cruzo de máscara até às orelhas, como se o vírus andasse por aí com asas de anjo à espera da menor oportunidade para lhes invadir as entranhas. Gosto de passear no Porto, nestas ruas com uma mistura de estilos arquitectónicos - faz lembrar Espanha, é o mesmo princípio, os prédios como as diferentes camadas de toucinho entremeado, diferentes camadas de tempo. Só é pena estar tudo fechado, claro.
Está frio, a luz é pálida e penso que o Porto é o princípio do norte como os pré-Alpes são o princípio dos Alpes, como a leitura é o princípio da vida, como tu és o princípio do futuro, a emoção o princípio do amor e este o princípio de tudo.
Fui a Barcelona pela primeira vez em 1980 (ou 81, pouco importa). Fiquei em casa de um casal que conhecera nas vindimas em França. Ele era basco, baixinho, moreno como já não se devem fazer muitos assim. Lembro-me da barba - de manhã, quando nos encontrávamos para o pequeno-almoço, pensava que não havia lâmina no mundo capaz de fazer daquilo uma pele. Ela era alta, loira, alemã até ao tutano. Ele falava basco, espanhol e francês. Ela, alemão e inglês. Compreendiam-se porque ambos eram estudantes de mímica na escola de circo: falavam por gestos. Quando digo «falavam» era isso mesmo: todas as conversas eram mimadas. Viviam no Barrio Chino, um bairro que desapareceu da geografia e da memória da cidade, mas era o equivalente do nosso Bairro Alto antes do Frágil. Era um apartamento partilhado - éramos uns sete ou oito, cada um de sua nacionalidade e cada um de sua profissão, mas todos «marginais».
Íamos jantar fora quase todos os dias, nas várias combinações possíveis de oito. Nos restaurantes que frequentávamos ainda se bebia vinho por porros. O grau de bebedeira media-se não pela incoerência do discurso ou pela dificuldade em andar numa linha recta, mas pela quantidade de nódoas na camisa. Era um grupo feliz: não sabíamos que um dia tudo aquilo desapareceria, como o Bairro Alto desapareceu.
Um dia, ela disse-me «Hoje vou treinar um exercício de corda bamba, queres vir?». «Claro que sim». Fomos para o que hoje sei ser o parque Güell. Elas (só havia raparigas) puseram a corda entre dois pilares de uma pérgola, mudaram de roupa e começaram a ensaiar o número. Ninguém usava soutien. A minha vida é feita de visões - algumas prospectivas, outras retrospectivas - e essa é um das que me ficará até morrer. A rapariga era por assim dizer bem fornida de seios e ver aqueles dois globos nus por cima da cidade é uma das situações em que mais perto fiquei da experiência religosa, um êxtase que não devia andar muito longe dos de Teresa d'Ávila. Nunca mais os vi (refiro-me ao casal) e tenho pena. Aposto que com o tempo ela aprendeu espanhol e ou se separaram ou ficaram um casal como os outros.
Um dia fui ao cinema, ver Elephant Man. Era numa sala longe do centro, uma das raras que passavam filmes na versão original. Saí compreensívelmente abalado. A história não é fácil, muito menos para quem se sentia uma espécie de Elephant Man por dentro. Do outro lado da rua havia um bar, chamado - outra das coisas que não esquecerei nunca - Casa Quimet, Bar de las Guitarras. Desapareceu, vítima de um incêndio. No tecto tinha trezentas violas - não é uma ordem de grandeza, é o número exacto (tanto quanto a memória me permite). O princípio era simples: todas as violas estavam em estado de ser tocadas; qualquer pessoa podia entrar e pegar numa, mas devia tocar só para a sua mesa. Quando lá cheguei ainda era cedo, só havia três ou quatro mesas ocupadas, cada uma delas com o seu guitarrista. Sentei-me ao balcão e pedi uma sangria (nesse tempo ainda eram bebíveis). À segunda ou terceira o empregado do balcão perguntou-me «És português, não és?» «Sou». Fez um anúncio à sala: «Malta, temos aqui um português» e de seguida as mesas começaram a tocar, em uníssono, canções portuguesas (às quais nunca fui muito sensível, manda a verdade que o diga). Lembro-me particularmente de Uma casa portuguesa, mas houve muitas mais. Sentado ao balcão, chorava copiosamente. Quando acabaram - a coisa durou uma boa meia hora (de novo, sujeito aos aléas da memória) - fui falar com os músicos e perguntei-lhes como conheciam tantas canções portuguesas. Responderam-me: «Nós adoramos Portugal. Vocês conseguiram aquilo que nós não conseguimos.»
O Barrio Chino desapareceu: só alguns velhotes o conhecem ainda e sabem onde ficava (em baixo da Rambla, sobrepondo-se parcialmente ao que hoje é o Barrio Gótico). Barcelona tornou-se um paraíso de carteiristas. Não perdeu a mistura de ingenuidade e manha que fazem do Mediterrâneo o Mediterrâneo, mas tornou-se provinciana, rasca, estúpida. Irritante. Ainda gosto de lá ir - desde então, voltei lá algumas cinquenta vezes, com estadias do muito curto ao relativamente longo - mas não consigo impedir-me de pensar que pôr fronteiras onde não as há é uma das actividades mais estúpidas a que os homens se podem dedicar.
