15.1.21

Oiça um bom conselho

Quando relatamos uma conversa, devemos resitir à tentação de dizer «Fulano disse-me que...». A forma correcta é «Fulano disse qualquer coisa que a mim soou como...»

Vésperas, Rachmaninov, fé, Genebra e mais uma data de coisas que não cabem num alfabeto

Oiço as Vésperas de Rachmaninov num aparelhagem fraquinha. Preciso do dobro do volume e da densidade, mesmo sabendo que quem as ouviu na catedral de Genebra dirigidas pelo Corboz nunca mais na vida chegará lá perto. 

(E quem não cedeu à tentação da fé naquele dia nunca se convertirá.)

Diário de Bordos - Lisboa, 15-01-2021

Recomeça esta prisão domiciliária completamente injusta e injustificada. Saio para fazer compras e apercebo-me de que é bem menos grave do que a primeira. Está tudo aberto menos os cafés e restaurantes. Deve ser a primeira vez na vida que me regozijo com uma palhaçada (das de fora do circo). Oiço Paco Ibañez e pergunto-me que raio de injustiça fez com que nós ficássemos com Godinhos e Afonsos e os espanhóis com Ibañez e Andions. Esta confusão com a Air Europa - resolvida hoje de manhã, hallelujah - deu-me pelo menos oportunidade de votar adiantado, se tiver feito as coisas correctamente. Não é impossível. Não voto Mayan, voto IL, uma vez mais. [Adenda: fiz. Vou votar no domingo]. Entretanto a televisão oferece-me Karajan e a filarmónica de Berlim, esqueci-me das natas no gratin dauphinois, o mundo volta, pouco a pouco, a ter tudo no lugar. Isto é, encarreirado, como se diz. Preferiria uma auto-estrada: «está tudo auto-estradado» mas contento-me com o carreiro. Não é difícil: gosto de formigas e detesto pressas. A minha geração bem pode limpar as mãos à parede, com esta cama que fez aos taradinhos da segurança, aos histéricos do risco zero, aos racismos identitários. Isto é tudo gente que vem dos MRPP e dos PRT e dos PCP-R e da liberdade socialista e se desabituou de pensar quando deixou a merda do marxismo-leninismo-maoismo-pol potismo-enver hodjismo-titismo e começou a trabalhar. Pata que os pôs! Confinem-se, mascarem-se, vacinem-se, matem-se mas deixem viver os outros.  Não consigo identificar a peça no canal Mezzo e lamento esta incapacidade. Nem o parabéns a você reconheço à primeira sílaba. É Brahms, vejo no programa. Vá lá, Não conheço Brahms de todo, ser-me-ia impossível reconhecê-lo. O mundo volta ao lugar e eu vou à rua comprar chouriços ao talho O Naco e ver se a minha fraca já chegou. Estou inscrito para votar, tenho uma consulta para os olhos e quero que o resto todo se lixe, com f grande. Amanhã talvez haja menos uma coisa no grupo «resto todo» e mais uma na lista das encarreiradas. Em Lisboa, a temperatura é de 14 graus centígrados, o que sempre é mais civilizado do que o briol de ontem e antes de ontem. Espero que haja muita gente a votar Mayan e que a fraca tenha chegado: são estes os limites da minha esperança. Pelo menos agora ninguém me pode acusar de megalomania.

Mulheres, dias

"Não sou grande espingarda. Nunca fui. Tenho contudo a vantagem de não me importar muito com isso. O filme está quase a acabar e gosto de finais tristes. Enfim, não exactamente tristes: que correspondam à história, que não dêem grandes piruetas para acabar, como os contos do O'Henry ou um malabarista de circo. Por isso me deixo ir sem sobressaltos por esta rampa abaixo. Sei o que me espera lá em baixo. Todos sabemos: já todos estivemos mortos, antes de nascer.  Andamos às voltas. O ponto de chegada é o ponto de partida. Se fores muito esperto, a diferença é que começas a descida mais alto. E se calhar demoras mais tempo a cair, é possível. Ou cais mais devagar ou a rampa é mais longa.

