21.10.14

Almoço improvisado - Lulas no forno

Para o fundo de uma travessa de barro foi azeite e um bocadinho de óleo de sésamo,  cebola cortada às rodelas finas, três dentes de alho en chemise, outras tantas folhas de louro, seis lulas cortadas às rodelas e respectivas patinhas,  tão bonitas e tão boas,  um bocadinho de vinho branco e um bom molho de coentros picados fino.

Tudo isto foi polvilhado com sal, pimenta, paprika, cominhos secos e misturado, muito bem.

Depois foi tudo para o forno a cento e cinquenta graus e por lá ficou "até estar cozido", como dizia a minha Mãe quando me dava uma receita.

Diário de Bordos - Lisboa, 21-10-2014

Poesia e vinho na sexta, jazz no domingo, poesia e moda na segunda. Lisboa não está para quem gosta simultaneamente de arte e de descanso. Está para quem gosta de arte e de viver; e de civilização. E para quem gosta de percorrer ruas que o conhecem.

Eu gosto e acorro, apesar de também gostar de descanso e de me deitar cedo.

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Poesia e moda: a poesia é séria, a moda frívola e nunca os dois se encontrarão, como o Este e o Oeste de Rudyard Kipling?

Não sei. A frivolidade é tão séria como a seriedade, tão importante e necessária. Poucos foram os poemas bem escolhidos. Fernanda Câncio mostrou o lado seco e eficaz da inteligência; Manuel João Vieira o alegre, humorístico, leve. O bom, em suma. E mais produtivo; ou proveitoso. Mas isso é outra história. A verdade é que uma das coisas que me levou hoje ao Povo foi a dificuldade do tema. Ou seja: a sua irresistibilidade.

Dos outros pouco se salva: uma actriz não sabe que a poesia se escreve de uma forma e lê de outra, diferente; uma poeta - por sinal muito bonita, o que para o caso é irrelevante mas não desagradável - acha que a poesia deve ser profunda. O vazio é palavroso sempre e às vezes denso. De certa forma compreende-se: vazio é um dos antónimos de silêncio e este dispensa bem o excesso de palavras, a profundidade; e outros efeitos.

Declamar poesia é uma das formas de a desprezar - caso o declamador a compreenda, claro -; se não é simplesmente uma forma de incompreensão.

A poesia naïve esteve notoriamente ausente, graças a Deus.

Depois dos convidados houve um "microfone aberto": globalmente melhor do que o microfone fechado. Ao fim e ao cabo penso na noite, oiço Manuel João Vieira e penso "Que grande noite de talento". E foi. Na próxima estarei lá caído, coisa que me inquieta: já andava à espera dos domingos. Agora das segundas. E amanhã?

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Um dos poemas da noite. Descobri-o hoje, pela voz de Fernanda Câncio. Escolheu o desejo como eixo de abordagem da moda e escolheu poemas bons. Leu-os bem, se bem sem alma, sem verve, sem humor.


To Helena

Acabo de inventar um novo advérbio: helenamente
A maneira mais triste de se estar contente
a de estar mais sozinho em meio de mais gente
de mais tarde saber alguma coisa antecipadamente
Emotiva atitude de quem age friamente
inalterável forma de se ser sempre diferente
maneira mais complexa de viver mais simplesmente
de ser-se o mesmo sempre e ser surpreendente
de estar num sítio tanto mais se mais ausente
e mais ausente estar se mais presente
de mais perto se estar se mais distante
de sentir mais o frio em tempo quente
O modo mais saudável de se estar doente
de se ser verdadeiro e revelar-se que se mente
de mentir muito verdadeiramente
de dizer a verdade falsamente
de se mostrar profundo superficialmente
de ser-se o mais real sendo aparente
de menos agredir mais agressivamente
de ser-se singular se mais corrente
e mais contraditório quanto mais coerente
A via enviesada para ir-se em frente
a treda actuação de quem actua lealmente
e é tão impassível como comovente
O modo mais precário de ser mais permanente
de tentar tanto mais quanto menos se tente
de ser pacífico e ao mesmo tempo combatente
de estar mais no passado se mais no presente
de não se ter ninguém e ter em cada homem um parente
de ser tão insensível como quem mais sente
de melhor se curvar se altivamente
de perder a cabeça mas serenamente
de tudo perdoar e todos justiçar dente por dente
de tanto desistir e de ser tão constante
de articular melhor sendo menos fluente
e fazer maior mal quando se está mais inocente
É sob aspecto frágil revelar-se resistente
é para interessar-se ser indiferente
Quando helena recusa é que consente
se tão pouco perdoa é por ser indulgente
baixa os olhos se quer ser insolente
Ninguém é tão inconscientemente consciente
tão inconsequentemente consequente
Se em tantos dons abunda é por ser indigente
e só convence assim por não ser muito convincente
e melhor fundamenta o mais insubsistente
Acabo de inventar um novo advérbio: helenamente
O mar a terra o fumo a pedra simultaneamente

Ruy Belo

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E que tal Lisboamente? Lisboa na mente? Lis mente, como em felizmente?

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Falar de moda é falar de incompreensão, de incapacidade, de solidão; de estar ao lado, estar de fora, estar na margem.

Sem ela que seria de nós?

20.10.14

Diário de Bordos - Lisboa, 20-10-2014

Ontem fui ao Café Tati ouvir jazz, beber vinho tinto e, se Deus tivesse querido, engrossar-me. Infelizmente não consegui. Cheguei a uma idade em que só me engrosso quando quero, mas nem sempre consigo apesar de querer.

