29.8.14

Ruy Belo

Poema Quotidiano

É tão depressa noite neste bairro
Nenhum outro porém senhor administrador
goza de tão eficiente serviço de sol
Ainda não há muito ele parecia
domiciliado e residente ao fim da rua
O senhor não calcula todo o dia
que festa de luz proporcionou a todos
Nunca vi e já tenho os meus anos
lavar a gente as mãos no sol como hoje
Donas de casa vieram encher de sol
cântaros alguidares e mais vasos domésticos
Nunca em tantos pés
assim humildemente brilhou
Orientou diz-se até os olhos das crianças
para a escola e pôs reflexos novos
nas míseras vidraças lá do fundo

Há quem diga que o sol foi longe demais
Algum dos pobres desta freguesia
apanhou-o na faca misturou-o no pão
Chegaram a tratá-lo por vizinho
Por este andar... Foi uma autêntica loucura
O astro-rei tornado acessível a todos
ele que ninguém habitualmente saudava
Sempre o mesmo indiferente
espectáculo de luz sobre os nossos cuidados
Íamos vínhamos entrávamos não víamos
aquela persistência rubra. Ousaria
alguém deixar um só daqueles raios
atravessar-lhe a vida iluminar-lhe as penas?

Mas hoje o sol
morreu como qualquer de nós
Ficou tão triste a gente destes sítios
Nunca foi tão depressa noite neste bairro

Ruy Belo, in "Aquele Grande Rio Eufrates"


Tu estás aqui

Estás aqui comigo à sombra do sol
escrevo e oiço certos ruídos domésticos
e a luz chega-me humildemente pela janela
e dói-me um braço e sei que sou o pior aspecto do que sou
Estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano
e tudo o que faço ou sinto como que me veste de um pijama
que uso para ser também isto este bicho
de hábitos manias segredos defeitos quase todos desfeitos
quando depois lá fora na vida profissional ou social só sou um nome e sabem
o que sei o
que faço ou então sou eu que julgo que o sabem
e sou amável selecciono cuidadosamente os gestos e escolho as palavras
e sei que afinal posso ser isso talvez porque aqui sentado dentro de casa sou
outra coisa
esta coisa que escreve e tem uma nódoa na camisa e só tem de exterior
a manifestação desta dor neste braço que afecta tudo o que faço
bem entendido o que faço com este braço
Estás aqui comigo e à volta são as paredes
e posso passar de sala para sala a pensar noutra coisa
e dizer aqui é a sala de estar aqui é o quarto aqui é a casa de banho
e no fundo escolher cada uma das divisões segundo o que tenho a fazer
Estás aqui comigo e sei que só sou este corpo castigado
passado nas pernas de sala em sala. Sou só estas salas estas paredes
esta profunda vergonha de o ser e não ser apenas a outra coisa
essa coisa que sou na estrada onde não estou à sombra do sol
Estás aqui e sinto-me absolutamente indefeso
diante dos dias. Que ninguém conheça este meu nome
este meu verdadeiro nome depois talvez encoberto noutro
nome embora no mesmo nome este nome
de terra de dor de paredes este nome doméstico
Afinal fui isto nada mais do que isto
as outras coisas que fiz fi-Ias para não ser isto ou dissimular isto
a que somente não chamo merda porque ao nascer me deram outro nome
que não merda
e em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir uma coisa das
outras coisas
Estás aqui comigo e tenho pena acredita de ser só isto
pena até mesmo de dizer que sou só isto como se fosse também outra coisa
uma coisa para além disto que não isto
Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo
é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos
mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que os teus gestos domésticos
tu és em cada gesto todos os teus gestos
e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas palavras como
a palavra paz
Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas
perdoa pagares tão alto preço por estar aqui
perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui
prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente
deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer
sou isto é certo mas sei que tu estás aqui

28.8.14

Elogio da bicicleta

A bicicleta agrada ao cavalo e à cavalariça: tanto reduz a taxa de glicemia como a de melancolia.

Diário de Bordos - S. Luís, Maranhão, Brasil, 27-08-2014

As cervejas ao fim da tarde na Tia Amélia foram substituídas por longos passeios de bicicleta. Saio da Praia Grande pela marginal. A vista é de tirar o fôlego. (Não tenho, e isso falta-me, um sítio como tinha em Falmouth Harbour para me sentar e olhar: Mas pedalo e vejo esta enorme baía por vezes desperdiçada por vezes cheia, e penso na beleza que isto é, no que poderia ser).

Vou à Igreja da Sé (hoje até entrei) e vagueio pelo Largo dos Amores, a praça mais bem nomeada de todas quantas conheço (alguém decida acrescentar  "e do skateboard". Aí ficaria a designação completa). A vista da praça é linda ela também, com o horizonte cortado verticalmente pelas palmeiras e acompanhado pela ponte S. Francisco, um xadrez de rio céu e terra do qual não me canso, ninguém se cansa.

