28.7.16

Abulismo?

Sou ateu não-militante, ciclista não-militante, liberal não-militante, feliz não-militante.

26.7.16

Cambrils, lugares (post críptico)

Num não-lugar tive uma ideia sobre lugares.

Diário de Bordos - Cambrils, Catalunha, Espanha, 26-07-2016

Tudo isto dito, a minha guerra privada com o filha da puta com um nome que parece o de um linguado continua. É uma batalha ou um tango: ora agora avanço eu ora agora avanças tu. Estou a ganhar, passo a passo mas claramente.

Quando voltar do Algarve vou ver a minha otorrino favorita; apenas, aposto, para lhe dar as boas notícias e vê-la, que não se perde nada.

E ainda há quem critique a Segurança Social. Com médicas assim não há crítica que resista.

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 O M/Y A., que tão simpaticamente me acolhe regressa à água amanhã. Ainda não tem os problemas todos resolvidos, mas tê-los-á em breve. Pelo menos espero. Quanto mais depressa me apanhar em Sitges mais contente fico.

Por muito difícil que seja estar mais contente do que estou.

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A Marinada é definitivamente um lugar que salva Cambrils de ser um não-lugar. Talvez não seja o único (não deve ser) mas é o que até agora conheço.

Já Cambrils tem uma função no Universo: ser o cenário de um filme francês do qual o título poderia ser "Les Vacances des Cons".

Ou, para quem se preocupa com os problemas de género, "Les Vacances des Couillons".

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Adenda: o que de resto me traz à memória que um barco a motor como aquele no qual agora trabalho é designado em francês por "promène-couillons" e não por "promène-cons".

Pormenor aparentemente insignificante, mas na verdade longe disso.

25.7.16

Diário de Bordos - Cambrils, Catalunha, Espanha, 25-07-2016

Como todos os não-lugares Cambrils evolui devagar mas seguramente. Mais uns dias e isto fica um lugar. O pivot da mudança foi um café chamado Marinadas, que aconselho fortemente a quem por acaso aqui vier um dia (coisa que de resto desaconselho de todo).

Pintxos e tapas decentes, mais espanhóis do que turistas, preços bastante aceitáveis e serviço impecável, caseiro, familiar, o que quiserem chamar-lhe. Basta um lugar para transformar um não-lugar num lugar.

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Não é propriamente que o trabalho seja demolidor, não é. Mas os dias são longos e não tenho os meus livros. Hoje falava de A Passage to Juneau e fiquei com vontade de o folhear. Os livros faltam-me como algumas mulheres: não é propriamente necessidade de os reler. Só de os folhear, de perceber melhor uma passagem ou descobrir algo de que não me lembrava.

24.7.16

Critérios, complexidades

Ainda não vi um único louco ou pessoa estranha em Cambrils. Aqui (Tarragona) já me passaram dois ou três em pouco mais de uma hora.

Talvez a complexidade de uma cidade se possa medir pela quantidade de freaks que se passeiam pelas ruas.

Diário de Bordos - Tarragona, Catalunha, Espanha, 24-07-2016

O trajecto entre Cambrils e Tarragona é mais fácil do que eu esperava; mas isso não impediu tenha chegado cansado e a precisar de parar na primeira estação de combustível que encontrei. É uma daquelas esplanadas que me fazem gostar de Espanha: meia dúzia de mesas num passeio, dois chapéus de sol, sandes ("hoy és domingosolo tenemos bocadillos", explica-me o senhor). Duas cañas, dois bocadillos e dois dedos de conversa mais tarde estou pronto para descobrir a cidade. É bonita, parece, mas até agora só sei que é agradável.

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A burra é uma pasteleira, tem peso a mais e um espigão de selim demasiado curto. Mas anda bem e - sobretudo - o passeio é lindo, quase sempre à beira-mar. Foi uma alegria chegar aqui.

