27.2.17

Diário de Bordos - Genève, Suíça, 27-02-2017

Foi num dia de vento que isto aconteceu: sai do café e ainda era dia.

........
Rostos semelhantes a máscaras de Carnaval às quais um Deus arrependido tenha insuflado vida, simpatia e modéstia.

........
Tive o azar todo do mundo? Não. Tive a sorte grande. Saiu com hesitações e retardamento, como convém às senhoras bem educadas, é tudo.

........
O calor voltou. Não tarda é Verão.

.........
Os transportes públicos são uma maravilha. Mas chegar um décimo de segundo atrasado à paragem - isto é, o eléctrico ainda lá está, mas acabou de fechar as portas - é chegar atrasado. Foda-se, não haverá um meio termo qualquer? (Os autocarros e eléctricos têm horários e uma tolerância de dois minutos em cada paragem. Ou seja: não esperam, porque não sabem o que os espera mais à frente). Puta que os pariu.

26.2.17

Comme des bourgeois

Et puis le dimanche l'on ira se promener, comme des bourgeois, sûrs de soi et du temps.

E os livros

E os livros. Em todo o lado livros a dois ou três francos, como novos. Para se ter uma referência uma bica custa três francos e meio, quatro.

Quando digo todo o lado é isso: em todo o lado, "partout, everywhere", em lojas, nos passeios, nas feiras, nas organizações de ajuda, nas livrarias. Na Recyclables, que agora tem um café (agora?), onde compro os postais.

Le Clézio, Duras, uma história do Império português no Oriente entre 1500 e 1700, Teresa Cremisi - uma descoberta, a tal cujo livro começa com "J'ai l'imagination portuaire." e me faz dar saltos a cada parágrafo  (foi o único livro novo que comprei até aqui). Um livro de Hildegarde encomendado. Jaccottet, que trouxe sem querer de casa do J. e de que espero ler mais uns capítulos antes de o devolver.

Livros, queijo, vinho, política,  família, sol, calor (pelo menos para a época), amigos, mercados, a Livresse e a Ferblanterie e a Rue de Carouge e Plainpalais aqui mesmo ao lado.

Tu parles d'un tourbillon...

25.2.17

Queijo, política, vinho

E o queijo, também. Não pode ser só política. Os queijos: os daqui perto, da Savoie - Reblochons, as diferentes tommes, Beaumont -; os de mais longe: um sublime Camembert, um Epoisses que está para os queijos como Tomás de Aquino para o debate sobre a existência de Deus. Um Morbier que só não é melhor porque me traz à memória o melhor Morbier que já comi, já muitos anos lá vão.

raclette de Chez Roy, a melhor queijaria de Genève e de todo o espaço entre Genève e a Lua com a possível excepção da queijaria da Rue Daguerre, em Paris; ou a fondue, ditto.

Reabituo-mo aos queijos como um quase-afogado à vida.

Mas a política também. Este sistema político devia ser imposto a todos os países do mundo, pela força se necessário. Ou pelo menos a Portugal, que tanto beneficiaria de ter políticos sem poder. Visto daqui os debates da semana - os SMS, os dez mil milhões - e os que não são debates mas deviam ser - os transportes públicos em Lisboa, por exemplo - parecem histórias de ficção científica, coisas que aconteceram em planetas longínquos há milhares de anos.

E os vinhos, meu Deus, os vinhos. Não falo só do Haut-Marbuzet, ao qual não tenho acesso de per me. Mas falo dos outros todos, vinhos que a dez euros a garrafa no máximo me fazem sentir um homem rico. Os vinhos portugueses são bons, claro. Mas os franceses e os italianos e alguns suíços.

Ontem bebi um branco da Savoie chamado Abymes (enfim, não é bem assim. Tenho de voltar ao supermercado) que me fez pensar na definição daquele crítico inglês de vinhos: "Um bom vinho é aquele que me faz dar um salto na cadeira". Eu dei.

Diário de Bordos - Genève, Suíça, 25-02-2017

A temperatura desceu, finalmente. Que alívio: a minha roupa está de novo conforme. Uma página de meteorologia diz-me que estão 6º. Duas outras mencionam 7º. A diferença é pequena, vá. Não nos vamos zangar por tão pouco.

