19.6.18

Quando?

Quando é que os pais de Bill Gates souberam que tinham um Bill Gates em casa? Quando soubeste que tinhas um amor em ti?

18.6.18

Assim como vai

A minha vida afectiva acaba de dar uma forte guinada a bombordo. Tão forte que vai ser impossível desfazê-la.

Como se de repente a única voz para o homem do leme fosse "Assim como vai".

Steady as she goes. Droit devant.

Deus e Mar, o mar e Deus

"Es muy raro, ciertamente, que pueda haber capacidad de asombro en una actividad que repetimos a diario o, incluso, varias veces al día". (Pablo d'Ors, in Biografía del Silencio)

O senhor que escreveu isto visivelmente nunca trabalhou no mar. É padre e isso deixa-me perplexo (apesar de confirmar o que penso ou por causa disso): nem aos religiosos é dada esta "capacidade de assombração" quotidiana de que até o mais humilde e simples dos marinheiros goza todos os dias, todo o dia?

16.6.18

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 16-06-2018

Fui ao Forn Fondo comprar chocolates. Uma trufa e dois bombons, mais pequenos. A ideia era sentar-me e beber um café acompanhado pelos chocolates. Andei cinquenta metros e tive de voltar atrás para comprar mais: duas trufas e um bombom.

O Zomarist que se desenrasque; o problema é dele, não meu.

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Com os livros foi diferente. Pergunto-me se se pode resistir a um título como "Biografia do Silêncio". Não se pode nem muito menos deve. Ao lado estava um Steiner e acho que é tempo de ler o homem.

Uma pequena livraria desta cidade é pior do que uma grande em Lisboa. Pelo menos para um teso.

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O livro é um ensaio sobre a meditação, escrito por um padre. O homem escreve magnificamente e é convincente: tenho vontade de me sentar a meditar. Espero que passe depressa.

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D. e B. estão em Palma. Foi aqui que os conheci, há cinco ou seis anos. Ela é bastante mais velha do que ele e isso agora vê-se flagrantemente. Mas enfim, continuam juntos e parecem felizes, o que é mais do que eu posso dizer.

De certa forma invejo-o, mas é um tema sobre o qual não quero perorar demasiado. Está cá, é tudo.

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Como é aquele aforismo "Deus te guarde de obteres o que pedes"?

(Aqui entre nós: bem podia dar-me mais e compensar-me menos por tudo o que me sonega).

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Portugal esta tão longe e tão perto... Cada vez mais cada um dos dois: aproxima-se e afasta-se em igual medida. Parece uma ilusão óptica em duas metades. Só não sei qual delas é ilusão e qual a verdadeira.

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Hoje passei à frente do quarto onde há uns anos fiquei uma semana com uma mulher horrível.

A bem dizer não sei o que era pior: se ela se o meu engano a respeito dela. Se tivesse de escolher só um escolheria este último: não merece sequer o título de engano. Foi um engano medíocre, merdoso.

Bastar-me-ia ter a certeza de que não foi medíocre ao ponto de eu não ter aprendido nada para ficar mais aliviado.

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Penso muitas vezes na minha generosidade: há um sistema de vasos comunicantes entre a generosidade e a estupidez e em mim o circuito deve ter ficado bloqueado num dos lados.

Infelizmente o errado, claro.

13.6.18

Pergunta

"Sexo oral" é conversar a noite toda agarrado a ti, não é?

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 13-06-2018

Não sei por onde começar. A série é: por que é que todos gostam de Palma?

- As almôndegas do café Junior. Palma deve ter cerca de oitenta mil cafés, bares, restaurantes, supermercados, quiosques, coisas, lugares a fazer almôndegas. As do café Junior são de longe as melhores que até hoje provei (cerca de vinte, talvez).

Bicicleta: ontem entrei numa loja e como de costume deixei a burra à porta. Como era para uma coisa rápida não a fechei. A senhora pediu-me (pedir é o verbo apropriado) para a pôr dentro da loja. Tinha medo que ma roubassem.

