30.5.16

"Escrevo uma carta de amor à luz do candeeiro, etc."

A ideia é torcer as palavras, decompô-las, transformá-las até elas ficarem irreconhecíveis. Leite, por exemplo torna-se arame; aquele e comum demonstra apenas que o processo não foi executado com suficiente vigor. Candeeiro deu amor; porta, anticiclone. E assim por diante.

Este processo é conhecido nos meios cientificos e na Academia por Método de Humpty Dumpty. Os meios literários apropriaram-se dele e chamam-lhe (não sem alguma auto-ironia) escrever. Quando em vez de palavras se tomam frases inteiras muda de nome e passa a poesia. Todo ele é frágil, caótico: depende muito do contexto e as relações causais entre um estado e o que o precedeu são frequentemente incompreensíveis. Indecifráveis. Invisíveis.

"Escrevo uma carta de amor à luz frágil do candeeiro, na esperança mais ou menos fundada de que um dia ela a lerá" pode transformar-se por exemplo em "Fui dar um passeio a cavalo para os lados de Salvaterra de Magos"; ou "Fui à Pastelaria Versailles comer um pastel de nata. Entrei em vez de ficar na esplanada porque sei que ela é friorenta e com um pouco de sorte talvez a visse. A esplanada estava cheia e a sala também mas não a vi. Deixou de ir à Versailles, suponho".


Quando acabei a carta fiz uma máquina de palavras com água a quarenta graus e pouco sabão. Mesmo assim algumas encolheram e outras debotaram. Pu-las a secar à varanda, ao sol frio e quase irritante de tão pálido deste dia de Outono. Imaginei-as numa praia puxadas por aqueles aviões que rebocam anúncios de cremes de sol ou de festas num sítio qualquer não muito longe, ondulando como ténias perdidas num intestino demasiado longo.

Não seria talvez má ideia protegê-las do sol como se protegem os corpos de radiações ou a vista de uma luz forte.

É preciso distância: afastar as palavras de tudo o que lhes possa perturbar a metamorfose semântica, desviá-las do caminho evolutivo. Numa palavra, resumindo: de tudo o que lhes possa dar um sentido ou tirá-las do silêncio que lhes serve de placenta.

29.5.16

Definição - Domingo

Domingo é tudo o que fica entre Alberto Gonçalves de manhã e Café Tati ao fim da tarde.

Como se fossem livres

Deixa cair palavras ao acaso como se não houvesse gravidade, como se não houvesse tempo. Sal, afecto, maçã, casa. Por exemplo. Deixa-as escorrer-te sobre a pele como mel de que não gostas por doce mas comes quando precisas de doce. Cabelos. Luz. Pele. Ouves a ambulância? É noite, adoeceu uma palavra. Vem buscar-te. Dorme. Deixa cair as palavras. O acaso tratará delas. É de noite que as palavras adoecem e doem. Pensa em sal. Pensa em sol, como um músico. Pensa em Sul.

Não penses. Deixa-as escorrer-te por dentro da pele. Não as libertes, não as deixes fugir, não as cures. Deixa-as respirar como se fossem livres. Como se soubessem dançar.

Pega numa carta do mundo, a que nas escolas chamavas mapa-múndi. Escolhe uma palavra que caiba nela, que a cubra, que lhe "fique bem". Uma só. Que palavra escolherias?

( Entre parênteses. Livre como um café escaldante a meio da noite. Um sorriso livre escaldante a meio da noite como um café. Como se fossem livres).

Deixa-as doer. Amanhã passam.

26.5.16

Diário de Bordos - De Cabo San Lucas a Lisboa, 26 a 28-05-2016, se um dos múltiplos aviões não cair

Há mais de quatro meses que não punha os pés num avião. Nem tudo foi mau.

Estou no autocarro para o aeroporto. Uma hora e vinte de viagem. Tenho um cantor evangélico ao lado. Espero que o homem se cale depressa. A merda em que estou é suficientemente chata, não precisa de intervenção divina. A qual de resto não resolveria nada, muito antes pelo contrário. Tenho mais fé em mim.

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Cidade de México

Não é preciso conhecer-me muito bem para saber que entre ficar no aeroporto e comer normalmente ou vir à cidade e contar os tostões escolho esta última (eu decididamente não me conheço bem: passei metade do voo a dizer-me que ia ficar no aeroporto). E seria preciso conhecer-me ainda menos para saber que está a chover. ¡Qué vaya! É pouco.

O qual aeroporto é feio, grande, escuro e mal sinalizado, tudo coisas que obviamente não podia adivinhar.

