21.4.19

Neutrão, abismo

Em breve partirei de Palma. Acrescento entredentes "se Deus quiser" e penso que trocar-se uma cidade que se adora por um sítio que nunca se viu é mais ou menos como tentar não se pensar na mulher que se ama: sabe-se que estão lá e lá ficarão, núcleos de átomos dos quais não se é mais do que um neutrão, na melhor das hipóteses. Já "se Deus quiser" é a manifestação espúria do desejo de que o abismo não comece amanhã. Um pedido de clemência, vá lá: vou-me embora / não penso nela, mas tu, abismo deixas-me continuar vivo?

Da relatividade das pragas e respectiva ubiquidade

O nosso tempo tem pragas como o terrorismo muçulmano, as politicas identitárias ou o politicamente correcto. Coisas que nos envenenam os dias e nos fazem duvidar do conceito de progresso.

Nenhuma dessas pragas, porém, chega ao calcanhar da ubiquidade das pizzarias, do Nespresso e dos animais de estimação.

Quando?

À sua volta, o mundo refazia-se diariamente. Porém, ao fim de tantos anos ele aprendera a ver o sentido das mudanças, antes imperceptível. No fundo, um funil é apenas a forma portátil de um turbilhão, de um remoínho. Aprender a ler quando se transvasa um líquido qualquer para um recipiente mais pequeno, com a ajuda desse precioso instrumento; sobreviver quando no estreito de Messina um gigantesco remoínho nos agarra a embarcação pela quilha e dela faz um pião; usar da vida os turbilhões como as crianças um escorrega no parque infantil - formas diferentes dessa coisa una, indivisa que se chama vida? Ou formas fundamentalmente semelhantes de uma vida múltipla? Pouco importa. Tudo toma forma, pouco a pouco.

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A verdadeira questão não é a vida. É a morte, é saber quando passamos para o lado de lá da linha: ainda estaremos a usar os anos de vida, ou já estamos do outro lado, a consumir os que a morte tão generosamente nos emprestou? Onde situar essa linha? Os árabes diziam: "plantar uma árvore, escrever um livro, fazer um filho". Sabe a pouco, ou temos a mania das grandezas e não nos apercebemos de que tudo o mais é fútil, é vinho num funil, seio bonito que o desejo nos faz esquecer quantas vezes acariciámos, lábios já tão beijados... Para que queremos mais?

Começamos do lado da vida; um dia passamos para o da morte. Não perguntes porquê ou como. Pergunta quando.

20.4.19

Diário de Bordos - Genève, Suíça, 20-04-2019

O último de cinco dias em Genebra: logo à noite estarei em Palma, num dos meus outros mundos. Em época de reconciliações, acrescento uma a esta lista feliz: vi um programa de televisão que me encheu as medidas e me trouxe à memória um debate, antigo mas sempre válido, ao qual o meu interlocutor exasperado pôs fim dizendo-me "tu defendes a televisão porque não a vês". É verdade, Ph., mas também é verdade que quando a vejo (e não me refiro só ao canal Mezzo, que não é bem televisão, é outra coisa) sei que tenho razão: não se deve confundir o medium com a mensagem, diga o McLuhan o que quiser.

(O programa chama-se La Grande Librairie. A quem fale francês e se interesse pelas religiões e pelo seu papel no mundo moderno sugiro intensamente que o veja. É uma hora e meia de jouissance. Atenção, só está disponível até dia 26 deste mês).

Enquanto ouvia o programa perguntava-me quem teríamos em Portugal para replicar um debate igual e a resposta é o nome do outro. Não há selvagens de colete amarelo, encarnado, preto ou seja qual for a cor que consigam fazer esquecer a qualidade da vida intelectual francesa.

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(Cont.)

19.4.19

O sentido da vida

Acordo em Genebra e apercebo-me de que à lista das minhas cidades (no sentido lato) - Lisboa, Palma, Mértola - é preciso acrescentar esta.

História, geografia e ciência do caos: ainda há quem procure o sentido da vida? Comece por aqui.

18.4.19

Declaração de intenções

Um blog no primeiro, segundo e terceiro graus sobre poesia, política, economia, cozinha, navegação à vela, afectos, literatura, cinema, amor, restaurantes - numa palavra, Maiakovski: "Honorés camarades de l'avenir, je vous parlerai du temps et de moi".

