24.5.19

Viver?

Mais ou menos como estar deitado em cima de uma passadeira rolante, acordar mesmo antes do fim, levantares-te ainda estremunhado de sono e correr para a outra ponta, tentar refazer o percurso sem dormir na forma.

23.5.19

Realidade, cânticos e tudo

"Human kind / cannot bear very much reality", dizia um tipo que percebia de terrenos e da humanidade. Penso nisto porque esta conversa do ambientalismo me leva àquela que me parece a verdadeira questão: por que raio de carga de água não pode a humanidade viver sem um demónio, sem um mal? Um gajo mata Deus e mata o Diabo ao mesmo tempo, claro; e a primeira coisa que o homem faz é substituir um e outro. Porque não se substitui só um deles, o bom, o Deus?

Porque um não pode existir sem o outro, estúpido. Que raio de religião seria o ambiente sem a ameaça de cheias, cancros e desgraças múltiplas?

Tenho absolutamente de reler o Cântico para Leibowitz. Estava lá tudo e lembro-me de tão pouco.

Lisboa, placenta

Colo-me à pele desta cidade mas por dentro: vejo-a como um feto vê a mãe, mexo-me nela como no líquido amniótico, dou-lhe pontapés mas são pontapés de amor, não de raiva.

Diário de Bordos - Lisboa, 23-05-2019

R. pensa que sou um idiota. Tem razão no diagnóstico mas engana-se quanto às causas. Desta vez o tema da nossa "conversa" (entre aspas por preciosismo) foram as "alterações climáticas" (agora, porque cito). Parece que vão provocar uma subida dos oceanos e inundar metade das terras habitadas, entre muitas outras catástrofes.

Confesso que o tema me desinteressa ao mais alto grau. Tenho um razoável conhecimento da catequese católica e outro - menor - dos catecismos muçulmano ou budista mas evito discussões sobre temas religiosos: cada um acredita no que quer, desde que não queime na fogueira ou bombeie quem não partilha semelhante clarividência (uso o termo sem sombra de ironia: o que faz de uma religião uma religião é a sua evidência, a sua auto-explicação. Os três pastorinhos não viram a Virgem por causa das sopas de cavalo cansado do pequeno-almoço. Viram-Na porque sim, porque ela estava lá, em cima de uma oliveira ou coisa que o valha, numa suspensão temporária e de outra forma incompreensível da gravidade e da razão).

O movimento ambientalista nasceu da falência do comunismo. Tinha eu vinte anos e os agora "verdes" eram conhecidos por melancias: "verdes por fora e vermelhos por dentro". É um movimento religioso anti-capitalista que substituiu outro movimento religioso anti-capitalista, o marxismo (felizmente. Sempre mata menos). Já tinha prometido que com a R. não falaria senão de flores, bordados e casas para velhos, mas ontem, obviamente não resisti e mal o mar começou a subir à mesa eu subi com ele.

Uma vez dei a volta ao mundo num cargueiro. Atravessei o Pacífico entre o Panamá e uma cidade russa chamada Nakhodka, na qual de resto mais tarde viria e encontrar uma das grandes paixões da minha vida. Demorei trinta dias - trinta - entre o Panamá e a longitude do Japão. (É inútil entrar em pormenores muito técnicos, mas não fizemos o arco de círculo. O comandante, numa decisão acertada, preferiu-lhe uma loxodromia mas isso agora é irrelevante. Seguimos pelos vinte e cinco graus de latitude norte até ao Japão e aí "virámos à direita"). Trinta e tal dias de viagem para atravessar um oceano num sentido só. Alguém imagina quanto gelo seria preciso para fazer aquela massa de água subir um centímetro? Teriam que ir buscar gelo a metade do Universo, suponho.

E toda a gente fala da subida do oceano como dantes falavam da "Luta de Classes". A malta do século XIX teve mais sorte: não tinha Deus mas tinha a ciência (depois descambou no "socialismo científico", um dos oxímoros mais mortíferos da história...) Hoje temos esta porra desta crença infantil e primitiva de que os oceanos vão subir, o glifosato vai matar-nos e o Rousseau era bom rapaz (o outro é que o topava: "il prend envie de marcher à quatre pattes, Monsieur, quand on lit votre ouvrage").

