17.9.14

Diário de Bordos - S. Luís, Maranhão, Brasil, 16-09-2014

Fabio tem o restaurante composto, como se diz no jargão do métier. Apesar disso sai comigo à rua procurar um táxi. Os telefones não respondem - fico a saber depois que a rede fixa está em baixo -; "Não quero que andes sozinho por essas ruas", explica num português quase perfeito (é italiano). Não há táxis em nenhuma das estações por onde passamos.

Numa farmácia consigo pedir um carregador para o meu telefone esperto e por conseguinte descarregado. Miguel não pode vir, mas vai mandar um colega. Tento dar quatro reais à miúda da farmácia que me emprestou o carregador. Recusa-os. "O que é isso? Imagina..."

Voltamos para o restaurante, Fabio oferece-me mais um Limoncino (é ele que o faz) e um café.

Recentemente pedi a um miúdo, amigo do filho da senhora que faz a limpeza na pousada - e dela (pousada) frequentador assíduo - que me fosse comprar cigarros. Deu-me o troco: "foram dez reais". Dei-lhe dois de gorjeta, que aceitou com um obrigado respeitoso, educado.

Hoje fui eu comprar os cigarros. Custam oito reais.

O colega de Miguel não aparece. Volto à estação de táxis. Está lá um. É ele quem me diz que só os celulares funcionam. Traz-me à pousada. Para poupar tempo digo-lhe que fico duas esquinas antes da pousada - é preciso dar uma volta grande e nestas ruas andar de carro é mais desconfortável do que andar.

Mete-se em contra-mão e na esquina seguinte diz  "Espero até o senhor entrar em casa. Estas ruas não são seguras".

No caminho falara-me de política e de futebol, dois temas para os quais não tenho troco.

Tenho com S. Luís a relação que tenho com algumas senhoras: amo-lhe uma metade e detesto-lhe a outra mais do que qualquer delas merece.

........
Li a nada kafkiana Carta ao Pai aos quinze ou dezasseis anos, como toda a gente. É bastante útil: ajuda os adolescentes a perceber que todos os pais são uns monstros castrantes e conforta-lhes a ideia de que progenitores horrorosos garantem uma carreira literária ao virar da puberdade.

Depois esqueci-a, claro.

Ontem fui ver uma peça (Pai e Filho, ou Filho e Pai, já não me lembro) baseada nela.

A peça era gratuita, como todas as que vi em S. Luís com uma excepção. Financiada por vários organismos, parte integrante de um interminável rol de "projectos", ou de um só com muitos tentáculos. A primeira pergunta que me fiz - mas não pela primeira vez - é se há cultura no Brasil que não seja financiada pelo Estado (há, eu sei. Celso está a organizar uma Feira do Livro e o Estado não paga; ou pelo menos não paga tudo).

A segunda é "de onde vem esta qualidade de representação?" A qualidade do jogo é espantosa.

Infelizmente neste caso - uma première, é verdade - desajustado, fora de tom. Perfeitamente adequado a uma peça de Beckett, mas nada a ver com a Carta. A qual tive o cuidado de reler (só por isso agradeço à Pequena Companhia de Teatro. Ler sem reler é como um par de óculos ao qual caiu uma lente).

Mas foi um bom momento, apesar disso. Gosto de teatro, mesmo desafinado. E lembrou-me de que tenho de lá ir mais vezes.

Restaurantes: critérios

Distingue-se um bom restaurante de um mau porque neste come-se e naquele respira-se.

Que tirar de um olhar?

Um bom texto é aquele do qual nem uma vírgula se pode tirar.

E de um bom olhar? Tudo menos o passado.

Riso, siso

Se de ti o riso e de mim o siso alguém trocar quem veria? Ninguém: o teu riso é único e o meu siso... coitado.

Porto, inquietação

As águas calmas do porto são mais inquietantes do que o mar revolto da tempestade.

16.9.14

Pergunta

Que há em ti que em ti me vejo e em mim te vejo?

Parar, passado

Quero parar: tenho de começar a pensar no meu passado.

15.9.14

Fragmento

Gosto muito de ti e pouco de mim. Mas quando (ou se, sejamos optimistas) tiver que escolher escolho-me a mim.

Reedição - Carta (incompleta e confusa) ao meu filho

Meu querido filho,

Algumas pessoas gostam de dizer aos outros aquilo a que elas chamam pomposamente “as verdades”. Geralmente, aqueles a quem elas são destinadas não gostam de as ouvir. A razão é que, a maioria das vezes, “as verdades” a que os primeiros se referem não o são: são opiniões. É da diferença entre “verdades” e “opiniões” que te quero falar hoje. Dir-me-ás que és demasiado novo para isso. Talvez, mas não precisas de perceber tudo já: basta ir pensando nisto ao longo do tempo, e um tempo chegará em que eu estarei todos os dias (ou muitos dias) ao teu lado para te ajudar.

