18.10.20

Anarquia, álcool e eleições

Fiz uma eleição interna para escolher a melhor bebida polivalente, todas as categorias incluídas. Como tenho andado a beber um absinto extraordinário, produção artesanal, daquele que fica verde quando se lhe põe a primeira pedra de gelo, 68º - sim, leram bem, sessenta e oito graus - tenderia a escolher este: Absinto Angélique, produzido por Artemisia, Distillerie Artisanale no Val-de-Travers, Suíça.

Na realidade o exercício é filho do ócio, claro. Precisaria de pelo menos um milhão de eleitores para ter uma resposta válida. Os três ou quatro que trago em mim não chegam. Runs, vinhos - a família toda, dos verdes brancos aos eiswein -, whiskies, aguardentes - vínicas ou de frutas, mirabelle à cabeça, ex-aequo com o medronho - vermutes, cervejas, tequilas, vodkas, liquores, bebidas regionais - ouzo, pastis, Très Caires, raki, arak, o Mei Kwei Lu... A única coisa que nunca consegui beber - ou melhor, de que nunca consegui gostar - são aqueles destilados e fermentados africanos e as aguardentes chinesas com cobras e lagartos lá dentro. (Já de mezcal sou fã, incondicional e para sempre, apesar da monumental, histórica e vergonhosa bebedeira que com aquilo apanhei em Jo'burg.)

Como eleger uma? Bebe e cala-te.

Reedição - Vinte mil vezes, 25-04-2007

 “Take any bird and put it in a cage
And do al thyn entente and thy corage
To frostre it tenderly with mete and drinke
Of alle deyntees that thou canst bithinke
And keep it al-so clenly as thou may
And be his cage of gold never so gay
Yet has this bird by twenty thousand fold
Lever in a forest that is rude and cold
Gon ete wormes and swich wrecchedness.”

Geoffrey Chaucer, Maunciples Tale


(Pega em qualquer ave e mete-a numa gaiola
E usa todo o teu empenho e todo o teu coração
Para ternamente a nutrires com alimento e bebida
De todas as requintadas iguarias que consigas imaginar
E mantém-na também tão limpa quanto possas
E não possa a sua gaiola de ouro ser mais alegre
Mesmo assim vinte mil vezes preferirá essa ave
Voar numa floresta inclemente e fria
Comer vermes e tais porcarias)

 in Ultramarina, Malcolm Lowry, col. Dois Mundos, ed. Livros do Brasil. Trad. de Fernanda Pinto Rodrigues, com esta nota:

 “Sem ter a pretensão de traduzir poesia, nem tão-pouco de ser entendida em inglês medieval, atrevo-me no entanto, para esclarecer o leitor na medida do possível, a dar uma tradução aproximada dos versos de Chaucer, penitenciando-me, desde já, de possíveis inexactidões.”

Da pulhice e do autoritarismo

Faço parte daquele grupo de pessoas que pensa que se Salazar tivesse organizado eleições tê-las-ia ganho todas. Na minha opinião, isso não deixa de fazer do homem um governante autoritário. Já para o nosso Primeiro-Ministro não é assim. Salazar não era autoritário. Era um democrata. 

António Costa é um pulha. Política e - cada vez o suspeito mais - pessoalmente..

17.10.20

Vingança?

Ao contrário do que todos pensávamos, a comunicação social não está morta e para o provar resolveu matar meio mundo.

Ontem, hoje, amanhã

Nunca acreditei muito nessa coisa de a vida ser o dia de hoje. Let's forget about tomorrow é uma linda canção - sobretudo quando cantada por Peggy Lee - mas é isso mesmo: uma canção. Viver cada dia dia-a-dia é simultaneamente um objectivo bonito, impraticável - excepto pelos muito ricos e pelos muito pobres - e uma tanga zen, exequível num mosteiro ou nos livros de autores californianos.

Sem ontens não há hoje que se aguente; sem amanhãs não há hoje que faça sentido.

