25.1.20

Insónia

A noite insone acolhe tranquilamente os restos dos dias, como do cadinho o metal fundente se verte na forma. São muitos os dias e uma só a noite: tão cedo o sono não regressará.

A insónia é geográfica. Estou em S. Luis do Maranhão como em Moçambique, Lisboa, Montenegro. Acontece-me até encontrar-me nos braços nus de uma senhora ou duas. Vagueio de país en país, de corpo em corpo, de ninharia en recordação e dali para o futuro.

O cadinho verte o líquido incandescente para a forma, mas esta não pára quieta.

24.1.20

Quem encomenda as bebidas?

- Beber ou foder, há que escolher. - Antónia estava furiosa e olhava-me com raiva como raramente lhe tinha visto.
- Querida, todas as fodas que dei em todas as mulheres que fodi foi a ti que as dei. Todas, sem excepção. Não há mulher que eu tenha ou me tenha levado para a cama, para um chuveiro, um pinhal, um beliche, uma praia, uma pensão rasca ou para un hotel de negócios que fosse outra se não tu.
- Ou seja, hoje não é comigo que estás nesta cama?
- Estou pouco habituado a este dilema. Antes era "Beber ou conduzir".
- Pois, meu querido. No próximo jantar bebes Castello, é muito boa.
- Queres dizer que vai haver outro jantar?
- Outro? Meu caro, vais jantar-me até precisares de um tripé para essa porra. - Olhou depreciativamente para "aquela porra" e acrescentou - mas quem encomenda as bebidas sou eu. 

18.1.20

Se ela morrer

Durante a maior parte dos seus quase sessenta anos, Antónia conviveu com a morte. Refiro-me à morte verdadeira, aquela que se pode cheirar e tocar, não à de "estive quase a ir desta para melhor" dito à mesa do café, com um sorriso e um olhar entendido, meio de esguelha meio a captar o de quem ouve. Antónia aceita pacificamente a morte - "já morri tantas vezes que mais uma menos uma não faz muita diferença" explica aos amigos.

Nunca, porém, alguém a ouviu uma vez que fosse dizer "quando eu morrer". Diz sempre "Se eu morrer". "Se eu morrer, lembrar-me-ei destes dois últimos anos para sempre e não sei como vou pagá-los."

Os amigos ouviam isto  e respondiam:
- Que disparate, não vais nada morrer agora.
- Eu não disse "agora".

Prisões

Se um dia me tirarem do mar, ponham-me por favor a viver na Waterstones de Picadilly. Podem mesmo prender-me aqui com correntes: não me sentiria preso, não mais do que mo sinto no mar.

15.1.20

Oscilações

Habituado desde criança a ler e a ouvir histórias de mar e marinheiros, aprendeu cedo a rejeitar a influência da sua vontade no mundo. «O que eu quero que aconteça e o que vai acontecer são duas coisas diferentes, que só pelo maior dos acasos - e das sortes - se sobrepõem», já pensava ainda antes de o saber formular. O que não o impedia, longe disso, de esperar o melhor, sempre. «Optimismo sem realismo é patetice», pensava (mas continuava a não saber formular). «Realismo sem optimismo é uma tristeza, tão triste que mais parece estupidez.» Incapaz de optar decididamente por um ou por outro, sempre oscilou entre estes dois pólos, antagónicos como a gema e a clara de um ovo e igualmente capazes de coabitar sem se misturar - até apanharem uma sova vinda não sabem de onde.

Já ele sabe muito bem de onde lhe chega a porrada que leva, mas a ter de escolher - ou melhor, a poder escolher - prefere a que apanha por excesso de optimismo. «O realismo não magoa ninguém, mas tão pouco dá grandes alegrias. O optimismo leva-me mais longe, apesar de as quedas serem maiores e mais dolorosas. Tal como o excesso de confiança nos outros, de resto: o que é bom dói mais quando magoa e oferece mais quando não.»

Na verdade, gostaria de ter a dose certa de cada um destes ingredientes e ser moderadamente infeliz a maior parte do tempo e moderadamente feliz o resto. «Viver assim, oscilando como um marinheiro bêbedo entre um whisky e a prostituta que lho serve», pensava nos dias tristes, «é um objectivo nobre, legítimo.»

