26.5.20

Voodoo virus

As lojas estão cheias de rituais que para combater o vírus têm a eficácia de um ritual voodoo, mas enchem os seguranças encarregados de as aplicar de uma importância nova e eles visivelmente apreciam-na.

Talvez as lojas pudessem é pôr uma efígie grande do vírus à porta e cada cliente para entrar espeta um alfinete. Assim divertir-nos-íamos todos.

Indiferente

E se de repente de ti para mim um gemido chegasse, se de ti para mim de repente um «sim!», se de ti de repente um repente saísse, se de ti? De ti, só de ti e de mais ninguém além de ti? Como se fosses tu o princípio do fim do princípio e eu o princípio do abismo contigo? De quedas em ti eu sei, de futuros contigo, de tardes assim de hoje: vento fraco e sol, árvores a dar sombra como só tu dás, Dvorak e esta vida que em ti e em mim se espraia, indiferente.

Prisão, leve ou não

Dou por mim a regozijar-me porque a prisão está mais leve.

Isto é aterrador: uma prisão leve é uma prisão, estúpido.

25.5.20

O conhecimento e o Zeitgeist

O conhecimento tem uma óbvia componente ideológica, mas ela não está onde muitas vezes se pensa.

Podemos admitir que até à jovem idade adulta todo o conhecimento nos chega via zeitgeist - deve haver excepções em algumas  universidades ou professores universitário, mas a julgar pelo que vi e pelo que vejo são poucas. A ideologia consiste em escolher uma de duas opções: ou mantermo-nos agarrados ao que aprendemos ou investigar fora dele.

O zeitgeist é um professor amável e compreensivo, tão amável quanto pouco fiável. Por isso é tão difícil escapar-lhe.

Nem sempre dês aos outros o que eles te pedem

É óbvio que quem impôs o confinamento e a paragem da economia não foi quem vive num casebre "social" e não sofre de cortes nos salários. Vive em casas espaçosas e tem a massa assegurada ao fim do mês. O facto de terem sido as massas panicadas a exigir-lhes o que agora têm não é grande argumento. Poderia ser, não lhe fosse a desumanidade. Há uma assimetria na informação. As massas não tinham acesso às informações de Jorge Torgal ou de Pedro Simas (não falo de André Dias, embora na minha opinião devesse ser incluído no mix). As massas panicadas têm o que pediram e agora vão para as filas das misericórdias pedir comida e eu acho indecente que tenham tido o que pediram e que agora tenham de ir pedir comida.

Isto tudo vai obrigar-me a rever / aprofundar / afinar o meu apreço pela democracia directa, coisa que farei mal chegue à Suíça e tenha informações mais fiáveis. Até lá, continuarei a achar lamentável que um cobardolas que ao primeiro alarme se refugiou num casarão em Cascais venha agora pedir ajuda para as quatrocentas mil pessoas que segundo ele estão com fome. («Segundo ele» porque provavelmente serão mais.)

Vê se dormes

Enrodilho-me debaixo do edredom mas o calor não vem, tenho de pôr o cobertor, está frio, penso nas escadas tão íngremes que até para descer são desconfortáveis, a música da Renascença, a constipação, as escadas são frias como o coração de uma mulher que recusa um apaixonado, são duras, hoje para as subir depois do almoço vi-me grego, fui arrumar a bicicleta?, inquieto-me, sim, foste, com o cobertor fica melhor, amanhã tenho os dois I. a bordo, o M. ainda não me mandou o contrato, tenho de responder ao T. Z., apetece-me explicar tudo o que me aborreceu e aborrece estes dias, vem calor, diz a meteorologia, sim, tomaste o comprimido, vê mas é se dormes, não tarda vais ter calor de mais, com o cobertor, dorme, porra, dorme. 

Ilusão, ou Retrato de rua

A senhora falava ternamente com o cão. Explicava-lhe qualquer coisa que não percebi bem o que era. O cão também não deve ter percebido, pelo menos não dava sinal nenhum disso ou de achar relevante a voz doce, suave, quase um murmúrio da mulher, ainda jovem, talvez quarenta, quarenta e poucos,  que lhe segurava a trela e o deixava esgaravatar no canteiro.

"Se não falasse com o cão", pensei, "só lhe restariam as paredes. O efeito seria o mesmo, mas o cão permite uma certa ilusão."

24.5.20

Vidas, mediadas

Uma das coisas que o Facebook nos ensina é que a vida só é suportável nos romances, nos filmes, na banda desenhada e - em menor grau - na fotografia. Uma tranche de vie no primeiro grau, em bruto, incendeia as hostes de críticos, indignados profissionais e amadores, amigos dos animais e outras bestas que povoam as redes sociais. A mesmíssima tranche de vie mediada pelo talento do dia desencadearia ahs! e ohs! comovidos, encómios entendidos, acenos de quem se compreende.

A vida real tem o inconveniente do cheiro, que a da literatura obfusca e os narizes sensíveis das massas, coitados, resentem-se. De caminho incendeiam, insultam ou - na melhor das hipóteses - não compreendem. Não compreendem nada, verdade seja dita, mas isso é outra história.

