16.2.19

Retratos do quotidiano imaginário

Era um casamento algo assimétrico: ele dava-lhe amor, ela retribuía com amizade. O que o mantinha era a esperança de cada um deles de que um dia o outro trocaria.

Princípio, fim

O que me desagrada nas trotinetes não é vê-las abandonadas pelos passeios. Essa é uma irritação minúscula, passageira.

Tenho pena é de que elas anunciem o fim das Segway, esse prodígio da técnica, inefáveis e bonitas.

Exclusões matinais

I
Amar-te e amar esse amor não se excluem mutuamente. Antes pelo contrário: completam-se.

II
Voltava ao amor como um jogador de rugby ao jogo, depois de uma placage particularmente violenta: com determinação e desconfiança.

15.2.19

Geografia

Uma noite começa por um pequeno riacho chamado desejo e acaba numa ampla planície chamada vida.

14.2.19

Tentativa de definição

No fundo a boa música é isto: acertar as notas com o tempo e tudo isto com as emoções.

12.2.19

Um desejo chamado tempo

Que se lixe o tempo, que se lixe o rio que por ele corre sem margens. O tempo é o rio e ambos não passam de uma insuficiente cópia do desejo, onde desaguamos cada dia ao nascer, cada noite quando chega: tu em mim e eu em ti, sem margens nem para dúvidas nem para mais nada. Somos um rio sem limites que se espraia pelo tempo.

Às escuras, ADN, dupla hélice

É sempre assim, não é?

Não. É sempre mais ou menos assim: deixamo-nos escorregar pela vida e deixamo-la escorregar por nós, como um miúdo escorrega num escorrega que é ele. Somos um, dois e muitos. Somos as palavras que fazemos e o que elas fazem de nós, dizem-nos para onde apontar o olhar porque para lá olhámos quando as dissemos. Talvez por isso o ADN seja uma dupla hélice: fazemos a vida que nos faz ser o que somos.

Talvez no fundo seja isto o amor: esta vontade de ser o outro e sermos nós, feitos pelo outro. Dupla hélice: tu e eu juntos e separados, enredados e livres, soma para sempre incompleta e para sempre única. O dia chegará em que diremos "Amo-te" e o eco não dirá "Tenho medo", em que diremos "Não tenhas medo, eu amo-te" a duas vozes.

Amor, medo: dupla hélice. Amor, vida: outra dupla hélice. O amor não se enrola em si próprio, precisa do outro. Amor: outro, vida, medo. Num pacote, foi assim que veio da loja. Amor, amo-te, temo-te, tenho-te, temo-me, vivo, vivo-te, vivo-me, vida. A hélice não é dupla: é múltipla, infinita. É o universo. Somos um universo.

Metade desse universo pensa em ti, como se tu o pensasses: processo borgesiano, biblioteca de espelhos, Alephes um do outro: contigo e por ti reifico o mundo que em mim recrias, que comigo recrias. Fazemos, refazemos: fazemo-nos, refazemo-nos fazendo e refazendo. Duas agulhas fazem uma camisola de lã. E duas vidas, que fazem? Que tecem?

Acontecem, como ontem e hoje fazem um amanhã que não é um nem outro, mas é um e outro. Uma vida vive-se a dois, duas vidas a um. O mesmo se poderia dizer da noite, de resto: uma noite faz-se a dois. Se não, não é noite: é o tempo a passar às escuras.

Palavras magnéticas

Talvez "Ritual" seja um bom ponto de partida. As palavras são magnéticas, já to disse tantas vezes. Procuram o Norte. Não: indicam o Norte. É por elas que sei o caminho. Poderias talvez troçar e dizer-me "O teu caminho é tão ondulante"; eu responder-te-ia "As palavras enganam-se". Ou "O Norte magnético das palavras não coincide com o Norte verdadeiro". Ou: "Estás desnorteado?"

Nada disto interessaria. Falamos de uma palavra que te busca como eu te busco. Na verdade, todas as palavras apontam para ti, todas as palavras te buscam, como eu te busco.

(Para a R., com um beijo).

11.2.19

Stendhal e o amor, a virtude e os demónios

"Fora-se-lhe a virtude, agora que se lhe eclipsara o amor", diz Stendhal algures no Vermelho e o Negro. A citação é duplamente traiçoeira: de memória e de uma tradução não sei de quem.