Mas está sol. Sempre gostei destes dias de sol e frio, dias enganosos, como uma mulher bonita que nos diz uma coisa com os olhos ("Sim") e outra com a boca ("Não"). Sabemos que é não, que está frio, que precisamos de roupa e se ficarmos - como fiquei - numa esplanada a beber um pastis teremos frio e apanharemos uma desilusão.

Mas insistimos. "Apanhar uma desilusão", como quem apanha uma constipação, ou uma gripe, uma gonorreia.

Enfim, a luz em Genève sempre me pareceu uma coisa diluída, pálida, fantasmagórica, neutra. Podia ser a ela que a Suíça foi buscar a neutralidade (não é, claro. É a coisas muito mais prosaicas. Quem está no centro de um cruzamento de pesos-pesados tem interesse em dar-se bem com todos, sobretudo se é minus).

A família está completa: S., os dois filhos, eu. Fico sempre espantado perante esta dualidade: não é e é, podia ter sido e foi, deixei-a e a ela volto e ali está sempre, à espera sem esperar: evolui, muda, adapta-se, constrói e reconstrói-se.

O passado pela lupa do presente, o presente pela do passado. Caleidoscópio temporal, emocional. Temporal de emoções. Como seria, se não me tivesse ido embora?

Um grupo de pessoas unidas pela independência, como é hoje.
........
De vez em quando vejo televisão. O ecrã é muito grande (pelo menos para os meus critérios) e os programas bons. Quando S. está em casa vemos coisas banais. Até nesses canais há programas bons de se ver (agora na TF1 passa uma reportagem sombre as Calanques que me faz perguntar-me se conseguirei um dia dirigira a minha curiosidade para outras coisas, mais estáticas.

Estáveis, idiota...)

........
Adenda:

Ooops... Disse caleidoscópio? Turbilhão está mais perto da verdade.

24.2.17

Cores, tonalidades

Pergunta sem consequências: entre a certeza e a dúvida a diferença é feita de cores ou de tonalidades?

Carmina Burana, verdade

Por muito que nos apeteça dizer que os Carmina Burana de Carl Orff são uma reles transcrição romântica dos de Clemencic: retenção. O Fortuna merece ser ouvido. Não, é certo, como música medieval, mas como música, tout court e sine tempus.

Verdade seja dita que depois deve passar-se para o Clemencic. A verdade é como o azeite.

Rue de Carouge, rue Daguerre

Uma das minhas ruas favoritas em Genève é a Rue de Carouge.

Minto. É a minha rua favorita. Tem tudo e desse tudo eu uso um pouco: a livraria Recyclables onde compro postais e às vezes um livro; a do CSP, onde hoje comprei um Duras e vi uma bicicleta barata; os correios de onde mando os postais que escrevi na "esplanada" do café Blanche, entre aspas porque não é bem uma esplanada, são umas mesas no passeio ao sol. Os restaurantes de todo os lados do planeta, o talho português (chama-se Zé do Talho) e o sol, nestes dias tão intenso que hoje preferi ir pelo passeio que estava à sombra.

A Rue de Carouge em Genève é quase o equivalente da Rue Daguerre em Paris. Enquanto esta é intrinsecamente francesa, um condensado da França, aquela é o mesmo para Genève: tem tudo de todo o lado.

Genève não é só uma cidade; é também um "país". A rue de Carouge é um resumo desse país, como a rue Daguerre é um resumo da França. As lojas todas da rue de Carouge dão a volta ao planeta; as da rue Daguerre à França.

Analogia

Como alguém que atravessa um jardim e não sabe nadar plantas.

Devagarinho, família

É preciso começar devagarinho, como quem vai ao mercado sem saber o que vai comprar porque se esqueceu da lista de compras em casa. Um mercado ("alimentar", precisa-se para que não haja dúvidas) numa praça cheia de sol. O sol traz histórias, é sabido. Mais do que a chuva, que nos faz ficar em casa e não esquecer a lista de compras  - que de qualquer forma se leva para o supermercado e não para a feira de rua -.

O sol convida à meditação; quem diz meditação diz memórias e memórias rima com histórias.

Devagarinho, portanto: sol na praça, vinho branco na taça. Algures uma família. Família e futuro são sinónimos? Família e passado? Família é uma afirmação ou uma dúvida?

Família é um cenário imutável e à volta dele tudo muda. Devagarinho, claro, como quando fodemos pela primeira vez uma senhora que queremos - esperamos - seja a última. As praças em dias de mercado e sol estão cheias de memórias que não fodemos. Memórias virgens, por assim dizer. "I do not fuck much with the past but I fuck plenty with the future".

