30.10.13

Reedição

Marinheiros

Os marinheiros, dizem os franceses, “sabem fazer tudo, vírgula, mal”. Nesse sentido sou um marinheiro nato: sei fazer muitas coisas, e faço-as todas mal. Gosto de escrever – e alguns de entre vós pedem-me para escrever mais vezes; hélas, estou longe, muito longe, da perfeição. Gosto de beber – e não sou o pior nessa arte; mas cada vez suporto menos o álcool, e me suporto quando bebo. Também gosto de fotografar, mas as minhas melhores fotografias estão perdidas algures no Jura Neuchâtelois. E gosto de fazer amor – quem não gosta? É a única coisa que mais vale fazer mal do que não fazer de todo...

Gosto de fotografar como de amar: os gestos param, os olhares interrogam-se, o outro corpo deixa-se acariciar pelo tempo e pela luz, como a vida. Hoje falta-me a vontade de convencer as pequenas, e de andar com a máquina às costas, todos os dias. Mas enfim, divirto-me: faço fotografias demagógicas de leões e de girafas, sempre fáceis e impressionantes. O que já não faço são fotografias de corpos, fáceis ou não: para uns falta-me segurança e aos outros falta sentido.

Falta-me a paciência para amar porque me falta o amor tout court: para amar um corpo feminino há que amar-se, e eu não me amo, detesto-me. Claro que continuo a sonhar com aqueles dois pássaros tantas vezes na gaiola e tão bonitos fora dela, com aqueles ventres lisos como praias soalheiras e salgadas – mas são sonhos, falta-me a energia para os concretizar.

Penso muitas vezes em todas as mulheres em quem encalhei, por quem me perdi e que perdi. Cada corpo é, ou deve ser, um abismo, um recife, um porto após a tempestade, um farol no nevoeiro – nunca tive uma mulher em cada porto, mas cada mulher foi um porto para mim.

Cheguei pela primeira vez a Dunkerque num botezito pequeno, um Rush. Vínhamos de Guernesey e os proprietários deixaram-me ficar a bordo depois do transporte. Foram meses divinos: encontrei trabalho no bar do clube local, encontrei amigos, e vivia como um deus, apaziguado. Nessa altura tinha muita paciência e muita vontade de encontrar namoradas, e de dançar, de me bater nos bares (na verdade, só me bati uma vez). Encontrávamo-nos na “Pilotine”. O barman chamava-se Jean-Paul, mas eu chamava-lhe Johannus Paulus, porque ele era pedante, e eu também, um pouco.

Cada vez que abria a porta do café um braço levantava-se e alguém gritava “Jean-Paul, a primeira cerveja do Luis é para mim”, logo seguido de outro e outro e outro. Quando chegava ao balcão ainda não tinha começado a beber e já estava grosso, naquela atmosfera calorosa, excitante, selvagem. Gosto de Dunkerque como se lá tivesse nascido.

O meu amor por essas regiões começou em Guernesey: entrámos no porto com força 6 no c..., spi em cima, porque estava quase na hora de fecho dos pubs. Fizémos uma manobra magnífica: spi em baixo e nós amarradinhos no lugar. Como em todos os portos ingleses, o fiscal estava à nossa espera, e insultou-nos durante cinco intermináveis minutos: que aquilo não era maneira de se entrar num porto, que a velocidade estava limitada a três nós, que para a próxima vez nos multava, que era coisa de piratas – e terminou a lenga-lenga dizendo, muito britanicamente: “mas tenho que vos felicitar pela vossa manobra de atracação, que foi perfeita. A melhor Guinness é no não-sei-quantos-pub, corram para lá que ainda o apanham aberto”. Corremos, e eu apaixonei-me por aquelas ilhas para sempre; ao contrário da Guinness, de resto, da qual não gosto do xaroposo.

Foi o meu primeiro contacto com a cerveja e com as suas civilizações. Os monjes alemães chamavam à cerveja o “pão líquido” e Deus sabe quanto, oh quanto, eles têm razão. Era a base da minha alimentação, nesses tempos, e ainda hoje olho para a minha barriga irreductível e penso nos dias em que as cervejas que bebia eram mijadas, ejaculadas, batidas a murro, transpiradas ao som de músicas hawaianas e convertidas em intermináveis, mas geralmente recompensados, diálogos nas praias do mar do Norte.

Em Dunkerque eu tinha o barco a poucos minutos da Pilotine e era feliz, todo-poderoso, invencível. Um dia apaixonei-me: uma rapariga bela e doce, com quem vendia livros pró-independência da Flandres e fazia amor nas margens dos canais cobertos de nevoeiro. Às vezes parávamos para beber uma cerveja naqueles moínhos transformados em cafés e eu olhava para os cabelos dela, que tinham a cor da cerveja, e para os olhos, que eram azuis escuros como o mar num dia de muito vento e ainda a amava mais; e pedia-lhe silenciosamente que me perdoasse todo o mal que um dia lhe viria a fazer, e que eu mesmo ainda não sabia qual seria. Quase morri por causa dela, numa praia perto de Sintra, e ela não percebia porquê, eu nadava contra uma corrente insensata, contra uma quantidade incalculável de bagaceiras e vinho, e contra o meu medo.

Nem quando estou bem estou bem. E agora escrevo estas coisas a ouvir o Willie Nelson, que tem letras lindas sobre a solidão, e ninguém imagina a solidão e o horror em que vivo. E o medo... digo sempre ao meu filho que só os idiotas não têm medo, que ser corajoso não é não ter medo, mas sim vencer o seu medo. E tenho medo. No mar os medos são diacrónicos, vêm sempre antes ou depois do pior acontecer; não estou no mar, mas sei que o pior ainda está para vir.

Maputo, 1999.

Diário de Bordos - Palma de Maiorca, Baleares, Espanha, 30-10-2013

Hoje o jantar ficou péssimo.

Isto traz imediatamente à memória a hisória do comandante que era um bêbedo, engrossava-se todos os dias, e do imediato que não tocava numa gota de álcool.

Um dia o imediato chateou-se e escreveu no Livro de Bordo "hoje o Comandante estava embriagado". Este enfureceu-se, claro, quando viu aquilo no dia seguinte. E respondeu: "hoje o Imediato não estava embriagado".

O jantar estava de facto mau; saber se isso é frequente ou não fica à discrição.

A ideia era improvisar um frango à base de gengibre, curcuma (a que em Portugal chamamos açafrão doce, ou coisa que o valha) e alecrim. Mas enganei-me no limão, pu-lo em muita demasia, e a coisa ficou sem outro gosto que o acre.

Acontece aos piores... Os limões de Palma têm gosto, estamos todos avisados.

........
Passo os dias a bicicletar por Palma, e a pensar na sorte que tenho: ser amado por uma cidade assim é como ser amado pela mulher que amamos.

E percorrê-la de bicicleta é como levá-la a jantar a um restaurante do qual gostamos muito: temos de a conhecer antes de saber que ela nos ama.

........
Uma senhora que eu conheci em tempos perdeu a sua embarcação porque tentou entrar num porto num dia de tempestade.

Qualquer bom marinheiro sabe que durante as tempestades não se tenta aportar. Ponto. As tempestades aguentam-se ao largo e sozinho.

........
Mas enfim, fui ao Mercadona, desci a Costa de la Pols com os sacos na bicicleta, cheguei a casa sem partir nada: falhar um jantar é um acto menor no meio disto tudo.

Diálogos sem palavras

- O meu único objectivo na vida é ser um homem bom.
- ...
- ...
- Conheces alguém que queira ser mau?
- ...
- O que é um homem bom?

Silvia Plath, de novo

Descobertas tardias, mas descobertas.