A cidade de México tem vinte e dois milhões de habitantes. Dela terei visto, quando me for embora, menos de um por cento: vim a pé das Bellas Artes a Zocatlan, um passeio de dez minutos que eu fiz em quinze por causa da p... da anca esquerda. Em Zocatlan havia a feira (ou coisa que o valha) das Culturas Amigas. Um enormíssimo pavilhão circular em cujo interior se atropelavam milhares de pessoas e se sucediam stands de cada um dos países do globo e mais alguns (havia um da República Palestina, por exemplo). Não dei a volta. Comi duas espetadas deliciosas na República Popular do Congo e (quase pelo mesmo preço) dois pastéis de bacalhau merdosos no stand português. Depois saí. Não é fácil passar de quatro meses de mar e marinas para uma megalópole que tem só por si mais do dobro da população portuguesa.

Ainda do que vi: uma cidade imponente, ruas arborizadas, faixas para transportes públicos, muitas bicicletas, ruas limpas... o resto não será todo assim, claro. Mas isto é o suficiente para confirmar a vontade que tenho de conhecer melhor o país.

Estou no food court manhoso de um "centro joyero". Vi alguns dez na Calle Madero, todos enormes. Somos o que fomos.

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Afinal a chuva não é assim tão pouca. Tive de me refugiar num bar, por sinal bastante bonito. Chama-se Talisman. Parece-me de bom augúrio.  Há males que vêm por bem.

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Saí do Talisman a pensar ir directamente para o aeroporto mas em vez disso dou um passeio pelas ruas. É o fim do dia, estão cheias de gente que regressa a casa. Ninguém anda apressadamente. As pessoas sorriem, têm uma expressão aberta.  Que contraste com Paris, Londres ou Lisboa, onde parece que anda tudo a correr como numa estação de metro ou de comboios.

(Pequena nota para a cultura geral: o bar abriu há uma semana).

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A cidade está a mais de dois mil metros de altitude. Não creio que seja por isso que os locais andam devagar. Eu sinto a altitude. Até sentado estou cansado. O raio da anca não ajuda, claro. Sou demasiado novo para artroses. (Isto dito também o era para a próstata e foi o que se viu). Parece que o corpo todo decidiu fazer finca-pé e obrigar-me a parar quer eu queira quer não. Este estúpido já devia ter percebido que não é preciso. Cafés e livros, idiota. Está escrito em letras garrafais à tua frente. Não vês?

Preciso de mudar de óculos,  eu sei.

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O saco Slam está a desfazer-se.

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Daqui a uma hora posso fazer o check in. Depois é tentar arranjar um canto para dormir quatro ou cinco horas. O aeroporto é uma porcaria mas pelo menos consegue ser melhor do que o de Miami. O que me inquieta é que são onze e meia da noite e está com tanto movimento como tinha quando cheguei às três da tarde. Espero que isto acalme, daqui para a frente. Seria como tentar dormir no meio do Rossio à hora de ponta.

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JFK

Grosso modo a viagem pode dividir-se em duas partes: atravessar o continente americano e atravessar o Atlântico. Aquela está feita. Dois voos relativamente curtos, um passeio breve mas agradável na Cidade de México e uma noite interminável no aeroporto dessa cidade.

Agora estou em JFK com os habituais problemas dos aeroportos americanos: Wifi pago, poucos sítios para nos sentarmos, preços disparatados (acabam de me pedir dez dólares por uma cerveja de pressão. Declinei), formalidades burocráticas chagas e longas.

Daqui a meia hora abre o check-in da Royal Air Maroc e começa finalmente a segunda parte da viagem. Uma vez despachado o saco entro para a área de trânsito, onde pelo menos terei cadeiras em barda [não foi bem verdade, mas paciência].

Por agora estou no cenário pré -embarque. Mulheres de burka, homens feios e barbudos, crianças sem fim. Não consigo habituar-me a esta cultura, por mais que faça. A verdade é que não faço muito. Acho detestável vestir as mulheres desta forma. Detestável e prejudicial. É provavelmente por tratarem as mulheres como as tratam que estão tão perto da barbárie.

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Vi três filmes: um remake americano do Segredo de sus Ojos, ao qual preferi o original; uma história  sublime sobre a relação entre as raízes e a vida chamada Brooklin e uma semi-xaropada italiana sobre uma criança incompreendida que acaba por passar uns dias em casa de Laura Morante. A história podia ser gira mas está mal contada e é longa, chata.

O que basicamente significa que não dormi um minuto sequer. O voo estava cheio a abarrotar, não havia um lugar vazio e dormir naquelas cadeiras é quase impossível.

A Royal Air Maroc tem vinho, um serviço simpático e eficiente, uma vasta oferta de filmes e passageiros que também batem palmas quando o avião aterra.

