18.11.19

Escala, escada: instruções

Não tens uma mulher em cada porto mas cada mulher é um porto. Nalguns demoras mais: muita carga a descarregar e carregar. Noutros menos. Não depende só de ti.

De qualquer forma,  é preciso ajustar a unidade de conta da permanência no porto, na escala. Um ano tem doze meses, cinquenta e duas semanas, trezentos e sessenta e cinco dias, oito mil setecentas e sessenta horas. Escolhe as horas. Não digas "Estivemos juntos dez anos", mas "Estivemos juntos oitenta e sete mil e seiscentas horas". Deixa o teu amor refazer-se a cada hora, põe-o em risco, desafia-o. Faz de cada escala uma escada que sobes e desces sem descanso. Caminha na borda de um precipício no qual ora cais ora mergulhas, ora sais ora te perdes. Ama como vives: entre um deserto e um porto, de carga em descarga, de partida em chegada. Sê honesto, íntegro, "sê inteiro". Falha como vences, vence com a humildade com que falhaste. Ama mais do que és amado: é a única assimetria aceitável. Sai de um porto com o cuidado que puseste para nele entrar.

Uma escala é uma escada, feita para subir e descer Não a deixes ficar horizontal.

17.11.19

Figuras literárias

Desorientado como um girassol num dia de chuva.

Não é verdade. Não estou desorientado como um girassol num dia de chuva. Quando muito, como essa simpática flor num planeta com quatro sóis.

Parcialmente falso: um desses sóis é mais forte do que os outros (três juntos? Não, mas).

Quatro sóis e um só girassol? Parece-me pouco mas sempre é melhor do que um sol e quatro desbocadas a dançarem à sua volta.

Talvez haja um anti-Sol, não sei. Mas existirá um anti-girassol? Como se manifesta - persegue a Lua?

O encantador de serpentes tocava flauta e um dia apercebeu-se de que o Sol lhe obedecia melhor do que as cobras. Transformou-se em girassol: na verdade, ao contrário do que se pensa, não é a planta que segue o astro, é este que lhe obedece.

Farsantes

Mostro Palma, "a minha Palma" e pergunto-me como posso ser eu um bom guia, que nunca fui bom turista? Tão-pouco fui bom amante, nota; não há dia, porém, que não reinvente a roda. Menos ainda fui bom homem e isso não me impede de viver. "On est tous des farceurs: on survit à nous-mêmes."

16.11.19

Mistérios, desertos e um traço-de-união

Mistérios: meandros desérticos, curvas assimptóticas, o sintomático medo do vazio. Não me toques, perde-te, enche-te, olha-me, encontra-me. Toca-me. Enche-me. Receia-te, me, nos. Algures no escuro abissal uma bolha luminosa e fria, pura, intocável. Afasta-me. Ama-te, me, nos. Pele, peles, pela-me, relâmpagos lentos, imóveis no ar desértico, azul de noite, azul escuro, olhos fechados, toca-me, foge-me. Entra-me por ti dentro, centro de nós. Universos simples e infinitos: tu, eu, o tempo que se recentra numa linha recta rodeada de curvas. Tendemos para o ínfimo arco de um rosto que conhecemos de cor, que reconhecemos ao toque: um ponto, um só e és toda tu que se forma, me forma, me faz.

Uma linha recta, serena atravessa o caos, fractal a fractal. Começou ontem, há mais de quarenta anos. Acaba quando acabarmos: amanhã, depois, nunca.

Pensa no solo húmido de uma cave, nos eléctricos que nos atravessam as palavras, a desfazerem-se felizes. Pensa no fremir de um dedo nos teus lábios. Esse dedo sou eu. Pensa num ventre acolhedor, em dois olhos gratos, no suspiro saciado de um momento ao longe. Pensa: esse momento somos nós e está quase a chegar. Uma ogiva perfeita, ocre: já não estamos no deserto, já não somos a luz que buscava um instante nas frechas obscuras e perdidas do tempo.

Tu és o sorriso ágil e leve do tempo e eu encontrei-te numa curva desse tempo, flutuante, límpida, clara, despida. És um traço-de-união plantado na areia.

15.11.19

O todo e a parte

"uma flor é uma flor é uma
                               flor é
                      uma floresta"

"árvore
é possível abraçá-la inteira
e não lembrar o que havia ali
no lugar dela"

"invento um       vento
a teu lado e         sinto
um ar alado        vindo
lentamente          alarido

invento um         vento
a teu lado e          sinto
um alarido          vindo
lentamente     ar alado

invento um        vento
a teu lado e         sinto
um ar alado        vindo
lentamente         lindo"

Celso Borges, in Carimbo Caminho.

(Se isto não é a coisa mais linda que li nas últimas cinquenta vidas não sei o que é. )

14.11.19

Equilíbrio inseguro

O amor, querida, é uma prancha de SUP com duas pessoas em cima: precisam de pagaiar as duas ao mesmo tempo e - sobretudo - de equilibrar os respectivos desequilíbrios. 

13.11.19

Uma pergunta

Onde acaba a liberdade de expressão? Não acaba. Onde acaba a obrigação de ouvirmos coisas das quais discordamos fundamental, essencialmente?

