28.3.20

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 27-03-2029

Voa, tempo. "Voa, cavalo, galopa mais." Voem, dias e noites. Mas não me levem convosco. Deixem-me ficar tranquilo, com "o meu menino d'oiro, d'oiro fagueiro. Hei-de levá-lo no meu veleiro."

"Pelo sonho é que vamos, braços dados ou não." "A tua dor não é uma credencial, não passa de sombra das minhas feridas."

Assim passam por mim os dias, a cantarolar. Hoje ouvi a Chavela Vargas, por exemplo. Quem não conhece devia conhecer. São feitos em ponto-cruz (os dias), formas elaboradas mas bem definidas, bem balizadas. De manhã Mercadona e mercado, à tarde só Mercadona e ou o outro, nunca me lembro do nome.

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Não me lembro de nada. Hoje, uma tripulante de uma travessia que fiz com um brasileiro louco há cinco ou seis contactou-me no Facebook. Deixou de comer só comida crua (agora é vegan) e começou a usar sabonete. Era gira, a miúda. Italiana, pequenina, magrinha. Dava a impressão de que se partiria ao meio se alguém a olhasse fixamente. É pintora e vive nos EUA. Disse-me que a bordo me deslocava com a graça de uma borboleta apesar da desgraça da barriga (a formulação é minha, claro). Lembrei-me da S., que me perguntava "mas tu tens cola nos pés?"

O armador brasileiro era louco, no sentido patológico do termo. Obsessivo-compulsivo, paranóico. Foi uma das duas péssimas travessias que fiz (mas não tão má como a outra).

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Quem não está habituado a estar fechado numa embarcação deve pensar que os dias se enrolam à sua volta como serpentes ávidas de envenenar e deglutir a presa. Para um marinheiro não é assim. Quase vejo a esteira, quando olho pela janela.

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Não costumo mencionar aqui pessoas que me lêem, mas hoje faço-o: troca de e-mails com uma senhora adorável. Adivinho-lhe a timidez e a sensibilidade, B.

Ultimamente tenho encontrado uma série de pessoas com quem empatizo imediatamente, de chofre, como se tivéssemos estado ali à espera um do outro toda a vida e nos chocássemos a dobrar uma esquina. É bom.

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Consegui finalmente maneira de contactar o E., de quem espero obter informações sobra a Patagónia. Viveu lá a fazer charter uma larga dezena de anos.

Uma das grandes vantagens da idade é ter amigos para cada coisa que se quer fazer.

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A casa é pequena e os dias também.  Grandes, agora, só os sonhos, os planos e os horizontes.

Podia ser pior.

27.3.20

Liberalismo

O liberalismo é uma teoria relativamente simples de explicar. Baseia-se em meia dúzia de princípios com os quais é fácil concordar:

a) Cada um de nós sabe melhor do que ninguém o que é bom ou mau para si próprio;

b) Portanto, cada um de nós deve poder escolher a quem compra ou vende os seus serviços e produtos e em que condições;

c) É aceitável que uma parte do que se ganha na b) seja entregue à sociedade sob a forma de impostos, desde que 1 - seja voluntário ou pelo menos decidida democraticamente; 2 - seja utilizada de uma forma transparente e controlada por quem paga os impostos; 3 - seja utilizada para o bem comum e não para o bem de quem administra os fundos;

d) As pessoas são livres de errar. Os únicos que não se enganam e sabem tudo são os ditadores;

e) Os limites da liberdade de cada um são as liberdades dos outros; dentro do perimetro no qual as suas acções não interferem com as liberdades dos outros, cada um pode fazer o que quer;

f) Quem trabalha para o Estado não é diferente de quem não trabalha, nem pior nem melhor. Por isso o poder do Estado deve ser controlado, escrutinado e essas pessoas devem ter o mínimo de poder necessário para exercer as suas funções (que são, sublinhe-se úteis à sociedade). Não devem ter mais, porque o excesso de poder trará inevitavelmente uma procura de ganhos para si e para os que lhe são próximos;

Confesso que não percebo o que é que neste conjunto de princípios (expostos, reconhecidamente, de uma forma lhana. Não sou um intelectual) assusta tanto as vítimas de um sistema como o português, que rouba, espolia, despreza e espezinha os cidadãos - os quais depois vão a correr votar em quem os despreza, espolia, espezinha e rouba.