E tenho pena de não ver pelas ruas camisas cheias de manchas mais ou menos vastas de vinho tinto. O dono de uma das tascas aonde íamos oferecia-nos - no fim do jantar - um porro, se o conseguíssemos beber sem nos sujarmos. Nunca conseguimos, claro. Eu falava as duas línguas - inglês e francês - e estragava um pouco a magia dos gestos (não era linguagem gestual, era mesmo mímica). Não sei se a escola de circo ainda existe. Sei que nunca mais vi seios ao léu no parque Güell e lembro-me do choque que senti - em 2002 ou 2003 - quando descobri que Barcelona deixara de ser uma cidade do mundo para ser uma cidade de província. As revoluções trazem em si o seu fim. A entropia é o estado natural do mundo e a neguentropia a excepção. As coisas são o que são e o que foram é acessório, um adorno, um motivo para escrever textos disparatados a pessoas que nos são queridas.
«a voz subterrânea II
nós
bem nutridos
lavados
saudáveis
cultos
tivemos de dar razão a freud
era apenas uma fina camada
pronta a ser perfurada
"mais tarde não existe"»
Rosa Oliveira, in Tardio, ed. Tinta-da-China
Quando se vê a realidade imitar a poesia - já se sabe que vem catástrofe. A questão é saber quando é que este «nós» vai reconhecer que se enganou, mas isso é outra história, diacrónica. (Como todas as boas histórias.)
Analisando cada uma das suas cinquenta e dias vidas, descobriu que em cada uma delas tinha tido três grandes amigos (constantes), uma quantidade limitada de mulheres (das quais duas ou três constantes), uma dezena de amigos "médios" (dos quais metade constantes); teve uma quantidade de empregos a tender para o infinito, visões à potência dez de um número imaginário, azares à raiz quadrada de mais ou menos um milhão. A soma algébrica dos quilómetros e das milhas viajadas com as horas de voo (soma impossível de se fazer, excepto se se introduzir o vector do momento do braço da alavanca interpotente a partir do qual calcula a altura metacêntrica) daria para preencher de grãos de areia um recipiente de cinco metros cúbicos, sendo a aresta desse recipiente o raio de um círculo cujo centro está algures a meia-nau do navio cuja estabilidade dinâmica tenta descobrir fazendo apelo às carenas líquidas do rum ingerido sob a forma de rum punch, planteur ou 'ti punch, o diâmetro dos olhos nos quais se perdeu sendo o triplo dos ventres que o acolheram.
A vida é uma matemática simplicíssima. Basta saber multiplicar qualquer número por trezentos e sessenta e cinco, de quatro em quatro anos adicionar uma unidade, fazer todas as operações acima descritas, perder-se na fórmula da elipse, calcular o co-seno da tangente da derivada de um sorriso, calcular-lhe o logaritmo e decidir que tudo isto tende para ti e que tu és o vórtice dessas vidas todas. Tu és o centro do turbilhão, o seu ponto fixo, em torno do qual tudo gira.
Ao longo da minha vida tenho tido mais amigos de esquerda do que da direita liberal na qual me inscrevo. Há várias razões para isto: na Suíça, a minha ex-mulher trabalhava num meio que era maioritária - quase exclusivamente - de esquerda; os meus amigos da vela não punham, por assim dizer, as considerações políticas no centro das suas vidas. Eram - e alguns ainda são - navegadores conceituados, reconhecidos, cujo foco era a vela; e - sobretudo - o único desconhecido com quem entabulo facilmente uma conversa num bar (ou noutro lado qualquer) sou eu próprio. Todas estas razões têm excepções, claro, mas são isso mesmo - excepções ali postas pelo acaso para confirmar a regra. O Facebook veio alterar isto, mas não radicalmente. Acrescentou, por assim dizer, uma camada de novos amigos por cima da antiga, agora mais próximos ideologicamente.
Com a Covid acontece o mesmo: a maioria dos meus amigos é pró-Covid. Isso não me impede de continuar a estimá-los. A amizade é mais do que uma mera atracção pelos acidentes, pela superfície das pessoas que as ideias são. «Embora os meus olhos sejam, etc.» Já não tenho idade para discorrer muito sobre a amizade (nem paciência para o fazer sobre o amor). Limito-me a aceitar as pessoas como elas são, a pensar que tenho sorte com os meus amigos e a esperar que a Covid acabe depressa. Tudo o mais seria conversa para encher chouriços, coisa para a qual não tenho jeito nenhum (como se tem visto ao longo destes anos todos neste blogue...)
A noite esteve de badanal. O prédio arfava, gritava e reclamava. Um bocado exagerado, parece-me. O vento já estava suficientemente forte para me fazer preferir estar em terra - quarenta nós é mais do que qualquer gajo quer ter na água - mas para um prédio não é assim tanto.
