30.9.16

Cinquenta e nove

Faço hoje cinquenta e nove anos. O Facebook e o telefone portátil impedem-me de o esquecer, como já tantas vezes aconteceu antes.

Pouco interessa o que fica para trás, por bom, mau, insuportável ou maravilhoso que tenha sido. Foi isso tudo e muito mais. Interessa-me sobretudo o que aí vem: um projecto novo, outra vida, mais uma - outra! - tentativa para perceber este país e fazer parte dele.

Não é pouco e é nada. Já estive muito mais longe do que estou hoje e menos do que amanhã estarei de poder dizer sim a Rudyard Kipling:

"If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you,
If you can trust yourself when all men doubt you,
But make allowance for their doubting too;
If you can wait and not be tired by waiting,
Or being lied about, don’t deal in lies,
Or being hated, don’t give way to hating,
And yet don’t look too good, nor talk too wise:

If you can dream—and not make dreams your master;
If you can think—and not make thoughts your aim;
If you can meet with Triumph and Disaster
And treat those two impostors just the same;
If you can bear to hear the truth you’ve spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
And stoop and build ’em up with worn-out tools:

If you can make one heap of all your winnings
And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breathe a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: ‘Hold on!’

If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with Kings—nor lose the common touch,
If neither foes nor loving friends can hurt you,
If all men count with you, but none too much;
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds’ worth of distance run,
Yours is the Earth and everything that’s in it,
And—which is more—you’ll be a Man, my son!"

Carne de frango

Hoje fui comprar uma pizza para trazer para casa e disse que queria uma com carne. Com carne não temos, diz a jovem empregada. Mas eu vi aqui umas com frango. Ah, mas frango não é carne. Pois claro. Tem razão. Frango é carne para maricas, termino. Ainda esboçou um sim, mas parou no s inicial.

No outro dia vi-os a beijarem-se, ela e o colega na porta ao lado do restaurante. Não era bem um beijo, era mais um encontro de aspiradores.

Era bonito de se ver. São os dois bonitos, de resto. Mas ela é mais.

27.9.16

Por baixo

Estou em Pombal e bebo Licor Beirão. Duas primeiras.

Não fazem uma segunda, claro: sentado no canto do café para carregar o telefone e o computador, costas para a praça, por sinal bem bonita. Por baixo, mil vezes.

Déjà vu à voir

Fala-se muitas vezes na sensação de déjà vu. Se bem me lembro até o Sigmund falou nisso. Não me lembro do que disse. Nunca fui grande fã da psicanálise, forma sofisticada e cara da superstição - outra coisa sobre a qual ele falou, se a memória não me falha -.

Que se foda a memória, digo sempre que o termo vem à baila. Ou quase, pelo menos. Passa a vida a foder-nos, a memória.

Já o fenómeno contrário me interessa muito mais. Isto é. Passo a explicar. Foi assim:

Hoje passei por paisagens que me fascinaram e pensei mas já passei aqui tantas vezes e não as vi como é possível? Estava sentado no bar do comboio, as paisagens desfilavam rápidas como naqueles jogos em que temos de memorizar a posição de uma carta ou uma sequência de números ou o nome das miúdas que a seu tempo amámos. E foi assim que me ocorreu como é possível estar a ver isto pela primeira vez quando já aqui passei tantas vezes, tantas?

Que diria Sigmund? A que estranho fenómeno inconsciente associaria ele este de se ver pela primeira vez aquilo que se viu tantas vezes? Como, sei lá, descubro hoje um corpo que já vi nu vinte vezes? Como vejo hoje pela primeira vez o que ontem vi pela milésima? Como vejo agora de repente o futuro no que vi ontem feito passado?

Amanhã olharei para hoje e verei o depois de amanhã. Amanhã olharei para depois e verei o que não vi hoje.