Mas tinha os dois e as oscilações eram entre isso e a morte, não entre um pouco de uma e um pouco da outra.

Se tu

Atravesso a rua, um rio, um oceano. Do outro lado, na outra margem, no outro passeio espera-me a vida nova, outra vida, outro passado.

Esperar-me-ia, se tu lá estivesses.

14.1.20

Com sorte

Digo "Amar-te-ei sempre, para sempre, inteira e só tu". Digo-o muitas vezes, é uma incantação, a crença naquela crença absurda de que as palavras moldam a realidade, lhe dão forma.

Não dão, claro. Com sorte, descrevem-na e mesmo isso é difícil. Com sorte, não me sinto ridículo ao dizê-lo, porque o digo a ti, só a ti.

Diário de Bordos - Mértola, Alentejo, Portugal, 13-01-2020

Subo a rua para casa. Un grupo de crianças brinca, corre para cima e para baixo como se a rua só descesse, não subisse. O silêncio é o de sempre: sólido, corpóreo, tangível. As brincadeiras dos miúdos não o desfazem. Brincam, gritam, correm à frente dele como se fosse o cenário de um teatro.

Dar cabo disto devia ser passível de pena eterna, num quarto sem saída, a ouvir reggaeton, José Mário Branco e o Fanhais até ao fim dos dias.

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Jantar no Tamuje: ensopado de galo-capão, acompanhado por um Balanches tinto, vinho adstringente, encorpado  mas fino e equilibrado. O fim de boca prolonga-se até ao gole seguinte e acumula-se com este em camadas quase identificáveis desde a primeira.

Se um dia a minha ideia for para a frente, vai ser preciso reservar uma mesa com três meses de antecedência. Ou então, pedir-lhes para fazer como na Hofbräuhaus e terem mesas reservadas em permanência para os clientes habituais.

O problema é que a Hofbräuhaus é pelo menos cem vezes maior.

O Tamuje tem a virtude de me comover às lágrimas praticamente cada vez que lá vou comer. Há de certeza um céu para as cozinheiras e a senhora que manda naquela cozinha tem nele um lugar reservado, "à direita de Deus Pai" (aspas porque cito outro Pai, o meu). E o senhor M. irá para o dos donos de restaurantes,  que não sei se é o mesmo.

Sejam ou não, espero que os façam esperar muito tempo, que os céus podem - e devem.

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Três graus positivos. A casa não está equipada para este frio. Acho mal terem acabado com o aquecimento global e terem-no trocado pelas alterações climáticas, uma chacha que tem a vantagem de todas as chachas: serve para tudo. A imprecisão é a bengala da mentira.

E custosa: aposto que esta noite me vai sair caríssima, com o aquecimento eléctrico ligado em permanência. Ver se me lembro de encomendar lenha para a próxima vez, sempre aqueço a casa e aqueço o planeta. Ou seja, dou asas ao meu legendário altruísmo e, por uma vez, beneficio com ele.

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Os livros acumulam-se no armário. Tenho de mandar fazer prateleiras e trazer para cá os que ainda estão em Évora, que são todos.

Antevejo semanas de gozo a arrumá-los - para semanas depois os ter de pôr em caixas outra vez? Espero que não. A casa é pequena mas vai ter de aguentar-se até encontrar uma maior.

Amanhã não será a véspera desse dia.

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Almoço com A. Há pessoas que não saem das nossas vidas mesmo que passemos anos sem as ver. A razão é simples, claro: fazem parte de nós e se saíssem seria como se nos arrancassem um braço. (O direito, preciso.)

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Próxima etapa: Londres. Estou farto de aviões, mas é impossível não reconhecer que se não os tivesse tão presentes estaria ainda mais farto.

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Depois: Düsseldorf. Por onde andará a S.? O Dr. Jazz fechou, isso sei. Tantas horas lá passávamos os dois, sentados nas escadas, a beber cerveja e a beijarmo-nos como se sem nós o mundo, a cerveja acabassem no dia seguinte. Ou nós...

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Não acabamos, nunca acabamos, pelo menos enquanto as pessoas que são parte de nós continuam parte de nós.