Há muitas diferenças entre uma verdade e uma opinião. Apesar disso, é por vezes difícil perceber onde acaba uma e começa a outra. Há alguns métodos mas nenhum deles é simples, ou eficaz, ou absoluto:

  • Frequentemente, as verdades dispensam adjectivos (“isto é uma mesa”); as opiniões exigem-nos (“esta mesa é bonita”);
  • As verdades unem, as opiniões dividem (ninguém discorda da gravidade);
  • Muitos estão prontos a morrer por uma opinião, mas poucos dariam a vida por uma verdade;
  • As verdades demonstram-se, as opiniões defendem-se;
  • As verdades partilham-se, as opiniões confrontam-se.

Há pessoas como a tua mãe cujo trabalho consiste em destrinçar as verdades das opiniões. Elas elaboram aquilo a que chamam uma hipótese (outro nome para “opinião”) e depois tentam verificar se essa “hipótese” é verdade ou não. Isto só é possível em algumas áreas do conhecimento, da vida. Outras pessoas partem das verdades (“as maçãs caiem”) e elaboram depois opiniões que talvez se venham a revelar, por sua vez, verdades: a "a maçã cai por causa da gravidade", por exemplo.

O que há de comum nestas duas démarches é que estas verdades são transitórias, e as pessoas que as descobrem sabem-no: um dia alguém, baseado numa verdade descobre outra verdade. Isto não acontece com as opiniões: é por isso que nós podemos ler as opiniões de um filósofo grego, mas as suas “verdades” só interessam aos historiadores da ciência. Isto significa que as verdades são dinâmicas e as opiniões são estáticas.

Porque é que é importante saber diferenciar uma verdade de uma opinião? Afinal de contas há milhares de pessoas que confundem as duas e não são menos felizes por isso. É preciso, primeiro porque sofremos - e fazemos sofrer - mais quando ouvimos -ou emitimos- opiniões do que quando descobrimos ou partilhamos verdades. Além disso, como tão bem o diz Cioran, é díficil viver com as verdades - mas é melhor pela simples razão que sem as verdades não se vive, morre-se: “Les "vérités", nous ne voulons plus en supporter le poids, ni en être dupes ou complices. Je rêve d'un monde où l'on mourrait pour une virgule.”

Podes construir as tuas verdades (a verdade é uma palavra esquisita que não tem singular...) como se fosse um Lego do qual as peças são as opiniões: algumas encaixam nelas, outras não - e com as mesmas peças constróiem-se verdades diferentes. Não obrigues nunca aqueles que te rodeiam a utilizar as tuas peças para construir as verdades deles - e não aceites as opiniões deles para construir as tuas verdades. Aceita-as, isso sim, para as comparares com as tuas. E sobretudo lembra-te de que se as tuas verdades são melhores - é por isso que as tornaste tuas - não são mais "verdadeiras": as dos outros têm tanto direito de existir como as tuas. Porque para eles elas são melhores do que as tuas.

Daqui poderíamos passar para as opiniões: fica para outro dia.

... Não ficou. Descubro a carta agora, oito anos depois de a ter escrito e não ter enviado.


Adenda: - Ligeira e insuficientemente editada

O Mar, o Mar

Falo muitas vezes no The Sea, The Sea de Iris Murdoch que estou a ler, mas não fui para além de dizer que é bom, ou que é uma maravilha, ou coisa que o valha.

É bom, é uma maravilha e não tenho transcrito aqui excertos por pura preguiça. Tal como não conto a história, é boa de mais para ser conhecida antecipadamente.

Mas desta fracção de diálogo não consegui escapar:

"The trouble with you, Charles, is that basically you despise women, whereas I, in spite of some appearances to the contrary, do not."
"I don't despise women. I was in love with all of Shakespeare's heroines before I was twelve."


Na página anterior, no mesmo diálogo:

"That leads to mutual terrorism. And oh, when we still used to sleep together, lying awake at night and finding one's only consolation in imagining in detail how one would go downstairs and find a hatchet and smash one's partner's head in and mash it into a bloody pudding on the pillow! Ah, Charles, Charles, you know nothing of these marital joys. Have some more whisky."

E poderia continuar assim, mas vou na página cento e sessenta e dois e teria de fazer pelo menos trezentas citações...

Se um dia tiver de fazer traduções só as farei de bons livros.

Vida, prisões

Vida não tem singular. Uma vida que não seja vidas não é vida. É uma prisão.

