22.12.14

Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 21-12-2014

A cada hóspede da Little Crew House são dadas quatro chaves: portão principal, porta do quarto, cozinha e duches. Os duches e a cozinha são maus, mas precisam de chave "por causa das pessoas que não estão na pousada".

Hoje é a última noite que lá fico. Amanhã tenho a escolha entre um Amel, um trawler e, se for para a água na terça o meu velho conhecido C., no qual fiz uma viagem e uma amizade memoráveis.

Costumo dizer que sou um estrangeiro onde quer que esteja, mas não é verdade.

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O Amel e o trawler estão entregues a G. um brasileiro e português cuja família viveu em Lourenço Marques. O pai era director de uma empresa de petróleo. Foi para o Brasil depois da revolução "com a roupa que [tínhamos] no corpo"e fez uma fortuna. G. tem cinquenta e quatro anos. Veio para St. Martin para o baptizado de um afilhado mas não quer voltar para o Brasil. Os barcos pertencem a amigos dele que lhos deram para que ele tomasse conta deles aqui.

Entretanto vai fazendo uns trabalhos aqui e ali - mais para se manter ocupado do que por precisar de trabalhar, parece-me -. Cruzámo-nos a atravessar a rua para ir ao chinês. Cumprimentou-me em português, não porque me conhecesse mas porque não fala inglês. É uma simpatia, adorável como só os brasileiros sabem ser. Mesmo assim preferia que o C. fosse para a água. Quero estar sozinho. Assim que encontrar trabalho nunca mais terei um momento de solidão. Além disso o C. vai para Marigot, no lado francês.

Há vários tipos de solidão, exactamente como os silêncios são muito diferentes uns dos outros. Estou feliz com aquela a que finalmente cheguei. Ou veio a mim, não sei.

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Hoje é domingo, os lolos estão fechados. Tive de vir comer ao Yacht Club. Parece que ainda estou em Galveston. Comida de plástico - consegui o prodígio de comer uma jerk chicken que não sabia rigorosamente a nada - empregadas a perguntar de cinco em cinco minutos "está tudo bem with you, sir?" e, no fim, uma conta desproporcionada à qual vai ser preciso adicionar a gorjeta.

Vou começar a trabalhar aqui, mas assim que puder mudo-me para o sul, para as minhas Caraíbas: St. Vincent, Grenadines, Union Island, Deux Pitons, Bequia.

Bequia.

21.12.14

Cegueira

Ouvir um imbecil expor a sua imbecilidade ajuda a perceber o que é a cegueira.

Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 20-12-2014

"And Anticlea came, whom I beat off, and then Tiresias Theban,
Holding his golden wand, knew me and spoke first:
'A second time? why? man of ill star,
'Facing the sunless dead and this joyless region?
'Stand from the fosse, leave me my bloody bever
'For soothsay.'
               And I stepped back,
And he strong with the blood, said then: 'Odysseus
'Shalt return through spiteful Neptune, over dark seas,
'Lose all companions.' Then Anticlea came,
...
and he sailed, by Sirens and thence outward and away
And unto Circe."

Ezra Pound, in "Selected Cantos of Ezra Pound", Faber and Faber Limited, London, 1967

Não são precisas grandes explicações. Nunca li Pound com olhos de ler. No princípio do ano comprei este pequeno volume. Começo-o agora e sai-me isto. Há um tempo certo para tudo. Podemos comprimi-lo, como fez o London, que vivia num dia o que os outros vivem num mês. Ou esticá-lo, como eu (toutes proportions gardées, claro).

Não posso dizer "No meu tempo...". É uma dádiva.

20.12.14

Diário de Bordos - St. Martin, Antilhas Francesas, e St. Maarten, Antilhas Holandesas, 18 a 20-12-2014

Vamos começar pelo princípio: vou pagar caro esta sucessão de viagens de avião agradáveis, com espaço para as pernas e para dormir.

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E agora?

Estou num lolo chamado Chez Coco. Não é o meu favorito mas é o único que está aberto. E tem karaoke, coisa que particularmente detesto.

A rapariga do Arawhak ofereceu-me o segundo ti'punch. À saída do aeroporto encontrei um táxi que me trouxe por um preço correcto. É o vice-presidente da associação de táxis. Pediu-me que se algum táxi me levasse mais de vinte dólares para me levar do aeroporto a Marigot lhe telefonasse.

O Centr'hotel tem quartos.

"Não sou grande fan de karaoke", digo à rapariga do Chez Coco.
"És fan de quê? De escrever?" responde com um sorriso rasgado.
"Tens vinho aberto?"
"Se não tiver abro-o para ti".

Estou nas ilhas.

O dono do Arawhak lembra-se de mim. Recebe-me com um sorriso e um aperto de mão franco, forte, aberto.

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Cortei o cabelo, fiz cartões de visita, comprei pólos brancos e adaptadores para as tomadas, tenho um número de telefone local.

