14.4.14

Diário de Bordos - Red Frog Marina, Bocas del Toro, Panamá, 14/04/2014

Regresso do Palmar com uma luz de quase lua cheia. A selva é tão verde que o luar é esverdeado. Tudo - as sombras como as partes iluminadas - está em tons de verde.

Penso que até a escuridão é verde, quando não há lua; mas não é verdade: é negra como a estupidez.

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O atalho entre o Palmar e o detestável Kaiukos atravessa a floresta. É escorregadio - mais ou menos em função da cerveja de hoje e da chuva de ontem - mas lindo. A luz aparece filtrada pelas inúmeras camadas de todos os tipos de vegetação; ouve-se a vida (e vê-se) a cada passo.

Faço-o frequentemente, de dia ou de noite. É como o trajecto de panga entre a marina e Bocas: cada vez pelo menos tão lindo e fascinante como todas as outras; e muitas vezes mais.

La nuit

O meu primeiro texto em francês (enfim, publicado), aqui (Parfum de disparition à Barcelone).

12.4.14

Midas e mirdas

Uns transformam em ouro tudo o que tocam. São os Midas. Outros transformam-se em merda quando tocam ouro. São os Mirdas.

8.4.14

Diário de Bordos - Palmar Tent Lodge, Bocas del Toro, Panamá, 07-04-2014

- O teu dia foi bom? - pergunta-me J. no Palmar.
- Qualquer dia que termina aqui é bom - respondo.


2.4.14

Sono, solidões

O sol já está no hemisfério norte, as noites chegam cada vez mais tarde. Pouco, mas sensivelmente. É bom: só gosto de solidões diurnas. As nocturnas dão-me sono.

Renascimento

Sinto-me como se estivesse a emergir de um submundo. Como se estivesse a sair da caverna de Platão.

(Não gosto de Platão, mas isso é outra história).

Diário de Bordos - Bocas Town, Bocas del Toro, Panamá, 02-04-2014

Daqui a duas ou três horas o sol põe-se. A luz começa a ficar mais densa, como se adivinhasse que em breve terá de atravessar os cumulus que estratificam no horizonte.

Estou na Casa Verde, a dois metros da água e pergunto-me como será quando deixar de viver na água. Dois metros nesta luz, neste fim de dia vazio, leve, feliz - o primeiro em muito tempo -. Não sei como será viver perto da água e não na água, mas amanhã não é a véspera desse dia e deixo de me preocupar com o assunto.

Vivo hoje. E hoje é esta luz que se densifica, esta água que a recebe como a mulher cujo sonho é apaixonar-se espera pelo amante, esta solidão linda, espessa e assumida como a luz, esta paisagem enganadora na qual as ilhas parecem longínquas porque envoltas em bruma e calor e na verdade estão aqui ao lado, a poucas milhas.

As cores vão do preto das bóias (são câmaras-de-ar de camiões) ao branco e azul da panga atracada nesta água transparente, tão clara que está no ar, como um zeppelin formoso.

Branca e azul.
Branca e azul e luz.
Branca e azul e luz e eu.
Vida.

A loucura deve ser isto: pensar que uma mistura de cores, luz, água, solidão, beleza e felicidade é uma vida. Ou a sageza. Ou a vida, no fundo; e tudo isto não passa de uma imensa tautologia: a vida é a vida.

Pangas. Podemos aferir-lhes a eficácia do risco pela esteira: quanto menor melhor é. Será uma metáfora?

Luz, calor, cumulus que pouco a pouco estratificam, água transparente, Bertolt Brecht, Kurt Weil e Doors, pangas, Grécia... Sei que alguma coisa não bate certo quando, mais do que de uma pessoa, sinto a falta de uma máquina fotográfica.

I tell you we must live. You know why.

Solidão, felicidade

Por vezes escrevo solidão, outras felicidade. Não são sinónimos, mas parecem.

Modernidade

Não se vê uma mulher com menos de sessenta anos sem soutien. Pior ainda, as miúdas deixaram de o considerar uma peça de roupa interior.

À falta de generosidade juntam a falta de gosto.

Estupidez, ingenuidade

A ingenuidade é confrangedora, mesmo quando acompanha uma estupidez monumental.

Erros, qualidades

Gostar de alguém é gostar dos seus defeitos e dos seus erros; o que é diferente de detestar as suas qualidades.

Paradoxo

Vemos melhor quando vemos com outros olhos; mas vemo-nos muito mal quando nos vemos com os olhos dos outros.

Gravidade, felicidade

Leveza e felicidade andam sempre juntas. Não há felicidades pesadas.

A gravidade é uma infelicidade?

Diário de Bordos - Bocas Town, Bocas del Toro, Panamá, 02-04-2014

Pouco a pouco a vida volta ao normal. A normalidade é o melhor dos milagres.

1.4.14

Diário de Bordos - Bocas Town, Bocas del Toro, Panamá, 01-04-2014

Aliviado de um peso enorme, continuo tranquilamente o caminho que me fixei: trabalhar em projectos rentáveis, com pessoas normais, em barcos decentes. Decisão tardia, bem sei: devia tê-la tomado há trinta anos, ou coisa que o valha. Mas mais vale tarde que nunca; e há males que vêm por bem. A minha galeria de tipos humanos enriqueceu-se extraordinariamente este último ano.

Conheci N. S., que em breve terá um post especialmente dedicado (se bem mereça muito mais do que um post, e muito mais do que o Don Vivo, coitada). E conheci M., o armador das embarcações às quais dediquei a maior parte do útltimo ano.

