7.2.16

Diário de Bordos - Palma de Mallorca, Baleares, Espanha, 07-02-2016 / II

A Jaime III estava cheia de gente. É por lá que passam os desfiles de Carnaval. As Escolas (ignoro se aqui têm esse nome também) não são apenas de senhoras - há-as com e de homens, mulheres e crianças de ambos os sexos em todas as combinações possíveis - e estão vestidas. E a música não é samba. Andei por ali um bocadinho mas tive de me vir embora: demasiada gente, demasiado barulho e ainda por cima com a burra pela mão.

Pedalei muito e acabei perto de onde começara: no Gibson, onde há dias me encontrei com B. e onde a wifi funciona, o aquecimento também e as miúdas são giras.

Só estive uma vez exposto directamente ao Samba carnavalesco. Foi no Rio de Janeiro em 1976. Tinha saído sozinho e fui a uma escola da qual me tinham falado. Nessa altura ser português no Brasil dava um handicap positivo e a senhora que estava ao meu lado no bar meteu conversa comigo quando me ouviu pedir qualquer coisa para beber.

Falei com ela um bocado e fui dar uma volta. O Carnaval não estava longe e havia uma certa azáfama. Só quando regressei ao bar e à companhia da senhora me apercebi que ela estava a dançar da cintura para baixo. Da cintura para cima mal se mexia, mas os pés e as pernas pareciam pertencer a outro corpo.

Fora esse dia o Carnaval não me entusiasma. Aos desfiles de hoje reconheço um lado bon enfant, mas agora é tarde para me seduzir.

........
A constipação passeou pela cidade e agradeceu-me piorando. Vivi vinte anos na Suíça e nem assim aprendi a conviver com o frio.

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Os maiorquinos conseguem a rara conjugação de simpatia e gentileza com altivez, nobreza e dignidade.

A minha ideia de que poderia viver aqui ficou um bocadinho abalada com este frio; mas pouco. Questão de roupa, como dizia o outro.

E de aspirinas, digo eu agora que não tenho nenhuma à mão.

........
Chá forte, quente, sem açúcar, com rum e limão. É a coisa mais perto da aspirina que conheço.

........
Consegui finalmente levar M. - E levar-me - à Casa Júlio,  "mini restaurante". Uma grande casa e o resto é conversa.

Diário de Bordos - Palma de Mallorca, Baleares, Espanha, 07-02-2016

O remédio funcionou: troquei meia gripe por uma constipação completa. Fiquei a ganhar.

........
O La Belle Café em Palma, onde agora tomo o pequeno-almoço também organiza sessões de poesia, uma vez por mês. Calha no próximo sábado, mas é pouco provável - e ainda menos desejável - que aqui esteja.

Quem há aqui alguns anos teria predito esta renascença de poesia? Eu não, quando comprei isto numa edição da Dom Quixote em 1974.

Whoroscope
By Samual Beckett

Extract:

What's that?
An egg?
By the brother Boot it stinks fresh.
Give it to Gillot

Galileo how are you
and his consecutive thirds!
The vile old Copernican lead-swinging son of a sutler!
We're moving he said we're off - Porca Madonna!
the way a boatswain would be, or a sack-of-potatoes charging Pretender
That's not moving, that's moving.

What's that?
A little green fry or a mushroomy one?
Two lashed ovaries with prosciutto?
How long did she womb it, the feathery one?
Three days and four nights?
Give it to Gillot

Faulhaber, Beeckmann and Peter the Red,
come now in the cloudy avalanche or Gassendi's sun-red crystally cloud
and I'll pebble you all your hen-and-a-half ones
or I'll pebble a lens under the quilt in the midst of day
To think he was my own brother, Peter the Bruiser,
and not a syllogism out of him
no more than if Pa were still in it.

Hey! Pass over those coppers
sweet milled sweat of my burning liver!
Them were the days I sat in the hot-cupboard throwing Jesus out of the skylight.

Who's that? Hals?
Let him wait.

My squinty doaty!
I hid and you sook.
And Francine my precious fruit of a house-and-parlour foetus!
What an exfoliation!
Her little grey flayed epidermis and scarlet tonsils!
My one child
Scourged by a fever to stagnant murky blood-
Blood!
Oh Harvey beloved
How shall the red and white, the many in the few,
(dear bloodswirling Harvey)
eddy through that cracked beater?
And the fourth Henry came to the crypt to the arrow.

What's that?
How long?
Sit on it.

A wind of evil flung my despair of ease
against the sharp spires of the one
lady:
not once or twice but?
(Kip of Christ hatch it!)
in one sun's drowing
(Jesuitasters please copy).
So on with the silk hose over the knitted, and the morbid leather-
What am I saying! the gentle canvas-
and away to Ancona on the bright Adriatic,
and farewell for a space to the yellow key of Rosicrucians.

They don't know what the master of the that do did,
that the nose is touched by the kiss of all foul and sweet air,
and the drums, and the throne of the faecal inlet,
and the eyes by its zig-zags
So we drink Him and eat Him
and the watery Beaune and the stale cubes of Hovis
because He can jig
as near or as far from His Jigging Self
and a sad or lively as the chalice or the tray asks
How's that, Antonio?

In the name of Bacon will you chicken me up that egg.
Shall I swallow cave-phantoms?
Anna Maria!
She reads Moses and says her love is crucified.
Leider! Leider! She blomed and withered,
a pale abusive parakeet in a maistreet window.
No I believe every word of it I assure you
Fallor, ergo sum!
The coy old fr?r!
He tolle'd and legge'd
and he buttoned on his redemptorist waistcoat.
No matter, let it pass.
I'm a bold boy I know
so I'm not my son
(ever if I were a concierge)nor Joachim my father's
but the chip of a perfect block that's neither old nor new,
the lonely petal of a great high bright rose.

Are you ripe at last,
my slim pale double-breasted turd?
How rich she smells,
this abortion of a fledgling!
I will eat it with a fish fork.
White and yolk and feathers.
Then I will rise and move moving
toward Rahab of the snows,
the murdering matinal pope-confessed amazon,
Christina the ripper.
Oh Weulles spare the blood of a Frank
Who has climbed the bitter steps,
(Ren頤u Perrron?!)
and grant me my second
starless inscrutable hour. 