Lorelei

"It is no night to drown in: 
A full moon, river lapsing 
Black beneath bland mirror-sheen, 

The blue water-mists dropping 
Scrim after scrim like fishnets 
Though fishermen are sleeping, 

The massive castle turrets 
Doubling themselves in a glass 
All stillness. Yet these shapes float 

Up toward me, troubling the face 
Of quiet. From the nadir 
They rise, their limbs ponderous 

With richness, hair heavier 
Than sculptured marble.They sing 
Of a world more full and clear 

Than can be...."

29.10.13

Viajar no tempo

As maneiras mais fáceis de viajar no tempo são ouvir música e ler. Lembrar-se e imaginar são muito cansativas.

A imperativa imanência do silêncio

Seria preciso falar agora da imanência da mudança. Isto é: da mudança como um rigor mortis, a mudança cadavérica: muda-se de um estado de morte para outro estado de morte, de um estado de decomposição para outro.

Mudar é morrer muito, tal como partir é morrer um pouco; chegar é passar directamente ao estado da putrefacção completa, a que os especialistas dão o nome sem dúvida harmonioso de decadência seco ou palco esquelético.

Isto se nos limitarmos às mudanças geográficas, de longe as mais fáceis.

Porém a verdadeira questão continua por responder: é realmente importante falar da mudança? Não será a mudança auto-explicativa, e qualquer som sobre ela emitido, seja ele uma palavra, grunhido ou flatulência uma redundância?

Eu creio que não. De resto a redundância é tão necessária à verdadeira vida como o oxigénio, o vinho ou a morte, isto é: a mudança.

Ou a tristeza. Falo aqui da tristeza da cegonha que sedentarizou e não gosta do poste que lhe saiu na rifa, por exemplo; ou da da poeira que nenhum vento veio levantar e solidificou, se transformou numa rocha amarela e triste no deserto; ou, pior ainda: um grão de lama que assentou - os especialistas dizem sedimentou - no fundo de um rio, castanho e mole.

A liberdade é uma mistura de redundância e oxímoro: não existe e só existe quando se repete, quando se manifesta de todas as formas, em todos os níveis da decomposição cadavérica a que, nos momentos de optimismo ou equívoco chamamos vida (ou mudança, andam sempre juntas).

Não. Isto é, não é preciso falar da imanência da mudança. Não é preciso falar de nada.  Não é preciso falar, sequer.

Paráfrase

"Une seule personne manque et le Facebook est depeuplé". 

Ruas, etc.

Vamos ver.

Não falar das ruas. De qualquer forma quem aponta a direcção são as palavras. Elas sabem como uma agulha* onde está o Norte. O Norte és tu.

É preciso veres: as palavras desenham corredores, caminhos, carreiros, atalhos estradas e autoestradas. Alguém está no meio deles todos. E de repente descobre que apontam todos na mesma direcção.

Que fazer?

........
Chove e apesar de serem quatro da tarde está noite, está frio. As palavras desenham caminhos no mapa do afecto.

Já alguma vez viste uma agulha procurar o Norte? Não hesita; oscila mas não hesita. Pode demorar algum tempo a encontrá-lo, mas quando o encontra sabe que o encontrou.

........
Às vezes penso em ti, muitas. Também penso frequentemente em tartarugas e em como é bom ter uma direcção, saber para onde vamos, onde estamos (isso as agulhas não dizem. Sabem para onde ir, não de onde vimos nem onde estamos). As tartarugas levam muito tempo, são muito lentas, têm uma carapaça espessa.

As palavras deviam ser como as tartarugas. Mas não são. Excepto quando têm uma direcção.


* - Uma agulha é uma bússola, se por acaso.

Silvia Plath

"... I shall never get you put together entirely,
Pieced, glued, and properly jointed.
..."

"... You lodge
On the pitched reefs of nightmare,
..."

"... I do not expect miracle
Or an accident

To set the sight on fire
..."

In Pela água, Ed, Assírio & Alvim, ed. bilingue.

Diário de Bordos - Palma de Maiorca, Baleares, Espanha, 29-10-2013

Chego a Palma cerca de onze meses depois de aqui ter estado. Parece-me que a deixei na semana passada: identifico as ruas e os trajectos, antecipo o que vou ver, noto as diferenças, encontro - por acaso - N., em cuja casa vivi três meses. Isto é mais do que conhecer uma cidade, é amá-la e ser amado por ela.

........
As ruas estão carregadas de memória e destituídas de fantasmas.

........
Palma não é uma cidade para madrugadores. Mas é tão bonita que lhe perdôo. Às sete e meia da manhã a padaria ainda não abriu. Vou para um café esperar e leio o ABC (os cafés têm o hábito civilizado de ter jornais à disposição dos clientes). A sensação de ter sído daqui há pouco mais de uma semana reaparece. Os temas de sempre (à cabeça dos quais os autonomistas catalães), a qualidade dos textos, o prazer de pegar num jornal e ter a sensação de que não tenho tempo para o ler todo. Em Lisboa comprei o Público; li dois artigos.

28.10.13

Antropologia de base

Refiro-me apenas às torradas comidas num café ou numa pastelaria.

Uma torrada é constituída por duas fatias de pão de forma, cada uma delas com cerca de uma polegada de espessura e cortadas em três partes no sentido longitudinal.

A torrada pode ser pedida desbastada - pode, mas não deve, na minha opinião: abaixo se perceberá porque defendo esta tese -, com muita ou pouca manteiga, muito tostada ou pouco tostada. Tão pouco se deve: uma torrada não suporta qualificativos nem constrangimentos. Uma torrada se faz favor é a forma correcta de pedi-la.

Nos cafés e pastelarias dignas desse nome a torrada vem com a quantidade certa de manteiga - boa, muita, e barrada de ambos os lados de cada fatia de pão - e tostada no ponto exacto em que o pão deixa de estar duro e já não está mole.

Uma torrada desbastada - isto é, sem côdea - tira ao acto de a comer a sua componente psicanalítica (a qual só interessa, naturalmente, a quem se interessa por psicanálise de café): torna indiferente qual das três partes da cada fatia se come em primeiro lugar. Eu sugiro que se deixe as duas partes do meio, as que só têm côdea nos lados superior e inferior para o fim. Devidamente ensopadas de café, ou de café com leite, vergam-se, dobram-se, quase se partem antes de chegar à boca. Os lábios agarram-nas (uma de cada vez, claro) e encaminham-nas para as papilas gustativas do consumidor avisado.

Deve sempre tentar tomar-se o pequeno-almoço em casa, ou pelo menos numa casa; se impossível, então deve escolher-se Lisboa; e em Lisboa um café ou pastelaria dignos desse nome. Pedir uma torrada se faz favor e pensar que uma vida que nos permite iniciar o dia dessa forma  pode ser tudo; mas madrasta não é com certeza.

Ausência, imperfeição

Foi num dia assim que me apaixonei por mim: sol, calor, o Tejo imóvel visto de um terceiro andar de Alfama, saber que me esperas, um dia. Não é frequente gostar de mim; acontece raramente, quase sempre devido a coisas exteriores: o sol, o vinho, o Tejo, a luz de Lisboa nos telhados, os teus seios tão presentes debaixo da camisa, tão invisíveis, a vontade que a mão tinha de neles escorregar como o sol escorregava nos telhados de Lisboa.

Nada disto é verdade.

O que é verdade? Lembro-me de tudo: do sol, dos telhados, do Tejo no qual os barcos, imóveis, me faziam pensar nos teus seios a primeira vez que os vi. (Não houve segunda, eu sei. Não haverá segunda: vamos saltar directamente para a terceira ou quarta).

Nada disto é verdade.

A verdade está alhures. A verdade é um pelicano que mergulha na água como se fosse um raio de sol que se distraiu e solidificou antes de tocar na água.

A verdade é a minha mão no teu ventre como um pelicano na água, enviado por um deus distraído.

Não há verdade. Há aspectos da verdade, tal como um pelicano que mergulha é um pequeno fragmento do mundo. Tu és um pequeno fragmento do mundo. Mas serias um mundo se o mundo fosse, sei lá, um metro quadrado de água e um pelicano que nela mergulha como se o mundo tivesse acabado e ele se quisesse refugiar da ausência de mundo.