Hoje vou a outra loja. Mesmo cenário, mas a coisa começa a demorar e peço ao jovem empregado se posso pô-la dentro. "Claro", responde, no tom de voz de um farmacêutico a quem tivesse perguntado "têm aspirina?"

12.6.18

Bênção, dúvida

O passado não me faz muita falta. Nunca fez: prefiro o futuro, sempre preferi.

Com uma possível excepção: a ausência de dúvida era uma bênção. 

11.6.18

Por que esperas

Avinha-te, abespinha-te, arruma-te que sem vinho e sem rum só ficam as espinhas. Pensa depressa na noite que sem vagar para divagações devagar te deixa ao sopro desta ligeira brisa e te guia pelos becos a caminho do mar. Decide-te: a vida talvez espere, mas a noite essa não, de certeza.

Vida de noites, que de dias estamos satisfeitos: temos tudo o que é preciso. Um sonho, dois desejos, três visões, quatro objectivos. Um dos quais é quatro quartos: para ti, para mim, para os dias e para as noites. Convém que os objectivos não se misturem entre eles.

Já nós podemos, se formos devagar. Misturamo-nos lentamente: nós, a noite e o tempo, que inclui dias e menos dias. Passar-te por exemplo a mão pelo cabelo levaria décadas, se a noite fosse igualmente lenta. Poderíamos também pedir à vida que faça um desconto, mas não somos de pedir e menos ainda descontos. Quando muito desmais, demais, a mais, muito.

Amai-vos, diz a noite impaciente. Há-as assim: impetuosas e breves. Prefiro-as impetuosas e longas como quando em cima de mim cavalgavas um sonho e o sonho não acabava.

Longa noite foi a nossa: ainda dura. Não se pode apagar a luz que nunca se acendeu, não é? A nossa já estava acesa e acesa continua: por que esperas?

Nina Simone et al.

A única razão válida para um gajo se manter vivo é descobrir aos sessenta anos o que devia ter descoberto aos vinte: há uma vida lá para trás que deve ser vivida.

10.6.18

Diário de Bordos - Peguera, Mallorca, Baleares, Espanha, 10-06-2018

Antes de mais nada: a iniciativa "Monnaie pleine" não passou. A Suíça tem o melhor sistema político do mundo.

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Convidei o I. para jantar. Bebemos uma garrafa de rum (Cacique, estranhamente quase bom) e contámos histórias (é marinheiro, como eu).

Não conheço as histórias das outras profissões, mas as de marinheiros têm duas coisas boas: o âmbito geográfico (falamos dos lugares que conhecemos como se falássemos da nossa cidade natal - "lembras-te da loja de electrónica que havia por baixo do bar do Leo?") e a demonstração de que há uma humanidade. Isto é, as histórias que ele me conta com um tripulante de Carriacou vivi-as com alemães (por exemplo e oposição).

A humanidade é só uma, os racistas não percebem nada e há racistas em todos os lados da barricada. Um preto idiota é idiota antes de ser preto, tal como um gordo inteligente é inteligente antes de ser gordo.

Não percebo nada das outras profissões (enfim, percebo pouco) mas uma coisa é segura: nenhuma chega aos calcanhares da de marinheiro. Isto não é uma profissão, é uma mundividência. Somos filósofos agarrados a cabos e cascos, a rumos e ventos. Um marinheiro analfabeto sabe tanto da vida e do mundo como qualquer professor universitário (dos vulgares, quero dizer. Dos outros talvez não). Somos uma espécie de antropólogos cum psicólogos cum sociólogos cum realizadores de cinema sem câmara: as histórias caem-nos já feitas aos pés, porque é a humanidade que as faz.

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É claro que não é a beber meia garrafa de rum numa noite que vou emagrecer, mas se tivesse de optar escolheria o rum.

Isto é: escolho. Quando morrer emagreço num instante, se as bactérias gostarem de mim.

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Dia de Portugal. Já lá estive. É porreiro.

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Revejo Rio Cuanza. "Falta-te alma", diz-me L. Como escrever sobre o nosso passado com "alma"? Que se foda a alma: não fui eu que vivi aquilo, foi outro e não me posso pôr na alma de outrém.

Talvez pudesse, mas seria mentira.

