26.3.15

Diário de Bordos - Aeroporto Princesa Juliana, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 26-03-2015

Digo obrigado à Paula, do Sous-Marin, à Olivia do Lagoonies, ao Craig da Little Crew House. Já o fiz, e faço de novo. E direi sempre. Foi graças a eles, que não me conheciam de lado nenhum que sobrevivi os primeiros tempos em St. Martin. E ao J., também, claro. E ao C., da empresa de sonhos que me ficou a dever aquilo que para mim é uma pipa de massa (a qual será paga, tenho a certeza) mas que me deu muito, muito mais do que o dinheiro que já recebi e vou receber.

Digo obrigado a tudo, na verdade: cheguei um, saio outro. Se isto não define vida não sei o que a pode definir.

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Mais uma passagem por aquele execrável aeroporto. Desta vez fico lá pouco tempo, felizmente. Se se concretizarem os dois trabalhos que tenho mais ou menos alinhados - mas ainda não confirmados, tenho de me repetir isto cem vezes cada vez que penso neles - a relação horas de avião / dias de mar, agora completamente desequilibrada vai alterar-se no bom sentido.

Esta época foi a da inversão de tendência. Porque não há-de continuar?

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"Vida, sou eu de novo. Desculpa chatear-te. Tens uns anitos para mim?".

Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 25-03-2015

Comprei um livro. Pode parecer estúpido, ou pelo menos incompreensível. A fotografia da capa não chega para a coisa se tornar racional:


O título é fabuloso, a capa linda de morrer e Besson... bem é Besson e eu estou cheio de vontade de aprender a escrever e mais vale ler muito para aprender um bocadinho e já agora o muito deve incluir os franceses todos, ou pelo menos os Bessons todos e os que escrevem como ele.

Mas faltam duas coisas na fotografia: uma é a textura do papel. Outra são os contos, de que hoje li duas ou três páginas no Sous-Marin, mesmo ao ao lado da livraria.

Enquanto comprava o livro jurei que amanhã envio os livros que arrasto na mochila verde para casa. De qualquer forma preciso da mochila, o saco de Bequia está quase a deixar de ser novo.

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Amanhã voo para S. Paulo. Vou descobrir um Brasil que não conheço e uma vida de que já me tinha esquecido. 

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A empresa de sonho para a qual trabalhei não me pagou metade do que devia ter pago. Agora é oficial: está com dificuldades de pagamento. É a segunda maior empresa de charter do mundo.

"- Fiz uma pequena fortuna com barcos à vela.
- A sério? Como conseguiste?
- Comecei com uma grande fortuna."

24.3.15

Diário de Bordos - Cole Bay, St. Maarten, Antilhas Holandesas, 24-03-2015

O aeroporto de Miami não é, obviamente, o pior do mundo; tão pouco será o pior dos Estados Unidos, não sei. Não os conheço todos. Mas é de certeza o pior de todos os que conheço, seja onde for, categorias grandes e frequentes. O ar condicionado está sempre regulado para uma temperatura glacial; o wifi não é gratuito; as cadeiras são uma merda e além disso têm braços para que as pessoas não se possam deitar; e é feio, o que não arranja nada. E é caro (todos são, eu sei. Mas uma merda destas não devia ser).

Tive de lá passar a noite, pela segunda vez. Da primeira ainda encontrei uma plataforma de madeira que lá estava por causa de umas obras, surpreendentemente limpa. Ou pelo menos pouco suja. Desta nem isso: dormi em cima de uma estrutura de azulejo fria e duro como o raio que a parta, e já foi uma sorte encontrar aquilo: com excepção do chão era o único lugar onde me podia estender ao comprido. Dormi pouco, mal e porcamente, claro. E enregelado.

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A gata Nala está entregue. Agora falta-me esperar que S. me reembolse uma parte das despesas que tive com isto para encerrar definitivamente a história.

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St. Martin. Comi de mais, e daqui a bocadinho terei bebido de mais, se Deus quiser. Passo a vida a dizer às pessoas (como se fosse preciso) que não tenho casa. É verdade: não tenho uma casa. É mentira: tenho muitas. Uma em St. Martin, à qual acabo de regressar; uma em Lisboa; outra em S. Luís. Tenho tantas que não me lembro sequer de onde são. Palma. Falmouth Harbour. Le Marin. Panamá. Mértola ainda não, mas aposto que em breve será.

Conheço muita gente que tem uma casa em Londres, outra em Nova Iorque, mais uma em Paris e ou Madrid. Casas que custaram milhões, investimentos, arquitectos, a puta que os pariu, coitados. As minhas não custam nada, ou quase. E são muito mais bonitas porque não ficam fechadas quando eu me vou embora: as paredes não são feitas de tijolos. São feitas de olá; que bom é ver-te. Por onde andaste?; claro que tenho um lugar para ti. Não sei aonde, mas vem; sê bem-vindo; hey! Bom ver-te.

E eu respondo. Digo que sim. Como de mais, bebo de mais, vivo de mais. Sinto de mais e apesar disso consigo continuar a sentir, sorte a minha.

