27.6.16

Ver Lisboa

Lisboa não se dá a ver. Des-cobre-se - em todos os sentidos. Ela descobre-se e dá-se a quem a sabe querer; e é preciso descobri-la: despi-la, percorrer-lhe as ruas como se despe uma senhora pela primeira vez, com olhos de ver e mãos de sentir.

Porque em Lisboa tudo é sempre a primeira vez. Anda-se uma rua mil vezes e é como se fizéssemos mil ruas.

25.6.16

Esparta também perdeu

Esta coisa frágil e falível que sou eu dentro de mim e para quem tão pouca paciência tenho.

Dou-lhe mais mimos do que os que de mim levo; oiço-a atento como se a amasse e faço-lhe quase todas as vontades.

Quase todas: a doença é uma ditadura e como a todas as ditaduras há que desobedecer-lhe. A fragilidade não deve vencer.

Dá volta, devagar

Vamos aproximar-nos devagar, queres? Como um navio que lentamente se aproxima do cais. Lança os cabos para terra mas não os tesa. Deixa-os brandos e continua a manobra.

Devagar. Um arco de círculo perfeito. Quando está suficientemente próximo começa a virar os cabos. De repente está em posição. Da ponte alguém diz "faz fixe". E depois, "dá volta à manobra".

Devagar. Faz fixe. Dá volta. Estamos no lugar.

Imagina que os cabos são palavras. Deixa-as brandas. Lentamente começa  a virá-las. Primeiro os lançantes,  depois os traveses. Os springs são os últimos. Vira o lançante de ré. Tesa o través de proa. Faz fixe. Dá volta à manobra.

Devagar. São as palavras que nos levarão ao lugar. São elas que nos comandam. Um navio atraca sempre contra a corrente.

Passa os cabos. Ouve. Vou dizer-te devagar. Vou amar-te devagar. Contra a corrente.

Deixa-as tesas mas não muito por causa das marés. As palavras precisam de alguma folga, como os cabos. Se as tesas demais, se lhes tiras a folga rebentam. Dois corpos, duas vidas precisam de espaço. Lentamente, como as marés, como um navio atraca, como tu sorris.

Deixa as palavras levarem-nos ao lugar. Elas sabem de onde somos, para onde vamos.

Devagar.

Teimosia, estilo

Levanto-me regularmente. A duração das vertigens reduz-se de hora para hora. Tenho uma relação infantil, birrenta com a doença. Não vencerá.

Como se bastasse dizê-lo, não é? Talvez não seja suficiente, mas necessário é. Ter a teimosia como aliada dá uma vantagem não negligenciável.

E ainda há quem a veja como um defeito.

Pode, acontece frequentemente, perder-se por teimosia, é certo. Chama-se "perder com estilo".

Carcaça

Não deixar que descanso seja tomado por abandonar a luta. A doença, essa puta oportunista tem de sentir que há uma resistência do outro lado, que o terreno não é todo dela. Por muito infantil que pareça, acreditar na vontade. Não se deixar ir.

A carcaça agradece.

24.6.16

Diário de Bordos - Lisboa, 24-06-2016

Foi no hospital que recebi a notícia da saída do Reino Unido da UE. Não é o melhor sítio mas é a melhor forma: filtrada pela dor, pelo desconforto e pela noção (perpétua surpresa) da nossa fragilidade a saída ou permanência adquire aquela que talvez seja a sua verdadeira relevância: pouca. Que me interessam os ingleses se tenho a cara meio desfeita (é um exagero. Já não está) e a braços com uma crise de Ménière ( é um understatement. Foi - ainda é - dura)?

Mas passando este pequeno limiar egocêntrico e saindo para o lado de lá: tinha a secreta esperança de que o Cameron ganhasse. Acho que ao submeter-se a um referendo tomou a decisão certa e honorável. Democracia é dar às pessoas a possiblidade de se enganarem. Só nas ditaduras alguém sabe o que é bom para todos - e todos acabam pior, com a notória excepção de quem decide, claro -.

........
Fui parar ao hospital por causa de uma queda da bicicleta mas não sei o que a provocou. Ou a Ménière ou um buraco (e neste caso a crise foi uma consequência). Não houve interferências externas, sejam elas líquidas ou sólidas.

