4.1.26
Diário de Bordos - Cove Bay, Anguilla, 03-01-2026
1.1.26
Diário de Bordos - St. Barth, DOM-TOM França, 01-01-2025
«Não estás nada mal», diz-me a MDS quando lhe digo que estou em St. Barth. Poderia não estar nada mal, sim, se as condições fossem outras. Nestas só espero a chegada do dia quatro de Janeiro, que nunca mais chega.
(Cont.)
31.12.25
Diário de Bordos - St. Barth, DOM-TOM França, 31-12-2025
Li uma vez uma hipótese segundo a qual a hominização teria sido facilitada ou provocada pela esquizofrenia. Pré-hominídeos esquizóides teriam tomado o controle da tribo ou do clã ou do que seja e neles instilaram normas e regras que levariam à evolução da espécie. A ideia não me parece descabida de todo e agora, que trabalho com uma stew borderline e OCD, percebo-lhe o fundamento. Tudo é feito para que a mulher não se excite, não perca a calma à frente dos clientes. Desde que estes se vão embora tenho direito a insultos e agressões verbais no pior dos casos, maus modos e má-educação no melhor. Que raio de fim-do-ano! Realmente não percebo como é que nenhum dos meus livros se tornou um best-seller, por que raio de carga de água as minhas fotografias não se vendem. Tenho de fazer um curso de vendas, é o que é. Que faria Dale Carnegie nesta situação?
30.12.25
Diário de Bordos - Gustavia, St. Barth, França DOM-TOM,
Não escrevo, não fotografo e não penso. Só fumo e trabalho e perco a cabeça, alternadamente. Não sei que mal fiz eu a Deus ou ao Freud ou a quem quer que seja para só me saírem borderlines na rifa. Desta vez é a stew, que me tem envenenado a vida para além do que é suportável, aceitável ou acreditável. Claro que isto tudo é culpa da RN, a estúpida empresa para a qual trabalho, devido a esta habitual mescla de estupidez e necessidade, tão ligadas como um dedo e o anel de casamento, também conhecido por aliança. Necessidade e estupidez são uma espécie de Yin e Yang da minha vida.
De maneira aqui estou em St. Barth, aonde a clearance de um cata de quarenta e seis pés custa cento e setenta euros (o normal oscila em torno dos quinze), uma imperial seis e aonde acabo de ver o BLACK PEARL e o MALTESE FALCON juntos e ao vivo, a desenrolarem os panos a uma milha de mim.
Encontrei um café quase vazio aonde a cerveja custa o preço acima mencionado. Nos outros é mais cara e estão cheios. E este barman é super-simpático (é o proprietário. Acaba de me contar as horas de trabalho que faz. São como as mamas das senhoras: excessivas.)
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Já não tenho nada que fazer em terra mas resolvi ficar até à próxima boleia para bordo, que não sei a que horas será. A parte feminina da tripulação resolveu vir às compras. Suponho que vão comprar metade da cidade, a julgar pela quantidade de malas que trouxeram para uma semana nas Caraíbas.
O bar chama-se La Cantina e recomendo-o fortemente, se por acaso.
20.12.25
Diário de Bordos - Anse Marcel, Saint Martin, DOM-TOM França, 20-12-2025
De regresso a Anse Marcel, aonde em Abril tão bons momentos passei. A praia continua convidativa mas desta vez nem fato de banho trouxe, de maneira o objectivo é claro. Ou melhor, os objectivos: chatear a empresa para que me mandem dinheiro, beber cerveja (pouca, que é Carib) e planteur, escrever postais e disparates (não é um pleonasmo, ao contrário do que se poderia pensar), experimentar a nova objectiva e - sobretudo - imaginar que flutuo num largo rio que me atravessa e deixar-me levar por ele, nele.