Talvez no fundo não o desejasse suficientemente; talvez não precisasse.

O almoço foi bom, leve, fácil,  num restaurante da margem sul à beira rio. Daqueles de onde Lisboa parece uma aldeia de brincar e o Tejo uma catedral gótica da qual as torres escorrem para o céu em vez de subirem.

O jazz veio depois.

As jam são lideradas por Gonçalo Marques, um líder seguro, conhecedor,  atento. Do grupo habitual faz parte um contrabaixo, uma guitarra, uma bateria e um sax (não me lembro dos nomes de cada um deles). São todos bons, mas tenho uma atracção especial pelo baixo e pelo sax.

Em Genebra havia um gajo que tocava sax assim. Ouvia-se-lhe a primeira linha e pensava-se "Este gajo toca como um deus".

O de hoje é quase a mesma coisa, com uma diferença ou duas: tem frases mais curtas, mais secas (se bem nunca abruptas); e está muito cheio de si próprio. Precisa de aprender a esquecer-se um bocadinho.

A última vez que ouvi  o saxofonista de Genebra foi numa festa no jardim da Universidade. Era um ambiente triste, glauco; a festa estava praticamente vazia. Ainda tenho fotografias dessa noite, indizivelmente tristes. Perguntei-lhe (isto passou-se largos anos depois de o ter ouvido pela primeira vez. Ele continuava tão conhecido apenas de um círculo restrito de pessoas como sempre fora) porque continuava no anonimato tão completo. "Bof. Je m'en fous d´être connu. C'est pas mon truc" respondeu e encolheu os ombros. Não me lembro do nome, mas ainda me lembro do seu jogo longo, arrastado (mas não meloso), como se dialogasse com aquele deus que claramente o habitava - pelo menos quando tocava saxofone - e lhe dissesse "Je m'en fous. Ils ne sont pas mon truc".

O saxofonista que ontem ouvi no café Tati toca como um deus, mas ainda não fala com ele. Está demasiado ocupado a ouvir-se.

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Ouvi o Gonçalo falar com alguns dos músicos, antes da sessão começar. Fá maior, dó, fá maior, etc. (estou a inventar, não vão pensar que transcrevi uma composição qualquer). A minha perplexidade é a mesma do que a dele, provavelmente, se ouvisse um grupo de marinheiros comentar uma manobra. Com duas diferenças: nós temos mais notas, e somos menos generosos: as emoções que elas suscitam não são partilháveis.

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Quem vive em Lisboa e não gosta de domingos devia considerar seriamente vir ao Tati às cinco da tarde desses dias fatais. Aposto que muda rapidamente de opinião e começa, como eu, a pedir que o próximo venha depressa.

O que teria sido preciso fazer em Lisboa há trinta anos para ouvir jazz assim? Apanhar um avião para Nova Iorque.

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Ontem fui comprar flores ao mercado da Ribeira, para oferecer a uma senhora que vi chorar. Não gosto de ver senhoras chorar, apesar de ter uma certa inveja: se eu tivesse chorado cada vez que uma delas o quis teria os olhos mais bonitos do universo.

Enfim.

A verdade é que vi-a chorar e fui ao Mercado fazer qualquer coisa e passei à frente da loja de flores e comprei um ramo de já não sei o quê. Por detrás de seja qual for a razão que faz uma senhora chorar está sempre, inescapável, inelutavelmente uma injustiça.

As flores não servem apenas para combater injustiças, claro. Também servem para as prevenir ou, mais prosaicamente, para dar cor e natureza a uma casa; ou para mostrarmos a uma senhora que ela nos marcou, e que temos bom gosto.

Servem para tudo, as flores. Até para as oferecermos a nós próprios, nos dias em não há injustiças perto, ou senhoras que mereçam ser lembradas.

19.10.14

Imperfeições

A vida é feita de imperfeições. O que nos define - e distingue - é a forma como lidamos com elas.

As nossas ou as dos outros.

15.10.14

Peles e lástima

É lamentável,  mas debaixo de cada pele só há lugar para um.

14.10.14

Diacronias

Nunca te dás, nunca te deste,  diz-me S., que me conhece como se me tivesse feito.

Não é verdade. Dou-me diacronicamente,  é tudo. Tal como vivo, de resto.

Venenos, espelhos

De espelhos percebo pouco. Mal olho para eles. De venenos gosto e sei. Agrada-me a ideia de morrer devagar. Adiar a morte.  Morrer de viver. Não há veneno como a vida. É o melhor deles todos, o mais eficaz.

Um corpo feminino é um veneno para o qual há antídotos. Para uma mente feminina não. Por mente feminina entendo célere, agreste, cáustica,  independente,  aguda, irónica, autónoma.

Um corpo feminino é bonito quando é amado ou ignorado pela mente que o governa. Um corpo feminino que se pensa e vê é um veneno.  E o antídoto não é uma mente, é a distância.

É difícil mas necessário aprender a distinguir venenos.

13.10.14

Lisboa, Costa e a excitação

A Rua das Pretas parece um rio. Lisboa é uma cidade excitante. Quem quer tirar António Costa da câmara?

Lisboa, Sociedade de Geografia

Se Deus existisse viveria em Lisboa; está mais ou menos estabelecido. E almoçaria todos os dias na Sociedade de Geografia. Isso não está, felizmente.

