21.9.19

A poncha e os elefantes

Estou aberto a opiniões diversas mas a música do Number 2 (ou será É prá poncha?) é abominável. Consolo-me dizendo que ninguém vem aqui por causa da música. É prá poncha, estúpido. Esta poncha é a melhor do mundo por uma razão simples e inatacável: é igual à melhor poncha da Madeira e não há melhor poncha no mundo do que a do É prá poncha de Câmara de Lobos.

Os donos são os mesmos, ceci explicant cela. CQFD.

Claro que daqui a pouco haverá uma multidão a dançar, desmentindo alegre e inconscientemente o que acabo de dizer: algumas pessoas vêm aqui dançar.

Acho bem.

As mulheres do Number 2 não são feias porque não são mulheres. São coisas com pernas, mamas e olhos. As pessoas do sexo feminino só começam a ser mulheres aos trinta e cinco anos. Antes disso, são seres humanos que se pintam e tentam reproduzir (ambas sendo aspirações legítimas, é preciso dizê-lo?). Uma mulher pinta-se quando quer e não quando sai à noite e não tenta reproduzir-se por uma de duas razões:
a) Já se reproduziu;
b) Não quer reproduzir-se, pensando - correctamente- que o rebento pode sair igual a ela ou - pior - ao pai.

As mulheres que vêm ao Number Two não respeitam nenhuma destas considerações: são jovens e querem reproduzir-se. Não as aprecio muito, mas gosto desmesuradamente da poncha. É a melhor do mundo.

Uma boa poncha é como aquele elefante dos hindus: suporta um mundo.

[Isto dito, ver hormonas a trabalhar é bonito. Não sabem que estão pintadaa e estão-se nas tintas para determinadas partes do cérebro.]

19.9.19

Contradições e fugas

O Ocidente está enredado numa horrível teia de contradições: entre Rousseau e a realidade, entre os princípios humanitários e igualitários e a realidade, entre os seus próprios avanços civilizacionais, sociais, politicos e a realidade.

Infelizmente, em vez de agir sobr os primeiros termos dessas equações preferiu negar o segundo.

Depois espanta-se, coitado.

(Realidade aqui sendo uma mistura de biologia, práticas sociais, história, situações financeiras dos diferentes grupos envolvidos, práticas políticas, religiões, organizações e tradições diferentes, et muitos coetera.)

17.9.19

Cuidado

Perdidos numa piscina cujo nome ignoramos. Há quem lhe chame "amor", "esperança", "felicidade", "irresponsabilidade", "desconhecido", "loucura"...  Prefiro chamar-lhe "?", mais simples e apropriadamente.

- Vamos nadar?
- Onde?
- ?
- Não. Prefiro uma certeza.
- Nas certezas não se nada. Anda-se. Patina-se, quando tudo corre mal.
- E na ?
- Ou nadas, ou afogas-te, ou és feliz, ou escolhes no momento, quando lá estás dentro até aos cabelos e já não podes sair incólume. ? marca muito mais do que qualquer certeza. Tens duas portas. Uma diz "Felicidade". A outra: "Nada. Vazio", Qual abres?
- A da felicidade, claro.
- Enganas-te. Isso é o que dizes agora. Um dia chegarás às portas e dir-me-ás qual escolheste.

...
- Nada. Vazio.
- Vês, eu não te dizia?

...
- Amo-te.
- Cuidado. Continuas assim e acabamos os dois na outra porta.

De Gould até à vida vai uma noite

Termino a noite a ouvir Gould. Não tenho a certeza de que uma noite com Gould termine um dia, mas um dia verei. Por enquanto, a noite não passa de um monte de cabelos loiros que se agarra a mim como se eu não o quisesse, enquanto no YouTube Gould toca como se fosse para mim.

Este espaço entre mim e a noite é assim: poucos objectos o mobilam. Por isso demora tanto tempo a atravessar.

16.9.19

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 19-09-2019 (Um deus inseguro)

É preciso começar por dizer que não sei por onde começar. Por onde se começam as histórias? Pelo princípio, dizem os entendidos. Bom, para começar isto não é uma história, é um relato. São coisas diferentes. Além disso, eu não sou um entendido (em nenhum dos sentidos do termo: ninguém me entende e eu não entendo nada de nada).