Quantas últimas senhoras já fodemos? Quantas famílias? Isto é.

Devagarinho, o tremor de terra reconstitui a paisagem. O sol reaparece, família pela mão. Devagarinho os tremores de  terra sucedem-se, lentamente. Exasperantes de tanta promessa devagarinho.

Bom, Chega de merdas. A família apareceu devagarinho, inebriada de névoa, no mercado "alimentar". Com aspas.

Família é o eixo vertical em torno do qual se organizam os erros todos que se podem cometer devagar (os rápidos escolhem outros eixos, outras paragens).

23.2.17

Uma, milhões

Hoje fui encomendar livros de Hildegarde von Bingen. Há uma biblioteca deles traduzidos em francês, coisa que desconhecia.

Uma entre milhões.

Pergunta simples

Actor errado no papel certo ou actor certo no papel errado?

Diário de Bordos - Genève, Suíça, 23-02-2017

Já por aqui andei, não é? O mesmo cenário filme diferente. As mesmas personagens mas não os mesmos papéis.

O tempo não é mesmo. Está calor. Encontro-me na situação bizarra de não ter roupa adequada porque não está frio. Esperemos que a meteorologia tenha razão e ele volte depressa. Esperemos que o tempo não seja o mesmo e não se ponha a andar para trás. Esperemos tudo isso e muito mais, esperemos mais de tudo, esperemos isso, só isso: que o tempo não seja o mesmo.

Os paraísos e os erros não se repetem, por mais que nos enganemos ou tentemos.

21.2.17

Perguntas para os novos tempos

"Amazon crée des emplois par milliers" diz o jornal Le Temps, sucursal suíça do Le Monde e quase tão bom (e tão de esquerda, mas isso agora é irrelevante).

Como uma parte do crescimento da Amazon se deve a robots vai ser interessante ver como seriam estes taxados (ou serão. As más ideias têm uma capacidade de sobrevivência muito superior às boas, por razões mais ou menos fáceis de explicar).

PS - Curiosamente escrevo isto enquanto vejo no canal Mezzo um ballet com um robot. Espero que este pelo menos seja isento.

PPS - Afinal são muitos robots. Devo acrescentar que a peça é magnífica. Sublime. Enfeitiçante. Se isto é o futuro quero ir para lá agora.

PPPS - Enfim, uma pequena correcção: o tempo em que os artistas eram "futuristas", "pró-futuro" e por aí  fora já foi. Não é de hoje. Melhor esperar pelo fim da peça (o futuro nunca acaba).

PPPPP etc. - A peça chama-se Robot, é de 2013 ou 14 e de Blanca Li e eu juro que nunca mais reclamo contra os grandes ecrãs de televisão. Nem sequer contra a televisão, desde que tenha o canal Mezzo. (E vou começar a prestar mais atenção à dança, mas isso é outra história).

Sabor do mês

Um dos sabores do mês é a taxação de robots (o outro é o Rendimento Universal Garantido, mas esse fica para depois).

- O que é um robô? As máquinas de lavar roupa e loiça e as torradeiras e os fogões eliminaram postos de trabalho das empregadas domésticas. Vamos taxá-los?
- Qual é a base para se saber quantos postos de trabalho foram eliminados? O séc. XIX? XX? XXI?
- Como saber quais os postos de trabalho que foram eliminados por robots e os que foram eliminados por sei lá, reorganização dos métodos de produção ou evolução da procura?
- Já agora: um robot elimina certos postos de trabalho e cria outros. Estes podem ser deduzidos dos impostos?

E que tal pensarem em reorganizar a base fiscal, introduzir uma flat rate e diminuir os impostos em vez de os aumentar?

20.2.17

Diário de Bordos - Genève, Suíça, 20-02-2017

Três dias seguidos de sol em Genève a meio de Fevereiro. Não tarda é Verão. Quem o disse deliciosamente bem foi a apresentadora da meteorologia na TV: "temperaturas doces", começou. "On a frôlé les treize degres". Não digo que roçámos os treze graus para não parecer mal, mas a ideia é essa. Depois continuou "E amanhã de manhã as boas notícias continuam: temperaturas positivas ao sair de casa".

Estamos, diz a senhora - uma morenaça com quem qualquer homem gostaria de roçar os treze graus e acordar positivo de manhã - que estamos três a quatro graus acima da média da época. Acho bem. Aprovo e agradeço ao anticiclone dos Açores, a quem devemos tanta e tão rara simpatia.