Notes
These notes were provided by the author.
1. Rene Descartes, Seigneur du Perron, liked his omelette made of eggs hatched from eight to ten days; shorter or longer under the hen and the result, he says, is disgusting. He kept his won birthday to himself so that no astrologer could cast his nativity. The Shuttle of a ripening egg combs the warp of his days.
2. In 1640 the brothers Boot refused Aristotle in Dublin.
3. Descartes passed on the easier problems in analytical geometry to his valet Gillot.
4. Refer to his contempt for Galileo Jr., (whom he confused with the more musical Galileo Sr.), and to his expedient sophistry concerning the movement of the earth.
5. He solved problems submitted by these mathematicians.
6. The attempt at swindling on the part of his elder brother Pierre de la Bretailli貥--The money he received as a soldier.
7. Franz Hals.
8. As a child he played with a little cross-eyed girl.
9. His daughter died of scarlet fever at the age of six.
10. Honoured Harvey for his discovery of the circulation of the blood, but would not admit that he had explained the motion of the heart.
11. The heart of Henri iv was received at the Jesuit college of La Fl裨e while Descartes was still a student there.
12. His visions and pilgrimage to Loretto.
13. His Eucharistic sophistry, in reply to the Jansenist Antoine Arnauld, who challenged him to reconcile his doctrine of matter with his doctrine of transubstantiation.
14. Schurmann, the Dutch blue stocking, a pious pupil of Vo봬 the adversary of Descartes.
15. Saint Augustine has a revelation in the shrubbery and reads Saint Paul.
16. He proves God by exhaustion.
17. Christina, queen of Sweden. At Stockholm, in November, she required Descartes, who had remained in bed till midday all his life, to be with her at five o'clock in the morning.
18. Weulles, a Peripatetic Dutch physician at the Swedish court, and an enemy of Descartes
........
Vou passear a minha constipação pela cidade.

6.2.16

Diário de Bordos - Palma de Mallorca, Baleares, Espanha, 06-02-2016 / II

Não percebo de onde vem esta porra desta barra sobre os cookies. Parece que é a mão protectora da comunidade europeia. Se fossem bater punhetas a grilos desperdiçariam menos tempo com inutilidades.

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A única maneira eficaz que conheço para me ver livre desta porcaria é transpirar selvaticamente e depois tomar um duche. Faltavam-me cobertores - só tinha o edredon da cama, debaixo do qual tinha tanto frio como se estivesse em cima dele -. Agora fui buscar duas mantas a uma cama vazia e parece-me que estou a caminho da cura. Dois dias de cama! Que desperdício.

Amanhã é o último dia inteiro de M. em Palma e ficaria desgostoso se ela tivesse de o passar com um deficiente. Isto é, ainda mais deficiente do que sou.

........
A tripulação deve estar a ver ou a preparar-se para ver o rugby. Teria gostado de assistir a um jogo com um especialista, apesar de ainda me lembrar do Super Bowl que vi em Antígua com o C. Retive uma regra ou duas, das dezenas que ele explicou; mas foi divertido.

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Claro que a cura vem do aumento de temperatura corporal, não da transpiração. Esta merda deste vírus não aguenta um bocadinho de calor.

E ainda há quem não goste dos trópicos.

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Comprei um blusão nos saldos. Imagino como estaria se não o tivesse comprado. Há muito tempo que não gasto setenta e dois euros tão bem gastos.

É leve e não vai ocupar muito espaço no saco. A ver quanto tempo dura.

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Lá fora Palma vive e respira e eu aqui a tentar transpirar tudo o que posso. Pode ser que funcione e que não venham hóspedes para aquele quarto. Pelo menos calor já tenho, finalmente.

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Trato de um barco e M. trata de mim. Não lhe invejo a sorte. Ao menos o S. B. não reclama nem se queixa ou explode.

Espera pacientemente que o electrónico lá vá para levar o plotter e que eu traga a adriça da grande e impermeabilize a vigia. Não tem febre nem acessos de mau humor.

........
Já estive doente em Palma mas não quero sequer pensar nisso. Da outra vez fui parar ao hospital com uma intoxicação alimentar e uma crise de Meunière completamente desatinada. Foi um horror.

Desta não é comparável, graças a Deus.

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Esta hipersensibilidade febril ajuda-me pelo menos a ver a quantidade de coisas que todos os dias me toca na pele. "Tens uma pele de elefante", dizia-me S., a pessoa que melhor me conhece neste mundo e arredores.

Referia-se a outra pele, claro; mas não me importo nada de a ter nesta também.

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Comprei um livro do Browne em espanhol. Vou confrontar de novo outro dos meus preconceitos: do barroco só aproveita a música.

A tradução pareceu-me boa. Pode ser que um dia consiga fazer a mesma compra em português.

(E que esse maldito acordo vá para o inferno).

Diário de Bordos - Palma de Mallorca, Baleares, Espanha, 06-02-2016

Palma, doce Palma. Desta vez nem tanto: estou doente por causa do raio do frio que faz. Detesto estar doente: um corpo que nos trai não merece consideração. Passo muito tempo na cama mas apesar disso saímos, redescubro Palma e trabalho (a velocidade reduzida, mas trabalho).

Verdade seja dita, pouco tenho de fazer. O armador quer que o plotter seja reparado aqui - no que está podre de razão, de agora para a frente ou os preços aumentam ou a qualidade cai ou, mais frequentemente os dois juntos - e do que havia para fazer só faltam a adriça da grande e o Sikaflex na vigia da casa de banho de estibordo.

Estou um bocadinho ambivalente a respeito deste prolongamento. Até agora tem sido soberba, esta redescoberta simultânea de Palma e do amor; mas tenho vontade de ir para o mar, vontade de me ver fora do Mediterrâneo, vontade de chegar a St. Martin e de passar o Canal outra vez e de refazer em sentido contrário a costa Oeste da América Central, de parar no México e rever o A., tripulante de viagem infortunada e amizade duradoura.

É tempo de ir.

........
Releio o post anterior e lembro-me com saudade de quando pensava que dia quinze de Fevereiro estaria a sair das Canárias. Se tiver muita sorte estarei a sair do Mediterrâneo.

De qualquer forma não vou parar nas Canárias. Vou à Madeira e de lá rumo para Sudoeste até apanhar os alísios. Estamos a fazer aqui tudo o que eu pensava seria feito em Las Palmas.