Os liberais e os colectivistas têm exactamente o mesmo objectivo - o bem comum - mas pensam que os métodos para lá chegar são diferentes. Os limites das teorias colectivistas estão à vista, não é preciso ir à Coreia do Norte ou à Venezuela. Veja-se a evolução de Portugal no conjunto dos países europeus.

Talvez não fosse má ideia tentar outra abordagem, não?

Mistificação ou não?

Parece cada dia mais provável - repito e sublinho parece - que estamos a passar por uma gigantesca mistificação, causada pelo atabalhoamento dos diferentes governos ocidentais. Admitida e atenuadoramente, é verdade que os nossos políticos só tinham a China como modelo e tiveram de lidar com uma gigantesca pressão popular para nos fechar a todos e paralisar a economia.

(Que alguém peça para ser fechado é para mim um mistério. Passemos.)

O que dizem os cépticos?
a) O vírus já estava entre nós há bastante tempo e há muito mais imunidade no seio da população do que se pensa;
b) A letalidade é bastante inferior ao que se crê, porque 1 - muitas das mortes não são atribuíveis ao vírus e sim a outras patologias pré-existentes e 2 - decorre da a): a percentagem dos infectados que morre é bastante inferior ao que dizem as estatísticas porque a população infectada é muito superior. (Há uma necessidade de governos, media e outros stakeholders inflacionarem os números para justificar a paralisia em que estamos e os custos que aí vêm. Recentemente procurava os números dos passageiros e tripulantes embarcados a bordo do DIAMOND PRINCESS e só os encontrei em publicações científias. As outras só mencionavam o número de infectados.)
c) Devia ter-se começado imediatamente a reforçar a capacidade dos hospitais, em vez de pensar que a quarentena ajudaria a reduzir a curva. Não ajuda, como se está a ver na Espanha e na Itália;
d) A redução e inversão das curvas de casos é provavelmente mais devida ao ciclo natural do vírus do que às quarentenas (repito: provavelmente);
e) Devia ter-se esperado por dados concretos e não ter seguido como cegos o que fez a China, que é uma ditadura e tinha motivações políticas para agir como agiu;
f) Isto vai-nos custar demasiado caro para os resultados obtidos. (Não se trata de trocar a economia pela vida dos velhinhos, como viciosamente se anda para aí a dizer. Sem economia os velhinhos também morrem.)

Em breve teremos os resultados do o teste serológico dos Países Baixos e poderemos avaliar a veracidade de tudo isto. Infelizmente, não espero grandes mudanças, quaisquer que sejam os resultados: não estou a ver os políticos (não me refiro só aos nossos) darem milhões de votos de mão beijada e reconhecerem que criaram este caos porque tomaram decisões sem ter dados para as sustentar.

Sentimentos, água

Sentimentos como cursos de água à flor da pele. Correm todos na mesma direcção? Onde desaguam? Que levam, que trazem? Para onde vão, tão impetuosos uns, tão calmos e pacientes outros?

Não têm olhos nem ouvidos. Só se reconhecem nas peles, aquelas onde nascem e as outras, onde morrem à sede, à míngua de água.

26.3.20

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 25-03-2020

Uma das grandes vantagens do coronavírus é que apagou por completo a estúpida da miúda sueca das notícias. Assim que de repente me ocorra talvez seja mesmo a única.

Não gosto dela e digo-o. Sou homem de amores claros e ódios honestos. Felizmente, muitos aqueles e raros estes.

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O candeeiro de cabeceira dá uma luz fraquinha, amarela acastanhada. Nunca tive luz que me desse tanta vontade de me deitar, que tanto evocasse o sono com a eficácia de um feiticeiro  índio a chamar pela chuva. Só faltam os tambores.

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A primeira etapa do meu plano de circum-navegação chegou hoje ao estreito de Magalhães. A próxima etapa é decidir se a base na Patagónia será Punta Arenas ou Ushuaia e depois começar a aprofundar.

Sempre gostei do planeamento, mas este é especial. É como fazer a corte à mulher da nossa vida.

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Nestes tempos de isolamento apercebo-me sem surpresa de quão poucas pessoas me faltam.

A surpresa é descobrir que desse grupo fazem parte algumas que pouco conheço pessoalmente.  Distanciamento social seria tirarem-me a internet. Fechado em casa? Não passa de uma terminação fraquinha.

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Apanhei uma marretada valente, vinda de quem não esperava. O dia foi difícil. Tento - e consigo - não tirar ilações, não fazer generalizações. As pessoas, tal como as coisas,  são o que são. Qualquer passo para lá desta simples constatação (passe o galicismo) é inútil.