Claro que média significa isso mesmo: média. Às vezes está por baixo outras por cima. Compensa o por baixo que esteve em Lisboa em Dezembro, que bastante frio rapei.

Enfim, toujours est-il que aproveitei e fui turistar por essa cidade fora, cadela pela trela.

O bicho é simpático, calmo e bem-educado. Não chateia. E aqui deixam entrar os cães nos cafés, de maneira pude parar na Livresse (pausa voluntária) e na Ferblanterie (forçada).

Nunca pensei que um mês custasse tanto. Deve ser por causa da média.
Custar não é o termo. É: fosse tão difícil.

Ou então é incapacidade minha. Deve ser isso. A minha ansiedade sofre com o anticiclone dos Açores: espalha-se ele e ela com ele, coitado, não fosse ficar para ali sozinho a desviar as depressões.

Tristeza neoliberal

Os robots vão chegar em breve. Ou já chegaram, mais correctamente. Qual é a conversa do dia? Como aumentar os impostos.

Que tristeza de mundo. E ainda há quem fale na vitória do "neoliberalismo".

Ainda bem

Durante muitos anos reclamei com os EUA porque estavam a ser governados por juízes e advogados.

Chegou a hora de dizer "Ainda bem!"

17.2.17

Não se admirem

Isto devia ser um acto de contrição. Foi pelo menos essa a intenção original.

Mas depois transformou-se num verdadeiro espanto: acabo de gastar trinta e cinco euros numa Carbonara sofrível e dois dedais (aqui conhecidos por copos ou balões) de vinho tinto e nem um sobressalto, nem uma piada ao empregado, nem um esgar de horror.

Como se fosse normal. Como se depois disto a Terra fosse continuar impávida a sua trajectória em torno do Sol e a Lua em torno dela e os três em torno do eixo da Galáxia. Por amor de Deus. Se amanhã for guilhotinado não se admirem. Ou aparecer um eclipse inesperado da Lua.

PS - E isto no italiano mais barato de Carouge.

Aleph, Genève

Genève é um Aleph geográfico.

"Estás a falar porque queres"

[Na Escola Náutica quando queríamos mandar calar alguém dizíamos "estás a falar porque queres"].

Há pessoas que escrevem porque querem. Que coisa mais estranha. É como querer cagar.

Alguém "quer" cagar? Não, claro. Caga-se porque se  tem de, não por vontade: cheira mal, dá um trabalhão a limpar, não se pode fazer em qualquer sítio. Uma merda, cagar. Como escrever.

Ordem inversa, Hildegarda

As probabilidades de voltar a acreditar em Deus (uma crença que abandonei aos doze anos de idade) são poucas.

Mas se um dia isso voltasse a acontecer haveria uma razão só e só uma. Uma escada, se quiserem. Porta. O que quer que seja. Chama-se Hildegard von Bingen, Santa Hildegarda para os íntimos (dos quais não sou).

Até lá canto laudas ao absinto e à dor (ordem inversa). 

Mais uma pequena nota à margem

Um daqueles dias de nortada indignada, vingativa, a fazer-nos pagar o bom que tinha sido o dia de ontem na praia, a noite de amor que se lhe seguiu - na verdade começara na esplanada do bar nas dunas -, o pequeno-almoço numa esplanada do Paredão.

Tudo isso se desvaneceu com esta nortada fria, agreste, mordente, que nos separou para sempre: tu não gostas de vento e eu sem ele não sei viver.

Pequena nota à margem

Ninguém se apercebeu - pelo menos das pessoas com quem falo quotidianamente (isto é, ninguém) - do alongamento quase felino dos dias. São seis horas da tarde e há luz como se a noite fosse uma invenção. Não é, eu sei. Daqui a pouco, quando sair da Livresse com um pastis ou dois bebidos, saboreados e agraciados será noite.

16.2.17

Diário de Bordos - Genève, Suíça, 16-02-2017 (mais uma receita de frango com tahine e gengibre e uma crise de pieguice saloia)

Telejornal num canal francês (público, caso interesse).

Antes disso: ouvir Hollande falar de "exemplaridade" (exemplarité, no original) referindo-se a Fillon vai ficar-me na memória para todo o sempre, espero.