Passei a minha vida toda rodeado de gente inteligente. Sabes aquele estratagema das mulheres bonitas? Têm sempre uma amiga feia com quem gostam de se mostrar. Realça-lhes a beleza e poupa-lhes competição. Pois eu era o burro dos meus amigos intelectuais. Mostravam-me, deixavam-me falar e quem brilhava eram eles. Quem seduzia as miúdas mais bonitas, mais interessantes, mais estimulantes, mais tudo. A mim calhavam só  as que gostavam de felações e as faziam bem. Durante toda a vida isso revoltou-me, mas agora percebo que estava enganado. O que no fundo é natural: para alguma coisa se é burro e não é para acertar. Se acertasse seria como eles. Às vezes reunimo-nos para conversar e beber uns copos. Não lhes invejo as vidas, a nenhum deles. São mais ricos e tiveram mulheres mais bonitas? Sem dúvida. Mas quem deu as melhores quecas fui eu; e o que levas tu daqui, diz-me? Nada, se não as memórias de um corpo enredado no teu. Um ou vários, que foram muitos, graças a Deus. Já lá vai, tudo isso. Mora no largo da memória e nunca sai à rua. Foi o que mais me custou, quando chegou a velhice. Os outros escreviam, liam, iam a conferências, sei lá. Eu não: sem uma mulher ao meu lado sentia-me como se me tivessem cortado os braços. Como o guarda de um jardim zoológico sem animais. Caçador a quem o elefante tivesse esmagado a arma. Durmo sozinho nesta savana vasta e vazia. Os últimos elefantes deixaram-me há anos, alguns com pena, outros com riso. Custou-me bastante a aceitar, esse sossego. Agora regalo-me nele e gozo com os meus amigos: "Para vocês, nada mudou", digo-lhes. "Para que vos serve a velhice? Eu tive de reaprender a viver, enquanto vocês se limitaram a esquecer o que nunca souberam. Dei trabalho ao meu touro furioso. Esgotei-o. E vocês?" Nunca sabem bem o que me responder."

A campainha da porta toca. O senhor levanta-se e vai abrir. É a mulher a dias, uma jovem peruana de trinta anos a quem deu o trabalho por causa dos olhos, que o fazem chorar.

14.1.21

França, vida, coisas

- Coisas que nos fazem amar a língua francesa: «Viens rompre le pain chez moi.»
- Coisas que nos fazem amar a França: a língua;
- Coisas que nos fazem amar a vida: a manteiga da Bretanha; o vinho de Châteauneuf-du-Pape (e da Borgonha, de St. Émilion); o queijo de Époisses, o Camembert, o Morbier... (reticências porque a lista é interminável); os livros de le Clézio, Camus, Yourcenar (sim, eu sei).

Ainda

"Já fui muito infeliz. Mais infeliz do que tudo o que tu possas imaginar. Tão infeliz que não sabia sequer que a felicidade existia. Não era como se a tivesse esquecido, era mesmo não saber, nunca ter sabido. Só mais tarde, anos e anos depois, descobri que a felicidade é real e não qualquer coisa de que se ouve falar ou se lê nos livros - mas não por conhecimento directo, não por a ter experimentado. Isso só veio depois. Muito, muito depois. Para mim, experimentar directamente a felicidade foi como renascer, como ver o Sol depois de um eclipse de séculos. Não me lembro de quando isso aconteceu, mas já ia muito avançado em direcção aos trinta. Até lá, a minha vida fora como aquelas intermináveis praias do mar do Norte, de areia cinzenta, céu cinzento, mar cinzento e mulheres muito brancas e finas, como pasta de dentes. Não ligava às mulheres. Isto é, ligava e muito, queria tê-las mas não queria fazer o que era necessário para as ter. Como quando queres beber um café mas não tens vontade do o fazer. Era infeliz e deixava-me arrastar pela infelicidade como um entrevado numa cadeira de rodas no hall de um hospital. A infelicidade era a minha casa. No Inverno fazia batalhas de bolas de neve, ski de fundo, bebia vinho quente e era infeliz. No Verão, passeava pelos bosques, bebia cerveja ou vinho branco e... adivinhaste. Ainda hoje me lembro desses dias com terror e espanto. Terror porque sei que podem voltar à cada instante. Espanto, porque não compreendo como lhes sobrevivi, como aguentei tanto tempo. uma vez tentei acabar com aquilo, mas não consegui e mal saí do hospital real voltei para o meu hospital metafórico, o da cadeira de rodas, tetraplégico dos sentimentos.

A felicidade caiu em mim de repente. Já ouvira falar dela, como te disse. Talvez até a tivesse vislumbrado, talvez lhe tivesse tocado de raspão. Um dia, porém, descobri que podia ser feliz, podia ser como todos os homens à minha volta, podia ser deus. Deus menor, sem dúvida, mas deus. Finalmente, a minha vida começara a obedecer-me. Não sei como explicar-te isto: de ser vivido passei a viver. De bola de bilhar passei a ser o taco. Imagina um cego que de repente começa a ver: aposto que a sua alegria, a sua felicidade, o seu espanto não seriam maiores do que os meus, quando  descobri que também a mim era dado ser feliz. Como se tivesse nascido já adulto. Ainda hoje não percebo como aquilo aconteceu, mas espero que não acabe, ainda."

O senhor pegou no gin tónico que pousara ao seu lado, deu-lhe um longo gole e continuou:

"Ainda é cedo."