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 16-10-2020

O Outono já aí está, depois de muitas hesitações. Dias "quentes", nublados e limpos, Sol ora sem a máscara das nuvens ora com ela posta até aos cabelos. Às vezes pinga, outras chove - chuva mansa, não se sente, não se vê, não molha; hoje foi dia de bise. Amanhã vai cair, diz o meteorologista.

O mais extraordinário apresentador da meteo que vi numa televisão: há meia dúzia de dias mostra uma carta cheia de sóis e diz:

- Isto é o que todos gostaríamos de ter amanhã de manhã. Infelizmente, não sabemos se é o que haverá ou se nuvens  altas virão cobrir o Sol. Só amanhã saberemos. 

Que honestidade! Que beleza! Que belíssima admissão da incerteza das previsões meteorológicas. Era do dia seguinte que ele falava não do tempo dali a uma semana (não sei se por ele se pelo previsor de Météo Suisse, mas pouco importa), 

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A Arte da Alegria, de Sapienza Goliarda, parece uma continuação do Leopardo. Uma espécie de "o Príncipe veio à cidade". Ou "o Príncipe ressuscitou quarenta anos depois da mais bonita valsa da história do cinema". O livro é extraordinário, mas como ainda nem a meio estou (é um calhamaço de oitocentas páginas) reservo-me e espero para ver. Daria uma fantástica série de televisão, isso é seguro.

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A Suíça - até a Suíça - cede à histeria dos «casos». Mas sendo o que é, cede calma, reflectidamente. Ontem na televisão (canal principal, telejornal) até um crítico - em Portugal seria um "negacionista" - (aspas para assinalar o escárnio com que uso este termo) entrevistaram. A curiosidade é que é a pessoa que dirigiu a luta contra a pandemia até há bem pouco tempo. Entretanto, o governo federal cria uma célula para centralizar as coisas e os cantões opõem-se. Na televisão, a presidente da Confederação diz "O nosso modelo negativo é a França. Não queremos fazer aquilo que eles estão a fazer, porque prejudica a economia e não resolve a pandemia" (a citação não é verbatim).

Isto dito, a Covid também aqui tem contornos políticos curiosos. Há uns tempos o cantão de Zurique queria obrigar as prostitutas a tomar nota do nome, número de telefone, morada e duração das "operações" de cada cliente. Duvido que tenha passado - a verdade é que continuo a ver televisão só muito esporadicamente - mas depois ficou a saber-se que aquele delírio foi o resultado de uma luta entre o governo cantonal e o principal partido da oposição. 

Luta antiga - os zuriquenses (?) herdaram mais calvinismo do que Genebra. No princípio dos anos oitenta a cidade era praticamente governada por uma Frauengesellschaft (ou coisa que o valha. Significa "Sociedade de senhoras") que punha e dispunha em tudo o que era diversão e vida nocturna. As discotecas, por exemplo, não podiam vender álcool. Era preciso comprar-se as bebidas no exterior e para entrar pagava-se uma "rolha".

Escusado será dizer que em termos de luta contra o consumo excessivo de álcool não funcionava muito bem: pelo preço de uma bebida comprava-se uma garrafa, que alguns bebiam pelo gargalo para não pagar os refrigerantes ao balcão. O ambiente era horrível, as bebedeiras alastravam como a carga de uma manada de bisontes, o cheiro insuportável - mas mesmo assim foi preciso uma série de iniciativas para pôr fim às garras das senhoras na vida de cada um.

(É um fenómeno generalizado nas crenças, semelhante ao dos apóstolos da Igreja de S. Covid dos Dias do Meio: dão mais peso àquilo em que acreditam ou ao que gostariam que fosse do que à realidade. Infelizmente a praga da histeria não vai lá com iniciativas populares.  Se em Portugal houvesse um referendo, ficaríamos todos presos em casa, escolas fechadas, comida distribuída e rendas pagas por Santo Estado até pelo menos dez anos depois do aparecimento das primeiras vacinas. "Os portugueses são hipocondríacos",  diz-me S. - Os psicólogos são falhos em vocabulário. Não têm a palavra cobardes, por exemplo. Para dizerem burrice, em contrapartida, usam um eufemismo bonito: inteligência concreta.)