Indignação justa

Tenho uma certa dificuldade em dar-me bem com as justas indignações por duas razões: a) serem auto-fágicas e b) o seu perfeito sentido do timing.

Alguém se lembra de ter visto um justo indignar-se num momento em que a sua indignação fosse irrelevante? A pergunta é retórica. Não. E alguém alguma vez viu uma justa indignação extinguir-se? Não, igualmente. A indignação justa alimenta-se a e de si própria como um fogo que cresce sem oxigénio ou um amor sem esperança.

Coisa que naturalmente não atinge os fundamentos da indignação justa. É justa e indignada.

Amarcord

Lembro-me perfeitamente. Nessa noite as lebres tinham-se embebedado com um molho de palha fermentada. Impossível acertar numa. Por causa dos zigzagues, claro. Eu estava sóbrio como um carvalho num dia de chuva. As lebres titubeavam. Via-as bem por causa dos raios que caíam sem cessar perto de onde elas andavam. Tentei dar ao cano da minha espingarda uma forma curvilínea, inspirando-me para tal nas formas da montanha russa a que em criança o meu pai me levava. As balas bem saíam aos esses, mas mesmo assim não acertava uma. O defeito era meu, claro. Não é sóbrio que se caçam lebres bêbadas, tal como a embriaguez não ajuda a caçá-las quando estão sóbrias. Um zigzague que se transforma no celebríssimo, excelentíssimo, adequadissimo zaguezig rosiano, círculo vicioso em virtuoso, noite sem sono em sono sem noite. Em miúdo divertia-me a dizer o alfabeto de trás para a frente. Tão bem, é preciso acrescentar, que um dia caí de costas numa piscina vazia: as letras definiam o sentido da minha marcha. Comecei a jogar à macaca com elas, mas perdia sempre: juntavam-se e formavam palavras, letras malditas. Um dia cresci. Aprendi a ignorá-las, moldá-las, dar-lhes a forma e o sentido que eu queria que elas tivessem e tomassem. Transformei-me num cavalinho de carrossel e agora lembro-me de quando caçava lebres montadas em montanhas russas.

Tel un petit moineau remorquant un Zeppelin par un jour de tempête, pauvre de lui, mes yeux se remplissent de larmes, amères larmes rien qu'en me rappelant de cet épisode auquel mes jeunes yeux (les mêmes en moins agés) assistèrent étant-je tout jeune, tout jeune, pauvre de moi et du petit moineau, une tragique tragédie qui laissa des marques atroces et indélébiles dans ma mémoire meurtrie

"Plût au ciel que le lecteur, enhardi et devenu
momentanément féroce comme ce qu'il lit, trouve, sans se
désorienter, son chemin abrupt et sauvage, à travers les
marécages désolés de ces pages sombres et pleines de poison;
car, à moins qu'il n'apporte dans sa lecture une logique
rigoureuse et une tension d'esprit égale au moins à sa
défiance, les émanations mortelles de ce livre imbiberont
son âme comme l'eau le sucre. Il n'est pas bon que tout le
monde lise les pages qui vont suivre ; quelques-uns seuls
savoureront ce fruit amer sans danger. Par conséquent, âme
timide, avant de pénétrer plus loin dans de pareilles landes
inexplorées, dirige tes talons en arrière et non en avant.
Écoute bien ce que je te dis : dirige tes talons en arrière
et non en avant, comme les yeux d'un fils qui se détourne
respectueusement de la contemplation auguste de la face
maternelle; ou, plutôt, comme un angle à perte de vue de
grues frileuses méditant beaucoup, qui, pendant l'hiver,
vole puissamment à travers le silence, toutes voiles
tendues, vers un point déterminé de l'horizon, d'où tout à
coup part un vent étrange et fort, précurseur de la tempête.
La grue la plus vieille et qui forme à elle seule
l'avant-garde, voyant cela, branle la tête comme une
personne raisonnable, conséquemment son bec aussi qu'elle
fait claquer, et n'est pas contente (moi, non plus, je ne le
serais pas à sa place), tandis que son vieux cou, dégarni de
plumes et contemporain de trois générations de grues, se
remue en ondulations irritées qui présagent l'orage qui
s'approche de plus en plus. Après avoir de sang-froid
regardé plusieurs fois de tous les côtés avec des yeux qui
renferment l'expérience, prudemment, la première (car,
c'est elle qui a le privilége de montrer les plumes de sa
queue aux autres grues inférieures en intelligence), avec
son cri vigilant de mélancolique sentinelle, pour repousser
l'ennemi commun, elle vire avec flexibilité la pointe de
la figure géométrique (c'est peut-être un triangle, mais on
ne voit pas le troisième côté que forment dans l'espace ces
curieux oiseaux de passage), soit à bâbord, soit à tribord,
comme un habile capitaine; et, manoeuvrant avec des ailes
qui ne paraissent pas plus grandes que celles d'un moineau,
parce qu'elle n'est pas bête, elle prend ainsi un autre
chemin philosophique et plus sûr.
"

