2.7.22

Livros, beijos

Não comprar livros com o pretexto de que ainda se tem muitos para ler é como não dar um beijo à mulhet que se ama porque já se deram bastantes. 

Um livro é um beijo que se dá à vida, lido ou por ler.

1.7.22

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 01-07-2022

Venho à Bodega Belver beber um palo. Garrot, claro. É o mais suave deles todos. Não sei o nome do dono. Nunca (salvo uma vez) o vi sequer sorrir. A Bodega Belver é um dos locais que resiste tenazmente ao cilindro igualador e esmagador da modernidade. Na porta tinha um aviso: "Não há tapas". Agora tiraram-no, mas suponho que continua a não haver. Só fazem pa amb oli (pronuncia-se pamboli, uma espécie de semi-sanduíche de que não sou grande adepto). O Garrot sabe-me bem, o sítio está praticamente vazio, mas vou-me embora rapidamente: tanto o dono como o empregado estão de máscara. Nenhum deles sorri, é verdade, são maiorquinos até à décima geração antes deles, mas já não aguento a estupidez.  

Refiro-me a esta estupidez, note-se. Deve haver talhões ou divisões no cérebro das pessoas, uma espécie de tabuleiro de xadrez mas mais irregular, com quadrados inteligentes e quadrados estúpidos. A Covid não é um teste de inteligência «geral», por assim dizer. Aquilo escolhe uns talhões na massa cinzenta, engole sinapses, neurónios, neuro-transmissores, receptores e tudo aquilo que sustenta o raciocínio e pronto. Como não há incentivos para não expor esta forma particular de estupidez, ela anda aí pelas ruas, sem vergonha. 

Questão de tempo, eu sei. Contudo, agora com o número de «casos» e (sem aspas) de hospitalizações a aumentar vertiginosa (mas não «exponencialmente», palavra que estranhamente desapareceu do léxico mediático), duvido muito que os quadrados com máscara cedam terreno aos outros.

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Os casos e as hospitalizações aumentam e o governo balear (presidido por uma senhora do clube Sanchéz & Costa) reage louvavelmente. É estranho e contraditório, eu sei, mas é assim. Em primeiro lugar, a senhora recusa novas «medidas», com o argumento de que «a epidemia está controlada e as pessoas têm direito à normalidade"; em segundo, aconselha - com uma timidez digna de nota - «quem só teve duas doses de vacina a tomar a terceira». Como se ela própria não acreditasse muito naquilo.

Claro que para chegar aqui provocou dois anos de miséria. Como diz o meu cliente (que afinal só verei amanhã, porque perdeu o avião em Barcelona e devem estar cansados, ele e a mulher): restons positifs.

Se até uma socialista (de quem as más línguas não dizem coisas muito boas, ao contrário do que é habitual) reconhece, mais coisa menos coisa, que se enganou, há lugar para dar uma cadeira à esperança. Confortável, não vá o diabo tecê-las.

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Esta cidade enche-me de uma emoção que por vezes sente necessidade de extravasar, como se a solidão fosse um génio numa lâmpada que Palma esfregou.

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Música no Divino, onde desaguei - ou a burra me descarregou, farta de indecisões, vá lá saber-se. Blues com um desses orgãos eléctricos e um sax. Pouco a oiço, verdade seja dita. Concentro-me na escrita e no vinho, agora branco - acabei o jantar com uns boquerones fritos que o Roberto faz maravilhosamente, deve fritá-los com um cronómetro numa mão e um termómetro na outra. Aprecio muito esta forma de comer: um pouco disto, outro daquilo, «um bom marinheiro toca em todos os portos», dizia o meu Pai com um duplo sentido que quase toda a gente percebia. A minha Mãe estava incluída nesse quase, mas já estava habituada. Se há coisa que aprendi com os meus pais - não há coisa, há milhares de coisas - ... Não interessa.

Passemos ao presente: a música é excelente, o jantar também (arancini, carpaccio de bresaola, boquerones fritos), os vinhos não ficam atrás de nada disto. Esta mania que a memória tem de que é a água tónica no gin do presente deve acabar.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 01-07-2022

Paciente, a Órbita espera-me no interior do Es 20 de Bonaire enquanto bebo um vermute e como umas almôndegas. O Es 20 vende produtos caseiros, artesanais, "ecológicos" (aspas porque troço) e oferece simpatia, sorrisos e competência. Estes três ultimos são raros nestas bandas. Os primeiros não, mas em lado nenhum atingem o elevado nível de qualidade deste local.