Pensar em Nuno Júdice: "Comecei a fugir para dentro. É cada vez mais difícil deixar de fugir para dentro."

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A chuva não vem. O feiticeiro, cansado abandona a dança e vai dormir.

25.3.20

Diário de Bordos- Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 24-03-2020

Na saída da manhã vi uma criança, três quatro anos. É a primeira que vejo nestes dez dias, mais coisa menos coisa, que aqui levo.

A cena foi demasiado bonita para não ser recordada: Plaza Mayor vazia, nem um gato à vista. O miúdo vem do lado da Rambla a toda a velocidade, montado numa daquelas motas de brinquedo que se deslocam com os pés no chão, como as primeiras bicicletas. Não lhe vi pai ou mãe, o puto saiu disparado como flecha a sair de um arco tenso há demasiado tempo. Chegado a meio da praça voltou para trás, igualmente na brasa.

Era cedo, a praça ainda estava alaranjada e eu pensei inevitavelmente nos milhares de putos que estão fechados por essa cidade fora.

Ao menos têm sorte, daqui a meia dúzia de semanas já terão isto esquecido.

Não que eu me possa queixar muito. Não posso. Tenho trabalho e vinho, duas coisas com as quais poderia passar uma década. O que me chateia são as consequências económicas desta loucura. Houellebeck devia reescrever a Submissão e dedicá-la à China, em vez de aos muçulmanos, ver se as pessoas abrem os olhos.

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Hoje não comprei o jornal. Na verdade ainda só o comprei duas vezes.

Quando penso na sofreguidão com que os lia, antigamente, não sei se fui eu se foi o jornalismo quem mudou.

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A minha "volta ao mundo" (aspas porque ainda está só no papel) já vai em Montevideo. Agora começa a parte mais interessante desta parte da viagem: Argentina, Falkland, estreito de Magalhães, Chiloé. Já não tinha a idade do puto na mota quando comecei a sonhar com isto, mas pouco faltava.

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Grande vantagem disto tudo: não vou poder apanhar um avião nos tempos mais próximos.

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[Adenda: algures na cabeça das pessoas instalou-se a ideia de que sem quarentena os velhinhos morrem.

Posso estar enganado, claro. Estou muitas vezes. Mas quando vejo as estatísticas parece-me que com "isolamento social" (aspas porque cito) os velhinhos continuam a morrer.

De um ponto de vista ético o problema é vasto e complexo, uma espécie de dilema do eléctrico à escala global. Aponta-se a agulha para um lado: morrem os velhos e mata-se a economia. Para o outro: fragiliza-se a economia e morrem os velhos.

Quem não queria estar no lugar dos políticos, quem é?

Adenda: A maioria escoheu a facilidade: deixar morrer os velhinhos fingindo que estão a salvá-los e matar a economia. ]

24.3.20

Reconhecimento tardio e lamento actual

Nestes dias de clausura quase absoluta, um post cheio de ternura dedicado a todas as mulheres que ao longo da vida me foram chateando para fazer a cama.

Vós tínheis razão, minhas queridas. Melhor: os vossos esforços são quotidianamente postos em prática. Só lamento não estarem aqui para ver.

Ditaduras

Uma das coisas mais exasperantes nos guardiães do bem, da virtude, da responsabilidade social e dos lacinhos à lapela é serem incapazes de conter a bondade. Não lhes basta saberem o que é bom para eles. (Aqui há uma ponta de inveja. Eu nem para mim sei.)

Não: eles precisam de mostrar que são bons, responsáveis sociais. Daí os laçarotes. Depois, ainda não satisfeitos, precisam de impor a sua irreprimível preocupação aos outros. Serem bons não lhes chega. A bondade precisa de convivência,  senão não serve para nada.

Que Deus me proteja dos ditadores do bem. Com os outros posso eu.

22.3.20

Inquietação

As redes sociais são as piores e mais eficazes inimigas da dúvida. Toda a gente sabe tudo e transforma esse "saber" em certeza num ápice.

As duas palavras que menos leio no Facebook são: "não sei", o que é pena porque se dão muito bem, ficam lindamente juntas e têm um longo, promissor e fecundo futuro pela frente. O primeiro filho do casal chama-se "Não sei, mas". O segundo "Sei, mas" e o terceiro "E se?", assim mesmo na forma interrogativa.

(Verdade seja dita: na escola estes miúdos não tiveram sorte nenhuma.)  