Depois depende. Ou vou ao Shopping S. Luís, se preciso de alguma coisa; ou volto para trás, perdendo-me pelas ruas que por enquanto são todas iguais.

Que os deuses te protejam do silêncio - ou te permitam pedalar através dele.

........
É preciso começar por dizer que H. se deszangou. Logo no dia seguinte pediu-me desculpa. Tinha bebido muito, ou coisa que o valha. Estou-me nas tintas: os erros nada são quando há capacidade de os reconhecer. E foi ela quem comprou e preparou os legumes para a ratatouille.

O jantar foi soberbo. Magnífico. Éramos quase vinte, na longa tradição dos jantares que crescem ao sabor dos encontros. Fiz um porco com mostarda e a dita ratatouille.

O Celso diz-me que transformei porco e vinho em poesia e eu acho que não: tudo é poesia, quando olhamos para tudo com olhos de poeta e queremos que tudo se transforme.

Há encontros mágicos, afinidades que eclodem vulcanicamente, inevitáveis, profundas antes de o serem. Este é um deles.

26.8.14

Mentiras, tempo

Conheci em tempos um gajo que mentia sobre a idade que tinha. Dizia às raparigas que era quatro ou cinco anos mais novo do que na realidade era.

Confesso que não vejo o interesse. Uma mulher que não sabe que um gajo melhora com o tempo não merece uma mentira.

Mulheres, sabedoria

"What is better than wisdom? Woman. And what is better than a good woman? Nothing."

Geoffrey Chaucer, um senhor cujo nome conhecia, mas não esta verdade absoluta.

E para terminar, uma citação de uma senhora cuja música aprecio mais do que quase todas as outras:

"When the words come, they are merely empty shells without the music. They live as they are sung, for the words are the body and the music the spirit."

Hildegarde von Bingen.

Sobre a generosidade

"The nourishment of body is food, while the nourishment of the soul is feeding others."

`Alī ibn Abī Ṭālib, Caliph (ditto)

A dependência e a sombra

"Don’t depend too much on anyone in this world because even your own shadow leaves you when you are in darkness."

Taqî ad-Dîn Aḥmad ibn Taymiyyah, um senhor de quem nunca tinha ouvido falar até hoje, coisa que lamento imenso e demonstra, uma vez mais, que o tempo é a coisa menos interessante do universo: vamos sempre a tempo de lhe corrigir as imperfeições.

Bases para uma taxonomia da insónia

Uma insónia que sucede a uma sesta tardia deve ser desclassificada. Não merece ser tratada de insónia.

Tempo, inquietação

O tempo interessa-me pouco. Não passa da parte da eternidade que se atrasa ("Le temps n'est que la partie de l'éternité qui retarde", Milorad Pavic, Dictionnaire Khazar, ed. Belfond 1988, trad. Marija Béjanovska).

O problema não é bem esse. É esse desinteresse não ser de todo uma fonte de inquietação. De desassossego. Devia ser.

Fora do tempo não somos nada se não nós mesmos, mas algumas solidões não são inquietantes.

Abstracções, marés

Não acredito no amor. Já me pregou demasiadas partidas. Acredito em amar e ser amado, no mar e no vento, na lua e na harmonia, na simetria das marés: enchem o que vazam, vazam o que enchem.

Se não hoje, daqui a duas semanas.

Talhos, retalhos (ou: retalhos da vida de um retalhado)

A médica escarafuncha energicamente em mim. Regularmente pergunta-me se dói e eu respondo-lhe que não. Inúteis, claro, tanto a pergunta como a resposta: para alguma coisa me injectou um anestésico.

Mostra-me o que vai tirando, e eu digo-lhe que podíamos abrir um talho para canibais. Não se riu. Provavelmente acha que não sou comestível.

Gostos

Gosto daqueles quadros do Magritte que mostram um dia radioso por trás de uma parede, ou de uma porta entreaberta. Gosto mais de ver o nascer do sol do que o pôr. De amanhã do que de ontem, de entrar do que de sair, de começar do que de acabar, de acordar do que de adormecer, de ti do que de mim.

25.8.14

Diário de Bordos - S. Luís, Maranhão, Brasil 25-08-2014

Quatro pequenas cirurgias, das quais três levaram anestesia e duas pontos. A cavalariça anda chata. E ainda não acabou: vai ser preciso voltar para tirar as costuras. Reconheço que é melhor estar no Brasil do que noutro sítio qualquer para fazer isto: teria custado o dobro ou o triplo.

Ou então teria feito metade ou um terço.

O meu fornecedor de cuidados médicos é a Superclínica, um policlínica barata (a auto-designação é "popular") que me foi sugerida pelo Maciel. Penso - posso estar enganado, claro - que a diferença de preços com outra clínica, a prmeira que contactei (a qual custava mais do dobro) se deve sobretudo às instalações e não à qualidade dos médicos. E ao tempo que estes dedicam aos pacientes. A senhora que hoje me cortou os bocados é adorável e rápida. Muito rápida.