23.3.15

Nassau, Bahamas

Já aqui falei do Bahamian. Estava para lá ir almoçar, mas vai ter de ficar para outra vez. em contrapartida posso aconselhar - e faço-o veementemente - um pequeno café chamado Euro-tandoor, na Charlotte Street N. Pertence a uma adorável família indiana e tem - cito - "Fine Indian and European Cuisine". É verdade. Indiana, europeia e jamaicana - comi aqui um dos melhores jerks da minha vida -.

Outra sugestão é o café Spanks, provavelmente a Pastelaria Suíça (salvas todas as proporções, devidas ou indevidas) de Nassau. Fica perto, na Main Street ou coisa que o valha.

Felicidade, cansaços

O único inconveniente da felicidade é ser tão cansativa. Quando um gajo está triste só se preocupa com uma coisa de cada vez - regra geral ele próprio, mas também pode ser sei lá, o trabalho, a solidão ou a cor cinzenta do céu num dia de chuva -.

Quando se é feliz é preciso lidar com tudo ao mesmo tempo: os outros, nós, o passado, o futuro e o presente, o vento e o sol e o mar, a vida, o trabalho e essa solidão que lentamente se afasta, se desvanece como uma nuvem de areia no deserto.

(Para a Margarida, com um beijo; e para a Lúcia, com um número infinito deles).

Diário de Bordos - Nassau, Bahamas, 22-03-2015

Hoje atingi o limite. Ou pelo menos aproximei-me bastante dele. Comecei o dia a andar alguns três ou quatro quilómetros com os sacos - entre os quais, mea culpa, se  encontra ainda a mochila verde com os livros (menos o Bowles, que deixei em Black Point) - mai-la merda da gaiola da gata, a qual não parou de miar o trajecto todo. Fui deixá-la na Bahamas Humane Society, uma organização que apesar do nome só trata de animais.

E estou, depois deste tempo todo a falar de espeluncas, numa verdadeira espelunca. Posso estar enganado, mas creio que desde o Burundi não durmo num sítio tão sujo, tão infecto - e caro -.

Os Bahamianos têm uma perspectiva particular da indústria da hospitalidade. Em Black Point dormi numa casa que tinha ratos mortos (não é uma imagem, é literal: vi pelo menos dois, que pus no caixote de lixo à entrada da casa. "Espalhei veneno para ratos", explicou-me - é verdade que ligeiramente embaraçado - o jovem alcoólico e provavelmente crackómano que me alugou o sítio, pertença de um tio dele que agora vive em Nassau). Além dos ratos os lençóis não tinham sido mudados desde que o legítimo proprietário neles dormiu pela última vez (de certeza há muito tempo e as bactérias estavam por esta altura todas mortas). Impossível usar a casa de banho e a cozinha - era onde estavam os ratos, os quais estavam longe de ser a única sujidade. Tudo isto pela módica e absolutamente não negociável quantia de cinquenta dólares, praticamente cinquenta euros. E a limpeza, se eu a quisesse (queria) era por minha conta. Outros cinquenta.

De manhã mudei, claro. Fui para uma senhora que aluga quartos. Uma espécie de pensão, ou pousada, ou hotel, ou não sei como chamar àquilo. O quarto estava limpo. Cem dólares. O duche não funcionava bem e fui avisar a dona. No dia seguinte de manhã o marido, ou empregado (tão pouco sei) pôs-me um duche e dois alicates na mão.

Mudei o duche, naturalmente - consegui reduzir o preço de cem para setenta e cinco dólares à conta disso-. Nos termos do meu acordo com S. não sou eu que pago o alojamento. Mas sei que ela não tem dinheiro, está nas cordas, e custa-me não participar no esforço que ela está a fazer.

Ou custava, até hoje. Não vou descrever a espelunca onde estou. É pouco entusiasmante como tarefa. Mas lá acabei a limpar o quarto e a casa de banho e a mudar os lençóis - aquilo é um hotel de putas e as bactérias dos últimos hóspedes ainda devem estar vivinhas da costa -.

E depois um gajo que não gosta de animais e não tem dinheiro para mandar cantar um cego pergunta-se por que raio de carga de água está a passar por isto tudo para ajudar uma gaja que gosta deles e não tem dinheiro para mandar cantar um gato, cego ou não. Aquela história de sermos todos tripulantes do mesmo navio, talvez. Não sei.

(S. diz-me que amanhã posso ir dormir de novo à tipografia, na cama de campanha que tresanda a cão. Duvido. Pode ser que a Spring Break esteja mais perto do fim. Apesar de tudo pefiro uma camarata.)

Sei que amanhã é o último dia. Às sete e vinte da tarde aterro em Miami e se tudo correr bem uma hora depois entrego-lhe a gata.

Esta história não contribuiu para aumentar o meu amor por gatos; mas alargou incomensuravelmente o fosso de incompreensão que me separa das pessoas que gostam deles, ou de quaisquer outros animais domésticos.

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Estou contente por deixar este país amanhã. Só há duas maneiras de gostar disto: ser rico ou ter uma embarcação com uma despensa cheia a abarrotar.