Pouco importa: esta oposição entre o amor e a virtude é muito bonita, mas só é possível no séc. XIX. No XX o amor é desvirtuoso por natureza e no XXI virtuoso porque os demónios regressaram à esfera pública, de onde tinham sido escorraçados.

No séc. XXI o amor é virtuoso. Todo ele: o amor, o poli-amor, as relações abertas, as relações fechadas, as relações tout court... tudo banha em virtude. O amor lava mais branco, como o Tide, o Omo ou os sabonetes artesanais.

O amor de hoje tem asas brancas resplandecentes e cai do céu, tal Gabriel a anunciar à Virgem que não tardaria um fósforo deixaria o ser.

10.2.19

Diário de Bordos - Lisboa, 10-02-2019

Dia oblíquo...

"O porto que sonho é sombrio e pálido
E esta paisagem é cheia de sol deste lado...
Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio
E os navios que saem do porto são estas árvores ao sol..."

(Chuva Oblíqua, Fernando Pessoa)

Para mim é o contrário: o dia é sombrio e pálido e eu sonho com portos cheios de sol.

II
É tão fácil ser piegas, não é? Tão tentador. Que se lixe a pieguixe. O dia começou oblíquo mas acabou bem, vertical, fixe, com o Gonçalo Marques no Mercado de Campo de Ourique, um bocadinho mais terno do que é habitual mas sempre bom, sempre um prazer, uma viagem para portos cheios de sol e de luz e de miúdas giras.

..........
Um abade e um filósofo combinam encontrar-se para almoçar. Espargos, de que um (o abade) gosta com azeite e o outro com molho. Acordam que fica metade com azeite e a outra metade com molho. Antes do almoço o abade morre de apoplexia, o filósofo salta do seu lugar na mesa, sobe as escadas a correr e grita para a cozinha "Façam todos os espargos com molho! Todos os espargos com molho!"

Leio a história num livro chamado Comimos y Bebimos, Notas de cocina y de vida, de Ignacio Peyró, ed. Libros del Asteroide, Barcelona 2018. Sugiro forte e intensamente que o leiam, é uma pérola, uma jóia, uma obra de fineza e finura, amor e humor, uma declaração à comida e à bebida. Ou seja, à vida.

.........
Lisboa, irritante Lisboa, impossível amar-te e mais ainda não te amar. Velha gaiteira a prometer as melhores sopas em panelas novas e vai a ver-se as panelas não são nada novas, são as de sempre só que limpas e areadas, ao contrário das ruas e das paredes, pareces um mictório gigante a céu aberto.

........
Dia oblíquo.

"Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo...
O vulto do cais é a estrada nítida e calma
Que se levanta e se ergue como um muro,
E os navios passam por dentro dos troncos das árvores
Com uma horizontalidade vertical,
E deixam cair amarras na água pelas folhas uma a uma dentro...

Não sei quem me sonho... "

Lisboa?

Esta Lisboa toda grafitada, taggada, cagada que já não conheço e ainda amo, já não amo e ainda desejo, amor antigo revisto passada uma vida: que dele ficou do que dele amámos?

3.2.19

Revigorante / aconchegante

Fazer-lhe amor era como chegar num dia quente a uma sala com ar condicionado, não como entrar num quarto aquecido num dia frio.

Aterragem

Estava receptiva como uma pista de aterragem à noite, aquela longa linha de luzes a indicar o caminho, a direito até ao fundo.

2.2.19

Transformações

Poucas coisas excitam mais um homem do que uma mulher independente, senhora dos seus afectos e do seu corpo, livre e soberana.

O problema é que muitos deles não sabem o que fazer de tanta excitação, coitados e transformam-na em medo.

Aventura ferroviária

Outra vez no aeroporto. Sonho com o dia em que ir para a estação de comboios de Carcavelos seja uma aventura.

Mecânica newtoniana, infinito

Um puzzle do qual todas as peças encaixam como um corpo noutro, pelo qual está apaixonado; e os dois no universo, porque o amor é retribuído. Uma física que deixou de ser quântica e é agora arrumada, newtoniana, mecânica da qual se sabe o lugar de cada peça, de onde vem para onde vai. Não sabemos quanto tempo vai durar este estado, mas sabemos que é bom como se fosse infinito.