Diálogos do Confinamento

- Vamos combinar uma coisa? Doravante, aos domingos não vamos mais passear à beira-rio como os nossos amigos burgueses e ficamos em casa a foder tudo o que não fodemos durante a semana, tu porque estás farta dos teus pacientes e eu porque sou um homem cansado, inquieto e ansioso. Queres? É altura de mudar de vida, anda para aí toda a gente a dizer.
- Nunca te vi sensível ao que «toda a gente» diz. Nem a mim me ouves, quanto mais a «toda a gente».
- Estás enganada. Sempre te ouvi e mais: obedeci-te. Sempre te considerei a cabeça do casal.
- Nesse caso, sempre tiveste uma forma estranha de manifestar essa obediência. Não me faças rir, por favor.
- Depende do que se entende por «ouvir» e por «obedecer».
- ...
- Ouvir-te faz-me ser mais eu. Sou o que sou e muito do que sou devo-o a ti.
- Ou seja, sou o teu síndroma de Peer Gynt? Be thyself.
- Estás a brincar, mas a resposta é sim. Sou o que sou - posso ser o que sou - porque tu és tu.
- ...
- ...
- Cala-te e vamos para a cama.
- Hoje não é domingo.
- A tua capacidade de fingires que és parvo sempre me fascinou.
- A tua de pretenderes que não o sou também.
- Estamos casados há quinze anos. Reconheço que a nossa vida sexual nos últimos cinco anos não moveu montanhas. Mas nos primeiros dez fizemos amor para três vidas, não achas? Importas-te de me explicar o que te aconteceu?
- Não, não me importo.
- ...
- ...
- O teu laconismo é apreciável e há quinze anos que tenho o privilégio de usufruir dele. Contudo: importas-te de elaborar?
- Não, não me importo.
- ...
- Estes dois meses fechado...
- Desculpa interromper. Não estiveste fechado. Saías duas vezes por dia.
- Sim, saía. Mas não para ir onde queria e sim onde podia...
- Continua.
- Pensei que me seria fácil. Estou habituado a estar fechado.
- Não estás e além disso nunca gostaste de relações simbióticas, não é? Dois meses fechado comigo deram-te cabo da líbido.
- Se tivessem «dado cabo» não te teria falado de sexo todos os domingos, como fiz há meia hora.
- Touchée.
- Quando estou fechado, é porque quero. Agora não. Esta clausura foi-me imposta. Sair duas vezes por dia para ir aos supermercados não é sair. É simplesmente um prolongamento, como o pátio é para os presos. Tu trabalhavas, davas as tuas consultas por computador, nunca gostaste muito de bares e cafés. Muitos dos meus amigos da noite não sabiam sequer que sou casado.
- Nunca falaste muito, é verdade.
- A ti, o que te faltou, nestes dois meses? O cabeleireiro, a universidade, as tuas «amigas».
- As aspas nesse amigas são audíveis e desagradáveis.
- Desculpa. Como sabes não me importo nada.
- Nunca te importaste com nada que me dissesse respeito.
- Só me importo com o que em ti me diz respeito.
- É um tema que prefiro evitar, se não te importas.
- Não me importo nada.
- Sabes porque te amo tanto, passados estes anos todos?
- Não.
- Porque tu dizes coisas como «Só me importo com o que em ti me diz respeito» e eu sei que não é por te julgares o centro do mundo. É exactamente ao contrário: tu dás a toda a gente o espaço que reclamas para ti.
- Sabes porque te amo tanto?
- Porque sou «a única pessoa que te conhece como se te tivesse feito».
- ...
- Não digas disparates. Continua com o confinamento, por favor. É um tema que me interessa mais.

- O que mais me põe fora de mim é que me enganei. Pensei que seria fácil, que isto passaria levemente como uns dias sem cervejas no bar. Não foi assim. Quem se revoltou nem fui eu, sequer, foi o meu corpo. Somatizei como um adolescente: dores aqui, dores ali...
- Eu vi.
- A minha raiva deixou de ter um objectivo único. Bifurcou-se: eu de um lado, quem me impôs isto do outro. Odiava-me por não ter «aguentado» e odiava as «autoridades» por me terem confrontado com a minha incapacidade. Raivas múltiplas não são saudáveis.
- Eu que o diga.
- Tu estavas de fora, sempre estiveste.
- Como se estivesse fora da tua vida, não é?
- O único que pode dizer disparates aqui sou eu, lembras-te? Comprei o monopólio quando nos casámos.
- Quando nos casámos disseste-me que estava a fazer o maior disparate da minha vida.
- Enganei-te?
- Não. Enganaste-te.
- ...
- Suporto mal a estupidez e ela suporta-me menos ainda. Não consigo disfarçar. Mal me apercebi de que tudo isto mão passava de um gigantesco embuste...
- ... Mal te apercebeste de que tudo isto podia não passar de um gigantesco embuste...
- ... Sim. Isso. Podia não passar de uma gigantesca mistificação, tudo mudou. Deixou de ser fácil.
- E as dores começaram.
- Sim. As dores começaram. Só viste a parte exterior delas. A parte visível, por assim dizer. As dores são como um barco na água. Tem um lado visível e outro que não se vê.
- A menos que alguém mergulhe.
- A menos que alguém mergulhe.
- Não sei como teria sido sem ti.
- Teria sido como foi, mas sem mim.
- És modesta e injusta. Teria sido ainda pior.
- Duvido. Estamos casados há quinze anos e nunca te vi sofrer tanto.
- Curioso. Penso muitas vezes que nunca te vi tão próxima de mim como nestes dias.
- O distanciamento era social, não era afectivo. Há bocadinho disse que te amo. Não sei há quanto tempo não to dizia. Não foi o pior erro da minha vida. Foi o melhor. O mais inesperado. Há muitos tempo que não tenho «amigas». Sem ti, o sexo não vale a pena. Prefiro ter-te e não ter sexo. Prefiro ouvir-te e ver-te e falar-te a foder seja com quem for.

