23.1.19

Do silêncio

Não basta saber escrever, cantar ou tocar um instrumento. É preciso ter alguma coisa a esconder, a calar.

Amor, memórias

De que são feitas as pessoas que amamos? Ou melhor, de que é feito o amor? Das memórias do passado, usadas e gastas ou de memórias novas, virgens, prestes a ser construidas?

21.1.19

Reedição - Isabel, uma continuação sem fim

Continuação sem fim (nada nunca tem fim, só princípio)

Encontrei a senhora no comboio. Ofereci-lhe um enorme ramo de flores. Ela não sabia que as flores não eram minhas: sou empregado de uma florista sem dinheiro, que me obriga a entregar as encomendas de metro, autocarro, comboio. Já lhe pedi uma bicicleta, ao menos, mas nem para isso a minha patroa tem dinheiro. Não sabe dizer que não a um cliente e quem perde é ela.

Pouco importa: vi a mulher no comboio. Apaixonei-me por ela imediatamente: nem demasiado bonita nem demasiado feia, o seu sentido de humor sobressaía no seu olhar como a marca de óculos de sol num rosto bronzeado. Dei-lhe as flores num gesto impulsivo: gostei dos cabelos despenteados, dos traços finos, do olhar trocista. Estávamos longe da próxima paragem; devia falar com ela. Não lhe disse nada. Nada. "Ofereço-lhe, minha senhora, estas flores porque simpatizei com a sua cara; porque é bonita; porque as merece; porque oferecê-las me põe numa situação periclitante". Nada. Ou: "Algo em si atraiu estas flores, não fui eu que lhas dei". Talvez devesse ter-lhe dito: "Não fui eu: foi você que ofereceu a si própria estas flores por meu intermédio. Um pobre imbecil veio cá comprá-las hoje de manhã. Queria, disse-me, um bouquet "conservador". "Conservador", foi este o termo que empregou".

- Ofereço-lhe, minha senhora, estas flores. Espero que goste delas. Se não gostar, não me diga, por favor. Prefiro a ignorância, sabe? É ela que me faz viver. Ou a esperança, são a mesma coisa.

O comboio parou. Era um desses comboios suburbanos, cheio de caixeiras de supermercado, vendedoras de roupa de marca, contabilistas e bêbados precoces. Saí sem a ver e só no cais me apercebi que ela também saíra. Tinha um andar desengonçado, como se quisesse ter uma perna mais curta que a outra. Levava as flores bem altas, visíveis e olhava em frente. Eu queria voltar para trás, ir buscar mais flores, refazer a encomenda original.

Claro que não: queria segui-la, ir para casa dela, deitá-la numa cama e apaixonar-me melhor. Nessa altura procurava desesperado uma mulher, se possível sem filhos, quarentona recente ou trintona tardia (gosto de mulheres mais velhas do que eu, sempre gostei), com sentido de humor e um aspecto geral, como dizer?, sensual. Objectivos esses inalcançáveis sem me apaixonar, claro. Por isso me apaixonava: por uma professora indiana entrevista à porta da universidade, por uma empregada ucraniana no café, pela secretária da pessoa com quem me iria encontrar para um emprego. Apaixonava-me a torto e a direito, mas nunca tinha oferecido flores - que ainda por cima não eram minhas -.

Enfim, acabei em casa dela, em pleno campo, numa cama enorme e ruidosa. Nesta ordem: primeiro ela, depois o campo, depois a casa, depois a cama, depois o ruído.

II
Quando voltei à florista dois ou três dias depois fui despedido, naturalmente; mas fiquei a viver com a Isabel, que era um emprego a tempo inteiro. De manhã dava de comer e beber aos numerosos animais que ela mantinha: um porquinho-da-índia, um coelho anão, dois cachorros, meia dúzia de caracóis e um gato; passeava os cachorros no jardim à frente de casa; comprava os legumes frescos para o dia no mercado biológico; passava o aspirador; fazia o almoço; lavava a loiça; dormia a sesta; passeava os cães; fazia o jantar. A todas essas tarefas me dedicava grato: tudo era melhor do que ter de oferecer flores no comboio à primeira senhora gira que encontrava.

