22.1.18

Ambi-valências, sorte

Amo-te é uma daquelas palavras tão boa de ouvir como de dizer. Acontece o mesmo com "Este jantar foi óptimo" ou "é bom fazer amor contigo".

Uma sorte estarem tantas vezes associadas.

21.1.18

Eclipse e Tchekov

Há dias assim: um senhora que sabe do que fala cita Tchekov a propósito de um post deste blog e fico a saber que afinal o que tenho tido estes dois dias é uma virose e não, como eu temia, uma nova forma da Ménière.

Nunca assisti a um eclipse total do sol mas o momento em que ele reaparece não deve ser muito diferente.

Adenda: não sou muito bom em auto-diagnósticos, sejam eles de que ordem forem.

Transformações, esperança

Andava com o casaco e o cachecol que ele lhe oferecera para o sentir perto dela e de repente aquilo transforma-se num casaco de pregos e num garrote. Ficou aterrada, claro: e se lhe acontecesse a mesma coisa com tudo, incluindo as coisas que comprara e há tantos anos usava normalmente? Se de repente o mundo se transformasse no seu contrário?

Quando chegou aqui respirou aliviada e o terror transformou-se em esperança.

Ventos, expostos

Penso "o mau tempo no canal passou" e alguém me responde "vai chamar canal a outro". Só para me lembrar que on n'est pas sortis de l'auberge, como dizem os gajos da terra onde há muitos canais. Bastantes, mesmo. Um dia gostava de os percorrer à séria, começar no norte e acabar no sul, partir para oeste e acabar a leste. Mas isso é um dia; hoje trata-se de deixar para trás o temporal e pensar "ainda não foi desta".

Exagero manifesto: ando armado em maricas pé-de-salsa, só para mudar um pouco. Um gajo farta-se de estar sempre a apanhar porrada e resistir a todas. Até os paredões se fartam e amolecem com o tempo, arranjam curvas para a água se acomodar melhor. "O estranho caso dos paredões judocas" podia ser um bom título. Ou então "Do bom uso da doença", livro de auto-ajuda e receitas de vida. Por exemplo "adoeça e meta-se na cama até desadoecer", mas essa é fácil, é o que todos fazemos todos os dias (se bem alguns saiam antes ou continuem depois, mas devem ser uma minoria). Eu sou mais do género de dizer "doente estava a tua tia e casou-se", excepto em dias como o de hoje; quero dizer o contrário: " a tua tia não se casou por estar doente", por exemplo, "se bem talvez tenha ido até à praia apanhar sol e ver os garotos, ela sempre gostou de putos mais novos do que ela", mas isso é coisa que não se diz nos jantares de família nem nas reuniões do conselho de administração da empresa familiar.

Verdade seja dita que ainda não passou completamente mas é como se: as depressões (as do mar, quero eu dizer meteorológicas) também passam e deixam um mar de merda, piramidal, ainda por cima um gajo tem pouco vento e fica ali a abanar como uma pastilha elástica na boca de um paranóico ou um peixe do qual o aquário se partiu e ficou sem água. Eu também estou assim. Já passou mas. Tudo o que for para além disso é trinta e um de boca, é como o peixe esperar que de repente o aquário se vai reconstituir e em breve tudo será como dantes.

Não será, claro: nunca mais nada será como dantes, o tempo é um exfoliante e vai-nos tirando camadas de células uma a uma; sem darmos por nada de repente estamos assim, expostos e nus aos implacáveis ventos da vida.

Novidades velhas

Dias em que acontece sempre qualquer coisa mas não há novidades... Ontem por exemplo começou mal e acabou com um gratin dauphinois mais ou menos decente (o próximo será melhor, já não fazia isto há tanto tempo); o Menières que muda de natureza e de timings; o meu primeiro cliente confirmado para um passeio no rio, à defaut de jantar e música; e outras coisas, que também não são novidade.

Exposição, vulnerabilidade

Há um fenómeno estranho, perverso, na vulnerabilidade: é quando estamos frágeis que nos expomos mais.