13.1.21

Diário de Bordos - Lisboa, 13-01-2021

Planos para o lanche. Que fazer depois de um soberbo almoço com uma senhora que foi uma das minhas estrelas da blogosfera (e espero volte a ser)? A ideia original era voltar para casa, mas a de um café e um pastel de nata na Versailles intrometeu-se; ao lado da Versailles fica o senhor Tavares, que vende quanto a mim o melhor café de Lisboa; na Versailles chateiam-me por causa da máscara, venho-me embora, vou à Flor do Chaimite onde compro duzentos e cinquenta gramas de café de Timor, um pacote de queijadas de Sintra - Casa do Preto - e uma mini-garrafa de licor de castanha assada. Não gosto de castanha assada, mas talvez o licor seja bom. Se nos ativermos apenas ao que já sabemos nunca saberemos nada. No caminho paro para ver um amigo que não conheço e gostava de conhecer, mas tem a loja fechada. Penso na Air Europa, um prodígio de ineficiência. penso no que esta bicicleta (a de cidade) é confortável, comparada com a outra (a de estrada), de como são ambas boas e belas, de como é uma estupidez comprar meia dúzia de queijadas de Sintra...

...das quais já comi cinco e estou enjoado até ao dedo grande do pé. O licor não é mau nem bom, antes pelo contrário, mas não deixa de ser curioso e oscila entre o mau e o bom até que no fim o ponteiro cai para o lado do bom e ali fica, no meio da música que vem do canal Stingray (fica ao lado do Mezzo e é bastante bom também, um bocadinho mais moderno). Hoje começa outro confinamento, eu continuo sem poder ir para Palma, o mundo continua a rodar como se eu não existisse e a única dúvida agora é saber quando me vai passar o enjoo das queijadas. Magna quaestio.

Versailles, Flor de Chaimite, café de Timor, licor de castanha assada, bicicleta Coluer a rolar por este fim de tarde em que a luz me aparece insultuosa, gozona, de tão bela: isto podia ser uma declaração de amor a Lisboa. É. A cidade passa os dias a gozar comigo e a dar-me tampas e eu passo-os a dizer-lhe que a amo e a ameaçá-la: «Olha que não é a primeira vez que te deixo, não é a primeira vez que deixo uma mulher que amo». Ela ri-se, inunda-me com esta luz, com o cheiro da Flor de Chaimite, com a perspectiva da mistura de licor de castanha assada com queijadas da Casa do Preto, faz-me uma festa nos olhos com a vista de algumas ruas (não penso nos pavimentos: amar alguém é amar-lhe os defeitos. As qualidades qualquer ama) e pronto, lá estou eu caído de novo, pelo beiço, pela alma, pelos olhos.

E pela boca, claro: experimentem ir ao restaurante Luzboa, ali para os lados da Gulbenkian; ou às Zebras do Combro - isto para mencionar apenas duas descobertas recentes. São uma maravilha, qualquer deles, em estilos diferentes. Estão ambos adequados ao sítio onde estão, o Luzboa mais para o moderno, o Zebras mais tradicional. Esta cidade prende-nos pelos olhos, pela boca, pelos sentidos todos e nós deixamo-nos levar, como um cego por uma vadia que o vai roubar e está todo contente, apesar de o saber.

Evaporação

Evaporação. Essa é a palavra-chave: evaporação. Qualquer que seja a forma: verbo, substantivo, adjectivo. Evaporado. Deixa as lágrimas evaporarem-se. Um dia, evaporar-te-ás.  Um dia, tudo não passará de uma enorme nuvem de vapor, tu incluído. Um dia, o teu passado e o teu futuro evaporar-se-ão e não terás nunca nada senão o presente.  Serás um eterno agora, sem passado nem futuro, evaporadíssimos juntamente com as lágrimas que teimas em verter a cada instante, como se fossem borboletas. Chora-te e desaparece, enche-nos de cores efémeras e evapora-te. Desaparece. 

«Tu ne m'auras pas avec un piège aussi grossier.» Não te deixes apanhar na armadilha da autocomiseração. Evapora-te antes de ela te apanhar à soleira da porta. A evaporação requer uma certa graça, elegância. Não se evapora quem quer, mas quem merece. Quem sabe fazer uma vénia sem parecer subserviente, quem sabe sobreviver sem ser subvivente. Sobreviver e subviver estão demasiado próximos, a linha que os separa é fina, muito mais fina do que uma letra ou duas. «És um sobrevivente», diz-me T. Não sou. Sou um sub-vivente. Era Vaneigem quem falava na subvida, não era? Ou Debord? Não me lembro: as memórias evaporam-se, quer queiremos quer não. A velhice é isso: descobrir a diferença entre sub-vida e a sobrevida, destrinçá-las correctamente, deixá-las evaporar-se um dia graciosamente, joelho ligeiramente curvado, sorriso irónico nos lábios (isto é, irónico para os conhecedores. Para os outros, não passará de um sorriso de circunstância).