Lembrei-me de quando a minha Mãe nos fazia rezar pelos homens que estavam no mar. Era todos os dias, não apenas nos de temporal. Não me lembro da oração, mas lembro-me que tinha uma parte a suplicar a Virgem - creio que era ela a destinatário e não S. Nicolau - que protegesse do mau tempo quem andava no mar e que os trouxesse seguros de volta a casa. A coisa continuou mesmo depois de o meu Pai estar em terra, fazia parte das orações da noite. Era uma reza bonita e em noites assim lembro-me dela.
O última que apanhei destas foi no Mediterrâneo, de Pereza para Port St.-Louis. Felizmente foi de popa. Passei um monte de horas ao leme, foi uma chatice porque entrámos numa zona de exercícios militares e veio um avião avisar-nos para sairmos dali, eu estava com um braço avariado... Dessa vez não me lembrei da oração. Só se pensa nisso quando se está cá fora, bem ao seco e quentinho. Quando se está na molhada, só se pensa é no que fazer para sair dali inteiro, os corpos e os bens.
Gastei cinco euros em músicos de rua. Ninguém merece tanto a nossa ajuda como eles e se antes desta palhaçada já dava sistematicamente massa a quem me alegrava os poucos minutos durante os quais lhe ouvia a música, agora dou ainda mais e mais. À solidariedade junta-se a gratidão, duas poderosas molas para a generosidade. Também comprei café (de Timor, numa casa chamada Pretinho do Japão. São uma delícia, a loja e o café) e vinho «bom». Vou beber um copo à saúde do médico que me operou, apesar de ele nunca o vir a saber. É provável que possa ir-me embora deste Porto confinado, frio, chuvoso, chato e feio ainda antes do fim do mês. Sei que vou chegar a uma Lisboa igualzinha, mas pelo menos a essa já conheço os cantos. Sempre ameniza.
O fim arredondado de uma página que acabou de ser lida, o azul de um tecto pintado de branco, a luz pálida do candeeiro apagado, a proa imóvel de um navio que ruma a Nornoroeste quarta a Norte, o som das tuas lágrimas a escorrer pelas faces límpidas com que recebes o futuro, as palavras perdidas no meio de um campo vazio, o ruído do automóvel no qual partiste deixando para trás as migalhas de uma vida, as letras que desajeitadamente vais pintando no horizonte, as nuvens com as quais vais construindo, passo a passo, o teu caminho, as cores - as cores da liberdade com que pintas as celas da prisão.
Não te podes queixar de me fazeres evocar poucas coisas, quando penso em ti.
(Para a T., com um beijo terno e grato.)
Não pode haver amor onde não há amizade. Duas pessoas que não são amigas uma da outra poderão talvez apaixonar-se, mas esse amor não durará. O fundamento do amor é a amizade, ela é o terreno onde ele nasce, o cimento que lhe dá forma e força. Sem amizade, o amor não tem onde se enraizar. Ao contrário do que durante muito tempo pensei, um amor não evolui em amizade: regressa à amizade. Se ela não estiver lá, o amor perde-se no vazio (na melhor das hipóteses. Na pior, no ódio, no rancor, no ressentimento. )
Uma pequena precisão que me parece importante: a aceleração da gravidade - também conhecida por constante de Newton - foi calculada por Newton (feliz coincidência) no século XVII. Desde aí, tem sido posta à prova, testada e finalmente confirmada. Hoje, ninguém a põe em causa. Nove vírgula oito metros por segundo ao quadrado, mais coisa menos coisa consoante a latitude, a altitude e outras incertezas menores. As «certezas» relativas ao Sars-CoV-2 são ligeiramente mais recentes e não devem ser alvo da mesma aceitação passiva. Antes pelo contrário: devem ser objecto de pesquisa activa.
A uma pergunta que começa com «quanto» responde-se com um número; àquela que inclui «quando», com uma data. Adjectivos e outras elocubrações capilares só quando as perguntas são «como?»
Mais um excursão até ao centro do Porto. Esta cidade é tão bonita de se andar e fica tão triste com estas máscaras todas em todo as caras. E com os cafés fechados. A minha forma de turismo preferida - sentar-me num café e esperar que a cidade vá desfilando - está proibida. Um gajo vai da Boavista até à Fernandes Tomás e lá chegado nem um copo de vinho pode beber sentado a uma mesa. Há quem se acomode, encolha os ombros e diga «tem de ser». Não, não tem de ser! Emprenhem vocês pelos ouvidos, não é proibido, mas não nos forcem a nós, que usamos os ouvidos para ouvir e os olhos para ver que o façamos também. Basta!
Um pão, duas garrafas de vinho, três cervejas, quatro tangerinas, tudo isto afogado numa tristeza imensa, numa saturação sem limites. Os um ganham, quantitativa, qualitativamente, objectiva e subjectivamente.
A primeira bolina está feita. Agora falta rondar a bóia de sotavento da primeira regata. Tenho o olho esquerdo tapado; habituo-me a ver sem visão estereoscópica, o que é mais chato do que parece à primeira vista (ou será «à única vista»?) Amanhã rondo a bóia de barlavento e a primeira etapa fica completa, inch'Allah. De hoje a quinze dias começo a segunda e última perna. Allah u'Aqbar. (Para questões religiosas, prefiro expressões árabes a anglicismos, vá lá saber-se porquê.)