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O projecto manteve-se inalterado: ver Tarragona de bicicleta. O que evoluiu foram os critérios. Primeiro ia para onde via uma rua ou uma praça bonita; depois, essa rua tinha de ser a descer; e finalmente tinha de ter sombra.

Apesar de todas estas precauções (verdade seja dita as descidas acabaram muito depressa, mais depressa do que as praças bonitas) precisei rapidamente de outra estação de serviço. Ou o combustível está errado ou a máquina consome bastante. De maneira lá parei, desta vez numa padaria da zona pedestre da cidade. Como todas as boas padarias vende pão (cerveja é pão líquido, como diziam os monges alemães da Idade Média, que sabiam do que falavam quando falavam de pão e de cerveja).

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O mais provável é regressar a Cambrils de comboio. Talvez. Não sei.

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Amanhã às oito da manhã começo a manobra para encalhar o bote.

Diário de Bordos - Cambrils, Catalunha, Espanha, 24-07-2016

Aos pequenos-almoços a coisa complica-se: é preciso procurar um café aberto e com o wifi. Espanha não é um país para madrugadores, mesmo que se estenda o conceito de madrugada até muito para lá das sete da manhã. Sete e meia, para ser preciso: é a essa hora que abre o café do hotel Port Eugeni.

Pouco importa. Agora tenho a bicicleta e posso procurar alternativas, de caminho descobrindo as ruas menos banais - poucas e pouco - de Cambrils. Não há. Acabo no dito café, que tem o método de acesso ao Wifi mais bizantino que jamais vi e limitado a meia-hora cada senha. Lisboa, porque me abandonas?

(Estou a ser injusto. O café do Hotel Port Eugeni tem umas mini-sanduíches de presunto que merecem laudas).

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Passei por duas ou três ruas pedestres que devem constituir o "centro" de Cambrils: cafés e restaurantes (fechados, claro), lojas de chineses (abertas, ditto), boutiques... Não vejo bem onde está a falta de banalidade, mas deve ser um problema de memória. Há menos farmácias do que em Cabo San Lucas, deve ser daí.

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O trabalho de ontem durou mais tempo do que tinha previsto. Hoje queria ir a Tarragona, mas não devo conseguir porque tenho de acabar. Fui skipper pela primeira vez ha quarenta anos e ainda não consigo pensar que um trabalho a bordo, seja ele qual for, vai durar o triplo do que se espera.

Nos meus dias de optimismo penso que é excesso de optimismo (sem o qual, relembro, não se pode viver do mar).

23.7.16

Das impossibilidades fundamentais

De qualquer forma é impossível viver num país que tem um café como este.

Espero que não seja amanhã a véspera desse dia

Farto de fluido hidráulico até à ponta dos cabelos. A próxima vez que vomitar vai sair fluido hidráulico.

Oiça um bom conselho, eu lhe dou de graça

Não procures príncipes encantados.

Somos cada vez menos.

Só maçadas

Esta tristeza de transformar lágrimas em granito, que eu pensava estar reservada aos dias sem dinheiro afinal é partilhada também pelos dias de ataque súbito, profundo e agudo de solidão.

Que maçador, não é?

Diário de Bordos - Cambrils, Catalunha, Espanha, 23-07-2016

Procurar um lugar para comer nesta terra é um processo complexo. Isto é, os parâmetros são os mesmos em todo o lado: comida local, barato, bom, com wifi. Acabo na rua banal de ontem, ao lado da tasca dos chineses. Pergunto-me se é uma coincidência. Talvez.

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Aluguei uma máquina de Cambrilar. Ou Cambrilsar, mais correctamente. A cidade chama-se Cambrils (se tanto é que isto é uma cidade. Provavelmente não). Hoje fui dar uma volta. Não vi as ruas todas mas pouco deve faltar para tal. Há algumas mais bonitas do que aquela onde estou, mas nenhuma menos banal. A diferença está na arquitectura, claro: umas têm vivendas e outras prédios. Não sei se qualquer delas teve arquitectos.

