31.10.17

Em louvor dos velhos valores

Acabo de ouvir o empregado da Ginginha Popular servir "um glass de vinho tinto" a uma mesa de turistas. O dito vinho é uma merda (é o que estou a beber) mas porra!, sabe tão bem.

30.10.17

Diário de Bordos - Lisboa, 30-10-2017

Sacana do turco aumentou os preços. Diz que quer servir-me "com a melhor qualidade, pois o nosso melhor cliente é você". Aceito a explicação: o Gambrinus também quer servir-me o melhor possível. Não sei é se precisou de aumentar os preços para isso. Já lá não entro desde que Madalena se arrependeu e como prémio não encontrou o corpo que ia perfumar.

Neste tão pouco. Chateia-me comer sem cerveja ou sem vinho, é como comer sem sal ou navegar sem vento. Os kebab continuam bons; o falafel é assim assim e as chamuças uma merda. Ou então sou eu que estou chateado, é possível. Não fui feito para esperar, apesar de saber fazê-lo às vezes. Depende do que espero. Vento, por exemplo.

Outras coisas por que sei esperar? Não me ocorre nenhuma agora mas são muitas.

Falta-me paciência, essa é que é essa. Compenso com a tolerância, mas não é a mesma coisa e acaba por não compensar nada.

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O turco não tem cerveja. Posso parar na Portugália, talvez. Para compensar.

Não sei. Sei que qualquer dia está a chover e a burra não tem guarda-lamas e sei que a maré baixou fulminantemente e me deixou aqui fulminado, num turco manhoso a pensar que estou no Gambrinus.

Essa é que é essa. O resto é conversa de encher chouriços. Como a temperatura: se não gostam vão para o Alaska ou para a Groenlândia. Por mim podia continuar assim até ao Natal (com uma ligeira excepção para uma quinta perto de Évora que pertence a um amigo meu e está um bocado desesperado com a falta de água. Aí pode chover à vontade. De resto e enquanto isto estiver de maré baixa mais vale que faça sol e não chova).

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Sete e setenta,  o jantar no turco. O gajo bem podia preocupar-se um bocadinho menos comigo. Isto é, com a qualidade do que me ausências mim que sou o seu melhor cliente, diz ele. Eu e toda a gente que lê o papel na parede, claro. Um bocado infantil como estratégia de comunicação, mas enfim.

Acabou por ficar em sete euros. Não tinha troco. Bem feita: compensa a ausência de cerveja.

29.10.17

Diário de Bordos - Lisboa, 29-10-2017

Hoje a missa começou fraquinho mas foi melhorando e acabou numa apoteose,  que é o único termo que define o Gonçalo quando ele está em graça, em harmonia, em linha directa para aquelas profundezas de nós que não sabem distinguir um dó de um fá mas sentem cada molécula de som desde que a Hildegarde von Bingen se lembrou de escrever o que ouvia. Ou o que queria dizer, é a mesma coisa.

De maneira viemos jantar, a "magrela" e eu ao Domingos, na rua do Poço dos Negros. O Tambarina é para mim o melhor restaurante cabo-verdeano de Lisboa, não por ser o melhor restaurante cabo-verdeano de Lisboa mas por ser o melhor restaurante cabo-verdeano do mundo; com a possível e admissível excepção de alguns restaurantes cabo-verdeanos que provavelmente existem mas eu não conheço. 

A música hoje está baixinho e o Domingos deixa-me entrar com a "magrela" (acho que vou definitivamente e para sempre adoptar este termo, obrigado Fabreu. Magrela vai perder as aspas e devemos congratular-nos por isso, uma palavra com aspas é mulata demasiado vestida, ou beata fingida).

De modo é isto: encontrei por acaso o Z. M. no Tati e - de uma forma previsível e combinada - a T. e o marido e depois vim ao Tambarina e como por acaso a música continua boa apesar de tão diferente.

Como se por acaso o acaso fosse para aqui chamado, que não é.

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Ainda por cima tive hoje uma daquelas notícias de ordem familiar que me fazem pensar que ninguém consegue falhar tudo e que de entre as coisas que esse ninguém não falhou algumas são mais vitórias do que outras.

Ou seja: qualquer dia mudo de nome e começo a chamar-me Candide.

Post demagógico-afectivo; ou: sou um anjinho. Ou: mamas jungianas

Quem já viu um par de mamas viu-os todos; a quem já nas mãos teve um belíssimo par delas - ou dois ou três, não vão os meus leitores pensar coisas erradas a meu respeito - todas parecem belas: as mamas de uma senhora têm nelas as mamas todas de todas as senhoras, as boas e as más (não existe tal coisa), as grandes e as pequenas, as caídas e as leves como uma coluna de fumo que sobe da fogueira para o céu.

A única coisa que muda de mulher para mulher é o que ela tem por baixo do cabelo, entre as orelhas e se vê pelos olhos. 

Serviço público - Receitas (Porco panado em molho de gengibre e soja)

Não foi propriamente improvisado mas ficou bom:

Panar tiras de porco em farinha, ovo e pão ralado, como de costume; fritar em azeite, idem.
Uma vez dourada acabar de cozer a carne num molho feito com gengibre ralado e alho picado refogados e que se deixaram cozer numa mistura de molho de soja e água.

Levou cominhos, paprika, pimenta.

Pode ser servido como aperitivo se os pedaços de porco forem cortados pequenos. 

Empirismo, fé

O empirismo céptico é obviamente a atitude filosófica mais oposta à crença religiosa. É também a base filosófica do liberalismo. Não é portanto de espantar que para um liberal a esquerda pareça uma igreja e o esquerdismo uma fé sem qualquer base racional ou real.

28.10.17

Palavras banidas

Refiro-me às areias subterrâneas daquele país inominável. O país que baniu do seu léxico uma quantidade de palavras (a começar pelo seu próprio nome). Isto é: baniu uma vasta quantidade de palavras, deixando assim os seus habitantes mudos e surdos.

Uma dessas palavras - creio que estava na vaga inicial de banimentos - foi o verbo Amar, em todas as suas conjugações. "Amo-te" integrou portanto o index de palavras banidas.

E muitas outras. Um dia juntaram-se e formaram um rio, um vertiginoso caudal invisível por baixo do deserto.