Os hospitais portugueses  (estive em dois desta vez e em três ao todo, o que não é representativo) mostraram uma vez mais que são excelentes. Falham num ponto: por vezes é preciso um pequeno empurrão para os pacientes serem ouvidos.

Desta vez essa tchova foi dada pelo meu amigo Henrique V. D., a quem deixo aqui expressa e pública a minha gratidão e - como se fosse preciso! - a minha amizade.

Amizade e gratidão essas que se estendem à Ana Isabel e filhos, que me acolhem em sua casa com uma paciência e uma generosidade que me fariam chorar se eu fosse dado a choros. Sou e fazem.

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Agora resta esperar que o senhor Ménière vá dar uma volta ao bilhar grande e por lá fique muitos anos.

(Já está a afastar-se. Nada de aflições).

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Sou um homem cheio de fragilidades. Uma delas é pensar que venho do planeta Kripton. Não venho, sei-o há muito tempo. Dispenso memoranda.

Erratum: Ménière e não  Meunières. Há muito tempo que não me preocupava com isto.

23.6.16

Oiça um bom conselho

Continuo a não seguir a sábia injunção do Ricardo A.: falar apenas dos maus restaurantes. Tenho atenuantes: em primeiro lugar ninguém com juízo lê o que escrevo; em segundo, o sítio já está sempre cheio, dispensa-me bem.

Chama-se Menina do Rio, fica em Alvalade (à frente do mercado, do outro lado da rua), é minusculo em tamanho e nos preços e maiúsculo em qualidade, quantidade e simpatia. Hoje comi lá um pernil no forno que "mais [parecia] um presunto", como disse a minha vizinha de mesa. Delicioso, acrescento eu já que disso não podia a senhora falar, coitada. Não o provou.

Eu provei e mais: devorei-o todo, deliciei-me inteiro.

Que viva a Menina do Rio e não se metamorfoseie nunca em senhora.

Um amor de gramática

És uma aliteração, um gerúndio, imperativo, futuro anterior e indicativo do presente, verbo de dizer e tocar, verbo de percorrer e conjugar em todos os tempos, todos os modos. És um amor de gramática e a gramática do amor. Artigo definido, indefinido, complemento directo e indirecto, sujeito e predicado, advérbio e preposição. És as palavras todas feitas uma, léxico novo da língua mais bela do mundo.

Diário de Bordos - Lisboa, 23-06-2016

Foi um daqueles dias de sorte: tudo estava bom ou quase; a companhia era excelente; os vinhos idem; não estava calor nem frio antes pelo contrário.

Devido a um esquecimento meu - coisa que raramente acontece mais de dez vezes por dia - o frango com molho de tahini foi substituído por frango com gengibre em leite de coco. O resto ficou igual. A beringela, uma receita sugerida pela Tatiana, italiana de gema, beleza e gosto ouviu muitos elogios. O resto também, mas esses foram mais devidos à simpatia das adoráveis pessoas que compunham o grupo, suponho. Ou não suponho. Sou péssimo crítico e pior ainda auto-crítico. A verdade é que gostei muito desta maratona e fiquei com vontade de fazer mais. O resto é conversa para encher chouriços.

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Entretanto lá vou aterrando, meio aterrado meio espantado meio resignado. A lentidão e a falta de profissionalismo mudaram tão pouco como a beleza da cidade ou a luz: nada. Os portugueses continuam a tratar o tempo como se fossem donos dele; seria belo e poético se não tivesse as consequências que tem.

É como tudo: basta estar do bom lado da barreira e as vantagens aparecer-me-ão, claras e irrefutáveis como a erupção de um vulcão.

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Não sei esperar, excepto quando cozinho. Ou passeio pelas margens do Tejo.

Ou penso na morte.

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A filha jovem de uma amiga brasileira morreu. Não imagino dor maior para uma mãe ou um pai do que perder um filho. Pensei nisso muitas vezes, quando os meus eram mais novos.

22.6.16

Lisboa

Como explicar a pessoas que vivem  isto todos os dias quão bom isto é?

Não é preciso. Elas sabem.

Alegria

Arrotear é uma palavra bonita. Imaginas um campo, um corpo. Imaginas outro corpo nesse campo, nesse corpo. Laborar lentamente, como os campos e os corpos devem ser

Tu és o campo e o arado eu. Tu és o que será e eu o que foi. Tu és e eu também: a meio da noite nos encontramos, surpresos como um tatu no meio da estrada: paralisados ambos na alegria da descoberta.