(Levanto os olhos do monitor e vejo um prédio que me faz responder sim. Um pato bravo não faria aquelas varandas curvas na esquina. A do primeiro andar foi marquisada, para dar cabo de uma intenção - fazer coisas pouco banais para gente banal é uma desconsideração, uma falta de respeito, uma arrogância que deve imediatamente ser punida com uma marquise -).

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Seja como for: pedalo em vez de andar. Que dizer mais? É um ciclista português.

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De qualquer forma não saberia dizê-lo em catalão, língua cada vez mais presente e irritante. Entre a falta de wifi e o excesso de catalão venho o diabo e escolha. Se tivesse de viver em Espanha não seria aqui.

22.7.16

Diário de Bordos - Cambrils, Catalunha, Espanha, 22-07-2016

Não sei se é por aqui que devo começar o post de hoje. Estou numa esplanada banal numa rua idem de Cambrils. Não vi muitas, mas tenho a impressão de que todas serão igualmente banais. Pedi no escritório da Marina que me indicassem um restaurante "espanhol". Nada de chinesices, indianos, tailandeses, italianos ou - outra peste - "hamburgueserias". A miúda - de resto muito gira e simpática, isto parece apanágio das espanholas com uma idade inferior à minha - indicou-me o Les Fonts (Calle Colon 1, Cambrils, aqui fica para não dizerem que não presto serviço público).

A rapariga teve o cuidado de me prevenir que "não tem muito estilo". É verdade, mais do que verdade. Mas apesar disso inspira confiança. O homem é calado e façanhudo, a ausência de decoração consegue ser mais feia do que uma decoração feia, os móveis são banais, a iluminação má.

Mas é o tipo de lugar onde entraria mesmo sem ter sido aconselhado. Sou capaz de identificar quem - um pouco como eu, às vezes - acredita mais no conteúdo do que na forma e não recorre a artíficios para se vender. O que tu vês não é o que tu terás, eu caro. O que se terá está reservado a quem possua aquela mistura de fé, intuição e capacidade de sofrer desilusões que separa algumas pessoas de outras.

Um desses artifícios é, claro, o wifi. Quando pergunto ao senhor se o tem responde-me com um "Não" mais seco do que um papo-seco. "Não". Subentendido "Vens aqui para comer ou para quê?" Comi uns chocos excelentes. acompanhados por cava cuja qualidade era inversamente proporcional ao preço. Quando lhe peço para ver a marca explica-me que aquilo é engarrafado para ele. Ponto. Nada de floreados.

O único problema do restaurante é, claro, o wifi. Por mim ficaria ali até ao fim dos dias (no plural) a beber cava e a apreciar a banalidade da rua onde estou. Uma banalidade avassaladora, esmagadora mas estimulante: "est-ce ainsi que les hommes vivent?". É, Leo. É. Eu próprio poderia viver numa rua assim se tivesse, claro, wifi.

Meia dúzia de metros (enfim, meia dúzia de meia dúzia de metros) à frente, na mesma rua, está uma outra esplanada, de chineses, com um autocolante gigante na porta. É aquele antigo da "Wifi Zone". Recebem-me (é um casal) com um sorriso enorme, não sabem o que é cava e quando peço vinho branco perguntam-me se o quero doce ou seco.

Com a taça de vinho trazem-me de presente uns boquerones medíocres e uns biscoitos que têm a forma de chamuças mas em tamanho minúsculo e sem recheio.

Um dia os chineses vão aprender como escolher boquerones e o que é cava e o senhor façanhudo vai dizer que está a ser invadido.

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Não sei se vale muito a pena falar do dia: oito horas e meia menos duas em que fui substituído a governar com as máquinas, mais as tarefas habituais da chegada. Acordei às quatro e meia da manhã e dei volta às seis e um quarto da tarde. Agora são oito e meia e só estou aqui porque não tenho força para me levantar (é mentira. Estou aqui porque quero e adoro esta rua, sinto-me em Dunkerque, não sei porquê.

