15.8.18

Para ti

Senta-te no membro erecto que aponta para onde apontam as árvores e as catedrais.

Ele aponta para ti.

A vitória é nossa

Vejo cada vez mais mulheres jovens sem soutien. O feminismo está a ganhar, louvado seja.

Diário de Bordos - Esporles, Mallorca, Baleares, Espanha, 15-08-2018

Uma daquelas "praias" da Tramuntana, com quilómetros de aspas de um lado e outro. Pedras, água transparente, um chiringuito, mais pedras, arribas, mar, muito mar completamente transparente junto à "praia". Neste chiringuito os preços são aceitáveis, não traumatizam como nos outros e a "praia" é realmente bonita, não é apenas exótica, very typical indeed com as suas garagens para barcos cavadas na rocha, a rampa, os botes muito arrumadinhos e cuidados. "Só falta uma companhia para que isto seja mais do que uma praia bonita", li recentemente num post do FB, cito livremente, metade citação metade paráfrase mas o senido é esse: é a companhia que torna a beleza tridimensional.

O dono do chiringuito não é muito simpático. Deve ser Mallorquin: estas ilhas são lugar de passagem há milhares de anos; as pessoas não são acolhedoras: os estrangeiros vão e vêm, não ficam e deles ja os ilhéus viram muitos. A diferença com os Açores é total, chocante. Aqui começa-se por se desconfiar de um estrangeiro e se calha este decidir que o sítio é bonito e assentar arraiais continua estrangeiro até à terceira geração.

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O chiringuito encheu-se. Chama-se La Punteta e as senhoras que ainda há pouco na "praia" não tinham as partes de cima dos bikinis agora têm-nas e paradoxalmente trocam-nas por outras secas.

As técnicas variam e os resultados também. Algumas são dignas de Mr. Bean e alguns oscilantes, sem jogo de palavras: vão do completamente conseguido às gratas memórias de Bo Derek (enfim, este foi só um caso, mas não se perde nada em ser-se optimista).

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Os meus primeiros contactos, por assim dizer, com o povo alemão foi através dos livros de Heinrich Böll. Não os li todos mas li muitos, desde o Bilhar às Nove e meia até ao extraordinário Pontos de Vista de um Palhaço, Retrato de Grupo, etc. Depois vi os filmes do Fassbinder e contrariamente à opinião geral, ao zeitgeist e aos alemães eles-próprios decidi que era um povo amável (que se pode amar). Mais tarde comecei a ir muitas vezes à Alemanha - admitidamente só a duas cidades, Düsseldorf e Berlin - e apercebi-me de que não deve ser muito diferente da Suíça: só é bom quando se lá chega e quando se de lá sai. Mas a impressão geral ficou: um sítio agradável à vista, um povo trabalhador no qual se pode confiar, mulheres bonitas e com outras qualidades que agora são irrelevantes.

Mallorca põe à prova essa boa vontade. Alguém me diss um dia que as Baleares são o décimo séptimo Länder da Alemanha. Nao sei se aritmeticamente está correcto (agora está, foi corrigido) e se o senhor se referia às Baleares todas ou só a Mallorca.

Só sei que estou farto de ouvir alemão e que de cada vez que o oiço me apetece esganar alguém - normalmente a pessoa que está a falar.

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Vim-me embora do chiringuito e no caminho parei para abastecer com hierbas secas em Esporles, mais um lugar very typical da Tramunana. É fantástico como estes lugares conseguem simultaneamente ser very typical e agradáveis, não são nem travesti nem ersatz, são reais, autênticos. Falta-lhes um Medina & Salgado, sem dúvida.

Camadas de nós

Não nos víamos frequentemente, todos os dias estávamos ansiosos um pelo outro, precisava dela para respirar ela de mim para viver, dizia-me e eu acreditava de maneira quando nos encontrávamos e passávamos uma noite juntos refazíamos o mundo camada a camada. Ou melhor, duas camadas a duas camadas: ela por cima eu por baixo eu por cima ela por baixo um ao lado do outro um atrás do outro o outro atrás do um, um e outro entrelaçados indistinguíveis um do outro.

