4.12.16

Morreu o Gotlib!

Diário de Bordos - Palm Beach Gardens, Flórida, EUA, 04-12-2016

Vim ao mercado (verde, naturalmente) de Palm Beach Gardens. Comprei aipo orgânico, claro, mais especiarias ao marroquino (chama-se Adriss ou lá perto), ovos directos da quinta. Há muita comida à venda e alguma deve ser boa, mas não se pode beber uma cerveja, beber um copo de vinho ou sequer provar um rum chamado Really Bad Rum de um produtor local (ou comerciante, não sei, não fui à página).

Para se habituar a viver aqui um gajo tem de se habituar a ser tratado como uma criança (hoje juro que vi escrito numa garrafa de água com gás num supermercado "product under pressure. Handle with care". Numa garrafa de água com gás das de três quartos de litro. "Handle with care". Não a comprei).

Fui comprar uma cerveja a uma loja perto do mercado e beber um café ao Dunkin´Donuts que lhe fica em frente. É tudo assim: Uma coisa aqui, outra ali, uma terceira acolá. No fim tudo funciona: é um puzzle espalhado por quilómetros e quilómetros quadrados (o mercado fica a quase onze quilómetros da marina) e - como me dizia Del hoje de manhã -  pouco espesso, "ao contrário da Europa, onde tudo está muito perto e tem espessura".

O objectivo não é comparar a Europa aos Estados Unidos, obviamente. Seria como comer uma pera e achar que não sabe a ananás. É simplesmente habituar-me a isto, perceber os códigos, saber que o mais provável é ter de passar aqui mais dois ou três meses e mais vale saber ler o sítio onde estou.

Sendo que agora volto para bordo. Chega de leituras, descobertas e compreensões. Vou para terreno familiar. O resto é conversa de encher bexigas de porco.

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Já tinha ouvido falar de vacas e de galinhas felizes (aquelas numa garrafa de leite, estas numa embalagem de ovos). Hoje ouvi pela primeira vez a expressão "flores felizes". Eram girassóis, indubitavelmente bonitos, grandes, resplandecentes. Agora se estavam felizes ali em baldes em vez de na terra não sei, não tenho maneira de ajuizar.

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Alcatrão, cimento, palmeiras, relva, uma casa e um ou dois carros. É desta paisagem que Del e Steve dizem que não tem alma. Estão podres de razão. Nem alma nem corpo nem esqueleto nem ossos ou músculo. Não tem nada. Parece uma miragem, um desenho em três dimensões, um jogo de Lego, cenário para um filme de fantasmas, ilustração de um ensaio de Camus. Desde que não seja o Homem Revoltado, claro.

Diário de Bordos - Riviera Beach Marina, Flórida, EUA, 03-12-2016

Fiz finalmente o chilli con carne. Ficou bom: pelo menos tinha chillies, muitos e variados. Um dos tripulantes não conseguiu comê-lo por demasiado picante. Os outros gostaram. Foi um jantar bastante agradável. Falei de mais e eles também, o que sempre equilibra. Excepto o que não conseguiu comer: não abriu a boca o jantar todo. Não sei se por demasiado picada se por não ter nada a dizer.

Ao todo foi um bom dia. Confirmei a minha ideia de que "os americanos não sabem comer" é tão falso como "a terra é plana" ou "na América quem não tem dinheiro morre na rua". De manhã fui ao "mercado verde" (entre aspas porque a tradução é literal) de West Palm. Acreditem se quiserem, mas comprei meio Époisses, uma baguette e um pão com azeitonas (meio porque o preço era proibitivo).  Para quem não sabe: Époisses é um queijo francês da Borgonha. Se alguém um dia precisar de uma prova da existência de Deus (eu não preciso; sei que não existe, mas isso não é assunto que me preocupe particularmente) deve comprar um Époisses affiné au marc de Bourgogne. Não era o caso do que hoje comprei (felizmente, porque se fosse não teria podido comprar nem metade, a julgar pelo preço deste) mas um Époisses é um Époisses tal como eu sou marinheiro seja a embarcação à vela, a motor ou a remos. Comi-o no mercado, sentado no canteiro de uma árvore cujo nome desconheço mas que dava sombra, coisa bastante necessária por estas bandas. Depois fui beber um copo de vinho ao Palm Sugar, não fosse o diabo tecê-las. A posteriori é melhor do que numquam.