O anti-semitismo é para mim uma linha vermelha. Vou começar a proteger-me, a rodear-me de linhas vermelhas. Não é questão de mudar o mundo ou não mudar, de os outros serem idiotas ou não serem; mas sim de me proteger, de viver pacificamente o que me resta de vida.

Podem dizer o que quiserem; não podem é dizê-lo no meu espaço, na minha casa. Ou melhor: podem. Eu é que deixo de os convidar.

6.11.19

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 05-11-2019

É preciso ver o quadro: à minha esquerda, o mar. Ainda revolto, tem havido badanal e as vagas por vezes molham a ciclovia. Pouco. À minha frente, os mastros do STP: quatro, cinco níveis de vaus, iluminados, luzinhas encarnadas no galope. Um gajo não sabe bem se aquilo são as barras de uma prisão, se flechas para a liberdade e concentra-se na beleza, a simples beleza daquelas luzes brancas, quase transparentes. Os vaus a níveis diferentes dão ritmo à noite, fazem-me pensar no que lhes está por baixo. À minha direita, a catedral. Por cima, em frente e por trás o ar agora fresco, quase frío, refrescante e solto como o amor de uma mulher independente.

Chego a casa com uma furiosa vontade de ouvir as Vésperas de Rachmaninov pelo Corboz, mas não as encontro no Youcoiso. Também não encontro rum na cozinha. Não encontro nada, na verdade: ainda tenho os olhos cheios daquela catedral, daqueles mastros, daquele mar para o qual olhava de soslaio enquanto pedalava. Ainda tenho os olhos cheios desta Palma que em breve deixarei, saudades precoces como a ejaculação de um adolescente, felicidade composta (haverá outra)?

Não sei. Não quero saber. Mudo da Vésperas para os cânticos da Liturgie Slavonne pelos monges de Chevretogne e tenho vontade de matar o gajo que me ficou com os CD. Olhem para aqueles mastros como barras de uma prisão e para o mar, a prisão para o qual eles olham como se de liberdade se tratasse. É.

Sim, eu sei. Houve badanal, tem havido todos estes últimos dias. Isto está um bocado mexido.

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O quarto está cada dia melhor. Qualquer dia terei de levar esta merda toda para Mértola e voltar à vida leve do mar. Já lá vão quase dois anos desde a última vez que pisei o tapete azul. Tinha a catedral na proa, nesse dia, não à direita.

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É demasiado tarde para ir beber rum ao Antiquari. (É uma pergunta, não uma afirmação.)

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Sou ateu desde os onze anos, desde que troquei as missas dominicais pela vela, faz agora cinquenta e um anos. Penso nisto cada vez que oiço música sacra como esta e me encho, incho, finjo que não é nada comigo. Sim,  Deus é só uma palavra diferente para designar outra coisa qualquer, uma coisa que se poderia chamar Mistérios, Tempo, Vida, Morte, Mastros à Frente de uma Catedral, Livros bem Escritos. Resumir tudo isso a uma só palavra simplifica - e conforta, se à angústia também se puder chamar conforto.

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O dia começou às sete e meia da manhã e teima em não terminar. Abri uma garrafa de Habla la Tierra. Esta mistura de bom vinho tinto e música sacra vai dissolvê-lo como o ácido dissolvia as personagens do Roger Rabbit.

A vida devia ser uma mistura de vinho tinto, rum e trabalho. Pena que depois venham tantas coisas estranhas misturar-se-lhe.

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Descobri um poeta espanhol chamado Miguel Hernandez. Diz coisas assim:

«No sé por qué, no sé por qué ni cómo,
me perdono la vida cada dia.»

O homem era amigo de Vicente Aleixandre:

«Cuerpo feliz que fluye entre mis manos,
rostro amado donde contemplo el mundo

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Habla la Tierra e falam os cânticos da liturgia eslava. Há melhor definição de Deus?

Há: vida.

4.11.19

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 03-11-2019

Palma-a-suave, Palma-a-que-se-deixa-acariciar-se-lhe-souberes-falar-mas-só-se-lhe-souberes-falar, Palma-a-que-sabe-que te-vais-embora-e-finge-que-não sabe, Palma-a-que-nunca-te-dirá-que-te-ama-por-muito-que-te-ame, Palma-a-que-te-dirá-«até já»-como-se-fosses-à-padaria-comprar-croissants porque para ela dez minutos ou mil anos são a mesma coisa...

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«Um bom escritor é aquele que acredita na inteligência dos seus leitores», disse não sei quem. Talvez  por isso fico feliz quando descubro pelo menos um leitor que percebe o que escrevo. Curiosamente, tudo leva a crer que encontrei quem me percebe viver e o prazer é quase o mesmo.

Admitidamente não é a primeira vez, mas é sempre como se fosse.

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O livro, o P., Mértola... A minha vida parece a cara de um adolescente cheia de borbulhas prontas a rebentar.

3.11.19

Espumas

Admito que isto possa ser visto como uma tragédia, mas na verdade a espuma da cerveja interessa-me muito mais do que a dos dias.

2.11.19

Pausas

Há vírgulas a mais em Portugal. Somos um país cheio de pausas.