A evaporação é a única forma elegante de desaparecer. Não te preocupes com a mistura de vidas, sub ou sobre. Deixa essa tarefa a quem te sucederá. Contenta-te com transformar em elegância a deselegância. É a isso que se chama evaporação.

(Para a T. C., com um beijo.)

12.1.21

Talvez, calor

Talvez o calor dos edredons me atravesse e me chegue a todo o lado.

Diário de Bordos - Lisboa, 11-01-2021

A garrafa de Mei Kwei Lu com tanto entusiasmo e esperança comprada hoje à tarde continua tristemente fechada; o livro O barco farol avança muito devagar: não tenho energia para histórias violentas, por muito boa que seja a escrita. Esta é superlativamente excelente. Gosto destes estilos secos, depurados, sem rodriguinhos. Porém, vim deitar-me, cobrir-me de calor, fechar os olhos, tentar não me cansar mais do que já estou. O SNS respondeu rapidamente e já tenho o novo teste marcado, não me lembro se para quarta-feira se para quinta. Amanhã verei, mais o problema da mudança de voo, mais os problemas que não são problemas nenhuns, são simples episódios. Por mais que tente (não eu, mas alguém por mim) não consigo transformá-los, promovê-los a dramas, tragédias, acidentes termo-nucleares graves. São tantos que tive de fazer uma lista, para não me esquecer das razões por que tenho de lutar. Bem sei que... Merda, esqueçamos. Nada que não se resolva amanhã.

..........

Jantar bastante improvisado: porco no forno com limão e gengibre. Ficou assim assim, como tudo o mais desde que cheguei a casa e desmontei da bicicleta (na verdade foi ao contrário: primeiro desmontei).

Acho que devia tê-lo guisado numa panela. Amanhã verei. A priori gosto da combinação de limão, gengibre e coentros, mas... Pouco importa. Amanhã. 

........

Este inverno vai ser frio e eu cheio de saudades da neve e de casas aquecidas. Nesta dói-me pensar quanto custará cada grau centígrado, mesmo não sendo eu a pagar. 

........

Há dias vi um vídeo no Facebook de um indivíduo a tentar subir umas escadas rolantes descendentes. Levava uma embalagem e não conseguia chegar ao fim. Aquilo estava obviamente encenado mas bem feito e não perdia a comicidade. Nos dias que terminam como hoje, parece-me uma excelente metáfora da vida. Se voltar a ver aquilo, aposto que a personagem abandona a ideia de entregar a caixa e se deixa ir quietamente para baixo, para o fundo.

........

"Não sei o que amanhã me trará." Not the faintest idea, mate. Excepto que não será mais do que uma pálida, esbatida continuação de hoje. Disso, estou seguro: não será amanhã a véspera do dia em que conseguirei chegar ao cimo das escadas.

........

Seja como for: o período de hoje que decorreu entre a saída de casa e o regresso foi agradabilíssimo. Espero que essa meia dezena de horas não me estrague a infelicidade do resto.

Nada como uma boa dose de tristeza intacta, unspoiled, como diria o outro, o que não sabia de amanhã. Nunca soube, coitado.

11.1.21

O Barco Farol, de Siegfried Lenz, ed. Fragmentos, Lisboa, 1987

Comprei um livro chamado «O barco farol». Li-o há muitos anos, em francês. A primeira linha é: «Estavam fundeados e bem fundeados nos bancos...» Um tradutor (chama-se Inês Madeira de Andrade) que sabe a diferença entre «fundeado» e «ancorado» merece ser lido, agraciado, encorajado, louvado. Obrigado, Inês Madeira de Andrade, esteja V. onde estiver e seja quem for. Folheei o livro e todos os termos náuticos estão lá. É a primeira vez que vejo uma tradução portuguesa assim. Obrigado. Vou relê-lo, agora com outros olhos. Até aqui. lembrava-me vagamente de um barco-farol fundeado no Báltico, de uma atmosfera pesada, da noção de serviço. Não vou reler o livro: vou lê-lo. Começa assim:

«Estavam fundeados e bem fundeados nos bancos movediços de areia. [Já por ali naveguei. São horríveis] Há nove anos, desde a guerra, que o barco [aqui, talve tivesse preferido navio. Como no título, de resto. Mas não sou preciosista nem fundamentalista. Fique o barco] estava seguro a uma amarra comprida; era como uma colina vermelha de fogo coberta de conchas e de algas na planície do mar cinzento como ardósia - ali estava, excepto nos períodos curtos em que se encontrava no estaleiro.

...