Como um náufrago se afoga porque tomou por um tronco sólido uma palha, um alpinista cai porque espetou um piton em areia e não numa rocha ou um marinheiro desata cedo de mais os cabos que o prendiam ao mastro.

Sentido, sentidos

Não são os sentidos que dão sentido a uma vida sem sentido. É o amor que dá sentido aos sentidos e os dois em conjunto que o dão à vida.

Tortura(s) e respectivos remédios

Ménière a lume brando e frequência elevada. Espero que os episódios violentos e breves regressem. Digo isto, penso nos dias que passei nos hospitais com episódios incontroláveis e volto atrás: espero que alguém encontre uma cura para esta merda o mais depressa possível. E lhe dêem o Nobel, um lugar no céu, uma quantidade ilimitada de ex-virgens recentes (as virgens são umas chagas e devem ser deixadas para os idiotas dos terroristas), rios de whisky, rum, leite de coco e mel mais tudo o que ele quiser, incluindo estadias nas ilhas quentes das Caraíbas, apaixonantes e intrigantes do Mediterrâneo, geladas do Norte ou sejam elas quais forem que lhe agradem.

Que tenha tudo o que quiser mas encontre um remédio para isto. Não sou de certeza o único a implorar à ciência o fim desta tortura.

Se bem lhe reconheça uma vantagem: não me deixa pensar nas outras. (Podia era ser mais homeopática...)

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Isto dito, é forçoso reconhecer que as outras têm o fim à vista e tortura da qual se vê o fim passa imediatamente à categoria inferior: inferno, só. Abaixo há o calvário, depois uma série de maldades até se chegar ao rame-rame habitual. Depois começa a subida, claro. É por isso que é melhor olhar em frente e  acima do que para trás e abaixo: qualquer pessoa sabe que o futuro é melhor do que o passado e este melhor do que o presente.

Eu sei, pelo menos e sou uma pessoa qualquer; ou seja, qualquer pessoa.

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Estou com saudades de S. Luís e de Salvador da Bahia; de St. Martin e da Martinique e (um bocadinho menos: o círculo fechou-se) de Antigua; de Palma de Mallorca e de Atenas, de Genebra, Londres e Paris; de almoçar num bouchon em Lyon e de passear no Jura; de uma fondue de queijo, de uma fontina no Val d'Aosta, de milhares de outras coisas. 

20.1.18

Orgulho ignorante

Pergunto-me se não se deveria criar uma marcha "Pride" para os ignorantes, como a dos homossexuais.

Houve um tempo em que ser ignorante era visto como uma vergonha. Hoje quanto menos se sabe mais orgulhoso se é. 

19.1.18

Papagaios

Os pássaros capazes de imitar o discurso humano são injustamente vilipendiados. Se em vez de falar soubessem escrever estariam nas redes sociais em vez de numa gaiola ou no ombro de um marinheiro bêbedo e seriam tão respeitados como o oráculo de Delfos.

Passeio

Miopia há mais de cinquenta anos, síndroma de Menière há vinte, diabetes há doze. Se alguma doença crónica quiser instalar-se tem todo o interesse em despachar-se. Caso contrário arrisca-se a um passeio muito curto.

Placebo

A dor no cotovelo direito está identificada e em vias de tratamento. Agora apareceu uma nova, na coxa esquerda, inquietante. Não sei se hei-de começar a referir-me a mim como a diagonal da dor, dores em saldos, a ano novo dor nova, a dor é a vida ou, mais simplesmente, que se foda a dor. O desprezo é um remédio duplamente eficaz.

Ou um placebo.

Patologias, normalidades

Não consigo impedir-me de estranhar cada vez que vejo a depressão incluída no rol das patologias mentais. Um estado habitual não deve ser considerado uma doença.

Doente será, quando muito, quem não está deprimido.