Morte, vidas

Já morri muitas vezes e não me importo nada de morrer mais algumas - desde que sobreviva, claro -.

A primeira foi na Rússia, num navio graneleiro que se estava a afundar numa água na qual não sobreviveríamos mais de dois minutos. Não tínhamos baleeiras, o frio era tanto que os turcos e respectivas talhas estavam congelados.

A última foi no Brasil, há quatro anos, para safar um barco que trazia a reboque meio afundado e cujo cabo de reboque partiu na entrada de um porto.

Aborrece-me falar da morte. É muito chata, nunca mais acaba. Prefiro falar das vidas: mudam, acabam, recomeçam, têm altos e baixos e fins e princípios.

Das vezes em que não morri: quando apanhei um ciclone a trezentas ou quatrocentas milhas da Martinique, por exemplo. Foram três dias, mas nunca tive a sensação de que ia morrer. O bote estava a aguentar-se, a tripulação unida e confiante.

Ou a segunda evacuação de Kindu, uma cidade no Leste do Congo que foi tomada pelas forças de Kabyla pai. Já por aqui contei a história, creio. Também desta vez não me pareceu que podia morrer. O exército zairense estava mais interessado em pilhar do que em matar fosse quem fosse.

Ressentimento

Não há ódios a posteriori. O ressentimento é o ódio do ressentido por si próprio que se enganou de alvo.

12.10.14

Carta aberta ao Meritíssimo Juiz

Meritíssimo Senhor Doutor Juiz,

Preciso de começar pelo essencial: não lhe escrevo esta carta para lhe pedir leniência. Quero ser julgado com rigor e objectividade. Porém não poderá julgar-me se não tiver todos os elementos em mão.

Nunca os terá completos, eu sei. Somos um puzzle (uns com mais outros com menos peças) do qual nunca se conhecerá o fim; que nunca - nem na morte - se verá feito e inteiro. Mas quanto menos peças faltarem mais fácil será a sua tarefa e justa a decisão.

O Meritíssimo Juiz não me perceberá talvez se eu lhe disser que mais do que conhecer cada rua desta cidade são elas, as ruas que me conhecem. Algumas mais do que outras, claro. Mas elas conhecem-me. Pelo nome - chamo-me António, como sabe - e pelo feitio, que não é fácil, reconheço.

Algumas ruas desta cidade conhecem-me como se me tivessem feito. E não é pelo andar: não ando sempre da mesma maneira. Por vezes tenho o andar um bocadinho bamboleante do marinheiro; outras, o andar muito bamboleante do homem bêbedo; outras ainda ando sóbrio, mas apressado, como os homens que têm um objectivo na vida e não o querem fazer esperar.

A minha maneira de andar varia muito, Meritíssimo Juiz. Não é por isso que as ruas me conhecem.

É porque já as calcorreei milhares de vezes, quase sempre sozinho e às vezes - raramente-  acompanhado. Algumas, claro, Nem todas.

Por exemplo a rua onde esta desgraça aconteceu é das que mais vezes percorri - a correr para apanhar o último comboio, a subir depressa para fazer exercício, a andar devagar para ver cada uma das casas, a andar depressa porque é tarde e tenho de ir para casa -.

Desgraça é o termo adequado.

Imagine, Meritíssimo Juiz, que mal pus um pé na Rua do Alecrim ouvi uma pedra da calçada dizer para outra "Olha, vem aí o palerma do António". "Quem?" "Pá, o António das fisgas".

Ouvi este diálogo, Meritíssimo - juro-lhe - logo no princípio da rua. E fui-o ouvindo o caminho todo.

- Está sóbrio?
- Parece que sim.
- É aquele palerma que passa por aqui todos os dias?
- É. O gajo que a mulher deixou faz em Outubro um ano.
- Só me pergunto como é que ela o aguentou tanto tempo. A senhora tinha um aspecto impecável, lembras-te?
- Pouco. Nunca o gramei muito.
- Claro. Era um imbecil. Ainda é, ao que vejo.

Chamo-me António, como tão bem sabe, Meritíssimo Juiz.

Acredite: não ligo nenhuima aos insultos frequentes, variados, absurdos que me fazem. Estou-me nas tintas. As fisgas não dão muito dinheiro e esse gasto-o em livros, discos e vinho. O que os outros pensam interessa-me pouco - excepto, claro, se daí puder aprender alguma coisa -; o que pensam de mim é-me total, quase dolorosamente indiferente. Aliás nem me apercebi logo de que era de mim que estavam a falar. Acontece frequentemente eu não ouvir o que dizem à minha volta. A Ana, minha ex-mulher, chamava-me arrogante, desinteressado, ausente - dependia um bocadinho do seu humor.

Mas pedras da calçada, Meritíssimo? Pedras da calçada a falarem de mim e a dizerem coisas com as quais no fundo concordo? Pedras da calçada que me conhecem desde que vim viver para Lisboa, vai para quarenta anos?

Há quarenta anos que faço fisgas, Senhor Doutor Juiz. E ainda não apanhei um pássaro que se veja.  Ou se é zarolho ou se é palerma, não acha? Como não sou zarolho... Q.E.D.

Enfim, regressemos à história: ouvi o primeiro comentário e não liguei. Foi logo mal pus o pé na rua do Alecrim. Vinha do Cais do Sodré e ia para o Rato. Esse e o trajecto entre o Cais do Sodré e o Rossio são os que mais fiz na vida. É por isso que as pedras da calçada me conhecem tão bem.