Amo-te - provavelmente, de todas as palavras banidas a que mais falta fazia - ia à cabeça daquela longa fita que ninguém via, na qual se distinguiam por vezes patinadores, como se as palavras tivessem congelado.

Isto é: de vez em quando alguém derrapa numa palavra (ou em várias).

Fechemos todos os parênteses que possamos inadvertidamente ter deixado abertos. Derrapemos impetuosamente nas palavras que não vêem a luz do Sol, o luar, o dançar leve de uma jovem, o mar. Aprendamos a viver assim, debaixo do solo num país inominável. Nós, cujo único crime consiste em insistir, usar as palavras interditas: amo-te, por exemplo. 

Refúgios - editado

Talvez devido às nossas origens animais temos tendência a ver um refúgio como um lugar físico, uma paisagem, uma casa, uma gruta. Não é necessariamente assim: podemos por exemplo refugiar-nos na música (particularmente na de uma cantora de jazz chamada Jeanne Lee, na música medieval e mística de Hildegarde von Bingen ou na 5ª sinfonia de Mahler; ou em tantas outras). Podemos também refugiar-nos no álcool, especialmente no vinho ou no whisky, numa tentativa camusiana - isto é, inútil mas necessária - de afogar os demónios; podemos refugiar-nos nos livros, num corpo feminino (desde que esse corpo tenha uma alma, porque um corpo sem alma não é um refúgio, é um poço, é como cair a um poço). Muitos de nós refugiam-se na solidão: não é um bom refúgio, para mim. É o lugar da memória, da abjecção (“Solo una cosa no hay: es el olvido./ Diós, que crió el metal, crió la escória / y cifra, en su profética memória / las lunas que seran, y las que han sido”, dizia esse outro gande refúgio argentino).

A depressão é um refúgio, também; o pior e o melhor deles: é o mais doloroso, cruel, o mais indescritivelmente maldoso, o mais eficaz, porque nos isola de metade do mundo, da sua metade boa. E só nos deixa ver a dor. A depressão é como ter que andar com uma fractura exposta que não se vê, não se vêem as feridas dilaceradas, não se vêem as carnes rasgadas, não se vê o sangue, não se pode cortar o mal pela raiz sem cortar o mal tout court, ou a raiz. A amizade tão-pouco é um bom refúgio: não depende só de nós, e num bom refúgio devemos ser autónomos, por definição, sozinhos.

(Alguém dizia que a liberdade é a possibilidade de cada um escolher as suas própias prisões; um refúgio devia ser a versão optimista de uma prisão - como se houvesse versões optimistas do que quer que fosse...)

Mas enfim, devo reconhecer que tenho um refúgio secreto em Portugal, e que esse refúgio é um lugar físico: é o mar; em especial aquele pedaço de mar que vai do Cabo da Roca ao Cabo Raso, do qual nunca me canso, no qual nunca me canso. Gosto do contraste entre as linhas verticais do Cabo (que não são bem verticais, são oblíquas e um pouco grosseiras, como se estivesse a chover rocha) e a curva graciosa e horizontal da praia. Gosto do Guincho a pé, a cavalo ou de bicicleta, de carro ou de avião. Gosto de passar o Raso quando venho a navegar do norte porque é quando se começa a cheirar a terra e a serra de Sintra tem um cheiro bonito, a pinhais e a maquis – um pouco como o da Córsega, mas mais bonito, porque esta é a minha terra e o cheiro vem carregado de passado; o da Córsega só tem presente. Gosto de estar no mar a olhar para a terra e na terra a olhar para o mar. Gosto do Guincho nos dias de vento, que são muitos e nos dias sem vento, que são mágicos. Gosto do Guincho aos domingos, dias de procissão automóvel e às segundas-feiras à noite, quando não há ninguém para ver o facho luminoso do farol apontar para o mundo. Tudo isto apesar de não gostar de praia. Mas o Guincho e aquela zona da qual ele é a alma, o centro não é só uma praia: e ainda bem, porque como praia deixa um pouco a desejar, não é?, com aquelas correntes, a água glacial, as rochas, as ondas desencontradas, o vento.

Gosto daquele bocadinho de mar porque nele me refugio desde a infância, e os refúgios da infância nunca mais nos abandonam, sejam eles uma paisagem ou uma cabana nas árvores. Gosto daquele bocadinho de mar: e é nele que gostaria de me refugiar, um dia. Para sempre.

Estética e divisões

As mulheres bonitas deviam ter presente sempre que com uma feia se fazem as mesmas coisas.

Não é a beleza que divide, é o que está por trás dela. 

27.10.17

Círculos, espadas

Podíamos - nós, isto é: tu e eu - imaginar que é isto a noite. Isto sendo, claro, um círculo que ora fica aberto ora se fecha, consoante as vontades,  a minha ou a tua.

Se essas vontades não forem simétricas sai uma elipse. Uma coisa oval, feia se estiver ao contrário e bela às vezes, independentemente da posição. Prefiro a simetria; a beleza de um círculo; a ideia de que o que lhe fica dentro é tão perfeito como o que lhe é exterior.

É isso o círculo; também se faz com espadas. 

Até aqui

"Não morras já, que tenho uma espada que mata com mais amor".

É dessa espada que te falaria, se quisesses. Mas tu não queres. Dizes-me "cala-te e fere-me". Obedeço. Olho para o ponto no ventre que indicas com a mão enquanto me dizes "Até aqui". É profundo esse ponto. Tenho de ir longe, ao fundo de mim e olhar-te, como fazem os arqueiros zen: tu és o alvo, eu sou o alvo.

"Até aqui". Não te apercebes de que "aqui" fica no centro do tempo: quando lá chego o futuro acaba e o passado dissolve-se.

É assim que entro em ti: a matar com uma espada que mata com mais amor. Mas o amor não é para aqui chamado. Só existe "Até aqui".

Aqui sou eu e és tu. Um círculo, se quiseres; do qual o centro é "aqui" e o raio a espada, o tempo, o indefinível conjunto de coisas que nos levou  "Até aqui".

Discotecas, guia sintético e assíncrono

São poucas as discotecas em Lisboa às quais se pode ir: o Incógnito quando está vazio - acontece raramente - ; o Jamaica quando se está grosso (já lá não vou há duzentos anos); e o B.Leza, sempre. O B.Leza é a melhor definição de Portugal, a melhor montra. O B.Leza é Portugal. O resto é ruído.