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Se o mundo fosse feito só de marinheiros seria um lugar melhor: só nós conhecemos a fórmula mágica, mescla de mudar e adaptarmo-nos. Há uma mistura subtil, milimétrica como o Painkiller do Soggy Dollar Bar: muda-se o que se pode e adaptamo-nos ao resto.

Não sei como formular isto: não é uma questão de mudar para que tudo fique na mesma. É deixar tudo na mesma para que mude o que for preciso.

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I. ia ao Mad Mongoose em Antigua. Sair com uma miúda que já foi namorada de alguém conhecido é chato, afasta-nos. Partilhar um bar é o contrário.

O Mad Mongoose que conheci já não existe.

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Não quero reviver a minha vida. Vivê-la chega-me.

Evoluções

Vou lá fora fumar um cigarro e vejo estas hordas de turistas gordos,velhos (a maioria com a minha idade ou lá perto, apresso-me a esclarecer), de calças verdes e ténis cor-de-rosa ou ao contrário, tatuagens e piercings nos ligeiramente mais novos e penso nos efeitos devastadores do tempo.

Depois lembro-me de mim mais novo e de devastadores os efeitos passam a benéficos.

Paciência, Portugal

Hoje é dia de Portugal. Entre mim e o patriotismo está a intransponível barreira da falta de paciência.

9.6.18

Frango existencialista (ex-metafísico)

A ver no que isto desagua:

  • Frango do campo (um peito);
  • Cerveja (meio litro);
  • Vermute (um copo);
  • Gengibre (algum);
  • Coentros (meio ramo);
  • Cebola (metade pequena);
  • Alho (dois);
  • Sal e pimenta;
  • Cominhos;
  • Paprika;
  • Tomilho;
  • Sábado chato (uma ou duas horas, provavelmente);
Vai marinar a dita quantidade de horas; depois há-de ir a fritar; irá à fogueira de um bom rum - não sei qual porque ainda não o tenho -; e finalmente vai guisar até ser hora de jantar. Provavelmente juntar-lhe-ei um pouco de chouriço que tenho aqui, mas não sei. Ele que se defina.

(Está a marinar há mais tempo do que o previsto).

7.6.18

As vagas e o sono

O meu sono desliza pela noite como um surfista pelas ondas gigantes da Nazaré.

O fim das coisas

Ainda um gajo mal acabou de lamentar o fim do Technorati e agora é o Networked Blogs que se vai.

Palma la Douce

Na série Porque é que todos gostam de Palma?, desta vez sem fotografias: um gajo ouve uma buzinadela estúpida e apercebe-se de que é a segunda em dois meses.

O mesmo gajo é atacado por fome súbita, vê uma tasca que anuncia "Pintxos y tapas", pensa que um pintxo e um copo de vinho estão mesmo a calhar, senta-se e já vai no terceiro de cada.

Porque o vinho é magnífico (Epica, Ribera del Duero) os pintxos excelentes, a música melhor e o patrão lhe pergunta "português?" "Sim". "Então somos irmãos. Sou galego".

Irma la Douce? Nao. Palma la Douce.

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Fazem-se previsões meteorológicas para corações assarapantados, olhos desfocados, mãos ansiosas, peles solitárias, amores caseiros e ausentes. Fique a saber onde estão as altas e baixas pressões, as cristas e os vales, frentes frias e quentes.

Um pântano de altas pressões pode mudar a sua vida. Informe-se atempadamente, saiba antes da aurora onde o encontrar ou, pelo contrário, como contorná-lo. Desassarapante o seu coração a tempo. Não se deixe apanhar de surpresa por uma crista de altas peles. Encontre rapidamente aquela frente quente e esqueça as costas frias.

Antecipe mãos ciclónicas, superfícies ventrais, sistemas capilares tórridos, amores dispersos, aguaceiros de curta duração, nebulosidade densa, chuvas de beijos, trovoadas desejosas.

Saiba isso tudo e muito mais em MeteoSente, a Meteorologia dos seus sentimentos, sonhos e devaneios. 

6.6.18

Paráfrase

Errei demais para poder continuar a errar.