M. é uma cabeça de dezassete anos num corpo de cinquenta. Seria invejável, claro, se a mente fosse um bocadinho mais velha. Mas dezassete anos é uma idade ingrata, difícil mesmo quando o corpo a mostra. Caso contrário torna-se desconfortável, se não para o próprio pelo menos para quem com ele lida.

Durante algum tempo pensei que seria, pelo menos, um adolescente inteligente que teve o azar de crescer muito por fora e pouco por dentro. Depois revi essa ideia. É um adolescente medianamente esperto, com pouca sorte na lotaria genética (ainda escolheu o mau ângulo para me chatear).

Chatice essa à qual reconheço uma virtude, uma atenuante, quase um anestesiante: já não tenho o H.S.

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Tem chovido pouco, e Bocas sem chuva é um dos lugares mais lindos que conheço. Trabalho num dos barcos da marina, um trabalho ligeiro e agradável. Em breve terei outro trabalho, a dar aulas de vela a dois compradores de um First que lá está e parecem ser bastante simpáticos - pelo menos pagam-me um salário normal, coisa que há muito não tenho.

Poderei, finalmente, ir ao dentista.

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As ONG são um mercado extremamente agradável para quem as organiza. A grande maioria delas tem como beneficiários os seus donos e gestores. Reconheço-lhes as vantagens, mas continuo a achar abjecto usar as desgraças alheias para benefício próprio.

Apesar disso são uma boa escolha quando não se consegue fazer dinheiro de outra forma. Com a vantagem de que não se engana ninguém: quem as financia sabe perfeitamente o que está a fazer.

E se não sabe devia saber.

27.3.14

Diário de Bordos - Red Frog Marina, Bocas del Toro, Panamá, 27-03-2014

Os dois ramos da árvore de que falava ontem caíram hoje. Deixei de trabalhar para o A.F. e o H.S. deixou de trabalhar para mim.

Todos sabemos o que é uma vitória de Pirro. Falta agora encontrar o conceito de derrota de Pirro: uma derrota com sabor a libertação.

Não é propriamente o primeiro dia do resto da minha vida, mas é um grande dia na minha nova vida.

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A maldade faz mal a outrém para beneficiar com isso. A estupidez faz mal a outrém e não beneficia com isso. A idiotia faz mal a outrém e com isso faz mal a si própria.

26.3.14

Diário de Bordos - Bocas Town, Bocas del Toro, Panamá, 26-03-2014

Não é que as aparências iludam; é que são o contrário da realidade, o exacto oposto. Visto de fora tudo parece calmo: venho para Bocas de manhã; passo muito tempo nos cyber cafés - o computador de bordo insiste em não funcionar -, falo ao telefone de vez em quando.

Não há melhor sintoma de tempestade do que esta calma de olho de furacão.

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Se fizesse uma árvore dos meus dias teria dois ramos principais - Artie e HS -; e cada um deles dividir-se-ia em não sei quantos ramos mais pequenos; e estes em raminhos. E nenhum parece dar flores; ou folhas, vá. De cada um deles só caem pedras do tamanho de cocos e com o peso do basalto.

Não faço a árvore: as raízes estariam secas como se estivesse em pleno Sahara e não numa das regiões mais pluviosas do mundo e induziria as pessoas em erro.

Há árvores no Sahara, não há? Poucas, eu sei; e espinhosas e pequenas. Mas há.

Há vida em todo o lado, mesmo num skipper e armador em Bocas del Toro cuja vida parece uma montanha russa gerida por um russo bêbedo num tapete rolante.

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O Panamá sendo o Panamá sei que a reparação do fuel do Artie vai levar tempo; eu sendo eu sei que desta vez não serei roubado. Já é qualquer coisa - pelo menos aprendi a lidar com o país. Não tarda começo a gostar dele.

Enfim, duvido. Impossível gostar de um país do qual não se gosta nem das mulheres nem da comida. As paisagens não as substituem. Nada as substitui.

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Há contudo uma coisa que devo reconhecer, e reconheço com tristeza: é muito mais apaixonante resolver problemas quando não há dinheiro.

Se esses problemas não forem, claro, uma horrível dor de dentes.

25.3.14

Experiência, vida

Já apanhei bebedeiras em mais portos do que aqueles em que tu estiveste sóbrio; já amei mais mulheres do que aquelas que te deixaram.

Estive sóbrio em mais sítios do que aqueles onde tu estiveste bêbedo; e ja fui deixado por mais mulheres do que quantas te amaram.

24.3.14

FN - II

A FN é um partido repugnante. Tao repugnante como qualquer partido comunista ou de extrema-esquerda. Que a repugnância colectiva se concentre à direita e esqueça a esquerda é para mim a melhor demonstraçao do poder das palavras.

A FN, a esquerda, factos e opinioes

A FN ganha eleiçoes em França e a esquerda comove-se. Confesso que nao percebo porquê. A base sociológica da FN é PCF. Isto nao é uma opiniao, é um facto. A FN partilha praticamente ponto por ponto o programa económico da extrema-esquerda - comparem-se o programa de Melenchon e da FN para as legislativas e ver-se-á que têm mais em comum do que a separá-los. E, finalmente, o racismo: é uma questao de palavras, só. Uns mostram-no para ganhar votos, outros escondem-no com o mesmo objectivo. Mas o racismo é igual. (Isto é uma opiniao, nao é um facto.)

(Com um pedido de desculpa pela da falta de tis. O teclado nao é inclusivo e que o desenhou nao pensou nas minorias lusófonas.)

23.3.14

Folga - II

Dei um dia de folga à realidade. Talvez ela devesse ser educada e retribuir.

Folga

O fim de um dia de folga. Acaba bem, melhor do que começou. Deve ser para isso que servem os dias de folga.