A seguir vim para bordo fazer o chilli. Comecei por fritar bacon, na gordura resultante refoguei os pimentos, os chillies, as cebolas, a carne (bifes que de tão ecológicos davam para vegans; estavam a preço de saldo e cortei-os aos bocadinhos). Tudo isto separadamente. Depois juntei tudo na panela, mai-los tomates e montes de salsa, os orégãos, paprika (fumada, comprada no mercado no stand de um marroquino) e cominhos comprados ao mesmo marroquino sorridente. Deixei cozer quatro horas. A inovação foram os cominhos: usei sementes em vez de moídos. Esta mutação vai ser adaptada.

Amanhã há outro mercado e é maior. Vou ter de lá ir, claro. Ainda por cima tem a vantagem de ser mais longe, qualidade não despicienda porque a) controla o peso do que trago, ou seja b) o respectivo custo e c) me faz ir mais longe.

Na bicicleta, quero dizer. Não sei quanto tempo se pode resistir sem carta de condução aqui.

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De maneira é isto: um gajo espera e desespera e de vez em quando deixa de desesperar mas não de esperar.

Não seria mau ver o fim da espera, com ou sem desespero.

2.12.16

Não quero saber

Não sei o que é a solidão e verdade seja dita: não quero saber.

Deve ser uma mistura do que foi e do que vai ser, não é?

Definição: idade

Idade: cada vez mais ossos a doer e menos carnes a dar prazer.

Outra vez

Não sei ser amado mas tenho quem mo queira ensinar.

Outra vez.

Morrer e continuar vivo

Beber de mais é bom: é como morrer e continuar vivo. 

Há quem discorde, claro: pessoas que não sabem nem o que é morrer nem o que é continuar vivo.

Diário de Bordos - Riviera Beach Marina, Flórida, EUA, 01-12-2016

Noites complexas. A ideia inicial era sair de bordo com a bicicleta, ir a Singer Island, daí passar a Palm Beach e depois voltar para bordo. Mal saí começou a chover. Pouco, mas a ameaçar muito. Fui a correr à loja de bebidas, comprei quatro miniaturas de rum e refugiei-me no Romana Pizza. Mal entrei começou a chover à séria.

A ideia (parte da inicial) era comer um Tiramisu, mas não havia. Havia Cannoli.

A chuva parou. Fui para Singer Island. Recomeçou a chover. Parei num bar. Aqui a cena do bar precisa de um post separado. Um americano obeso chef numa steakhouse - ou subchefe, precisou depois, quando lhe disse que ia lá visitá-lo u dia destes - cada vez que a polícia o manda parar (acontece parece frequentemente porque tem um Camaro SS, whatever that means) explicou-me que quando lhe pedem a carta de condução entrega-a juntamente com a sua licença de porte de arma escondida. "Eles têm que saber que estou à espera deles"). Isto e muito mais.

Deus sabe que não gosto de governos, mas daí até andar com armas porque "eles" vai um passo. Eles somos nós. Pelo menos nas sociedades democráticas.

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É um erro andar de bicicleta quando se está grosso, a partir dos cinquenta e nove anos de idade. Ou cinquenta e oito, vá.

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Esperar é pior do que morrer. Sei porque já experimentei os dois.

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Não há uma ponte entre Singer Island e Palm Beach. Ainda bem que choveu.

1.12.16

Confrangimentos e sem frangimentos

Há uns anos tinha uma série de posts nos quais brincava com algumas das minhas obsessões: o excesso de duches, a insuficiência de lavagem de dentes, o engraxar dos sapatos (sim, houve tempos em que andava com sapatos de engraxar), as gravatas (ditto).

Os posts eram mais ou menos assim (só encontrei este, mas há muitos mais):


Normas básicas de higiene

Aquando do douche trimestral não se deve esquecer, nunca, de se ensaboar bem a parte de trás dos pavilhões auriculares. Aliás, já o meu irmão mais velho dizia, sempre disse: "só há dois sítios que não te deves esquecer de ensaboar, nunca: o outro é a parte de trás dos pavilhões auriculares" (quando eu lhe retorquia que isso totalizava quatro sítios a ensaboar e não dois ele fazia um gesto largo com a mão - que muitas vezes encontrava, infelizmente, a minha cara no caminho - e perguntava teatralmente "que importa?". Deve ser daí que vem a pouca atenção que atribuo aos pormenores).