Vou e venho de bicicleta e enquanto espero a minha vez (as consultas são por ordem de chegada) leio os livros que tenho no telefone.

........
Daqui a um mês e pouco são as eleições e as campanhas eleitorais invadem o espaço. Para além do som automotivo há os agrupamentos de pessoas empunhando bandeiras dos candidatos e, claro, o tempo de antena.

Enquanto esperava na clínica assiti a uma grande parte do de hoje (enfim, não sei quantas vezes por dia. Imagino que haja à noite também).

As eleições são simultâneas, já aqui o mencionei: autárquicas, legislativas e presidenciais. O tempo de antena dura uma eternidade. O profissionalismo das grandes campanhas é impressionante; a falta dele nas pequenas também.

Como tenho sérias dúvidas - enfim, mais do que dúvidas - sobre a qualidade da classe política brasileira olho para aquilo como se fosse um espectáculo de circo. É o que é. Mas infelizmente só tem palhaços, o que o torna ligeiramente cansativo.

O Partido Comunista ainda concorre com o seu nome e com a foice e o martelo; o candidato (a governador do Estado) da situação e muito provável vencedor faz um video cheio de sorrisos beatos, como se a situação fosse brilhante; o candidato da oposição que tem possibilidades de lhe ganhar - poucas, parece-me; mas ainda a procissão vai no adro - promete água em todas as casas (aparentemente metade dos fogos não tem água corrente. Isto num país que fabrica aviões e é o quarto exportador de armas do mundo).

A campanha é extremamente personalizada. Com excepção do PCB o nome dos partidos pouco aparece.

O voto é obrigatório e percebe-se porquê.

Classificados

Vende-se dor. Usada, mas em bom estado. Pouco visível.

Ou troca-se por meia dúzia de palavras.

Telefotos - Eleições



Dores, pele

Já nada me magoa ou alegra. Quase nada. A quem não tem pele pouco interessa que o dia seja de chuva ou sol.

("I am told that a blindfolded man cannot distinguish severe burning from severe freezing") - Iris Murdoch, in The Sea, The Sea

Jorge Luis Borges

Sou pouco dado a dias disto e daquilo, mas hoje é dia de Borges. Faria cento e quinze anos. Não tenho as minhas queridas Obras Completas da Emecé à mão. O DV está, claro, cheio de poemas dele; e de labirintos, carreiros que se bifurcam e não levam a lado algum.


El Amenazado

Es el amor. Tendré que ocultarme o que huir.
Crecen los muros de su cárcel, como en un sueño atroz.
La hermosa máscara ha cambiado, pero como siempre es la única.
¿De qué me servirán mis talismanes: el ejercicio de las letras,
la vaga erudición, el aprendizaje de las palabras que usó el áspero Norte para cantar sus mares y sus espadas,
la serena amistad, las galerías de la biblioteca, las cosas comunes,
los hábitos, el joven amor de mi madre, la sombra militar de mis muertos, la noche intemporal, el sabor del sueño?
Estar contigo o no estar contigo es la medida de mi tiempo.
Ya el cántaro se quiebra sobre la fuente, ya el hombre se
levanta a la voz del ave, ya se han oscurecido los que miran por las ventanas, pero la sombra no ha traído la paz.
Es, ya lo sé, el amor: la ansiedad y el alivio de oír tu voz, la espera y la memoria, el horror de vivir en lo sucesivo.
Es el amor con sus mitologías, con sus pequeñas magias inútiles.
Hay una esquina por la que no me atrevo a pasar.
Ya los ejércitos me cercan, las hordas.
(Esta habitación es irreal; ella no la ha visto.)
El nombre de una mujer me delata.
Me duele una mujer en todo el cuerpo.


24.8.14

Patriotismos de pé e mão

O meu patriotismo sapatal leva um golpe todos os dias, coitado: os sapatos Victoria que comprei em Sitges em Novembro têm-se aguentado bastante bem. E só vão em breve ter companhia porque precisam de ser lavados. É uma compra que ando a planear há meses e que qualquer dia, em breve, se concretizará.

Mas hoje não este o patriotismo que me desassossega. É o fiscal. Sou grande adepto de livros em segunda mão (ou terceira, quarta, quinta e mesmo sexta, a julgar pelo estado de alguns).

Os pobres autores não recebem os respectivos direitos e eu não sei como pode Portugal alinhar em tal desvario. Eu gostaria muito que o meu país, dignamente representado pelo seu Primeiro Ministro e pelo Secretário de Estado da Cultura e dos óculos redondos encontrasse maneira (se possível fiscal) de corrigir esta medonha injustiça.

Sono, amor

A distância entre ter sono e dormir é a mesma do que entre amar e ser amado.