... o feixe dos sinais intermitentes girava há nove anos sobre a baía e o mar nocturno até às ilhas que sobressaíam no horizonte, cinzentas e planas como um leme. Agora, as zonas minadas estavam limpas, a água navegável era considerada segura, e daí a quinze dias o velho barco-farol seria recolhido; era a sua última missão.» É impossível ficr indiferente a isto, não é?

É.

Na minha bicicleta

Saí de casa com o objectivo final de ir buscar a bicicleta. Devagar, devagar. De caminho descobri um restaurante que me parece excelente - chama-se Zebras do Combro e ainda estou por perceber como não o conhecia antes. Pelo menos a julgar pelos croquetes e pela simpatia da senhora; comprei um maço de cigarros - acho estúpido que não se possa comprar cigarros avulso. Isto de forçar quem quer fumar um cigarro a comprá-los aos maços só incentiva as pessoas a fumar e a gastar dinheiro inutilmente; e lá fui, engrossando-me devagarinho, passando pelo anjo do arco (a designação é minha, inútil procurá-lo. Tem as melhores pataniscas da cidade), pela ginginha... É uma vantagem muito grande, um gajo poder embebedar-se passo a passo e não ter aquela necessidade compulsiva de ficar embriagado. Assim, as coisas vão entrando em nós aos poucos - tudo: a cidade, as ruas, esta luz, o frio, o sol, os prédios. Comprei um garrafa de Mei Kwei Lu encarnado. Não é tão bom como o azul, mas que se lixe. Não havia outro. O Mei Kwei Lu tem uma característica de que gosto muito: um homem não se apercebe de que está bêbedo antes de o estar completamente. Quando chegar a casa vou fazer um chá e beber um Mei Kwei. As minhas taças de Mei Kwei estão em Mértola, mas não faz mal. Bebê-lo-ei na mesma.  Às vezes gosto de comparar o Mei Kwei à coca, mas percebo incomparavelmente mais daquele do que desta. Género cem a um, ou mil a um. Acho apreciável que em Lisboa se possa comprar Mei Kwei Lu, mesmo sendo encarnado (já me tinham avisado que o azul acabaria em breve, e isto foi há uns anos).

Agora preparo-me para apanhar um táxi. Um Uber seria muito mais barato, mas só em termos relativos. Em termos absolutos, a diferença vai ser talvez de um euro, euro e meio. É forçoso reconhecer que aquele gesto urbano de estender o braço e parar um carro que vai a passar é infinitamente mais bonito do que pespegar o olhar no telefone portátil. São gestos que vão morrer e quanto mais não seja por isso devemos preservá-los tanto quanto possível, como se tenta preservar uma pessoa doente mesmo sabendo que ela vai  morrer. A linguagem diz tudo, como sempre: apanha-se um táxi, chama-se um Uber. Também se chama um táxi, mas não quando se está na rua. Um táxi chama-se do conforto de um restaurante ou de o alívio de uma cama, não de um passeio frio e ventoso da Almirante Reis. 

Devagar. A palavra-chave é devagar. Tudo é bom quando é feito devagar, incluindo viver. Deixar as coisas entrar em nós, as ruas pelas quais deslizo, bêbedo e cego. Não estou nem uma coisa nem outra, note-se, mas olho para esta luz que entra pela cidade, escorrega pelos prédios e penso que também ela está cega e que se estivesse bêbeda não se comportaria de outra forma. Entro por esta cidade dentro como se entrasse por um corpo que me ama, mesmo sabendo que esta Lisboa não me ama. Está-se a marimbar em mim, mas sabe que mesmo assim não deixo de gostar dela. Se calhar gosto dela porque se marimba em mim, não seria a primeira vez que me rendo ao bom-senso. Não sei. Ninguém sabe nada, seja como for. Sei que deslizo por estas ruas bêbedo e cego e que não estou nem bêbedo, nem cego e não deslizo, porque tenho de pedalar. E que todo este conjunto de coisas, leve como um autocarro de dois andares desgovernado, vai devagar.

Tenho duas bicicletas: uma preta de cidade; e uma cinzenta de estrada. Gosto igualmente das duas. Isto não é nem um analogia, nem uma metáfora e muito menos um pedido de desculpa. É - quando muito - uma explicação: gosto igualmente de dois contrários que em comum só têm a beleza. A preta é pesada, bonita e confortável; a cinzenta é leve, rápida e bonita. A beleza tem várias formas e todas elas são apreciáveis. A beleza pode ser lenta e confortável ou leve e rápida. Talve seja essa a diferença entre o amor e a paixão. Não sei. A paixão é rápida e fulgurante e o amor lento e sedimentado. Talvez. Ou a diferença entre dois amores.