Canto 1, Estrofe 1 dos Cantos de Maldoror. Isidore o apaziguador.

Arabescos, alfabeto, vida

Quem desdenha o arabesco não percebeu o papel fundamental que a linha curva tem no desenho do alfabeto.

Isto é, na vida.

Cruzes, rectas

Ainda sobre linhas direitas: uma cruz é feita de rectas.

Rectas

Uma linha recta só é o caminho mais curto entre dois pontos para os geómetras e para quem não vive neste planeta.

Sensatez e imaginação

É relativamente simples e sensato, tão simples e sensato como ensinar um canguru a comer sentado à mesa, de garfo e faça e esperar que ele aprenda.

Não aprenderá nunca, estúpido. Melhor deixá-lo correr e saltar pelos campos fora; não sabe fazer outra coisa.

Sabe: imaginar que um dia se sentará à mesa e comerá de garfo e faca.

25.9.16

Teologia contemporânea

Não percebo rigorosamente nada de teologia mas gosto dos nomes de alguns dos seus constituintes: Angelologia; Soteriologia; Hamartiologia; Demonologia.

Sobretudo porque o grande demónio dos nossos tempos - o "neo-liberalismo" (entre aspas porque metade dos que o invocam não sabem o que é) poderia muito bem começar a integrar o corpus dessas disciplinas:

Hamartiologia - estudo do pecado (ou, para os diferentes teísmos actuais: estudo do "neo-liberalismo"). Angelologia: estudo dos anjos (isto é, de quem não é "neo-liberal"). Soteriologia: estudo da salvação (identificar e denunciar o "neo-liberalismo"). Demonologia: vê-se à légua.

23.9.16

Rades, golfos e tempo

Um gajo está a entrar na rade de Hyères. Está frio, se bem não muito. Vai a motor porque o vento é pouco e de proa. As luzes da costa fazem-no pensar na saída do golfo de Salonica, tão linda e tão mais fria, há oito meses precisamente.

Isto é um bocado como estar a jantar e a pensar no almoço de ontem, só que o mar comprime o tempo.

20.9.16

Segundo lugar

As vezes ganha-se; outras fica-se em segundo lugar, ou terceiro, quarto... por aí fora.

E outras ainda não se fica em lugar nenhum: numa das primeiras America's Cup - ganha como todas até 1983 pelos Estados Unidos - um Almirante disse desolado à Rainha Vitória "Ganharam os americanos, Majestade". A Rainha perguntou "Quem ficou em segundo lugar?" O senhor respondeu "Nesta regata não há segundo lugar, Majestade".

Não é só na America's Cup que não há segundo lugar, claro. Mas não é por isso que a dor é menor.