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O hotel no qual durmo esta noite é alimentado por dois bares que lhe ficam no rés-do-chão. Espero que as putas - e os maricas, no caso daquele onde estou agora - encontrem clientes depressa. A isolação sonora não é a melhor; e sempre prefiro meia dúzia de gritos no quarto ao lado a esta merda desta música.

22.3.15

HH

"Já me disseram que a gente que nasce e vive ao pé do mar é mais pura. Penso que o mar dá uma qualidade especial à fantasia, ao desejo e à confi­ança. É uma propriedade misteriosa do espírito, e por ela se aprende a nada esperar, a não desesperar de nada. Talvez seja isso a inocência. Talvez só no mar nos seja concedido morrer verdadeiramente, morrer como nenhum homem pode."

Herberto Hélder, Os Passos em Volta.

É o meu livro favorito dele, e este o texto, e esta a passagem.

Diário de Bordos - Staniel Cay, Bahamas, 21-03-2015

Se eu dissesse que vou no segundo rum punch não estaria a mentir. É verdade. Vou  no segundo. Mas não seria a verdade toda. Isto não é bem um rum punch, apesar de estar feito exactamente segundo as minhas instruções: copo de vidro, pouco gelo e seco, muito seco (ou seja, muito rum).

O copo não é um copo, é um balde em ponto pequeno.

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Estou no restaurante Taste & Sea, em Staniel Cay. A razão da demora é simples: o CAPTAIN C. trazia, já quando eu vim de Nassau, um bloco de concreto enorme para descarregar aqui. A coisa é demasiado pesada para ser descarrageda na parte do cais que é de madeira e estamos à espera da maré para a descarregar no cimento. Precisamos da maré cheia.

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Ooops, parece que vamos largar.

21.3.15

Resumo precoce

Numa noite de terça para quarta-feira de Março de 2015 decidi ir para Cuba. Estava em St. Augustine, uma cidade turística do norte da Florida. Tinha de ir de barco, por duas razões: uma, o visto; e duas, o custo.

Saí de St. Augustine para Ft. Lauderdale porque queria parar dois ou três dias num sítio, e St. Augustine aborrecia-me. É uma cidade bonita, turística e cara. O hotel onde estava não era grande coisa. O destino final sendo Key West ou pelo menos uma das Keys e aí encontrar um embarque para Havana.

Março nos Estados Unidos é o mês dos Spring Breaks, uma instituição que desconhecia por completo e cuja ignorância me custou bastante, de todos os pontos de vista. Os hotéis baratos, motéis e hostels estão cheios, as ruas e os meios de transporte invadidos por hordas de estudantes universitários a fazer o que todos os estudantes universitários fazem quando em bandos: beber mais do que devem e foder menos do que dizem.

Passei duas noites em Ft. Lauderdale, depois de uma viagem de comboio agradável apesar de um atraso de duas horas da Amtrak. Passei por sítios bastante bonitos. A Florida é uma permanente mistura de água, terra, árvores e céu e tem paisagens fascinantes, encantadoras no sentido primeiro do termo.

Sexta-feira apanhei um autocarro em Florida City, o último de uma longa série que tinha começado em Ft. Lauderdale, para Marathon. Eram oito e meia da noite, o ETA era às dez e meia. Não tinha sítio para dormir nem muitas probabilidades de encontrar um àquela hora. Apesar disso decidi ir. Em último caso dormiria na praia ou apanharia o autocarro de volta para Florida City – hipótese pouco provável, porque Florida City não inspira muita confiança, mas enfim. No autocarro encontrei uma senhora cujo marido estava preso nas Bahamas “por ter excedido o tempo de permanência no país”. Era preciso tentar recuperar o barco o mais depressa possível, pois corria o risco de ser arrestado.

Isto não é a verdade toda: o marido estava preso não só por ter excedido o tempo de permanência, mas também por ter armas não declaradas a bordo. E uma embarcação apanhada a cometer um crime é arrestada, não “corre o risco de ser arrestada”. Mas isso só o vim a saber depois, já em Black Point, o – de resto idílico – lugar onde está o barco (C., para futuras referências).

Dormi na tipografia onde a senhora (S.) trabalha de noite. De dia dá aulas de SUP e kayak numa escola das Keys. Trabalha demais para pagar os custos dos problemas que o marido lhe provoca e alimentar os quatro cães, quatro gatos e nove iguanas com os quais vive a bordo de uma embarcação de vela de trinta e sete pés. É bióloga e, diz-me, “já fui rica”.

S. não tem dinheiro. Nunca mo escondeu. Por isso acordámos que eu iria buscar o barco às Bahamas e o poderia levar para Cuba, em vez de Haiti. Ela não me pagaria mais do que os transportes – chegado a Black Point eu poderia ir para bordo e obviamente o custo de vida baixaria exponencialmente -.

É igualmente óbvio que as coisas nunca se passam exactamente como nós as planeamos, qualquer que seja a área de actividade. Em tudo o que respeita a embarcações de vela ainda é pior. Como se o senhor Murphy fosse velejador e tivesse feito a sua famosa e incontornável lei especificamente para a navegação à vela.

