20.7.18

A idade do interesse, o interesse da idade

As clientes do Moltabarra são mais interessantes do que as do Antiquari.

Pelo menos dez anos mais interessantes, em média.

Hors-jeu de position

Há pouco mencionei as minhas duas cervejas preferidas: Aguila, que um pequeno restaurante colombiano aqui em Palma tem em stock e Red Stripe, cerveja jamaicana que só não é melhor do que a Aguila por ser um milionésimo de miligrama mais pesada.

Os milhões de leitores atentos deste blog terão certamente franzido as sobrancelhas: "então e a Smithwicks?"

Meus caros: a Smithwicks está para as cervejas todas do mundo como a Virgem Maria para uma mulher a dias irlandesa (do tempo em que as havia). Não pode portanto integrar listas.

Cervejas e falhas do mercado

Todas as cidades do mundo deviam ter um restaurante colombiano como o Sabor Criollo, en Palma. Devia ser obrigatório. A ausência de um Sabor Criollo faz parte da lista das deficiências de mercado e merece ser corrigida pela mão protectora, carinhosa e leve do Estado.

Felizmente Palma tem o Sabor Criollo, cerveja Aguila e arepas con carne que roçam o sublime. Melhor ainda: fica a caminho de casa. Tudo isto sem ingerência do Estado.

(Agora preciso de encontrar um restaurante jamaicano que apresente Red Stripe e um bom Jerk à consideração).

Arte

A função da Arte é transformar coisas obscuras em evidências.

19.7.18

Salários, objectos e respectivas transformações

Às vezes acusam-me de não me saber vender, de trabalhar por salários inferiores aos que devia ter.

Estou-me um bocadinho nas tintas, confesso. Com a passagem do tempo aprendi que os bons salários se transformam frequentemente em muitos objectos e estes se desvanecem em muitos nadas.

Antes ir directamente ao fim.

Avenidas, vidas

Há em todas as vidas uma Avenida da Liberdade. Nalgumas ela é habitada; outras é nela que vivem.

Infelizmente, a maioria só a conhece de ouvir falar.

(Para a Ana V., com amizade e inveja.)

Percepções, ciganos e bicicletas roubadas

A história conta-se depressa, mas prefiro a versão lenta. (Como em quase tudo, troçarão decerto alguns, pobre de mim.) A minha bicicleta Órbita Estoril II era deixada no Club de Vela de Puerto Andratx todos os dias vai para mais de um mês sem cadeado. Recentemente houve uma feira, o porto encheu-se das respectivas animações e a bicicleta desapareceu.

Para mim não havia relação de causa a efeito: na minha mente simplex a bicicleta desapareceu porque estava sem cadeado, ou seja: devido à minha negligência. Andava há coisa de um mês a pensar que devia comprar um, mas o meu indefectível optimismo procura permanentemente uma oportunidade de ser derrotado. Não comprei e a oportunidade materializou-se.

A primeira coisa que me ocorreu - devo dizer que não fui o único - é que alguém pegou na burra para ir até ao barco e a tinha deixado num pontão. Essa intuição não foi partilhada nem pelos factos nem pela maioria dos funcionários da marina, desde o director aos marinheiros.

[Diversão: um desses marinheiros faz parte de um duo ao qual chamo Dupont e Dupond, porque andam sempre juntos e são ambos divertidíssimos. Um deles, não sei se o t se o d, disse-me "Foram os ciganos. E olha que são ciganos portugueses"].

Reacção unânime: foi "a ciganagem" (aspas porque cito); "o porto estava cheio de ciganos; o que esperavas?" (idem); "eram as festas do porto; essa gente..."

[Re-diversão: ao Dupon(d,t) respondi: "Roubar bicicletas é a nossa especialidade"]

Intuitivamente eu diria que sim, foi a ciganagem.  Estou-me nas tintas para os Mamadou Bas, Gorjões Henriques et al. As palavras servem para descrever a realidade, não a alteram.  Ou as percepções da realidade, o que vem a dar no mesmo.

[Hoje comprei outra Órbita Estoril II, um modelo mais recente e a meu ver não tão bom nem bonito como o que os ciganos me levaram. Sorte a deles. Agora tenho um cadeado.]