Ao meu lado I. trabalha, concentrada e eficazmente. Agradeci-lhe ter-me dado o fim de de dia de ontem; estava (ainda estou) a precisar de estar sozinho mas seria inaceitável não a trazer. Acresce que ela gosta de praia e entre dois menus (tem um charter a começar dia vinte e cinco) dará um mergulho ou dois. Infelizmente não poderei comer aqui, isto é exageramente caro mas não muito longe há um chiringuito - aí sim, um chiringuito. Isto é um beach club armado ao pingarelho.
Abençoado pingarelho, abençoados alísios, bendito mar, benditos azuis, o do céu e os do mar. Benditos momentos, poucos que sejam.
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Em Genebra dava aulas de vela com um aluno que já tinha a carta necessária. As autoridades genebrinas consideraram que o curso da escola náutica era suficiente para navegar no lago mas com barcos a motor. Para veleiros necessitava de outra carta. Precisava de ter alguém com carta a bordo. Quando naveguei na marinha mercante não fiz os tirocínios para passar de praticante a terceiro piloto, apesar de ter as horas ou milhas mais do que suficientes. Toda a minha vida naveguei baseado naquilo que sei e não no que os papéis dizem que sei. Infelizmente, o real tem mais força do que eu e estou agora a pedinchar, é este o termo, que a DGRM me forneça equivalências porque os papéis pesam cada vez mais nesta balança. Viver fora da caixa é muito bonito - até que a caixa te apanhe. Depois é uma seca.
Maldita modernidade. Puta que pariu o tempo - o dos outros, quero dizer. O teu é muito bom. Ou foi, vá lá saber-se.
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Todas as épocas são assim: expulsam quem nelas já esteve quanto basta. É por isso que acho estúpido esta merda de prolongar a vida, de «cuidar de si». Vive, homem. Quando chegar a tua vez o tempo se encarregará de te dizer que chegou e abre-te a porta para que saias graciosamente.
19.12.25
Diário de Bordos - Marigot, St. Martin, DOM-TOM França, 19-12-2025
Cheguei ao Marin no dia dois deste mês. Passaram dezassete dias. Costumo dizer que se deve mudar de vida de dez em dez anos (máxima essa que não aplico desde dois mil e dez, já lá vão quinze, mas isso por agora é irrelevante). Por quantas vidas passei nestes dezassete dias? A família etíope levou-me aos meus tempos de UNHCR / CICR. Lidar com pessoas vulneráveis, vítimas de burocracias e de egos, perdidas num mundo que não é o delas; depois, o reencontro com o meu filho T. no Marin; e depois ainda o regresso ao normal: transporte para as BVI, voo para St. Martin aonde tenho de esperar quatro dias porque não há aviões para a Martinique, reencontro com o J., cada vez mais igual a ele-próprio. St. Martin no Natal: um dia para encontrar dois quartos de hotel (por sorte, na primeira noite consegui um quarto para os dois no Centr'Hotel, uma «júnior suite» (aspas porque cito) com duas divisões, tudo isto a um preço Centr'Hotel: mais do que correcto. Depois é que foram elas. I. encontrou um quarto no Shrimpy's, uma crew house que faz parte do imaginário mítico de St. Martin; e eu um quarto em Concordia, está longe de valer o preço mas é o que há. En attendant: rhum punch no Lagoonies e na D'Beach, ontem um jantar no L'Authentic - agradável descoberta - e hoje visitas aos ships e depois excursão a Philipsburg.
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Volto ao Boolchand's com o pretexto de comprar um estojo para a máquina e como não havia saio com um zoom 12-28. Não é grande coisa mas também não foi muito caro e para o escasso uso que lhe vou dar serve perfeitamente. Fico com focais de 12 a 180, se bem com aberturas muito variáveis.
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Philipsburg subiu bastante na minha consideração: fomos almoçar a um restaurante indiano chamado Shiv Shakti. A I. também gosta de comida indiana e regalámo-nos os dois. A melhor refeição indiana em muito tempo.
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A minha luta com a RN continua mas tudo indica que a estou a ganhar, pouco a pouco. Veremos, como dizia o ceguinho à mulher que era surda. Cada vez suporto menos trabalho mal feito, atabalhoado, amador. E cada vez me sinto mais excluído deste mundo para quem só a forma conta, as «qualificações», os papéis. Como não estar do lado dos etíopes? E como não pensar que a culpa é minha, que vejo esta merda deste nevoeiro chegar há tanto tempo e não fiz nada?