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Dormi chez Paul, no aeroporto de Casablanca. E durmo mais quando chegar. Esta viagem não vai acabar hoje. Vai acabar amanhã de manhã quando acordar, tomar um duche e começar a trabalha no que aí vem.

Infelizmente não posso ainda esquecer este transporte porque tenho dinheiro a receber.

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Lisboa é a capital mais próxima de Casablanca. Todas as categorias, oiço um senho dizer no avião.

Cheguei. Tudo tem um fim.

Diário de Bordos - Cabo San Lucas, Baja California Sur, México, 25-05-2016 / II

Última noite em Cabo. Deixo-me docemente pairar (para quem não sabe: há uma diferença entre pairar e derivar. Esta é involuntária, aquela não). Não comi tacos, a melhor coisa que quem não tem taco pode comer aqui e não bebi (só) cerveja. Mais uma vez é preciso relativizar: os montantes em causa são ridículos. Pouco me importa: atenho-me às porcentagens como um preso injustamente à esperança. Bebo shots de tequila no Kruda porque ser nómada, já por aqui o disse, não é não ter casa. É ter uma casa onde se está.

A sedentarização está à esquina. Chama-se Nómadas Anónimos, Café Slocum ou outra coisa qualquer. Querer fechar uma vida num nome é tão digno de lástima como de escárnio. As palavras não chegam nem aos calcanhares da vida, apesar de serem o seu suporte.

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Mesmo em Cabo consigo descortinar um pouco de México e ser aceite. Não se pode ser mau em tudo, por mais que se tente.

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Perguntava-me a Clarisse recentemente se não sinto a falta de uma casa. Não. Sim: sinto falta dos meus livros e  da minha música; isso é sinónimo de casa.

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Vantagem dos números sobre as palavras: não se pode insultar ninguém com eles.

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Abraham nasceu, diz-me, "num berço de oiro. Os [seus] avós tinham muitos terrenos". A terra é fonte de riqueza. O mar não. Prefiro o mar, apesar de tudo. Não há dinheiro que substitua a vida.

Conversa, desvario

Ao contrário do que se poderia pensar a minha vida afectiva é muito pouco variada. Tenho uma ex-mulher e uma ex-namorada. O resto foi conversa ou desvario.

Diário de Bordos - Cabo San Lucas, Baja California Sur, México, 25-05-2016

Lentamente o puzzle fecha-se. Aprendi com o meu pai a gostar de puzzles. Trazia-os de Inglaterra  (o rebocador do qual era Imediato ficava de alerta em Penzance Bay e os puzzles eram o seu passatempo, mai-la leitura). Para fazer um puzzle começa-se pelas bordas. Fecha-se o quadro. Depois avança-se a partir de um dos lados. Não se deve procurar colocar as peças mais difíceis imediatamente: deve-se deixá-las encaixarem-se "sozinhas", quando o lugar delas é evidente.

De certa forma um puzzle resolve-se a si próprio. Nós somos apenas a força mecânica que põe as peças no lugar.

O meu puzzle mexicano está quase resolvido. Sábado chego a Lisboa e a uma nova vida, simultaneamente. Por um feliz acaso é a Lisboa que chego: descobri finalmente que as raízes têm uma voz, que a sedentarização faz sentido se for num sítio determinado e não num sítio qualquer.

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Abraham, o filho do dono do 101 Kruda queria pagar-me para lhe dar aulas de francês. Ouviu-me falar com os jovens franceses. Disse-lhe que não posso. Vou-me embora amanhã.

Não é a primeira vez que alguém me diz que falo francês como um francês. Não se pode ser mau em tudo, por mais que se tente.

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Penso na viagem que me espera, na sorte que tenho em ter um sofá onde dormir quando chegar - quantas vezes não tive nem isso? - na felicidade que é ter uma ideia, um futuro.

Pergunto-me quando acabarão os meus futuros? De quantos dispõe um homem? Provavelmente de tantos quantos os seus passados.

Os futuros são inesgotáveis, como os passados e o mar.

A., amigo de longa data e lutas comuns diz-me que temos setenta e sete vidas enquanto os gatos têm sete.

Compro a ideia, mas não a quantidade. Temos um número infinito de vidas. Pelo menos se as medirmos em possibilidades de vida, que é o critério correcto.

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Começaram as negociações com a agência para saber quem deve quanto a quem. Não é este o meu mar.