14.8.18

Simples, uma palavra simples

Trôpego, sôfrego, lôbrego, sem fôlego, arquejante, uma sílaba na mão como se fosse garrafa de vinho tinto e meia dúzia delas no bornal a tiracolo avanças, tropeças, cais, levantas-te sem protestos, sem nunca reclamares o aconchego de uma palavra inteira, simples que seja.

Presença, ausência

Escorregas pelas palavras ou são elas que passam por ti, como as árvores que vês na paisagem quando viajas de comboio? (Mentalmente, claro. Viajas apenas na tua cabeça, mas isso não tira verdade nem cor às árvores que vês como se as estivesses a ver).

Estás imóvel nessa noite em que entraste doce, gentil, voluntariamente e elas passam por ti como balas, ou pelo contrário és tu o projéctil e elas alvos esquivos, hábeis, carinhosas e receptivas na aparência, só na aparência?

Não sabes. Vês a noite como um funil sem fim, entraste mas não sais dela, gota de luz perdida no universo. Não sabes se és tu quem se move se as estrelas.

Lembras-te de algumas palavras, longinquas mas que te parecem seguir: amor, solidão, felicidade, melancolia, tristeza, ontem, amanhã. Essas estão sempre contigo, como um escudo, ou são antes os andaimes do teu mundo?

São parte de ti ou dessa paisagem, desse comboio pelo qual anseias, do qual te lembras, onde vives? Onde as pões, essas palavras quando não tens comboio nem paisagem nem noite nem árvores, tempo, luz, nada se não esta ausência tão presente, tão insuportavelmente presente?

13.8.18

Um dia, uma vida

Não conheço muitas outras profissões e não falo por elas; mas em tudo o que respeita a barcos e mar o que nós gostaríamos que acontecesse - ou esperamos, num marinheiro coincidem sempre - e o que de facto acontece estão separados por um abismo. Esse abismo é intransponível e aquilo que distingue um marinheiro das pessoas ditas "normais" é nós sabermos que o vamos não só transpôr mas também encher, esse abismo vai desaparecer, cheio com o que temos à mão e nada mais. É só uma questão de tempo, teimosia - e dinheiro, claro. Felizmente as coisas estão organizadas de tal forma que ao fim do dia as contas ficam sempre favoráveis. 

Tudo depende do tamanho do dia.

12.8.18

Hallelujah, cont.

Como se distibngue um maquinista naval extraordinário de um daqueles que se limita a fazer milagres quotidianamente?  A resposta é simples, mas exige que se os veja trabalhar.

Um maquinista naval "normal" (entre aspas porque isto é, como vimos um oxímoro) trabalha. Aperta, desaperta, mede e ao fim de um certo tempo diz "Já está. Vamos ver se funciona" (a modéstia dos grandes...) Um Christian, um Salvador, um outro do Marin cujo nome agora me escapa, Jean-Pierre ou Jean-Philippe ou coisa que o valha não trabalham. Eles falam com o motor ou com o aparelho que está defeituoso. Olha-se para eles e só ao fim de um bocado se percebe que estão persuadir o motor, não o estão a reparar.  A persuasão é o seu método de trabalho; as ferramentas estão ali só para dar ao motor a possibilidade de salvar a cara, como os chineses. Quando acabam dizem a mesma coisa, mas dirigindo-se ao que acabaram de reparar. "Já está. Vais funcionar?" Invariavelmente funciona e se estivermos com atenção veremos que eles se inclinam numa vénia e agradecem.

Hallelujah

De todo o vasto leque de profissões, tenho um respeito muito particular por meia dúzia delas: médicos, coreógrafos, músicos, por exemplo. Pelos marinheiros não é propriamente respeito: é mais uma sensação de pertença, de tribo, grupo. "I know them, / I am one of them", diz um poema de que gosto imensamente.

Mas há uma profissão e uma só pela qual sinto uma veneração sem fim, uma mescla de admiração, inveja, incompreensão, respeito, amor, tudo isto num caldo de gratidão: são os maquinistas navais, agora conhecidos por engenheiros navais, ou engenheiros de máquinas. Não sei como se chamam; sei o que fazem: milagres todos os dias. Um engenheiro maquinista naval é o summum da evolução, uma espécie de Einstein cum Tesla colectivos, disseminados por esses oceanos fora.