Talvez por causa da arquitectura, estúpido).

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Quando chegámos tínhamos os mecânicos à espera. Especialistas dos bons, um gajo fala com eles cinco minutos e percebe que fala com quem sabe. Vai ser preciso tirar o bote da água. Vamos ficar aqui até quarta-feira pelo menos.

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O Les Fonts tinha televisão e foi lá, muito de passagem, que soube do atentado de Munique. Vim imediatamente para fora. Não quero saber.

Um dos convidados de R. a bordo diz que tomou uma decisão: não se interessa por nada que se passe a mais de quinhentos metros da porta da frente de sua casa. Não tenho casa e preciso de adaptar o conceito. Ou então: tenho mas adapto-o na mesma: não quero saber de nada que se passe a mais de cem milhas da minha proa.

Infelizmente não posso. Há muita vida a mais de cem milhas para poder ser ignorada.

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Os chineses são adoráveis, mas antes de ir para bordo vou beber um cava ao Fonts. Pode ser que assim da poróxima vez que aqui passar ele tenha wifi.

Uma das poucas coisas que aprecio em mim é o altruísmo.

21.7.16

Diário de Bordos - Denia, Alicante, Espanha, 21-07-2016 / II

Da única coisa que me enche literalmente a cabeça não quero falar; quero que se foda. Do resto não sei. É tanto e tão pouco que hesito: se do tanto falo é de mais, se do pouco não tenho de quê.

Amanhã largamos para Cambrils, um sítio onde nunca estive. Os lemes estão exactamente como estavam quando aqui chegámos, de modo vai ser mais um dia de governo "à máquina". Na verdade ao fim de pouco tempo é quase a mesma coisa. Só exige mais atenção. As previsões meteorológicas são boas sem serem excelentes. Ou seja: que se lixe.

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E que se lixe o resto também. Quando fizer as contas destes dias vou lembrar-me dos dias bons que foram. O resto esquecerei.

Já esqueci: não tenho sequer de que falar...

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Trabalho muito e gosto do que faço: quase não é trabalho; sei que é porque posso fazer coisas que não posso quando não trabalho, como vir comer ao restaurante ou sonhar com um chapéu. Era lindo. Não tive coragem suficiente para o comprar. Amanhã largamos às cinco e meia da manhã: já disse adeus ao chapéu, uma Panamá lindo como há muito tempo não via.

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Acabei a jantar no interior de uma cervejaria artesanal, para pder carregar o computador. Os espanhóis têm uma relação arcaica, fundamentalista com o wifi.  Vêem-no como uma invasão da modernidade, uma agressão, um ataque aos valores da hispanidade. Fiz metade da cidade para encontrar um sítio onde comer e aceder à net simultaneamente.

Ainda bem. Não me lembrava de que é tão bonita.

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Noite curta, de novo. Já queria estar deitado e ainda por aqui estou a debitar disparates. Como reagirá a carcaça à sedentarização? Agradecer-me-á ou antes pelo contrário, como receio, cuspir-me-á em cima com desprezo?

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Enfim, há que definir sedentarização.

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Para informação: a cervejaria chama-se El Convent e faz uma cerveja digna do nome. Fica na Plaza del Convent, 6.

Diário de Bordos - Denia, Alicante, Espanha, 21-07-2016

Trinta e três graus não são, de per se, muitos graus. Acoplados (estranha, a facilidade com que a temperatura arranja parceiros de cama, não é?) a este cansaço, a quase uma semana de trabalho ininterrupto (e com horas que fariam um sindicalista corar de vergonha), a uma séria quantidade de dúvidas existenciais sobre o futuro e, por último mas não por menos ao filho da puta são como um daqueles cilindros que se utilizam na pavimentação de ruas e estradas: cilindram.

Bebi um rum para tentar engrossar a máquina, mas acho que tudo o que consegui foi dar-lhe combustível.