18.7.18

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 18-07-2018

Os dias passam demasiados e demasiado depressa: mais dias do que tempo. Este Diário de Bordos bem podia passar a semanário.

Não que tenha trabalhado muito: este compasso de espera para a decapagem das obras-vivas foi isso mesmo: uma pausa.

Mas uma embarcação é como a natureza: tem horror ao vazio. Se não se faz uma coisa fazem-se outras, que o futuro se não for feito é sofrido. Antes fazê-lo do que desfazer-nos ele a nós.

Agora casco nuzinho no gelcoat, resina encomendada, contra-placas para os pernos da quilha a caminho a máquina embala-se. Uma vez terminada a quilha começa a instalação do motor. Depois a electricidade e a electrónica, mastreação e panos: se os dias continuarem assim amanhã de manhã estou a caminho das Canárias com o P. como novo, mais novo do que quando saiu dos estaleiros Green Marine em oitenta e três.

O longo prazo é uma sucessão de curtos prazos, diziam nos anos oitenta os gurus da gestão. Pois eu penso o contrário: o presente é uma sucessão de futuros.

Dito de outra forma: o presente é lindo e o futuro mais ainda, porque é a soma destas belezas todas.

17.7.18

Definição

Uma insónia provocada por excesso de palavras ou de sesta não conta como insónia.

Relações lexicais

Declaro formalmente que a palavra mais bonita de todos os léxicos conhecidos e por conhecer é bourlingue. La bourlingue. É uma palavra francesa que se tivesse tradução se poderia traduzir por errância.

Felizmente não tem. Bourlinguer é infinitamente mais bonito do que errar, se bem estejam intimamente relacionados.

Taxonomia dilemática

Fica ainda por resolver o problema da mulher com quem se devia ter feito amor e não se fez: é mais fácil definir a segunda do que a primeira.

Água, azeite

Sou pela verdade. Isto é: sei que a mentira existe e às vezes é necessária, mas penso que deve estar reservada para aqueles momentos em que - por exemplo - precisamos de um copo de água, se não tivermos água morremos. Aí sim, podemos mentir. Sem isso - sem um risco de vida - a mentira é inadmissível.

O problema é que a verdade nos faz perder muitos copos de água. É um círculo. Um pêndulo: uma leva à outra, tal como a humidade e a luz levam ao arco-íris. Ser-se pela verdade é portanto encorajar a mentira? Não tão depressa: podemos aprender a viver sem água.

Refiro-me ao relvado

Um relvado no qual crescem embondeiros é uma contradição botânica?

Vejo-o todos os dias.

16.7.18

Paisagem, melancolia

As paisagens da melancolia são vastas: contempla-as devagar, como se fossem eternas.

Não são: nada dura para sempre. Nem a tristeza, nem o teu olhar.

14.7.18

Talvez: caos, entropia e vida

Um trajecto por Palma é caótico: depende demasiado das condições iniciais. O mais pequeno desvio do caminho leva-nos a milhas de para onde queríamos ir.

É uma das definições de caos: altera pouco que seja uma sequência e os resultados que obtens são totalmente diferentes dos esperados. Se na Baixa lisboeta te enganares numa rua viras na próxima e vais ter ao mesmo sítio. Se isso te acontecer em Palma só dás por ti atrás do sol posto.

Outra forma de identificar um sistema caótico: olhando para o resultado não consegues reproduzir o conjunto de situações que levaram a ele. Olhas para um empregado bancário, para um funcionário público e sabes o trajecto que fez: podes quase vê-lo a desenrolar-se à tua frente como um spaghetti a cair do garfo onde cuidadosamente o enrolaste.

(Talvez as cidades caóticas acolham com especial carinho as vidas caóticas.)

O caos tem um irmão geméo chamado entropia e um adversário, a neguentropia. A entropia aumenta o caos num sistema. A neguentropia diminui-o.

Quanto mais ordenada for uma vida menos entropia tem; quanto mais organizado for um sistema maior a sua neguentropia.

Paradoxalmente, a neguentropia é característica de um sistema aberto: a ordem precisa de energia exterior. A desordem consome mais energia do que a que gera.

Um sistema caótico consome energia e leva a resultados inesperados. Sem essa energia morre. Isto é, organiza-se.