A minha relação com os maquinistas, como sempre os conheci, data de muito longe: os do rebocador de alto mar CINTRA que uma vez rebobinaram uma bobine qualquer a bordo, não me lembro de qual, mas sei que era grande e sem ela o navio não navegava - esta história chegou-me pelo meu Pai, ao tempo capitão do navio - de tal forma quando chegaram a Inglaterra (o CINTRA estava de atenção em Penzance Bay, na Cornualha) os ingleses recusaram-se terminantemente a acreditar que aquilo tinha sido feito à mão, no mar e foi preciso o meu Pai impõr-se; ou no RIO CUANZA, quando descobrimos que o navio estava a perder água e se chegou à conclusão de que só podia ser pelas caldeiras. Ficámos a pairar e os maquinistas revezavam-se dentro das caldeiras para colmatar as centenas de furos pelos quais perdíamos o precioso líquido na sua versão doce - o bote não tinha tanques de água porque tinha dessalinizador, o qual estava avariado para lá de qualquer esperança e atravessávamos o Pacífico pelos vinte e cinco graus de latitude.

É portanto fácil de imaginar que quando encontro um maquinista excepcional (relativamente aos outros maquinistas) o meu sentimento deixa de o ser e passa a êxtase quase religioso, um estado de espírito que me liga directamente a Hildegarde Von Bingen, Teresa d'Ávila e outros místicos.

O meu pódio tem dois desses engenheiros. Um chama-se Christian, vive na Flórida e tem sobre todos os outros a vantagem de ser igualmente um homem maravilhoso, bom, daqueles pelos quais qualquer homem sensato se apaixonaria se fosse uma mulher sensata.

O outro chama-se Salvador. Não é exactamente, exactamente um maquinista: a especialidade dele é a electrónica, mas também se "desenrasca" (entre aspas porque podia dar aulas aos professores de todos os Politécnicos do mundo) em electricidade. Partilha com o Christian a qualidade de ser uma pessoa extraordinária.

Amanhã o Salvador vai trabalhar a bordo do PANDA.

(Quando as lágrimas pararem continuo).

10.8.18

Gatos? Seios?

Não percebo muito bem esta espécie de religião à volta dos gatos (enfim, não percebo religião nenhuma, seja ela qual for). Convivi catorze ou quinze anos com uma gata a quem deixei de falar logo nos primeiros dois meses Ela retribuía-me, sem sombra de agressividade. Vivíamos os três num apartamento minúsculo (a terceira pessoa sendo a minha então mulher, proprietária da dita bicha).

O nome da gata era Masha. Tinha sido dada à jovem senhora pela mãe de um paciente (S. tratava da saúde mental de crianças). O puto tinha o hábito de pegar na Masha pela cauda, volteá-la duas ou rês vezes em cima da cabeça e lançá-la contra uma parede. Com o tempo a gata desenvolveu uma hiper-sensibilidade à cauda e a mãe do puto resolveu tirar-lha (ao puto. Não a hiper-senibilidade. Essa ficou para o resto da vida).

Detesto antropomorfizar comportamentos animais e mais ainda etologizar os humanos. Sei que a gata, talvez para testar os recém-chegados tinha o hábito de vir lascivamente roçar-se contra mim. Eu punha-lhe a mão no dorso, a gata avançava e mal lhe tocava na cauda ela mordia-me. Isto durou algum tempo. Depois parou, por vontade - devo dizer - minha. Ela que se roce se quiser. Mantivémos este status quo catorze anos. De vez em quando mudava-lhe a areia ou dava-lhe de comer e ela deixou de se roçar em mim. Foi uma convivência sã, simples e agradável.

Masha protagonizou uma das raras histórias de gatos que aprecio realmente: um dia a então jovem dona chegou a casa, despiu-se da cintura para cima - quem disse "Casa é onde se tira o soutien?" - e apercebeu-se de que a Masha tinha saído. A porta ficara mal fechada. A jovem, quiçá irreflectidamente saiu para a ir buscar e vlammmm, a porta fecha-se.