(Antigamente havia o Lontra. Não sei se ainda existe. Era a versão crua do B.Leza).

26.10.17

Tentativa de definição

Talvez no fundo "viver em" se refira singelamente ao sítio onde está o livro que estamos a ler.

Diário de Bordos - Lisboa, 26-10-2017

Fui à apresentação de livros de poesia numa livraria da Baixa. Foi relativamente mau (relativamente para se perceber que relativizo: se calhar era muito bom e eu não percebi nada. Acontece-me muitas vezes não perceber nada. Aliás acontece-me mais vezes não perceber nada do que perceber tudo).

Não conseguia deixar de pensar, enquanto ouvia os senhores falar, em Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Pedro Tamen, Nuno Júdice, Miguel Martins e uma jovem poeta chamada Cláudia Rodrigues ou Sampaio ou coisa que o valha. Não me lembro do nome dela e logo que chegar a um computador vou procurar, se me lembrar). Pensava eu enquanto os ouvia "num país que produziu poetas destes [os acima citados e outros] devia ter-se muito cuidado quando se publicam livros de poesia" (entre aspas porque reproduzo fielmente o que estava a pensar enquanto os senhores falavam).

Depois chegou a fase das perguntas e respostas e eu enfureci-me comigo mesmo porque estava cheio de vontade de falar e vim-me embora e eu detesto quando a minha cabeça se recusa a aceitar a timidez como explicação para aquilo a que ela mesma chama injustamente cobardia. Sou tímido mas não sou cobarde e detesto que se confundam essas duas características. Não era por causa da poesia ser má que eu ia falar - um gajo que escreve o que eu escrevo não tem muito espaço para criticar negativamente os outros -. Era porque o senhor - um deles - começou a atacar umas pessoas que eu conheço e a falar de Debord e eu chateio-me quando as pessoas atacam outras que eu conheço sem razão (o ataque, não o meu conhecimento delas) mas vim-me embora timidamente.

Não foi cobardemente, imbecil (falo ao meu cérebro).

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Depois para diluir isto tudo fui beber uma ginginha mas o gajo que lá está não me conhece e é estúpido (sem relação) de maneira deu-me a ginginha num copo de plástico e eu já não tenho energia para discutir a merda dos copos. Faltam-me o senhor Manuel, que morreu engasgado e o senhor Coelho que lá está de pedra e cal há mais anos do que eu me lembro dele mas só trabalha de manhã. E depois vim comer uma sandes de ovo com chouriço à Ginginha Popular e uma febra, são óptimas tanto a febra como a sandes de ovo e pensei em Palma e achei que face a isto tudo bem podia dispensar uma vírgula ou duas.

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Hoje descobri que algumas senhoras acreditam que enviar a um homem fotografias delas nuas é sadismo. Também com isto a minha pobre mente se confundiu e começou a misturar tudo, Hugh e ego, por exemplo.

Duas coisas que não se misturam de todo, claro. (As vírgulas voltaram. Tudo acaba sempre por encarrilar).

Ou seja: o dia acaba em Lisboa, na Ginginha Popular a beber penalties e a lembrar-me da maravilha que viver em Lisboa é excepto quando o meu cérebro confuso mistura cobardia e timidez e precisa de ginginha Sem Rival para se desmisturar. Na Ginginha Popular a ginginha é mais barata do que na ginginha Sem Rival e é também Sem Rival e - prémio - é servida num copo de vidro.

Bom. Tenho a bicicleta afinada, uma quantidade decente e perfeitamente defensável de Ginginhas bebidas - três à data - as vírgulas estão de regresso, a temperatura exterior é doce como uma mulher apaixonada, "vivo" num quarto pequeno mas limpo (as aspas devem-se às diferentes interpretações que a palavra vivo pode ter) e por incrível que pareça os carris parecem estar paralelos e o comboio em cima deles.

"Je rêve d'un monde où l'on mourrait pour une virgule" disse o bom velho Emil um dia, como se uma vírgula fosse uma coisa pequena e desprezível.

Não é, Emil. Pequenos e desprezíveis somos nós. As vírgulas que deixamos são infinitamente importantes.

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De repente vêm-me à mente os fins de tarde na Barra, Salvador da Baía a beber caipirinhas sem açúcar e pronto lá vai tudo por água abaixo carris e ginginha e bicicleta e sandes de ovo com chouriço e.

25.10.17

O Sol e a Lua

Deixa-me dizer-te: vamos começar pelo fim. Vamos começar por nos insultar,  para que isso fique resolvido, feito e para trás. Depois conhecemo-nos tacteando no escuro; jantamos e finalmente escrevemo-nos.

Isto é o princípio; o fim vem depois do oceano, da chegada ao porto. Atracámos e desembarcámos. Deixámos o barco limpo, lavado e arrumado. Fomos para a terra e então  - só então - nos conhecemos.

Comecemos pelo fim. Deixemo-lo para trás. Naveguemos para o princípio, como fazem o Sol e a Lua todos os dias.

Sobrevivência

Sobreviver é uma maçada muito grande: há que recomeçar tudo cada vez que se sobrevive.

Emil chega aqui, por favor

Morrer a cada frase, como Cioran a cada livro: esta é a grande vantagem de um blog.

Oiça um bom conselho

Não percebo nada do negócio da edição de livros e não sei qual a relação entre a qualidade de um livro e o seu potencial de vendas.

Mas se eu fosse editor compraria os direitos para a tradução de Los Palimpsestos, de Aleksandra Lun, ed. Minúscula, Barcelona 2015.

Se aquilo não vender nada se vende.

Ingratidão

Lacan dizia que "a estupidez é uma histeria. Basta uma pessoa saber-se estúpida para deixar de o ser".

A minha tumultuosa relação com a estupidez - uma das raras características humanas que não suporto - faz-lhe ressaltar um certo traço lacaniano: a estupidez - uma das muitas características humanas que não me suporta - deixa de o ser porque justamente não gosta de mim.

Um estúpido que me detesta deixa de ser estúpido. Podia pelo menos agradecer-me, mas isso nunca acontece: ninguém me compreende. Excepto, claro, a estupidez, que é por natureza ingrata. 

Retratos avulso - mayonnaise

Cheio de simpatia, isento de quaisquer emoções ou sentimentos.

