27.7.15

Oito

Não sei se o nome vem daí. Próximo sábado estarei em Inverness. A temperatura, segundo fontes normalmente bem informadas será de oito graus centígrados.

Ser

Não és o que queres ser. És o que és, e o que foste.

Pouco que seja.

26.7.15

De um ponto de vista estético

As mamas da empregada do Buddha Bar continuam um mistério. Não sei se são naturais ou siliconadas. Pouco me importa, na verdade: a rapariga é de uma vulgaridade assustadora, capaz de tirar o desejo a uma manada de elefantes no cio.

Porém, de um ponto de vista estético é forçoso reconhecer que são bonitas. Ou devem ser, quando livres.

Pergunta a quem sabe

A moda e a elegância são completamente antinómicas, não são?

Diário de Bordos - Alvaiázere, Portugal, 26-07-2015

Todos os dias usufruo da beleza do Aldear e todos os dias admiro o bom gosto de quem o construiu e decorou. Todos os dias penso na sorte e me esqueço do azar. É uma sorte, não é?

E depois penso na gratidão, irmã siamesa da sorte.

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Hoje o passeio de bicicleta devia ter sido curto, mas descobri que sou incapaz de deixar uma subida a meio.

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A carne guizada do jantar estava tragicamente boa: é daquelas que nunca conseguirei repetir.

Tão boa que decidi ir comer para o jardim. Há anos que quero ir à Escócia e uma mesa bonita num quadro ainda mais bonito fazem-me perguntar porquê.

Respondo com a guitarra mágica do Vasco Abranches, que tem resposta para tudo:



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Enfim, qualquer dia estou no mar. É o grande apagador de dúvidas.

Gostos

Glenn Gould toca desenfreado o Concerto nº 5 de Beethoven, mais conhecido por Imperador. Quero ir deitar-me e não consigo: o Imperador é o pianista; quando o Beethoven compôs isto teria talvez o Gould em mente para solista.

Duvido. Gould transfigura tudo, deixa o compositor no bar do lado.



Oiça-se isto do princípio ao fim. Não gosto muito do romantismo na música e ainda menos de pós-romantismo. Depois oiço isto e fico com vontade de me dizer "porque no te callas?"

Diário de Bordos - Alvaiázere, Portugal, 26-07-2015

A vida nocturna de Alvaiázere partilha-se entre o Alva Bar e o Buddha Bar (escolhi "partilha-se" devido à sua proximidade com "espartilha-se").

Ambos são medonhos. Mas a fealdade do Alva Bar é rebuscada, trabalhada, querida. A do Buddha Bar é natural. Tudo no Buddha Bar é natural, excepto talvez - não sei - as mamas de uma das empregadas que ou são de silicone ou de um soutien qualquer. E se calhar são naturais, alguém decerto saberá.

A música do Buddha é naturalmente má; a do Alva é só má. Os dois têm televisões, claro. A do Alva é maior tanto relativa como absolutamente.

Felizmente não dependo muito da vida nocturna. Por enquanto prefiro o Alva: privilegio o esforço, mesmo que no mau sentido.

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O jantar correu bem. Não ficou tão bom quanto poderia ter ficado mas mesmo assim foi bom e as pessoas gostaram e sempe ganhei, quando me pagarem, um bocadinho de dinheiro. Não muito: o suficiente para uns Bailey's  "com uma gotinha de whisky, se faz favor".  E para confirmar que gosto de cozinhar para um grupo de pessoas simpáticas, abertas, inteligentes.

São as únicas que percebem as delícias da imperfeição.

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De hoje a uma semana estarei na Escócia. É curioso, não é?

24.7.15

Amanhãs, esquerdas

A esquerda acredita em amanhãs que cantam - se possível com o dinheiro dos outros, mas isso é outra história - tal como a igreja católica e os muçulmanos acreditam no paraíso - estes cheios de virgens, se conseguirem matar quem o não é, de preferência em grandes quantidades -.

É agradável assistir a esta dilemática: por um lado é preciso manter o que está (o PCP por exemplo defende hoje uma Constituição contra a qual lutou afincadamente há alguns anos). Por outro é preciso "mudar" (entre aspas, claro: é simplesmente mais do mesmo, não é mudança nenhuma). O homem novo está à porta, basta abri-la.

