30.5.15

Jantar improvisado - Frango em iogurte de tapioca

O começo é sempre o mesmo: deixar o frango a marinar em limão (ou neste caso lima) e sal; e também neste caso mais do que o habitual: ficou um dia. Continuou também sem mudanças; gengibre a confitar, frango a dourar no azeite do gengibre e flambeado com rum.

Foi aqui que a normalidade divergiu: na frigideira do frango e noutro azeite (mas também do gengibre) do gengibre dourei um montão de salsa picada fininha; à qual a seu tempo juntei o gengibre agora confitado.

Uma vez tudo isto feito, foram todos para a panela, mai-lo jalapeño verde (infelizmente pouquíssimo picante). Cobri tudo com iogurte de tapioca, juntei pimenta, paprika, cominho, um bocadinho de caril e dois ou tr~es cravinhos.

Está a cozer. Vamos ver, como dizia o ceguinho.

Isto tudo acompanhado primeiro pelas Vésperas de Rachmaninov - estou mais ou menos em choque, a minha versão favorita está estragada também -; depois pela Ressurreição de Mahler e agora, enquanto escrevo, por uma banda espectacular que devo, uma vez mais, à Ana Cordeiro Reis.



(Eu devia ter começado por avisar que esta receita suja muita loiça...)

29.5.15

Diário de Bordos - Isla San Andrés, Colômbia, 29-05-2015

O fornecedor alemão das peças para o braço hidráulico recebeu o dinheiro, graças à ajuda da Nike. Agora trata-se de organizar o transporte, coisa que o senhor simpaticamente declinou fazer: sabe o trabalho e a chatice que são. A primeira escolha é a DHL. Não respondem. A segunda é a UPS. Passo horas a preencher as múltiplas páginas do site para encalhar numa mensagem de erro: "credit card's billing address". A pergunta é fácil de responder - o barco tem um cartão de crédito (que só consigo usar para pagamentos à distância porque o armador se esqueceu do PIN). Infelizmente a página não fornece maneira nenhuma de introduzir o dito endereço. E a UPS tão pouco responde aos mails.

A modernidade infelizmente varia com as áreas geográficas. Na Europa com um telefone resolve-se o assunto. Aqui não: os telefones colombianos tanto da UPS como da DHL ou não funcionam ou não respondem. Há sete horas de diferença com Alemanha, pelo que a partir das oito ou nove da manhã nada a fazer. As chamadas internacionais custam uma fortuna. É assim que o tempo passa: a lutar contra a realidade e as múltiplas representações que dela faço.

.......
Afinal a pergunta simplória de ontem ficou sem resposta: estava com demasiado sono e fui dormir. Ou melhor: para o beliche. Dormir só às duas da manhã. Não me queixo: acabei o Lord of the Flies, um livro que devia ser obrigatório para todos os que põem em dúvida o pessimismo antropológico e as virtudes da civilização e da sociedade organizada.

Tal como o projecto de fazer turismo: fica para depois. Estou outra vez a contar tostões e prefiro contá-los nos sítios que me são familiares. Hoje por exemplo vim beber um rum à Kristhal Delicatessen. Já não têm Zapata 15 Anos, mas propuseram-me outro quase tão bom. O preço é o mesmo. Mas o sítio não é, definitivamente, tão agradável como o Lupita ou o Beer Station. Só tem uma vantagem: a música quase não se ouve.

O ar condicionado e os compressores dos vários frigoríficos cobrem-na por completo.

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Diário de Bordos - Isla San Andrés, Colômbia, 28-05-2015

Para picar o simpatiquíssimo dono do Café de la Plaza tem uma tablita com queijo, azeitonas, jámon disto e daquilo. Interrompo-o ao segundo jámon: queijo e azeitonas, por favor.

"Só tem queijo amarelo e mozzarella". Óptimo, venga.

Nada há a dizer do queijo amarelo. Era amarelo e tinha uma ou duas coisas em comum com queijo: a consistência, o aspecto e, muito muito vagamente o sabor.

Já a respeito da mozzarella tenho uma pergunta: porque não chamar-lhe Gruyère? Ou Brie? Ou queijo da Serra, de Serpa, flamengo, de cabra, ovelha, galinha, Parma, étivard (meu Deus, étivard)? É que tem tanto em comum com a mozzarella como tem com qualquer um dos outros citados.

Porém o momento é tão agradável que não ligo às denominações e como a mozzarella como se fosse queijo, o queijo amarelo como se fosse bom, o vinho como se não fosse medíocre (as azeitonas são esplêndidas) e estivesse em Brighton, Palma de Maiorca, Mértola, Sète, Cascais, Lisboa ou, desculpem a múltipla redundância, num paraíso qualquer.

