26.11.14

Quase provérbios

O último a amar ama melhor.

Ser, ou não

Pode ser-se tudo o que se quiser, desde que se o seja.

Liberdade, medo

Só quem teme a liberdade lhe mede realmente o valor, o alcance.

Compreensões

Compreender alguém é uma sorte, uma lotaria que raramente se ganha.

Só ser comprendido é mais raro.

Amor eterno e literatura

Amar alguém como é, como foi e como será.

Provavelmente nem nos livros se pode estar tão perto do amor eterno.

Pena de morte

Sou contra a pena de morte, excepto em dois casos. Um deles é para quem usa material oxidável a bordo de uma embarcação de recreio.

Galveston, cansaço

Galveston é pequena de mais para o meu cansaço.

22.11.14

Alucinação

Se Deus existisse saberia que há pelo menos um gajo neste mundo que por questões físicas não devia beber muito e por razões laborais não devia deitar-se tarde.

Mas Deus não existe e deve haver muito mais gente na mesma situação,  pelo que de qualquer forma não teria como acudir a todos.

Acho bem: amanhã vai ser um sarilho convencer-me de que isto tudo não passa de uma alucinação provocada pelo produto tóxico com o qual passei o dia a lidar.

Diário de Bordos - Galveston, Texas, Estados Unidos, 22-11-2014

De repente o Stuttgarden Tavern On The Strand parece uma de duas coisas: ou um café de Metro ou uma esplanada em Paris.

Opto por esta última. A salsicha (pronuncia-se chalchicha) estava decente, o vinho custa quatro dólares o dedal - metade do que custa nos outros sítios (ou custaria, se eu bebesse) - a oito metros de mim está uma bicicleta feita de titânio e carbono - uma mistura etérea, no que diz respeito a bicicletas - a música ao vivo parou e Sócrates foi preso.

Nem a minha sweat shirt branca de Napa Valley Marina cheia de nódoas me entristece. Amanhã a roupa estará lavada e Sócrates solto. Mas hoje Sócrates está preso, e isso vale um milhão de nódoas por milímetro quadrado numa camisa de que tanto gosto.

Andar numa bicicleta de dois ou três quilos também é muito bom. Quase tão bom.

Mantenhamos a calma. Sócrates foi preso. Um dedal de vinho a quatro dólares é de borla. O TL - uma das formas da beleza - tem um comprador potencial.

A felicidade, aprendemos com o tempo  é feita de pequenas pinceladas de sonho na grande tela da realidade. Abençoadas sejam a felicidade e a realidade.

........
Hoje é sexta-feira e há barulho em Galveston. Infelizmente não o oiço.

Estou demasiado ocupado a pensar quão boa é a vida quando flui como um grande rio tranquilo. Qualquer que seja a quantidade de nódoas na camisa comprada numa marina que de manhã cheirava a caca de vaca e à tarde parecia uma colónia de extra-terrestres que se enganaram de planeta.

........
Amar por amar mais vale amar a vida, mesmo quando ela não sabe bem o que fazer connosco.

Nós sabemos o que fazer dela.

21.11.14

Diário de Bordos - Galveston, Texas, Estados Unidos, 20-11-2014

Agora tenho uma bicicleta. Galveston muda. (Bicicleta é dizer pouco: uma Dean de corrida que pesa metade da minha Turbo e custa cinco vezes mais).

Ou seja: estou livre da tirania do McDonald's - contra o qual, de resto,  nada tenho. Antes muito pelo contrário -.

De maneira hoje vim jantar ao Fuddruckers, coisa de que nunca tinha ouvido falar. Hambúrgueres excelentes e um conceito apreciável. Um gajo encomenda - a escolha é vasta e inclui uma opção sem pão - e vai para a mesa com uma aparelho que o avisa quando o prato está pronto. Até aqui nada de novo,  nem a Oeste nem a Leste.

Onde a novidade começa,  pelo menos para mim,  é quando se vai buscar a coisa. A senhora aponta para um enorme buffet e diz Os acompanhamentos estão ali.

Se estão. Salada, tomate, pickles, cebola, pimentos - you name it, perdoem-me o inglês mas aqui é mais do que justificado -.

Por oito dólares come-se bem - a carne esta excelente - respeita-se a auto-imposta restrição aos hidratos de carbono e ainda se ouve boa música.

Seria incapaz de viver nos Estados Unidos - incluindo San Francisco, cidade de que gosto especialmente - mas forçoso é reconhecer que merecem o que têm.