Da ausência de ti? Não há ausência de ti.

A verdade é um raio de sol no Tejo imóvel, uma proa que larga de um cais, uma vela grande que apanha a última térmica do dia, o teu olhar dubitativo. Os pelicanos não duvidam: mergulham. Será que olham antes de mergulhar?

Não tenho a certeza.

Nada disto é certo. Certa é a tua ausência. Certa é a tua presença.

Sou imperfeito. Amo-te. Se conhecesses as minhas imperfeições amar-me-ias?

27.10.13

Meditação do Duque de Gândia sobre a morte de Isabel de Portugal - Teste 2

Teste


O poema é fraquinho (ou gosto de muito de understements ou por vezes dá-me para não usar asneiras). Mas é um teste, e preferi fazê-lo com uma merda do que com qualquer coisa de jeito - assim dá-se menos pelo massacre.

Com um obrigado grande à L. e a promessa de que no futuro os poemas serão mais bem seleccionados. 

Ad libitum

É preciso pensar a vida se queres senti-la.

É preciso sentir a vida se queres pensá-la.



Amores precoces

Um amor precoce é pior do que uma ejaculação precoce (não há nenhuma que o não seja, e quase todos o são, mas isso é outra história)

Diário de Bordos - Lisboa, 27-10-2013

Fodo-te, Lisboa, as ruas e as mulheres, as calçadas e as paisagens; fodo-te dia e noite pela pele e pelos olhos, pelas mãos e pelas pernas. E tu vingas-te, claro: fodes-me o fígado e o calcanhar, fodes-me o ouvido e a carteira.

A verdade - dou-te razão, Lisboa, tem-la sempre - é que te percorro como se fosse um estrangeiro, como se tu fosses mulher de uma noite, como se estivesse de passagem. Conheço-te o metro e os autocarros e os táxis e pouco os uso: quero, Lisboa, é sentir-te no corpo, andar-te pelas ruas como me embrenho pelos corpos, receber-te como me dou. E fugir-te como me fujo.

És mulher, cidade, e eu fodo-te e amo-te e percorro-te e perco-me. Tomara me perdesses tu também.

........
Tenho a Lisboa triste, desta vez, como alguns alcoólicos têm o vinho. Ando a fechar portas, e a abrir outras: nenhuma é fácil.

........
Não sou daqui. Não sou de lado nenhum. Não tenho onde cair morto nem onde estar de pé vivo. A menos que o mar seja um lugar, claro. A menos que do mar se possa dizer "onde".

A menos que tu sejas um país:



(Com um pedido de desculpas pelo mielleux, mas a canção é bonita, vá).

........
Já sei como se vai chamar o guia que um dia escreverei sobre Lisboa: "Roteiro de Lisboa para amigos, conhecidos, ex-mulher, futura mulher, e outras almas rebeldes". É preciso ser rebelde para se perceber e amar Lisboa.

........
Não nos libertamos de Lisboa como não nos libertamos de alguns amores, tenham corrido bem ou mal: amar alguém é conhecer-lhe os defeitos, e saber onde lhe terminam as virtudes.

26.10.13

Portas

Há duas coisas importantes na vida: fechar as portas que são de fechar e manter abertas as que devem estar abertas.

23.10.13

Do pão

Do pão sei pouco:
o sal,
o suor de o amassar,
o calor do forno,
o cheiro dele quente quando
o barras com manteiga.

Da indiferença pouco sei também:
a dor, o silêncio que não é silêncio
como o sono não é a morte.

Mas ambos são a vida,
e da vida sei muito.

Sei a dor e a alegria e o amor,
o calor e o nascer do dia
quando o sol, feliz, se espalha pelas ruas.

Sei o mar e sei amar,
a lua e o vento
e à noite o frio ao leme e
o calor das tuas mãos na pele salgada
que o mar e a vida me deram.

A impotência das palavras

É de pequenas fendas que brota a impotência das palavras. Depois transformam-se em abismos, e não há silêncio que os colmate.

21.10.13

Lisboa, Lisboa, Lisboa, Lisboa

Bebo-te, Lisboa, como-te, cheiro-te e ando-te. E pergunto-me: se vivesse aqui ainda gostar-me-ias tanto quanto me gostavas quando vivia aqui?

Amo-te como um adúltero ama a amante: por culpa e fatalidade, intensamente.

És uma mistura de vento e luz, Lisboa. Como resistir-te?

Desejo, regresso

Devia saudar-se o regresso do desejo como se saúda o nascer do sol: esquecendo tudo o que ficou para trás.

Declaração

Gostava de dormir contigo, mas não tenho a certeza de querer continuar deitado depois.

Estabilidades diacrónicas

Sou um amante diacrónico. Acredito no amor a posteriori e no desejo a priori.

Estabilidades afectivas

Os únicos amores estáveis são os que acabaram e os que ainda não começaram.

Abismos, redundâncias

Devemos aprender a usar Amo-te com cuidado: por vezes é redundante, outras assustador. Entre as duas há um breve abismo para o qual pode ser útil; ou, mais raramente, necessário.

Amor, escuridão

Não se pode dizer Amo-te até se ser capaz de encontrar a cama na escuridão.

20.10.13

Saravá



Depois disto, um whisky.

Ou isto:

Diário de Bordos - Lisboa, 20-10-2013

Como-te, Lisboa, bebo-te, cheiro-te, percorro-te, sinto-te cada pedra de cada calçada, de cada rua ou passeio. Vejo-te, visito-te, revisito-me; e ao tempo e aos lugares do tempo: o Jardim da Estrela, o supermercado da Madragoa onde tantas vezes fui fazer compras, a Baixa, a Ginginha das Portas de Santo Antão, a Merendinha do Arco, a Adega dos Lombinhos, a Rua de S. Bento, os jardins da Gulbenkian. Nada me dói, e tu resplandeces como sempre, Lisboa minha, Lisboa nossa, Lisboa de sempre e para sempre.

........

David Mourão-Ferreira:

"O cadáver da noite escura a pedir-me velada
As carroças da insónia a treparem-me as veias

Ver-te subitardente, ó ventriangulada

Range-me entre nós dois a música da areia"

in Entre Julho e Novembro

Mas de entre as espirais confusas quem sabia
se era de novo amor, se era só melodia?

in Infinito Pessoal

Quem foi que à tua pele conferiu esse papel
que mais do que tua pele ser pele da minha pele?

in Do Tempo ao Coração

........
Lisboa recebe-me principescamente: L. vai esperar-me ao aeroporto; hoje fui com A. ver a exposição de Souza-Cardozo, o mais sublime de todos os stakhanovistas.

Percorro a exposição pensando no tipo de música que gostaria de ouvir, e chego à conclusão de que precisaria de toda (ou quase toda, vá) a produção daquela época para cobrir a vastidão da obra.

........
A lei das rendas foi alterada, finalmente. A Lisboa que conhecemos vai mudar.

Promessa

Meditação do Duque de Gândia sobre a morte de Isabel de Portugal

Nunca mais
a tua face será pura limpa e viva,
nem teu andar como onda fugitiva
se poderá nos passos do tempo tecer.
E nunca mais darei ao tempo a minha vida.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
A luz da tarde mostra-me os destroços
do teu ser. Em breve a podridão
beberá os teus olhos e os teus ossos
tomando a tua mão na sua mão.

Nunca mais amarei quem não possa viver
sempre,
porque eu amei como se fossem eternos
a glória, a luz e o brilho do teu ser,
amei-te em verdade e transparência
e nem sequer me resta a tua ausência,
és um rosto de nojo e negação
e eu fecho os olhos para não te ver.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.


Sophia de Mello Breyner Andresen

18.10.13

Diário de Bordos - Red Frog Marina, Bocas del Toro, Panamá, 17-10-2013

Último dia de Panamá (pelo menos por agora, os planos mudam depressa) e primeiro de trabalho do HELENA S. Há coincidências bonitas.