Infelizmente, abre-se-lhe a porta e quem entra, mais tarde ou mais cedo, é o homem velho. De fraque.

Dizer, não dizer

Se um gajo disser o que pensa é odioso. Se não disser, parece odioso.

Talvez seja melhor dizer: mais vale o proveito do que a aparência.

Diário de Bordos - Alvaiázere, Portugal, 24-07-2015

Não era só o pneu da frente que estava furado. Eram os dois. Preciso de câmaras-de-ar sofisticadas e de mais pressão nos pneus. Podia ser pior.

Preciso igualmente de Marc Ribot, vinho verde branco, vinho tinto da tasca ao lado, cebola e pimentos da horta, Ricard no Zé da Praça e mais uma série de coisas que não posso dizer aqui e mesmo que pudesse não diria.

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Gosto de ir ao Alvabar beber um Bailey's (ou dois) para terminar o dia. É como regressar à terra depois de uma viagem no espaço.

Só espero que a miúda de ontem não esteja lá: o real é duro, não precisa de o ser demasiado.

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É bom saber que a independência e a liberdade não desaguam todas no mesmo sítio, se bem tenham nascentes comuns: é para isso que elas servem.

Pergunto-me porquê

Não deixa de ser interessante pensar que nesta história da Grécia só se ouve falar da metade esquerda da coligação. A metade direita não existe.

23.7.15

Diário de Bordos - Alvaiázere, Portugal, 23-07-2015 / II

Lembrei-me, com uma certa injustiça, desta canção. Fui jantar ao quiosque do jardim, a única coisa para comer uma bifana que encontrei aberta.

Ao meu lado estava um senhor que - fez questão de mo fazer saber - é de Cascais; e está em Alvaiázere "há vinte anos". Cometi o erro de lhe dizer que trabalho onde trabalho e sentiu-se na obrigação de discorrer. Ele falava e eu pensava no Brassens e na injustiça: a questão não era bem onde ele tinha nascido.

O homem tem a sorte de ser um imbecil puro, não precisa sequer de ter nascido quelque part.



Felizmente há o Rachmaninov.

Jornal de Bordos - Alvaiázere, Portugal, 23-07-2015

Não é bem que a rapariga seja feia. Não é, quando se consegue descortinar por detrás do que está à vista. É só que exala mau-gosto da ponta do penteado à ponta das unhas dos pés. Um mau-gosto profundo, camadas sedimentadas de mau-gosto, gerações de mau-gosto. Não há um milímetro quadrado naquele corpo que não esteja coberto de mau-gosto (é tanto que inclui a pele, coitada).

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Não sei bem como medir a importância de uma povoação - se pelo número de habitantes se pelo de rotundas -. Aquele está em franca diminuição; este aumenta. Escolhamos o optimismo: moro numa vila de trinta rotundas. Trinta? Que sorte. A minha só tem vinte e quatro. E assim por diante.

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Hoje aventurei-me de novo pelos caminhos de terra. É a segunda vez. Ganhei um pneu furado, claro e uma hora de prazer intenso. Pensei nas minhas aventuras todo-o-terreno do Burundi e do então Zaire, mais conhecido por desaire.

Todo-o-terreno é uma maneira de dizer: havia sempre um purista para explicar que aquilo era todo-o-caminho (tout le chemin no original. Por uma razão que desconheço os puristas têm uma forte propensão para a nacionalidade francesa). Era preciso distinguir o tout-le-chemin do tout-le-terrain).

(Eu distinguia-os, mas não por palavras: quando tinha de ir mesmo para fora das estradas levava o Nissan; quando era para ficar pelos caminhos ia com o Toyota, muito mais confortável e menos macho).

Era nisso que pensava hoje enquanto pedalava deliciado por estes caminhos ladeados de oliveiras, cheios de sombras e dos quais não se tem vonatde de sair, a menos que uma razão muito forte nos a isso obrigue. (A razão era a chegada iminente de uma família francesa, por sinal bastante simpática).

Pouco me surpreende - isto é o resto das minhas reflexões - a falta de vontade ou necessidade de conduzir. Vivo bem sem carta de condução. Depois dos chemins e dos terrains africanos quem tem vontade de se chatear por estas estradas alcatroadas, sinalizadas, mantidas à perfeição, doentias de tão aborrecidas?