4.2.16

Diário de Bordos - Palma de Mallorca, Baleares, Espanha, 04-02-2016/ Ao largo da Sicília, Mar Mediterrâneo, 24 a 27-01-2016

Palma é uma cidade feita para se percorrer de amor e de bicicleta. Tenho os dois, felizmente; ando (não é o verbo correcto. Deslizo) por estas ruas estranhamente vazias de fantasmas, feliz e leve. Revejo todas as ruas que tão bem conheço, os bares e cafés e restaurantes, a livraria Babel, onde oiço Chet Baker, bebo um Hierbas seco e ofereci a M. uma edição ilustrada e linda do Ítaca de Cavafis (foi ela quem o descobriu). Ontem fomos ao Antiquari, o outro bar que eu quero ter algures em Portugal; e jantámos no Ca na Chinchilla; e andamos de bicicleta pelo Paseo Marítimo.

Palma é uma cidade feita para amar e ser amado, de todas as maneiras. Andar de bicicleta é uma das formas de amar uma cidade e de por ela ser amado.

.........
A navegar no Golfo de Corinto. A noite está gélida mas linda, limpa, clara com esta Lua quase cheia. O vento vai e vem: motor e vela alternam-se. Uma hora um, outra o outro. Quando não há vento a temperatura sobe. A costa é uma longa fila de luzes: quilómetros de cidade ou, mais provavelmente, cidades.

Amanhã estarei no mar alto. Prefiro. Navegar assim tão perto da costa faz-me pensar que saí para um pequeno passeio de domingo ou uma prova de mar. Estou em terra há quase dois meses: uma foma triste de eternidade. É tempo de ver azul.

........
A passagem do Canal de Corinto é um momento quase indescritível: paredes altíssimas, verticais, cheias de árvores que apesar do pouco vento abanam e parecem fazer-nos uma vénia. A água tem uma cor bonita, quase transparente. O canal é muito estreito, um corredor de casa antiga. Com este já passei pelos quatro ou cinco mais importantes: Suez, Panamá, Kiel; mais o Bósforo e Gibraltar, Dover, Malacca e Singapura, do qual ainda me lembro perfeitamente apesar de ter sido há tanto tempo.

........
Entrei de quarto há meia hora. Puto de vento. Um armador norueguês disse-me um dia “Não se deve dizer estou com frio, mas sim estou insuficientemente vestido”. Segui-lhe o preceito: três pares de meias (dos quais dois admitidamente finos), ceroulas e calças, cinco camadas de roupa no torso, dois gorros e luvas. Mesmo assim tenho os pés gelados, as pernas frias e o torso assim assim.

……..
Força 4, bolina folgada. O S. B. inclina-se como aqueles patinadores de velocidade que põem uma mão atrás das costas e quase se deitam para irem mais depressa e desembesta por aí fora - seis, sete nós -. A brisa está irregular mas mesmo assim raramente descemos dos cinco e meio.

É um destes desenhos modernos, casco quinado com o [maître bau] quase na popa.

A temperatura subiu. Hoje tive calor, debaixo das minhas cinco colchas. E agora, de quarto, aguento-me bem sem luvas. Nas Canárias já não nos lembraremos de como foi esta saída.

[Ajuda na tradução seria bem vinda, Mais não fosse terei de voltar a Portugal para reaprender a falar]

........
Pela popa está a Calábria; a bombordo, tão perto que quase posso ler os nomes das ruas a Sicília; à proa as Eólicas, tão ventosas que deram o nome ao Deus do vento (ou dele o tomaram); a estibordo o Stromboli. O cenário não é mau.

Vou seguir a costa siciliana até Palermo e aí decido se terei de ir à Sardenha meter gasóleo ou se vou directamente para Espanha: Almeria ou Cartagena. Gosto das duas por razões diferentes. Talvez escolha Almeria: a última vez que lá estive foi muito de raspão. Desta também será, mas dois raspões fazem um toque, não fazem?

........
O dia está a acabar. O frio voltou. Hoje em Reggio andei pendurado no mastro em tronco nu e pensei "Finalmente um país civilizado". Depois fomos todos almoçar a uma Trattoria à qual Saverio nos levou. Estava óptimo e comemos de mais.Tivemos uma pequena antevisão de como vai ser nas Canárias: calor e boa comida na jamoneria cujo nome esqueci. O dono é um senhor gordíssimo que sabe a história de todos e cada um dos presuntos que vende: de onde vêm, o nome do porco, o que este comeu e assim por diante.

........
Comprei um queijo, pão e alho ao Saverio. Ele ofereceu-nos uma garrafa de grappa e algumas cervejas. Da outra vez que aqui estive não fui muito à bola com o homem. Desta fiquei fã.

Um dia terei de falar dele. É uma figura incontornável para quem faz escala em Reggio di Calabria. Uma personagem que se vê demasiado ao espelho, Mas é simpático, eficaz, vende um queijo parmeggiano divino e faz um vinho idem. Deste não comprei: já tenho duas garrafas a bordo que não posso beber enquanto não estiver pelo menos uma noite em terra.

Está como para os aviadores: nada de álcool oito horas antes da largada.

........
Mas tudo isto tem um preço demasiado alto. Acabam de me convidar para ler uma poesia na festa de aniversário de um dos meus bares favoritos em Lisboa e nesse dia estarei muito provavelmente a largar das Canárias.

Um homem tem duas pernas, mas eu ando só numa.

……..
Um dos tripulantes tem um plano de televisão, net e telefone que lhe dá direito a trinta e cinco dias de net gratuita em cada país europeu onde vá.

Até há pouco estive online. Agora o sinal acabou. Lamento a mágica solidão marítima dos outros tempos e compreendo a sua impossibilidade hoje. Todavia gosto desta ideia de poder escrever e publicar no blog a navegar.

……..
Poder dizer em “tempo real” (abomino esta expressão) a beleza da costa pela qual passo: andar entre Scila e Caribdis sem ponta de vento é obra. O mar parece um lago e o S. B. arrefinfa-lhe bem. É frugal nos consumos, confortável, a milhas da qualidade do S. M mas aceitável.

Há pessoas que preferem barcos baratos a barcos bons e de certa forma têm razão: para a utilização que deles fazem é ter dinheiro parado numa marina.

