23.8.16

A brincar

"Sou ambiciosa", diz-me S. "Portugal não é um bom país para se ser ambicioso", penso. "E menos ainda para se o dizer".

Mas é sem dúvida alguma o melhor país do mundo (ou pelo menos da parte dele que eu conheço) onde não se respeitar os códigos e normas sociais.

Com excepção da mesquinhez e da pequenez tudo neste país é uma aparência, não-dito, a brincar. Até a intolerância.

Considérations fumeuses

Há uma ética no bom gosto. Estética e ética andam juntas e não só graficamente. Apreciar o feio é imoral. A obscenidade é feia, tanto quanto a fealdade obscena.

21.8.16

Dúvidas, certezas

Que fica de um dia?

Um passeio de bicicleta pelas margens do Tejo até Belém. A ideia era ir comer uma chamuça à D. Mónica, mas está fechada para férias. Comi num clube ao lado, mas não são a mesma coisa.

Um esplêndido almoço na Casa Museu Amália Rodrigues. Chamam brunch àquilo e eu não discuto a denominação. Brunch fica. Para mim é um almoço e dos bons.

Jam no Tati. Já por aqui falei milhares de vezes nas tardes de Domingo no café Tati, na qualidade da música do Gonçalo Marques, do esplêndido grupo de jovens que ele reuniu ao seu lado - prova, se necessário fosse, de que deve ser um professor competente -. Não tenho da música um abordagem técnica. Não sei distinguir um ré de um fá e reconheço o Parabéns a Você se estiver numa festa de anos; se não, tenho dúvidas. Quando eram mais novos os meus filhos pediam-me para não cantar nas festas de aniversário dos amigos. Crescendo, pediam-me para não cantar tout court. Abordo a música como aquele crítico inglês de vinhos dizia: "Um bom vinho é aquele que me faz dar um salto na cadeira". Para mim uma boa música - ou um bom músico - é aquele que me faz viajar até aos limites do universo e me arranca lágrimas de canyons que não sabia existirem em mim. Hoje coube a vez - pela surpresa - a um jovem baterista de boné revolucionário e pernas e braços finos como espinhas de um peixe frágil. Tinha um toque leve e aéreo, parecia que tocava com as penas de um pássaro.

Estas são as certezas. Não falo das dúvidas.

Que fica, de um dia? As certezas ou as dúvidas?

Pragas

Sou eu o único a pensar que o vegetarianismo se está a transformar numa praga?

Pequenos prazeres dominicais

Na série Coisas que dão prazer num Domingo de manhã: passo de bicicleta à frente de um restaurante e um dos empregados faz-me sinal com o braço para parar. Tinha sido ciclista dos "nove aos vinte e nove anos" e tivera duas Vitus. "Primeiro uma Vitus e depois uma Super Vitus".

Agora já não corre, mas ainda dá "umas voltinhas de vez em quando". Trocamos duas ou três amabilidades sobre o prazer do ciclismo. O senhor está visivelmente comovido. "Já não se fazem". Referia-se às Vitus e se calhar às pessoas que nelas tinham corrido.

Descobertas

Mais um blog de poesia: O Café dos Loucos.

Oiça um bom conselho, eu lhe dou de graça

Se não sabe o que fazer oiça Karen Dalton. Cura tudo, incluindo ataques súbitos e inexplicáveis de alegria.

Ou então faça uma pesquisa no Google como esta por exemplo.

20.8.16

Notas soltas - Uma tarde em Lisboa

Já passa das nove da noite e vejo uma fila de turistas para o Elevador de Santa Justa; à tarde tinha visto outra, tão grande ou maior para o 28.

Uma das vantagens do turismo - quiçá a que os portugueses mais deviam apreciar e à qual mais gratos deviam estar - é demonstrar-lhes que a imbecilidade não conhece fronteiras. "Lá fora" não merece a admiração que lhe tinham.

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Talvez não fosse má ideia os restaurantes de certas zonas de Lisboa terem cartazes à porta a dizer "Fala-se português".

Se bem muito provavelmente seria qualquer coisa como : "Falasse purtuguêz". Talvez os cartazes devessem dizer "Não ligue aos erros de português. Não sabemos escrevê-lo mas sabemos falá-lo. E de qualquer forma V. vem cá para comer, não é?"