Felizmente o pneu aguentou até casa.

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Parto em breve para a Escócia para um breve transporte de quatro dias, de Inverness para um porto qualquer no sueste do Reino Unido. Eu sei que não se pode ter tudo, etc. Mas dias como o de hoje fazem-me duvidar tanto dessa verdade tão verdadeira (e tantas vezes confirmada)...

Religiões e políticas

É fácil atestar a natureza profundamente religiosa da esquerda: a sua crença de que o que devia ser é sempre e necessariamente melhor do que o que é, a indiferença aos milhões de mortos que os diferentes socialismos causaram - a mesma que a da igreja católica face por exemplo à Inquisição - a necessidade de santos e demónios - Obama versus Tatcher, Fidel Castro versus todos os outros - a ideia de que as massas alienadas precisam de quem lhes abra os olhos e as façam ver a luz. A esquerda é uma fé, uma superstição não muito diferente na sua essência do cristianismo, do islão ou das crenças de qualquer tribo da Amazónia ou da Polinésia.

22.7.15

Diário de Bordos - Alvaiázere, Portugal, 22-07-2015

Às quartas-feiras há mercado e feira, ao lado. As sardinhas estavam bonitas, frescas e viçosas. Os chocos também, cheios de tinta. Não comprei nada, não me apetecia ter de voltar a casa e preparar aquilo tudo. Fui almoçar ao Zé da Praça, onde tinha o resto da garrafa de vinho de ontem.

Quero comer peixe, mas o prato do dia é cozido.

Vou precisar de fazer alguns duzentos quilómetros de bicicleta para apagar estes excessos todos.

Comprei tremoços em barrela de cinzas. Nunca tinha ouvido falar disto. A senhora explicou-me como se faz: só se pode usar um tipo de cinzas, de oliveira. As outras deixam os tremoços "negros, negros". Põem-se as cinzas numa meia de mulher e deixam-se cozer com os tremoços quinze minutos. Ficam "corados" (cor-de-laranja intenso) e saborosos. Aprendi o nome de uma profissão: tremoceiro. Ou tremoceira, neste caso: é a avó da senhora jovem que mos vendeu quem os prepara.

O Zé da Praça está cheio. Só locais. Se estivesse em África seria o único branco no restaurante.

Não admira, o cozido está excelente. É difícil falhar um cozido: se o que entrar for bom o que sai é óptimo; caso contrário é péssimo. Gosto da cozinha portuguesa por causa disso: é pouco sensível a habilidades. Se bem as haja, claro; e as aceite.

Um bom cozido prenuncia invariavelmente uma boa sesta.

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Há muitos anos havia no Bairro Alto um restaurante chamado Baralto, cuja especialidade eram lulas recheadas. Nele trabalhava uma jovem chamada Paula (suponho: tratávamo-la por Paulinha) que chegara havia pouco do campo. Tinha as faces rosadas e o sorriso genuíno mas contido. Era muito bonita. A senhora que hoje me serve trouxe-me a Paulinha à memória. Algumas coisas nunca mudam. É tão bom, não é?

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Se palitar os dentes não fosse tão agradável não seria, naturalmente, "proibido". Aqui não é só uma questão de ser bom. É que faz parte. Se não palitasse os dentes metade da sala olhar-me-ia com desprezo (isto naturalmente se metade da sala se preocupasse comigo) e pensaria que sou pedante ou venho de famílias ricas e necessito de assertar as minhas origens sociais e exibir a educação (que não tenho mas poderia ter) e ficaria tão isolado como se fosse o único branco num restaurante africano (preto foi banido do léxico aceitável).

Quem me traz os palitos é o senhor Zé ele mesmo. Vêm embrulhados num invólucro individual. Faço uma observação qualquer e o senhor Zé responde. Começámos nos palitos, passámos pelo trabalho infantil ("comecei a trabalhar aos onze anos e não fiquei enfezado"), passámos pela dívida pública "estas modernices modernas (sic): uma criança nasce e já deve trinta mil euros").

Não sei se são trinta mil euros, senhor Zé. Mas espero que isto mude e deixemos de criar uma geração de alérgicos e indefesos. Se não, qualquer dia estamos a importar anticorpos do Benim.