Mas se pudesse foder-te seria ainda melhor. Tem de ser só aos domingos?

Cretinice unida

Não me sinto propriamente um Ignatius Reilly, mas nestes dias não consigo impedir-me de pensar na Conspiração de cretinos (A confederacy of dunces, para quem preferir). Fique em casa! Use máscara! Proteja-se e proteja os outros! A Suécia tem o maior número de mortos por milhão de habitantes!

Cretinos unidos jamais serão vencidos.

22.5.20

Felizmente...

... a raiva é solúvel em ternura.

O lugar da raiva

Vês? Eu bem te dizia. A noite desce calmamente - à velocidade das ilhas, diria o I. - e abafa em ternura a tua raiva.

Enraivece-te apenas contra aquilo que te pode dar luta. A estupidez não pode, coitada. É demasiado vasta, é infinita. Terias mais probabilidades de ganhar se decidisses que o Sol deve nascer a Norte e pôr-se a Sul, para acabar de vez com os pólos.

Não há raiva que resista à cozinha do Joan do Bar Rita. Nada resiste a nada que tu decidas não deve resistir. Deixa a raiva ir para o esgoto, é o lugar dela.

O teu é alhures.

Conselho: não dês de beber à raiva

Não é  - infelizmente - garantido que hoje consiga embebedar-me a sério,  apesar de querer muito.

Não. Ao contrário: é pouco provável que hoje queira embebedar-me muito, apesar de ser o que devia fazer.

Não. "Não te embebedes por raiva", diz-me a idiota que vive comigo e se chama Vida (alcunha: Experiência). "Não dissolvas a raiva em álcool, o cocktail sai amargo. Dissolve a alegria, as boas emoções, os "vastos sentimentos". Não dês de beber à raiva. Ela não saberá apreciar. A raiva é um touro cego a quem alguém deu um pontapé nos tomates.

Amacia-a. Dá-lhe croquetas de sépia, dá-lhe uma praça bonita, dá-lhe mulheres lindas a ver e outras a lembrar, dá-lhe a consciência deste fim de tarde cálido e doce. Transfere a raiva para a desobediência, para a vasta arena da liberdade que nunca ninguém te invadirá, para o azul tímido do céu de hoje, escondido num véu de cirrus.

Manda a raiva foder-se, não a deixes foder-te ela a ti. Nem um bico sabe fazer, usa os dentes e morde-te a pila. Deixa-a num canto e vem antes para a cama comigo."

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 22-05-2020

Ao fundo do túnel a luz não é um comboio: é mesmo o fim do túnel. Todos estamos fartos hasta los huevos, os dois I. e eu, todos queremos ver isto terminado e todos nos dizemos, "é agora que temos de ter calma e não nos deixar ir, é agora que não podemos estragar o que fizemos, é agora." Lembro-me do provérbio chinês que mais vezes devo ter citado: «metade de uma viagem de cem li não são cinquenta li, são noventa.»

É agora. Em breve teremos o camarote de proa fechado, limpo,  nada mais a fazer. No dia em que isso acontecer lanço um foguete até à Lua.

Não é agora, mas está quase. É quase agora e o quase cada dia é mais pequeno.

..........
A bodega Can Rigo abriu e o idiota de quem manda ordenou máscara obrigatória no mercado.  Até ontem não era. Uma no cravo, outra na ferradura. Se é isto a humanidade  eu não sou  sócio e quero a minha desfiliação já, se faz favor.

Até na rua é obrigatória, mas só se nos cruzarmos a menos de dois metros, dizem-me dois polícias a quem perguntei e me pareciam tão desesperados como eu.

A minha misantropia vai mesmo levar uma injecção de anfetaminas e aquelas coisas que servem para os músculos mais sei lá, uma espécie de Viagra, se existir.

Viagra para a misantropia, que o da filoginia já existe.

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Vim cá fora fumar um cigarro, no mercado. Não suportei ver aquela gente toda de máscara, no que até agora foi o único espaço de liberdade. (Até esse me tiraram. Seria preciso uma puta do tamanho do universo para os poder acolher, a "eles" e à raiva que me provocam.)

Estava um senhor a quem perguntei se me podia sentar. Cinco minutos depois pediu-me o telefone para ligar à mulher (não tinha saldo no dele),  explicava-me que se estava a divorciar, que o cúmulo do divórcio e do confinamento tinha sido demais para ele. Até aqui tudo bem. Compreendo e empatizo. Depois entrou numa teoria conspirativa que me aborreceu e vim-me embora.