Ensaboar a parte de trás dos pavilhões auriculares é uma operação delicada que exige algum treino - a menos, claro, que a pessoa não se importe de misturar champô com sabonete; atitude essa que eu condeno, absolutamente: para além de ser uma espécie de pleonasmo emulsivo, indiciador sem dúvida de uma histeria latente, o sabonete pode, em alguns casos bem ilustrados pelo saudoso prof. Pfeiffer (sim: bisavô da Michelle) anular o efeito do champô -.

Dado que o regime de 4 douches por ano não fornece uma base prática suficiente para se treinar, sugiro aos meus digníssimos leitores que treinem os movimentos a seco duas ou três vezes antes de entrar na banheira. Em seis meses (ou dois douches) terão adquirido a capacidade básica para executar correctamente esta fundamental operação. Também se pode praticar em macacos, claro: aliás, até combina muito bem com o pentear dos bichos. Infelizmente esta prática está limitada aos guardiães de jardim zoológico e (de certa forma) a quem cuide de adolescentes, políticos, parlamentares e pessoas desocupadas.

Tenho uma extensa prática de douches (posso garantir que já tomei mais de uma centena, ao longo de toda a minha vida - se incluirmos os da infância, claro - ) e domino relativamente bem a técnica de ensaboamento da parte de trás dos pavilhões auriculares; contudo, como a minha aprendizagem foi empírica tenho uma certa dificuldade em transmiti-la. Sugiro se adopte o método físico mas eficaz do meu irmão mais velho, que Deus tenha e guarde com Ele bem guardado.

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Acreditem se quiserem, mas a um desses posts (não foi este, mas o tom era o mesmo) uma leitora reagiu no primeiro grau: acreditou que eu realmente só tomava quatro duches por ano (apresso-me a esclarecer os leitores - e sobretudo as leitoras - que não é verdade. Tomo pelo menos cinco, alguns anos até seis).

Orgulhosa, segura do seu valor de guardiã da higiene pública linkou o post (era na época pré-FB); poucos dias depois tinha uma série de comentários e trocas de mail que iam do furioso ("seu porco, não tem vergonha?") ao altruísta ("Luís Serpa, você devia lavar-se mais vezes, um duche de três em três meses pode trazer-lhe complicações para a saúde").

É confrangedor, não é? É.

Adenda: editei ligeiramente o post inicial.

Diário de Bordos - West Palm Beach, Flórida, EUA, 30-11-2016

Hoje pus, outra primeira vez, uma bicicleta no suporte de bicicletas do autocarro. Não é uma experiência por aí além, é de uma simplicidade assustadora. Experiência, essa sim, é andar nos autocarros americanos (enfim, americanos não. Em S. Francisco não eram assim). A primeira coisa que se vê é a clivagem racial: 95% dos passageiros são negros. A segunda é da ordem da saúde mental: tanto dos noventa e cinco como dos cinco restantes uma grande parte ou é doente mental ou tem problemas de droga, bebida ou sei lá, de relacionamento com o mundo exterior. O resto refugia-se nos telefones portáteis, abençoados sejam.

Eu olho, gosto de olhar. Hoje entrou um branco com a camisola de uma marina que fica entre a minha e a cidade. É uma marina reservada a mega-iates, mega-cara, aposto que o homem - cabelos encaracolados, tímido, olhos castanhos grandes, bonito - chegou aqui há pouco tempo e ainda não comprou um carro ou porque está ilegal ou porque ainda não recebeu o primeiro salário. Também gostei da condutora do autocarro, tão simpática, esperou que atravessasse a rua e deixou-me pagar só um dólar em vez dos dois habituais porque eu não tinha troco. Quando me vim embora disse-lhe "gostaria que os seus colegas fossem todos como você" e ela respondeu "obrigado, sir" e sorriu.

Não gosto de West Palm Beach, não sei se algum dia gostarei - espero que não, seria sinal de que estaria num lugar ainda pior - mas gosto destes momentos de empatia, de humanidade.

Que bom é andar de autocarro.

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O ping-pong com os seguros continua. Esta tarde mandei um puxanço ao qual eles não vão conseguir responder. Quem me dera fosse definitivo. Esperar é uma tortura, com ou sem fogão.

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Hoje não fui ao Catch, vim ao Sugar Palm, de onde escrevo. É mais barato e mais feio e a comida não é tão boa, mas na verdade tudo isso importa pouco. A única coisa que importa agora é pôr aquele barco em condições.