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A I. é adorável e inteligente. Hoje percebeu que eu precisava de um momento sozinho. Aposto singelo contra dobrado que ela também, de maneira ficou no Shrimpy's e eu venho ao Arhawak beber uma cerveja e comer uns nems. Ainda estou cheio do almoço. Amanhã vou à praia. Isto é, vou para o chiringuito da Anse Marcel tentar não pensar no Y., que está no Marin a ser reparado pela M. Hoje passei horas ao telefone com ela e parece-me que está a fazer um excelente trabalho. Amanhã haverá mais e no domingo verei.
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Sinto-me no meio de um jogo de Tetris em que as peças não têm todas as mesmas formas.
Sorte
Com um bocadinho de sorte, amanhã poderei escrever.
Para descrever será preciso muito mais do que um bocadinho.
13.12.25
Intuitivamente
Ainda não percebi bem se o papel da memória é dar cabo do presente ou de o realçar. Intuitivamente, diria que é os dois, alternadamente.
Do mar e das mulheres da nossa vida
Estava a sonhar com ladrões. Imaginei que amanhã o dia seria meu. Só meu. Todo meu. Não vai ser. Terei de ir verificar o nível das baterias. Que sorte! Um passeio em dinghy... Separarmo-nos do mar é pior do que separamo-nos da mulher da nossa vida. Ela só fala. O mar nem de falar precisa para nos prender.
Balanços
Tomar um duche grosso em terra é como tomar um sóbrio no mar. Não vale sequer a pena perguntar porquê.
Eleni, Hildegarde e o tempo
Passo da Hildegarde para a Eleni Karaindrou por razões que têm a ver com a memória e a má consciência. Andam muitas vezs juntas, essas duas cabras. Não sei. Não há rum que chegue para me dar uma resposta. Só o tempo, se eu viver tempo que chegue.
Equivalências, sortes
Domingo vou para Road Harbour. É um dos sítios das Caraíbas que mais detesto. É-me difícil perceber porque estou tão contente. Difícil?
Não é o destino que conta, estúpido. De qualquer maneira não vais sequer ter tempo de ver aonde estás. É sair de bordo, ir buscar as injecções e os sapatos de que te esqueceste e correr para o aeroporto para voltar para o mar. O mundo devia ser feito de mar. Ou de amor, é quase a mesma coisa.
Se tiveres muita sorte, vais ao Purser's beber um rum. Muita sorte.
Diário de Bordos - Le Marin, Martinique, DOM-TOM França, 12-12-2025
São nove da noite. A esta hora estou ou a dormir ou a pensar no que fazer para dormir. Agora não. Penso que tenho de dedicar este post à B. A. P. e à L. C. B. (por que raio de carga de água temos tantos nomes, nós portugueses?) e é por aqui que começo, Bárbara, Luíza. Ou começo antes? Cheguei a casa e fiz um café, uma coisa do Congo que comprei em Fort-de-France e que é bastante bom, ma parole. E depois pus a Hildegarde von Bingen não sei cantada por quem, mas pouco importa. E fiz um ti'punch com um rum da Habitation La Favorite e despi-me, inundei a casa de anti-mosquitos e penso que tenho de tomar um duche antes de ir para a cama mas depois pergunto-me «quem é que quer palavras lavadas?» e continuo a escrever e quero que o duche se lixe. As palavras querem-se feias, ninguém gosta de palavras bem penteadinhas, como meninos que saem de casa para a escola. As palavras querem-se à vinda, joelhos sujos e camisas rasgadas.