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Tenho de aqui deixar bem clara e explícita uma lauda ao armador e respectivos convidados. Encontrar quem restaure o meu ontológico pessimismo na humanidade é pouco frequente, mas não raro; encontrar um armador que consiga esse prodígio não é sequer raro: acontece a um ritmo geológico, do género uma vez todos os quinhentos milhões de anos.

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Ecco! Amanhã Sitges. Perdemos um dia aqui para nada.

Enfim, não. Encontrei um péssimo restaurante. É tão raro que merece menção.

20.7.16

Diário de Bordos - Denia, Alicante, Espanha, 20-07-2016

Os franceses não só perderam o jogo de futebol como também se enganam nas expressões proverbiais. As avarias sucedem-se e assemelham-se. Tanto que de resto são as mesmas. Meia hora depois de saírmos de Cartagena fiquei sem leme outra vez. Felizmente já controlo a arte de governar com as máquinas no M/Y A., que tão gentilmente me vai dando estas oportunidades de exercer as minhas capacidades de aprendizagem.

Quem me dera aprender tudo tão depressa como aprendo uma embarcação.

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À chegada a Denia havia muito vento, mas lá consegui atracar sem partir nada. A manobra não foi muito elegante mas não desmereceu e não tenho de me envergonhar. A próxima vai ser seguida e sem espinhas, querido A. Esteja o vento que estiver e tenha o espaço que tiver.

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Pequena luta privada com o Ménière. Ganhei uma etapa: não conseguia olhar para cima ou para baixo sem vertigens e vim a viagem toda a olhar alternadamente para cima e para baixo até elas desaparecerem.

Vingam-se agora: aproveitam-se do cansaço, as putas. Como todas as putas do mundo, de resto. Não perdem pela espera: amanhã vou ter mais um dia "classe A." Encontrar um mecânico e um terminal para a mangueira de água, perscrutar o pique de ré para saber o que o mecânico lá vai encontrar (só isto equivale a  uma hora de ginásio, digo eu que nunca entrei num), lavar o barco, falar com o Juan Pedro, cuja reparação dos lemes foi fantástica e durou meia hora - sem ironia. Ele reparou uma parte das avarias, mas agora há que pensar nas outras - fazer os papéis de entrada e responder às muitas perguntas do armador, foder o Ménière. Tudo isto ao mesmo tempo.

Felizmente a parte feminina do meu cérebro é vasta e dá resposta a isto e muito mais.

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A perdiz de escabeche que como no Reboost é uma valente merda. Mas as miúdas são uma simpatia e o restaurante fica mesmo à saída da Marina e tem preços aceitáveis e que se lixe. Acho que vou cá voltar: a perdiz estava tão seca e desinteressante que deve ser uma excepção. Não há restaurante no mundo que sobreviva a uma carta cheia de coisas destas.

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A próxima escala vai ser Sitges, espero. Isto não é bem uma viagem, é uma peregrinação.

19.7.16

Diário de Bordos - Cartagena, Murcia, Espanha, 19-07-2016

Escala forçada em Cartagena, a  minha amada Cartagena. As avarias sucedem-se e não se assemelham, como dizem os franceses (a quem, convem lembrar, ganhámos recentemente um jogo de futebol).

Desta vez foi o leme, piloto automático incluído. Fizemos três quartos da viagem a governar com as máquinas. À chegada vi que não tinha bow thruster (à largada tinha visto que não tinha luzes de navegação, mas faltava pouco tempo para ser dia).

Aqui encontrei uma espécie de génio que amanhã me vai resolver o que falta disto tudo (tudo. Hoje precisou de quatro horas para desmontar a barra de ligação dos lemes, de tão calcinada aquilo estava. E repôr óleo hidráulico no circuito. O rapaz é bom. Fiquei-lhe com o número de telefone, tal como já fiquei com o do Frank em Almerimar. Nesta vida um gajo encontra um homem decente e é de não o largar. (Noutras também, suponho, verdade seja dita).