Gosto de refits, de trazer à vida barcos que parecem mortos.

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Comecei a trabalhar nas fotografias. Faltam-me dezenas delas, incompreensivelmente. Pode ser que um dia eu perceba porquê. Isto é: porque é que entre mim e a fotografia há esta ponte partida.

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"Em todos os casais há um que ama e outro que se deixa amar", dizia não sei quem. Às vezes pergunto-me se nessa dicotomia não serei dos que nasceu para amar e não sabe ser amado.

É possível, embora não desejável. Sou.

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Sonho com a simetria como um cego com a luz.

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Isto dito, sou o que sou. Detesto o que sou mas não saberia não o ser, mesmo que quisesse. Não quero: prefiro os diabos que conheço.

E Deus sabe que aos meus conheço-os bem, tão bem como se os tivesse feito.

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De uma coisa não tenho dúvidas: estou sozinho há demasiado tempo. São oito da noite e bocejo como se fossem quatro da manhã.

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Uma coisa mágica nas casas de banho dos restaurantes americanos é: nunca falta papel para as mãos. Não sei como é que eles fazem isto. Em Portugal quando há papel para as mãos num enrolador um gajo faz uma festa e chama o rei de Espanha ou o Papa (o que estiver mais à mão de semear). Aqui nunca falta.

30.11.16

Primeira vez

Esta noite o vento rondou a sul. Apercebi-me quando acordei a meio dela: os estores do camarote estavam bombados para dentro. É a primeira vez que tenho sul desde que cheguei.

A temperatura subiu bastante e voltei a adormecer.

Acaso?

Não é - não pode ser - de certeza por acaso que perplexo rima com sexo.

Fotração

Sempre tive uma relação complicada com a fotografia, desde o início.

Mas nada se compara à sensação de querer uma determinada foto e não a encontrar em lado nenhum.

Benguerua


Deixa-me explicar-te

Bom, deixa-me então explicar-te.

Nunca sei por onde começar. As palavras chegam aos molhos, impossível pegar-lhes uma a uma: dinheiro, chuva, solidão, rum. Acabei por ir comprar uma garrafa de rum, mas devia ter começado pelo silêncio, não é?

Ou pela chuva: voltei devagar para bordo, a bicicleta não tem guarda-lamas e de qualquer forma não estava com pressa, ia a pensar se comprava o rum ou não; depois meteu-se o dinheiro, com o rum e o vinho no Catch foi-se o ganho do dia, uma porra. A solidão tem um preço.

Chuva, dinheiro, solidão, desejo, palavras que vêm por aí fora descambadas, por muito devagar que um gajo pedale elas vêm destrambelhadas e tu a dizeres-lhes não quero nada com vocês, vão para a puta que vos pariu e elas nada, catapumba, aí vêm feitas chuva ou rum. Isto é: saltam-te para o colo sem tu saberes por que raio de carga de água não te obedecem.

Nada te obedece, não é? A chuva: cai quando quer; as palavras: não te largam; o dinheiro: deixa-te sem dizer água vai; a solidão; a liberdade; o vento. Essas merdas todas de que é feito o dia e se lhes juntarmos mais uns vislumbres disto e daquilo as noites também: tu, esta porra desta vontade de parar e esta impossibilidade de parar, como se entre ti e a vida houvesse outra merda qualquer e não há, só há a vida, a chuva, o dinheiro, a solidão, as palavras, uma bicicleta que volta devagar para casa, como se viesse sozinha e eu pendurado nela como por vezes me pendurava em ti, lembras-te?, a pedalar a pedalar a pedalar devagar, devagar, devagar para que nunca mais acabasse o pedalar.

Nunca mais acabou, verdade seja dita: estou para aqui numa rua de merda de uma cidade de merda e pedalo contigo em mim como pedalava quando estava em ti.

Penso numa fotografia que tirei há muitos anos em Inhambane, de maneira fui comprar uma garrafa de Flor de Caña, quatro anos, é a mais barata da loja e verdade seja dita não é mau, o rum. Sobretudo se não tiveres massa para o Mount Gay. Quero dizer: isto é uma metáfora para a vida. Pedalar devagar, amar devagar, gastar devagar e agora escrever de fugida, as palavras não te largam devagar.

Silêncio devagar.