Ou seja, temos neste momento uma gata felina e uma gata psicóloga no patamar, sendo que esta última está nua da cintura para cima. A primeira coisa a fazer é, naturalmente tentar pegar na gata, coisa que ao fim de algum tempo conseguiu. A segunda é usá-la para tapar os então jovens seios (tive a sorte de os conhecer pouco depois de tudo isto se passar) e a terceira, naturalmente, é ir ver o porteiro do prédio, que tem a chave de todos os apartamentos.

O porteiro era italiano, mal disposto e malcriado, casado com uma senhora ainda pior. Tive a sorte, repito, de conhecer todos os intervenientes nesta cena, desde os seios até à mulher do porteiro, que por acaso se aproximou da porta quando ele falava, falava, falava e falava com a psicóloga do primeiro andar e o mandou embora agora, já: "Giuseppe, rentra" (não sei como se diz em italiano: "volta para dentro e ai de ti se te vejo fora da sala"). A dona da gata e dos seios hesitava entre uma gargalhada brutal (tinha um sentido de humor que resistia a qualquer situação) e a circunspecção de quem precisa urgentemente que lhe abram a porta de casa.

Masha, que detestava ser agarrada, debatia-se violentamente. A porteira foi abrir a porta e nunca mais olhou para a dona da gata com um olhar normal. Nem para mim, que nada tinha a ver.

Um dia S. disse-me "não tarda a Masha vai morrer, eu gostaria de ter outro gato, tu importas-te?" (cito de memória). Disse-lhe que não, claro. Não-falar a uma gata ou um gato é um descanso. Pedi-lhe apenas, em troca, que me deixasse dar o nome ao novo inquilino. Chamei-lhe Beckett por várias razões que não vêm agora ao caso.

O desgraçado do Beckett acabou mal: foi eutanasiado por comer os tomates da A. Mas esta fica para depois, chega de gatos por hoje.

Não percebo nada de gatos e estas histórias só me vêm à memória porque ontem vi uma fotografia de uma senhora com gatos no lugar dos seios.

Saudades?

Saudades... Saudades... Que fazer de um substantivo que nem verbo tem?

Serviço público, se

Se por acaso algum dos generosos, tolerantes, simpáticos - numa palavra: abençoados - leitores deste pobre blog, coitado, vier a Palma um dia; e se esse leitor gostar de comida colombiana - o que demonstraria ter, além das qualidades supra-citadas, bom gosto -; e se da comida colombiana tiver uma preferência pela cerveja Aguila; se, na falta de Aguila se satisfazer com Club Colômbia sem reclamar contra o infortúnio ou pensar que o universo está a conspirar contra ele; se na luta secular entre a arepa venezuelana, mais espessa e a colombiana, mais fina e subtil, apoiar as duas; se, em contrapartida achar que a carne colombiana é incomparavelmente melhor do que a venezuelana, se tiver conseguido ler este arrazoado de disparates (sérios, mas disparates) até aquí devia sem hesitar considera-se uma pessoa com p grande e - mais do que isso - vir comer uma arepa con carne ao restaurante Sabor Criollo.

9.8.18

O bar Rita das noites e Palma, porque é que todos gostam de Palma?

Desci para ir pôr o lixo no contentor e acabei no bar Rita, levado por uma estranha mistura de raptos, sonhos, desejos e mais sei eu o quê. É preciso dizer que o bar Rita é um sítio muito especial para mim, apesar de não ir lá frequentemente: no bar Rita aprendi - ou confirmei, nestas coisas é difícil decidir - que "sempre" tem um princípio, por muito incerto que seja o fim. Isto é, a eternidade começou um dia, a uma determinada hora. Pouco importa para o caso: um gajo vai à rua deixar o lixo - embrulhado em dois sacos para ninguém ver que está tudo junto, garrafas e cascas de laranja e ovo, sacos de plástico do supermercado e caroços de pêssego - não é mentira nem exagero, os sacos são ecológicos, logo transparentes e finos, aquilo ameaça rebentar se calha ao pequeno-almoço comer dois ovos em vez de um de modo uso sempre dois, é mais ecológico e as pessoas da praça (o equivalente ao Rossio de Lisboa) não têm nada de ver o que eu comi e muito menos arriscar-se a que o saco rebente se for só um, para além do terror da multa - o contentor tem mais cores do que o arco-íris, cada uma para o seu tipo de lixo e o meu vai todo para a cor que diz "Orgânico" em espanhol, catalão, inglês, alemão, chinês, japonês, tagalog, swahili, inuit e mais não sei quantas línguas e a verdade é que não sei se aquilo está assim tão bem indicado para que se for apanhado a deitar lixo fora do penico, passe a expressão, apanhe uma multa. Não sei nem me importa, até agora ninguém me chateou nem perguntou fosse o que fosse. Enfim, não me importo é maneira de dizer, detesto dar dinheiro ao Estado seja de que maneira for e então multas de lixo nem pensar.