Náufragos

Só as verdades abstractas são suportáveis; as outras, concretas, tendem ou a deixar-nos de mármore ou a indignar-nos de tal forma que nos transformam também em mármore, mas quente, desta vez. As verdades concretas têm o misterioso poder de nos deixar ver através delas  como se tivessem fendas pelas quais o olhar se perde e nos impermeabiliza. Acabou-se o veneno para as zarabatanas de uma tribo da Amazónia; acabaram-se os comprimidos de um pobre de uma cidade europeia; apareceu um anjo (com documentos em dia, isto foi garantido pela imprensa de referência, fotografado, testemunhado) numa autoestrada do Sul do país. Verdades absolutas, concretas, palpáveis cuja única virtude é relembrarem-nos a existência de florestas tropicais, doenças ocidentais e habitantes celestiais.

Já o abstracto é uma floresta (azul no alto da madrugada) na qual se passeiam anjos indocumentados, lúbricos, loiros, provocantes e se acredita sem mesmo necessidade de uma cerveja no inferno.

Não acredito em verdades, acredito em ilhas literais ou metafóricas, tropicais ou temperadas, flutuantes ou bem presas ao fundo com o peso da podridão toda que levam em cima. Não acredito em anjos, acredito no amor venéreo ou platónico, na mentira, na força terapêutica da amizade, no seu poder regenerador. Abstractos como a verdade, luzes de uma noite que por vezes um corpo atravessa deixando um rasto de fogo, invisíveis para todos excepto para os náufragos da verdade.

Generosidade, oxalá

Não me posso queixar da generosidade; não é aquele rio de sentido único contra o qual me prevenia a minha Avó e a verdade é que as minhas travessias de desertos, por horríveis que sejam - são piores, cada vez piores - só têm sido possíveis devido à generosidade de duas ou três pessoas (a quem de resto deixo aqui um obrigado! do tamanho de todos os desertos do mundo juntos). Mas arrependo-me de ter sido generoso com pessoas de quem não posso esperar nada quando sou eu que estou no lado baixo da mó.

Não é verdade. Não me arrependo. Só assim é generosidade: dar sem esperança de receber em troca. Pensando bem, mais vale ser generoso competente do que emprestador incapaz.

Há pouco pensava que de todos os disfuncionamentos do meu cérebro (são tantos) o pior era a generosidade. Não é, acabei de o ver. Basta um pouco de reflexão. Talvez o prémio deva ser dado à impulsividade, que pensava atenuada e agora vejo - com os óculos de realidade aumentada que a maré vazia traz com ela - que não. Hei-de morrer num impulso e com a cabeça tão vazia como quando nasci. A cabeça e os bolsos.

Inch'Allah.

Labirinto

Imaginemos por exemplo um palácio dentro do qual uma pessoa erra, perdida. O palácio está debaixo de água, mas o ser errante que o habita não sabe. Há muito que toda a gente o abandonou; ele dedica-se a construir um labirinto com as conchas que as marés lhe vão depositando, uma a uma (por vezes duas a duas) à porta. São conchas minúsculas mas o homem - sabemos que é um homem de meia idade, alto, magro, curvado - é persistente.

Talvez não seja persistente: talvez lhe falte simplesmente imaginação. Ou talvez seja prisioneiro da ideia de labirinto, tão prisioneiro que não se apercebe sequer de que não há labirinto nenhum.

"Ainda", diria o homem se nos ouvisse dizer isto. "Ainda não há labirinto nenhum".

O homem está preso dentro de um palácio, debaixo de água, num labirinto inexistente (por enquanto). Constrói-o sozinho, uma concha por dia, às vezes duas. Aprecia a solidão: em tempos teve uma família, amigos, uma mulher, colegas de trabalho; foi-se despindo deles, tirando-os como se fossem peças de roupa desadequadas à estação. Em tempos lera um livro sobre dois irmãos que se encerraram num palácio num labirinto de jornais e morreram, muito devagar, cada um do seu lado da casa.