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 22-03-2020

Choveu e a luz ao acordar - ainda não tinha chovido - era aquele amarelo-acinzentado de antes do temporal. Agora caiu o que havia a cair, pelo menos para já, o ar está claro e o cheiro da fabada flutua pela casa, enche-a como espuma um colchão. Barbara canta as suas histórias de amor, que são trágicas e melancólicas e inquietantes porque começaram mal.

Agora é esperar um par de horas, vigiando atentamente a cozedura. Este fogão não é um fogão, é uma dessas merdas de placas de indução e não há maneira de pôr a temperatura que quero. Como é que a modernidade, uma coisa tão boa, consegue criar monstros destes? Cozinhar é uma coisa básica, fundamental. Tenho a certeza de que os trogloditas, meus irmãos assíncronos, conseguiam controlar a temperatura de cozedura dos seus bisontes.

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Oiço Paco Ibañez e penso que em Portugal muita gente põe Zeca Afonso nos píncaros, vê em José Mário Branco um cantor e ouve Jorge Palma com deleite.

O mundo é um lugar curioso.

[Adenda: de Ibañez passo para Brassens, hoje deu-me para a canção. A música é diferente, o espanto mantém-se.]

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A fabada estava boa, mas não canónica. Questão de treino e matéria-prima.

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O Sol voltou e a rua retomou os seus tons monocromáticos. Parece que a rua vai até ao céu

Na volta vai, quem sabe?

Como estás?

- Como estás? - Perguntam-me.
Respondo sempre que estou bem, obrigado. Não é mentira mas tão pouco é a verdade toda. A verdade toda seria: «não sei como estou. Não faço ideia.»

Tenho muito que fazer em casa, que ainda não está formatada para mim. Tenho trabalho, ao qual às vezes sou relapso, mas isso não é muito grave. Sei o que há a fazer e é questão de um dia chegar a vez dessa peça. Ainda não chegou a cem por cento. Trabalho como uma ave debica fruta. Faço-me à casa e faço-a a mim, como quando chego a bordo de uma embarcação que não conheço, mutatis mutandi.

Tenho esta maldita capacidade de adaptação que me permite assistir a isto tudo como se não fosse parte disto tudo. Desde que não me tirem as minhas saídas diárias para ir às compras está tudo bem. Vou ao mercado, ao Mercadona (são no mesmo edifício) e ao supermercado aqui ao lado. Não é muito, mas é o que há. Não voltei a tirar a burra da garagem. Comprei dois maços de cigarros - o primeiro durou-me cinco dias e em mais de ano e meio ou dois anos deve ter sido o único que fumei integralmente. Hoje comprei outro, mas já estou farto de fumar.

Ninguém me chateia com as saídas - passo às vezes por um polícia ou outro, mas nunca me mandaram parar. Ainda não vi o exército, apesar de estar muito perto de casa. Leio menos do que queria. De vez em quando vou à janela olhar para as ruas desertas.

As pessoas perderam o contacto com a morte. Perderam a noção. O direito à vida obnibulou-lhes a ideia de que sem morte não há vida, sem o direito à morte não há direito à vida nenhum, há só esta coisa , esta massa mole de medo e stay the fuck at home. Fica tu, fiquem vocês.  Se os velhos querem sair deixem-nos sair, porra. Têm o direito de morrer como querem. Sinto-me como se estivesse num cinema a ver um filme do qual sou actor mais do que secundário. Terciário? Cameo? Eu fico em casa, claro. Para onde ir, se não? O Antiquary, a Tasquita, o Can Rigo, o Ca na Chinchilla... tudo está fechado.  As ruas estão vazias, parecem aqueles rios secos do deserto, ou os riachos no Alentejo no verão. Como se uma barragem tivesse contido a vida, algures a montante.

Stay the fuck at home? Shut the fuck up. Para onde é que querem que eu vá? Vão dar ordens para o jardim da responsabilidade social, fica-vos tão bem. É tão bonito. Qualquer dia andam aí com um lacinho à lapela, a mostrar solidariedade com o pessoal da saúde e as cachopas do supermercado. Hão-de cansar-se das palmas, vão ver. De que cor será o laçarote? Amarelo, não? Ou encarnado. Gostava era que parassem de mandar videos e memes e anedotas de cães e papel higiénico e putos em casa.