Só é pena esta obsessão com a regulação. É um país governado por juízes. Em Portugal já tivemos um cheirinho do que isso significa.

Aqui é muito pior. A terra dos livres há muito que deixou de o ser. Agora é a terra dos juízes.

........
O trabalho avança depressa. Que prazer! Trabalho ao meu ritmo a fazer uma coisa de que gosto.

Sou pago decentemente para isso e para estar numa cidade que aprecio, mesmo não conhecendo ninguém.

A estadia vai ser curta, pero ¿qué importa? Aproveita o que tens quando tens... Amanhã és terra, como diz Omar Khayyam,  tão bem. E só servirás para fazer jarras de vinho.

........
O Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas trouxe-me à memoria os meus tempos de leituras zen. E reconciliou-me com ele.

Depressa me aborreci: não lhe aceito a passividade, a ideia de que tudo é uma ilusão,  a ideia que é possível evitar a dor e o sofrimento.

Não é. Nem sequer é desejável: sem dor não há prazer, como sem tristeza não há alegria.

Mas lembrei-me de como o Zen me ajudou a perceber Camus e a apreciá-lo ainda mais: absurdo por absurdo prefiro o que o lamenta ao que se toma por objectivo.


20.11.14

Diário de Bordos - Galveston, Texas, Estados Unidos, 19 e 20-11-2014

Conheço mal Galveston, claro. Saio de bordo para comer - quase sempre no McDonald's, o sítio mais perto (meia hora a pé) que tem simultaneamente comida e wifi -, para ir ao Walmart comprar qualquer coisa ou para ir à biblioteca, que tem computadores (e gratuitos, qui plus est). A cidade é uma mistura esquisita de cidade portuária, cidade hospitalar e cidade histórica. Digo mistura, mas não sei se é correcto: ignoro como interagem.

As primeiras impressões são agradáveis. Ruas largas, desertas de peões - ando quilómetros todos os dias e contam-se pelos dedos da mão esquerda (tem os mesmos, mas desajeitados) a quantidade de peões com que me cruzo - percorridas por viaturas potentes que parecem circular sozinhas, seja por causa dos vidros escuros ou devido à aparente ausência de qualquer actividade humana - não há buzinadelas, acelerações bruscas,  travagens, curvas com os pneus a chiar -.

Os carros ou são conduzidos por máquinas ou por ninguém. Conduzem-se a si próprios.

........
O autocarro é confortável,  pontual - há qualquer coisa de mágico numa cidade na qual os autocarros não só têm horários como os respeitam - e está limpo,  o que não é surpreendente porque está vazio, apesar de só passar de meia em meia hora. Até à paragem terminal sou o único passageiro. Depois desço e entra uma senhora.

........
Hoje decidi jantar "em terra". Que se lixe o wifi. Vou a um restaurante a sério.

........
(20-11-2014)

Fui. E depois fui a um bar que tem Laphroaig a sete dólares a dose.

Claro que nos Estados Unidos as doses são mais pequenas do que as nossas; e aos preços há que acrescentar a gorjeta. Mas vale a pena, mesmo assim. Há tantos anos que não bebia um whisky de malte... E logo este, um dos meus favoritos. E a rapariga do bar, tão bonita.

O Texas é incomparavelmente mais barato do que a Califórnia. E mais americano...

(No sentido de corresponder mais à ideia que fazemos da América. Desde que se lê Os Americanos de Alain Peyrefitte se sabe que não existe tal coisa como os americanos. É um livro que Galveston me deu vontade de reler.)

Lumbersexual

Isto começou se não me engano no metrosexual e já vai nos lenhadores. Se continuar a descer qualquer dia chega aos marinheiros.

Impostos, amor

"Trop d`impôt tue l`impôt".

O mesmo pode ser dito do amor.

19.11.14

Decência

Não somos decentes. Tornamo-nos decentes.  Ser decente é um objectivo,  uma vontade, um caminho.

Uma aberração,  no fundo: sabermo-nos imperfeitos e não o aceitar.

Diário de Bordos - Galveston, Texas, Estados Unidos, 18-11-2014

O aquecimento global continua a fazer das suas: está um frio de gelar as sinapses a um hiper-activo.

É raro tanto frio em Galveston, dizem-me.

Acredito: faço parte daquele grupo de pessoas que ficaria feliz se o mundo aquecesse globalmente e ele vinga-se arrefecendo localmente - o local sendo aquele onde estou.