Que a bicicleta entre - e espere - na loja não tem nada de raro. Raro é o contrário,  não poder entrar nas lojas. Exceptuando os supermercados e os cafés, entram em todo o lado.

Palma-a-suave gosta de mim e eu dela. Fomos feitos para nos entender.

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Os clientes chegam às quatro da tarde. Ainda não decidiram se vão a bordo ou se vão directamente para o hotel. Estará definitivamente na altura de trocar a energia eólica pelos combustíveis fósseis? Cada vez mais me parece que sim.

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Hoje foi de novo dia de mudanças. Enquanto não me vir livre destas caixas - mais de metade das quais só merece ir para o lixo - não acredito que o meu P. do meu coração esteja pronto.

30.6.22

Água

Hoje bebi água.  Bastante refrescante. Experiência a repetir, sem dúvida.

Pequena nota à parte

Não fora a péssima relação que tenho com o dinheiro - não chega sequer a ser uma relação, é mais uma ausência de relação, um desinteresse total - e (agora) as maleitas deste corpo ingrato e estúpido, cheiram a vingança e ele não tem nada de que se vingar, a verdade é que não me posso queixar. Tenho a vida que sempre quis ter. É inegável que ignorava o elevado preço de ser livre; mas é ainda mais verdade que mesmo sabendo não teria escolhido outra.

29.6.22

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 29-06-2022

Bom. Isto foi assim: chegámos ontem pouco antes das dez da noite. As lanchas a motor são cansativas e chatas, sobretudo estas pequenas por causa do barulho. Fomos jantar à Cuadra, comer um gelado ao Claudio, beber um copo ao Antiquari. Os meus viacrucis têm pouco de dolorosos e gosto de os partilhar. A. aceitou com entusiasmo e apreciou a picanha da Cuadra. Fiquei a saber de onde vem o nome: os bois eram picados naquela zona. Isto é o que o Dani me disse, não sei se é verdade se não e pouco me interessa.

Hoje vim petiscar ao Minyones, outra das minhas casas aqui em Palma. Tenho muitas, graças a Deus (ou a quem O substitui quando fala com ateus). O almoço foi no Cisco, no mercat de l'Olivar. Esta minha vida tem algumas desvantagens, é certo. Mas se as pessoas sonhassem o bom que é ser capaz de atravessar bonanças e tempestades, viagens e escalas sem duração pré-definida, marés altas e marés baixas, dias de chuva e dias de seca...  se as pessoas soubessem o que é bom não ter uma casa mas ter vinte... não ter carro mas ter duas ou três bicicletas...

Enfim, pouco importa. Palma recebe-me de novo, braços abertos e sorriso na cara. Eu mergulho, de cabeça. Fomos feitos para nos entender, esta cidade e eu.

Não é a única, mas pouco importa.

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O S. R. está a ser tratado, astiqué. Os clientes cheguam sexta-feira e quero-o a brilhar. Já eu preferiria ver-me deitado agora mesmo, a dormir.

28.6.22

Breve tratado da solidão

É inegável que fui eu quem escolheu esta solidão. Mas isso não a torna mais fácil de suportar. Ainda menos quando não posso sequer estar sozinho.

Na verdade,  há solidão e solidões: as que escolhemos, as que não escolhemos, as que são leves e as outras. Destas (as pesadas), as piores são aquelas em que não se está sozinho com alguém que não se escolheu para estar só. 

A solidão é como o vinho tinto: mais vale pagar um bocadinho mais para não se ficar com dores de cabeça depois e ser boa durante.

26.6.22

Diário de Bordos - Santa Pola, Comunidad Valenciana, Espanha, 25 & 26-06-2022

Os milagres pagam-se caro. Quanto maiores ou mais inesperados são mais se fazem pagar. O marinheiro prudente (isto é simultaneamente um oxímoro e uma ironia) tem com o dinheiro a relação que a Lua tem com as marés: ora o atrai ora o repele. São é mais irregulares,  as marés financeiras do marinheiro. Por isso - também por isso - ele desconfia dos milagres.