........
Hoje fui à praia. Não gosto de praia por causa da areia, das mulheres gordas e feias em string e pela complicação logística: toalha, fato de banho, mudar de roupa. um sem fim de chatices.

Mas não sou absolutista nem nos gostos nem nos desgostos; e praia nestas condições acaba por ser agradável: um longo longo mergulho e uma sesta na areia entre duas piñas coladas, um breve moto-táxi e um duche. Água quente e transparente numa praia bonita e a cinco minutos da marina.


Amanhã visto a camisola do turista e vou a sítio chamado San Luis, no sul da ilha. Qase São Luis, não é?, de que tanta falta sinto das pessoas que lá deixei e ainda hoje me povoam o coração. E sempre.

........
Tudo começa sempre da mesma maneira: um homem nu e uma pergunta. Neste caso a pergunta é simples, não tem nada de metafísico: como ficará o frango com iogurte, gengibre, jalapeños verdes e salsa? Comprei montes de curcuma - encontrei o meu supermercado aqui -. Com um bocadinho de sorte vai ficar comestível.

E se não ficar como-o na mesma, portanto a pergunta para além de simplória é desnecessária.


28.5.15

A l'envers


Caravanserai, corpo

Um longo, enorme travelling sonoro; a lua esconde-se atrás da retranca da grande e envolve-a num halo esbranquiçado, estúpido; a música substitui o vento que hoje caiu, finalmente. Para que lado virar-me? Para a música? A lua amanhã estará noutro sítio; como tu, de resto. O vento em breve voltará; menos angustioso, talvez. Tu não. O tempo passa por ti como as caravanas pelo caravanserai. Não voltas: amanhã não serás o que hoje és, o que ontem foste.

É preciso imaginar uma pele. Um vento que a acaricia, centenas de caravanas que por ela passaram, um olhar que lhe fixa um futuro, um ponto no deserto.

"A pátria é um acampamento no deserto".

Não sei. Imagino um deserto, uma pessoa que nele se senta e o vê desfilar. A pessoa está imóvel; é o deserto que se move ao som desta música lunar. Camelos, berberes, tout le tralala. O gajo continua sentado.

Lembra-se de uma lua em crescente numa ilha das Caraíbas e pergunta-se Como pode a música que ouve descrever-lhe a puta da lua? Ou o vento? O resto?

É preciso imaginar um deserto e nele um caravanserai. Pessoas conversam, ouvem música. Talvez um bocadinho de vinho clandestino. Mulheres dançam.

Um homem diz: Prefiro acordar com uma mulher inteligente ao meu lado a acordar com uma bonita. Outro responde: Prefiro o olhar de uma mulher aos seus olhos. O terceiro: A inteligência é a única beleza.

Mariquices. Merdices. O deserto está-se nas tintas para a beleza ou para a inteligência ou para a puta que o pariu. O deserto é a vida e a vida só se interessa pela vida.

A música parece uma tempestade de areia, um squall no mar das Caraíbas, um camelo que se revolta na caravana, uma mulher que te diz sim.

Uma tempestade na calma do deserto. Uma tempestade no meio da calma. Um squall no caravanserai. A beleza onde menos a procuramos.

A imagem é esta: um homem sentado en tailleur porque está no deserto. O deserto move-se perante o homem sentado em tailleur. Avança, recua, esboça um passo de dança, troça do homem sentado. Um corpo, uma pele. Um turbilhão. Homens vestidos de azul; um homem nu sentado à beira do deserto, à beira da vida.

Uma pele e um olhar: a isso se resume um corpo. Num caravanserai, se estiver parado.

Vida, vinho

É mais ou menos isto: um gajo pensa que acabou de jantar e apercebe-se de que bebeu uma garrafa de vinho e ouviu a vida dele contada por uma senhora que não o conhece de lado nenhum.

Enfim, a ordem é a inversa: bebeu a garrafa de vinho porque; não ante.

Diário de Bordos - Isla San Andrés, Colômbia, 27-05-2015

Faço mais um jantar de mistela e apercebo-me de que cada vez gosto mais destas misturas imprevistas, fruto do acaso - de vários acasos -. Cada vez tenho mais vontade de as trabalhar, burilar, afinar.