Enfim, resumindo: a R. tem razão. Sou um idiota, mas não por causa do meu cepticismo crónico. A minha falta de inteligência dispensa explicações, como a Virgindade Perpétua de Maria - o que as religiões podem ser maldosas - ou a Santíssima Trindade.

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Isto dito, o jantar foi óptimo, como todos são sempre em casa da J. Conheci-a por intermédio do Facebook e só isso chegaria para me fazer fã do Zuckerberg, se fosse dado a fanatismos.

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O P. continua a avançar a bom ritmo. A minha previsão inicial - no fim de tudo teríamos de esperar pelos panos - confirma-se, mas pelas razões erradas. Acertar nos diagnósticos e falhar nas causas é mal universal.

22.5.19

Encostar

"Se à minha encostares a tua..." De que raio me falava? Nunca percebi se era da pele, se da vida, da carteira ou dos nossos respectivos sexos.

Na dúvida, encostei aquilo tudo mais um sonho ou dois, que por vezes partilhávamos acordados e outras a dormir.

21.5.19

Um sonho de Mértola

Hoje comi um bocado de plástico. Já não me lembro porquê: foi num sonho. Era um plástico muito macio e colorido, como aquele onde vinha o papel fotográfico antigamente, preto de um lado e colorido do outro. O sonho foi particularmente movimentado, andava para trás e para a frente com dois modelos, a J. M. V., e mais um tipo que era o manager ou RP dos modelos e se parecia com um amigo meu cujo nome agora me escapa. É belga e trabalha em publicidade. Andávamos os cinco num grande automóvel a visitar lugares da moda. A certa altura parámos para almoçar, num hotel muito chique que me lembrou o Polana. Um dos componentes do almoço vinha no tal plástico, que eu comi. Toda a gente ficou horrorizada, mas ninguém disse nada. Os modelos eram duas miúdas de vinte e poucos anos, nunca lhes vi a cara; depois do almoço foram desfilar. Acordei a tentar explicar a mim próprio porque tinha comido aquilo, mas não encontrei razão alguma. No pátio do hotel estava um carro que parecia um Porsche mas mais largo. Alguém do grupo comentou "olha que bom, o James Bond também aqui está. Vamos ter uma enchente". Ainda me lembro dos assentos do carro, espaçados. Assim que de repente me lembre é a primeira vez que como plástico num sonho e é o primeiro sonho de que lembro em Mértola, se não se incluir os sonhos acordados. Esses tenho-os com frequência. Não incluem comer plástico, nem levar modelos a almoçar a hotéis de luxo e muito menos carros com três lugares à frente, em cadeiras futuristas, daquelas que se viam nos filmes de ficção científica dos anos sessenta.

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O P. está a avançar muito bem e depressa. Finalmente encontrei um carpinteiro / laminador (especialista em fibra de vidro, para quem não sabe. Em português também se diz assim?) que trabalha bem, depressa e - segundo o I. - sabe o que faz.

Esse é outro sonho frequente: ver o P. pronto. Aposto que vai parecer-me tão estranho como comer plástico num hotel de cinco estrelas.

Um dia hei-de navegar o Estreito de Magalhães nele, passar o Horn e ir a Chiloé.

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Estes dias meio oníricos do Festival Islâmico acabaram. A vila regressa ao silêncio habitual. É um sonho de vila, esta.

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Mandei um artigo à R., uma das raras mulheres por quem fugiria de casa (se tivesse casa, eu sei. Não tendo é fácil).

Tens sim, estúpido. É um sonho, mas é real. Demonstra que tens uma interminável capacidade para concretizar os teus sonhos, apesar de tudo; e uma ainda maior para os esquecer.

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Sem querer, apercebo-me de que faço uma belíssima descrição de Mértola: um sonho dentro de um sonho dentro de um sonho.

Preferência

Antes ser o primeiro e não ter ninguém atrás do que o último de uma fila enorme. 

20.5.19

Escolhas

Não ter nada a dizer é a melhor das prisões e a pior das liberdades. Não sei qual escolher.