Hoje não vi as notícias. Deixemos para amanhã o que não podemos resolver hoje ou o que herdámos de ontem. Dito de outra forma: amanhã que se desenrasque.

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O P. continua a avançar à velocidade de uma gota de água numa tortura chinesa, pingo a pingo. Espero que a chuva venha depressa.

Isto dito, na verdade estes dias em Genebra têm sido um bênção. Mal saio de casa e com excepção de semana e meia de cadela agarrada aos tornozelos, tenho avançado em várias frentes. A tendinite parece que cedeu, mas não quero deitar foguetes antes da hora.

Sinto-me como se estivesse a jogar um puzzle em que as peças fossem magnéticas e se atraíssem caoticamente. Mas aos poucos vão encaixando correctamente umas nas outras, sem que se perceba porquê. 

(E muita sorte tenho eu. Olha se fosse uma das peças e não o jogador... 

Na verdade sou uma das peças, mas enfim. Fiquemo-nos por aqui que ficamos bem.)

Os dias do dia

Dias suíços: tranquilos por fora, uma ebulição por dentro. 

15.10.20

GENEBRA NO OUTONO - Gazeta Rural nº 372

    Genebra outonal está como sempre esteve e estará pela próxima centena de anos: chuvosa e branca, não de neve mas porque a luz aqui é cinzenta e acinzenta tudo o que ilumina. Escapam as árvores que mudam de cor e passam dos verdes para todos os tons na faixa dos encarnados e alguns parques, cujo verde beneficia com a chuva. O resto é cinzento. 
    Superficial, verdade seja dita. A Suíça em geral e Genebra em particular fazem-me lembrar aquelas pessoas pudicas, castas, tímidas em público e que na intimidade se revelam outras. O problema na Confederação é encontrar-lhe a intimidade. Os suíços são hospitaleiros, recebem bem os estrangeiros – as iniciativas xenófobas perdem mais vezes do que ganham, não há país que eu conheça onde seja mais fácil ser estrangeiro – mas só até certo ponto. A partir do qual é preciso querer, escarafunchar, procurar. Uma vez lá chegados, encontra-se um mundo fervilhante, aberto, curioso e – não despiciendo - com dinheiro para o ser. 
    Cheguei a Genebra em 1983. Inscrevi-me numa associação que disponibilizava equipamento vídeo, actividade a que me dediquei quase seis meses. Deu-me poucos e irregulares proveitos, diverti-me bastante, fiz um vídeo policial – péssimo, mas o argumento defendia-se; fui trabalhar para um café «diferente» (as aspas servem para explicar que não sei explicar o que é «diferente», apesar de ser capaz de o descrever.) Foi nesse café (o Marchand de Sable, que ainda existe mas deixou de ser «diferente») e nessa associação de vídeo – o Videographe de Genève – que comecei a ver Genebra por dentro. Já conhecia parte da Suíça: passara dois anos em La Chaux-de-Fonds - uma cidade da indústria relojoeira que atravessava uma profunda crise devido ao quartzo dos japoneses - e seis meses em Zurique. Mas durante esses tempo todo estava de passagem, por assim dizer; à superfície: entre 1979 ( o ano da minha chegada a la Tchaux, como é conhecida) e 1983 (quando cheguei a Genebra) vivi um ano em Aveiro, fiz uma viagem de ida e volta a Moçambique num navio da marinha mercante, passei uns largos meses em Atenas e ia frequentemente (mês sim mês não) a Itália, onde passava o tempo necessário para gastar o dinheiro que tinha ganho no mês anterior. Ausentava-me para fazer regatas ou transportes, vivi uns meses em Dunquerque... Acabava sempre por regressar à Suíça, mas o que me fazia regressar não era nenhum sentimento especial pelo país – era o facto singelo de ali ter sempre trabalho, fosse ele qual fosse. Trabalhei numa quinta, limpei neve dos telhados, fiz limpezas, lavei pratos, trabalhei num albergue de juventude (hoje seria um hostel), mudei casas – enfim, o recheio – e convivi um pouco com essa Suíça subterrânea, a Suíça dos marginais, dos alternativos, dos «artistas» em potência. 
