22.6.18

O que importa

"Ce qui importe, c'est que le monde continuera a etre le lieu des épiphanies."


Roberto Calasso, in La Littérature et les Dieux

Retour à l'origine

""Les dieux sont devenus des maladies", écrivit une fois Jung avec une brutalité éclairante. L'informe masse psychique est le lieu où tous les dieux ont finit par se rassembler, comme autant de réfugiés du temps. Mais est-ce là une diminutio? Ne pourrait-elle pas etre au contraire considéré comme un retour à l'origine - ou du moins un repli à l'intérieur de l'enclos d'où, depuis toujours, les dieux s'étaient évadés ?"

O ateísmo é uma doença, um intervalo, uma fuga de prisão condenada a falhar? Ou a norma é a doença e e ateísmo a saúde?

20.6.18

Assimetria

É penoso assistir impotente ao definhar de uma amizade bonita. Nada resiste à assimetria, nem o mais lindo dos sentimentos.

19.6.18

Sem validade

"Estes vales fazem parte da comunicação da marca Nicola. Não têm validade". (Do outro lado do pacote de açúcar lê-se "Vale um fim-de-semana para dois").

Procuro um equivalente para "Vale sem validade". Café sem cafeína? Não. Café sem chávena? O "café vazio" que uma vez pedi num restaurante de Lisboa, porque a pessoa com quem almoçara pediu um café cheio? (A empregada trouxe o café do meu amigo e a mim uma chávena vazia. Quando a felicitei pelo sentido de humor ficou atrapalhada e disse-me "Mas o senhor pediu um café vazio...")

Alguém devia avisar a marca Nicola do absurdo que é um "vale sem validade". Ou pelo menos explicar-lhes o significado da palavra Vale. 

18.6.18

Deus e mar, o mar e Deus

"Es muy raro, ciertamente, que pueda haber capacidad de asombro en una actividad que repetimos a diario o, incluso, varias veces al día". (Pablo d'Ors, in Biografía del Silencio)

O senhor que escreveu isto visivelmente nunca trabalhou no mar. É padre e isso deixa-me perplexo (apesar de confirmar o que penso ou por causa disso): nem aos religiosos é dada esta "capacidade de assombração" quotidiana de que até o mais humilde e simples dos marinheiros goza todos os dias, todo o dia?

16.6.18

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 16-06-2018

Fui ao Forn Fondo comprar chocolates. Uma trufa e dois bombons, mais pequenos. A ideia era sentar-me e beber um café acompanhado pelos chocolates. Andei cinquenta metros e tive de voltar atrás para comprar mais: duas trufas e um bombom.

O Zomarist que se desenrasque; o problema é dele, não meu.

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Com os livros foi diferente. Pergunto-me se se pode resistir a um título como "Biografia do Silêncio". Não se pode nem muito menos deve. Ao lado estava um Steiner e acho que é tempo de ler o homem.

Uma pequena livraria desta cidade é pior do que uma grande em Lisboa. Pelo menos para um teso.

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O livro é um ensaio sobre a meditação, escrito por um padre. O homem escreve magnificamente e é convincente: tenho vontade de me sentar a meditar. Espero que passe depressa.

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D. e B. estão em Palma. Foi aqui que os conheci, há cinco ou seis anos. Ela é bastante mais velha do que ele e isso agora vê-se flagrantemente. Mas enfim, continuam juntos e parecem felizes, o que é mais do que eu posso dizer.

De certa forma invejo-o, mas é um tema sobre o qual não quero perorar demasiado. Está cá, é tudo.

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Como é aquele aforismo "Deus te guarde de obteres o que pedes"?

(Aqui entre nós: bem podia dar-me mais e compensar-me menos por tudo o que me sonega).

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Portugal esta tão longe e tão perto... Cada vez mais cada um dos dois: aproxima-se e afasta-se em igual medida. Parece uma ilusão óptica em duas metades. Só não sei qual delas é ilusão e qual a verdadeira.