Temas: bonomia insensível. Empatia neutra. Indiferença. Afastamento  (éloignement). Il n'est pas ces arbres que l'on va abattre et pour lesquelles il se bat, ni - encore moins - ces  chiens que il nourrit et promène, les voitures qui claxonnent maladivement et dont il partage l'énervement des conducteurs.

Il est tout ça mélangé et séparé comme une mayonnaise qui a tourné.

Camus n'est pas loin. On n'abbat jamais les arbres qu'il faudrait, de toute façon.

Faudrait-il continuer en français, "cette langue d'emprunt" comme l'appelait le bon vieux Emil qui ne s'est jamais tué parce qu'il mourrait à chaque livre.

Deus, deusa

Há mulheres bonitas, feias, assim assim... E há a Jacqueline Bisset, a quem essas categorias não se aplicam.

Julgar a beleza de Jacqueline Bisset é como aferir a santidade de Deus.

Os vinte gloriosos

As mulheres só começam a ser mulheres aos trinta anos. Antes disso ou são demasiado complicadas ou demasiado simples. A partir dos cinquenta não são uma coisa nem outra.

Nunca ninguém cantará suficientemente a glória do equilíbrio. 

Vida, morte

Quem tem medo de morrer tem medo de viver. Só quem pode morrer a cada instante vive sempre.

Queres viver? Prepara-te para morrer.

24.10.17

Arnaldo e os museus

Arnaldo tem uma perspectiva solitária da pobreza; e outra, diferente mas complementar, pobre da solidão. Oscila entre as duas porque não sabe de onde melhor poderá analisar a sua vida. Além do mais é doente, mas isso ele não inclui nos dados para análise para não aumentar a complexidade do problema. Arnaldo é um homem simples, está visto e dito.

Todas as tentativas que faz para deixar de ser pobre, só (e doente) falham. Falta-lhe, pensa ele, uma visão clara das causas dessa situação e um real desejo para a alterar.

Coisa que no fundo é fácil: para deixar de ser pobre basta trabalhar; só, fazer amigos e encontrar uma mulher a quem a condição financeira dele não importune; (e doente, um médico e remédios). Noventa e nove por cento da humanidade faz isso com sucesso.  O restante um por cento alimenta literatura, teatro, cinema e quem sabe a escultura. Digamos: a arte.

Arnaldo era uma obra de arte em busca de um público. Infelizmente para ele há um facto quotidianamente comprovado: os pobres da rua não são os mesmos dos livros, tal como a solidão num filme é diferente da do vizinho (da doença então nem se fala: alguém pensa que um modelo de Botero é obeso, por exemplo?)

Talvez no fundo mais do que de um público Arnaldo precise de um museu.

23.10.17

Sol, enganos

Se estiveres num poço com uma pedra amarrada aos pés e as mãos amarradas atrás das costas e esse poço fôr fundo e estreito ao meio dia verás o sol brilhar.

Não te deixes enganar: o poço é fundo, a pedra pesada e o nó que te prende as mãos impossível de desfazer.

Círculo

Navegar sem fim um corpo sem princípio. Navegar no princípio do corpo o corpo do fim. Há um corpo no princípio e outro no fim. Há um fim, um princípio e um corpo. Amar do princípio ao fim o fim e o princípio. Navegar o círculo do teu umbigo, navegar até ao umbigo do mundo, que não tem princípio nem fim: os corpos são o mundo. Amar é o círculo no qual o princípio e o fim se tocam.

Imagina um corpo. Imagina um princípio. Desenha-lhes o fim: é um círculo. 

21.10.17

O vinho e a chacha

A Sifoneria, de longe a melhor cave de vinhos que conheço nos dois hemisférios - o Norte e o Sul, o Este e o Oeste - reabriu. Agora chama-se Bodega Santa Clara e continua onde sempre foi: Carrer de Santa Clara 4.

O resto - tudo o resto - é conversa de chacha.

Relatório e contas

Cinco livros, três discos e um par de jeans pelo preço de uma viagem para Lisboa.

Um desses livros (Palimpsestos, de Aleksandra Lun, ed. Minúscula) começa com esta frase (a tradução do espanhol é minha): "Chamo-me Czesław Pręśnicki, sou um miserável emigrante da Europa do Leste e um escritor falhado, há muito tempo que não tenho relações sexuais e estou a dar entrada num manicómio na Bélgica, um país que há um ano não tem governo."

Outros chamam-se "Releer a Rilke", ou "Elogio de la anarquia" (os autores são "dois excêntricos chineses do séc. III" - não sei como se pode ser anarquista e excêntrico ao mesmo tempo, mas passemos).

Passemos também uma pergunta sobre o regresso a Lisboa.

Diário de Bordos - Palma de Mallorca, Baleares, Espanha, 21-10-2017

Há uma mistura entre a geografia, o tempo, a memória e a felicidade (ou pelo menos o bem-estar. Não exageremos). Quero dizer: há sítios em que nos sentamos num café a beber um licor de Hierbas seco e o tempo passa por nós como se fosse água mas não nos molha. Como se estivesse a chover e nós a dançar imóveis, à chuva sem chapéu e sem candeeiros, só com tempo. Tempo no sentido lato: hoje, ontem e amanhã passam-nos igualmente pela impermeável superfície que a geografia montou e à qual por falta de vocabulário adequado chamamos pele.

Palma, claro. Licor de Hierbas, Restaurante El Puente, Livraria Biblioteca de Babel, bar Antiquari. Perdi-me quando saí do El Corte Inglés, por incrível que pareça. Uma irrupção de presente nesta mistura que à partida parece de betão armado e um gajo perde-se.

Comprei muitos livros, alguns discos e um par de calças, que é o mais urgente. Em Lisboa comprarei o resto. Não é possível não viver em Palma. Já me aconteceu muitas vezes, mas cada vez que aqui venho pergunto-me como fiz.

Voltando ao princípio: um gajo senta-se num restaurante, pede uma cerveja, espera um bocadinho e de repente começam a pingar gotas de tempo e esse mesmo gajo pensa "Olha que giro! Está a chover e não me molho", assim, com pontos de exclamação e tudo. Esse gajo faz de propósito e vai à Babel comprar livros, senta-se no Antiquari para os ler - coisa que não faz devido a uma irrupção súbita de disparates - e pensa "o futuro molha muito mais do que o passado".