- Olha o palerma do gajo das fisgas.
- Bolas, já não lhe posso ver as solas.
- Pelo menos hoje não são as que têm buracos.
- Lembras-te daquela vez em que ele descobriu que tinha um buraco na sola porque começou a chover e molhou as meias?
- Se lembro. Ficou especado aqui mesmo ao meu lado, apoiado naquele portão...

Diálogos como este em plena rua do Alecrim, Senhor Doutor Juiz. Falavam das solas do sapatos - lembro-me perfeitamente desse dia: a sola tinha um buraco enorme, e eu não sabia, não tinha dado por ele. Começou a chover e claro, fiquei com a meia toda molhada e em pânico. Ia para uma reunião importante - um clube de caçadores com fisgas queria fazer uma encomenda grande - e eu ali especado, com um buraco na sola, a meia molhada... Enfim, lá acabei por acalmar. No caminho comprei um par de meias e mesmo antes de entrar para a reunião tirei umas e pus as outras e ninguém deu por nada -. Falavam de um dia em que vomitei na rua. E não foi por ter bebido, mas isso claro que nem vale a pena dizer, ninguém acredita. E verdade seja dita: quantas vezes não vomitei eu na rua por estar bêbedo?

Não sou nem estou maluco, Senhor Doutor Meritíssimo. Ouvia perfeitamente os comentários que as pedras faziam. Era o único, pelo que me apercebi. E se ouvissem? Ser-me-ia indiferente. Quem, naquela rua, sabe que sou o António das fisgas?

Mas não é fácil. Eu sei que não tenho um feitio muito bom. Aliás é por isso que as mulheres me deixam todas, umas a seguir às outras. Sou chato, teimoso, casmurro, às vezes mau com elas. Mas nunca, nunca, toquei numa mulher para lhe bater, Senhor Doutor. Sou contra a violência.

Por isso não percebo como consegui fazer o que fiz. É verdade que a vida não me tem corrido bem, ultimamente: desde que a Ana se foi embora tudo tem vindo por aí abaixo, tudo. Uma derrocada. Mas daí a matar um homem vai um passo que eu nunca pensei seria capaz de dar.

Vinha de baixo, da Praça Duque da Tereceira, como lhe disse. Ainda não ia a meio da rua do Alecrim já me parecia que a cabeça ia explodir. Reparei que as pessoas olhavam para mim desconfiadas: estava a tentar silenciar as pedras da calçada pisando-as com o talão dos sapatos. Como lhe disse sou relativamente indiferente ao que os outros pensam de mim. Mas a verdade é que aqueles olhares foram mais uma acha na fogueira.

Que fique claro, Senhor Doutor Juiz: tal com não sou nem estou maluco não sou estrangeiro ou revoltado. S!ou um cidadão calmo, pacato, que vive um pouco à margem da sociedade, mas não à margem da lei. Acredito na lei e nos efeitos benévolos da civilização.

Não acredito em Rousseau nem em bons selvagens. Os meus pais educaram-me correctamente. Estou longe de ser o melhor fabricante de fisgas do mundo mas estou igualmente longe de ser o pior.

Não sei o que me passou pela cabeça quando o preto me olhou de lado e esboçou um sorriso. Não sou racista, repare. Digo o preto como podia dizer o homem, ou o gordo, ou baixinho ou seja o que for. Enfim: não sei o que me passou pela cabeça quando o homem me olhou de lado e esboçou um sorriso.

Foi por isto, Senhor Doutor Juiz, que dei cabo dele. Não queria matá-lo, juro. Não queria sequer bater-lhe! Mas algo saltou nesta cabeça e enchi-o de murros e pontapés e acabei a dar-lhe com a cabeça nas pedras da calçada, a ver se as calava a elas, ou a ele. Não sei.

Não era eu que estava a bater no homem, Senhor Doutor Juiz. Eram quarenta anos de fisgas que não levam a lado nenhum, eram dez mulheres que me deixaram sem qualquer explicação - a última foi a Ana, Senhor Doutor, uma rapariga doce, tímida, bem educada que um dia pega nas suas coisas e me diz: Vou-me embora e foi, sem um adeus, um beijo, uma explicação. Vou-me embora.

As desgraças são para levar até ao fim: metade de uma desgraça é uma graça. "Um homem", dizem no Brasil, "ou se trata ou se mata". Mas nada disto me fez matar o senhor, coitado. Nada.

Não fui eu, Senhor Doutor Juiz quem matou o preto. Foram as minhas mãos e os meus pés, mas não a minha cabeça nem a minha vontade. Nem o sol. Foram as pedras da calçada, Senhor Doutor Juiz.

10.10.14

Resumos

I (28.01.2011)

Dia 10 de Outubro [de 2010] apanhei um avião da TACV para ir ao Brasil buscar uma embarcação de vela; a qual devia levar de seguida para Portugal, fazendo assim uma viagem com a qual sonho há muito tempo: atravessar o Atlântico (à vela) no sentido Oeste - Leste. Por razões diversas essa viagem atrasou-se e, em vez de regressar à Europa e lá esperar que o barco ficasse pronto resolvi vir para as Caraíbas - realizando assim um outro sonho, ainda mais antigo: vir por terra do Brasil à Guiana Francesa.

Escolhi viajar como "antigamente": camionetes, pensões baratas (podia haver uma vírgula entre "pensões" e "baratas") e, sobretudo, a passagem mágica de barco entre Belém do Pará e Macapá - 24 horas pelo delta do Amazonas que  só elas justificam não ter voltado para Lisboa.