14.9.14

Do desejo o sobressalto

Um corpo deitado na cama, de barriga para baixo, nu; nesse corpo escrevo. Mas não sei o que uso como caneta: se os dedos, se o membro erecto e duro que a vista dessse corpo provocou, os lábios com que o beijo, milímetro a milímetro, os lábios com os quais murmuro as palavras que invocou?

Tento reconhecer o corpo. Não sei quem é. Está de barriga para baixo, não lhe vejo o rosto. Há as nádegas, claro; a curvatura da espinha antes delas, a cor dos cabelos, as pernas. Procuro-lhe o cheiro e reconheço-o: cheira a desejo.

Vejo os cabelos, oiço as breves e sincopadas exclamações com que se exprime. Sinto-lhe os sobressaltos. São iguais aos meus.

Um corpo que não conheço e a hesitação abandonou abandona-se numa cama na qual me reconheço.

Quase reedição

Por razões que agora não vêm ao caso ando a vasculhar o coitado do DV, e outras coisas.

Às vezes encontro coisas nessas coisas. Hoje encontrei isto:

"Em vão te esperei durante anos. Bastou abrir a porta que sempre me seguiu para onde quer que fosse e vi-te, ora ciclone, ora luminosa brisa. Nasceste vento: por ti lhe abri as portas e me fiz ao mundo. Deste-me a vida, e fechaste a porta. Quem não abre a porta do vento morre na calma podre da tua ausência."

Há dia em que escrevo como se não fosse eu a escrever.

Barragem

Il faut un barrage contre les mots, une digue, pedias antigamente, lembras-te? Il faut les retenir, les faire attendre jusqu'à ce que  plus rien ne puisse les retenir.

As palavras amam a distância e respeitar-te-ão muito mais se tu nela as mantiveres. Dá-lhes esse prazer: deixa-as longe de ti até que elas por ti irrompam como serpentes, Medusa feliz, Shiva abúlico e desiludido.

Não te arrependas de ter sido maldoso: arrepende-te apenas das palavras erradas que disseste, das palavras que não soubeste manter à distância, daquelas a quem abriste os digues antes da hora. Não te arrependas de ter amado: arrepende-te de não teres encontrado as palavras de cada um dos amores. Não te arrependas de ter vivido, ou morrido: arrepende-te do tempo que passaste entre um e outro, do tempo que passaste entre as palavras, como se andasses à chuva e não te molhasses.

Podes fazer a barragem com vinho, se quiseres; desde que seja bom. Ou com mar. Podes até fazê-la com outro corpo. Esconde-te nele, e nele as palavras, a vida, a morte. Tudo. Porque fora das palavras nada existe, nem o silêncio.

(Para a Dina, que não sei onde anda, mas que espero tenha encontrado a sua barragem).

13.9.14

Ravel - La Valse

De que falamos quando falamos de piano a quatro mãos:


Cidade Ocupada, 13-09-2014

FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO

Às vezes as coisas dentro de nós

O que nos chama para dentro de nós mesmos
é uma vaga de luz, um pavio, uma sombra incerta.
Qualquer coisa que nos muda a escala do olhar
e nos torna piedosos, como quem já tem fé.
Nós que tivemos a vagarosa alegria repartida
pelo movimento, pela forma, pelo nome,
voltamos ao zero irradiante, ao ver
o que foi grande, o que foi pequeno, aliás
o que não tem tamanho, mas está agora
engrandecido dentro do novo olhar.



Estrada de Fogo

Pedra a pedra a estrada antiga
sobe a colina, passa diante
de musgosos muros e desce
para nenhum sopé;

encurva, na abstracta encruzilhada;
apaga-se, na realidade. Morre
como o rastilho do fogo,
que de campo em campo aberto

seguia, e ao bater na mágica cancela
dobrava a chama, para uma respiração,
e deixava o caminho do portal
incólume e iniciado.


AL BERTO
Notas para o diário


deus tem que ser substituído rapidamente por poe-
mas, sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis,
vivos e limpos.

a dor de todas as ruas vazias.

sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste
silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abis-
mo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de aca-
bar comigo mesmo.

a dor de todas as ruas vazias.

mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do
deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e
dos encontros inesperados.
pernoito quase sempre no lado sagrado do meu cora-
ção, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo.

a dor de todas as ruas vazias.

pois bem, mário - o paraíso sabe-se que chega a lis-
boa na fragata do alfeite. basta pôr uma lua nervosa no
cimo do mastro, e mandar arrear o velame.

