20.10.18

Espaço, palavras

Se neste espaço que nos separa fizeres uma estrada de palavras, eu percorrê-la-ei.

Caminho, carga

Vai o caminho longo e pesada a carga, dizes. Mas não fazes nada para abreviar um ou aligeirar o outro, seja por preguiça, inabilidade ou negligência.

Antes por falta de caminho e de carga: vais leve por essa estrada fora, guiado por estrelas invisíveis, atrás de cometas que só tu vês. Não te queixas: ninguém te ouviria.

A questão

A questão não é essa.

Ninguém põe em causa o desejo, ninguém duvida do seu poder devastador. A questão é saber de onde vem, como um tsunami nasce de um tremor de terra. Precisa o desejo de um terramoto? Sei lá, o amor? A solidão? Uma noite cálida de Outono? O teu olhar, a pele, essas coisas?

Não. O tempo e as palavras que lhe dão sentido. 

18.10.18

Perifrásico

Os portugueses gostam de perífrases. Preferem dar voltas ao penico a dizer as coisas directa e claramente. Somos um povo perifrásico.

Ou periférico, não sei.

17.10.18

Encontrou

Podia ser o fim de um dia como milhares de outros; mas não é. Sabe a fim de ciclo, como se a personagem do Amarcord em vez de gritar Voglio una donna gritasse Ho trovato. Um fim de ciclo bom, daqueles que abre portas, janelas, renova o ar, entra luz por todo o lado.

Que teria ele encontrado, pendurado na sua árvore? Pouco importa. Quem procura de verdade não sabe o que procura; sabe quando encontra, quando se apercebe de que a estrada que vinha percorrendo é isso mesmo: uma estrada. Não sabia o que era, não sabia sequer que aquilo tinha uma direcção, uma foz, como um rio de que os afluentes não se distinguissem do fluxo principal, rede de estradas sem hierarquias, estradas secundárias, caminhos, atalhos, auto-estradas, árvores grandes ou pequenas: tudo igual, tudo o mesmo valor.

O fim de um ciclo como um torniquete: entra por onde saiu. Vai à loja das tintas e pinta o mundo que aí vem. Arruma o puzzle na caixa e começa outro, maior e mais bonito, pintado de fresco. Escolhe a miúda mais bonita da sala e diz-lhe: encontrei.

Viver, cair

Não tenho onde cair morto mas tenho onde viver de pé, que é muito mais importante.

15.10.18

Diário de Bordos - Haría, Lanzarote, Canárias, Espanha, 15-10-2918

A ideia era ter um dia calmo e pensar. Na segunda parte tive bastante êxito. Pensei, repensei (e quase trespassei), cheguei a meia dúzia de pistas e tenho pelo menos uma direcção. Já a primeira foi mais ambígua. Primeiro, passei a manhã toda ao telefone com Mallorca; depois, resolvi meter-me no carro e perder-me pela ilha. Passei pertíssimo de alguns acidentes - se conduzir não pense - descobri que o carregador de telefone recém-comprado só deu para duas cargas e que as tomadas do quarto não aceitam a ficha do laptop. Fui carregar o telefone para uma tasca.

Ao menino, ao borracho e ao pensador põe Deus as mãos por baixo.

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O quarto é lindo, calmo, grande, bem decorado. Há quanto tempo não durmo num sítio assim? Tenho andado a pensar que estou farto de aircoisos e afinal sai-me isto na rifa.

Vim para a ponta Norte da ilha: quero calma, paz e sossego. Infelizmente amanhã lá terei de voltar a Arrecife, mas enfim. Este fim de tarde e esta noite compensam tudo.

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É a mesma calma de Mértola. Não é ausência de barulho, é silêncio pela positiva, afirmativo, de dentro.

O lugar chama-se Haría, a casa Casa das Vistas, se por acaso alguém aqui vier de passagem.

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Dormir? Tenho sorte: consigo dormir em qualquer sítio, em qualquer circunstância.