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As mulheres de Palma são bonitas, mas não tanto quanto as de Genève. Isto é: em Genève são todas bonitas, mesmo as feias; aqui só as bonitas o são, mas há muitas. 

20.10.17

Diário de Bordos - Sul de Ibiza, rumo a Palma, 20-10-2017

Estamos finalmente a andar. Entrou vento, 15 - 20 nós pelo través. O TTG avança aos solavancos, saltos, esticões neste mar curto do Mediterrâneo. As pessoas que compram catas porque acham que são mais confortáveis só os vêem no porto.

Rizámos e perdemos pouco em velocidade; não valia a pena esperar mais. Se o vento não caísse passaríamos Ibiza ao meio-dia e as dez da noite estaríamos em Palma. Infelizmente vai cair de certeza.

É aproveitar enquanto há, solavancos ou não: é a primeira vez que não oiço a merda dos motores desde que saímos de Cascais.

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Por falar em Cascais: acharam a Marina detestável. Pessoal antipático, material degradado e sem manutenção. Curioso como certas coisas não mudam, apesar de o mundo ser composto de mudança.

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Ando outra vez transformado em farmácia ambulante por causa do cotovelo. Quem me cortasse o braço direito e o deitasse ao rio não sabe o favor que me fazia.

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Esta noite vi a maior estrela cadente de toda a minha vida. Ao princípio pensei que fosse um avião com as luzes de aterragem acesas; depois um satélite que se tivesse enganado de órbita.

19.10.17

Diário de Bordos - No mar, a Leste do cabo Palos, rumo a Palma, 19-10-2017

"Mantém-te sempre a barlavento do teu rumo". É giro ter de navegar com armadores a quem tem de se explicar coisas básicas como esta. Tomara hajam muitos, sejam simpáticos e me paguem, como estes.

Vamos a caminho de Palma, finalmente. Estava a ver que ainda tinha de parar em Denia, mas não. Um bocadinho de vento esta noite, mas pelo través. Disse à senhora que seria pouco tempo. Não gostam de vagas. É como eu quando decidi ir viver para o campo: um que é que um gajo alérgico à clorofila foi fazer para Bassins? A diferença é que não paguei meio milhão de euros para isso. Eles sim, ou quase; e ainda por cima por um bote que é uma bela merda.

Mas não sabem e não sou eu quem lhes vai dizer. Pelo menos tratam-no bem. Hoje tivemos o Juan Pedro, por um problema no leme e a malta da Volvo para o serviço das duzentas e cinquenta horas. Já me disseram que posso ficar a dormir a bordo se quiser passar uns dias em Palma. Quero, claro.

Mas não muitos. Dia 25 tenho imperativamente de estar em Lisboa. É um imperativo bom e para esses sou um rapazinho obediente.

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Hoje vi-me grego para encontrar uma padaria aberta às sete da manhã. Não há países perfeitos. Este tem esse problema, mai-lo palerma do Puigdemont. Não sei como estão as coisas pela Catalunha. Não consegui sintonizar o Facebook para lá.

Andam todos entretidos com aquela mistura de incêndios, ministros e incompetências diversas que por lá grassa.

Só tenho pena que o Passos Coelho se tenha retirado. Para o que aí vem, antes padarias que não abrem a horas decentes e um palerma que ninguém percebe.

17.10.17

Diário de Bordos - No mar a Sul de Adra rumo a Cartagena, 17-10-2015

São seis e meia da tarde, estou de quarto até às nove (entrei às seis), está frio (é o primeiro dia de Outubro desta viagem), o vento está ponteiro mas fraco e vamos a motor. Estou quinze milhas a Oeste de Almerimar (e a cinco de terra); desde pouco depois de Sagres que a VHF não se cala com avisos à navegação: cinquenta e cinco pessoas; trinta e quatro; oito; cinquenta e sete, a bordo de lanchas, botes de borracha, insufláveis... É horrível. Penso no que está gente pagou para ser tratada desta forma, explorada, roubada, entregue a campos de refugiados. Tudo isto é melhor do que o que têm; tudo isto é nojento.

A Europa tem culpas no cartório. Não as que os "desculpistas" tiram do chapéu a cada esquina, mas as de fechar as fronteiras aos produtos agrícolas que os países africanos podiam produzir e exportar; as de alimentar e financiar regimes corruptos e despóticos para aliviar a má consciência  (que é completamente injustificada, ainda por cima).

Ou seja, para nos desculparmos de crimes imaginários e para proteger meia dúzia de agricultores franceses condenamos milhares de inocentes à morte e à infâmia de uma vida miserável.

Depois vamos ajudá-los: enviamos meninos e meninas em barquinhos, enviamos vasos de guerra e lançamos avisos sem fim na VHF.

Merda! para esta merda toda.

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Entretanto Portugal arde e António Costa dá uma lição ex-catedra sobre a arte de ser português.

Lição que aprendi mal, infelizmente e agora é tarde. Gosto de Portugal e provo-o com actos, não com palavras; viajei o suficiente para saber que todos os paises têm coisas detestáveis. Mas Portugal é o meu e é onde quero passar o que me sobra (ou o que me falta, depende do ponto de vista). António Costa provoca-me náuseas,  quase tantas como o seu patrono Sócrates. Deviam ir os dois combater os incêndios ao lado dos bombeiros. E se possível ficar por lá.

Enfim, não lhes desejo a morte. Mas umas queimaduras em segundo grau não lhes fariam mal. E talvez abrissem os olhos dessa ameba escorregadia que faz de nós parvos. (O outro pelo menos tem a justiça pela frente. Ao menos isso. Custou mas foi).

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Está frio, estou com vontade de chegar a Palma e amanhã entra badanal. O mar está cheio de desgraçados em busca de uma vida melhor do que a que teriam se ficassem nos seus países. Melhor deixar o Costa em paz, mai-los agricultores franceses e os meninos com sede de aventura. Antes concentrar-me no quarto. Ainda faltam duas horas.

[Adenda: apresso-me a esclarecer os mais puristas que não há tráfego, estou longe da terra e levanto os olhos do telefone de cinco em cinco minutos.]

Um post curto sobre lulas fritas, badanal e princesas

A próxima escala é em Cartagena: vai entrar badanal e nem os armadores nem eu estamos com muita vontade de nos chatear.