É.

.........
Os automóveis que apitam e fazem sinais de luzes e se impressionam muito porque vou, por exemplo, em contramão nunca estacionaram mal? Nunca passaram com um sinal encarnado? Respeitam os limites de velocidade? Põem o pisca-pisca a cada mudança de faixa?

Espero bem que sim. Lisboa seria a cidade do mundo onde se conduz melhor.

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Nas cidades estrangeiras evito as zonas turísticas. Em Lisboa começarei em breve. Não que tenha seja o que for contra os turistas. Não tenho.

Acho simplesmente que se deve evitar o excesso de coisas boas.

19.8.16

Planos

Escrever, amar, ser amado e vender cafés para suportar tão vastos planos. O futuro afigura-se-me risonho.

18.8.16

Diário de Bordos - Portimão, Algarve, Portugal, 18-08-2016

Saio de Portimão contente e grato. O hostel - Villarade, para quem estiver interessado - é excelente. A dona é uma rapariga nova, gira, simpática e instila naquilo um espírito de casa de férias mais do que hostel. Tenho alguma pena (podia ser muita mais, admito) das pessoas a quem incomodei por ressonar ou dormir nu. Só ressono quando bebo e só se vê que estou nu quando o lençol escorrega, duas circunstâncias cuja ocorrência simultânea é suficientemente rara para não me preocupar muito.

Conheci alguns restaurantes aos quais poderei voltar e não voltarei tão cedo a um que conhecia. Conheci o bar mais improvável de todos os bares improváveis nos quais já estive. Conheci ou reconheci um barman cuja nobreza e gentileza (as duas qualidades que constituem o profissionalismo de um barman) o levam para o pódio onde estão o Luís da Casa do Largo e outros que já aqui citei. Aborreci-me mortalmente durante os dias mas sobrevivi e não mandei o armador ou a pedante da mulher passear, irrefutável demonstração de que a civilização acaba por penetrar mesmo na mais troglodita das mentes, dado tempo suficiente. Enamorei-me e pela primeira vez em muitos anos tenho mais confiança nesse amor do que medo.

Escrevo num pequeno quiosque frente à estação que parece o cenário para uma versão portuguesa dos miseráveis. Talvez seja a isto que há tantos anos aspiro: ser feliz onde quer que esteja. Feliz não é o termo. É paz. Bonomia. Harmonia. Sintonia. Gratidão.

Não sei. É isso tudo junto.

Noites como esta

O Ricardo, poeta maior acha que não devemos falar dos sítios bons. Só dos maus, diz. A razão é óbvia.

Partilho a opinião mas não a prática: o Birimbar abre às quartas e sábados. Nos outros dias Portimão não existe.

Noites como esta

(Noites como esta: beber ti'punch feitos por mim enquanto oiço música demasiado boa para ser descrita.)

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A questão é passar os diferentes obstáculos,  físicos e mentais, para chegar aqui.

Um bar destes no meio de prédios, à frente da CGD. A avenida chama-se 25 de Abril. Isto ou alguém no-lo aconselha ou passamos ao largo.

O meu amigo Ricardo compreenderá: o DV é para eu me lembrar. Os conselhos são uma consequência perversa.

Birimbar, Av. 25 de Abril, Portimão. Isto chega. O resto é conversa.

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O sacana do percussionista é bom até na pandeireta.

Diário de Bordos - Portimão, Algarve, Portugal, 18-08-2016

É Agosto e estou cansado; a noite merecia um sweater: está fresca, pelo menos na rua. É a última em Portimão. Resolvo descobrir um restaurante, já que daqui a pouco vou descobrir um bar. Não sei o que quero: "um restaurante que não conheço" é inoperacional, até para mim.

Acabo no Terezinha, recomendável ainda antes da segunda visita, que não sei quando será.

A espanhola da mesa ao lado é gira de cair; os carapaus estão excelentes; o preço quase me envergonha de tão decente. Já lhes perdi o hábito.

Portimão é uma cidade na qual é fácil perdermo-nos e regra geral desagradável. Hoje não me perdi. Encontrei.