Ou entre estar vivo e viver.

Convivências, vizinhanças

Como fazem a tristeza e o bem-estar para conviver tão facilmente, sem conflitos? Como se fôssemos um desses grandes prédios modernos nos quais as pessoas vivem lado a lado e nunca se vêem.

Taxas de câmbios

Qual a taxa de câmbio das palavras contra outras moedas como solidão, álcool, desejo, música, sono e por aí adiante?

Sorte e algumas palavras

Em três palavras (gaja, despropositada e chateada): convidei uma gaja para jantar; ela fez-me esperar de uma maneira que me pareceu despropositada; fui jantar sozinho; está chateada comigo.

Há dias em que me pergunto de onde me vem tanta boa sorte.

Sem ironia.


Lutas, escadas

Comecei uma luta que quero, todos os dias, perder. Pergunto-me se a teria começado querendo ganhá-la. A resposta é sim, claro. Teria.

A questão não é essa. É saber porque é uma luta, ainda. Se temos uma escada pela frente a única maneira de a resolver é subir degraus, não descê-los.

Misturas

Por vezes pergunto-me: S. Luís não será uma mistura de todos os sítios onde já vivi até hoje?

Tudo e o seu contrário

O difícil não é escrever, é começar a escrever. Uma vez começado, é fácil. Basta esperar que os tubarões cheguem, as galinhas fujam, o sol desapareça, a lua brilhe, o mar se altere, a terra queime, o vento entre, a música toque, alta de mais ou demasiado baixa. Tudo aparece e o seu contrário.

Com a excepção de ti, que não tens contrário.

Diário de Bordos - S. Luís, Maranhão, Brasil, 23-08-2014

Novo jantar no Oak, solitário (mais ou menos imprevistamente). Não me incomoda particularmente estar sozinho. Não é estar sozinho que me chateia.

Mas não me apetece muito tecer bordados sobre a diferença entre estar sozinho e solidão, de maneira fico por aqui: um excelente jantar, bom vinho (espumante argentino cujo nome infelizmente não retive) e por fim uma breve passagem na festa da Guest House.

Tirando a cor das peles e a algumas roupas podia estar na Suíça, em Portugal ou em França. Não tenho nada contra a globalização, antes bastante pelo contrário. Mas lamento esta uniformização. Estas cópias que ainda por cima nem fiéis são.

Uma pedra de crack custa dois reais. Eu comprei uma tequilla, três cigarrilhas (das quais fumei uma e guardo duas) e um pau de incenso. Quatorze reais. Com a entrada na festa, vinte e nove reais. Quatorze pedras e meia de crack. Não digo que vi quatorze pessoas a fumar crack nos cinco minutos que andei entre a festa e a pousada; mas não estive muito longe.

........
H. parece estar zangada comigo. Não sei, não lhe perguntei. Tenho imensa pena. O meu stock de paciência está cada vez mais pequeno, e contra isso pouco posso fazer.

Além de que tive a impressão - estaria enganado? - de que ir jantar comigo não era a sua principal prioridade. Infelizmente, para mim ir jantar com ela tão pouco era uma prioridade. Há vezes em que um desencontro é um encontro.

Isto dito, H. é gira. Lamento a minha falta de paciência.

Cedi-lhe o meu quarto e vim dormir para a sala. Tenho que começar a trabalhar o excesso de generosidade, agora que o de paciência está resolvido.

........
Estou em S. Luís há pouco mais de dois meses. Vou cá ficar - em princípio - mais dois ou três. Começo a estar em casa.

Casa sendo o sítio do qual se sabe porque não se gosta e não se sabe porque se gosta.

23.8.14

Maude - III

Um gajo pode ser bom naturalmente, por obra e graça da natureza, por ser anjinho; ou porque já foi mau: fez demasiadas asneiras, demasiados erros, maldades e aprendeu com eles.

Estou longe de ser o gajo decente que todos pensam que sou. No qual me transformei depois de ter feito muita merda. Não posso dizer que tenha sido difícil. Não foi. Comecei simplesmente a empatizar com os outros, a perceber que as minhas acções tinham consequências, a sofrer demasiadas vezes as maldades de que era vítima. Pouco a pouco - o processo foi gradual, lento, por vezes imperceptível - transformei-me num "homem bom"  (aspas porque repito o que milhares de vezes me disseram. Tu és um homem bom. You are a good man. Eres un hombre bueno. Tu es un chic tipe. Disseram-mo em todo o lado, em todas as línguas).

Ando há cinco anos com Isabel. Ao princípio era suposto ser uma dessas relações "picada de mosca", insensível, rápida, sem consequências, um banal affaire entre um piloto e uma hospedeiraqueca em Nova Iorque, passeio no Rio, compras em S. Francisco. Mas um dia pedi para voar de chave com ela (significa fazer sistematicamente voos em conjunto com outro tripulante) e desde aí perdi o controle. Passo mais tempo com Isabel do que com Maude. Penso nela mais vezes, toco-lhe e falo-lhe e rio-me com ela mais do que o faço com Maude. Se alguém me convida para um jantar e diz "Traga a sua mulher" é em Isabel que penso, não em Maude.