21.6.16

Capelinhas

Tenho com as capelinhas a relação que tenho com as igrejas: nenhuma.

Não é arrogância. É inabilidade.

Desescrever - II

Polir palavras é tão chato como polir aço inox.

Verão

Chega o verão e entranha-se-me pela pele como o delta de um rio em terreno árido.

Desescrever

Por razões que ainda não vêm ao caso tenho estado a editar o Don Vivo. A cada dia que passa as perplexidades empilham-se como livros nas estantes dos "não lidos".

Em primeiro lugar as correcções são tantas que um gajo é obrigado a perguntar-se como é que alguém pôde achar aquilo bom; depois, mais ou menos relacionada, são tantas as correcções que sou obrigado a perguntar-me como tive coragem de pôr aquilo em linha; e assim por diante. Não sabia que um texto podia ter tantos erros, tantos como os amigos nas esquinas de Grândola.

Hoje dizia que editar os textos que escrevemos é como tentar transformar em círculos elipses imperfeitas. Puxa-se de um lado estraga do outro. Cada vez admiro e invejo mais os escritores produtivos, fecundos, prolixos: eu por cada palavra que escrevo tenho de apagar duas. Isto para não falar das vírgulas, claro. Mais do que servir o texto serviram - parece-me - para me relentar quando escrevia.

20.6.16

Escolhas

Magra e vivida, como se fossem coisas que podes escolher.

Não podes.

Ruas, peles

Também me perco nas ruas do teu corpo, do teu olhar.

As ruas da pele são as melhores. 

19.6.16

Proporções

A alegria está para a felicidade como a percussão para a bateria.

Em favor da pena de morte

Aonde devo dirigir-me para solicitar a proibição absoluta e sem excepções do termo parabenizar, quando escrito em suportes portugueses por portugueses ou assimilados?

Beleza, ingratidão

Só,  divago nas ruas da beleza. Nas ruas, travessas, praças, largos e becos, avenidas e boulevards. Perco-me nas ruas da beleza. Como um adolescente espantado descobre o primeiro seio, como um homem descobre que é frágil.

A beleza é isso: um espanto e uma fragilidade. Uma cidade na qual me perco, na qual me dissolvo. A beleza é isso: uma solidão que se ignora. Descubro-a num poema, num rosto, numa amizade, no corpo esguio da mulher que ao meu lado joga xadrez com bocados de papel a fazer de peças, na memória de um corpo que amei ou amarei.

A beleza é esta constância, esta permanência, esta ausência: perdido e preso, livre e surpreso.

Sou pobre e sou rico à vez. Depende da hora do dia. Sou tudo e o seu contrário: alto e baixo, gordo e magro, feio e bonito. A única coisa que fica - é pouco, bem sei - é isto: perder-me sozinho nas ruas da beleza. Todas.

E ser feliz com isso.

........
Não é pouco. Sou ingrato, sei. Não acredito em deuses e de anjos só sei o que leio ou vejo no cinema. Acredito na beleza, no prazer solitário de ouvir o Gonçalo no café Tati, na sorte que tenho: poder perder-me nas ruas da beleza e não precisar sequer de me encontrar.

Pouco importa

É como ter-te amado: o problema foi começar.  Agora não sei desamar-te e mesmo que soubesse pouco provável seria que o quisesse. Talvez. Pouco importa: o problema não se põe.

Imagina um comboio nos carris, os boogies a fazerem aquele barulho ritmado, condutor atento ao caminho. Ba-dam ba-dam; ba-dam ba-dam.

Não é isto. Pouco importa. O comboio não vai parar tão cedo. Concentra-te no essencial: respirar. Ver com olhos de ver. Ouvir.

Tudo começou com a história de um bêbedo que morreu duas vezes e acabou com outro que nunca viveu. Importa pouco. Ver, respirar e ouvir não têm passado. Não podes respirar ontem, ouvir-te antes de ontem, ver-me. Mesmo que o quisesses.

É difícil desamar alguém. Requer treino e persistência. E tempo, claro. Vontade. Um sem fim de coisas para te desamar simplesmente e te desamar, simplesmente.

Arar-te o corpo fértil e feliz. Desamar-te. Pouco importa. Ponto final.