(Para a A., com o beijo que começou em Oeiras e ainda não acabou.)

13.1.20

A mesma coisa

Não sou de mais ou menos, querida. Sou de tudo ou nada. São a mesma coisa: ou morres de fome ou morres de enfarto.

11.1.20

Tempo, denso e doce

Estou na Tasquita a beber um café e uma aguardente. São dez da noite, jantei deliciosamente no La Juanita, amanhã vou a Lisboa, depois a Mértola,  Londres e Dusseldorf, tive um dia normal, nem muito cansativo nem chato.

Cravo um cigarro à S. e vou lá fora fumá-lo. Estico-me em altura. Não é espreguiçar-me - se alguém estivesse a olhar para mim não veria o tempo a escorrer-me pelos ossos, denso e doce como mel por uma colher.

10.1.20

Milagres

Um casal jovem decide mudar de país e metade do mundo acha-se na obrigação de comentar. Podemos dizer o que quisermos da monarquia, mas esta capacidade de transformar água em vinho está ao nível da do outro.

Gamoneda: ver o que não se vê

Encontrei as obras completas de Antonio Gamoneda, uma edição da Galaxia Gutenberg de Setembro de 2019. Pizarnik ensinou-me a olhar para a dor; Gamoneda, a ver o que não se vê.

«Como música de la que aun permanece el silencio siento tus manos en mi.

Tus manos lejanas.»

Todos os lados do que não se vê,

«ESTOY CANSADO. Cansado de mí mismo; de mi enemistad comigo mismo,

y de otros acidentes, y de algunas miserias.

...»

«...
Que sed de desvario, que sed

«...
Mañana, si es, será otro dia.»

«...
Sí, hé despertado otra vez para desconocer.
...»

9.1.20

Os tons diferentes da verdade

«Tu bebes muito» é uma frase que oiço frequentemente, mas em tons diferentes: crítico, admirativo e grato. Este último é o mais honesto: é o dos donos dos bares.

Fragmento

"...Às vezes penso escrever-te; outras não. Podemos resumir isto assim: às segundas, quartas e sextas quero escrever-te; às terças, quintas e sábados pergunto-me se devo dizer-te para ficares em minha casa. Mas então aparece a pergunta: «se eu não lhe disser isso, que direi?» E todas estas perguntas vão para domingo, um dia que dedico a permitir-me tudo e o seu contrário sem cair em dissonância cognitiva.

Seja como for, resolvi quebrar este círculo aparentemente inquebrável. a) Escrevo-te numa quinta-feira (muito jovem, mas quinta); b) Digo-te que realmente não sei o que sinto, mas isso não data de hoje; c) Não te digo que devias ficar; d) Não te digo que não deves ficar.

Uma coisa sei de ciência certa: não contes comigo para ser a locomotiva do que quer que seja.

Isto é: a quinta-feira olha-me, jovem; as velas queimam, avancei três páginas no livro que estou a ler; comi duas tangerinas - duas! - e escrevo-te (...). Agora vou dormir.

Talvez o sono estivesse à espera de que as palavras saíssem, como se estivessem a ocupar o seu lugar. Gosta de salas vazias e não delas mobiladas, com bagagem antiga e coisas deixadas ao acaso por todo o lado, cheias de memórias e de planos para o futuro. «Planos» sendo um sinónimo até este momento desconhecido de «dúvidas.»"

8.1.20

Dias, fractais

Os meus dias são um fractal da minha vida: altos e baixos, roller coaster, dents de scie, do Everest à fossa das Marianas e regresso - não só todos os dias, mas várias vezes por dia.

E ainda há quem se admire de eu andar tão cansado e tão feliz.

Jogar à parede

Quando aprendia a jogar ténis,  a parte de que mais gostava era jogar à parede.

Foi um excelente treino para a vida afectiva, mais tarde. Ou para a vida, simplesmente.

Lágrimas, lupa

Não está ainda provado, mas é possível que as lágrimas tenham um efeito de lupa quando se olha para a vida através delas.

Sejam de tristeza ou de alegria: tudo nos aparece mais nítido,  mais próximo.