Seca-se-me a boca, mulher, a tal ponto que tive de trazer a garrafa de água para a cama. O barulho que ouves é o da sede, não sonhes com ladrões. Não sonhes sequer comigo, que fui roubado a cavalo num potro e agora sonho com ladrões - sim, eu -, quarenta deles e um sésamo que se abre ao menor sussurro. Sonho acordado enquanto dormes a meu lado, durmo a sonhar enquanto sonhas a meu lado, sonho deitado contigo a meu lado.
O liberalismo perdeu a batalha da comunicação e não a ganhará enquanto não perceber que a maioria das pessoas se está nas tintas para a liberdade, como esta crise tão bem demonstrou.
Intoxico-me de cigarros (um maço em pouco mais de vinte e quatro horas...) vinho, aguardente, piripiri. Todos os venenos são bons para matar o bicho e nenhum é suficiente. Bicho esse que não passa de um buraco ligado a outro buraco, por sua vez ligado a outro e assim sem fim. Não há fumo, álcool, capsaícina ou música grega que o encha.
Só a liberdade, o bom senso, a verdade; e essas não se compram no supermercado nem se encontram na Assembleia da República.
Devia haver um forma qualquer de levar políticos a julgamento. Não me refiro ao julgamento da história mas sim ao da justiça, do povo dos tribunais. Não há, claro: foi o povo que os elegeu e não se pode levar o povo a tribunal.
Infelizmente, esse povo já está condenado à pobreza e à miséria. Não precisa sequer de ir defender-se perante um juiz. Auto-condenou-se.
António Gedeão: Poema para Galileu
"Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da
requintada Florença.
Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria...
Eu sei... Eu sei...
As margens doces do Amo às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileo Galilei!
Olha. Sabes? Lá em Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calendário.
Eu queria agradecer-te, Galileo,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu,
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar - que disparate, Galileo!
- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação
-
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.
Pois não é evidente, Galileo?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?
Esta era a inteligência que Deus nos deu.
Estava agora a lembrar-me, Galileo,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se estivesse tomando num perigo
para a Humanidade
e para a Civilização.
Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.
Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas - parece-me que estou a vê-los -,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e escrevias
para eterna perdição da tua alma.
Ai, Galileo!
Mal sabiam os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.
Tu é que sabias, Galileo Galilei.
Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.
Por isso estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas, a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto inacessível da suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa dos quadrados dos tempos."
António Gedeão
Cada vez que penso "vou dormir" oiço uma gargalhada num canto do quarto. Muito gostava eu de apanhar o sacana que se ri desta forma de mim e dos meus planos para o futuro imediato.
O dia termina. Afasta-se aos saltos, cambalhotas, abre os braços e as pernas como os miúdos na praia. Foi bom: trabalho, almoço com uma pessoa querida, trabalho outra vez. Na sala, toca o Peer Gynt. Be thyself. Está contente, o dia. É assim que gosto de os ver.
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Descubro com prazer uma vantagem destas casas frias: entrar na cama, tapar-me até ao queixo e deixar entrar o calor. Vem devagar: começa pelo meio, vai subindo e descendo. Deixa os pés para o fim, sempre. É muito terno, muito carinhoso, como se gostasse de mim. Retribuo-lhe, claro. Acolho-o hospitaleiramente, deixo-o passear-se por mim à vontade, tento retê-lo (consigo sempre). Todas as noites é o mesmo ritual de acasalamento, o calor e eu, até que a manhã nos separa.
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Esta coisa de as ideias que tive há trinta anos estarem a correr atrás e mim e a voltar-me ao regaço provoca-me uma cascata de emoções contraditórias. Felizmente só guardo as boas. Não sou de ressentimentos. Nunca fui, não ia começar agora. Seria correr contra a história, não é? É.
O tempo é como a banca nos jogos dos casinos: finge que nos deixa ganhar, mas no fim do dia ganha sempre.
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Adenda - mais uma boa notícia a juntar às cambalhotas do dia: o Avenida lá se vai vendendo. Devagar, mas vai. Hallelujah. Allah u'Aqbar.
Marieke transformou «quero foder» em «quero foder-te». Não houve maior metamorfose na minha vida, nem gramática nem existencial, seja qual for o aspecto dessa vida que considere. De caminho, deu outra dimensão ao verbo foder, que deixou de ser uma actividade física.
- Cala-te com a física, homem. Mete a física - oiço-a dizer. - E despacha-te, porque me fizeste a mesma coisa.