A ideia original era chegar a Trinidade e aí embarcar para as Antilhas; mais uma vez por razões diversas acabei por apanhar um avião e vir directamente para a Martinique, onde não vinha há 27 anos.

A partir do Marin - o porto no sul da Martinique para onde se transferiram todas as actividades da náutica de recreio desta ilha - embarquei algumas vezes (não tantas quanto teria desejado), conheci ilhas como St. Kitts e St. Martin, voltei a Grenada, onde estive pela primeira vez em 2004, encontrei pessoas com quem liguei laços de amizade fortes.

Hoje estou de novo no Marin, onde espero conseguir uma equivalência entre o meu curso e as exigências da legislação francesa; tenho um círculo de amigos e uma vida social; actualizei os meus conhecimentos sobre o mercado do aluguer de embarcações de recreio. Daqui a três semanas começo um trabalho de skipper que vai ser o culminar desta experiência. Uma vez terminado esse serviço regresso ao Brasil para ir buscar a embarcação que me fez, em Outubro de 2010, apanhar uma avião da TACV, ver uma jovem senhora no aeroporto do Sal que parecia saída de um livro do Corto Maltese e trazia ao peito um badge que dizia "Temporário", para o qual todos os homens olhavam como se fosse uma promessa e não uma informação, dormir num backpackers de Belém onde conheci duas alemãs que davam aulas na Universidade local sobre "climate changes" (não sabia que já era tema de aulas nas Universidades), comprar um hamac para dormir no barco entre Belém e Macapá, aborrecer-me mortalmente em Cayenne, apanhar um arraial de pancada entre Grenada e Bequia num catamaran de 40', viajar num super-iate de 82' entre o Marin e St. Martin, conhecer uma velejadora solitária de 66 anos, um skipper filipino de 33, um casal dono de um pequeno teatro em Avignon, um francês cuja única actividade na vida parece ser construir um muro à sua volta para se refugiar sabe Deus de quê, um tipo que atravessa o Equador pelo menos duas vezes por semana e não sabe o que é o Equador, e, sobretudo, descobrir que ao contrário do que pensava não perdi a capacidade de ser feliz.

Uma linha recta talvez seja o caminho mais curto entre dois pontos; não é de certeza o melhor.

II (08.02.2012)

Escrevi este texto em faz hoje pouco mais de um ano. Afinal não voltei ao Brasil "uma vez terminado esse serviço": vou amanhã. Muitas coisas aconteceram nos doze meses e poucos dias que vivi desde então.

Utilizo o verbo viver propositadamente: depois de ter escrito aquelas linhas arranjei muitos mais "serviços" de skipper; conheci uma jovem (não é fórmula) senhora com quem, todas as coisas bem pesadas, me vou casar, um dia; desesperei: estive quase,  e por várias vezes, a deixar cair o projecto do Brasil, que me condicionou desde que naquele dia de Outubro apanhei o avião; fui infeliz, muito, nos meses de Verão que passei em Portugal e voltei a ser feliz, muito mais do que fui infeliz, nos meses que passei em Antigua; tive comigo a minha filha, dois meses e meio nos quais navegámos duas mil e quinhentas milhas, viagens inesquecíveis que moldarão, tenho a certeza, toda a nossa relação daqui para a frente. Provei cerveja colombiana e a simpatia daquele povo; passei quinze dias à bolina cerrada (o meu recorde até agora); fui rebocado pela primeira vez na vida para um porto por causa de uma avaria, vivi num sítio magnífico em Falmouth Harbour; deixo - pela primeira vez em muitos anos - um país com pena de o deixar.

Se isto não é viver não sei o que viver é.

Ou melhor, sei: é o que me espera. O objectivo é  simples: entregar o barco aos (agora) armadores como gostaria de o ter feito em 2010. Isto significa organizar um reboque de 200 milhas (é pouco, mas é contra o vento e a corrente e não vai ser simples); preparar o barco a minima para uma viagem de 1700 milhas até Grenada (é muito, mas é com vento e corrente a favor, vai ser simples); supervisionar os acabamentos em Grenada, uma ilha de que gosto quase tanto como gosto de Bequia. Quatro meses apaixonantes, quatro meses para fechar um círculo que se abriu há mais de quinze, antes da minha partida de Lisboa. Depois não sei. Um novo círculo começará, uma nova etapa.

A vida é uma sequência de portas que se fecham e portas que se abrem. O importante é fazer com que não fiquem portas mal fechadas para trás, e que se as abram bem abertas para a frente.


III (10.10.2013)

Pela primeira vez escrevo este resumo no dia de aniversário. Devia ser uma norma, daqui para a frente. É curioso ver o que as coisas podem mudar no espaço de um ou dois anos, e ver o que delas fica.

Não me casei com a jovem senhora, uma decisão que agora me parece acertada, por muito errada que tenha sido a forma como a tomei; fiz a viagem de quase 200 milhas a reboque de uma embarcação de pesca, uma das viagens da minha vida, que merecia um dia ser contada por quem saiba escrever; não acompanhei a construção do barco que ficou em S. Luis.