Perderam a noção da morte e a da quantidade, também. Como é que dizíamos, quando éramos adolescentes? «À primeira tem graça, à segunda ainda passa, à terceira maça.» Não é assim muito complicado, pois não? A morte existe e se se deixar de viver para não se morrer nem se morre nem se vive, que ainda é pior do que morrer. Parem com a porra das mensagens, dos attachements, do raio que os parta. São todos iguais, não percebem?

Ontem decidi-me a comprar um colírio, finalmente. Lembrei-me da primeira vez que comprei um anti-histamínico. Não sabia como é que aquilo se toma e enfiei três de uma vez. Íamos todos a uma feira gastronómica em Santarém, ou coisa que o valha. Bebi meia dúzia de copos e tiveram de me arrastar para o carro. Agora leio as bulas. Hoje comprei colírio para o «lacrimejar provocado pela rinite» (aspas porque cito). Duas gotas três a quatro vezes por dia. Nunca preciso de passar das duas vezes. Pergunto-me de onde vem esta resistência a comprar remédios. Porra, até os trogloditas comiam ervas, não? E faziam mezinhas. Que se lixe. O colírio funciona e hoje sou um especialista em anti-histamínicos. Enfim, mais ou menos.

Vejo o filme de um bom camarote, estou bem e vou fumar um cigarro à janela. Amanhã faço uma fabada asturiana, um prato de que gosto quase tanto como de favas à portuguesa apesar de as favas não serem as mesmas. Leva três horas a cozer. Parece que caiu uma bomba de neutrões na cidade. As pessoas que andam na rua - a esta hora nenhuma, claro. Digo durante o dia - são os zombies que sobreviveram. meio-vivos meio-mortos.

Volto para o Marlowe. Não tenho rum potável em casa, nem whisky: estou a fazer uma experiência com a glicemia. Um médico uma vez disse-me que a minha sorte eram aqueles períodos de mar em que não bebo nada. Nesta viagem autorizei o vinho, mas cortei o resto. Quando chegar, decido se vou para a esquerda se para a direita, como se a fisga estivesse deitada à minha frente. O que me está a lixar os números é a fruta, aposto. Mas quero ter a certeza. Sou demasiado burro para tomar decisões que não estejam fundamentadas em números, em provas empíricas. A partir de hoje corto as frutas. Mais semana menos semana reintroduzo o rum. Depois é só comparar, não é? Shut the fuck up.

- Como é que estás?
- Bem, obrigado. E tu?

20.3.20

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 20-03-2020

Janto de pé, no canto da cozinha perto do lava-loiça. Pão torrado, uma fatia de manteiga espessa como queijo, uma de queijo alta como uma de pão e o pão, bem, pão. Copo de vinho, Noa no Windows Media Player - à espera do Paul Simon - silêncio na rua. Penso nas pessoas chatas como sandes sem manteiga e apercebo-me de que posso brincar com os dois sentidos da palavra chata: ela era chata como... O gajo era chato como... Olho para o queijo e lembro-me do meu Pai, que um dia me viu pôr manteiga num bocado de pão e se exaltou "Porra, Luís, isso não é queijo" (foi na última glaciação), revejo passagens do The Big Sleep que releio. Vêm-me à memória lampejos de episódios, há muitas palavras que não percebo e penso - ou repenso? - que em Chandler admiro a justeza do tom, ele escreve como um piano afinado toca, em meia dúzia de linhas define a atmosfera de um capítulo. Não sou invejoso, juro que não sou. Mas... Quem me dera escrever assim, ser capaz de acertar a nota ao milímetro.

Pelo menos tento, vá lá. Mais vale perder do que não tentar.

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Consegui encontrar gel desinfectante. Tinha-o encomendado ontem. Só vendem um por pessoa, mas ficou outro pedido para amanhã. Se não aparecer ninguém que não tenha nenhum vende-mo a mim. Gosto de aplicar aquele princípio da marinha de guerra: um a uso, um em reparação e outro de reserva. Como neste caso não há reparações, podem ser só dois. Assim faço com tudo.

Excepto com a vida, claro. Essa não aceita nem reservas nem reparações. Há que usá-la o mais possível, não vá ela de bodas com um vírus qualquer caído do céu.

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Não me apetece formar opiniões sobre esta merda deste Covid. Limito-me a coleccionar opções, como um jogador de cartas as abre em leque à sua frente. Só no fim do jogo saberei qual devia ter jogado.