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A cantora não tem mamas mas é muito mais sensual do que noventa e nove por cento das mamalhudas que conheço. Canta bem, se bem já tenha ouvido e convivido com quem cante melhor (ajuda à sensualidade).

Fazendo contas a noite é óptima: o sítio um achado, parece a sala de estar de um gajo que acabámos de conhecer na rua e se revela exímio guitarrista; a mulher gira e boa cantadeira; a escolha de músicas é assim assim: agora vem uma do Pichinguinha, numa gaja que olhando para ela ninguém diria que conhece mais do que Roberto Carlos ou aquele anão da mesma altura. Outras vezes é fado ou música de Cabo Verde (ela avisou: vai ser uma noite lusófona); a assembleia é digna, mais do que digna: não me sinto nem avô nem neto de ninguém.

A fazer uma apreciação técnica diria que o guitarrista  (e dono da casa) é o melhor. Mas isso seria um tecnicismo irrelevante, deslocado. O percussionista tão pouco é fraco, antes pelo contrário. É bom que se farta. É o baterista de um grupo chamado Trovante, de que nunca fui excessivamente fã mas tem muitos (fãs).

A música tem uma função nobre: tornar possíveis noites como esta. O resto é conversa de chacha.

(Noites como esta: uma cantora gira num bar improvável com um guitarrista óptimo e um percussionista idem a beber Bayley's, véspera de ida para Lisboa e de aliciantes aventuras, às portas de novos mundos e novas vidas).

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(Noites como esta: computador sem wifi. Há por aí muita gente a respirar de alívio. Isto de um gajo poder mandar e-mails quando lhe apetece (ou quando precisa) tem meia dúzia de espinhas. Ou uma dúzia.)

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(Noites como esta: ensino o jovem e stressado barman a fazer um ti'punch e arremato com a história do "Chacun  prépare sa mort". Só tem Bacardi branco, mas sabe-me como se estivesse no Comme à la Maison, no Marin e em vez de um jovem, magro e tenso barman tivesse aquela senhora minúscula, gordissima e descontraída cujo nome esqueci, lamentavelmente. Enchia-me os pratos com tanta comida que tinha de deitar metade fora, às escondidas dela.

Talvez o jovem barman pudesse inspirar-se no exemplo da senhora e encher-me os copos...?)

17.8.16

Fragmentos antigos

As equações do medo são complexas.

Grandes amores

Talvez sorte seja o nome que damos à intuição; ou intuição o que damos à sorte e sejam as duas a mesma coisa. Talvez até sejam duas coisas diferentes e tenha sido o acaso que desta vez as reuniu.

É possível: acaso, sorte e intuição. Todos os grandes amores começam a três.

"Quem é aquela sombra que caminha ao teu lado?"

(Para a R. P.)

16.8.16

Dilema

Vou ao Micha que é um dos piores bares do mundo mas fica ao lado do albergue ou ao Bacchus, um dos melhores e longe?

Micha. O excesso de coisas boas mata tanto ou mais do que a ausência delas.

Quanto custa ser imbecil?

Isto anima-me: estou sentado ao lado de um gajo que é simultaneamente imbecil e chato.

Estamos num restaurante em Ferragudo, ele na mesa com a família e eu ao lado, dois dedos a separar os nossos territórios.

Em dez minutos o homem largou outras tantas imbecilidades. O empregado de mesa aguentou estoicamente.

Ele não pode,  como eu escrever. Mas posso gritar, ironizar, ser sarcástico ou, em último caso, mudar de mesa. Não fiz nada disso. Calei-me e comi (corvina cozida. Duas postas por onze euros. Com o vinho e os extras o jantar não chegou a vinte paus.)

Não sei o preço das imbecilidades, mas acho que podem vir muitas.


Diário de Bordos - Ferragudo, Algarve, Portugal, 16-08-2016

Pergunto-me se não seria melhor vender o computador portátil e com o dinheiro comprar um telefone igualmente portátil  (ou mais) que não se avarie.

A pergunta é retórica  (ia dizer portátil), claro: os telefones avariam-se menos mas estão sempre debaixo de água ou sem bateria ou sem saldo.

Assim que chegar a Lisboa mando reparar o coiso. Já sei que me espera uma vida comum cheia de incompreensões mútuas. Isto não engana: ou vai bem de início ou nunca.