é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem
cadastro.

a dor de todas as ruas vazias.

sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o
filme acabou. não nos conheceremos nunca.

a dor de todas as ruas vazias.

os poemas adormeceram no desassossego da idade.
fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais
curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me
as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas. ..e
nada escrevo.
o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida - e
a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.

a dor de todas as ruas vazias.



DAVID MOURÃO-FERREIRA

Ternura

Desvio dos teus ombros o lençol
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do Sol,
quando depois do Sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
em que uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!


PELE

Quem foi que à tua pele conferiu esse papel
de mais que tua pele ser a pele da minha pele?
Cintilação de luas
assim que te desnudas
às escuras
Diante do teu ventre
como não dizer “sempre”
novamente.
Ó lâmina e bainha
de outra espada ainda
Tua língua
Ruge. Reprende. Arrasa
Desde que sempre o faças
com as asas
Vem dos arcanos de outro tempo
ou dos anéis de outra galáxia
esta espessura transparente
que só na cama as almas ganham



POR VEZES

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos. E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos.



INSCRIÇÃO SOBRE AS ONDAS

Mal fora iniciada a secreta viagem
um deus me segredou que eu não iria só.

Por isso a cada vulto os sentidos reagem,
supondo ser a luz que deus me segredou.


Praia do Esquecimento

Fujo da sombra; cerro os olhos: não há nada.
A minha vida nem consente
rumor de gente
na praia desolada.

Apenas decisão de esquecimento:
mas só neste momento eu a descubro
como a um fruto rubro
de que, sem já sabê-lo, me sustento.

E do Sol amarelo que há no céu
somente sei que me queimou a pele.
Juro: nem dei por ele
quando nasceu.


EUGÉNIO DE ANDRADE

À Beira de Água

Estive sempre sentado nesta pedra
escutando, por assim dizer, o silêncio.
Ou no lago cair um fiozinho de água.
O lago é o tanque daquela idade
em que não tinha o coração
magoado. (Porque o amor, perdoa dizê-lo,
dói tanto! Todo o amor. Até o nosso,
tão feito de privação.) Estou onde
sempre estive: à beira de ser água.
Envelhecendo no rumor da bica
por onde corre apenas o silêncio.



Devias estar aqui rente aos meus lábios

Devias estar aqui rente aos meus lábios
para dividir contigo esta amargura
dos meus dias partidos um a um

- Eu vi a terra limpa no teu rosto,
Só no teu rosto e nunca em mais nenhum

Lauda e louvor da procrastinação

São nove e meia da manhã de sábado e ainda estou na cama a pensar no que já fiz - tomei o pequeno almoço e pus a roupa na máquina - e no que falta fazer: duche, lavar a loiça e limpar o fogão do chilli de ontem (deixei-o queimar, malditas panelas sem qualidade), ir andar de bicicleta (não meço a glicemia há vários dias, não quero estragar a excelente média que o aparelho deve ter na memória), escolher os poemas que logo vou ler na Cidade Ocupada, ensaiá-los, tirar a roupa da máquina e pendurá-la...

Não faço nada disso. Fico na cama com uma ressaca média (cinco em dez, quase não dou por ela) a ouvir os madrigais de Gesualdo, os quais me levam a Caravaggio e a pensar no enorme potencial inspirador da má consciência.

Escrevo no telefone; lembro-me da alegria de não cumprir um dever,  tão boa como estar no campo; comparo o rum e a cachaça - são incomparáveis -. Daqui a uma semana terei vinho bom e barato e reencontrarei a minha Rolex, as ruas amadas (e cada vez mais sujas) de Lisboa, irei a Évora e a Mértola.

Não progredi muito no The Sea, esta semana foi em forma de não.

Porque é que a música de Gesualdo é tao parecida com os quadros de Caravaggio? Ambos eram assassinos, mas só superficialmente se podem confundir. Gesualdo matou a mulher e o amante (com uma crueldade arrepiante,  é verdade) por ciúmes; Caravaggio era um arruaceiro.

Os dois vão ao fundo do ser, tocam naquela zona de nós em que não se distinguem os sentimentos das emoções da razão da carne do sangue do ser.

A loiça pode esperar? Não.  Reclamo frequentemente contra as pessoas que deixam a cozinha suja. Enfim, pelo menos não está desarrumada,  empilhei as panelas que usei num canto e limpei a mesa. E pus água no fogão,  não vai ser difícil de limpar.

Estou furioso comigo (enfim, estaria, se tivesse vontade) por ter deixado queimar o chilli. Estava tão bom.

Vou levantar-me. Abençoado telefone que me permite escrever na cama. Esperam-me a casa e a cidade. A Casa e o Mundo. Queria tanto reler esse livro. E a poesia dele "onde as estradas estão traçadas perco-me..." "o viajante tem de bater a todas as portas estrangeiras até encontrar a sua..." Será assim? Vou confirmar e volto a deitar-me.