Palavras, pessoas

Falo tanto de palavras, não é?, e tão pouco de pessoas. Hoje descobri uma pessoa. Isto é: uma soma aleatória de passado, futuro, qualidades e defeitos, risos e coisas que se intuem ou se dão a ver - uma vida que não se vê é uma palavra que não se ouve -.

Descubro uma pessoa e descubro-me nela. Talvez seja essa a definição de pessoa: alguém que nos ensina algo sobre nós próprios. Talvez. Há livros, palavras coisas momentos que nos ensinam montanhas sobre nós próprios e não são pessoas.

Pessoa é quem nos arranca palavras em troca de um olhar ou nos cede mistérios como quem distribui confetti num desfile de Carnaval.

Uma palavra é um hiato entre dois silêncios;  uma pessoa um silêncio entre dois olhares.

Tenho sorte. Vivo num país onde não sou obrigado a escolher entre as palavras e as pessoas.

18.6.16

Táxis, Uber e eu

Na guerra dos taxis contra a Uber há um aspecto que tem sido injustamente pouco mencionado: as respectivas relações com os ciclistas. Acho profundamente injusto não ouvir um único piropo vindo de um chauffeur da Uber - não se distinguem dos outros condutores, a menos que a Uber também utilize carrinhas (vulgo vans) - e não passar uma hora sem receber as diversas provas de carinho dos taxistas.

Enfim, não tão diversas. "Sai da frente, caralho"; "levanta o cu, caralho"; "lá me saiu mais um destes caralhos": os senhores dos táxis têm uma fixação num determinado órgão.

Há poucos prazeres no ciclismo urbano que se comparem a estas manifestações  de ternura, boa educação e civismo. A Uber devia ensinar os seus condutores a seguir o exemplo dos taxistas sob pena de descrédito total.

17.6.16

Batalhas, vírgulas

Releio o post anterior e penso que escrever, mais do que "uma faxina, um vómito" e por aí adiante é uma batalha perdida contra as vírgulas. São como loiça suja: nunca acabam, por mais que as limpemos.

Reedição editada bis - Escrever

      Já não sei a que língua pertenço, a que país. Escrever é como procurar o melhor itinerário nas ruas de Genebra, actividade à qual me dedico todos os dias, montado numa scooter velha. Cá estou: outra vez entre duas vidas, dois países, duas ou três línguas e uma incalculável quantidade de paisagens, geográficas ou emocionais, pelas quais fui desde sempre atraído e das quais fui sempre fugindo, umas vezes voluntariamente, outras não.
       Escrever é como percorrer as ruas frias, feias e pouco convivais de Genebra sem um mapa; a cada esquina um precipício e indescritíveis monstros, disfarçados de polícias. Mas os caminhos da escrita são mais bonitos e há mais palavras do que ruas, o que torna o exercício cativante, se bem as punições sejam piores: não há multa que pague uma frase mal escrita, uma palavra mal escolhida, uma analogia deselegante, uma vírgula fora do lugar.
       Do francês, Cioran dizia: “esta língua de empréstimo, com todas as suas palavras pensadas e repensadas, afinadas, subtis até à inexistência, dobradas sob as exacções da nuance, inexpressivas porque já exprimiram tudo, assustadoras de precisão, discretas até na vulgaridade... Uma sintaxe duma rigidez, duma dignidade cadavérica encerra-as e atribui-lhes um lugar do qual nem Deus as poderia desalojar”.
       E depois desta descrição da língua francesa, a melhor que alguma vez li vem: “A pátria não passa de um acampamento no deserto, diz um texto tibetano. Não vou tão longe: trocaria todas as paisagens do mundo pela da minha infância”.
      A verdade é que eu não sei a que chamar, realmente, “a paisagem da minha infância”: será a Linha de Cascais, com a Marginal, esse cordão umbilical que sempre me ligou a Lisboa, e onde, ainda hoje, me acontece chorar quando vejo o sol pôr-se atrás do farol da Guia, e a luz a tornar-se espessa e dengosa e cor-de-laranja como uma mulher das ilhas? Ou será Quelimane, em Moçambique, com aquelas intermináveis filas de coqueiros, onde sonhei as minhas primeiras aventuras sentado na mangueira ao lado de casa, a encher-me de mangas verdes com sal porque era o título de um livro de poesia (de um poeta que só muito mais tarde vim a conhecer e apreciar)? Ou ainda, esticando um pouco os limites da infância, Lourenço Marques, cuja baía conheço como as minhas mãos, onde a adolescência me apanhou e com ela as primeiras dores de amor, imediatamente diluídas em Nietzsche e em whisky? Onde é o país da minha infância?
      Percorro as ruas de Genebra montado na minha scooter e tacteio o meu caminho através da escrita, tarefa nobre mas fastidiosa. Penso em todas as coisas que escrevi e deitei fora, porque não sabia, só hoje sei, que escrever é um castigo, uma faxina, um embaraço. Pensava nessa altura que cada frase devia ser sublime imediatamente porque no fundo sou preguiçoso e não há nada que mais tema do que a lassidão. Hoje sei que não é verdade, as palavras vêm como vómito e depois é preciso limpar tudo, cada sílaba, cada gaveta, cada prateleira, cada canto do espelho - porque escrevemos e vomitamos sempre à frente de um espelho, numa tentativa - falhada - de nos desgostarmos de nós e da escrita para sempre.
      Hoje, montado na scooter, não são as ruas de Genebra que eu vejo: são as inúmeras avenidas, ruas, becos, auto-estradas, por onde andei ao longo dos anos, labirinto sem fim cujo ponto de chegada é, inevitavelmente, o ponto de partida; e onde não há polícias para nos castigar – só as palavras e a morte, porque uma vida perdida é uma morte antecipada. E é dessas ruas, avenidas, becos sem saída, carreiros e caminhos de cabra que quero falar, um pouco como um arquitecto que fizesse os planos da casa depois dela construída.