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Tudo indica que o ARCTIC FRONT vai ser uma porta bem fechada, ao fim e ao cabo. Espero que sim. Tenho pela proa uma viagem que já fiz, longa e desagradável. Mas com que a prazer a faço: levar o Artie para a Martinique e pô-lo à venda.

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É preciso imaginarem, não há máquina que fotografe isto: por baixo o mar, cinzento; depois uma barra negra, a terra e as árvores; por cima o céu, em todos os tons de cinzento, do quase branco ao quase negro.

A panga avança a toda a velocidade para um buraco naquela muralha totalmente negra, mas o buraco não se vê; está lá. Eu conheço coisas melhores, mas infelizmente são muito poucas e não as posso descrever.

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O jantar no Palmar foi óptimo. Peixe cozido (ainda cheiro a peixe, comprei uma coisa enorme e tivemos, o M. e eu de a escamar com instrumentos ligeiramente abaixo do mínimo).

Há coisas bonitas, como as coincidências: noites, mulheres, sensações, sentimentos, emoções. Quando se juntam - todas - a vida torna-se quase insuportável de tão bela.

16.10.13

Diário de Bordos - Red Frog Marina, Bocas del Toro, Panamá, 15-10-2013

Pela primeira vez na vida tentei corromper alguém a crédito.  Não só não consegui como acabei por pagar quase o dobro do que queria pagar. Em si a corrupção não me chateia - prefiro pagar e ter uma licença a não pagar e ir à falência,  como me aconteceu em Portugal (se não paguei não foi por ausência de corrupção; foi porque era ingénuo e achava que não devia pagar). Trezentos e cinquenta dólares.  Poderia ter sido muito pior, e não poderia ter sido muito melhor. M. acha que não me devo queixar; eu penso que se fosse melhor negociador teria conseguido pagar menos. Não sei. Está pago, tenho aquilo de que precisava (enfim, quase tudo) e quinta-feira tenho os primeiros clientes pagantes. Há pessoas que barafustam contra a corrupção.  Preferem passar anos a agonizar. Não percebem que conseguir qualquer coisa mais depressa só porque se é amigo ou primo é uma forma de corrupção ainda pior, mais discriminatória do que pagar trezentos e cinquenta dólares a um capitão de porto repelente.

A verdade é que não estou aqui para mudar o Panamá; isso compete aos panamianos e aos políticos que elegem.

Penso em todos os episódios de corrupção pelos quais já passei - dos dez por cento que o governador do Manyena cobrava por toda a ajuda humanitária a um grupo de trinta e seis mil pessoas (é muita gente, acreditem)  até aos duzentos e cinquenta dólares da fronteira do Zaire (passando pelo BMW "para a minha mulher" de um Inspector Geral de Navios em Lisboa e esquecendo os milhares de episódios em Moçambique) e concluo que o governante moçambicano que me disse "o funcionariado público deve ser pago directamente palos privados, e não através dos impostos" (ou coisa que o valha) estava podre de razão.

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A verdade é que entre a notícia dos primeiros clientes até à de que vou ser pago por uma travessia que fiz o ano passado as boas notícias cobriram largamente o capitão de porto e respectivo cheiro.

Começo a a afeiçoar-me ao meu querido HELENA S. Talvez seja um passo para me ensinar a compreender, aceitar e conviver com os meus sentimentos (com as emoções será talvez mais complicado, mas lá chegarei).

O que dito assim soa um bocado estúpido,  porque se há alguém sentimentalão e maricas sou eu.

15.10.13

Palavras, amizade

Não deixa de ser estranho que se possa (ou será antes tem de?) dizer amo-te, mas não se possa dizer amigo-te (ou amizado-te, para evitar neo-confusões facebookianas).

Ao contrário do amor, a amizade não se declara, pratica-se. Não se diz, dá-se a ver. A amizade, que sem palavras não existe dispensa uma palavra, um verbo, para se dizer.

Palavras, silêncio

Nada sobrevive à ausência de palavras. Nem a amizade, nem o amor - é pelas palavras que ele começa,  pela sua falta que acaba - nada.  As palavras são o estai da vida, dos sentimentos, da memória. Que seria de um tremor de terra sem as palavras?

Nem o silêncio sobrevive à ausência de palavras.

Palavras, coração

Longe da vista longe do coração é a versão francesa de um provérbio português muito mais bonito: o que os olhos não vêem o coração não sente.

Mas a versão francesa permite uma pequena e fundamental alteração: longe das palavras longe do coração. Talvez não seja tão bonito, mas é muito mais verdade.

Diário de Bordos - Red Frog Marina, Bocas del Toro, Panamá, 14-10-2013

O meu orgulho - como dizer: sapatal? Sapático? Sapateiro? - está ao rubro. Os sapatos Tommy Hilfiger (uma marca suíça) a uso há quando muito dois meses estão prontos para o lixo. Não tenho visto os Land Rover, uma marca que também faz veículos todo-o-terreno; suponho que a esta hora sejam um monte de mofo.

Nada que se compare aos Foreva que duraram quase dois anos e só foram deitados fora devido à insistência de uma jovem senhora. Estavam como novos, na minha modesta e inocente opinião.

Só chatices no horizonte. Entrar numa loja, olhar para coisas, sentir-me perdido e não ter, quase de certeza, uma senhora a dizer-me, estou a ver, Sir, se eu lhe disser que fazer compras é uma experiência traumática para mim.

........

Um gajo pode não gostar do Panamá,  e deus sabe que eu não gosto (e que gosto de eufemismos e understatements). Mas nem a pior má-vontade do mundo resiste a passeios como o de ontem.

Os objectivos eram vários: levar J., dona de um hotel que nos pode enviar muitos clientes a passear com a família; descobrir sítios para ir quando tivermos clientes; familiarizar M. com o barco.

Os três objectivos foram atingidos, com o bónus da beleza. Este lugar é lindo de morrer, lindo de viver, lindo de ver, lindo.

Andámos pelo meio do mangal, perdemo-nos em recifes que parecia estarem por cima de nós de tão clara era a água,  sentimo-nos numa versão pacífica e tranquila do Apocalipse Now. O dia foi óptimo,  vai ser repetido em breve com outros amigos e, sobretudo, alimentou as nossas expectativas de uma época cheia de clientes.

Inch'Allah.

........

Hoje o jantar é de novo no Palmar, a nossa sala de jantar, sala de estar e, se tudo correr como previsto, cozinha na quinta-feira. É para mim um espanto permanente que um sítio gerido por e para jovens tenha tão boa música,  tanto profissionalismo e tanta gentileza (se bem a cozinha pudesse, não tenhamos medo das palavras, ser um bocadinho mais regular - e alinhada pelos dias bons, claro, como o de hoje).

Enfim, quinta-feira venho aqui fazer o jantar - provavelmente um polvo de coentrada. Estou contente com a perspectiva,  apesar de lamentar a ausência de N., que continua retida em Shelter Bay com problemas de motor e me teria obrigado a fazer outra coisa pois não gosta de coentros.

Vou-me embora sem a rever e disso ainda tenho mais pena.  Mais uma amizade embrionária,  mais uma amizade que sobreviverá algum tempo à custa de palavras e que um dia, quem sabe, ressuscitará num porto qualquer deste tão vasto e tão pequeno mundo.

........
A esperança voltou ao meu vocabulário. Parece-me um brinquedo novo, que aprendo a manejar como um miúdo um triciclo. Quase todas as surpresas são boas? Sim, não, não sei. Mas isto é muito mais do que uma surpresa e sobretudo muito mais do que bom.

12.10.13

Erros, nódoas

Os erros são vistos como nódoas numa toalha de mesa branca. Mas as pessoas esquecem-se de que se elas lá caem é porque estamos a comer.

(De uma conversa com N. S.)