Do lado do barco o objectivo de S. era impedir o arresto. E do lado de R., o marido, era impedir que fosse parar a uma aparentemente infame prisão nas Bahamas chamada Fox Hill. “R. sofreu traumatismos cerebrais quando era criança e tem alguns problemas”, diz-me S.  naquela primeira noite na tipografia, quando falávamos da situação e estudávamos o que fazer. “Tem alguns problemas” é um eufemismo. Compreensível, mas eufemismo. Ou sinédoque. Ou mentira, para os mais realistas. Seja o que for é, para mim, compreensível. Ela não sabia que se me tivesse dito tudo eu a teria ajudado na mesma.

II
Na madrugada de domingo apanhei o ferry de Ft. Lauderdale para Freeport, nas Bahamas. Foi uma viagem sem história, feita na companhia de duas simpáticas, educadas e bonitas jovens que estavam, elas também em Spring break, mas não se associavam aos bandos de selvagens que às sete da manhã já estavam a beber cava, vodka, cerveja e ou cocktails diversos.

Em Freeport passei a tarde num café chamado Sire’s. Nada vi da cidade. Não teria podido, de qualquer forma: estava em constante comunicação com S., seguindo a evolução da situação, que se alterava constantemente. Digo situação, mas devia dizer situações: a do barco e a do marido. Como sempre havia esperanças, recuos, incompreensões, inabilidades.

R. devia ser deportado uma vez paga a multa de dois mil dólares. Essa multa seria paga pela Embaixada Americana, depois de recebida a soma. A primeira tentativa d transferência não funcionou. O barco seria liberto. Depois não. Depois sim. Depois não (finalmente foi confiscado já eu estava em Black Point). R. não podia de modo alguma ir para Fox Hill. Não iria. Acabou lá.
Tudo isto tendo eu uma minúscula quantidade de dinheiro no bolso. Estava suposto chegar, comprar
leite e embarcar.

C. não estava em condições nem de fazer uma viagem de dia. A desordem a bordo era indescritível. O barco tinha sofrido uma busca pela polícia e atribuí-lhe o caos. “Não”, diz-me S. “R. é sempre assim”. Passo alguns pormenores. Explico a S. que preciso de um mínimo de três dias para pôr o barco navegável, explicando-lhe que isto não é negociável. De qualquer forma não foi preciso negociar nada: C. foi confiscado pelo governo das Bahamas.

Digo-lhe também que temos de reacordar os termos da minha ajuda, porque isto está a demorar e a custar muito mais do que o previsto. Estou pronto a ajudar, e ponho o bolso onde ponho a boca. Mas não posso pôr mais do que tenho no bolso, que é pouco (e nem sequer está no bolso, mas isso é outra história).

A recepção em Black Point foi fria. Os “amigos” de R. eram isso mesmo: amigos com aspas. De certa forma é compreensível: R. não é fácil nem agradável, pelo que me contam dele e vi nos jornais e nos relatórios médicos que S. um dia me enviou.

S. é bióloga de formação, mas agora dá aulas de SUP e de kayak e à noite ajuda numa tipografia. Vive num trinta e sete pés com quatro cães, quatro gatos e nove iguanas. É alta e atraente, pela inteligência e – sei-o agora – pelo dinamismo e energia.

É a segunda vez (pelo menos das que sei) que tem de safar R. de enrascadas. A primeira foi muito mais grave do que esta e levou-lhe o dinheiro que tinha. Agora trabalha de dia e de noite.

III
Mencionei há pouco as duas frentes de luta: o barco e R. Falta uma: a gata Nala, essencial para o bem estra psíquico de R. (e, suspeito, de S.)

Inicio agora a viagem de regresso, com a gata numa gaiola enorme. Não sou, nunca fui grande amigo de animais. Limito-me a não lhes querer mal. A ideia de viajar com uma gata numa gaiola está tão longe de mim como a de pôr um extremista muçulmano a gostar de vinho. Não é só o bolso que ponho onde ponho a boca…

Vou fazer a viagem no Captain C. outra vez, para poupar uma noite de hotel. Confesso que não é grande sacrifício. Recuperei o meu camarote, agora um bocadinho menos arranjado do que quando a ele cheguei pela primeira vez. Nala tem comida e água. Vai fora do camarote: hoje acordei com um cheiro a mijo de gato que só não me fez odiar gatos porque me falta paciência para odiar seja o que (ou quem) for.

C. e a sua indescritível desordem ficam. O pavilhão americano, enorme e arvorado no brandal de estibordo por cima do das Bahamas (três erros de uma só vez), este minúsculo, pende triste, como se tivesse vontade de partir ou pelo menos de ter um convés arrumado. O barco fica para o Governo das Bahamas, que o vai pôr a leilão. S. quer recuperá-lo. Diz que é importante para o equilíbrio psíquico do marido. Espero que consiga, se bem duvide bastante que R. possa – ou deva – viver fora de um hospital.