Bom, voltemos então ao princípio: um gajo entra num café banal de Calatrava (um bairro de Palma, para quem não sabe), pede um vermute e de repente aparece-lhe uma espécie de Keith Jarrett para melhor a tocar um piano absolutamente horrível. Passados os primeiros cinco compassos um gajo esquece o piano e começa a chorar. Meia hora depois o pianista pára de tocar e o gajo continua a chorar por mais dez minutos, pelo menos.

.........
As pessoas falam do ego desmesurado dos músicos, mas à minha frente tenho um gajo que se expõe como se estivesse numa praia de nudistas existencialistas. Fala durante meia hora, durante a qual me diz que a) é descendente de Bergson e b) tem trinta e nove anos e leu ao todo três livros, porque não quer receber informação de terceiros. Disse mais coisas, não levou meia hora a dizer-me isto, mas foi o que retive, aproximadamente.

Depois começa a tocar. E de repente tenho um Keith Jarrett em plena ebulição à minha frente. Um Keith Jarret, juro que não exagero. Uma Maria João Pires. Uma Marta Agerich. Um Glenn Gould.

........
É um deus inseguro, um deus que precisa de te mostrar que é deus. Penso em Slocum. "São os capitães demasiado seguros de si que perdem os seus navios". Confirmo: são os deuses inseguros que fazem a melhor música.

........
Choro há meia hora, desde que ele começou a tocar. Parou há pouco menos de dez minutos e continuo a chorar, coisa que acho profundamente injusta. Ele disse que ia tocar para "quebrar as más energias do sítio" (aspas porque cito). Não as partiu: rebentou-as, explodiu-as, dinamitou-as. Mas agora, dez minutos depois, o lugar está cheio de energias - a dele, a minha, a da mulher que ele ama e não o ama e se agarra a mim como se eu fosse um lago no deserto.

Rui Knopfli

Memória Consentida

Neste lugar sem tempo nem memória,
nesta luz absoluta ou absurda,
ou só escuridão total, relances há
em que creio, ou se me afigura,
ter tido, alguma vez, passado

com biografia, onde se misturam
datas, nomes, caras, paisagens
que, de tão rápidas, me deixam
apenas a lembrança agoniada
de não mais poder lembrá-las.

Sobra, por vezes, um estilhaço
ou fragmento, como o latido
de um cão na tarde dolente
e comprida de uma remota infância.
Ou o indistinto murmúrio de vozes

junto de um rio que, como as vozes,
não existe já quando para ele
volvo, surpreso, o olhar cansado.
Insidiosas, rangem tábuas no soalho,
ou é o sussurro brando do vento

no zinco ondulado, na fronde umbrosa
dos eucaliptos de perfil no horizonte,
com o mar ao fundo. Que soalho,
de que casa, que vento em que paragens,
onde o mar ao longe que, entrevistos,

os não vejo já ou, sequer, recordo
na brevidade do instante cruel?
De que sonho, ou vida, ou espaço de outrem
provêm tais sombras melancólicas,
ferindo de indecifráveis avisos

este lugar em que, não sendo consentido
o coração, se não consentem tempo e memória?
Pausa ou pena, a seu oculto propósito há-de
sempre opor-se, lenta, a inexorável asfixia
desta luz absurda, ou só escuridão total.

Rui Knopfli, in "O Corpo de Atena"

Só porque li um poema dele no Ma-schamba e me lembrei de que os dias que se passam sem ler Knopfli não contam como dias vividos.

15.9.19

Shiu

É uma imagem obsessiva, recorrente, compulsiva: a cada instante a paisagem derruba-se e outra reergue-se, totalmente diferente. Dás um passo e as palmeiras são substituídas por carvalhos, por exemplo; a areia da praia por montanhas verdejantes; o mar por uma floresta virgem. Cada novo cenário dura meia dúzia de passos, talvez uma, vá. Poder-se-ia pensar que tudo acontece no meio de estrondos, sismos, nuvens negras de poeira. Não, antes pelo contrário: sentes-te num filme mudo. Não há um ruído, um sinal do que está a acontecer.