Acompanho-o com um Malbec passável e com a música fundamental, basilar da Ana Cordeiro Reis, uma senhora portuguesa que vive em no Reino Unido - pormenores pouco interessantes - e faz uma música surpreendente. Pelo menos para mim. Depois de jantar deitei-me no cockpit a fumar um cigarro - o vinho não chega para gerir esta merda toda - e ouvir aquela música desfilar. É um travelling sonoro.

O melhor travelling que conheço no cinema é o do final de Providence, de Alain Resnais. O segundo melhor é a música toda da Ana. Pergunto-me "como cheguei aqui?" "Como comecei a gostar desta música?" Não sei. Talvez um dia; por agora mergulho de cabeça na descoberta. Ou mergulho sem cabeça: ela vem depois, ao contrário do que parece quando se vê alguém mergulhar de uma prancha para o desconhecido.

........
Silvério não começou o pau-de-bujarrona. Aborrece-me pouco: já o esperava. Aborrece-me muito: quero lidar com alguém diferente. Silvério é-o, na aparência e nos modos. À superfície. Não gosto da superfície das pessoas. Isto é: não me interessa. "Embora os meus olhas sejam..." etc.

..........
Se calhar gosto desta música porque retrata a minha vida. Não sei. Só superficialmente começo a aceitar que tenho uma vida. Ou melhor: que isto que vivo é uma vida. Maravilhosa, ainda por cima. Não por ser boa, mas por ser a que quero; por ser livre.

Livre: procuro um sinónimo e não o encontro. Liberdade não tem sinónimos.

27.5.15

Diário de Bordos - Isla San Andrés, Colômbia, 26-05-2015

Edgar, o electricista ilusão-de-óptica apareceu hoje e montou o alternador. Combinei com o carpinteiro que começa a fazer o pau-de-bujarrona amanhã, e o teremos feito na segunda. Não teremos, mas não faz mal. Mais vale falhar um objectivo do que não ter objectivos. Dei o primeiro passo para que os seals do braço hidráulico cheguem. O vento caiu um bocadinho e a música no Beer Station não está tão má como de costume. Há bocadinho até Jimi Hendrix passaram. Decidi definitiva e irrevogavelmente que daqui a três semanas estarei em Lisboa. Se não forem três são três e meia. Isto é: não vou parar em Cuba, não vou a Cartagena, não vou a lado nenhum. Vou do Panamá para Lisboa, na TAP porque o voo é directo e terei montes de bagagem. Faltam duzentas milhas para isto tudo acontecer. Duzentas milhas. Nada. Amanhã.

Há dias assim.

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Ontem comi uma fondue de queijo. Fondue devia ter meia dúzia de quilómetros de aspas, mas não tem: má, mas fondue. A senhora da Kristhal Delicatessen não percebe muito de queijo mas é bonita, simpática e poitrinée, o que não estraga nada. Não tinha kirsch; paliei com vodka. A fondue é daquelas que já vem feita em pacote, mas não é Gerber.  Ela não sabe a marca e eu não quero saber.

Foi uma grande noite. Discutia situacionismo com um imbecil brasileiro, falava com uma amiga portuguesa e bebia mau vinho chileno. Na Kristhal Delicatessen uma taça de mau vinho custa dez mil pesos e uma dose de Zapata 15 anos oito mil. Zapata 15 anos não é o meu rum favorito, mas está longe de ser mau. Infelizmente só o descobri ao fim de dois copos de vinho, mas enfim. Não é decerto a última vez que vou à Kristhal, se bem seja de certeza a última que lá como fondue de queijo.

Gosto destes preços. No Beer Station uma taça de vinho custa dezanove mil pesos e um mojito treze mil. Fartei-me de rir, quando o empregado me disse o preço. O rapaz (é um tipo novo) também. Rimo-nos os dois. De vez em quando eu perguntava outra vez e voltávamos a rir. Agora pergunto sempre o preço do vinho antes de o beber. Rir não é só um remédio, é também uma boa escola de prevenção.

No Lupita custa seis mil e não é mau de todo. É por isso que lá vou. A comida (Tex Mex) é assim assim. Depois há a música e as televisões, claro. O meu favorito é o Beer Station, por causa da praia e do vento.  E dos kitesurfers. Ontem voavam, era lindo.

Às vezes cozinho a bordo, mas são poucas. O pequeno almoço e o almoço, só. À tarde gosto de sair. Ver um gajo sair da água com a máscara de mergulho, o snorkel e uma Gopro à frente; um pai e uma filha a comer alitas: mão direita numa luva de plástico e na esquerda um telefone portátil. Cada um deles olha para o seu telefone, come, troca uma frase e olha para o telefone, faz uma fotografia do que está a comer, troca uma frase e assim por diante. Gosto particularmente do pormenor das luvas de plástico para comer com as mãos.

