30.4.16

Diário de Bordos - Barillas Marina, El Salvador, 30-04-2016

A Besta ganhou..

Maldade, gravidade e outras comparações desajustadas

Uma das coisas que digo nos briefings a novos  (ou melhor, inexperientes) tripulantes é "não lutem contra a gravidade. Ela ganha. Usem-na. Vocês ganham".

Hoje pensei nisto a propósito do mal (aqui definido como má-fé, maldade, estupidez - se bem haja uma estupidez boa -).

Impossível.  "Não lutes contra o mal. Ele ganha. Usa-o. Tu ganhas". É mentira. Soa a falso. A maldade ganha sempre (sempre sendo curto e médio prazos. Depois disso o bem prevalece. O mundo hoje é melhor do que há cem anos).

29.4.16

Diário de Bordos - De Panamá a Barillas Marina, Aserradores, El Salvador, 22 a 28-04-2016

A noite está muito clara apesar de a lua se ter escondido atrás de uma camada de nuvens (Altostratus, para quem possa interessar). Pouco densa, o que explica a claridade.

Vamos a motor, como esperava. Há um bocadinho de vento (pela proa, é inútil dizê-lo) mas serve apenas de arrefecimento.

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Parece-me que consegui resolver os problemas com a tripulação. A ver. Mas uma coisa é resolver os problemas e outra ter prazer em navegar com eles. Não tenho. G. é um adolescente de cinquenta e oito anos (feitos ontem). Está numa situação difícil mas isso não explica nem muito menos justifica. Serve de circunstância atenuante, quando muito. Apesar de tudo prefiro R., brasileiro de Natal. É desconfiado e susceptível mas é frontal, directo, honesto. E cozinha bem, qualidade que não estraga nada antes pelo contrário.

Mas foi passada um linha e agora fazer marcha atrás e pretender que está tudo na mesma é inútil. Pelo menos parcialmente: para mim conseguir respirar ao lado de G. será uma grande vitória. Por enquanto não posso. O homem tira-me o ar. Só de o ver fico nauseado. É viscoso, melífluo, traiçoeiro como uma serpente.

Enfim, falta um mês. Um mês na Costa Oeste da América passa depressa. Hoje já viram uma baleia, mantas e os inevitáveis mas sempre agradáveis golfinhos. Eu vi uma barbatana que não identifiquei. Talvez um tubarão pequeno. Não sei.

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Estou de quarto, com vento fraco pela proa, mar chão, a motor numa noite calma, clara e fresca. Oiço o motor e o barulho da água. Estou triste, ansioso, febril, impaciente. Quero chegar a Los Angeles o mais depressa possível. Passe a auto-citação: é preferível estar no sítio errado com as pessoas certas a estar no sítio certo com as pessoas erradas.

Penso no que vou fazer depois, numa senhora que espera por mim na praia, nestes últimos seis anos, nos próximos seis ou dez ou vinte. " I do not fuck much with the past but I fuck plenty with the future".

É tempo de mudar de vida. Esta acabou. Já não me consegue mudar e esse deve ser o critério: muda de vida no dia em que a vida deixa de te mudar.

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Ontem fiz uma análise profunda aquilo que estou a fazer mal. Depois fui comprar mais comida e refrigerantes. Beber refrigerantes no mar é ainda mais estúpido do que bebê-los em terra. O açúcar desidrata e fica-se com mais sede. Mas são grandes e não sou pai deles. O M. bebia Coca-Cola ao pequeno-almoço. Il était con comme trois balais. Est-ce que ceci explique cela? Va savoir. Talvez a Coca-Cola seja uma consequência e não a causa.

Estes só se lembraram dos refrigerantes depois de os verem no Swan com quem passámos as eclusas.

O G. é bastante mais con do que o M. Já o R. não. É menos. Talvez na verdade a relação entre os refrigerantes e a connerie seja ténue ou inexistente.

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O mar é demasiado tolerante, já por aqui há uns anos o escrevi. É provavelmente isso que faz a sua grandeza.