Lembra-se vagamente de ter tido, ele também, um irmão. Agora não tem e o labirinto é de conchas e não de jornais, conchas redondas, estriadas, feitas para se encaixarem umas nas outras sem se queixarem, sem caírem ou escorregarem, feitas para durar e não deixar passar nem um fio de luz nem uma gota de água e assim fazer do labirinto uma tomba seca e escura ocupada somente por ele, ele e a sua persistência, ele e a sua falta de imaginação, um labirinto eterno no qual nunca ninguém o descobriria mesmo que alguém o viesse um dia a procurar, hipótese essa demasiado remota para que a considere sequer uma hipótese, não passa de um grupo de palavras alinhavadas e sem qualquer contacto com a realidade, essa realidade de que o homem sempre fugiu e na qual quer agora morrer só, seco, é tudo o que quer e para isso constrói, peça a peça, um labirinto debaixo de água dentro do palácio onde um dia por acaso entrou, não sabe se sozinho se acompanhado por um dos seus amigos ou se calhar pela sua mulher ou o seu irmão.

Não sabe: foi há muito tempo e o tempo é um ácido, corrói tudo, até os ossos, a amizade, a família, a retórica, a esperança (passe o pleonasmo: a esperança é apenas uma das variantes da retórica, a mais infantil e inútil, de resto), a memória, a vida, se é que alguma vez esteve vivo.

O homem não sabe nem quer saber. Vive para o seu labirinto e secretamente para esquecer a razão pela qual o constrói. 

17.1.18

Juízo

Começaram a aparecer-lhe palavras como borbulhas a um adolescente. Esse foi o primeiro sintoma. Outros se lhe seguiram: vê-la quando fechava os olhos e não a ver quando os abria; senti-la quando se deitava para um lado e deixar de a sentir quando a queria acomodar melhor, apertar-lhe a cintura ou encaixar os joelhos nos dela, por trás. Esse período da doença durou uma eternidade. Os diferentes médicos que consultou disseram-lhe que não havia nada a fazer: não há, diziam, Clearasil para as ilusões sensitivas, para a verborreia, para os sentimentos desalinhados da realidade.

Nada a fazer; esperar que passe.

Ou então deixar os sentimentos onde estão e alinhar a realidade por eles, não?

Não seja tonto.

A Terra é Redonda. Se andar sempre para Leste chego a Oeste.

E se andar sempre para Sul não chega a Norte. Morre de frio.

Sem ela também morro de frio. O Sul é a morte e o Norte a vida?

Borbulhas verbais. Tenha juízo.

O juízo é o Sul.

Cálice longe

Como um cálice ao contrário para escorrer as últimas gotas de veneno. Quem corre por gosto não cansa? Talvez. Mas envenena-se, tanto como quem corre forçado. Ser voluntário acelera o passo, não lhe retira o peso. Há-de ser até à última gota. Como um  cálice ao sol.

Tiens bon, matelot: tu en sortiras tanné, pas fané.

Erupções de tempo

Pequenas erupções de futuro. Cintilantes? Fulgurantes? Encandeantes? Não sei.

Quem precisa de um presente, quando tem mil passados e mil futuros?

Bicicletas e robots

Li algures que o teste para se saber a relevância do trabalho que se faz é averiguar se se pude ser substituído por um robot.

Já alguém ouviu falar de uma bicicleta autónoma?

16.1.18

2666 páginas a mais

Estou a ler um livro do Bolaño que assim de início me parece muito enfadonho. Ou então sou eu que já não tenho força para aguentar calhamaços de mil e tal páginas, mesmo deitado.

Não deixo porém de achar injusto que se compare o homem aos grandes nomes da literatura sul-americana. Uma página de Manuel Mujica Lainez vale as mil que ainda não li deste. 

Tempo, circunvalações

Há dias em que quero escrever-lhe; quase todos. Outros quero fodê-la cegamente, como se não soubesse falar, ouvir ou escrever; são quase todos, também. Estranhamente não coincidem com os outros, aqueles em que quero escrever-lhe como se não tivesse pele, mãos, pila ou sentidos e aqueles em que não sei sequer o alfabeto.

Há circunvalações no tempo difíceis de perceber, apesar de as vivermos todos os dias.