19.9.16

Retroacções

Um gajo tem uma manhã  miserável. Passo os pormenores. Basta saber isto. A certa altura dessa manhã vai aos correios buscar livros que põe na mochila (a Vitus Turbo não tem nem nunca terá cesto). Noutra altura, diferente, dessa manhã - que já não o é, é tarde - vai almoçar. Não há alheiras nem favas nem bacalhau à Brás nem nada do que pede. Resigna-se ao bife, esperando o pior.

(O pior chegará: o bife estava uma merda do princípio ao fim).

Mas antes de o bife chegar um gajo abre um dos livos que foi buscar aos correios. É uma antologia de poemas de Blake.

O bife não estava uma merda. A manhã não foi miserável.

Irritação

Era bonita. Rosto juvenil, sardento. Tinha cinquenta anos mas vista de cima parecia ter vinte. De pé dava-se-lhe a idade correcta e dizia-se "está bem conservada" enquanto se acenava aprovadoramente com a cabeça.  "Se" eram sobretudo - mas não exclusivamente, longe disso - os meus colegas de equipa  (eu era jogador de futebol, nessa altura). Encontrámo-nos na Tailândia: tínhamos sido convidados para uma série de jogos amicais com clubes de vários países asiáticos. Nesse ano Portugal tinha ganho o Mundial e nenhuma equipa portuguesa escapava aos mais variados convites. Éramos olhados como semi-deuses, apesar de não passarmos de uma obscura colectividade local da terceira divisão.

Eu tinha vinte anos - era um bocadinho mais novo do que o filho dela - mas fui adoptado inicialmente como amante. Mais tarde passei a namorado, depois a namorado "oficial".

Um dia acordámos - estávamos juntos havia dois anos - e disse-me "tu irritas-me". Fizemos amor, como todas as manhãs. Tinha um orgasmo bonito. Rejuvenescia. Parecia ter vinte anos.

Fomos tomar o pequeno-almoço. "Tens de te ir embora". Olhou-me bem nos olhos e continuou: "agora, por favor".

18.9.16

O que não disseste

Enfim. Verdade seja dita: se tu sabes que uma palavra muda o mundo e se não queres sequer mudar nem o nome da tua rua mais vale ficares calado, não vá isto mudar tudo de supetão só por causa da palavra que disseste.

Se bem quantas vezes a que não dizes também. 

17.9.16

Imagina

É preciso imaginar um corpo leve, fluído em cima ou por baixo de ti, pouco importa para o objectivo: imaginar. Imaginar um corpo: ventre, mamas, olhos, uma cabeleira loura ou ruiva, lábios (é um corpo labirintico), mãos. Concentra-te nas mãos, no ventre. Tu estás nele e elas em ti. Imagina. Talvez a cabeleira seja morena. Equivalem-se os cabelos, as mãos, as mamas, os ventres. Tudo o que vês se equivale.

A diferença está no que ouves, as time goes by.

Como o tempo passa. Some day my prince will come. O que ouves mistura-se com o que queres ouvir, a kiss is just a kiss. Ne me quitte pas, je t'amenerai à l'ile de Ré, dis, quand reviendras-tu? Take five stolen moments why am I so black and blue no porto de Amsterdão?

A rapariga não canta tão bem como pensa que canta mas não faz mal. Um piano bem tocado paga tudo. Apaga tudo. Imagina, como dizia o outro.

Se não rebento

Quero dizer. Isto é : não sei se quero. Tenho. Tenho de dizer. É preciso dizer que. Um piano bem tocado é uma porta, ponte, espada (como em "não morras já / que tenho uma espada /que mata com mais amor" - Ou isto ou quase isto). Um piano bem tocado acompanhado por uma bateria e uma guitarra-baixo. Uma ponte uma porta uma porra. Uma porra, este enchimento de merdas que vêm do piano bem tocado. Enche-me o peito e a mona, uma merda sou eu que vos digo. Não as palavras. Eu. O pianista chama-se Emílio Robalo. Os outros não sei. Não ouvi. Isto é. Podia ter ouvido mas não ouvi. É o piano muito fluído, subtil, fode fininho mas no bom sentido, quero dizer. Não quero. Tenho.