O duche. A loiça. Daqui a pouco a roupa está pronta. Seleccionar os poemas. Todo o cais é uma saudade de pedra. Saudade. Quantas vezes escrevi e disse essa palavra? Quantas mais terei ainda de a dizer a alguém,  de a pensar ou sofrer?

Gesualdo, vou tomar banho.

Diário de Bordos - S. Luís, Maranhão, Brasil, 12-09-2014

Que esta semana andei pouco de bicicleta confirma-se - como se fosse preciso confirmar - pela roupa lavada: chego ao fim da semana com roupa para mais dois dias.

E que chego ao fim de um ciclo confirma-se pelo ensurdecedor clamor dos meus livros, fechados em caixas há dez anos. Querem uma estante, querem ser abertos, folheados, redescobertos (a maioria) ou simplesmente lidos, os outros. Tão alto que o oiço daqui.

E que nada disto é linear confirma-se pela quantidade de cigarros que fumei esta semana. Deixei de os comprar avulsos e compro maços, que fumo até ao enjôo. E pelas caipirinhas, que consumo menos do que há uns tempos e mais do que seria desejável (quelquer número acima de zero é indesejável).

Tenho a impressão de que vou fazer uma visita ao meu amigo Raimundo. (A julgar pelas suas frequentes ausências do Senzala Bar deve estar a passar por momentos iguais, ou semelhantes).

........
Gosto desta praça. É a mais bonita da Praia Grande: fica junto ao mar, do qual está separada por uma rua apenas; tem vento, poucos prédios em ruínas - a  maioria está recuperada -; poucos bêbedos, crackómanos, pedintes e restante fauna do ecosistema; e tem o melhor bar do bairro.

Chama-se Bar do Porto e já aqui falei nele. Inútil insitir. Ao lado há uma discoteca e logo a seguir outro bar chamado Contraponto. Venho ao Porto ouvir blues, mas levo com a "música" do Contraponto em cheio. A noção de vizinhança é Putinesca; quem tem mais força ganha.

E eu fujo. Blues misturados com barulho não funcionam, por muito bem que sejam tocados e cantados.

........
Os meus queridos amigos brasileiros perdoar-me-ão, espero, peço; mas o Brasil por vezes faz-me pensar no Ubu-Roi, um gigantesco e ubíquo Ubu-Roi.

Perto da pousada que gentil e lindamente me acolhe há uma cachaceria - a qual de resto será objecto de um post um dia -; pertence a um senhor chamado Baptista e de vez em quando vou lá beber um "conhaque" (entre aspas porque de cognac não tem rigorosamente nada) ou uma cachaça de Mastruz, erva misteriosa que aparentemente cura todas as maleitas do corpo e em mim cura todas as outras também.

Ontem alguém perguntou ao Baptista porque é que ele tem dois expositores de baldes à porta. Resumindo muito, a resposta foi: porque na Zona Histórica não podemos pôr tabuletas comerciais. Eu gostava de ter o talento de um Zola ou de um Dickens para descrever as ruas pelas quais passo para ir beber o meu Mastruz: imundas, mal-cheirosas, com os prédios em ruínas, pessoas a fumar crack em tudo quanto é canto, calçadas pelo que tudo indica terem sido calceteiros com excesso de LSD no sangue.

Mas a preocupação são as tabuletas comerciais, claro. (Acessoriamente, o Baptista vende os baldes. Suponho que se não os vendesse não poderia tê-los à porta para sinalizar o seu estabelecimento).

12.9.14

Dever

Hoje dei um jantar: não devo falar do que senti porque fui eu que o dei. Mas posso falar do que falei - como sempre falei muito -: e uma das coisas de que falei foi do Jim do post ali em baixo.

Por causa do Jim e do Mull of Kintyre lembrei-me da Sandy Denny. Houve um tempo no mundo em que esta senhora cantava. Sem ela o mundo não é o mesmo - algumas pessoas têm essa capacidade: mudar o mundo quando aparecem ou desaparecem -. Mas felizmente podemos ouvi-la.

Devemos.





Reedição - Lord Gin

Lord Gin

Ontem saí, afogar diabos e diluir tristezas. Cheguei a casa eram 3 da manhã. Hoje estou, como de costume, com o Menière aos gritos. Já não basta ter que ouvir o L. dizer-me que bebo muito, tenho agora também um polícia interno.

E a verdade é que não bebo muito, ou pelo menos não bebo demais: de vez em quando lá vou para a ginástica de balcão, mas está longe de ser frequente ou exagerado. E não chateio ninguém: bebo metodicamente e vou para casa dormir.