Pessoalmente prefiro os bons, mas para mim é fácil: não tenho dinheiro para nenhum deles. Não poder por não poder antes gostar do que é bom, como por exemplo um X.

……..
Fiz rumo a Cagliari antes do que previra. Mais uma escala para bancas. Não são propriamente as escalas que me chateiam – são curtas de mais para isso – mas aquilo que as provoca: falta de vento. Não fosse a temperature e julgar-me-ia no Verão, que diabo!

……..
Acabamos de ser abordados pela Guardia Finanza. Muito delicados; pediram-me os papéis da embarcação e fizeram-me acordar o S., que estava a dormir depois do seu quarto. Só para o verem, explica-me o chefe do bando, sempre delicado e professional.

Não encontro o certificado de seguro. Deve ter ficado em Atenas.

- Em águas italianas é preciso o certificado.
- Eu sei. Tenho os seguros em dia – oh se tenho. Foram uma das razões do atraso para sair de Atenas – só que devem estar no computador e aqui não tenho net.
- De qualquer forma estamos em águas internacionais. Não faz mal. Para onde vai?
- Para Gibraltar, mas talvez precise de parar em Cagliari se precisar de combustível.
- Ah, então vai para Cagliari.
- Não. Vou para Gibraltar. Só páro em Cagliari se precisar de combustível.
- E como sabe se vai precisar de combustível?

Expludo mas fica tudo cá dentro. Muitos anos de prática a lidar com atrasados mentais.

- Se houver vento não preciso de gasóleo. Se não houver, preciso – falo devagar, como se falasse a um miúdo de seis anos. O homem sente-se mal. Ao menos isso.
- Ok, boa viagem. Mas olhe que em Cagliari precisa do certificado de seguros.

Mete o certificado no cu, inútil de merda, parasita, sanguessuga desocupada. Puta que te pariu mai-los seguros.

Penso isto tudo ou mais e faço rumo directamente a Cagliari não vá o imbecil reaparecer dqui a meia dúzia de milhas. Ainda não recuperei o dinheiro da multa da Jamaica – não o recuperarei nunca, provavelmente -. Não me apetece alimentar esta cáfila internacional de ladrões.

……..
Acabo de ler Hotel, de Paulo Varela Gomes. A melhor coisa escrita em português que me caiu nas mãos em muitos anos. Duas ou três pequenas falhas de revisão num mar de qualidade, criatividade, personagens bem urdidas, uma história magnificamente contada, ironia subtil, cultura, humor, português bem escrito.

Termino o livro com pena. Felizmente M. tem bastantes no seu computador e vou encontrar alguma coisa de jeito.

……..
Chateia-me parar em Gibraltar mas é pouco provável que consiga evitá-lo. Paciência. Vou comer ao restaurante judeu e comprar livros na livraria. Já não há mais nada que fazer em Gib, transformada num centro commercial para turistas. Os bares sórdidos cheios de soldados desapareceram, a novidade da Coca-Cola e do Crunchie e dos banhos públicos também.

Durante alguns anos ainda gostei de lá voltar, mas desta não me apetece mesmo. Que se lixe. O que não tem remédio remediado está.

……..
M. é giro. Faz tudo por séries: visita cidades antigas (um dia apanhou um avião para Istambul e regressou à sua Gales natal passando por todas as cidades antigas do caminho), lê os prémio Nobel (agora está no Saramago. Leu-os todos, mesmo os que achou difíceis e chatos) e assim por diante. Faz religiosamente tudo o que eu lhe digo para fazer, mas não percebe a razão por que eu lhe digo. S. é mais vivo, excelente pessoa, bem-educado. É o inevitável vegetariano – desta vez para lutar contra o sofrimento dos animais -. Adoro o rapaz mas esta porra dos vegetarianos já começa a enjoar-me. Ando há anos a aperfeiçoar um repertório de receitas para serem feitas numa só panela e com isto tenho de deixar de misturar a carne com os legumes.

Enfim, podia ser pior. São ambos bons tripulantes, fiáveis, com conversa e sentido de humor. A isto tudo S. acrescenta uma excelente colecção de música.

………
Se vestir-se apresenta problemas apaixonantes, despir-se não é deles inteiramente desprovido. A razão sendo que um gajo sai de quarto por exemplo às três da manhã, como agora, não completamente enregelado mas lá perto e tudo o que quer é despir-se e meter-se na cama (dantes beliche. Agora seria mais do que uma injustiça uma inexatidão). Como em tudo o que respeita ao leito há que conter-se. Despir-se a granel e sem atender à devida ordem tem duas consequências, ambas desagradáveis: primeira (por ordem decrescente de importância) as roupas não ficam ordenadas para quando for preciso vestir-se daqui a aproximadamente cinco horas e segunda o frio fica desigualmente distribuído pelo corpo: pés gelados e torso apenas frio, por exemplo. Há que respeitar regras, procedimentos, ter calma e ir tirando a roupa de modo a manter o equilíbrio térmico de todas as zonas do corpo.

Mesmo assim tão agradável é como forçoso reconhecer que um gajo se despe mais depressa do que se veste, coisa que se verifica também noutras ocasiões relativas à cama.

Como se pode ver não há actividade menos monótona do que a pilotagem de uma embarcação de recreio quando não há vento. Os temas em que pensar são inúmeros e o tempo que se lhes pode dedicar permite um aprofundamento que nenhuma outra actividade - com a possível excepção da condução de uma bicicleta numa estrada sem trânsito - permite.


.........
Chegámos finalmente à Marina perto de Cagliari onde vamos fazer bancas. A viagem foi chata: cinquenta e oito horas de motor em menos de três dias. (Quem, eu incluído comentava "ah, o Med no inverno etc. e tal" está servido. Em seis dias de navegação tivemos um de vela. Bolina, mas vela).

Felizmente há coisas importantes com que ocupar o espírito, para além de ver navios (pouquíssimos) ou estar atento a possíveis problemas do motor (nenhuns. Inch'Allah). Eu por exemplo procuro a resposta a uma pergunta que faço cada vez que tenho de vestir as quatorze peças de roupa com que ando vestido quotidianamente (não incluo os gorros e as luvas porque estão na mesa do poço e de qualquer forma agora só os ponho ocasionalmente). A pergunta é: por que devo pôr as meias na mesma ordem em cada pé?