24.5.16

Diário de Bordos - Cabo San Lucas, Baja California Sur, México, 24-05-2016 / II

Levantei-me eram duas e meia da tarde. Sinto-me como se tivesse estado dentro de uma secadora de roupa. Vim ao 101 Kruda beber uma Margarita. Mal não faz e talvez faça bem. Ao amor-próprio faz de certeza. Já não posso olhar para cerveja, que ainda por cima no México é uma merda. Não percebo o que vêem na Corona. Gosto da Índio mas não costumo bebê-la: não sei porquê meteu-se-me na cabeça que é mais cara. Quando a bebi foi oferecida, deve ser por isso. A Margarita do Kruda é boa, mas hoje não há Only You, só há americanos. Dois casais: uma gorda e uma obesa, com um corpo horrível, disforme. Os homens são mais magros, mas estou-me nas tintas. É o meu bar favorito aqui: pequeno e simples. Tratassem melhor da música e seria uma maravilha, apesar do barulho da rua.

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Quinta-feira vou-me embora. Chego Sábado, depois de um périplo por Cidade do México (quinze horas de escala), Nova Iorque (oito) e Casablanca (seis). Pelo menos a travessia do Atlântico é com a Royal Air Maroc. Antigamente era uma boa companhia, tinha um bom serviço. Não me lembro se servem álcool. Creio que sim. Que se lixe. Bebo cada vez menos nos aviões, de qualquer forma.

Não tarda vou deitar-me outra vez. Não que o corpo o mereça, não merece, mas estou farto de me sentir um farrapo. Ao menos na cama estou bem. O dormitório é grande, não está atafulhado de camas e agora está quase vazio. Por quinze euros é difícil ter melhor.

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Está calor, mas só sinto o da febre (que não tenho. É raro ter febre. Excepto quando tinha as crises de paludismo, longe vá o agoiro). A verdade é que odeio estar doente. Parece-me uma traição. Se ao menos tivesse alguém para tratar de mim... Assim um gajo sente-se miserável, entregue a forças que não controla e não tem o lado positivo da doença, que é poder abandonar-se, poder reclamar audivelmente.

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Em Lisboa vou descansar. Aqui não: há demasiado ruído. É como querer dormir no meio do ringue.

Post grato

Um marinheiro no mar precisa de muitas mulheres em terra, diz-me M., que se esfalfou para me encontrar um bilhete que coubesse dentro do meu orçamento. Foi muito trabalho, muito tempo, muito carinho.

Aqui fica o meu obrigado, quida. Quem tem amigos assim não pode ser má pessoa.

Diário de Bordos - Cabo San Lucas, Baja California Sur, México, 24-05-2016

Há sempre um bolo e uma cereja para se lhe pôr por cima. Desta vez o bolo foi grande, o corpo todo decidiu reclamar destes maus tratos. Ontem uma intoxicação alimentar deixou-me de rastos e hoje o tinitus, exasperante tinitus. E há dois dias o herpes labial, mais sensível ao stress do que ao sol. Da intoxicação estou melhor mas não bom: foi forte. Do tinitus nunca estarei bom; o herpes tratei como de costume: dose cavalar de Aciclovir e em dois dias está longe. Até à próxima, espero venha longe, muito longe.

Esta foi má. Assim de repente só me lembro da regata da ESA, de tão má. Com uma diferença: da regata foi eu que fiz a catástrofe. Nesta não. Porra! Enfim, o que não mata engorda e em breve as cicatrizes estarão fechadas e  tinitus de qualquer forma não resiste a uma boa dose quotidiana de chá de gengibre e o herpes vai levar um bom bocado até me apanhar noutra e a intoxicação alimentar... hoje ainda tenho que ir comer àquele restaurante, mas agora devo estar vacinado. E daí talvez não, talvez consiga ir comer ao outro, de qualquer forma a verdade é que os tacos são baratos mas não compensam, os outros têm muito mais que comer. A diferença é de cinquenta cêntimos, em valores absolutos. Cem por cento para quem gosta de relativizar. Prefiro relativizar porque me chateia andar a contar dinheiro aos cinquenta cêntimos. Enfim. Em breve estarei no avião. Já faltou mais.

Por agora como a porcaria do pequeno-almoço do hostel, só açúcar mas que se lixe. Não deve andar muito alto, estes dias. O corpo que vá reclamar ao serviço de clientes, se quiser. Aqui é o que há.

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Os jovens franceses foram-se embora. Foi um deles que me ajudou para pagar o hostel. Que sorte tive, no meio da merda. Não me refiro apenas ao dinheiro. Mais do que um prazer foi um privilégio conhecê-los.

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Tenho de me ir deitar outra vez. Raio do estômago. Enfim, não é só o estômago. Estou mal no corpo todo. Hiper-sensibilidade febril, náuseas... Como se não chegasse o que vomitei ontem e a porra da diarreia, dictatorial, todo-poderosa, impromptue. Uma vez tive uma semana de cama com uma intoxicação. Foi em Lisboa. Estava num hostel em Belém e fui comer a um chinês ali perto. Uma semana sem me poder mexer. Apesar de tudo esta é mais suavezita.