Hoummus

O hoummus de hoje vai ser feito assim:

1 lata das grandes de grão-de-bico (uma grande lata, é o que é);
Uma colher de sopa de tahine, ou mesmo talvez duas;
Muita paprika e ainda mais cominhos secos moídos, ou ao contrário;
Pimenta preta ma non troppo;
Um alho e meio se for dos pequenos (mas não um grande alho);
Há quem ponha um bocadinho de sumo de limão;
Azeite (mas não demasiado: não queremos que o coiso fique com os azeites).

Pôr o grão, o (ou a, não sei) tahine, o alho, a pimenta, paprika e os cominhos num mixer e ir juntando azeite. Quando estiver tudo bem misturado e com a consistência de um puré espesso juntar o sumo de limão. Quando é só para mim acrescento um bocadinho de picante. 

Pôr no frigorífico uma hora ou duas.

(Às vezes uso óleo de sésamo também, mas com cuidado porque se se puser demasiado fica a saber a manteiga de amendoim).

Bom dia

Dormir em cima de um bom dia: não há melhor colchão nem melhor companhia.

Incompreensões, impostos

Por vezes imagino-me a explicar a um funcionário do fisco que na verdade eu pago impostos. São é noutra moeda, feita de insegurança, felicidade, não saber de que amanhã será feito, prazer e dor, altos e baixos, adrenalina, espanto, frugalidade e excessos, zagues e zigues.

Depois acordo, claro.

(E percebo que falar com um funcionário dos impostos é como falar com um membro de um clube, seita, corrente de opinião. Sejam eles quais forem).

Cohen et la dépendence

Il en va de Cohen comme de certains vins: plus on en boît plus on les aime, plus on en veut, plus on en a besoin.

Antídoto, enviesamento

Leonard Cohen e Noval LBV 2008 em doses iguais. Quando um acabar acaba o outro e o enviesamento.

21.7.15

Viés

"Sometimes I need you naked", canta Cohen enquanto eu mantenho uma conversa "enviesada", no dizer do meu interlocutor. Tem razão, claro: qual a não é, se o tema não é o desejo de te ver nua?

Diário de Bordos - Alvaiázere, Portugal, 21-07-2015

S. ofereceu-me um bloco-notas. É muito bonito, é mais do que muito bonito. Inauguro-o no café-restaurante do Zé da Praça enquanto oiço o Telejornal e penso que das duas uma: ou o advogado de Sócrates é bom e as coisas estão pretas para aquelas bandas; ou as coisas estão pretas porque o advogado é mau.

Depois lembro-me de José Miguel Júdice: "Portugal é um país de merdosos". E tontos, acrescento. Hoje comprei queijos "em óleo". "Prefiro em azeite", digo à senhora que mos vende. "Não se pode. Não é permitido. O azeite pode rançar".

Não sei se é verdade. A ser há pessoas - pagas com os nossos impostos (posso dizer isto. Pago IVA) - que nos protegem do azeite rançoso. Quero ser protegido dessas pessoas. Basta proíbi-las de trabalhar. Mandá-las para casa com o salário inteiro. Seriam menos nefastas de que à solta e - presumo - convencidas de que estão a trabalhar para o bem público.

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O Alvabar é feio, mas é o único bar em Alvaiázere e por isso deixa de ser feio. Não se pode aplicar o mesmo raciocínio às miúdas: nunca são as únicas e se fossem não deixariam de ser o que são: gordas, magras, bonitas ou feias, inteligentes ou burras, sarcásticas ou coitadas.

O equivalente do Alvabar em Mértola é muito mais bonito. Mas - isto é um facto, não uma opinião - Mértola é mais bonita do que Alvaiázere.

Facto sim, mas injusto, como a maioria deles: é pouco provável que haja muitas vilas mais bonitas do que Mértola. Por causa do rio e da arquitectura, suponho. Aqui não há rio, há serra. Não é a mesma coisa. E não há arquitectura.

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[Informação relevante: o dono do Alvabar também se chama Luís.]

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Novidades.

Dormir tapado, fazer amor no bosque.

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"Está uma noite fixe", diz Luís, o dono. "Sim, está. Que sorte vivermos num planeta que tem um satélite, não é?" respondo. Mas para dentro, não para ele. De qualquer forma está muito longe e não se dirige a mim quando fala.