Opressão

Ninguém oprime ninguém.  É-se oprimido. Oprimir é um verbo passivo.

(De uma conversa com J. V.)

Amor, vontade

Um dia dir-te-ei que te amo e tu rir-te-ás, claro, tão justamente. Amo-te é uma palavra pesada, um sentimento que se intromete na menor fenda, não devia estar ali.

Ainda por  cima imagina tu eu misturo a vontade nessa coisa do amor, amo-te porque quero amar-te, e misturar a vontade e o amor é tão estranho,  não é?

Não não é,  porque sem vontade não há amor que valha, ou dure.

Essas coisas, liberdade

E depois de qualquer forma temos sempre a Marguerita em Vallarta, os Alexanders do Procópio, as Ponchas no Funchal,  as mulatas em Cabo Verde, os alíseos, o rum na Martinique, essas coisas todas que fazem do mundo um lugar habitável.

Temos Palma, o Skull em Falmouth Harbour, temos a vida, a vida o sol o vento, temos-te a ti, temos seja deus louvado tudo o que deus poderia ter feito se as coisas precisassem de ser feitas, coisa de que as coisas não precisam nem nunca precisaram, temos o calor de Bocas del Toro, temos tudo, meu amor, tudo.

Somos livres e não se pode ter mais do isso.

Surdez, mudez

Passo por um bar com a música aos berros, altíssima, insuportável de dolorosa. Penso nos jovens que estão a ensurdecer - não só no Panamá, mas em todo o lado - e lamento que não haja um método igualmente seguro do os tornar mudos, também.

A descoberta da paciência

Todos os dias vou ao Palmar Tent Lodge - uma espécie de albergue de juventude com tendas em vez de dormitórios, no qual a média de idades é um bocadinho inferior à minha idade - beber ora uma Marguerita, ora um copo de vinho branco.

Ontem pedi ao jovem barman, passe a redundância,  que me pusesse bastante paciência na bebida, mas ele não percebeu. Pensou que eu lhe estava a dizer para se despachar.

A paciência é uma coisa que se descobre à medida que se vai perdendo.

(Para a Leonor, claro.)

Bagagem emocional

Uma das melhores - quiçá a melhor - maneira de aligeirar a bagagem emocional seria fazer com a memória o que os soviéticos faziam com as fotografias.

Lamentavelmente é mais difícil.  Se bem não seja impossível.

11.10.13

Diário de Bordos - Bocas Town, Bocas del Toro, Panamá, 11-10-2013

Em breve deixarei o Panamá,  se tudo correr como espero. Raros são os países que me alegra deixar tanto como este. O Brasil é o primeiro que vem à mente, com uma ressalva: lá pelo menos as pessoas são simpáticas e sorridentes e agradáveis.  A antipatia e má educação deste povo estão a tornar-se uma obsessão para mim. Ontem ao almoço desencomendei o que tinha pedido, levantei-me e vim-me embora; ao jantar fui desnecessariamente duro com a rapariga do Kaiukos, o restaurante onde tivemos de ir jantar por falta de alternativas.

Não gosto de obsessões,  e em mim tolero-as ainda menos do que nos outros.

........
Pequenos prazeres:
Ouvir uma senhora sexagenária - pelo menos - bonita, bem arranjada, cheia de classe, dizer ao marido septuagenário "vai-te foder".

O marido está vestido mais à marinheiro: t-shirts que fazem as minhas passar por acabadinhas de sair da loja (e estão - a mais velha tem seis anos -) mudadas de três em três dias, e é um senhor simpático que todos os dias me fala da corrente induzida que tem  a bordo.

Recentemente falava-me numa ilha grega e explicava-me que era a ilha "onde viveu João." "João Baptista?" perguntou a senhora que hoje terna e amorosamente o mandou foder-se, não sei porquê.  "Não,  o outro, o que escreveu a Escritura". Não sabia que João tinha vivido na Grécia,  muito menos em que ilha, mas gosto muito deles. É um casal bonito de se ver, e ouvir.

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Preciso de mar.

Auto-retrato com pena

Sou um bom entendedor - ou pelo menos mediano - mas um péssimo ouvidor: até meia palavra me cansa .

PS - Decerto devido ao tinitus.

Vidas, vida

Um gajo quer estar chateado, faz tudo para isso - mesmo ir à praia - e consegue estar chateado um bom bocado; mas depois tudo passa: estar chateado torna-se uma diversão, e tentar manter-se chateado um esforço tão agradável como negociar uma entrada de barra difícil, ou uma bóia de barlavento para a qual é necessário aproveitar cada rajada, ou explicar a uma senhora que somos o homem certo para ela, ainda que o não sejamos.

Não há homens certos, como não há mulheres certas. Há homens e mulheres para um determinado momento das nossas vidas, e se tivermos muita sorte (e o outro também) pode ser que se possa evoluir conjuntamente, que as vidas mudem simultaneamente, que as vidas se transformem em vida.

10.10.13

Resumo - III

I (28.01.2011)

Dia 10 de Outubro [de 2010] apanhei um avião da TACV para ir ao Brasil buscar uma embarcação de vela; a qual devia levar de seguida para Portugal, fazendo assim uma viagem com a qual sonho há muito tempo: atravessar o Atlântico (à vela) no sentido Oeste - Leste. Por razões diversas essa viagem atrasou-se e, em vez de regressar à Europa e lá esperar que o barco ficasse pronto resolvi vir para as Caraíbas - realizando assim um outro sonho, ainda mais antigo: vir por terra do Brasil à Guiana Francesa.

Escolhi viajar como "antigamente": camionetes, pensões baratas (podia haver uma vírgula entre "pensões" e "baratas") e, sobretudo, a passagem mágica de barco entre Belém do Pará e Macapá - 24 horas pelo delta do Amazonas que  só elas justificam não ter voltado para Lisboa.

A ideia original era chegar a Trinidade e aí embarcar para as Antilhas; mais uma vez por razões diversas acabei por apanhar um avião e vir directamente para a Martinique, onde não vinha há 27 anos.

A partir do Marin - o porto no sul da Martinique para onde se transferiram todas as actividades da náutica de recreio desta ilha - embarquei algumas vezes (não tantas quanto teria desejado), conheci ilhas como St. Kitts e St. Martin, voltei a Grenada, onde estive pela primeira vez em 2004, encontrei pessoas com quem liguei laços de amizade fortes.

Hoje estou de novo no Marin, onde espero conseguir uma equivalência entre o meu curso e as exigências da legislação francesa; tenho um círculo de amigos e uma vida social; actualizei os meus conhecimentos sobre o mercado do aluguer de embarcações de recreio. Daqui a três semanas começo um trabalho de skipper que vai ser o culminar desta experiência. Uma vez terminado esse serviço regresso ao Brasil para ir buscar a embarcação que me fez, em Outubro de 2010, apanhar uma avião da TACV, ver uma jovem senhora no aeroporto do Sal que parecia saída de um livro do Corto Maltese e trazia ao peito um badge que dizia "Temporário", para o qual todos os homens olhavam como se fosse uma promessa e não uma informação, dormir num backpackers de Belém onde conheci duas alemãs que davam aulas na Universidade local sobre "climate changes" (não sabia que já era tema de aulas nas Universidades), comprar um hamac para dormir no barco entre Belém e Macapá, aborrecer-me mortalmente em Cayenne, apanhar um arraial de pancada entre Grenada e Bequia num catamaran de 40', viajar num super-iate de 82' entre o Marin e St. Martin, conhecer uma velejadora solitária de 66 anos, um skipper filipino de 33, um casal dono de um pequeno teatro em Avignon, um francês cuja única actividade na vida parece ser construir um muro à sua volta para se refugiar sabe Deus de quê, um tipo que atravessa o Equador pelo menos duas vezes por semana e não sabe o que é o Equador, e, sobretudo, descobrir que ao contrário do que pensava não perdi a capacidade de ser feliz.