Atravessei o Atlântico no sentido Oeste - Este, com o prémio de o ter feito num barco magnífico; conheci Palma, pela qual me enamorei desde e para sempre; fiquei sem gasóleo, por azelhice, poucas milhas antes de Denia; fiz uma travessia de Denia para Mallorca que me ficará, para sempre, no coração; descobri a sobrasada, atravessei o canal do Panamá - uma travessia que começou no dia do nonagésimo nono aniversário do canal e acabou cinco dias depois, a reboque - e tomei algumas das piores decisões da minha vida. 

Decisões essas que me levaram a uma provação como não pensava ser capaz de viver, da qual agora saio, mais forte e melhor; como um homem que acaba de atravessar o deserto e já bebeu água e descansou (ainda não bebi água nem descansei tudo, mas está quase). Descubro com o prazer de sempre que alguns dos meus preconceitos - assumindo que tudo o que pensamos se transforma inevitavelmente num preconceito, e se não se transformar não foi suficientemente bem pensado - estavam errados. Os meus preconceitos sobre a fidelidade, a necessidade (ou utilidade, melhor dizendo) de construir muros à nossa volta, a prioridade do trabalho sobre a vida afectiva mudaram. O meu conceito de amizade sofreu um ajustamento bastante necessário; descobri que a minha vida de skipper está mais perto do fim do que jamais teria pensado. Tornei-me - sem querer - armador de uma embarcação à qual dei o nome da minha filha e da qual cada dia gosto um bocadinho mais, inesperadamente.

Vou, enfim, regressar às ilhas que tanto são a minha casa, todas elas: Palma, Antigua, St. Lucia, St. Martin; arrepio-me à ideia de que voltarei um dia a S. Luís, cidade (e país) que detesto particularmente; continuo a acreditar que as portas se devem fechar bem fechadas.

E, muito mais do que tudo, acima de tudo, confirmo que ao contrário do que pensei (e quase desejei, este ano) não perdi a capacidade de ser feliz.


IV - (10-10-2014)

Faz hoje quatro anos saí de Lisboa para o Brasil buscar uma embarcação de vela. A embarcação - um catamaran de quarenta e três pés construído em madeira - não estava pronta; afundou-se no dia em que foi posto na água; quase perdi a vida para a salvar.

Deixei-o na cidade para onde tinha voado e lá ficou dois anos, durante os quais fui por terra para a Guiana Francesa - uma viagem inesquecível que me relembrou que o mar não é a única forma de se viajar, naveguei nas Caraíbas e fui feliz como há muito tempo não o era.

Regressei a essa cidade - Parnaíba, no estado do Piauí, uma espécie de buraco no qual a cada esquina se espera ver um coronel do antigamente de pistola à cintura, bigodes e chapéu, cavalo e amante - dois anos depois para ir buscar o barco e levá-lo para S. Luís. Mais uma viagem que vai para a estante das viagens irrepetíveis. Quatro dias a reboque de uma embarcação de pesca, primeiro pelo mar depois por uma baía que é dos sítios mais lindos que vi em toda a minha vida.

Téu-téu - "um homem honesto como não há dois", dizia-me Pelé, a quem eu contratara o reboque. "O senhor deixa dez mil reais em cima da mesa e ele não lhes toca. O negócio dele é furar pessoa" e fazia o gesto de me espetar uma faca na barriga; Chaguinha, tão pequeno como o outro era grande, que governava dez horas por dia com a facilidade e o sorriso com que eu bebo um copo de vinho; Pelé, ex-contrabandista que "só conhecia os portos onde não há autoridades. Os que têm não conheço, nunca lá entrei de barco"; o piloto que metemos para nos ajudar a chegar a S. Luís e que descobrimos que não ia lá havia "mais de quarenta anos". Foi uma viagem maravilhosa, apesar da chuva dentro do barco, das sessões de bomba, da comida pouco apetecível que eles faziam em quantidades gargantuescas e devoram da mesma forma.

A esta viagem seguiu-se outro interregno de dois anos durante os quais atravessei o Atlântico duas vezes, vivi em Palma de Maiorca, de onde levei um barco a motor para a Holanda, fiz uma viagem sublime de S. Francisco, na Califórnia, para o Panamá, onde vivi durante um ano. E fui infeliz, muito. Apesar da viagem pela costa Oeste do continente americano, que me deu a ver mais vida marinha do que outra qualquer, apesar da tripulação magnífica, apesar das duas semanas em Napa Valley, numa marina que cheirava a estrume de vaca e parecia uma peça de Lego que alguém esquecera fora do armário, apesar de tudo, e tudo podia ter sido tão bom. Não foi. Foi. Não foi. Foi.

Este ano voltei de novo ao Brasil, de novo a S. Luís, cidade que detesto particularmente. A construção do barco avançou, mas mais devagar do que eu esperava. A principal característica de quem quer que seja que trabalhe com embarcações - todas, sejam elas à vela, a motor, de recreio ou não - é estar preparado para surpresas. Há quem chame flexibilidade a esta qualidade. Ou adaptabilidade. Ou pragmatismo. Um marinheiro sabe desde que nasceu - desde que os barcos existem - que se quer ir para Norte e o vento está norte pouco há a fazer senão adaptar-se. Vociferar contra o vento, as correntes (ou as mulheres) de pouco serve, ou nada.

Agora estou em Lisboa. Preparo-me tranquila, lentamente, para mudar de vida. É uma perspectiva que me assusta, que não me acolhe de braços abertos. Hesito. A dois anos de felicidade seguiram-se dois de tristeza profunda; quero ter a certeza de que não me engano de novo.

