21.5.13

Inteligência, preguiça

Não é a inteligência que faz as pessoas inteligentes procurarem - e encontrarem - soluções para os problemas; é serem preguiçosas.

17.5.13

Outros, outro

Refaço os trajectos que tantas vezes fizemos, revisito os lugares que juntos descobrimos. Não são os mesmos. Vemos o mundo com o olhos do outro; ou pelo menos também com os olhos do outro.

Os outros são os que olham para nós; outro é aquele  com quem olhamos.

Melancolia e felicidade

Tão feliz que um bocadinho de melancolia sabe bem. Como uma chuvada repentina num dia de sol, ou solidão depois da multidão.

Märklin

Regresso ao hotel onde pela última vez nos vimos, dormimos, amámos. Não sei se foi ontem, se há dez anos se talvez mais ainda. Sei que regresso ao hotel, ao quarto onde me explicaste que não podias continuar a viver comigo porque circunstâncias para lá do teu controle to impediam. Não sei quando foi, tenho má memória para o tempo, passa por mim e não pára para descarregar nem embarcar uma emoção que seja, como os comboios Märklin com os quais ainda há pouco brincava, mas sei que os lençóis ainda estão quentes, o homem da recepção perguntou-me "hoje a sua senhora não vem?" eu respondi-lhe "não" e ele disse-me "tenho pena, há muitos anos que não a vejo, mas não faz mal o quarto está pronto". Não estava, isto é estava como se o tivesses deixado para ir à casa de banho, a cama ainda quente e eu perdido nele às voltas como um comboio de brincar.

"Não se devem deitar fora os brinquedos quando estão partidos" lembro-me de ter pensado, mas não me lembro de quando o pensei. "Tudo tem conserto, estes comboios são caros, Märklin..." mas a ideia ficou por ali enredada nas voltas do tempo nos lençóis ainda quentes na tua voz meio irónica meio triste, é uma mistura de que só tu és capaz, nunca a ouvi a mais ninguém -  nem vi, que o sorriso é igual, meio triste meio irónico ambos igualmente verdadeiros, sentidos, e eu nunca sei qual das metades escolher, opto sempre pela metade errada, pelo menos é o que tu me dizes "não percebes nada" "não" ... "não andes para aí às voltas, isto está estragado, mais vale deitares para o lixo, se não for agora será amanhã".

Não foi amanhã, foi muitos anos depois, não foi? Ou terá sido ontem? Não sei.

16.5.13

Retratos implausíveis

Via os sentimentos e as emoções como via as baratas, ou quem cospe para o chão: com nojo e desgosto.  Para ela, manifestar o que se sente - não, sentir - é, mais do que uma falta de gosto, uma de educação e de asseio.

Conhecer o nada

Penso em todas as pessoas que me conhecem bem, verdadeiramente, a fundo. São muito poucas, três ou quatro. Podia ser sinal de profundidade, mistério ou outras mariquices; ou de que não me dou facilmente.

Nada disso: prova simplesmente que nada há a conhecer.

Um grande e impossível serviço

A esmagadora maioria das mulheres faria um grande (um ainda maior) serviço à humanidade se nascesse com trinta anos. 

Palavras, pesca

"Para apanhar um peixe é preciso pensar como um peixe", diz-me T., um jovem que viajou comigo da Nicarágua para a Costa Rica, pescador emérito. Infelizmente não se pode fazer o mesmo com as palavras, T., pois não? Elas não pensam, são pensadas. E não são pescadas, sequer: na verdade são elas o pescador, e nós o pescado.

Amor, nuvens

Tentar definir o amor (ou, pior ainda, o amor verdadeiro) é tão fútil e vão como tentar fixar a forma de uma nuvem. 

Há nove ou dez tipos de nuvens, e não há duas iguais. Nem a mesma nuvem é igual a si mesma, dois segundos antes.

Mudança, evolução

Muda de vida, de oceano, de hemisfério,
Muda de ti e do tempo,

Simultaneamente, para não correres o risco de confundires mudança com evolução.

Puzzle, felicidade

A forma ideal da felicidade talvez seja um puzzle de cinco mil peças do qual perdemos uma.

15.5.13

Gestos, confusões

Muito mais do que palavras o amor é feito de actos. Por isso tantas vezes é mal compreendido, ou confundido com gestículos, os quais estão para os actos como as palavras para a verdade.

Amor, palavras

Não é a primeira vez que não tenho vocabulário para o amor; mas é a primeira que o amor me deixa sem palavras.

Vontade, desejo

Amo-te significa quero amar-te. O amor é um acto da vontade, muito mais do que do desejo.

Reedição


Tu és a terra; eu sou o fruto e bebo
da fonte directamente,
até que o incêndio se ateie e o
grito afaste a morte.

Gosto desta imagem: a planície,
uma fonte, um incêndio que alastra
célere, urgente;
abutres assustados.

Da convivência diária com a sede
aprendi o calor, o fogo, a luz,
a simples, irrefutável urgência.

Tu és a terra.

Amor, ternura e pieguice

Hojer não fazemos amor, meu amor, se não te importas. Fazemos ternura. Pode ser?

11.5.13

Amor e outras coisas

Deitamo-nos com quem podemos, acordamos com quem queremos.

Reedições

A vantagem de uma insónia urbana sobre uma campestre é que a primeira tem, normalmente, uma boa solução na rua ao lado.


Se tivesse a Jacqueline Bisset na cama também não estaria a dormir.