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Para a travessia do Canal comprei uma caixa daqueles hamburguers horríveis. O ambiente a bordo era péssimo e a minha vontade de cozinhar nula. Temos de dar de comer ao piloto e aos linehandlers, mas não temos de lhes dar alta gastronomia. Além de que já recebi de um piloto um elogio que cobre todas as faltas de vontade, birras da tripulação e quejandos. "Esta foi a melhor refeição que me deram", disse o senhor quando atravessei num barco de que nem sequer era o skipper. Ia como linehandler, por causa dos cento e vinte dólares. Mas propus-me fazer o almoço e o armador - de quem não recordo nome, cara ou sequer o barco - agradeceu-me e foi assim. Improvisei uma porcaria qualquer e por sorte saiu bem.

Desta vez não estava com muita vontade de repetir a proeza, mas pelo sim pelo não desfiz os hamburguers e pus a carne a marinar em rum.

Quem acabou por fazer o almoço foi R. Uma feijoada tão boa quanto gargantuesca. Ontem comemos parte do resto ao almoço e ainda há para uma refeição. Se não for deitada fora, claro.

De maneira a carne ficou no rum ou este naquela dois dias. Hoje acrescentei pimenta, os sublimes cominho e paprika do marroquino do talho de La Línea, cebola picada e um pouco de curcuma, para equilibrar.

Com isto recheei dois pimentos verdes e duas courgettes que estavam na rede há pelo menos metade de uma eternidade. Cortei um bom pedaço de gengibre às rodelas, quatro alhos inteiros, azeite quanto basta e mandei tudo para o forno.

Ficou delicioso. Isto com boa carne e um humor melhor do que o meu agora vai tornar-se um standard da casa.

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Revi P., o meu agente no Panamá. Meu e de quarenta mil outros, claro. Apreciamo-nos mutuamente. Uma quase-amizade correspondida. Está velho. Teve uma infecção séria no pé e foi operado. Já não parece uma personagem de John le Carré mas continua um homem bonito, com um sorriso e um sentido de humor irresistíveis.

Espero voltar a vê-lo. É um dos laços que tenho no Panamá e mais uma prova - já há tantas... - de que nem tudo é mau nesta terra.

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Hoje apanhei dois bonitos. Tinha duas linhas fora, coisa que raramente faço. Mas queria mesmo apanhar um peixe, fosse ele qual fosse, para mostrar aos dois idiotas (isto é injusto. O R. está longe de ser idiota. Comporta-se como se fosse, o que é diferente) que me servem de tripulantes que sim, no mar apanha-se peixe e pode-se comer.

As discussões por causa da comida a bordo foram-se repetindo até que em Panamá fui às compras e trouxe tudo o que me pediram. Metade há-de ir fora, claro. Mas pelo menos ficaram satisfeitos. Não consigo perceber qual o prazer ou a vantagem que retiram de deitar comida fora, mas enfim. (Isto tão pouco é verdade. Percebo perfeitamente. O "abondanza" do Rei de Marrocos na Villa Sterne, uma versão rasca de potlatch - com a vantagem acrescida de que quem paga não são eles. Mas isso é um pormenor). Não sabem e eu não consigo explicar-lhes que no mar come-se o que há. A escolha é limitada pelo armazenamento (neste caso não se aplica, temos um camarote vazio) e pela capacidade de refrigeração. O nosso congelador não congela e só funciona bem quando vamos a motor. À vela consome demasiada energia. Temos montes de fruta e vegetais numa rede no salão, mas com estas temperaturas também têm a duração limitada. Ou seja: aquilo que eu pensava ser um trajecto à base de legumes, peixe e fruta transformou-se numa orgia de carnes, queijo e fiambre (ainda por cima merdosos) e Coca-cola, Sprite, Seven-Up. Nunca me tinha pedido refrigerantes, mas durante a travessia do Canal viram o barco ao lado bebê-los e hey, presto!, a ideia aterrou-lhes no cerebelo. (Mesmo assim estão longe de M., que bebia Coca-cola ao pequeno-almoço).