Tu continuas o caminho, mas não é a curiosidade que te puxa. É outra coisa, outra força.

Sabes qual é, mas não a queres nomear: se lhe disseres o nome ela esvai-se.

14.9.19

Le vol d'une angoisse / O roubo de uma angústia

Escrever sobre fundações que tremem, como se escrevesses durante um tremor de terra, um longo tremor de terra. Escreves e tudo treme: a mesa, a mão que escreve, o papel sobre o qual a caneta tenta penosamente avançar. Escreves e o mundo à tua volta treme. Escreves sobre um mundo que treme enquanto ele treme, porque ele treme.

Os teus medos mudaram de casa, de sítio, tens de mudar-lhes o alvo. Eram tão confortáveis, as tuas angústias, tu conhecia-las tão bem. Coabitaram muito tempo juntos, tu e elas e agora, subitamente, ei-las mudadas.

Não se muda de medos como se muda de camisa. Criamos laços com as angústias, meu amor. Sentimo-nos órfãos, se de repente elas se vão embora.

Quem me roubou esses queridos medos? Eram tão confortáveis, tão hospitaleiros, simpáticos. Convivíamos bem juntos, as minhas angústias e eu. Roubaste-mas e agora devo substituí-las por outras novas, desconhecidas.

É tarde, os medos saem. Durante o dia dormem, escondem-se, os cobardolas. De noite saem, vão para os bares escrever-te. Olham-te nos olhos e perguntam-te: "Vieste para ficar?"

Vieste para ficar?

.........
Sou fiel às minhas angústias, percebes? Não gosto quando elas me deixam e menos ainda quando são substituídas por olhos azuis como os teus, pelos teus cabelos loiros, pela tua beleza. Os medos querem-se feios.

Um medo bonito assusta, muito mais do que um medo simples, banal, como o medo da solidão, por exemplo.

Pesada responsabilidade a tua, ladra de angústias.

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Écrire sur des fondations tremblantes, comme si tu écrivais pendant un tremblement de terre, un long tremblement de terre. Tu écris et tout tremble : la table, la main qui écrit,  le papier sur lequel la plume essaye péniblement de glisser. Tu écris et le monde autour de toi tremble. Tu écris sur un monde qui tremble pendant qu'il tremble, parce qu'il tremble.

Tes peurs ont déménagé, changé de place, tu dois leur changer la cible; elles étaient tellement confortables, tes angoisses. Tu les connaissais tellement bien. Vous cohabitiez depuis si longtemps. Et tout d'un coup, les voilà changées.

L'on ne change pas de peurs comme l'on change de chemise, figure-toi. On s'attache à ses angoisses,  mon amour. L'on se sent orphelin si soudainement elles partent.

Qui me les a volées, ces chères peurs? Elles étaient si confortables, si accueillantes, si sympathiques. On faisait bon ménage, mes angoisses et moi. Tu me les as volées et je dois les remplacer par des nouvelles, que je ne connais pas encore. Il est tard, les peurs sortent. Pendant la journée elles dorment, vois-tu? Elles se cachent, lâches.

La nuit elles sortent, vont dans les bars, t'écrivent, te regardent dans les yeux et te demandent "es-tu là pour rester?"

Es-tu là pour rester?

.........
Je suis fidèle à mes angoisses,  vois-tu? Je n'aime pas quand elles me quittent et encore moins quand elles sont remplacées par des yeux bleus comme les tiens, par tes cheveux blonds, par  ta beauté. Les peurs se veulent laides.

Une peur belle est effrayante,  beaucoup plus qu'une peur simple, banale, comme celle de la solitude, par exemple.

Lourde responsabilité que la tienne, voleuse d'angoisses...

13.9.19

Diário

É um diário, querida, nada mais do que um diário. Às vezes falo do presente, outras do futuro e outras ainda do passado.

Mas garanto-te: só falo de hoje.