Por muito caro que tenhas de pagar. Cada segundo destes vale uma hora de inferno.

Complementaridade, diferença

O que une as pessoas não é o que têm comum. É o que têm diferente e se complementa.

São duas condições e não uma, eu sei, quase contraditórias: se se complementam não são assim tão diferentes.

1.2.19

Funâmbulo, vida

É como a arquitectura, no fundo: linhas e planos que se cruzam, se interpelam, se juntam para criar sentido.

A diferença está no funâmbulo que se passeia com a sua enorme vara sobre essas linhas e planos. É ele que transforma tudo aquilo em vida. Nem sequer precisa de cair para insuflar emoção naquele árido quadro. Olha: é impossível não o veres. Está no espelho mesmo à tua frente.

Cheguei

Espera. Não tenhas pressa. Calma. Há um corpo que te espera no palco. Há um palco que te espera no corpo. Não hesites: podes ter os dois, o corpo e o seu palco. Vai mostrar-se, vais mostrar-te, vais ver-te no outro corpo, no outro palco. Se tiveres sorte reconheces-te, o palco aceitar-te-á, o corpo também. Somos palcos com pernas e braços, dois olhos e dois ouvidos, um ventre e uma mente. É neles, no ventre e na mente, que se desenrolam as peças todas: dramas, tragédias, comédias e sobretudo - sobretudo - farsas. Tem calma. Espera. Vê primeiro qual a próxima peça e só depois te deixas arregimentar. Shangaiar, dirias.

Fecha os olhos, procura um corpo e respectiva mente. Quando os encontrares diz: "este sou eu. Estou em casa. Cheguei".

Puzzle, paciência

Como se fossem as peças do puzzle a dizer-te qual o lugar delas. Encaixam-se sozinhas, sem qualquer esforço teu. Pensas: "já estive aqui", mas não é totalmente verdade. A estrada é a mesma mas o puzzle mudou, os cruzamentos são outros, tu és diferente do que eras.

Pensas: "o cenário também é outro" mas sabes que isso é irrelevante. So há um cenário: tu. És o campo de batalha das guerras todas que viveste, o cenário não tem nada a ver com a história. As peças encaixam umas nas outras e lembras-te do nome português para puzzle: paciência.

31.1.19

Má-educação?

Bodega Bellver, Palma. O homem conhece-me há um ano e faz-me trombas como no primeiro dia. Faz a toda a gente, não é só a mim.  Creio que o vi sorrir uma vez, talvez duas. Pode dizer-se dele que é mal-educado?

Panamá: os panamianos desconhecem o uso de fórmulas de boa-educação. Bom dia, boa tarde, olá, obrigado, de nada, por favor são-lhes expressões tão estranhas como à maioria dos portugueses o Tao Te-King no original.

Pergunto-me se isto é verdadeira má educação. Esta requer que se infrinja um código, de antemão conhecido e partilhado com o interlocutor. O semi-anão da Bellver, os panamianos não estão a infringir código nenhum. Estão a ignorá-lo, na melhor das hipóteses. Na mais provável, ignoram-no.

Não é má-educação, nem sequer falta dela. É outra coisa, outro código.

Há um médico na sala?

Doutor, o sintoma é permanente e recorrente: quero estar em qualquer parte do mundo, excepto no sítio onde estou. É grave, Doutor? Cura-se?

Palavras, frutos

(Espalha-se-me radicalmente a palavra pelo corpo todo, no sentido mais radical do termo: raízes). 

Palavras que como raízes tu me espalhas pelo corpo, palavras regadas cada vez que respiras, cada vez que me olhas. Assim as palavras vão crescendo e delas os ramos, as flores, os frutos. Na azáfama da flor crescem sílabas, futuros, a mão hesitante de um amor nascente, um olhar que se interroga.

O que se constrói a dois, o que se diz, faz a dois? Que nome dar ao fruto da palavra?

Imagino a pele e nela a palma de uma mão, vejo-te simultaneamente fruto e raíz, palavra e silêncio. Espalhas-me silenciosamente raízes nas palavras. Frutos moldados a dois, digo-te, duram mais tempo, dispensam frigorífico, são mais apetitosos. Respondes-me com um rio, chuva e vento.

Talvez. As palavras dão frutos, é tudo o que agora sei.

(Para a R., com um beijo)