IV
Domingo não poderei fazer grande coisa em Nassau. Segunda-feira vou ao veterinário para o certificado de saúde, vou comprar-lhe um saco para a viagem e apanho o avião para St. Martin. Faço escala em Miami para entregar o bicho e dizer adeus a S., e a Cuba.

Fica para a próxima.

19.3.15

Vidas cruzadas

Demorou dois anos a apaixonar-se por ela, e ela outro tanto a desapaixonar-se dele.

18.3.15

Telefotos - Staniek Cay e Fowl Cay, Bahamas




Telefotos - Nassau, Bahamas





Bahamas (notas)

Ilhas baixinhas, como lenços de terra que alguém tivesse deixado cair por esse mar fora e ali tivessem ficado, um pouco ao acaso, pesados de mais para ser levados pelo vento e demasiado leves para se afundarem.

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É como navegar num aquário.

.......

Telefotos - Nassau, Bahamas




Saber viver, ruído, decência

É possível que saber viver não seja mais do que saber não aumentar o nível de ruído no sistema. Ou mesmo diminuí-lo.

A ser assim, saber viver é muito semelhante a ser decente: um gajo decente é aquele que mantém o mais baixo possível os níveis de ruído no sistema naturalmente caótico da vida.

Diário de Bordos - Staniel Cay, Bahamas, 18-03-2015

Como dois corpos que se despegam, dois lábios que se separam lentamante o CAPTAIN C afastou-se do cais. A manobra foi perfeita, bela. Não há coisa mais bonita de se ver do que uma manobra bem feita. E não há melhor hora para largar do que esta, a noite toda pela proa.
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Passei uma noite regalada, regalada. Acordo quando nos aproximamos de Staniel Cay. E agora tomo o pequeno almoço no Staniel Cay Yacht Club.

O sítio é lindo de morrer, mas esta fauna de big game fishers, superyachts, respectivas tripulações e guests não é a minha tribo. Por muito boa que a música seja, cuidada a decoração e bom o pequeno-almoço (com a habitual excepção do café, que é uma merda). E o ar condicionado, ubíquo, desnecessário.

Uma espécie de BVI baixinhas, mas com preços ainda mais escandalosos. Há muito tempo que não levava um murro no estômago como o que acabo de levar.
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A viagem do CAPTAIN C torna-se um bocadinho errática. Estávamos para largar às sete da tarde, vir a Staniel Cay e daqui ir para Black Point, onde o S/Y C. e a gata Nala me esperam. Chegaríamos, disseram-me, por volta des trè sou quatro da manhã.

Vejo agora que isso seria impossível. A largada de Nassau foi às nove da noite para estarmos aqui de dia. E agora já não vamos para Black Point directamente: ainda passamos por outro cay qualquer. Não chego a Black Point antes do fim da tarde, está visto.

17.3.15

Diário de Bordos - Nassau, Bahamas, 17-03-2015

A cidade é pequena e, tirando Main Street - inevitavelmente pejada de gente dos cruzeiros e de putos em spring break - bawstante agradável, calma. E cara, bastante cara. Comi no primeiro buraco que encontrei porque estava cheio de fome e claro. Um absurdo.

Agora estou numa casa local, um daqueles restaurantes nos quais um gajo não precisa de comer para ter a certeza de que é bom. Chama-se Bahamian Cookin', fica na Trinity Place e aconselho vivamente os meus leitores, de resto tão tolerantes e generosos, a experimentá-lo.

Afinal logo à noite não vou no Mail Boat, vou num pequeno cargueiro de cabotagem local. É pequenino, vai ser uma viagem deliciosa. estou a gostar de cada minuto desta. Faz-me lembrar a que em 2010 me levou de Parnaíba à Guiana Francesa, mas agora de barco.

(Nada disto teria sido possível sem o apoio logístico e a amizade da M., a quem aqui deixo um beijo e um obrigado do tamanho disto tudo).

(Cont.)

Relatório intermédio

As viagens começam mas não acabam, digo-o muitas vezes. Mas talvez isso seja só no princípio, talvez depois deixem também de começar e se fundam todas numa só, numa espécie de magma de viagens que se entrelaçam, bifurcam, reatam e recomeçam numa cadeia sem fim.

Estou nas Bahamas, num café de Freeport ao qual cheguei pouco passava da uma da tarde e onde ficarei até à meia noite, porque uma hora depois apanho o barco-correio para Nassau. Daí, logo a seguir, vou noutro barco-correio para Black Point, onde chegarei às duas ou três da manhã.

Estou a adiantar-me, a andar  para a frente. É preciso andar para trás, fingir que este é o fim da viagem e reconstituí-la. Hoje é segunda-feira. Dez e dez da noite. Acordei às cinco da manhã em Fort Lauderdale, fui de autocarro até ao terminal do ferry. Comprei o bilhete - obrigaram-me a comprar uma ida e volta, apesar de ter um e-mail a dizer que ia embarcar num veleiro, filhos da puta (ou filha, era uma senhora) -. A caminho do ferry vieram ter comigo duas miúdas novas, pedir-me informações. Disse-lhes que também ia para lá. Vieram comigo. Fizemos a viagem juntos. Eram simpáticas, inteligentes, bonitas. Nada a ver com a escumalha do spring break que às sete da manhã comprava garrafas de cava (o ferry é da Balearia) e às nove mal se tinha de pé.