Nada sei, na verdade. Excepto que a beleza é o que é, que a luz é o que é, que estas ruas são a minha casa. Ou melhor: as janelas da minha casa, a partir das quais olho, oiço e vejo o mundo e nele passeio, na minha bicicleta.

Fantasmas

Falemos então de fantasmas, já que os aprecias tanto. Sei do que falo: sou um parque nacional de fantasmas, uma reserva de caça, um armazém, um museu, uma fábrica deles. Conheço os que estão de passagem, os que já se foram embora ou estão por vir, os que morreram nas guerras, congelados nas trincheiras. Sei do que falo. Conheço-os eunucos, priápicos, obcecados sexuais, moribundos... Conheço-os.

Estão todos à tua espera. Basta bateres-me à porta.

10.1.21

Sacrificar borregos?

Basicamente - isto é, de um modo básico - o problema consiste em compreender como se passa de um edifício teórico do qual o homem é o eixo principal, o pilar principal, para outro em que o homem se crê omnipotente. Até aqui, isto parece fácil: de ser o centro do universo a poder fazer do universo o que se quer - sobretudo com a ajuda do desenvolvimento tecnológico e científico - o caminho é uma brisa. Contudo, essa omnipotência não pode ser posta em causa,  muito menos por um vírus invisível, uma coisa nanométrica que morre por dá cá aquela palha e cuja única força vem da sua capacidade de saltar de um corpo para outro. Não deveria ser difícil admitir que não se é todo-poderoso. Há forças na natureza que não conseguimos controlar, dominar. Temos simplesmente de aprender a viver com elas e a protegermo-nos o melhor possível. Ninguém pensa acabar com o frio, com as vagas do mar ou com os raios ultravioleta: fazemos roupa quente e aquecimentos para as casas, muralhas para proteger os portos ou óculos escuros para os olhos e continuamos a nossa vida. Podíamos fazer a mesma coisa com este vírus: proteger os que estão em risco (se eles quiserem, isto é importante) - é um grupo perfeitamente identificado - tomar meia dúzia de precauções básicas e continuar com a vida tal como a conhecemos. Não: o objectivo já nem aplanar a curva é. É acabar com o vírus, esmagá-lo com uma "vacina", destrui-lo. Este vírus não é só uma doença: é uma ameaça ao nosso poder.

O processo é semelhante ao que se passa com o aquecimento global: seria muito mais inteligente adaptarmo-nos a ele, como a humanidade (e as outras espécies) têm feito ao longo de milénios. Em vez disso: é preciso acabar com ele, reverter o mundo ao statu quo ante (um estado que de resto só é mirífico na cabeça dos iluminados). 

A diferença entre o vírus e as alterações climáticas é que para estas ainda se pode admitir que há motivações políticas. Para aquele, obviamente, não há - por muito tentador e compreensível que seja pensar o contrário, tal a dimensão do absurdo.

Ou seja: há uma rampa inclinada do humanismo para esta crença (visivelmente errónea) nos nossos poderes. Há coisas que a humanidade não pode (ou ainda não pode) fazer. A questão que se põe é: porque é tão difícil admiti-lo? 

Roubámos o poder a Deus e pensámos que podíamos fazer o mesmo que Ele, sem nos apercebermos de que o poder não é o mesmo. Como aqueles ladrões que roubam uma jóia valiosíssima e quando a vão vender descobrem que é um falso, uma cópia sem valor. O homem não é Deus, apesar de estar agora no lugar onde Ele esteve tanto tempo; e não é capaz de admitir que foi enganado (ou se enganou a si próprio). Por isso, quer acabar com as alterações no clima (bem podiam começar por acabar com este frio) e "vencer" um vírus que lhe anda a dar baile há mais de um ano e a ganhar claramente a "guerra": quando se fizerem as contas ao que teremos pago por esta futilidade  e ao que teremos ganho, veremos o vírus largamente beneficitário. Vamos perder muito mais do que ele.

Num campo, já ganhou: ele continua livre e nós não. Preferimos prender-nos, sacrifício ritual nada diferente - em termos de resultados - do que obteríamos sacrificando borregos.

9.1.21

Foi o humanismo?

Pergunto-me - na verdade, não é a mim, é aos meus amigos filósofos - se na opinião deles foi o humanismo que nos trouxe aqui, a esta delirante crença na omnipotência do homem, na "infabilidade" da "ciência" (aspas porque me refiro às versões populares dos conceitos).

Sou um humanista - trago em mim todos os defeitos e algumas das qualidades do meus companheiros de espécie; sou um humanista - acredito piamente no homem e penso que é nele que está a solução, não em Deus, na natureza, no amor ou no vinho tinto (por muito que dele emanem ou se sobreponham, mas isto não é um curso de metafísica).