Não percebo porque precisam de tantas e tão complicadas teorias para explicar as múltiplas formas da idiotice.

........
A máquina fotográfica chegou mas agora tenho de esperar que a bateria carregue e o calhamaço das instruções esteja mais ou menos folheado. Que saudades tenho de quando se comprava uma máquina e cinco minutos depois se estava a fazer a primeira fotografia. 

19.5.20

Medo: conta, peso e medida

O eixo das conversas desloca-se pouco a pouco do vírus ele-mesmo para o medo, coisa que agradeço a todos os santos: sei mais de medo do que pedaços de células que se incrustam onde não são chamados. A verdade é que sou um tipo medroso. Tenho frequentemente medo: nas três ou quatro vezes em que tive de brigar na rua; quando vou num automóvel depressa de mais (sobretudo se for eu a conduzir); mesmo a bordo, quando estou numa situação complicada não tenho medo na altura. Mas isso é por simples falta de tempo: tenho-o depois. Aconteceu-me quando uma corrente do ferro, toda embrulhadinha para poder ser arrumada onde fosse preciso peso me passou a milímetros da cabeça (tínhamos largado das Saintes-Maries-de-la Mer, entrou um mistral e estava em baixo a pôr as botas quando fizemos a primeira de três cangochas. Na terceira vi a praia, apesar de estar uma noite «escura como o pecado», aí a duzentos metros e disse ao gajo do leme que se fizesse mais uma talvez não fosse má ideia escolher uma praia sem rochas). Não tive medo  nessa noite, mas na manhã seguinte aquilo acalmou e ainda hoje penso na maldita corrente. Ou depois do ciclone, quando entraram as vagas e os tripulantes não conseguiam governar. Fiz vinte e quatro horas seguidas de leme, aquilo passou, fui dormir e quando acordei só não tremia porque ainda estava demasiado cansado. Também tive medo depois da noite que passei com o facho da bóia na mão, era a única luz que tinha a bordo e estava no meio de uma frota de arrastões da costa, à espera que o temporal passasse. Se os medos a posteriori só me acontecem no mar, em terra tenho-os antes e durante (e às vezes depois) e não tenho vergonha nenhuma: sem medo já não haveria humanidade.

Vergonha será talvez deixarmo-nos paralisar pelo medo. E mesmo nisso a questão não é a vergonha, mas sim que a paralisia pelo terror anula a razão de ser do medo, que é pôr-nos em estado de alerta, aguçar-nos os sentidos e os reflexos. O medo é um mecanismo evolucionário mas em excesso torna-se uma falha da evolução.

O pânico colectivo de que estamos a sair é disso a prova mais do que evidente: vai custar-nos mais caro do que o que o provocou, tanto em vidas como em dinheiro.

Fiz muitas idiotices a bordo por ausência de medo, por exemplo quando era moda navegarmos sem os rizos passados e era preciso ir à retranca passá-los e digo que são idiotices porque nem depois tive medo. Só hoje, dezenas de anos depois, avalio bem a inconsciência e a estupidez - se bem tenham tido pelo menos a vantagem de me mostrar até ponde posso (ou podia) ir. Já me aconteceu uma vez ter de voltar para bordo agarrado à escota da grande, por estar de pé em cima da balaustrada a fazer qualquer coisa na retranca. A ausência de medo tem a sua utilidade, mas hoje sei que mais vale tê-lo - desde que com conta, peso e medida.

Kalimeradas (ex-Jeremiadas)

Os dias de «confinamento» escoam-se pelo ralo com o movimento circular da água do banho, mas sem a utilidade desta. Não serviram para nada senão dar aos governos a possibilidade de nos pagarem uns copos que já foram pagos por nós e nos serão cobrados com juros. Imensa gente acredita nos governos, coitada. Gente que gosta de ser enrabada e não tem a desculpa - ou explicação, se preferirem - de ser maricas. Gostam de ser fodidos, no sentido de enganados. Eu não gosto nem de um nem de outro e a única coisa que posso fazer é esquivar-me, «fugir para dentro», fingir que estou de passagem como o outro fingia que era poeta: estando de passagem. Os mecanismos colectivos são-me estranhos. O Mercadona mais perto de minha casa tem duas entradas. Vamos chamar-lhes norte e sul, trocando exactidão por simplicidade. A entrada sul tem sempre mais gente do que a norte, provavelmente por duas razões: tem um tapete rolante que leva as pessoas do rés-do-chão (o supermercado é no primeiro andar) e tem mais caixas, o que leva mais gente a sair por ali.

A entrada norte só tem umas escadas e tem menos caixas. Durante o confinamento, quando havia filas para entrar (ainda há, mas menos), a entrada sul tinha dezenas de pessoas e a norte estava vazia. Isto não é um exagero, é assim mesmo. Eu subia sempre as escadas, para não dar ideias e entrava logo. Quem estava na outra porta via-me (e aos outros que utilizavam a mesma entrada, claro), mas não se mexia. Continuava na fila. Um dia enganei-me e apanhei o tal tapete rolante. A bicha à entrada era enorme e o segurança indicou-me o sítio para onde devia ir. Disse-lhe que não, que ia para o outro lado, o homem acedeu e quando cheguei à outra porta vi que pelo menos dez pessoas me tinham seguido.