Os quais, obra quase sempre de um mafarrico ou de um deus travestido, inventam outras formas de ser pagos. O de hoje - estou a quinze milhas (três quartos de hora) do porto onde vão instalar o piloto, ou seja: um dia e meio mais cedo do que o previsto - faz-se pagar com uma dor nas costas que só não me impede de respirar porque sou teimoso. De resto, tudo o que implique um movimento, mínimo que seja, está-me vedado. Ou pelo menos implica dores atrozes nas lombares. 

Fui à farmácia comprar um analgésico. Aparentemente, o uso do amuleto facial «nos estabelecimentos de saúde» continua a ser obrigatório, o que me valeu uma breve troca de palavras com a farmacêutica e que ela não considerasse sequer a possibilidade de me dar qualquer coisa que necessitasse de receita médica (o que me faz sentir um bocadinho estúpido, pois tenho um médico a bordo. Está é reformado).

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Felizmente o restaurante que fica mesmo à saída do pontão é bastante bom. Foi lá que almoçámos e jantámos. Ir mais longe teria sido um sacrifício absurdo: nem o melhor restaurante do mundo me teria feito andar mais um metro do queno estritamente necessário.

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Pedro Sanchéz aprovou agora um decreto que começa com «... a fim de paliar às consequências da guerra na Ucrânia» (a citação é de memória). Trata-se de distribuir apoios por causa da inflacção. Não somos o único país com um mentiroso patológico no governo.

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As duas ou três ruas de Santa Pola que vi até agora não são entusiasmantes. Prédios modernos, traçados rectilíneos. Vale a simpatia das pessoas - comparadas com os maiorquinos parecem uma espécie diferente - e não precisar de andar por elas (as ruas, quero dizer).

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Escrevo num café perto da marina, o único aberto a esta hora. A televisão está aos berros. Não há pior maneira de começar o dia: lombalgias, televisão aos gritos e mentiras. Ainda por cima a porcaria do café está cheia, não posso sequer sonhar em recorrer ao método habitual: pedir para baixar o volume de som.

Adenda: Hallelujah! Não foi preciso pedir. O empregado chegou, não sei se de motu proprio se por pedido de terceiro, à conclusão de que aquilo estava realmente insuportável. O café esvaziou-se e o som sobressaía ainda mais.

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Uma coisa que já tinha reparado ontem: aqui a única língua que se ouve na rua é espanhol (e por vezes valenciano, uma variante do catalão). Os menus não têm quarenta e duas línguas e salvo raras excepções as pessoas dirigem-se a mim em espanhol.  Os restaurantes são baratos.

Explicação: há pouquíssimos hotéis em Santa Pola. A maioria dos clientes das inúmeras empresas de day charter, motas de água, foras-de-borda «sem carta» são pessoas que ou têm casa aqui ou se juntam para alugar uma para as férias. 

25.6.22

Coisas simples

Daqui a uma hora faço rumo ao Cabo de Palos, esperando que o vento me force a ir para Cartagena e ao mesmo tempo serei o homem mais feliz do mundo se conseguir chegar anda hoje a Torrevieja ou algo ali perto.

Respeito, respeitinho

Se há um discurso que me irrita é o do "respeito". Temos de respeitar o outro, temos de respeitar os sentimentos e ou as ideias e ou as manias todas, sejam elas quais forem, do outro.

E se o outro for o Estaline, o Pol Pot ou o Hitler, também tenho de o respeitar?

Não, não tenho. Então onde se põe a linha? A linha passa onde eu quero que ela passe. De um lado as pessoas, ideias e sentimentos que me parecem respeitáveis. Do outro, os que não merecem respeito nenhum.

Como a linha é muito grossa, tem espaço para acomodar alguns assom-assim.

Diário de Bordos - Aguadulce, Andaluzia, Espanha, 24-06-2022

A razão pela qual um marinheiro digno desse nome não acredita em milagres é que eles existem. Os milagres são como as bruxas, que em galego se chamam meigas: que los hay los hay. Tudo isto para dizer que estou sessenta milhas mais longe do que pensava estar, porque os milagres se dividem em duas categorias: depois de ler as previsões meteorológicas e depois de as experimentar.  Visivelmente o tempo não leu as previsões e não sabia o que fazer. Na dúvida, baixou os braços.