Sou um humanista: penso que as fraquezas do homem são preferíveis a qualquer força que lhe seja exterior, seja ela qual for. Prefiro um homem frágil a um Deus todo poderoso. Sou familiar do falhanço, não me assusta tanto como a vitória - pelo menos, aferidos para as respectivas quantidades e frequências. 

Sou um humanista: acredito na liberdade, nas liberdades, na capacidade - não: na obrigação, no dever - de o homem ser livre. Acredito nos limites da liberdade - não passa de um conjunto de prisões que leva esse nome por terem sido livremente escolhidas. Acredito que essa liberdade é um pau de dois bicos e que mesmo assim é preferível ao pau de um bico só da ditadura e da opressão.

Sou um humanista. Acredito nestas coisas todas e em muitas mais, mas não consigo perceber que uma grande parte da humanidade tenha livremente optado pelo obscurantismo, tenha livremente optado pelo descalabro, que seja capaz friamente de trocar meia dúzia de mortes agora contra uma dúzia amanhã - sem ver que terá as duas, dúzia e meia bem medida de mortes, mai-la miséria que espreita à esquina.

Foi o humanismo que nos trouxe aqui?

Diário de Bordos - Porto, 09-01-2021 - (Cont.)

Saí do hotel San Marino todo pimpão: ia ao Tarantino (é assim que se chama) comer um pizza, depois a uma das muitas lojas de fotografia (duas) das cercanias comprar um filme e depois - bravo, signore - fotografar com filme, coisa que não faço há pelo menos quinze anos.  Restrições, meu caro. Restrições. Esqueci as restrições, esse magnífico mecanismo com o qual o nosso governo esconde a sua incapacidde de fazer seja o que for, Verdade seja dita: nenhum governo pode fazer seja o que for. O vírus está-se nas tintas para as «medidas»: se lhe fecham uma porta entra pela ajanela, se fecham a janela entra pelas frinchas do telhado. Não há é governos - salvo raras e honrosas excepções - que o reconheçam. Têm a «pressão popular» atiçada ao rubro pela comunicação «social» (entre aspas porque de social não tem nada. «Comunicação associal» seria mais apropriado). «Cem mortos» faz um título melhor do que «trezentos mortos, doas quais cem com Covid» ou «Voltaram os tempos dos hospitais cheios», ou coisa que o valha. Se saísse a fotografar, seria uma reportagem chamada «Porto triste», mas não me apetece. Volto pra o quarto escrever disparates, ler, dormir e ouvir Patxi Andion. «Duerme sin fin, compañera». É o que quero fazer: dormir sem fim. «Acaso una palabra, vendida por un sueldo / podría definirme, ¿ponerme nombre al cuello?» Não vejo nada. Vou restringir-me, não sem antes enviar o senhor António Costa para o prostíbulo que o viu nascer, nas esperança que nunca de lá saia, nunca mais. Ele que se torne pianista de bordel e, como o outro, o do paquete, ali fique fechado, rodeado de putas tão tristes e feias como estas ruas desertas e falidas, não tarda. 

Nb: plano para o jantar: acordar a tempo de comprar uma francesinha no café Luso. Diz que são boas. Desde o café Gomes, em Vila Real, acredito na existência de tal coisa: uma francesinha boa. É basicamente como para um positivista acreditar na existência de fantasmas. 

Diário de Bordos - Porto, 09-01-2021

Resultado do nevão em Madrid: voltei para o hotel. Sesta pré-prandial. Amanhã vou para Lisboa com a Blablacar. Pouco mais de um terço do preço do comboio e liberdade no uso da coisa (já falei com o condutor). Antes de adormecer, insulto-me por não ter pensado antes nisso. Por baixo do hotel, um café chamado Tarrantino (ou algo lá perto) faz boas pizzas, aparentemente. Um sono, uma pizza e um copo de vinho: daqui por hora e meia o mundo terá recuperado a sua calma, eu a minha e tudo isto não será mais do que um imperceptível soluço na longa marcha cósmica.

Amo-te Porto, amo-te vida, amo-te tu inominável porque ainda é cedo para o dizer. ("Amo-te" tem exigências de relógio suíço: ou estás certo ou desapareces.) Algures, a vasta mecânica celestial toca uma canção de embalar só para mim. Algures no planeta, uma mulher ama-me. O universo arruma-se segundo as linhas de força de que mais gosta, magnéticas, invisíveis e poderosas. E eu cedo-lhes.

O tempo e a ausência

Como falar-te da noite, desta boca sequiosa em busca de uma fonte, destas mãos que palpam o vazio - a que alguns dão o nome de passado, outros o de futuro, mas nenhuns o de presente - como se o vazio não fosse senão a tua ausência,  a ausência de ti. Como se o presente fosse uma prenda do tempo e não aquilo que é: o tempo preso em ti, o tempo a fugir de ti, o tempo a entrar em ti como um comboio fatigado numa estação. És um presente e o presente do tempo: já houve um tempo sem ti, haverá outro no qual de ti não haverá senão a ausência. 

