22.7.17

Escrever nos jornais

"Escrever nos jornais é fácil. O escritor tem que fingir que é inteligente;  o jornalista apenas precisa de esconder a sua ignorância ."

Matías Vallés, in Diário de Mallorca, 21-07-2017 (a tradução é minha).

Diário de Bordos - Palma de Mallorca, Mallorca, Baleares, 22-07-2017

Ontem fui palmear e voltei palmeado para bordo. É bom, não fora a dor de cabeça e ter de ler posts sobre o racismo anti-mamas das mulheres feias que enchem as ruas de Palma. Não o apago. Contra factos não há censura que resista.

As estrangeiras são feias, com a notória excepção de uma vizinha portuguesa num Jeanneau 57 que se pôs ao meu lado (o Jeanneau, não a vizinha).

Toda a gente sabe que as mulheres do nosso país são as mais bonitas de todas, opinião essa partilhada por todos os homens de todos os países.

Com ou sem dor de cabeça.

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Ontem chateei-me com o armador, mas como sou um rapazinho crescido e responsável não desembarquei. É cada vez mais difícil queixar-me de mim. A continuar assim ainda acabo a acreditar que tenho razões para estar orgulhoso aqui do eu.

Enfim, que se me lixe. Voltei para bordo razoavelmente palmeado, a julgar pela extensão dos estragos.

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Uma das muitas razões de queixa que tenho da embarcação que gentilmente me acolhe no seu (metafórico) seio é o cozinheiro. Chama-se Paolo, é italiano e é muito simplesmente o melhor cozinheiro (todas as nacionalidades consideradas) com quem já naveguei.

O sacana não cozinha: faz milagres, todos os dias um, declinado em antipasti, primo piatto, secondo e seguintes. Isto não se faz a um homem cujo grande objectivo na vida é emagrecer (depois de ser amado, claro).

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Hoje à tarde vem o novo grupo, uma família de equatorianos. Já lhes dissemos que o ar condicionado não funciona. Mas só o ar. Não lhes falámos das outras coisas: as que eles vêem estarão reparadas e as outras eles não verão. Só inverno.

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De Veneza dizia Cocteau que é uma preta reclinada no banho (cito de memória, a qual está razoavelmente palmeado, relembro).

Palma é essa preta a sair da banheira, esplêndida e reluzente.

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Vou tomar o pequeno-almoço e alugar uma bicicleta. A última vez que aqui estive custava cinco euros por dia e não me lembro de alguma vez ter gasto cinco euros tão bem gastos.

21.7.17

Factos e opiniões

Palma está cheia de estrangeiras feias e sem mamas, não por serem estrangeiras sem mamas mas por serem estrangeiras, feias e não terem mamas.

É factual, não opinativo.

A relação de Palma de Mallorca com a felicidade devia ser estudada

Animula vagula blandula
Hospes comesque corporis
Pallidula rigida nudula
Nec ut soles dabis Iocos.

Little soul, you charming little wanderer, my body's guest and partner,
Where are you off to now?
somewhere without colour, savage and bare;
You'll crack no more of your jokes once you're there.


Cada vez que estou em Palma penso neste poema de Adriano, chegado a mim via Yourcenar, Marguerite magnífica.

E cada vez que estou em Palma pergunto-me se se deve voltar a um sítio onde se foi feliz. A seguir pergunto-me se fui feliz em Palma (a resposta é sim, sem conversa de treta). Depois: deve voltar-se a um sítio onde se foi infeliz? (Nunca fui infeliz em Palma. A pergunta é parcialmente retórica).

Depois pergunto-me "porque sou mais tolerante com a minha cabeça do que com o meu corpo?" Porque me chateia mais uma anca que dói do que a cabeça que faz essa anca andar?

Nunca fui muitas vezes à Bodega Bellver enquanto aqui vivi, hoje um dos meus lugares favoritos nesta cidade (que amo, relembro, como se aqui tivesse nascido).

Pela razão simples e indiscutível que: (dois pontos): fui feliz aqui. Melhor: sou feliz, não porque viva no passado mas porque vivo no futuro.

18.7.17

Fascínio dos chatos

Uma das coisas que mais me fascina nas pessoas chatas é como conseguem ser sempre tão prodigiosamente chatas. Como fazem?