É por isso que a liberdade é tão cara e tão cansativa, esgotante. Mas sem ela não há vida. 

(Post dedicado aos meus jovens amigos Leonor e Vasco B.)

12.7.18

Sonhos e incêndios

Hoje acordei com um sonho bonito: uma ruiva a fazer-me um broche matinal, impromptu. Allegro, por vezes staccato. Enfim, percebem a ideia: um sonho melo-erótico.

Era bonito porque sou completamente preto (gosto de dizer assim, completamente, em vez de muito, por exemplo) e aquela cabeleira ruiva ao acordar pareceu-me um incêndio: tinha o ventre em fogo.

O resto já está ardido, queimado. 

10.7.18

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 11-07-2018

Não é a primeira vez que termino uma relação profissional ao fim de muito pouco tempo. Esta durou dois dias. Não são eles, claro. Sou eu. E o P., que a partir de agora vai precisar de muita atenção e eu sou demasiado simples, troglodita, simplório para me dispersar. Ao contrário de uma mulher - ser autónomo, independente - uma embarcação requer uma atenção permanente, mesmo estando longe (o P. está a cerca de quinze milhas de Palma, o mesmo que de Lisboa a Cascais).
Isto é: não quero nem posso aqui desenvolver grandes teorias sobre a fidelidade, o poliamor (uma treta cuja utilidade me parece dispensável, como usar o amor aos animais para justificar o vegetarianismo ou teorias tântricas para o gozo sexual). O P. vai entrar numa fase do refit que não me apetece partilhar com outras embarcações.

Refit é uma palavra doce. Uso-a com certo deleite. Curiosamente, rejeito o seu equivalente - cirurgia plástica - numa senhora. Penso que as pessoas devem envelhecer com graça e naturalidade.

Um barco, ao contrário - sobretudo se for construído em sandwich de Kevlar / carbono e espuma de alta densidade, tiver sido desenhado por Hugh Welbourne e construído nos estaleiros Green Marine - não deve envelhecer. Deve rejuvenescer.

Nunca mais ganhará uma Fastnet, claro. Mal estaria o desporto da vela se isso fosse possível. Mas merece uma, duas, três operações plásticas, da mesma forma que um monumento deve ser mantido e uma mulher amada: com carinho, devoção e uma entrega total.

Por isso me despedi tão depressa do meu novo emprego.

Às vezes a liberdade parece-se tanto com uma prisão, não é?

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Como sempre, alguma coisa boa ficou. Neste caso, a carta de condução. Se a burocracia portuguesa não implicar muito em breve terei a minha carta na mão. Por agora já posso conduzir, com a carta internacional.

Na cidade ando de bicicleta - não há melhor forma de locomoção urbana -. Para ir e vir de bordo o carro é insubstituível. Os transportes públicos inter-urbanos nesta ilha são uma porcaria. Através do M., O senhor a quem comprei o motor do P., encontrei um carro mais barato por dia do que uma viagem de ida e volta de Palma para Puerto de Andratx (enfim, isto não é totalmente verdade. O carro tem custos extras que a viagem de autocarro não tem).

A verdade é que graças ao automóvel redescubro a liberdade que lhe vem associada.

De manhã saio de casa e vou de bicicleta até à garagem, que fica - diz-me o Google - a dois quilómetros. Encadeio-a a uma árvore e ali a reencontro à tarde.

Há quem chame a isto o melhor de dois mundos. Não é totalmente falso, mas eu prefiro outra designação: sorte.

8.7.18

Cidades, tempo

As cidades são tão feitas de futuro como de passados, de sonhos como de memórias. O vento frio que hoje encana pelos prédios amanhã será quente. A mulher que ontem te acolheu dir-te-á um dia que é tempo de ires.

As cidades têm esta magnífica capacidade de ser hoje o contrário de ontem e amanhã o mesmo que antes de ontem.

Teologia matinal

Uma das vantagens das religiões organizadas sobre esta espécie de politeísmo sequencial que hoje vivemos é a estabilidade. O Deus e o Diabo dos católicos são os mesmos há dois mil anos.