Em Lüderitz havia um piloto da barra chamado Jim. Era um viking enorme, parecia um arranha-céus. Tinha uma espessa cabeleira loira e uma barba meio arruivada. Era escocês, de Kintyre, e falava com o impenetrável sotaque daquelas bandas.

Quando chegávamos à bóia de espera o Jim entrava a bordo e nós mandávamos vir uma garrafa de whisky para a ponte. Sentava-se num dos armários e começava a beber. Quando chegava a meio da garrafa desatava a cantar o Mull of Kintyre, com uma voz bonita, de barítono - uma vez explicou-me o que é um Mull, mas ou me esqueci ou não percebi nada, o inglês dele era incompreensível mesmo quando sóbrio.

O trajecto entre a barra e o porto demorava quase uma hora. Quando chegávamos o Jim tinha acabado a garrafa, estava totalmente grosso e tínhamos que ser nós a fazer a manobra. Uma vez atracados, ele voltava-se para mim ou para o capitão e dizia: "agora que já acabou o trabalho, que tal se fôssemos beber um copo?"

Lüderitz era uma cidadezinha fascinante no sul da Namíbia: estava rodeada de deserto, mas a primeira coisa que se via à chegada era uma igreja gótica, coisa que não dava de todo com o resto. As pessoas gostavam muito do nosso navio porque dávamos muitas festas. O capitão tinha uma amante cujo marido gostava muito de nós, também, e nunca percebeu que uma das minha tarefas era entretê-lo enquanto o capitão e a mulher pecavam no camarote ao lado.

De resto o navio era querido por todos na África do Sul, excepto pelos colegas, invejosos: quando chegávamos a Cape Town todas as prostitutas flutuantes vinham esperar-nos ao cais e mudavam-se em peso para bordo do Altair. Na primeira saída ficámos muito tempo no mar, quase dois meses porque estávamos a pescar mal. Quando voltámos tínhamos as raparigas todas no cais a gritar "Alter, Alter" em coro, para raiva e frustração das outras tripulações, que achavam injusto. A maioria era muito feia, mas os marinheiros gostavam de as ter a bordo, e tratavam-nas bem.

Era um grupo grande de prostitutas que vivia nos navios, não tinham casa. Por vezes havia problemas: um dia houve uma zaragata entre duas delas e tive que ir acalmar a coisa. Uma estava furiosa, tinha na mão um facalhão que roubara da cozinha e não deixava ninguém aproximar-se. Fartei-me de falar com ela, a tentar pô-la numa posição que permitisse a alguém ir por trás e tirar-lhe a faca. Foi o cozinheiro, finalmente que o conseguiu. Era um homem porreiro, chamava-se M. e fazia o melhor bacalhau à Brás que jamais comi. Todos os dias vinha à rede comigo escolher um peixe para mim, que deixavámos depois no sal até ao dia seguinte. É um erro comer peixe no dia em que sai do mar, é muito melhor pô-lo no sal uma noite, enrijece as carnes e apura o gosto.

O Bacalhau à Brás do M. era conhecidíssimo em Cape Town. Cada vez que lá íamos tínhamos que convidar um dos diplomatas de Portugal. O homem arrefinfava no gargalo - ainda por cima acabávamos o almoço com uma queimada divina, tradição do navio - e eu tinha que o acompanhar para ele não cair ao mar, agarrava-lhe delicadamente num braço e ia até ao carro assim, diplomaticamente.

Cape Town foi uma grande escola para mim, em muitas coisas. Como toda a gente nós pescávamos com redes de malha inferior à permitida. O capitão tinha-me avisado que os inspectores de redes eram gajos porreiros, mas que detestavam que os tomassem por estúpidos. Quando vieram inspeccionar as nossas redes mostrei-lhes a rede legal ainda na embalagem de fábrica - nunca tinha sido usada. Eles fizeram um buraco no plástico, mediram a malha, apertaram-me a mão muito sérios e fizeram o certificado. Nem o olho piscaram.

Mas o país onde vi beber mais - e onde eu próprio mais bebi - foi na Rússia, em Nakhodka. Quando se pedia um vodka orange vinha um copo grande, de água, cheio de vodka e um cálicezinho pequeno de sumo de laranja. A vodka vendia-se aos gramas, por unidades de cem gramas. Um duplo eram duzentas gramas. Mas o pedido mais frequente era trezentas gramas. E era preciso estar sempre a beber, porque volta e meia alguém dizia "Nazdharovia" e tínhamos que beber o conteúdo do copo de uma vez só. O truque consistia, naturalmente, em ter o copo o mais vazio possível, e cada vez que ele era cheio dar uma grande golada para ficar a meio. Uma vez saí de um restaurante que ficava no primeiro andar e quando cheguei às escadas apercebi-me que nunca iria conseguir descer aquilo. Deitei-me no chão e fui a rebolar até lá abaixo. Depois levantei-me, ainda um pouco tonto, mas digno, e fui para o navio.