É uma questão séria, na qual os meus abnegados e cultos leitores reconhecerão alentos beckettianos e que nos leva para as vastas estepes da estética, simetria, educação, pressão social, consciência de si e ocupação dos tempos livres.

Um gajo usa três pares de meias porque se não tem frio nos pés. É óbvio que se no pé esquerdo estiver primeiro a branca, depois a azul e por fim a preta e no direito a ordem for a inversa esse objectivo - não ter frio nos pés - é tão atingido (não é, nem nada que se pareça. Mas isso são bolinhas de outro terço) como é quando nos dois pés a ordem das meias é a mesma.

Apesar disso faço um esforço, três ou quatro vezes por dia, para calçar as meias pela mesma ordem.

As razões estéticas podem eliminar-se imediatamente: ando todo o dia de botas; a pressão social idem: a bordo não há grandes preocupações com o que cada um leva vestido e como; e assim por diante.

Claro que nos vem imediatamente à memória a história de Selznick com as cuecas de Vivian Leigh em Tudo o Vento Levou: "mas para quê mandar fazer cuecas de seda como as que se usavam no séc. XIX?" pergunta a actriz. "Ninguém sabe o que eu uso por baixo das saias". "Tu sabes", responde-lhe o grande Selznick, que acabou a vender os direitos do filme quando já não lhe restava nada porque seguiu à risca o preceito do pai: "de viver com o que tem qualquer idiota é capaz. Difícil é viver acima do que se pode".

Vêem o que quero dizer? Começa-se com um problema de ordem das peúgas e acaba-se com David Selznick, Vivian Leigh, as pedras no bolso de uma personagem de Beckett, o frio no mar e - sobretudo - a falta de vontade de dar duzentos euros por um par de botas de couro. Isto é, mesmo que os tivesse, duzentos euros é uma pipa de massa para dar por um par de botas.

Quando o debate entra por estes comezinhos problemas de dinheiro lembro-me do pai de Selznick, respondo que não me chamo David e não sou produtor de filmes (com grande pena minha, acrescento) e penso noutra coisa.

E assim já passou uma boa meia-hora. Ou mais. Não há monotonia no mar. Há sempre coisas em que pensar.

.......
Parei em Reggio para fazer bancas, ou, de uma maneira mais compreensível, meter gasóleo. Em Atenas o litro de diesel custou um euro e quatro cêntimos. Em Reggio um e quarenta e nove. Cento e quinze litros (o S. B. é um bote frugal: dois litros e meio à hora) custam cento e setenta e tal euros. Faço uma observação bem-humorada e nada agressiva ao senhor da bomba e ele responde-me na mesma moeda: "estamos aqui ilegais e..." Perco o resto da explicação e pergunto-me se lhe devo perguntar ou não.

Deixei ficar. Talvez tenha percebido mal e ele me tenha dito "estamos legais e..." Mas prefiro a primeira hipótese: o combustível é caro porque é ilegal atrai-me mais do que a realidade. O combustível é caro porque os políticos são mafiosos que se equivocaram.

Enfim, na Calábria não se chama Máfia. Nhangreta, ou coisa que o valha.

Estive em Almería pela primeira vez há muitos anos. Ainda não havia aquelas estufas que envenenam a paisagem. Lembro-me das terras vermelhas e de um magnífico jantar de tapas com a tripulação. Pouco tempo antes tinha estado em Cartagena, mas não vi nada da cidade. Ficou-me para sempre a imagem de uma tripulação de submarinistas ingleses a perguntarem-me no cais "onde é que estamos?" e a excitação que se seguiu quando respondi "Cartagena". No dia seguinte os jornais falavam de destruição da cidade por hordas de marinheiros bêbados.

Tive uma vez uma namorada que quis morrer em Cartagena. Faltou-lhe coragem, felizmente. Atravessei a cidade toda a correr; uma avenida de peões grande e larga. Quando cheguei a bordo era falso alarme, mais um.

A rapariga vivia da e para a palavra. "Quero matar-me" e morria; "amo-te" e amava-me; "desculpa" e desculpava-se. Não se apercebia da ausência de correspondência entre as palavras, o que delas ela fazia e a realidade. Mas em Cartagena eu ainda não sabia isso e corri afogueado a cidade toda, eu que não sou capaz de correr mais de cinco metros seguidos.

23.1.16

Diário de Bordos - Kalamakis, Atenas, Grécia, 23-01-2016 / II

Volto ao restaurante onde ontem acabei a noite. O bouzouki toca ainda melhor, o viola idem e a cantora mudou ligeiramente a cor do cabelo.

Vim com a tripulação,  Mas está cada um agarrado ao seu telefone. De qualquer forma é difícil ouvirmo-nos e vamos ter três meses e meio para falarmos.

Esta é uma das inegáveis vantagens da modernidade: estou aqui e na Praia das Maçãs, oiço música grega e leio um blog português, troco uma frase com um dos tripulantes e comento um post no Facebook.

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Aprecio a liberdade de fumar, na Grécia. Fuma-se em qualquer sítio. Mas às vezes é um pouco exagerado. Não percebo como num restaurante apinhado como este há pessoas a fumar à mesa.

Como antigamente...

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Estou subjugado, é o termo. Percebo finalmente porque é que este povo acreditou nas balelas do Tsipras: vive afogado em beleza.

E a um afogado não se pede que veja.

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Não sei o que melhor exprime a alma de um povo: se a sua música se a suas mulheres.

Neste caso coincidem. A rapariga pode não cantar tão bem como o bouzouki e o viola tocam mas têm uma voz bonita, grave, canta poucas vezes e é linda de morrer.

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Pena o cheiro a tabaco, verdadeiramente exagerado.

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Impus um recolher obrigatório porque saimos amanhã. Vai ser difícil respeitá-lo. É bom. Todas as partidas devem ser dolorosas.

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O ambiente é sublime. Que se lixe o cheiro a tabaco. Hoje comprei uma camisa no supermercado.

Diário de Bordos - Kalamakis, Atenas, Grécia, 23-01-2016

Esperava gostar de Atenas; tudo o que viesse depois do que por aqui passei seria bom. Nunca pensei que gostaria tanto e pelas razões porque gosto: a simpatia das pessoas, prestáveis e sempre com um sorriso na cara; a beleza absolutamente deslumbrante das mulheres - foi a isso que o Chico escreveu aquele magnífico hino, aposto -; a comida; poder andar de táxi à frente sem ser chateado com o cinto de segurança.