Não sou um gajo frugal (isto é um understatement) mas não preciso de alimentar o ego ou a auto-imagem com desperdícios.

Enfim, seja como for temos dois bonitos para comer. Cozidos, fritos e no forno com bacon, tomate, cebola e alho.

Cozido talvez não. Bonito não é grande coisa, seja como for. Mas alguma forma se há-de arranjar. Por agora estão no sal. Amanhã se verá.

Vou dormir.

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O dia está cinzento e o vento muito mais forte do que é habitual - onze nós (pela proa, claro). Calha bem. Ontem quase apanhei um escaldão e tenho a pele a arder.

Quem dera ardesse por outras razões.

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Continuo a motor. Quero chegar depressa. Para bolinar está perfeito porque não há mar. O S.B. chamar-lhe-ia um figo. Eu também, se estivesse para aí voltado. Não estou: o objectivo é chegar, não é navegar.

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Três homens num bote. Ou um adolescente e dois homens num bote. Adolescente mimado e estúpido, ainda por cima.

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Ao princípio R. parecia um gajo porreiro. Na verdade não passa de um gajo, nem porreiro nem antes pelo contrário. Pelo menos pôs a desconfiança e a falta de educação de lado e comporta-se normalmente. G. continua a víbora que sempre foi. Basta-me pensar nele para querer transformar-me naqueles animais que são inimigos atávicos das cobras e as mordem e partem em fanicos. Pensar que vou ter de o aturar mais um mês esgota-me.

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Que manhã tão linda. Navego com uma térmica fraquinha, ajudado pela corrente. Vamos à bolina cerrada, mas assim é uma sorte. Mar chão, o sol acaba de nascer e já aquece, mas não demasiado. O SB marulha suavemente, como se trocasse segredos com o mar.

Tudo é calma, luxo e voluptuosidade.

Daqui a pouco começo as tarefas do quarto das seis às dez: lavar a loiça da noite, limpar cockpit e salão, verificar fundos e motor. Quando sair de quarto faço o almoço : bonito cozido.

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Acabei por não fazer o almoço. R. antecipou-se e fez uma salada com feijão branco e salsichas frescas que ficou uma delícia.

Em contrapartida fui agraciado com uma daquelas vistas que me fazem adorar o Pacífico. Aproximadamente uma centena de golfinhos a outros tantos metros do barco. Meia dúzia deles faziam piruetas como se estivessem a treinar para um espectáculo num parque de diversões aquático. A dois metros do painel da popa e um de profundidade uma manta gigante. Fazia de envergadura quase metade da boca do SB.

A manta é um peixe lindo, majestoso. Uma vez nadei pertíssimo de uma, na Pool em Canouan. E vi várias vezes algumas a voar fora de água (voar devia levar aspas).

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Reescrevo isto em El Salvador, Barillas Marina. O essencial está correcto. Deveria acrescentar alguns pormenores. Não o faço. Prefiro falar de Barillas.

Não é bem uma marina. É bóias num rio e um parque manicurado para a casta possidente local. Os funcionários são adoráveis, simpáticos, sorridentes e prestáveis. Hoje rdeixaram-me usar os computadores do escritório  - já não têm a sala de computadores porque o wifi é ubiquo  -. Mangal por todo o lado e terrenos magnificamente tratados no meio (onde estamos, naturalmente).

Sou pouco fã destes parques para ricos mas às vezes sabem bem.

21.4.16

Diário de Bordos - Lago Gatun, Panamá, 20-04-2016

Dois dias depois do previsto estamos finalmente na linha de partida: o fundeadouro F, conhecido por amigos e família como "the Flats". O piloto deve chegar às quatro e meia, daqui a dez minutos. Mas não há relação entre o que deve ser e o que é. Os iates - particularmente os veleiros - estão  muito em baixo na lista de prioridades da ACP - Autoridade do Canal do Panamá, dantes conhecida por PCA. O Canal era americano. - Li algures que a arrogância, para usar um eufemismo, com que a ACP nos trata aumentou desde que isto passou para controlo indígena. Não sei. "Algures" é um guia gringo.