Como se o amor não chegasse

Como se nada disto fosse suficiente: dar a volta à Lua sem sair do mundo sub-lunar; abomináveis vergonhas intercaladas com brevíssimas vitórias; dores de cabeça até à ponta das unhas dos pés; labirínticos sentimentos, dédalos de emoções imbricadas umas nas outras como o casario nas aldeias gregas, janelas para o futuro que se abrem no passado pensando que estão no presente, ilusões várias de todas as cores do alfabeto, um braço que começa em Lisboa e acaba em Coimbra, comboios que tocam Glass no leitor de CD (ou Bartok ou Taylor ou como agora Ravel, mas este não é um comboio, é um eléctrico urbano que se enganou de linha); o primeiro inverno em muitos anos; outro labirinto, indescritível e mais dédalos, ruas pelas quais me perdi voluntária ou involuntariamente em todas as partes do mundo, sozinho ou acompanhado, bêbedo ou sóbrio, de dia ou de noite (todos estes elementos são combináveis livremente); dias que parecem noites de tão bons e noites que parecem dias de tão más; o mar, sem mim tão longe e tão vazio, a chamar-me com grandes vagas como se eu fosse surdo, esta ideia de que algures há gente em ilhas, com rum e um céu azul do qual escorre calor como se as nuvens transpirassem.

Como se isto não fosse suficiente, como se nada disto chegasse para fazer uma vida, essa ruga no tempo para a qual não há cremes.

Enfim, há. Chama-se amor, mas é melhor não o chamar.

Cola

É o amor que cola e dá sentido aos bocados de que somos feitos. Sem ele não passamos de um puzzle desfeito, as peças na mesa à procura do seu lugar; ou de um quadro de Mondrian, menos geométrico.

15.1.18

Uma noite

Passo muitas vezes à frente do hotel Namíbia. Só lá dormi uma vez, com uma miúda que me convidou. Foi uma das melhores noites da minha vida, o que não deixa de ser saboroso porque vivi na Namíbia alguns anos. Penso nela muitas vezes; ou nelas: a miúda e a noite. Nunca mais a vi, se bem tenham passado muitas noites depois dessa. Tive outras muito boas com outras mulheres, mas tão pouco as voltei a ver. Como se o sexo não fosse suficiente. Querem sempre mais, não lhes chega a boa vontade, o esforço que fazemos para as fazer felizes. Nem que seja por uma noite.

14.1.18

Diário de Bordos - Lisboa, 14-01-2018

Não sei se era cenoura se miragem; prefiro esta: a miragem que andava a bailar-me à frente da vista há três meses transformou-se num oásis, finalmente. Isto é, como elegantemente dizia um amigo meu "só conta quando está lá dentro" (referia-se ao futebol, apresso-me a esclarecer). Mas deixou de ser uma miragem, isso é seguro. Agora resta-me, já que ando pelas analogias exóticas, lembrar-me do provérbio chinês segundo o qual "metade de uma viagem de cem li não são cinquenta li. São noventa". Não fiz as contas, mas vale a analogia. Estes últimos li são simultaneamente mais leves e mais pesados, mais curtos e mais longos, a ansiedade muda de cor (e de advérbio: quando? passa a ainda? ou tanto?)

Tudo muda de cor, na verdade: o preto transforma-se em cinzento e este vai ficando mais claro a cada dia que passa. Até o frio perde as suas qualidades metafísicas e passa a ser simplesmente frio, "falta de roupa apropriada" como dizia o meu amigo norueguês.

Só resta esperar que seja o último, mas a verdade é que todos foram o último até agora.

12.1.18

Sobre-qualificação

Estavam a pedir uma pessoa para um emprego na vida. Concorri, mas não fui aceite: sobre-qualificação.

Chuva oblíqua

Penso na Chuva Oblíqua:

(Atravessa esta paisagem o meu sonho dum porto infinito
E a cor das flores é transparente de as velas de grandes navios
...)

e só vejo frio oblíquo:

(Atravessa esta paisagem o meu sonho duma paz infinita
e as minhas dores são opacas como as velas dos navios
onde não estou...)

Melancolia, luz

A melancolia é como a luz: não há canto recôndito do corpo onde não chegue.