Nunca experimentei, mas imagino que seja prático. Feio é, de certeza, mas ele há tantas coisas feias por aí que mais uma menos uma pouco importa. Além de que é para ver estas coisas que gosto de sair.

Antes de me ir embora vou dar uma volta à ilha. Se não me engano são vinte e sete quilómetros. Lisboa Cascais. Já tentei comprar uma bicicleta, mas só as há novas. Não a poderia revender.

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Há dias assim. Agora trata-se de fazer o que se pode para que eles sejam muitos. Ou pelo menos mais do que os outros.

Tele-turis-fotos



Uma fondue de queijo desterritorializada (mais a cair para o surreal) e uma praia igual a todas as praias, excepto algumas.

26.5.15

Spinoza, sempre

§1
"Quando a experiência me ensinou que tudo o que geralmente ocorre na vida trivial é vão e fútil, quando vi que todas as coisas pelas quais eu temia não continham em si nem bem nem mal a não ser até onde o espírito era movido por elas, decidi então indagar se existiria alguma coisa que fosse um verdadeiro bem capaz de se comunicar e pelo qual só, rejeitando tudo o resto, o espírito fosse afectado; ou antes, se haveria alguma coisa através de cuja descoberta e posse, eu fruisse para todo o sempre uma alegria contínua e suprema.


§3
... Na verdade, aquelas coisas que na vida vêm com mais frequência ao espírito, e que os homens, como se pode concluir das suas acções, consideram como bem supremo, reduzem-se a estas três, a saber: riquezas, honra e volúpia. A mente é partilhada a tal ponto por estas três coisas que quase não pode pensar em outro bem.


§12
... Para que isto seja rectamente compreendido, é de notar que o bem e o mal só se dizem de maneira relativa, a tal ponto que uma e a mesma coisa se pode dizer boa e má, segundo os diferentes aspectos (porque é encarada).


§84
Por consequência, nós distinguimos a Ideia Verdadeira das outras percepções e mostramos que as ficções, as ideias falsas e outras têm a sua origem na imaginação, isto é, em algumas sensações fortuitas..."

(Bento de Espinosa, "Tratado sobre a reforma do entendimento", Livros Horizonte, 1971(?), Trad. António Borges Coelho.)

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Um gajo em puto lê Spinoza. Demasiado puto, talvez. Um gajo não é filósofo, nem sequer intelectual. Sabe ler e já é um pau por uma pedra. Um gajo fica apanhado por aquela ideia de que em si mesmas as coisas não são boas ou más, tudo depende de para onde elas "movem o espírito".

Anos depois esse mesmo gajo tenta falar com pessoas para quem o mal é o mal, e o mal é o dinheiro e o capital e o lucro; e o bem é o bem, ele é os valores, as pessoas, as vidas. Um gajo argumenta que nem todos os valores são bons, nem todas as pessoas; que o dinheiro e o lucro, esse malvado lucro podem ser bons, etc. Chorrilhos. Disparates. Ingenuidades. Banalidades que nem de base são. "Sensações fortuitas".

Que se fodam as banalidades. Prefiro Spinoza. Prefiro a liberdade. Antes excomungado mil vezes que arrebanhado uma.

Bom selvagem mau civilizado

Matem o Rousseau de vez, já que ele não morre.

Desperdício

Tanto vento e eu no porto.

Da cor da terra

Vá, rapariga, esparrama-te por essa cama abaixo. Abre as pernas e deixa cair as mamas uma para cada lado. Não digas nada: digas o que disseres não acredito.

Uma inglesa chamava a isto a crucifixacão. Eu também, às vezes. Outras digo Vamos sacrificar a Vénus, ou a Príapo. Mas isso é só quando me apetece ser pedante, antiquado, chato. Se não digo Vamos foder-nos.

Esparrama-te e ouve o Buena Vista Social Club, bebe um rum, prepara-te.

Isto do desejo é uma coisa complicada, parece um fantasma: está sempre lá e quando o vais procurar desaparece. Como os gatos: nunca respondem quando os chamamos e depois queres estar sozinho aparece-te um, como se não fosse dali.

Acendi a lâmpada a petróleo. Não se vê nada, eu sei, mas o romantismo não é para aqui chamado, descansa. É porque gosto da luz alaranjada, da ideia que aquilo deixa um traço negro se for demasiado forte, da ideia - sobretudo - que é finita. Fica bem com a tua pele, tão clara. Parece que não viste o sol, ou que estás assombrada. Não te preocupes.  Vou dançar-te na pele até a deixar da cor da terra.