Chego portanto ao bar Rita, quase sem querer e peço umas hierbas secas com um cubo de gelo e de repente lembro-me de que não tenho dinheiro, não fui à máquina dos spaghetti (ou das hierbas, neste caso) e vou a correr lá dentro dizer ao senhor para cancelar a ordem e ele diz-me "estás maluco? Pagas noutro dia". E perante o meu olhar meio espantado meio aflito continua "Senta-te, já te levo o copo".

Ai Rita, Rita das noites que de dia estás fechada aqui tão perto, vou começar a ir pôr o lixo à rua todos os dias só para ir ao Rita das noites beber umas hierbas secas e sonhar com raptos à janela e hierbas numa praça de Palma, que isto da liberdade é quando um homem quer, não quando pode ou o deixam.

Amanhã volto ao Bar Rita pagar as hierbas de hoje e beber mais meia dúzia, à saúde.

Inversa

Da série "Fortunas à espera": o gajo que inventar uma relação inversa entre custo e quaidade.

Voltas ao penico

Seja o penico grande, pequeno, cheio ou vazio, leve ou pesado, andar-lhe às voltas é uma actividade fatigante. No exacto momento em que se pára fica-se meia dúzia de toneladas mais leve.

8.8.18

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 08-08-2018

- És um homem especial - diz-me N. (Queria dizer diferente).
- Não. Sou um homem feliz e livre. - N. não percebeu a alusão e eu lamentei-a: gostaria de ser feliz e livre, só, simplesmente, como qualquer pateta alegre. - Como eu há milhões.

Levou-me a Banyalbufar ver um terreno que está à venda. Não tem dinheiro para o comprar, diz-me, mas quer ir vê-lo. O terreno é uma merda - enfim, não é. É óptimo, mas tem uma ruína de doze metros quadrados e não se pode construir mais nada: refazer a ruína, é tudo.

Depois vamos beber um copo e a conversa retoma onde ficou ontem: tenho de pensar no futuro. N. é uma dentista iraniana que fez a sua vida toda em Berlim e agora, faz um ano e meio, se mudou para Palma.

Vive sozinha num apartamento de cento e oitenta metros quadrados - disse-me ela, nunca o vi -; comprou outro (creio que outro, não lho perguntei) que está a refazer.

"Para ter alguma coisa que fazer", explica. "Aborreço-me se não me ocupar".

Sempre apreciei pessoas que compram imobiliário por desfastio, sobretudo em cidades como Palma, mas N. às vezes aborrece-me. Parece a minha irmã R., senhora por quem tenho uma admiração sem fim mas de quem não partilho nem a opinião sobre os berlindes amarelos, quanto mais instruções sobre o meu futuro.

Ficámos de nos rever: ela não se importa de ser vista na rua com um velho gordo, cansado e surdo e eu não me importo de ouvir conselhos vindos de quem me encontrou há um dia numa espécie de tasca chamada La Sifoneria. Estou em vantagem, devo reconhecer: é mais fácil calá-la do que deixar de ser gordo. E surdo.

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A ideia é alugar-me um quarto por um mês, no fim deste vou ter de deixar o maravilhoso apartamento onde agora estou e comecei à  procura do seguimento. Mas para ela é uma experiência nova e hesita.

Não sei. Uma senhoria pouco gananciosa sim. Uma conselheira de vida? Duvido.

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A mesa ao lado da minha no Vermu, Pintxos y Latas onde vim comer um pintxo e beber um Vermú (ele há coincidências danadas) é composta por cinco mulheres na casa dos quarenta e meios.