........
Os armadores do TL querem desfazer-sr dele a qualquer preço. As razões são as do costume: compraram o barco porque era giro ter um barco, não achas?, foram enganados como se tivessem tomado o mais pequeno dos planetas pelo sol, tiveram uma viagem horrorosa.

Enfim, gastaram uma pipa de massa para sofrer o que qualquer crente sofre de borla, seja qual for a religião.

O barco é lindo de se morrer, de viver, de acreditar na vida antes durante e depois da morte, de acreditar nos dias de graça dos arquitectos navais, de, sei lá,  pensar que não, a beleza não está nos olhos de quem a  vê ou sofre por não a ver.

É muito muito raro chatear-me por não ter dinheiro, ou ter vontade de o ter. Esta é uma dessas ocasiões.

........
Anda por aí um meme que diz que o amor é uma doença mental,  ou coisa que o valha.

Discordo. Doença mental é não ver a beleza onde ela está. Seja numa cama, numa pele, num olhar ou numa marina,  pontão E lugar 45.

Barcos, famílias

Há pessoas que têm barcos como outras se casam ou têm filhos: por acaso, porque toda a gente tem, porque sim. Depois, claro, o casamento desfaz-se, os filhos tornam-se punks, padres ou adolescentes e tudo acaba em lágrimas,  advogados ou polícia.

Não é essa a forma correcta de ter um barco. Tem-se um barco como se tem uma mulher que se ama, ou filhos: porque sem ela, sem eles, sem ele a vida não é vida, é um ersatz de existência sem sentido e sem conteúdo.

Acresce que um barco não se pode ir embora sem nós e deixar-nos especados no cais como se tivéssemos deixado de existir.

17.11.14

Diário de Bordos - Galveston, Texas, Estados Unidos, 16-11-2014

Sinto-me como um atirador de facas de circo que se usasse a si próprio como alvo. E falhasse a grande maioria delas.

........
A cada etapa houve uma pequena barreira, ultrapassada com a graça e distinção de uma gazela feliz.

Pela primeira vez entro nos Estados Unidos com um bilhete só de ida. E como não me lembrava de quando fiz o ESTA pela última vez passei-a numa tensão indescritível. 

Potenciada porque antes de vir meti a pata na poça como há muito tempo não metia. Tanto que antecipei o ano novo e tomei uma resolução das de ano novo vida nova. Foi uma lição dolorosa. Ainda bem. São as que ficam.

Não será ainda a vida mas há uma coisa em mim que vai mudar já.  

........
Encontro o TL como o encontrei em Shelter Bay: sujo, desarrumado,  negligenciado.

É criminoso: o barco é lindo e deve navegar maravilhosamente. 

Nunca compreenderei a falta de amor por um barco. Seja bonito ou feio, de resto. 

........
No aeroporto,  a dois metros de mim estão duas máquinas com aquilo de que mais preciso agora: uma carrega telefones a outra vende cartões SIM.

Mas só aceitam cartões de crédito. Há muito tempo que o cash deixou de ser rei.

Agora é vagabundo, pobre,  coisa de nómadas e de traficantes de droga.

15.11.14

Diário de Bordos - S. Luís, Maranhão, Brasil, 15-11-2014

São Luís acolheu-me como se eu fosse parte dela. Sou.

E agora, que me preparo para a deixar de novo, ainda mais. Não sei quanto tempo estarei fora. Três, quatro semanas, em Galveston, no Texas. Preparar um barco para ser vendido. Os armadores são dois irmãos para quem já trabalhei no Panamá.

"S. Luís é antropófaga", diz-me Jean Paul Delfino, um escritor francês que conheci aqui. A definição é boa, mas não exprime o prazer que sinto em saber-me engolido, aceite, integrado pela cidade.

........
Os contos marítimos, agora numa versão europeia; traduções; um artigo para uma revista; os jantares literários. A nova vida começa a tomar formas concretas. Só falta um sítio para arrumar a roupa de mar. E outro para os livros.

Mas o mar resiste, como se soubesse que em breve não será mais o único lugar da minha vida. A roupa de mar será arrumada, mas acessível.

Genève, 2001 (?) - Reedição


Semanas, eternidade

A eternidade é consituída por um número infinito de semanas, agrupadas duas a duas.

(Piada privada).

13.11.14

Não sou faquir

Por mais bonita que seja, uma mulher burra ou sem cultura suscita-me tanto desejo como aquelas pranchas de madeira com pregos sobre as quais os faquires se deitam.

12.11.14

(Cont. e fim)

Frail no more também é uma expressão muito bonita.