Maude... Quando penso no que este nome me fez sonhar e no pesadelo que hoje se tornou. Odeio tudo o que ele evoca para mim, a começar na minha cobardia, a continuar pela minha duplicidade, a acabar nas memórias que dela tenho, dos tempos em que a amava.

Como cheguei aqui? Como posso não amar a pessoa que tanto amei? Como posso mentir-lhe?

Não é como. É porque. Como eu sei. Porque não.



[Com um obrigado ao Hugo Mastbaum pela ajuda]

Venham mais cem

Mais uma centena de mortos no mar.

É lamentável que o dispositivo da indignação, que tanto se preocupa com os terroristas do Hamas não se preocupe com esta gente, pessoas que só querem uma vida melhor para elas e para as famílias e preferem trabalhar a matar ou matar-se com bombas. Acabam por morrer no mar.

Entretanto, a "Europa"  dá subvenções aos seus agricultores para os "compensar" das sanções russas.

Se a Europa abrisse as suas portas aos produtos africanos não resolveria, claro, o problema da imigração; mas diminuí-lo-ia bastante. Mas isso não faz, claro. Há meia dúzia de agricultores a manter calmos. Os pretos que morram e nós paguemos a dobrar os produtos alimentares.

TED Talks - Vulnerabilidade

Mais daqueles TED Talks que deve ser visto e revisto.

22.8.14

Alejandra Pizarnik

Hoje, graças a um artigo na revista Piauí, descobri esta autora argentina.

Descobrir não é o termo. De momento ainda estou só subjugado. Descobrir fica para depois.




Esta lúgubre manía de vivir,
esta recóndita humorada de vivir
te arrastra Alejandra no lo niegues.

Hoy te miraste en el espejo
y te fue triste estabas sola
la luz rugía el aire cantaba
pero tu amado no volvió.

Enviarás mensajes, sonreirás,
tremolarás tus manos así volverá
tu amado tan amado.

Oyes la demente sirena que lo robó
el barco con barbas de espuma
donde murieron las risas
recuerdas el último abrazo
oh nada de angustias
ríe en el pañuelo llora a carcajadas
pero cierra las puertas de tu rostro
para que no digan luego
que aquella mujer enamorada fuiste tú
te remuerden los días
te culpan las noches
te duele la vida tanto tanto
desesperada ¿adónde vas?
desesperada ¡nada más!







PIEDRA FUNDAMENTAL

No puedo hablar con mi voz sino con mis voces.

Sus ojos eran la entrada del templo, para mí, que soy errante, que amo y muero. Y hubiese cantado hasta hacerme una con la noche, hasta deshacerme desnuda en la entrada del tiempo.

Un canto que atravieso como un túnel.

Presencias inquietantes,
gestos de figuras que se aparecen vivientes por obra de un lenguaje que las alude,
signos que insinúan terrores insolubles.

Una vibración de los cimientos, un trepidar de los fundamentos, drenan y barrenan,
y he sabido dónde se aposenta aquello tan otro que es yo, que espera que me calle para tomar posesión de mí y drenar y barrenar los cimientos, los fundamentos,
aquello me es adverso desde mí, conspira, toma posesión de mi terreno baldío,

no, he de hacer algo,
no, no he de hacer nada,

algo en mi no se abandona a la cascada de cenizas que me arrasa dentro de mí con ella que es yo, conmigo que soy ella y que soy yo, indeciblemente distinta de ella.

En el silencio mismo (no en el mismo silencio) tragar noche, una noche inmensa inmersa en el sigilo de los pasos perdidos.

No puedo hablar para nada decir. Por eso nos perdemos, yo y el poema, en la tentativa inútil de trancribir relaciones ardientes.

¿A dónde la conduce esta escritura? A lo negro, a lo estéril, a lo fragmentado.

las muñecas desventradas por mis antiguas manos de muñeca, la desilusión al encontrar pura estopa (pura estepa tu memoria): el padre, que tuvo que ser Tiresias, flota en el río. Pero tú, ¿por qué te dejaste asesinar escuchando cuentos de álamos nevados?

Yo quería que mis dedos de muñeca penetraran en las teclas. Yo no quería rozar, como una araña, el teclado. Yo quería entrar en el teclado para entrar adentro de la música para tener una patria. Pero la música se movía, se apresuraba. Solo cuando un refrán reincidía, alentaba en mi la esperanza de que se abasteciera algo parecido a una estación de trenes, quiero decir: un punto de partida firme y seguro; un lugar desde el cual partir, desde el lugar, hacia el lugar, en unión y fusión con el lugar. Pero el refrán era demasiado breve, de modo que yo no podía fundar una estación pues no contaba más que con un tren salido de los rieles que se contorsionaba y se distorsionaba. Entonces abandoné la música y sus traiciones porque la música estaba más arriba o más abajo, pero no en el centro, en el lugar de la fusión y del encuentro. (Tú que fuiste mi única patria ¿en dónde buscarte? Tal vez en este poema que voy escribiendo).