A senhora que não consegue dormir sem ar condicionado e com o gerador e dormia abandonadamente com o gerador, a música do Paolo, as palmas de toda a gente e sem ar condicionado está a fazer o grupo todo esperar há aproximadamente meia hora.

Como é que fazem?

Diário de Bordos - Pollensa, Mallorca, Baleares, Espanha, 18-07-2017

O mínimo que se pode dizer é que o dia foi difícil; o máximo, que demos a volta por cima. O ar condicionado não está bom mas está melhor; o Paolo, depois do dia horrível que passou arranjou energia para cantar e tocar guitarra - faz bem as duas coisas - e temos os clientes todos no cockpit a cantar e a bater palmas e à espera de estarem todos prontos - um deles faz anos e vão jantar a terra -; a senhora por assim dizer freudiana dorme perdida no cockpit. O gerador, se misturado com música e com uma falta de paciência geral não é impedimento.

Eu escrevo e anseio pelo momento em que o bote fique vazio e possa ir à tasca beber um rum tranquilo, longe de músicas, clientes e tripulantes  (por excepcionais que estes sejam, e são).

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Se o vento cair esta noite começo a ter visões semelhantes às de Santa Hildegarda. Se não cair também.

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Para quem não sabe: o ar condicionado, para as pessoas do continente americano tem o mesmo estatuto que a religião ou a política: são coisas que não se discutem.

Ninguém vai dizer a um imbecil que a sua imbecilidade tem mais a ver com a necessidade de reconhecimento social  (vulgo status) do que com uma hipotética e o mais da vezes inexistente deficiência intelectual.

E ainda há quem se admire por tudo o que bebemos quando chegamos a terra

Uma das clientes é - usemos um eufemismo, Freud morreu há algum tempo - extrovertida.

Hoje apareceu a primeira sombra de um talvez de uma ínfima possibilidade de repararmos nós próprios o ar condicionado. Anunciei a notícia, com mais do que as devidas precauções: era a sombra de um talvez.

Resposta da senhora: "Se vocês conseguirem reparar o ar condicionado vamos ter o gerador toda a noite? Eu não consigo dormir com barulho".

17.7.17

Toalhas e patetices

Não é preciso conhecer-me muito bem para saber que eu não trocaria o que faço por nada deste mundo. Ou pelo menos por nada que não me obrigue a estar de sentinela numa lavanderia auto-serviço à espera que oito toalhas de banho sequem (agora. Já as lavei) porque se for - como era minha intenção - beber uma cerveja ou um balde delas arrisco-me a encontrar as portas fechadas. Já foi uma sorte estarem abertas quando cheguei. E agora espero (nos dois sentidos do termo) que a señorita encarregada de fechar as

Chegou. Fiquei eu encarregado de apagar a luz e fechar a porta.

Infelizmente não posso contar porque é que acabo de passar quase duas horas numa lavandaria de auto-serviço e a ela tenho de voltar daqui a quarenta e cinco minutos. O Don Vivo é um blog que se pretende sério, oscila entre o dramático e a tragédia e contar história cómicas (ou patéticas. Ou patetas) vai absolutamente contra a linha editorial.

Diário de Bordos - Ciudadela, Menorca, Baleares, Espanha, 17-07-2017

Já me tinha esquecido de como era bom. Ouvir música de merda todo o dia, ter que lidar com o ar condicionado que não funciona e a necessidade absoluta e imperiosa de uma toalha de praia além da outra, lidar com os arrufos da tripulação, ter de parar em tudo quanto é sítio bonito, poder ir devagar, comer sublimemente, dormir num camarote de merda, ter uma casa de banho na qual mal caibo e mal caberei enquanto não perder quarenta quilos, ser pago menos do que uma mulher a dias, trabalhar o dobro e ter cinquenta vezes mais responsabilidades, ser feliz.

Ser feliz.

PC, censura

O modo normal de lidar com a diferença de opiniões é a censura. Houve um breve intervalo de tempo, entre o fim da Segunda Guerra Mundial e a emergência do Politicamente Correcto (ou mais correctamente do marxismo e derivados) como ideologia dominante durante o qual se acreditou na liberdade de expressão. Essa época acabou. Os dois PCs ganharam.