Coitadas. Enganaste-as, não é? Como se tivesses alguma coisa a dizer.

Imagina as ruas lisas, direitas, sem princípio nem fim como o tempo, os carros a passar sem parar, vummmm, vummmm, vummmm, chuva (não chove; é água da chuva que está nas ruas) e tu a pedalar devagar.

Devagar. Devagar. Nada de precipitações. Olha para esta rua interminável, imagina que vês seja o que for como se fosse dia e diz-me: tens vontade de te precipitar?

Tenho.

(Para a R.)


Vazio

A esperança é um saco vazio que vamos enchendo. O desespero é o oposto: um saco cheio que não se esvazia.

Sou fraco. Prefiro o vazio.

Parecendo que não é esmagador

Parecendo que não o optimismo cansa muito. Mas o pessimismo ainda mais.

(O mesmo se pode dizer da luta: lutar cansa imenso; não lutar ainda mais. É esmagador).

Amanhãs

Foi num dia assim que ela pegou na vassoura e se foi embora. Isto pode parecer uma contradição: é noite, já o dia passou e passou depressa, montado numa vassoura ele também. Foram-se os dois, o dia e ela cada um na sua. Eu fico. Fico sempre. Não há vassoura que me carregue.

Mas há noites como a de hoje, quentes e ventosas. O vento é um afago, uma festa, uma carícia, uma promessa. O calor também. Juntam-se os dois e vão-se as bruxas e os dias ao som da música.

Sentei-me no canto da varanda que diz "No wake zone". Zona sem esteiras, sem vagas, sem perturbações.

Com bruxas e dias e vassouras, mas sem merdas. Só com amanhãs.

29.11.16

Fado, fácil

Porra, isto continua assim e acabo a gostar de fado. Alguém me daria uma vida mais fácil, por favor? Com menos fado, sei lá. 

Murros, aprender

É sempre assim: um gajo leva um murro, cai, levanta-se e responde.

Agora só falta aprender a não cair ou a levar murros mais fracos.

(Ou então deixar de gostar de responder, mas isso leva mais tempo. É coisa que só se aprende morrendo).

Pior

Vou ler Lucia Berlin. Há sempre quem esteja pior do que nós.

Descanso

Talvez seja altura de ter um bocadinho de descanso.

Não é. Nunca será. Aposto que quando estiver no crematório as chamas vão falhar.

Ninguém imagina

Quem me conhece sabe a admiração que tenho pelo regime político suíço. Essa admiração não nasce de um espanto com tudo o que é estrangeiro. Nasce de um facto simples: os políticos suíços não têm poder.

E isso é tão bom, tão bom que ninguém imagina.

28.11.16

Serviço público - restaurantes em Palm Beach

Voltei ao The Catch, de longe o meu sitio preferido em West Palm Beach. Não é um restaurante barato - foi depois de cá vir que me resolvi a escrever um post que há muito estava pensado sobre o custo (monetário) da solidão - mas a qualidade da comida, da vista, do local,  da música e o acolhimento bastante bom, honesto (agora, depois de ter escrito uma crítica não muito favorável no Tripadvisor) mais do que o justificam.

A crítica tinha a ver com o facto, para mim - e para todos os americanos a quem perguntei - tão inédito como desagradável de me terem debitado o piripiri que pedi (admitidamente muito, consequência a) de ser bastante bom e b) de não ser, na minha opinião, tão picante como a jovem empregada mo garantiu).

Ontem ou anteontem, não me lembro, a senhora prometeu-me que me faria um piripiri picante. Palavra dada, palavra honrada. Ontem  (ou anteontem) perguntei se podia cá vir ao fim da tarde só para beber um copo. Que sim, absolutamente, claro. (Este "só" merecia dois quilómetros de aspas, mas enfim). Hoje, a acompanhar o copo de vinho branco tenho rodelas de banana fritas e o molho picante mais delicioso e justamente forte que ne foi dado provar em muito tempo.

Não há sítios, como não há pessoas, animais ou coisas absolutamente maus. A questão é saber se os há absolutamente bons. Não creio. Mas tão pouco me importa muito. Poder apreciar o que se tem - sem cair na tentação baba cool do tout le monde il est gentil tout le monde il est beau e sem perder a energia de procurar melhor - é uma dádiva.

Que demorei muito tempo a apreciar - ou melhor, que só intermitentemente soube apreciar - mas isso é outra história, para outros locais com outras pessoas. (Ou com pessoas...)