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«This room was too big, the ceiling was too high, the doors were too tall, and the white carpet that went from wall to wall looked like a fresh fall of snow at Lake Arrowhead. There were full-length mirrors, and crystal doodads all over the place. The ivory furniture had chromium on it, and the enormous ivory drapes lay tumbled on the white carpet a yard from the windows. The white made the ivory look dirty and the ivory made the white look bled out. The windows stared towards the darkening foothills. It was going to rain soon. There was pressure in the air already.»

(Raymond Chandler, The Big Sleep, ed. Penguin Books.)

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Uma cidade é feita de pessoas nas ruas, por muito bonitas que estas sejam. Uma rua deserta só seduz se antes tiver estado cheia de gente ou se o vier a estar depois. Não há beleza que resista à ausência, seja esta qual for.

Duas ou três coisas que não sei dele

a) Aprender a viver com a ideia de que não sabemos tudo. "Não sei" é provavelmente a coisa mais certa que muitos de nós dizemos. Infelizmente, não o dizemos o suficiente e nem todos o dizemos tão frequentemente quanto devíamos. "Não sei" (ou, neste caso, "não sabemos"). O que é um sinónimo de: "vamos saber" e não de "vamos dar a nossa opinião";

b) O facto de muita gente dizer uma coisa não quer dizer que essa coisa seja certa. Ninguém acreditou em Galileu Galilei, Newton enfrentou uma descrença generalizada, Einstein foi ridicularizado. Isto não significa que a maioria está necessariamente errada. Significa que pode está-lo, talvez esteja;

c) Há uma hipótese - sublinho e repito, hipótese - segundo a qual o Covid-19 já existia há muito tempo, já muita gente em todo o mundo ter sido exposta a ele e ter adquirido imunidade. Em que se baseia essa hipótese?

1 - No caso do M/S DIAMOND PRINCESS. Só vinte por cento das pessoas a bordo contraíram o vírus, apesar de o navio ter um sistema de ar condicionado (se não tivesse, morreriam todos assados ou congelados) e de as refeições terem continuado a ser servidas nas salas de comer (é impossível distribuir refeições por todos os camarotes). Este caso é extremo: o navio esteve fechado a contactos com o exterior, andou para trás e para a frente e esse vírus não conseguiu infectar mais de vinte por cento das pessoas?

2 - Toda a imprensa fala na percentagem de mortes em relação aos casos infectados, mas ninguém fala na relação mortes / população total. É ínfima. Ora se se admitir, como a Islândia acaba de demonstrar, que os casos sintomáticos são cerca de metade dos casos totais infectados - isto é, metade das pessoas infectadas não apresenta sintomas - a questão que se põe é: porque é que a taxa de mortalidade é tão baixa? Porque é que há tanta gente infectada sem sintomas? Uma das respostas possíveis (cf. a)) é que a maioria da população já está imune;

d) Ou seja: se se admitir que esse vírus ((cf a)) estava presente em toda (ou grande parte da) população mundial e se se admitir que as pessoas estavam imunizadas contra ele, o que é que fez essa imunidade falhar em Wuhan? Resposta: Não sabemos. Talvez tenha sido a poluição. Pode ter sido outra coisa qualquer, há um leque de possibilidades, mas a poluição integra esse leque. Ou seja, a atitude correcta é: "Vamos aprender. Vamos estudar. Vamos pesquisar. Vamos analisar."

e) A Holanda está a levar a cabo um estudo serológico. Quando se tiverem os seus resultados, algumas destas hipóteses confirmar-se-ão e outras irão para o caixote de lixo da história. Até lá, aplica-se a a) (e tenta-se não aniquilar a economia, a vida e a liberdade das pessoas, mas isso por agora é outra história. Devo confessar que pela primeira vez desde que as tartarugas têm casca apreciei a acção de António Costa, o que devia servir para demonstrar urbi et orbi que por muito teimoso que seja, sei adaptar-me e não estou preso a preconceitos ideológicos).

Adenda:  seria útil conseguir fazer-se um dia a destrinça entre pessoas que morreram por causa do Covid e pessoas que o tinham e morreram devido às patologias que já tinham antes. Não sei se é possível.

18.3.20

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 18-03-2020

Encaro isto como uma travessia em solitário, com um bónus: posso desembarcar de vez em quando. Por pouco tempo, é certo - hoje já se tem de guardar os talões das compras porque a polícia pode pedi-los - mas posso desembarcar, passear a burra (queixou-se do pouco. Disse-lhe que amanhã haverá mais), comprar fruta e pensar que é melhor deixar o tinto para amanhã, não vá a garrafa partir-se ao chegar a casa.