15.7.17

Diário de Bordos - Menorca, Baleares, Espanha, 15-07-2017 (post a posteriori)

Isto dito, de Menorca até agora conheço dois restaurantes, um shipchandler e o escritório da marina.

Num desses restaurantes comi um bacalhau "panado" e que está claramente entre os dois melhores bacalhaus que jamais comi.

O outro foi na La Toupina, em Bordeaux. Não deixa de ser curioso que um português amante de bacalhau, conservador e céptico (passe a redundância) precise de ir ao estrangeiro para confirmar as ilimitadas capacidades gastronómicas do bicho.

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Vou ter problemas com esta malta por causa do ar condicionado. São mexicanos.

Como todos os latino-americanos "detestam" os Estados Unidos e copiam tudo o que os americanos fazem.

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Hoje de repente pareceu-me que em breve poderia ter uma proposta de trabalho num cata de oitenta e quatro pés nos Estados Unidos.

A proposta ainda não chegou mas já lhe disse que não. O Alentejo tem muita força.

(Inimaginável: é um dos botes mais bonitos nos quais me foi dado entrar, muitas vezes. Se alguém algum dia me dissesse que a minha cabeça se fechou a uma coisa destas eu diria "és maluco". Se acrescentasse que esta decisão me encheria de alegria eu diria "estás doente").

Não estou nem sou. A Flórida é muito longe do Alentejo (e de resto a proposta ainda não chegou).

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Primeiro contacto com a alta burguesia mexicana? Não. Em Acapulco já tive o prazer dúbio de confirmar que na América Latina o mais pequeno dos problemas são os gringos.

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Logo a seguir a um bom amor a melhor coisa do mundo é uma boa tripulação. Um bom bote vem em terceiro lugar nas raízes do bem-estar, harmonia e felicidade.

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O charter é uma actividade nobre: trabalha-se para explicar às pessoas porque tiveram razão em esfolar-se o ano todo como nós nos esfolamos agora, nestas horas entre a saída de uns clientes e a chegada dos outros, e durante a estadia deles a bordo e depois nas reparações de fim da época.

Se bem seja forçoso reconhecer que a simetria não é perfeita. Longe disso, sejam Deus ou quem o substitui louvados.

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Quando era miúdo sonhava ser rico (como todos os miúdos, suponho) quando fosse "grande". Hoje sou grande e percebo até que ponto realizei o meu sonho de infância, apesar de não ter - literalmente - onde cair morto.

Enfim, literalmente é mentira: tenho setenta por cento da superfície do planeta. Deve haver pouca gente mais rica.

Talvez

[Pré-aviso de greve: se este post ficar a meio é porque eles chegaram.]

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Já passei por isto alguma centena de vezes; é sempre igual. É como convidar uma miúda para jantar, ela dizer-nos que sim lá para os lados do café e ir à casa de banho logo a seguir.

Refiro-me a este momento em que os clientes deixaram a bagagem a bordo e foram jantar.

Sabemos que eles voltam. Mas quando?

Sabemos - não nascemos ontem - que o quando? é a menor das questões (como de resto no caso da miúda que "foi à casa de banho". O que importa realmente é tudo o que virá a seguir).

Talvez.

Diário de Bordos - Menorca, Baleares, Espanha, 15-07-2017

Ainda é muito cedo para ter certezas. É sempre, de qualquer forma, não é? Só no momento em que estamos a ir desta para melhor o pudemos afirmar sem dúvidas. Mas tudo indica que estou outra vez num ciclo de sorte daqueles que o transporte do ano passado para San Diego me fez crer que não viriam mais e o deste ano para Atenas sim. E o job no Med o ano passado sim e o do Algarve não e o da Flórida nem sim nem não; e por aí fora. Não sei. Ninguém sabe.

Mas sei que sim, que tudo indica tive muita sorte: o bote é sublime, o armador idem e a tripulação também. Dois meses e meio de charter no Mediterrâneo nestas condições fazem-me agradecer ter ido comprar as místicas antes de vir: vou precisar das palavras delas para agradecer (não sei a quem, mas isso é outra história. A gratidão está cá).