Pedro e ela morreram num acidente de automóvel, um dia a caminho da quinta, onde agora vivo sozinho. Talvez a solidão não seja uma escolha, talvez seja como a chuva, algo que não escolhemos mas aceitamos por ausência de alternativas. Vendi o ADN e vim para a quinta, aprender a distinguir uma oliveira de um carvalho, um eucalipto de um plátano. No estúdio de Marieke descobri uma série de quadros de mim, feitos a partir de fotografias. Nunca mos mostrara nem sequer me falara deles. Talvez a solidão seja um segredo que não partilhamos senão excepcionlmente, um segredo que só alguns merecem. Nunca mais fiz amor com - ou a - uma mulher. A pele é um prolongamento do cérebro, não há uma muralha entre este e o resto do corpo. Tal como não há uma muralha entre o presente e o passado. Organizei a herança da quinta: vou deixá-la aos empregados, constituídos em cooperativa. Deixei-lhes como obrigação serem rentáveis, poderem viver decentemente daquilo. Os quadros ficam: não tenho coragem para os queimar, dar ou vender. Eles que façam o que quiserem. Levei três anos a organizar tudo, a organizar-me, a perceber que a solidão não tem remédio. Não é substituível, por assim dizer. Excepto, claro, pela morte, para a qual me preparo como um marinheiro se prepara para uma tempestade: sabendo que é o elo mais fraco da cadeia e que tem a obrigação de fazer tudo para lhe sobreviver. Para mim, essa obrigação chamava-se Marieke e Pedro e desapareceu num amontoado de lata.
«Não há contágios sem contactos, mas há contactos sem contágioss» (Henrique Pereira dos Santos. Daqui se deduz que tentar acabar com os contactos transversalmente é uma estratégia errada porque a) é impossível acabar com todos os contactos; b) tem custos humanos, sociais, sanitários e económicos demasiado elevados - que, como se pode ver, não são brilhantes - e c) desvia-nos a atenção dos casos em que os contactos resultam verdadeiramente em contágios (e estes em casos com elevada probabilidade de morte ou consequências graves, o que é outra coisa ainda). Confesso que não percebo a reticência das pessoas em pelo menos avaliar a possibilidade destas hipóteses serem correctas, mas penso que isto tem a ver com a crescente religiosidade dos tempos modernos. Seria como pedir aos católicos do século XVI que pelo menos avaliassem as noventa e cinco teses de Lutero.
Não penses no óbvio: o que o é para ti não é para outro qualquer. O óbvio é como um vestido que cai bem a uma mulher, mas fica mal à seguinte. Pensa antes no que ninguém vê, no que mostras porque escondes. Pensa em ti, no que fazes para seres tu, no que desejas fazer e que te façam. Não te vejas pelos olhos do outro, não te antes com o amor do outro. Deixa o óbvio para quem não sabe ver mais nada, para os cegos do invisível. Estende-te na relva que a vida te trouxe, estende o braço e diz ao Sol para subir. Só um palerma te dirá: "Era óbvio que ia subir". O óbvio é para quem não sabe ver o que está dentro do que vê, que é o mais importante. Vê-te ao espelho: é óbvio o que vês?
Não, não é.
- Podemos começar pela cama? - Marieke era uma mulher decidida. Tinha acabado de lhe abrir a porta de minha casa. - Esta coisa das conversas prévias é uma chatice. Sonho com o tempo em que os homens nos pegavam pelos cabelos e nos levavam para a gruta. - Íamos para a cama, depois levantava-me para fazer o jantar (às vezes ela ajudava-me), comíamos e voltávamos para a cama. À meia-noite, uma da manhã ia-se embora.
A cama era grande, dura e quente. Quando Marieke
partia, não era do calor que notava a ausência. Não notava ausência nenhuma, na
verdade: ia acompanhá-la à porta e mal a fechava adormecia, voltava para o
quarto feito sonâmbulo. Às vezes, perguntava-me se fazia amor com Marieke ou a
Marieke e quase sempre optava por esta última hipótese.
Hoje, por exemplo, decidiu que queria ser
sodomizada. Tinha vindo equipada com um tubo de um gel adequado, explicou-me o
plano, espalhou a tal pomada pelo rabo e pela minha pila, sentou-se em cima de
mim e disse-me:
- Agora não te mexas. Não és tu que o pões cá
dentro, sou eu que o faço entrar, percebes? - E foi-se baixando devagar, muito
devagar, até o ter todo lá dentro. - Vês? Assim não dói tanto. Gostas? - Esta
última pergunta é retórica e não lhe respondo. Para Marieke, o mundo fora da
sua vontade é um vasto pântano no qual todas as palavras se equivalem. (Se
tivesse de lhe responder, dir-lhe-ia "não, não gosto", mas não me dou
a esse trabalho. Gosto dela como é. Gosto de qualquer pessoa capaz de extirpar
o mal de um defeito ou o bem de uma qualidade. Marieke é uma imagem perfeita -
e bela - do que seria o mundo sem adjectivos.)
A cama é o lugar de todas as maldades, de todas as
vontades, de todos os egoísmos e de todos os altruísmos. Não há amor no
universo que chegue para fazer de um orgasmo algo partilhável. Sentada em cima
de mim, Marieke masturba-se com as duas mãos. De vez em quando, leva uma delas
às mamas, à boca (dela, quase sempre e minha às vezes). Deixo-a sempre vir-se
antes de mim, não sei se por simpatia se por medo. (Exagero. Só muito
raramente uma mulher que me deu a simpatia do corpo me indifere ao ponto de me
vir antes dela.)