Não está demasiado calor.

E agora?

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Os duches da My Little Guest House são uma merda. Toda a My Little Guest House é uma merda, de resto. Mas custa metade do preço do Centr'hotel (ou seja, é caríssima. Tem muito menos de metade da qualidade).

Gosto do nome. Podia chamar-se My Shitty Crew House, por exemplo. Ou My Lousy Crew House.

E posso cozinhar.

Se bem hoje ainda tenha ido jantar à tasca da colombiana, do outro lado da rua. Mas já tenho pequeno-almoço para amanhã. E todas as refeições serão feitas e comidas na My Shitty Kitchen House.

Vou dormir num quarto colectivo. Não ter dinheiro é uma viagem no tempo.

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A Little Crew House fica na Lagoon Marina. por baixo tem um café / bar / restaurante chamado Lagoonies. Há três anos trabalhava aqui uma brasileira linda como se quisesse provar que a evolução por vezes acerta. Que por vezes há um bocadinho de sentido no acaso.

Agora pertence a um francês e só lá trabalham franceses e uma miúda que não é francesa e me põe a mão nas costas cada vez que me pergunta se quero alguma coisa. Pergunta vezes de mais. Hoje [sexta-feira] tem música ao vivo. Um bom guitarrista, uma cantora, um baixo e um bateria assim assim. Estou à espera que acabe para me ir deitar. Tocam demasiado alto e tenho os ouvidos aos gritos. Querer dormir com este barulho é como ir à praia e não querer ficar cheio de areia.

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St. Martin deve ser um maravilhoso caso para se estudar a convivência de duas culturas diferentes. Holandeses e franceses partilham a ilha desde 1648. Nunca houve fronteiras dignas desse nome - sempre se circulou livremente entre a "parte francesa" e a "parte holandesa". O dialecto local é comum. A ilha é vista como uma cidade, da qual as aldeias ou aglomerados são os bairros, independentemente de estarem de um ou do outro lado da linha.


Mas as diferenças são grandes, espantosas. Quem conhece a França reconhece-a na parte francesa. O memsmo não se passa com a Holanda e a parte holandesa, muito mais caótica, vibrante, suja, rica, pobre.

Em St. Martin come-se melhor. Em St. Maarten mais variado. Os negócios estão do lado holandês. A qualidade de vida do lado francês. Os holandeses interferem muito pouco no governo da ilha. Os franceses começaram agora uma tímida, muito tímida tentativa de descentralização - que a administração local aproveitou para criar um imposto, claro (que de resto se compreende. Estes territórios viviam à custa de transferências da "metrópole", daí a qualidade de vida) .

É um pouco como ter dois jardins lado a lado: um à francesa e outro à inglesa.

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A mistura de chateado e excitado com a qual vim para aqui começa a esbater-se. Fica a excitação, a luta, a adrenalina, o desafio.

Barcos, armadores

"Os bons barcos raramente têm os donos que merecem" diz-me L., meu vizinho em Galveston.

Detesto confirmar estas ideias pessimistas,  estas visões cínicas da realidade.

17.12.14

Limites

Os limites da palavra são os mesmos do que os do silêncio.

Diário de Bordos - Galveston, Texas, Estados Unidos, 16-12-2014

O motor de arranque chegou com dois dias de atraso, só. O motor arrancou à primeira; não foi preciso mudar ou limpar filtros. A caixa funcionou - mal, mas funcionou -; o T. L. libertou-me mais cedo do que eu esperava.

Amanhã parto de Galveston. Poucas saudades levarei comigo: uma bicicleta de titânio e carbono que não só me fazia lamentar chegar aos destinos mas também, bastas vezes, me fez passá-los. Uma barmaid que desconhece Alexanders, Talisker e provavelmente outras coisas que não perguntei mas é linda de se morrer especado à frente dela. E - sobretudo - uma embarcação sublime cujos armadores pensam que eu estive a preparar para ser vendida mas na verdade estive a preparar para morrer (tentei fazê-la digna, pelo menos: vai limpa como nunca esteve e com uma série de sistemas a funcionar).

É um barco lindo de se viver por ele. Vai ficar na água uma eternidade, finda a qual - todas as eternidades têm um fim - os armadores vão pensar que tê-lo em terra é mais barato. Ali vai ficar a apodrecer até que um atrasado mental ou um marinheiro (não é um pleonasmo, embora pareça) veja nele um bom negócio (no primeiro caso) ou uma coisa linda, linda, linda (no segundo, e é qu oe impede o pleonasmo).

Aí será comprada por uma ninharia e maltratada, por uma fortuna.

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Não vou para onde queria. Vou para onde posso. Quero mudar de vida, mas a vida não quer que eu a mude. Ao contrário das mulheres e do dinheiro o mar pega-se a mim como se, sem ele, eu não respirasse ou transpirasse. Ou pensasse. Ou vivesse.