Há muito naturalmente duas ou três coisas que não mudaram. São poucas, felizmente. Uma delas, a pior, é a a absoluta falta de respeito dos automobilistas pelos peões.

Com o Mark em 1981 chegámos a um ponto tal de saturação que um dia começámos a dar murros num autocarro que nos tinha cortado o caminho numa passagem de peões. O condutor saiu, contornou o veículo pela frente e veio para nós. Quando nos viu parou e começou a desafiar os passageiros para virem também. O Mark e eu decidimos que não era o momento certo para criar um incidente diplomático envolvendo três países e saímos dali calma mas rapidamente, com a namorada dele, uma miúda magrinha e com as pernas em forma de x cujo nome acaba de me ocorrer - Debbie - pela mão. Ela não conseguia andar depressa e tínhamos de a puxar.

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Ontem voltava do Agora e tive uma pequena e esperava eu passageira necessidade de comer. Era meia-noite e queria comer uma coisa rápida. Entrei num restaurante no qual um trio tocava música grega. Bouzouki, voz e viola. O bouzouki era excepcional, a viola seguia e a voz acompanhava (como era bonita não se notava muito que havia um pequeno desfazamento). Acabei por ficar, pedir mais deste vinho tinto tão leve que parece água com um bocadinho de corante e mesmo assim consegue não ser rosé. Às duas o dono do restaurante veio chamar-me para a sua mesa, onde estava com a mulher e alguns amigos.

Fiquei até às três e quase meia, a conversar sobre o Tsipras, Syriza, Merkel e companhia. As opiniões na mesa divergiam mas a conversa foi civilizada. Hoje vou lá jantar com a tripulação.

O grupo é tão bom que merecia um convite para tocar em Portugal.

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E é isto. Amanhã largo. Se tudo corresse bem só pararia nas Canárias. Mas é raro as coisas correrem bem. Só espero que não corram muito mal e não apanhe nenhum arraial pela proa. É pedir muito, eu sei. O Mediterrâneo no inverno é um horror.

Mas são quinze dias. É um piscar de olhos.

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Se bem com o frio que está até passarmos a Sicília vai ser uma seca.

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Tenho tido sorte com as tripulações, ultimamente. Esta excede tudo o que tive até agora. Bato na madeira três vezes, ou as que forem precisas para que continuemos como estamos agora.

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Os gregos não são propriamente silenciosos mas numa mesa na outra ponta do restaurante está um grupo de brasileiros. São os únicos que se ouvem. No Brasil as pessoas habituaram-se a falar aos gritos por causa do ruído ambiente e depois é difícil adaptarem-se a outras necessidades.

22.1.16

Diário de Bordos - Kalamakis, Atenas, Grécia, 22-01-2016

A primeira vez que vim a Atenas foi em 1981 (isto diz-me agora a Wikipedia, abençoada seja. Não sei porquê estava convencido que tinha sido em 1983). Cheguei no dia seguinte a um tremor de terra que destruiu a cidade. As pessoas estavam aterrorizadas; nunca tinha visto tanto medo, um medo colectivo que se sentia por todo o lado e parecia água a espalhar-se pelas ruas, cheias de tendas. Muita gente ficara sem casa; outros tinham simplesmente medo. Foi em Fevereiro e estava frio.

Viera à boleia desde La Chaux-de-Fonds com uma rapariga francesa jovem e insuportavelmente burra. Dormíamos na pensão de um sri-lankês cuja namorada era finlandesa ou dinamarquesa; tinha vindo para Atenas para se desintoxicar. A rapariga era heroinómana e em Atenas era difícil arranjar droga. Mais tarde descobri que estava longe de ser a única: havia muita gente nessa altura a fazer o mesmo. O sri-lankês fechou-a quinze dias num quarto e cobriu as paredes de colchões para ela não se magoar. Quando saiu do quarto ficou a trabalhar na pensão e pouco tempo depois mudou-se para o quarto dele.

A jovem francesa com quem eu tinha feito a viagem estava obcecada com o tremor de terra e com as suas sequelas. Todas as noites me acordava.

- Sentiste?
- Não. Deixa-me dormir, miúda. - Tinha dezoito anos e havia-me sido entregue com muitas recomendações por um tio com quem estava na Suíça a passar uns dias. Era gira e ao fim de dois dias não a podia nem ver.

Uma semana depois de chegarmos veio dizer-me que tinha encontrado um francês e se ia embora com ele. Não sei porquê tenho na cabeça que era sábado. Nesse dia fui almoçar com um casal de americanos que estava na mesma pensão. Durante o almoço ocorreu a grande sequela do terramoto. Foi a primeira vez que senti um tremor de terra. Parecia que estava num comboio em movimento.

Clientes e empregados esconderam-se debaixo das mesas. Ao nosso lado um grego - o único para além de nós que continuara sentado a comer - recebeu um pedaço de estuque no prato de sopa. Levantou-se para ir à cozinha reclamar mais sopa, mas o cozinheiro não quis sair de debaixo da mesa e recusou. O cliente serviu-se, voltou para o seu lugar e piscou-nos o olho.

Pouco tempo depois encontrei uma americana, judia e linda, com quem ouvia jazz num café da Plaka, o único em Atenas nessa altura onde se o podia ouvir. O dono tinha vivido na América, provavelmente. Não me lembro. Ela e a amiga com quem viajava iam para Creta e decidi ir também. Estávamos apaixonados. Em Creta iríamos finamente dormir juntos. Foi o meu primeiro contacto com a cultura, o sentido de humor, a beleza e a sensualidade judias.

Do grupo que se juntava naquele sítio por causa do jazz fazia parte um tunisiano que vivia em Atenas. Na véspera da saída para Creta, quando saímos do café convidou-me para ir a casa dele beber um copo e ouvir já não sei o quê.