Mas estou cansado de mais para ir passear. Vim jantar ao restaurante mais próximo da marina depois do da marina e não tarda estarei a dormir. Ou, mais provavelmente, numa versão suave e reversível de morto.

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Juan Pedro (o génio que encontrei aqui e que recomendo vivamente a quem quer que precise de um génio para reparações de mecânica e electricidade a bordo) trabalha sozinho. Sugiro-lhe que o posso ajudar, quanto mais não seja a transportar o material. Borrega gentilmente. "Este é como eu", comento para R., o armador. "Não trabalha em equipe" ("he's not a team player". Se alguém tiver melhor tradução agradeço).

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Janto no terraço do restaurante, que não sendo o da marina fica na marina. Por detrás dos mastros as primeiras colinas nuas e austeras daquilo que algumas milhas mais longe será o Cabo de Palos. De onde estou não vejo o cabo Tiñoso,cujo nome parece ser mais do que justificado. Não há ponta de vento, são nove e meia da noite e ainda está dia (e quente), comi lulas e bebo vinho branco; em altitude as núvens imóveis dizem-me que amanhã vai ser igual, com a provável e aprovável excepção de estar em Denia em vez de Cartagena.

Tenho trabalho para fazer, mas não consigo: o cansaço é violento; a ideia que um dia estarei sempre no mesmo sítio (a fazer outras coisa de que gosto, forçoso é reconhecer) paralisa-me.

Vou dormir. Amanhã estarei menos cansado, se dormir hoje. Além disso, dormindo perco pouco -

...

(Seguia-se a descrição do que perco se for dormir. Só um palerma blasé e pedante - coisas que de todo não sou - chamaria pouco a isto). A noite cai sobre a paisagem como o avião no Saturday de Ian McEwan: sabemos que vai cair, mas não quando. Tal lentidão podia ser enervante, mas não é. Antes pelo contrário: pacifica, acalma, faz-me pensar na sorte que é poder ver colinas nuas, rugosas e austeras desaparecerem por detrás de mastros e por cima de um plano de água tão imóvel que parece uma mesa.

Nada do que vejo é bonito. Hopper tiraria noventa por cento de clientes ao terraço e provavelmente todos os mastros; Hockney encheria tudo de cores berrantes; nenhum fotógrafo dos que conheço faria disto um tema.

Eu talvez. Chamar-lhe-ia "A interminável queda de uma noite de verão em Cartagena, quando entre ela e o mar estão o cansaço e a paz". Um pouco longo como título, mas muito para lá do certeiro.

18.7.16

Diário de Bordos - Almerimar, Almería, Espanha, 18-07-2016

A coisa é mais ou menos assim: tive um bom dia. Mais coisa menos coisa: lavoro ma non troppo, problemas ou resolvidos ou não mas controlados, cansaço diluído nesta mistura tão boa quanto rara de paz, vinho tinto, rum, boa comida e solidão. Amanhã largamos cedo para um dia longo. A ideia é fazer doze horas de mar, um exagero sozinho (os outros de mar sabem que é azul quando o tempo está bom).

Enfim, quase exagero. Não tarda estou a dormir.

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Pela primeira vez desde que cheguei a Espanha vejo uma espanhola obesa. Sentou-se na mesa ao lado da minha, parte de um grupo de três miúdas.

Não vejo bem as outras: a sorte que tenho chega-me.

"Sorte?"
"Sim. No Panamá estaria a celebrar a primeira magra".

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Devia beber dois runs mas só bebo um: parece dois.

Sempre disse que na Europa rum não tem plural, mas tem. No restaurante Los Sabores da Marina de Almerimar um rum é dois.

Se dois fossem quatro amanhã largaria mal. Não são: dois é um, como os idiotas e os românticos. Passe o pleonasmo.

Relembrando Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas

A organização e a ordem não são prisões, como acreditam as mentes românticas. São ferramentas, dizem as clássicas cheias de razão.