Até no meio de um silêncio estrondoso como este 

Parceria, selvajaria

A quantidade de cicloturistas é impressionante. Um gajo não anda três quilómetros que não veja um grupo de senhores e senhoras em Lycra, montados em bicicletas mais leves do que o ar (pelo menos na aparência, claro).

Em Portugal seria impossível: a falta de civilidade dos nossos condutores mandaria metade para os hospitais

Excepto talvez se se fizer um produto combinado: cicloturismo e turismo médico. Aí sempre se rentabilizaria a boçalidade.

14.10.18

Diário de Bordos - Arrecife, Lanzarote, Canárias, Espanha, 14-10-2018

A chegada a Lanzarote foi pouco auspiciosa. Felizmente não sou supersticioso nem acredito em sinais do além. O automóvel que tinha reservado para chegada não estava: dois erros, dois, numa só reserva; a senhora da casa aircoiso fez-me esperar mais de uma hora, metade da qual na rua (a outra metade foi passada num café simpático a comer frango frito execrável e batatas fritas que num mundo justo levariam quem as fez à prisão).

As desventuras continuaram: passei a manhã a tentar reencontrar o automóvel, uma das pessoas a quem eu tinha de telefonar uma vez aqui não respondia, esqueci-me do carregador do telefone em Barcelona e por aí fora. As catástrofes - verdadeiras catástrofes, sublinho -  sucederam-se até que peguei, finalmente, no veículo e comecei uma volta pela ilha. Que é inquietante: no meio destes campos de lava um gajo pensa que as erupções foram ontem e nada garante que não voltem amanhã. À medida que o passeio vai progredindo e a paisagem se entranha a pergunta fica "como é que esta gente extrai comida desta terra? Desta secura, desta violência? Como será esta gente para lá da máscara de simpatia e hospitalidade?"

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O automóvel foi uma fonte de chatices mas creio tê-las resolvido todas, à terceira cola (Superglue, a quem possa interessar).

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Primeira nota: quem pensar que o serviço em Palma é mau devia vir a Lanzarote.  Segunda: pelo menos ninguém fala catalão. Terceira: de onde raio de carga de água vêm estes bangladeshis todos?  (Depois descubro que alguns são filipinos. Devem vir de muitos lados).

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Lembram-se daquela experiência que fazíamos no Liceu com limalha de ferro? Um gajo aproximava um íman e tudo aquilo se ordenava? Deve passar-se o mesmo com algumas vidas.

Pelo menos a minha, o que já não é mau.

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Pergunto-me como é que se consegue dizer que isto é trabalho sem se desatar numa gargalhada sem fim. Eu consigo: é trabalho. Abençoado, mas trabalho.

A pessoa certa

- Arranjei uma namorada. É médica.
- Hummm... Para ti não seria melhor uma veterinária?

11.10.18

Argumentário

O meu argumento para ser conservador não é "dantes é que era bom".

É: dantes já era suficientemente mau.

Carta aberta com súplica

Querido Deus,

Tu podias matar-me de uma vez. Não é preciso fazeres-me passar por esta tortura.

Não achas?

Obrigado.

L.

PS - Não precisas de matar-me. Adormecer-me profundamente até esta merda passar seria suficiente.


PPS - Não te esqueças de que amanhã tenho o avião para Lanzarote.

Diário de Bordos - Barcelona, Catalunha, Espanha, 11-10-2018

O post era para ser de ontem, mas uma constipação colossal adiou-o sine die. Apanhei-o em voo para parte incerta, num restaurante "mexicano" de Barcelona (mexicano vai entre aspas porque o cozinheiro deve ser esquimó).

Venho do salão náutico, provavelmente a coisa mais prática que já foi inventada para quem precisa de encontrar fornecedores, clientes, potenciais parceiros e - sobretudo - sentir as tendências, saber para onde vai o vento.  Ainda me lembro das excitações dos anos oitenta em torno do salão de Paris; mais tarde foi o Boot, em Düsseldorf. Tantos outros: Londres, Grand Pavois, Friedriechshafen...