Não sei. Penso nos amigos que fiz em S. Luis, com quem em breve jantarei de novo e declamarei poesia nas ruas da cidade. Penso no mar das Caraíbas, que não serei capaz de deixar, a quem sou indiferente - todos somos indiferentes a todos os mares. Têm mais com que se ocupar, os oceanos, do que com as pessoas inquietas e desassossegadas que insistem em atravessá-los como se do outro lado fossem encontrar coisas e pessoas diferentes das que deixaram, ou eram quando partiram.

Continuo a não ser capaz de me preocupar muito com o futuro: o passado e o presente chegam para me encher os dias e as noites.

Preciso violentamente de mar. Preciso violentamente de mim.

Resumo - IV

Faz hoje quatro anos saí de Lisboa para o Brasil buscar uma embarcação de vela. A embarcação - um catamaran de quarenta e três pés construído em madeira - não estava pronta; afundou-se no dia em que foi posto na água; quase perdi a vida para a salvar.

Deixei-o na cidade para onde tinha voado e lá ficou dois anos, durante os quais fui por terra para a Guiana Francesa - uma viagem inesquecível que me relembrou que o mar não é a única forma de se viajar, naveguei nas Caraíbas e fui feliz como há muito tempo não o era.

Regressei a essa cidade - Parnaíba, no estado do Piauí, uma espécie de buraco no qual a cada esquina se espera ver um coronel do antigamente de pistola à cintura, bigodes e chapéu, cavalo e amante - dois anos depois para ir buscar o barco e levá-lo para S. Luís. Mais uma viagem que vai para a estante das viagens irrepetíveis. Quatro dias a reboque de uma embarcação de pesca, primeiro pelo mar depois por uma baía que é dos sítios mais lindos que vi em toda a minha vida.

Téu-téu - "um homem honesto como não há dois", dizia-me Pelé, a quem eu contratara o reboque. "O senhor deixa dez mil reais em cima da mesa e ele não lhes toca. O negócio dele é furar pessoa" e fazia o gesto de me espetar uma faca na barriga; Chaguinha, tão pequeno como o outro era grande, que governava dez horas por dia com a facilidade e o sorriso com que eu bebo um copo de vinho; Pelé, ex-contrabandista que "só conhecia os portos onde não há autoridades. Os que têm não conheço, nunca lá entrei de barco"; o piloto que metemos para nos ajudar a chegar a S. Luís e que descobrimos que não ia lá havia "mais de quarenta anos". Foi uma viagem maravilhosa, apesar da chuva dentro do barco, das sessões de bomba, da comida pouco apetecível que eles faziam em quantidades gargantuescas e devoram da mesma forma.

A esta viagem seguiu-se outro interregno de dois anos durante os quais atravessei o Atlântico duas vezes, vivi em Palma de Maiorca, de onde levei um barco a motor para a Holanda, fiz uma viagem sublime de S. Francisco, na Califórnia, para o Panamá, onde vivi durante um ano. E fui infeliz, muito. Apesar da viagem pela costa Oeste do continente americano, que me deu a ver mais vida marinha do que outra qualquer, apesar da tripulação magnífica, apesar das duas semanas em Napa Valley, numa marina que cheirava a estrume de vaca e parecia uma peça de Lego que alguém esquecera fora do armário, apesar de tudo, e tudo podia ter sido tão bom. Não foi. Foi. Não foi. Foi.

Este ano voltei de novo ao Brasil, de novo a S. Luís, cidade que detesto particularmente. A construção do barco avançou, mas mais devagar do que eu esperava. A principal característica de quem quer que seja que trabalhe com embarcações - todas, sejam elas à vela, a motor, de recreio ou não - é estar preparado para surpresas. Há quem chame flexibilidade a esta qualidade. Ou adaptabilidade. Ou pragmatismo. Um marinheiro sabe desde que nasceu - desde que os barcos existem - que se quer ir para Norte e o vento está norte pouco há a fazer senão adaptar-se. Vociferar contra o vento, as correntes (ou as mulheres) de pouco serve, ou nada.

Agora estou em Lisboa. Preparo-me tranquila, lentamente, para mudar de vida. É uma perspectiva que me assusta, que não me acolhe de braços abertos. Hesito. A dois anos de felicidade seguiram-se dois de tristeza profunda; quero ter a certeza de que não me engano de novo.

Não sei. Penso nos amigos que fiz em S. Luis, com quem em breve jantarei de novo e declamarei poesia nas ruas da cidade. Penso no mar das Caraíbas, que não serei capaz de deixar, a quem sou indiferente (todos somos indiferentes a todos os mares. Têm mais com que se ocupar, os oceanos, do que com as pessoas inquietas e desassossegadas que insistem em atravessá-los como se do outro lado fossem encontrar coisas e pessoas diferentes das que deixaram, ou eram quando partiram).

Continuo a não ser capaz de me preocupar muito com o futuro: o passado e o presente chegam para me encher os dias e as noites.

Preciso violentamente de mar. Preciso violentamente de mim.

9.10.14

Lembrar devagar, memória de elefante

Um elefante bêbedo ouve Coltrane. The Paris Concert.

Mentira.

Pensava numa senhora alta, loira, olhos azuis, extremamente frágil e dependente.

Mentira.

Bebia vinho tinto. Quinta do Perdigão 2009. Fraco ataque, bom fim de boca, ligeiramente adstringente. O elefante lembra-se do melhor rosé que jamais bebeu, da mesma quinta. Pensa em Mr. PC. The Paris Concert.