Puzzle, perfeições

Isto é um puzzle nas mãos de um gajo que às vezes está bêbedo, outras sóbrio. Quando está bêbedo delira e sonha; quando está sóbrio, organiza o que sonhou.

Tanto os sonhos como as organizações são perfeitos.

Tremido

Está tudo tão tremido, ainda. Contudo, não tão tremido como quando não estava tremido de todo.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 13-09-2019

São onze da manhã, o Aurélio já está cheio, não pára este homem, mesmo quando está vazio parece um trinta e três a tocar em setenta e oito, mas sem distorção de som. A analogia não ê correcta, o homem não perde a elegância,  imagino que já nasceu assim, deve ter dado o primejro grito mal a boca chegou à luz do dia, nem antes nem depois, tudo ao minuto, ao segundo, é bonito de ver.

Eu sou lento, prefiro a lentidão, já assim sou suficientemente desajeitado, passeio pelo mercado com o braço hidráulico do piloto num saco, bebo um café, a rapariga do Arabay pede-me para lhe tirar o saco do caminho e tenho vontade de tirar o braço do saco e mostrar-lho, está tão bonito, tão bem lixado, o I. fez um trabalho de jóia, primeiro vamos beneficiá-lo depois pintamo-lo, à primeira vista não precisa de muitas peças mas nisto a primeira vista vale nada. É doloroso vê-lo, apesar de tudo, um braço hidráulico é uma peça caríssima e que dura para sempre, só precisa é de amor e ternura, não muito sequer, um bocadinho de atenção, enfim, veremos como estão as juntas e o piston, espero que estejam bem, um braço hidráulico é uma maravilha tão bela como a Vénus de Milo ou mais ainda, a Vénus não se mexe.

Não sei, não percebo nada de Vénus, de Milo ou de braços hidráulicos, acabei no Aurélio a beber um vermute, já são horas, a junta rotatória [??? - tradução do Google, alguém me ajuda? Em inglês é um swivel e em francês um pivot] está completamente corroída, que porra, um bocado de massa de tempos a tempos não custa nada, como é que se deixa o material chegar a este ponto, alguém me diz?

Passou a hora da merenda e ainda é cedo para o almoço, o Aurélio está vazio (isto é, tem pouca gente, isto só se esvazia quando fecha) lá fora chove - o badanal veio, desta vez, é meio-dia e parece meia-noite - e eu penso no braço, no tanque de fuel, na electricidade,  na marina, no Mauro, no Inverno,  tomara a minha mente tivesse a agilidade do Aurélio.

........
Venho para casa meio almoçado, deixo a carne para o jantar, oiço música da Renascença pelo Jordi Savall mas não é nada disto que interessa. O que interessa é que pela primeira vez em muito tempo tenho balizas temporais no meu pensamento (se é que se pode chamar a isto pensamento, talvez chorrilho seja mais adequado, admito).

Está na hora do almoço. ¡Qué vaya! ¡Comida!

12.9.19

Louvor do nomadismo

O prazer da viagem não está nas paisagens: a Terra toda é bela, mesmo quando não o é. Viajar é uma alternância entre nós e o outro. Estranha alternância: descobrimo-nos quando descobrimos o outro, descobrimos o outro porque nos conhecemos, conhecemo-nos porque viajamos. Nós viajantes somos moldados pelos riscos e não pelos momentos de beatitude. Estas não passam da sobremesa de uma refeição lauta, tão lauta quanto incerta.

O que nos une, viajantes, nómadas, marinheiros é esta estranha contradição de viver imóveis no nosso local de trabalho, que se move sem parar. Na verdade, não somos nós que nos movemos: é o mundo que passa por nós. Encontramos o outro porque o esperamos estranhamente parados, improvavelmente em movimento.

Pequenas reflexões quase extemporâneas

As raízes nunca viram as folhas e não é por isso que deixam de as alimentar.

.........
Conhecer-te até que amar-te se torne inevitável parece-me um bom objectivo, não?

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A vida não é um comboio descontrolado. É um comboio perfeitamente controlado que às vezes descarrila, muda de direcção, volta para trás. Mas só às vezes, não a cada nuvem que passa.