Isabel não tinha uma perna mais pequena do que outra: tinha-as iguais, pequenas, bonitas, mas arqueadas. Montava a cavalo desde miúda, com a mesma energia e determinação com que me levara para casa. O cavalo, um alazão enorme, completo, chamava-se Red Promise e tinha uma potência ilimitada. Uma vez vi-o saltar um metro e sessenta parado. Parado. Nos concursos era um prazer vê-lo: arrancava num galope desenfreado para os obstáculos e quando parecia que ia levar tudo pela frente reduzia a velocidade e levantava vôo na vertical, como um helicóptero.

Era arquitecta, passava muito tempo em casa e longos períodos fora, porque tinha obras pela Europa toda. Não sei o que viu em mim, eterno aprendiz de fotógrafo e moço de recados de uma florista falida. Eu sei o que vi nela.

III
Nunca saberás, meu amor, quantas horas de metro, quantos quilómetros de vida, quantos olhares cruzados me levaram a ti.

20.1.19

Receita para fazer um amor

Um amor é o encontro de duas liberdades, mas é também o encontro de duas solidões. Todavia, é importante lembrarmo-nos de que liberdades há muitas e solidões há só uma. As liberdades são como os silêncios: cada um a sua. Já as solidões são mais simples, coitadas.

Sonhos, mulheres

É mais fácil esquecer um sonho do que uma mulher, apesar de pertenceram à mesma família.

19.1.19

Real?

Sem uma dose de irrealidade, sem um lado onírico, demente, louco, ilógico o real não passa de uma farsa. 

Zeros hidrográficos

Bebo muito mas não bebo de mais. Excepto, claro, quando o nível "demais" muda sem dizer nada a ninguém (ninguém sou eu). Dois copos de vinho hoje são de mais, ontem não foram nada e amanhã? Não sei. Continuo a beber tranquilamente os mesmos copos de vinho de sempre. Ao contrário do zero hidrográfico das cartas, o meu zero hidrográfico pessoal muda todos os dias.

O que as palavras são, às vezes

As palavras às vezes são flechas; outras, tartarugas mortas na praia. 

Coisas que tendemos a esquecer ou mesmo a não ter presentes:

"Repitámoslo: no hay nada nuevo. Dostoievski lo describió en Los Demonios: la hipocresia, la corrupcion intelectual, la fascinacion por la violencia, la adicción al poder y un conformismo ilimitado son típicos de demasiados intelectuales.

Todo esto es cierto. Pero es igualmente cierta la larga lista de poetas y pensadores que no han caído en las garras de esta corrupción intelectual y que han seguido siendo leales a sus obligaciones morales para con el mundo del espíritu. Para nombrar solo a unos pocos: Thomas Mann, Ósip y Nadezhda Mandelstam, Arnold Schönberg, Dietrich Bonhoefer, Joseph Brodsky, Hermann Broch, Albert Camus, Paul Celan, René Char, André Tarkovski, Václav Havel y el mismo George Steiner, Steiner, a contracorriente, ha permanecido fiel a su proprio código moral intelectual´, a su vocación de «invitar a otros a entrar en el sentido», sin ceder al nihilismo, al populismo ni a la politización."

(Rob Riemen, Director Fundador do Nexus Institute,  in George Steiner, La Idea de Europa, Introdução, Ed. Siruela, Biblioteca de Ensayo)

18.1.19

Da série "pérolas do Don Vivo"

Um barco é uma pessoa a quem Deus esqueceu de dar o sopro. Nunca se recompôs, claro e agora ou se vinga se tu o esqueces ou te agradece reconhecidamente se te lembrares disso e lhe deres tu essa vida que tanto lhe falta.