Amaldiçoei-me, claro. «A partir de agora vou ter filas nas duas entradas», pensei.

Não. A entrada norte continuou sempre vazia e a sul sempre cheia. O que me espanta nisto é que nem sequer sou mais esperto do que os outros, Tenho simplesmente mais aversão a filas, a grupos, a imitações. Isso não faz de mim um gajo mais inteligente, claro, mas não consigo deixar de me perguntar que raio de mecanismo fazia as pessoas ficar especadas numa fila quando a cinquenta metros podiam aceder directamente ao sítio para onde iam.

Há uma contradição nesta ideia de que duas cabeças pensam melhor do que uma só, porque se forem muitas deixam de pensar. Já não menciono sequer «melhor». Anulam-se. O QI é uma média, portanto o QI médio daquelas pessoas é cem. Mas isso é só se forem tomadas uma a uma. Em grupo o QI passa para zero, ou coisa que o valha.

Talvez até seja negativo, como agora se viu com isto do vírus: as pessoas preferem panicar e prejudicar-se a pensar. Ficam fechadas em casa e não contentes com isso injungem os outros a fazer a mesma coisa, como se baixar a média ou partilhar o medo fizesse delas pessoas de bom senso. Esta correlação imaginária entre o medo e a inteligência devia ser melhor estudada. Ter medo não é ser inteligente, é ser medroso. São coisas diferentes. Tal como o invés: usar a razão para analisar as situações não faz de quem usa o método um desmiolado irresponsável. Faz um ser racional, é tudo (é igualmente diferente de inteligente). Agora têm medo de ir à praia o levar os filhos à escola. Têm de andar o palerma e o palhaço a «dar o exemplo». Espero que tenham êxito para ver se pomos fim a este embuste.

Outro paradoxo: essa coisa de se aprender com os erros. Qual a percentagem de gente que vai reconhecer que se enganou? Duvido muito que se venha alguma vez a saber, mas aposto que vai ser muito baixa. E contudo a informação estava lá, desde o princípio. Permitia pelo menso que se começasse a duvidar do que nos diziam. O caso do paquete, os gráficos que demonstravam por a+b que o confinamento chegou depois dos picos dos contágios ou que não havia relação nenhuma entre os confinamentos e os contágios, os virologistas e epidemiologistas - foram muitos - a dizer que tudo isto acabaria por passar mal chegasse a Primavera, institutos insuspeitos como o Koch na Alemanha, a Suécia, os gráficos do Euromomo, as estatísticas sobre as mortes de gripe. De nada serviram, como o facto de haver uma entrada sem filas e as pessoas preferirem esperar. Houve um dia em que vieram atrás de mim, mas depois voltaram à sua prática habitual.

O problema é que no caso do Mercadona eu ficava a ganhar com o espírito de rebanho e no do vírus não. Perdi o mesmo que os outros, o que é uma injustiça. Yes it is.

18.5.20

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 18-05-2020

O dono do Arabay (ou gerente ou seja lá o que for) é simultaneamente antipático, estúpido e arrogante, combinação pouco convidativa, no mínimo, para quem recebe clientes. Compensa tal amontoado de qualidades com o melhor café de Palma - talvez um dos melhores, ainda tenho de confirmar - e com a localização: mesmo ao lado de casa. Hoje apercebi-me de que tem também clientes à altura: estava na fila - por uma razão que desconheço e não compreendo de todo deixaram de servir à mesa - e o gajo à minha frente pediu-me para me afastar. A cara e a roupa de imbecil do homem desculpam tudo e portanto não teria sido grave se ele não tivesse composto o pedido com um «hay que ser responsable» e eu não estivesse já suficientemente longe dele, na minha opinião. Acedi educadamente. É a melhor maneira de lidar com um QI baixo, quanto mais não seja porque provavelmente terá muito mais prática de brigas de rua do que eu e de qualquer forma aquilo não o merecia. Dei um passo atrás e agora deixo essa gota de água escorrer no meu metafórico impermeável (o dia está esplêndido). Penso que consigo, mas não tenho a certeza.

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Palma está esquisita, sem turistas. Parece aqueles gordos que andam sempre com roupa apertadíssima e de repente emagrecem e a roupa assenta-lhes como uma luva ao Arsène Lupin.

As ruas foram feitas para esta quantidade de pessoas e não para as enchentes de alemães, suecos e hooligans ingleses (passe o pleonasmo). Isto dito, espero que voltem depressa, porque os negócios estão calculados para as enchentes e não para a elegância das ruas meio cheias.

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Jantar na Chichilla: tapa de jamón ibérico e dois copos de vinho. Em casa completo com meia dúzia de garfadas dos penne rigate que fiz ontem, um ragù di salsiccia e um copo de Rioja. Amanhã vou ao dentista e já me preparei para uma noite infernal, apesar de não ter razão nenhuma para isso. A quantidade de coisas que um gajo teme sem ter razões nenhumas para isso é insondável. Se é verdade que «on est tous le con de quelqu'un», mais verdade ainda é que mal vale ser o seu próprio imbecil do que o dos outros. 