Antes assim. Pode ser que haja uma boa exposição no Museu e haverá de certeza lulas fritas no café Taona. Fazem-nas com farinha de grão-de-bico, se a memória não me falha. Ficam levezinhas, deliciosas, finas.

Entretanto Palma faz-se esperar, como convém a uma princesa.

Milagres e cocó nas fraldas

Não é serem idiotas;  não são  (aliás estes até são adoráveis); não é não perceberem nada disto, coisa que graças à miserável expansão da RYA já não depende sequer da idade: a RYA está a matar a arte de marinheiro; não é serem arrogantes - toda a ignorância é arrogante -.

É pior, mais fundo e mais intratável do que tudo isso. É não se maravilharem, não verem o milagre. É eu estar farto.

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Enchem-se de electrónica, que percebem tanto quanto eu o chinês do séc. V a. C. Não sabem falar: dizem bumpers em vez de fenders, janelas em vez de vigias, chamam paredes às anteparas; não sabem que não se dorme num quarto, dorme-se num camarote. Não sabem sequer andar a bordo: parecem elefantes bêbedos. E vão para o mar assim.

Em terra estariam no jardim de infância e aprendiam a não cagar nas fraldas.

16.10.17

Serviço Público - Restaurantes Málaga

Largamos amanhã de manhã cedo e deixo aqui uma palavrinha rápida para recomendar aos meus leitores que se um dia tiverem de passar em Málaga e nesse dia precisarem ou de um pequeno almoço ou de uma refeição rápida, boa e barata um dos sítios a ir é a padaria La Canasta, sita na Av. de Cánovas del Castillo 2.

(Normalmente estas indicações de restaurantes são para mim, mas da espécie de prego com presunto que hoje jantei não corro o risco de me esquecer nos próximos duzentos e cinquenta anos).

Diário de Bordos - Málaga, Andaluzia, Espanha, 16-10-2017

Ia a caminho da sesta, juro que ia. Mas mal saí do café Bruselas - o meu antro em Málaga desde que a J. me levou lá - ouvi música. Eram dois gajos, um baixo e um guitarra, francamente bons. Tive um certo contacto com músicos de rua há alguns anos e é uma classe profissional pela qual tenho o maior dos respeitos.

Quando são bons ainda mais.

Estes são dos melhores que tenho ouvido, ao nível de uma banda em Palma que incluía uma violinista búlgara, uma cantora portuguesa e um baixo argentino que estavam para lá do muito bom. Aqui os dois andam lá perto. Têm aquela qualidade fundamental na música de rua que é o bom humor, fazer rir as pessoas, quase mais importante do que a técnica.

Infelizmente o mojito do Café con Libros - à frente do qual tocam - não está à altura. Lembro-me de alguns tão maus como este, mas pior nada me ocorre. Fica o nome do café e a música,  que agora acabou e me deixa aqui pendurado, equilibrista entre uma sesta mais do que merecida e um mojito que ninguém merece.

Diferenças

Um barco que é uma merda, comparado com o outro; mas está novo e é bem mantido. E um armador sério em vez de um aldrabão, ladrão e outras coisas acabadas em ão.

Para um engenheiro, provavelmente, cada ponte é uma ponte; para um médico, cada doente um doente. Para mim, cada barco é um planeta. 

15.10.17

Diário de Bordos - Málaga, Andaluzia, Espanha, 15-10-2017 / II

Uma vez saindo das imediações do porto e embrenhando-nos nas ruelas pedonais do centro Málaga perde o ar compostinho de menina de boas famílias. Antes assim.

Tinha duas missões: comprar um cartão para o telefone do armador e analgésicos para mim (isto é, para a porra das epicoisas). Uma das grandes vantagens de Espanha é que as ruas estão cheias de mulheres espanholas. A desvantagem sendo que perguntar uma indicação a um transeunte é a mesma coisa do que perguntar a um marciano onde é a casa da Mariquinhas, seja qual for a distância a que o dito cidadão esteja do alvo da nossa pergunta.

Acabei por encontrar as duas coisas; não me queixo, afinal de contas, da combinação perguntas & espanholas. Agora resta aguardar que o analgésico faça efeito.

Vim para a Casa Lola (dito assim parece que conhecia; está longe de ser o caso, infelizmente) beber vermutes do barril - uma das especialidades da casa - ver se o Tramadol se despacha. Ajudá-lo, por assim dizer.

O sítio é melhor do que bom e o vermute melhor do que o sítio. Só tenho pena de não ter vindo almoçar aqui, mas não faz mal. Amanhã também é dia.

Todos os dias são dias, claro. Um pouco mais quando a merda do cotovelo se esquece de mim, um pouco menos quando não. Médias feitas, não me queixo. Imagine-se que estava a doer-me o cotovelo na Amadora.

¡Y viva a España!

Casa Lola
www.tabernacasalola.com
+34 952 223 814
c/Granada 46
Málaga

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O vermute de barril não parece ter grande efeito sobre o analgésico. É uma mistura de Tramadol e Paracetemol. Uma merda, é o que é.

Vou para bordo dormir.

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Vai tu.

Diário de Bordos - Málaga, Andaluzia, Espanha, 15-10-2017

É domingo, mas já ganhei a minha caña, a J. vem aí, o tempo continua estival e a única coisa que me chateia é que se calhar vou ficar mais um dia aqui, a fazer fé nas últimas previsões. Talvez seja engano, não sei, vamos ver. De nada serve um gajo excitar-se demasiado antes de tempo, nesta vida de mar. Agora espero pela J., bebo uma cerveja e escrevo disparates no café Galopain, uma coisa metida a afrancesada e cujo nome começa logo por um erro de ortografia, suponho. Devem ter querido dizer Galopin, que é o equivalente à nossa Lambreta, uma imperial pequena. Meia imperial, por assim dizer.

Málaga está mais calma do que da outra vez que aqui estive, foi no pico do Verão. Parece uma cidadezinha burguesa, calma e de bom gosto, pelo menos a julgar pela padaria La Canasta onde hoje comprei pão, presunto e chouriços para o pequeno almoço e pelo erro de ortografia que lhe fica mesmo à frente, onde tento enganar o sono porque me deu um ataque de soneira que só com mais dez cañas passará; não comemos os enchidos e o presunto porque os armadores não quiseream e eu não quis abrir aquilo só para mim mas o pão era excelente e marchou deliciosamente com a manteiga dos Açores.