Sessenta e cinco pés, quarenta e cinco toneladas de deslocamento, nove passageiros no máximo (normalmente entre cinco e oito). O barco é um desenho canadiano construído em 1986 e um pouco modificado por um armador americano. Ketch (e não sloop como inicialmente pensei).

14.7.17

Ódios de estimação - Aeroportos

É verdade que o mau humor provocado pela anca não ajuda. Mas é igualmente verdade que no aeroporto de Madrid nada ajuda: só não é o pior do mundo porque tem o de Miami para lhe fazer concorrência.

Tem os defeitos todos de todos os aeroportos do planeta - e mais agora, que estão transformados em centros comerciais -, aos quais se junta um de Espanha: o wifi é deplorável.

Tenho cinco horas de espera. Mais vale ir comprar um bocadinho de paciência. A de Ribera del Duero costuma ser boa.

Diário de Bordos - Genève, Suíça, 14-07-2017

Sexta-feira feira de Julho, feriado em França. O aeroporto de Genebra está a abarrotar pelas costuras.

Depois lembro-me que amanhã estará pior e tremo ainda mais. Não por mim, que estarei em Menorca a tomar posse do novo escritório, mas pelos desgraçados que terão de suportar estas intermináveis filas, este horror de rodas e de beijos.

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Pergunto-me se a dor na anca me dará direito ao canal prioritário e decido que não. Não vou dar-lhe essa honra. Desprezo-a e tudo o que quero é vê-la fora da minha vida e não lhe dever nada.

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Três meses de charter no Mediterrâneo Central (Baleares primeiro, depois Córsega e Sardenha) num ketch 65'.

Não é uma miserável dor de anca que vai chatear-me.

É não ser no Alentejo.

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Uma semana deitado num sofá por causa de uma puta de uma dor e nunca senti que não estava em casa.

Será que se pode adaptar às casas aquela velha piada do gajo que dizia "eu não tenho um carro, tenho uma frota de carros. Estão pintados de verde e preto". As minhas casas não são todas da mesma cor mas têm outro denominador comum.

Começa por A.

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Comprei uma série de livros (enfim, três) de místicas religiosas da Idade Média. Se um dia tiver de descrever o que sinto naqueles dias que precedem um embarque preciso de modelos apropriados.

13.7.17

Manhã muda

Desejo. É do desejo que quero falar-te.

É do desejo que quero falar-te e por ele amar-te, surdo e cego: tu um alvo e eu um dardo, luz e eu janela.

Daqui partimos sem selas e sem rédeas.

Desejo, bendito desejo. Estupenda e interminável manhã muda.

12.7.17

Da liberdade (ainda, sempre)

- Mas a saúde, não posso desejá-la?
- De modo nenhum; nem de resto qualquer outra coisa que te seja estrangeira. Porque tudo o que não podes procurar ou manter como queres é-te estrangeiro. Mantém longe não somente as tuas mãos, mas o teu desejo. Se não, entregas-te tu próprio à escravidão, pões o pescoço no jugo se te deixas fascinar pelo que não te pertence, se te amarras ao que depende de outrém e é perecível.

Epictecto, in Da Liberdade, etc. (cf. post anterior).

Da liberdade

"É por isso que nós chamaremos livres apenas aos animais que não suportam a captividade e assim que estejam captivos se escapam pela morte".

Epicteto, in De la Liberté (extractos de Entretiens. Livres I a IV), éd. Gallimard, collection Folio, traduzido do francês por mim.

Democracia e andaimes

A Internet deu outro peso à expressão "sou um democrata". Literalmente: ser-se democrata radical, como sou, requer mais convicção, mais força de vontade, mais reflexão.

E concomitantemente faz o mesmo à ideia de que a ausência de democracia é pior: não se pode pensar a democracia sem a ter no espírito, como se fosse uma bengala ou um andaime quando se pinta um prédio. 

Nunca é de mais relembrar...

...que tenho cada vez menos paciência e sou cada vez mais tolerante.

Debates, Pavlov

A Internet é uma maravilha, estarei sempre na primeira fila dos que o afirmam. Mas tem um inconveniente muito grande: torna audíveis as vozes que antes só ouvíamos se quiséssemos e dá-lhes um espaço e um peso políticos que não tinham.