Positivismo radical

Não há explicações metafísicas para a felicidade. A única válida, sempre válida que conheço é ciclista: felicidade é um semáforo verde no fim de uma descida íngreme. Ou marítima: felicidade é quinze nós de vento pela alheta. Ou gastronómica: felicidade é um cozido à portuguesa acompanhado por um bom tinto, daqueles que deixam traços no copo e no palato. Ou afectiva: felicidade é o teu olhar grato e saciado em mim. A felicidade ou se come, toca ou cheira ou não passa de uma efabulação cabalística destinada a preencher as tardes ociosas das senhoras das limpezas quando a patroa está longe.

Adenda pós-prandial - à lista dos prazeres concretos, acrescentar:

- Ler uma frase daquelas que só Gabriel Garcia Marquez, Marguerite Yoourcenar, Samuel Beckett sabem e podem esrever. O Malcolm Lowry do Under the Volcano anda lá perto, às vezes; o Hemingway todo (mas especialmente a Outra margem), o London de To light a fire, o Joyce de The Dead, Somerset Maugham, Steinbeck... Pronto, resumamos: ler uma frase bem escrita, uma história bem contada, um livro bem escrito;
- Ouvir as Segunda e Quinta Sinfonias de Mahler, o Arvo Pärt todo (pelo menos o que conheço), ouvir Maria Callas cantar o Ave Maria de Schubert, o Carmina Burana de Clemencic, as Vésperas de Rachamninov (ao vivo, na catedral de Genebra, dirigidas por Michel Corboz), os cânticos de Hildegarde von Bingen. E muitos outros;
- Ver os quadros de Mantegna, Hopper, Klee, Rembrandt.

Acabo a lista (por lassidão pós-prandial), penso em todos os que ficaram de fora e pergunto-me como é possível não ser feliz. O esforço que ser infeliz exige é inquantificável.

17.5.20

Vicioso

Somos um povo de medrosos e cobardes porque somos tesos e somos tesos por sermos medrosos e cobardes. Vai ser difícil furar o círculo. 

Ode às brevas

A breva é um figo que só não é figo porque se atrasou. Não é fruto porque os figos não são frutos, são flores. A breva é um figo que não amadureceu a tempo e ficou na árvore, por um mecansimo que desconheço totalmente. Quando chega a Primavera os figos atrasados retomam a maturação e em Maio começam a aparecer nos mercados. Sou suspeito, porque gosto de figos mas agora, que descobri as brevas - graças a um livro chamado Secretos del Mediterráneo, abençoados sejam a obra e o seu autor, Lluís Ferrés Gurt - troquei de aliança e converti-me a estes figos simultaneamente precoces e tardios, menos doces... não são menos doces, são mais subtis do que os seus colegas que se despacharam a tempo. Acabo de comer meia dezena delas, só para mostrar ao meu pâncreas que eu faço a minha parte gastando uma pipa de massa em comprimidos para ele e agora é a sua vez de participar no esforço comum e produzir insulina em quantidades suficientes para tratar isto. Para quem gosta de figos, subtileza e de manter uma relação dinâmica com o seu corpo, a breva é a flor indicada.

Retrato ficcionado

Homem só com sorte: tem uma vida e nela acolheu o pior e o melhor, o sublime e o sórdido, a multidão e o vazio, o ruido e o silêncio, as palavras e o mar, o amor e o desprezo. Talvez o ódio a tenha visitado, mas não ficou: o amor e a amizade ocuparam os lugares todos do sentimento. Homem só com sorte: sorte é tudo o que tem.

Escuridão, amor

Pintar com duas ou três demãos de escuridão o que te vai na alma, tão luminoso e leve. Olhar-te como se a luz acabasse amanhã. Amar-te com o que resta de amor no mundo: todo. Não lhe tocámos sequer, pois não? Está ali intacto, disponível enquanto tiveres em ti a leveza da luz, a alegria da parede virgem.

Pinta-me com duas ou três demãos de amor a escuridão que amanhã apagarás.

Medo

As pessoas habituaram-se ao medo e agora usam-no como uma droga. É tão confortável ter medo, tão tranquilizador: uma banheira cheia de água quente e espuma na qual se mergulha e de onde não se tem vontade de sair.

Em breve trarão as refeições à banheira e será demasiado tarde: as pessoas dissolveram-se em medo e nada ficou delas. Nem a fome.

Nomes

Oferenda de que não sei se sou o dador se quem a recebe. É uma esfera grande, talvez inteira talvez parcial que escolheste para me albergar. Morna, molhada, recebes-me como se fosse eu o futuro, como se do Sol já pouco houvesse a esperar,  como se no Sul já não houvesse livros no Inverno, como se da gleba nada nascesse, terra coberta de gelo.

Em ti, que me deste ou me dei, tépido tempo sem falhas, sem soluções, sem medo sequer de enfrentar tudo o que ficou para trás, tudo o que nos persegue. Dia virá em que o passado nos confrontará, teremos de o batalhar, de o desafiar: ou a ordem ou nada, ou nós ou o nada.

Uma esfera grande, inteira ou parcial: como lhe vamos chamar?