Não sei se alguma vez as mulheres conseguirão perceber o efeito devastadoramente positivo que os quarenta anos têm nelas, mas ao ver estas só há uma resposta: sim, há muito tempo, sua besta.

Estupidez?

Somos sempre excessivamente lestos a acusar os outros de estupidez. Há outras possíveis explicações para tudo o que nos parece estúpido. Três: a incompetência, o acaso e a vontade.

7.8.18

Infantil

- Tens realmente um espírito jovem - diz N.
- Sim, mas não sou infantil - defendo-me.

Ou desculpo-me?

Antípodas, dias

Uma grande bola de fogo encarnada mergulha no oceano. Pensas: "o dia acabou", mas não é verdade. Outro dia começa, simplesmente. Para ti e para quem está do outro lado, ao teu lado.

Tempo, mil-folhas

Se num lago um espelho te devolver a imagem de outro lago, outro dia, quiçá mesmo outro espelho não te assustes ou surpreendas.

Somos feitos de camadas de vida umas em cima das outras e o lago, seja por generosidade seja por maldade, por erro ou distracção foi buscar uma camada que não é aquela em que tu pensas estar, a que tu vês.

Aritmética, tempo

A única operação aritmética que o tempo não permite é a subtracção. Os dias adicionam-se, multiplicam-se, dividem-se mas não se subtraem.

6.8.18

Prato do dia - Lulas com sobrasada

O prato do dia foi calamares con sobrasada.

Sobrasada é uma espécie de enchido típico das Baleares. Muda um pouco de ilha para ilha. Aqui só se encontra o maiorquino, felizmente porque é o meu preferido. Ainda por cima no res-do-chão do prédio onde moro há uma loja de produtos típicos de Mallorca - uma Mallorca Delicatessen, como eles dizem em espanhol baleárico -. Os produtos oscilam entre o bom e o muito bom, sendo este o lugar da sobrasada.

Vasculhei uma dúzia de receitas, misturei-as e optei por não usar mel; usei pimentos italianos, como lhes chamam aqui (na Itália têm outro nome, mas agora não o recordo).

Começa-se por saltear as cebolas até estarem transparentes; junta-se-lhes bacon, a sobrasada, os pimentos cortados aos bocados. Quando aquilo está mais ou menos refogado junta-se vinho doce, mexe-se bem, deixa-se ferver e põem-se as lulas - pequenas neste caso, cortadas às rodelas se forem grandes. Junta-se um bocadinho de água, outro de tempo e hey, presto, um jantar delicioso para a mesa à janela.

PS - A quem possa interessar: o Corte Inglés en Lisboa tem sobrasada.

Ganhar ao sistema - cont.

Z. tem duas visões do mundo que não se excluem nem se complementam: coabitam como um casal que acabou de se divorciar partilha a mesma casa por razões financeiras, logísticas ou de simples preguica.

Segundo uma dessas cosmovisões o mundo é constituído por a) o Sistema e b) Z. ele próprio. Na outra há: o Sistema, Z. e tudo o que fica entre eles. Nos dias pares das primeiras metades de cada mês Z. não vê qualquer contradição nestas duas grelhas interpretativas do real. Nos dias ímpares pensa (ou pelo menos diz) que se está nas tintas para as contradições. No resto dos dias oscila: "um espírito sem contradições é uma Lua sem luz"; "a contradição é o combustível, não o motor"; "a contradição é paralisante. Um espírito contraditório é semelhante a uma tartaruga que bebeu de mais e não consegue tirar a cabeça da protecção da casca".

Para Z., já se percebeu, o Sistema é a linguagem. Ganhar-lhe consiste simplesmente em ser capaz de produzir frases belas, quaisquer que sejam os respectivos sentidos. Deixar-se roubar, ser ultrapassado numa fila de supermercado, oferecer um café a um estranho em troca de um cigarro não são factos como nós os entendemos. São pretextos. Não são batalhas, guerras ou simplesmente escaramuças: são fisgas verbais.