O recente "debate" (entre aspas porque se isto são debates eu sou a mulher do Papa) sobre o "racismo" (cito) das declarações de Macron sobre a natalidade em África é aflitivo. As massas de cães começam a ladrar antes mesmo de perceber a que ladram.

O debate politico é uma troca de reflexos pavlovianos entre clubes semelhantes aos de futebol. Sempre foi, verdade. Mas pelo menos estava confinado aos cafés e às tabernas, não nos saltava à cara cada vez que se vai ao Facebook. 

Arquétipos

Um homem está deitado, doente. Pensa no que lhe provocou a doença. Tem várias opções: Deus, uma bruxa ou o mau-olhado de uma mulher que algum dia abandonou, a sua falta de cuidado consigo próprio, ninguém. (Isto é, ninguém definível. Pode ser a idade, o uso normal do corpo, o ar do mar ou da montanha ou a poluição da cidade onde o homem viveu a sua vida). Não acredita em Deus, mas que seria de um arquétipo sem Ele? Tão pouco crê em bruxas, ou na sua própria capacidade de alterar a ordem das coisas, de influir no corpo que o leva aonde quer que vá. "Talvez seja o contrário, talvez seja eu que levo o corpo", pensa.

Não acredita na auto-comiseração: tem mais empatia com o mundo exterior. Uma árvore doente, um cachorro cego, um rio poluído, uma nuvem que se desfaz em chuva provocam-lhe mais dor e mal-estar do que a sua própria doença.

O homem jaz na cama, imóvel. Não sabemos se está morto se vivo. Podemos contudo adivinhar que na sua cabeça - morta ou viva - arquétipos se batem, constroem, desfazem. Pensa: "que fiz das ideias que me guiaram ao longo da vida? Se calhar não fui senão um joguete nas mãos dos arquétipos. O resultado de uma (ou muitas) das suas brincadeiras. Talvez tudo o que fui e fiz fossem apenas manifestações cómicas, patéticas e risíveis de um modelo qualquer que um Deus bêbedo reservou para mim, talvez eu não passe de um conjunto de ideias primordiais das quais só a dor perdurou. Talvez não seja nada, talvez seja tudo e tudo se resuma a esta doença, talvez haja algures no universo neste momento a ideia de quem eu sou a manifestação física e esteja a perguntar-se o que fazer comigo, de mim?"

Talvez. É noite, uma daquelas noites sem Lua e sem o perdão do sono.

Não. Cada um de nós é o arquétipo de si próprio, cada um de nós se constrói enquanto constrói a vida, simultaneamente. Morrer é acabar de nascer. Os arquétipos não existem: antes de morrer não estão completos e depois desaparecem, como se nunca sequer tivessem existido.

(Para a C., com um beijo que é o beijo de todos os beijos).

11.7.17

Diário de Bordos - Genève, Suíça, 11-07-2017

As dores vão mudando no sentido dos ponteiros do relógio. Agora é a anca esquerda. Isto devem ser sintomas de que preciso de ir à revisão dos sessenta.

Até lá, uma vida de cão: como, durmo e vou passear a cadela para fazer xixi (ela, eu faço em casa). Passeios curtos, que os comprimidos ainda não começaram a fazer efeito.

(A palavra comprimidos começa a provocar-me uma aversão notável. Cada vez que penso nela, a escrevo ou oiço tenho vontade de sacar um revólver).

Como sempre, quanto menos se faz menos se faz. Ou, dito de outra forma: quanto mais se dorme mais sono se tem. Por enquanto ainda está na linha orçamental "descanso", mas os sinais de que em breve passará para "seca" acumulam-se.

10.7.17

Personagens ideais

Revolucionário céptico.
Sonhador realista.
Troglodita culto.
Vidente mudo.

Nesfake

O Nespresso está para o café como as fake news para as notícias e é igualmente pernicioso: está em todo o lado, é impossível escapar-lhe, parece café e não é, intoxica o ambiente.

Que se tenha tornado um símbolo da burguesia diz mais sobre ela do que muitos tratados de sociologia.