Ou seja: começa hoje a última perna da viagem. Já vai longa e pesada mas está etapa é a mais agradável. Excepto no que respeita a vento, que será sobretudo do porão.

Vamos parar na Costa Rica, na Guatemala e no México, antes de Los Angeles. Gosto muito do México  (ou pelo menos da parte minúscula que dele conheço), vou descobrir a Guatemala e revisitar a Costa Rica.

Nada mau, para quem gosta de viajar e de barco, ainda melhor.

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De braço dado com o S/Y SALSA. Ele é o grande do casal. Não tenho nada que fazer. É bom.

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Lago Gatun. Adoro este sítio.

Estar no lugar certo com as pessoas erradas é pior do que estar no lugar errado com as pessoas certas. A vida é feita de pessoas, mais do que de lugares.

18.4.16

Diário de Bordos - Panamá, Panamá, 18-04-2016

Regresso a Panamá, desta vez por razões profissionais: vou comprar as cartas para o resto da viagem. Comprei um "pacote de dados" e posso escrever no autocarro. Ajuda a passar o tempo. Viajo de pé, o que é chato. Mas a viagem é curta - pouco menos de duas horas se não houver tranque  - e barata. Por três dólares e quinze cêntimos não se pode pedir muito mais (pode. Alguns veículos têm televisão com filmes horríveis, ar condicionado a funcionar melhor do que este e amortecedores a ar (esta última informação devo-a a R., que me ensinou a distinguir o amortecimento a ar do de molas).

Este veículo é dos velhos. Um só piso, cadeiras estreitas, molas em vez de ar, ar cansado em vez de condicionado. Mas a velocidade é a mesma e não tarda estarei na Islamorada a comprar cartas.

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Hoje fiz as clearances (de entrada e saída. Em português diria " fiz a entrada e a saída"; ou "dei a entrada e a saída "). A burocracia é a mesma em toda a parte do mundo latino porque tem a mesma função: dar emprego a quem não sabe fazer mais nada ou, mais generosamente, não se importa de ser literalmente uma personagem camusiana toda a vida e se dedica com afinco a manusear o absurdo.

Faz alguns anos que não entro numa repartição pública portuguesa e se tiverem evoluído como os notários,  por exemplo, devem estar hoje radicalmente diferentes. As instalações da AMP em Colon trazem-me à memória as da função pública lusa de há alguns anos: feias, desmazeladas, maltratadas, sujas.

Como se todos soubessem que o que ali se faz não merece muito respeito, nem tempo ou dinheiro.

Enfim, consegui poupar umas poucas centenas de dólares ao armador, corrompi três pessoas (valor total: quarenta e cinco dólares. Corromper é um verbo demasiado forte) e amanhã largo para o Canal e depois Quepos, na Costa Rica.

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Tanta vontade tenho de estar no mar com uma tripulação porreira... Dou de mais e espero de mais das pessoas. O problema não é de modo nenhum novo mas há alguns anos que não estou numa situação em que ele tenha ocasião de se manifestar.

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Comprei as cartas em papel. É como deitar dinheiro ao mar.

Ou a um café. Um dia.

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Bebo um último mojito no Rana Dorada. Amanhã saio de Shelter Bay, se tudo correr - ou tiver corrido - bem. Os inspectores do Canal foram hoje fazer as medidas. Não tive nenhuma chamada, suponho portanto que não tenha havido problemas de maior.

Espero. Estou farto de urubus.

Diário de Bordos - Shelter Bay Marina, Panamá, 17-02-2016

Atravesso terça. Em princípio, obviamente. No Panamá nem do passado podemos estar seguros,  quanto mais do presente ou do futuro.

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Cada vez suporto menos a mesquinhez, a pequenez de espírito. É uma chatice mas não posso fazer nada.

Ainda menos a pequenez e a mesquinhez que se passeiam no mar, demasiado tolerante.

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Recentemente tomei uma decisão importante a respeito deste blog. Podem acusar-me de tudo menos de fugir à luta.

Avizinham-se tempos interessantes.