Encore un

Allez, on reprend le français. Ca fait longtemps qu'il m'échappe, ce salaud. Il flanchit. Dans mes posts en portugais je parlais des joies de la modernité, éxultation provoquée par une pseudo-fondue au fromage à San Andrés pendant que je discutait le situationisme avec un imbécile et un "écrivain" portugais avec une personne que je respecte.

J'éxultais avec ce mélange: être ici et ailleurs, discuter avec l'inteligence et son absence simultanément, manger une mauvaise fondue et penser à toutes celles que j'ai faites un peu partout.

Penser à la Renaissance et au XIXème, penser à aujourd'hui, à aujourd'hui comme une piscine: il faut y plonger, tête la première, pour oublier, ou se réjouir.

Penser, boire, parler, écrire. Aimer. Vivre.

Hoje

Como acabar bem um dia mau? Mergulhar no hoje.

Modernidade

Estou eufórico. Extáctico. Não acredito. Comi uma fondue de queijo em San Andrés (o Lupita estava fechado). E como se isto não fosse exótico o suficiente discutia situacionismo com um imbecil e falava com uma pessoa que respeito sobre um escrevinhador português.

A modernidade é a época mais deliciosa que a humanidade jamais viveu. Penso no Renascimento, quando o homem voltou para o centro do mundo; ou no século XIX, o último século em que tudo era possível. Não se comparam a este final de século XX e princípio de XXI.

Nunca a humanidade foi tão acessível, tão presente, tão humana: falha e sublime, fraca e forte, humana e capaz das coisas mais sobre-humanas.

A fondue estava uma merda sem fim, é preciso reconhecer. Mas quem se preocupa com isso? Eu não. Lembro-me de todas as fondues exotéricas que já cozinhei - desde a de um palácio de um descendente de Talleyrand, nos arredores de Paris, para vinte pessoas em Junho até à de Maputo, passando por não sei quantas em barcos, casas, quintas - ...

Que se fodam as fondues. Que se fodam os imbecis, brasileiros ou não.

A modernidade é a coisa mais preciosa que a humanidade jamais inventou.

Diário de Bordos - Isla San Andrés, Colômbia, 25-05-2015

Os mojitos sem açúcar do Beer Station não se comparam, nem de longe, aos do Rana Dorada do Casco Viejo em Panamá. São ligeiramente mais baratos e estão perto do mar, mas nem a beleza da paisagem nem a de preço compensam a diferença de qualidade.

W. está hoje, dezasseis dias depois da chegada, quase como estava: Edgar, o electricista continua a dizer que vem daqui a uma hora e não aparece; Silvério, o carpinteiro diz-me que afinal precisa de mais dinheiro - coisa de que eu já suspeitava, devo dizer, o orçamento incial era realmente barato. mas não deixou de me chatear -; na Alemanha os feriados sucedem-se e parecem-se todos uns com os outros: as juntas para o braço hidráulico ainda lá estão.

Não é verdade: W. não está na mesma. Há cada vez mais ferrugem nos brandais e hoje consegui baldear o convés. Consegui é o termo correcto, não é um exagero. Consegui baldear o convés. Não ficou como eu queria, mas está melhor.

E consegui passar o ferro à popa. Fantástico. Só vitórias.

Se me apanho fora de San Andrés e fora do W. nem acredito.

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Estou a reagir de mais. Hiper-susceptibilidade, cansaço, chame-se-lhe o que se quiser. Estar preso, por exemplo. Apetece-me meter-me num avião e ir para Cartagena, ouvir música na Plaza Trinidade ou ler na livraria Ábaco...

Em vez disso vou jantar ao Lupita, tex-mex assim assim.

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Ataquei a italiana demasiado forte e ela percebeu que estou inseguro, fragilizado, impaciente. As mulheres têm um olfacto para estas coisas que nem perdigueiros.

A italiana que se lixe. Não sabe o que perde: um homem vulnerável é uma galáxia.

25.5.15

Post en français

La journée se termine telle qu'elle avait commencé: lentement.

Lentement est le mot qui mieux sied à San Andrés. A tel point qu'aujourd'hui j'avais prévu de me saouler la gueule lentement. Loupé à moitiè: je ne me suis pas saoulé. Mais je ne me suis pas saoulé lentement et c'est donc lentement pas saoul que j'écoute Rão jouer le fado comme si le fado avait été créé pour le sax, comme si j'aimais le fado, comme si la violence du fado pourrait être lente.