Depois essa excitação desapareceu e ir a um salão náutico tornou-se uma seca, uma violação, passe o exagero: plástico e mais plástico, tudo muito brilhante; os senhores de blazer e as senhoras elegantes, gajos que do mar conhecem a cor nos dias de sol a falar, falar, falar... Tornei-me alérgico. O salão de Barcelona tem pelo menos a vantagem de se ter tornado uma coisa minúscula, desinteressante, "local" como me dizia há pouco o Samuel. Enfim, cumpriu a sua missão: encontrei quem tinha de encontrar (em parte; isto é pequeno); comprei duas peças de que precisava, poupando assim os quinze euros do transporte e vou para as Canárias a pensar que não perdi dois dias por uma unha negra (depois de cortada).

A seguir desaguei num restaurante Mexicano com os piores tacos Pastora que jamais comi na vida, incluindo os que me envenenaram no Cabo (esses pelo menos eram bons). Agora vou experimentar os frijoles puercos. A tequila é boa, valha-nos isso.

Barcelona é uma cidade fantasma. Ou de fantasmas?

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Vou afogar os vírus em tequila e em música pimba mexicana. Aposto que não sobrevivem. 

10.10.18

Serviço público - Bares, Barcelona

Can Paixano (o La Xampanyeria do Google é alcunha).

Carrer de la Reina Cristina, 7. Cava (bom) a 1.75, tapas (simples mas boas) a preços igualmente baixos.

Sempre cheio (pergunto-me porquê), mas o ambiente - pelo menos à tarde - é aceitável. À noite tem gente a mais. A pôr na lista daqueles sítios tradicionais que resistiram ao very typical.

A partir da segunda bebida é preciso comer; uma garrafa tem obrigatoriamente pelo menos duas tapas. Não sei quantas garrafas de cava vende o estacionamento por dia. Só no meu canto de bar o empregado abriu algumas quatro em menos de meia-hora.

(Uma sugestão da T. que perdurou).

9.10.18

Boa vida?

São duas da manhã e está na hora de dizer "foda-se", que é mais ou menos o equivalente de "boa noite". A razão é simples: amanhã é melhor do que hoje e pior do que depois de amanhã e convém despedirmo-nos dignamente de cada dia que passa.

Se formos a ver bem, "boa noite" é insuficiente.

Eufonias

É so a mim que "bar aberto" soa melhor do que "bar fechado"?

Combustíveis

A barmaid é magra, loira, calada e os óculos dão-lhe um ar intelectual. Ou pelo menos inteligente; nem sempre é o mesmo: saber falar é uma coisa, pensar outra. Olhem para mim.

Isto dito, é bom descobrir que há um bar aberto perto de casa quando os japoneses do sake estão fechados.

Um gajo precisa de combustíveis e já os chineses diziam que metade de uma viagem de cem li não são cinquenta li. São noventa.

8.10.18

Contradições e argolas no nariz

As empregadas de hoje no Moltabarra são todas maricas e usam argolas no nariz, como as vacas. A contradição é superficial, claro. Não passa da pele, das palavras.

Gosto delas: eficazes, simpáticas e feias. Quem não gosta de uma boa contradição?

A filosofia e os stocks

O Antiquari não tem mais Fernet-Branca. Vou ter de levar Popper a passear.

Consideranda filosóficas sobre a vida, o dinheiro e as ejaculações precoces

- Qual é o teu objectivo na vida?
- Um dia gostar mais de dinheiro do que da vida.
- Vais tarde, parece-me.
- Eu sei. A vida é uma ejaculação precoce permanente.

Abordagem popperiana do Fernet-Branca

Ando a testar a minha teoria sobre a quantidade de Fernet-Branca que se deve beber.

Era falsa. Agora trata-se de elaborar outra.

7.10.18

A vastidão da tua ausência

O dia acaba. Foi um vasto dia: passei-o na vastidão de uma cama sem ti.

Listas

Cinco razões para não andar com as calças pelo meio do cu; oito coisas que ignorava sobre as vantagens de beber cachaça ao pequeno-almoço; dez perigos de ler insanidades; quinze receitas de Coca-Cola com gelo e limão.

Os jornalistas deixaram de escrever. Elaboram listas.