É só uma cereja no bolo.


Agonia, esperança

A agonia tem várias formas, todas elas mortais. É uma bomba nuclear que espalha desolação e vazio onde chega. Tudo parecia estar a correr bem. Mas "tudo" é muitas coisas, muitas pessoas, muitas fragilidades. E tudo desaba devagar, muito devagar, leva um dia a desfazer-se, pedra a pedra, fio a fio, esperança a esperança.

Amanhã será outro dia. Outra esperança.

Minhas, só minhas: a culpa e a esperança. E a esta não chega a agonia.

23.5.16

Diário de Bordos - Cabo San Lucas, Baja California Sur, México, 23-05-2016

Viver em dois fusos horários separados por sete horas de diferença já não é fácil. Hoje juntou-se-lhes outro, no meio, brasileiro. Falharam todos, claro. Estou na mesma, só que com menos dinheiro. Menos é uma maneira suave de dizer. Nada de brutalidades.

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Cabo está cheia de anúncios a pedir trabalhadores. Montra sim montra não precisa de empleados con inglés. A época vai começar. Há trinta anos ter-me-ia candidatado, mas hoje já não funciona. Idade, imigração, falta de paciência, outras coisas que fazer...

Em Atenas trabalhei num restaurante. É uma experiência interessante, trabalhar num restaurante num país do qual nem o alfabeto se conhece (mais tarde vim a conseguir pelo menos decifrá-lo, mas já não trabalhava ali).

Aqui pelo menos conheço a língua. Mas servir à mesa por servir à mesa prefiro fazê-lo em Portugal e para mim. É uma coisa de que gosto e faço bem.

Se é que há alguma coisa que faço bem, ideia da qual por vezes duvido seriamente.

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Enfim, olhemos para os lados positivos da situação: há uma luz no fundo do túnel e essa luz chama-se Lisboa. Não devo ter feito muitas coisas erradas nesta vida (nas anteriores fiz de certeza) para ter os amigos que tenho. Há muita gente por esse mundo fora que ajudei quando foi preciso.

E vou continuar. A minha vida nunca será o largo rio tranquilo com o qual sonho há tanto tempo, eu sei. Só queria que as quedas fossem menos brutais. Acho que vou conseguir: deve ser daquelas coisas que basta querer, não é?

Journal de Bords - Cabo San Lucas, Baja California Sur, Mexique, 23-05-2016

Ce post est écrit directement en français en hommage et remerciement à mes amis Clarisse, Alexis, Amaury et Louis (ça commence en ordre galant et continue en ordre alphabétique). Et Paul, naturellement, qui tout en étant pas là y était tout autant. Clarisse étant prof de Français je cours certains risques, mais ils sont plus que justifiés. Et puis, Clarisse, tu sais que tes suggestions sont plus que bienvenues...

Mon arrivée à Cabo fut difficile. (Difficile est un euphemisme). Je ne m'en serais jamais sorti tout seul. M. - qui, comme chacun sait, est l'initiale de Pénélope - m'a trouvé une chambre où passer la nuit et envoyé un peu d'argent. A l'exception de mes sacs, d'un paquet de cigarettes et d'une profonde sensation de délivrance je n'avais rien sur moi. J'ai passé une nuit de paix à Casa del Sol, dans un quartier tranquille de San Jose del Cabo, eloigné du centre et de tout ce que je venais de vivre. Le lendemain Alexis et ses amis sont arrivés.

Ils sont jeunes - vingt trois, vingt quatre ans - cultivés, éduqués, drôles, articulés, jeunes (ce n'est pas une distraction ni une redondance). Ils s'amusent et s'expriment également bien. Ceci peut paraître bête, mais je venais de passer deux mois avec des êtres dont le vocabulaire était limité. (Limité est un euphemisme généreux). Découvrir des personnes qui peuvent s'exprimer correctement, avec un lexique riche et des idées articulées fut pour moi un changement de planète.

J'avais besoin d'aide: de silence et de compagnie, d'argent, de normalité, d'humanité. Alexis et ses amis m'ont apporté tout ça en doses himalayennes, massives, sensibles, simples, joyeuses, jeunes. Rembourser l'argent sera facile - "les problèmes d'argent se règlent avec de l'argent", comme disent les Argentins. Rembourser le reste, à mes yeux beaucoup plus important, sera difficile. Et sera aussi un plaisir illimité.