Elle ne le peux pas: c'est une violence beaucoup trop primordiale pour pouvoir être lente.

W., mon W. haï et adoré est loin d'être prêt. Cela fait quinze jours que je suis là et je me demande ce qui a été fait ces deux semaines. Mieux ne pas répondre : je risquerais de me saouler très vite le gueule, l'âme et tout ce qui a entre les deux.




Demain j'aurai l'alternateur et une fois ça réglé la transmission: en fait on ne va rien lui faire. D'ici Bocas elle n'a qu'a se tenir si elle le veut; et si elle ne veut pas je m'en fous comme de mon premier biberon.

Le bout-dehors et le hydraulique du safran vont mettre plus de temps.

Je me suis tellement résigné que je ne trouve même plus San Andrés une île chiante. C'est juste l'endroit où je suis.

A l'envers.

Recados

"Meu querido,

Sexo oral sim. Sexo verbal não, por favor."

Tele-turis-fotos San Andrés





24.5.15

Diário de Bordos - Isla San Andrés, Colômbia, 24-05-2015 / II

A falha de corrente era na cidade toda. A baldeação ficou para outro dia. Ouvi música nova, em todos os sentidos do termo e fui dormir uma sesta. É difícil engrossar-se devagar se não se dormiu uma boa sesta. Agora estou no Café Café (os nomes dos bares em San Andrés são bastante originais: Café Café, Cocoloco, Aquarium e por aí fora). A música do Beer Station - o que faz os bons mojitos e tem vista para o mar - é abominável e já passei a manhã toda com os auscultadores nos ouvidos. Além disso vai chover e interior por interior este sempre é mais agradável.

As tardes de domingo têm mais complexidade do que um gajo pensa à primeira vista, quando vê ruas vazias, lojas fechadas, famílias a andar tão devagar como o amor delas se foi, ou irá.

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Viver num barco na marina é como dormir com uma mulher com quem não se pode fazer amor. Devia ter um limite de tempo.

Até no Wreck tenho vontade de ir para o mar. Volto sozinho para Bocas; ao menos isso.

Apologia do inevitável

A liberdade tem um preço? Tem. Mas a falta dela também; muito mais elevado.

Diário de Bordos - Isla San Andrés, Colômbia, 24-05-2015

Hoje é domingo, dia de baldeação e de engrossar-me devagar. Como sempre a realidade encarrega-se de desfazer planos mais depressa do que os alísios levam o fumo de um cigarro: não há energia na marina (ou na cidade, não sei) e sem ela não tenho pressão. Fica para amanhã. Quanto à segunda parte do programa não sei, ainda é muito cedo.

Nene quer - finalmente - usar a sua lancha para me ajudar a passar o ferro à popa. Esperei três dias pelo Adolfo e ontem fizemo-lo mas mal. Tenho de o puxar mais para barlavento. Agora só falta o empregado do Nene. A continuar assim nem quando me for embora tenho o ferro no lugar.

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Começo o dia a descarregar música de uma compositora portuguesa que descobri ontem. Chama-se Ana Cordeiro Reis (ou Hyeana Fierling Reich, nome que de todo não me seduz) e faz música contemporânea, experimental, "alquímica" como ela lhe chama. É boa música, qualquer que seja o rótulo. Enquanto faço os downloads (uma maratona, para quem como eu não está habituado) converso com ela e oiço as faixas que vão sendo descarregadas.

É uma música paradoxal: leva-me a "passear pelas paisagens interiores" (a expressão é da autora) e faz-me feliz. É uma música telúrica, "abismal", apaziguadora.

Podem ouvir os discos aqui. Ou, melhor ainda, fazer uma procura no Google.

Jantar improvisado - carne picada em óleo de gengibre

Vale a pena contar porque o resultado ficou surpreendentemente bom (não muito mas inesperadamente bom).

Mal cheguei a bordo pus a carne picada a marinar em vinho tinto. Era um remédio materno contra o sabor a carnum, termo que nunca mais ouvi mas tanta falta às vezes faz. Mais tarde juntei uma boa quantidade de pimenta, paprika e cominhos moídos.

Depois cortei gengibre em bocados grandes e pus a fritar com dois dentes de alho e duas folhas de louro. No mesmo azeite (metade azeite metade óleo de girassol) pus a carne em lume muito baixo, a confitar. O gengibre frito foi para a panela de guandu, uma coisa que parece um híbrido de ervilha e lentilha. Fez muito boa figura.

A carne confitou um bom bocado. Tirei o óleo e fiz um flambé com rum (Flor de Caña, um desperdício).