Tudo isto na Fábrica do Braço de Prata. Sou o único velho gordo careca surdo e feio e as miúdas giras são aos montes, quase todas e a música é boa, muito boa. Há bocadinho tocaram um tema do Chick Corea, imagine-se. O sacana do Robalo toca bem, muito concentrado, muito pince sans rire, como se não fosse nada com ele, estivesse ali por acaso, "aprendi a tocar piano ontem, deixam-me tocar um bocadinho por favor?"

Vai muito bem com a sala, cheia de livros (alguns baratos) e com o Bayley's com Jameson que bebo e agora vem o Georgia, entrou uma cantora seja Deus (com maiúscula) louvado. Tenho de dizer.

Se não rebento.

Diário de Bordos - Lisboa, Portugal, 17-09-2016

Para já é preciso começar por dizer que o balcão da Portugália está cheio, o que é bom. E continuar não ignorando o facto de que noventa e nove vírgula nove por cento dos clientes são iguais a mim: velhos gordos e feios (e agora a única senhora vai-se embora, pelo que a percentagem de velhos gordos sobe para cem por cento).

Quase. Há mais duas. Não importa. Importante é reconhecer que a imperial está muito boa, sinal seguro de forte tiragem.

Sinal igualmente seguro de um bom fim de bom sábado,  coincidência feliz s'il en est, como diria o Asterix se por aqui andasse.

Não anda. Só potenciais Obelixes, grupo do qual me excluo desde já porque não sei caçar javalis, apesar se ser animal que muito aprecio no prato.

E já passei uma noite a caçá-los, pendurado numa árvore na Haute Savoie numa noite de inverno. Apanhei uma valente e memorável bebedeira, vá lá. Não perdi tudo. No dia seguinte a neve por baixo da árvore onde eu tinha passado a noite estava cheia de pegadas de javali.

A aguardente caseira - e excepcionalmente boa - é uma grande aliada dos gajos que são contra a caça. PAN, aqui fica a ideia: obrigar cada caçador a levar um litro de aguardente caseira  (se for francesa chama-se marc).

Morreriam talvez meia dúzia de caçadores mas salvar-se-iam dezenas de animais.

........
Bom, resta que um chilli con carne sem chillies - nem um pimento levou! - não é bem bem um chilli con carne. Mas tão pouco é um guisado. Fica assim a meio caminho e aposto que há muitos soi disant chillies (estou com a cabeca na Savóia, é assim que se diz Savoie?)

Foi o almoço de hoje é vai fazer parte da ementa fixa da Carta, uma porta que se abre e tem uma vista soberba para o futuro. Em breve num Santos perto de si.

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E disto depois e de tudo ficam milhares de coisas por dizer: não serei eu quem as dirá. Elas que se digam a si próprias que já são grandes. Nada posso se não correr atrás delas (as coisas por dizer) e pedir-lhes que fiquem um bocado mais, não se zanguem comigo. Ou então mandá-las para o raio que as parta. É o que merecem, as coisas por dizer aqui entre nós seja dito.

Quase retrato - nascença

Quando veio ao mundo em vez de chorar gritou "eu não sou dos vossos!" e assim não foi.

A bicyclette

Hoje fui a Alfragide na minha bicicleta Vitus Turbo (não é alcunha mas podia ser).

Se o Buda tivesse uma Vitus o conceito de desapego não existiria.

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Para além das teológicas andar de bicicleta tem vantagens noutras áreas. Oníricas, por exemplo. Hoje vi dois polícias em frente de uma embaixada. No passeio alguns vinte automóveis em dupla fila. Automóveis em dupla fila num passeio (parece que é habitual naquela avenida. Por causa de um colégio e de embaixadas).