Restaurante The Catch,
766 Northlake Boulevard,
Lake Park
Flórida, EUA.
+1 561 842 2180
www.thecatchseafoodsushi.com

27.11.16

Almoço improvisado - filetes de peixe em polme de ervas

O raio do peixe não havia maneira de descongelar. Pu-lo agora na frigideira. A receita vai já, ab ante, para não me esquecer. Se não ficar bom paciência.

Comecei por fazer um polme com coentros frescos, aneto, farinha (integral), um ovo, sumo de limão e um bocadinho pouco de vinho branco... Espera, não. Não foi por aí que comecei. Foi por fritar gengibre às rodelas num azeite esplêndido que tenho aqui a bordo (era tão bom que fui comprar outro mais adequado à cozinha).

Depois sim, fiz o tal polme e ao que está escrito em cima acrescentei paprika fumada (uma paprika fumada da McCormick que me faz adorar essa empresa para todo o sempre) e pimenta.

Agora está a fritar no azeite de gengibre. Quando acabar deito-lhe as rodelas do dito fritas, tomate e pimento verde cortados aos bocadinhos pequenos e ligeiramente salteados por cima e oops...

Aí vai. Já cá volto.

Estados Avisados

O pacote de bacon, vi hoje de manhã ao abri-lo, tem um aviso sobre como manusear bacon. O fogão (isso já tinha visto antes) vem com um aviso a avisar que pode estar quente.

Que seria dos pobres consumidores sem estes avisos? Uma mortandade, aposto.

Adenda: pergunto a mim mesmo se os boletins de voto vinham com avisos também. "Votar em Trump pode provocar-lhe um desgosto", "Hillary é má mas sempre é menos má do que Trump", "Votar em Jill Stein é inútil".


Diário de Bordos - Riviera Beach Marina, Flórida, EUA, 27-11-2016

Ontem consegui finalmente comprar um fogão eléctrico. É uma porcaria de dois bicos [é pouco mas aqui entre nós seja dito é mais do que eu tenho] e aquece uma panela de água em menos de uma hora (se a panela for pequena. Grande não sei, ainda não experimentei). Resultado:  já vou na quarta chávena de café, Folie Noire que veio da Martinique, 100% Arábica do qual ainda tenho um pacote cheio, para além deste quase a acabar e o W. cheira finalmente àquela mistura de bacon, ovos estrelados e café que torna fisicamente impossível um gajo olhar negativamente para o dia que aí vem. Ainda não tenho luz no salão, de maneira ontem limitei-me a aquecer uns raviolis que o Ed me deu. Hoje o jantar vai ser igualmente simples mas já estou a afiar o dente para o almoço. Não quer dizer que tenho a vida normalizada, ainda não está. Enquanto não chegar a confirmação dos seguros nada estará normal. Mas bolas, um fogão de dois bicos é um gigantesco passo em frente.

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Morreu o Fidel Castro. A malta que defendia Mussolini por os comboios andarem a horas e Salazar por não haver regabofe está toda triste. Fidel encheu Cuba de escolas e médicos (que ultimamente usava como trabalho escravo para ganhar divisas, mas isso é outra história) e só por isso merece um lugar na história. Um lugar bom, entenda-se, na ala dos mártires da revolução, de quem sofreu horrores pelo seu país. Há muitos: para além dos já citados Benito e António temos o Pinochet, outro mártir, uma série deles na América do Sul, o Pol Pot... Tudo gente que melhorou imenso os respectivos países e fez frente à ira internacional (o do Pol Pot até foi invadido, veja-se).

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Não sou muito de acreditar em castigos divinos (ou seja o que for divino) mas por vezes pergunto-me se uma estadia em West Palm Beach não será castigo por não ter gostado de Galveston.

Aplico-me a ver tudo o que isto tem de bom, não vá o próximo ser pior ainda.

26.11.16

Objecções

Objecção contra a solidão: é caríssima.

(O mesmo se poderia dizer do altruísmo, mas seria uma tautologia. Se não fosse caro não seria altruísmo, seria outra coisa qualquer).