Je ne suis pas un quinquado, néologisme horrible. J'aime mon age et ai finalement appris à vivre en paix avec moi-même. "C'est ce qu'il y a", comme me disait récemment un proche. Mais je sais reconnaître la valeur des personnes que je rencontre et sais, surtout, qu'elle n'a pas d'age.

22.5.16

Diário de Bordos - Cabo San Lucas, Baja California Sur, México, 21-05-2016

Em Quelimane havia um tipo que cantava num bar. Não me lembro do nome dele. Cada vez que oiço Only You lembro-me do homem. Tinha uns óculos redondos numa cara redonda, era mulato e puxava a canção a alturas inexcedíveis. Creio que se chamava Negrão, mas não tenho a certeza. Era mulato. Tenho pena de não me lembrar do nome do bar.

Agora oiço Only You num bar chamado 101 Kruda, em Cabo (San Lucas. Dizer o nome completo é um pleonasmo em certos meios).

Deve haver poucas semelhanças entre uma cidadezinha colonial portuguesa de final dos anos sessenta, princípios dos setenta e uma cidade turística mexicana do século XXI. As cores, talvez. O azul do céu, que a humidade faz mais claro do que deveria ser. A solidão de um então puto e hoje quase velho que gosta de uma canção e das memórias que ela lhe traz, de estar sozinho num café a olhar para a rua a pensar no que vai fazer a seguir, de ver as pessoas viver como se ele não fosse igualmente parte dessa vida.

O bar 101 Kruda fica perto do hostel onde durmo, "o mais barato da cidade". Vim aqui parar porque procurava um bar onde não fosse "invadido por americanos" e perguntei a um senhor que por acaso era também dono do dito bar. Descobri-o depois. Além do bar o senhor tem uma loja na qual me vende cigarros avulso.

A esta hora as ruas estão vazias. Os turistas devem estar em casa a lavar-se da praia e a preparar-se para a "noite".  O bar é barulhento por causa do tráfico contínuo, incessante.

Não há muito que ver, no fundo. O Only You acabou há muito tempo - escrever no telefone tem esta vantagem: meia dúzia de patacoadas levam um tempo desproporcional a escrever e abrandam o ritmo de consumo da cerveja -.

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As probabilidades de encontrar um embarque são poucas. A marina não permite dockwalk e os anúncios que deixei na recepção têm sido pouco solicitados, disse-me hoje a recepcionista. Passo lá duas vezes por dia: é importante que ela me veja e se lembre de mim. Imagino-me no avião, a desembarcar na Portela (agora Humberto Delgado. A palermice não tem limites), apanhar o metro e entrar noutra vida.

Foi assim que cheguei a Londres, em Janeiro de 2000, ao Brasil em 2010 e a tantos outros sítios antes. Uma das vantagens de mudar de vida é que elas começam sempre bem. A desvantagem é acabarem mal. Paciência. "É o que há", como me dizia hoje V., cujas vidas começam e acabam bem.

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Glenn Gould vivia fechado em casa, cortinas fechadas. E havia aqueles dois irmãos que fizeram um labirinto de jornais em casa, um morreu e o outro também, era surdo e cego, o livro é uma beleza. Chama-se Homer and Langley. A história é trágica e linda ao mesmo tempo. Dois irmãos fechados numa casa com um automóvel e um labirinto de jornais e no fim do labirinto está a morte.

Por vezes penso nisso: fechar-me num ovo até morrer; cortinas fechadas, jornais livros e música, escuridão. Não funciona: a minha é uma solidão de exteriores. Sempre foi. Desde que em Quelimane ouvia um jovem cantar Only You como se tivesse sido ele a compor a música.

Talvez seja por isso que gosto tanto de estar no mar: uma casa do tamanho do mundo, cortinas abertas, ora clara ora escura, "uma linguagem antiga que não sei decifrar", dizia Borges (cito em segunda mão).

Agora vou deixar o mar. Mishima escreveu um livro fabuloso chamado "O marinheiro que perdeu as graças do mar". Era um dos meus favoritos dele, mas não o releio há muito tempo. (Tenho tantas coisas para reler...) A personagem de Mishima teve uma morte horrível.

Não se muda de vida para morrer. Muda-se para viver outra vez. Para ressuscitar.

20.5.16

Diário de Bordos - Cabo San Lucas, Baja California Sur, México, 20-05-2016

O intervalo acabou. Regresso ao ringue. Passei a manhã a fazer anúncios, deixá-los na marina, percorrer as diferentes agências da Western Union em Cabo (exagero. Foram só duas. A média no México tem sido quatro). Depois sentei-me a beber uma cerveja num bar chamado Original Hooliganz Corner Bar. Os americanos não conseguem dar um nome a uma coisa qualquer que não inclua um adjectivo e um erro de ortografía.