Luz, escuridão e deuses

Estar cheio de sol é assim: és um pequeno deus. Os grandes deuses vivem na e da escuridão.

A ferros

Saem-me a ferros, as palavras ainda por escrever e os amores já amados.

19.5.19

Saudades

Tenho saudades do tempo em que te podia escrever, mulher. Poder escrever a alguém é dar um alvo às flechas, dizer-lhes para onde irem. Elas retribuem: índicam-nos quem amar.

15.5.19

Poesia para gente crescida e poesia infantil

Pensa-se em Pizarnik e noventa e nove por cento dos outros poetas parecem autores infantis. Quem fica de fora? Celan, claro; Pessoa; Pound? Teria que relê-lo, para ter a certeza. O Éluard de depois da morte da mulher; Saint-John Perse; Tagore; quem mais? Alguma ideia? Não me venham com os beatnik, por favor: esses são infantis mesmo sem pensar na Alejandra.

Diário de Bordos - Mértola, Portugal, 15-05-2019

Está calor, mas ainda não é daquele que se vê. Por enquanto, este sente-se mas não é visível. Desse, só mais lá para o  Verão.

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A ideia de que a cerveja serve para matar a sede deve ser reavaliada. Deve beber-se cerveja quando se tem fome e beber vinho quando se tem sede.

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Primeiras horas em casa. Quando é que uma casa é a nossa casa? Uma relação começa na primeira noite em que se dorme junto e não se faz amor. E uma casa, quando é que começa a ser nossa, quando é que deixa de ser um acampamento, mais um?

Não sei.

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Azáfama para o Festival Islâmico. J. diz-me que está tudo muito atrasado. Isto não é bem atrasado, é mais da matéria de que os milagres se fazem.

14.5.19

Curiosidades

Já por aqui devo ter contado a história da criação da minha primeira empresa; se não contei, ficará para outro dia. Comecei-a sem um cêntimo, perdi imenso tempo à procura de um barco de uma forma que hoje - há muito tempo, na verdade - sei que seria impossível não falhar, acabei por encontrá-lo emprestado, fui para os Açores - era a primeira vez que lá  punha os pés  - e fartei-me de ganhar dinheiro até apanhar uma multa por charter ilegal.

Depois disso continuei a ganhar dinheiro, embora menos; e resolvi fazer as coisas mais de acordo com a legislação. Aí começou uma espécie de corrida de obstáculos, os cem mil metros barreiras, como lhe chamava. Para além da distância, esta corrida tinha três características que a diferenciavam dos banais cem metros:
a) os obstáculos não eram todos da mesma altura - alguns eram muito mais altos do que outros -; b) apareciam ao acaso, não estavam visíveis desde o início e c) entre as barreiras havia minas escondidas. Um gajo ia a correr e de repente aparecia-lhe uma barreira à frente; tudo o que havia a fazer era saltá-la. Às vezes lá dava para a contornar, com um bocadinho de jogo de cintura, sabendo que isso não passava de adiar a solução, sempre e só uma: saltar. Depois explodia uma mina. E assim iam os dias passando, alternando minas, barreiras altas, baixas, que apareciam e desapareciam sem se perceber como.

Curioso, não é? Isto aconteceu em 1985...

Avenida da Liberdade, nº 1

Suponho que todos os primeiros livros têm uma história por trás deles. Não vale a pena chatear as pessoas com mais uma.

Mas lá que estou feliz, estou. E grato.

Avenida da Liberdade, nº 1

13.5.19

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 13-05-2019

Há em mim uma espécie de perversão que consiste em reagir negativamente à pancada. Isto é, reagir ao contrário: em vez de dizer "Que se foda, ganharam" e mandar a toalha para o meio do ring, perguntar-me "Como vou resolver esta merda?" ainda mais teimosamente. É como se a cada murro ficasse mais resoluto, mais determinado. Foi isso que me fez aguentar a catástrofe dos Açores tanto tempo, ir às cordas a cada projecto ou no Burundi ganhar a guerra com a Alfândega (uma vitória de que posteriormente vi a futilidade e o erro e vim a lamentar, mas que não deixa de ser uma das mais bonitas da ninha vida - como de resto muito do que vivi naquele ano).