Pequeno manual das interacções sociais no séc. XXI

  • Proselitismo: expressão de opiniões com as quais não concordamos.
  • Tolerância: aprovação das opiniões das quais não discordamos.
  • Tolerante: diz-se de uma pessoa que aprova a expressão de opiniões com as quais concorda.
  • Democracia: sistema político aceitável quando os resultados são favoráveis ao lado que pensamos ser o melhor. Discutível no caso contrário.
  • Inteligente: uma pessoa que pensa como nós.
  • Burro, desonesto intelectual, estafermo: pessoa que tem opiniões contrárias às nossas.
  • Diálogo: conversa interessante que se tem com pessoas inteligentes (cf. supra).
  • Monólogo: tentativa geralmente falhada de explicar a quem não pensa como nós que está enganado (ditto).
  • Neo-liberalismo: ideologia professada por quem quer o mal de outrem. Um neo-liberal pensa (isto é, se um neo-liberal pensasse pensaria) que a humanidade deve ser constituída por ricos, cuja riqueza proviria única e exclusivamente da apropriação indevida dos bens de outrem, sendo outrem os noventa e nove por cento de que falaria a Bíblia se a Bíblia falasse de percentagens e - sobretudo - não fosse o livro favorito dos católicos, cristãos e outros reacionários crentes. (Os muçulmanos são crentes e reaccionários mas isso é compreensível e aceitável porque são muçulmanos). 
  • Liberalismo: forma aceitável (e anterior) do neo-liberalismo. Infelizmente os liberais transformaram-se todos em neo-liberais, provavelmente uma noite de Lua Cheia. Ou Nova. Ou assim.  
  • Liberdade: aquilo que as pessoas inteligentes (cf. supra) pensam que é bom para todos os outros, excepto os burros (ditto).
  • Ler, aprender, compreender: antigas técnicas de persuasão, desenvolvidas por pessoas que não percebem o que é a liberdade (cf. supra).
  • Conversar: actividade apaixonante quando partilhada com pessoas que pensam como nós e maçadora quando os interlocutores não partilham as nossas opiniões.
  • Pessoas: seres humanos ou outros animais que pensam como nós.
  • Animais: pessoas que não pensam como nós.
  • Cultura: diz-se da aprendizagem de ideias correctas. Exemplo: "Aquele gajo é culto": aquele gajo pensa como eu.
  • Ideias correctas: as nossas ideias. 
  • Ideias incorrectas: todas as outras.
  • Oxímoro, redundância: conceitos demasiado complexos para os tempos modernos. Grosso modo pode definir-se um oxímoro como a expressão de duas ideias contraditórias na mesma oração e redundância como o seu contrário. Por exemplo (oxímoro): aquela pessoa não pensa como eu. Ou (redundância): aquela pessoa é inteligente.

Diário de Bordos - West Palm Beach, Flórida, EUA, 25-11-2016

Esperar é um horror; e quando da nossa espera dependem outras esperas pior ainda. Não posso fazer nada: é como estar no meio de uma calmaria da qual só sairei quando entrar vento. Não posso fazer nada.

Excepto pedalar, claro. Farto-me de pedalar por esses passeios fora (o sítio habitual para as bicicletas aqui é o passeio, o que calha bem porque a) nunca têm ninguém e b) são largos e bem pavimentados. Infelizmente são também uma seca sem qualquer espécie de interesse, mas isso fica para depois ou já vem de antes, não sei).

Seja como for pedalo. Mais de vinte quilómetros por dia, na burra de montanha de bordo (outra seca: dupla suspensão e guiador com um metro de largura. Paciência. Mais vale isto do que nada).

As ruas são chatas, monótonas, intermináveis e vazias como a cabeça de uma mulher burra ou um homem sem amor.

En attendant, j'attends. Horror dos horrores, desespero dos desesperos.

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A espera é um buraco negro: aspira tudo o que lhe passa perto. De que falar, quando se espera?

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Jogo ao gato e ao rato com a solidão; quem ganha?

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Quarenta e um anos. O vinte e cinco de Novembro foi há quarenta e um anos. Não sei o que pensar: acabou um circo, mas o circo não acabou. Continua cheio de palhaços.

25.11.16

Maçadas

O tempo está maçadoramente bom. Já nem frio faz.

Perguntas velhas, respostas recentes

Tenho pensado nisto muitas vezes e há muitos anos, mas só hoje sinto que dei um passo em direcção à resposta.

Cheguei a Lisboa em Outubro de setenta e quatro e pouco tempo depois - digamos um ano - tinha um grupo de amigos cujas opiniões políticas iam da extrema-esquerda à extrema-direita. Encontrávamo-nos regular, frequentemente. Para jantar, para passar fins-de-semana juntos, para ir ao cinema ou a um concerto.