Foi esta a primeira declaração de intenções do Don Vivo. Continua válida. 

"Conheço-os. Sou um deles"

A ideia original era traduzir a história, mas é linda de mais, é a melhor descrição de um marinheiro que vi até hoje. Vem num livro chamado "Secretos del Mediterráneo", de Lluis Ferrés Gurt: o capitão de uma embarcação luta denodadamente contra um temporal. Quando se apercebe de que vai perder agarra-se a um estai e grita para o vento "Reconhecerás pelo menos que te entrego o meu navio em bom estado".

[Adenda: o título do post é uma tradução desajeitada de um verso que no original inglês diz "I know them. I am one of them". É óbvio que a repetição do pronome é importante e que eu devia ter resistido à mania de não usar o inglês excepto em casos de força maior. Este é inegavelmente um desses casos.]

Passos, palavras

Pôr palavras umas depois da outras com o mesmo cuidado - e o mesmo escrutínio - com que miúdos púnhamos um pé à frente do outro para medir qualquer coisa, com uma concentração de vida e de morte.

De onde vêm? Quem deu o primeiro passo? Quem primeiro marcou no chão de terra uma dor, uma alegria ou esperança, um sorriso, a fremência do primeiro beijo, a brisa que antes de te acordar te agitou os sonhos e os misturou todos, como se a paleta de aguarelas que seguravas se tivesse entornado, como se a chuva?

Os teus passos são delicados; palavras de quem sabe os perigos do caminho, os precipícios, as zagaias que não espreitam mais ninguém se não tu. Um a um, uma a uma, vida a vida.  

O resto guardas na memória. Ou melhor: nas memórias. As que já tens e as que um dia terás, quando se te acabarem os passos, as palavras, as vidas.

17.4.19

Moicanas

As donas da livraria-café feminista-alternativo-LGBTQIYZWQETEAX onde gosto de ir parecem homens.

As lésbicas são os últimos machistas.

Para os dois

Percebes, Pedro - Bruno pronuncia claramente o meu nome, sublinha-o,  porque no fundo se dirige a si próprio e aquele Pedro na verdade é Bruno - o estúpido desta situação é que se ela aceitasse o meu amor não precisaria de me amar. O meu amor por ela chega para os dois. 

15.4.19

Demiurgo

Poema do dia:

Eu purgo o demiurgo que há em mim. 

14.4.19

Diário de Bordos - Sneek, Friesland, Países Baixos, 14-04-2019

Neste país as mulheres ou são muito bonitas ou muito feias; não há meio-termo. Os homens são teimosos como mulas e altos. Parecem máquinas, eles e elas, mas desenhadas por deuses diferentes.

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Países Baixos é mais bonito do que Holanda e igualmente impreciso. Devia ser Países Flutuantes: há água por todo o lado. Por vezes pergunto-me se não será a única coisa flexível que têm, mas depois apercebo-me de que não os conheço o suficiente para fazer este tipo de julgamentos.

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Vamos todos embora, repatriados. O estaleiro só fez merda, a mulher do armador está doente e ele quer ficar aqui sozinho a lidar com o estaleiro. Há poucas asneiras que aprecio mais do que esta: preciso de uns dias em Genebra e esta é uma ocasião que não podia vir mais a calhar.

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Está frio, mas as esplanadas estão cheias: as pessoas preferem o sol ao calor. Compreendo-as, mas pouco tempo depois de me sentar ao "sol" (aspas porque é um manifesto exagero) venho para um café beber copos e escrever. Não sei se a ordem é esta, se a inversa, ou se há sequer uma ordem. Acontecem simultaneamente.

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Uma amizade que nasceu epistolar (não nasceu, mas pelo menos cresceu) ressuscita pela mesma via. Não se deve subestimar o poder da palavra escrita, mesmo que o universo de leitores seja uma pessoa: há leitores que valem um planeta, uma vida.

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O clima de Portugal é o pior inimigo dos portugueses: por causa dele aceitamos os políticos que temos.

Admiração, inveja

A pergunta foi feita uma vez com uma razão específica, mas é universal: um amor que nasce da admiração conta como amor? A igualdade é a base de todos os amores, a sua condição de sobrevivência, de durabilidade, etc. Mas: a admiração coexiste com a igualdade? Podemos admirar-nos entre iguais?

Devemos. Entre desiguais a admiração tenderá inevitavelmente para a inveja e não é bonita.