Há dois filmes de ou com Paul Newman que falam desta - insisto no termo - perversão. Um chama-se Never Give an Inch (aliás Sometimes a Great Notion, diz-me o IMDB). O outro chama-se Cool Hand Luke. Vi-os há muitos anos, quando ainda ia ao cinema. As pessoas dizem que perder é não ir à luta, mas quando isso não me parece uma malvadez - tem alguma nobreza, vá lá - passa a simples burrice. No caso dos filmes é impossível não apreciar as personagens, mas vida é vida, não é cinema.

Hoje tive um dia desses, um dia em que me pergunto por que raio de carga de água "as coisas" insistem em fazer de mim um saco de porrada. E logo a seguir, no mesmo movimento, "como raio hei-de foder estes gajos?" sendo que "foder estes gajos" consiste simplesmente em encontrar alguém de confiança para acabar o interior do P. Não é muito, mas para mim é mais do que imaginar Sísifo feliz e livre: é imaginá-lo a pôr a porra do calhau no cume da montanha, descer de lá satisfeito e - aí sim - livre, a esfregar as mãos de contentamento.

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Um dia de merda mas acabou bem, tão bem quanta a merda foi merda: o DV vai finalmente transformar-se em livro (em livros, espero) e hoje deu-se o primeiro passo da primeira etapa dessa viagem. Digo "finalmente" porque o processo foi longo, difícil e tortuoso, uma espécie de tango mal dançado, resolvido no fim graças à determinação e insistência de J.M.V. e ao pior transporte da minha vida - Deus sabe se os tenho tido maus -. É como um parto por aquelas mães que recusam a gravidez, fazem o que podem para abortar sem abortar directamente e o filho nasce-lhes apesar de tudo. Neste caso não só nasceu como me deixou feliz. Que vivam, a vida e a liberdade e tudo o que elas nos trazem.

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Este refit é de longe o maior projecto deste tipo no qual estive envolvido como responsável. Parece-me um rio alimentado por centenas, milhares de afluentes: tudo o que fiz até hoje vem desaguar aqui. Sinto-me como uma criança com poderes mágicos ou um super-homem sem eles: em qualquer dos casos estou desarmado e tenho armas, nu e tenho roupa num armário qualquer. Basta-me procurar: já passei por eles todos, só que isoladamente. Agora todos os rios, riachos, ribeiros da minha vida, todos sem excepção convergem para aqui, para este dia, este ano, este barco.

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É assim: estar no pico e na cava da vaga ao mesmo tempo, como o gato do outro; amassado e lutador como o Newman nos filmes; ou simplesmente teimoso, como sempre fui.

Frio

Estou com frio, mas não sei se vem de fora ou de dentro. Por mais que me cubra não passa.

11.5.19

Aconchego

Hoje morreu o pai da M., que é um dos meus melhores amigos (a M.) e eu estou triste com ela, por ela, apesar de isto de os pais morrerem ser tão frequente,  acabam todos por nos deixar ali especados no meio da rua a perguntar "E agora?" enquanto o trânsito continua a toda a velocidade em todas as direcções e nós de repente sozinhos, nós de repente a perguntar-nos se fizemos sempre o que devíamos ter feito sabendo perfeitamente que não fizemos mas agora é tarde, vamos ter de viver sem o aconchego, sem a calma e a sabedoria e a simples presença do Pai, ali especados sozinhos.

Beijo-te, minha querida M.

Dispersas do dia - 11-05-2019, Palma

É sabado, está calor desde o fundo do ar até à medula dos ossos, o mercado começa a encher-se. A excitação no ar é tangível. As vendedoras estão mais bonitas do que o habitual: esta mistura de calidez e perspectiva de dinheiro a entrar estimula-lhes a produção de adrenalina e progesterona, uma combinação que transforma qualquer mulher em Miss Universo.

Por uma razão qualquer, a perspectiva de beber vinho não me atrai. Acompanho a carbonara com cerveja. Esta carbonara resiste a tudo. Enquanto me lembrar dela não conseguirei comer outra.