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Como responder a pergunta alguma enquanto não responder à única que conta: nómada ou sedentário?

[Pode ser-se as duas coisas ao mesmo tempo, por favor?]

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Não devia dizer-te isto em público, eu sei (nem sequer em privado. Já mo proíbiste várias vezes). Tenho vontade de ti. Quero ir para a cama contigo e dela sair contigo também.

Chato, não é? (Ter vontade de alguém não: é bom, são, sinal de saúde como a fome ou a sede. Chato é não poder dizê-lo).

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Ser feliz é um atalho para a morte. Um atalho feliz, faut-il le dire?

Para seu governo

Não percebo esta polémica com a senhora grega que tirou o carcanhol do banco enquanto podia. Primeiro, porque é assumir que por se ser de esquerda se é santo, ou tolo. Nem uma coisa nem outra. Segundo, porque aposto que quem a critica faria a mesma coisa se a) tivesse duzentos mil euros de lado e b) a mãe ministra.

Estar no Governo e não saber governar-se (a si e aos seus) suscita dúvidas.

20.7.15

"A religião é o ópio do povo"?

Cada vez que o Chico abre a boca a esquerda esquece Marx. Não é de espantar: entre a esquerda e a religião a única diferença é nenhuma.

(Apesar de achar a comparação infeliz. Nunca fumei ópio, mas estou certo de que é muito melhor do que uma missa, ou rezar de cu para o ar cinco vezes por dia).

Lisboa, incêndios

Os incêndios começam no Jardim da Estrela e nunca se apagam. Ou começam seja onde for e apagam-se no Jardim da Estrela. Talvez. Lisboa é isto: um longo incêndio, sem fim nem princípio.

Mais ou menos, para sempre

E depois vem assim a noite (quero dizer, depois de um soberbo jantar) e vem Miles Davis e vem um novo bloco-notas lindo que me foi oferecido ontem e vem esta vontade de desejar que tudo se eternize. Tudo isto quero dizer o verão e a bicicleta e esta vista e esta casa e a música e a noite e o restaurante do senhor Brás.

Tudo isto assim mais ou menos devia prolongar-se sem mais nem menos, sem noite nem dia, sem fim nem princípio, sem nada mais nem menos: só isto, mais ou menos.

Tudo devia ser assim mais ou menos, para sempre. Mesmo sabendo que sempre não existe e mais ou menos sim.

Viva Portugal

Portugal é muito mais do que a merda dos gajos que o governam.

(Há duzentos anos, ou coisa que o valha).

Pára, vida

Tu não me ouves. Tu não me ligas nenhuma. Eu falo-te e é como se tivesse calado, eu grito e parece que sou mudo. "Pára, porra! Pára enquanto é tempo. Isto vai acabar mal. A felicidade é uma longa descida em bicicleta com um embondeiro no fim. Ou uma sequóia. (Um túmulo. Mas isso há no fim de todas as descidas, subidas e trajectos planos. On s'en fout). Pára, vida. Isto vai-nos custar caro, porra!"


Para a AMS, por culpa de quem escrevi isto. (Com um pedido de desculpa, claro).

18.7.15

Tele-turis-fotos (Lisboa, San Andrés e Bocas del Toro)




A noble mission:


Tele-turis-fotos (+ a falta que faz uma boa tele).



"Opiniões"

Por que raio de carga de água se dá importância e destaque às "opiniões" políticas dos artistas (opiniões entre aspas, claro. A maioria não passa de baboseiras irracionais, idiotices sem fundo)? Eles que falem sobre a sua área: seria provavelmente mais interessante.

Diário de Bordos - Alvaiázere, Portugal, 17-07-2015

Os ("meus") primeiros hóspedes jantam no jardim, encantados e felizes. Gente jovem e boa. Agradecem-me o acolhimento; quase janto de novo com eles a carne assada no churrasco - deliciosa, é preciso dizê-lo -.

Coitados, não sabem quão grato lhes estou: partilhar aquilo de que se gosta é uma inesgotável fonte de prazer. E esta casa é linda, enfeitiçante.

Metida no silêncio como uma mão numa luva.