Cicatrizes

Vejo em ti algumas marcas da beleza: cicatrizes.

Despeço-me

Despeço-me do tempo, escorro por ele dengoso, eu que nunca fui muito hábil com o meu corpo. Há um canto ali que ainda não visitei, uns braços que não me conhecem,  um mar que não naveguei.

Terei de lhes dizer adeus com um meneio elegante, vénia baixa e grata, olhar ao alto e para a frente, queixo firme. Despeço-me do tempo antes que seja ele a despedir-me. 

16.5.20

Desfaçatez

A desfaçatez com que os dias passam como se não fosse nada com eles, como se não tivessem nada a ver com o que os preenche...

Vida - reedição

Alguns leitores deste blog - e leitoras, forçoso é reconhecê-lo - pensam que eu não tenho vida. Quero aqui deixar uma contestação formal - violenta, mas formal - dessa ideia. Não só tenho uma vida como até já tive várias.

Já fui, por exemplo, provador de vodka na Rússia e de enfermeiras na Namíbia; já participei em experiências sobre a resistência inata ao SIDA em Moçambique e sobre a cultura geral das jovens universitárias no ex-Zaire, hoje Congo e sempre desaire; já me embebedei com mezcal em Johannesburg - Jo'burg para os íntimos - e com cinema na Venezuela; conduzi automóveis em sítios onde nem cabras andariam; tive armas apontadas à cabeça e apaziguei assassinos com cigarros Marlboro; nadei com tubarões nos Açores (era só um, espero) e com amantes em várias praias.

Essa ideia de a vida ser um cheque ao fim do mês, pronto a ser gasto no Gambrinus ou no Pavilhão Chinês; em automóveis potentes ou livrarias fotogénicas; em mulheres bonitas ou restaurantes infames devia ser abandonada, rapidamente abandonada - ou pelo menos repensada.

Vida é aquilo que nos faz ir para a cama todos os dias e perguntar-nos se amanhã acordamos com prazer ou nos Prazeres; no mar da China, às mãos de rufias russos, cocaínomanos venezuelanos ou de um soldado burundês bêbado; nas tuas centenas de olhares, nos nossos milhares de despedidas.

(10 de Agosto de 2008)

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 16-05-2020

Já os secretos marinam em limão, alho e pimentón de la Vera. Os (ou será as?) patató salteiam em lume brando, cobertos de salsa e coentros picados. Vermute de Palma, pão com azeite da U., uns bocadinhos de bellota, sol, os versos de Alejandra Pizarnik para me lembrar de onde estou e onde poderia estar:

«Todo hace el amor con el silencio.

Me habián prometido un silencio como un fuego, una casa de silencio.

De pronto el templo es un circo y la luz un tambor.»

« Escucho resonar el agua que cae en mi sueño. Las palabras caen como el agua yo caigo [sic]. Dibujo en mis ojos la forma de mis ojos, nado en mis aguas, me digo mis silencios. Toda la noche espero que mi lenguaje logre configurarme. Y pienso en viento que viene a mí. Toda la noche he caminado bajo la lluvia desconocida. A mi me han dado un silencio lleno de formas y visiones (dices). Y corres desolada como el único pájaro en el viento.» 

(O primeiro poema chama-se Signos e o segundo L'obscurité des eaux e ambos vêm de La extracción de la piedra de la locura. Otros poemas.)

O vinho vai ser o que sobra do carmenère, chega bem para o almoço. Terça-feira tenho consulta marcada na dentista, os ranúnculos inclinam-se a tentar ver o que escrevo. A música é de Ballaké Sissoko mas em breve mudará para Toumani Diabaté. Fusão por fusão prefiro música e o momento pede música e não entretenimento, por muito agradável que seja.

Assim se aconchega uma manhã de sábado, uma vida, uma solidão.

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Acabo por decidir grelhar os secretos, em vez de os fritar. Vêm das Carns Coma, o talho do Mercat de l'Olivar que deve poder orgulhar-se de ter as maiores filas. Às vezes tenho pena do vizinho, que está quase sempre vazio e vou lá comprar qualquer coisa. Ontem não: a fila no Coma era pequena e queria ter a certeza de ter porco que não se desfaça em água.

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[Este não desfez.]

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Gostaria de escrever uma ode ao pimentón de la Vera. A primeira vez que comi pimentão fumado (não confundir com paprika, por favor, que é a forma húngara do pimentão) foi na Califórnia. Creio que a ideia vem da América Latina, não sei. Há um problema grave: depois desta (a de Vera) mais nenhuma parece comestível. São aproximações - as posteriores e as anteriores também.

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O Perez Cruz está aberto há dois dias. Algumas coisas só ganham com a espera.

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A vida é como aqueles armários para especiarias, com muitas gavetas. É raro estarem todas cheias ao mesmo tempo, não é?

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 15-05-2020

Ia deixar isto para o fim, mas não posso. Agora que a vi nua, tenho vontade de Palma. Nua no sentido de despida e não num qualquer outro sentido metafórico ou metafísico. Despida de gente, as ruas de rugas à mostra, estrias no ventre que nunca tinha visto. Acordo hoje em Palma, mãe de milhões de filhos e pergunto-lhe onde estão os teus filhos, que não os vejo? Onde estavam as tuas rugas, que nunca antes as vira? Porque mas escondeste?