(Verdade seja dita: o meu estômago está ligeiramente perplexo. Mando-o dar uma volta ao bilhar grande e pergunto ao Luca onde encontrar um restaurante italiano que tenha pratos a sério. A cozinha italiana é a prova de que a civilização começou em Roma e esta merda destas pizze e pasta são uma praga - com a óbvia excepção das do Luca, mas isso é outro campeonato. Ele está muito à frente na conquista do título de melhor pastaio da galáxia e de qualquer maneira aquilo não é um restaurante. É um stand no mercado.)

O meu estômago está inseguro quanto à cerveja, suponho. Peço outra, não vá ele pensar que uma simples noite de copos lhe dá todos os direitos.

Às vezes penso na minha vida como um tricot, outras acho que ela se parece mais com um quebra-gelos a avançar através de uma camada de gelo no limite do que ele aguenta. O gelo faz barulho ao partir-se, reclama, luta. O quebra-gelos prossegue, nem impávido nem sereno.

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Acabo o almoço, a deambulação pelo mercado e venho deitar-me, decisão aprovada por quase todos os órgãos. Quase: os que não estão contentes que se amanhem.

Limpezas e arrumações

É forçoso - mas longe de ser um sacrifício, muito longe - reconhecer que a noite de ontem foi uma grande noite de copos. Cumpriu integralmente as funções dessas noites: limpar os circuitos sinápticos dos macaquinhos que por eles se passeiam (aos quais às vezes chamo demónios, mas isso é quando estou para choraminguices, pieguices e outras paneleirices. Hoje - e espero que daqui em diante - isto devia durar para sempre. "Isto" sendo esta alegria, esta leveza de ter o sótão limpo e arrumado).

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 10-05-2019

Onde começa um dia? Quando acaba: quando deixou de ser dia, quando deixou de ser trabalho? Não sei e pouco me interessa. Hoje começa pelo fim, pelo 7 Machos, que tem a melhor Tequila e os melhores nachos a leste do Pecos - e a dona mais bonita, aposto -. Foi lá que perdi o Ch., que já mal podia andar. Lembrou-me uma vez que levei um gajo a Setúbal de táxi. É uma história triste e não a vou contar aqui.

Antes dos 7 Machos estivemos num sítio absolutamente magnífico chamado Art Mobles i Vins, em maiorquino. É uma espécie de tangente do kitsch e da arte, mas isto tem muito que se lhe diga. Tomei bastantes notas. Com um pouco de sorte amanhã ainda estão legíveis.

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O lado feio da vida é o kitsch. O lado bonito do kitsch é a vida. Estão demasiado entrelaçados, eu sei.

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Há um ponto nevrálgico no qual a arte e o kitsch se encontram, Quem se ri de um não percebe o outro: a arte e o kitsch tocam-se no mesmo ponto em que a vida toca o belo e o feio toca a vida,

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Toda a gente sabe que o melhor cocktail do mundo se chama Painkiller. A seguir vem o Gin Tonic, que refresca e engrossa simultaneamente.

O Alexander do Procópio está obviamente fora de competição, como os filmes em Cannes e a Jacqueline Bisset.

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Se fosse preciso escolher entre comer e beber de mais escolheria sem dévida beber de mais. Comer muito é feio, é um desperdício interiorizado. Pelo contrário, beber muito é a utilização nobre dos recursos postos à nossa disposição para fazer do mundo um lugar suportável.

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Das quatro pessoas ao balcão, três estão agarradas ao telefone. Sobro eu, agarrado ao tinnitus, à vontade de te ver, ao saber que essa vontade é fútil, vã e infantil. Estéril. Agarro-me a quê, então?

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Kitsch? Arte no primeiro grau? As pessoas aqui já viveram mais do que metade da prisão, metade do convento, metado do hospital e metade do hospício viveram e não passam de uma dúzia de gatos pingados e velhos. A idade média do sítio não deve andar muito longe dos setenta anos, se excluirmos os empregados e a cantora, uma mulata linda, prova viva de que os racistas não só não percebem nada como ainda são punidos, coitados.

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Palma é um carnaval permanente: aldeia disfarçada de cidade grande, cidade grande disfarçada de aldeia.