Uma linha recta talvez seja o caminho mais curto entre dois pontos; não é de certeza o melhor.

II - (08.02.2012)

Escrevi este texto em faz hoje pouco mais de um ano. Afinal não voltei ao Brasil "uma vez terminado esse serviço": vou amanhã. Muitas coisas aconteceram nos doze meses e poucos dias que vivi desde então.

Utilizo o verbo viver propositadamente: depois de ter escrito aquelas linhas arranjei muitos mais "serviços" de skipper; conheci uma jovem (não é fórmula) senhora com quem, todas as coisas bem pesadas, me vou casar, um dia; desesperei: estive quase,  e por várias vezes, a deixar cair o projecto do Brasil, que me condicionou desde que naquele dia de Outubro apanhei o avião; fui infeliz, muito, nos meses de Verão que passei em Portugal e voltei a ser feliz, muito mais do que fui infeliz, nos meses que passei em Antigua; tive comigo a minha filha, dois meses e meio nos quais navegámos duas mil e quinhentas milhas, viagens inesquecíveis que moldarão, tenho a certeza, toda a nossa relação daqui para a frente. Provei cerveja colombiana e a simpatia daquele povo; passei quinze dias à bolina cerrada (o meu recorde até agora); fui rebocado pela primeira vez na vida para um porto por causa de uma avaria, vivi num sítio magnífico em Falmouth Harbour; deixo - pela primeira vez em muitos anos - um país com pena de o deixar.

Se isto não é viver não sei o que viver é.

Ou melhor, sei: é o que me espera. O objectivo é  simples: entregar o barco aos (agora) armadores como gostaria de o ter feito em 2010. Isto significa organizar um reboque de 200 milhas (é pouco, mas é contra o vento e a corrente e não vai ser simples); preparar o barco a minima para uma viagem de 1700 milhas até Grenada (é muito, mas é com vento e corrente a favor, vai ser simples); supervisionar os acabamentos em Grenada, uma ilha de que gosto quase tanto como gosto de Bequia. Quatro meses apaixonantes, quatro meses para fechar um círculo que se abriu há mais de quinze, antes da minha partida de Lisboa. Depois não sei. Um novo círculo começará, uma nova etapa.

A vida é uma sequência de portas que se fecham e portas que se abrem. O importante é fazer com que não fiquem portas mal fechadas para trás, e que se as abram bem abertas para a frente.


III - (10.10.2013)

Pela primeira vez escrevo este resumo no dia de aniversário. Devia ser uma norma, daqui para a frente. É curioso ver o que as coisas podem mudar no espaço de um ou dois anos, e ver o que delas fica.

Não me casei com a jovem senhora, uma decisão que agora me parece acertada, por muito errada que tenha sido a forma como a tomei; fiz a viagem de quase 200 milhas a reboque de uma embarcação de pesca, uma das viagens da minha vida, que merecia um dia ser contada por quem saiba escrever; não acompanhei a construção do barco que ficou em S. Luis.

Atravessei o Atlântico no sentido Oeste - Este, com o prémio de o ter feito num barco magnífico; conheci Palma, pela qual me enamorei desde e para sempre; fiquei sem gasóleo, por azelhice, poucas milhas antes de Denia; fiz uma travessia de Denia para Mallorca que me ficará, para sempre, no coração; descobri a sobrasada, atravessei o canal do Panamá - uma travessia que começou no dia do nonagésimo nono aniversário do canal e acabou cinco dias depois, a reboque - e tomei algumas das piores decisões da minha vida. 

Decisões essas que me levaram a uma provação como não pensava ser capaz de viver, da qual agora saio, mais forte e melhor; como um homem que acaba de atravessar o deserto e já bebeu água e descansou (ainda não bebi água nem descansei tudo, mas está quase). Descubro com o prazer de sempre que alguns dos meus preconceitos - assumindo que tudo o que pensamos se transforma inevitavelmente num preconceito, e se não se transformar não foi suficientemente bem pensado - estavam errados. Os meus preconceitos sobre a fidelidade, a necessidade (ou utilidade, melhor dizendo) de construir muros à nossa volta, a prioridade do trabalho sobre a vida afectiva mudaram. O meu conceito de amizade sofreu um ajustamento bastante necessário; descobri que a minha vida de skipper está mais perto do fim do que jamais teria pensado. Tornei-me - sem querer - armador de uma embarcação à qual dei o nome da minha filha e da qual cada dia gosto um bocadinho mais, inesperadamente.

Vou, enfim, regressar às ilhas que tanto são a minha casa, todas elas: Palma, Antigua, St. Lucia, St. Martin; arrepio-me à ideia de que voltarei um dia a S. Luís, cidade (e país) que detesto particularmente; continuo a acreditar que as portas se devem fechar bem fechadas.

E, muito mais do que tudo, acima de tudo, confirmo que ao contrário do que pensei (e quase desejei, este ano) não perdi a capacidade de ser feliz.

9.10.13

Solidão

Há várias fases na solidão; a melhor delas todas é sem dúvida quando sabemos, ou sentimos que está quase a acabar, quando finalmente queremos que ela acabe.

É dolorosa, a solidão; mas muito útil. No fundo devemos lamentar quem não é capaz de solidão, quem lhe foge seja por que razão for, a evita, teme ou ignora: quem não tem um armário para arrumar a dor está condenado a carregá-la para todo o lado.


8.10.13

Perdedores e ganhadores

Robert Kiyosaki: Losers quit when they fail. Winners fail until they succeed.

(Daqui.)

Partenogénese, silêncios

Alguns silêncios reproduzem-se por partenogénese.

O silêncio dos caminhos que se bifurcam

Insónia?

É muito tarde, quase três da manhã e eu pergunto-me porque é tão bom estar sentado à frente deste computador a ouvir música e acabar o vinho branco, já quase quente. Porque é melhor isto do que dormir? A resposta é simples, claro: tudo é melhor do que dormir.

Língua, abismos

- O que mais te atrai numa mulher? - perguntas-me e eu digo-te o olhar, mas não sei dizer olhar em espanhol e quando finalmente acordamos na palavra mirada eu apercebo-me, e tu também, de que há muito mais do que uma língua a separar-nos.

Desejo, tempo

Dormes e para te tocar não me basta estender os braços: tenho de estender a mente, o desejo, o tempo.

Jantar, vida

Só depois do jantar encontrei o disco que queria ouvir antes, enquanto o fazia.

Finalmente, gratidão

Sou um homem melhor, digo-te
E tu perguntas-me O que é um homem melhor?
É um homem que sabe que se enganou
Todos os homens são melhores então
porque todos sabem que se enganaram
Não: só os que estão gratos por se terem, finalmente, enganado.

"Do amor"

Esta vista de mar, solitariamente,
dói-me. Apenas dois mares,
dois sóis, duas luas
me dariam riso e bálsamo.
A arte da natureza pede
o amor em dois olhares

Fiama Hasse Pais Brandão, As Fábulas (2002)

"Quando o amor morrer"

Quando o amor morrer dentro de ti, 
Caminha para o alto onde haja espaço, 
E com o silêncio outrora pressentido 
Molda em duas colunas os teus braços. 
Relembra a confusão dos pensamentos, 
E neles ateia o fogo adormecido 
Que uma vez, sonho de amor, teu peito ferido 
Espalhou generoso aos quatro ventos. 
Aos que passarem dá-lhes o abrigo 
E o nocturno calor que se debruça 
Sobre as faces brilhantes de soluços. 
E se ninguém vier, ergue o sudário 
Que mil saudosas lágrimas velaram; 
Desfralda na tua alma o inventário 
Do templo onde a vida ora de bruços, 
A Deus e aos sonhos que gelaram.

Ruy Cinatti

"Assim em cada lago a lua toda"

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Ricardo Reis, Odes

Sentido da vida et al.

Não deixa de ser estranho pensar que a certa altura das nossas vidas descobrimos que a vida não tem sentido, e começamos a procurá-lo noutras coisas que até aqui o dispensavam totalmente.