Sonho com um mundo sem espaço para peões, carrinhos ou cadeiras de todas. Um mundo motorizado. "Vamos dar uma volta a pé?" "A pé??? Estás louco? Vai buscar o Mercedes. Ontem fomos no Audi. E na volta deixas-me no ginásio".

.........
Outra grande vantagem da bicicleta: faz-nos tomar contacto com os automobilistas - são muitos mais do que se deduziria pela mera observação das nossas ruas - que não passam com sinais encarnados, não entopem cruzamentos, não estacionam em cima de passeios ou de passadeiras. Enfim, automobilistas que cumprem escrupulosamente todas as regras de trânsito e de civismo.

São imensos, muitos. Mal nos vêem a andar em contra-mão ou a passar uma passadeira sem desmontar ou a fazer qualquer destas coisas eles manifestam-se. Eles cumprem escrupulosamente todas as regras e nós, ciclistas anarquicos não? Vá de se darem a conhecer, civil e educadamente com uma buzinadela, um grito ou um gesto.

Pena é não haver mais desses automobilistas, cumpridores e educados.

16.9.16

Diário de Bordos - Lisboa, Portugal, 16-09-2016

Dias cheios, cheiíssimos, que a falta de computador e de vontade de escrever no telefone esvaziam.

Como se não se tivesse passado nada, como se um dia este futuro que nestes dias se constrói, define, toma forma cores e cheiros vá parecer ter nascido do nada.

Dias de laudas à vida e a Lisboa, terra mãe, madrasta, amante, puta que se deixa foder com prazer, mulher que fode com mais sentimentos do que técnica.

Dias entrecortados por uma breve viagem ao Porto, cada vez mais bonito e vivo; e uma passagem nauseante em Obidos, felizmente breve e de raspão. Gosto do turismo mas detesto turistas.

Cada vez suporto menos tudo e todos os que estão longe de mim, ainda que ao lado. E gosto mais de quem está perto, mesmo que longe.

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Acabo Alentejo Prometido, de Henrique Raposo. O único defeito que lhe vejo é o malfadado acordo: não há direito de se estragar uma prosa tão bonita, limpa e escorreita com aquele crime ortográfico. De resto o livro é esplêndido. Procuro as causas do alarido que provocou e não as encontro. Espero que quem protestou contra aquele retrato corajoso, bem focado, informativo e desapaixonado esteja agora a roer-se de vergonha. Não está, de certeza. Só a inteligência se arrepende. A estupidez nunca o faz.

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Amanhã vou buscar o computador. A vida reatará o seu curso, como se as comportas da barragem deixassem passar palavras e não horas (ou minutos, que os não há de mais vazios).

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O nosso governo encadeia disparates uns atrás dos outros, como um epiléptico a tentar comer a sopa durante um ataque da doença. Aquilo é incontrolável. Tento não falar de política neste coitado deste blog, já tão massacrado pelas faltas de jeito e de interesse.

Mas o que este primeiro-ministro e respectivos acólitos fazem não releva apenas da política. É caso de perturbação mental; de tragédia, literatura ou - mais provavelmente - de circo.

Infelizmente na arena estamos nós e não os palhaços e malabaristas que nos e se governam. Em breve entrarão os leões em cena; os artistas estarão a salvo e nós na travessa que será servida aos bichos.

13.9.16

Prazeres, preços

De novo no comboio, desta vez para o Porto. Vou guiar a visita de inspecção de uns operadores canadianos. Preciso de aprender coisas sobre a cidade mas não consigo largar a biografia de O'Neill que A., a autora me ofereceu ontem.

O prazer de ler é um dos mais caros que conheço. Se não o mais caro.

Imagina

Grande noite de Beckett ontem no Povo. O prazer do texto espraiado pelo prazer de ler mai-lo de dizer.

"imagine si ceci
un jour ceci
un beau jour
imagine
si un jour
un beau jour ceci 
cessait 
imagine"

Imagina.