Amanhã à noite estarei em St. Martin.

Devo dizer que a perspectiva de mudar de vida depois de uma época nas Caraíbas não me desagrada inteiramente. Nestes últimos dois anos fiz duas viagens: uma travessia do Atlântico problemática e  uma viagem de San Francisco a Panamá que serviu para compensar, ab ante, tudo o que seguiria.

Não chega. Preciso de acordar por baixo dos Deux Pitons, beber runs no meu amigo Lúcifer em Bequia, comer as accras do Comme à la Maison e o boudin créole do vizinho na Martinique, o philly steak da Sandra em Antigua, mergulhar nas Tobago Cays, fumar charros em Union Island na tasca do meu amigo rasta, beber rum punch no Robert em Mayreau ou no Mad Mongoose em Falmouth Harbour.

Preciso, enfim, de recompor o passado, antes de começar um futuro.

Um verso de Brel que li recentemente: "Il nous fallut bien du talent pour être vieux sans être adultes".

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Último jantar em Galveston. Vim ao Stuttgarten. Amanhã à noite estarei no Arawak a beber um ti' punch e pensarei que o mundo é sempre "mais pequeno do que o viajante que nele viaja".

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Amanhã esperam-me três horas no aeroporto de Miami. Ainda haverá o café mexicano? Ainda terá as margaritas gigantes?

Porque é que o meu mundo é tão pequeno?

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Há uma série de coisas que não fiz em Galveston: não andei na montanha russa (tem um loop); não visitei o submarino do museu naval e não comi um bom chilli. Preciso de razões mais fortes para cá voltar.

16.12.14

Banalidades de base

Quanto mais excepcional uma pessoa se vê ou se dá a ver, quanto mais especial se julga, mais vulgar e banal se descobre ao fim de meia dúzia de conversas. Ou menos.

15.12.14

Paráfrase

Aquilo que não pode ser compreendido não deve ser dito.

14.12.14

Genes, neardenthal

Não percebo muito bem o recente debate sobre a possível remanescência de genes do neardenthal no homo sapiens. Conheço tantos neardenthal puro-sangue que me admiro muito mais com a sobrevivência dos genes sapiens.

13.12.14

Diário de Bordos - Galveston, Texas, Estados Unidos, 12-12-2014

Nada mais há a fazer se não esperar. É a pior coisa do mundo, esperar. Aqui tem várias circunstâncias agravantes: esperar sem saber até quando; em Galveston, cidade que quanto mais conheço mais me desgosta; e sem receber, porque a culpa é minha, só minha e não dos meus (de resto adoráveis) patrões.

De modo aqui estou, a contar os cents e a pensar no que farei quando regressar a Portugal. Estou ansioso - mudar de vida é ansiógeno, por muito que o queiramos e esperemos.

Enquanto espero oiço Joe Cocker, um senhor que devia ter ouvido mais há muito tempo e não é só You are so beautiful ou With a little help from my friends (de resto canções muito bonitas, de passagem seja dito. E que prefiro de longe cantadas por ele).



In America you'll get food to eat
Won't have to run through the jungle
And scuff up your feet
You'll just sing about Jesus and drink wine all day
It's great to be an American

Ain't no lions or tigers-ain't no mamba snake
Just the sweet watermelon and the buckwheat cake
Ev'rybody is as happy as a man can be
Climb aboard, little wog-sail away with me

Sail away-sail away
We will cross the mighty ocean into Charleston Bay
Sail away-sail away
We will cross the mighty ocean into Charleston Bay

In America every man is free
To take care of his home and his family
You'll be as happy as a monkey in a monkey tree
You're all gonna be an American

Sail away-sail away
We will cross the mighty ocean into Charleston Bay
Sail away-sail away
We will cross the mighty ocean into Charleston Bay

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Há muito quem pense que os barcos fazem barulho, ou barulhos se preferirem. Não é bem verdade. Os barcos conversam - entre si quando não têm ninguém a bordo, com os tripulantes quando os têm -.

É importante ouvi-los, do mais inocente murmúrio às irritantes queixas das adriças nos mastros. Eles não falam por acaso.

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Galveston tem duas categorias de habitantes: os BOI e os IBA. Born on the Island e Islander by adoption. Não há limites para o chauvinismo nem reduto que lhe esteja imune.

Quase - retrato

Não tem onde cair doente, quanto mais morto.

11.12.14

Pacto

Fiz um pacto com a tristeza. Ela deixa de me perseguir e eu de a procurar.

Inimigo interior

As ideias preconcebidas são os piores inimigos que se pode ter. 

Não podemos viver sem elas, mas provocam nove em cada dez erros que cometemos.

8.12.14

Raiva, despeito

Vistos de fora a raiva e o despeito podem confundir-se.

De dentro também.