Reedição

Reedição


Foi num dia assim que tudo se desenrolou perante mim: Glenn Gould a tocar as Suites Inglesas, os correios a funcionarem bem, África a democratizar-se, Thabo Mbeki a reconhecer, finalmente, que Mugabe devia ir-se embora ("he should go home"), o fim da pobreza no Brasil; foi num dia assim

que tu respondeste, finalmente, e aceitaste vir para o mar comigo. "Não sei viver noutro sítio, sabes?", perguntei-te, e tu respondeste "e eu não sei viver sem ser em ti, vou amar o mar e amar-te e dar-te o mar que tu me deste", não sabia a que mar te referias então, hoje sei, e foi num dia assim

que pela primeira vi a tua voz, essa voz sem a qual não sabia que se podia viver, não pode, pois não?, ninguém pode, depois de a ouvir, e foi também num dia assim que amar fez sentido pela primeira vez outra vez em tanto tempo, como pode uma vida dissolver-se em amor, desaparecer e ressuscitar transformada?, foi sem dúvida num dia assim que descobri que pode, para isso tu foste feita, para inventar a vida; foi num dia assim

que disseste "é uma questão de pele". "Não é: é uma questão de pele, de olhos e cabelos e seios e ventres e coxas e é uma questão de corpos, de ar e de falta de ar e de gritos e de sussurros, de ânsia e de unhas e carícias e dentes e línguas e dedos e orelhas e bocas", é uma questão de querer mais e não querer outra, nunca mais, nunca mais outra vida, outra pele, outro corpo. Foi num dia assim

que me ensinaste "o sofrimento não presta, não enche uma vida, só a esvazia", e me mostraste que o passado passou, finalmente, e reencarnaste e me bateste à porta e me sorriste e me disseste "olá, sou eu outra vez, pela última vez sou eu". Foi num dia assim que Deus inventou as palavras - tu és os alfabetos todos de todas as formas da palavra amor - e os dias e o mundo

e o mundo és tu, perfeita.

Reedição









10.5.13

Reedição

Há dias em que quero fotografar o teu corpo, o teu belo e imenso e interminável corpo. "Interminável" porque me perdi nele, tantas vezes: ainda hoje me procuro, ou o procuro. Não sei. Lembro-me de uma vastidão branca que terminava com um riso de prazer e um nome, o meu, repetido vezes sem conta. 

Não sei como fotografar o meu nome, dito por ti.

Reedição

"Nenhum de nós sabe muito bem o que é o amor; tacteamos no escuro, procuramos, procuramo-nos. Mas ambos sabemos, e muito bem, o que é o não-amor.

E para aí não queremos voltar, pois não?"

9.5.13

Planos, Bequia

O plano era viver em Antigua e morrer em Bequia, mas acabei por morrer em Antigua e não ver Bequia nem em sonhos, nem em pesadelos, nem em lágrimas, nem em. Adeus Bequia, adeus planos, adeus vento, adeus. Passem bem. Adeus Lucifer, adeus Captain Max, adeus Frangipani, onde se come tão mal e se está tão bem, adeus.

Traí-te, Bequia, não morri em ti como tu morreste em mim, mas que queres, é assim a vida, tu sabes isso melhor do que ninguém porque tu és a vida.

E, seja Deus louvado, não és a morte.




(Peço encarecidamente a quem leia este post que pronuncie Be-qú-ei, e não Béquia, porque.)

Mares, vidas

As vidas são como rios, desaguam no mar; ou deviam. Rios que acabam em terra acabam mal, com a notória - aceito como verdades o que toda a gente diz, toda a gente que conhece, quero dizer, eu não conheço - excepção do Okavango, que acaba em terra e acaba bem, mas é o único (que acaba em terra ou que acaba bem?)

Pouco interessa; as vidas deviam desaguar no mar, ou nele começar, ou dele ser, ou nele estar, ser, porque fora dele só há ersatzes de vidas. Isto digo eu, que sei do que falo, metade da minha vida no Atlântico, metade no Pacífico, as duas no futuro, como se futuros houvesse muitos e não há, há só um, o mar, amargo, doce, fiel, omnipotente, omnitodopoderoso mar.

Honorés camarades de la mer, sans vous je naviguerai seul les mers amères du passé. Honorable camarade mer, en toi je navigeurai seul les douces vagues de l'avenir.

O mar é a mais lenta, mais bonita, única ponte entre o passado e o futuro. Isto digo eu, que não sou parcial e olho para o mar objectivamente, com a distância de uma vida ou duas. E sei do que falo, claro, ninguém percebe de vidas, de mares e de futuros como eu, que tantos tenho.

ersatzleben. Mas não há ersatz zees.

As vidas correm para Sul, os passados para Norte.

25.4.13

Pergunta

Por que raio de carga de água pessoas que se declaram - e são - ateias se preocupam tanto com o que padres dizem? Com os muçulmanos ainda se pode perceber, eles costumam bombardear, queimar, lapidar ou chicotear quem não concorda com eles. Mas padres, bispos ou papas católicos?

24.4.13

Melancolia, tristeza, ressentimento

Seria preciso imaginar uma relação a três entre a tristeza, o ressentimento e a melancolia. Esta seria o cabeça de casal, a tristeza o outro e o ressentimento a puta que os mantém juntos. No dia em que se for embora o casamento desmorona-se.

Cair, deitar

Fim do dia; o vento cai e a luz deita-se.

22.4.13

Dissonâncias...

...conitivas. A pila num corpo, a cabeça noutro.

...cogitivas. Os olhos no futuro, a cabeça no passado.

Retratos improváveis

Era um sádico inseguro, e muito aplogético. Pedia desculpa a toda a gente. 

Enfim, na realidade pedia desculpa a si próprio, não a quem cruzava; e não era pelo sadismo, mas pela insegurança.