Paciência. Vou manter-me fiel à Asus. Depois se verá, como dizia o marido.

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Sublime fim de tarde em Ferragudo, com a Lua quase cheia, eu quase apaziguado numa tasca enquanto espero pela mesa no Velho Novo (ou Novo Velho? Não sei. É excelente! ) Estou no único café que vi até agora aqui no Algarve que não tem um único turista. Um, para amostra. Nicles. Zero. Pas un.

Não tenho nada contra os turistas, note-se, muito antes bem pelo contrário.

Mas um sítio assim faz-me sentir antes da guerra.

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Quinta-feira estou em Lisboa. Para compensar aceitei um pequeno trabalho em Inglaterra, dois ou três dias.

Os que não trabalhei aqui.

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Vou gostar de vir aqui no Inverno. É a diferença entre um sítio deserto e um outro abandonado.


15.8.16

Diário de Bordos - Praia da Rocha, Algarve, Portugal, 15-08-2016

"Casa em que mulher manda até o galo canta fino", diz uma canção brasileira. Olhando para a superfície das coisas as interacções a bordo do S/Y B. confirmam inteiramente o dito brasileiro.

Como de costume a superfície das coisas é uma minúscula parte delas e não mais do que isso.

O problema não é quem manda. É alguém mandar. Que neste caso seja a mulher apenas ajuda à anedota e às ideias feitas, mas pouco muda o fundo da questão. Um casal em que um manda e o outro obedece não funciona. Excepto, claro, se um mandar a fingir e o outro fingir que obedece.

O fingimento funciona melhor do que a assimetria, vá lá saber-se porquê.

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Preços absurdos, serviço horrível e comida de merda.

A imagem que tinha do Algarve no Verão não se confirma sempre e em todos os pontos.

Há excepções: restaurantes caros com serviço mau e comida assim assim. Até já me aconteceu comer bem, imagine-se.

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Verdade seja dita: são raríssimos os restaurantes caros e bons que conheço. Tem de ser excepcionalmente bons para vencer a barreira do preço. Não por falta de experiência, mas por opção ideológica.

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Incomunicabilidade:

- Wi-Fi do computador avariado;
- Bateria do telefone descarregada;
- Canetas de tinta permanente sem tinta. (Este resolveu-se depressa: tinha o tinteiro no saco).

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A cara da miúda na mesa à frente da minha. Oval, cabelos pretos compridos a emoldurarem-na, boca pequena, nariz idem e rectilíneo. O tipo de cara que associamos às índias da América do Norte, por causa do cinema e da má consciência  (os índios eram bonitos e puros, etc.)

Olhos pequenos também e expressivos: quando sorri utiliza o rosto todo, que de repente deixa de ser pequeno.

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Já vi maus bares na vida. O Micha's na Praia da Rocha é tão mau que merece uma visita.

Afinal há quem vá ao jardim zoológico, não?

Noite

É da noite que devíamos falar. Da que não somos, da que queremos ser, da que um dia seremos e descobriremos que afinal não somos.

Saber a pouco

Devíamos, eu sei, entrar pela noite dentro como dois corpos que se procuram e encontram, duas quedas de água que se revoltam contra a gravidade. Nada disso: limitamo-nos a saber-nos.

Sabe a pouco. Sabemos a pouco.

Saber hífen te

Deixa-me dizer-te: o desejo aparece do nada. Um riso, uma vaga ligeiramente mais pequena do que a seguinte, um seio.

Saber-te é o rés-do-chão do desejo.

Corpo, abismo

Não é do corpo que tenho medo, é do abismo que fica para lá do corpo.

Procurar, encontrar

Um corpo é um corpo, pouco mais. Não é dos corpos que devemos ter medo, é do que está para além ou aquém deles. Um corpo não passa de um batido de morango ou um sumo de laranja natural.

É para além dos corpos que as cascatas se devem procurar. Ou antes deles, dir-me-ás, seios espetados e ventre plano.

(De ventres planos e seios espetados poderíamos discutir. Talvez um dia, quem sabe?)

Deixemo-nos de parênteses. (É um imperativo, caso não tenhas percebido). Do desejo pouco se pode dizer: um corpo é um corpo e não uma galáxia, excepto se tu ou eu o formos.