Pensei que ia ficar uma mistela intragável  mas não ficou. Ainda bem.

23.5.15

Diário de Bordos - Isla San Andrés, Colômbia, 23-05-2015

O velho e familiar pára-arranca-pára chegou. Queixo-me, mas pouco: antes era só pára-pára-pára. Os sanadresanos fazem os panamianos passar por trabalhadores aplicados, pontuais, responsáveis, uma espécie de teutões da América Latina. Enfim, estou a ser injusto: o fornecedor alemão também só responde uma vez em três.

O armador quer o barco de novo em Bocas. O rauio do elástico é maior do que eu pensava.

Estou cansado. Os dias são feitos de bocadinhos de cansaço colados por uma boa notícia, um passo em frente, uma tarefa que se aproxima do fim.

Hoje larguei um ferro à popa, mas ficou mal posicionado. Tenho de refazer. É o que dá trabalhar com os braços e não com a cabeça. Ou andar cansado.

O vento continua, mas reconciliei-me com ele. Estou pronto para a nortada.  


Solidão, vergonha

É tão bom estar sozinho que às vezes tenho vergonha de o dizer.

Humildade

São raras as ocasiões nas quais sou contra a lei do mercado - isto é, a ideia singela de que os fornecedores devem adaptar-se aos clientes e não o contrário, coisa que para um socialista parece ser dramático, dilúvico -.

Uma dessas ocasiões é quando estou num bar bonito e bem situado, com bons (ou pelo menos passáveis) Mojitos - nem sempre me aventuro pela Margarita, acho indecente (e arriscado) chumbar um lugar com exigências galácticas logo de início - e a música é péssima. Devia ser obrigatório os bares que eu frequento terem boa música.

Digo isto, claro, com toda a humildade.

22.5.15

Desficções - II

A. sabe que são mentiras. Sabe que sou perfeitamente capaz de viver com alguém uma semana - ou duas - mas que depois preciso de mim, do meu espaço, da minha solidão, do meu tempo, como numa canção ou numa peça de jazz. Sabe que me estou aterradoramente nas tintas para o casamento - isto é, tanto se me dá como se me deu - mas que a ideia de partilhar uma casa a tempo inteiro (tempo? Vida inteira) me assusta mais do que a perspectiva de um ciclone no mar ou uma sessão de dentista. Sabe que bebo quando quero beber, durmo quando quero dormir, leio quando me apetece, que tenho na minha vida quotidiana a regularidade de uma pena num remoinho. Sabe isso tudo e muito mais.

Quer que seja eu a separar-me. É mais cómodo.

Acha que no pote da relação põe mais do que eu.

Quer encostar-me à parede.

(Cont.)

Diário de Bordos - Isla San Andrés, Colômbia, 21-05-2015

É sempre assim: tudo vai mal - ou pelo menos nada vai bem - e de repente tudo muda, sem pré-aviso, sem água-vai, sem sequer um murmúrio.

Penso mas não tenho a certeza que tudo começou com a partida dos dois jovens. Arrumei a loja, organizei-me. Ou então foi com o desmontar do pau de bujarrona. Não sei, não quero saber e tenho raiva a quem sabe.

Sei que hoje tudo mudou: tenho água corrente - uma improvisação / adaptação ao modo W., mas que funciona (comprei três metros de mangueira de meia polegada e liguei-a à bomba de água. A outra extremidade vai para um dos garrafões. Amanhã vou comprar um y e posso usar dois garrafões de cada vez. Quarenta litros de água duram bastante tempo); comprei tomadas e fichas e fiz (mandei fazer) um adaptador 110V / 30 A - 110 V / 15 A. Já choveu e funciona. Ou seja: tenho duche a bordo, água no lava-loiças, ventoínhas, os dois frigoríficos a funcionar. Arrumei o grupo: acabou-se o barulho, os enchimentos de tanque, o desperdício.

Isto de manhã. À tarde apareceram-me o electricista (anda a dizer-me que vem "daqui a pouco" desde terça-feira) e o mecânico - que não pôde trabalhar porque o lugar estava ocupado pelo electricista, ó ironia feroz e deliciosa. Seria capaz de apostar o dedo mindinho em como vou ficar aqui retido pela coisa mais fácil de reparar de todas: o braço hidráulico. (Amanhã um vem de manhã e o outro à tarde. Se vierem, claro).