Percorro-te Palma as ruas meio vazias, vejo-te a meio gás. Só quem tem esplanadas tem gente. Quem não tem, ou faz para levar ou não abriu sequer. O aquecimento global foi com a Greta ou pela greta, vá saber-se, mas não me importo. Se nos extremos prefiro o calor, na mediana gosto tanto de frio como de calor. Além de que este frio é tudo aquilo que há décadas se diz do frio: revigorante, exaltante, agradável. (Poderá talvez dizer-se que dezanove graus centígrados não é frio. Isso é para os absolutistas. Tudo é relativo.)

Assim vai o dia: Palma a meios, temperaturas em baixo e eu como os dois.

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Descobri um café que me faz os mojitos exactamente como eu gosto deles. Fica na praça Jaume qualquer coisa, mesmo à frente do hospital de bicicletas onde I. me dá vontade de o abanar cada vez que me diz o preço de qualquer coisa: se pedisse o dobro ainda seria barato. Não digo nada e pago o que ele me pede. Não por egoísmo mas porque ele já me explicou que me pede o que quer, etc. Abrevio, meio por vergonha meio por não achar o tema interessante. Ele sabe da vida dele. Uma vez perguntei-lhe se era maiorquino e se bem me lembro respondeu que sim. A estar a minha memória correcta, é um maiorquino adorável, daqueles que até agora só tenho visto nos livros.

Esta gente demora a despir, mas uma vez nua é muito bonita. A cidade é linda vestida e apaixonante nua, mas isto é coisa que tem de ser vista, digerida e revista.

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Comprei umas flores que aparentemente se chamam ranúnculos. São tão bonitas! A mesa de trabalho já era pequena mas a beleza amplia-a. Não há nada a que a beleza não mude as dimensões.

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Há quanto tempo não ouvia as Vésperas de Rachmaninov? Só há duas respostas: «estou a ouvi-las» e «demais».

Se se pudesse viajar no tempo, voltar ao dia em que as ouvi na catedral de Genebra dirigidas por Corboz estaria perto do topo da lista.

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«Dicen unos que una tropa de jinetes, otros la infantería,
y otros que una escuadra de navios, sobre la tierra
oscura és lo más bello; mas yo digo
que es lo que una ama.»

Safo, Poemas y testimonios, ed. Acantillado, Barcelona 2020. Ed. e trad. de Aurora Luque.

«Fiesta

He desplegado mi orfandade
sobre la mesa, como un mapa.
Dibujé un itinerario
hacia mi lugar al viento.
los que llegan no me encuentran.
Los que espero no existen.

Y he bebido licores furiosos
para transmutar los rostros
en un ángel, en vasos vacios.»

Alejandra Pizarnik, La extracción de la piedra de locura. Otros poemas.

Ed. Visor Libros, 2018 Madrid

15.5.20

Geometria

Geometria. É de geometria que falo. De linhas rectas, curvas que as intersectam, os planos e espaços que definem. E de ti que falo: dos planos  e espaços que em mim definiste, das nossas intersecções, das nossas curvas e rectas, infinitamente prolongadas.

Encontrámos o silêncio e nele nos refugiámos, protegidos pela linha recta do amor, pelos ângulos que o protegiam, pelas curvas do tempo.

Moldámos o tempo e ele moldou-nos. Fez de nós um dos seus planos, infinito.

14.5.20

Onde quer que estejas

Sonho de um sonho, pesadelo de um pesadelo. Acordas dentro de uma redoma que está dentro de outra redoma, mas não consegues ver-lhes as cores. Nem os materiais, o peso, a textura. Perguntas-te se serão efémeras, se perenes mas na verdade não sabes sequer quantas são. Duas? Mais? Envolvem-te, vomitam-te, reabsorvem-te, mastigam-te, passam-te de uma para a outra. Parece-te que mantêm a sua forma perfeita de meias-esferas, elegantemente encaixadas umas nas outras. Não lhes ouves um ruído, não te ouvem, não reagem ao teu esbracejar nem aos teus gritos. Na verdade não as vês, nem elas ti: sabes apenas que estão onde tu estás, onde quer que estejas. 

Relativismo(s)

Voltou a chuva e com ela o frio. Um frio relativo. Vinte graus centígrados não é propriamente a Antárctida mas nisto como em tudo, tudo é relativo. Pergunto-me se no amor também há relatividades e respondo: não. O amor é absoluto e amo a miúda que amo tanto ao meu lado como a duas mil milhas de mim, amo-a tanto sozinho como com outra mulher qualquer nos braços. Não há relativismos no amor como os há nas temperaturas, nos vinhos - o Carmenère que agora bebo, por exemplo, é magnífico, mas trocá-lo-ia por um Balanches em Mértola, por um Humagne em Genebra ou por um copo de água no mar. Este Carmenère é o melhor agora, enquanto chove e Sinatra canta. Dois remédios para o relativismo: Sinatra e um Perez Cruz de 2016 esplêndido, comprado por engano. Tudo tem remédio, no fundo. Até a solidão, diz o misantropo. Menos a solidão, diz o amoroso.