Mas depois pergunto-me porque raio de carga de água estes estúpidos destes franceses, idiotas, fazem telejornais que abrem com notícias importantes e não com futebol, falam sucintamente de um tema e e ilustram-no correcta e brevemente com imagens, falam de temas importantes como um pedido proteccionista de três países europeus à Comissão Europeia (a Alemanha, a França e a Itália), fazem reportagens boas, sucintas, informativas sobre a castanha de caju ou a estação de ski mais barata da Europa (chama-se Basko e fica na Bulgária, caso haja interessados).

Cereja no bolo: ontem Macron disse une connerie sobre a colonização francesa (chamou-lhe "crime contra a humanidade"). Hoje isto é tema, claro. Mas o mais bonito é que o debate se alarga a "que tipo de história devemos ensinar nas nossas escolas? Uma história realista, ou uma história que nos valorize?"

Não é uma questão de civilização, estúpido. É cultura. É respeito. É savoir-faire. É um monte de coisas que por qualquer razão estão ausentes das televisões nacionais.

.........
A dor de cotovelo acentua-se de tal maneira que hoje fui a duas farmácias. Duas. A continuar assim acabo no médico.

........
Se alguém um dia por acaso misturar tahine com gengibre ralado, regar bem regado com sumo de dois limões, juntar algumas especiarias como pimento fumado em pó (chegado em primeira mão do Chile, país que já há muito sabia: tenho de visitar), curcuma, sal e pimenta, cominhos e uma ou outra coisa que por acaso (sempre ele) tenha à mão de semear, marinar frango cortado em pedaços pequenos com essa mistura no frigorífico uma noite e no dia seguinte a puser tal e qual no forno a lume baixo; se essa pessoa esperar até o frango estar cozido (neste caso cerca de duas horas), cozer um bocadinho de arroz e no fim misturar tudo e comer, essa pessoa vai ter uma agradável sensação de prazer e surpresa. Isto foi acompanhado por uma cerveja demasiado doce, mas não é difícil encontrar um branco seco casadoiro que realce e complemente a dita sensação de prazer e surpresa.

Essa mesma pessoa perguntar-se-á se uns coentros picados não teriam feito bem à surpresa (a pergunta é retórica).

A pessoa que por acaso escreve isto escreve-o ao som de uma aguardente caseira de damassons (não perguntem - ameixas?) e por acaso pergunta-se "porra?" (A dita aguardente também é conhecida por Damassine, caso interesse. É uma das melhores aguardentes de frutos que conheço, mesmo quando não é caseira e boa como a que agora por acaso bebe).

........
"Quem não tem cabeça tem as pernas", diz um provérbio francês. Se fosse genebrino diria "Quem não tem cabeça tem os TPG". São tão estúpidos, estes suíços. Devem ser nazis, para ter transportes públicos que funcionam tão bem (e são mais baratos do que os lisboetas, em PPP).

.........
Por falar em estúpidos: tenho esquecido as votações deste domingo. Ficam para outro dia.

........
S. tem qualquer coisa de especial a celebrar. Escolheu um restaurante português que, diz-me, "é bastante bom". Querida, podia ser o pior restaurante do mundo. Que tenhas escolhido um restaurante português chega e sobra. 

Efeitos positivos

Provavelmente um dos efeitos colaterais e positivos do Trump será reconciliar-nos a todos com os políticos.

Costumo dizer que prefiro ser governado por eles a sê-lo por padres ou militares; agora posso acrescentar "ou homens de negócios".

Paraíso

Percebo que em Genève um gajo se porte mal, que faça tudo quanto pode para quando morrer não ir parar ao céu.

15.2.17

Surrealismo, Rossini

Ligo a televisão. Calha-me a RTP. Uma senhora presidente de uma câmara municipal do interior explica as vantagens de ter as opções da câmara a que preside escrutinadas "e ainda melhor se for por um organismo exterior, independente", acrescenta.

Mudo de canal, claro. Ouvir isto na Suíça, país onde não há um cêntimo de dinheiro público que seja gasto sem que quem o paga - o soberano, como é aqui chamado - saiba e decida é demasiado surrealismo para a minha pobre cabeça.

No Mezzo passa a Cenerentola.

Diário de Bordos - Genève, Suíça, 15-02-2017

Em Genève acontece tudo. A vida cultural desta cidade é espantosa, para uma cidade que no fundo é pequena.