Una noche en el circo recobré un lenguaje perdido en el momento que los jinetes con antorchas en la mano galopaban en ronda feroz sobre corceles negros. Ni en mis sueños de dicha existirá un coro de ángeles que suministre algo semejante a los sonidos calientes para mi corazón de los cascos contra las arenas.

(Y me dijo: Escribe; porque estas palabras son fieles y verdaderas).

(Es un hombre o una piedra o un árbol el que va a comenzar e canto...)

Y era un estremecimiento suavemente trepidante (lo digo para aleccionar a la que extravió en mí su musicalidad y trepida con más disonancia que un caballo azuzado por una antorcha en las arenas de un país extranjero).

Estaba abrazada al suelo, diciendo un nombre. Creí que me había muerto y que la muerte era decir un nombre sin cesar.

No es esto, tal vez, lo que quiero decir. Este decir y decirse no es grato. No puedo hablar con mi voz sino con mis voces. También este poema es posible que sea una trampa, un escenario más.

Cuando el barco alternó su ritmo y vaciló en el agua violenta, me erguí como la amazona que domina solamente con sus ojos azules al caballo que se encabrita (¿o fue con sus ojos azules?). El agua verde en mi cara, he de beber de ti hasta que la noche se abra. Nadie puede salvarme pues soy invisible aún para mí que me llamo con tu voz. ¿En dónde estoy? Estoy en un jardín.

Hay un jardín.

20.8.14

Diário de bordos - S. Luís, Maranhão, Brasil, 20-08-2014

A filosofia na farmácia:

Um gajo passa a noite - com a inestimável e imprescindível ajuda de uma garrafa de Carmenère e umas caipirinhas do Raimundo - a pensar nas relações entre o cavalo, a cavalariça, os outros e o resto e no dia seguinte vai à farmácia comprar creme protector solar em spray. A primeira coisa que nota é o preço - duzentos mililitros de Nivea Sun Protect & Fresh Spray Transparente e Refrescante FPS 50 (omito noventa por cento das informações do recipiente) custam mais do que duas garrafas - ou seja, mil e quinhentos mililitros - de vinho tinto. Resta esperar que durem mais tempo, e sobretudo que façam tão bem.

E depois não noto mais nada porque ainda não usei a coisa. Espero que não seja sebenta, é tudo. E que a cavalariça aprecie e retribua.

........
Hoje foi um dia bom no trabalho. Melhor do que bom. Mudei em muitas coisas mas não mudei numa: nunca conseguirei tirar o trabalho de mim, separar a vida profissional da vida tout court.

Universo, inferno

Deito-me sobre Miles,  sobre o cansaço, num elevador que ficará parado no momento errado.

Miles é um tapete voador. Tudo, todos estão em hemisférios diferentes e graças a ele comungamos.

Não é verdade.

Comungo. A primeira pessoa do singular é o universo. Atrás vem o inferno.

Sol, lua

Devíamos aprender a conciliar solidão e felicidade: por vezes o sol e a lua encontram-se.

Dizer, calar

Não ligues às coisas que digo. São tantas, não é? Mais valia estar calado.

Não te preocupes. Eu sei calar-me. Basta querer, ou poder.

O Mar, o Mar

Ainda não disse a (quase) ninguém, mas estou a ler um livro chamado The Sea, The Sea, de Iris Murdoch. É a história de um director de teatro que se retira para uma casa perto do mar e começa a ser assombrado pelo seu passado - as suas amantes, a sua vida, etc. -.

É extraordinário. Ganhou o Booker de 1978, ou coisa que  valha.

Gostar de ler é uma bênção. Ler livros bons é uma sorte.

Miles

Miles toca e de repente tudo - até a morte -  parece fútil.

Vida

Devo confessar uma coisa: hoje saí. Acabei de jantar - um jantar assim assim,  salvo pela garrafa de Carmenère - e vim ao Raimundo beber caipirinhas (sem açúcar) e fumar cigarros que compro avulso, como se fossem charutos -. O Raimundo (Senzala Bar) é o meu bar favorito da Praia Grande, a seguir ao Bar do Porto. Mas hoje é terça-feira e o Porto está fechado. Além disso tinha que vir ao Raimundo. Gestão de presenças, ausências e conteúdos. A caipirinha do Senzala não só é boa como é a maior da Praia. Já lá não vou há muito tempo, o que torna embaraçosos (para mim) os nossos encontros quotidianos na rua.