Reedição editada - Um homem

Um homem procura, perde, ganha, empata, bate com a cabeça nas paredes, parte paredes e parte a cabeça, encontra saídas e mete-se em becos sem elas, encontra quem o ama e perde quem ama, bebe de mais ou de menos e come idem, tem dias lindos de morrer e morre por dias feios, é feliz, infeliz, triste, alegre, melancólico, empatiza, antipatiza e simpatiza, descobre saídas dos becos e portas onde antes só via paredes.

Um homem é um homem, não é um gato.

Um homem sofre, des-sofre, maravilha-se com uma paisagem, um seio, um sorriso, um livro ou um poema, sabe que vai morrer e sabe que tanta tristeza e tanta felicidade não morrem, que um dia de sol vale dez de chuva e um de chuva dez vidas, duvida de si, dos outros, do sol e dos planetas e sabe que um bom picante num guisado trata todas as dúvidas, tal como um dia de vento trata azias, reumatismo, dores nos ouvidos, problemas de articulações, unhas encravadas, vinho estragado ou intoxicações alimentares.

Um homem não é um gato. É um homem.

Um homem sabe que não há melhor mistura de cores do que o azul marinho e o azul celeste, mas por vezes cede e aceita um bocadinho de verde entre os dois. Um homem gosta de mulheres, de uma mulher e de tudo o que fica entre elas.

Um homem é frágil, porque nada é mais resistente do que a fragilidade de um homem.

Um homem acerta, falha, falha bem e acerta mal, é deus, diabo, anjo, anjinho e tudo o que há no meio, é bom, mau, mediano, tem sorte, azar e azar e sorte ao mesmo tempo, aprecia o silêncio e gosta do barulho, sabe que hoje ontem e amanhã são tão diferentes entre si como ele é do que era ontem e será amanhã, sabe que hoje o mar está calmo e amanhã não, que o sorriso daquela mulher vale as horas todas do mundo ou não vale um segundo, que tudo é, não é e é outra vez como num carrossel. Um homem sabe que o bem e o mal são as duas faces da moeda desequilibrada que lhe saiu na rifa e que querer mudar essa moeda ou mudar-lhe a face é como querer escolher o tempo que vai fazer amanhã.

Um homem é um homem. E é tudo o que um homem é.

(Com um obrigado grande ao R. A., que por vezes me faz acreditar em sonhos).

As moradas de Deus

Recentemente misturei num post Deus, Mallorca e sobreasada. A mistura não estava errada; meramente incompleta. Ora venham à Merendinha do Arco e digam-me se Deus não mora aqui também. Mora, claro. Deus mora onde se come bem, onde se ama (bem ou mal, pouco importa), onde se é feliz (muito ou pouco), onde se espera e alcança.

Já o desespero e o mau vinho são obra do diabo, mas isso fica para depois.