Net, duche, ventoinhas e frigoríficos no máximo (a 12V só tenho um e no mínimo, um bocadinho antes de a água ferver). Em breve saberei o que se passa com a caixa, terei o tacómetro a funcionar, o alternador reparado, o sensor de temperatura da água a sentir, o pau de bujarrona feito - amanhã a madeira chega ao carpinteiro e vamos avaliar quanto tempo vai precisar de secar - e as peças do braço hidráulico a caminho.

A verdadeira felicidade é feita de coisas mais simples - e sobretudo de menos, suponho -; mas esta arrima-se-lhe o suficiente para eu gostar.

Desficções

Voltei para casa pus um disco do Keith Jarrett - mas não o Köln: quero uma coisa que me projecte para o futuro, não o passado - servi-me uma dose tripla de whisky (tripla é uma maneira de dizer. Enchi a caneca) e fui para a varanda pensar.

Uma das vantagens das varandas é que nos dias de vento pensa-se nelas melhor do que numa sala de estar, por muito confortáveis que sejam os sofás e potente o ar condicionado. Questão de vento, suponho: ajuda a pensar (o whisky também, quando não é de mais).

Pensar não é o meu exercício favorito. Um gajo começa a pensar e já sabe que as coisas vão acabar mal, e quanto mais pensa pior elas acabarão. Pelo menos gajos como eu, com deficiências no aparelho pensador.

Sem descrever o que nos rodeia nada se compreende.

Da minha varanda vejo a cidade e ninguém me vê: não tenho prédios à frente ou acima de mim e a quem está mais baixo o parapeito tapa-me. Nem um telescópio super-potente me tornaria visível.

Não tenho um: os outros não me interessam o suficiente para lhes espreitar a intimidade. Destrinçar-me é trabalho suficiente.

Ontem A. disse-me clara e explicitamente que ou nos casamos ou ela se vai embora. Está farta de, cito, "quase relações". Faço-lhe ver que ela tem muito mais dinheiro do que eu, que o casamento seria desequilibrado, que a leveza do nosso namoro é muito mais garantia de perenidade do que o peso de uma instituição; menciono-lhe os inconvenientes da vida a dois, a ausência de solidão provoca mais divórcios do que todas as infidelidades juntas.

Mentiras, tudo.

(Cont.)

21.5.15

Divórcio - I

Tudo começou com dois mojitos sem açúcar, claro e uma hipótese: as senhoras da burguesia são as mais bonitas. Isto é, a burguesia é a classe que mais mulheres bonitas dá ao mundo, o que explica a extinção ou quase extinção das outras duas (para quem não tinha dezoito anos em 1974 a aristocracia e os proletas). A fim de defender a minha hipótese pensei numa marquesa espanhola feia como um macaco (ou macaca) e numa gaja chamada Claudia Cardinale que se casou com um tipo chamado Tancredo numa espécie de coboiada italiana que vi há alguns anos no cinema.

Alguns cinéfilos e literatos apontar-me-ão sem dúvida as mulheres daqueles filmes neo-realistas italianos que também eram muito boas mas toda a gente sabe que elas eram burguesas, só fingiam ser do povo. Até suecas havia, país especialmente desprovido de proletariado e de aristocracia. Pelo menos em parte.

Bom, voltemos ao tema. A ideia é defender a burguesia, classe na minha opinião injustamente vilipendiada. Ele é as mulheres, os restaurantes - um tipo vai a um restaurante operário e é uma merda, tanto quanto os dos outros são caros. Nestes não se pode estar à vontade, naqueles não há quem não o esteja - o que ao fim do dia se torna desagradável, o à vontade dos outros invade bastante -.

É na burguesia que está o futuro - ninguém tem tantos filhos como as burguesas - e o presente - alguém imagina ir para a cama com uma gaja e dizer "querida, passe-me o seu mamilo esquerdo, por favor. O direito já maça"?

Tudo começou assim e depois tudo descarrilou.

A minha Teresa, coitada, fechada no quarto ou num amor qualquer novo - é quase a mesma coisa - disse-me que queria o divórcio. Eu sou um homem respeitável, dono do maior talho da vila (na verdade é uma aldeia, mas as pessoas gostam de pensar que devia ser vila).

Ora vinha eu a pensar neste assunto e vejo um bilhete dela. Isto incomoda-me. Até agora só comunicávamos por energias mentais, telepatia, coisas assim. Ver um bilhete, manifestação física da sua existência desestabiliza-me. Pois bem: estava um bilhete à porta do meu quarto (proíbi-a de sair de casa, mas não de por ela cirandar). "Quero o divórcio", dizia.

Ou "Quero divorciar-me". É possível. Não li bem.

(Cont.)