Amanhã vai ser preciso outro: o objectivo é conseguir passar o cabo de Palos, sabendo que não vamos conseguir passá-lo e que muito provavelmente vamos ter de passar um ou dois dias em Cartagena. Espero sinceramente que desta vez o tempo leia as previsões e me force a ficar em Cartagena, um dos meus poisos favoritos nestas bandas. Se não, lá passarei o célebre cabo, outro milagre.

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A minha trotineta porta-se bastante bem. A ver como se portará amanhã. Faz barulho como um comboio de transporte de bisontes vivos, mas aguenta bem o mar - admitidamente hoje fraquito - e tem tudo o que precisa de ter, não tendo nada do que não precisa. Avança a quase vinte nós de média, mas cheira-me que amanhã vai adoptar um passo mais lento. Consome cinquenta litros à hora, o que faz dois litros e meio por milha. Trezentos e setenta metros por euro.  A minha bicicleta é mais barata. Infelizmente não anda no mar.

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A hermenêutica dos milagres tem que se lhe diga.

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Não é só a dos milagres, verdade seja dita. 

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A razão pela qual ninguém consegue perceber um marinheiro é que ele tão pouco é capaz de perceber ninguém que não o seja. Somos o povo eleito da humanidade. Resta saber quem nos elegeu - se Deus, se o Diabo, se uma mistura dos dois.

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Se por acaso algum dos meus leitores passar por Aguadulce: La Cantina del Marinero, na marina. É um erro confessar isto, mas é para ir a bares / cafés / restaurantes como este que nós navegamos. De bar em bar com o mar pelo meio.

A conta não incluía metade do que nós comemos e bebemos (enfim, bebemos). Avisei a senhora e ela responde-me: "a conta é essa e é isso que tens de pagar." Acresce que tudo o que comemos e bebemos estava magnifico. Como toda a gente,  os misantropos enganam-se. Resta saber se mais se menos do que "toda a gente".

23.6.22

Diário de Bordos - Puerto Banús, Andaluzia, Espanha, 23-06-2022 / II

Gosto de pequenos-almoços semi-vegan: sumo de laranja e café de um lado, ovos e bacon do outro. Não há, aliás, melhor cheiro ao começo do dia do que a mistura do do café a fazer com o do bacon a fritar. (Pelo menos para um solteiro. Um tipo casado talvez encontre outros.)

Hoje o meu foi assim, num sitio cujo nome não retive  infelizmente: é um dos raros cafés/ restaurantes aqui abertos antes das nove - aqui sendo Marbella. Em Banús não há um único. 

A clientela era a desses lugares em qualquer parte do mundo: policias, empregados de bombas de gasolina, taxistas a acabar o turno da noite, os mesmos mas outros a começar o dia. O restaurante é baratíssimo (mesmo em termos absolutos) e eu regalei-me tamto com a comida como com as pessoas que me rodeavam. Na marina não se vê gente assim.

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Por falar de gente assim: ontem o R., que sempre trabalhou no segmento gama alta da indústria automóvel e é daqui contou-me que acontece muitas vezes grupos de senhoras que ele designou pudicamente por "profissionais" juntarem-se três ou quatro e virem para Banús à caça de donos de Ferraris et simili. Por um lado. Por outro lado, três ou quatro alemães ou ingleses tesos juntam-se para alugar um Ferrari e vêm para aqui para o engate.

O resto é fácil de adivinhar.

Chama-se a isto um duplo engano. Ou será antes engano ao quadrado?

Diário de Bordos - Puerto Banús, Andaluzia, Espanha, 23-06-2022

Apesar deste estúpido poniente a estadia em Puerto Banús não se vai prolongar. Amanhã de manhã cedo vou a um estaleiro que fica a dez milhas daqui fazer uma limpeza aos fundos; à tarde chega o A., a quem pedi ajuda porque sem piloto não posso ir sozinho - para grande pena minha, mas isso... Com todas as minhas penas construir-se-ia uma passarola dez vezes maior do que a do bom padre Gusmão, portanto mais vale não lhes ligar muito. Vamos muito provavelmente navegar de noite para aproveitar as acalmias da besta. Como tantas vezes fazíamos quando subíamos a costa portuguesa: um opíparo jantar, um bom whisky ou dois e ala que se faz tarde. Só que hoje já não bebo antes de ir para o mar, isto de um gajo crescer é uma porra que aconselho todos os jovens a evitar. A vida tem muito menos piada - e muito menos a preservar, pelo que tantos cuidados parecem à primeira vista incompreensíveis.