O tempo passou bem, depressa. As miúdas conversaram, eram educadas; e depois dormiram a viagem toda: tinham passado a noite a viajar de carro.

Cheguei ao hotel Deauville às seis da tarde de domingo, vindo de Marathon. Passei o domingo todo a viajar, a saltar de autocarro para autocarro para comboio para monorail e para mais três ou quatro autocarros. Tudo isto com peso a mais: tenho a mochila verde carregada de livros que não mandei para Lisboa por ser demasiado caro e não deitei fora por não ser capaz.

Em Marathon dormi numa tipografia, numa daquelas camas de campanha dobráveis que tresandava a cão. O dono da empresa, D. é amigo dos animais e fala com e dos cães como se fossem pessoas. Dormui bem, apesar do cheiro, profundamente e de uma vez só.

Dormi naquela tipografia, entre uma máquina antiga e umas estantes ainda mais velhas porque no autocarro - o último de toda aquela cadeia de transportes entre Fort Lauderdale e Marathon - encontrei uma senhora cujo marido está na prisão nas Bahamas por ter excedido o tempo de permanência no país. Queria, mais do que justificadamente, tirar o barco de lá e levá-lo para Haiti para fazer reparações na previsão de ele ser arrestado. Como de resto foi, hoje de manhã. Nem a senhora nem o marido têm dinheiro. Acabámos por acordar que eu lhes levaria o bote para Cuba gratuitamente (excepto os transportes e as dormidas, porque isso eles teriam que pagar de qualquer maneira).

Entretanto, já no ferry (salto para a frente) fiquei a saber que o barco tinha sido arrestado e que o marido da senhora arriscava uma pena de prisão de dois anos na prisão a sério do país, não na da esquadra onde agora se encontra.

Além disso tem de pagar uma multa de dois mil dólares, dinheiro que não tem, nem ele nem a mulher.

A senhora está compreensivelmente desesperada, e o senhor também (sei através dela, nunca falei com o homem nem nunca o vi). Diz-me que é melhor abortar a missão e voltar para trás, porque está aflita a tentar encontrar o dinheiro para a multa e porque o barco vai ser arrestado e porque não sabe o que há-de fazer (isto não me disse. É alemã. Tive de ser eu a deduzi-lo. Não foi um esforço muito grande).

Digo-lhe que não, que tenha calma. De qualquer forma em Fort Lauderdale está tudo cheio. E talvez com um pouco de jeito se consiga tirar daqui o barco, e o marido. O qual sofreu um acidente qualquer cerebral quando era miúdo e se bem não seja atrasado mental ficou com sequelas e não sabe lidar bem com algunas circunstâncias.

Quando cheguei a Freeport não sabia se ia dormir aqui, seguir amanhã de barco-correio para Nassau e na quarta-feira para Georgetown, onde o armador está detido; ou se ia para Black Point no barco correio da uma da manhã.

Passei a tarde toda num café a falar com a senhora por Facebook (e ainda há quem diga mal daquilo), até que às cinco da tarde tomámos aquela que para mim é a decisão mais correcta: vou a Black Point. Se o marido dela tiver sido libertado (amanhã tem uma audiência com um juiz que vai decidir) saio de lá com o barco, e o gato que vive a bordo, de cujo nome não me lembro.

Se o juiz decidir manter o homem preso vou para Georgetown e tento falar com ele, ou com a secretária dele, que já deu a entender claramente que quer dinheiro. Nem R. (o armador) nem S. (a mulher dele, se bem esta numa menor escala) sabem lidar com estas situações. S. fala-me da lei, dos regulamentos, da multa que vai pagar, disto e daquilo. "O que estás a fazer é como analizar um filme porno com as ferramentas de análise do Disney" respondo-lhe a certa altura, exausto.

Ao fim da tarde S. conseguiu encontrar o dinheiro para a multa. Não precisa do meu - não chegaria a tempo e seria insuficiente, mas se pudesse ajudar emprestar-lhe-ia o que me falta receber do salário e ela  pagar-me-ia depois -. Em Cuba a vida não é cara e em Haiti ainda menos, não haveria marina a pagar. Felizmente ela encontrou massa. Depois foi preciso ver como a faríamos chegar ao juiz. Via embaixada americana (cujo sistema informático está, aparentemente, em baixo).

São onze menos dez. Daqui a uma hora vou para o terminal do barco-correio. Com sorte talvez consiga encontrar um canto para dormir. Entre os dois barcos-correios tenho de ir buscar dinheiro à Western Union e não sei se terei tempo. Se não tiver todo este plano vai por água abaixo.

Espero que R. seja libertado amanhã, metido num avião e deportado para os Estados Unidos, que o Juiz esqueça o arresto do barco, totalmente injustificável à luz da legislação habitual: o barco não foi usado para cometer um crime. Não transportava droga, nem imigrantes clandestinos - contra os quais as Bahamas lutam denodadamente, o que explica a severidade das penas de um "crime" que na maioria dos países é tratado com uma multa -, não servia de bordel flutuante, ou casino. Porém se olharmos para isso e pensarmos que o juiz, ou a sua secretária, ou os dois querem dinheiro por baixo da mesa o arresto torna-se claro como a água das baías de Cuba que vejo nas fotografias.