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O passeio de bicicleta de hoje foi curto: meia dúzia de quilómetros se tanto. Abriu-me o apetite para o próximo: subir ao topo da serra. Começo a ficar seriamente com pena do meu açúcar no sangue: qualquer dia desaparece de todo, coitado. Trucidado por uma bicicleta e uma paisagem linda terá, pelo menos, tido uma morte bonita, digna e honrosa. Feliz, em suma.

........
Nunca conseguirei aceitar a estupidez. Nada a fazer, se não talvez aprender a conviver com ela. É tarde? Sim. Mas não demasiado: mais tarde ou mais cedo terei de aprender a conviver com a realidade.

17.7.15

Vida quotidiana em Portugal no século XXI

Uma determinada instituição do Porto recebe vinte mil euros da Câmara Municipal da cidade para abrir um restaurante. O qual foi aberto e está a funcionar quotidianamente, sem um certificado qualquer que a Câmara (a mesma que deu os vinte mil euros) demora a fornecer.

Uma associação cultural (por acaso de Lisboa, mas isto é irrelevante) vai começar a desenvolver alguma actividades culturais para turistas no Porto e escolheu o restaurante da acima mencionada instituição para servir as refeições.

Como os jantares (e leituras) são para turistas a associação de Lisboa pediu ao Turismo do Porto ajuda a promover o projecto. O Turismo do Porto achou a ideia muito boa e disse que sim, claro, como não? Basta a instituição apresentar o certificado de qualquer coisa e nós promovemos os vossos jantares literários.

- Mas a instituição ainda não tem esse certificado, apesar de já estar a operar, todos os dias, porque a CMP demora a fornecê-lo. Note que a Câmara subvencionou a instituição com vinte mil euros para abrir o restaurante.
- Pois. Mas sem o certificado nada feito.

Gasta esta cáfila milhões a "apoiar" empresas, quando o bom-senso é de borla.

Belezas simples, simplicidades belas

Insónia

Penso em tudo o que li (e escrevi) sobre a insónia e apercebo-me de que falta a chave: que sorte!

Europa, esquerda e democracia

A prova de que alguma coisa correu mal com a "Europa" é o que a esquerda se aflige com o seu "desaparecimento".

Já o mesmo não se aplica à democracia: a esse respeito os canhotos estão simplesmente errados.

Tempo, vida

No fundo o objectivo é escrever como me estendo nestes lençóis: esparramar-me num monitor branco, num teclado cansado de tantos dedos, numa noite cheia de música e desejo e livros e vinho e memórias e falha de horas.

Falha de horas. É curioso, não é? Quanto mais vivemos menos as horas contam, menos contamos o tempo.

Como se a vida não dependesse do tempo.

Memória, vida

Não ter memória seria uma bênção, se descobríssemos o mundo cada dia. Mas sem memória não há mundo que nos valha. Nem vida.

O quê?

Um gajo chega aos cinquenta e quase oito anos e apercebe-se de que os livros lhe faltam tanto como os corpos e pensa o quê?

Bamako et al.

O local não é adequado. Eu sei: não há locais adequados. A vida passa-se sempre ao lado, Na porta ao lado, na cidade ao lado, no país vizinho, no continente do outro lado da poça.

Um dia apanhei um avião para Milão. Foi há muitos anos. Tinha acabado de sair de uma discoteca em Cascais. Em contrapartida nunca fui a Bamako. E quero ir, Deus sabe se quero. Tivesse Bamako mar e já lá teria estado pelo menos vinte vezes. Ou mais.

N'importe quoi. Quantos sítios há no mundo que têm mar e aos quais quero ir e onde nunca pus os pés? Milhares. Tantos como os corpos idem: quero ir, têm mar e nunca fui (nem com os pés).

Não há lugares. Há vidas, pedaços de vida, bocadinhos pequenos, tranches, se quisermos ser irónicos. Eu quero. Um lugar é uma vida e as fatias de vida bem se podem ir foder. Quero ir a Bamako ver a estação de caminhos de ferro onde Salif Keita e Mori Kanté começaram. Quero ir a Bamako - não o digam a ninguém, por favor - porque não tem mar e tem música.

Não se pense que estou a habituar-me à ausência de mar: não existe tal coisa. O mar ausente é mar; ausente, mas mar. É como o amor, um corpo, um olhar: não estão, mas são.