Ao coro de vozes que me manda estar calado junta-se agora a do meu neto Leonardo. Ouve-se por cima de todas as outras, apesar dos seus escassos três meses. Tenho qualquer coisa que preservar, sim. De maneira que os sakes que agora bebo devem essa honra a só sair amanhã de manhã e não daqui a pouco.

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Sakes esses bebidos no restaurante Sakura, um dos melhores japoneses que conheço. Acontece de vez em quando: num porto por vezes sou invadido pela sombra do Rotschild e faço um disparate alimentar. Tão disparate que não posso repercuti-lo todo no pobre armador (para quem não tenha percebido: isto é uma ironia. Neste caso, o senhor é podre de rico. Podre de pobre sou eu). Ao meio dia entrei num japonês, provável (mas de certeza inconscientemente) atraído pelo nome - Kona (Kóná, para ser preciso) - e só quando já estava sentado e de computador aberto em cima da mesa dei pelos preços. Comi o menos que me foi possível e mesmo assim a refeição foi caríssima. Tão pouco foi o que me foi possível que saí dali e tive de ir ao Casa Blanca - uma sólida e respeitável cervejaria tradicional - comer mais qualquer coisa. Pois agora venho ao Sakura - o restaurante que já duas pessoas me tinham sugerido - e desmanchei-me de novo nesta mistura de fome e vontade de comer que faria o tio Benjamim franzir o sobrolho. Ainda não sei quanto vou pagar, mas vou-me preparando à força de sake, apesar de este ser exponencialmente mais barato do que o outro.

Seja como for: aconselho os dois restaurantes mencionados neste post. Seja como for: tenho uma atenuante, uma espécie de tsunami afectivo (o jogo de palavras não é gratuito). Seja como for: que se lixe. O armador paga uma parte, eu pago outra e não se fala mais nisso.

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Seja como for: tento não pensar na seca que é ter de ir a Alicante por causa da merda do piloto, pensando em vez disso que pela primeira vez em muito tempo vou navegar a motor sem constrangimentos de velocidade. Enquanto houver uma gota de sake no fundo da jarra ela não está vazia. Daqui a Alicante são duzentas e setenta milhas: treze ou catorze horas de navegação. Com um pouco de sorte faço isso em duas noites. Ou seja, lá para vinte e seis ou vinte sete estarei em Alicante e dali para a frente já poderei ir sozinho. Paragem em Ibiza para bancas e o mais tardar a trinta estarei em Palma. Com sorte, vinte e nove.

Não, hoje não há mais sake. Ainda acabas a acreditar no Pai Natal. A esperança e os ovos de serpente têm uma coisa em comum: há que matá-los no ninho. E a esta hora é tarde para tsunamis, sejam eles de que tipo forem.

Concentremo-nos no jantar de hoje e deixemo-nos de considerações espúrias. Daqui a pouco chega a conta, o Rotschild sai de fininho e cá fico, sozinho e entregue aos bichos. Preciso de ir para o mar, onde não há nada nem ninguém se não eu e um bote a vinte nós.

[PS: Sonha.

PPS: Um marinheiro é um gajo que sabe que nada vai correr como ele quer, que não acredita em milagres e apesar disso acredita que as previsões meteorológicas por vezes se enganam, que o poniente não dura sempre e que bastantes probabilidades de no dia tal estar no porto tal, como inicialmente previsto. Somos como aquelas longas varas dos funâmbulos - mas sem ninguém no meio a segurá-la.

PPPS - É que uma coisa é não acreditar em milagres e outra, completamente diferente, é não acreditar em milagres. Não se deve confundi-las uma com a outra.] 