    Mas foi em Genebra – e no amor que ali encontrei e me levou ao casamento e à paternidade – que comecei real e seriamente a perceber a Suíça. Um país mais pequeno do que Portugal dividido em vinte e seis países com governos, polícias, sistemas fiscais, quadros jurídicos, sistemas escolares diferentes; um país onde quatro vezes por ano há votações, seja para referendar as propostas dos diferentes governos, seja para fazer aprovar iniciativas populares; um país, enfim, onde quatro línguas (em teoria. Na prática são três) coabitam e se entendem melhor do que em muitos outros mono-idiomáticos. É preciso imaginar a Suíça como um quadro inflexível e rígido dentro do qual há enorme liberdade. Para quem, como eu, vive de e para a liberdade pode parecer estranho, inicialmente. Depois torna-se atraente. Basta envelhecer. 
    Mas voltemos a Genebra, cidade calvinista com um bairro católico (ou freguesia, para os mais picuinhas), cidade de camadas como um mil folhas, dos restaurantes de todo o mundo... Isso é por causa das «Organizações», como são colectivamente designadas a ONU, respectivos apêndices, ONG e tudo o que lhes gira em torno. Feche-se os olhos e aponte-se ao acaso para um mapa-mundo. Ponha-se de parte o facto irrefutável de que se tem mais probabilidades de cair no oceano do que num continente. Pois bem: se o dedo cair em terra, há muitas probabilidades de Genebra ter um restaurante do país no qual o dedo aterrou. E quem diz restaurantes diz mercearias, cabeleireiros, igrejas ou cafés. Portugueses então nem se fala: somos o maior grupo de imigrantes, com aproximadamente quarenta mil pessoas, vinte por cento dos estrangeiros. Uma viagem de autocarro ou eléctrico nesta cidade é uma espécie de volta ao mundo linguística. Quando cá vivia, gostava de experimentar restaurantes desses países menos conhecidos: Etiópia – por cuja cozinha  viria mais tarde a apaixonar-me, no Burundi, porque havia um grupo de Etíopes que trabalhava para nós como condutores e me convidava para as suas festas – Coreia e por aí fora. Hoje sinto menos a falta dessas expedições culinárias, mas continuo a gostar destas ruas babelianas, da sobriedade da arquitectura, do desinteresse polido que marca as interacções pessoais. 
    E da oferta cultural, da quantidade de livrarias, da música das Rues Basses ou dos cafés de Carouge, de ir passear nas margens do lago, da suavidade dos eléctricos, da pontualidade e da riqueza dos transportes públicos... Genebra é uma cidade arrumada (apesar de ser provavelmente a mais «desarrumada» da Suíça, a mais «mediterrânica»). Quando se chega a esta cidade gosta-se dela por umas razões e anos mais tarde o que nos seduz são outras, completamente diferentes mas mais profundas, mais verdadeiras. Não é uma cidade de sentidos, é uma cidade de razão. Não é de paixões, é de amor. 

14.10.20

Põe uma pedra / uma pedra nessa infância [1] (23-09-2005)

De repente são oito e meia da noite, está escuro lá fora e apercebes-te de que tudo acabou: o Verão, o nosso amor, os planos que fizéramos para o inverno, as carícias de uma – e numa – noite quente. O vento é frio, cortante, estimulante e finalmente puseste uma pedra nesse passado. 

[Adenda, 14-10-2020: Tantos passados, tantas pedras. Podias fazer um muro à volta da tua vida, com elas.]

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[1] (Manuel Gusmão).

 

12.10.20

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 12-10-2020

Hoje ao jantar bebemos a garrafa de Haut Marbuzet que o Th. e a A. me ofereceram há meia dúzia de meses. Um dia, uma amiga perguntou-me «Como curas as tuas depressões?» «Farto-me delas», respondi. Desta vez seria mais correcto dizer que me farto de não fazer nada, ou de não fazer o suficiente, como há mais de uma semana não faço. Só lamento não poder celebrar  sempre a partida da cadela negra com este vinho, mas enfim. Não se pode ter tudo. «Pode ter-se muito», não me canso de repetir-me. «Mas não se pode ter tudo. Contenta-te com o muito, por muito que te pareça pouco ou nada.» 