Galopin também significa "miúda da rua".

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Pouco importa. J. apareceu, mas de raspão porque tinha de ir trabalhar e eu mudei-me para a Canasta onde daqui a pouco me vou encontrar com os armadores e onde agora bebo um copo de vinho tinto e penso na ecologia, na J., em St. Martin onde a conheci - ficou comigo a bordo do S. M., cada um no seu camarote sem excepções, note-se - e em como não sei como raio de carga de água vou deixar esta vida, parece-me que querer viver em terra é como querer andar atrás das miúdas que me deram tampas atrás de tampas. Ele é a terra e as miúdas, tampas e sonhos.

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Os domingos de manhã foram feitos para isto, não foram?

(Isto sendo trabalho, uma miúda cujos cabelos brancos fazem mais bonita do que quando os tinha só pretos, pretos retintos, vinho tinto - cf.missa, já lá alguém viu vinho branco? - e umas croquetas de salsichón de Málaga que a três euros e picos a meia dúzia deliciosa me fazem perguntar se um dia não terei de me mudar para Espanha e sim quando (a net de merda diz-me logo que não, obrigado, nunca).

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A dor no cotovelo direitio tem nome, desde Abril. Chama-se epicondilose e não me larga, a puta. As putas: são duas, uma ao lado da outra.

14.10.17

Diário de Bordos - No mar, a sul de Marbella e rumo a Málaga, 14-10-2017

Chama-se a isto "um tempo de senhoras": cinco nós de vento, mar chão e nós a caminho de Málaga porque amanhã vai entrar vento de proa e ninguém a bordo está com vontade. Paramos dois dias, se as previsões estiverem correctas. Espero que estejam. Gosto mais de Málaga do que a conheço e se a J. lá estiver terei uma boa guia.

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Não sei se é a idade, se o bom senso (não andam sempre juntos, ao contrário do que por aí se diz) se o que é: mas deixei de me importar com o motor. Há já algum tempo, não é de agora: gosto de estar no mar, seja à vela seja a motor (se bem prefira aquela, claro).

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A dez milhas de terra e tenho net. Qualquer dia estou a queixar-me de que a net é lenta.

Alegrias novas

Aqui o coitado do Don Vivo fica todo contente quando o escrevo do mar. 

História velha

A apanhar porrada para entrar no Estreito. Onde é que já ouvi isto?

13.10.17

O centro do mundo

Um gajo vai deitar-se e pergunta-se onde estão os centros do mundo que farão de uma noite vazia uma noite cheia como a Lua.

Serviço Público - Restaurantes em Barbate.

El Ancla del Galéon. Av. del Mar 98. Barbate.

É uma tasca e tem a melhor barriga de atum que comi em muitos anos.

Diário de Bordos - Barbate, Andaluzia, Espanha, 13-10-2017

Pode ser que o amor obnubile a memória;  ou a exacerbe. Vá saber-se. A verdade é que procurava um lugar onde estive com uma senhora que amava, faz agora alguns anos. Não encontrei.

Jantei com os armadores - um casal bastante mais simpático do que parecia às primeira e segunda vistas -; depois despachei-os para bordo e Ecco!

Encontrei o lugar. Não encontrei o então amor, claro. Esconde-se para lá da outra metade do mundo. Mas reencontrei-me, factor não despiciendo no meio deste turbilhão. Parece uma daquelas misturadoras de gelados mas com mil sabores diferentes.

Dois deles são clássicos: licor de hierbas e um cigarro comprado avulso. Vinte e cinco cêntimos cada; e a salsa nos altifalantes. Três. E estar ligeiramente grosso. Quatro.

Num turbilhão. Cinco.

Barbate é maior e mais feia do que a minha memória obnubilada ma representava. Antigamente chamava-se Barbate de Franco, mas deixou cair a segunda parte do nome. A marina continua vazia e com precos ridiculos de baixo.

O amor ou é obnubilador ou não é amor. É outra coisa qualquer.

Está calor. As pessoas que reclamam contra o aquecimento global não sabem viver. Isto é: não sabem nada.

Eu sei muitas coisas. Viver, por exemplo: basta calor, licor de hierbas, um cigarro avulso e a sombra de uma ameaça de um turbilhão. Tudo isto num molho de memórias e futuros breves, como são os meus.

Despachei os armadores e pensei que ficava sozinho. Não fico. Merda.

12.10.17

Diário de Bordos - No mar, Cabo de S. Vicente, 12-10-2017

Ora bolas. Não é com viagens assim que se conquistam donzelas. Nem uma baleia no esgoto do duche, golfinhos no convés, mastros a explodir, lemes a cair... Nada disso. Mar chão, vento ponteiro mas fraco como café americano... Nada que faça ressaltar a nossa coragem, sangue-frio, rapidez de raciocínio e por aí fora, nós outros tão fortes e bons e a natureza não colabora.

Antes assim: pelo menos telefones e computadores andam carregados. Não haverá histórias para contar mas podemos falar desta manhã tão bonita, S. Vicente a sair da bruma, a Pedra do Gigante de sentinela ao lado, o calor a querer furar o pouco que resta do frio da noite, que já foi pouco.

Perto do cabo o vento cresce um bocadinho. A ver o que faz depois. Se a previsão estiver correcta só lá para domingo teremos de parar, em Cartagena ou quase.

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Daqui a pouco deixamos de ver terra. Não estamos a mil milhas do porto mais próximo - os melhores lugares do planeta (desde que sejam no mar, claro) - mas com um pequenino esforço de imaginação podemos pensar que sim.

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Estar no mar é bom. O barco é pequeno e uma merda mas novo, o armador e a mulher muito mais agradáveis do que esperava. Há pouco vento e vamos a motor. É sempre assim: ou não há vento ou está contra... Escrevo isto e penso nos milhares de horas que passei com ventos bons, para ré do través. Foram muitas. Estou-me nas tintas para o motor. É da maneira que chego mais depressa à Palma da minha vida.

11.10.17

A fala do falo

Eu falo duro e ela manso? Não. Ela fá-lo duro e eu mansinho falo.

Terra no Paraíso

Vejo tantas vezes a expressão "Paraíso na Terra", aplicada a tantos lugares diferentes de todas as longitudes e latitudes que me pergunto se a Terra toda não será um paraíso.

É. 