Marieke vem-se, eu venho-me, ela vem-se de novo,
desencaixa-se de mim, diz-me "é melhor lavares isso", dá-me um beijo
nos lábios, levanta-se para ir à casa de banho, cruzamo-nos no caminho, dá-me
outro beijo, "Amar-te-ia muito, se fosse de amores. Felizmente não
sou", vai à cozinha buscar uma cerveja, volta para a cama, "Foder
contigo é melhor do que foder com qualquer outro gajo que conheço. Sabes
porquê?" não me dá tempo para responder, "porque tu não esperas nada de
mim. Tudo o que tenho para te dar é este corpo e esta liberdade e tu aprecias
os dois e satisfazes-te com isso. Não pedes mais nada."
Um dia apareceu-me em casa com uma mala.
- Venho passar um mês contigo, para ver como seria
a nossa convivência. Tenho as hormonas aos urros e nada me garante que um dia
destes não me esqueça de comprar a pílula. Além de que estou farta de andar por
essas ruas às duas da manhã com a cona cheia de ti.
Sabia perfeitamente que ela ia frequentemente a
uma discoteca qualquer buscar um gajo, quando saía de minha casa. A história da
"cona cheia de mim" não me convenceu por completo, mas deixei-a ficar
lá em casa. Pouco tempo depois casámo-nos - pela Igreja, claro.
- Gosto de ver os padres vestidos de cerimónia e
do cheiro a incenso. Não te importas, pois não?
- Não.
- Óptimo. Vamos foder? Já tenho um padre.
Marieke é pequena, magra, loira de olhos azuis,
belga, advogada num dos principais escritórios de advogados do nosso país, para
onde imigrou ainda jovem. Comprou uma quinta na Beira, onde vai pintar aos
fins-de-semana e nas férias. Para modelos, usa os empregados, a quem paga a
dobrar os dias em que não trabalham na quinta para posar. São telas grandes,
sempre quadradas, três por três, quatro por quatro metros. "Para pequena basto
eu". Raramente a acompanho. Prefiro ir navegar com o miúdo, num barquito
que comprei há algum tempo. Chama-se ADN, tem três camarotes, um dos quais é o
do Pedro, que vai agora fazer oito anos e já se habituou a estes dias sem a
mãe. Às vezes pede-nos para ir à quinta e nós dizemos que sim. Nessas ocasiões, vou
sozinho para o mar. Nunca gostei de relações simbióticas, mas esta - ainda não
consigo chamar-lhe casamento - excede tudo aquilo que sonhei um dia ter. Por
vezes, Marieke vem navegar comigo. Tão raramente como eu vou para a quinta:
meia dúzia de fins-de-semana por ano, mais coisa menos coisa. Pedro gosta
destes dias passados a três. Vamos a Sesimbra ou a Setúbal, dormimos lá
fundeados. Muitas vezes nem saímos de bordo; outras, ficamo-nos pela praia ou
por um dos restaurantes ali perto, onde bebemos um café.
- Carlos, chega aqui. - Estou na cozinha a arrumar
a loiça do jantar, tarefa que executo com prazer. - Há quanto tempo estamos
juntos, lembras-te?
- O que queres dizer com "juntos"? Temos
várias modalidades de junção. De zero a três, na verdade.
- Juntos no sentido de nos amarmos. Desde quando
nos amamos?
- Não sei. Nunca pensei nisso.
- Eu também não. É curioso, não achas? Os peixes também não sabem o que é a água.
Pedro dorme no camarote do capitão, a ré a estibordo, porque prefiro dormir à proa, sobretudo
quando estou fundeado. Ele orgulha-se, claro. É um miúdo autónomo. Desde que
tenha comida e um livro ou um brinquedo não se dá por ele. Tenho um cabo
amarrado pela popa, com uma defensa no chicote e sabe que não pode
passar para lá da defensa. Durante o dia ouvimo-lo chapinhar na água; à noite
recolho o cabo e ele ou vem para o salão - onde estamos agora, a nortada
arrefeceu esta noite de Setembro - ou vai directamente para o camarote.
Ao contrário do que pode parecer,
conversamos bastante: às refeições, as vezes quando ele nos pergunta
qualquer coisa do livro que está a ler, quando não consegue fazer os trabalhos
de casa. Marieke fala português com ele.
- Já não sei flamengo. - É mentira, mas na verdade
não fico aborrecido. O flamengo é língua de cervejeiros. Se Marieke fosse
francesa, insistiria para que falasse francês com o miúdo. Língua de
vinhateiros, de intelectuais e de mulherengos. Arranham menos a garganta.
- Vai para a cama, Pedro. Está na hora de te ires
deitar. - Pedro obedece sem reclamar. Sabe que pode continuar a ler, adormecer
quando quiser. Dá-nos um beijo de boa noite, vai para o camarote, fecha a porta
- imposição nossa, já antiga.