Esta luta com a cadela não terá fim, eu sei. Tem intervalos, pausas mais ou menos longas, desvios. Mas fim não terá. Pelo menos aprendi a viver com ela, vá lá. É como se a tivesse amestrado, cadela bem educada, au pied e ela vem, à ta place e vai-se embora. Deliro: não sou eu quem a chama. Nunca chamei. Que se lixe a malvada da bicha. Amanhã desata-me as mãos e as ideias, vai passear para outras paragens, urinar outras relvas. Deixa de ser ela a passear-me, ou imobilizar como se quem precisasse de fazer xixi fosse eu e não ela.

Estou em Genebra como no meio do Atlântico, ou sozinho numa alpage, com um diferença: aqui tenho o passado mobilado. Um bocado desorganizado, é certo, mas mobilado. Tenho de arranjar tempo para pôr isto tudo em ordem. Uns anitos chegarão, de certeza.

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Não vejo os «miúdos» todos os dias, mas pelo menos estou perto deles. Não-ver de perto é melhor do que não-ver de longe. Curioso que tenha precisado de uma vida para perceber esta verdade tão simples, não é?

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Tenho dois peitos de frango a assar no forno a cem graus. Calculo que quando a garrafa acabar  estejam prontos. Receita mais ou menos inspirada numa coisa que vi no NYT e não reli. Retive o açúcar castanho, os orégãos e a paprika. Já estava a marinar em sumo de limão, alho, sal e sálvia. Espero que isto tudo resulte equilibrado. Os contrários encontram-se, etc. Vem no Livro dos Desencontros, que um dia escreverei. Quando me encontrar?

[Enganei-me: a garrafa acabou e o frango não dá sinais de vida.]

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Os meus dias começam todos com o P. Nunca são bons começos, mas apesar disso estou-lhe grato: antes maus começos do que nenhum.

9.10.20

Reedição - Vive la France! III - Joseph de Maistre (23-04-07)

Os reaccionários têm, sobre os revolucionários, a vantagem de nunca se desactualizarem. 

«Je n'y comprends rien, - c'est le grand mot du jour. Ce mot est très sensé, s'il nous ramène à la cause première qui donne dans ce moment un si grand spectacle aux hommes: c'est une sottise, s'il n'exprime qu'un dépit ou un abattement stérile. 
(...) 
On a remarqué, avec grande raison, que la révolution française mène les hommes plus que les hommes ne la mènent. Cette observation est de la plus grande justesse; et quoiqu'on puisse l'appliquer plus ou moins à toutes les grandes révolutions, cependant elle n'a jamais été plus frappante qu'à cette époque.
(...) 
Chaque nation, comme chaque individu, a reçu une mission qu'elle doit remplir. La France exerce sur l'Europe une véritable magistrature qu'il serait inutile de contester, dont elle a abusé de la manière la plus coupable. Elle était surtout à la tête du système religieux, et ce n'est pas sans raison que son Roi s'appelait très chrétien: Bossuet n'a rien dit de trop sur ce point. Or, comme elle s'est servie de son influence pour contredire sa vocation et démoraliser l'Europe, il ne faut pas être étonné qu'elle y soit ramenée par des moyens terribles.» 

«Les scélérats mêmes qui paraissent conduire la révolution, n'y entrent que comme de simples instruments; et dès qu'ils ont la prétention de la dominer, ils tombent ignoblement. Ceux qui ont établi la république, l'ont fait sans le vouloir et sans savoir ce qu'ils faisaient; ils y ont été conduits par les événements: un projet antérieur n'aurait pas réussi

8.10.20

Eu somatizo, tu somatizas, nós borramo-nos de medo

Jantar com duas psicólogas genebrinas, não exactamente da parte de baixo do cesto. Habituadas a lidar com pacientes portugueses - uma delas até fala a nossa língua, vá lá saber-se como - e por via disso teve durante muito tempo dezenas de famílias portuguesas sob o seu olhar competente. Perguntam-me como está a situação da Covid em Portugal. Respondo: "Do ponto de vista regulamentar é parecido com a Suíça, mas há muito mais medo do que aqui. As pessoas têm medo." Resposta de ambas: "Os portugueses somatizam imenso."