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As viagens têm princípio mas não têm fim? Então onde começa a próxima, se a anterior não acabou? Há um princípio, só um e o mesmo para todas. Descobre-o e talvez, com sorte, um dia lhes descubras também o fim.

Até lá? Olha, viaja, vive e procura.

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Gosto mais de amar do que de ser amado.

Excepto quando sou amado, claro.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 11-09-2019

Uma vez fui a um médico desses meio alternativos. Não me recordo de tudo, mas era um acupunctor. Tão pouco me lembro do que me levou lá, sei apenas que gostei das agulhas, do cuidado que o senhor punha na procura do sítio onde espetá-las,  Lembro-me também de que não serviu de nada, excepto para me fazer descobrir a acupunctura e - isto sim, uma descoberta importante - de o homem me ter perguntado, logo a seguir à minha chegada ao consultório:
- Para si, tomar uma decisão é difícil, não é?
- Depende da decisão. Mas as importantes sim, é.
- Vê-se logo. Você tem os dois braços exactamente do mesmo tamanho.

Não costumo tomar decisões com os braços mas não contestei a sageza do senhor. Acredito piamente que isto está tudo ligado - ao contrário da Simone, ela pensava que só se é homem ou mulher da pele para fora. Não acredito nisso, nunca acreditei. Acho que os cérebros têm pilas e vaginas, mamas e barba tanto quanto o fenótipo e portanto nada impede o tamanho dos braços de ser um indicador da facilidade ou dificuldade na tomada de decisões.

(Provavelmente disse ao médico que os meus bem podem ser iguais em tamanho, mas em destreza são completamente assimétricos. Com o direito sou desajeitado; com o esquerdo nem num copo consigo tocar, a menos que tenha vinho, rum ou um whisky decente.)

Que se lixe. Penso que os dois braços servem sobretudo para se poder ser estirado como na Idade Média, só que deste vez sem instrumentos de tortura, pelo menos visíveis. Há uma injustiça fundamental nisto de um gajo ter que tomar decisões cujas consequências só se farão sentir daqui a dez anos. E não vale a pena dizer que nessa altura estaremos todos mortos - há que chegar lá.

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Vou falar na rádio. Terça-feira que vem o programa é gravado e vai para o ar na quinta. É uma rádio local, um programa de gente da Faculdade de Antropologia. Tive hoje a reunião preparatória. Palma começa a entrar-me pele adentro, mesmo em vésperas da minha saída daqui. É tão frequente que me pergunto se é verdadeiramente obra do acaso. (Neste caso da Blablacar, mas isso fica para depois.)

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Vésperas de Rachmaninov, outra vez. Há muito que não as ouvia e a minha versão favorita, do Paul Hillier, não apareceu no Youtube. Não sou vingativo, mas se alguém estirasse o gajo que me ficou com os discos não me oporia por aí além.

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Faz hoje dezoito anos que o nosso mundo mudou, para pior. Nunca me esquecerei de ver árabes a manifestarem-se de alegria nas ruas. Nunca lhes perdoarei. Não é racismo, é bom senso, auto-defesa, realismo: a questão não é nós e eles, é civilização e barbárie.

11.9.19

Sono, futebol

Quando era miúdo ouviam-se relatos de futebol. Nunca liguei muito à bola, mas desse tempo ficou-me uma expressão: "Fulano de tal concretizou o golo".

Não sei o que pensava na altura, mas hoje faço uma comparação com o sono: está à porta da baliza mas não há quem o concretize.

9.9.19

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 09-09-2019

Deslizo velozmente na minha bicicleta de cidade - tenho outra, para ir à marina - na descida para os Correos; o ar está fresco mas ainda quente. Amanhã entra badanal, mais vale aproveitar, penso. Vou enviar meia dúzia de postais. Comprei-os na Babel, onde fui beber um vermute. Aproveitei e comprei um livro, claro, isto é uma estupidez mas o livro pareceu-me irresistível, é o relato de uma infância em Marrocos. Li algumas passagens e pensei que todas as colónias eram iguais, aquilo podia ter sido escrito por mim sobre Moçambique (se eu escrevesse tão bem como o autor, um senhor chamado Miguel Sáenz). A miúda que me atendeu no Correio era nova, gira e simpática, sorridente. Nunca a vi lá, deve ser aquisição recente. Afinal o badanal vai ser menos do que previsto. No Mediterrâneo as previsões de tempo bem podiam ser feitas por economistas (é mentira, mas não faz mal. Fica sempre bem falar da imprevisibilidade do tempo no Med).