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Conheci C., adorável francês, músico amador (e por vezes profissional, creio) sensível sensato e bonito como só as pessoas em paz podem ser.

Convidou-me para ir a sua casa nos Alpes savoyards, não muito longe de Genève.

Espero sinceramente poder aceitar, um dia. Há privilégios de que seria pecado não beneficiar. E de caminho passar em Avignon e visitar os donos de um pequeno teatro que há muitos anos me fizeram um convite semelhante.

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A próxima escala será Quepos, na Costa Rica. Uma das chegadas mais bonitas da minha vida. O mistério não se repetirá, mas estou contente. Quanto mais perto de Los Angeles mais perto de Lisboa.

Rivalidades

Não é por o mar não aceitar rivais que os marinheiros não têm uma vida sentimental decente (excepto, claro, os que navegam em casal), ao contrário do que muitas vezes se pensa.

O mar aceita todas as rivais. Acolhe-as com prazer e depois esmaga-as, mastiga-as, digere-as e deita-as fora.

O marinheiro que se lixe.

17.4.16

Diário de Bordos - Cidade de Panamá, Panamá, 16-04-2016

Tarde em Panamá. Casco Viejo para começar. Bebo um mojito no Rana Dorada. É o melhor mojito que jamais bebi e está hoje igual ao primeiro, vai para três anos.

Venho para a esplanada. O ar está quente e húmido, denso como uma piscina de água ligeira. A Luz fez-me uma festa sincera. Nunca falei muito com ela - deve ter mais que fazer do que aturar marinheiros melancólicos, solitários e longe de uma casa que não têm - mas simpatizamos um com o outro. Eu com a eficácia dela e ela, provavelmente,  com o facto de eu não ser chato: encomendo (sempre a mesma coisa: um mojito sem açúcar - hoje ela recomendou ao barman que não se esquecesse desse pormenor -) bebo, re-encomendo, pago, agradeço e vou-me embora. E volto. Se calhar isso contribui para a simpatia, tanto a de um como a da outra.

Continuamos - estou com o R. - para o circuito habitual. Não é por acaso que gosto tanto dos Passos em Volta. Paradoxalmente não vejo isto como um regresso ao passado, um passeio do triste ou viagem pela memória. É uma espécie de futuro retroactivo. Já aqui estive, num momento particularmente difícil da minha vida e consegui construir laços com isto. Na altura não me apercebi, só agora o vejo. Posso voltar a Panamá quando quiser porque já aqui estive, porque já aqui fui o que sou. Em francês há um tempo verbal chamado futur passé (futur antérieur para os puristas, chatos et simili). É o meu tempo verbal favorito. Tão pouco por acaso, claro. O meu presente (a minha vida?) são uma mistura permanente de passado posterior e futuro anterior.

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Não gostei do Panamá quando cá cheguei porque estava mal e agora gosto porque estou bem. Il ne faut pas chercher midi à quatorze heures.

Mas talvez convenha aprender a olhar.
Isto é, a meta-olhar.

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Daqui a pouco voltamos para Shelter Bay. Táxi para Albrook, camionete para Colon, táxi para a marina.  Três horas de trajecto na pior das hipóteses,  duas na melhor e uma quantidade estúpida de dólares em ambas.

Enfim. Refuto o estúpida. Não há nada de estúpido em andar às volta do tempo.

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O Casco muda a um ritmo impressionante. A cada visita que faço está mais bonito. Restaurantes modernos, bares design, lojas de moda, mobiliário BCBG.

Qualquer dia de tão bonito fica infrequentável.

16.4.16

Continuações

Um dia sonhei escrever um livro que fosse a continuação do Passage to Juneau, um dos melhores livros de viagens que me foi dado ler. Saira de San Francisco com uma depressão monstruosa e com algumas coisas em comum com o livro.

Nunca escreverei esse livro mas vou fazer quase melhor: vou navegá-lo.

Descansa, super-homem

Esta necessidade de descanso tem que se lhe diga.