O ADN balança suavemente. O vento e os brandais
estabeleceram uma conversa cerrada, o casco e as vagas outra. Fazer amor no
camarote de vante de um trinte e seis pés requer muita calma, muita
imobilidade, tem mais a ver com o mergulho do que com a escalada. Cada
milímetro quadrado de pele deve ser explorado até ao esgotamento; depois,
passa-se ao seguinte. Indústria extractiva, nada de ginásticas. Com o joelho,
pressiono-lhe o clitóris, com a mão direita acaricio-lhe a orelha ou os
cabelos, beijamo-nos, os cabelos loiros de Marieke parecem traços de tinta
entre os meus dedos. Substituo o joelho pela mão. Gosto de o sentir crescer,
molhar-se, afago-o suavemente. Marieke arqueia-se, leva as mãos aos ombros e
aperta-as com força. Volta-se de costas e diz-me:
- Vá, agora é a tua vez.
- Não, Marieke. é a nossa vez.
- Deixa-te de mariquices. - Prolonga a segunda
sílaba e quase não pronuncia a última. - Deixa-te de Marieke. Pensa em ti.
Fode-te-me. Agora és tu. Enterra-mo fundo, até à última terminação nervosa, não
deixes nenhuma por tocar. É para teu bem. Sentes o oceano que tenho dentro de
mim? É para ti, meu cabrão adorado, só para ti, é todo teu, sou toda tua e és o
único homem a quem disse isto até hoje, serás o último, provavelmente, vem,
homem, enterra-te em mim até sentires a ponta da piça nos ovários, no estômago,
nas mamas, faço-te um broche por dentro, tira-me o ar, enche-me essa cona de ti
como se fosses o último homem na terra, põe-me as mãos nas mamas e puxa-me para
ti, isso, estás quase a vir-te, não estás? Eu sinto, meu filho da puta, sei
ler-te mesmo de costas, não tarda rebentas-te e é bem feita, rebentada estou eu
agora, não passo de uma imensa cona toda tua, enche-ma, és a maré e eu o porto,
és o dragão e eu fada que o doma, tenho-te preso pelos tomates como tu me
tens a mim na ponta desse caralho, porra, porra, porrrrraaaaaa. - Tudo
isto sem uma palavra, sem um som para além de uma longa expiração feita
com boca semi-fechada, como um assobio que ficasse a meio.
De manhã acordo, levanto ferro e navego para Oeste. Levo-os aos dois para o mar, para longe de terra. Vamos a um largo e o ADN - um antigo barco de regata convertido em cruzeiro - salta alegre e leve, como se tivesse sido ele a dar a foda. como se fosse a Marieke e eu num só corpo, ainda no estertor silencioso de um amor que nasceu da liberdade, do prazer, do silêncio.
Vim para casa ouvir Bartok. Só qualquer coisa com a qual entretenha sentimentos ambíguos e emoções duvidosas pode servir. A manifestação foi uma treta. Havia mais polícias do que manifestantes - o que por um lado é bom sinal - e durante os três quartos de hora que lá estive apanhei frio e ouvi o Grândola. Não sei qual é pior punição, mas suponho que seja a música. Gostaria muito que houvesse manifestações com milhares de pessoas, recolha de assinaturas, discursos inflamados, palavras de ordem. Eu, que sempre detestei manifestações... Fui a duas, em toda a minha vida: uma a 26 ou 27 de Abril, à frente do liceu Salazar, para perceber. Perguntei a um dos manifestantes o que se passava.
- Não sei. Acho que vem aí um novo governador.
Quatro ou cinco anos mais tarde, já em Lisboa, entrei na manifestação de um grupúsculo qualquer da esquerda revolucionária, talvez o MRPP, não sei. Comecei a «desafinar» as palavras de ordem e uma (ou um) jovem aconselharam-me a pôr-me dali para fora rapidamente. Sugestão que segui sem sombra de hesitação. A ideia era ver se eles ouviam o que lá se dizia, não ser um herói. Hoje não houve nada disso, não houve pingo de emoção: só frio, Zeca Afonso - um cantor por quem não nutro particular afeição - e Grândola Vila Morena, sem parar, até enjoar. Ainda por cima, nem sequer era cantada pelo tal Zeca. Porque falo nele? Porque a primeira hora dos Microcosmos é um seca, suponho. Não há maneira de conseguir achar o Zeca Afonso um génio e de qualquer forma vou deixar o Bartok para segundas núpcias, não tarda. Ou então oiço outra coisa qualquer, um dos concertos. Ou então não sei, não faço ideia, não quero fazer ideia, detesto fazer ideias. O tinto acabou e os monhés estão fechados. Quem enfiasse um tronco de sequóia pelo ânus de quem faz estas normas prestaria um garboso serviço à comunidade e não teria de se envergonhar pelo menos até à quinta geração.
O teu trabalho consiste em construir sinónimos. Tropeças numa palavra, cais, magoas-te, sangras e que fazes, como pensas a ferida? Com um sinónimo.
Por exemplo, agora precisas de um amparo para "ansiedade". "Impaciência". "Pôr fim a isto". "Respirar". "Dar um passo em frente". "Um de cada vez". Precisas talvez de um banco no jardim onde sentar as palavras enquanto lhes constróis um sinónimo, uma estrutura de aço inox, brilhante, à volta da qual o vento silva.