22.6.22

Diário de Bordos - Puerto Banús, Andaluzia, Espanha, 22-06-2022

 A marina de Puerto Banús é daquelas que evito desde que pela primeira vez aqui pus os pés. lá para os idos de setenta e quatro ou cinco. Naquela altura ainda estava em construção, passei aqui de raspão quase de madrugada, paguei um café e uma torrada a um preço que me fez sobressaltar e ficou gravado para sempre. Hoje está pronta e continuo a evitá-la: a música nos cafés é abominável, os preços disparatados - até para quem acaba de chegar de Genebra - as lojas do mais pedante e nulo que se pode encontrar. O parque automóvel não me entusiasma por aí além - Ferrari, Jaguar, Bentley e Range Rover, Lexus, Porsche e Mercedes. Estranhamente não há mega-iates - nem tudo pode ser mau: os barcos maiores oscilam entre os setenta e os noventa pés. É uma marina para quem prefere ser visto de carro. (Não ha espaço nem fundos para maiores do que isso.)

Hoje, porém, encontrei mais uma razão para continuar a evitar pôr aqui os pés: os duches são do pior que já vi. Horríveis. Assim que de repente me lembre não me vem à memória marina nenhuma onde os duches sejam a) tão maus e b) tão desfasados do resto. De certa forma compreende-se: quem pode ir de Ferrari para casa não precisa de duches em condições. 

Isto tudo dito: se tudo correr como eu quero, esta não será nem de longe a última vez que virei aqui. Espero que haja muitas mais, na verdade: quero introduzir mais motor no meu mix de navegações e este é o local ideal para isso.

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Um obrigado especial à tripulação da easyJet que se está a marimbar na obrigação do porte de focinheira. No aeroporto de Genebra gastei dois euros e qualquer coisa a comprar aquelas coisas - para nada. Nem da embalagem as tirei. Nunca gastei dinheiro para nada com tanto gosto. Venham mais cinco, que eu pago já.

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Enchi o papo com o meu neto, mas isto é como o dinheiro para um rico ou a droga para um tóxico-dependente: quanto mais se tem mais quer. Já estou cheio de saudades e ainda ontem estive com ele.

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Está de poniente e não dá nem para pensar em sair. A última vez que esperei pelo fim de um passei uma semana em La Linea. Espero vivamente que este demore menos. Dia um de Julho tenho de estar em Palma (o que eu gosto destes «tenho de» não tem descrição. Tudo o que me faz rir é bom). O bote é pequeno, um trinta e seis pés e com os vinte vinte e cinco nós de vento que estão ali fora, só me resta praguejar contra estes cafés de merda, estas lojas bling bling e contra o facto de que afinal não vou assar quatro dias sozinho: o barco não tem o piloto instalado e até Alicante tenho de levar um tripulante. Vai ser o A., que veio comigo das BVI, é adorável e sabe fazer leme. Espero.

"Não avançamos para a verdade. Mudamos de dogma, é tudo"

"Não avançamos para a verdade. Mudamos de dogma, é tudo" é uma das grandes verdades sobre as quais alicerço a minha mundividência. 

É o dogma que une as sociedades, não é a verdade. A verdade é disruptiva, baseia-se na dúvida. O poder unificador e mobilizador da dúvida é nulo. O dogma tem uma função social importante. Não participar nele leva inevitavelmente à exclusão, mais ou menos violenta, mais ou menos intensa consoante por quem ou por quê se foi excluído. Não é por ser verdade que um lugar-comum é comum. É porque ele tece ligações que a verdade - sempre baseada no cepticismo - não conseguiria tecer.

Uma verdade começa sempre com uma pergunta. "A Terra é plana? Não será redonda? Como vou provar que a Terra é redonda?" Num diálogo, essas perguntas transformam-se em afirmações, tanto por «culpa» do receptor como do receptor da mensagem. «Culpa» vai entre aspas: não há culpa, aqui. Quando muito, responsabilidade. Ninguém segue um chefe que se pergunta.

(Cont.)

19.6.22

Constatação *

A entropia na solidão leva ao seu aumento e não à sua diminuição (dela, solidão). A solidão aumenta. Para a reduzir, há que fazer esforços.

* - "Constatação" já ganhou direito de cidadania. É uma palavra portuguesa.