Galáxia é o que encontra quem procura, se souber procurar e encontrar. O que seremos, se nos soubermos procurar.

Agora, espaço

Está bem, eu sou a fonte. É de mim que tudo jorra. Ou em mim que tudo entra: quase a mesma coisa, entrar, sair.

Não te digo agora quanto te quero porque agora não tem espaço. Nem para entrar nem para sair.

14.8.16

Diário de Bordos - Praia da Rocha, Algarve, Portugal, 14-08-2016 /II

Saí do Forte e Feio em estado de choque. Tentei atropelar pelo menos duzentas pessoas no caminho de regresso, mas lembrei-me a tempo de que:

a) As ciclovias em Portugal são feitas para as pessoas que não gostam de calçada - aparentemente a esmagadora maioria - e não para as bicicletas;
b) Se atropelar alguém magoo-me tanto ou mais do que o atropelado.

Ou seja: acabo no refúgio de sempre, o Bacchus Bar. O senhor Artur - já não tenho dúvidas de que ele é um senhor e era quem me fazia os cocktails há quarenta anos - quantificou, com a gentileza que lhe é inata e característica, o espólio do outro: "quatro ou cinco euros".

Por isso não vale a pena chatear-me e muito menos chocar-me.

.........
Enjoar é chic. Demonstra que não somos lobos nem somos do mar e sim seres urbanos, civilizados, adestrados que compraram um barco porque ter um barco é chic e enjoar é - a fortiori - ainda mais chic.

(O leitor atento terá descoberto aqui uma incongruência intra-textual. As pessoas chics não sabem o que a fortiori quer dizer e nunca utilizariam o termo. Pelo menos os meus BCBG. Talvez os de outros o conheçam. Não sei).

........
Fui jantar ao Forte e Feio:

a) "As sardinhas hoje não estão aconselháveis". (Aqui comi as melhores sardinhas da minha vida. Aprecio a honestidade do grelhador);

b) "Meio frango" é uma anedota nouvelle cuisine. O frango era simultaneamente raquítico e anão. Um inteiro não teria alimentado uma adolescente anoréxica. Estava bom, muito bom, tão agradável à vista como ao paladar, apesar de a ambos ter parecido uma miragem;

c) As batatas fritas são uma merda. Raramente como batatas fritas (cf b) );

d) Nunca mais cá volto em Agosto, excepto se for Domingo e tiver pensado nele como sítio para levar uma jovem senhora cuja aprovação espero merecer.

De modo espero tranquilamente que a garrafa de vinho se acabe (costumam acabar-se sozinhas) para telefonar ao Bacchus e saber se está aberto.

Diário de Bordos - Praia da Rocha, Algarve, Portugal, 14-08-2016

O italiano da cama de baixo foi-se embora. Falei com Vera, a jovem que toma conta do Albergue (ou será Pousada? Albergue dá assim um aspecto de beneficência; Pousada parece mais rico. Já a jovem senhora dá um aspecto de saúde, vigor e energia cujo nome agora me escapa). O homem estava convencido de que tinha reservado um quarto privado; não tinha. Daí provavelmente a cara de poucos amigos com que enfrentava o infortúnio.

Enfim, foi-se embora. Desconfio de homens velhos de rabo-de-cavalo e de jovens que não falam inglês, façam o que fizerem com o cabelo. Este não o tinha, de todo; e tão pouco falava uma palavra de inglês ou francês. Como é que se viaja sem falar pelo menos inglês? Eu tenho sorte, sei: posso viajar por parte do ocidente e falar a língua dos indígenas. A lingua franca serve no resto do mundo. Um gajo que não percebe nem se faz perceber tem de conviver com injustiças, naturalmente. Como darem-lhe um dormitório em vez de um quarto privado. E levar com um velho que quando está grosso ressona no beliche de cima.

........
Ando em fase de sorte e os infortúnios são poucos, graças a deus. Por vezes lá me calha um ou outro, para não me esquecer. Mas nada que exija cara de poucos amigos e um diálogo matinal não cure.