O resto da semana foi passado entre o «posto», sito no aeroporto, o hospital, o consulado de St. Lucia em Fort-de-France. Isto estando no Marin, a trinta e qualquer coisa quilómetros e duas horas de carro. Preciso da ajuda da Hildegarde que agora canta pela voz de alguém: consegui. Consegui tudo: o visa para a Nigist e para o seu filho, trocar as datas dos bilhetes do ferry, levar comida e roupa aos «prisioneiros», convencer o chefe da polícia que aquilo era boa gente, acompanhá-los ao ferry, consegui os papéis do hospital. Consegui. Puta que foda a puta da vida. Consegui. Foram horas ao volante, horas a falar com funcionários para quem esta história cheirava a uma versão mal cozinhada de ET, horas sem dormir, horas a ouvir «sir...» mas foda-se, consegui. A prova está agora a Hildegarde a fornecer-me-la. Halleluijah!!!
Não sei se alguma vez pensaram na problemática da idade. Eu penso, às vezes. Noventa e nove por centos delas não é um «problema».Um por cento é. Agradeço muito a estes um por cento, quando acontecem. Também agradeço à senhora, sentada na mesa ao lado da minha e acompanhada que me provocou tão ternos sentimentos.
10.12.25
Diário de Bordos - Le Marin, Martinique, DOM-TOM França, 09-12-2025
Um gajo pensa em tudo aquilo por que acaba de passar e começa a elaborar uma estrutura para a narrativa. De repente cai-lhe um raio em cima. Morreu a C. P-C. O gajo sabe que não é uma grande surpresa mas sabe também que é injusta, surpresa ou não. Há mortes que não são uma filha da putice? Há. Esta não é uma delas. A cabrona leva os melhores de entre nós até morrermos e só aí reequilibra a média. Puta que a pariu, à morte.
Foi ela também que ceifou a minha Avó Filipa antes de eu a poder levar a comer um linguado ao Leão D'Ouro. Não é só a morte que é filha da puta.
Tudo é um mistério para mim, na verdade. Até eu. Até a raiva que agora sinto, como se não fosse mais do que de vida. Puta que a pariu. Deixei de gostar de chocolate negro.
8.12.25
Diário de Bordos - Le Marin, Martinique, DOM-TOM França, 07-12-2025
Tenho direito a dois finalmentes: a familia etíope está reunida em St. Lucia e eu estou sozinho a bordo. O segundo não vai durar muito tempo: amanhã às nove já tenho de ir buscar a rapariga da limpeza. E depois terei muito trabalho com os barcos. Não terei tempo para parar dois dias, alugar um quarto no norte da ilha e dedicar os dias a dormir, beber rum e escrever (ao mesmo tempo, claro). Mas bom, sejamos optimistas. Com sorte, amanhã conseguirei ir a Ses Salines. Não é o norte da ilha, é aqui ao lado, mas como toda a gente sabe o que se tem é melhor do que o que se quer ter.
Ou seja: amanhã de manhã há trabalho. À tarde também, eu darei parte de doente e irei à praia. Tão certo como chamar-me tio Patinhas.
A máquina principal está a trabalhar para carregar baterias. O grupo não funciona. Já no L. do M. é a genny quem se esforça. Deixei-a sozinha, coitada. Devem contar-se pelos dedos de uma metade de mão as vezes que eu deixei uma máquina, seja ela principal ou auxiliar, a trabalhar sem eu estar a bordo. Mas pronto, alguma vez será a primeira. Ou segunda, vá lá saber-se. Amanhã vou dormir para o L. e o grupo lá vai trabalhar para alimentar o ar condicionado, tão glutão. E eu a dormir.
PS 08-12-2025 - Hoje não há Ses Salines para ninguém. Está de chuva.
7.12.25
Diário de Bordos - Fort-de-France, Martinique, DOM-TOM França, 07-12-2025
Venho deixar a Nigist ao terminal de ferries. No caminho, a senhora desfaz-se em agradecimentos e a certa altura oferece-me um pequeno souvenir. Diz-me que o seu filho gosta muito de animais mas que ela me vai oferecer este para que eu me lembre deles. É uma tartaruga. Não há maneira possível no mundo para ela saber que a tartaruga é o meu totem. Estou comovido para além do que é descriptível.