Mas não acontece nada. Isto é: como seria viver outra vez nesta palidez murcha, répue de bien-être, onde tudo é bonito a começar pelas mulheres e tudo banal à força de ser bonito, bem arranjado, limpo, sem borbulhas na cara ou mendigos na rua? (Vi dois desde que cheguei. Dois).

.........
Ontem G. lembrou-me de uma miúda que, diz ela, "comi" na loja, quando comprava camisas. Detesto o termo "comer" para esse uso. Não sou canibal e na verdade acabo sempre por ser eu o comido. Era loira e tinha uma loja de roupa. Não me lembro de todo de a ter "comido" mas lembro-me das camisas que comprei. Uma era amarela, de feltro (?) com uns desenhos abstratos a preto. Durou pouco tempo, a camisa. Lembro-me disto porque passo no eléctrico à frente do prédio de uma miúda que me seduziu porque tinha a colecção completa das receitas da Elle. Não serviu de nada, ela apanhou-me uma noite depois do coito: falei-lhe nas receitas em vez de lhe dizer quanto a amava, ou coisa no género. Também durou pouco tempo, o idílio: não chegou a um mês. E também pensei na I., que morava em Bey quando a conheci mas depois mudou para Genève e a G. não conheceu. Também durou pouco tempo, mas um bocadinho mais.

........
Os miúdos sentam-se ao meu lado no eléctrico que me traz de França. Ela tem cabelos pretos densos como certos passados e um decote que me faz sonhar mais do que muitos futuros. Deve ter pouco mais de vinte anos. O rapaz também, mas ao contrário dela não tem nada que o distinga do resto da humanidade.

Em Rives ela diz-lhe:
- Le Caveau de Bacchus - (é uma loja de vinhos do Rond Point). - Sabes o porquê de Bacchus?
- Não.
- Bacchus é o Deus grego do vinho.

Mudou de lugar; olho-a enquanto fala animadamente com o indistinto. Quanto tempo suportaria os cabelos que lhe cobrem os seios que o decote descobre?

........
Como é que se pode resistir a comprar um livro que começa por "J'ai la mémoire portuaire"? Não se pode. Chama-se La Triomphante (foi comprado na Livresse, que é um dos quartéis-generais das fufas de Genève e continua a ser um dos meus sítios favoritos. Aceitam maricas, mulheres e homens. É um café muito bonito e tem o melhor nome de sempre). A autora é Teresa Cremisi. Ainda não o li, claro, comprei-o há pouco e mal o folheei.

........
Hoje à tarde tive de ir a França, em missão falhada. Bebi um pastis por metade do preço, a cinquenta metros da fronteira (que já não existe. Atravessei-a para lá de autocarro, na volta a pé. A malta que acredita no valor intrínseco das coisas teria uma certa dificuldade em explicar como é que um raio de uma bebida anizada duplica de preço assim desta forma tão artificial.

........
Quase retratos:

Uma mulher vestida de puta vestida de mulher que não é puta. Em que ficamos? Onde paramos?

........
Fui ao IKEA com S. comprar uma mesa. Tenho uma certa dificuldade em estar naquele tipo de lojas mas aguentei-me quase até ao fim. Numa das dobras dos intermináveis corredores havia a reconstituição de uma sala de estar, com uma enorme televisão apagada (claro. Devia ser de papel, ou cartão).

No sofá estava um casal de senhores da minha idade, muito juntos, a olhar para o aparelho apagado como se estivessem em casa. Chateia-me quem me queira impedir de usar termos como maricas, panascas e afins; mas chateia-me ainda mais quem não aceite aqueles senhores, tão bonitos. Mais do que o casal que tira as medidas a um sofá-cama com a determinação de uma Panzerdivison a avançar no deserto maghrebino. Há qualquer coisa de decidido no olhar da jovem mulher que me traz à memória um desenho de Quino. Tive-o anos colado na parede: um casal na praia a correr para a água com o semblante fechado de quem vai trabalhar e está farto do emprego.

Nunca acabei Les mots et les choses.

De qualquer forma preferiria Les mots et les personnes.

Ou Les mots et la vie. Ou  Les mots et les jours.

.........
S. vai buscar umas plantas a casa de um colega. Estaciona o carro no passeio quinze minutos, talvez vinte. Descemos. 120 francos de multa.

"Saíram-me caras, as plantas", comenta. "Que se lixe. Há muito tempo que não apanho uma multa". Era o único carro mal estacionado em toda a parte do quarteirão que percorremos à procura de lugar. Vinte minutos.