22.7.14

Calculista

Muito calculistas andam os meus rins. Se conseguisse descobrir porquê seria um homem bastante feliz.

Vida, duche

Deve começar-se por limpar a sujidade que está em cima, como se a vida fosse um duche.

Dizer, tocar

Nada me digas que não tenhas na pele e nas mãos; nada que eu tenha de ouvir e não possa tocar.

21.7.14

Ao princípio era o verbo

Seria preciso voltarmos ao que éramos. Ao princípio. Ao verbo.

O que éramos morreu. Nunca mais será: ressuscitar é para loucos, sonhadores e messias.

20.7.14

Toda a gente, pouca gente

Pode enganar-se toda a gente pouco tempo, ou pouca gente todo o tempo. Mas não se pode enganar toda a gente todo o tempo.

O aforismo é conhecido. Apesar disso há quem duvide da sua veracidade, porque por vezes vemos pessoas enganar toda a gente por tanto tempo que pensamos Este conseguiu. Como fez?

Uma das maneiras é enganar-se a si mesmo. Mas se isso é necessário não é suficiente. Chegará sempre, inexorável,  o momento em que "toda a gente" perde uma pessoa.

E outro em que de "toda a gente" só fica a pessoa que se engana a si própria.

Almoço improvisado - Salada

Hoje fui navegar. O dia foi bom de mais para ser descrito num tablet à pressa.

Fica a receita da salada, a que C., um cabo-verdiano adorável deu o nome de Salada Boqueirão - estávamos no Boqueirão quando a comecei-.

Os ingredientes são:
- Pepino
- Cebola
- Tomate
- Bacon frito com alho
- Maracujá.

Fiz uma maionese e misturei-lhe umas gemas cozidas esmagadas com um dos maracujás.


19.7.14

As coisas e a vida

As coisas são como são e não como pensamos que deviam ser.

Viver consiste em encontrar o frágil e instável equilíbrio entre este facto e o seu contrário.

Assimetrias, fontes

As assimetrias são irritantes para as pessoas de bem e fonte de prazer para as outras.

Arrogâncias, medo

Há muitas arrogâncias e todas elas têm ingredientes diferentes.

Só há um comum, sempre, a todas: medo.

17.7.14

Auto-retrato parcial

"Há coisas das quais me posso orgulhar: a liberdade, a independência, a incapacidade total, absoluta de emprenhar pelos ouvidos. Mais do que imune, sou alérgico ao zeitgeist. Sempre fui. A opinião dos outros nunca me interessou se não para aprender e ser capaz de fazer as minhas próprias opiniões.

Duvido a priori de tudo o que é consensual - não porque seja contra os consensos, mas porque acho que devem ser investigados e avaliados -.

Nunca me submeti à pressão de um grupo, fosse essa pressão de que natureza fosse. Não alinho em grupos, modas, clubes, partidos, facções ou seja o que for.

Respeito quem sabe mais do que eu quando me demonstra que sabe mais do que eu (ainda por cima nem é muito difícil, portanto não me parece que seja pedir de mais).

Não aceito argumentos ab auctoritate, não reconheço valor aos nomes das pessoas, às suas origens sociais, ao dinheiro que têm ou não têm; - reconheço sim e só ao que fazem."

(De um comentário no FB, ligeiramente editado).

On Liberty

Há tempos havia uma corrente já não sei onde perguntando-nos quais os dez livros que tinham mudado a nossa vida. Não é frequente integrar correntes, mas àquela respondi, já não sei porquê.

Esqueci-me de mencionar meia dúzia de livros, e mais um: chama-se On Liberty. É de um Senhor chamado John Stuart Mill e foi publicado em 1863.

A posteriori apercebo-me de que não foi bem um esquecimento. On Liberty não mudou a minha vida: formou-a.

16.7.14

Querer, tintas

Alguns posts do Don Vivo são bons. É natural: em quase onze anos um ou dois hão-de escapar. Em contrapartida nunca é de mais frisar que os poemas são execráveis. Eu sei. Infelizmente estou-me nas tintas. Ponho-os aqui porque quero, da mesma forma que digo maricas em vez de gay e faço o que faço como faço: porque quero e porque me estou nas tintas.

Talvez não seja uma boa definição de liberdade; mas é a que quero.

Auto-retratos alheios: S. Tomé

Indubitavelmente consequência de ser um bocadinho surdo (não tanto quanto gostaria,  mas lá chegarei) só acredito no que vejo. O que oiço só não me entra por um lado e sai por outro porque não chega sequer a entrar.

Grupo Insomníaco Dorme Tu

O Grupo Insomníaco Dorme Tu reúne-se na nossa cidade todas as noites a partir das vinte e três horas (alguns membros do grupo insistem em chegar mais cedo. A Direcção aceita, mas não muda a hora do início das sessões). Fica situado na rua bastante inclinada. Para se entrar é obrigatório ter chegado no sentido ascendente - o Grupo aceita insomnes amadores, mas a insónia tem de ser séria. Insónias descansadas não entram -.

A direcção é eleita todos os anos ou desde que pelo menos um membro tenha encontrado o sono. O que acontecer primeiro.

Estamos a pensar mudar as regras: ninguém quer fazer parte da direcção porque para além de zelar pelas insónias dos outros deve zelar-se pela sua.

O café e o chá estão terminantemente proibidos, claro.