17.1.19

Analogias silábicas

Como se fossem sílabas: juntos formam uma palavra; separados não fazem sentido.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 16-01-2018

Estes filhos de um comboio de putas roubaram-me o selim da Órbita, um selim novo, lindo e confortável. Não comprei outro: vendi a burra. Vender não é bem o termo, mas que se lixe. Quando a comprei já sabia que não a venderia mais cara do que agora vendi e quando gastei três vezes o valor da compra em coisas e afinações diversas (entre as quais o selim agora roubado) também. Fiquei só com a Panter, que tem um velho e rodas mais velhas ainda. O meu amigo R. chamar-lhes-ia hijos de una reputa madre e acho que está mais ou menos bem dito. Me cago en Dios, desculpem a auto-citação.

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Antiquari, Sifoneria, Ca La Seu, Moltabarra e Biblioteca de Babel. Estive fora cinco dias e parece que foi um mês. 

15.1.19

Serviço Público - Restaurantes no Porto

Não é bem bem um restaurante, é uma hamburgueria, mas é excelente (outra coisa não seria de esperar, tendo os donos que tem). Chama-se Burger Point, fica na Rua de Santa Catarina 800. O sítio é bonito, o serviço impecável, sorridente e atencioso, a carta tem um vasto leque de opções e a carne é óptima.

14.1.19

Serviço público - Restaurantes em Évora

À procura de um restaurante em Évora? Em caso de dúvida, esquecimento temporário ou obras espúrias alhures: Café Alentejo. Outra vez: Café Alentejo. Podem repetir quanto quiserem.

(Já não têm o piripiri caseiro).

(A Associação dos Deficientes das Forças Armadas também era muito bom. Estará aberta? A senhora moçambicana que lá trabalhava ainda lá está e faz o melhor piripiri a norte do Rovuma? Tinha uma vantagem muito grande, para mim pessoalmente a título pessoal: não discriminam entre deficientes físicos e dos outros).

13.1.19

Domingos, Ferreiriana

O futuro

Aos domingos, iremos ao jardim. Entediados, em grupos familiares, Aos pares, Dando-nos ares De pessoas invulgares, Aos domingos iremos ao jardim. Diremos, nos encontros casuais Com outros clãs iguais, Banalidades rituais, Fundamentais. Autómatos afins, Misto de serafins Sociais E de standardizados mandarins, Teremos preconceitos e pruridos, Produtos recebidos Na herança De certos caracteres adquiridos. Falaremos do tempo, Do que foi, do que já houve... E sendo já então Por tradição E formação Antiburgueses - Solidamente antiburgueses -, Inquietos falaremos Da tormenta que passa E seus desvarios. Seremos aos domingos, no jardim, Reaccionários.
Reinaldo Ferreira 

Questões etárias

Entrar por ela adentro e descobrir que na cabeça não há nada tanto pode ser benção como maldição. Depende unicamente da idade.

12.1.19

Diário de Bordos - Lisboa, 12-01-2019

És puta peganhenta, Lisboa. Não largas um gajo nem que ele se esconda nos recônditos. Quanto mais ele foge de ti mais se te apega.

És parte dos recônditos...

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A perfeição é assim: há que procurá-la no sítio certo: nós. E estende-se. Este dia perfeito, por exemplo, começou ontem com um jantar perfeito em Sintra. Continuou depois com dois mojitos perfeitos e sem açúcar no bar mais improvável do mundo. Continuou hoje de manhã com uma crónica de Vasco Pulido Valente e dois cafés no Brick.

Desaguo, meio sem querer meio por impulso, no Caxemira. Digo ao senhor - é o mesmo há duzentos e trinta anos (trinta e quatro) - que escolha ele o que vou comer e beber, dentro dois parâmetros: tinto para o vinho, camarão ou borrego para o prato. Traz-me meia garrafa de Cabriz, uma chamuça que podia estar muito ligeiramente mais picante e um Sak Gosh perfeito.

Lisboa agarra-se a mim nos sítios mais inesperados, por muito que tente fugir-lhe. Tens a perfeição manhosa, cidade.

Velha gaiteira debochada e lúbrica, sensual e sofisticada, porca e aprumada, desleixada e ataviada, velha de séculos e nova todas as semanas.

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Deve ir-se a Lisboa como se vai às putas: de vez em quando. Antes isso do que viver com uma.