Ao primeiro gole da bebida vi que tinha alguma coisa. Mas já não consegui reagir. O animal pôs tanta coisa no copo que um gole foi suficiente para me pôr a dormir a noite toda. Acordei no dia seguinte num jardim. Ainda corri para a pensão para fazer o saco e fui trôpego e cambaleante ao Pireus. Quando lá cheguei o ferry para Creta estava a sair. Nunca mais vi a minha americana, cujo nome esqueci. Eu estava mal, cheio de tonturas e náuseas. Não conseguia falar, não percebia o que me tinha acontecido. No caminho de regresso a Atenas senti uma dor no rabo, fortíssima.

Tinha uma queimadura de segundo grau nas nádegas; como se, explicou-me o médico, me tivesse sentado em cima da placa de um fogão eléctrico.

A minha memória deste episódio é obviamente inexistente. Por vezes ocorre-me de fugida que quando acordei no jardim estava em cima de qualquer coisa quente e talvez tenha sido aí que me queimei. Não sei. Interessa pouco. O médico disse-me também que não havia sinais de violação e enrolou-me uma ligadura a toda a volta da cintura. Não é preciso ser grande especialista para perceber que aquilo não era sustentável. Felizmente o casal americano tinha boas noções de primeiros socorros e foram eles que me trataram dali em diante.

Já não me lembro de quanto tempo passei em Atenas até a ferida cicatrizar e ser capaz de me sentar o tempo suficiente para regressar à Suíça. Eles vieram comigo e ficaram em minha casa cinco meses. Suponho, mas não tenho a certeza, que o tunisiano quis impedir-me de ir para Creta com a jovem americana.

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Estou de novo em Atenas. Enfim, "de novo" é um pormenor técnico que não corresponde à realidade. Nem a cidade nem eu somos os mesmos.

Hoje há jazz por todo o lado, a Plaka é um abominável antro de turistas, a minha saúde está boa e a senhora por quem espero apaixonar-me um dia em Lisboa, numa casa perto do mar. Atenas, uma cidade pela qual não tinha grande afecto encanta-me. Lembrava-me dela poluída e suja, dos gregos façanhudos (impressão que um cruzeiro num iate à vela pelas Cíclades em 2004 e uma recente passagem muito rápida por um porto na costa oeste do país não desfizeram) e não são. Antes pelo contrário: sorridentes, prestáveis, simpáticos. E bonitas, inesperadamente bonitas.

Anteontem fomos a Atenas, a tripulação e eu. O meu objectivo era rever a Plaka, comer num restaurante daqueles onde ninguém fala inglês (reminiscência de uma tentativa de emprego da outra estadia, em que trabalhei num restaurante do qual nem os clientes nem o pessoal da cozinha falava uma palavra de qualquer língua que não fosse grego. Para as encomendas levava um menu às mesas e os clientes marcavam o que queriam com cruzinhas. Depois levava o menu à cozinha e eles davam-me um "novo" - isto é, com as cruzinhas apagadas -. Para entregar os pratos percorria o restaurante com eles numa travessa até uma mesa reconhecer a sua encomenda. Trabalhei pouco tempo porque o patrão me substituiu por uma ou duas canadianas obesas).

Começa por que hoje em Atenas toda a gente fala inglês. Até o funcionário da Carris local que vende bilhetes numa estação precária, gélida e longe de tudo foi capaz de me explicar como chegar à marina. Num bar - que não tinha rigorosamente nada a ver com os bares da Plaka dos quais tenho uma memória difusa - perguntei ao barman (um jovem elegantíssimo, alfaiate de profissão) qual o bairro dos artistas que ainda não são. Keramikos.

(Nesse bar vi mais ou menos o meu futuro: pequeno, lindo, com bebidas de qualidade e preços a condizer; e descobri uma bebida grega chamada Mastika, feita com a seiva de uma árvore que só cresce na ilha de Kios.)

Em Keramikos fiz uma das melhores noitadas da minha vida: comemos uma mistura de especialidades gregas no café Philos, ouvimos excelente jazz ao vivo no bar Kerameio, entrámos numa associação de artistas que estava a preparar uma exposição e tinha algumas fotografias interessantes, dancei música grega com os artistas e finalmente voltámos ao café Philos beber mais um copo (como se tivessem sido poucos os que até ali bebêramos ).

Voltámos para bordo às quatro da manhã bêbedos de Mastika, vinho, cerveja, raki (grego, mais uma descoberta), ouzo e bom humor.

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Na associação falei com um jovem artista sobre Tsipras. Para ele o homem não é um aldrabão. É uma vítima.

Quando me despedia das pessoas para nos virmos embora uma artista gorda e feia recusa o beijinho que lhe ia dar. Não percebi se por causa do Tsipras se por não dar beijos a estranhos, mas inclino-me mais para a primeira hipótese.

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Essa noite de festa fez-me pensar na quase inconcebível e fascinante fragilidade dos maus momentos. Não há um que resista a uma boa mistura de mar, música, boa comida e amor, mesmo longe.

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Uma boa maneira de se escolher um bar, café ou restaurante em Atenas é ver se ele tem o nome em cirílico. Se o tiver escrito em caracteres romanos pode passar-se.

19.1.16

Metade

É a história de um anjo a quem alguém chamou Ternura. Passava-me pela face todos os dias, roçava-me os lábios, olhava-me nos olhos a dizer-me Quando souberes voar estarei aqui para ti, mas até lá não.

Voar é fácil. Basta olhar atentamente para onde queres ir. A paz, por exemplo.

Mas os anjos são maus professores de voo. Aprenderam sozinhos a voar e voar sozinho é como beber metade do mar: parece muito, mas não passa de metade.

Arrogância, carências

Uma vez disseram-me "estás carente" como se me dissessem "tens gonorreia", "roubaste a gamela do pobre" ou "achas bem andar atrás da mulher do vizinho, que é gorda, careca, desdentada, mal-educada, não tem gosto nenhum e ainda por cima não se lava?"

Em Portugal estar sozinho contra vontade e tentar deixar de o estar é motivo de vergonha. Como de resto qualquer tentativa de mudar uma condição da qual não se gosta: a ambição é mal-vista, por exemplo. Querer um emprego melhor ou não se conformar com o que a sorte nos trouxe é ser fraco. Pobre. Carente.

Somos um país de super-homens estóicos, abúlicos e calados. Inconformado, apaixonado, impaciente, independente, desrespeituoso e livre pergunto-me se um estóico e abúlico involuntário não será simplesmente um palerma, mais um.