5.8.18

Ganhar ao sistema

A ideia de Z. é simples. Ele traduz do inglês "to beat the system": "ganhar ao sistema". No fundo, "ganhar ao sistema" consiste simplesmente em confirmar o seu cepticismo, o desgosto que a maioria das pessoas lhe inspirava, a certeza de que o seu nihilismo devia ser mais militante.

Ontem, por exemplo, deixou uma garrafa de vinho no cesto da scooter, simplesmente coberta com uma jaqueta daquelas que os automobilistas devem ter nos automóveis em caso de incidente. Quando voltou a garrafa desaparecera, claro. O sistema ganhara.

"Ganha sempre", pensou quando voltou e encontrou a jaqueta sem nada por baixo. "Mas o importante é não desistir".

Pouco antes tinham-lhe roubado uma scooter toda, porque se recusava a fechá-la a cadeado: "o sistema favorece o roubo de veículos; há que ganhar-lhe" explicou-me quando lhe perguntei por que raio de carga de água insistia em ser roubado. "Mas quem perde és tu", exasperei-me. "Eu sei. Não sou ingénuo, nem masoquista. Só quero provar que estou enganado". 

Culpa, amor

Acabei por ficar em casa para trabalhar e (ainda, até agora, até ver) não fiz nada se não uma salada de atum que por acaso ficou muito boa, muito justa de tempero.

Por acaso? Não. O complexo de culpa é um famoso potenciador de todas as outras qualidades. Devia ser mais e melhor explorado.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 05-08-2018

Tal assim foi o meu dia de ontem: decidido a fazer uma folga total - isto é, incluindo limpeza de sinapses e revisão de circuitos neuronais - saio de casa com um objectivo: um dia num café de praia a trabalhar numa coisa completamente diferente.

Esse objectivo não foi atingido por dus razões, mais ou menos relacionadas: a) não conheço suficientemente as praias de Mallorca para eleger uma apropriada; b) as que conheço não são apropriadas. Resultado, o dia transformou-se numa peregrinação aos locais da memória: Porto de Valldemossa, Sa Foradada, Sa Calobra. Tenho sorte com a memória, reconheço. Qualquer deles é um lugar lindo, nada adequado para rever textos mas óptimos para reflectirmos, por exemplo, nos mecanismos de formação de preços (aqueles são traumatizantes), nos problemas ligados à temperatura da água do mar (vasto tema, esta: vai desde as preferências quando se nada - não consigo perceber pessoas que conseguem gostar de nadar entre o rio Minho e um pouco a leste de Sagres, por exemplo - até ao motor que um dia gripou porque o trocador de calor era demasado pequeno para a temperatura da água) e outras coisas igualmente importantes.

Sa Foradada merece uma menção especial: desde o local onde se deixa o carro atè à "praia" (entre aspas porque aquilo de praia não tem rigorosamente nada) são um pouco mais de três quilómetros, por uma estrada de terra, no meio de uma paisagem linda, cheia de sombras e a cheirar a pinheiro. A temperatura estava acima dos trinta, mas mal se sentia o calor. Quando cheguei fui almoçar, depois fui nadar e depois vim para cima.  A mochila, que à ida pesava seis ou sete quilos pesava agora vinte, a distância aumentou para trinta quilómetros, as sombras desapareceram todas e a temperatura estava quase em cem graus (Celsius).

Devo dizer que apesar de tudo vale a pena lá ir, mesmo sabendo o que nos espera no regresso. Basta não se ir preparado para fazer coisas que não se vão fazer.

Acabei no café Jamaica, em Can Picafort, mas prefiro não falar muito nisso para não estragar. O café chama-se Jamaica como se podia chamar Rossio, a empregada não sabia sequer o que é uma Red Stripe, o chicken jerk foi o pior que alguma vez comi e Can Picafort é um horror. Deixemo-la para outros momentos.

.........
Em Can Picafort vi pela primeira vez palhinhas com dimensões que iam dos vinte centímetros habituais até mais de um metro, com vários tamanhos intermédios. Quem luta contra as palhinhas não deve vir aqui.

Sendo que as grandes têm a vantagem de se poder beber o cocktail sem ter de fazer o esforço de levantar o copo, que implica como se sabe uma violenta sequência de movimentos  - desencostar-se, inclinar-se para a frente, estender o braço e por aí fora -.