A música - resultado de um acordo entre o Raimundo e a Tia Dica - é uma merda inqualificável.

A vulgaridade desce (ou sobe) a níveis tais que deixa de ser vulgaridade.  É uma espécie de vulgaridade destilada,  vulgaridade pura, invulgaridade.

Bebo caipirinhas,  fumo cigarros e penso na morte.  Curioso, não é? Isto é a vida.

Se te queres matar...

"Se te queres matar porque não te queres matar? " pergunta Álvaro de Campos, lúcido, cínico e brutal como sempre.

Há várias razões. Matar-se é complicado,  a menos que se disponha de uma arma de fogo (cerca de dois terços das tentativas de suicídio falham, e não é por serem fingidas).

Deixar-se morrer é mais fácil.  Ou matar-se com prazer, como fazem os toxicómanos.

E depois há uma pergunta importante: que farei da morte, se nada fiz da vida?

O cancro e a lotaria

Descubro agora - porque mo disseram clara, explícita e frontalmente - que corro sérios riscos de desenvolver um cancro da pele. Assim para começar eu queria que o cancro fosse apanhar onde apanham as galinhas e não me chateasse nem me obrigasse a usar creme anti-UV e o raio que o parta.

Mas a verdadeira questão não é essa. É: há alguma parte do corpo que não esteja sujeita a cancro? De que me serve proteger-me a pele do cancro se ele amanhã aparece nos joelhos, por exemplo? Ou no baço? Ou no céu da boca,  particularmente chato para quem gosta tanto de falar?

Isto do cancro é como sermos amados pela mulher que amamos; ou a lotaria: perdemos cada vez que amamos, ou jogamos.

19.8.14

Homofonias

Cozinha todos os dias como se amasses pela primeira vez; ou pela milésima a mulher que amas realmente. Cozinha devagar, muito devagar; excepto quando é urgente que seja rápido. Toca em todos os ingredientes e mistura-os se for preciso. Mas só se for preciso. Se não for mantêm-os separados até que o momento chegue de uni-los.

Aquece-os todos - uns primeiro e outros depois - junta-lhes um bocadinho de amargo, muito pouco; ou de picante, se tu e a comida preferirem.

Não sigas receitas: inventa-as todos os dias, porque nada mata uma cozinha mais do que a repetição. Olha para o que estás a fazer, mexe e remexe, cheira e prova. E ouve: é importante ouvir o que a panela te diz. Pensa; como o amor, a cozinha é uma actividade intelectual.

Acompanha sempre que puderes com um copo de bom vinho, uma boa música (Miles Davis, Keith Jarrett, Sonny Rollins, Ben Webster, Hildegarde von Bingen às vezes, Coltrane, sempre, Glenn Gould, ou God Bless the Child na versão do Eric Dolphy, o melhor solo do mundo e arredores).

E ama. Como paradizia o outro, Põe amor em tudo quanto fazes; nada de teu desama ou ama em demasia.

Não sirvas quando estiver pronto, mas quando tu estiveres pronto.

Cicatrizes


São precisos e preciosos os labirintos, como as cicatrizes.

Mais coisas, continuação e fim

Não podemos contudo esquecer-nos de que as coisas passam, ainda que as contemos até ao infinito. O infinito é um labirinto no qual as coisas se perdem, se não formos nós a perdê-las. São precisos mais infinitos, mais labirintos.

Mais coisas. Mais palavras. Mais emoções.

Telefoto - Raposa, MA, Brasil


Mais coisas

Imaginemos uma nuvem que ora parece uma cafeteira ora um cavalo pronto a saltar ora uma praia cheia de conchas; pensemos num rio que corta em dois uma planície. Digamos um louva-a-deus, para dizer qualquer coisa.

Ou dois. Assim dizemos mais coisas.

Telefoto - Em geral


Telefotos





Naïvetés

É injusto - mais uma injustiça, oh horror - que se aceite com condescedência e ou deleite a pintura naïve mas não a poesia.

Diálogos impossíveis

Há pessoas com quem falar é como pôr um cego a conversar com um mudo.

17.8.14

Descobertas tardias

Nada a fazer. O verbo foder vem com um pronome reflexo amarrado por um hífen.

O fundo das palavras

Brinco com as palavras como com os teus seios. Não. Brinco com as palavras como com as tuas mamas.  Não. Brinco com as palavras como contigo. Enchem-me seios e palavras e tu, uma pele como a página na qual te escrevo e escrevendo me escrevo, escravo de corpos e livre de alma, fundeado no futuro e atracado ao passado.

És uma baía e nela fundeei um dia, uma vida. O ferro são as palavras todas que juntos encontramos, e o que delas fazemos cada dia.

Diário de Bordos - S. Luís, Maranhão, Brasil, 17-08-2014

Ontem foi dia de a poesia ocupar a cidade, de novo. São os meus momentos favoritos em S. Luís. Pensava como replicar isto noutros sítios? É replicável? Como seria, ler poesia no Rossio às seis da tarde de um sábado? Ou no Castelo? ou no Cais das Colunas?