7.10.13

Memória, esquecimento

Lembramo-nos mais facilmente da felicidade do que da tristeza.

Felizmente.

Incompreendido

Ser incompreendido oferece-nos o enorme benefício de nos dispensar de compreender os outros.

Artes sacras

Procuro no Youtube a música que estou a ouvir, canto gregoriano; ou a que gostaria de ouvir, os cânticos da liturgia eslava pelo coro de Chevetogne, um dos meus discos favoritos de muito, muito longe.

A maioria dos comentários tem a ver com a religião: sou muçulmano e oiço e gosto desta música, ou não sou ortodoxo mas gosto de ouvir isto, etc.

Alguém invoca a religião quando vê uma pintura sacra? Creio que não; as pessoas não julgam a pintura em função da religião a que pertencem. Porque o fazem com a música?

Sentidos, sentido

Vamos então experimentar, meu amor, queres? Tu fechas os olhos e eu também, tu calas-te e eu não falo, tu não me tocas e eu não me aproximo sequer de ti. Quanto tempo existiremos? Quanto tempo sem sentidos duraremos, faremos sentido?

Pouco, digo-te eu, muito pouco. Sem sentidos a vida não faz sentido, e sem sentido nada existe se não a morte.

Os sentidos estão para a vida como a luz para o dia, o vento para o mar ou as árvores, o rio para as terras que atravessa.

Amor, crepúsculo

Um amor que não acabe, como um crepúsculo de verão nas altas latitudes.

6.10.13

Pequenos anúncios

O Don Vivo, imbuído de espírito de serviço público tem vindo a publicar, desde 2004, uma série de pequenos anúncios.  O último foi, creio, em 2008. Hoje apareceu mais um, que publico apesar de ter algumas dúvidas sobre a credibilidade de um senhor que diz ter quarenta e dois anos há nove anos.

"Homem, 42 anos, surdo e impotente procura mulher muda e assexuada para juntos descobrirem o sentido da vida e a maravilha do silêncio".

(O texto original dizia os sentidos e a vida, mas o DV não é um blog intelectual. Pela mesma razão acrescentei a maravilha do silêncio. Não gosto de sub, mal ou infra entendidos e acredito na clareza e na explicitação).

(Não é a primeira vez que o senhor procura uma mulher assexuada, como se pode ver fazendo uma pesquisa neste blog sobre o tema pequenos anúncios. Tudo leva a crer que não a terá encontrado. Azar o dele, uma vida ascética é uma espécie de paraíso,  um oceano sem tormentas, um mar liso sem recifes escondidos, uma terra sem vento).

5.10.13

B um, B dois, hurrah

Acabo de saber que afinal não preciso de um visa B1 B2 para fazer entregas de barcos nos EUA. Porque não fiz esta pergunta mais cedo a quem poderia responder-me logo?

Diário de Bordos - Bocas del Toro, Panamá, 05-10-2013

O primeiro plano é feito de verticais: as colunas do café onde estou e as do do lado, as da doca do Jampan, a empresa que me leva e traz de Red Frog quando não há barco gratuito da marina. O segundo é uma mistura de cores sem direcção definida: o telhado amarelo triangular, chapéus de sol, o bimini top azul de uma panga que o sol do meio dia ilumina quase à fosforecência, o telhado azul turquesa da loja de ferragens.

Também há curvas: no terraço do centro de mergulho onde M. faz o curso de Dive Master está uma senhora em biquini, de pé, a beber qualquer coisa por uma lata; ao meu lado, na mesa onde hoje de manhã estavam cinco jovens miúdas provavelmente inglesas estão agora dois ligeiramente menos jovens casais alemães cujas componentes feminininas são, ma parole, bastante apreciáveis. Não desfazendo, claro.

Até o maricas efeminado, tantouze que frequenta o Lily's contribui para as curvas da paisagem, de tanto se requebra a andar.

Estudo atentamente o segundo plano, o das cores e formas díspares; descubro mais telhados, apercebo-me do movimento das plantas que um dos hotéis tem em grandes vasos no terraço (são palmeiras pequenas). Todas as construções estão sobre palafitas na água, transparente apesar da quantidade de embarcações que a cruza permanentemente e cria uma ondulação caótica, desordenada.

Todas as manhãs vou a Bocas, todas as manhãs me sento num destes cafés e todas as manhãs tenho uma vista diferente: seja por causa da luz, seja porque não olho para as mesmas coisas.

........
Hoje tivemos o nosso primeiro toque: dez pessoas procuram um barco de luxo, com ar condicionado, para ir pescar. Entre o HELENA S. e o luxo há um abismo; de material de pesca nem se fala. Mas é possível que os senhores baixem as expectativas um bocadinho, ligeiramente, como passar de uma penthouse na Quinta Avenida para uma cave em Harlem. Enfim, exagero. O meu HELENA S. não é uma cave em Harlem. Só precisa de uma pintura, vigias novas, refazer a electricidade, pressurizar a água e mais meia dúzia de pormenores assim. Se eles vierem vão gostar.

........
Ontem fui à praia de Red Frog, pela primeira vez sozinho. Já lá tinha ido mas com a equipa de ouro, N., D., M. Lembrei-me de Pigeon Beach, dos horrorosos dias que lá passei; da alegria efémera que foi descobrir Windward Beach - o sofrimento reapareceu muito depressa, logo a seguir à alegria inicial -.

Gostei de estar na praia. Mas continuo a não gostar da areia e muito rapidamente me refugiei no Palmar com uma garrafa de vinho branco. Vemos o que somos, vemos o que estamos. E hoje gostar mais de Bocas do que gostava quando cá cheguei, ou preparar-me para ir de novo à praia pouco têm a ver com Bocas ou com a praia.

Aberto para balanço

Chego aos cinquenta e seis anos com pouca coisa no farnel. Mas das poucas que tenho posso estar orgulhoso: a minha liberdade, primeiro e mais que tudo; um filho e uma filha, uma ex-mulher e presente amiga; duas ou três coisas que escrevi - muito poucas, se comparadas à produção total (¿pero qué importa?, não é da escrita que vivo) - duas ou três viagens, duas ou três coisas boas que fiz a duas ou três pessoas.

A toda esta riqueza posso agora juntar outro bem: sei que consigo, finalmente, não julgar os outros. Ou seja, aprendi a conviver com as imperfeições alheias melhor do que com as minhas. Lá chegarei: não se pode ser tudo ao mesmo tempo.

"Dark Charms"

"Eventually the future shows up everywhere:
...
The clear water we drank as thirsty children
still runs through our veins. Stars we saw then
we still see now, only fewer, dimmer, less often.
...
We continue to speak, if only in whispers,
to something inside us that longs to be named.
We name it the past and drag it behind us,
bag like a lung filled with shadow and song,
dreams of running, the keys to lost names."

Dorianne Laux, Dark Charms, in The Book of Men, ed. ditto

"Late-night TV"

"...
By what back road did he travel
to this late-night station?
By what imperceptible set of circumstances
does he arrive in my bedroom on a summer night,
pinching a shirt collar between his fingers,
his own invention locked in a blue box,
a rainbow slashed across it?
...
We know nothing of how it all works,
how we end up in one bed or another,
speak one language instead of the others,
what heat draws us to our life's work
or keeps us from a dream until it's nothing
but a blister we scratch in our sleep.

...
I have the power to make him disappear
with one touch, though if I do the darkness
will swallow me, drown me.

..."

Dorianne Laux, Late-Night TV in The Book of Men, ed. W.W. Norton & Company, 2011

Palavras, actos

Com as palavras pode fazer-se muito mal - bem manejadas são armas terríveis -; ou muito bem - cuidadosamente escolhidas são maravilhosos veículos de afecto, ternura, amizade, amor.

Mas não há uma única palavra, não há um milhão de palavras que tenham a força de um simples acto. Uma imagem vale mil palavras? Um gesto vale uma quantidade infinita delas.