13.4.19

Diário de Bordos - Sneek, Friesland, Países Baixos, 13-04-2019

Sábado amanheceu com um nevão, chuva e ainda um pouco mais frio do que o costume, o trabalho do estaleiro está péssimo, vamos todos voltar para casa, não só não chego a Paris de barco mas nem sequer saio da Holanda. Este é o plano por agora, pelo menos. Vamos ver o que amanhã nos reserva.

De garantido, só o frio e a chuva, neve e granizo a alternarem com um céu azul de morrer, estes holandeses de quem o sorriso esconde uma teimosia ilimitada e as holandesas, obras ora de Deus - quando são bonitas - ora do Diabo, caso contrário: não há meio termo, ou são lindas de cegar ou feias de não se poder olhar para elas.

O que fica do que foi?

Explodes-me as noites, mulher, transpiras-me os sonhos, envolves-me as mãos, monopolizas-me o querer, desvias-me dos olhos a luz.

Dos dias que vivi sobras tu.

Sorte, pequena

Uma frase bem escrita, um café bem feito, um chá saboroso, uma miúda gira e simpática que se senta ao nosso lado no avião, uma viagem bonita à nossa espera.

É tão simples, não é? Fazer um café decente, alinhar meia dúzia de palavras de uma forma harmoniosa, agradecer à genética ter sido misericordiosa com a vizinha (e já agora aos pais, que a beleza mal-educada não passa de desperdício), ter sorte.

Não falo de sorte grande, lotaria, toto-milhões; mas sim da sorte simples, lhana, sorte nem grande nem pequena, daquela de nos perguntarmos: "Ontem o dia foi bom e hoje foi um bocadinho, um milímetro melhor. Como será amanhã?" e estarmo-nos nas tintas para a resposta.

10.4.19

Fluição

Não é só o frio, abominável: oito de máxima,  um de mínima (vá lá que são acima de zero. Amanhã baixa para um negativo). O pior não é o frio. É eu gostar disto e não saber como vai ser quando não houver mais. O bote não está pronto, a tripulação é porreira, a Holanda está cheia de água em todo o lado e de miúdas giras idem, hoje comi um papet vaudois como nunca comi, no sábado largamos se o tempo estiver bom, o bote é lindo e porreiro, parece uma miúda gira apesar de não ser muito miúda, é como uma que conheci há uns anos, trabalha num banco e é gira que se farta, hoje experimentei uma bicicleta eléctrica pela primeira vez e é assim que os dias vão correndo.

Correndo não: fluindo.

8.4.19

De onde sou

Aprendemos muitas coisas em Palma, basta querer. Eu quero, prometo, mas só as coisas que não conheço. As outras ponho no alforje, já basto carregado.

De modo temos de nos quedar pelo jantar, pelas coisas que fazem de nós humanos, por esta difusa sensação de pertença. Sou daqui; sou de todos os sítios onde já fui feliz, onde sou ou - quem sabe? - um dia serei. 

O fim de uma ilusão (princípio de outra)

Uma cidade também é isto. Não; uma cidade é isto: encontrar aldeias, grupos, nichos, destruir preconceitos e construir novos: aprender. Uma cidade ensina, o campo sedimenta o que a cidade nos ensinou. Tempos diferentes, preconceitos reconstruídos... Há ele maior prazer do que descobrir que se está enganado?

Talvez este post se venha a chamar "Pasta alla bolognese, divagações e fim"; ou "Ragù bolognese, o fim de uma ilusão". Ou qualquer coisa assim.

Ou seja: hoje fiquei a saber que nem o  bolognese nem o ragù são "molhos de tomate com carne", como sempre pensei, mas sim o contrário: molhos de carne sem tomate. Devo a descoberta ao Luca, o italiano do Mercat del Olivar e à sua mulher Silvia, a quem estarei para sempre grato. Devíamos todos trocar de preconceitos como trocamos de camisas (menos frequentemente, claro); e ficar grato às cidades, porque nos proporcionam mais ocasiões para o fazer (e têm 5 à Sec para as camisas).

A razão é simples: um citadino que chega ao campo sabe que não sabe nada do que ali se passa. O mesmo homem numa cidade sabe tudo. Está portanto muito mais habilitado a reaprender, enquanto que no campo só pode aprender.

Ora se aprender é bom, reaprender é melhor, como o próprio prefixo indica.