........
Soljenítsin tinha uma alegoria muito bonita no Arquipélago, creio. Ou no Denisovich: o que os animais recebiam de deus depois do nascimento. Tenho que reencontrá-la. Eu recebi mais do que a minha justa dose de muitas coisas; como contabilizar o que não me calhou no cesto? Também foi mais do que a justa quantidade de ausência.

Diário de Bordos - Praia da Rocha, Algarve, Portugal, 13-08-2016

O ódio que o italiano da cama de baixo tem por mim é visível  ( e se calhar justificado, vá saber-se). É igualmente óbvio que eu não devo ser a única pessoa que ele odeia neste mundo.

Estou-me um pouco nas tintas. Isto é, os sofrimentos e raivas do senhor são-me profundamente indiferentes.

Interessam-me mais os meus e mesmo a esses atribuo pouco tempo e atenção. Suponho que seja da idade, não sei:  os meus sei que passam mais tarde ou mais cedo, depressa ou devagar, com ou sem cicatrizes. Como não venho de outro planeta e não sou um mutante o mesmo se deve passar com os dos outros.

........
No meio disto tudo a boa notícia é que a Ménière está bastante mais fraquinha.

.........
Há uma pergunta que todas as pessoas com a capacidade de amar embrulhada na camada de cicatrizes que a minha tem se devem fazer.

No meu caso a resposta é sim.

13.8.16

Modos de dizer, modos de ser

Seja porque razão for sempre preferi as palavras pronunciadas de uma vez só a soletradas.

Quaisquer que elas sejam, as palavras.

Love poem / Poema de amor

Ultimately, we will lose each other
to something. I would hope for grand
circumstance — death or disaster.
But it might not be that way at all.
It might be that you walk out
one morning after making love
to buy cigarettes, and never return,
or I fall in love with another man.
It might be a slow drift into indifference.
Either way, we’ll have to learn
to bear the weight of the eventuality
that we will lose each other to something.
So why not begin now, while your head
rests like a perfect moon in my lap,
and the dogs on the beach are howling?
Why not reach for the seam in this South Indian
night and tear it, just a little, so the falling
can begin? Because later, when we cross
each other on the streets, and are forced
to look away, when we’ve thrown
the disregarded pieces of our togetherness
into bedroom drawers and the smell
of our bodies is disappearing like the sweet
decay of lilies — what will we call it,
when it’s no longer love?


(Tishani Doshi)

Li isto recentemente no Rua das Pretas (Ruadaspretas.blogspot.com). É das coisas mais lindas que descobri recentemente. Esta é a  minha proposta de tradução:

"No fim, perder-nos-emos um ao outro,
por qualquer razão. Gostaria que fosse
algo grande - a morte ou um desastre.
Mas talvez não seja, de todo.
Pode muito bem ser que um dia tu saias
depois de fazermos amor para comprar cigarros
e não voltes, nunca mais, ou que
eu me apaixone por outro homem.
Talvez seja uma lenta deriva para a indiferença.
Seja o que for, teremos de suportar o peso
da eventualidade de nos perdermos um ao outro
por qualquer razão.
Então, porque não começarmos agora,
enquanto a tua cabeça repousa no meu colo como uma lua perfeita
e os cães uivam na praia?
Porque não procurarmos a costura nesta noite do Sul da Índia
e rasgá-la só um bocadinho, para que a queda
comece? Mais tarde, quando nos cruzarmos na rua
e tivermos de desviar os olhares
e tivermos atirado para os armários do quarto
as peças esquecidas da nossa união e o
cheiro dos nossos corpos se desvanecer como
o doce murchar dos lírios - que lhe chamaremos,
que já não será amor?"

Tishani Doshi

Homem (ou neste caso mulher) prevenida vale por dois. Mais vale antecipar, não é?

Quase fragmento, sachant ceci

...je suis un homme libre. C'est tout ce que je suis, tout ce que je veux être, tout ce que je sais être. Je ne suis rien si je ne suis pas libre.

Je suis un métèque, partout et n'importe où, y compris dans mon pays.

Fais de moi  - attends de moi - ce que tu voudras, sachant ceci. 

Je suis à toi, si tu me veux comme je suis: libre et perdu.

Fragmento

"... C'est stupide, je sais. Mais depuis quand m'as-tu vu faire quelque chose d'intelligent?"