É como estar parado sem vento e dar um mergulho ou dois, com a diferença de que esta paragem vai durar mais de um mês. Vai durar a travessia toda.

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A casa está praticamente arrumada. Penso que tenho muitas coisas, mas vamos a ver e não são assim tantas. Continuam é a ser demais, mas isso é outra história.

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Com a ajuda pontual da A. (a quem dedico este post, cheio de sentimento e saudade) ando a ver se consigo controlar-me e calar-me no Facebook. Não é fácil, mas já estive mais longe.

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Foi decretado o estado de emergência em Portugal, medida que contesto tudo o que posso (posso contestar muito. Não serve é de nada). Não é só no Facebook que não me calo.

Mas que fazer? Vivemos há anos a ser desresponsabilizados. Já nem uma rua se pode atravessar sem ter um idiota de um semáforo a dizer-nos se podemos ou não. Os cafés vêm com avisos de que o recipiente está quente. Somos tratados como débeis mentais todos os dias "normais". Não há-de ser  em tempos como os de agora que vamos deixar de ser as crianças irresponsáveis em que nos deixámos tornar.

Quem se recusa a ir com o rebanho é apelidado de maluco, anárquico, ou - se for no Facebook - criminoso, cretino, idiota, fascista e por aí fora. Por um lado estou contente, pois já só tenho vinte anos disto, estatisticamente. Por outro triste: vinte anos é tanto tempo.

Não sou de rebanhos. Nunca fui e nunca serei. E agora tenho a vantagem de poder apresentar provas.

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Acredito na importância da ética, na da moral e num princípio base das duas: não faças aos outros o que não queres que te façam a ti; faz aos outros o que queres que te façam a ti. Acredito na liberdade. Não preciso do Estado nem de sindicatos, clubes, associações e o resto da corja para ser o que sou. Não é muito, mas é tudo o que sou. E não é amanhã que vou mudar.

A sério?

A ridícula, absurda, patética antropomorfização dos animais de companhia que se vive actualmente atingiu um novo cume graças ao Covid-19.

Tem-se a impressão de que os donos dos animais querem que estes possam ser contagiados e transmissores do vírus, como se fossem crianças a sério.

17.3.20

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 17-03-2020

A mudança chegou ao fim - ou melhor, a primeira parte dela; amanhã começa a segunda, que é arrumar  tudo num apartamento que pura e simplesmente não tem arrumações - e eu estou exausto. Devia obviamente ter seguido o plano inicial, que era fazer isto em três ou quatro dias.

Mas um marinheiro é por natureza o tipo mais pessimista do mundo e sabe que amanhã pode ser pior, de modo se está de bonança não se pára. (É também, simultaneamente e sem qualquer contradição, o mais optimista, mas isso são contas de outro rosário.) De modo lá fiz mais não sei quantas viagens e trouxe tudo para cima. Doem-me os músculos todos, desde os que fazem crescer os cabelos até aos que fazem crescer as unhas dos pés.

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E agora vem aí o helicóptero do dinheiro. Duzentos mil milhões de euros (Espanha). Se estes tipos fossem para a pata que os pôs ela não se queixaria de certeza. E nós tão pouco: ficaríamos muito melhor.

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Enfim, ainda é cedo. Esperemos para ver. Pelo menos uma surpresa já saiu da caixa: António Costa, esse verbo de encher balões furados, não quer decretar o estado de emergência. Até um relógio avariado acerta duas vezes por dia. Aquele "estadista" - juro que já vi pessoas a chamar-lhe isso, estadista (e algumas delas inteligentes). Estadista, António Costa? É como se alguém olhasse para mim e dissesse que eu sou esquimó. Desta acertou. Pena aquele relógio ter um ritmo tão lento. Em cinco anos é a primeira vez que o vejo hesitar antes de tomar uma má decisão (vai acabar por ceder ao Marcelo, aposto dobrado contra singelo. Pelo menos não disse logo que sim ou não teve ele próprio a ideia. Não faz dele um estadista, claro. Não faz nada. Cada um é para o que nasce e lagartixa...)

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Do lado do P.: agora, só trabalho de escritório. Esta é a maior viagem que alguma vez planeei. E a melhor, também: uma volta ao mundo em quatro ou cinco anos, passando por todos os lugares com os quais sonhei desde miúdo (eu e metade daquela parte do planeta que sonha com viagens maritimas). Neste momento estou nas Galápagos, à espera de uma informação para continuar para as Marquesas. Mas ainda vou nas linhas gerais. Agora é começar com as particulares: escalas, datas, regatas em que vamos participar, etc., etc., etc. A quantidade de etc. é infinita.