Esta viagem começou no sábado: saí do hotel mais tarde do que previra porque tive de esperar pela roupa. Cheguei a Marathon quase às onze da noite depois de ter encontrado um trabalho, dormi numa tipografia, regressei a Fort Lauderdale, embarquei num ferry, passei a tarde num café a resolver um asunto que entretanto se complicara. E agora espero pelo barco-correio (que, ainda não sabia, está atrasado uma hora pelo menos), sozinho, coberto de picadas de mosquitos na esplanada do café que entretanto fechou.

Esta viagem não começou no sábado. Começou no dia em que aprendi que somos todos parte da mesma tripulação, por mais individualistas que sejamos.  Foi há muitos anos.

16.3.15

Diário de Bordos - Freeport, Bahamas, 16-03-2015

A senhora é bonita. Gorda, mas não para os padrões locais. Ele é gordíssimo, mas pelos mesmos padrões talvez vá para a categoria dos "fortes". Quando muito.

É um casal adúltero, vê-se à légua. Nenhum homem casado olha para a mulher com esta intensidade, esta atenção, quase medo. Ela está mais à vontade. Sabe-se bonita, Não há coisa que dê mais beleza a uma mulher do que saber-se - ou sentir-se - bonita. E desejada, às vezes. Nem todas.

Não lhes oiço a conversa. Precisaria de prestar atenção, e sou incapaz disso. Lamento, claro: de que falarão? Porquê aqueles gestos dela? (Aposto que está a falar do marido, mas é uma aposta que nunca poderei saber se ganhei ou não).

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A viagem para Cuba está a transformar-se numa missão. R., o armador corre o risco de ir para a prisão (prisão - prisão, não a esquadra onde está agora) se não pagar uma porra de uma multa para a qual não tem dinheiro; e ter o barco arrestado. S., a mulher, anda à procura de massa. Já lhe disse que posso e quero ajudar. É uma questão de timing.

A ideia de que o homem está na prisão por causa de uma merda destas deixa-me fora de mim. Darei o que tenho para o tirar de lá. A prisão não é lugar para um marinheiro, um gajo que de prisões só conhece a maior e mais eficaz delas todas. A escolheu, até.

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R. não é bem um marinheiro. É um tipo que sabe que vai desta para melhor em breve (tem uma doença daquelas incuráveis) e antes de morrer quer dar uma volta ao mundo, ou pelo menos uma volta pelo mundo. Merece mais respeito do que muitos filhos da puta que por aí andam. Enfim, digo isto sem o ter sequer visto, mas aposto que tenho razão. Logo veremos.

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Primeiro contacto com as Bahamas: um café onde comi conch fritters melhores do que os do Captain Macks em Bequia. E o vinho custa três dólares e cinquenta. E uma luta para safar um gajo que nunca vi da prisão.

O café tem os vidros fumados, ar condicionado (mas não muito frio) e fica à frente de uns enormes tanques de combustível. É o que mais perto estava do aeroporto.

Preciso de fazer uma chamada para a taxista que me trouxe aqui, mas a dona não deve ter pago a conta do telefone. Vai agora carregar o portátil. É simpática, sorridente, produzida e um bocaduinho gorda, só. Não muito. A comida é boa e o vinho barato.

Quem sabe se há mundos para além disto?

Portos de entrada em Cuba, costa N


Um letra, muitas estrelas

Não sei de onde nasceu a ideia dos hostels. Antigamente havia os Albergues de Juventude e um dia alguém se lembrou de actualizar a coisa, mas não sei nada do processo que transformou estes naqueles.

Mas gostaria de saudar o gajo, ou a pessoa, no caso de ser uma senhora, que teve a ideia. Pega-se num quarto básico, muito básico, numa propriedade igualmente básica - admitidamente, a mais das vezes, bem situada. Como fazer dinheiro com isto investindo o menos possível? Há muitas. A mais genial, a meu ver consiste em comprar meia dúzia de beliches baratos, roupa de cama ainda mais barata, pratos e coisas de cozinha em segunda mão e fazer um hostel.

Num segundo um quarto com seis beliches (doze pessoas) vende-se ao dobro do preço de um outro com o triplo da área e o décuplo do investimento. Tudo por causa de uma letra e muitas estrelas a menos.