E noutros países? Em Panamá seria impossível; ditto em St. John (Antigua), ou qualquer outra cidade das Caraíbas. Hummm... Não, em Fort-de-France (Martinique) funcionaria. Em St. George's Town (Grenada) também. Em Bequia não haveria ninguém, mas seria lindo.

Poesia,  Celso, vamos ocupar o Mundo?

Enfim, não é só poesia. Li o começo da Peregrinação, houve quem tocasse música, cantasse rap. E saio de cada sessão com livros oferecidos.

E com uma maravilhosa sensação de pertença. Qualquer dia sou ludovicense (já gosto tanto da palavra que gostar da coisa é um passo).

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Ao contrário do que muita gente pensa sempre tratei bem de mim. Comi bem (enfim, nem sempre, mas isso é outra história); bebi bem (no sentido de muito; no outro, aplica-se o proviso anterior). Não tomei demasiadas drogas (e quando tomava parei cedo). Não fumei durante muito tempo. Numa palavra, uma vida regrada, sem excessos se a tomarmos no seu conjunto.

Mas o raio da cavalariça agora quer outro tipo de cuidados. Em vez de ouvir os meus amigos donos de bares (não consigo lembrar-me de um dono de bar que não seja meu amigo. E de restaurantes também, de passagem se diga) ouve os médicos nos quais gasto o dinheiro que devia ser gasto em coisas melhores, como as cachaças do Xico ou da tia Dica, as cervejas da tia Rosa ou os maravilhosos nacos de carne do Oak.

A última com que me veio é que preciso de começar a usar creme solar, daqueles com que as pessoas se besuntam quando vão à praia ou mal entram num barco. Nunca usei até agora e confesso que me foi mais fácil deixar de ir tomar as minhas cervejas ao mercado da Praia Grande do que é imaginar-me coberto daquela coisa branca, pegajosa, mal-cheirosa e em geral desagradável.

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A minha integração linguísta também faz alguns progressos. Continuo a falar português com o meu sotaque. Não há razão para mudar. Faço apenas - mas raramente - algumas concessões lexicais. Tirei rapariga do meu vocabulário. Pelo menos daquela parte dele que exprimo oralmente. Há pessoas a quem sei que se disser casa de banho acabarei a dizer banheiro; ou café da manhã em vez de pequeno almoço. A essas vou directamente à forma local.

No fundo estou contente: quando por exemplo penso em rapariga tenho muito mais com que me entreter. Mesmo que não o diga. E tenho bastantes palavras novas com as quais brincar.

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Em Outubro há eleições. Uma das formas favoritas de publicidade eleitoral é o "som automotivo": automóveis (e bicicletas e motas e camiões. A única coisa que ainda não vi foi carroças) equipadas com altifalantes capazes de acordar quem dorme em coma alcoólico nos antípodas.

É mais uma fonte de ruído a juntar-se às já existentes, tantas. Tenho pena de não poder votar: votaria no único candidato - deve haver um, pelo menos, no meio destes milhares de candidatos (todas as eleições são simultâneas, desde as autárquicas às presidenciais) - que não tenha dinheiro para fazer barulho. Um só.

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De entre as boas decisões do últimos decénios está a de me mudar das Portas da Amazónia para a casa do Frank. Para além de poder cozinhar - não imaginava que me fizesse tanta falta e tanto bem - passo horas a falar com Frank de barcos. Teve uma quantidade impressionante deles, cada um mais bonito do que o outro.

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Mar, cozinha e livros. Podia ser pior.

Receita improvisada - Frango com beringelas

Comecei por começar: marinar o frango em limão, sal, alho e louro. Ficou uma hora ou duas. (Infelizmente o barulho é de mais e demasiado mau e não me permite grandes rasgos). E continuei pelo começo: cortar a beringela às fatias e pô-las num passador com sal grosso para perderem a água. Meia hora.

Refoguei uma cebola, dois pimentos pequenos daqueles deliciosos (mas não tão bons como os do Panamá) e alho com casca, juntei-lhe a beringela passada por água abundante e cortada aos bocados.

Depois foi o frango com um bocadinho de vinho tinto, não muito que era bom.

Quando aquilo estava tudo mais ou menos misturado e a cheirar bem pus um frasco grande de azeitonas cortadas às rodelas e o sumo da marinada (era muito, os limões são sumarentos. E deliciosos).

Depois foi cobrir de água, pôr a paprika, os cominhos, um bocadinho de cravo, orégãos e pimenta.

Isto tudo ontem. Da panela foi para o frigorífico e de lá só hoje saiu.

Estava delicioso, modéstia às malvas. A refazer até ao fim das beringelas, dos tempos ou de outra coisa qualquer.