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Hoje passei à frente do quarto onde há uns anos fiquei uma semana com uma mulher horrível.

A bem dizer não sei o que era pior: se ela se o meu engano a respeito dela. Se tivesse de escolher só um escolheria este último: não merece sequer o título de engano. Foi um engano medíocre, merdoso.

Bastar-me-ia ter a certeza de que não foi medíocre ao ponto de eu não ter aprendido nada para ficar mais aliviado.

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Penso muitas vezes na minha generosidade: há um sistema de vasos comunicantes entre a generosidade e a estupidez e em mim o circuito deve ter ficado bloqueado num dos lados.

Infelizmente o errado, claro.

13.6.18

Pergunta

"Sexo oral" é conversar a noite toda agarrado a ti, não é?

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 13-06-2018

Não sei por onde começar. A série é: por que é que todos gostam de Palma?

- As almôndegas do café Junior. Palma deve ter cerca de oitenta mil cafés, bares, restaurantes, supermercados, quiosques, coisas, lugares a fazer almôndegas. As do café Junior são de longe as melhores que até hoje provei (cerca de vinte, talvez).

Bicicleta: ontem entrei numa loja e como de costume deixei a burra à porta. Como era para uma coisa rápida não a fechei. A senhora pediu-me (pedir é o verbo apropriado) para a pôr dentro da loja. Tinha medo que ma roubassem.

Hoje vou a outra loja. Mesmo cenário, mas a coisa começa a demorar e peço ao jovem empregado se posso pô-la dentro. "Claro", responde, no tom de voz de um farmacêutico a quem tivesse perguntado "têm aspirina?"

12.6.18

Bênção, dúvida

O passado não me faz muita falta. Nunca fez: prefiro o futuro desde que me conheço.

Com uma possível excepção: a ausência de dúvida era uma bênção. 

11.6.18

Por que esperas

Avinha-te, abespinha-te, arruma-te que sem vinho e sem rum só ficam as espinhas. Pensa depressa na noite que sem vagar para divagações devagar te deixa ao sopro desta ligeira brisa e te guia pelos becos a caminho do mar. Decide-te: a vida talvez espere, mas a noite essa não, de certeza.

Vida de noites, que de dias estamos satisfeitos: temos tudo o que é preciso. Um sonho, dois desejos, três visões, quatro objectivos. Um dos quais é quatro quartos: para ti, para mim, para os dias e para as noites. Convém que os objectivos não se misturem entre eles.

Já nós podemos, se formos devagar. Misturamo-nos lentamente: nós, a noite e o tempo, que inclui dias e menos dias. Passar-te por exemplo a mão pelo cabelo levaria décadas, se a noite fosse igualmente lenta. Poderíamos também pedir à vida que faça um desconto, mas não somos de pedir e menos ainda descontos. Quando muito desmais, demais, a mais, muito.

Amai-vos, diz a noite impaciente. Há-as assim: impetuosas e breves. Prefiro-as impetuosas e longas como quando em cima de mim cavalgavas um sonho e o sonho não acabava.

Longa noite foi a nossa: ainda dura. Não se pode apagar a luz que nunca se acendeu, não é? A nossa já estava acesa e acesa continua: por que esperas?

Nina Simone et al.

A única razão válida para um gajo se manter vivo é descobrir aos sessenta anos o que devia ter descoberto aos vinte: há uma vida lá para trás que deve ser vivida.

10.6.18

Diário de Bordos - Peguera, Mallorca, Baleares, Espanha, 10-06-2018

Antes de mais nada: a iniciativa "Monnaie pleine" não passou. A Suíça tem o melhor sistema político do mundo.

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Convidei o I. para jantar. Bebemos uma garrafa de rum (Cacique, estranhamente quase bom) e contámos histórias (é marinheiro, como eu).