15.3.15

Diário de Bordos - Fort Lauderdale, Florida, Estados Unidos, 15-03-2015

O trajecto do Hotel Deauville, onde partilhava uma camarata com, entre outros, dois ex-polícias – um Americano reformado (e sem dinheiro, todo o hostel sabe porque o senhor fala muito alto ao telefone) e um porto-riquenho reciclado em chauffeur de camiões - a Marathon demorou quase doze horas, em vez das sete ou oito que eu tinha estimado: engarrafamentos vários e monstruosos em Miami por causa de uma corrida de automóveis e de acidentes na autoestrada (não relacionados), distâncias muito maiores do que me tinham dito (o polícia americano, o tal que conhece muito bem o sistema de transportes local e está teso, situação que me é bastante familiar) e, last but not least, a má qualidade da informação disponível. Planear uma viagem destas em transportes públicos urbanos demora tanto tempo como a viagem em si. Mais vale planeá-la à medida que vai decorrendo. (Hoje o regresso flui linear, tranquilo. Parece que faço isto todos os dias).

A vantagem estando, claro, na velha antinomia tempo / dinheiro. Gastei pouco menos de quinze dólares. Com a Greyhound ter-me-ia custado a viagem cinquenta - e demorado quatro horas. Um cálculo rápido permite ver que com a Greyhound a hora de viagem ter-me-ia saído a doze dólares e meio, contra os um e dez que paguei (os valores são aproximados) - .

E não teria passado por uma daquelas coisas que só acontecem a quem viaja e arrisca fazê-lo sem demasiados planos.

Cheguei a Florida City para apanhar o ultimo autocarro, aquele que me levaria para Marathon, às oito da noite. O autocarro saía às oito e meia. Fui comer qualquer coisa rápida ao McDo vizinho e escolher (a cabeça funciona melhor quando o estômago trabalha) entre correr o risco de ir para Marathon e não encontrar onde dormir ou ficar por Florida City, cidade tão pouco turística quanto é possível ser e onde teria portanto mais probabilidades de encontrar alojamento a um preço razoável.

Acabei por apanhar o autocarro, claro. Alguma coisa havia de aparecer.

Não foi uma coisa. Foi uma senhora que entrou a meio do percurso e se sentou na fila atrás da minha. Por causa da aparência dela perguntei-lhe se estava ligada a barcos à vela. Disse-me que sim e começámos a conversar.

O marido da senhora foi preso nas Bahamas por exceder o tempo de estadia autorizado. É preciso tirar de lá o barco (um double-ender de 32’, quilha corrida, casco de uma polegada de fibra) o mais depressa possível, antes que o Governo das Bahamas decida ficar com ele.

Não havia quartos em lado nenhum. Acabei por dormir numa cama de campanha num canto de uma tipografia onde S. trabalha a tempo parcial. A cama cheirava a cão que tresandava, mas dormi como há muito tempo não dormia.

De modo estou de regresso a Fort Lauderdale, com o dinheiro do bilhete de ferry para Freeport na carteira. Estive nove horas em Marathon, das quais sete a dormir.

S. vive num 37’ fundeado ali perto com quatro cães, quatro gatos e nove iguanas (estas em gaiolas, apresso-me a precisar). É adorável. Passámos a viagem de autocarro a negociar as condições e a conversar e no fim acordámos que eu não receberia nada, mas em contrapartida poderia ir a Cuba em vez de ir directamente para Haiti, seu destino.

Depois de Cuba sou pago à tarifa normal.

Não acredito que lá chegue: quanto a mim o marido vai ser solto amanhã quando a esquadra abrir e quando muito eu ajudá-lo-ei a trazer o barco para a Florida (ela tem algumas dúvidas sobre a ida para Haiti). Mas enfim, o projecto parece-me bom e a história bonita: um marinheiro à solta do mar vai de aventura para um sítio onde não terá onde dormir e no autocarro encontra um job e alojamento, trava conhecimento com duas pessoas adoráveis (S. e D., o dono da tipografia), passa mais de vinte horas em transportes públicos variados para regressar ao ponto de partida (se tiver sorte. Não sei se o Hotel Deauville tem cama disponível). E em consequência disso tudo vai a um país onde nunca esteve buscar uma embarcação que é mais ou menos o oposto absoluto daquela em que estava a trabalhar; no barco virá de passageiro um gato que vive a bordo. Como prémio ganha a possibilidade real de passar três ou quatro dias no mar (coisa de que está muito necessitado), sozinho (excepto no que respeita ao gato), numa embarcação sem motor (foi isso que provocou o atraso de R. e consequente prisão: uma avaria no veio do hélice).

Isto se for para Cuba. Se não for (o que de certa forma preferiria, aborrece-me saber um colega na prisão por estúpidos problemas burocráticos) logo se vê.

………
Pergunto a S. o que faz ela das iguanas que recolhe. “Solta-las?” “Não, a lei da Florida não permite que se soltem iguanas que se recolheram. Mas pouco importa, ou são cegas, ou doentes, ou foram maltratadas…” (Isto dito, o frenesim legislativo do Estado da Florida parece semelhante ao nosso).
“Maltratadas? Como é que se maltrata uma iguana?” Infelizmente a resposta perdeu-se nos meandros da conversa e fiquei sem saber. Mas quando me lembro da rapidez com que os bichos fogem quando alguém se aproxima deles a perplexidade instala-se e não se vai embora.

……..
Engarrafamento monstro em Fort Lauderdale. Tudo conspira para manter baixo o custo horário da minha viagem relâmpago a Marathon.

Em contrapartida o Deauville tem uma cama.