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Cabo é quase como eu a imaginava, só que ainda mais desinteressante. Cafés, bares, restaurantes, lojas de roupa, lojas de souvenirs e productos para turistas, farmácias uns a seguir aos outros, todos iguais na decoração excessiva, na música demasiado alta, no serviço agressivo, insistente. A clientela é americana: obesa, mal vestida, feia (uma excepção gritante acaba de se sentar na mesa ao lado). A qual excepção integra um grupo de quatro senhoras que bebe shots de Tequila e tira fotografías. Numa mão o copo na outra a máquina ou o telefone.

As senhoras acabam as fotografias e os shots e vão-se embora. O Hooliganz fica vazio, mas apesar disso continua barulhento: à minha esquerda a aspiração da cozinha e por todo o lado a música, que talvez por a dona ser canadiana não está aos gritos.

Eu estou, mas não se ouvem.

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Já viajei assim. Fui backpacker avant la lettre. Ia para Itália gastar o dinheiro que tinha ganho a tirar neve dos telhados em La Chaux-de-Fonds, joguei à moedinha em Zadar e dormi no cockpit de um barco qualquer da marina, tive uma crise de febre e alucinações num albergue de juventude (como eran então designados os hostels) em La Spezia, passei quase dois meses em Atenas à espera que uma ferida cicatrizasse para poder viajar, quatro em Dunkerque a trabalhar na manutenção de uma frota de regatas e a ser feliz, dormi nas estações de comboios de Bern e Zürich e mais não sei quantas, amei uma rapariga improvável numa cidade improvável chamada Soleure, na Suíça, comi uma das melhores refeições da minha vida em Ancona, apanhei boleias de camionistas, de loucos e de pessoas perfeitamente normais, andei pelas ilhas da Croácia com uma mulher linda que tocava guitarra e tinha um facalhão no saco. Andava com uma mochila verde da qual gostava e que usei tanto como o actual saco Slam, do qual já mal se distingue a cor e me acompanha para onde quer que vá.

Talvez agora isto me chateie apenas por ter a impressão de que estou a comer comida fora de prazo. Verdade seja dita nunca liguei muito aos prazos de validade. Não passam de um mecanismo para fazer as pessoas deitar fora comida perfeitamente comestível. (Não estou com isto a dizer que me acho comestível, claro. Apenas que não se deve ligar muito aos prazos de validade).

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De maneira é assim. Viajo no tempo, tento lembrar-me das viagens todas que fiz ou sem dinheiro ou a poupá-lo até ficar mais fino do que uma daquelas folhas de plástico com as quais cobrimos a comida no frigorífico, tento impregnar-me o mais possível do que me rodeia porque no fundo é uma das coisas boas de estarmos onde estamos e não noutro sítio qualquer.

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Começo a adquirir uma aversão profunda aos bonés de baseball. Será que nascem com aquilo aparafusado à cabeça?

Enfim, essa não é a questão. A questão é: como vou sair daqui?

19.5.16

Diário de Bordos - San José del Cabo, Baja California Sur, México, 18-05-2016 / II

A casa que M. encontrou é óptima: pequena, asseadíssima, bonita, perto do autocarro. O wifi funciona maravilhosamente. A cama é enorme, parece um campo de futebol e faz sonhar com outros desportos. Mal cheguei esvaziei - literal, não metaforicamente - os sacos, para os rearrumar e contabilizar os esquecimentos. Nenhum. Nem um. Zero. Ficou nada para trás. O S. B. vai sair da minha vida muito mais depressa do que entrou.

Trouxe os sabonetes Grão da Terra - por falar nisso descobri-lhes finalmente um defeito: nas baixas latitudes não secam. É um bom ómen: a minha terra fica nas latitudes intermédias,  no extremo ocidental de um continente que é dos que conheço o melhor. Nela os bons sabonetes secam e duram mais tempo -. Vieram as luvas e os gorros, as cartas com as quais um dia decorarei  um bar cujo nome poderia ser, sei lá, Nómadas Anónimos, Café Pousio, Bar do Mar, Café Slocum, Café Bequia, Ultramarina e por aí adiante, sem parar. Veio tudo, inclusivamente duas ou três peças de roupa que iam ser promovidas a trapos e afinal acabam no lixo.

A única sombra no quadro é ter recomeçado a fumar. Fumo de pouca dura. Passo bem sem cigarros mas não lhes resisto se estiverem perto.