Não se lembra. E ainda há quem fale em memória de elefante, pensa.

Não sabem do que falam. Ninguém sabe. Mistérios.

Colados como bolhas de ar na farinha dos bolos. Ou no pão. Num soufflé. Quanto mais alto maior a queda.

Lê devagar. Fode devagar. Come devagar.  Vive devagar, porra!

Olha devagar. Não penses. Ouve devagar. Apalpa devagar. Morre devagar.

Ri devagar,  como a senhora da mesa ao lado que tem o sorriso congelado. Ri-se e a cara dela parece uma grande porta de frigorífico entreaberta.

Coltrane devagar. Pensa: quero que te fodas. Mas não devagar. Depressa. Consome-te depressa nesse abismo que passeias e no qual te passeias como o avesso do sobretudo coçado com que tentas cobrir-te. Sem sucesso.

Deseja. Devagar. Já pensaste no desejo? Não.

Mentira.

Oscilas como um bambu num temporal. Não és tu. É o elefante. O bêbedo é ele. Não tu.

Um elefante bêbedo não pensa. Tão pouco sorri, aliás. Mete a tromba pelas mãos, estas pelos pés e acaba enrodilhado no arame ao lado da bicicleta alada e branca.

De nada falo senão do que vejo.

A rapariga parece uma estrela, uma flecha veloz, um corpo magro em dois bambus. Vertiginosa. O bambu é a minha árvore favorita.

Agora esqueço.

Mentira.

Memória de elefante.

Incertezas

...depois iremos,  felizes ou tristes à Taberna da Rua das Flores comer as melhores iscas de figado dos hemisférios norte e sul, ocidental e oriental.

Não falaremos do que acabáramos ou planeáramos fazer. Essas coisas fazem-se, não se falam. Ou não se fazem, depende.

E depois vivem-se. Com muita sorte ou muito azar o resto da vida. Caso contrário esquecê-las-emos rapidamente.

Depressão, emprego

A depressão é um emprego a tempo inteiro.  Ou mais: um gajo fica sem tempo para nada, rigorosamente nada.

6.10.14

Reedição - Calypso Blues

Café; uma história breve

O vento entrou depois, muito depois. Eu tinha ido comprar café; saí da loja com uma mistura inventada naquele momento: Timor, Nicarágua e Etiópia. Cem por cento arábica: parece de maricas, ou de gajo civilizado. A verdade é que gosto de um bocadinho de robusta na mistura, mas só tinham Angola e prefiro Indonésia.

Saí da loja e parei para acender um cigarro. Ela saiu logo a seguir e foi nesse momento que o vento entrou e lhe levantou a saia. Não se atrapalhou. Tinha começado a dizer-me Você gosta..., alisou a saia e acabou ... de café. Respondi-lhe Você tem pernas bonitas. Quer dizer que não gosta de café? Porquê, acha que as suas pernas não são bonitas? Acho. Eu não, e sim gosto. E podíamos ter ficado ali a discutir as pernas dela e o meu café mas não ficámos.

Fomos beber um café numa esplanada do Princípe Real; e depois jantar e depois ao Hot Club ouvir um gajo qualquer cujo nome não fixei. Nem sequer o vi, na verdade. Ela também gostava de jazz, e tinha um sentido de humor muito bom, mamas bonitas, nem muito grandes nem muito pequenas, um olhar sardónico, saias que se levantavam com o vento, pernas boas.

Depois do Hot fomos para casa dela. Não me perguntou se queria beber um copo, ou café, ou chá, ou ver a colecção de borboletas. Perguntou: Queres vir para minha casa? Quero.

Então vamos.

Fomos. No carro começou a apalpar-me os tomates enquanto me dizia Achas que sou uma puta? Não. Acho que és boa. Há putas boas. Há.

Não sei se já tiveram os tomates apalpados por uma gaja que sabe o que está a  fazer. São poucas, infelizmente. Pensam que os tomates são como as mamas e massajam-nos, não os acariciam como devem ser.

Gosto de mulheres que gostam de música e de mulheres que sabem foder e de mulheres que têm sentido de humor. Esta tinha tudo isso e muito mais. Era professora de literatura alemã na Faculdade de Letras. Vivera em Berlim e conhecia os sítios todos que eu conhecia: a Literatur Haus, claro; o café Einstein; o Zwielben; e mais meia dúzia que entretanto esqueci. Foi há muito tempo. As duas: Berlim e ela.

Um dia disse-lhe: Nunca fodi gajas que gostem tanto de foder como as alemãs. Mas gosto mais das portuguesas. São mais sentimentais.

Menos ávidas, queres dizer. Não. Quero dizer mais sentimentais. É por isso que gosto de ti.

Não devias gostar. Só traz desgostos.

É verdade. Mas também traz muitas alegrias.

Que se fodam as alegrias.

Que se fodam os desgostos.

Poucos dias depois cheguei a casa dela e tinha um bilhete na porta. Dizia: Que se fodam os sentimentos. Não toques e não voltes, por favor. Adeus.

Não voltei, claro. Esqueci-a quase toda. Lembro-me dos cabelos, das mamas, das pernas, de a ver a chupar-me a pila com a cabeleira toda por cima da minha barriga como se fosse uma catarata negra e da mistura de café que comprara no dia em que a conheci.

Não me lembro do seu nome nem do que sentia por ela enquanto conversávamos, nus e saciados, na cozinha que cheirava a café e a sexo.