10.10.17

Hoje, sempre

O mar que ontem foi e o que amanhã será são o mesmo: o mar tem esta estranha capacidade de negar ao tempo as distinções das aparências.

Como na mulher amada de amanhã vemos a de ontem : ambas são a de hoje.

A última chuva

Da chuva fininha a escorrer-te ao longo da pele e dos dedos que a perseguem.
Sossega. Há minutos que cheguem, vidas. Acalma. Apaga as chamas desse incêndio que do mar te sobe pela coluna, escorrega na pele, tropeça no tempo, num fio de luz a que trôpego chamas amanhã. Há mais noite do que vidas: a cada uma delas morres e de cada uma delas ressuscitas.

Até à última. 

Um dia

"Não há panela sem tampa", dizia o sapo à princesa. Coitada não sabia o que é um sapo: animal gordo careca e escorregadio, esverdeado e esbugalhado, encalhado e encanado (de onde a expressão "encanar a perna à rã" - as pessoas confundem sapos e rãs com a maior das facilidades).

O sapo perdera o Norte havia de ali meia dúzia de dias. Talvez semanas ou meses. Talvez anos. Não sabia. Ignorava mesmo se era sapo, rã ou um animal desconhecido criado por Deus depois de ter bebido uma quantidade indeterminada (isto é, elevada) de medronho.

"Refiro-me à qualidade da noite". Andam anjos por aí. "À alternância: a uma lua cheia sucede-se um quarto minguante e a este uma lua nova. Segue-se-lhe um quarto crescente. A Lua disse-me um dia ao ouvido "estou farta de saltar de quarto para quarto. Quero morrer nova". Falo na primeira pessoa. Pouco interessa: a maioria das pessoas que nunca lerão isto já terá imaginado: a Lua não sabe do que fala. E muito menos a quem. Por detrás da Lua esconde-se uma cratera. Dentro desta, outra lua. Cratera. Lua. A vida é assim feita de uma sucessão de luas e de crateras sobre a qual saltam rãs e sapos, príncipes e princesas, nomes em cascatas sem fim.

Não importa. Imaginemos uma noite e nessa noite uma pele; nessa pele uma voz; nessa voz um medo, uma confusão, um apelo,  uma timidez. A voz - cada uma delas - é um mundo. O sapo deixa-se escorregar à superfície desse mundo, que lhe entra pelos póros, dedos e desejo e esquecimento e alegria em riste. Cada mundo tem muitos dedos, muitas vozes, uma sede, um olhar que se bebe a si próprio.

"Não gosto de espelhos", diz o sapo. "Olha melhor", diz o Príncipe. "Sou cego". "Melhor. Abençoados os olhos que não vêem, os ouvidos que não ouvem, as bocas que não falam. Deles não sairá asneira, por eles não entrará pecado".

Imagina um corpo. Cala-te. Faz amor com o silêncio como se fosse o futuro: lembra-te de tudo o que um dia te vai acontecer e para o que ainda não tens palavras.

É tudo. Vozes de burro não chegam ao céu. Só o silêncio lá chega: o céu é um vasto corpo silencioso no qual uma lua se queixa e uma voz chora, nostálgica e meiga, o que um dia será. 

9.10.17

Sonhos duracell

Portugal é um país lento. Quem quiser sonhar aqui mais vale ter sonhos de longa duração. 

7.10.17

Da memória

É assim que por vezes às vezes penso em ti: tu por vezes em cima de mim eu às vezes em cima de ti.

5.10.17

Vida, velhice

A longa vida velhice breve.

1.10.17

Séculos de reflexão

Os portugueses têm tanto horror à mudança que nem para corrigir o que está notória e consensualmente errado o conseguem ultrapassar.

Fomos o último país da Europa a actualizar a lei das Rendas - todos tinham uma semelhante, depois da guerra e todos as actualizaram nos anos sessenta -; e agora fazemos o mesmo com o dia de reflexão e com mais alguns milhares de leis, regulamentos, burocracias e outras idiotices.

Diário de Bordos - Lisboa, 01-10-2017

Era um gajo surdo, tão surdo que a surdez se lhe via de longe.

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Uma das coisas boas de andar de bicicleta em Lisboa é que se fica imediatamente a saber que temos os melhores condutores de automóveis do mundo. Um ciclista faz uma daquelas microscópicas, inofensivas e irrelevantes infracções e logo a chusma dos automobilistas que nunca estacionaram em cima de um passeio, passaram com um sinal vermelho, viraram sem pisca-pisca e por aí fora apita e manifesta a sua indignação.

 (Forçoso é porém reconhecer que hoje um automobilista cruzou-me quando eu ia em contra-mão e parou para me deixar passar.)

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A maré baixa, baixa e o Verão prolonga-se. Antes assim. Maré vazia por maré vazia ao menos que seja no calor.

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A amizade faz aparecer o melhor que há em cada um de nós; a família dá ao pior um vasto campo de possibilidades de manifestar-se.

Pitigrilli, um autor que fez as delícias da minha adolescência escreveu numa das suas muitas e hoje justamente esquecidas obras "pior do que inimigos, eles eram irmãos". Percebia sem dúvida de irmãos, talvez por experiência directa; e de amigos, quanto mais não fosse a contrario.

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Ontem (na verdade ainda é hoje) fiz sessenta anos. Aquece-me pouco e arrefece-me menos: o jogo só acaba no fim. Até a linha ser cruzada a regata continua; a viagem não acaba até os cabos estarem passados, a máquina parada e à manobra ter sido dada volta.

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Breve entrevista com R., que vai animar um dos meus ateliers flutuantes. A graça existe; neste caso é dupla, interior e exterior.

Sorte a minha: tem aquele tipo de graça contagiosa, airosa (como em aérea), leve e transbordante. Acompanhou-me o que sobrava do dia.

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Avanço pelo tempo como um porta-aviões sem escolta: invencível e vulnerável. Fortaleza frágil, solitária no meio do deserto.

A imagem é mais bonita do que verdadeira, mas não muito.

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Estou cansado, esgotado, exausto como se os sessenta anos que levo tivessem decidido encavalitar-se-me aos ombros.

E na cabeça também, de resto. É em dias assim que lamento não ser capaz de dormir muito. Uns dez anos, por exemplo.

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Ao fim e ao cabo uma só palavra sobrevive. Ou melhor, flutua: hallelujah. E um sinal de pontuação: !