6.10.20

Maldade, miséria e cobardia

     - Porque é que quanto mais se anda para norte, menos se anda de máscara, menos as pessoas têm medo?
     - Porque quanto mais se anda para norte, menos emocionais são as pessoas.
     Talvez seja uma questão de razão versus emoção, embora se saiba que essa clivagem nem sempre acerta.
   O problema quanto a mim tem mais componentes e não pode ser analisado em bloco. Seja como for, à mistura de razão, emoção, pânico e histeria há que acrescentar a maldade. Aquilo que em Portugal estamos a fazer às crianças, aos velhos, aos doentes e aos pobres não pode ser explicado se não se incluir na explicação a maldade. A maldade dos miseráveis, dos tesos, dos cobardes, dos que têm uma vida de merda e de repente se vêem com a possibilidade de exorcizar as suas merdinhas quotidianas torturando quem não se pode defender. 
       Viu-se agora com o episódio da "infecção" no Conselho de Estado. Alguém foi posto em quarentena forçada? Não. Transponham para uma sala de aulas, para uma fábrica ou para um lar.
     Só por maldade se pode infligir às crianças o que se lhes está a infligir. Essa maldade exprime-se tanto melhor quanto tem o véu da "protecção dos que lhe são queridos" a disfarçá-la. Porque é que em Genebra, apesar de ter normas semelhantes sobre as máscaras (para adultos), a atmosfera é muito mais ligeira? Porque lhe falta a componente de maldade dos tesos. Na Suíça-alemã nem máscara se usa.                               Racionalidade e um bom nível de vida são um bom antídoto para as pequenas - mas não menos asquerosas - vinganças dos miseráveis e dos cobardes. 

Goliarda e os neo-vitorianos

Goliarda Sapienza caiu-me em cima por causa de um podcast que ouvi, completamente ao acaso, durante o confinamento. O mínimo que se pode dizer é que era atraente e fiquei com o título atravessado. Agora comprei finalmente L'Art de la Joie, comecei a lê-lo e vejo que o podcast, por muito panegírico que fosse, ficava aquém do texto.

Interesso-me pela biografia da autora - isto é uma novidade, mas que se lixe - e vou procurar mais informação sobre ela. Um programa - por sinal também da France Culture - apresenta-a como «Anarquista, bissexual, rebelde» (creio que a ordem é esta.) Mas que raio importa que a senhora fosse bissexual, alguém me explica? Anarquista? Mas isso faz de alguém um escritor? Fala-se de Gabriel Garcia Marquez dizendo que era comunista ou de Marguerite Yourcenar que era lésbica? Rebelde? Por amor de Deus! Tenho sorte, no fundo: comecei pelo podcast correcto. Se tivesse começado por este, é pouco provável que me tivesse interessado. 

O nosso tempo está mais obcecado pelo sexo e respectivas actividades do que a época vitoriana.

5.10.20

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 04-10-2020

Uma das características do tempo em Genebra é não ser elástico, como em Portugal, Espanha, República Centro-Africana ou St. Vincent and the Grenadines (é este o nome do país, se por acaso). Em Genebra - onde ele é mais elástico do que, por exemplo, em Zurique - se se diz «Às duas horas vamos fazer compras», às duas horas vai-se fazer compras. Ou às duas e cinco, vá. Fomos às duas e um quarto porque estamos em Genebra - mas fomos com a consciência clara de que estávamos «atrasados». Não sou antropólogo, sociólogo nem muito menos psicólogo, mas penso que há duas clivagens entre povos, mentalidades, civilizações (chamem-lhe o que quiserem): a elasticidade do tempo e o sentido de Sim e Não. Passado o Reno (ou o Ródano, mais a Sul), sim é sim e não é não. Talvez é talvez. Duas horas é duas horas, não é duas horas e um quarto ou duas menos cinco. «Antes da hora ainda não é hora, depois da hora já não é hora», dizem os suíço-franceses. Bom, com um bocadinho de folga, é certo; e essa explica explica o apodo dos suíço-alemães: »aquela malta é estrangeira». Mais a Sul e a Oeste, essas duas clivagens esborratam-se numa amálgama de horas e de sins-nãos-talvezes. 