Fui um dos membros fundadores e tenho frequentemente feito parte da direcção.   Mas volta e meia lá encontro o sono (é preciso dormir-se bem uma semana seguida para se deixar de ser director; com dois meses de sono regular é-se expulso do Grupo).

Expulso não é o termo adequado,  claro. Mas isso fica para depois. Agora vou dormir. Há muitos meses que faço parte da direcção e gostaria de  passar o lugar a outro.

15.7.14

Recôndito

Dóis-me quando te leio e não te leio,
Quando te escrevo e não escrevo,
Quando te lembro e esqueço.

Dóis-me quando estás
E quando não estás.

Só não dói saber-te reconciliada.

E mesmo assim dóis-me.

14.7.14

Diversões

Tenho à minha frente meia dúzia de escorregas, daqueles que se vêem nos parques de diversões. Grandes, encaracolados - nenhum é linear - de várias cores.

Tento perceber de onde vêm. Para onde vão eu sei: um poço negro na paisagem,  longe mas bem visível.

Cada um deles leva coisas diferentes: este palavras, aquele desejos (e sonhos.  Quem quer que os tenha feito misturou sonhos e desejos) outro raivas e ódios, aqueloutro amores e fantasias.

Vejo-me sentado de pernas cruzadas a separar estas coisas como quem separa roupa. Não é tão fácil como parece. Esta foi amor ou foram só palavras? E esta, vai para os ódios ou para as indiferenças?  Aquela, um sonho?

E a vida? Para qual dos tubos vai?

Ar

Penso: preciso de te ler
Como de ar para respirar.
Digo: preciso de te ler
Como de veneno para morrer.

Penso: preciso de te ver.
Digo: preciso de viver.

Entre o que penso e
O que digo
Há uma vida e
A morte.
Uma ferida e
A lua cheia como
Se houvesse ar
Em mim para respirar
Sem te ler.

Como se houvesse ar
Sem ti.

13.7.14

O tubarão vai ao barbeiro

O tubarão perdera a barbatana havia muito tempo, mas mesmo assim ainda lhe custava nadar a direito. Foi uma galinha que me debicou a puta da  barbatana. Tornara-se carnívora e eu não dei por nada, explicava a quem o queria ouvir.

Ninguém o queria ouvir.

Estava na rua das Chagas (abertas). Ao fundo da rua há um barbeiro desses que imitam os barbeiros de antigamente.

Estou farto do antigamente. Quando é que estes gajos começarão a imitar o futuro?

Mas entrou. Barba, cabelo e poucas palavras, pediu.

Na parede havia um cartaz. Corte o cabelo cinco vezes e deixamo-lo sair para a rua das Chagas (fechadas).

Não seria má ideia. Estou farto de andar às voltas na porra da Chagas (abertas). Mas sem a barbatana não faço senão andar às rodas. Puta da galinha carnívora.

O barbeiro estava com medo de lhe fazer o bigode.

O senhor promete que não me come o braço?

O tubarão acenou. Agora sou herbívoro, sua besta. E quando acabar recomece tantas vezes quantas as necessárias para eu poder sair pela ruas das Chagas (fechadas).

Se o senhor tubarão me deixasse falar talvez eu pudesse dar um jeitinho...

Estes cabrões mai-los jeitinhos. Irritado comeu o braço ao barbeiro.

A porta da rua das Chagas (fechadas) abriu-se.

Micro-dialogos

- Mudas de corações como eu mudo de camisa.
- Azar o teu. Ao menos os meus corações vêm com pilas. As tuas camisas só têm botões.

- Sinto-me um looser.
- Os teus sentimentos raramente se enganam.

- És a mulher da minha vida.
- Para isso seria preciso teres uma vida.

- Olho-te e vejo o futuro como podia ter sido.
- E eu o passado como foi.

- Tens uns olhos lindos.
- Ainda o seriam mais se não tivessem de te ver.

12.7.14

Simetrias, ausências

A verdadeira pergunta é sou eu que deixo o mar ou é ele que me deixa?

Da resposta a esta pergunta dependem uma data de coisas. A cor das ameixas que estão por nascer e ser comidas, por exemplo.  A dimensão do carreiro de formigas num determinado quintal. A frequência de levantes e ponientes no estreito de Gibraltar este verão.

Um dia conheci um tipo cujo trabalho consistia em avaliar as probabilidades de um amor evoluir em amizade ou não. Quem lhe pagava eram os actuais cônjuges dos antigos casais.

- Têm medo, percebes?
- Não.
- Pá. A amizade é um sentimento mais forte do que qualquer outro. Já pensaste que todos nós somos capazes de substituir um amor, mas ninguém pode substituir uma amizade? Um amigo que se perde perde-se para sempre.
- Se quisesse mencionar-te-ia um milhão de amores que se perderam para sempre.
- Ainda bem que não queres. Obrigar-me-ias a declamar-te os amores todos que os substituíram.

Que se foda a amizade.

Por exemplo: o mar é meu amigo? Sofre quando não me vê como eu sofro quando passo demasiado tempo em terra? Sofre se não sabe de mim?

A amizade é a forma perfeita da simetria. Ao contrário do amor, que é a sua forma imperfeita.

Nutro pela simetria uma admiração infinita: é a mais elusiva de todas as aspirações humanas. Como terá sobrevivido a tanta ausência?

A ausência é a morte da simetria: não há ausências simétricas.