16.7.15

Lençóis, felicidades

Sinto-me debaixo desta felicidade como daqueles lençóis de que não encontramos o fim. Quase opressores, inquietantes, chatos.

PS - Isto é injusto. Uma felicidade frugal como a minha e que sobrevive a quatro dias de campo merece respeito, admiração e muita, muita gratidão.

Diário de Bordos - Alvaiázere, Portugal, 16-07-2015

Trinta e cinco quilómetros em duas horas e meia. A distância é mais ou menos um quilómetro ou dois; o tempo mais ou menos um minuto ou dois. A velocidade média subiu, claro. O cansaço também: foram duas horas e meia a pedalar, porque desta vez fui para Sul, o lado plano de Alvaiázere e não tive dez minutos seguidos a descer, leve e hílare. Gosto mais de percursos acidentados, desnivelados, alternados. Ninguém diria.

Ou seja. Estou a duas horas e meia de bicicleta de Tomar: vinte e sete quilómetros e meio, diz-me o Google Maps, que sabe do que fala. E eu ao fim de duas horas preciso de parar, também sei do que falo.

Não tarda conheço Tomar.

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Manuel P disse-me um dia: "Para ti bife com batatas fritas é um prato exótico". É, Manuel. E Portugal um país exótico. Gostaria muito que deixasse de o ser, nota, se bem não seja fácil. Hoje durante o passeio - e ontem, igualmente - estava surpreendido com a qualidade das estradas (não saio do alcatrão, apesar de andar numa BTT tipo Rolls Royce. Por vários motivos, todos eles irrelevantes). O espanto cessou ao chegar a uma aldeia: vi três sinais seguidos. O primeiro era uma placa com o nome do lugar, o segundo assinalava o fim da proibição de exceder cinquenta quilómetros por hora e o terceiro obrigava a parar num cruzamento (dizia STOP, assim mesmo, tudo em maiúsculas). Os três num espaço de sessenta metros.

Se fosse numa ilha das Caraíbas eu não ligaria nenhuma. Entristece-me pensar que hoje liguei, mas pouco.

Fiquei muito mais comovido com o gesto do senhor Zé da tasca do lado, que me ofereceu uma sopa "feita pela minha mulher ainda agora" e que "não é para ser paga porque fui eu que lha ofereci".

Lembrei-me da festa de Mayreau, quando nos ofereceram charros, ao Paulo C.. e a mim, autênticas chaminés de comboio, porque já íamos no terceiro.

Quero realmente que Portugal deixe de ser um país exótico? Não tenho a certeza.

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Exoticismos - música pimba de países civilizados:



Maddy, não trocava metade de ti por três Salmas.

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Se numa Noite de Inverno um Viajante é um fractal literário. Pelo menos tem-lhe a beleza, a leveza e a complexidade.

Incompreensões, tintas

(Não sei se compreender é o verbo apropriado).

Compreendo muitas coisas. Por exemplo, que não se goste de sardinhas assadas, ou do cheiro de couve a cozer. Compreendo que não se goste de andar de bicicleta ou de barco à vela; a cobardia, se bem não a aceite; e o erro, sempre aceitável - o contrário seria como não aceitar o sol, não é? - a teimosia (quem não teima é porque não pensa antes de escolher). Compreendo uma data de coisas, mas infelizmente as que não compreendo são muitas mais.

Que não se goste das Vésperas, de Rachmaninov ou dos Cânticos de Hildegarde von Bingen. (Gostar não é a expressão: que não se seja subjugado). Ou não se acredite nas pessoas, na sua infinita capacidade de saber o que é bom ou mau para elas sem diktats das classes palradoras; no seu direito a enganar-se - a democracia é isso, acima de tudo o mais: o direito de se enganar -; no seu direito a decidir da sua vida. Que não se respeite essa decisão, mesmo se ela for errónea, como foi o Não da Grécia.

Não compreendo uma data enorme de coisas. E cada vez me estou mais nas tintas para elas e aprecio melhor as que compreendo.

"Às vezes m'espanto"

Não deixa de ser curioso: um primeiro-ministro mente descaradamente, desrespeita os resultados de um referendo que ele próprio convocou e avalizou as suas propostas, faz votar um regime no qual ele próprio não acredita - e os fascistas são os alemães.