Bom, seja como for: fizemos as compras da semana, as compras para a fondue (de queijo, passe o pleonasmo) e à noite tivemos a filha mai-lo respectivo e a G., presença obrigatória nas fondues. Faço-as sem Maizena, como «as da minha infância», repete a cada vez. Não foi a minha fondue favorita, mas estava boa. Fica.

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O que me prende a Genebra, por ordem crescente: a língua francesa, S., os meus filhos. Há algo de estranho, paradoxal, transcendente (no sentido de mágico) nesta coabitação amical. Viver o que vivíamos antes mas num estatuto diferente. A única coisa que muda é o lugar onde durmo e mais um ou outro pormenor por agora desinteressante. O que não deixa de ser fascinante: um amor que evoluiu em amizade. Uma amizade tão forte porque deu a volta toda, percorreu e balizou os caminhos todos, dos atalhos às auto-estradas.

Penso-o há muito tempo: o amor é um acto de vontade, não o resultado de um acaso. Amo todas as mulheres que amei, porque não as amei por acaso, nem porque me cagou uma pomba na cabeça enquanto dormia (eu, não a pomba).

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J. L. dizia-me há dias que o meu texto sobre Genebra era o mais «minimalista» que escrevi para a Gazeta. Tem razão, embora minimalista não o defina inteiramente: foi o texto mais factual, aquele em que as emoções e os sentimentos estavam mais escondidos. Genebra é um amor racional e eu sei que isso existe porque todos os meus amores o são. Ou foram, mas o verbo amar não tem passado. Só tem presente e futuro.

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O amor é a justaposição de duas independências. Se não for, não é amor. É outra coisa qualquer, da qual nada percebo. Um mais um igual a três: o um, o outro e os dois.

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Objecção contra a modernidade: já não há verdadeiros loucos, excêntricos. Mijar fora do penico  hoje é dizer «maricas» em vez de gay e deslocar-se de bicicleta em vez de carro. A normalidade - ou aquilo que o devia ser - é o novo revolucionário.

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De um ponto de vista estritamente epistemológico, acreditar que a Terra é plana, que o vírus é perigoso ou que Deus existe têm exactamente o mesmo valor. Apesar disso, prefiro a igreja: tem mais sentido, mais história e menos histeria, apesar das Teresas de Ávila e das Madres Teresa de Calcutá.

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Hoje li uma explicação - vinda de alguém que aprecio e respeito - para o uso de máscaras: «é uma questão de egoísmo versus altruísmo.» Transformar uma questão sanitária numa questão moral é equivalente a transformá-la numa questão política? Intuitivamente, diria que não. É pior. Contra a política posso lutar com argumentos políticos. Contra a moral, não. Tenho de usar argumentos de outra ordem: científica, factual... Amorais. Introduzir uma questão científica na esfera moral releva da má-fé intelectual, por muito bem intencionado que seja quem o faz.

Adenda: isto para não mencionar as cinco mil pessoas que até hoje morreram por falta de cuidados, mortes às quais, se quisermos aplicar-lhes categorias morais, só podem qualificar-se de hediondas. Tal como, de resto, o desinteresse das pessoas que só vêem a Covid. 

4.10.20

Dúvida

Pergunto-me se hoje Rimbaud ainda proclamaria «Il faut être absolument moderne». Penso que não, infelizmente.

O Don Vivo encoraja

O Don Vivo encoraja vivamente (não poderia ser de outra forma, pois não?) todas as farmacêuticas a esquecerem a vacina do vírus. Tratem antes de coisas importantes, como os acufenos