No século XIX o Ocidente resolveu deixar de acreditar em Deus (e muito bem, de resto). Infelizmente ninguém previu que em vez de Deus (e correspondente diabo) as pessoas - incapazes de viver sem fé, o ateísmo exige um certo esforço - começariam a abraçar uma série de religiões temporárias, umas a seguir às outras. O comunismo terá sido a pior, mais mortífera dessas religiões. A seguir veio o ambientalismo mai-los seus ritos e demónios. Agora vêm os animais.

Por mim tudo bem: idolatrem quem quiserem, demonizem o que lhes apetecer. Se o demónio da semana são as palhinhas, parem de as usar; desde que não obriguem os outros tudo bem. Se ir para uma arena é pecado, não pequem. Levem os cãezinhos ao cabeleireiro canino e os gatos ao veterinário para ser operados às cataratas.

Acreditem no que vos apetecer, quando vos apetecer. Mas aprendam uma coisa que a santa madre igreja aprendeu há duzentos anos: a vossa salvação não depende da minha. Se eu viver em pecado vocês não deixarão de ir para o vosso céu. Se eu não separar a merda do lixo o planeta sobrevive, se acabarem com as touradas a crueldade e a violência não desaparecerão. Vão para os diabos que vos carreguem. Se há coisa que não vos falta é demónios.

Infelizmente estas religiões são demasiado recentes para se cansarem do proselitismo. Esse é um privilégio reservado às velhas crenças, que já viram muito, quase tudo.

7.7.18

Jantar improvisado - Entrecosto em gengibre e cerveja

A ver no que isto desagua: porco, gengibre, sumo de limão, cerveja (a Aurum, cujo consumo tenho de refrear por questões de números), molho de soja, montes de pimenta negra, um bocadinho de curcuma e outro de pimentão picante.

Está de molho até a fome apertar, se apertar. Se não for hoje é amanhã. 

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 07-07-2018

AVURNAV (a ver se desta me fica): o Antiquari faz os piores Mojitos do universo e arredores.

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É curioso: acordei a pensar nas vantagens e desvantagens comparativas das mulheres feias que sabem que são feias, bonitas que se sabem bonitas e nas diferentes combinações e estados intermédios. Por exemplo: uma mulher bonita que se crê feia, o oposto e por aí fora. Cheguei ao esboço do princípio de uma conclusão, mas ainda esta demasiado complexa para ser exposta aqui; tem de passar pelo crivo da simplificadora. O Don Vivo - coitado - não é um manual de estética. É um repositório desajeitado da sombra dos dias, espuma das noites e - vejo agora - ideias confusas da madrugada.

Tudo isto a propósito do Mojito do Antiquari: um dos meus bares favoritos do mundo (ou seja: um dos melhores bares do mundo, deixemos o relativismo no caixote do lixo de onde nunca devia ter saído) não sabe fazer um cocktail relativamente simples. Imaginemos que o Antiquari é uma mulher bonita: a que casa deste complicadíssimo xadrez o levaria um Mojito de merda? Excesso de confiança das mulheres bonitas que confundem beleza e qualidade? Charme manipulador das mulheres bonitas que não tentam esconder os defeitos com a beldade - pelo contrário, usam-nos para a realçar -?

Não sei. É tarde, vou para casa fazer o jantar e lavar roupa. Pode ser que amanhã acorde com uma grelha de leitura deste importante problema, no cruzamento da estética e da consciência, psico-estética por assim dizer. Auto-epistemologia estética; poderia quase esticar-se à hermenêutica da beleza: como interpretar a beleza - ou a fealdade - que a lotaria genética nos reservou? A Bíblia está cheia de mulheres bonitas e se formos a ver o Céu e o Inferno devem ter uma quota igual delas. E de feias também, aliás: devem estar igualmente repartidas pelos escaninhos da vida depois da vida na qual os crentes crêem. Talvez.

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O refit do P. desemperrou. Terça-feira que vem vai ser decapado, final, final, final, finalmente.

Dizem-me que o homem que vai fazer o serviço é o mais perfeito decapador da ilha, um artista do jacto de areia: a ser verdade o P. vai ficar com a pele de uma mulher bonita. E eu orgulhoso como se fosse minha namorada (e uma pessoa decente, que a beleza só não chega).