Noutra noite fiquei a bordo e dei uma festa no meu camarote. Essas festas eram uma tradição, mas a maior parte da malta chateava-se porque eu e o imediato tínhamos o hábito de recitar Fernando Pessoa. Eles gostavam mais dos Cantos de Maldoror, que o imediato detestava. Mas enfim, a verdade é que a malta ia aparecendo e apesar dos protestos havia sempre uma récitazinha de poesia. À medida que as garrafas se iam esvaziando eu ia deitando-as fora pela vigia, atirando-as com muita força para ver se se partiam. No dia seguinte quando desci o portaló esperava-me um guarda (cada navio tinha 3, um à proa, outro ao portaló e o último à popa) totalmente enraivecido: a vigia dava para o portaló, para o sítio exacto onde ele estava, e ia apanhando com cada uma das garrafas que foram despachadas via aérea. O navio tinha mudado de lado e eu pensava que as estava a atirar para o gelo.

Em Nakhodka tinha uma namorada chamada Vicky, que era linda como um dia de sol. Era do Konsomol e desaprovava vigorosamente os meus excessos vodkistas. O primeiro presente que lhe dei foi uma escova de dentes - a rapariga não lavava os dentes havia anos, estavam verdes como os dólares que tanta falta me fazem. Mas era bonita, e ainda mais bonita ficou com os dentes lavadinhos.

Se houvesse um pouco de justiça no mundo o fígado seria um músculo, e fortalecer-se-ia cada vez que se bebesse um copo. Mas não é, nesse aspecto a evolução tomou o caminho errado.

Um nome giro para um bar seria "Lord Gin", não? 

11.9.14

Ambientes

Os ambientalistas histéricos que querem impor custos absurdos às empresas deviam de vez em quando reflectir. Talvez seja melhor curar do que prevenir, em muitos casos.

(Claro que para a maioria desses ambientalistas a agenda não é o ambiente. Mas isso é outra história).

Descobertas

O Xicodiscos oferece vários tipos de actividades culturais. À degustação de cachaças, conversas, sonhos diversos e outras junta-se agora a descoberta de música (coisa inesperada num bar com aquele nome).

Vejam esta, por exemplo:






10.9.14

Coisas realmente importantes

Aqui há uns tempos, Maria João Marques - uma das minhas cronistas favoritas (e não deixou de o ser por causa disto) - falava de latitude Oeste, ou longitude Norte.

Hoje David Dinis fala de marés no Mediterrâneo, mar que sem delas ser completamente desprovido as tem muito fracas, quase nada.

Não precisarão de um revisor, lá para aquelas bandas?

7.9.14

Um momento fugaz de optimismo

"Posso ser um bocadinho optimista? Muito obrigado. É verdade que o desfecho do caso Face Oculta se fez tipicamente esperar. É verdade que ainda estará sujeito aos recursos da praxe (e, talvez, aos beneplácitos da praxe). É verdade que a decisão do tribunal não apaga o papel de altos magistrados na sabotagem do processo. É verdade que a figura maior desta história passou entre os pingos da chuva. E é verdade que castigar a trapaça do sucateiro socialista não castiga outras trapaças que envolvem outros partidos ou "personalidades".

Mesmo assim, o que aconteceu em Aveiro, da sentença aos rostos perplexos dos condenados, é um sinal de que nem tudo é permitido nem a impunidade é inevitável. Por uma vez, se calhar sem exemplo ou repetição, ganhei confiança na justiça. Enquanto não voltar a perdê-la, permitam-me festejar durante uns dias o célebre Estado de direito. E quem diz uns dias diz uns minutos, ou o tempo em que Portugal se assemelhou à civilização."

O optimismo vai ser curto, merece ser partilhado e guardado.

Daqui, claro.

5.9.14

Exotismo e tolerância

"Sou tolerante, não sou relativista". Há muitos anos, mais do que aqueles que sei contar.

O problema é onde pôr a fronteira da tolerância? Por onde passa a linha entre o exótico e o inaceitável? Para algumas coisas a decisão é fácil: a mutilação genital feminina, por exemplo. Outras são mais complicadas.

Depois de muitos anos de viagens e de contactos com variadíssimas culturas continuo sem certezas. Porém um critério que me parece válido é não defender para os outros aquilo que não se quer para nós. Queremos a democracia, a liberdade, governantes honestos, respeito pelo espaço público? Porque toleramos a corrupção, a ditadura, a insegurança nos outros?