Babel, voltemos à Babel onde isto tudo começou. Aquela praça parece um canto de Paris em Palma: o Antiquari, a Babel e a boutique onde às vezes compro presentes lembram-me a Rue Daguerre em ponto pequeno, claro. Ia comprar livros à livraria L'Arbre à Lettres, este nome é um programa e depois lia-os no café Perret, comprava queijo na queijaria Daguerre e jantava no Vin des Rues, bebia copos no Bar du Voyage... O carrer d'Arabi é mais pequeno, muito mais pequeno, mas na livraria posso beber vermute, escrever postais e pensar que tenho menos saudades de Paris do que do Marin, por exemplo, o que até calha bem porque em Paris não tarda está um frio de rachar e no Marin não tarda estará uma temperatura porreira, além de que no Marin poderei navegar e em Paris não. E no Antiquari posso comer, ler os livros que comprei na Babel, beber copos ou, como faço tantas vezes, simplesmente trabalhar, quando o sinal na casa se torna insuportável de fraqueza.

Diz que vai chover a semana toda. Felizmente o convés está praticamente pronto de pintura, amanhã continua-se com o interior, se na primeira metade de Novembro não tiver o bote pronto corto os dois pulsos, os dois tornozelos e em seguida a cabeça. (Talvez só metaforicamente, mas será isso).

Gosto dos postais que escrevi, é tão raro gostar daquilo que escrevo no momento em que o faço... Normalmente preciso de esperar uns dez anos para pensar que não escrevi só merda e é sempre agradével ter essa sensação imediatamente (se bem depois acabe ao contrário: daqui a dez anos vou pensar que é uma merda). Não importa, que se lixe, daqui a dez anos terei outras coisas em que pensar e de qualquer forma os postais já não existirão.

Enfim, depois disto tudo acabo no Divino, que é o meu escritório da tarde, têm uns Mojitos óptimos por quatro euros e cinquenta cêntimos e além disso é aqui que vou fazer o primeiro jantar literário, Zen y el Arte del Mantenimiento de la Motocicleta. Encontrei hoje o músico que me faltava, já tenho leitor, o menu vai ser o que sempre pensei: hamburgers (de qualidade, claro).

Qualquer dia vou-me embora e ficarei cheio de saudades de Palma.

Sentido, sentidos e outras coisas, igualmente importantes

Nada faz muito sentido, seja como for. Não percas muito tempo a procurá-lo, é como procurar uma meia desemparelhada: desapareceu para sempre e é impossível descobrir como ou porquê. Deixa o sentido em paz, não lhe toques, não penses sequer nele. Limita-te aos sentidos, todos eles. São o que te liga ao mundo. Vê o mar, toca as nuvens, cheira a paisagem, ouve a Lua, saboreia cada instante como se o sentido disso tudo te cortasse a língua logo a seguir.

A vida é uma manta de retalhos cosida por um cego e vendida por um bêbedo. Compra-a sem a ver, prova-a sem prestar atenção ao que o vendedor te conta. Aproveita a sorte que tens, pensa em todas as asneiras que fizeste como se fossem pilares do edifício que hoje és. Instável, é certo. Frágil. Hesitante...: os erros todos não chegaram para te dar certezas, ainda tens muitos de uns e poucas das outras pela proa.

Há pouco sonhavas com uma vida em terra; hoje sonhas com o mar; e amanhã? A Lua, claro. O deserto de Gobi. A Namíbia, onde fizeste um dos maiores erros da tua vida. O lago Titicaca, por causa do nome.

O Norte da tua agulha muda todos os dias. Aproveita, canta laudas e dá graças. Não tentes percebê-la, limita-te a amá-la.

Um dia serás correspondido.