Um gajo já sabia que não é o super-homem (desde o fim da adolescência, uma vez percebido e digerido Zaratrusta). Depois vai passando por várias fases - não sou mas um dia serei; não sou mas vou tentar chegar o mais perto possível; etc. - e de repente dá por ele numa marina perdida da América Central, à entrada do canal do Panamá a pensar "olha a sorte que tive em não ser o super-homem".

Raciocínio, sintonia

Leio Morin e Tristram Shandy ao mesmo tempo. E ainda há quem se admire por eu ter um raciocínio circular. (Ou elíptico, vá. Hoje estou em maré de bondade para comigo próprio.)

História de sintonia, decerto.

Diário de Bordos - Shelter Bay Marina, Panamá, 15-04-2016 / II

As coisas, tenho-o dito e redito são como são e não como deviam ser ou quereríamos nós que elas fossem. Que me perdoem os revolucionários, activistas, optimistas e todos aqueles que acham que o mundo devia ser diferente.

Têm razão, é óbvio: o mundo devia ser diferente e que ele hoje é melhor do que era há cem anos é prova irrefutável de que quem tem razão são eles, esses a quem agora peço me desculpem por laborar neste erro: as coisas são o que são.  Para mim são. Podia se quisesse elencar aqui uma interminável lista de provas (circunstanciais, é certo) do que afirmo.

Dispenso. O dia de hoje é suficiente e não há revolução ou optimismo que me desconvença.

Sentir-me grato por estar em Shelter Bay, por exemplo. Quem diria? Ninguém e eu menos ainda. Comer no restaurante da marina em vez de comer a bordo. Estar exausto e não conseguir dormir, apesar dos dois execráveis rum punch (Katel, Tanya, Ona, où êtes-vous?) e cervejas e vinho branco que bebi, como se acreditasse que bebendo dormiria.

Sabia perfeitamente que não. Primeiro porque não bebi o suficiente e depois porque o que tenho não se dissolve em álcool. A irrefutabilidade de as coisas serem como são e não como eu queria que elas fossem - apesar de hoje elas terem sido como eu queria e não como seriam se fossem como são - não se apaga com uma cerveja Balboa, um vinho branco caríssimo para o que é ou dois rum punch baratos e maus.

O erro - se fosse honesto diria semi-erro - que cometi à saída de St. Maarten - a saber, uma mistura de fundos e informação - não teve as consequências dramáticas, trágicas que poderia ter tido. Não atravesso o Canal amanhã, prova de que Deus existe ou - mais honestamente - de que as coisas por vezes são melhores do que seriam se fossem como costumam ser; e acho que vou conseguir dormir depois de jantar - este restaurante era horrível; suponho que não tenha mudado; depois de um mau hamburguer e uma cerveja mais ou menos pouco há a fazer, sobretudo se o computador portátil tiver a bateria quase a acabar e o telefone idem -.

Ou seja. Está tudo a correr bem, demasiado bem. Não sei como desenvencilhar-me desta situação. Preciso de dinheiro, mas isso pode esperar até amanhã; de descansar, mas sei que mais tarde ou mais cedo vou conseguir dormir. Vou atravessar o Canal mas amanhã não será a véspera desse dia. Hoje terei descanso.

Pelo menos parcial, porque apesar de tudo as coisas não deixam de ser como são.

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Estamos em Abril e Shelter Bay está cheia. Hoje até vi miúdas com menos de sessenta e oito anos. Muitas e giras. Tinham todas a mesma T-shirt, o que me faz pensar que estavam no mesmo barco e que quem quer que seja que as tenha recrutado tem bom gosto. Nunca vi mais de três garotas jovens nesta marina simultaneamente e mesmo essas eram do tempo da minha saudosa Nike, que valia por duas.

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A cerveja está quase a acabar. O hamburguer era horrível. As coisas são como são, mas isso nem sempre significa que são más. Penso em Espinosa: somos nós que as tornamos boas ou más, consoante.

Estou-me nas tintas. Não o bastante para dormir assim que chegar a bordo mas pelo menos que chegue para pensar que o sono e o descanso não estão longe.