À frente da pousada mora um senhor que suponho seja atrasado mental, idiota, débil, imbecil ou coisa semelhante. De tempos a tempos sente necessidade de pôr a música aos berros. Não suporto mais este barulho permanente. Não se dá um passo que não se seja agredido ou por um carro de som com anúncios a não sei quê ou a quem quer ser eleito, ou por - como neste caso - um gajo qualquer que decide simplesmente que toda a gente deve ouvir a música de que ele gosta.

Hoje fui pedir-lhe para baixar o volume. Começou por perguntar-me se eu já estava a dormir (são sete e meia da noite). Disse-lhe que não. Sorriu, Olhou para mim e perguntou-me "Então"? Disse-lhe que não gosto daquela música, por um lado; e que ela me impede de ouvir a de que eu gosto, por outro. "Se o senhor baixar o volume da sua música pode ouvi-la na mesma, eu posso ouvir a minha e ficamos os dois contentes". Sorriu de novo, apertou-me a mão, baixou o volume - e cinco minutos depois voltou a subi-lo.

Não vale a pena. É como se eu lhe fosse pedir para se despir e andar nu na rua.

Ignoro o que leva o homem a precisar de ouvir a música assim, mas sei que para mim é intolerável. Não é exótico.

Diário de Bordos - S. Luís, Maranhão, Brasil, 04-09-2014

Penso "Gosto de todos os sítios onde estive e não gosto de nenhum onde estou" e imediatamente procuro as excepções. Lisboa, le Marin, Marseille, Londres, Paris, Palma, Dunkerque, Lubumbashi, Bujumbura, Mértola, Brighton, Antigua, Aber Wrac'h (e toda a Bretanha), S. Francisco, Miami. São tantas.

São mais as excepções do que as regras. Lugares de que só gostei a posteriori: Genève, Panamá, Salvador... Ia acrescentar "S. Luís será decerto assim" mas apercebo-me de que já não é verdade. Começo a conhecer esta cidade, a amar-lhe os defeitos.  Irrevogável sinal de amor.

K. diz-me que os filmes começam às sete e ela virá por volta das oito. Chega às oito e meia; dos filmes só umas sombras: devem estar com problemas na projecção. E não me importo nada com o duplo atraso, com a inexistência de vinho ou caipirinha no bar da Saudade de qualquer coisa que não percebi, com o facto simples e inegável de que não gosto de samba.

Está vento e uma noite linda, sei que se for para casa tenho um bom frango à espera, as coisas fluem - eu próprio cheguei mais tarde do que pensava porque o gás acabou e frango e canja atrasaram três quartos de hora - e reencontram o seu caminho como água na montanha.

As mulheres são bonitas, os alísios levantam-lhes os cabelos, a Fonte do Ribeirão é mágica - um buraco de beleza azul desligado de tudo o que o rodeia (como eu, de resto), inundado de música e rodeado de prédios recuperados,  prédios a cair, mesas de plástico, pessoas bonitas sentadas em todo o lado e K. que chega radiante e radiosa e me deixa imediatamente para ir "cumprimentar a galera". É a liberdade do ribeiro na encosta: vai pela gravidade mas por onde quer, a liberdade simples das coisas que o são e fluem como são.

Não há traço da população da Paia Grande. Na hora que ali passo ninguém me vem pedir dinheiro, nenhum crackómano inicia uma cena de pancada com outro, ninguém tenta roubar-me a bebida, a rua não cheira mal. Estou a cinco minutos de bicicleta e já  acidde é outra.

.........
Não fiquei: a música estava demasiado alta, K. levou-me para um lugar onde não havia vento, era difícil conversar. Voltei para a pousada e para o frango que cozinhei à tarde.

........
Comecei por marinar o bicho em limão, alho, louro, paprika e alecrim. Uma hora no frigorífico.

Depois refoguei uma bela quantidade de toucinho, Retirei e para essa gordura foram cebola e pimentos. Numa frigideira fritei o frango - não tanto quanto queria, o tempo apertava apesar de saber que K. chegaria atrasada -. Depois juntei tudo na panela (tudo incluindo a marinada) uma boa giclée de tinto, acertei as especiarias e ala que se faz tarde.

Não fui eu quem acabou a cozedura. Só provei o resultado e ouvi os comentários dos convivas. Cada vez gosto mais de cozinhar.

........
B. avança. A cada dia nota-se a diferença. Temos quatro pessoas a trabalhar nele a tempo inteiro e muito provavelmente em breve uma quinta. Vou sair de S. Luis em finais de Novembro e já estou com saudades.