O grupo durou até para lá dos anos oitenta. Chegou aos noventa, antes de nos dispersarmos todos demasiado (ou pelo menos eu).

As divergências políticas entre setenta e quatro e noventa e poucos só não eram resolvidas a murro porque éramos amigos. Eram resolvidas a gritos, insultos, murros nas mesas, mais insultos, mais gritos, mais murros nas mesas, mais insultos. Quando o tema se esgotava diluíam-se numa imensa amizade e naquilo que nos unia (eram muitas, as coisas que nos uniam. Iam da comida à filosofia passando pelo vinho, literatura, miúdas e essas coisas todas que fazem da vida vida e da morte uma merda).

A primeira vez que me apercebi de que o mundo não era todo assim foi quando me mudei para Genève, em oitenta e três: as pessoas agrupavam-se em função de afinidades políticas e a minha visão das coisas - já então liberal - era mal vinda (por razões que agora não vêm ao caso a maioria das pessoas que conhecia era de esquerda). Mas o grupo em Portugal - onde vinha frequentemente - ajudava-me (ou enganava-me): a convivência com opiniões divergentes é não só possível mas também desejável. Afinal de contas aprendemos mais com quem de nós discorda do que com quem pensa como nós, quanto mais não seja quantitativamente (isto é ironia, não vá dar-se o caso de alguém não perceber).

As coisas mudaram em Portugal e no resto do mundo e a pergunta que me aparecia sem que eu a convocasse era sempre a mesma: o que mudou? Porquê?

Creio que há várias respostas, como sempre. Paradoxalmente, uma delas é a internet. Quando eu discutia com os meus amigos éramos um grupo relativamente fechado, limitado. Quando muito acontecia juntarem-se a esse grupo, ou a parte dele, amigos de um de nós e a conversa estava sempre limitada a esse conjunto. A internet alargou o âmbito do diálogo: todos falamos com todos. O Facebook alargou o conceito de amigo - tanto que o diluiu, de resto, mas isso é outra história -.

Por mim tudo bem. Choro mais facilmente pelo futuro que aí vem do que pelo passado que se foi. Mas não deixa de ser agradável encontrar a resposta a perguntas velhas de décadas.

(Se bem, admitidamente, o assunto não esteja fechado. Porque é que na Suíça dos anos oitenta, quando não havia internet, as pessoas se agrupavam em função das afinidades ideológicas e não aceitavam - salvo raras e honrosas excepções - opiniões divergentes? Fica para outra vez).

23.11.16

Diário de Bordos - Riviera Beach Marina, Flórida, EUA, 22-11-2016

Não sei se é isto ser velho. Se for é bom. Já não consigo ver uma mulher com metade das mamas à vista, apertadas num soutien que tem metade do tamanho que devia ter e o decote como os calções dos idiotas que os usam abaixo das nádegas. A vulgaridade horroriza-me cada vez mais. E coroada pela voz mais irritante que me foi dado ouvir nos últimos duzentos e trinta anos: aguda, alta, histérica, estúpida.

"Que queijo quer no seu cheeseburger?" pergunta-me a voz.
"Que queijos tem?"
Debita uma lista de queijos entre os quais "Swiss cheese".
"Que queijos suíços tem?"
"Não percebo a sua pergunta. Queijo suíço é queijo suíço". Sublinha o é, não fosse eu não perceber.

O bar - é de um tamanho regular, nem demasiado grande nem demasiado pequeno - tem dez ecrans de televisão à volta, dos quais um gigantesco, um grande (imediatamente por cima daquele) e oito "normais" (espero que ninguém me pergunte o que é um écran de televisão normal. São os que não me parecem nem gigantescos nem minúsculos).

A mulher ao meu lado - sozinha, bonita, trinta e muitos ou quarenta e poucos, vestida correctamente - bebe cerveja pela garrafa.

Tirem-me daqui! (mas não me perguntem onde é aqui).

........
A temperatura à noite e de manhã cedo tem sistematicamente estado abaixo dos vinte graus. Pouco abaixo, é certo (dezoito, dezanove) mas o suficiente para eu ter de pôr uma manta por cima do lençol e ter frio de  manhã quando vou tomar o pequeno almoço.

Será que estou com o frio como estou com a ordinarice? Espero que não.