Que fizeste, para que sejam tão diferentes?

Um nome a tudo isso

É mais questão de palavras, de coisas mais facilmente reproduzíveis em sons, letras, símbolos do que em factos sólidos, concretos. Dois seios e um desejo, por exemplo. Desejo vivo, palpável, sentado em mim. Preciso de palavras para ele, para esse desejo que me caiu literalmente no colo. Preciso de palavras para descrever dois desejos que se encaixam um no outro com a implacabilidade da órbita de dois planetas. Preciso de palavras como elas precisam de mim. Ver-te, por exemplo. Falar-te. Ler-te. Sentir-te. Saber-te viva e ver o teu olhar. Parece tão diferente, não parece? Não é. Como esse desejo, como essas palavras que escorrem de um campo, de um mar, de uma pele que se estende pelo mundo, pelo tempo, mão bem espalmada num ventre que a acolhe, grato.

Não falemos desse ventre, nem dessa mão, nem - muito menos - dessa força que os rege. Falemos de nós: planetas de órbitas concêntricas, campos de forças distintas e convergentes, como se uma órbita fosse conjugável com outra.

É. Basta querer, basta pensar para lá dos planos orbitais, das forças centrífugas e centrípetas que ora nos afastam, ora nos aproximam. Há um ponto de equilíbrio no meio desses corpos - são os nossos - dessas mentes - são as nossas. É um ponto longínquo, escondido, disfarçado no meio das silvas astronómicas. Gosto de o imaginar, olhando-nos com as suas antenas verdes. Gosto de imaginar dois corpos perdidos num universo do qual acabaram de descobrir a gravidade. Não sabem ainda se se atraem, mas já sabem da gravidade, essa estranha força que os impele para um ponto.

Trata-se de definir esse ponto. Tarefa fácil: basta definir os corpos, o tempo, o espaço, traçar os contornos físicos do desejo e dar um nome a tudo isso.  

8.1.21

Porto, abençoado Porto

Que bom é estar no Porto,  que pena ser tão pouco tempo. Lisboa é bonita por causa da luz. O Porto,  por causa das gentes. Aqui respiram pela boca e pelo nariz, não por guelras como lá em baixo.

Lisboa, vestida de cerimónia, diz-me adeus

Qu linda estás, Lisboa, toda de luz vestida. Enroupaste-te de cerimónia, hoje. Maquilhaste-te e tudo. Isso foi para mim, não foi? Vestida de luz, parece que vais de festa chic, tu que tão triste tens andado. És uma toca-e-foge, Lisboa. Provocadora. Sabes que me vou embora e vestes-te de rainha, tocas-me com o pé debaixo da mesa, sorris-me esse teu sorriso denso e alaranjado de fim de tarde. Mas quando se trata de passar aos actos, aí desapareces, não é? Dás de frosques. Piras-te. Tocas-me e foges-me há tanto tempo que já nem sei como poderias ser diferente.

Mas diferente será um dia, isso te assevero eu. Levar-te-ei à cama, ao altar, ao hotel. Por esta ordem.

7.1.21

Nota bene

A parte da chave que abre a porta é a que não se vê. Assim deve ser o texto.

6.1.21

Carta de amor

Queria escrever-lhe uma longa carta de amor. Mas a verdade é que andava a escrever-lha há uma vida. Meia dúzia de palavras - uma dúzia, que fosse - não acrescentaria nada ao que já lhe dissera. Muito menos a tudo o que ainda tinha a dizer-lhe.

Basalto, vazio

O bom senhor António espera no seu canto qualquer coisa que não sei bem o que seja. Talvez uma Antónia que não conheço nem sei por onde anda. Louis Armstrong toca para o café vazio. Tenho fome e penso que seria boa ideia ir para casa. O café não tem Ricard. 

- Acabou agora mesmo, com aquele senhor que está no balcão - diz-me a empregada. É simpática, espigadota e tolera a ausência de máscara.

Não tenho nada a ver com tudo isto. É exterior, são coisas que giram à minha volta mas do lado de fora de mim. Nem a fome vem de onde devia vir. Penso naquelas cadeiras de carrossel suspensas por correntes que a força centrífuga faz levantar e chegar quase à horizontal. Algumas das cadeiras separar-se-ão, irão por esse vazio fora; outras, mal o carrossel pare, cair-me-ão aos pés e por ali ficarão, restos vazios de um dia sujo, vazio, parado. Nada disto faz parte de mim. Nada disto sou eu. Nada disto, nada. Não sou senão este corpo que não pára de fingir já ter sido meu e que não paro de encher de basalto e de vazio.