Tens tempo. Um bom sinónimo não se faz de um dia para o outro.
«O meu arroz de pato é melhor do que o teu» é a versão feminina de «a minha pila é maior do que a tua», não é?
Sinto-me um relógio que à força de andar adiantado se apanha a si próprio.
Sinto-me uma cobra que se enrola sem parar à volta de um tronco chamado tempo.
Não é preciso ter passado mais de meia-hora em qualquer país africano, sul-americano ou até mesmo no Reino Unido, para se saber que Portugal não é o único país do mundo obcecado com os sinais distintivos de classe social. O problema - chamemos-lhe assim, apesar de não o ser - dos outros interessa-me pouco, como ir ao jardim zoológico ver macacos ou a uma universidade ouvir falar de politicamente correcto. Já o português me aborrece bastante, porque sou vítima de algumas das suas manifestações.
Claro que não me refiro a clivagens patéticas e inócuas como o presente / prenda, mala / carteira, tratar os filhos por você et simili. Isso são epifenómenos, equiparáveis em valor às práticas opostas - chamar prenda a um presente é a mesma coisa do que chamar presente a uma prenda.
Porém, algumas manifestações de superioridade social são mais aberrantes, no sentido de darem vontade de berrar. Uma delas é a falta de pontualidade. Não ser pontual é ser dono do tempo do outro. É dizer-lhe «O teu tempo é menos importante do que o meu.» «Faço o que quero com o teu tempo.» (Admitidamente, isto não é uma descoberta recente.) Outra, mais especificamente portuguesa - mas de maneira alguma exclusiva - é a falta de resposta a e-mails ou telefonemas. Não responder a um e-mail é negar ao outro não só a sua existência - o e-mail deixou de existir, a razão do e-mail também - mas também a sua essência - o outro desapareceu. «Tu não mereces sequer que eu me arrisque a dizer-te «não» (uso o verbo arriscar propositadamente: para um povo de cobardolas como o português, o não é simultaneamente um confronto e uma posição, logo coisa a evitar duplamente. Se por acaso mais tarde for preciso, poor qualquer razão, mudar a decisão pode sempre dizer-se «o e-mail escapou-me» ou «não vi a notificação da tua chamada» ou coisa que o valha.)
Ao contrário do que durante muito tempo pensei, a não-resposta não é só um sinal de má-educação (é), de cobardia (ditto) mas é, sobretudo, uma manifestação de ascendente social. É provavelmente por esta última razão que a suporto tão mal.
Um dos primeiros empregos que tive quando cheguei à Suíça foi limpar neve dos telhados. Era um trabalho do qual gostava muito, mas não é disso que queria falar aqui. Um dos truques que aprendi com os meus colegas - devo prevenir que a empresa proíbia tal prática e só o aprendi por conversa, não por o fazermos - era partir discretamente uma telha no Inverno para garantir que no Verão teríamos trabalho a substituí-la.
Cada vez que leio na imprensa notícias sobre a fome e a miséria provocadas pela resposta dos governos ao vírus lembro-me disto.
Desculpa, querida. Não fui eu quem gritou. Foi um monstro que saiu do pesadelo e se pôs a passear em mim. Assustou-se e quis voltar para dentro, mas eu já tinha acordado e ficou sem casa.
Buscas a palavra, hesitas entre dédalo e labirinto, bates nas paredes, perdes-te, voltas atrás. Lembras-te do filho de Dédalo, que fez asas e as perdeu porque voou demasiado alto, perguntas-te de onde é melhor cair: do céu ou do chão?
Que dédalo é esse que te trouxe aqui e te deixou? Que labirinto, que emaranhado de caminhos? Quem te empurrou, puxou, atraiu, expulsou? Vieste sozinho? Como sobreviveste tanto tempo sem ninguém ao teu lado? Porque viraste à esquerda, quando vias que o caminho certo era o da direita? Porque estás tão cansado, tão dolente, gemes como se o mundo te queimasse os pés?
O labirinto não é o bom sítio para morreres. Espera a claridade do caos.
Estás tenso, impaciente, tens no ventre as pedras de basalto que há tanto tempo trazes contigo não sabes onde - nos bolsos, na mente, nos olhos. Felizmente, sabes que a tensão é superficial. Aprendeste há anos a distinguir profundidades, sabes de onde vêm as bombas que te rebentam nas mãos, mal tocas qualquer coisa. De quão fundo te chegam, onde explodem, onde te queimam, onde te esperam. Bombas de profundidade, minas que sobem em vez de descer e tu aprendeste a medir-lhes a força, a estimar-lhes a violência.
Aprendeste, sobretudo, a viver com elas. Transformaste-as numa dor que não dói porque só dói quando tu queres, quando tu a deixas doer. Uma dor que se magoa a si própria, que se faz sombra, explosão silenciosa, passo a passo como num filme mudo em câmara lenta.
Domaste as tuas minas, engoliste os teus calhaus, pregas rasteiras à tensão e à impaciência. Agora só te falta perceber porque te dói tanto, tudo.