E sobretudo tomei um duche. Um longo, interminável duche que me fez pensar na cena final do Coming Home, o Jon Voight (pai daquela horrível mulher) a tomar banho na cadeira de rodas no Pacífico. Salvas as devidas proporções,  claro. Apesar de tudo não estou a regressar do Vietname. Estou inteiro, a Jane Fonda não se apaixonou por mim e - sim - a vida continua.

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O México é um país adorável. Um dia hei-de percorrê-lo de norte a sul, de fio a pavio, de cima a baixo do vulcão.

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Está calor. Doce calor. A senhora que toma conta da casa, à boa maneira do país vizinho, ligou o ar condicionado e depois vinha carregada de mantas "para se tiver frio". Disse-lhe que não precisava, obrigado.

Quando estiver todo transpirado tomo outro duche. Aqui não preciso de me preocupar com os tanques de água nem com as baterias. Levanto-me, é tudo. Enfim, não é: será que o sabonete está seco?

Problema maiúsculo.

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Por hoje é tudo. Não preciso sequer de ler o Shandy para adormecer. Vou lê-lo por prazer.

Diário de Bordos - San José del Cabo, Baja California Sur, México, 18-05-2016

No curto prazo o mal ganha; no longo perde. Hoje fui corrido como se fosse um cão tinhoso. O manipulador profissional ganhou.

Tenho cinco pesos mexicanos e cinquenta cêntimos no bolso: é pouco, mesmo para os meus frugais padrões. Cerca de trinta cêntimos de euro. Daqui a umas semanas saberei quem deve quanto a quem. É possível mas pouco provável que ainda tenha alguma coisa a receber. ¡Qué vaya! O dinheiro nunca  me fez correr nem chorar nem rir. Não é agora que vai começar.

Felizmente a minha Penélope amada estava acordada e reservou-me uma casa onde dormir. Amanhã tratarei do resto. Hoje, apesar de tudo, sinto-me feliz e livre. Leve, sem ironia nem segundo sentido. Contratualmente C. pode fazer isto. Não discuti muito tempo: tenho-o na conta de homem decente. Porém a decência não protege do erro; minimiza-lhe as consequências,  quando muito. Neste caso não. Dar ouvidos àquele ser abjecto é um erro grave.

Mais para ele do que para mim. Vou dormir, ler, escrever e pensar. É um bom programa. Amanhã A., ex-tripulante de outras aventuras (também desgraçada, para ele) vem ver-me. Vive no México e por coincidência está no Cabo. Estou em San José, mesmo ao lado.

Cansado, claro. Livre. O pesadelo acabou. Volto à terra, à convivência com pessoas normais, à vida.

É bom.

Um dia a minha vida será aquele largo rio tranquilo ao qual há tantos anos aspiro. Será igualmente bom: viva a vida.

18.5.16

Diário de Bordos - Marina Puerto Los Cabos, Baja California Sur, México, 17-05-2016

Ignoro se isto é um pesadelo, se uma farsa. A tragédia não chegou, apesar de ter andado perto. Talvez num dia longínquo venha a ser uma comédia; por enquanto está demasiado próximo.

Uma coisa sei de saber certo: bateu o recorde que foi a travessia do Atlântico com um armador que sofria de perturbações mentais, coisa que sempre considerei impossível.

Começou com dois palermas; acabou com um psicopata que tive de desembarcar manu militari em Acapulco e um alcóolico perverso, manipulador e imaturo. Para compor o ramalhete não tem literalmente um chavo. Hoje deixou o relógio na recepção do hotel por cem dólares e bebeu cento e treze.

Se é isto os transportes para mim chega.

10.5.16

Diário de Bordos - Acapulco, Guerrero, México, 10-05-2016

A Besta perdeu. A última coisa que me deixou escrita, no recibo do dinheiro do táxi para o aeroporto confirma-o.

Agora fico com a bestinha, mas essa sozinha não vai longe. Aquilo não é embarcação de navegar contra o vento.

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Leio Keats, penso em T. e na peça que fomos ver em Londres ao Globe, daí voo para o odiado Colégio Paulo VI e para o padre Tiago, meu professor de português nos terceiro e quarto ano do liceu.

Nunca tive uma grande capacidade de introspecção. Ou melhor: de me ler, de me ouvir. Português era a minha disciplina favorita, apesar do ódio profundo, juvenil, intenso que tinha ao Colégio em geral e ao Padre Tiago em particular. Nos exames do quinto ano chumbei a ciências e dispensei da oral a letras. Apesar disso no sexto ano escolhi matemática em vez de português, porque queria ir para a Escola Náutica. Foi preciso T. deixar-me para eu perceber quanto a amava. Os exemplos são milhares.

Talvez por isso este coitado deste blog tenha sobrevivido tanto tempo. Não me oiço mas escrevo-me, não me percebo mas dou-me a perceber.