Se alguém te disser amo-te, ou quero-te, ou és uma pessoa maravilhosa e te bater continuamente, foge; pelo contrário, fica com quem não te diz nada mas todos os dias te prova o seu amor, afecto, ternura com um gesto, um olhar, uma carícia, uma presença.

Aprende a acreditar no que vês mais do que naquilo que te dizem.

Aprende a ver.

Memórias, Palma de Mallorca

Uma vez escrevi aqui qualquer coisa sobre o Guincho (está aqui) e o facto de lhe preferir o cheiro ao da Córsega, apesar de serem muito semelhantes - a Córsega não tem a carga de memórias que o Guincho tem para mim, e entre um cheiro com passado, presente e futuro e outro só com presente eu prefiro o primeiro.

Vai ser interessante pôr esta teoria à prova quando em breve estiver em Palma, sozinho e for comer ao Lizarran ou à 5ª Puñeta, comprar vinho à Sifoneria, ouvir música na rua, cozinhar frango recheado com sobreasada. A minha aposta é que a teoria se vai revelar verdadeira, e vou amar voltar a Palma.

4.10.13

Perdidos e achados

Perderam-se alguns quilos (poucos, felizmente; é impossível quantificá-los por falta de monitorização) algures entre a Cidade do Panamá, Shelter Bay e Bocas del Toro. Foram quilos adquiridos pacientemente, com esforço e dedicação (para não falar do investimento, claro). Se alguém os encontrar pode guardar 10% e devolver-me o resto, por favor.

Pedantice, arrogância

A pedantice é a forma bem educada da arrogância.

A pedantice está para a arrogância como o erotismo para a pornografia.

3.10.13

Estrelas, convalescença

No tempo da navegação astronómica era durante os crepúsculos - quando ainda não é noite e já não é dia (ou ao contrário, ainda não é dia e já não é noite) - que os navios faziam as suas observações e sabiam onde estavam, e qual o rumo para o seu destino.

Uma convalescença, período em que já não se está doente e ainda não se está bom tem provavelmente a mesma função.

Chuva, convalescença

Chove outra vez desalmadamente. O tempo aqui é como uma convalescença: ao nascer do dia o sol espreita pelo horizonte e decide voltar para trás.

Passado, desculpas

Usar o passado para nos desculpar pelo que fazemos hoje tem uma enorme vantagem: contrariamente a nós próprios, o passado não pode mudar.

Caramelo, Kalimero

- A minha táctica de sedução favorita é a do caramelo.
- Caramelo? Queres dizer Kalimero, pá.
- Não, quero dizer caramelo: quanto mais peganhento melhor.

Epístolas, discursos

a) A sua carta é um chorrilho de mentiras;
b) Infelizmente, nada do que diz na sua carta é confirmado pela realidade;
c) Estava aparentemente equivocado quando escreveu a sua carta, meu caro. Nada do que nela diz se concretizou.

Personagens do imaginário tradicional português

De todas as personagens do léxico imaginário-folclórico-tradicional português uma das minhas favoritas é o conas ou, numa versão ligeiramente mais pejorativo-educada, o coninhas.

Não é preciso descrevê-los: todos conhecemos um conas, ou, no mínimo, um coninhas. Todos: por exemplo, à frento do PS está um senhor chamado Tozé que é o perfeito epítoma, a encarnação do coninhas. Se ele fosse menos importante, ou menos Tozé, seria um conas.

Esperança

Por artes mágicas a t-shirt verde que comprei em Bequia no centro das tartarugas e diz nas costas A labour of love por cima da imagem enorme de uma tartaruga (será que ainda se identifica o bicho?) voltou hoje, na minha cabeça, a ser a t-shirt da esperança. Não sei como, tenho uma vaga ideia do porquê, mas não é isso que me inquieta.

As verdadeiras questões são Onde tem andado a esperança? Como foi possível viver tanto tempo longe dela?

2.10.13

Diário de Bordos - Red Frog Marina, Bocas del Toro, Panamá, 02-10-2013

O dia começa, os CD estão todos gravados - se não houver mais surpresas -, tudo está no seu lugar. Não há sopro de vento. O céu, que hesita entre ser azul ou encher-se de nuvens como de costume, o mangal, a água da marina, até as gotas suspensas do varandim - restos prováveis da chuva desta noite - parecem uma escultura. Imobilidade, silêncio - Gesualdo, com quem terminei as gravações e que agora oiço é uma das formas do silêncio -, paz.

Não sei se é para isto que se vive - não sei se se vive para o que quer que seja - mas para quem ainda há bem pouco tempo a vida parecia um bloco de cimento num bote a remos o quadro é como uma sombra num dia de sol, um beijo inesperado, o som de um organista solitário que ensaia numa igreja vazia.

........
Ontem comprei três lagostas para o jantar (a cinco dólares cada uma, para fazer um bocadinho de inveja). Eram pequenas, deliciosas. Comêmo-las cozidas, sem qualquer molho, acompanhadas por umas cervejas bebidas a priori no Palmar. Menos é mais.

........
Palmar onde finalmente conheci C., uma jovem portuguesa que aqui faz um trabalho de voluntariado, numa escola. Vêm, ela e os amigos, jantar a bordo na terça-feira. Parece simpática, cheia de energia, como convém a uma jovem voluntária. Por coincidência hoje de manhã "conheci" virtualmente uma outra jovem voluntária. Nos meus anos de humanitário havia pouquíssimos portugueses, fosse nos quadros fosse como voluntários. Agora parece haver muitos, não sei. Se calhar é esta coincidência que faz pensar assim. Não sou grande fan de ONG e similares (nem tão poco do OG, de passagem se diga), mas enfim, estou muito menos fundamentalista agora do que há meia dúzia de anos.

Apesar disso, falo com C. e não consigo deixar de me lembrar dos arranha-céus de Panamá, do seu parque automóvel, que faz o de Cascais parecer um parque de sucata, dos restaurantes de luxo onde uma mesa de quatro pessoas gasta num jantar aquilo que, provavelmente, C. ganha por mês.

Dá aulas de inglês, espanhol e alfabetização a miúdos que, de outra forma, não teriam escola nenhuma. Entretanto, Martinelli, o presidente do Panamá sobe tudo quanto é imposto e subvencia a compra de vivendas pela classe média.

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Se tudo correr como previsto em breve passarei uns dias em Lisboa a caminho de Palma, onde vou buscar um cata para trazer para as Caraíbas. Estive em Lisboa há três meses, nada justifica a alegria profunda, a expectativa com que lá volto. Nada? Não. Tudo. "O mundo é sempre mais pequeno do que o viajante que nele viaja", como escreveu um dia James Baldwin, num livro que daria tudo para poder agora folhear, página a página enquanto procuro a citação e descubro outras esquecidas.

........
Os CD vão voltar para casa - infelizmente, preferia de longe poder deixá-los aqui, à escola da C., por exemplo -. Mas tenho medo de perder de novo os discos onde estão gravados.

Finalmente

Falta um olhar saciado e grato, aqueles dois pássaros que libertos te caem nas mãos redondos, perfeitos, apaziguantes, uma pele, um ouvido e uma voz.

1.10.13

Terceira vez

Um pedido simples, mas sempre actual.

Shit happens. Love happens. Deus, não deixes que eles se voltem a misturar outra vez.

Bem sei que deus não existe, mas bolas, será que à terceira ele vai finalmente ouvir-me?

[Um bocadinho editado, pode ser que assim ele melhore da surdez].

Ressurreição

Estou a gravar os meus discos. Enfim, já gravei quase todos os meus discos. Agora está a ser a vez de uma das interpretações da 2ª Sinfonia de Mahler, uma das minhas favoritas. Só consegui encontrar o Final, mas bolas, por amor de deus, oiçam isto.



Ressuscitar é quase tão bom como viver, ou melhor. Não sei.