Não conheço as histórias das outras profissões, mas as de marinheiros têm duas coisas boas: o âmbito geográfico (falamos dos lugares que conhecemos como se falássemos da nossa cidade natal - "lembras-te da loja de electrónica que havia por baixo do bar do Leo?") e a demonstração de que há uma humanidade. Isto é, as histórias que ele me conta com um tripulante de Carriacou vivi-as com alemães (por exemplo e oposição).

A humanidade é só uma, os racistas não percebem nada e há racistas em todos os lados da barricada. Um preto idiota é idiota antes de ser preto, tal como um gordo inteligente é inteligente antes de ser gordo.

Não percebo nada das outras profissões (enfim, percebo pouco) mas uma coisa é segura: nenhuma chega aos calcanhares da de marinheiro. Isto não é uma profissão, é uma mundividência. Somos filósofos agarrados a cabos e cascos, a rumos e ventos. Um marinheiro analfabeto sabe tanto da vida e do mundo como qualquer professor universitário (dos vulgares, quero dizer. Dos outros talvez não). Somos uma espécie de antropólogos cum psicólogos cum sociólogos cum realizadores de cinema sem câmara: as histórias caem-nos já feitas aos pés, porque é a humanidade que as faz.

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É claro que não é a beber meia garrafa de rum numa noite que vou emagrecer, mas se tivesse de optar escolheria o rum.

Isto é: escolho. Quando morrer emagreço num instante, se as bactérias gostarem de mim.

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Dia de Portugal. Já lá estive. É porreiro.

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Revejo Rio Cuanza. "Falta-te alma", diz-me L. Como escrever sobre o nosso passado com "alma"? Que se foda a alma: não fui eu que vivi aquilo, foi outro e não me posso pôr na alma de outrém.

Talvez pudesse, mas seria mentira.

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Se o mundo fosse feito só de marinheiros seria um lugar melhor: só nós conhecemos a fórmula mágica, mescla de mudar e adaptarmo-nos. Há uma mistura subtil, milimétrica como o Painkiller do Soggy Dollar Bar: muda-se o que se pode e adaptamo-nos ao resto.

Não sei como formular isto: não é uma questão de mudar para que tudo fique na mesma. É deixar tudo na mesma para que mude o que for preciso.

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I. ia ao Mad Mongoose em Antigua. Sair com uma miúda que já foi namorada de alguém conhecido é chato, afasta-nos. Partilhar um bar é o contrário.

O Mad Mongoose que conheci já não existe.

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Não quero reviver a minha vida. Vivê-la chega-me.

Evoluções

Vou lá fora fumar um cigarro e vejo estas hordas de turistas gordos,velhos (a maioria com a minha idade ou lá perto, apresso-me a esclarecer), de calças verdes e ténis cor-de-rosa ou ao contrário, tatuagens e piercings nos ligeiramente mais novos e penso nos efeitos devastadores do tempo.

Depois lembro-me de mim mais novo e de devastadores os efeitos passam a benéficos.

Paciência, Portugal

Hoje é dia de Portugal. Entre mim e o patriotismo está a intransponível barreira da falta de paciência.

9.6.18

Frango existencialista (ex-metafísico)

A ver no que isto desagua:

  • Frango do campo (um peito);
  • Cerveja (meio litro);
  • Vermute (um copo);
  • Gengibre (algum);
  • Coentros (meio ramo);
  • Cebola (metade pequena);
  • Alho (dois);
  • Sal e pimenta;
  • Cominhos;
  • Paprika;
  • Tomilho;
  • Sábado chato (uma ou duas horas, provavelmente);
Vai marinar a dita quantidade de horas; depois há-de ir a fritar; irá à fogueira de um bom rum - não sei qual porque ainda não o tenho -; e finalmente vai guisar até ser hora de jantar. Provavelmente juntar-lhe-ei um pouco de chouriço que tenho aqui, mas não sei. Ele que se defina.

(Está a marinar há mais tempo do que o previsto).