Devia ter ficado mais dois dias em Sint Maarten, essa é que é essa e o resto conversa. Não fiquei. Que se lixe. As coisas são como são. Eu não. Sou o que estou "e é tudo o que sou". Hoje, por exemplo, sou um homem cansado, com problemas que me sobrevoam como urubus e apesar de tudo consegue encontrar harmonia nisto tudo.

Questão de entropia, aposto. Ou de resignação, aposto mais ainda.

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Um dia começarei uma nova carreira: escritor, fotógrafo e barman. Três novas carreiras, como um chapéu espanhol.

No jodas. O meu universo próximo consiste em dormir, acordar amanhã,  não ter rigorosamente nada que fazer se não descongelar o frigorífico, continuar a digerir a raiva que tenho ao G. - está cada dia mais fácil - e pensar que qualquer dia estou numa praia perto de Lisboa a tentar convencer uma jovem senhora de que sou um homem decente.

Sou. Não foi fácil porque as coisas etc. mas sou.

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Um homem decente dorme, não escreve disparates.

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Equilíbrio delicado e difícil, não é? Entre o que as coisas são, o que aceitamos que sejam e o que fazemos para que não sejam.

15.4.16

Antepassados

Isto aconteceu na África do Sul, não me lembro se em Jo'burg se no Cabo. Era uma festa, uma manifestação pública. Lembro-me mal das circunstâncias.

Recordo perfeitamente que estava no hall de um hotel com um tipo pouco mais velho do que eu - eu andaria pelos quarenta e poucos e ele pelos quarenta e meios. Era um gajo grande, de óculos, publicitário. Tinha um sentido de humor fascinante e a repartida rápida dos publicitários. Conheceramo-nos dois ou três dias antes e estávamos frequentemente juntos.

Naquele dia o programa incluía danças tradicionais e o hotel estava cheio de grupos das diferentes etnias que compõem o país, vestidos com os respectivos trajes.

De repente damos de caras com um sujeito enorme, imponente, numa roupa tradicional feita de palha, cores vivas, uma espécie de saia encarnada e montes de colares a cobrir-lhe o peito. Parecia estranho porque estava sozinho, afastado dos restantes membros da sua comitiva. No emaranhado de colares, brincos e múltiplos artefactos que lhe cobriam a cabeça segurava um telefone portátil.

O publicitário olhou para o senhor, olhou para mim e disse-me: "Calling the ancestors".

Diário de Bordos - No mar, 07-04-16 a Shelter Bay, Panama, 15-04-2016

Antes de mais nada: a ver se percebo porque gosto tanto deste país de que gosto tão pouco.

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Não há ansiedade, mortal que seja, que resista a três dias de mar. Esta resistiu, mas é hoje uma sombra do que foi à largada de St. Maarten. Amanhã desvanecer-se-á, espero.

Que erro incompreensível! Acho que posso dar cursos de auto-sabotagem. Ou então, mais simplesmente, é o meu inconsciente a obrigar-me a fazer o que ele quer que eu faça e eu só entrevejo ou duvido ou hesito.

Logo se verá. Por agora só posso apreciar a beleza destes dias e lamentar o vento mais fraco agora que vou à popa do que foi das duas vezes que fiz este trajecto no sentido contrário, à bolina.

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Traga-me um noite estrelada, por favor. Mexida não. Talvez cozida. Bem cozida.

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Isto eram tudo ideias para desenvolver, mas parece-me que vão ficar para depois. A viagem correu bem, finalmente. Agora tenho um pequeno problema para resolver, mas que é isso comparado com o que poderia ter sido?

6.4.16

Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 06-04-2016

Pela primeira vez desde que cheguei a St. Maarten hoje trabalhei bem, muito, metódica e eficazmente. Acabei de colar os patches e pus um slide na grande, lubrifiquei a calha do mastro, pus protecções nos vaus e aparelhei o pano.

Quando estava a pôr um dos rizos, no fim disto tudo, cansado (devia dizer exausto...), caí e a cabeça passou-me a centímetros de um corrimão de aço que ma teria aberto em dois. Ou pelo menos feito uma boa mossa. Como se isto não fosse suficiente caí em cima dos coxins do poço que estavam dobrados. Ou seja, uma queda de quase dois metros acabou numa gargalhada e numa celebração da sorte.