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Já que estamos no P.: estou a preparar-me para uma travessia em solitário que vai durar mais ou menos dois meses.

Só que não é no P., é no quarto andar.

Crise canina

Os cães vão chegar ao fim desta crise estoirados. Nunca terão saído tanto à rua como agora.

16.3.20

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 16-03-2020

É uma corrida de obstáculos, contra-relógio, contra-vírus, contra a indecisão. Vou por etapas: a primeira é conseguir mudar de casa. Estou quase lá. Hoje fiz quatro viagens, ontem três. Mais outras tantas e estou no meu quarto andar, pendurado com vista para uma cidade vazia. Não vi polícia nenhum, espero que continuem ocupados noutro lado.  (Lembro aos distraídos que faço parte de dois grupos de risco. Ficaria estarrecido de agradecido que não me chateiem com isso de ficar em casa a foder o tempo. Salvo duas ou três raras excepções, as raras pessoas com quem me cruzo - a pelo menos três metros, não vá o diabo urdi-las - têm metade da minha idade, em média. Das excepções, algumas fazem-me um olhar culpado, outras um cúmplice, outras ainda nenhum. Respondo com nenhum, sempre. Isto não está para partilhar emoções. De qualquer forma, os dedos das duas mãos não devem chegar para as contar todas. Sobretudo se lhes juntarmos os dos pés). Seja como for, tenho dois ou três argumentos engatilhados para o caso de um Guardia Civil  me mandar parar.

Juro, palavra de honra, xicuembo xa nhaca, nunca pensei que um dia teria de fazer uma mudança clandestinamente. Mas isto é questão de trocar uma morte possível por uma morte segura: ficar neste quarto os dois meses que isto vai durar - se tudo correr bem - conduzir-me-ia ao suicídio ou, pior ainda, ao homicídio.

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O pior vai ser levar a base da minha escultura "Tempo" (designação provisória). Aquilo está pesado pra burro e frágil porque não tem base. A ver vamos: parta-se ou não, será sempre uma mostra do tempo.

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Lancei um concurso para encontrar um tradutor para o Avenida. Das cinco ou seis respostas, uma promete. Entre isto e a circumnavegação tenho com que me ocupar. O problema é o P.: todo o trabalho a bordo está proibido. Nem eu lá posso ir. É um bocado estúpido, vim para aqui para estar perto dele, entre outras razões - todas igualmente válidas, asseguro.

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Vale-me a mudança para abafar a quarentena, como quando éramos miúdos, jogávamos ao berlinde e um gajo qualquer tinha um abafador. Não me lembro bem das regras. Acho que o gajo do abafador tiha de tocar no berlinde e dizer "abafado", ou coisa que o valha.

A minha mudança não diz nada. Está caladinha, atravessa a Plaza Mayor bem pelo meio, não vá algum polícia pensar que se está a esconder e respira de alívio quando chega à porta de casa. Tudo menos ser apanhado a meio (da praça e da mudança ela própria).

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O Alaska, a Groenlândia e a Terra Nova só têm um caso cada um. Vamos a ver e na volta o vírus nao gosta é do frio.

A verdade é que me estou relativamente nas tintas para teorias, pelo menos nesta fase. Quando tivermos os números veremos quem tinha razão. Não gosto de certezas e menos ainda das consensuais. O único campo em que a maioria está sempre certa é quando está em causa uma decisão democrática. Mas isso não significa que tenha razão. Significa que as maiorias são melhores do que um iluminado, é tudo. Sobretudo que a maioria das vezes os iluminados são obscurecidos, o poder turva a vista.

Por isso espero para ver e até lá faço as minhas viagens em bicos dos pés. São curtas, cinco - dez minutos cada uma. Quando acabar, sobram-me as compras e passear a burra.

Não sou grande adepto do Boris Johnson mas gabo-lhe a inteligência - de que já deu bastas provas - e os tomates. Se fosse de rezas, rezar-lhe-ia um terço ou dois. Infelizmente não sou. Contento-me com vinho tinto e Hildegarde von Bingen, uma mistura de cuja eficácia tenho sólidas provas.

(Procurar contradições neste texto é pura perda de tempo, aviso desde já.)