O acaso e a necessidade

Entre o acaso e a necessidade aquele leva claramente a taça. Esta pedala e o acaso voa.

Melhor: cai. Ou do céu ou para o inferno.

Rebanhos e eu

Gosto muito de rebanhos. Sem eles não seria eu.

Solidão, solidó

A grande vantagem da solidão é que pode ser interrompida mais vezes do que o seu contrário. Quem não está só nunca está só. Quem o está não o está sempre.

Fotografia, noite

As fotografias revelam-se no escuro; as pessoas na noite.

Beleza epidérmica

Por que raio de carga de água existe a palavra "carnal", tão simples e directa e "pelal" não? Tem que dar voltas por "epidérmico", tão feio.

Fraude, desespero

Acabo de ler um comentário de uma mulher que usa o termo "larilas". Se alguém subestimar o poder das palavras atente nisto: o desespero é uma fraude. Uma palavra chega para o aniquilar.

Tinnitus

Vivo com um tinnitus permanente. É como ter uma colmeia de abelhas no ouvido, permanentemente. Só falta uma apicultora.

Viver, sonhar

Não sei o que é pior: estar acordado e não conseguir viver ou dormir e não conseguir sonhar?

Tempo, intervalos

Uma das grandes vantagens do tempo é ensinar-nos a desconfiar dele. Como a vida: tudo o que nos acontece ou é mau e acontece já ou é péssimo e dura muito tempo. O bom fica-se pelos intervalos.

Oportunidades astronómicas

Gosto da palavra oportunidade. Parece um cometa mas é mais rápido.

Como?

Um post curto é como uma ejaculação prematura: só existe na cabeça de quem o lê.

Crime, ou isto não muda

Ando a tentar ser aceite num quarto para raparigas, mas não consigo. Chama-se a isto promover a homossexualidade, mas já não é crime. É uma simples incompreensão das lutas dos milhares de anos que nos precederam.

Pessimismo lusitano

"Cada macaco no seu galho" é uma descrição pessimista mas acertada da vida na sociedade portuguesa.

A forma e o conteúdo

Hoje abri uma garrafa de vinho horrível. Vinha da casa Paciência. Meia hora depois estava bebível. 

Alternâncias

A felicidade e a melancolia sucedem-se como o sono e o desejo. Infelizmente um é mais frequente do que o outro.

Objeção à ressurreição

Com a possibilidade de ressuscitar a morte deixa de ser atraente.

Álgebra, vida

Homem, 42 anos, solteiro, saudável e soldável procura mulher casada, doente e endividada para vida a dois partindo do zero.

11.1.18

Tudo?

Pouco mais disse, depois de morrer. Confortavelmente deitado num caixão que os vermes já tinham começado a roer - esse e o das pás dos coveiros durante parte do dia eram os únicos ruídos que o importunavam, porque gostava de ouvir as elegias fúnebres dos seus vizinhos - sentia uma certa inveja da alma, que imaginava deitada nas nuvens.

A alma estava realmente numa nuvem, mas escorregava o tempo todo e tinha frio. Devia ser um nimbus. Dos intermináveis diálogos de quando estava vivo pouco sobrava: nada tinham em comum, apercebia-se agora, não sabia se com alívio se com terror tardio: quer dizer que perdera aqueles anos todos a falar com a alma errada?

Uma vez na escola um professor tinha gozado com ele por causa do seu uso frequente (abuso, para o dito professor) da palavra alma.

Imagine-se porém um pôr-do-Sol à beira do rio. A água alaranjada parece esconder um segredo. Duas ou três embarcações, dessas que fazem passeios com turistas prometendo-lhes aventura e vida eternas disputavam a meia dúzia de gaivotas o privilégio de ouvir o segredo primeiro. O rio fecha-se em copas, nada diz, o Sol acha que está na hora, a alma agarra-se outra vez  a um canto da porcaria da nuvem - já não é um nimbus mas um cumulus, mais simpático, confortável e adequado ao tempo -.

"É tudo", disse em voz suficientemente alta para interromper as minhocas e fazer um dos vizinhos gritar-lhe "Cala-te".

É tudo.