Que também a tenho e quando a tenho vem em doses duplas ou triplas, em baldes muito maiores do que os baldes de merda que me calham tantas vezes. É por isso que estou vivo, não é?

Viva a vida! Que se foda a morte.

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Do resto não falo hoje. Logo se vê, como diria o ceguinho.

5.4.16

Karen Dalton, quase

Volto a Karen Dalton como a uma droga ("Não se ouve Karen Dalton, injecta-se", escrevi creio ontem e hoje é ainda mais verdade). Faz parte de um grupo restrito de cantores capaz de nos fazer ver o abismo.

E quase ter vontade de lá estar.


O livro da tua pele

Escrevo e cada letra é uma porção da tua pele. Faço frases inteiras percorrendo-te os membros um a um, o ventre, os olhos. Toco-te um seio, a "coivara dos dedos", analogia tão bonita que ardo só de a evocar, um lábio, um dedo do pé, o joelho e uma página escreve-se.

Estou na laguna. Mastros, Karen Dalton - uma descoberta musical que me faz perguntar como é possível? - alísios, rum Mount Gay, uma largada para breve. Como descrever-te tudo isto?

Pele infinita.

Karen Dalton - It Hurts Me Too

4.4.16

Diário de Bordos - Cole Bay, St Maarten, Antilhas Holandesas, 04-04-2016

Segunda-feira é provavelmente a pior música ao vivo do Lagoonies e em breve terei de me ir embora. O que é pena, porque hoje foi o primeiro dia de relativa descompressão desde que cheguei. Encontrei um tripulante - isto como sempre é para ser tomado com pinças. Até o ver no convés a largar os cabos não acredito em nada - e consegui levantar a pouca massa que tinha no banco aqui em St. Martin. (Chamar banco àquilo é um exagero de boa vontade, mas enfim). A verdade é que fui armado apenas com o passaporte e a senhora, simpaticamente, disse-me "não tenho de procurar o seu número de conta, mas vou fazê-lo". Encontrou-o, foi de uma simpatia inexcedível - isto na Banque Postale, um organismo cujos funcionários fazem os seus colegas públicos portugueses passar por modelos de colaboração e empatia - disse-me quanto lá tinha e hey, presto!, fui almoçar ao Arhawak. Que tinham chegado umas bavettes da Argentina e o tinto não estava mal de todo e a ucraniana toda sorrisos e o Jean-Paul é um tipo com quem eu simpatizo até à medula e que se lixe. A bavette estava realmente uma maravuilha, o tinto e a ucraniana ditto (o raio da mulher está igual hoje ao que era há cinco anos quando aqui vim pela primeira vez. Como é que as nórdicas fazem? Verdade seja dita tem pouco por onde envelhecer).

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Trabalho de uma maneira desorganizada, sem plano, ao acaso, como se estivesse perdido. Não estou, mas gostava de estar.

Ontem Jim propôs-me levar o C. para Cascais e depois ficar a tratar dele na Europa. Talvez seja a isto que chame estar perdido.

Não é. Já estava assim antes do jantar de ontem, com Jim e quatro ou cinco amigos daqui, aquilo a que em francês se chamaria les vieux de la vieille, gajos que ganharam dinheiro a traficar erva nas Caraíbas dos anos setenta e oitenta, que conhecem isto por dentro, por fora e por todos os lados e com quem eu sei que poderei contar muito mais do que com quem quer que seja.

A proposta de levar o C. para a Europa chega para me provar que nem tudo foi tempo perdido na minha vida. Falta a aprovação da senhora, que a priori não está muito seduzida pela ideia.

A ver vamos.

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Segunda-feira é realmente um mau dia aqui. Devia ter ido logo para a "varanda". Agora está tudo ocupado, natural e obviamente. Vou para bordo. Prefiro não ouvir música de todo a ouvi-la má e aos gritos.