Protesto contra o Facebook

 O Facebook baniu-me, uma vez mais. Restrições: dois dias impedido de postar e de comentar, quatro dias impedido de fazer parte de grupos (não sei bem o que isto é, mas pouco importa), posts deslocados «para baixo» (aspas porque cito) durante vinte e oito dias. Tudo isto porque usei a palavra «paneleirices». Não sei se foi o uso da palavra se o facto de a ter associado a «alterações climáticas». (Vejo agora que em 21 de Maio já tinha os posts «movidos para baixo» durante 90 dias. Como a 17 de Junho ainda estamos longe desses noventa dias, não sei onde é que eles os porão - não é jogo de palavras. Imagino que haja um porão no Facebook com vários níveis, como nos porões dos navios e os meus posts vão lá mais para o fundo, onde se põe a carga mais pesada ou que deve ser descarregada em último.

Seja pelo que for, isto é revoltante. Naturalmente, aceito que sendo o Facebook uma empresa privada tem o direito de decidir o que se pode e não pode dizer. Se eu for para uma mesquita gritar «Abaixo o Corão» é pouco provável que saia dela vivo ou pelo menos em bom estado. Já o mesmo não se pode dizer se em vez da mesquita para exprimir o meu ateísmo eu escolher uma Igreja - mas serei provavelmente convidado a sair. Se por acaso e por qualquer razão entrar em minha casa um senhor a dizer que Staline foi uma bênção para a Rússia, que os pretos ou as mulheres bonitas são estúpidos eu contradi-lo-ei; se ele insistir, mudarei de conversa. Gosto de discutir ideias, mas penso que quando se discutem ideias se deve partir de factos verificáveis (atenção: isto é um pleonasmo). 

Porém, o Facebook devia ter afixada uma lista das palavras que não se podem usar, uma espécie de Index Verba Prohibitorum. Assim não haveria surpresas. Quando muito, desobediências.

Isto dito, talvez não seja um exercício fútil pensar numa coisa: é óbvio que este clima de intolerância, de censura, de «inclusão», de «ofensa» permanente que estamos a viver não foi criado pelo FB. Este limita-se a respirar o ar do tempo, não o fabrica. Contudo, ao participar nele com tanto zelo ajuda a criar um mundo binário - de um lado os wokes, do outro os rebeldes, os independentes, solitários que se vêem assim excluídos da praça pública (não tenhamos ilusões - o FB é simultaneamente a praça pública, a taberna da esquina, o Speaker's Corner e a página de opinião dos jornais. Se estivesse atento à suas «responsabilidades sociais» o FB lutaria contra a censura e contra a intolerância, não as fomentaria).

Há uma doce ironia neste castigo - deve haver poucas pessoas por esse mundo fora a quem a sexualidade de cada um seja mais indiferente do que a mim. Cada um leva onde quer e dá onde pode, é a elegante e sofisticada máxima que há já muitos anos cunhei para exprimir a minha posição a esse respeito. Os únicos seres vivos que excluo deste «cada um» são as crianças e - em alguns casos - os deficientes mentais. De resto, acho que os outros não têm de se intrometer no que cada um faz de si e de quem quer fazê-lo consigo. É, ou devia ser, território proibido, fechado a «pessoas não autorizadas». O meu uso do termo «paneleirice» não tem nada a ver com o facto de eu pensar que só os maricas acreditam nas «alterações climáticas». Paneleirice, mariquice têm outros sentidos para além do primeiro (que já «panasquice» por exemplo não tem). Outras - ouso dizê-lo - denotações. Limitar a quantidade de palavras que podemos usar é mau - se bem tenha, como vimos, algumas atenuantes, em casos bastante precisos, em lugares privados. Limitar-lhes os sentidos é pior. Agir como se cada palavra tivesse um e um só significado é uma limitação não só da liberdade de expressão mas também daquilo que faz dos homens homens: a capacidade de abstrair, de imaginar, de figurar.

O Facebook não devia ser uma peça mais no rolo compressor que está a fazer da modernidade um sistema digital: quem passou debaixo do cilindro está bem, quem não se deixou esmagar vai para as beiras da estrada, rodeado de arame farpado. O Facebook não devia censurar. É um lugar público muito mais do que uma empresa privada.