Acho que não. Seria arrogância, que tão pouco deve ser vista muito pela rua.

18.1.16

A palavra

Acordas a meio da noite. Queres dormir mas estás irrequieto, inseguro. Falta-te uma respiração ao lado, uma pele.

Não sabes o que te aconteceu e menos ainda o que fazer. Olhas à tua volta. O quarto está às escuras e não tem respostas. Não as teria, de qualquer forma, mesmo iluminado: é em ti que elas se escondem.

Vou dar-te uma sugestão: pega numa palavra, uma qualquer. Amor, céu, triângulo, via láctea, Sirius, que é a tu estrela favorita. Uma qualquer.

Escolhes amor - ou talvez tenha sido ela a escolher-te -? Não sabes. Massaja-a bem, afaga-a, acaricia-a, molda-a nas tuas mãos em concha, aperta-a com força. Talvez amor seja a palavra mais bonita do léxico porque nela cabes tu e o mundo, o passado e o futuro, a luz e a sombra, tu e a pessoa que amas, a alegria e a felicidade e a dor. Tens a palavra nas mãos. Molda-a. É tua.

Aconchega-a bem: é frágil. Dá -lhe de comer: tem fome. Acolhe-a no teu regaço como se tivesse acabado de nascer.

Quando tiveres a certeza oferece-a. Já não é só tua.

Para a M., co-exploradora dos caminhos incertos do futuro, com e ao nosso amor caril.

14.1.16

Partir, partir

Os ingleses têm dois verbos: to leave e to break. Os franceses também: partir e casser. Os portugueses, que sabem do que falam usam o mesmo verbo: partir. Partir é partir-se e partir: algo se quebra a cada partida.

Abraço

Um par de pernas a abrir-se à minha frente antes e a ficar aberto depois, tão aberto que mais parecia braços do que pernas.

Respirava ela e respirava eu, devagar e ao mesmo tempo; olhávamos para o tecto. Talvez; ou talvez mais para dentro porque depois daquele abraço pouco ou nada há para ver que se queira ver ou não se tenha visto antes.

E depois, verdade seja dita: pára-nos o tempo, o ar flui mais devagar, mais de fundo, mais de como se não houvesse peso.

Era assim: ela na cama estendida de braços abertos até ao céu e eu calado não fosse o céu estragar-se e fechar-se.

- Queres um cigarro?
- Não, obrigado.
- E um whisky?
- Também não, obrigado.
- E um obrigado?
- É recíproco.
- E um beijo?
- Também.
- E silêncio, queres?

Não quero nada se não olhar-te e perder-me no abraço dessas pernas, nesse abraço que é o mundo todo inteiro, nos teus olhos gratos, saciados e felizes.

13.1.16

Diário de Bordos - Lisboa, 12-01-2016

Para fazer avançar uma bicicleta é normalmente necessário pedalar. Como a Vitus não é uma bicicleta dispensa essas trivialidades e avança sozinha. Eu só pedalo para fingir que estou numa burra. Não estou. A Vitus Turbo é um objecto não categorizável, ataxinómico, independente; que por acaso me trouxe até à Casa Independente porque foi rejeitada num outro local.

Foi a segunda vez que hoje alguém - pequenos Hitlers, preciso já - proibiram a Vitus de entrar. Não especifico quais porque não quero envergonhá-los. Há dois tipos de razões pelas quais isso é um erro.

a) Razões relativas: a Vitus é a bicicleta mais bonita que os ditos cujos pequenos ditadores viram, terão visto e verão na sua vida;

b) Razões absolutas: não há absolutamente razão alguma para se proibir a entrada de uma bicicleta - seja ela bonita, feia ou assim assim - num local.

Enfin, passons.

De modo é isto. Na Casa Independente não só me deixam entrar com a Vitus como ainda a elogiam. Uma bicicleta tem esta vantagem. Alguém imagina entrar num café e ouvir: "a sua senhora é muito bonita"? Não, claro. O que é pena. Devia ser prática habitual e socialmente aceite. "Que linda está a sua mulher hoje". "Eu tenho duas bastante parecidas, mas a sua é mais bonita". "E mais leve" (depois de lhe pegar. Podia ser "E as mamas são mais duras", por exemplo).

Duvido.

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Fui ao teatro ver uma peça de Beckett chamada Not I (Não Eu). Brilhante interpretação. Exemplar. Soberba. Deitou por terra todas as dúvidas que tinha a priori. Doze minutos de encantamento.

A actriz chama-se Inês Pereira, para quem quiser saber; e o encenador Miguel Sopas.

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"É difícil seguir o raciocínio", diz uma jovem espectadora à saída.

O meu cérebro ainda está meio anestesiado e só ouve: seguir; raciocínio; e depois, interior: Beckett.

"Seguir o raciocínio de Beckett"?

Raciocínio. Beckett. Alguém vê nestas duas palavras o mesmo que eu?

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Inês Pereira, Miguel Sopas. T'inquiète pas, Samuel. T'aurais accepté.

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Amo-te e não te desejo. Crueldade. Estupidez. Vida.

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"Les vieux cons" c'est un oximoron. Plus on devient vieux moins on devient con.

12.1.16

Lisboa, vida

I don't mean to suggest
That I loved you the best

(L. Cohen)

Estou longe de ser o melhor dos teus amantes, Lisboa. Há-os mais ricos, mais cultos, mais presentes. Mas dos tesos trogloditas e fugazes estou de certeza no pódio.

Amo-te e pedalo-te desde a livraria Galileu em Cascais àquela tasca em Alcochete onde há muitos anos me engrossei de tal forma que não me lembro nem do nome nem do que comi. Só me lembro do bom que estava a tasca e do bem eu.

Ficam-te bonitas as mulheres e bem a luz e as ruas, a ginja Sem Rival e a Merendinha do Arco.

Hoje foi dia de chamuças na D. Mónica em Belém e nos Primos em Alcântara; e de matar saudades no Beira-Rio em Santos. E de voltar ao Vertigo no Chiado, que parece foi feito para me acolher mai-là Vitus (sem quem tu serias tão menos, ó Lisboa minha de tantas das minhas vidas).

Amo-te Lisboa: tu percebes como ninguém que eu fujo de quem amo e a quem amo volto mas não fico em quem amo porque não fico em lado nenhum se não morto e tu és vida, não morte.